XII

XIIDecorridos dez dias, chegou a Napoles Francisco Lourenço. Aqui o trouxera a certeza anciosa de encontrar seu filho em convalescença, se é que Fernando o não enganára com o louvavel intento de o poupar a maiores afflicções. Durante a viagem para França, o artista entendeu que saíra precipitadamente de Lisboa, sem agenciar relações que o dirigissem a Napoles. Quem o guiaria n'uma grande cidade como aquella? Estaria o filho n'um hotel ou nos arrebaldes?Para remediar semelhante imprevidencia, dirigiu-se, torcendo o seu itenerario, a Paris, e apresentou-se ao ministro portuguez, expondo o seu destino. O ministro deu-lhe carta para Napoles.Poucas horas depois da chegada, Francisco Lourenço tinha a certeza de que seu filho saira de Napoles dois annos antes, e nunca mais ahi voltára, ea certeza tambem de que o moço estava em Florença, havia quinze dias.Saiu Francisco para Florença, cuidando que seu filho peorára, ou melhorára a ponto de dispensar a convalescença n'outros ares. Com as recommendações que levára de Napoles, soube em pouco tempo que Fernando embarcára em Genova com destino a Londres.—A Londres!...—exclamou o velho.—Então é certo que meu filho me vae fugindo.—É mais natural que o vá procurando—respondeu a pessoa a quem o artista ia de Florença recommendado.—Póde ser que seu filho fosse embarcar para Portugal em algum dos portos de Inglaterra. O certo é que, minutos depois da sua chegada a Londres, o senhor ha de saber onde seu filho está hospedado, se é que elle lá está. Entretanto as minhas informações dão que Fernando Gomes—continuou o chefe da policia de Florença—estava mais ou menos ligado com uma familia portugueza emigrada, cuja cabeça é Bartholo de Briteiros, residente n'esta cidade por espaço de dois annos e tantos mezes. Dizem mais que Fernando Gomes e um tal marquez de Tavira concorreram a amar uma filha do senhor de Briteiros, e por ciume se insultaram na praça do Dome.—E meu filho—atalhou Francisco Lourenço com amargura—não esteve doente?!—As minhas informações não me dizem que elle estivesse doente, e penso poder asseverar-lhe que seu filho gosou em Florença a melhor saude. Encontrei-o miudas vezes em casa de Jeronymo Bonaparte,onde elle era muito estimado do principe. Comquanto não estivessemos relacionados, só de o ver devo crer que o senhor Fernando Gomes passasse bem, a julgar pelo seu aspecto não doentio, posto que pallido.Munido de indicações e uma carta, Francisco foi esperar em Genova a sahida de um barco inglez para Falmouth.Tão rapidamente quanto em Florença lhe prometteram esclarecimentos, recebeu-os em Londres, na repartição da policia, onde lhe deram umpolicemanque o guiou á rua, hotel, e numero do quarto em que assistia Fernando. O velho fez mentalmente o elogio da policia britannica.Bateu Francisco Lourenço na porta indicada. Abriu-lh'a o filho.—Entro com os braços abertos!—disse o velho convulsivo de jubilo.—Não te venho ralhar, filho!...Fernando abraçou-o com fervor, e limpou-lhe as lagrimas copiosas.—Minha mãe como está?—disse Fernando...—Doente a deixei... Deus sabe como ella está... Acho-te bom, meu Fernando... Ainda bem!... Não cuides que eu antes queria achar-te doente... Perdôo-te a mentira, porque... antes assim... E agora?... Agora vens ver tua mãe?...—Descance, meu pae—atalhou o enleiado moço.—Descance, e depois...—Não póde ser depois, Fernando... Que faço eu aqui?! Não vim vêr Londres; vim procurar-te, vim chamar-te. Se me não seguires, que faço eu longe de tua mãe, que a esta hora mal sabe quevoltas tenho dado... Era melhor que me não dissesses que ias para Napoles: poupavas-me tanto desgosto e fadiga!... Bem vês que estou muito velho... Não me deixaste assim... Em tres annos ninguem envelhece tanto...—Perdão, meu pae!—exclamou Fernando, apertando contra o seio as cans do velho lagrimoso.—Tanto chorar, na minha edade, é sorte de poucos... Vejo tantos paes, com os meus annos, em socego, á espera da morte, rodeados de seus filhos, fartos e ricos do fructo dos trabalhos d'elles...—Tem razão...—atalhou Fernando—mas esses são os paes que teem filhos menos desgraçados que eu! Eu queria contar-lhe a minha vida... uma só palavra a explica... é uma paixão, meu pae, que me deshonrou aos seus olhos; por amor d'uma mulher lhe menti, e me envileci em minha propria consciencia...—Não estás deshonrado aos meus olhos, Fernando... Desgraçado é que me pareces, filho... Não me contes a tua vida, que a sei. Lá deixaste em Florença as tuas memorias... Isso mesmo por que m'o não disseste? Antes isso que o engano. Eu não me espantaria que deixasses pae e mãe por uma mulher. Tuas irmãs tinham sido criadas no regaço de tua mãe, e fizeram o mesmo... Deixaram-nos sósinhos. Mas poderás tu dizer-me que futuro é o teu? que tencionas fazer? Bartholo de Briteiros, esse mau homem, que tem uma historia escripta com sangue, foge-te com a filha para Londres. Que vens tu aqui fazer? Queres tirar-lh'a?—Não, meu pae; quero vel-a, unicamente vel-a;porque no dia em que perder a esperança de a tornar a vêr, hei de matar-me para esquecel-a...Fernando escondeu o rosto no seio do pae, e exclamou:—Deixe-me chorar, que são as primeiras lagrimas. Não houve coração algum que m'as recebesse...E soluçava convulsivamente nos braços do velho, que o apertava ao peito com tremuras de compaixão e amor.—Diz-me tu, filho...—tornou com muita brandura Francisco Lourenço—essa senhora despreza-te?—Oh! não!... O desprezo seria a minha salvação—respondeu Fernando com vehemencia.—A desgraça é ella amar-me, e ser uma santa em dedicação e sacrificios. Por amor de mim foi tirada de Florença para Londres; e ha quinze dias que a cada instante a espero aqui... fugindo á crueza do pae, que quer casal-a...—E tu has de acceitar uma filha fugida a seu pae?...—interrompeu o velho.—Vê se podes, á custa mesmo da vida, ser honrado, filho! Seja o pae um malvado, seja a filha uma santa, embora...; mas não te absolvas em tua consciencia, se consentires que essa menina fuja para ti.—Mas o pae faz-me a injustiça de suppôr que eu não irei logo recebel-a como esposa? Não sabe que ella é...—Sei que é rica... os Briteiros são muito ricos... Isso é que me queres dizer, Fernando?...—Não, senhor; queria dizer-lhe que Paulina Briteirosnão é mulher que algum homem possa victimar, por mais infame que ser possa; ora eu, meu pae, amo-a com esta paixão que vê. O mundo não nos perdoaria a culpa de nos unirmos contra a vontade de seu pae?—O mundo não vos deixaria unir sem grande perseguição, filho. Antes de alcançares o descanço de uma honrada lucta com a sociedade, serias muitas vezes infamado, esmagado e talvez vencido.—Espere, meu pae!... cale-se!—exclamou de subito Fernando.—Estes passos são de mulher...—Será ella, meu Deus!—disse Francisco Lourenço.Fernando foi á porta, viu a criada confidente de Paulina. A moça assim que o viu debulhou-se em lagrimas, e balbuciou:—A menina não pôde escrever-lhe... Está-se preparando para sair com o pae... Recebeu ordem de repente. Vai para um convento da Irlanda: foi o que elle lhe disse, a não querer ella casar com o maldito marquez. A senhora D. Paulina não verteu nem uma lagrima, e respondeu: «Irei para onde o pae quizer; não caso com o marquez, que é um villão». Que coragem a d'aquella menina! Depois fez-me um signal; e eu corri a participar-lhe isto. A senhora D. Eugenia manda-lhe pedir que, para salvar a irmã de morrer no convento, indo o senhor para fóra de Londres, talvez se conseguisse que o pae a deixasse ficar em casa, e manda-lhe dizer que o faça se tem amor á pobre menina.—E porque não hade elle fazel-o?—atalhou Francisco Lourenço.—Diga vocemecê a sua ama que aolado de Fernando está seu pae, e que meu filho, por amor da senhora que soffre tanto, nos ha de obedecer a ambos.—É impossivel!—exclamou Fernando allucinado por sua enorme angustia.—É impossivel desamparal-a no maior aperto da perseguição! Para que me quer meu pae em Portugal, se eu vou lá morrer?!... Que vil eu seria no conceito de Paulina, affastando-me na occasião em que ella mais precisa do meu conforto?... Diga á sr.ª D. Eugenia—proseguiu elle voltando-se para a criada—que eu não posso obedecer lhe, salvo se ella entende que a minha morte remedeia os desgostos de sua irmã. É de crer que sim; mas eu é que estou convencido que Paulina quer que eu viva.Francisco Lourenço fitava o filho com os olhos embaciados de lagrimas, e não o contradisse.A creada saíu com um bilhete d'oito linhas escriptas por Fernando.Após breves instantes de silencio d'ambos, o filho disse serenamente:—Meu bom pae, eu agradeço á Providencia poder n'esta hora falar com um homem a quem devo as primeiras luzes da minha intelligencia. Maior desgraça seria a minha, se meu pae não podesse comprender-me, indultar-me, e compadecer-se. Accuso-me de o ter enganado; era mais honroso dizer-lhe que tinha coração, mas eu cuidei que mentindo, sem medo de ser descoberto, salvava a irreverencia inseparavel de confidencias taes a um pae. O meu engano duplica o merecimento de ser perdoado. Conhece a minha situação, meu pae. Coma alma despedaçada lhe digo que não sei como remedial-a. Quer que eu o siga? Seguirei: já vejo de todo e para sempre negra a minha vida... Seguirei; mas uma hora virá em que meu pae se lastime por ter imposto ao meu coração a sua respeitavel vontade. Se quer que eu viva e procure alguma saída d'este circulo de ferro, deixe-me seguir Paulina á Irlanda...—Bem, filho—atalhou o velho contrafazendo placidez e seguridade de animo—Concedo o que desejas e precisas; mas escuta: os meus haveres são poucos; tuas irmãs casaram dotadas; tu pouco tens gastado comparativamente ao que eu antevia; mas assim mesmo excede o que devia ser teu dote. A officina dá pouco, porque a tenho desamparada. Desde que em Lisboa se estabeleceram sapateiros francezes, muita freguezia me deixou. Não me affligiu este desprezo do que é nosso, porque, bemdito seja Deus, contava com o pouco para muita felicidade. Eu estou reduzido a tres contos de réis, e os bens do Cartaxo, que outro tanto poderão valer. Acabado isto, irei pedir agasalho a uma tua irmã, e tua mãe a outra; e tu, que és formado, a todo o tempo conseguirás algum emprego que te alimente. O fim da nossa vida póde assim talhar-se, e Deus permittirá que não seja peor. Digo-te isto para que saibas com que pódes contar, Fernando. Lança as tuas contas; e, quando vires que tens consumido o que possuo, tem tu a generosa compaixão de não pedir mais. Eu comigo não posso contar para o trabalho. Estou com pouquissima vista; mais de uma vez n'estes ultimos annos me tem ameaçadoa cegueira. Corre tudo na loja por conta dos officiaes: uns roubam, outros desmazelam-se; ninguem tenho em que possa fiar-me. Aqui tens singelamente dito tudo. Agora sê o que poderes ser em favor d'essa senhora; mas não te deshonres por causa do amor. Eu creio que é falso o amor que leva o homem á indignidade.Fernando, após breve pausa, respondeu:—Eu sabia quaes eram os haveres de meu pae, quando saí de Lisboa. Viajei dois annos, gastando o menos que podia. Como o meu viver era só, e indifferente ás regalias das cidades em que passei, restringi as minhas despezas á sustentação parca, e ao vestido mais urgente. Assim mesmo gastei muito em proporção do que devia gastar. Pouco tem hoje meu pae para a sua subsistencia: não devo pedir-lhe um quinhão d'essas migalhas. Irei ensinar linguas na Irlanda: sei um pouco de todas as que se falam na Europa. Muitos emigrados portuguezes aqui viveram assim. A fome illude-se com pouco.Francisco Lourenço abraçou o filho, e murmurou:—Não quero, filho, não quero isso assim. Quando a necessidade te obrigar ao trabalho e á independencia dos impossiveis recursos de teu pae, eu t'o direi sem pejo, nem pesar de te ver humilhado. Então trabalharás para ti, e verás quão doce é o pão negro que se lavra com o proprio suor...XIIIPaulina leu o bilhete de Fernando, que dizia assim:«Ver-me-has em toda a parte; e, quando me não vires, sabe que eu contemplo o céo que te cobre, ou te espero em outro mundo para uma outra vida. Vivo ou morto, a minha alma será sempre comtigo, Paulina! Ámanhã parto para Irlanda. Não sei se é para Dublin que te levam. Eu te encontrarei... Até lá.»E estava alli, á beira d'elle, o choroso velho, aquelle pae amantissimo, quando Fernando escreveu:Ámanhã parto!... A crueldade dos filhos que amam! Que fragil é tudo isto que ahi chamam leis da natureza, quando o amor, aquella creança dos fabulistas, mesmo ás cegas, lhes atira um encontrão!Em quanto Paulina relia o bilhete e o mostrava á irmã com a douda alegria de mulher amada, Bartholo de Briteiros, encerrado com o marquez de Tavira, dialogavam d'este theor:—Mas não me saberás tu explicar o contentamento com que Paulina se está preparando?!—dizia Bartholo.—Aquillo é febre que arrefece depressa, primo Briteiros. As mulheres são assim.—E era capaz de entrar no convento, e esquecer-se de pae, irmã, e tudo!—Nos primeiros dias, sim; depois, quando lhe faltasse o animo, e não visse o Fernando, nem tivesse noticias d'elle, modificava o seu parecer a respeito de conventos e de amor. As mulheres são assim, primo Briteiros. Umas ha que são capazes de morrer por orgulho, e outras por soberba são capazes de se envilecerem. Mas a nossa Paulina não ha de morrer nem aviltar-se, visto que o convento é uma fabula, e a fria Irlanda se não ha de gosar de a ter nos seus mosteiros. A creada desempenhou perfeitamente o papel, pelos modos. É o dinheiro mais bem empregado que tu tens consumido para salvar tuas filhas das unhas dos aventureiros...Corte-se aqui o dialogo para dar um esboço muito pela rama d'esta ladina creada, que tambem tinha a honra de ser portugueza.O marquez descobrira que ella era a intermediaria de Paulina e Fernando. Aconselhou, por isso, Bartholo que a seduzisse com dinheiro a ir participar a Fernando que a menina se recolhia a ummosteiro da Irlanda; e ao mesmo tempo, da parte de Eugenia, lhe pedisse que se retirasse de Londres, a ver se assim abrandavam os rigores do pae. A creada accedeu á proposta com o mais admiravel desapego de gratificação. Saiu logo a cumprir o mandado, e recebeu o bilhete de Fernando. Na fiel entrega do bilhete a Paulina é que assenta o elogio da creada. Bartholo ficou contente d'ella, e Paulina extremamente grata á expontanea resolução da creada. Mas é pena que tanto a ama, como a creada, como Fernando Gomes fossem enganados por cavillações suggeridas pelo marquez de Tavira, que era o mais refinado velhaco de que ainda tivemos noticia!Agora ate-se o dialogo.—Foi bem lembrada a tua ideia, primo!—tornou o ministro da Alçada, como que orgulhando-se de ter na sua parentella um sujeito com ideias.—O homem agora vae dar comsigo em Irlanda. Quem diabo lhe ha de lá dizer que nós vamos para Madrid?—É verdade!—exclamou o inventor da ideia com radiosa ufania.—Quando elle o souber—tornou Bartholo—espero eu que tu sejas meu genro, e minha filha feliz... Palavra de cavalheiro! eu não tinha alma de a fechar n'um convento! Quero-lhe muito, e por isso t'a dou com a condição de que nunca sairá da minha companhia, primo.—Já te disse que a minha maior dôr seria separar-me de ti, primo Briteiros! Se ha pessoa n'este mundo que eu preze tanto como a tua filha, és tu!Ainda mesmo que Paulina me fique odiando para sempre, e não venha a ser minha mulher, crê tu que tamanho golpe não cortará os vinculos de amizade que nos prendem. Serei um teu dedicado irmão, um vigilante mordomo do teu bem estar, capaz de todo me sacrificar ao zêlo com que tu olhas pela ventura de tuas filhas.—És honrado, primo Tavira!—exclamou Bartholo—Conta com o amor da minha Paulina, quando esse maldito demonio a tiver deixado...—D'elle estás tu livre, Briteiros! Se outro peor não vier depois... mas eu terei astucia para te salvar de todos.A creada, que captivara a confiança do amo, como sentisse remorder-lhe o remorso de ter, apesar de tudo, atraiçoado a menina que a tratara sempre como amiga, desde a infancia de ambas, cogitou no modo como foi industriada, e de si para si decidiu que a ida de Paulina para um convento de Irlanda era um logro a Fernando Gomes. Levada d'esta apprehensão, e do desejo de remediar o mal, se era um mal ser ecco da mentira, foi manso e manso colar a orelha á fechadura da porta que separava Bartholo e o marquez das salas mais frequentadas da casa. A parte do dialogo que ella escutou era a mais importante. O amo erguera a voz, quando perguntou ao marquez:—Quem diabo lhe ha de dizer que nós vamos para Madrid?—A criada respondeu entre si: «Hei de ser eu» e foi de corrida contar a Paulina o que ouvira; e, instantes depois, ia a caminho do hotel de Fernandocom a nova, e já em toda a seguridade de sua consciencia. O filho do artista ouviu o contra annuncio com prazer. Estava a seu lado o velho, como a gosar-se em lagrimas das poucas horas de convivencia com seu filho. Esperava dar-lhe na manhã do dia seguinte o adeus de indeterminada, e talvez eterna separação. A nova foi de prazer para ambos. Francisco Lourenço iria com seu filho para Hespanha, e te-lo-hia menos longe de si. O prazer de Fernando, de natureza diversa, consistia em ser Paulina menos sacrificada por amor d'elle. O convento avultava-lhe com mil angustias, que lá não existem. O receio de a ver sossobrar entre ferros, em lucta com os apertos monasticos recommendados por Bartholo, era a mais pungente de suas dôres. Entreluziam-lhe esperanças em Madrid: mais facilidade na fuga, mais protecção nos costumes; amigos que lhe dessem auxilio; e a breve jornada a Portugal.N'este enlevo de alegrias, forçoso era que viesse logo o desconto. Francisco Lourenço, quasi sem ponderar o valor da pergunta, disse a Fernando:—Essa senhora sabe de quem és filho?—Nunca m'o perguntou...—Nem tu lh'o dirias... mas tens tu reflectido n'este ponto? A senhora D. Paulina de Briteiros amar-te-hia se lhe tu houvesses dito que teu pae é o sapateiro da calçada do Sacramento? E amar-te-ha, quando alguem, bastante curioso, ou encarregado de saber o teu nascimento, a informe de que o viajante portuguez, posto que viva de seus proprios recursos, é filho de um sapateiro?Fernando odiou-se a si proprio n'este momento, e respondeu com um gesto desabrido.O artista achegou-se do filho para lhe vêr o rosto, cujas alterações seus olhos não alcançavam. E disse:—Fizeram-te mal estas reflexões, Fernando?—Fizeram, meu pae—disse o moço agastado.—Por isso mesmo, para me forrar d'estas agonias horriveis, melhor fôra que me tivesse dado a felicidade do artista. Eu seria a esta hora um homem com a alegria pura de todo o homem que trabalha, e tem suas ambições e coração circumscriptos a muito pouco. Que fatal lembrança a de me arrancar da minha esphera, para que eu hoje não tenha nenhuma! Os pequenos regeitar-me-hão como os grandes me regeitam, quando souberem quem eu sou!...—Deus se compadeça de ti!—murmurou o velho, limpando as lagrimas—e me perdôe a mim o mal que te fiz, pelo muito que tenho expiado a minha vaidade de te fazer maior do que teu pae. Valha-te o Senhor! Que direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhações? Para que a procuras afincadamente, se vaes de rastros após ella! Por que has de tu querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma carreira por onde levarias teus filhos á grandeza! São as tuas cartas de bacharel formado que te arremessam aos despropositos das ambições? Ou é a tua intelligencia que te diz que não nasceste para a mediania? Se é a tua habilitação, faz que ella te sirva, filho. Entra como quem és, e o pouco que és, na estrada da honra: faz realçar o teu merecimento com tuamesma humildade, e lá irás dar ao ponto onde chega o homem honrado, todo o homem, ainda que a muitos pareça que não. A tua intelligencia é impossivel que te aconselhe esse odio ao acaso que te fez nascer de paes mechanicos. Eu, filho, li quanto pude, estudei quanto os meus poucos principios me permittiram; e Deus sabe que nunca tive pejo de ser quem era. A razão esclarecida é o que falta aos homens que se envergonham de não terem nascido já nobres, já respeitados, e idolatrados do mundo. Pensava eu que, allumiando a tua razão, te dava armas para combateres os prejuizos e preconceitos miseraveis das raças. Fiz o contrario, filho; justamente o contrario...—Não, meu pae...—interrompeu Fernando—perdoe-me, e não se afflija, por amor de minha mãe lh'o rogo! Eu tenho o presentimento de que ainda hei de provar-lhe que me não vexo da baixeza do meu nascimento... esta dôr foi uma irreflexão, meu pae. Tem o coração estes desgraçados caprichos... Caprichos, e mais nada... Se Paulina me perguntar quem sou, dir-lhe-hei quem sou; se quizer saber quem é meu pae, dir-lhe-hei ufanamente quem é meu pae. Por que não?... Aquella candida alma deslustrar-se-hia em me ter pertencido? Então que torpe deve ser o coração humano! Com que prazer e ardor eu iria buscar á derradeira ordem social a mulher pobre, a filha do varredor das ruas, a filha do carrasco, que me desse o seu amor, sem perguntar-me a minha origem?...Alongou-se o dialogo entre os dois, que terminaram abraçando-se, e chorando.Era tempo de se aprestarem para a viagem. Fernando, sabendo que a familia Briteiros havia de atravessar o Canal no dia seguinte, de passagem para França, tomou nota da saida de um navio de Plymouth para portos de Hespanha. Resolveram seguir o caminho mais perto, consultando a vontade de seu pae.Pessoa extranha, que observasse o aspecto de Fernando, veria as nuvens que lhe assombreavam a alma. Embaciára-se-lhe, não sabemos por que maravilhoso influxo, a limpidez da esperança, com a qual até áquella hora conseguira affrontar a adversidade. Era o desalento, um não sei que de contricção intima, que paralysa as faculdades robustas da vontade n'um quasi morrer de toda ella.As terriveis hypotheses do pae, concernentes ao sapateiro em amores com a illustrissima pretendida do marquez de Tavira, poderiam tanto!O orgulho do coração do homem do povo será capaz de aniquilar tamanha paixão?Ha exemplos; mas tão obscuros que nenhum romancista quer fazer obra por elles.Em novella, criada para as folgas de grandes damas, e galans mancebos, enfastiados d'outros gosos, qual romancista baixa das alturas da sua imaginação a historiar quadros sociaes de sapateiros?Se em Portugal os sapateiros lessem, tal livro seria comprado por uma classe e pagaria as fadigas do popular escriptor.É precisa muita abnegação para isto, n'esta terra e com esta gente, que acha mesmo illiteraria a palavra «sapateiro».Artista, recommendam-me que digaartista, para não offender o apparelho articular das pessoas afidalgadas de nervos!Já é! ha poucos mezes contei, romanceei, panegyriquei a vida de um gallego n'um volume de duzentas e tantas paginas! É rastear muito esta arte! Ha tanto principe na historia portugueza a pedir romance! e tanta princeza tambem!Por que não hei de eu escrever historias de principes e de princezas, e deixar os sapateiros subir algum tanto na escala d'umas qualificações modernas que elles se vão inventando para seu uso, que a isso os obriga o menos-preço d'esta luminosissima e fraternal civilisação?O nome de sapateiro está a sumir-se. Já muitos do menoscabado officio se denominamartistas d'artes correlativas... dos pés. Dos individuos cultos, que os mettem n'estas andanças e chibanças, deviam elles chamar-se nãosapateiros, masferradores.XVO secretario da embaixada portugueza em Madrid havia sido camarada de Fernando Gomes no cerco do Porto; e seu contemporaneo na universidade. Approximara-os mais em Coimbra o paralelo dos nascimentos: eram ambos filhos de artistas. Separados depois da formatura, um para os cargos publicos, outro para as viagens, continuaram sempre correspondencia de bons amigos. O secretario da legação recebeu a nova da chegada de Fernando a Madrid, e maravilhou-se de encontral-o sumido n'um quarto de obscura estalagem.Contou o bacharel diffusamente a historia dos seus vagabundos amores, e explicou a obscuridade e recato em que tencionava viver para não causar desgostos á filha de Bartholo de Briteiros. Queria elle existir secretamente em Madrid, de modo que o pae de Paulina o imaginasse na Irlanda, procurando areclusa nos conventos; entretanto, era seu intento diligenciar casarem-se judicialmente, ou, no extremo d'algum imprevisto accidente, fugir com ella para Portugal. O amigo escusava prometter-lhe todo o auxilio. Era este um dos academicos que frequentavam a universidade em 1828, quando os dois lentes foram assassinados. Fôra elle um dos sorteados para a impolitica vingança; como quer, porém, que estivesse enfermo n'essa occasião, forrou-se assim ao incommodo de ser estrangulado. Ora Bartholo de Briteiros, como sabem, tinha sido o mais impassivel signatario do accordão: o amigo de Fernando vira caminharem á forca os seus condiscipulos; e tal rancor ganhou aos juizes, que só o nome de Briteiros lhe trouxe aos olhos faulas de raiva mal abafada pelo correr de dez annos. Para elle era não só prova de amigo, mas desforra de inimigo coadjuvar o camarada das linhas do Porto a zombar das astucias do ministro da Alçada.Com tal protecção, Fernando soube a hora em que chegou Bartholo, a rua e hotel onde se aposentou; e Paulina, pouco depois da sua chegada, recebia d'uma creada do seu quarto, na hospedaria, uma carta de Fernando.Francisco Lourenço, cuidando que assim ficavam bem encaminhados os honestos intentos de seu filho, seguiu para Lisboa. A mãe, anciada de saudades de ambos, quando viu o marido sem o filho, arrancou um ai, e perdeu o sentimento. Volvendo a si, ouviu com pasmo a miuda narrativa dos casos acontecidos ao esposo, e deu graças a Deus sem arguir a dura alma do filho. Á santa mulher, parasua consolação, bastou lhe saber que Fernando vivia. O procurar elle sua felicidade, na idade propria do amor, com tantas adversidades, foi á boa mãe maior motivo de compadecimento que de censura. Como, por momentos, o considerou morto, era natural que tudo lhe perdoasse, estando elle vivo. Assim ficaram os dois velhos, esperando que inesperadamente lhes apparecessem casados o filho e a gentil fidalga. Francisco Lourenço foi ao Cartaxo dar ordens a confortos da casa, mobilação, e mais aprestos, sendo que Fernando mostrara desejos d'ir alli descançar annos, ou talvez a vida toda, qualquer que fosse o incerto desenlace de suas canceiras.Bartholo e o marquez de Tavira davam-se os embora do feliz exito da sua falcatrua. Viam Paulina alegre, dada a bailes e a theatros, com bom rosto para o proprio marquez, e nem por sombras magoada d'alguma fugitiva saudade! O fidalgo continuava sempre a dizer «que as mulheres eram assim». E o pae de Paulina admirava a esperteza e acume seu futuro genro.Raro dia faltava á menina carta de Fernando, por intervenção do secretario da legação, que acintemente acceitara o conhecimento do marquez de Tavira, para mais de perto collaborar na derrota do Bartholo.Paulina entretinha horas de conversação com o amigo de Fernando, intervaladas por troca rapida de palavras concernentes ao intento que os approximava. No animo do fidalgo já a suspeita se ia ingerindo: a assiduidade das visitas do secretario incommodava-o,e tinha-o de atalaia. O marquez inquietava-se não menos que o primo. Acordaram os dois em dar de mão ao visitante diario d'algumas horas. Mas, nos bailes ou nos theatros, o secretario era o flagello dos dois olheiros, que se viam baldeados, como lá dizem, entre Scylla e Charybdes.Assentou Bartholo em ser pae severo. Apresentou-se á filha. Ia de catadura horrida. Dir-se-ia que empunhava a penna para assignar um accordão de pena ultima.—Paulina!—disse.—Meu papá.—Vamos a contas.—A contas?!—Que quer dizer a pertinacia d'este homem, que te não deixa?—Qual homem, meu papá?—disse ella, pensando que Fernando fôra descoberto no seu esconderijo.—O homem da embaixada... este mal trapilho que tem o pae em Lisboa a fazer candieiros na rua Augusta.—Eu sei cá o que elle quer?... O primo marquez foi quem o apresentou, e não me disse se o pae d'elle fazia candieiros.—Fale-me com mais humildade!—bradou Bartholo.—Pois eu que disse menos humilde?—Não quero ironias.—Ironias!... O papá é injusto comigo!... Eu posso lá saber a razão porque o homem nos procura? Pensei que o faria por delicadeza, por sermospatricios, e conhecermos pouco a sociedade de Madrid.—Então...—tornou o pae—asseveras-me que elle não tem intenção nenhuma menos respeitosa?—Pois elle ha de faltar-me ao respeito?... Jesus!Ó céos! o rosto de innocencia estupida com que Paulina fez aquella pergunta! Ó amor, o que tu pódes e fazes! Que uma dama de bons annos, quarenta pelo menos, puxados á fieira do amor, consiga lograr uma criança incauta, isto está de seu na natureza das cousas; mas que uma menina de dezesete annos, ainda agora a florescer a sua primeira primavera de coração, zombe da vigilancia e perspicacia d'um pae quinquagenario, e o esteja assim logrando com uns dizeres de parvoinha candura!... Uma hora de amor é um curso de theatro completo. Quantas ficções lá se aprendem, com grandes estafas, nas aulas do conservatorio dramatico, vae ahi qualquer menina espigadinha exercita-las todas ante o auditorio da sua familia, se me concedeis que ella tenha uma faisca de lume no olho, e um Etna dentro do peito!E diz o apophtegma antigo:Amor logra muitas cousas, e o dinheiro tudo! Não é assim: as luzes desmentiram tambem os Senecas e Theophrastos. O dinheiro não consegue desbestialisar o alarve que o tem a rôdos; e o amor vae dentro do espirito mais rombo e bôto, e eil-o que o desentranha em prodigios de subtilezas, argucias, e sublimes velhacarias! E até talento! Ha ahi sujeito que vingou um nome esperançoso n'uma época de sua vida:chegou mesmo a escrever locaes com certo orientalismo; e de repente tapam-se-lhe as valvulas, e o talento suppura por tolice. Que foi? Averigua-se e sabe-se que o homem deixou de escrever as locaes aziaticas assim que a mulher amada casou com outro.Bartholo não teve que recalcitrar a esta pergunta:—Pois ha de elle faltar-me ao respeito!?—E depois a exclamação «Jesus!» desarmou-lhe de todo as suspeitas. E, como se tanto fosse pouco, Paulina continuou:—Não quer o papá que eu fale mais com o Almeida? Não falarei. Verá como lhe volto as costas assim que o vir.—Não é preciso tanto, nem nada, filha—redarguiu de muito bom rosto o pae—se me tu dizes que o Almeida nada te diz que te preoccupe o coração...—O coração!—interrompeu a menina com o mais pasmado e lindo semblante.—Ora essa!... O papá está a rir-se de mim, não está?—Falo-te serio, Paulina... Tenho muito medo da inexperiencia dos teus annos. Tu tens-me feito o sangue de fel e vinagre por causa d'aquelle homem, que me ia roubando a tua estima, e a ti mesma te ia fazendo esquecer de quem és... Ora agora, filhinha, que essa tempestade passou, tu não me dirás que foi o que te moveu a gostar do tal Gomes?... Não te envergonhes, menina, que ninguem nos ouve... Elle não se inculcava sequer pessoa de bem; era um bacharelzito, um inimigo das nossas crenças politicas e religiosas; em quantoá figura, tudo n'elle é plebeu, trivial; mesmo em talento e instrucção, que o principe gabava muito, eu nunca lhe ouvi dizer cousa que admirasse a gente; emfim, queria eu que me tu dissesses por que amaste tal homem...—Era um passa-tempo, papá!—Não duvido, Paulina; mas as meninas da tua qualidade, quando galanteiam para se divertirem, escolhem outra casta de homens, para que se lhes não atire á cara com precedentes desairosos, quando ellas amam seriamente, e com proposito de se casarem. Ora diz-me tu cá: se teu primo marquez se lembra de casar comtigo, cuidas que elle ha de gostar que tu hajas acceitado a côrte d'um sarrafaçal sem nome, que andava por esse mundo a gastar uns safados cobres lá do pae, que ninguem conhece?—Pois sim...—disse Paulina com mal refreada vehemencia—mas como o primo marquez se não lembra de ser meu marido, nem eu o queria, ainda mesmo que elle pensasse em tal...—Não o querias? então que mais querias tu, filha.—Eu não queria mais, nem tanto... Quero estar assim solteira, que estou bem... O papá não me dizia, ha poucos mezes ainda, que eu e a mana o matavamos se casassemos!...—Disse isso, na supposição de que saíeis da minha companhia; mas o marquez, se casar comtigo, não sae da minha casa. É já um contracto estipulado, filha... A minha palavra está dada; contei com o teu são juizo, quando a dei... Que respondes tu, Paulinasinha?—Deixe-me pensar, meu pae. O primo marquez não tem pressa da resposta, e o papá tambem não. Deixe-me gosar mais algum tempo a minha liberdade, e depois eu direi o que tiver pensado.—Pois sim, filha: dou-te quinze dias. Sou um bom pae, não sou? Outro qualquer diria: isto ha de fazer-se, porque quero que se faça. Eu, não. Transijo com a minha criança, na certeza de que ella ha de saber-me agradecer a brandura e os carinhos. Não has de querer que eu morra sem te vermarqueza de Tavira! O primo tem os vinculos desfalcados; mas a fidalguia d'aquelle sangue vale milhões para quem se preza de ser maior pelo nascimento que pelos bens da fortuna. Morro consolado se encontrar para tua irmã um marido egual... Em quanto ao secretario da legação, não deixes de lhe falar: trata-o bem, porque, a falar a verdade, lhe devemos a elle a alguma consideração que temos em Madrid. Não me parece mau rapaz; mas zangava-me ve-lo sempre que podia em segredos comtigo!... Que te dizia elle?—Nada que se não podesse ouvir... Só alguma vez, nos bailes ou no theatro, me fez rir com as suas satyras ás fidalgas hespanholas... é o que elle me diz baixinho, para os outros não ouvirem.—Ah! é isso?—atalhou com boçal confiança o jubiloso Bartholo.—Então, filha, continúa a rir-te com elle; mas tem compaixão do primo marquez, que arde em zêlos quando falas com alguem.—Pois que não arda, que eu tanto se me dá como não que elle fale com quem quizer. O pae cuidaque posso amar o primo marquez, com vinte e tres annos mais do que eu?...—Mas parece um rapaz, e ha de ser um excellente esposo, Paulina. Os maridos querem-se d'aquella edade.—Não sei para que!...—acudiu com perdoavel desenvoltura a menina.Bartholo ia explicar a vantagem que sobrelevam os maridos de quarenta aos de vinte annos, quando algum incidente privou a minha joven leitora de ver aqui tratada a preceito uma materia, que poderia cooperar grandemente para a sua futura felicidade. Decorreram os quinze dias aprazados para a decisão de Paulina.N'este espaço estreitou-se mais a correspondencia d'ella e Fernando, já inclinado á suspirada catastrophe do casamento judicial. A actividade do secretario, como agente d'este inesperado desfecho, foi inexcedivel. Opinara elle pela fuga, e depois casarem-se em Portugal. O filho do artista, com o animo abalado pelas honradas admoestações de seu pae, optou pelo casamento judicial, sem prescripção da menor formalidade honesta. Paulina pendia mais ao parecer do secretario, e achava escusadas as demasias de probidade com que o noivo queria tratado o seu casamento. Assim mesmo Fernando reagia á vontade de Paulina, e dizia acceitar o plano da fuga em ultimo recurso. A recusa estribava n'estas razões, dadas por elle ao seu amigo:—Se eu fujo com Paulina, porei um cunho infamante no meu procedimento. Se eu fosse um grande de Portugal, por brazões ou riquezas, a sociedadediria que eu tomára o violento alvitre da fuga para remover d'um lanço todas as difficuldades antepostas pelo capricho do pae. Assim plebeu, e quasi pobre, se fujo com ella, dir-se-ha que desprezei os meios judiciarios por medo de não achar justiça que ousasse contrariar a vontade do fidalgo poderoso.—Mas—atalhou o sincero amigo, que sabia muito do coração das damas, estudado em Hespanha—quem te diz a ti que, durante o processo necessario ao supprimento do consentimento paterno, a senhora D. Paulina varia de ideias, e requer a remoção do deposito para casa de seu pae? Quem te diz que...—Se o fizer—atalhou Fernando—mais tenho de me louvar pelo meu procedimento; claro é que Paulina devia arrepender-se, e dar-me o inferno, as mais tormentuosas agonias que tu podes imaginar. Antes isso, meu amigo: antes essa prova! Poderás tu fazer-me a justiça de suppôr que eu sigo os caprichos d'uma mulher rica?—Não.—Pois bem: venha depressa o momento em que eu possa conhecer-lhe a alma, cuja nobreza tu me deixas entrever a luz duvidosa.—Não é assim: eu previno, e mais nada.—Prevines a possibilidade do arrependimento, emquanto dura o processo.—É bem de ver.—E d'esperar?—Isso não sei; mas deves temer muito da força do adversario. Os juizes em Madrid são corruptissimos, e pesam na balança o oiro do fidalgo realista,e se o oiro do fidalgo realista pesar o quilate legal, acceitam esta legalidade, em vez d'outra que as leis estatuiram. Esta é uma das faces: a outra é a dos meios empregados no convento onde vae ser depositada Paulina, para a demoverem. Raro acontece que elles não vinguem, ao cabo de seis mezes d'espera. Insisto. Eu, em teu logar, fugia. A meia legua de Madrid estás em segurança. Na semana que vem, entras em Portugal. Chegas a Lisboa, e encontras na primeira egreja um prior que vos absolve. Uma batalha assim vencida é plena e gloriosa: a outra, que vaes dar, costuma ser tão golpeada de contrariedades, que, afinal, o triumpho é semsabor. Mas faz o que quizeres. Decide-te por um dos conselhos, que nunca poderás identificar os dois. Honra e coração costumam andar bem-avindos, mas é só nos romances.—E fóra dos romances, amigo Almeida—disse Fernando.—Agora mesmo te estou dando a prova. Diante das razoaveis difficuldades que me levantas, ouso ainda insistir pelo deposito, e envergonho-me de ter vacillado entre o processo judicial e a fuga.XVPaulina convidara Fernando a um colloquio nocturno, na vespera do dia em que havia de ser requerido o deposito. Este convite fôra-lhe suggerido pelo secretario da legação, que antevia mau desfecho do negocio tratado com pannos quentes. Induzira elle a menina a propôr de viva voz e com instancia ao noivo a fuga immediata: esperava Almeida que a presença, a resolução e intimativa de Paulina quebrantassem a firmeza do seu amigo.Era aquella a primeira vez que Fernando Gomes ouviu a voz de Paulina, depois da saída de Florença. Foi com alegria de coração; todavia algum vago presagio lhe ennublava o espirito.A familia Briteiros occupava o primeiro andar do melhor hotel de Madrid. Fernando devia entrar ás nove horas da noite e pedir um quarto noentre-soldo edificio. O corredor commum d'estes quartosbaixos tinha escada que subia ao primeiro andar. Ás onze horas Fernando subiria esta escada, e encontraria Paulina no tôpo. A excellencia do plano correspondeu á execução. Ninguem occupava os quartos inferiores, excepto um francez chegado á mesma hora. O hospede entrara, e fechara-se em sua camara. Ás onze horas era completo o silencio no andar superior. Bartholo dormia o pacifico somno de quem tomou o chá com algumas inoffensivas gottas de extracto de morfina, ministrado á filha pelo previdente secretario da legação, que assim pensava ir lentamente vingando os condiscipulos enforcados. O marquez recolhia da tertulia ás tres horas da manhã. Eugenia velava com sua irmã, como quem velava em cousa muito de seu interesse, e vae já dizer-se para que não esqueça.Fernando subiu as escadinhas em espiral.Quiz-lhe parecer que via um vulto á porta, aberta no cimo da escada, e parou no intento de retroceder. Fez-se um pallido clarão no interior da sala. Assomou á entrada Paulina, e murmurou:—Sóbe sem receio, Fernando.—Parece-me que estava aqui gente, quando eu subia...—disse o moço.—Não te enganaste.—Quem era?—Depois saberás tudo: escuso dizer-te que não tem nada comtigo o vulto. É um homem que ama minha irmã: é o conde de Rohan. Não podemos perder tempo—continua Paulina com adoravel alvoroço.—Preferes os mil estorvos com que vamos luctar á certeza da ventura sem o menor desgosto?—E o que é a ventura sem o menor desgosto, minha querida Paulina?—perguntou Fernando, já meio aturdido pelo magnetismo d'aquella voz, d'aquelles olhos, d'aquellas roupas brancas, d'aquella luz, d'aquelles braços, que, a tremerem, se lhe ousavam enlaçar no pescoço com o mais pudico despejo das almas puras, que tudo fazem com a mais santa das intenções.—Pois não achas mil vezes melhor que fujamos para Portugal?—tornou Paulina—Tu não me amas, não!... Vê tu que differença do teu coração para o meu!—Por Deus!—atalhou Fernando.—Eu não te amo, Paulina!?...—Que quer dizer a tua repugnancia em acabar com isto d'uma vez!?... Ha tanto tempo a soffrer a perseguição de meu pae!... Desde que acabaram os quinze dias, estou n'um martyrio incessante com perguntas, maus modos, e desprezos! E a padecer tanto por amor de ti! Sei que, se fôr depositada, meu pae ha de dar-me dias horriveis de amargura; e, por fim, tu verás que a justiça me entrega a elle para nunca mais saberes de mim, nem eu de ti, meu Fernando! Olha, querido amigo, tira-me d'aqui; fujamos para a tua familia; vamos ser felizes; lembra-te que eu deixo o amor de meu pae, e tudo, para seguir a tua sorte! Leva-me, Fernando, leva-me, porque depois de ámanhã n'esta casa nem tenho mesmo minha irmã que me console as tristezas e saudades. Minha irmã foge ámanhã por noite com o conde. Vão casar-se a Paris. Assim que ella lhe escreveu a chama-lo, veiu logo, e preparou tudopara a fuga. E eu pensava que o teu amor era mais forte que o d'elle!... Porque me não levas, Fernando? Falas-me tanto em honra, meu amado! Eu não entendo os pontos de honra em que me estás sempre falando! O nosso amigo Almeida tambem os não entende. Quando se ama verdadeiramente, as considerações, que tu me fazes, parece-me que ninguem as faz... Que prazer tens tu em que eu vá estar seis mezes ou mais n'um convento á espera que a demanda se decida, sem mesmo antevermos a certeza da decisão favoravel!? Isso é crueldade! Olha que me não vês, Fernando, nem talvez possas escrever-me! Se eu morrer de magua, de quem é a culpa? Quantas vezes te arrependerás de me não ter ouvido n'esta hora?Não era necessario tanto. Fernando Gomes estava vencido e convencido. As ultimas palavras de Paulina tinham sido cortadas de soluços. Nunca homem algum resistiu a isto! Scipião, o respeitador historico das mulheres, se visse este lance viria outra vez ao mundo dar testemunho de uma virtude, que a sua celebrada continencia usurpava.Fernando tomou nos braços a soluçante menina, e disse-lhe:—Fugiremos, Paulina. Fugiremos, quando quizeres. Ámanhã, se te apraz. Deus vê as minhas e tuas intenções. Espero que nunca te arrependas do passo, que o mundo, a seu pezar, não poderá infamar-te.Paulina expandiu-se em requebros de ternura e raptos de alegria. A combinação de horas, signaes, e menores accidentes da fuga ficou pactuado. Dissea menina que se conservasse elle á escuta algum tempo, emquanto ella ia preparar o pacotinho da mais necessaria bagagem; e, depois, a recadasse no seu quarto, e de madrugada a levasse comsigo, sendo este o melhor modo de não inspirar desconfianças. Como embriagado de alegria, Fernando accedeu a tudo sem contestar; esperou, e recebeu o pacote, que era uma mala ingleza quadrada, cujo peso elle notou com admiração.Ao romper da manhã, o passageiro, com ar de quem vae entrar nos vehiculos da madrugada, saíu do hotel; sobraçando a mala com grande espanto do creado, que o vira entrar sem ella, e recolheu-se á sua pousada, d'onde logo escreveu ao secretario da legação.Almeida acudiu logo a felicitar o reconsiderado amigo, congratulando-se de ter elle sido o indirecto motor da saudavel reforma nos estoicos principios do seu camarada. Traçaram o plano facilimo da fuga. Fóra de portas estariam cavalgaduras. O funccionario diplomatico iria com os fugitivos para remover obstaculos imprevistos da policia. Fernando era já o homem avesso do dia anterior. Falava o coração, alliviado do pesadello da impertinente honra.Sentia-se enlouquecer de esperanças alegres, anciosas, insoffridas da morosidade do tempo.—Aqui tens a riqueza da minha Paulina!—disse elle sorrindo e mostrando a mala.—Ninguem dirá que eu a raptei por causa d'essa malinha, que deve encerrar algum vestido, e as minhas cartas...Almeida tomou ao alto a mala, e disse:—Não: aqui ha alguma cousa mais que sedas e papeis! Isto pesa como ouro.—Ouro?! estás brincando!—disse Fernando.—Está aberta a mala. Se não temes a profanação, vejamos o que vae aqui.—Sim, vejamos—condescendeu Fernando, desfivellando as correias.Ao de cima iam as cartas em massos, cintadas com fitas de diversas côres. Seguia-se alguma, pouca e finissima roupa branca, cuja hollandilha, e cambraia tomava pouco espaço. Depois, um vestido de seda azul, o que ella vestia no baile de Jeronymo Bonaparte, onde viu Fernando Gomes pela primeira vez. Depois, sobre o fundo da mala, descobriram uma caixa de tartaruga, pouco mais larga e comprida que um palmo. Esta caixa é que realmente pesava como ouro, e estava fechada.Fernando esteve algum tempo tomando o peso da caixa, em meditativo silencio, e disse:—Não levo isto: é preciso que faças chegar, antes de á noite, este objecto a Paulina. Aqui vão grandes valores... não levarei comigo, aqui fechada, a minha condemnação. O mundo chama ladrões aos homens que praticam assim. Depressa, Almeida. Inventa o milagre de fazer entregar isto a Paulina, quando não, está tudo transtornado.—És um homem impossivel!—replicou o secretario da legação, menos escrupuloso que philosopho, se é que se chama acertadamente philosophos, uns sujeitos que sabem receber, em pleno espirito, a luz toda do seculo.—Pois tu recusas acceitar Paulina com as joias do seu uso?—Recuso. Paulina não tem nada.—Nem a legitima de sua mãe?—Paulina é menor: seu pae é que lh'a administra.—Eu não discuto direito comtigo; limito-me a descobrir que és um asno exemplar, e dá-me vontade de te mandar cavar pés de... Com effeito! Venham aqui aprender moralisação os futuros amadores de meninas que levam caixõesinhos pesados, quando fogem com os amantes!...—Tens graça; mas eu tenho razão, que é melhor—retorquiu Fernando Gomes.Emquanto elles altercam já em phrases desabridas, saibamos que rumor é este que vae em casa de Bartholo de Briteiros.O creado do hotel, como visse saír o hospede de algumas horas com a mala que não trouxera, obedeceu ao instincto da curiosidade, e seguiu-o com todas as precauções. Viu a pousada em que entrára, tomou o numero da porta, e voltou a casa a dar conta ao patrão.O dono do hotel, timbroso em manter a fama honrada do seu estabelecimento, consultou o alcaide sem aventar suspeitas além das que realmente davam em resultado a verdade inteira do facto.Sabia elle que o locatario do primeiro andar era um portuguez riquissimo, e que mais de uma vez pernoitara, nos baixos da casa, um francez mysterioso, que tinha intelligencias com uma das filhas do portuguez, segundo elle deprehendera d'uma troca de escriptos, por alta noite, entre as janellas do primeiro andar e sobre-lojas. Estes esclarecimentosderam rastros ao alcaide para suas averiguações.Com quanto o sujeito da mala não fosse o francez alludido, observou mais o austero hospedeiro que, no mesmo dia, entre as oito e nove horas da manhã, o francez rebuçado cautelosamente sahira com um volume debaixo do braço. Estas coincidencias de dois homens na mesma pousada, na mesma noite, e com volumes iguaes, ou cousa assim, feriram faiscas de penetração na cabeça, aliás cerrada, do hespanhol, que, de collaboração com o alcaide, deu como effeito um consideravel roubo ao portuguez Bartholo de Briteiros.Esclarecido assim o facto, o alcaide apresentou-se ao fidalgo ás dez horas da manhã, e perguntou-lhe se suspeitava que em sua casa faltassem objectos de valor.—Não!—disse Briteiros—Quem ha de subtrahir objectos de valor de minha casa?!—Examine, senhor—disse o subalterno da policia—que a minha obrigação é averiguar, e sem detença.Bartholo entrou nos quartos de suas filhas improvisamente, e encontrou-as empacotando e dobrando roupa de seu uso.—Que fazem as meninas?!—perguntou o pae com assombro.Paulina e Eugenia ficaram tolhidas, interdictas, e incapazes de responder um monossyllabo.—Que estão a fazer, não ouvem?!—replicou Bartholo examinando a roupa dobrada.Acudiu-lhe uma atroz suspeita. Fez-se côr deterra. Dilataram-se-lhe em arqueijos as azas do nariz. Raiaram-se-lhe os olhos de linhas sanguineas. Correu ás gavetas dos toucadores e das commodas; remexeu tudo, revistou tudo impetuosamente, e exclamou:—As caixas das joias!? As tuas joias, Paulina, e as tuas, Eugenia? Onde estão cem mil cruzados de brilhantes de vossa mãe?Paulina cravou os olhos no chão, perdida a côr, e quasi os sentidos. Eugenia, mais fraca de compleição, e muito timorata, cahiu em joelhos, e exclamou:—Perdão, meu pae!...—Roubado! roubado!—bradou o velho—roubado por minhas filhas!E saiu em vertiginosa corrida e a brados por a casa fora, até entrar na sala onde estava o alcaide.Paulina, logo que o pae sahiu, disse á irmã:—Tu és uma miseravel se descobrires alguma cousa. Não pronuncies o nome dos desgraçados, Eugenia! Ainda que nos matem, salvemo-los a elles!D'ahi a instantes, foram as meninas chamadas á sala, e interrogadas. Nenhuma resposta deram ás perguntas do alcaide. Ás do pae respondiam, principalmente Paulina:—Os brilhantes e as joias não estão em poder de ladrões.Mas, no tocante a nomes, nenhuma proferiu palavra.N'este momento angustioso, entrou o secretario da legação. N'um relance comprehendeu tudo. Briteiros abraçara-se n'elle, exclamando:—Roubado em muitos contos de réis por consentimento de minhas filhas... E ellas, estas infames, estavam-se preparando para seguir os ladrões! Não haverá justiça em Hespanha, senhor alcaide?—Ha—respondeu Almeida—e o ministro portuguez, em Madrid, é o funccionario a quem primariamente compete solicitar a justiça em favor do senhor Bartholo de Briteiros. Os passos do senhor alcaide hão de ser dados de accordo comigo. Queiram esperar-me, que eu volto.Sahiu Almeida, e entrou em sua sege, que o transportou á pousada de Fernando Gomes.Sem lhe dar completa explicação das causas, obrigou-o a sair, e transportou-o a sua casa. Ahi, simplesmente lhe disse:—Se o meu plano vingar, d'aqui a pouco ha de estar Paulina comtigo.E saíu, a desapoderado galope dos cavallos, para o hotel de Briteiros.Ao apear, disse ao boleeiro:—Se uma senhora saltar na sege, vai n'um raio apea-la em casa, mas torce o caminho.Subiu. As meninas tinham saído da sala.Bartholo e o alcaide estavam ouvindo o depoimento do dono e creado do hotel, que denominavam francezes os conductores dos volumes.Almeida pediu licença para ter particular conferencia com as meninas. Bartholo cedeu de prompto, entregou-se cegamente ás deliberações do funccionario, que se dava o ar mysterioso de quem tem o fio da meada.A conferencia foi sem testemunhas.—Fernando está em minha casa—disse Almeida.—Aqui ha um desesperado recurso, um unico. A senhora D. Paulina entra na minha sege, e é conduzida a Fernando.—Oh! meu Deus! já!—exclamou ella, erguendo-se para saír.—E eu fico, Paulina?—bradou Eugenia.—Pois vossa excellencia tambem quer fugir com Fernando?—disse Almeida.—Eu havia de fugir esta noite com o conde de Rohan—respondeu Eugenia.—Fujam ambas!—tornou o secretario, mas onde está esse conde?—Era hospede cá no hotel... Amo-o ha cinco annos... Vamos, vamos, Paulina...—Eu indagarei onde está o conde—disse Almeida—Não se demorem.Alguns segundos depois, o estrepito da carruagem fazia tremer as vidraças do hotel. A visinhança viu o rapido saltar de duas meninas, veleiras como anjos alados, cobertas e encapuzadas de capas de merino branco com bordados e borlas verdes nos capuzes. Ninguem soube dizer mais nada.O secretario saíu com o alcaide, e Bartholo de Briteiros tornou aos aposentos das filhas, no intento de as mandar vestir para entrarem n'um convento.Quando assomou á porta do quarto, viu duas creadas debulhadas em lagrimas.

Decorridos dez dias, chegou a Napoles Francisco Lourenço. Aqui o trouxera a certeza anciosa de encontrar seu filho em convalescença, se é que Fernando o não enganára com o louvavel intento de o poupar a maiores afflicções. Durante a viagem para França, o artista entendeu que saíra precipitadamente de Lisboa, sem agenciar relações que o dirigissem a Napoles. Quem o guiaria n'uma grande cidade como aquella? Estaria o filho n'um hotel ou nos arrebaldes?

Para remediar semelhante imprevidencia, dirigiu-se, torcendo o seu itenerario, a Paris, e apresentou-se ao ministro portuguez, expondo o seu destino. O ministro deu-lhe carta para Napoles.

Poucas horas depois da chegada, Francisco Lourenço tinha a certeza de que seu filho saira de Napoles dois annos antes, e nunca mais ahi voltára, ea certeza tambem de que o moço estava em Florença, havia quinze dias.

Saiu Francisco para Florença, cuidando que seu filho peorára, ou melhorára a ponto de dispensar a convalescença n'outros ares. Com as recommendações que levára de Napoles, soube em pouco tempo que Fernando embarcára em Genova com destino a Londres.

—A Londres!...—exclamou o velho.—Então é certo que meu filho me vae fugindo.

—É mais natural que o vá procurando—respondeu a pessoa a quem o artista ia de Florença recommendado.—Póde ser que seu filho fosse embarcar para Portugal em algum dos portos de Inglaterra. O certo é que, minutos depois da sua chegada a Londres, o senhor ha de saber onde seu filho está hospedado, se é que elle lá está. Entretanto as minhas informações dão que Fernando Gomes—continuou o chefe da policia de Florença—estava mais ou menos ligado com uma familia portugueza emigrada, cuja cabeça é Bartholo de Briteiros, residente n'esta cidade por espaço de dois annos e tantos mezes. Dizem mais que Fernando Gomes e um tal marquez de Tavira concorreram a amar uma filha do senhor de Briteiros, e por ciume se insultaram na praça do Dome.

—E meu filho—atalhou Francisco Lourenço com amargura—não esteve doente?!

—As minhas informações não me dizem que elle estivesse doente, e penso poder asseverar-lhe que seu filho gosou em Florença a melhor saude. Encontrei-o miudas vezes em casa de Jeronymo Bonaparte,onde elle era muito estimado do principe. Comquanto não estivessemos relacionados, só de o ver devo crer que o senhor Fernando Gomes passasse bem, a julgar pelo seu aspecto não doentio, posto que pallido.

Munido de indicações e uma carta, Francisco foi esperar em Genova a sahida de um barco inglez para Falmouth.

Tão rapidamente quanto em Florença lhe prometteram esclarecimentos, recebeu-os em Londres, na repartição da policia, onde lhe deram umpolicemanque o guiou á rua, hotel, e numero do quarto em que assistia Fernando. O velho fez mentalmente o elogio da policia britannica.

Bateu Francisco Lourenço na porta indicada. Abriu-lh'a o filho.

—Entro com os braços abertos!—disse o velho convulsivo de jubilo.—Não te venho ralhar, filho!...

Fernando abraçou-o com fervor, e limpou-lhe as lagrimas copiosas.

—Minha mãe como está?—disse Fernando...

—Doente a deixei... Deus sabe como ella está... Acho-te bom, meu Fernando... Ainda bem!... Não cuides que eu antes queria achar-te doente... Perdôo-te a mentira, porque... antes assim... E agora?... Agora vens ver tua mãe?...

—Descance, meu pae—atalhou o enleiado moço.—Descance, e depois...

—Não póde ser depois, Fernando... Que faço eu aqui?! Não vim vêr Londres; vim procurar-te, vim chamar-te. Se me não seguires, que faço eu longe de tua mãe, que a esta hora mal sabe quevoltas tenho dado... Era melhor que me não dissesses que ias para Napoles: poupavas-me tanto desgosto e fadiga!... Bem vês que estou muito velho... Não me deixaste assim... Em tres annos ninguem envelhece tanto...

—Perdão, meu pae!—exclamou Fernando, apertando contra o seio as cans do velho lagrimoso.

—Tanto chorar, na minha edade, é sorte de poucos... Vejo tantos paes, com os meus annos, em socego, á espera da morte, rodeados de seus filhos, fartos e ricos do fructo dos trabalhos d'elles...

—Tem razão...—atalhou Fernando—mas esses são os paes que teem filhos menos desgraçados que eu! Eu queria contar-lhe a minha vida... uma só palavra a explica... é uma paixão, meu pae, que me deshonrou aos seus olhos; por amor d'uma mulher lhe menti, e me envileci em minha propria consciencia...

—Não estás deshonrado aos meus olhos, Fernando... Desgraçado é que me pareces, filho... Não me contes a tua vida, que a sei. Lá deixaste em Florença as tuas memorias... Isso mesmo por que m'o não disseste? Antes isso que o engano. Eu não me espantaria que deixasses pae e mãe por uma mulher. Tuas irmãs tinham sido criadas no regaço de tua mãe, e fizeram o mesmo... Deixaram-nos sósinhos. Mas poderás tu dizer-me que futuro é o teu? que tencionas fazer? Bartholo de Briteiros, esse mau homem, que tem uma historia escripta com sangue, foge-te com a filha para Londres. Que vens tu aqui fazer? Queres tirar-lh'a?

—Não, meu pae; quero vel-a, unicamente vel-a;porque no dia em que perder a esperança de a tornar a vêr, hei de matar-me para esquecel-a...

Fernando escondeu o rosto no seio do pae, e exclamou:

—Deixe-me chorar, que são as primeiras lagrimas. Não houve coração algum que m'as recebesse...

E soluçava convulsivamente nos braços do velho, que o apertava ao peito com tremuras de compaixão e amor.

—Diz-me tu, filho...—tornou com muita brandura Francisco Lourenço—essa senhora despreza-te?

—Oh! não!... O desprezo seria a minha salvação—respondeu Fernando com vehemencia.—A desgraça é ella amar-me, e ser uma santa em dedicação e sacrificios. Por amor de mim foi tirada de Florença para Londres; e ha quinze dias que a cada instante a espero aqui... fugindo á crueza do pae, que quer casal-a...

—E tu has de acceitar uma filha fugida a seu pae?...—interrompeu o velho.—Vê se podes, á custa mesmo da vida, ser honrado, filho! Seja o pae um malvado, seja a filha uma santa, embora...; mas não te absolvas em tua consciencia, se consentires que essa menina fuja para ti.

—Mas o pae faz-me a injustiça de suppôr que eu não irei logo recebel-a como esposa? Não sabe que ella é...

—Sei que é rica... os Briteiros são muito ricos... Isso é que me queres dizer, Fernando?...

—Não, senhor; queria dizer-lhe que Paulina Briteirosnão é mulher que algum homem possa victimar, por mais infame que ser possa; ora eu, meu pae, amo-a com esta paixão que vê. O mundo não nos perdoaria a culpa de nos unirmos contra a vontade de seu pae?

—O mundo não vos deixaria unir sem grande perseguição, filho. Antes de alcançares o descanço de uma honrada lucta com a sociedade, serias muitas vezes infamado, esmagado e talvez vencido.

—Espere, meu pae!... cale-se!—exclamou de subito Fernando.—Estes passos são de mulher...

—Será ella, meu Deus!—disse Francisco Lourenço.

Fernando foi á porta, viu a criada confidente de Paulina. A moça assim que o viu debulhou-se em lagrimas, e balbuciou:

—A menina não pôde escrever-lhe... Está-se preparando para sair com o pae... Recebeu ordem de repente. Vai para um convento da Irlanda: foi o que elle lhe disse, a não querer ella casar com o maldito marquez. A senhora D. Paulina não verteu nem uma lagrima, e respondeu: «Irei para onde o pae quizer; não caso com o marquez, que é um villão». Que coragem a d'aquella menina! Depois fez-me um signal; e eu corri a participar-lhe isto. A senhora D. Eugenia manda-lhe pedir que, para salvar a irmã de morrer no convento, indo o senhor para fóra de Londres, talvez se conseguisse que o pae a deixasse ficar em casa, e manda-lhe dizer que o faça se tem amor á pobre menina.

—E porque não hade elle fazel-o?—atalhou Francisco Lourenço.—Diga vocemecê a sua ama que aolado de Fernando está seu pae, e que meu filho, por amor da senhora que soffre tanto, nos ha de obedecer a ambos.

—É impossivel!—exclamou Fernando allucinado por sua enorme angustia.—É impossivel desamparal-a no maior aperto da perseguição! Para que me quer meu pae em Portugal, se eu vou lá morrer?!... Que vil eu seria no conceito de Paulina, affastando-me na occasião em que ella mais precisa do meu conforto?... Diga á sr.ª D. Eugenia—proseguiu elle voltando-se para a criada—que eu não posso obedecer lhe, salvo se ella entende que a minha morte remedeia os desgostos de sua irmã. É de crer que sim; mas eu é que estou convencido que Paulina quer que eu viva.

Francisco Lourenço fitava o filho com os olhos embaciados de lagrimas, e não o contradisse.

A creada saíu com um bilhete d'oito linhas escriptas por Fernando.

Após breves instantes de silencio d'ambos, o filho disse serenamente:

—Meu bom pae, eu agradeço á Providencia poder n'esta hora falar com um homem a quem devo as primeiras luzes da minha intelligencia. Maior desgraça seria a minha, se meu pae não podesse comprender-me, indultar-me, e compadecer-se. Accuso-me de o ter enganado; era mais honroso dizer-lhe que tinha coração, mas eu cuidei que mentindo, sem medo de ser descoberto, salvava a irreverencia inseparavel de confidencias taes a um pae. O meu engano duplica o merecimento de ser perdoado. Conhece a minha situação, meu pae. Coma alma despedaçada lhe digo que não sei como remedial-a. Quer que eu o siga? Seguirei: já vejo de todo e para sempre negra a minha vida... Seguirei; mas uma hora virá em que meu pae se lastime por ter imposto ao meu coração a sua respeitavel vontade. Se quer que eu viva e procure alguma saída d'este circulo de ferro, deixe-me seguir Paulina á Irlanda...

—Bem, filho—atalhou o velho contrafazendo placidez e seguridade de animo—Concedo o que desejas e precisas; mas escuta: os meus haveres são poucos; tuas irmãs casaram dotadas; tu pouco tens gastado comparativamente ao que eu antevia; mas assim mesmo excede o que devia ser teu dote. A officina dá pouco, porque a tenho desamparada. Desde que em Lisboa se estabeleceram sapateiros francezes, muita freguezia me deixou. Não me affligiu este desprezo do que é nosso, porque, bemdito seja Deus, contava com o pouco para muita felicidade. Eu estou reduzido a tres contos de réis, e os bens do Cartaxo, que outro tanto poderão valer. Acabado isto, irei pedir agasalho a uma tua irmã, e tua mãe a outra; e tu, que és formado, a todo o tempo conseguirás algum emprego que te alimente. O fim da nossa vida póde assim talhar-se, e Deus permittirá que não seja peor. Digo-te isto para que saibas com que pódes contar, Fernando. Lança as tuas contas; e, quando vires que tens consumido o que possuo, tem tu a generosa compaixão de não pedir mais. Eu comigo não posso contar para o trabalho. Estou com pouquissima vista; mais de uma vez n'estes ultimos annos me tem ameaçadoa cegueira. Corre tudo na loja por conta dos officiaes: uns roubam, outros desmazelam-se; ninguem tenho em que possa fiar-me. Aqui tens singelamente dito tudo. Agora sê o que poderes ser em favor d'essa senhora; mas não te deshonres por causa do amor. Eu creio que é falso o amor que leva o homem á indignidade.

Fernando, após breve pausa, respondeu:

—Eu sabia quaes eram os haveres de meu pae, quando saí de Lisboa. Viajei dois annos, gastando o menos que podia. Como o meu viver era só, e indifferente ás regalias das cidades em que passei, restringi as minhas despezas á sustentação parca, e ao vestido mais urgente. Assim mesmo gastei muito em proporção do que devia gastar. Pouco tem hoje meu pae para a sua subsistencia: não devo pedir-lhe um quinhão d'essas migalhas. Irei ensinar linguas na Irlanda: sei um pouco de todas as que se falam na Europa. Muitos emigrados portuguezes aqui viveram assim. A fome illude-se com pouco.

Francisco Lourenço abraçou o filho, e murmurou:

—Não quero, filho, não quero isso assim. Quando a necessidade te obrigar ao trabalho e á independencia dos impossiveis recursos de teu pae, eu t'o direi sem pejo, nem pesar de te ver humilhado. Então trabalharás para ti, e verás quão doce é o pão negro que se lavra com o proprio suor...

Paulina leu o bilhete de Fernando, que dizia assim:

«Ver-me-has em toda a parte; e, quando me não vires, sabe que eu contemplo o céo que te cobre, ou te espero em outro mundo para uma outra vida. Vivo ou morto, a minha alma será sempre comtigo, Paulina! Ámanhã parto para Irlanda. Não sei se é para Dublin que te levam. Eu te encontrarei... Até lá.»

E estava alli, á beira d'elle, o choroso velho, aquelle pae amantissimo, quando Fernando escreveu:Ámanhã parto!... A crueldade dos filhos que amam! Que fragil é tudo isto que ahi chamam leis da natureza, quando o amor, aquella creança dos fabulistas, mesmo ás cegas, lhes atira um encontrão!

Em quanto Paulina relia o bilhete e o mostrava á irmã com a douda alegria de mulher amada, Bartholo de Briteiros, encerrado com o marquez de Tavira, dialogavam d'este theor:

—Mas não me saberás tu explicar o contentamento com que Paulina se está preparando?!—dizia Bartholo.

—Aquillo é febre que arrefece depressa, primo Briteiros. As mulheres são assim.

—E era capaz de entrar no convento, e esquecer-se de pae, irmã, e tudo!

—Nos primeiros dias, sim; depois, quando lhe faltasse o animo, e não visse o Fernando, nem tivesse noticias d'elle, modificava o seu parecer a respeito de conventos e de amor. As mulheres são assim, primo Briteiros. Umas ha que são capazes de morrer por orgulho, e outras por soberba são capazes de se envilecerem. Mas a nossa Paulina não ha de morrer nem aviltar-se, visto que o convento é uma fabula, e a fria Irlanda se não ha de gosar de a ter nos seus mosteiros. A creada desempenhou perfeitamente o papel, pelos modos. É o dinheiro mais bem empregado que tu tens consumido para salvar tuas filhas das unhas dos aventureiros...

Corte-se aqui o dialogo para dar um esboço muito pela rama d'esta ladina creada, que tambem tinha a honra de ser portugueza.

O marquez descobrira que ella era a intermediaria de Paulina e Fernando. Aconselhou, por isso, Bartholo que a seduzisse com dinheiro a ir participar a Fernando que a menina se recolhia a ummosteiro da Irlanda; e ao mesmo tempo, da parte de Eugenia, lhe pedisse que se retirasse de Londres, a ver se assim abrandavam os rigores do pae. A creada accedeu á proposta com o mais admiravel desapego de gratificação. Saiu logo a cumprir o mandado, e recebeu o bilhete de Fernando. Na fiel entrega do bilhete a Paulina é que assenta o elogio da creada. Bartholo ficou contente d'ella, e Paulina extremamente grata á expontanea resolução da creada. Mas é pena que tanto a ama, como a creada, como Fernando Gomes fossem enganados por cavillações suggeridas pelo marquez de Tavira, que era o mais refinado velhaco de que ainda tivemos noticia!

Agora ate-se o dialogo.

—Foi bem lembrada a tua ideia, primo!—tornou o ministro da Alçada, como que orgulhando-se de ter na sua parentella um sujeito com ideias.—O homem agora vae dar comsigo em Irlanda. Quem diabo lhe ha de lá dizer que nós vamos para Madrid?

—É verdade!—exclamou o inventor da ideia com radiosa ufania.

—Quando elle o souber—tornou Bartholo—espero eu que tu sejas meu genro, e minha filha feliz... Palavra de cavalheiro! eu não tinha alma de a fechar n'um convento! Quero-lhe muito, e por isso t'a dou com a condição de que nunca sairá da minha companhia, primo.

—Já te disse que a minha maior dôr seria separar-me de ti, primo Briteiros! Se ha pessoa n'este mundo que eu preze tanto como a tua filha, és tu!Ainda mesmo que Paulina me fique odiando para sempre, e não venha a ser minha mulher, crê tu que tamanho golpe não cortará os vinculos de amizade que nos prendem. Serei um teu dedicado irmão, um vigilante mordomo do teu bem estar, capaz de todo me sacrificar ao zêlo com que tu olhas pela ventura de tuas filhas.

—És honrado, primo Tavira!—exclamou Bartholo—Conta com o amor da minha Paulina, quando esse maldito demonio a tiver deixado...

—D'elle estás tu livre, Briteiros! Se outro peor não vier depois... mas eu terei astucia para te salvar de todos.

A creada, que captivara a confiança do amo, como sentisse remorder-lhe o remorso de ter, apesar de tudo, atraiçoado a menina que a tratara sempre como amiga, desde a infancia de ambas, cogitou no modo como foi industriada, e de si para si decidiu que a ida de Paulina para um convento de Irlanda era um logro a Fernando Gomes. Levada d'esta apprehensão, e do desejo de remediar o mal, se era um mal ser ecco da mentira, foi manso e manso colar a orelha á fechadura da porta que separava Bartholo e o marquez das salas mais frequentadas da casa. A parte do dialogo que ella escutou era a mais importante. O amo erguera a voz, quando perguntou ao marquez:

—Quem diabo lhe ha de dizer que nós vamos para Madrid?

—A criada respondeu entre si: «Hei de ser eu» e foi de corrida contar a Paulina o que ouvira; e, instantes depois, ia a caminho do hotel de Fernandocom a nova, e já em toda a seguridade de sua consciencia. O filho do artista ouviu o contra annuncio com prazer. Estava a seu lado o velho, como a gosar-se em lagrimas das poucas horas de convivencia com seu filho. Esperava dar-lhe na manhã do dia seguinte o adeus de indeterminada, e talvez eterna separação. A nova foi de prazer para ambos. Francisco Lourenço iria com seu filho para Hespanha, e te-lo-hia menos longe de si. O prazer de Fernando, de natureza diversa, consistia em ser Paulina menos sacrificada por amor d'elle. O convento avultava-lhe com mil angustias, que lá não existem. O receio de a ver sossobrar entre ferros, em lucta com os apertos monasticos recommendados por Bartholo, era a mais pungente de suas dôres. Entreluziam-lhe esperanças em Madrid: mais facilidade na fuga, mais protecção nos costumes; amigos que lhe dessem auxilio; e a breve jornada a Portugal.

N'este enlevo de alegrias, forçoso era que viesse logo o desconto. Francisco Lourenço, quasi sem ponderar o valor da pergunta, disse a Fernando:

—Essa senhora sabe de quem és filho?

—Nunca m'o perguntou...

—Nem tu lh'o dirias... mas tens tu reflectido n'este ponto? A senhora D. Paulina de Briteiros amar-te-hia se lhe tu houvesses dito que teu pae é o sapateiro da calçada do Sacramento? E amar-te-ha, quando alguem, bastante curioso, ou encarregado de saber o teu nascimento, a informe de que o viajante portuguez, posto que viva de seus proprios recursos, é filho de um sapateiro?

Fernando odiou-se a si proprio n'este momento, e respondeu com um gesto desabrido.

O artista achegou-se do filho para lhe vêr o rosto, cujas alterações seus olhos não alcançavam. E disse:

—Fizeram-te mal estas reflexões, Fernando?

—Fizeram, meu pae—disse o moço agastado.—Por isso mesmo, para me forrar d'estas agonias horriveis, melhor fôra que me tivesse dado a felicidade do artista. Eu seria a esta hora um homem com a alegria pura de todo o homem que trabalha, e tem suas ambições e coração circumscriptos a muito pouco. Que fatal lembrança a de me arrancar da minha esphera, para que eu hoje não tenha nenhuma! Os pequenos regeitar-me-hão como os grandes me regeitam, quando souberem quem eu sou!...

—Deus se compadeça de ti!—murmurou o velho, limpando as lagrimas—e me perdôe a mim o mal que te fiz, pelo muito que tenho expiado a minha vaidade de te fazer maior do que teu pae. Valha-te o Senhor! Que direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhações? Para que a procuras afincadamente, se vaes de rastros após ella! Por que has de tu querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma carreira por onde levarias teus filhos á grandeza! São as tuas cartas de bacharel formado que te arremessam aos despropositos das ambições? Ou é a tua intelligencia que te diz que não nasceste para a mediania? Se é a tua habilitação, faz que ella te sirva, filho. Entra como quem és, e o pouco que és, na estrada da honra: faz realçar o teu merecimento com tuamesma humildade, e lá irás dar ao ponto onde chega o homem honrado, todo o homem, ainda que a muitos pareça que não. A tua intelligencia é impossivel que te aconselhe esse odio ao acaso que te fez nascer de paes mechanicos. Eu, filho, li quanto pude, estudei quanto os meus poucos principios me permittiram; e Deus sabe que nunca tive pejo de ser quem era. A razão esclarecida é o que falta aos homens que se envergonham de não terem nascido já nobres, já respeitados, e idolatrados do mundo. Pensava eu que, allumiando a tua razão, te dava armas para combateres os prejuizos e preconceitos miseraveis das raças. Fiz o contrario, filho; justamente o contrario...

—Não, meu pae...—interrompeu Fernando—perdoe-me, e não se afflija, por amor de minha mãe lh'o rogo! Eu tenho o presentimento de que ainda hei de provar-lhe que me não vexo da baixeza do meu nascimento... esta dôr foi uma irreflexão, meu pae. Tem o coração estes desgraçados caprichos... Caprichos, e mais nada... Se Paulina me perguntar quem sou, dir-lhe-hei quem sou; se quizer saber quem é meu pae, dir-lhe-hei ufanamente quem é meu pae. Por que não?... Aquella candida alma deslustrar-se-hia em me ter pertencido? Então que torpe deve ser o coração humano! Com que prazer e ardor eu iria buscar á derradeira ordem social a mulher pobre, a filha do varredor das ruas, a filha do carrasco, que me desse o seu amor, sem perguntar-me a minha origem?...

Alongou-se o dialogo entre os dois, que terminaram abraçando-se, e chorando.

Era tempo de se aprestarem para a viagem. Fernando, sabendo que a familia Briteiros havia de atravessar o Canal no dia seguinte, de passagem para França, tomou nota da saida de um navio de Plymouth para portos de Hespanha. Resolveram seguir o caminho mais perto, consultando a vontade de seu pae.

Pessoa extranha, que observasse o aspecto de Fernando, veria as nuvens que lhe assombreavam a alma. Embaciára-se-lhe, não sabemos por que maravilhoso influxo, a limpidez da esperança, com a qual até áquella hora conseguira affrontar a adversidade. Era o desalento, um não sei que de contricção intima, que paralysa as faculdades robustas da vontade n'um quasi morrer de toda ella.

As terriveis hypotheses do pae, concernentes ao sapateiro em amores com a illustrissima pretendida do marquez de Tavira, poderiam tanto!

O orgulho do coração do homem do povo será capaz de aniquilar tamanha paixão?

Ha exemplos; mas tão obscuros que nenhum romancista quer fazer obra por elles.

Em novella, criada para as folgas de grandes damas, e galans mancebos, enfastiados d'outros gosos, qual romancista baixa das alturas da sua imaginação a historiar quadros sociaes de sapateiros?

Se em Portugal os sapateiros lessem, tal livro seria comprado por uma classe e pagaria as fadigas do popular escriptor.

É precisa muita abnegação para isto, n'esta terra e com esta gente, que acha mesmo illiteraria a palavra «sapateiro».

Artista, recommendam-me que digaartista, para não offender o apparelho articular das pessoas afidalgadas de nervos!

Já é! ha poucos mezes contei, romanceei, panegyriquei a vida de um gallego n'um volume de duzentas e tantas paginas! É rastear muito esta arte! Ha tanto principe na historia portugueza a pedir romance! e tanta princeza tambem!

Por que não hei de eu escrever historias de principes e de princezas, e deixar os sapateiros subir algum tanto na escala d'umas qualificações modernas que elles se vão inventando para seu uso, que a isso os obriga o menos-preço d'esta luminosissima e fraternal civilisação?

O nome de sapateiro está a sumir-se. Já muitos do menoscabado officio se denominamartistas d'artes correlativas... dos pés. Dos individuos cultos, que os mettem n'estas andanças e chibanças, deviam elles chamar-se nãosapateiros, masferradores.

O secretario da embaixada portugueza em Madrid havia sido camarada de Fernando Gomes no cerco do Porto; e seu contemporaneo na universidade. Approximara-os mais em Coimbra o paralelo dos nascimentos: eram ambos filhos de artistas. Separados depois da formatura, um para os cargos publicos, outro para as viagens, continuaram sempre correspondencia de bons amigos. O secretario da legação recebeu a nova da chegada de Fernando a Madrid, e maravilhou-se de encontral-o sumido n'um quarto de obscura estalagem.

Contou o bacharel diffusamente a historia dos seus vagabundos amores, e explicou a obscuridade e recato em que tencionava viver para não causar desgostos á filha de Bartholo de Briteiros. Queria elle existir secretamente em Madrid, de modo que o pae de Paulina o imaginasse na Irlanda, procurando areclusa nos conventos; entretanto, era seu intento diligenciar casarem-se judicialmente, ou, no extremo d'algum imprevisto accidente, fugir com ella para Portugal. O amigo escusava prometter-lhe todo o auxilio. Era este um dos academicos que frequentavam a universidade em 1828, quando os dois lentes foram assassinados. Fôra elle um dos sorteados para a impolitica vingança; como quer, porém, que estivesse enfermo n'essa occasião, forrou-se assim ao incommodo de ser estrangulado. Ora Bartholo de Briteiros, como sabem, tinha sido o mais impassivel signatario do accordão: o amigo de Fernando vira caminharem á forca os seus condiscipulos; e tal rancor ganhou aos juizes, que só o nome de Briteiros lhe trouxe aos olhos faulas de raiva mal abafada pelo correr de dez annos. Para elle era não só prova de amigo, mas desforra de inimigo coadjuvar o camarada das linhas do Porto a zombar das astucias do ministro da Alçada.

Com tal protecção, Fernando soube a hora em que chegou Bartholo, a rua e hotel onde se aposentou; e Paulina, pouco depois da sua chegada, recebia d'uma creada do seu quarto, na hospedaria, uma carta de Fernando.

Francisco Lourenço, cuidando que assim ficavam bem encaminhados os honestos intentos de seu filho, seguiu para Lisboa. A mãe, anciada de saudades de ambos, quando viu o marido sem o filho, arrancou um ai, e perdeu o sentimento. Volvendo a si, ouviu com pasmo a miuda narrativa dos casos acontecidos ao esposo, e deu graças a Deus sem arguir a dura alma do filho. Á santa mulher, parasua consolação, bastou lhe saber que Fernando vivia. O procurar elle sua felicidade, na idade propria do amor, com tantas adversidades, foi á boa mãe maior motivo de compadecimento que de censura. Como, por momentos, o considerou morto, era natural que tudo lhe perdoasse, estando elle vivo. Assim ficaram os dois velhos, esperando que inesperadamente lhes apparecessem casados o filho e a gentil fidalga. Francisco Lourenço foi ao Cartaxo dar ordens a confortos da casa, mobilação, e mais aprestos, sendo que Fernando mostrara desejos d'ir alli descançar annos, ou talvez a vida toda, qualquer que fosse o incerto desenlace de suas canceiras.

Bartholo e o marquez de Tavira davam-se os embora do feliz exito da sua falcatrua. Viam Paulina alegre, dada a bailes e a theatros, com bom rosto para o proprio marquez, e nem por sombras magoada d'alguma fugitiva saudade! O fidalgo continuava sempre a dizer «que as mulheres eram assim». E o pae de Paulina admirava a esperteza e acume seu futuro genro.

Raro dia faltava á menina carta de Fernando, por intervenção do secretario da legação, que acintemente acceitara o conhecimento do marquez de Tavira, para mais de perto collaborar na derrota do Bartholo.

Paulina entretinha horas de conversação com o amigo de Fernando, intervaladas por troca rapida de palavras concernentes ao intento que os approximava. No animo do fidalgo já a suspeita se ia ingerindo: a assiduidade das visitas do secretario incommodava-o,e tinha-o de atalaia. O marquez inquietava-se não menos que o primo. Acordaram os dois em dar de mão ao visitante diario d'algumas horas. Mas, nos bailes ou nos theatros, o secretario era o flagello dos dois olheiros, que se viam baldeados, como lá dizem, entre Scylla e Charybdes.

Assentou Bartholo em ser pae severo. Apresentou-se á filha. Ia de catadura horrida. Dir-se-ia que empunhava a penna para assignar um accordão de pena ultima.

—Paulina!—disse.

—Meu papá.

—Vamos a contas.

—A contas?!

—Que quer dizer a pertinacia d'este homem, que te não deixa?

—Qual homem, meu papá?—disse ella, pensando que Fernando fôra descoberto no seu esconderijo.

—O homem da embaixada... este mal trapilho que tem o pae em Lisboa a fazer candieiros na rua Augusta.

—Eu sei cá o que elle quer?... O primo marquez foi quem o apresentou, e não me disse se o pae d'elle fazia candieiros.

—Fale-me com mais humildade!—bradou Bartholo.

—Pois eu que disse menos humilde?

—Não quero ironias.

—Ironias!... O papá é injusto comigo!... Eu posso lá saber a razão porque o homem nos procura? Pensei que o faria por delicadeza, por sermospatricios, e conhecermos pouco a sociedade de Madrid.

—Então...—tornou o pae—asseveras-me que elle não tem intenção nenhuma menos respeitosa?

—Pois elle ha de faltar-me ao respeito?... Jesus!

Ó céos! o rosto de innocencia estupida com que Paulina fez aquella pergunta! Ó amor, o que tu pódes e fazes! Que uma dama de bons annos, quarenta pelo menos, puxados á fieira do amor, consiga lograr uma criança incauta, isto está de seu na natureza das cousas; mas que uma menina de dezesete annos, ainda agora a florescer a sua primeira primavera de coração, zombe da vigilancia e perspicacia d'um pae quinquagenario, e o esteja assim logrando com uns dizeres de parvoinha candura!... Uma hora de amor é um curso de theatro completo. Quantas ficções lá se aprendem, com grandes estafas, nas aulas do conservatorio dramatico, vae ahi qualquer menina espigadinha exercita-las todas ante o auditorio da sua familia, se me concedeis que ella tenha uma faisca de lume no olho, e um Etna dentro do peito!

E diz o apophtegma antigo:Amor logra muitas cousas, e o dinheiro tudo! Não é assim: as luzes desmentiram tambem os Senecas e Theophrastos. O dinheiro não consegue desbestialisar o alarve que o tem a rôdos; e o amor vae dentro do espirito mais rombo e bôto, e eil-o que o desentranha em prodigios de subtilezas, argucias, e sublimes velhacarias! E até talento! Ha ahi sujeito que vingou um nome esperançoso n'uma época de sua vida:chegou mesmo a escrever locaes com certo orientalismo; e de repente tapam-se-lhe as valvulas, e o talento suppura por tolice. Que foi? Averigua-se e sabe-se que o homem deixou de escrever as locaes aziaticas assim que a mulher amada casou com outro.

Bartholo não teve que recalcitrar a esta pergunta:

—Pois ha de elle faltar-me ao respeito!?—E depois a exclamação «Jesus!» desarmou-lhe de todo as suspeitas. E, como se tanto fosse pouco, Paulina continuou:

—Não quer o papá que eu fale mais com o Almeida? Não falarei. Verá como lhe volto as costas assim que o vir.

—Não é preciso tanto, nem nada, filha—redarguiu de muito bom rosto o pae—se me tu dizes que o Almeida nada te diz que te preoccupe o coração...

—O coração!—interrompeu a menina com o mais pasmado e lindo semblante.—Ora essa!... O papá está a rir-se de mim, não está?

—Falo-te serio, Paulina... Tenho muito medo da inexperiencia dos teus annos. Tu tens-me feito o sangue de fel e vinagre por causa d'aquelle homem, que me ia roubando a tua estima, e a ti mesma te ia fazendo esquecer de quem és... Ora agora, filhinha, que essa tempestade passou, tu não me dirás que foi o que te moveu a gostar do tal Gomes?... Não te envergonhes, menina, que ninguem nos ouve... Elle não se inculcava sequer pessoa de bem; era um bacharelzito, um inimigo das nossas crenças politicas e religiosas; em quantoá figura, tudo n'elle é plebeu, trivial; mesmo em talento e instrucção, que o principe gabava muito, eu nunca lhe ouvi dizer cousa que admirasse a gente; emfim, queria eu que me tu dissesses por que amaste tal homem...

—Era um passa-tempo, papá!

—Não duvido, Paulina; mas as meninas da tua qualidade, quando galanteiam para se divertirem, escolhem outra casta de homens, para que se lhes não atire á cara com precedentes desairosos, quando ellas amam seriamente, e com proposito de se casarem. Ora diz-me tu cá: se teu primo marquez se lembra de casar comtigo, cuidas que elle ha de gostar que tu hajas acceitado a côrte d'um sarrafaçal sem nome, que andava por esse mundo a gastar uns safados cobres lá do pae, que ninguem conhece?

—Pois sim...—disse Paulina com mal refreada vehemencia—mas como o primo marquez se não lembra de ser meu marido, nem eu o queria, ainda mesmo que elle pensasse em tal...

—Não o querias? então que mais querias tu, filha.

—Eu não queria mais, nem tanto... Quero estar assim solteira, que estou bem... O papá não me dizia, ha poucos mezes ainda, que eu e a mana o matavamos se casassemos!...

—Disse isso, na supposição de que saíeis da minha companhia; mas o marquez, se casar comtigo, não sae da minha casa. É já um contracto estipulado, filha... A minha palavra está dada; contei com o teu são juizo, quando a dei... Que respondes tu, Paulinasinha?

—Deixe-me pensar, meu pae. O primo marquez não tem pressa da resposta, e o papá tambem não. Deixe-me gosar mais algum tempo a minha liberdade, e depois eu direi o que tiver pensado.

—Pois sim, filha: dou-te quinze dias. Sou um bom pae, não sou? Outro qualquer diria: isto ha de fazer-se, porque quero que se faça. Eu, não. Transijo com a minha criança, na certeza de que ella ha de saber-me agradecer a brandura e os carinhos. Não has de querer que eu morra sem te vermarqueza de Tavira! O primo tem os vinculos desfalcados; mas a fidalguia d'aquelle sangue vale milhões para quem se preza de ser maior pelo nascimento que pelos bens da fortuna. Morro consolado se encontrar para tua irmã um marido egual... Em quanto ao secretario da legação, não deixes de lhe falar: trata-o bem, porque, a falar a verdade, lhe devemos a elle a alguma consideração que temos em Madrid. Não me parece mau rapaz; mas zangava-me ve-lo sempre que podia em segredos comtigo!... Que te dizia elle?

—Nada que se não podesse ouvir... Só alguma vez, nos bailes ou no theatro, me fez rir com as suas satyras ás fidalgas hespanholas... é o que elle me diz baixinho, para os outros não ouvirem.

—Ah! é isso?—atalhou com boçal confiança o jubiloso Bartholo.—Então, filha, continúa a rir-te com elle; mas tem compaixão do primo marquez, que arde em zêlos quando falas com alguem.

—Pois que não arda, que eu tanto se me dá como não que elle fale com quem quizer. O pae cuidaque posso amar o primo marquez, com vinte e tres annos mais do que eu?...

—Mas parece um rapaz, e ha de ser um excellente esposo, Paulina. Os maridos querem-se d'aquella edade.

—Não sei para que!...—acudiu com perdoavel desenvoltura a menina.

Bartholo ia explicar a vantagem que sobrelevam os maridos de quarenta aos de vinte annos, quando algum incidente privou a minha joven leitora de ver aqui tratada a preceito uma materia, que poderia cooperar grandemente para a sua futura felicidade. Decorreram os quinze dias aprazados para a decisão de Paulina.

N'este espaço estreitou-se mais a correspondencia d'ella e Fernando, já inclinado á suspirada catastrophe do casamento judicial. A actividade do secretario, como agente d'este inesperado desfecho, foi inexcedivel. Opinara elle pela fuga, e depois casarem-se em Portugal. O filho do artista, com o animo abalado pelas honradas admoestações de seu pae, optou pelo casamento judicial, sem prescripção da menor formalidade honesta. Paulina pendia mais ao parecer do secretario, e achava escusadas as demasias de probidade com que o noivo queria tratado o seu casamento. Assim mesmo Fernando reagia á vontade de Paulina, e dizia acceitar o plano da fuga em ultimo recurso. A recusa estribava n'estas razões, dadas por elle ao seu amigo:

—Se eu fujo com Paulina, porei um cunho infamante no meu procedimento. Se eu fosse um grande de Portugal, por brazões ou riquezas, a sociedadediria que eu tomára o violento alvitre da fuga para remover d'um lanço todas as difficuldades antepostas pelo capricho do pae. Assim plebeu, e quasi pobre, se fujo com ella, dir-se-ha que desprezei os meios judiciarios por medo de não achar justiça que ousasse contrariar a vontade do fidalgo poderoso.

—Mas—atalhou o sincero amigo, que sabia muito do coração das damas, estudado em Hespanha—quem te diz a ti que, durante o processo necessario ao supprimento do consentimento paterno, a senhora D. Paulina varia de ideias, e requer a remoção do deposito para casa de seu pae? Quem te diz que...

—Se o fizer—atalhou Fernando—mais tenho de me louvar pelo meu procedimento; claro é que Paulina devia arrepender-se, e dar-me o inferno, as mais tormentuosas agonias que tu podes imaginar. Antes isso, meu amigo: antes essa prova! Poderás tu fazer-me a justiça de suppôr que eu sigo os caprichos d'uma mulher rica?

—Não.

—Pois bem: venha depressa o momento em que eu possa conhecer-lhe a alma, cuja nobreza tu me deixas entrever a luz duvidosa.

—Não é assim: eu previno, e mais nada.

—Prevines a possibilidade do arrependimento, emquanto dura o processo.

—É bem de ver.

—E d'esperar?

—Isso não sei; mas deves temer muito da força do adversario. Os juizes em Madrid são corruptissimos, e pesam na balança o oiro do fidalgo realista,e se o oiro do fidalgo realista pesar o quilate legal, acceitam esta legalidade, em vez d'outra que as leis estatuiram. Esta é uma das faces: a outra é a dos meios empregados no convento onde vae ser depositada Paulina, para a demoverem. Raro acontece que elles não vinguem, ao cabo de seis mezes d'espera. Insisto. Eu, em teu logar, fugia. A meia legua de Madrid estás em segurança. Na semana que vem, entras em Portugal. Chegas a Lisboa, e encontras na primeira egreja um prior que vos absolve. Uma batalha assim vencida é plena e gloriosa: a outra, que vaes dar, costuma ser tão golpeada de contrariedades, que, afinal, o triumpho é semsabor. Mas faz o que quizeres. Decide-te por um dos conselhos, que nunca poderás identificar os dois. Honra e coração costumam andar bem-avindos, mas é só nos romances.

—E fóra dos romances, amigo Almeida—disse Fernando.—Agora mesmo te estou dando a prova. Diante das razoaveis difficuldades que me levantas, ouso ainda insistir pelo deposito, e envergonho-me de ter vacillado entre o processo judicial e a fuga.

Paulina convidara Fernando a um colloquio nocturno, na vespera do dia em que havia de ser requerido o deposito. Este convite fôra-lhe suggerido pelo secretario da legação, que antevia mau desfecho do negocio tratado com pannos quentes. Induzira elle a menina a propôr de viva voz e com instancia ao noivo a fuga immediata: esperava Almeida que a presença, a resolução e intimativa de Paulina quebrantassem a firmeza do seu amigo.

Era aquella a primeira vez que Fernando Gomes ouviu a voz de Paulina, depois da saída de Florença. Foi com alegria de coração; todavia algum vago presagio lhe ennublava o espirito.

A familia Briteiros occupava o primeiro andar do melhor hotel de Madrid. Fernando devia entrar ás nove horas da noite e pedir um quarto noentre-soldo edificio. O corredor commum d'estes quartosbaixos tinha escada que subia ao primeiro andar. Ás onze horas Fernando subiria esta escada, e encontraria Paulina no tôpo. A excellencia do plano correspondeu á execução. Ninguem occupava os quartos inferiores, excepto um francez chegado á mesma hora. O hospede entrara, e fechara-se em sua camara. Ás onze horas era completo o silencio no andar superior. Bartholo dormia o pacifico somno de quem tomou o chá com algumas inoffensivas gottas de extracto de morfina, ministrado á filha pelo previdente secretario da legação, que assim pensava ir lentamente vingando os condiscipulos enforcados. O marquez recolhia da tertulia ás tres horas da manhã. Eugenia velava com sua irmã, como quem velava em cousa muito de seu interesse, e vae já dizer-se para que não esqueça.

Fernando subiu as escadinhas em espiral.

Quiz-lhe parecer que via um vulto á porta, aberta no cimo da escada, e parou no intento de retroceder. Fez-se um pallido clarão no interior da sala. Assomou á entrada Paulina, e murmurou:

—Sóbe sem receio, Fernando.

—Parece-me que estava aqui gente, quando eu subia...—disse o moço.

—Não te enganaste.

—Quem era?

—Depois saberás tudo: escuso dizer-te que não tem nada comtigo o vulto. É um homem que ama minha irmã: é o conde de Rohan. Não podemos perder tempo—continua Paulina com adoravel alvoroço.—Preferes os mil estorvos com que vamos luctar á certeza da ventura sem o menor desgosto?

—E o que é a ventura sem o menor desgosto, minha querida Paulina?—perguntou Fernando, já meio aturdido pelo magnetismo d'aquella voz, d'aquelles olhos, d'aquellas roupas brancas, d'aquella luz, d'aquelles braços, que, a tremerem, se lhe ousavam enlaçar no pescoço com o mais pudico despejo das almas puras, que tudo fazem com a mais santa das intenções.

—Pois não achas mil vezes melhor que fujamos para Portugal?—tornou Paulina—Tu não me amas, não!... Vê tu que differença do teu coração para o meu!

—Por Deus!—atalhou Fernando.—Eu não te amo, Paulina!?...

—Que quer dizer a tua repugnancia em acabar com isto d'uma vez!?... Ha tanto tempo a soffrer a perseguição de meu pae!... Desde que acabaram os quinze dias, estou n'um martyrio incessante com perguntas, maus modos, e desprezos! E a padecer tanto por amor de ti! Sei que, se fôr depositada, meu pae ha de dar-me dias horriveis de amargura; e, por fim, tu verás que a justiça me entrega a elle para nunca mais saberes de mim, nem eu de ti, meu Fernando! Olha, querido amigo, tira-me d'aqui; fujamos para a tua familia; vamos ser felizes; lembra-te que eu deixo o amor de meu pae, e tudo, para seguir a tua sorte! Leva-me, Fernando, leva-me, porque depois de ámanhã n'esta casa nem tenho mesmo minha irmã que me console as tristezas e saudades. Minha irmã foge ámanhã por noite com o conde. Vão casar-se a Paris. Assim que ella lhe escreveu a chama-lo, veiu logo, e preparou tudopara a fuga. E eu pensava que o teu amor era mais forte que o d'elle!... Porque me não levas, Fernando? Falas-me tanto em honra, meu amado! Eu não entendo os pontos de honra em que me estás sempre falando! O nosso amigo Almeida tambem os não entende. Quando se ama verdadeiramente, as considerações, que tu me fazes, parece-me que ninguem as faz... Que prazer tens tu em que eu vá estar seis mezes ou mais n'um convento á espera que a demanda se decida, sem mesmo antevermos a certeza da decisão favoravel!? Isso é crueldade! Olha que me não vês, Fernando, nem talvez possas escrever-me! Se eu morrer de magua, de quem é a culpa? Quantas vezes te arrependerás de me não ter ouvido n'esta hora?

Não era necessario tanto. Fernando Gomes estava vencido e convencido. As ultimas palavras de Paulina tinham sido cortadas de soluços. Nunca homem algum resistiu a isto! Scipião, o respeitador historico das mulheres, se visse este lance viria outra vez ao mundo dar testemunho de uma virtude, que a sua celebrada continencia usurpava.

Fernando tomou nos braços a soluçante menina, e disse-lhe:

—Fugiremos, Paulina. Fugiremos, quando quizeres. Ámanhã, se te apraz. Deus vê as minhas e tuas intenções. Espero que nunca te arrependas do passo, que o mundo, a seu pezar, não poderá infamar-te.

Paulina expandiu-se em requebros de ternura e raptos de alegria. A combinação de horas, signaes, e menores accidentes da fuga ficou pactuado. Dissea menina que se conservasse elle á escuta algum tempo, emquanto ella ia preparar o pacotinho da mais necessaria bagagem; e, depois, a recadasse no seu quarto, e de madrugada a levasse comsigo, sendo este o melhor modo de não inspirar desconfianças. Como embriagado de alegria, Fernando accedeu a tudo sem contestar; esperou, e recebeu o pacote, que era uma mala ingleza quadrada, cujo peso elle notou com admiração.

Ao romper da manhã, o passageiro, com ar de quem vae entrar nos vehiculos da madrugada, saíu do hotel; sobraçando a mala com grande espanto do creado, que o vira entrar sem ella, e recolheu-se á sua pousada, d'onde logo escreveu ao secretario da legação.

Almeida acudiu logo a felicitar o reconsiderado amigo, congratulando-se de ter elle sido o indirecto motor da saudavel reforma nos estoicos principios do seu camarada. Traçaram o plano facilimo da fuga. Fóra de portas estariam cavalgaduras. O funccionario diplomatico iria com os fugitivos para remover obstaculos imprevistos da policia. Fernando era já o homem avesso do dia anterior. Falava o coração, alliviado do pesadello da impertinente honra.

Sentia-se enlouquecer de esperanças alegres, anciosas, insoffridas da morosidade do tempo.

—Aqui tens a riqueza da minha Paulina!—disse elle sorrindo e mostrando a mala.—Ninguem dirá que eu a raptei por causa d'essa malinha, que deve encerrar algum vestido, e as minhas cartas...

Almeida tomou ao alto a mala, e disse:

—Não: aqui ha alguma cousa mais que sedas e papeis! Isto pesa como ouro.

—Ouro?! estás brincando!—disse Fernando.

—Está aberta a mala. Se não temes a profanação, vejamos o que vae aqui.

—Sim, vejamos—condescendeu Fernando, desfivellando as correias.

Ao de cima iam as cartas em massos, cintadas com fitas de diversas côres. Seguia-se alguma, pouca e finissima roupa branca, cuja hollandilha, e cambraia tomava pouco espaço. Depois, um vestido de seda azul, o que ella vestia no baile de Jeronymo Bonaparte, onde viu Fernando Gomes pela primeira vez. Depois, sobre o fundo da mala, descobriram uma caixa de tartaruga, pouco mais larga e comprida que um palmo. Esta caixa é que realmente pesava como ouro, e estava fechada.

Fernando esteve algum tempo tomando o peso da caixa, em meditativo silencio, e disse:

—Não levo isto: é preciso que faças chegar, antes de á noite, este objecto a Paulina. Aqui vão grandes valores... não levarei comigo, aqui fechada, a minha condemnação. O mundo chama ladrões aos homens que praticam assim. Depressa, Almeida. Inventa o milagre de fazer entregar isto a Paulina, quando não, está tudo transtornado.

—És um homem impossivel!—replicou o secretario da legação, menos escrupuloso que philosopho, se é que se chama acertadamente philosophos, uns sujeitos que sabem receber, em pleno espirito, a luz toda do seculo.—Pois tu recusas acceitar Paulina com as joias do seu uso?

—Recuso. Paulina não tem nada.

—Nem a legitima de sua mãe?

—Paulina é menor: seu pae é que lh'a administra.

—Eu não discuto direito comtigo; limito-me a descobrir que és um asno exemplar, e dá-me vontade de te mandar cavar pés de... Com effeito! Venham aqui aprender moralisação os futuros amadores de meninas que levam caixõesinhos pesados, quando fogem com os amantes!...

—Tens graça; mas eu tenho razão, que é melhor—retorquiu Fernando Gomes.

Emquanto elles altercam já em phrases desabridas, saibamos que rumor é este que vae em casa de Bartholo de Briteiros.

O creado do hotel, como visse saír o hospede de algumas horas com a mala que não trouxera, obedeceu ao instincto da curiosidade, e seguiu-o com todas as precauções. Viu a pousada em que entrára, tomou o numero da porta, e voltou a casa a dar conta ao patrão.

O dono do hotel, timbroso em manter a fama honrada do seu estabelecimento, consultou o alcaide sem aventar suspeitas além das que realmente davam em resultado a verdade inteira do facto.

Sabia elle que o locatario do primeiro andar era um portuguez riquissimo, e que mais de uma vez pernoitara, nos baixos da casa, um francez mysterioso, que tinha intelligencias com uma das filhas do portuguez, segundo elle deprehendera d'uma troca de escriptos, por alta noite, entre as janellas do primeiro andar e sobre-lojas. Estes esclarecimentosderam rastros ao alcaide para suas averiguações.

Com quanto o sujeito da mala não fosse o francez alludido, observou mais o austero hospedeiro que, no mesmo dia, entre as oito e nove horas da manhã, o francez rebuçado cautelosamente sahira com um volume debaixo do braço. Estas coincidencias de dois homens na mesma pousada, na mesma noite, e com volumes iguaes, ou cousa assim, feriram faiscas de penetração na cabeça, aliás cerrada, do hespanhol, que, de collaboração com o alcaide, deu como effeito um consideravel roubo ao portuguez Bartholo de Briteiros.

Esclarecido assim o facto, o alcaide apresentou-se ao fidalgo ás dez horas da manhã, e perguntou-lhe se suspeitava que em sua casa faltassem objectos de valor.

—Não!—disse Briteiros—Quem ha de subtrahir objectos de valor de minha casa?!

—Examine, senhor—disse o subalterno da policia—que a minha obrigação é averiguar, e sem detença.

Bartholo entrou nos quartos de suas filhas improvisamente, e encontrou-as empacotando e dobrando roupa de seu uso.

—Que fazem as meninas?!—perguntou o pae com assombro.

Paulina e Eugenia ficaram tolhidas, interdictas, e incapazes de responder um monossyllabo.

—Que estão a fazer, não ouvem?!—replicou Bartholo examinando a roupa dobrada.

Acudiu-lhe uma atroz suspeita. Fez-se côr deterra. Dilataram-se-lhe em arqueijos as azas do nariz. Raiaram-se-lhe os olhos de linhas sanguineas. Correu ás gavetas dos toucadores e das commodas; remexeu tudo, revistou tudo impetuosamente, e exclamou:

—As caixas das joias!? As tuas joias, Paulina, e as tuas, Eugenia? Onde estão cem mil cruzados de brilhantes de vossa mãe?

Paulina cravou os olhos no chão, perdida a côr, e quasi os sentidos. Eugenia, mais fraca de compleição, e muito timorata, cahiu em joelhos, e exclamou:

—Perdão, meu pae!...

—Roubado! roubado!—bradou o velho—roubado por minhas filhas!

E saiu em vertiginosa corrida e a brados por a casa fora, até entrar na sala onde estava o alcaide.

Paulina, logo que o pae sahiu, disse á irmã:

—Tu és uma miseravel se descobrires alguma cousa. Não pronuncies o nome dos desgraçados, Eugenia! Ainda que nos matem, salvemo-los a elles!

D'ahi a instantes, foram as meninas chamadas á sala, e interrogadas. Nenhuma resposta deram ás perguntas do alcaide. Ás do pae respondiam, principalmente Paulina:

—Os brilhantes e as joias não estão em poder de ladrões.

Mas, no tocante a nomes, nenhuma proferiu palavra.

N'este momento angustioso, entrou o secretario da legação. N'um relance comprehendeu tudo. Briteiros abraçara-se n'elle, exclamando:

—Roubado em muitos contos de réis por consentimento de minhas filhas... E ellas, estas infames, estavam-se preparando para seguir os ladrões! Não haverá justiça em Hespanha, senhor alcaide?

—Ha—respondeu Almeida—e o ministro portuguez, em Madrid, é o funccionario a quem primariamente compete solicitar a justiça em favor do senhor Bartholo de Briteiros. Os passos do senhor alcaide hão de ser dados de accordo comigo. Queiram esperar-me, que eu volto.

Sahiu Almeida, e entrou em sua sege, que o transportou á pousada de Fernando Gomes.

Sem lhe dar completa explicação das causas, obrigou-o a sair, e transportou-o a sua casa. Ahi, simplesmente lhe disse:

—Se o meu plano vingar, d'aqui a pouco ha de estar Paulina comtigo.

E saíu, a desapoderado galope dos cavallos, para o hotel de Briteiros.

Ao apear, disse ao boleeiro:

—Se uma senhora saltar na sege, vai n'um raio apea-la em casa, mas torce o caminho.

Subiu. As meninas tinham saído da sala.

Bartholo e o alcaide estavam ouvindo o depoimento do dono e creado do hotel, que denominavam francezes os conductores dos volumes.

Almeida pediu licença para ter particular conferencia com as meninas. Bartholo cedeu de prompto, entregou-se cegamente ás deliberações do funccionario, que se dava o ar mysterioso de quem tem o fio da meada.

A conferencia foi sem testemunhas.

—Fernando está em minha casa—disse Almeida.—Aqui ha um desesperado recurso, um unico. A senhora D. Paulina entra na minha sege, e é conduzida a Fernando.

—Oh! meu Deus! já!—exclamou ella, erguendo-se para saír.

—E eu fico, Paulina?—bradou Eugenia.

—Pois vossa excellencia tambem quer fugir com Fernando?—disse Almeida.

—Eu havia de fugir esta noite com o conde de Rohan—respondeu Eugenia.

—Fujam ambas!—tornou o secretario, mas onde está esse conde?

—Era hospede cá no hotel... Amo-o ha cinco annos... Vamos, vamos, Paulina...

—Eu indagarei onde está o conde—disse Almeida—Não se demorem.

Alguns segundos depois, o estrepito da carruagem fazia tremer as vidraças do hotel. A visinhança viu o rapido saltar de duas meninas, veleiras como anjos alados, cobertas e encapuzadas de capas de merino branco com bordados e borlas verdes nos capuzes. Ninguem soube dizer mais nada.

O secretario saíu com o alcaide, e Bartholo de Briteiros tornou aos aposentos das filhas, no intento de as mandar vestir para entrarem n'um convento.

Quando assomou á porta do quarto, viu duas creadas debulhadas em lagrimas.


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