[A]Fernando visitou o fidalgo. O acolhimento foi excellente. As meninas reviveram quantas recordações ainda tinham de Lisboa. O antigo desembargador, com insolita moderação, relatou ao hospede a chronica mysteriosa de Portugal desde 1810, a revolução de Gomes Freire de Andrade, a de 1820, e as alternativas sequentes das duas parcialidades. Teve momentos lucidos de consciencia politica, e de admiravel modestia. Pelos modos, se em vez do conde da Barca, ou do conde de Basto, elle fosse o ministro valído de D. João VI, ou de D. Miguel, Portugal voltaria á sua idade de ouro. Para se exaltar era justo que desluzisse a reputação dos privados de D. Carlota Joaquina, e então foi verdadeiro. Deu como decidido ter sido envenenado D. João VI. Contou minudenciosamente a morte do marquez de Loulé em Salvaterra: chamou-lhegolpe de estado: mas a historia ha de chamar-lhe golpe de cajado, porque o palaciano foi morto a pauladas. Deteve-se por descuido a fallar dos supplicios de Lisboa, Porto e Extremoz. Eram tudo, no seu modo de ver, sacrificios necessarios á manutenção da ordem. E argumentava com a historia. O protestantismo, dizia elle, não entrou em Portugal: graças ás fogueiras da inquisição. Em quanto a Europa ardia em guerras religiosas, Portugal gosava pacificamente da sua prosperidade, e da pureza do seu catholicismo. D'estas sublimes paragens da historia portugueza, descia o apologista do fogo depurativo da fé a provar a necessidade da pena de morte como cauterio ás chagas sociaes, antes que ellas contaminem os membros sãos.Etc.Fernando ouvia-o silencioso. No entanto as meninas, entretidas com os taboleiros floridos dos seus jardins, diziam entre si:—E tu és capaz de lhe dar o ramo, Paulina?—Era... mas... que hei de eu dizer-lhe? Ensina-me Eugenia.—Eu sei cá!... não lhe digas nada... Quando o pae não vir, offerece-lheas flores.—O melhor era deitar o ramo no chapéo.—Mas se elle o deixa ver ao papá?--redarguiu Eugenia.—Deus nos livre! E que pensas tu?...—De que, Paulina?—Será verdade o que disse o Leopoldo Roberto?[B]—Se elle te ama?—Sim...—Pois não vês?! Eu ia jurar que sim... E tu? tu é que devéras gostas d'elle...—Penso que sim... E de que serve?!... Este amor que o pae nos tem, é uma prisão! Todas as meninas da nossa idade tão felizes!... e a gente n'esta melancholia, a dominar as inclinações... para o não desgostar! Os outros paes não se importam.A gente vê tanta gente alegre com seus maridos! pois não vê?—Pois sim; mas tu que queres, Paulina? O pae não nos deixa casar...—É porque a gente não se tem importado...—Estás enganada... O pae soube que eu gostava do conde de Rohan, e fingiu que não o sabia. Lembras-te? Uma vez disse-me que se eu amasse alguem em Florença, ia immediatamente comnosco para a Azia! Quando tu em Paris gostaste d'aquelle emigrado portuguez, não viste como elle sahiu logo para Londres?—Depois, o Albuquerque foi ter a Londres—atalhou Paulina—e o pae foi logo para a Escossia.—É verdade; e depois, diz a toda a gente que as grandes cidades são desertos para nós! Tu verás, Paulina... Se elle desconfiar que amas Fernando, leva-nos para a Russia...—Isso leva!—Então, vê lá se te sabes esconder; e, se fallares com o Fernando, diz-lhe que seja acautelado, senão...—Como hei de eu falar-lhe?! Não vês que o papá já hoje me perguntou o que hontem estivemos a falar com elle nasoiréedo principe?... Já me lembrou escrever-lhe duas palavras...—Ai! escrever-lhe!—atalhou Eugenia assustada.—Pois então? isso que tem? é crime?—E se o papá vem a saber que lhe escreveste?—Quem lh'o ha de dizer?...—Agora é que eu vejo que o amas seriamente, Paulina.—Amo: de ti não me escondo, Eugenia.—Pois então, se queres, escreve-lhe.—E que hei eu dizer-lhe? Eu nunca escrevi... Tu é que já sabes, minha Geni.—Diz-lhe que não denuncie que te ama: senão que o papá nos tira logo de Florença.—Só isso?!—Pois que mais? Quando elle te escrever, então responderás...Este dialogo, que parece estirado, correu em menos de quatro minutos. As meninas pediram ao pae licença para subirem do jardim a casa.Ora aqui tem o leitor como conversam os anjos.Quem, com ouvidos corporaes, ouvisse aquellas meninas, havia de suppor que estavam alli duas creaturas vulgares, como todas as que procedem de Eva, que dialogava com serpentes, e comia fructas da sciencia do mal! Cumpre saber que os anjos, em quanto perigrinam cá por estes pantanos do globo, fallam segundo ouvem fallar. Parece que ao descerem do céo, trazem, como regra, o anexim:cada terra com seu uso. A gente não acaba de capacitar-se d'isto!VIIIDemoremos em Portugal algum espaço. A imaginação, que tem andado acorrentada aos apontamentos lá por essas terras lindas, mas alheias, já tem saudades das suas.Cá estamos em Lisboa na calçada do Sacramento, em casa do artista Francisco Lourenço.Estão os dois velhos á meza, onde o almoço lhes arrefece. Nenhum põe mão na comida. Encaram-se, e choram. Gracinda e Genoveva sahiram hontem para casa de seus maridos. Alli estão as cadeiras d'ellas, e sobre a meza as chavenas do almoço, e os guardanapos que lhes serviram dois dias antes.—E sahiram sem lagrimas!—disse o artista, com a voz golpeada de soluços.—Como eu saí de casa de meus paes para a tua...—respondeu a mulher.—Mas que tristeza... que solidão esta, Maria!...Nem as filhas! Nem agora, Fernando... de mais a mais enfermo, tão longe de nós! Que fins de vida os nossos, mulher! Como eu de longe via isto tão differente! Falava-te no prazer de acabarmos entre filhos e netos! vê tu! ninguem, ninguem comnosco!—Tem paciencia, homem, tem paciencia! Fernando ha de vir logo que esteja bom. As pequenas prometteram passar o domingo comnosco. Para a primavera, vamos todos para o Cartaxo. Não te afflijas, Francisco. Isto, assim triste e sósinho, é hoje. A gente afaz-se a tudo.—Afaz-se á ingratidão dos filhos? interrompeu o artista.—Ingratidão! Não é ingratidão! As meninas casaram com o teu consentimento: não foram ingratas.—Sairam sem verter uma lagrima.—Pois que queres tu? O Evangelho não diz: «deixarás pae e mãe»? Deixaram pae e mãe por seus maridos. É lei da natureza. Que havemos nós fazer-lhe? Almoça, Francisquinho, almoça.—E tu que fazes? porque não almoças?—Que queres tu! Não posso. Tenho um nó na garganta... Tambem eu... E Fernando longe de nós, Maria!... Que te diz o coração?—Que não tarda ahi. Talvez já venha a caminho. Se vier, não temos carta para a semana. Se estiver ainda doente, escreve-nos. Depois nos lastimaremos homem... Não tentemos a Deus.A carta, não desejada, chegou. Fernando dizia estar ainda doente, e não poder assignalar o tempoda sua volta. A linguagem era triste: dir-se-ia que a mentira lhe custava lagrimas. Os paes inferiram da tristeza a gravidade da doença. Francisco pensou em ir á Italia; porém, doia-lhe deixar sua mulher sósinha, doente de saudades, e mais lastimosa que elle. Esperou nova carta, contando os minutos por ancias, que o avelhentavam rapidamente. Ia, com sua mulher, buscar allivios a casa das filhas: encontrava uma e outra contentes, cuidando das suas occupações domesticas, cariciosas para os maridos, e levemente commovidas com as afflicções dos paes. A linguagem d'uma era a da outra:—Não se inquietem, que o Fernando ha de vir. Póde ser que nem esteja doente. Anda por lá a divertir-se, e vem quando estiver farto.Os velhos sahiam mais acabrunhados das frivolas consolações das filhas e genros.Passadas semanas, chegou nova carta. Fernando, aconselhado pelos medicos, ia convalescer para Napoles; e, logo que estivesse restaurado, voltava para Portugal, immediatamente. Era o resumo da carta; mas o dizer era mais escuro; a espaços lhe tinham fugido uns desmentidos á falsidade. Taes como:Tenho desejado a morte: o futuro é negro, mais negro que a sepultura. E n'outro relanço:Eu nunca devia ter saido da nossa casa de campo. A má estrella não me acharia n'aquella obscuridade.E, finalmente, rematando a carta, dizia:Quem sabe se eu tornarei a ve-los, meu querido pae, e minha santa mãe?... Tenho presagios terriveis....Era para muita pena vêr os dois velhos, cada um a seu lado, com o rosto entre as mãos, arrancandosoluços e exclamações, que ninguem consolava!—Que mal fizemos nós a Deus!—clamava Francisco. Não fui eu sempre bom filho, bom marido, e bom pae? A quem fiz eu mal voluntario d'este mundo? Quem se queixa de mim do céo para me ver assim, e te ver ahi, pobre mulher, sem consolação de tuas filhas? Que desgraças são estas de Fernando!—proseguia o artista, relendo a carta.—Na doença pouco falla: nunca me disse que doença tinha...Tenho desejado a morte; o futuro é negro, mais negro que a sepultura!... Vê tu estas palavras, Maria! Eu não lhe tenho faltado com as ordens do dinheiro muito a tempo. Já lhe escrevi, admirando e louvando que elle gastasse muito menos do que esperava. Tem tudo o que quer de mim, e ha de ter, se Deus me não transtornar a vida, meios abundantes para viver com decencia... Então por que se chora elle? quemá estrella o persegue? porquenão ha de tornar a ver-nos?—A mim...—atalhou Maria—certo é que não... Pouco tenho de vida, Francisco...; mas olha, meu filho, sabes tu o que me lembrou agora de repente?...—Dize, Maria...—Estará Fernando por lá apaixonado? Queres tu vêr que elle olhou para alguma senhora, que o traz em torturas, e o pobre rapaz não tem coração que o tire de lá para fóra?—A fallar a verdade—disse Francisco—a idade das paixões é a d'elle... Póde ser que adivinhasses mulher, e oxalá que sim... Se a paixão fôr bôa, o resultado bom ha de ser; se fôr má ouimpropria d'elle, o tempo ha de cura-la... Mas isto não allivia a nossa dôr, Maria! Eu preciso de vêr Fernando; quero com a minha presença reduzi-lo aos seus deveres; não tenho meio de saber o que isto é, se não fôr em pessoa procura-lo. Deixas-me tu ir, mulher?Maria deteve a resposta alguns segundos, expediu um gemido do fundo da alma, e murmurou:—Vae, Francisco, vae, eu irei para casa de uma das filhas, se tu quizeres. Não te peço que me leves comtigo para te não dar que soffrer na viagem. Sinto-me muito doente. Vieram as afflicções juntas, e acabaram-me... Pois vae, e não te demores. Dize a Fernando que venha dar-me um abraço, que eu quero despedir-me d'elle; e, depois, que torne para onde estiver melhor.Francisco Lourenço, sem mais preparativos que um passaporte e dinheiro, sahiu de Lisboa no primeiro navio que lhe deu passagem para porto de Italia.IXA gente não acaba de capacitar-se d'isto, diz o final do capitulo VII, a proposito dos anjos, que em pousando pé no mundo, perdem memoria do céo, e aclimam-se logo n'estes pantanos, cujas exhalações pestilenciaes teimam poetas em dizer que sobem a glorificar o Creador!Vamos ao essencial.Paulina escreveu um bilhete assim:«O papá é muito desconfiado. Tenha muita cautella, se a separação lhe é tão dolorosa como a mim. Não passeie na praça do Dome áquellas horas. O papá dorme sempre desde as quatro ás sete. Eu tenho uma creada de confiança a quem póde entregar as suas cartas. Adeus. Guarde com amor estas florinhas».Dobrou em tira estreita o bilhete, e cingiu-o em volta das astes do ramo.Veja agora a leitora, mais superciliosa em pontos de dignidade e pudor senhoril, como os extremos se tocam! O que o despejo e desenvoltura teria feito, é a innocencia e candura que o faz n'este caso, n'estes amores começados com tal qual originalidade! Aposto que nenhuma dama, amestrada em galanterias, escriptora de resmas sobre resmas de cartas amorosas, se affoitaria a escrever aquellas linhas sem previamente ter recebido irrefragaveis provas escriptas e oraes de uma paixão homicida! Escrever a um homem sem ter sido a isso mil vezes solicitada! ennodoar assim o amiculo virginal! dar uma menina a saber que é capaz de compôr um periodo com sujeito, verbo e caso!Eu não louvo meninas que escrevem bilhetes, e se sujeitam a uma analyse de regencia; porém, não sei sobre que argumentos hei de fundar a censura. Não censuro, nem louvo. A moral é uma questão de felicidade, segundo as regras do dever n'este mundo. Ora, a meu juizo, a moral tanto se lhe dá que Paulina escrevesse primeiro a Fernando, como Fernando a Paulina. Além de que, a desmoralisação é o escandalo. Escandalo n'este facto, se alguem o dá, sou eu, que conto a historia; todavia, provando eu a final que o acto em si era innocente e as consequencias não desfitaram do mais honesto scopo, é justo que me descoimem do escandalo, e agradeçam a historia.Em quanto á felicidade, segundo as regras do dever, sou a dizer-lhes que não ha nada mais incerto que as regras do dever em materia de felicidade n'este mundo. Muita gente vae direito á rasão pelaestrada do paradoxo. Outra muita gente, a fugir da absurdidade, quebra as pernas no barranco da rasão. Uma menina escreve um bilhete a um homem: o mundo sabe-o, e vitupera-a. Outra menina faz-se vermelha de lacre ao receber a primeira carta de um homem: o mundo tem noticia d'um pudor tamanho, e cita o exemplo d'esta santa a quantas meninas o demonio tentador negaceia. Vae, depois, á primeira abre-se o coração de anjo, uns braços de esposo, e um horisonte de summa felicidade; e á segunda, que em solteira não ousara escrever duas linhas a furto de olhos maternos, depara-se-lhe um marido, que só viu n'ella o merecimento boçal de não saber calligraphicamente dizer que o amava! O primeiro pergunta á sua «Porque me escreveste» e ella responde-lhe:—Amava-te.—O segundo faz a mesma pergunta á sua; e ella, a pudica, a santa do pejo, ha de, por mais que tergiverse, responder-lhe: «Não te escrevi, porque me não merecias confiança». Uma exalta; a outra rebaixa; uma faz-se amar pelo duplo prestigio de sua innocencia; a outra deve entediar mais cedo que o costume, porque embaiu a gente, encampando como innocencia uma boa dóse de velhacaria. Ha muito d'isto; mas não é assim tudo. Já disse que regras fixas nenhumas ha. As meninas n'este ponto, consultem as damas virtuosas e illustradas. A mim não me chamem para coisa de tamanha responsabilidade. N'estes combates das paixões, os romancistas são como os escrevedores que os antigos cabos de guerra levavam comsigo para historiarem as carnificinas: ficam-se cá de longe alapados a verem o fogo, e relatamao universo os varios successos. Tornemos ao essencial.Fernando Gomes viu entrar as meninas na sala em que Bartholo de Briteiros lhe andava mostrando alguns bustos de Bartholini, famigerado esculptor de Florença, que cinzelara tambem os bustos de Paulina e Eugenia. Estava o magistrado encarecendo com voluptuoso enthusiasmo a Bacchante de Bartholini, que elle vira na galeria do duque de Devonshire, e contava d'um francez que chegara a Florença, e pedira venia ao esculptor para dar um beijo na sua Bacchante, beijo ardente que parecera filtrar fogo nos beiços marmoreos da lasciva tentadora.Bartholo mudou de tom, quando ouviu o ciciar de sedas. Entraram as meninas, e approximaram-se do piano. Eugenia tocou: Paulina cantou uma aria daNorma; e, durante o alegro, como o chapeu de Fernando estivesse sobre a cadeira contigua ao piano, e os olhos de Fernando n'ella, e os de Bartholo em uma estatua da Sabina de João de Bolonha, a menina lançou no chapeu o ramo.Fernando viu, e sentou-se, sentou-se violentado por umas caimbras de pernas. Parece que devia ser unicamente abalado o coração; mas estou em crer que homem amante é todo e em tudo coração.D'ahi a pouco, eram horas de jantar.Fernando ouviu o chamamento d'um escudeiro agaloado. Tomou o chapeu: não lhe podiam as mãos convulsas com o thesouro. Aterrava-o a magnitude da sua felicidade. O quer que era de idiota lhe desmanchava as feições. Bartholo convidou-o ajantar ceremoniosamente. Fernando balbuciou expressões confusas de reconhecimento, ajustando bem cerradas com o peito as abas do chapeu e saíu.Não lhe cabia o coração no quarto da hospedaria. Queria o sol, o azul do céo, os pinhaes, os vinhedos, e as flôres das margens do Arno como testemunhas da sua alegria.Áquella mesma hora é que os dois velhos, na calçada do Sacramento, se abraçavam, debulhados em lagrimas, e diziam:—Que mal fizemos a Deus!Que faces a vida tem!Fernando leu um poema em cada lettra d'aquelle insignificante escripto.Insignificante, digo! Injustiça de critico litterario, que só vê a magestade do entendimento humano nas ramagens floridas do estylo! Comoinsignificante! Cada palavra d'aquelle singelo bilhete salvaria Leopoldo Roberto, Chatterton, e quantos por amor se tem lançado nos braços da morte! Dae a cada desventurado, em transes de suicidio, um bilhete assim, de mulher como aquella, e eu vos restituirei um homem com vida exhuberante, com alma recaldeada para todas as adversidades, com amor a Deus e aos homens, retemperado de juizo para se predispor aos gosos da velhice, e d'uma numerosa posteridade—destino humanal mais efficazmente averiguado e demonstrado.Ao escurecer, Fernando voltou a Florença, e velou a noite inteira, escrevendo. Quando os primeiros raios do sol lhe douraram a ultima pagina da carta a Paulina, a cabeça do moço, calcinada pelafebre da felicidade, pendeu sobre a mesa, e immergiu em não melhores delicias de sonhos.Despertaram-n'o para lhe entregarem uma das succesivas cartas que seu pae lhe estava sempre mandando, quer por navios que saíam de Lisboa para França, quer pelo correio de Hespanha.Que melancholica transição a da leitura das suas paginas arrebatadas para este chão e monotono escrever do artista:«Lemos a tua carta com muita magua. Bem me dizia o coração que tu não vinhas! A tua carta entristece mais esta separação de tuas irmãs. Se ao menos tivesses saude, Fernando! Mas doente, sem me dizeres que molestia soffres, isto augmenta a afflicção de teus velhos paes. Muito enfermo deves estar para, ainda com sacrificio, não accudires á nossa saudade! Deus te allivie, e encaminhe para nós.«Vejo que essa cidade te prende mais que as outras; mas foi-te ingrata, filho. Tiveste saude em toda a parte, e só ahi adoeceste, dizendo-me tu que era um clima celestial o de Florença.«Talvez te prendessem as memorias d'aquelle poeta que tu me lias, ha annos. Era Dante, se bem me lembro; mas eu queria que o teu coração de filho vencesse os prazeres do espirito; queria que os não esquecesses por amor da sciencia.«Isto não são queixumes, Fernando, não são. É rabugice estar eu a ralhar comtigo porque a doença te impede de vir. O que eu te rogo, e mando, filho é que, assim que as forças t'o permittirem, venhas dar contentamento á tua boa mãe, queestá muito acabadinha, e mais depressa irá ao seu fim, se desconfiar que nos esqueceste...»A carta continuava assim por longo espaço de papel, manchado de lagrimas.Fernando não tinha a força de alma que caracterisa os homens grandes. Estamos vezados a dar carta de grandeza a uns vermes que não teem lagrimas, nem se deixam alquebrar de vulgares contingencias da vida. O filho do artista depôz a carta, e murmurou:—Meus queridos paes! como eu vos sacrifico sem saber a que!... Pude enganar-vos para me gosar das primicias de alguma desgraça!E, respondendo a esta carta, escreveu aquella em que transluzia a muita acerba previdencia do seu futuro, com phrases incongruentes, e por virtude da qual Francisco Lourenço se fizera no caminho de Napoles.XO marquez de Tavira...—Temos gente nova na historia?—É verdade, leitor. Chegou agora mesmo de Roma e Florença o marquez de Tavira, aulico da côrte do proscripto, emigrado desde a convenção, do primeiro sangue de Portugal, sujeito de quarenta annos bem conservados, que parecem trinta, arruinado desde o seu setimo avô, mas ainda rico de umas riquezas inexauriveis de fidalgos portuguezes velhos—a gente de mais industria e artimanhas que eu conheço—não desfazendo nos fidalgos portuguezes novos, que estes, para se esquivarem á arguição de terem avós, avós arruinados, começam por não terem avós, e renegam os paes como logicos que são. Este periodo é de abafar!O marquez de Tavira hospedou-se em casa de Bartholo de Briteiros. Não se viam desde 1832. Conheciam-se do paço, tratavam-se detu, e tinhamrapaziadas communs, posto que Bartholo se lhe avantajasse em onze annos.Mania fôra sempre de Briteiros aparentar-se com Cogominhos de Tavira. O marquez dizia que seu avô falava no parentesco dos Briteiros da casa de Robordochão; e, dito isto, regularmente pedia a Bartholo dinheiro, e Bartholo dava dinheiro ao primo marquez, que era expansivo, quando embriagado; e embriagado nas orgias de Queluz, Salvaterra e Alfeite, costumava rir de Bartholo de Robordochão, que dava metal amarello a troco de sangue azul.O marquez, desde a convenção em que largara a espada de coronel de artilheria, vagueara por França e Belgica, destroçando o restante do patrimonio vendido pelo terço do valor. Depois fôra a Allemanha em cata do senhor D. Miguel de Bragança; e, como encontrasse pobre o real exilado, invocou o seu inquebrantavel espirito e aproou para Florença, onde o chamava a pascacice do primo Bartholo de Briteiros.O acolhimento frizou com as melhores esperanças.O marquez teve logo, e muito rogado a possui-los, bellos aposentos, dinheiro a granel, optima convivencia de duas meninas, que o festejavam com franqueza de primas, e as melhores relações de Florença.Este incídente coincidiu com aquellas tristezas e alegrias de Fernando Gomes, na manhã em que fechava uma carta para Paulina, e abria outra de seu pae.Bartholo, sedento de noticias, enguliu quantas mirificas pêtas o marquez inventou, concernentes a restaurar D. Miguel no throno. No dizer do industrioso hospede, a Russia estava a disciplinar-se para talar a Europa, e passar o rôdo sobre as corôas usurpadas. O ex-ministro da Alçada, como bebesse mais alguns calices de champagne, no auge de sua alegria gosou-se de visões deliciosas, entre as quaes, se a conjectura me é fiel, avultavam uns triangulos do caes do Sodré, e umas lavaredas do Campo de Sant'Anna. Bartholo quiz pôr luminarias; mas o marquez dissuadiu-o d'uma virtude, que pareceria ridicula a olhos extranhos: a virtude das luminarias!Passeava, ás seis horas da tarde d'aquelle dia, Fernando na praça do Dome. Paulina estava na janella. Passados momentos recolheu-se, e reappareceu com uma creada. Fernando comprehendeu, e avisinhou-se. Paulina apontou para o muro do jardim, e sahiu da janella.Caminhou o moço, rente com a parede, e viu a creada debruçada no peitoril d'um caramanchão angular do jardim. Atirou-lhe a carta, e apanhou um bilhete que ella ao mesmo tempo deixara cahir, com umasaudade, flôr que, em parte alguma, tem o nome suave que portuguezes lhe dão.Dizia o bilhete:«Ámanhã vamos para Piza, onde temos de passar alguns dias. Vae comnosco o primo marquez de Tavira, que chegou hoje de Roma. Se não fosse o medo e os conselhos da mana Eugenia, pedia-lhe que se fizesse encontrado comnosco. Seria temeridade?Eu lerei muitas vezes a sua carta, sempre que puder fugir á vigilancia de meu pae. São tres dias: paciencia! Mando-lhe uma flôr, que me faz lembrar as da nossa patria... Ainda nos veremos lá, Fernando?...»Seria temeridade?Este modo de perguntar, esta duvida em que Paulina ficava, teve Fernando na perplexidade de minutos em que o coração usa demorar as suas decisões. A ida do marquez com ella para Piza, o primo marquez, tres dias de ausencia com o primo marquez... Este primo marquez foi quem deu um empurrão em Fernando, pela porta fóra de Florença, caminho de Piza.Seria temeridade? seria; mas o contrario, o ficar, o estar tres dias sem ve-la ainda mesmo que o primo marquez não fosse, isso é que seria pusillanimidade, juizo de mais, excesso que mulheres amantes consideram coração de menos.Fernando viu Bartholo e o marquez, com as duas meninas, entrarem na caleche. O de Tavira sentou-se em frente de Paulina. O filho do artista esperou que a locomotiva passasse rente por elle, e fitou o fidalgo, emquanto Paulina ia de rosto voltado para ve-lo. Seria já o ciume que lhe afuzilava nos olhos? O primo convencional dos Briteiros era, como já disse, um rapaz de quarenta annos, um gentil rapaz, quanto se póde se-lo, com um fardo de quasi meio seculo no espinhaço. As barbas intensas, nitidas, e negras, os longos cabellos áSaint-Simon, o porte soberbo, as fórmas fidalgas e significativas de destreza e força, as faces ainda rosadas, eram predicados de assustarem um amante de compleiçãodoentia, poucas carnes, estatura mediana, ar e olhar timorato, e outros attributos de que os authores de novellas nunca revestem os personagens fataes, ditosleões.Assim que a serpe do ciume o mordeu, não havia já consideração que lhe estorvasse o passo. Fernando partiu para Piza, curta jornada de algumas horas. Passou napiazza del Calvalieri, para esperar, n'aquelle centro da celebrada cidade, a passagem da familia. Em que monumentos iria elle procurar Paulina? Áquella hora, a illustre familia de Portugal estava em casa da opulenta ingleza Smith, cujo palacio nas margens do Arno abria seus salões na noite d'aquelle dia. A que parte iria o triste moço, mais triste na soledade da terra estranha, onde elle, como de si dizia Méry, se julgava, ao meio dia, o locatario unico de uma grande cidade? Foi aoCampo santo, vasto jazigo dos que morreram lidando na conquista do sepulcro de Jesus Christo. Seria aquelle o local mais ajustado á sua dôr? Os tristes sem consolação, como que refugiados da vida, se travam em mysticas confidencias com as cinzas dos que passaram seu dia chorando e, alli enxugaram as ultimas lagrimas no lençol humido da leiva.Ao entrar no cemiterio, Fernando recordou as palavras d'um illustre viajante, que tambem lá fôra a recobrar-se de alentos para arcar com a desventura do seu curto dia:«OCampo santoexhala poesia de morte, a poesia do nada, a poesia da immortalidade. Este é o verdadeiro cemiterio do christão: não se sente aquia constricção d'alma que nos causa o tumulo do homem, suave e religiosa melancholia vae comvosco por entre as quatro galerias funebres, e vos inspira pensares de morte sem pavor. Este torrão não se desentranha em ossadas, nem o verme corroe as carnes: é terra milagrosa que preserva os corpos do insulto das herpes. Envolve-se em magnifico lençol de relvados floridos; inquadra-se em puras e graciosas ogivas do marmore alvissimo: é terra de Jerusalem sobre as galerias travadas; os cadaveres dos velhos christãos de Piza estão aqui santificados; é o leito de descanço dos homens fortes, que morreram em Deus, com a espada á ilharga e os rins ciliciados. Quão suave é este ciciar da relva que ressoa ao longo das galerias! Cuidaes ouvir psalmodia entoada por sombras, hymno de sepulcros escripto em linguagem, que, só depois da morte conheceremos.»Mas não era cemiterio remanso ao soffrimento do moço. Ancias de coração não as suavisa a philosophia da morte. Aquillo serve para os que, n'outro ponto, deixaram fechada a sepultura de suas esperanças.Passou arrastado o dia, sem que Fernando encontrasse vestigios de Paulina. Na manhã do seguinte dirigiu-se á praça onde se ergue a famosatorre torta, que o leitor tem visto pintada, e que o marquez de Tavira queria ver, mais que tudo. De feito, estavam o curioso emigrado e Bartholo e as meninas ao pé da maravilha, quando Fernando assombrou n'um angulo da praça.Foi Paulina quem primeiro o viu, e trocou olharesde susto com Eugenia. Bartholo de Briteiros, que já muitas vezes admirara a inclinação mysteriosa da torre, estava mais attento nos palacios da praça, e, de relance, viu parado o portuguez.—Aquelle não é o Fernando Gomes?!—disse elle ás filhas.—Parece...—balbuciou Paulina.—Quem?—disse o marquez.—Aquelle patricio em que eu te falei, primo Tavira.—Ah! o mindeleiro?—tornou o primo.—Tal qual.—Sempre lhe quero ver o bellicoso aspeito! Ainda não vi um dos sete mil e quinhentos roldões do Mindello—tornou o marquez, dando a saber que tinha sua tal qual instrucção doCarlos Magno.Fernando, posto que tarde, simulou que não vira Bartholo, e foi indo lentamente seu caminho.O fidalgo deixou as meninas com o marquez, e atravessou a praça, estugando o passo, para se avisinhar a distancia que elle o ouvisse chamar.—Sr. Fernando! clamou Bartholo—patricio! vae tão meditabundo! Parece que receia que a torre venha abaixo?!Fernando olhou com bem fingida surpreza, e retrocedeu a comprimentar o fidalgo.—Então por aqui!—disse o pae de Paulina.—Acolá estão as meninas, e meu primo o marquez de Tavira, chegado hontem de Roma. Venha cá, se quer conhecer um dos primeiros fidalgos de Portugal.—Com muito prazer irei comprimentar um primo de vossa excellencia—disse Fernando.—Aqui está o senhor Gomes—disse Bartholo ao fidalgo—filho de Lisboa, bacharel em direito, e bom rapaz, posto que mordeu muito cartucho nas linhas do Porto, na qualidade de soldado do batalhão academico, e é, aqui onde o vê, cavalleiro da torre e espada, valor, lealdade e merito!...O sorriso, que envenenava estas palavras, queimou o sangue do filho do artista. Paulina tinha os olhos fitos n'elle, olhos de dôr e compuncção. Se Fernando os visse, daria graças a Deus pela angustia que lhe era premiada com a maviosa paixão d'elles.O marquez gesticulou ligeiramente um cortejo de cabeça, e disse:—Consta-me que em Portugal é toda a gente condecorada por façanhas das linhas do Porto!—Toda a gente, não, senhor marquez—disse Fernando.—Ás linhas do Porto não foi toda a gente, mas todos quantos lá estiveram mereciam bem a condecoração de valor, lealdade e merito.O legitimista desfranziu um riso de compassivo escarneo, e disse:—Em quanto avalor, o general Povoas que o diga, se osvalorososo não querem dizer. Em quanto a lealdade, bem se sabe qual foi a lealdade dos bravos que apedrejaram com patacos D. Pedro no theatro, e mataram Agostinho José Freire nas ruas de Lisboa. Em quanto a merito, isso agora é uma questão de barriga: a barriga de cada um é que diz o merito de cada qual...Fernando olhou de revez o marquez, e disse a Bartholo:—Vossa excellencia continúa a admirar a torre, e eu vou dar as voltas que preciso, antes de recolher-me a Florença.O marquez ficou mais que muito corrido d'este ar de desprezo com que Fernando replicou aos seus dizeres, que elle imaginou não só irrespondiveis, mas capazes de atirar a terra com os creditos de uma politica. Bartholo tambem se desgostou do menos preço com que oquidamtratava seu primo, e não teve mão da sua zanga, exclamando:—Então não tem resposta o que alli disse meu primo?!—Não, senhor—disse Fernando Gomes.—Dá-me sua excellencia as suas ordens?—Passe muito bem, senhor Gomes—disse Bartholo, chofrado.Paulina e Eugenia corresponderam ao comprimento reverencioso de Fernando. Paulina sentia-se contente, soberba da dignidade d'aquelle moço; Eugenia, porém, doía-se da quebra de brios que soffrera o primo, temia que a ira do pae resultasse desgosto á irmã, e anteviu a impossibilidade de nunca mais os dois se approximarem, sem aberta declaração de guerra com o pae.—Este sujeito—disse, azedado, o de Tavira—quem é lá na sua terra?—Eu sei cá? É o senhor Fernando Gomes; tal m'o apresentou Jeronymo Bonaparte! Estes Bonapartes, que se fizeram reis mais depressa que os reis do theatro do Salitre e da rua dos Condes, impingem á gente com titulo denotabilidadesquantos patavinas os visitam no desterro! Qualquer pintor,esculptor, ou poeta, em casa do principe de Monfort é egual aos duques, e tem uma cadeira ao lado dos principes. Quem lá vae tem de apertar a mão ao pianista Sampieri, ao cantor Tachinardi, á cantora Degli-Antoni, ao poeta Méry, ao pintor Vernet, ao esculptor Bartolini, e ao senhor Fernando Gomes, que, no dizer do ex-rei de Westphalia, é um enorme sabio. Aqui tens tu, primo marquez, como eu conheci o senhor Gomes. Dei-lhe uma vez entrada em minha casa, porque me pareceu humilde o sujeito: agora descobri que elle tem seus fumos de orgulho!...—Não se me dava de lhe abater a prôa!—atalhou o marquez.—Queria ver se estes valentões do Mindello sustentam a fama cá fóra das linhas...Bartholo riu-se, e Paulina olhou em rosto o primo com visivel gesto de despeito.—Porque?!—disse ella, com mal represada ira.—Paulina!—murmurou-lhe Eugenia ao ouvido.Bartholo não dera conta d'este incidente, e o marquez, quando ia esclarecer a significação do gesto extranho de sua prima, viu que ella voltava o rosto, e se encobria com as franjas dasombrinha.—Querem ver que ella ama o tal sujeito?!—disse o marquez entre si, e differiu para mais ao diante a elucidação d'esta importante suspeita.No dia seguinte a familia voltou para Florença.Fernando já tinha ido.Ás affrontosas palavras do marquez de sobra respondera o silencioso desprezo do filho do artista: não obstante, o tom injurioso alanceara-lhemuito dentro o coração, por ter sido Paulina testemunha da zombaria.Pensava elle que a filha do nobre devia ama-lo menos por ve-lo assim desdourado, e sem vingança egual ao affrontamento. É um inferno, na alma de quem ama, pensar assim!XIAo cabo de tres semanas de hospedagem regalada, disse o marquez a Bartholo:—Ora, primo e amigo, é tempo de continuar a minha missão, que interrompi por tres semanas. Bem sabes que a politica me não deixa ser das minhas vontades. Preciso de ir a Inglaterra em serviço do rei e da nossa causa. Tu, como rico em toda a parte do mundo, não queres participar dos trabalhos lentos da restauração: fazes bem, primo Briteiros: eu é que não posso libertar-me d'esta missão diplomatica. Espera-me o Saraiva em Londres, e o rei em Berlim, no espaço de quarenta dias. Aqui tens a razão da minha saída.—Pois vae, primo—disse Bartholo—mas logo que te desempenhes d'essa missão, volta a viver comnosco em Florença.—Não prometto.—Não promettes, marquez? Pois assim nos pagas a boa vontade com que te convido e o muito affecto das meninas, que te desejam comnosco?!—Se ellas me desejam—tornou o primo com intencional sorriso—isso é que resta demonstrar, primo Bartholo...—Pois que! duvidas?—D'uma, duvido; da outra tenho quasi a evidencia que me deseja vêr pelas costas.—Ora essa! qual d'ellas?—Permitte que não vamos adiante n'esta penosa conversação, primo... Evitemos desgostos communs. Tanto soffrerias tu, como eu tenho soffrido...—Que tens soffrido, marquez? Pois ainda agora m'o dizes!...—tornou Briteiros sinceramente inquieto.—Devêra ter-t'o dito ha muitos dias, desde o segundo em que vi tua filha Paulina... basta.—Homem! explica-te, se não eu obrigo-te a faze-lo por tua honra!—Pois que assim o queres, sabe a verdade inteira, e reprehende-me se eu tiver procedido mais segundo os dictames do coração, que os da honra e parentesco. Eu amei tua filha Paulina com paixão. Se não t'o disse logo, foi porque me julguei superior a mim mesmo, e aos despotismos do amor. Muitas vezes em Portugal, em Paris, em Roma, em todas as capitaes da Europa, me julguei vencido por diversas mulheres que encontrei; e, logo depois de chorar a derrota, de repente me rehabilitava pelo esquecimento instantaneo e quasi prodigiosoda mulher que horas antes me acorrentava aos seus mais levianos caprichos. Cuidei que o mesmo me aconteceria com tua filha Paulina: aqui é que o meu orgulho pagou amargamente as suas passadas sobrancerias. Verdadeira e insanavel paixão me inspirou Paulina; e, para cumulo de desgraça e vingança d'outras, tua filha, bem longe de amar-me, convencido me deixou de me aborrecer. Primeiro imaginei que Paulina não podia ou não queria amar alguem: isto podia ser; porque ha mulheres sem coração, e ha outras que parecem ter quatro: com os homens dá-se o mesmo caso. Porém, primo Briteiros, a razão do desamor de tua filha era a mais natural do mundo; é por que tua filha amava e ama outro homem.—O que?!—interrompeu iracundo o fidalgo.—Minha filha ama outro homem! Calumnia! A minha Paulina não ama ninguem; e hade ser tua mulher, se eu quizer que ella seja tua mulher. Entendes tu, marquez?—Perfeitamente entendi, primo; mas eu é que sou incapaz de permittir violencias, e acceitar esposa violentada. Outrem me julgue tal; mas tu não, Bartholo, que conheces a nossa familia, e sabes que meus avós deram para casa dos reis suas irmãs, e receberam como esposas as filhas dos reis.—Bem sei, bem sei que foram esses os costumes da nossa familia; mas por isso mesmo é preciso que eu obrigue a minha filha a manter-se na dignidade de seus avós. Quem é o homem que ella ama?—Pergunta-lh'o tu, primo. Se ella não t'o disser,consente que eu, por honra mesmo de nosso sangue, o não pronuncie.—Que? pois ella ama algum mechanico? Responde por quem és, marquez! Depressa, que me sobe o sangue ao cerebro!—Já te disse que ha grande deshonra em tal inclinação, primo... Não forces a minha repugnancia a revelar-te o que de mim mesmo eu quizera poder esconder.Bartholo de Briteiros andava na sala, aos empurrões das furias, sacudindo vertiginosamente os braços, emquanto o marquez com a face entre as mãos, e os cotovellos encostados ás almofadas de uma ottomana lhe relanceava os olhos de infame penetração. Quando viu que era tempo, ergueu-se, tomou nos braços o pae de Paulina, e disse-lhe:—Estou vivamente arrependido. Não devia ter dito nada. Era mais nobre esmagar-me no coração, e poupar o teu de pae, e pae como tu és, meu caro primo. Perdoa-me, e perdoa as fragilidades de tua filha. É um amor de creança que ella tem ao...—Ao... quem?—exclamou Briteiros com uma grammatica desculpavel á sua angustia.—Porque não hei de eu dizer-t'o, se o enlace mesmo de sangue me obriga a velar pela honra de tua familia, que tambem é minha! Tu nunca suspeitaste d'este Fernando Gomes?—Fernando Gomes! pois tu crês que minha filha ama Fernandes Gomes?!—Creio, sei-o, tenho a maxima certeza. Agora não ha que tergiversar. Cheguei ao ponto de me perder no teu conceito, se não adduzir provas. Paulinavae ao caramanchão que está sobre o caminho, e d'alli fala a Fernando, ás horas em que tu dormes a sesta. Trocam-se cartas todos os dias. Estes factos são presenciados por quem os quer ver. Vi eu mesmo, depois que me avisaram. Reprehendi a prima Paulina, em termos de bom e zeloso parente e amigo. Tua filha respondeu-me com azedume, recommendando-me que me não intromettesse na vida alheia. Repliquei com as mais sagradas razões; dei-lhe como possivel, se não certo, ser Fernando algum miseravel dos que de repente se levantaram da lama de Portugal, e vieram no extrangeiro fazer luzir o ouro, que lhes seria vergonha na patria. Rebateu-me com o mais formal e mais descomposto desdem, que meus olhos nunca viram em menina com tal edade e educação, e de tal linhagem! N'esta altura da questão, entendi que o meu dever era deixal-a ao espirito tentador que a quer perder; todavia, mais sagrado dever me admoestou a que te avisasse, primo, para não tomar sobre mim a cumplicidade de alguma enorme desgraça, e mais enorme deshonra. Agora encarecidamente te rogo que te hajas com a cautela e prudencia que tão melindroso negocio requer.—Que hei de eu fazer?!—bradou Bartholo.—Sae com tuas filhas de Florença. Vamos para Londres. Eu irei adiante preparar-te aposentos. Lá, se o biltre a perseguir, eu lhe tornarei impossivel o accesso, e a possibilidade de a ver. Se outro passo deres, receio que seja o peor para te saíres dignamente da difficuldade. O ar com que tua filha me falou revela proposito de ferro, e resolução inabalavel.Póde temer-te; mas obedecer-te não. Fia-te em mim, que eu sei o que são mulheres, primo. Finge que não sabes nada. Prepara com qualquer pretexto a tua viagem, e tu colherás depois os bons fructos da prudencia. Se, como creio, tua filha mudar de idéas em Londres, com o mais sincero coração te digo que serei ditoso fazendo-a marqueza de Tavira; mas, para que este enlace se possa fazer, é necessario que ella nunca desconfie que eu fui o denunciante d'este vergonhoso affecto. Convens n'isto, primo Bartholo?—Convenho, marquez... Seja assim..Acabava o pae de Paulina de proferir a ultima palavra, quando as duas meninas, pé ante pé, se afastavam ao longo do corredor que conduzia da sala, em que os dois dialogaram, para o interior da casa.Paulina lançou-se no braços da irmã, e exclamou:—Oh! que infame é aquelle homem! que infame!... Que hei de eu fazer, Eugenia? diz-m'o por compaixão da tua pobre Paulina!—Que has de tu fazer, filha?... Eu sei!... Soffrer como eu soffri, quando o pae nos tirou de Paris...—Isso é que não!—replicou Paulina—Não me deixo assim esmagar! Fernando ha de ir tambem para Londres. Vou escrever-lhe e contar-lhe tudo... se o não puder ver, terei a coragem de soffrer e esperar, com a certeza de que elle está tambem em Londres... Pois que pensas tu?... Eu não posso esquecel-o, assim como tu esqueceste o francez, Eugenia! É porque tu o não amavas; se o amasses, a desesperação te daria forças! Tenho-as; sinto-mecapaz de tudo!... O malvado!... á custa de que infamia elle queria fazer-me marqueza!...—Eu logo te disse—atalhou Eugenia—que não fazias bem em falar com tanta soberba, quando elle te reprehendeu...—Fiz muito bem! desenganei-o: está desenganado para sempre... Agora tudo que elle fizer são indignidades, e cada dia, e cada hora, hei de abominal-o mais.Aqui tem a leitora bem significada Paulina n'este conhecido verso:Ás vezes branca nuvem cospe um raio!Quem diria que tamanhos vulcões de colera se escondiam no sereno peito da gentil creatura, que parecia talhada de molde para soffrer docilmente o martyrio! Ahi está o que faz o sol de Florença! Devem-se á Italia aquellas conflagrações! Em Portugal me quer parecer que Paulina não fosse aquillo. A minha espionagem de romancista nunca me alviçarou casos identicos de barreiras de Portugal a dentro. Por isso mesmo é que eu tenho de ir em cata dos meus personagens lá fora, para alternar, com lances de estremecer, as frias historias que tenho posto em livros de que ninguem se espanta, e que passam por as mais frias, insipidas, e inertes lucubrações do espirito humano. Esta agora, sim!Paulina cortou o folego da imprecação para ir escrever a Fernando.Poz em resumo o dialogo do pae com o marquez, e a resolução de ambos. Pedia-lhe que os seguissepara Londres, e averiguasse onde se alojavam. Asseverava-lhe que, á custa de tudo, se haviam de ver em Londres; e terminava, com a mais candida desenvoltura que póde ter uma menina, dizendo que, extremos de perseguição, ella fugiria para elle, e seria sua esposa.Na tarde d'este dia Bartholo de Briteiros deitou-se a dormir a sesta: assim lh'o impoz o cauteloso espião. Fernando já tinha em si a carta e a resposta. Appareceu na praça do Dome, e Paulina no caramanchão. Poucas expressões se trocaram depois que Fernando atirou a carta.A resposta era qual a delicada menina podia mais ambicionar. O amante sentia-se menos desditoso do que ella se imaginava. Para elle a afflicção de Paulina era extrema prova de amor. Antes a queria assim contrariada, e acrisolada ao fogo da oppressão. Incutia-lhe animo e esperanças. Promettia, mediante o auxilio do ministro em Londres, espiar os menores passos do marquez e de Bartholo. Se a não acoroçoava a fugir de seu pae, antevia, como primeira hora de sua felicidade sem nuvem, aquella em que Paulina se confiasse á sua honra. Do marquez dizia apenas que era inferior ao seu nojo, e lamentava que os grandes fidalgos andassem a competir em aviltamento com a mais infima ralé.O marquez, escondido n'uma loja da praça, presenciava os passos de Fernando. O homem, que tanto preleccionara acerca da prudencia, não teve mão de si. O demonio da pobreza espicaçava-o! Era o demonio da pobreza que prevalecia ás furiasdo ciume. Saiu da loja, e veio ao meio da praça por onde Fernando caminhava com a altivez que dá a felicidade do coração.Viu elle o marquez, e, a seu pesar, dardejou-lhe um olhar de desprezo, que parecia provocação. O neto de reis, se havia de ir ávante, e deixar o verme, parou, metteu as mãos nas algibeiras; e fez um tregeito de pernas, e assobiou umas toadas, que fariam as delicias de um faiante em pleno goso de seus tavernaes meneios.Fernando sorriu-se, e caminhou.—O senhor ri-se?—exclamou o marquez.—Ri, sim, senhor—disse placidamente o filho de Francisco Lourenço.—Que quer dizer o seu riso?!—replicou o fidalgo.—Que vossa excellencia é uma pessoa irrisoria.—Mas eu arranco-lhe os figados pela boca, bradou o marquez.—Operação difficil!... tornou Fernando sorrindo.—Julga-me da sua bitola, sô villão?—Eu não sei como hei de julga-lo, senhor marquez, depois que o julguei tolo!E approximou-se com magestosa serenidade. Fernando parecia crescer, nutrir, illuminar-se, e tornar-se mesmo grande aos olhos do convencionado de Evora-Monte.—Tem de dar-me uma satisfação com armas! replicou o marquez. Joga alguma que não seja o arcabuz do cerco do Porto?—Não senhor; não jogo armas.—Quer dizer que não se bate?—Bato com todas.—Tem padrinhos?—Os dois primeiros homens que se encontrarem. O primeiro já eu vi.—Quem? diga-o, para lhe enviar os meus.—É um pintor: chama-se Leopoldo Roberto.—Lá me quiz parecer! disse o marquez gargalhando uma risada secca.—Que lhe quiz parecer a vossa excellencia?!—Que os seus padrinhos haviam de ser pintores ou cousa que o valesse...—A coarctada é miseravel, senhor marquez! vossa excellencia é um covarde, que não vale o desprezo do pintor.O marquez de Tavira levou as mãos ás proprias respeitaveis barbas. Puchou as mechas a um lado e outro com tregeitos muito de incutir terror em almas fracas. Deteve-se um pouco n'esta operação minacissima, e tirou do peito alfim estas memorandas coisas:—Villão seria eu se expozesse a minha vida ao revez de sujar-me com tal competidor! Precisamente o senhor é um aventureiro, que anda a farejar mulher dotada cá por paizes onde lhe não conhecem a suja betesga d'onde saiu. Lá na patria sabem-lhe o nome, ou ninguem lh'o sabe, é mais acertado dizer!... Convinha-lhe a filha de Bartholo de Briteiros? Que atrevimento de ambições o seu! Afinal, que espera colher d'esta aventura?... A correcção dada por um lacaio de meu primo!—Se o lacaio tiver mais coragem do que vossaexcellencia, em cujos hombros assentaria cabalmente a farda.—Miseravel!...—rugiu o marquez!—Tolo!—replicou Fernando.O primeiro voltou as costas; o filho do artista permaneceu no seu posto alguns minutos, encarando as duas meninas, que os viram approximar da praça, e esperavam, atribuladas, a infelicidade do encontro.
[A]Fernando visitou o fidalgo. O acolhimento foi excellente. As meninas reviveram quantas recordações ainda tinham de Lisboa. O antigo desembargador, com insolita moderação, relatou ao hospede a chronica mysteriosa de Portugal desde 1810, a revolução de Gomes Freire de Andrade, a de 1820, e as alternativas sequentes das duas parcialidades. Teve momentos lucidos de consciencia politica, e de admiravel modestia. Pelos modos, se em vez do conde da Barca, ou do conde de Basto, elle fosse o ministro valído de D. João VI, ou de D. Miguel, Portugal voltaria á sua idade de ouro. Para se exaltar era justo que desluzisse a reputação dos privados de D. Carlota Joaquina, e então foi verdadeiro. Deu como decidido ter sido envenenado D. João VI. Contou minudenciosamente a morte do marquez de Loulé em Salvaterra: chamou-lhegolpe de estado: mas a historia ha de chamar-lhe golpe de cajado, porque o palaciano foi morto a pauladas. Deteve-se por descuido a fallar dos supplicios de Lisboa, Porto e Extremoz. Eram tudo, no seu modo de ver, sacrificios necessarios á manutenção da ordem. E argumentava com a historia. O protestantismo, dizia elle, não entrou em Portugal: graças ás fogueiras da inquisição. Em quanto a Europa ardia em guerras religiosas, Portugal gosava pacificamente da sua prosperidade, e da pureza do seu catholicismo. D'estas sublimes paragens da historia portugueza, descia o apologista do fogo depurativo da fé a provar a necessidade da pena de morte como cauterio ás chagas sociaes, antes que ellas contaminem os membros sãos.Etc.Fernando ouvia-o silencioso. No entanto as meninas, entretidas com os taboleiros floridos dos seus jardins, diziam entre si:—E tu és capaz de lhe dar o ramo, Paulina?—Era... mas... que hei de eu dizer-lhe? Ensina-me Eugenia.—Eu sei cá!... não lhe digas nada... Quando o pae não vir, offerece-lheas flores.—O melhor era deitar o ramo no chapéo.—Mas se elle o deixa ver ao papá?--redarguiu Eugenia.—Deus nos livre! E que pensas tu?...—De que, Paulina?—Será verdade o que disse o Leopoldo Roberto?[B]
[A]Fernando visitou o fidalgo. O acolhimento foi excellente. As meninas reviveram quantas recordações ainda tinham de Lisboa. O antigo desembargador, com insolita moderação, relatou ao hospede a chronica mysteriosa de Portugal desde 1810, a revolução de Gomes Freire de Andrade, a de 1820, e as alternativas sequentes das duas parcialidades. Teve momentos lucidos de consciencia politica, e de admiravel modestia. Pelos modos, se em vez do conde da Barca, ou do conde de Basto, elle fosse o ministro valído de D. João VI, ou de D. Miguel, Portugal voltaria á sua idade de ouro. Para se exaltar era justo que desluzisse a reputação dos privados de D. Carlota Joaquina, e então foi verdadeiro. Deu como decidido ter sido envenenado D. João VI. Contou minudenciosamente a morte do marquez de Loulé em Salvaterra: chamou-lhegolpe de estado: mas a historia ha de chamar-lhe golpe de cajado, porque o palaciano foi morto a pauladas. Deteve-se por descuido a fallar dos supplicios de Lisboa, Porto e Extremoz. Eram tudo, no seu modo de ver, sacrificios necessarios á manutenção da ordem. E argumentava com a historia. O protestantismo, dizia elle, não entrou em Portugal: graças ás fogueiras da inquisição. Em quanto a Europa ardia em guerras religiosas, Portugal gosava pacificamente da sua prosperidade, e da pureza do seu catholicismo. D'estas sublimes paragens da historia portugueza, descia o apologista do fogo depurativo da fé a provar a necessidade da pena de morte como cauterio ás chagas sociaes, antes que ellas contaminem os membros sãos.Etc.
Fernando ouvia-o silencioso. No entanto as meninas, entretidas com os taboleiros floridos dos seus jardins, diziam entre si:
—E tu és capaz de lhe dar o ramo, Paulina?
—Era... mas... que hei de eu dizer-lhe? Ensina-me Eugenia.
—Eu sei cá!... não lhe digas nada... Quando o pae não vir, offerece-lhe
—O melhor era deitar o ramo no chapéo.
—Mas se elle o deixa ver ao papá?--redarguiu Eugenia.
—Deus nos livre! E que pensas tu?...
—De que, Paulina?
—Será verdade o que disse o Leopoldo Roberto?[B]
—Se elle te ama?
—Sim...
—Pois não vês?! Eu ia jurar que sim... E tu? tu é que devéras gostas d'elle...
—Penso que sim... E de que serve?!... Este amor que o pae nos tem, é uma prisão! Todas as meninas da nossa idade tão felizes!... e a gente n'esta melancholia, a dominar as inclinações... para o não desgostar! Os outros paes não se importam.A gente vê tanta gente alegre com seus maridos! pois não vê?
—Pois sim; mas tu que queres, Paulina? O pae não nos deixa casar...
—É porque a gente não se tem importado...
—Estás enganada... O pae soube que eu gostava do conde de Rohan, e fingiu que não o sabia. Lembras-te? Uma vez disse-me que se eu amasse alguem em Florença, ia immediatamente comnosco para a Azia! Quando tu em Paris gostaste d'aquelle emigrado portuguez, não viste como elle sahiu logo para Londres?
—Depois, o Albuquerque foi ter a Londres—atalhou Paulina—e o pae foi logo para a Escossia.
—É verdade; e depois, diz a toda a gente que as grandes cidades são desertos para nós! Tu verás, Paulina... Se elle desconfiar que amas Fernando, leva-nos para a Russia...
—Isso leva!
—Então, vê lá se te sabes esconder; e, se fallares com o Fernando, diz-lhe que seja acautelado, senão...
—Como hei de eu falar-lhe?! Não vês que o papá já hoje me perguntou o que hontem estivemos a falar com elle nasoiréedo principe?... Já me lembrou escrever-lhe duas palavras...
—Ai! escrever-lhe!—atalhou Eugenia assustada.
—Pois então? isso que tem? é crime?
—E se o papá vem a saber que lhe escreveste?
—Quem lh'o ha de dizer?...
—Agora é que eu vejo que o amas seriamente, Paulina.
—Amo: de ti não me escondo, Eugenia.
—Pois então, se queres, escreve-lhe.
—E que hei eu dizer-lhe? Eu nunca escrevi... Tu é que já sabes, minha Geni.
—Diz-lhe que não denuncie que te ama: senão que o papá nos tira logo de Florença.
—Só isso?!
—Pois que mais? Quando elle te escrever, então responderás...
Este dialogo, que parece estirado, correu em menos de quatro minutos. As meninas pediram ao pae licença para subirem do jardim a casa.
Ora aqui tem o leitor como conversam os anjos.
Quem, com ouvidos corporaes, ouvisse aquellas meninas, havia de suppor que estavam alli duas creaturas vulgares, como todas as que procedem de Eva, que dialogava com serpentes, e comia fructas da sciencia do mal! Cumpre saber que os anjos, em quanto perigrinam cá por estes pantanos do globo, fallam segundo ouvem fallar. Parece que ao descerem do céo, trazem, como regra, o anexim:cada terra com seu uso. A gente não acaba de capacitar-se d'isto!
Demoremos em Portugal algum espaço. A imaginação, que tem andado acorrentada aos apontamentos lá por essas terras lindas, mas alheias, já tem saudades das suas.
Cá estamos em Lisboa na calçada do Sacramento, em casa do artista Francisco Lourenço.
Estão os dois velhos á meza, onde o almoço lhes arrefece. Nenhum põe mão na comida. Encaram-se, e choram. Gracinda e Genoveva sahiram hontem para casa de seus maridos. Alli estão as cadeiras d'ellas, e sobre a meza as chavenas do almoço, e os guardanapos que lhes serviram dois dias antes.
—E sahiram sem lagrimas!—disse o artista, com a voz golpeada de soluços.
—Como eu saí de casa de meus paes para a tua...—respondeu a mulher.
—Mas que tristeza... que solidão esta, Maria!...Nem as filhas! Nem agora, Fernando... de mais a mais enfermo, tão longe de nós! Que fins de vida os nossos, mulher! Como eu de longe via isto tão differente! Falava-te no prazer de acabarmos entre filhos e netos! vê tu! ninguem, ninguem comnosco!
—Tem paciencia, homem, tem paciencia! Fernando ha de vir logo que esteja bom. As pequenas prometteram passar o domingo comnosco. Para a primavera, vamos todos para o Cartaxo. Não te afflijas, Francisco. Isto, assim triste e sósinho, é hoje. A gente afaz-se a tudo.
—Afaz-se á ingratidão dos filhos? interrompeu o artista.
—Ingratidão! Não é ingratidão! As meninas casaram com o teu consentimento: não foram ingratas.
—Sairam sem verter uma lagrima.
—Pois que queres tu? O Evangelho não diz: «deixarás pae e mãe»? Deixaram pae e mãe por seus maridos. É lei da natureza. Que havemos nós fazer-lhe? Almoça, Francisquinho, almoça.
—E tu que fazes? porque não almoças?
—Que queres tu! Não posso. Tenho um nó na garganta... Tambem eu... E Fernando longe de nós, Maria!... Que te diz o coração?
—Que não tarda ahi. Talvez já venha a caminho. Se vier, não temos carta para a semana. Se estiver ainda doente, escreve-nos. Depois nos lastimaremos homem... Não tentemos a Deus.
A carta, não desejada, chegou. Fernando dizia estar ainda doente, e não poder assignalar o tempoda sua volta. A linguagem era triste: dir-se-ia que a mentira lhe custava lagrimas. Os paes inferiram da tristeza a gravidade da doença. Francisco pensou em ir á Italia; porém, doia-lhe deixar sua mulher sósinha, doente de saudades, e mais lastimosa que elle. Esperou nova carta, contando os minutos por ancias, que o avelhentavam rapidamente. Ia, com sua mulher, buscar allivios a casa das filhas: encontrava uma e outra contentes, cuidando das suas occupações domesticas, cariciosas para os maridos, e levemente commovidas com as afflicções dos paes. A linguagem d'uma era a da outra:
—Não se inquietem, que o Fernando ha de vir. Póde ser que nem esteja doente. Anda por lá a divertir-se, e vem quando estiver farto.
Os velhos sahiam mais acabrunhados das frivolas consolações das filhas e genros.
Passadas semanas, chegou nova carta. Fernando, aconselhado pelos medicos, ia convalescer para Napoles; e, logo que estivesse restaurado, voltava para Portugal, immediatamente. Era o resumo da carta; mas o dizer era mais escuro; a espaços lhe tinham fugido uns desmentidos á falsidade. Taes como:Tenho desejado a morte: o futuro é negro, mais negro que a sepultura. E n'outro relanço:Eu nunca devia ter saido da nossa casa de campo. A má estrella não me acharia n'aquella obscuridade.E, finalmente, rematando a carta, dizia:Quem sabe se eu tornarei a ve-los, meu querido pae, e minha santa mãe?... Tenho presagios terriveis....Era para muita pena vêr os dois velhos, cada um a seu lado, com o rosto entre as mãos, arrancandosoluços e exclamações, que ninguem consolava!
—Que mal fizemos nós a Deus!—clamava Francisco. Não fui eu sempre bom filho, bom marido, e bom pae? A quem fiz eu mal voluntario d'este mundo? Quem se queixa de mim do céo para me ver assim, e te ver ahi, pobre mulher, sem consolação de tuas filhas? Que desgraças são estas de Fernando!—proseguia o artista, relendo a carta.—Na doença pouco falla: nunca me disse que doença tinha...Tenho desejado a morte; o futuro é negro, mais negro que a sepultura!... Vê tu estas palavras, Maria! Eu não lhe tenho faltado com as ordens do dinheiro muito a tempo. Já lhe escrevi, admirando e louvando que elle gastasse muito menos do que esperava. Tem tudo o que quer de mim, e ha de ter, se Deus me não transtornar a vida, meios abundantes para viver com decencia... Então por que se chora elle? quemá estrella o persegue? porquenão ha de tornar a ver-nos?
—A mim...—atalhou Maria—certo é que não... Pouco tenho de vida, Francisco...; mas olha, meu filho, sabes tu o que me lembrou agora de repente?...
—Dize, Maria...
—Estará Fernando por lá apaixonado? Queres tu vêr que elle olhou para alguma senhora, que o traz em torturas, e o pobre rapaz não tem coração que o tire de lá para fóra?
—A fallar a verdade—disse Francisco—a idade das paixões é a d'elle... Póde ser que adivinhasses mulher, e oxalá que sim... Se a paixão fôr bôa, o resultado bom ha de ser; se fôr má ouimpropria d'elle, o tempo ha de cura-la... Mas isto não allivia a nossa dôr, Maria! Eu preciso de vêr Fernando; quero com a minha presença reduzi-lo aos seus deveres; não tenho meio de saber o que isto é, se não fôr em pessoa procura-lo. Deixas-me tu ir, mulher?
Maria deteve a resposta alguns segundos, expediu um gemido do fundo da alma, e murmurou:
—Vae, Francisco, vae, eu irei para casa de uma das filhas, se tu quizeres. Não te peço que me leves comtigo para te não dar que soffrer na viagem. Sinto-me muito doente. Vieram as afflicções juntas, e acabaram-me... Pois vae, e não te demores. Dize a Fernando que venha dar-me um abraço, que eu quero despedir-me d'elle; e, depois, que torne para onde estiver melhor.
Francisco Lourenço, sem mais preparativos que um passaporte e dinheiro, sahiu de Lisboa no primeiro navio que lhe deu passagem para porto de Italia.
A gente não acaba de capacitar-se d'isto, diz o final do capitulo VII, a proposito dos anjos, que em pousando pé no mundo, perdem memoria do céo, e aclimam-se logo n'estes pantanos, cujas exhalações pestilenciaes teimam poetas em dizer que sobem a glorificar o Creador!
Vamos ao essencial.
Paulina escreveu um bilhete assim:
«O papá é muito desconfiado. Tenha muita cautella, se a separação lhe é tão dolorosa como a mim. Não passeie na praça do Dome áquellas horas. O papá dorme sempre desde as quatro ás sete. Eu tenho uma creada de confiança a quem póde entregar as suas cartas. Adeus. Guarde com amor estas florinhas».
Dobrou em tira estreita o bilhete, e cingiu-o em volta das astes do ramo.
Veja agora a leitora, mais superciliosa em pontos de dignidade e pudor senhoril, como os extremos se tocam! O que o despejo e desenvoltura teria feito, é a innocencia e candura que o faz n'este caso, n'estes amores começados com tal qual originalidade! Aposto que nenhuma dama, amestrada em galanterias, escriptora de resmas sobre resmas de cartas amorosas, se affoitaria a escrever aquellas linhas sem previamente ter recebido irrefragaveis provas escriptas e oraes de uma paixão homicida! Escrever a um homem sem ter sido a isso mil vezes solicitada! ennodoar assim o amiculo virginal! dar uma menina a saber que é capaz de compôr um periodo com sujeito, verbo e caso!
Eu não louvo meninas que escrevem bilhetes, e se sujeitam a uma analyse de regencia; porém, não sei sobre que argumentos hei de fundar a censura. Não censuro, nem louvo. A moral é uma questão de felicidade, segundo as regras do dever n'este mundo. Ora, a meu juizo, a moral tanto se lhe dá que Paulina escrevesse primeiro a Fernando, como Fernando a Paulina. Além de que, a desmoralisação é o escandalo. Escandalo n'este facto, se alguem o dá, sou eu, que conto a historia; todavia, provando eu a final que o acto em si era innocente e as consequencias não desfitaram do mais honesto scopo, é justo que me descoimem do escandalo, e agradeçam a historia.
Em quanto á felicidade, segundo as regras do dever, sou a dizer-lhes que não ha nada mais incerto que as regras do dever em materia de felicidade n'este mundo. Muita gente vae direito á rasão pelaestrada do paradoxo. Outra muita gente, a fugir da absurdidade, quebra as pernas no barranco da rasão. Uma menina escreve um bilhete a um homem: o mundo sabe-o, e vitupera-a. Outra menina faz-se vermelha de lacre ao receber a primeira carta de um homem: o mundo tem noticia d'um pudor tamanho, e cita o exemplo d'esta santa a quantas meninas o demonio tentador negaceia. Vae, depois, á primeira abre-se o coração de anjo, uns braços de esposo, e um horisonte de summa felicidade; e á segunda, que em solteira não ousara escrever duas linhas a furto de olhos maternos, depara-se-lhe um marido, que só viu n'ella o merecimento boçal de não saber calligraphicamente dizer que o amava! O primeiro pergunta á sua «Porque me escreveste» e ella responde-lhe:—Amava-te.—O segundo faz a mesma pergunta á sua; e ella, a pudica, a santa do pejo, ha de, por mais que tergiverse, responder-lhe: «Não te escrevi, porque me não merecias confiança». Uma exalta; a outra rebaixa; uma faz-se amar pelo duplo prestigio de sua innocencia; a outra deve entediar mais cedo que o costume, porque embaiu a gente, encampando como innocencia uma boa dóse de velhacaria. Ha muito d'isto; mas não é assim tudo. Já disse que regras fixas nenhumas ha. As meninas n'este ponto, consultem as damas virtuosas e illustradas. A mim não me chamem para coisa de tamanha responsabilidade. N'estes combates das paixões, os romancistas são como os escrevedores que os antigos cabos de guerra levavam comsigo para historiarem as carnificinas: ficam-se cá de longe alapados a verem o fogo, e relatamao universo os varios successos. Tornemos ao essencial.
Fernando Gomes viu entrar as meninas na sala em que Bartholo de Briteiros lhe andava mostrando alguns bustos de Bartholini, famigerado esculptor de Florença, que cinzelara tambem os bustos de Paulina e Eugenia. Estava o magistrado encarecendo com voluptuoso enthusiasmo a Bacchante de Bartholini, que elle vira na galeria do duque de Devonshire, e contava d'um francez que chegara a Florença, e pedira venia ao esculptor para dar um beijo na sua Bacchante, beijo ardente que parecera filtrar fogo nos beiços marmoreos da lasciva tentadora.
Bartholo mudou de tom, quando ouviu o ciciar de sedas. Entraram as meninas, e approximaram-se do piano. Eugenia tocou: Paulina cantou uma aria daNorma; e, durante o alegro, como o chapeu de Fernando estivesse sobre a cadeira contigua ao piano, e os olhos de Fernando n'ella, e os de Bartholo em uma estatua da Sabina de João de Bolonha, a menina lançou no chapeu o ramo.
Fernando viu, e sentou-se, sentou-se violentado por umas caimbras de pernas. Parece que devia ser unicamente abalado o coração; mas estou em crer que homem amante é todo e em tudo coração.
D'ahi a pouco, eram horas de jantar.
Fernando ouviu o chamamento d'um escudeiro agaloado. Tomou o chapeu: não lhe podiam as mãos convulsas com o thesouro. Aterrava-o a magnitude da sua felicidade. O quer que era de idiota lhe desmanchava as feições. Bartholo convidou-o ajantar ceremoniosamente. Fernando balbuciou expressões confusas de reconhecimento, ajustando bem cerradas com o peito as abas do chapeu e saíu.
Não lhe cabia o coração no quarto da hospedaria. Queria o sol, o azul do céo, os pinhaes, os vinhedos, e as flôres das margens do Arno como testemunhas da sua alegria.
Áquella mesma hora é que os dois velhos, na calçada do Sacramento, se abraçavam, debulhados em lagrimas, e diziam:
—Que mal fizemos a Deus!
Que faces a vida tem!
Fernando leu um poema em cada lettra d'aquelle insignificante escripto.Insignificante, digo! Injustiça de critico litterario, que só vê a magestade do entendimento humano nas ramagens floridas do estylo! Comoinsignificante! Cada palavra d'aquelle singelo bilhete salvaria Leopoldo Roberto, Chatterton, e quantos por amor se tem lançado nos braços da morte! Dae a cada desventurado, em transes de suicidio, um bilhete assim, de mulher como aquella, e eu vos restituirei um homem com vida exhuberante, com alma recaldeada para todas as adversidades, com amor a Deus e aos homens, retemperado de juizo para se predispor aos gosos da velhice, e d'uma numerosa posteridade—destino humanal mais efficazmente averiguado e demonstrado.
Ao escurecer, Fernando voltou a Florença, e velou a noite inteira, escrevendo. Quando os primeiros raios do sol lhe douraram a ultima pagina da carta a Paulina, a cabeça do moço, calcinada pelafebre da felicidade, pendeu sobre a mesa, e immergiu em não melhores delicias de sonhos.
Despertaram-n'o para lhe entregarem uma das succesivas cartas que seu pae lhe estava sempre mandando, quer por navios que saíam de Lisboa para França, quer pelo correio de Hespanha.
Que melancholica transição a da leitura das suas paginas arrebatadas para este chão e monotono escrever do artista:
«Lemos a tua carta com muita magua. Bem me dizia o coração que tu não vinhas! A tua carta entristece mais esta separação de tuas irmãs. Se ao menos tivesses saude, Fernando! Mas doente, sem me dizeres que molestia soffres, isto augmenta a afflicção de teus velhos paes. Muito enfermo deves estar para, ainda com sacrificio, não accudires á nossa saudade! Deus te allivie, e encaminhe para nós.
«Vejo que essa cidade te prende mais que as outras; mas foi-te ingrata, filho. Tiveste saude em toda a parte, e só ahi adoeceste, dizendo-me tu que era um clima celestial o de Florença.
«Talvez te prendessem as memorias d'aquelle poeta que tu me lias, ha annos. Era Dante, se bem me lembro; mas eu queria que o teu coração de filho vencesse os prazeres do espirito; queria que os não esquecesses por amor da sciencia.
«Isto não são queixumes, Fernando, não são. É rabugice estar eu a ralhar comtigo porque a doença te impede de vir. O que eu te rogo, e mando, filho é que, assim que as forças t'o permittirem, venhas dar contentamento á tua boa mãe, queestá muito acabadinha, e mais depressa irá ao seu fim, se desconfiar que nos esqueceste...»
A carta continuava assim por longo espaço de papel, manchado de lagrimas.
Fernando não tinha a força de alma que caracterisa os homens grandes. Estamos vezados a dar carta de grandeza a uns vermes que não teem lagrimas, nem se deixam alquebrar de vulgares contingencias da vida. O filho do artista depôz a carta, e murmurou:
—Meus queridos paes! como eu vos sacrifico sem saber a que!... Pude enganar-vos para me gosar das primicias de alguma desgraça!
E, respondendo a esta carta, escreveu aquella em que transluzia a muita acerba previdencia do seu futuro, com phrases incongruentes, e por virtude da qual Francisco Lourenço se fizera no caminho de Napoles.
O marquez de Tavira...
—Temos gente nova na historia?
—É verdade, leitor. Chegou agora mesmo de Roma e Florença o marquez de Tavira, aulico da côrte do proscripto, emigrado desde a convenção, do primeiro sangue de Portugal, sujeito de quarenta annos bem conservados, que parecem trinta, arruinado desde o seu setimo avô, mas ainda rico de umas riquezas inexauriveis de fidalgos portuguezes velhos—a gente de mais industria e artimanhas que eu conheço—não desfazendo nos fidalgos portuguezes novos, que estes, para se esquivarem á arguição de terem avós, avós arruinados, começam por não terem avós, e renegam os paes como logicos que são. Este periodo é de abafar!
O marquez de Tavira hospedou-se em casa de Bartholo de Briteiros. Não se viam desde 1832. Conheciam-se do paço, tratavam-se detu, e tinhamrapaziadas communs, posto que Bartholo se lhe avantajasse em onze annos.
Mania fôra sempre de Briteiros aparentar-se com Cogominhos de Tavira. O marquez dizia que seu avô falava no parentesco dos Briteiros da casa de Robordochão; e, dito isto, regularmente pedia a Bartholo dinheiro, e Bartholo dava dinheiro ao primo marquez, que era expansivo, quando embriagado; e embriagado nas orgias de Queluz, Salvaterra e Alfeite, costumava rir de Bartholo de Robordochão, que dava metal amarello a troco de sangue azul.
O marquez, desde a convenção em que largara a espada de coronel de artilheria, vagueara por França e Belgica, destroçando o restante do patrimonio vendido pelo terço do valor. Depois fôra a Allemanha em cata do senhor D. Miguel de Bragança; e, como encontrasse pobre o real exilado, invocou o seu inquebrantavel espirito e aproou para Florença, onde o chamava a pascacice do primo Bartholo de Briteiros.
O acolhimento frizou com as melhores esperanças.
O marquez teve logo, e muito rogado a possui-los, bellos aposentos, dinheiro a granel, optima convivencia de duas meninas, que o festejavam com franqueza de primas, e as melhores relações de Florença.
Este incídente coincidiu com aquellas tristezas e alegrias de Fernando Gomes, na manhã em que fechava uma carta para Paulina, e abria outra de seu pae.
Bartholo, sedento de noticias, enguliu quantas mirificas pêtas o marquez inventou, concernentes a restaurar D. Miguel no throno. No dizer do industrioso hospede, a Russia estava a disciplinar-se para talar a Europa, e passar o rôdo sobre as corôas usurpadas. O ex-ministro da Alçada, como bebesse mais alguns calices de champagne, no auge de sua alegria gosou-se de visões deliciosas, entre as quaes, se a conjectura me é fiel, avultavam uns triangulos do caes do Sodré, e umas lavaredas do Campo de Sant'Anna. Bartholo quiz pôr luminarias; mas o marquez dissuadiu-o d'uma virtude, que pareceria ridicula a olhos extranhos: a virtude das luminarias!
Passeava, ás seis horas da tarde d'aquelle dia, Fernando na praça do Dome. Paulina estava na janella. Passados momentos recolheu-se, e reappareceu com uma creada. Fernando comprehendeu, e avisinhou-se. Paulina apontou para o muro do jardim, e sahiu da janella.
Caminhou o moço, rente com a parede, e viu a creada debruçada no peitoril d'um caramanchão angular do jardim. Atirou-lhe a carta, e apanhou um bilhete que ella ao mesmo tempo deixara cahir, com umasaudade, flôr que, em parte alguma, tem o nome suave que portuguezes lhe dão.
Dizia o bilhete:
«Ámanhã vamos para Piza, onde temos de passar alguns dias. Vae comnosco o primo marquez de Tavira, que chegou hoje de Roma. Se não fosse o medo e os conselhos da mana Eugenia, pedia-lhe que se fizesse encontrado comnosco. Seria temeridade?Eu lerei muitas vezes a sua carta, sempre que puder fugir á vigilancia de meu pae. São tres dias: paciencia! Mando-lhe uma flôr, que me faz lembrar as da nossa patria... Ainda nos veremos lá, Fernando?...»
Seria temeridade?Este modo de perguntar, esta duvida em que Paulina ficava, teve Fernando na perplexidade de minutos em que o coração usa demorar as suas decisões. A ida do marquez com ella para Piza, o primo marquez, tres dias de ausencia com o primo marquez... Este primo marquez foi quem deu um empurrão em Fernando, pela porta fóra de Florença, caminho de Piza.Seria temeridade? seria; mas o contrario, o ficar, o estar tres dias sem ve-la ainda mesmo que o primo marquez não fosse, isso é que seria pusillanimidade, juizo de mais, excesso que mulheres amantes consideram coração de menos.
Fernando viu Bartholo e o marquez, com as duas meninas, entrarem na caleche. O de Tavira sentou-se em frente de Paulina. O filho do artista esperou que a locomotiva passasse rente por elle, e fitou o fidalgo, emquanto Paulina ia de rosto voltado para ve-lo. Seria já o ciume que lhe afuzilava nos olhos? O primo convencional dos Briteiros era, como já disse, um rapaz de quarenta annos, um gentil rapaz, quanto se póde se-lo, com um fardo de quasi meio seculo no espinhaço. As barbas intensas, nitidas, e negras, os longos cabellos áSaint-Simon, o porte soberbo, as fórmas fidalgas e significativas de destreza e força, as faces ainda rosadas, eram predicados de assustarem um amante de compleiçãodoentia, poucas carnes, estatura mediana, ar e olhar timorato, e outros attributos de que os authores de novellas nunca revestem os personagens fataes, ditosleões.
Assim que a serpe do ciume o mordeu, não havia já consideração que lhe estorvasse o passo. Fernando partiu para Piza, curta jornada de algumas horas. Passou napiazza del Calvalieri, para esperar, n'aquelle centro da celebrada cidade, a passagem da familia. Em que monumentos iria elle procurar Paulina? Áquella hora, a illustre familia de Portugal estava em casa da opulenta ingleza Smith, cujo palacio nas margens do Arno abria seus salões na noite d'aquelle dia. A que parte iria o triste moço, mais triste na soledade da terra estranha, onde elle, como de si dizia Méry, se julgava, ao meio dia, o locatario unico de uma grande cidade? Foi aoCampo santo, vasto jazigo dos que morreram lidando na conquista do sepulcro de Jesus Christo. Seria aquelle o local mais ajustado á sua dôr? Os tristes sem consolação, como que refugiados da vida, se travam em mysticas confidencias com as cinzas dos que passaram seu dia chorando e, alli enxugaram as ultimas lagrimas no lençol humido da leiva.
Ao entrar no cemiterio, Fernando recordou as palavras d'um illustre viajante, que tambem lá fôra a recobrar-se de alentos para arcar com a desventura do seu curto dia:
«OCampo santoexhala poesia de morte, a poesia do nada, a poesia da immortalidade. Este é o verdadeiro cemiterio do christão: não se sente aquia constricção d'alma que nos causa o tumulo do homem, suave e religiosa melancholia vae comvosco por entre as quatro galerias funebres, e vos inspira pensares de morte sem pavor. Este torrão não se desentranha em ossadas, nem o verme corroe as carnes: é terra milagrosa que preserva os corpos do insulto das herpes. Envolve-se em magnifico lençol de relvados floridos; inquadra-se em puras e graciosas ogivas do marmore alvissimo: é terra de Jerusalem sobre as galerias travadas; os cadaveres dos velhos christãos de Piza estão aqui santificados; é o leito de descanço dos homens fortes, que morreram em Deus, com a espada á ilharga e os rins ciliciados. Quão suave é este ciciar da relva que ressoa ao longo das galerias! Cuidaes ouvir psalmodia entoada por sombras, hymno de sepulcros escripto em linguagem, que, só depois da morte conheceremos.»
Mas não era cemiterio remanso ao soffrimento do moço. Ancias de coração não as suavisa a philosophia da morte. Aquillo serve para os que, n'outro ponto, deixaram fechada a sepultura de suas esperanças.
Passou arrastado o dia, sem que Fernando encontrasse vestigios de Paulina. Na manhã do seguinte dirigiu-se á praça onde se ergue a famosatorre torta, que o leitor tem visto pintada, e que o marquez de Tavira queria ver, mais que tudo. De feito, estavam o curioso emigrado e Bartholo e as meninas ao pé da maravilha, quando Fernando assombrou n'um angulo da praça.
Foi Paulina quem primeiro o viu, e trocou olharesde susto com Eugenia. Bartholo de Briteiros, que já muitas vezes admirara a inclinação mysteriosa da torre, estava mais attento nos palacios da praça, e, de relance, viu parado o portuguez.
—Aquelle não é o Fernando Gomes?!—disse elle ás filhas.
—Parece...—balbuciou Paulina.
—Quem?—disse o marquez.
—Aquelle patricio em que eu te falei, primo Tavira.
—Ah! o mindeleiro?—tornou o primo.
—Tal qual.
—Sempre lhe quero ver o bellicoso aspeito! Ainda não vi um dos sete mil e quinhentos roldões do Mindello—tornou o marquez, dando a saber que tinha sua tal qual instrucção doCarlos Magno.
Fernando, posto que tarde, simulou que não vira Bartholo, e foi indo lentamente seu caminho.
O fidalgo deixou as meninas com o marquez, e atravessou a praça, estugando o passo, para se avisinhar a distancia que elle o ouvisse chamar.
—Sr. Fernando! clamou Bartholo—patricio! vae tão meditabundo! Parece que receia que a torre venha abaixo?!
Fernando olhou com bem fingida surpreza, e retrocedeu a comprimentar o fidalgo.
—Então por aqui!—disse o pae de Paulina.—Acolá estão as meninas, e meu primo o marquez de Tavira, chegado hontem de Roma. Venha cá, se quer conhecer um dos primeiros fidalgos de Portugal.
—Com muito prazer irei comprimentar um primo de vossa excellencia—disse Fernando.
—Aqui está o senhor Gomes—disse Bartholo ao fidalgo—filho de Lisboa, bacharel em direito, e bom rapaz, posto que mordeu muito cartucho nas linhas do Porto, na qualidade de soldado do batalhão academico, e é, aqui onde o vê, cavalleiro da torre e espada, valor, lealdade e merito!...
O sorriso, que envenenava estas palavras, queimou o sangue do filho do artista. Paulina tinha os olhos fitos n'elle, olhos de dôr e compuncção. Se Fernando os visse, daria graças a Deus pela angustia que lhe era premiada com a maviosa paixão d'elles.
O marquez gesticulou ligeiramente um cortejo de cabeça, e disse:
—Consta-me que em Portugal é toda a gente condecorada por façanhas das linhas do Porto!
—Toda a gente, não, senhor marquez—disse Fernando.—Ás linhas do Porto não foi toda a gente, mas todos quantos lá estiveram mereciam bem a condecoração de valor, lealdade e merito.
O legitimista desfranziu um riso de compassivo escarneo, e disse:
—Em quanto avalor, o general Povoas que o diga, se osvalorososo não querem dizer. Em quanto a lealdade, bem se sabe qual foi a lealdade dos bravos que apedrejaram com patacos D. Pedro no theatro, e mataram Agostinho José Freire nas ruas de Lisboa. Em quanto a merito, isso agora é uma questão de barriga: a barriga de cada um é que diz o merito de cada qual...
Fernando olhou de revez o marquez, e disse a Bartholo:
—Vossa excellencia continúa a admirar a torre, e eu vou dar as voltas que preciso, antes de recolher-me a Florença.
O marquez ficou mais que muito corrido d'este ar de desprezo com que Fernando replicou aos seus dizeres, que elle imaginou não só irrespondiveis, mas capazes de atirar a terra com os creditos de uma politica. Bartholo tambem se desgostou do menos preço com que oquidamtratava seu primo, e não teve mão da sua zanga, exclamando:
—Então não tem resposta o que alli disse meu primo?!
—Não, senhor—disse Fernando Gomes.—Dá-me sua excellencia as suas ordens?
—Passe muito bem, senhor Gomes—disse Bartholo, chofrado.
Paulina e Eugenia corresponderam ao comprimento reverencioso de Fernando. Paulina sentia-se contente, soberba da dignidade d'aquelle moço; Eugenia, porém, doía-se da quebra de brios que soffrera o primo, temia que a ira do pae resultasse desgosto á irmã, e anteviu a impossibilidade de nunca mais os dois se approximarem, sem aberta declaração de guerra com o pae.
—Este sujeito—disse, azedado, o de Tavira—quem é lá na sua terra?
—Eu sei cá? É o senhor Fernando Gomes; tal m'o apresentou Jeronymo Bonaparte! Estes Bonapartes, que se fizeram reis mais depressa que os reis do theatro do Salitre e da rua dos Condes, impingem á gente com titulo denotabilidadesquantos patavinas os visitam no desterro! Qualquer pintor,esculptor, ou poeta, em casa do principe de Monfort é egual aos duques, e tem uma cadeira ao lado dos principes. Quem lá vae tem de apertar a mão ao pianista Sampieri, ao cantor Tachinardi, á cantora Degli-Antoni, ao poeta Méry, ao pintor Vernet, ao esculptor Bartolini, e ao senhor Fernando Gomes, que, no dizer do ex-rei de Westphalia, é um enorme sabio. Aqui tens tu, primo marquez, como eu conheci o senhor Gomes. Dei-lhe uma vez entrada em minha casa, porque me pareceu humilde o sujeito: agora descobri que elle tem seus fumos de orgulho!...
—Não se me dava de lhe abater a prôa!—atalhou o marquez.—Queria ver se estes valentões do Mindello sustentam a fama cá fóra das linhas...
Bartholo riu-se, e Paulina olhou em rosto o primo com visivel gesto de despeito.
—Porque?!—disse ella, com mal represada ira.
—Paulina!—murmurou-lhe Eugenia ao ouvido.
Bartholo não dera conta d'este incidente, e o marquez, quando ia esclarecer a significação do gesto extranho de sua prima, viu que ella voltava o rosto, e se encobria com as franjas dasombrinha.
—Querem ver que ella ama o tal sujeito?!—disse o marquez entre si, e differiu para mais ao diante a elucidação d'esta importante suspeita.
No dia seguinte a familia voltou para Florença.
Fernando já tinha ido.
Ás affrontosas palavras do marquez de sobra respondera o silencioso desprezo do filho do artista: não obstante, o tom injurioso alanceara-lhemuito dentro o coração, por ter sido Paulina testemunha da zombaria.
Pensava elle que a filha do nobre devia ama-lo menos por ve-lo assim desdourado, e sem vingança egual ao affrontamento. É um inferno, na alma de quem ama, pensar assim!
Ao cabo de tres semanas de hospedagem regalada, disse o marquez a Bartholo:
—Ora, primo e amigo, é tempo de continuar a minha missão, que interrompi por tres semanas. Bem sabes que a politica me não deixa ser das minhas vontades. Preciso de ir a Inglaterra em serviço do rei e da nossa causa. Tu, como rico em toda a parte do mundo, não queres participar dos trabalhos lentos da restauração: fazes bem, primo Briteiros: eu é que não posso libertar-me d'esta missão diplomatica. Espera-me o Saraiva em Londres, e o rei em Berlim, no espaço de quarenta dias. Aqui tens a razão da minha saída.
—Pois vae, primo—disse Bartholo—mas logo que te desempenhes d'essa missão, volta a viver comnosco em Florença.
—Não prometto.
—Não promettes, marquez? Pois assim nos pagas a boa vontade com que te convido e o muito affecto das meninas, que te desejam comnosco?!
—Se ellas me desejam—tornou o primo com intencional sorriso—isso é que resta demonstrar, primo Bartholo...
—Pois que! duvidas?
—D'uma, duvido; da outra tenho quasi a evidencia que me deseja vêr pelas costas.
—Ora essa! qual d'ellas?
—Permitte que não vamos adiante n'esta penosa conversação, primo... Evitemos desgostos communs. Tanto soffrerias tu, como eu tenho soffrido...
—Que tens soffrido, marquez? Pois ainda agora m'o dizes!...—tornou Briteiros sinceramente inquieto.
—Devêra ter-t'o dito ha muitos dias, desde o segundo em que vi tua filha Paulina... basta.
—Homem! explica-te, se não eu obrigo-te a faze-lo por tua honra!
—Pois que assim o queres, sabe a verdade inteira, e reprehende-me se eu tiver procedido mais segundo os dictames do coração, que os da honra e parentesco. Eu amei tua filha Paulina com paixão. Se não t'o disse logo, foi porque me julguei superior a mim mesmo, e aos despotismos do amor. Muitas vezes em Portugal, em Paris, em Roma, em todas as capitaes da Europa, me julguei vencido por diversas mulheres que encontrei; e, logo depois de chorar a derrota, de repente me rehabilitava pelo esquecimento instantaneo e quasi prodigiosoda mulher que horas antes me acorrentava aos seus mais levianos caprichos. Cuidei que o mesmo me aconteceria com tua filha Paulina: aqui é que o meu orgulho pagou amargamente as suas passadas sobrancerias. Verdadeira e insanavel paixão me inspirou Paulina; e, para cumulo de desgraça e vingança d'outras, tua filha, bem longe de amar-me, convencido me deixou de me aborrecer. Primeiro imaginei que Paulina não podia ou não queria amar alguem: isto podia ser; porque ha mulheres sem coração, e ha outras que parecem ter quatro: com os homens dá-se o mesmo caso. Porém, primo Briteiros, a razão do desamor de tua filha era a mais natural do mundo; é por que tua filha amava e ama outro homem.
—O que?!—interrompeu iracundo o fidalgo.—Minha filha ama outro homem! Calumnia! A minha Paulina não ama ninguem; e hade ser tua mulher, se eu quizer que ella seja tua mulher. Entendes tu, marquez?
—Perfeitamente entendi, primo; mas eu é que sou incapaz de permittir violencias, e acceitar esposa violentada. Outrem me julgue tal; mas tu não, Bartholo, que conheces a nossa familia, e sabes que meus avós deram para casa dos reis suas irmãs, e receberam como esposas as filhas dos reis.
—Bem sei, bem sei que foram esses os costumes da nossa familia; mas por isso mesmo é preciso que eu obrigue a minha filha a manter-se na dignidade de seus avós. Quem é o homem que ella ama?
—Pergunta-lh'o tu, primo. Se ella não t'o disser,consente que eu, por honra mesmo de nosso sangue, o não pronuncie.
—Que? pois ella ama algum mechanico? Responde por quem és, marquez! Depressa, que me sobe o sangue ao cerebro!
—Já te disse que ha grande deshonra em tal inclinação, primo... Não forces a minha repugnancia a revelar-te o que de mim mesmo eu quizera poder esconder.
Bartholo de Briteiros andava na sala, aos empurrões das furias, sacudindo vertiginosamente os braços, emquanto o marquez com a face entre as mãos, e os cotovellos encostados ás almofadas de uma ottomana lhe relanceava os olhos de infame penetração. Quando viu que era tempo, ergueu-se, tomou nos braços o pae de Paulina, e disse-lhe:
—Estou vivamente arrependido. Não devia ter dito nada. Era mais nobre esmagar-me no coração, e poupar o teu de pae, e pae como tu és, meu caro primo. Perdoa-me, e perdoa as fragilidades de tua filha. É um amor de creança que ella tem ao...
—Ao... quem?—exclamou Briteiros com uma grammatica desculpavel á sua angustia.
—Porque não hei de eu dizer-t'o, se o enlace mesmo de sangue me obriga a velar pela honra de tua familia, que tambem é minha! Tu nunca suspeitaste d'este Fernando Gomes?
—Fernando Gomes! pois tu crês que minha filha ama Fernandes Gomes?!
—Creio, sei-o, tenho a maxima certeza. Agora não ha que tergiversar. Cheguei ao ponto de me perder no teu conceito, se não adduzir provas. Paulinavae ao caramanchão que está sobre o caminho, e d'alli fala a Fernando, ás horas em que tu dormes a sesta. Trocam-se cartas todos os dias. Estes factos são presenciados por quem os quer ver. Vi eu mesmo, depois que me avisaram. Reprehendi a prima Paulina, em termos de bom e zeloso parente e amigo. Tua filha respondeu-me com azedume, recommendando-me que me não intromettesse na vida alheia. Repliquei com as mais sagradas razões; dei-lhe como possivel, se não certo, ser Fernando algum miseravel dos que de repente se levantaram da lama de Portugal, e vieram no extrangeiro fazer luzir o ouro, que lhes seria vergonha na patria. Rebateu-me com o mais formal e mais descomposto desdem, que meus olhos nunca viram em menina com tal edade e educação, e de tal linhagem! N'esta altura da questão, entendi que o meu dever era deixal-a ao espirito tentador que a quer perder; todavia, mais sagrado dever me admoestou a que te avisasse, primo, para não tomar sobre mim a cumplicidade de alguma enorme desgraça, e mais enorme deshonra. Agora encarecidamente te rogo que te hajas com a cautela e prudencia que tão melindroso negocio requer.
—Que hei de eu fazer?!—bradou Bartholo.
—Sae com tuas filhas de Florença. Vamos para Londres. Eu irei adiante preparar-te aposentos. Lá, se o biltre a perseguir, eu lhe tornarei impossivel o accesso, e a possibilidade de a ver. Se outro passo deres, receio que seja o peor para te saíres dignamente da difficuldade. O ar com que tua filha me falou revela proposito de ferro, e resolução inabalavel.Póde temer-te; mas obedecer-te não. Fia-te em mim, que eu sei o que são mulheres, primo. Finge que não sabes nada. Prepara com qualquer pretexto a tua viagem, e tu colherás depois os bons fructos da prudencia. Se, como creio, tua filha mudar de idéas em Londres, com o mais sincero coração te digo que serei ditoso fazendo-a marqueza de Tavira; mas, para que este enlace se possa fazer, é necessario que ella nunca desconfie que eu fui o denunciante d'este vergonhoso affecto. Convens n'isto, primo Bartholo?
—Convenho, marquez... Seja assim..
Acabava o pae de Paulina de proferir a ultima palavra, quando as duas meninas, pé ante pé, se afastavam ao longo do corredor que conduzia da sala, em que os dois dialogaram, para o interior da casa.
Paulina lançou-se no braços da irmã, e exclamou:
—Oh! que infame é aquelle homem! que infame!... Que hei de eu fazer, Eugenia? diz-m'o por compaixão da tua pobre Paulina!
—Que has de tu fazer, filha?... Eu sei!... Soffrer como eu soffri, quando o pae nos tirou de Paris...
—Isso é que não!—replicou Paulina—Não me deixo assim esmagar! Fernando ha de ir tambem para Londres. Vou escrever-lhe e contar-lhe tudo... se o não puder ver, terei a coragem de soffrer e esperar, com a certeza de que elle está tambem em Londres... Pois que pensas tu?... Eu não posso esquecel-o, assim como tu esqueceste o francez, Eugenia! É porque tu o não amavas; se o amasses, a desesperação te daria forças! Tenho-as; sinto-mecapaz de tudo!... O malvado!... á custa de que infamia elle queria fazer-me marqueza!...
—Eu logo te disse—atalhou Eugenia—que não fazias bem em falar com tanta soberba, quando elle te reprehendeu...
—Fiz muito bem! desenganei-o: está desenganado para sempre... Agora tudo que elle fizer são indignidades, e cada dia, e cada hora, hei de abominal-o mais.
Aqui tem a leitora bem significada Paulina n'este conhecido verso:
Ás vezes branca nuvem cospe um raio!
Quem diria que tamanhos vulcões de colera se escondiam no sereno peito da gentil creatura, que parecia talhada de molde para soffrer docilmente o martyrio! Ahi está o que faz o sol de Florença! Devem-se á Italia aquellas conflagrações! Em Portugal me quer parecer que Paulina não fosse aquillo. A minha espionagem de romancista nunca me alviçarou casos identicos de barreiras de Portugal a dentro. Por isso mesmo é que eu tenho de ir em cata dos meus personagens lá fora, para alternar, com lances de estremecer, as frias historias que tenho posto em livros de que ninguem se espanta, e que passam por as mais frias, insipidas, e inertes lucubrações do espirito humano. Esta agora, sim!
Paulina cortou o folego da imprecação para ir escrever a Fernando.
Poz em resumo o dialogo do pae com o marquez, e a resolução de ambos. Pedia-lhe que os seguissepara Londres, e averiguasse onde se alojavam. Asseverava-lhe que, á custa de tudo, se haviam de ver em Londres; e terminava, com a mais candida desenvoltura que póde ter uma menina, dizendo que, extremos de perseguição, ella fugiria para elle, e seria sua esposa.
Na tarde d'este dia Bartholo de Briteiros deitou-se a dormir a sesta: assim lh'o impoz o cauteloso espião. Fernando já tinha em si a carta e a resposta. Appareceu na praça do Dome, e Paulina no caramanchão. Poucas expressões se trocaram depois que Fernando atirou a carta.
A resposta era qual a delicada menina podia mais ambicionar. O amante sentia-se menos desditoso do que ella se imaginava. Para elle a afflicção de Paulina era extrema prova de amor. Antes a queria assim contrariada, e acrisolada ao fogo da oppressão. Incutia-lhe animo e esperanças. Promettia, mediante o auxilio do ministro em Londres, espiar os menores passos do marquez e de Bartholo. Se a não acoroçoava a fugir de seu pae, antevia, como primeira hora de sua felicidade sem nuvem, aquella em que Paulina se confiasse á sua honra. Do marquez dizia apenas que era inferior ao seu nojo, e lamentava que os grandes fidalgos andassem a competir em aviltamento com a mais infima ralé.
O marquez, escondido n'uma loja da praça, presenciava os passos de Fernando. O homem, que tanto preleccionara acerca da prudencia, não teve mão de si. O demonio da pobreza espicaçava-o! Era o demonio da pobreza que prevalecia ás furiasdo ciume. Saiu da loja, e veio ao meio da praça por onde Fernando caminhava com a altivez que dá a felicidade do coração.
Viu elle o marquez, e, a seu pesar, dardejou-lhe um olhar de desprezo, que parecia provocação. O neto de reis, se havia de ir ávante, e deixar o verme, parou, metteu as mãos nas algibeiras; e fez um tregeito de pernas, e assobiou umas toadas, que fariam as delicias de um faiante em pleno goso de seus tavernaes meneios.
Fernando sorriu-se, e caminhou.
—O senhor ri-se?—exclamou o marquez.
—Ri, sim, senhor—disse placidamente o filho de Francisco Lourenço.
—Que quer dizer o seu riso?!—replicou o fidalgo.
—Que vossa excellencia é uma pessoa irrisoria.
—Mas eu arranco-lhe os figados pela boca, bradou o marquez.
—Operação difficil!... tornou Fernando sorrindo.
—Julga-me da sua bitola, sô villão?
—Eu não sei como hei de julga-lo, senhor marquez, depois que o julguei tolo!
E approximou-se com magestosa serenidade. Fernando parecia crescer, nutrir, illuminar-se, e tornar-se mesmo grande aos olhos do convencionado de Evora-Monte.
—Tem de dar-me uma satisfação com armas! replicou o marquez. Joga alguma que não seja o arcabuz do cerco do Porto?
—Não senhor; não jogo armas.
—Quer dizer que não se bate?
—Bato com todas.
—Tem padrinhos?
—Os dois primeiros homens que se encontrarem. O primeiro já eu vi.
—Quem? diga-o, para lhe enviar os meus.
—É um pintor: chama-se Leopoldo Roberto.
—Lá me quiz parecer! disse o marquez gargalhando uma risada secca.
—Que lhe quiz parecer a vossa excellencia?!
—Que os seus padrinhos haviam de ser pintores ou cousa que o valesse...
—A coarctada é miseravel, senhor marquez! vossa excellencia é um covarde, que não vale o desprezo do pintor.
O marquez de Tavira levou as mãos ás proprias respeitaveis barbas. Puchou as mechas a um lado e outro com tregeitos muito de incutir terror em almas fracas. Deteve-se um pouco n'esta operação minacissima, e tirou do peito alfim estas memorandas coisas:
—Villão seria eu se expozesse a minha vida ao revez de sujar-me com tal competidor! Precisamente o senhor é um aventureiro, que anda a farejar mulher dotada cá por paizes onde lhe não conhecem a suja betesga d'onde saiu. Lá na patria sabem-lhe o nome, ou ninguem lh'o sabe, é mais acertado dizer!... Convinha-lhe a filha de Bartholo de Briteiros? Que atrevimento de ambições o seu! Afinal, que espera colher d'esta aventura?... A correcção dada por um lacaio de meu primo!
—Se o lacaio tiver mais coragem do que vossaexcellencia, em cujos hombros assentaria cabalmente a farda.
—Miseravel!...—rugiu o marquez!
—Tolo!—replicou Fernando.
O primeiro voltou as costas; o filho do artista permaneceu no seu posto alguns minutos, encarando as duas meninas, que os viram approximar da praça, e esperavam, atribuladas, a infelicidade do encontro.