XVI

XVIPaulina e Eugenia, menos apavoradas do que suppõe o leitor, apearam no pateo do secretario da legação, e foram guiadas a uma sala, em que Fernando Gomes, prostrado mais que o commum em lances taes, parecia meditar no suicidio. Paulina galvanisou-o moderadamente, apertando-lhe as mãos com mais tremor de ternura que d'afflicção.—Que abatimento, Fernando!—disse ella, em quanto Eugenia, desalentada pelo quebrantamento do moço, soluçava a chorar, na incerteza do seu destino.—Isto não é abatimento, Paulina...—disse elle—é porque em verdade eu recebo com dôr a alcunha de ladrão!... Falei-te eu em joias? Que infernal lembrança a de me dares os brilhantes de teu pae!... Quando te disse eu que precisava de ser infame para ser feliz?—Foi uma indiscrição, meu amigo; mas perdoa-m'a...—disse Paulina—Como os brilhantes tinham sido da mamã, e o papá muitas vezes nos disse que eram nossos, cuidámos que podiamos reparti-los entre ambas, sem medo de que chamassem roubo a isto. Agora não tem remedio a nossa loucura... Não te estejas tu assim a matar, meu Fernando. O crime é meu e não teu...—Cala-te, pobre criança!—redarguiu Fernando—tu não sabes que mal me fizeste...Algumas phrases mais, talvez inopportunas, do filho do artista, obrigaram Paulina a chorar e arrepender-se.Chegou, n'este escuro trance, o secretario, e todos o viram como prenuncio de bonança. Eugenia saíu logo a perguntar-lhe se sabia onde estava o conde.—Ainda não, minha senhora. Será talvez, difficil encontra-lo, se elle já souber que o perseguem.—Sou tambem perseguido?—atalhou Fernando.—Ninguem sabe o teu nome, mas precisamente te procuram na estalagem onde estavas. Porém, como falaste sempre francez, e, por bom alvitre meu, te despediste como quem vae para França, muito diabolica será a alcaidaria madrilense se te farejar aqui. Observo que os meus amigos estão todos tres sem juizo para decidirem o que lhes convém.—Eu decidi—disse Fernando.—O teu plano deve ser o unico racional na tua situação: é a fuga. A sr.ª D. Eugenia dir-me-ha o que tenciona fazer se o seu conde não apparece.—Não apparece!—exclamou ella atribulada.—Póde não apparecer, minha senhora, e não ha motivo para que vossa excellencia o considere descuidado, covarde, ou traidor.—Então que eu hei de fazer?!—tornou Eugenia, pondo as mãos com dilacerante angustia.—Quer vossa excellencia seguir sua irmã, e esperar em Portugal que eu a avise do destino do conde?—Não lembres á sr.ª D. Eugenia um destino impossivel—disse Fernando Gomes.—Eu não vou para Portugal.—Como?! não vaes para Portugal?—Não fujo—replicou Fernando—e, quando fugisse, não iria levar a meu pae a noticia do nome que deixo em Madrid.—Pois se ninguem te sabe aqui o nome?—Sabe-o a minha consciencia.—Pois foge para França—recalcitrou Almeida—ou para a Italia, ou para onde quizeres.—Não fujo; e perdoa-me, Paulina... Nós não podemos fugir. Teu pae vae receber de minha mão os brilhantes de sua mulher e de sua filha; tu entras espontaneamente n'um convento; de lá requeres dispensa do consentimento de teu pae: sairás de Madrid com honestidade, e eu com honra. É impossivel ser feliz, e dar-te felicidade, se faltarem estas condições á nossa união. Isto é irrevogavel, meu amigo. Por delicadeza e compaixão não discutas comigo. Temo que este anjo suspeite da minha dedicação, se tu me condemnares pela fraqueza das minhas apprehensões.Paulina teve momentos de suspeita, e outros peores de arrependimento. Quizera ella esconder-se com a vergonha de seu acto a um coração bastante forte, ou bastante desempoeirado, que lhe fizesse sentir com vaidade a grandeza do seu heroismo. Nem elle mesmo a absolvia! elle, por quem a imprudente se perdera no conceito do mundo, e na estima do pae! São pungentissimos os espinhos das corôas que santificam os martyres da honra! Este é um dos casos em que a mulher amada, amigo, sociedade tudo conjura a azedar com mais fel o calix do homem probo! Acontece que o leitor de um romance, que taes casos narra, sympathisa com semelhantes excepções d'este mundo sublunar, mas assim mesmo, o panegyrico do romance é galardão tardio, que não vale a menor das dôres que excruciavam a alma do pobre filho de Francisco Lourenço.Estavam como atrophiadas as duas meninas. Almeida, sem dizer o seu destino, tinha saído. Fernando encarou na lagrimosa Paulina, correu a ella, e ajoelhou-se-lhe aos pés, murmurando:—Duvidarás tu que te adoro, ó anjo da minha alma!... Poderás crer que o receio de ser apregoado ladrão me faz baixar ao egoismo de maldizer a hora em que te vi!... Não, não, minha querida filha; não me julgues capaz de afastar uma infamia com outra...—Degradei-me por amor de ti—soluçou ella—e agora hei de ir morrer n'um convento, sem a amizade de ninguem, perdida no conceito de toda a gente, e tratada com vilipendio por todos... Cuideique não me tornava indigna aos teus olhos...—Indigna aos meus olhos!—exclamou Fernando coberto de lagrimas—quando te disse eu palavra que te dê razão de tamanha calumnia! Ó Paulina, eu quero-te pobre, quero fugir comtigo já, mas salva tu da deshonra o meu nome, que ha de ser tambem o teu. Não leves o valor de um ceitil da casa de teu pae. Espera que o boato do grande roubo de cem mil cruzados, de que teu pae te argue, se desvaneça, para que a tua dignidade não fique tão feiamente manchada. Não vês tu que se trata de salvar o teu nome?—Salva-lo, como?...—redarguiu Paulina.—Restituindo os brilhantes—disse Fernando.—De que serve restitui-los? Crês tu que o pae me dará licença de ser tua esposa por isso? Meu pae tem cem vezes o valor dos brilhantes... Ha de perseguir-me atrozmente para eu não casar comtigo, Fernando...No entanto, o secretario da legação entrou no hotel de Bartholo de Briteiros.Encontrou o velho prostrado no leito, espertando d'uma demorada syncope. Ninguem ao lado do pobre pae! N'aquelle instante solemne calou-se o velho rancor de Almeida, e falou a compaixão.—Mataram-me, as ingratas!—exclamou Bartholo—fugiram, fugiram as perdidas! Deixaram-me assim, sósinho, a amaldiçoa-las, agora, e sempre, e na hora da morte...Almeida deixou-se abraçar pelo anciado velho, e disse-lhe:—Cobre a possivel serenidade para me ouvir, senhor Bartholo.—Diga o que quizer, meu amigo. Pouca vida terei para ouvi-lo.—Suas filhas deviam fugir ao vexame dos interrogatorios judiciaes, e fugiram. Conduziu-as a minha carruagem; estão em minha casa.—Estão?!...—exclamou Bartholo.—Estão, como se estivessem na austeridade d'um mosteiro. Vossa excellencia deu-lhes o impulso desgraçado que dão os paes que o não sabem ser. Quiz vossa excellencia pautar o coração de suas filhas: tentou um absurdo, que deu origem á culpa. A natureza reage contra as violencias; e a reacção é quasi sempre indiscreta ou criminosa. Sua filha Eugenia amava o conde de Rohan, sua filha Paulina amava Fernando Gomes. O francez sei quem é de tradição; Fernando, que eu conheço desde as escolas, é um homem de tantas e tão insolitas virtudes, que o mundo actual ha de vêr-lh'as com extranheza. Vossa excellencia impugnou o enlace de suas filhas com estes dois mancebos escolhidos por ellas. Uma, ia ser immolada ao marquez de Tavira, que sae embriagado dos alcouces ás tres horas da manhã; a outra estava esperando a sua hora de sacrificio. O funesto resultado d'estas coacções foi uma e outra conspirarem surdamente contra a insensata tyrannia de vossa excellencia. Fernando Gomes chegava a Madrid um dia antes de vossa excellencia, em vez de estar na Irlanda procurandoa senhora D. Paulina nos mosteiros; o conde de Rohan, chamado de França por a senhora D. Eugenia, veiu hospedar-se n'este mesmo hotel.—E eu sempre vendido e enganado por ellas!...—exclamou Bartholo.—Era a justa paga do despotismo com que vossa excellencia dispunha de suas filhas, que tinham em si o despotismo mais imperioso do coração! Pergunto eu ao sr. Bartholo de Briteiros: se suas filhas, para se libertarem d'um jugo violento, deram o extranho passo de prepararem a fuga, que crimes e vergonhas as reterão no mau caminho que tomaram, se vossa excellencia não tiver a prudencia de as chamar a si, e rehabilita-las no conceito do mundo?!... Por em quanto não ha nada que as avilte. O levarem ellas suas joias e as de sua mãe, isso, a meu vêr e de toda a gente, é cousa de si tão desculpavel, que não tem mesmo penas na lei que a puna. O valor moral do acto tambem nada significa. Imagine vossa excellencia que as suas filhas gostavam dos seus enfeites, e, quando fugiam, levaram comsigo esses adornos da vaidade, aos quaes ellas não ligaram valor algum real. Já disse a vossa excellencia que não conheço pessoalmente o conde, amado pela senhora D. Eugenia. Informei-me agora mesmo na embaixada franceza, e soube que o conde era um dos mais nobres legitimistas da França, e tem castellos, senão reconstruidos á moderna, cravejados de muitos brazões, que, se me não engano, podem competir antiguidade com os de vossa excellencia. Este cavalheiro era incapaz de ser o receptador de um furto. Em quanto a Fernando, oportuguez, posto que não tenha castellos nem mais appellido que oGomes, que vossa excellencia provavelmente não encontra nos seus nobiliarios, os brilhantes que se presumem ter ido n'uma caixa, em tão pouco os reputa elle, que me encarrega a mim de os depositar nas mãos de vossa excellencia. Queira o senhor Bartholo estalar a fechadura da caixa para verificar a identidade dos objectos. Fernando Gomes não sabe o que está ahi.Almeida entregou a caixa a Bartholo, que apenas o interrompia com variados gestos de raiva, surpreza e condescendencia.Depois proseguiu:—Fernando Gomes está fazendo companhia ás filhas de vossa excellencia em minha casa. O conde de Rohan está hospedado na embaixada franceza. O que o conde quer não sei; o que Fernando deseja é que a senhora D. Paulina entre pacificamente n'um convento, e de lá instaure um processo para vossa excellencia ser ouvido na questão de consentimento para matrimonio. Resolvi eu, sem permissão d'uns e d'outros, vir propôr a vossa excellencia o seguinte: suas filhas voltarão para casa, e vossa excellencia consentirá que ellas se desposem com homens de sua escolha, recahindo ella em sujeitos tão benemeritos como o conde e Fernando Gomes. Ouvirei a sua resposta.Bartholo desceu do leito, amparando-se ao hombro de Almeida. Passou á ante-camara, sentou-se a chorar e enxugar lagrimas, reflectiu alguns segundos, e disse:—Pois que venham as minhas filhas para casa,e eu cederei o que fôr de razão ceder. Mas, senhor Almeida!... Esta ignominia já deve ser notoria em todo o Madrid!—Apenas a justiça, auctorisada por vossa excellencia, anda em averiguações inuteis. Mande o senhor Bartholo suspender a vulgarisação que os esbirros estão dando aos desgostos particularissimos de sua vida.—Vou mandar...—disse Bartholo.—Veem, por tanto, suas filhas. Eu não levo a certeza dos bons intentos de vossa excellencia. Por isso mesmo ouso lembrar-lhe que, se forem o inverso dos meus bons desejos, as consequencias redundarão todas em desgostos maiores para vossa excellencia, e póde ser que mui grande vilipendio para suas filhas. O senhor Briteiros, se as chama para as castigar com violencias, abre n'esta casa trinta portas por onde ellas podem fugir. Ha uma hora em que um pae reconhece que toda a sua força se quebra diante do aceno d'uma debil criança. A lucta é desigual com o coração, senhor Bartholo...—Diz bem...—atalhou o velho.—Fui eu que as perdi com a educação, com o mundo, com a vida de Paris e Florença...—Assim seria; mas o mal é insanavel com cauterios: requer muita prudencia o corrigi-lo. Vossa excellencia póde faltar a suas filhas ámanhã; e o mundo ha de chama-las a si com a educação que lhes deu, e engolfa-las no seu abysmo. Salve-as com tempo, senhor Briteiros. A sociedade dá ás mulheres este nefasto prestigio, que as enthrona, coma condição de se despenharem depois na voragem onde foram buscar a realeza.—Diz bem...—repetiu Bartholo de Briteiros, que, segundo minha opinião, percebeu levemente o interlocutor.XVIIAlmeida foi apresentado ao conde de Rohan, que se envolvera na bandeira franceza, logo que houve noticia do descobrimento da projectada fuga.Para honra da França, diremos que o descendente do famoso cardeal, quando recebeu o pacote de Eugenia, se bem que o achou pesado, não cuidou que levava metade das joias e brilhantes. A mim, porém, me quer parecer que o illustre conde não faria caramunhas de mau gosto, quando a menina lhe mostrasse os aderesses de ricas pedras. A França, n'isto e em tudo, vae na dianteira dos espiritos. A virtude, lá, é cousa tão contingente, que chega a não ser regra. Menina que foge, não perde aos olhos do seu raptor, nem o tribunal do mundo se entoga com gravidade de juiz para cousa tão futil. O conde de Rohan pensava muito em descobrir Eugenia, e pouquissimo nos brilhantes, quando o cavalheirod'Almeida lhe foi apresentado pelo benevolo embaixador francez, amigo de ambos.Contou o secretario os successos decorridos, e a convenção, pouco segura, mas preparatoria para bom resultado, que fizera com Bartholo de Briteiros. O francez, approvando tudo com palavras de muito reconhecimento, pediu a Almeida a grande mercê de ser o apresentante dos brilhantes e dos seus respeitos ao fidalgo de Portugal. Estesrespeitos, associados aos brilhantes, fizeram que o secretario notasse a superioridade do espirito da França sobre o de Portugal. Em quanto Fernando se estava n'aquellas lamurias e quebrantos, o conde de Rohan, fumando um perfumado charuto de Havana, com a chavena de chocolate ao lado, sorria mui placidamente, ao passo que o informador contava os acontecimentos occorridos; e, com quanta graça mesureira tinha de seus placidos modos, enviouao fidalgo portuguez(hidalgo, disse elle) os seus brilhantes e os respeitos d'elle.—Em quanto á minha boa Eugenia—accrescentou o conde—terá o cavalheiro a benevolencia de lhe asseverar que eu sou sempre o mesmo homem, submisso escravo das suas vontades.Com tão boas novas, correu Almeida a sua casa.As noticias foram gratas a todos, posto que Paulina por palavras não denotasse a satisfação intima, que sentira. Póde deduzir-se, sem desairar a menina, que as amarguras de Fernando, aquellas exuberancias de dignidade, o muito falar na honra de seu nome, agradaram mediocremente á filha de Bartholo. Perguntei a differentes senhoras, differentes emtemperamento, se o despeito de Paulina seria justo. Com muita magua de meu coração ouvi resposta, unanime de todas—que Paulina tinha razão; que Fernando encerrava nas arterias agua chilra; que um homem, assim apontado em subtilezas de honra, poderá ser um bom guarda-livros, um bom mordomo d'uma casa, mas que ha de sempre ser um amante glacial.Fiquei suspenso, e prometti refutar semelhantes despropositos, quando escrevesse este romance. Desisto da tenção formada.Antes quero que o leitor discuta e abysme as senhoras que injuriaram o pobre moço, e acharam extrema graça e galhardia de animo no conde de Rohan.Entretanto, Paulina, ao despedir-se de Fernando, abraçou-o com exterioridades de muito affecto, e pediu-lhe que não chorasse, accrescentando:—Tu podes contar sempre comigo, Fernando. Esperanças de que meu pae consinta no casamento, não levo nenhuma; mas se tu entenderes que, por meios da justiça, podemos conseguir os nossos desejos, tão desgraçadamente contrariados quando eu me julgava e te julgava feliz, estou prompta a requerer.Notem a frialdade d'esta linguagem! Fernando, Eugenia e Almeida todos a notaram. Elle, porém, beijou-lhe a mão, e disse:—Vae, minha amiga, e esquece-me, se quizeres e poderes. O que nunca poderás esquecer é que o homem, que te não servia para o coração, tinha alguma boa qualidade que ha de eternamente viverem tua memoria. Antes esquecido por ti, que deshonrado por amor de ti, Paulina.Sobreveiu o secretario com reflexões tendentes a conciliar os animos despeitados dos dois tão amantes, tão doidos de alegria, algumas horas antes; e agora, a separarem-se, com a desconfiança n'alma, a desconfiança que é quasi sempre a doença morta do coração!Paulina desceu, chorando, encostada ao braço de Almeida.O filho do artista lembrou-se, n'este acerbo momento, de sua mãe, porque teve precisão de orar, e quem lhe ensinara a oração fôra sua mãe.Deixemo-lo orar e chorar. Preces e lagrimas assim, os anjos as levam ao Senhor. Áquellas almas disse Jesus: «pedi, e sereis attendidas.»Os que dão cegamente sua alma a quem a não merece, e rogam a Deus o resgate d'ella, sentem-se livres.Os que vão de rastros e quasi moribundos sob o pé da injustiça humana, oram, e recobram uma força, que é insulto á covardia dos fortes. Deixa-los chorar e orar.Deus lhes mostrará os balsamos das urnas que ahi estão a desbordar desde que o Homem-divino perdoou aos que o matavam por ignorancia. Porque não hão de perdoar estes homens de barro á cafila de farizeus que os não entendem?Da cafila de farizeus exceptuo Paulina de Briteiros. Se eu não podesse estrema-la, rasgava aqui estas paginas, e queimava os apontamentos, para que nenhum collega meu d'este maldito officiosaísse alguma vez a lume com a historia d'uma linda mulher com alma tão feia!Paulina e Eugenia entraram nos seus aposentos, sem verem o pae.O secretario foi ao quarto de Bartholo entregar a outra porção de brilhantes, e continuar sua missão de conciliador e conselheiro.O fidalgo denotava boas intenções, em quanto ao conde de Rohan. De Fernando Gomes disse, á terceira pergunta, que havia de pensar no melhor modo de se realisarem os desejos de sua filha.As meninas passaram aquelle dia sem leve incommodo de sua saude, nem accessos de lagrimas que mereçam chronica. Doe-me ter de dizer que, ahi por fins da tarde, riram com as creadas da figura que ellas deviam fazer, quando saltaram á carroagem, desgrenhadas, com os capuzes das capas encarapuçados á laia de feiticeiras. Esta frivolidade de espirito feminil é cousa tão vulgar, que eu peço á leitora que não levante a pedra, e deixe ir as cousas em paz, como Christo mandou ir uma peccadora.No dia seguinte Fernando Gomes, instado por seu amigo, saíu com elle em carroagem. Passearam até á ponte de Segovia, e apearam na praça do Sol, onde o secretario havia de cumprir ordens do ministro.O acaso encaminhara para alli o marquez de Tavira, que trazia o espirito encavalgado por um dragão.Viram-se e reconheceram-se.O marquez, cego de sua raiva, parou em frentede Fernando, e disse a brados que muita gente ouviu:—Ainda tem a pouca vergonha de se mostrar nas praças um biltre que seduz filhas-familias a roubarem seus paes!Se o periodo fosse mais comprido, morria incompleto na garganta do marquez. O filho de Francisco Lourenço engriphou os dedos com sanha felina. O rancor, brutalisando o homem, parece que lhe dá parecenças com a fera, cuja sanha imita! As dez unhas de Fernando faziam espirrar o sangue gothico do marquez, que escabujava como o Lacoonte de Virgilio nas roscas das serpentes. Cairam ambos de modo que o de Tavira foi fender o occipital no eixo d'uma carroagem, cujo dono fizera alto para disfructar a lucta.Almeida estava, poucos passos distante, observando o desenlace, que o enchia de jubilo. O marquez, ensanguentado, coberto de lama, e quasi desaccordado, nem de leve se boliu, quando Fernando desencravou as unhas. Approximou-se Almeida, e offereceu ao fidalgo a sua carroagem para conduzi-lo onde quizesse. O soberbo de sua miseria respondeu com uma insolencia, e retirou-se com respeitosa, mas curiosa cauda de gaiatos, testemunhas pertinazes e minudenciosas de todos os conflictos magnificos.Constou ao secretario que o marquez saíra, no seguinte dia, de Madrid, com direcção a Portugal, onde a presença do convencionado não incommodava ninguem. Parece que Bartholo de Briteiros lhe emprestara dinheiro com que elle podesse napatria sustentar a antiga ociosidade e dissipação de seus avós. E, como não sei se virá de molde lembrar o nome d'este sujeito no decurso da novella, fique o leitor sabendo que o marquez de Tavira, depois de residir em Lisboa alguns mezes, fez-se um liberal rasgado, ou roto, como quizerem, e conseguiu ser nomeado ministro n'uma das côrtes da Europa, e mais tarde governador dos estados da India, d'onde veiu, já muito na flôr dos sessenta annos, casar em Portugal, onde está rico e honrado.Paulina, sabedora da derrota que soffrera o primo marquez, sentiu uma satisfação que eu sinceramente lhe não louvo, e ao mesmo tempo um accrescimo de estima por Fernando, estima que eu não posso attribuir ao coração. Estas anomalias que a moral reprova e a animalogia desentende, são uns geitos de mulher que avisadamente não discuto. São assim. Deus as faça melhores ou peores, de modo, porém, que fiquem mais decifraveis e intelligiveis.Bartholo, como é bem de ver, ficou raivoso contra Fernando Gomes, e esteve uma noite toda a scismar no modo menos estrondoso de se desfazer d'aquelle inimigo. Ponderou o malvado intento de lhe comprar a vida; mas occorria-lhe que em Madrid era difficil e arriscado andar em cata de um sicario destro e fiel. Desanimou: mas jurou que sua filha Paulina havia de morrer n'um convento, se teimasse em querer casar com o facinoroso.Este successo apressou o casamento de Eugeniacom o conde de Rohan. O fidalgo colheu informações, que condisseram exactamente com as do secretario, mas muito por miudo. O conde era oriundo dos primeiros soberanos da Bretanha, condes de Porrhoit, viscondes de Rennes, por Alain I, quarto filho de Eudon, que vivia no seculo X. D'esta nobilissima stirpe procediam os duques de Rohan, com esta legenda no escudo:roi ne puis, prince ne daigne, Rohan je suis.Á vista d'isto, e do mais que deixo á averiguação dos genealogicos, Bartholo de Briteiros deu Eugenia ao conde, liberalmente dotada, e resolveu ir viver em Paris no inverno, e n'um dos castellos da Bretanha, no verão, em companhia de seu genro.O velho principiava assim a vingar-se de Fernando Gomes.No jantar nupcial, ao qual assistiram titulares hespanhoes, e a diplomacia dos differentes estados, Bartholo de Briteiros, n'um brinde que propôz a seu genro, disse em remate do discurso:—Eu morrerei feliz, se vir minha filha Paulina casada com um parente dos Rohan; e, se não puder ser tanto, que seja, e muito ainda será, um nobre da França ou das Hespanhas, a quem meu genro aperte a mão, sem receio de a retirar suja.—De sangue...—disse Almeida com um sorriso que tinha fogo do inferno.Esta palavra «sangue» turvou um pouco o vinho que Bartholo bebia. Ao ex-ministro da Alçada quiz parecer que havia n'aquelle dizer succinto uma allusão. Nem que o secretario da legação fallasse em corda!XVIIIFernando Gomes, informado, não por Paulina, mas por Almeida, dos successos que se iam encaminhando a um natural e triste desfecho de tantos trabalhos, póde dizer-se que morreu antes que o matassem. Senhoreou-o amargura serena, sem contorsões; mas profunda, luctuosa, e inalteravel por nenhuma diversão.Alguma carta que escrevia a Paulina ia breve, desalentada, sem a palavra esperança, sem a palavra saudade, sem a palavra amor.Divagava por uns nevoentos dizeres, como devem ser os do enfermo de mortal doença, que antevê o fim, e se está, meio vida, meio eternidade, conversando com amigos, que deixa sem saudade e sem esperança de tornar a ve-los n'outro mundo.Paulina entendia mal esta nova phase do espirito de Fernando, e respondia-lhe queixando-se da seccurade suas cartas; porém, a tibieza dos queixumes podia apostar lethargia d'alma com o apparente regelo das cartas de Fernando.—Como cahiste n'esse estado? perguntava Almeida ao seu amigo.—Era o meu estado natural. Assim me conheceste no cerco e na universidade. Paulina emprestou-me uma segunda natureza que eu lhe devolvi em lagrimas, e fiquei como era, peor do que era, porque havia uma virtude em que eu tinha fé—o coração da mulher—e esta crença tambem se foi diluida em lagrimas.—Injustiça!—interrompeu Almeida.—Não te diz ella que está prompta a requerer o seu deposito?—Disse, não diz.—Propõe-lh'o.—Não. Quero forrar o meu pundonor ao ultraje da negativa.—Farei eu a proposta, mediante o conde de Rohan.—Recuso o favor. Quem te diz a ti que o conde de Rohan deseja o casamento de sua cunhada comigo?—Elle.—Não creias. O conde de Rohan tem irmãos. Paulina é rica e formosa como Eugenia.—Imponho-me o dever de não julgar ninguem pelos teus olhos. Tu és uma raridade, um excentrico, uma cousa com geitos de pessoa. Erras quantos juizos fazes. Eu hei de sondar o conde. Póde ser que tudo se consiga sem processo judicial.O secretario procurou o conde. Fallou amplamente de Fernando Gomes, e das suas injustiças ao caracter de Paulina. O conde mostrou sympathisar com o caracter do portuguez, e disse:—Eu fallarei a meu sogro.E falou de modo que as suas ultimas palavras summariam o elogio que se lhe deve:—O homem, cuja mão eu aperto com sincera satisfação de quem sabe prezar a virtude, é Fernando Gomes. Peço encarecidamente a mão de minha cunhada para este tão modesto como honrado mancebo. Condescenda, meu sogro, para eu poder dar-lhe o nome de provado amigo.Bartholo de Briteiros respondeu umas palavras oscillantes, que nenhuma resolução significavam. O conde saiu maguado d'esta conferencia, e disse á cunhada:—Se Paulina quizer casar com Fernando, tem de adoptar meios extraordinarios. Requeira o deposito, que a familia do ministro francez presta-lhe sua casa.Paulina respondeu:—Era preciso que Fernando ao menos me enganasse, para eu acceitar o seu conselho. Fernando, quando me escreve, nem ao menos diz que me ama.—Ama com a mais segura das paixões: a paixão que mata com infernal lentidão.—Se elle m'o fizesse assim acreditar!...—replicou ella.O conde inferiu que Paulina estava cançada das virtuosas, incomprehensiveis e fastidíosas singularidadesde Fernando. E assim, muito á puridade, o communicou ao secretario.Bartholo chamou Paulina, e mostrou-lhe cartas de Lisboa. A importancia d'estas cartas ha de ressumbrar na seguinte, que ella escreveu a Fernando:«Meu querido amigo.«Nem a cegueira do amor me engana. As tuas cartas dizem-me tudo que está em tua alma. Eu não sei por que desmereci aos teus olhos. Não sei, Fernando! Aquella impensada fuga que eu havia de fazer, com teu consentimento, creio que me tirou todo o prestigio. Esta pobre formosura, que tanto encarecias, já te não inspira mesmo as palavras animadoras que releio nas antigas cartas, com o coração traspassado de dôr! O ser rica sabia eu que era cousa nenhuma em teu conceito; mas o ser-te leal ha dois annos, á custa de tormentos tamanhos, cuidava eu que seria um titulo á tua eterna dedicação. Louca mulher, que tão vaidosa julguei merecer o que o mundo não póde dar! Com que me recompensas tu o fel que eu tenho tragado desde que voltei dos teus frios braços para debaixo dos olhos severos e queixosos de meu pae? O teu esfriamento é incrivel! Se me dissessem que amas outra mulher, comprehenderia o homem e a ingratidão. Mas sei que vives só, que vives triste, que tudo te é indifferente, e eu mesma quasi esquecida! Cada carta que me envias é como obrigada pela delicadeza. Palavras inintelligiveis, apprehensões vagas, e nenhuma em que me digas positivamente o que pensas, e esperas de mim! E euamante como sempre! Capaz de tudo, mas incapaz de me abalançar a novos sacrificios, sem que me tu digas corajosamente: «Luctemos de novo!» Porque m'o não dizes, ó Fernando!?«Ainda agora saí do quarto de meu pae, onde fui chamada, e entrei a tremer. Mostrou-me cartas de Portugal, cartas forjadas talvez aqui, e mandadas lançar lá no correio. Todas falam de ti miserias que eu me pejo de dizer. Mas adivinho que desejas ouvi-las. Creio que, em dizer-t'as, te allivio de conjunturas dolorosas. Noticiam que teu pae é um sapateiro de Lisboa, que tua mãe era colchoeira, e que andas por aqui a estragar as economias de teu pae, em quanto elle lá está quebrado de trabalho, cerceando ao pão de cada dia para te sustentar uma vida aventureira. São assim miserias d'este jaez. Irritou-me a alegria de meu pae, quando elle com ar de victoria me estava lendo estas calumnias. Não tive mão em mim, e disse-lhe: «Isso é tudo falso. Se o pae de Fernando fosse um sapateiro, não iria visita-lo a Londres, nem lhe daria a decencia com que tem vivido ha dois annos em Florença, aqui, e em toda a parte. Meu pae encontrou-o em casa d'um principe, e o principe de Monfort não aperta a mão a filhos de sapateiros, nem ministros de Portugal em Hespanha o tratariam com tanta consideração, se elle fosse o que essas cartas dizem. Meu pae enfureceu-se dizendo que o Almeida era filho d'um latoeiro, e por isso occultava o teu nascimento...»Fernando, n'este ponto, machucou a carta na mão direita, e atirou-a aos pés.RESPOSTA«Minha senhora.«Não mentiram ao pae de vossa excellencia. Sou filho d'um sapateiro, e d'uma colchoeira. Meu pae está ganhando o pão que me sustenta, e vendendo as suas economias para suprir ás despezas que o seu trabalho não alcança. O sapateiro foi a Londres, é certo; mas não foi visitar-me, como vossa excellencia presume: foi pedir-me que voltasse á pobre casa, onde minha boa mãe me chamava para me abraçar antes de morrer. Ensurdeci ao chamamento de minha mãe, e não vi as lagrimas de meu pae. Vossa excellencia tinha-me levado ouvidos e olhos, deixando-me no coração apenas a fibra do remorso de ser mau filho.«Humilho-me diante de vossa excellencia, não como filho do sapateiro, mas avergado pelo arrependimento de lhe ter occultado a minha humilde origem. Foi o coração que me trahiu, dizendo-me que para vossa excellencia era cousa de nenhuma significação o meu nascimento. Penso que devo ser desculpado d'esta falta: seria grande extranheza andar eu divulgando o meu nascimento. Eu tinha estado em França, e vira ministros sahirem das officinas: e o mundo respeitava-os pela honra dos paes, e por sua elevação com esforços proprios. Tudo me induziu, não a esquecer-me de que meu pae era sapateiro, mas a presumir que me era licito com minhas acções continuar a ser honrado como meu pae, sendo certo, minha senhora, que eu nunca ousei suppôr que meu pae carecia de minhas virtudes para se dar nobreza de si.«Faz-me pena o desgosto de vossa excellencia quando esta carta estiver lendo!«O que a senhora D. Paulina de Briteiros tem soffrido por minha causa! Que mal empregados sacrificios!«Não foi a mão de Deus que a susteve á borda do abysmo, minha senhora? Que immensa vergonha e agonia devia ser a sua, se vossa excellencia a esta hora fosse minha mulher?! Que torturas irremediaveis! Como havia dizer-lhe eu em Portugal o nome de meu pae?«Nunca pensára n'isto!... Agora me parece incrivel que não pensasse!«Escrevo-lhe com quanta quietação de espirito se póde, minha senhora. O coração está esmagado. Matou-o a vergonha de ter pulsado em tão baixo peito, vergonha que eu confesso sentir diante da sombra de vossa excellencia, agora, e sempre.«Veja que horrivel organisação social esta, senhora D. Paulina! Diga vossa excellencia em sua intima e clara razão, se eu merecia ser vilipendiado por meu nascimento, emquanto não praticasse alguma acção infamante! que mal fiz eu á sociedade em ter nascido de operarios?... Desculpe-me vossa excellencia estas perguntas vans, desordenadas e indignas da sua attenção.«N'este momento vou queimar as cartas de vossa excellencia, menos d'esta ultima a pagina em que, por suas mãos, a Providencia me ministra uma lição, que me póde ainda levantar diante de mim mesmo.«De novo lhe rogo me perdôe, no silencio de suaconsciencia, porque as suas palavras já não poderei vê-las escriptas. Subscrevo-me, com quanto respeito me inspiram suas virtudes, creado de vossa excellencia«Fernando Gomes.»Almeida tinha saído com o ministro para o Aranjuez, para voltar quatro dias depois. Fernando queimou as cartas de Paulina, lendo as primeiras de Florença, quanto as lagrimas lh'o consentiam. Enfardou o seu fato. Comprou passagem na primeira diligencia em direcção á fronteira de Portugal, e mandou entregar a sua ultima carta a Paulina, ao embarcar-se na locomotiva.Almeida, recolhendo do Aranjuez, encontrou este conciso escripto:«Vou vêr o pobre artista, e a pobre companheira do artista, que não tem culpa dos meus infortunios.«Com as mãos erguidas te rogo que não digas a alguem o meu destino.«Terás as minhas cartas regularmente, em quanto viver.«Graças, meu amigo, pelo coração de irmão que me déste. A recompensa é este chorar que me tolhe poder escrever-te mais. São as ultimas lagrimas do teu Fernando.»XIXDE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDALisboa, 4 de agosto de 1842.«Meu presado amigo.«Aqui estou na casa onde nasci, no pequeno quarto em que os livros me iniciaram para tormentos superiores aos que conheceste em minha vida.«Entrei em casa inesperadamente, e encontrei minha mãe chorando, e nos braços d'ella, uma de minhas irmãs viuva, e alli, ao lado, deitada n'um berço, uma criancinha de dois mezes.«Minha irmã casára com um capitão de mar e guerra, que morreu em viagem para Moçambique. Fôra ella dotada com dez mil cruzados, cuja maior parte o marido empregou em mercadorias, que levava comsigo, na esperança de grandes lucros.«O navio deu á costa, e presume-se que meu cunhado se suicidou. A minha pobre irmã ainda ignora que está em pobreza extrema.«Sabe-o meu pae, que é um santo, e acceita das mãos da Providencia tudo que vier.«Outra minha irmã, casada com um official de secretaria, vive muito infeliz, e tem querido refugiar-se no abrigo dos paes; o marido, em poucos mezes, leva quasi dissipado o dote, sem mesmo assim poder resgatar-se de descreditos que mais tarde ou mais cedo o reduzirão a vir pedir esmola á porta do seu sogro. Acaba meu pae de me contar estas alegrias, que eu te refiro para que vejas os ditosos auspicios com que entrei nos lares domesticos.«Meu pae está quasi cego, e minha mãe n'um estado de decrepidez extraordinaria. As minhas despezas dos ultimos oito mezes custaram ao santo velho o sacrificio da venda dos bens do Cartaxo. O que elle não vendeu foi a livraria, nem os manuscriptos de Bocage, seu amigo da mocidade. Disse-me que me salvara os livros para me legar amigos. Perdôa ao bom velho o seu descrer em amigos: elle não sabia que tu eras mais verdadeiro e valedor que os livros.«O meu futuro é facil de conjecturar. Tenho uma numerosa familia dependente de mim. A outra minha irmã, e uma filha, não tardarão aqui. Meu pae ainda vae á loja examinar, ou finge que examina, o trabalho dos officiaes. Estes são já pouquissimos, em relação com o diminuto consumo que tem a obra.«Penso em arranjar emprego; mas sinceramentete digo que não sei o para que sirvo, nem como estas cousas se alcançam. Lembra-me abrir loja de conselhos e requerimentos; estou esquecido do pouco que aprendi; careço de muita pratica, e de muita paciencia. Falta-me gosto, alma e vontade. Nenhuns estimulos d'actividade me impellem. Este espectaculo inesperado escureceu-me o espirito de modo que nenhum raio d'esperança já póde reanimar-me. Espero em Deus que esta crise não se demore; e, depois, veremos.«N'outra carta me abrirei mais comtigo. A oppressão produz no animo dolorosa preguiça. Em contentamento sereno ou nas afflicções agitadas, n'estes dois extremos, é que o espirito se compraz ou desafoga em diffusas cartas. Esta minha dôr é termo medio que prostra e embrutece. Adeus. Teu amigo muito gratoFernando.»DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMESMadrid, 14 de agosto de 1842.«Meu Fernando. Quando recebi no Aranjuez, onde tive de demorar-me, a tua carta de despedida, corri logo a Madrid, não esperançado em encontrar-te, mas em ancias de saber o que se havia passado em minha ausencia. Esporeava-me o odio que recresceu n'estes ultimos mezes contra o algoz togado, o villão que me enganou quando eu tinha na mão o fio com que esperava cortar-lhe a vida na garganta.«Deram-me a tua carta, e contou-me o creado que te vira queimar as de Paulina. Percebi logo que um completo rompimento vos separara para sempre. Odiei-a! Dei-te logo razão, porque eu sabia que tu eras um anjo merecedor de melhor alma.«Na incerteza de me estarem trancadas as portas de Bartholo, procurei na rua o conde de Rohan, e soube que Paulina estava doente. Perguntei, sem rebuço, que razões se haviam dado para a tua saida repentina de Madrid, e elle sem me dar explicações, instou por saber o teu destino. Não lh'o podia dizer, não lh'o diria, ainda mesmo que antevisse n'esta infracção a tua felicidade.A tua felicidade, digo eu!«Ha homens que ninguem deve conduzir a uma supposta felicidade: a má sina póde tudo com elles, e reverte-lhes em mal os mais logicos planos do bem. Os proprios amigos se tornam fautores da sua desgraça.«N'este mesmo dia recebi um bilhete de Paulina, a perguntar-me onde estarias. Respondi que o não podia declarar. Redobraram instancias: permaneci inabalavel. O ultimo bilhete d'ella é este que te envio1. Não calculo o que succedeu para resolução tão improvisa! Dar-se-ha caso, Fernando, que a tua doentia imaginação te enganasse? Poderias tu ser injusto, sem consciencia de o ser? Irias arrebatadamente,onde com alguma hora de reflexão, deixarias de ir?«Não ouso decidir por mim a hypothese: tamanha confiança me merece o teu bom juizo e reflexiva dignidade. Antes me quiz persuadir que procedeste como devias. Esperei.«Agora, porém, recebo a tua carta de 4 de agosto. Nem uma palavra a tal respeito! Dir-se-hia que eu sonhei que tinhas amado Paulina, ou tu d'uma para outra semana perdeste a memoria do teu coração! Isto mais me capacita de que a razão do teu proceder foi tão grande que presumes deva eu já sabe-la, e por amor de ti proprio a omittes. Juro-te que apenas sei o que devo inferir dos bilhetes d'ella.«O conde ignora tudo. Bartholo está com ares de satisfação; nada, porém, diz ao genro nem a Eugenia. Este mysterio mortifica-me. Esclarece-m'o, que o deves ao teu Almeida.«Falemos agora da tua situação. Compunge-me a sorte de tuas irmãs, e de teus bons paes. Triste espectaculo, na verdade; mas providencial e necessario para a glorificação da tua honra. Precisas de força, e de paciencia para poder emprega-la.«Queres um cargo publico? Os teus estudos, talento e serviços hão-de obte-lo; mas não cuides que será já, meu amigo. Tu perdeste a occasião de entrar nas secretarias com o arcabuz do cêrco do Porto debaixo do braço. As gravatas dos heroes de gabinete na emigração já se não temem das dragonas. Estamos em tempos pacificos. O que ha seis annos se conseguia e recebia com a mão a cheirara polvora, é preciso have-lo agora das mãos enluvadas das mulheres, que fazem os despachos nas othomanas, com os ministros reclinados sobre o seio. Advirto-te, para que a decepção te não surprehenda.«Entretanto, meu caro Fernando, o que tu precisas é de encaminhar desde já a tua pretenção, dando ares de que não pretendes. Resgata os teus bens do Cartaxo, se o comprador t'os ceder: ostenta uma independencia que fira o orgulho villão dos grandes que não supportam animos generosos e isemptos; entra na politica, e escreve, que necessariamente has de escrever coisas excellentes, visto que é esse o ramo de conhecimentos humanos que dá fructo a quem lh'o pede, e para o qual todo o homem está habilitado. A honra ha de ser-te um empeço á boa saída; mas póde ser que a mesma excepção te aproveite. Ora como para estas coisas, e principalmente para a independencia, é necessario o dinheiro, vae ter á rua Augusta, procura meu velho pae, que has de encontrar a bater alguma caldeira, e diz-lhe quem és. Deves saber que eu sou já senhor da legitima materna, e este capital, que excede a vinte contos de réis, lá o tem meu pae á espera que eu lhe dê destino. A tal qual decencia, com que vivo aqui, é meu pae que m'a dá, prohibindo-me que eu gaste da herança de minha mãe. Vê tu que animo este de artista, que ainda não despegou uma semana de trabalhar! Vae lá, meu amigo; elle está prevenido, e sabe que és meu irmão. Pede o que quizeres, para m'o pagares quando puderes.«Fecho, que está a partir o correio. Escreve muito ao teuAlmeida.»DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDALisboa, 31 de agosto de 1842.«Meu irmão.«Guardo em minha alma a tua carta.«Falarei primeiro dos teus fraternaes offerecimentos.«Fui vêr teu pae, porque desejava conhece-lo e abraça-lo. Que cabellos brancos, e que mãos calejadas aquellas! Que bem e orgulhoso me senti nos braços d'elle! Falla de ti com lagrimas; mas todo aquelle rosto se abre em contentamentos d'um justo!«Quiz que lhe contasse pormenores da tua vida em Madrid.«Satisfiz aquella ancia do teu velho. Foi dia de férias na officina a minha visita. Mandou os operarios passear, recommendando-lhes que não fossem á taverna. Depois jantei com elle, e lá fiquei até á noite. Teu pae deita se ao escurecer e ergue-se com a aurora. Disse-me elle quando eu estava para sahir: «Veja lá o dinheiro que quer, doutor.» Respondi-lhe que não queria nenhum. Montou os seus grandes oculos de cobre, arregaçou os punhos da camisa, releu a tua carta, e exclamou: «Então como se entende o que reza esta carta do meu Hypolito?!» Satisfiz ás suas duvidas, dizendo-lhe que o teu offerecimento não fôra solicitado, nem por em quanto me era preciso aceita-lo.«Assim passaram quatro boas horas da minha vida. Face a face com o principe de Monfort não me senti tão feliz e entranhado de respeito como ao lado do artista, do teu digno pae, meu querido Almeida.«Beijo-te as mãos pelo amigo que me déste. Em quanto ao dinheiro, deixemo-lo estar,como nosso, na mão do honrado depositario. Quando precisarmos, lá iremos.«Agora direi pouco de Paulina para te satisfazer, e menos terei que dizer-te, enviando-te uma copia da pagina da sua ultima carta. Ahi tens decifrado o enygma. O filho do sapateiro teve pejo e arrependimento de se haver abalançado ao coração da filha de um Briteiros: pejo de se haver abatido, e arrependido de a ter humilhado. Cahi em mim. Podia ser mais tarde, e mais funestamente para ambos. Deus poupou-me ao aperto de entrar em Portugal, e por esta porta dentro, onde todos choram, com a faustuosa e brilhante Paulina, que está fadada para alegrias e esplendores. Que sentiria aquella alma vendo-se aqui n'este ambiente de pobreza, pobreza que se adivinha em tudo! Alli dois velhos; além duas irmãs uma viuva, outra divorciada; acolá duas criancinhas, cada uma em seu berço, vagindo; lá em baixo o martellar do trabalho; em tudo o cunho de uma maneira de ser incompativel com a indole e educação de Paulina!...«Que queres tu, á vista d'isto, que eu faça ao coração?«Suffoco-o; obrigo-o a repartir-se por estas quatro creaturas, que não teem mais ninguem.«O bilhete de Paulina como não me auctorisas a queima-lo, devolvo-t'o; póde ser que ella venha a envergonhar-se de te-lo escripto, e t'o reclame.«Persiste em não dizer nada de mim; e, se tenho algum outro favor a pedir-te, é que me não fales d'ella; antes me ajuda a esquece-la.«Meu generoso pae ainda a tal respeito me não disse palavra. Adivinhou tudo. Tudo me tinha prophetisado em Londres, com estas palavras:Que direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhações? Para que a procuras afincadamente, se vaes de rastros apoz ella? Porque has de tu querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma carreira por onde levarias teus filhos á grandeza?«Na ultima pergunta é que o propheta ouviu demasiadamente os seus arremessados desejos. Esta minha carreira é a da inhabilidade e da pobreza; mas cá estou a refazer-me de alentos para a trilhar. Adeus, meu extremoso amigo. Não acceito o teu alvitre de me fazer politico. Já vi o que isto é. Não estou ainda bastante pôdre para adubar o torrão em que braceja a arvore da immoralidade. Estou envergonhado de ter dado o meu sangue para isto! Ás vezes chego a scismar se Bartholo de Briteiros teria razão!«Perdôa esta impia ironia. Antes isto que os patibulos. Cada qual enforca a sua honra á sua vontade, e não causa lastima nem espanto. Não ha tempo para mais. Adeus. TeuFernando.»

Paulina e Eugenia, menos apavoradas do que suppõe o leitor, apearam no pateo do secretario da legação, e foram guiadas a uma sala, em que Fernando Gomes, prostrado mais que o commum em lances taes, parecia meditar no suicidio. Paulina galvanisou-o moderadamente, apertando-lhe as mãos com mais tremor de ternura que d'afflicção.

—Que abatimento, Fernando!—disse ella, em quanto Eugenia, desalentada pelo quebrantamento do moço, soluçava a chorar, na incerteza do seu destino.

—Isto não é abatimento, Paulina...—disse elle—é porque em verdade eu recebo com dôr a alcunha de ladrão!... Falei-te eu em joias? Que infernal lembrança a de me dares os brilhantes de teu pae!... Quando te disse eu que precisava de ser infame para ser feliz?

—Foi uma indiscrição, meu amigo; mas perdoa-m'a...—disse Paulina—Como os brilhantes tinham sido da mamã, e o papá muitas vezes nos disse que eram nossos, cuidámos que podiamos reparti-los entre ambas, sem medo de que chamassem roubo a isto. Agora não tem remedio a nossa loucura... Não te estejas tu assim a matar, meu Fernando. O crime é meu e não teu...

—Cala-te, pobre criança!—redarguiu Fernando—tu não sabes que mal me fizeste...

Algumas phrases mais, talvez inopportunas, do filho do artista, obrigaram Paulina a chorar e arrepender-se.

Chegou, n'este escuro trance, o secretario, e todos o viram como prenuncio de bonança. Eugenia saíu logo a perguntar-lhe se sabia onde estava o conde.

—Ainda não, minha senhora. Será talvez, difficil encontra-lo, se elle já souber que o perseguem.

—Sou tambem perseguido?—atalhou Fernando.

—Ninguem sabe o teu nome, mas precisamente te procuram na estalagem onde estavas. Porém, como falaste sempre francez, e, por bom alvitre meu, te despediste como quem vae para França, muito diabolica será a alcaidaria madrilense se te farejar aqui. Observo que os meus amigos estão todos tres sem juizo para decidirem o que lhes convém.

—Eu decidi—disse Fernando.

—O teu plano deve ser o unico racional na tua situação: é a fuga. A sr.ª D. Eugenia dir-me-ha o que tenciona fazer se o seu conde não apparece.

—Não apparece!—exclamou ella atribulada.

—Póde não apparecer, minha senhora, e não ha motivo para que vossa excellencia o considere descuidado, covarde, ou traidor.

—Então que eu hei de fazer?!—tornou Eugenia, pondo as mãos com dilacerante angustia.

—Quer vossa excellencia seguir sua irmã, e esperar em Portugal que eu a avise do destino do conde?

—Não lembres á sr.ª D. Eugenia um destino impossivel—disse Fernando Gomes.—Eu não vou para Portugal.

—Como?! não vaes para Portugal?

—Não fujo—replicou Fernando—e, quando fugisse, não iria levar a meu pae a noticia do nome que deixo em Madrid.

—Pois se ninguem te sabe aqui o nome?

—Sabe-o a minha consciencia.

—Pois foge para França—recalcitrou Almeida—ou para a Italia, ou para onde quizeres.

—Não fujo; e perdoa-me, Paulina... Nós não podemos fugir. Teu pae vae receber de minha mão os brilhantes de sua mulher e de sua filha; tu entras espontaneamente n'um convento; de lá requeres dispensa do consentimento de teu pae: sairás de Madrid com honestidade, e eu com honra. É impossivel ser feliz, e dar-te felicidade, se faltarem estas condições á nossa união. Isto é irrevogavel, meu amigo. Por delicadeza e compaixão não discutas comigo. Temo que este anjo suspeite da minha dedicação, se tu me condemnares pela fraqueza das minhas apprehensões.

Paulina teve momentos de suspeita, e outros peores de arrependimento. Quizera ella esconder-se com a vergonha de seu acto a um coração bastante forte, ou bastante desempoeirado, que lhe fizesse sentir com vaidade a grandeza do seu heroismo. Nem elle mesmo a absolvia! elle, por quem a imprudente se perdera no conceito do mundo, e na estima do pae! São pungentissimos os espinhos das corôas que santificam os martyres da honra! Este é um dos casos em que a mulher amada, amigo, sociedade tudo conjura a azedar com mais fel o calix do homem probo! Acontece que o leitor de um romance, que taes casos narra, sympathisa com semelhantes excepções d'este mundo sublunar, mas assim mesmo, o panegyrico do romance é galardão tardio, que não vale a menor das dôres que excruciavam a alma do pobre filho de Francisco Lourenço.

Estavam como atrophiadas as duas meninas. Almeida, sem dizer o seu destino, tinha saído. Fernando encarou na lagrimosa Paulina, correu a ella, e ajoelhou-se-lhe aos pés, murmurando:

—Duvidarás tu que te adoro, ó anjo da minha alma!... Poderás crer que o receio de ser apregoado ladrão me faz baixar ao egoismo de maldizer a hora em que te vi!... Não, não, minha querida filha; não me julgues capaz de afastar uma infamia com outra...

—Degradei-me por amor de ti—soluçou ella—e agora hei de ir morrer n'um convento, sem a amizade de ninguem, perdida no conceito de toda a gente, e tratada com vilipendio por todos... Cuideique não me tornava indigna aos teus olhos...

—Indigna aos meus olhos!—exclamou Fernando coberto de lagrimas—quando te disse eu palavra que te dê razão de tamanha calumnia! Ó Paulina, eu quero-te pobre, quero fugir comtigo já, mas salva tu da deshonra o meu nome, que ha de ser tambem o teu. Não leves o valor de um ceitil da casa de teu pae. Espera que o boato do grande roubo de cem mil cruzados, de que teu pae te argue, se desvaneça, para que a tua dignidade não fique tão feiamente manchada. Não vês tu que se trata de salvar o teu nome?

—Salva-lo, como?...—redarguiu Paulina.

—Restituindo os brilhantes—disse Fernando.

—De que serve restitui-los? Crês tu que o pae me dará licença de ser tua esposa por isso? Meu pae tem cem vezes o valor dos brilhantes... Ha de perseguir-me atrozmente para eu não casar comtigo, Fernando...

No entanto, o secretario da legação entrou no hotel de Bartholo de Briteiros.

Encontrou o velho prostrado no leito, espertando d'uma demorada syncope. Ninguem ao lado do pobre pae! N'aquelle instante solemne calou-se o velho rancor de Almeida, e falou a compaixão.

—Mataram-me, as ingratas!—exclamou Bartholo—fugiram, fugiram as perdidas! Deixaram-me assim, sósinho, a amaldiçoa-las, agora, e sempre, e na hora da morte...

Almeida deixou-se abraçar pelo anciado velho, e disse-lhe:

—Cobre a possivel serenidade para me ouvir, senhor Bartholo.

—Diga o que quizer, meu amigo. Pouca vida terei para ouvi-lo.

—Suas filhas deviam fugir ao vexame dos interrogatorios judiciaes, e fugiram. Conduziu-as a minha carruagem; estão em minha casa.

—Estão?!...—exclamou Bartholo.

—Estão, como se estivessem na austeridade d'um mosteiro. Vossa excellencia deu-lhes o impulso desgraçado que dão os paes que o não sabem ser. Quiz vossa excellencia pautar o coração de suas filhas: tentou um absurdo, que deu origem á culpa. A natureza reage contra as violencias; e a reacção é quasi sempre indiscreta ou criminosa. Sua filha Eugenia amava o conde de Rohan, sua filha Paulina amava Fernando Gomes. O francez sei quem é de tradição; Fernando, que eu conheço desde as escolas, é um homem de tantas e tão insolitas virtudes, que o mundo actual ha de vêr-lh'as com extranheza. Vossa excellencia impugnou o enlace de suas filhas com estes dois mancebos escolhidos por ellas. Uma, ia ser immolada ao marquez de Tavira, que sae embriagado dos alcouces ás tres horas da manhã; a outra estava esperando a sua hora de sacrificio. O funesto resultado d'estas coacções foi uma e outra conspirarem surdamente contra a insensata tyrannia de vossa excellencia. Fernando Gomes chegava a Madrid um dia antes de vossa excellencia, em vez de estar na Irlanda procurandoa senhora D. Paulina nos mosteiros; o conde de Rohan, chamado de França por a senhora D. Eugenia, veiu hospedar-se n'este mesmo hotel.

—E eu sempre vendido e enganado por ellas!...—exclamou Bartholo.

—Era a justa paga do despotismo com que vossa excellencia dispunha de suas filhas, que tinham em si o despotismo mais imperioso do coração! Pergunto eu ao sr. Bartholo de Briteiros: se suas filhas, para se libertarem d'um jugo violento, deram o extranho passo de prepararem a fuga, que crimes e vergonhas as reterão no mau caminho que tomaram, se vossa excellencia não tiver a prudencia de as chamar a si, e rehabilita-las no conceito do mundo?!... Por em quanto não ha nada que as avilte. O levarem ellas suas joias e as de sua mãe, isso, a meu vêr e de toda a gente, é cousa de si tão desculpavel, que não tem mesmo penas na lei que a puna. O valor moral do acto tambem nada significa. Imagine vossa excellencia que as suas filhas gostavam dos seus enfeites, e, quando fugiam, levaram comsigo esses adornos da vaidade, aos quaes ellas não ligaram valor algum real. Já disse a vossa excellencia que não conheço pessoalmente o conde, amado pela senhora D. Eugenia. Informei-me agora mesmo na embaixada franceza, e soube que o conde era um dos mais nobres legitimistas da França, e tem castellos, senão reconstruidos á moderna, cravejados de muitos brazões, que, se me não engano, podem competir antiguidade com os de vossa excellencia. Este cavalheiro era incapaz de ser o receptador de um furto. Em quanto a Fernando, oportuguez, posto que não tenha castellos nem mais appellido que oGomes, que vossa excellencia provavelmente não encontra nos seus nobiliarios, os brilhantes que se presumem ter ido n'uma caixa, em tão pouco os reputa elle, que me encarrega a mim de os depositar nas mãos de vossa excellencia. Queira o senhor Bartholo estalar a fechadura da caixa para verificar a identidade dos objectos. Fernando Gomes não sabe o que está ahi.

Almeida entregou a caixa a Bartholo, que apenas o interrompia com variados gestos de raiva, surpreza e condescendencia.

Depois proseguiu:

—Fernando Gomes está fazendo companhia ás filhas de vossa excellencia em minha casa. O conde de Rohan está hospedado na embaixada franceza. O que o conde quer não sei; o que Fernando deseja é que a senhora D. Paulina entre pacificamente n'um convento, e de lá instaure um processo para vossa excellencia ser ouvido na questão de consentimento para matrimonio. Resolvi eu, sem permissão d'uns e d'outros, vir propôr a vossa excellencia o seguinte: suas filhas voltarão para casa, e vossa excellencia consentirá que ellas se desposem com homens de sua escolha, recahindo ella em sujeitos tão benemeritos como o conde e Fernando Gomes. Ouvirei a sua resposta.

Bartholo desceu do leito, amparando-se ao hombro de Almeida. Passou á ante-camara, sentou-se a chorar e enxugar lagrimas, reflectiu alguns segundos, e disse:

—Pois que venham as minhas filhas para casa,e eu cederei o que fôr de razão ceder. Mas, senhor Almeida!... Esta ignominia já deve ser notoria em todo o Madrid!

—Apenas a justiça, auctorisada por vossa excellencia, anda em averiguações inuteis. Mande o senhor Bartholo suspender a vulgarisação que os esbirros estão dando aos desgostos particularissimos de sua vida.

—Vou mandar...—disse Bartholo.

—Veem, por tanto, suas filhas. Eu não levo a certeza dos bons intentos de vossa excellencia. Por isso mesmo ouso lembrar-lhe que, se forem o inverso dos meus bons desejos, as consequencias redundarão todas em desgostos maiores para vossa excellencia, e póde ser que mui grande vilipendio para suas filhas. O senhor Briteiros, se as chama para as castigar com violencias, abre n'esta casa trinta portas por onde ellas podem fugir. Ha uma hora em que um pae reconhece que toda a sua força se quebra diante do aceno d'uma debil criança. A lucta é desigual com o coração, senhor Bartholo...

—Diz bem...—atalhou o velho.—Fui eu que as perdi com a educação, com o mundo, com a vida de Paris e Florença...

—Assim seria; mas o mal é insanavel com cauterios: requer muita prudencia o corrigi-lo. Vossa excellencia póde faltar a suas filhas ámanhã; e o mundo ha de chama-las a si com a educação que lhes deu, e engolfa-las no seu abysmo. Salve-as com tempo, senhor Briteiros. A sociedade dá ás mulheres este nefasto prestigio, que as enthrona, coma condição de se despenharem depois na voragem onde foram buscar a realeza.

—Diz bem...—repetiu Bartholo de Briteiros, que, segundo minha opinião, percebeu levemente o interlocutor.

Almeida foi apresentado ao conde de Rohan, que se envolvera na bandeira franceza, logo que houve noticia do descobrimento da projectada fuga.

Para honra da França, diremos que o descendente do famoso cardeal, quando recebeu o pacote de Eugenia, se bem que o achou pesado, não cuidou que levava metade das joias e brilhantes. A mim, porém, me quer parecer que o illustre conde não faria caramunhas de mau gosto, quando a menina lhe mostrasse os aderesses de ricas pedras. A França, n'isto e em tudo, vae na dianteira dos espiritos. A virtude, lá, é cousa tão contingente, que chega a não ser regra. Menina que foge, não perde aos olhos do seu raptor, nem o tribunal do mundo se entoga com gravidade de juiz para cousa tão futil. O conde de Rohan pensava muito em descobrir Eugenia, e pouquissimo nos brilhantes, quando o cavalheirod'Almeida lhe foi apresentado pelo benevolo embaixador francez, amigo de ambos.

Contou o secretario os successos decorridos, e a convenção, pouco segura, mas preparatoria para bom resultado, que fizera com Bartholo de Briteiros. O francez, approvando tudo com palavras de muito reconhecimento, pediu a Almeida a grande mercê de ser o apresentante dos brilhantes e dos seus respeitos ao fidalgo de Portugal. Estesrespeitos, associados aos brilhantes, fizeram que o secretario notasse a superioridade do espirito da França sobre o de Portugal. Em quanto Fernando se estava n'aquellas lamurias e quebrantos, o conde de Rohan, fumando um perfumado charuto de Havana, com a chavena de chocolate ao lado, sorria mui placidamente, ao passo que o informador contava os acontecimentos occorridos; e, com quanta graça mesureira tinha de seus placidos modos, enviouao fidalgo portuguez(hidalgo, disse elle) os seus brilhantes e os respeitos d'elle.

—Em quanto á minha boa Eugenia—accrescentou o conde—terá o cavalheiro a benevolencia de lhe asseverar que eu sou sempre o mesmo homem, submisso escravo das suas vontades.

Com tão boas novas, correu Almeida a sua casa.

As noticias foram gratas a todos, posto que Paulina por palavras não denotasse a satisfação intima, que sentira. Póde deduzir-se, sem desairar a menina, que as amarguras de Fernando, aquellas exuberancias de dignidade, o muito falar na honra de seu nome, agradaram mediocremente á filha de Bartholo. Perguntei a differentes senhoras, differentes emtemperamento, se o despeito de Paulina seria justo. Com muita magua de meu coração ouvi resposta, unanime de todas—que Paulina tinha razão; que Fernando encerrava nas arterias agua chilra; que um homem, assim apontado em subtilezas de honra, poderá ser um bom guarda-livros, um bom mordomo d'uma casa, mas que ha de sempre ser um amante glacial.

Fiquei suspenso, e prometti refutar semelhantes despropositos, quando escrevesse este romance. Desisto da tenção formada.

Antes quero que o leitor discuta e abysme as senhoras que injuriaram o pobre moço, e acharam extrema graça e galhardia de animo no conde de Rohan.

Entretanto, Paulina, ao despedir-se de Fernando, abraçou-o com exterioridades de muito affecto, e pediu-lhe que não chorasse, accrescentando:

—Tu podes contar sempre comigo, Fernando. Esperanças de que meu pae consinta no casamento, não levo nenhuma; mas se tu entenderes que, por meios da justiça, podemos conseguir os nossos desejos, tão desgraçadamente contrariados quando eu me julgava e te julgava feliz, estou prompta a requerer.

Notem a frialdade d'esta linguagem! Fernando, Eugenia e Almeida todos a notaram. Elle, porém, beijou-lhe a mão, e disse:

—Vae, minha amiga, e esquece-me, se quizeres e poderes. O que nunca poderás esquecer é que o homem, que te não servia para o coração, tinha alguma boa qualidade que ha de eternamente viverem tua memoria. Antes esquecido por ti, que deshonrado por amor de ti, Paulina.

Sobreveiu o secretario com reflexões tendentes a conciliar os animos despeitados dos dois tão amantes, tão doidos de alegria, algumas horas antes; e agora, a separarem-se, com a desconfiança n'alma, a desconfiança que é quasi sempre a doença morta do coração!

Paulina desceu, chorando, encostada ao braço de Almeida.

O filho do artista lembrou-se, n'este acerbo momento, de sua mãe, porque teve precisão de orar, e quem lhe ensinara a oração fôra sua mãe.

Deixemo-lo orar e chorar. Preces e lagrimas assim, os anjos as levam ao Senhor. Áquellas almas disse Jesus: «pedi, e sereis attendidas.»

Os que dão cegamente sua alma a quem a não merece, e rogam a Deus o resgate d'ella, sentem-se livres.

Os que vão de rastros e quasi moribundos sob o pé da injustiça humana, oram, e recobram uma força, que é insulto á covardia dos fortes. Deixa-los chorar e orar.

Deus lhes mostrará os balsamos das urnas que ahi estão a desbordar desde que o Homem-divino perdoou aos que o matavam por ignorancia. Porque não hão de perdoar estes homens de barro á cafila de farizeus que os não entendem?

Da cafila de farizeus exceptuo Paulina de Briteiros. Se eu não podesse estrema-la, rasgava aqui estas paginas, e queimava os apontamentos, para que nenhum collega meu d'este maldito officiosaísse alguma vez a lume com a historia d'uma linda mulher com alma tão feia!

Paulina e Eugenia entraram nos seus aposentos, sem verem o pae.

O secretario foi ao quarto de Bartholo entregar a outra porção de brilhantes, e continuar sua missão de conciliador e conselheiro.

O fidalgo denotava boas intenções, em quanto ao conde de Rohan. De Fernando Gomes disse, á terceira pergunta, que havia de pensar no melhor modo de se realisarem os desejos de sua filha.

As meninas passaram aquelle dia sem leve incommodo de sua saude, nem accessos de lagrimas que mereçam chronica. Doe-me ter de dizer que, ahi por fins da tarde, riram com as creadas da figura que ellas deviam fazer, quando saltaram á carroagem, desgrenhadas, com os capuzes das capas encarapuçados á laia de feiticeiras. Esta frivolidade de espirito feminil é cousa tão vulgar, que eu peço á leitora que não levante a pedra, e deixe ir as cousas em paz, como Christo mandou ir uma peccadora.

No dia seguinte Fernando Gomes, instado por seu amigo, saíu com elle em carroagem. Passearam até á ponte de Segovia, e apearam na praça do Sol, onde o secretario havia de cumprir ordens do ministro.

O acaso encaminhara para alli o marquez de Tavira, que trazia o espirito encavalgado por um dragão.

Viram-se e reconheceram-se.

O marquez, cego de sua raiva, parou em frentede Fernando, e disse a brados que muita gente ouviu:

—Ainda tem a pouca vergonha de se mostrar nas praças um biltre que seduz filhas-familias a roubarem seus paes!

Se o periodo fosse mais comprido, morria incompleto na garganta do marquez. O filho de Francisco Lourenço engriphou os dedos com sanha felina. O rancor, brutalisando o homem, parece que lhe dá parecenças com a fera, cuja sanha imita! As dez unhas de Fernando faziam espirrar o sangue gothico do marquez, que escabujava como o Lacoonte de Virgilio nas roscas das serpentes. Cairam ambos de modo que o de Tavira foi fender o occipital no eixo d'uma carroagem, cujo dono fizera alto para disfructar a lucta.

Almeida estava, poucos passos distante, observando o desenlace, que o enchia de jubilo. O marquez, ensanguentado, coberto de lama, e quasi desaccordado, nem de leve se boliu, quando Fernando desencravou as unhas. Approximou-se Almeida, e offereceu ao fidalgo a sua carroagem para conduzi-lo onde quizesse. O soberbo de sua miseria respondeu com uma insolencia, e retirou-se com respeitosa, mas curiosa cauda de gaiatos, testemunhas pertinazes e minudenciosas de todos os conflictos magnificos.

Constou ao secretario que o marquez saíra, no seguinte dia, de Madrid, com direcção a Portugal, onde a presença do convencionado não incommodava ninguem. Parece que Bartholo de Briteiros lhe emprestara dinheiro com que elle podesse napatria sustentar a antiga ociosidade e dissipação de seus avós. E, como não sei se virá de molde lembrar o nome d'este sujeito no decurso da novella, fique o leitor sabendo que o marquez de Tavira, depois de residir em Lisboa alguns mezes, fez-se um liberal rasgado, ou roto, como quizerem, e conseguiu ser nomeado ministro n'uma das côrtes da Europa, e mais tarde governador dos estados da India, d'onde veiu, já muito na flôr dos sessenta annos, casar em Portugal, onde está rico e honrado.

Paulina, sabedora da derrota que soffrera o primo marquez, sentiu uma satisfação que eu sinceramente lhe não louvo, e ao mesmo tempo um accrescimo de estima por Fernando, estima que eu não posso attribuir ao coração. Estas anomalias que a moral reprova e a animalogia desentende, são uns geitos de mulher que avisadamente não discuto. São assim. Deus as faça melhores ou peores, de modo, porém, que fiquem mais decifraveis e intelligiveis.

Bartholo, como é bem de ver, ficou raivoso contra Fernando Gomes, e esteve uma noite toda a scismar no modo menos estrondoso de se desfazer d'aquelle inimigo. Ponderou o malvado intento de lhe comprar a vida; mas occorria-lhe que em Madrid era difficil e arriscado andar em cata de um sicario destro e fiel. Desanimou: mas jurou que sua filha Paulina havia de morrer n'um convento, se teimasse em querer casar com o facinoroso.

Este successo apressou o casamento de Eugeniacom o conde de Rohan. O fidalgo colheu informações, que condisseram exactamente com as do secretario, mas muito por miudo. O conde era oriundo dos primeiros soberanos da Bretanha, condes de Porrhoit, viscondes de Rennes, por Alain I, quarto filho de Eudon, que vivia no seculo X. D'esta nobilissima stirpe procediam os duques de Rohan, com esta legenda no escudo:roi ne puis, prince ne daigne, Rohan je suis.

Á vista d'isto, e do mais que deixo á averiguação dos genealogicos, Bartholo de Briteiros deu Eugenia ao conde, liberalmente dotada, e resolveu ir viver em Paris no inverno, e n'um dos castellos da Bretanha, no verão, em companhia de seu genro.

O velho principiava assim a vingar-se de Fernando Gomes.

No jantar nupcial, ao qual assistiram titulares hespanhoes, e a diplomacia dos differentes estados, Bartholo de Briteiros, n'um brinde que propôz a seu genro, disse em remate do discurso:

—Eu morrerei feliz, se vir minha filha Paulina casada com um parente dos Rohan; e, se não puder ser tanto, que seja, e muito ainda será, um nobre da França ou das Hespanhas, a quem meu genro aperte a mão, sem receio de a retirar suja.

—De sangue...—disse Almeida com um sorriso que tinha fogo do inferno.

Esta palavra «sangue» turvou um pouco o vinho que Bartholo bebia. Ao ex-ministro da Alçada quiz parecer que havia n'aquelle dizer succinto uma allusão. Nem que o secretario da legação fallasse em corda!

Fernando Gomes, informado, não por Paulina, mas por Almeida, dos successos que se iam encaminhando a um natural e triste desfecho de tantos trabalhos, póde dizer-se que morreu antes que o matassem. Senhoreou-o amargura serena, sem contorsões; mas profunda, luctuosa, e inalteravel por nenhuma diversão.

Alguma carta que escrevia a Paulina ia breve, desalentada, sem a palavra esperança, sem a palavra saudade, sem a palavra amor.

Divagava por uns nevoentos dizeres, como devem ser os do enfermo de mortal doença, que antevê o fim, e se está, meio vida, meio eternidade, conversando com amigos, que deixa sem saudade e sem esperança de tornar a ve-los n'outro mundo.

Paulina entendia mal esta nova phase do espirito de Fernando, e respondia-lhe queixando-se da seccurade suas cartas; porém, a tibieza dos queixumes podia apostar lethargia d'alma com o apparente regelo das cartas de Fernando.

—Como cahiste n'esse estado? perguntava Almeida ao seu amigo.

—Era o meu estado natural. Assim me conheceste no cerco e na universidade. Paulina emprestou-me uma segunda natureza que eu lhe devolvi em lagrimas, e fiquei como era, peor do que era, porque havia uma virtude em que eu tinha fé—o coração da mulher—e esta crença tambem se foi diluida em lagrimas.

—Injustiça!—interrompeu Almeida.—Não te diz ella que está prompta a requerer o seu deposito?

—Disse, não diz.

—Propõe-lh'o.

—Não. Quero forrar o meu pundonor ao ultraje da negativa.

—Farei eu a proposta, mediante o conde de Rohan.

—Recuso o favor. Quem te diz a ti que o conde de Rohan deseja o casamento de sua cunhada comigo?

—Elle.

—Não creias. O conde de Rohan tem irmãos. Paulina é rica e formosa como Eugenia.

—Imponho-me o dever de não julgar ninguem pelos teus olhos. Tu és uma raridade, um excentrico, uma cousa com geitos de pessoa. Erras quantos juizos fazes. Eu hei de sondar o conde. Póde ser que tudo se consiga sem processo judicial.

O secretario procurou o conde. Fallou amplamente de Fernando Gomes, e das suas injustiças ao caracter de Paulina. O conde mostrou sympathisar com o caracter do portuguez, e disse:

—Eu fallarei a meu sogro.

E falou de modo que as suas ultimas palavras summariam o elogio que se lhe deve:

—O homem, cuja mão eu aperto com sincera satisfação de quem sabe prezar a virtude, é Fernando Gomes. Peço encarecidamente a mão de minha cunhada para este tão modesto como honrado mancebo. Condescenda, meu sogro, para eu poder dar-lhe o nome de provado amigo.

Bartholo de Briteiros respondeu umas palavras oscillantes, que nenhuma resolução significavam. O conde saiu maguado d'esta conferencia, e disse á cunhada:

—Se Paulina quizer casar com Fernando, tem de adoptar meios extraordinarios. Requeira o deposito, que a familia do ministro francez presta-lhe sua casa.

Paulina respondeu:

—Era preciso que Fernando ao menos me enganasse, para eu acceitar o seu conselho. Fernando, quando me escreve, nem ao menos diz que me ama.

—Ama com a mais segura das paixões: a paixão que mata com infernal lentidão.

—Se elle m'o fizesse assim acreditar!...—replicou ella.

O conde inferiu que Paulina estava cançada das virtuosas, incomprehensiveis e fastidíosas singularidadesde Fernando. E assim, muito á puridade, o communicou ao secretario.

Bartholo chamou Paulina, e mostrou-lhe cartas de Lisboa. A importancia d'estas cartas ha de ressumbrar na seguinte, que ella escreveu a Fernando:

«Meu querido amigo.

«Nem a cegueira do amor me engana. As tuas cartas dizem-me tudo que está em tua alma. Eu não sei por que desmereci aos teus olhos. Não sei, Fernando! Aquella impensada fuga que eu havia de fazer, com teu consentimento, creio que me tirou todo o prestigio. Esta pobre formosura, que tanto encarecias, já te não inspira mesmo as palavras animadoras que releio nas antigas cartas, com o coração traspassado de dôr! O ser rica sabia eu que era cousa nenhuma em teu conceito; mas o ser-te leal ha dois annos, á custa de tormentos tamanhos, cuidava eu que seria um titulo á tua eterna dedicação. Louca mulher, que tão vaidosa julguei merecer o que o mundo não póde dar! Com que me recompensas tu o fel que eu tenho tragado desde que voltei dos teus frios braços para debaixo dos olhos severos e queixosos de meu pae? O teu esfriamento é incrivel! Se me dissessem que amas outra mulher, comprehenderia o homem e a ingratidão. Mas sei que vives só, que vives triste, que tudo te é indifferente, e eu mesma quasi esquecida! Cada carta que me envias é como obrigada pela delicadeza. Palavras inintelligiveis, apprehensões vagas, e nenhuma em que me digas positivamente o que pensas, e esperas de mim! E euamante como sempre! Capaz de tudo, mas incapaz de me abalançar a novos sacrificios, sem que me tu digas corajosamente: «Luctemos de novo!» Porque m'o não dizes, ó Fernando!?

«Ainda agora saí do quarto de meu pae, onde fui chamada, e entrei a tremer. Mostrou-me cartas de Portugal, cartas forjadas talvez aqui, e mandadas lançar lá no correio. Todas falam de ti miserias que eu me pejo de dizer. Mas adivinho que desejas ouvi-las. Creio que, em dizer-t'as, te allivio de conjunturas dolorosas. Noticiam que teu pae é um sapateiro de Lisboa, que tua mãe era colchoeira, e que andas por aqui a estragar as economias de teu pae, em quanto elle lá está quebrado de trabalho, cerceando ao pão de cada dia para te sustentar uma vida aventureira. São assim miserias d'este jaez. Irritou-me a alegria de meu pae, quando elle com ar de victoria me estava lendo estas calumnias. Não tive mão em mim, e disse-lhe: «Isso é tudo falso. Se o pae de Fernando fosse um sapateiro, não iria visita-lo a Londres, nem lhe daria a decencia com que tem vivido ha dois annos em Florença, aqui, e em toda a parte. Meu pae encontrou-o em casa d'um principe, e o principe de Monfort não aperta a mão a filhos de sapateiros, nem ministros de Portugal em Hespanha o tratariam com tanta consideração, se elle fosse o que essas cartas dizem. Meu pae enfureceu-se dizendo que o Almeida era filho d'um latoeiro, e por isso occultava o teu nascimento...»

Fernando, n'este ponto, machucou a carta na mão direita, e atirou-a aos pés.

RESPOSTA

«Minha senhora.

«Não mentiram ao pae de vossa excellencia. Sou filho d'um sapateiro, e d'uma colchoeira. Meu pae está ganhando o pão que me sustenta, e vendendo as suas economias para suprir ás despezas que o seu trabalho não alcança. O sapateiro foi a Londres, é certo; mas não foi visitar-me, como vossa excellencia presume: foi pedir-me que voltasse á pobre casa, onde minha boa mãe me chamava para me abraçar antes de morrer. Ensurdeci ao chamamento de minha mãe, e não vi as lagrimas de meu pae. Vossa excellencia tinha-me levado ouvidos e olhos, deixando-me no coração apenas a fibra do remorso de ser mau filho.

«Humilho-me diante de vossa excellencia, não como filho do sapateiro, mas avergado pelo arrependimento de lhe ter occultado a minha humilde origem. Foi o coração que me trahiu, dizendo-me que para vossa excellencia era cousa de nenhuma significação o meu nascimento. Penso que devo ser desculpado d'esta falta: seria grande extranheza andar eu divulgando o meu nascimento. Eu tinha estado em França, e vira ministros sahirem das officinas: e o mundo respeitava-os pela honra dos paes, e por sua elevação com esforços proprios. Tudo me induziu, não a esquecer-me de que meu pae era sapateiro, mas a presumir que me era licito com minhas acções continuar a ser honrado como meu pae, sendo certo, minha senhora, que eu nunca ousei suppôr que meu pae carecia de minhas virtudes para se dar nobreza de si.

«Faz-me pena o desgosto de vossa excellencia quando esta carta estiver lendo!

«O que a senhora D. Paulina de Briteiros tem soffrido por minha causa! Que mal empregados sacrificios!

«Não foi a mão de Deus que a susteve á borda do abysmo, minha senhora? Que immensa vergonha e agonia devia ser a sua, se vossa excellencia a esta hora fosse minha mulher?! Que torturas irremediaveis! Como havia dizer-lhe eu em Portugal o nome de meu pae?

«Nunca pensára n'isto!... Agora me parece incrivel que não pensasse!

«Escrevo-lhe com quanta quietação de espirito se póde, minha senhora. O coração está esmagado. Matou-o a vergonha de ter pulsado em tão baixo peito, vergonha que eu confesso sentir diante da sombra de vossa excellencia, agora, e sempre.

«Veja que horrivel organisação social esta, senhora D. Paulina! Diga vossa excellencia em sua intima e clara razão, se eu merecia ser vilipendiado por meu nascimento, emquanto não praticasse alguma acção infamante! que mal fiz eu á sociedade em ter nascido de operarios?... Desculpe-me vossa excellencia estas perguntas vans, desordenadas e indignas da sua attenção.

«N'este momento vou queimar as cartas de vossa excellencia, menos d'esta ultima a pagina em que, por suas mãos, a Providencia me ministra uma lição, que me póde ainda levantar diante de mim mesmo.

«De novo lhe rogo me perdôe, no silencio de suaconsciencia, porque as suas palavras já não poderei vê-las escriptas. Subscrevo-me, com quanto respeito me inspiram suas virtudes, creado de vossa excellencia

«Fernando Gomes.»

Almeida tinha saído com o ministro para o Aranjuez, para voltar quatro dias depois. Fernando queimou as cartas de Paulina, lendo as primeiras de Florença, quanto as lagrimas lh'o consentiam. Enfardou o seu fato. Comprou passagem na primeira diligencia em direcção á fronteira de Portugal, e mandou entregar a sua ultima carta a Paulina, ao embarcar-se na locomotiva.

Almeida, recolhendo do Aranjuez, encontrou este conciso escripto:

«Vou vêr o pobre artista, e a pobre companheira do artista, que não tem culpa dos meus infortunios.

«Com as mãos erguidas te rogo que não digas a alguem o meu destino.

«Terás as minhas cartas regularmente, em quanto viver.

«Graças, meu amigo, pelo coração de irmão que me déste. A recompensa é este chorar que me tolhe poder escrever-te mais. São as ultimas lagrimas do teu Fernando.»

DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA

Lisboa, 4 de agosto de 1842.

«Meu presado amigo.

«Aqui estou na casa onde nasci, no pequeno quarto em que os livros me iniciaram para tormentos superiores aos que conheceste em minha vida.

«Entrei em casa inesperadamente, e encontrei minha mãe chorando, e nos braços d'ella, uma de minhas irmãs viuva, e alli, ao lado, deitada n'um berço, uma criancinha de dois mezes.

«Minha irmã casára com um capitão de mar e guerra, que morreu em viagem para Moçambique. Fôra ella dotada com dez mil cruzados, cuja maior parte o marido empregou em mercadorias, que levava comsigo, na esperança de grandes lucros.

«O navio deu á costa, e presume-se que meu cunhado se suicidou. A minha pobre irmã ainda ignora que está em pobreza extrema.

«Sabe-o meu pae, que é um santo, e acceita das mãos da Providencia tudo que vier.

«Outra minha irmã, casada com um official de secretaria, vive muito infeliz, e tem querido refugiar-se no abrigo dos paes; o marido, em poucos mezes, leva quasi dissipado o dote, sem mesmo assim poder resgatar-se de descreditos que mais tarde ou mais cedo o reduzirão a vir pedir esmola á porta do seu sogro. Acaba meu pae de me contar estas alegrias, que eu te refiro para que vejas os ditosos auspicios com que entrei nos lares domesticos.

«Meu pae está quasi cego, e minha mãe n'um estado de decrepidez extraordinaria. As minhas despezas dos ultimos oito mezes custaram ao santo velho o sacrificio da venda dos bens do Cartaxo. O que elle não vendeu foi a livraria, nem os manuscriptos de Bocage, seu amigo da mocidade. Disse-me que me salvara os livros para me legar amigos. Perdôa ao bom velho o seu descrer em amigos: elle não sabia que tu eras mais verdadeiro e valedor que os livros.

«O meu futuro é facil de conjecturar. Tenho uma numerosa familia dependente de mim. A outra minha irmã, e uma filha, não tardarão aqui. Meu pae ainda vae á loja examinar, ou finge que examina, o trabalho dos officiaes. Estes são já pouquissimos, em relação com o diminuto consumo que tem a obra.

«Penso em arranjar emprego; mas sinceramentete digo que não sei o para que sirvo, nem como estas cousas se alcançam. Lembra-me abrir loja de conselhos e requerimentos; estou esquecido do pouco que aprendi; careço de muita pratica, e de muita paciencia. Falta-me gosto, alma e vontade. Nenhuns estimulos d'actividade me impellem. Este espectaculo inesperado escureceu-me o espirito de modo que nenhum raio d'esperança já póde reanimar-me. Espero em Deus que esta crise não se demore; e, depois, veremos.

«N'outra carta me abrirei mais comtigo. A oppressão produz no animo dolorosa preguiça. Em contentamento sereno ou nas afflicções agitadas, n'estes dois extremos, é que o espirito se compraz ou desafoga em diffusas cartas. Esta minha dôr é termo medio que prostra e embrutece. Adeus. Teu amigo muito grato

Fernando.»

DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES

Madrid, 14 de agosto de 1842.

«Meu Fernando. Quando recebi no Aranjuez, onde tive de demorar-me, a tua carta de despedida, corri logo a Madrid, não esperançado em encontrar-te, mas em ancias de saber o que se havia passado em minha ausencia. Esporeava-me o odio que recresceu n'estes ultimos mezes contra o algoz togado, o villão que me enganou quando eu tinha na mão o fio com que esperava cortar-lhe a vida na garganta.

«Deram-me a tua carta, e contou-me o creado que te vira queimar as de Paulina. Percebi logo que um completo rompimento vos separara para sempre. Odiei-a! Dei-te logo razão, porque eu sabia que tu eras um anjo merecedor de melhor alma.

«Na incerteza de me estarem trancadas as portas de Bartholo, procurei na rua o conde de Rohan, e soube que Paulina estava doente. Perguntei, sem rebuço, que razões se haviam dado para a tua saida repentina de Madrid, e elle sem me dar explicações, instou por saber o teu destino. Não lh'o podia dizer, não lh'o diria, ainda mesmo que antevisse n'esta infracção a tua felicidade.A tua felicidade, digo eu!

«Ha homens que ninguem deve conduzir a uma supposta felicidade: a má sina póde tudo com elles, e reverte-lhes em mal os mais logicos planos do bem. Os proprios amigos se tornam fautores da sua desgraça.

«N'este mesmo dia recebi um bilhete de Paulina, a perguntar-me onde estarias. Respondi que o não podia declarar. Redobraram instancias: permaneci inabalavel. O ultimo bilhete d'ella é este que te envio1. Não calculo o que succedeu para resolução tão improvisa! Dar-se-ha caso, Fernando, que a tua doentia imaginação te enganasse? Poderias tu ser injusto, sem consciencia de o ser? Irias arrebatadamente,onde com alguma hora de reflexão, deixarias de ir?

«Não ouso decidir por mim a hypothese: tamanha confiança me merece o teu bom juizo e reflexiva dignidade. Antes me quiz persuadir que procedeste como devias. Esperei.

«Agora, porém, recebo a tua carta de 4 de agosto. Nem uma palavra a tal respeito! Dir-se-hia que eu sonhei que tinhas amado Paulina, ou tu d'uma para outra semana perdeste a memoria do teu coração! Isto mais me capacita de que a razão do teu proceder foi tão grande que presumes deva eu já sabe-la, e por amor de ti proprio a omittes. Juro-te que apenas sei o que devo inferir dos bilhetes d'ella.

«O conde ignora tudo. Bartholo está com ares de satisfação; nada, porém, diz ao genro nem a Eugenia. Este mysterio mortifica-me. Esclarece-m'o, que o deves ao teu Almeida.

«Falemos agora da tua situação. Compunge-me a sorte de tuas irmãs, e de teus bons paes. Triste espectaculo, na verdade; mas providencial e necessario para a glorificação da tua honra. Precisas de força, e de paciencia para poder emprega-la.

«Queres um cargo publico? Os teus estudos, talento e serviços hão-de obte-lo; mas não cuides que será já, meu amigo. Tu perdeste a occasião de entrar nas secretarias com o arcabuz do cêrco do Porto debaixo do braço. As gravatas dos heroes de gabinete na emigração já se não temem das dragonas. Estamos em tempos pacificos. O que ha seis annos se conseguia e recebia com a mão a cheirara polvora, é preciso have-lo agora das mãos enluvadas das mulheres, que fazem os despachos nas othomanas, com os ministros reclinados sobre o seio. Advirto-te, para que a decepção te não surprehenda.

«Entretanto, meu caro Fernando, o que tu precisas é de encaminhar desde já a tua pretenção, dando ares de que não pretendes. Resgata os teus bens do Cartaxo, se o comprador t'os ceder: ostenta uma independencia que fira o orgulho villão dos grandes que não supportam animos generosos e isemptos; entra na politica, e escreve, que necessariamente has de escrever coisas excellentes, visto que é esse o ramo de conhecimentos humanos que dá fructo a quem lh'o pede, e para o qual todo o homem está habilitado. A honra ha de ser-te um empeço á boa saída; mas póde ser que a mesma excepção te aproveite. Ora como para estas coisas, e principalmente para a independencia, é necessario o dinheiro, vae ter á rua Augusta, procura meu velho pae, que has de encontrar a bater alguma caldeira, e diz-lhe quem és. Deves saber que eu sou já senhor da legitima materna, e este capital, que excede a vinte contos de réis, lá o tem meu pae á espera que eu lhe dê destino. A tal qual decencia, com que vivo aqui, é meu pae que m'a dá, prohibindo-me que eu gaste da herança de minha mãe. Vê tu que animo este de artista, que ainda não despegou uma semana de trabalhar! Vae lá, meu amigo; elle está prevenido, e sabe que és meu irmão. Pede o que quizeres, para m'o pagares quando puderes.

«Fecho, que está a partir o correio. Escreve muito ao teu

Almeida.»

DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA

Lisboa, 31 de agosto de 1842.

«Meu irmão.

«Guardo em minha alma a tua carta.

«Falarei primeiro dos teus fraternaes offerecimentos.

«Fui vêr teu pae, porque desejava conhece-lo e abraça-lo. Que cabellos brancos, e que mãos calejadas aquellas! Que bem e orgulhoso me senti nos braços d'elle! Falla de ti com lagrimas; mas todo aquelle rosto se abre em contentamentos d'um justo!

«Quiz que lhe contasse pormenores da tua vida em Madrid.

«Satisfiz aquella ancia do teu velho. Foi dia de férias na officina a minha visita. Mandou os operarios passear, recommendando-lhes que não fossem á taverna. Depois jantei com elle, e lá fiquei até á noite. Teu pae deita se ao escurecer e ergue-se com a aurora. Disse-me elle quando eu estava para sahir: «Veja lá o dinheiro que quer, doutor.» Respondi-lhe que não queria nenhum. Montou os seus grandes oculos de cobre, arregaçou os punhos da camisa, releu a tua carta, e exclamou: «Então como se entende o que reza esta carta do meu Hypolito?!» Satisfiz ás suas duvidas, dizendo-lhe que o teu offerecimento não fôra solicitado, nem por em quanto me era preciso aceita-lo.

«Assim passaram quatro boas horas da minha vida. Face a face com o principe de Monfort não me senti tão feliz e entranhado de respeito como ao lado do artista, do teu digno pae, meu querido Almeida.

«Beijo-te as mãos pelo amigo que me déste. Em quanto ao dinheiro, deixemo-lo estar,como nosso, na mão do honrado depositario. Quando precisarmos, lá iremos.

«Agora direi pouco de Paulina para te satisfazer, e menos terei que dizer-te, enviando-te uma copia da pagina da sua ultima carta. Ahi tens decifrado o enygma. O filho do sapateiro teve pejo e arrependimento de se haver abalançado ao coração da filha de um Briteiros: pejo de se haver abatido, e arrependido de a ter humilhado. Cahi em mim. Podia ser mais tarde, e mais funestamente para ambos. Deus poupou-me ao aperto de entrar em Portugal, e por esta porta dentro, onde todos choram, com a faustuosa e brilhante Paulina, que está fadada para alegrias e esplendores. Que sentiria aquella alma vendo-se aqui n'este ambiente de pobreza, pobreza que se adivinha em tudo! Alli dois velhos; além duas irmãs uma viuva, outra divorciada; acolá duas criancinhas, cada uma em seu berço, vagindo; lá em baixo o martellar do trabalho; em tudo o cunho de uma maneira de ser incompativel com a indole e educação de Paulina!...

«Que queres tu, á vista d'isto, que eu faça ao coração?

«Suffoco-o; obrigo-o a repartir-se por estas quatro creaturas, que não teem mais ninguem.

«O bilhete de Paulina como não me auctorisas a queima-lo, devolvo-t'o; póde ser que ella venha a envergonhar-se de te-lo escripto, e t'o reclame.

«Persiste em não dizer nada de mim; e, se tenho algum outro favor a pedir-te, é que me não fales d'ella; antes me ajuda a esquece-la.

«Meu generoso pae ainda a tal respeito me não disse palavra. Adivinhou tudo. Tudo me tinha prophetisado em Londres, com estas palavras:Que direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhações? Para que a procuras afincadamente, se vaes de rastros apoz ella? Porque has de tu querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma carreira por onde levarias teus filhos á grandeza?

«Na ultima pergunta é que o propheta ouviu demasiadamente os seus arremessados desejos. Esta minha carreira é a da inhabilidade e da pobreza; mas cá estou a refazer-me de alentos para a trilhar. Adeus, meu extremoso amigo. Não acceito o teu alvitre de me fazer politico. Já vi o que isto é. Não estou ainda bastante pôdre para adubar o torrão em que braceja a arvore da immoralidade. Estou envergonhado de ter dado o meu sangue para isto! Ás vezes chego a scismar se Bartholo de Briteiros teria razão!

«Perdôa esta impia ironia. Antes isto que os patibulos. Cada qual enforca a sua honra á sua vontade, e não causa lastima nem espanto. Não ha tempo para mais. Adeus. Teu

Fernando.»


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