Fica, pois, justificado o desgosto de Silvina, quando viu Jorge córar, por ter beijado a flôr, onde os labios da peregrina minhôta haviam imprimido o beijo de encommenda para a provincia.—Agora, disse ella; são dous os beijos que leva a sua mãi, em uma só flôr. Queira Deus que o halito dos labios do filho não tirasse o perfume ao dos labios da amiga.—Creio que sim—disse Jorge corando outra vez—creio que sim...—Porque?!—atalhou Silvina com despeito mal comprimido.—Porque sinto no coração o perfume do seu beijo.Sahiu-se melhor do que eu pensava. É aquella uma das respostas que costumam ir de casa gizadas; mascreio no improviso. E assim, explicado o segundo accesso de escarlate, desvaneceu-se o desaire em que estava Jorge na opinião caprichosa da dama, que replicou muito requebrada:—Pois não esperdice o perfume, porque nunca sentirá no coração outro mais puro, mais digno de incensar o seu amor reflectido do céo.—Amor!—interrompeu Jorge com exaltado impeto de criança—Olhe que essa palavra póde ser-me veneno para toda a vida, se v. exc.ª consentir que eu a guarde...—No mais intimo de sua alma... Guarde... que nunca a proferi com tão pouco conhecimento de quem a dou, e tão pouca esperança de a vêr florir em venturas.Jorge Coelho ia naturalmente córar terceira vez, quando Francisquinha da Cunha chegou, com ar de zanga, e disse:—Vamos, prima, que o pai quer sahir... e é tão cedo... que raiva! estava agora ouvindo uma enfiada de tolices tão peregrinas...—De quem?—Eu sei cá de quem? d'um homem que se chama Pires, e que este senhor conhece... Não lh'o diga, não? Eu fui indiscreta...—Não diz nada—acudiu Silvina—pois não, snr. Jorge?—Eu, minha senhora!...—Asseverou-me—continuou Francisca gesticulando vertiginosamente com cabeça e braços—que se eu o não amasse, havia de espirrar á minha fronte de algoz o seu sangue de Larra, de Werter, de... Ai que homem, que homem aquelle! O que se produz na Maya! Ó filha, eu não posso perder aquillo!... Pires é meu...Ai! o pai... Vamos, Silvina.Silvina estendeu a mão a Jorge, e disse a meia voz:—Vá vêr-me ámanhã ao jardim de S. Lazaro.Jorge balbuciou alguma cousa que não vinha do coração. N'este momento, um receio doloroso o affligia com esta pergunta: «Esta mulher irá escarnecer-te, como viste escarnecido o teu amigo?»VI.As occorrencias do jardim de S. Lazaro, no dia immediato, não merecem chronica. O que póde, porém, succeder a um moço, que passeia o coração amante, no jardim do Porto, é bom de dizer-se, e folga a moral de ouvil-o.Se o leitor está no Porto, e vai apaixonado ao jardim de S. Lazaro, e conhece a familia da menina casadoura, por quem anda em brasa, faz a sua primeira cortezia, e foge de encontral-a segunda vez, porque repetir a cortezia é, além de provincianismo puro minhoto, cousa que cheira a inconveniencia, e póde ser até escandalo. Resta-lhe o expediente commum, e salva assim a honra das familias: é amoutar-se como fauno por entreas murtas e bosques de acacias, lobrigando aqui, e além, a caça estranha.No jardim de S. Lazaro os dous sexos dão ao passeio o que as sovinas municipalidades não tem querido dar-lhe; isto é, uma luxuosa superabundancia de estatuas, as quaes, tirante a alma, nem sempre se avantajam ás do marmore nacional. Sentam-se as meninas, mui bem compostas e ageitadas de mãos e cabeça, e alli se estão deleitando na vista do repuxo, em quanto o papá rufa com tres dedos na tampa da caixa do tabaco o compasso da modinha conhecida de Verdi ou Donizetti, que as trombetas bastardas estão executando...executando, sim, é a palavra.Ao relance artistico dos olhos não é feio aquillo. Cuida enxergar o myope em cada renque de cadeiras uma fileira demadonas de la sedia; mas a illusão d'um myope não vale os desconsolos de tanta gente que tem a sua vista escorreita, e pensa que a estatua deve ter umquantum satisde espiritualidade.Ha pontos na casca do globo em que a virtude custa pouco. Não sei se a bemaventurança é accessivel por igual de todas as terras; mas, convencido da rectidão que assiste aos negocios dos outros mundos, quer-me parecer que quatro virgens a um tempo, sahidas em espirito, uma de Pekin, outra de Constantinopla, outra de Paris, e a quarta do Porto, devem de ter differente recebimento e quartel nas regiões da gloria, onde ha premios para a virtude.Na razão directa da tentação, nos esforços em rebatel-a, é que deve ser aferida cada alma victoriosa que, apesar dos demonios succubos e incubos, se alista nas legiões do céo. Não se dogmatisa, entendam: quer-se escassamente enunciar idéa nova, resaibada de heresia, a vêr se algum hypocrita illustra o livro, com as injurias da sua caridade apostolica. Não ha no romance outromerito que o inculque, nem perspectiva melhor agourada para o editor.As adoraveis virtudes das senhoras do Porto não são de todo um merecimento: orçam mais por uma necessidade. O homem d'alli sente um terço, ou ainda menos das precisões espirituaes que, n'outras partes, incommodam o coração humano. Esta feliz frugalidade procede do geito d'aquella sociedade, geito antigo que degenerou em aleijão, rachitismo moral, corcunda hereditaria, e de mais a mais pegadiça, por quanto, se não é do Porto, e por lá apégar alguns mezes, leitor, apalpe as costas, e topará uma protuberancia a crescer, a crescer, até se formar corcunda, que irá comsigo a stoda a parte.Aquelle aleijão, de barreiras do Porto a dentro, não fica mal a ninguem. Os liliputianos, conta Swift, chanceavam o viajante europeu, que tinha a ridicula felicidade de ser um homem bem apessoado e perfeito. As bellezas do Congo recuam de puro nojo diante de um formoso nariz branco sem pingentes. No Porto ha o escarneo e o tedio que explicam o paradoxo do selvagem.A juventude masculina da cidade heroica está em contacto com a civilisação d'este seculo pelo alfaiate. Não poderam os velhos trancar as portas do burgo de Moninho Viegas á invasão dos figurinos. Calção e rabicho foram banidos; o tamanco e o chinelo d'ourélo cederam, constrangidos, o joanête indigena ao verniz, e ao couro da Russia; o difficil, porém, era pentear, vestir e calçar o espirito de gaito e arte que a gente, fitando em rosto o filho da civilisação portuense, não tivesse de descer os olhos a buscar-lhe nos pés o tamanco. É o sestro das transfigurações de golpe e abruptas.Um joven bem estrellado de minas e camapheus, chama-se no Porto um janota. A menina ingenua diz á visinha: «conhece aquelle janota?» ou «fulaninha namoraum janota louro.» Não se cuide, porém, que este epitheto implica mofa ou menospreso como em Maçãs de D. Maria, ou Lamas d'Orelhão. O janota portuense é uma cousa séria, que póde ser vereador, e irmão da ordem terceira.Por via de regra, o janota é uma creatura que nasce, cresce, abre-se em florescencia variegada de frakes, e colletes, e pantalonas; toma posse do balcão paterno aos trinta annos, corta o bigode para que lhe descontem as letras, põe oculos se teve o infortunio de estragar a vista com a luneta que lhe servia de não vêr nada, fructifica em crianças gordas que entrajam á escoceza, e escôa-se de vida através de quarenta annos de lerda pachorra de espirito, legando á prole um nome limpo, com pequenas farruscas que se ensaboam na barreia de um necrologio, e dous legados de cincoenta mil reis ás entrevadas da Cordoaria, e alguma cousa ao hospital do Terço.D'este viver assim resultam duas cousas que explicam muitas outras: primeira, que o elegante portuense dispende os annos perigosos da adolescencia vestindo-se de manhã para sahir de tarde; segunda, que as meninas, ao despegar da costura, ageitam os laçarotes do toucado, entufam os punhos das manguinhas, encostam o cotovello ao peitoril da janella, seguem o olhar de esguelha que lhe vai revirando o terceiro ou quarto janota predilecto, e fecha a janella quando a passagem do quinto é duvidosa.D'est'arte, as paixões são innocentes e ao mesmo tempo substanciaes como um caldo de gallinha. As relações epistolares não derrancam a pureza das olhaduras. A carta, em regra, é declaração escripta que tolhe a poesia da declaração muda. Palestras, quer de sala, quer a horas mortas, da rua para a janella, que piedosa criada deixou aberta, são, se a patrulha o tolera, a morte de ambas as declarações, porque o janota que falla émuito menos soffrivel e grammatical que o janota que escreve. Ainda assim, o casamento remata isto que se chama onamoro. E o mais é que ella e elle, nas suas horas de recolhimento, cada qual a só por só com a sua consciencia, contempla saudoso o passado e diz: «Que bella mocidade eu tive! muito me diverti!»Ponderam alguns authores que a morigeração dos costumes portuenses é o necessario effeito do atraso da civilisação e policia da classe media, em que as outras no Porto se embaralham e perdem. Esta palavra «civilisação» anda mal trazida para tudo. Se o refinamento das industrias, se a arte de crear capitaes, no minimo do tempo e com diminuto trabalho, constitue a maxima civilisação material, o Porto ganha a aposta aos mais ambiciosos prospectos de riqueza aventados pelos economistas. E assim é que alli enxameam os Midas no ouro e nas orelhas; porém, menos castigados que o fabulado Midas da theologia grega, logram digerir o boi e o toucinho na succulenta substancia que a natureza lhes deu.Os que negam ao Porto a vanguarda do progresso industrial, que é a mesma civilisação, irmã gemea da intellectiva, e fonte da sã moral, derruem desde os alicerces a sciencia moderna, confessando assim a utopia do systema vulgarisado nas escolas, nas gazetas, e nas fórmas de governar das nações mais cultas. No Porto, dão-se as mãos a riqueza e os costumes edificativos, para se justificarem estes por aquella, e a primeira pelos segundos. A industria é a de hoje: os costumes são os de ha um seculo. O chefe de familia poderá ser moedeiro falso, negreiro aposentado com exercicio na casa real, alliciador de escravos brancos, contrabandista tolerado; mas a filha d'esse homem da época vive intemerata como a filha de Virginio; cuida que seu pai, recolhendo a casa encalmado e suado, vem de servir a patria como Cincinnato; e, chegada a occasião de exercitar asvirtudes antigas, não duvidará ser Lucrecia, e Lucrecia menos equivoca que a de Colatino.Sobre este assumpto, mediocre seria o engenho que não produzisse um volume. Em louvor do Porto, escreveu o socio da academia real das sciencias Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos dous folhetins de nervo e polpa, com muito sal attico á mistura. O abundoso escriptor escreveria in-folios, se lhe aprouvesse, porque já um dos sete sabios da Grécia, Pittacus, parece que era, escreveu um volume dos louvores da mó d'uma atafona; e, para encarecimento do rábano, deixou Marciano um tractado muito de vêr-se. O talento é uma cousa temivel.Ora não vão já d'aqui os malsins de intenções maliciarem essas inoffensivas palavras, que não desprimoram, nem arguem deshonra ao paladium das liberdades patrias, como usam dizer os artigueiros da terra a proposito de qualquer empeço que lhes assombre o seu municipio, se acontece o governo ir de encontro a alguma postura sobre a carne de porco, ou cousa assim em que valha a pena lembrar ao mundo que o Porto é o paladium das liberdades patrias.N'isto pensava eu no jardim de S. Lazaro, n'aquelle dia em que Jorge Coelho, mais imprudente que atrevido, se avisinhára de Silvina, que, passados minutos de conversação, lhe disse:—Não se demore mais tempo, porque toda a gente nos observa com ar espantadiço. Eu cuido que estamos dando grande escandalo.Jorge Coelho retirou, e deu o braço ao amigo Pires, que fremia de raiva resultante d'uma desfeita que recebera de D. Francisca.—Desfeita!—disse Jorge—pois uma senhora faz desfeitas!?...—O requinte hediondo da insolencia!—vociferou o fidalgo da Maya tascando com phrenesi a ponta do charuto.—Que te fez?—Ouviu-me hontem na «Assembléa » uma declaração, acolheu-a com doudo enthusiasmo, disse-me que eu era um homem tão admiravel como perigoso; tremeu de pavor quando eu lhe fiz sentir o desfastio com que me arrancaria as entranhas, se me ella não aceitasse a vida como complemento da sua. Tudo isto me authorisava a offerecer-lhe hoje uma carta, com a certeza de me ser aceita. Offereço-lh'a, e ella responde-me que não sabia lêr se não letra redonda! Leonardo de Sousa Pires e Albuquerque sabe vingar-se. Vou ámanhã á Maya; depois... ai d'ella e de mim!VII.Christovão Pacheco de Valladares, morgado de Santa Eufemia, esteve sete dias e sete noites emparedado no seu quarto da hospedaria da «Aguia d'Ouro» depois d'aquelle desastre da «Assembléa.» Alguns hospedes repararam na reclusão, e averiguaram dos criados que exquisito homem era aquelle. D'estes hospedes, o mais grado era o morgado de Matto-grosso, solarengo de «Entre-ambos-os-rios» homem de grandes brios e musculos. Apenas informado, foi bater á porta de Christovão Pacheco, dizendo pela fechadura que abrisse que era parente e amigo. A identidade do parentesco foi de facil prova.—O primo Pacheco não póde duvidar—disse o morgado de Matto-grosso—que um irmão de meu setimoavô, que havia nome Heitor Moniz de Valladares foi casar á casa de Santa Eufemia com D. Urbana Pacheco, filha de Lopo Pacheco, governador de Cochim...—A fallar-lhe a verdade—disse o de Santa Eufemia—eu não sei nada de linhagens; mas tenho ouvido fallar a meu pai n'esse governador de Chacim.—Cochim, primo Christovão, Cochim.—Ou Cochim, ou lá o que é...—E saiba que da sua prosapia sahiram os mais illustres sangues das familias do Minho. Talvez v. exc.ª, primo, não saiba que a nossa linhagem está mui de perto aparentada com Porto-Carreiros!—Não sabia, nem sei de que sirva isso.—De que sirva isso!—acudiu Egas de Villas-boas Cão e Aboim Encerra-bodes, que assim se chamava o morgado de Matto-grosso. Não diga tal, primo Christovão Pacheco. Pois ignora que do solar dos Porto-Carreiros, fidalgos mais velhos que a monarchia trezentos annos, sahiu ha cinco seculos um infanção, que casou em Castella, e foi tronco da descendencia que vem illustrar-se na pessoa da actual imperatriz de França?1—Não sabia, palavra de honra, e isso que faz?—tomou o de Freixieiro.—Faz que somos parentes da imperatriz, e que podemos dizel-o á bocca cheia a esses de sangue azul da capital, que nos chamam a nós fidalgos de meia tigella, esquecidos de que os mais nobres barões da côrte deAffonso edificaram os seus solares entre Douro e Minho, e d'aqui, por si ou seus filhos, acompanharam os reis da primeira dynastia ás conquistas do restante da Lusitania, e d'além-mar.—A fallar-lhe a verdade, primo, quando entro a pensar n'essas cousas com que meu pai me quebra a cabeça, parece-me que trocava toda a minha fidalguia por algumas libras.—Oh! que blasphemia!—Exclamou Egas n'um impeto de sincera indignação.—Troca-se por libras um neto de Heitor Moniz de Valladares!?—Não é trocar-me por libras;—acudiu desabridamente o de Santa Eufemia—é que eu estou de vinte e oito annos, e ainda não pude sahir de casa senão duas vezes com esta; e não tenho remedio senão ir-me embora para Freixieiro, por que meu pai escreve-me hoje essa carta que o primo póde lêr, e depois me dirá se me não era melhor ser antes um caseiro das minhas fazendas, que me não servem de nada, n'esta idade em que eu preciso de dinheiro.—Vejamos isto—disse o de Matto-grosso, abrindo a carta, e lendo o seguinte:«Meu estimado filho.Já te disse que venhas para casa, que não ha dinheiro para andar em folganças. Os tempos estão muito bicudos, e o bicho já pegou nas videiras. Os bezerros do caseiro da Portela lá estão com a molestia, e a cheia levou a parede do lameiro do Quinchoso. Tudo são despezas. O abbade pegou-me pela palavra, e quer que eu mande pôr a porca no sino da igreja. O milho ainda não chegou á conta; os quatro carros que se venderam não chegaram para pagar as decimas. O garrano está de todo espravonado; pozes-te-o bom com a tua ida ao Porto. Tudo são desgraças.Em quanto á roupa nova, deixa-te disso; a casaca que levaste está muito boa, e o melhor é fazel-a em Guimarães, que são mais em conta os alfaiates. Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou ordem ao meu amigo brasileiro para te dar para a jornada cinco pintos; olha se ajustas a cavalgadura sem gorgeta. Dou-te a minha benção, e sou teu pai carinhoso,«Vasco.»—Que me diz a isso?—exclamou Christovão.—Eu sempre ouvi dizer—respondeu o primo Egas—que meu tio Vasco era um tanto fona; comprehendo que na idade do primo Christovão custa muito não brilhar na sociedade, a que o nosso nascimento nos dá direito; não obstante, seu pai está accumulando para o seu filho unico uma grande casa, e é preciso perdoar-lhe a intenção que é boa. Vamos ao mais importante: o primo quer dinheiro? quer os meus cavallos? quer os meus lacaios? tem tudo ás suas ordens; o que eu não consinto é que diga que trocava os seus brazões por algumas libras. Vamos, franqueza, precisa de fato? Chama-se já aqui o alfaiate: hoje mesmo póde sahir de ponto em branco. Tenho cá dous cavallos, ocoriscoe ophaetonte: o primo monta qual quizer. Diga-me agora a que veiu ao Porto.O morgado de Santa Eufemia, entre jubiloso e magoado, contou ao primo a historia doseu amor de raiz, como elle dizia. Mostrou as cartas de Silvina, que elle tinha atadas com um barbante n'uma bolsa interior da mala. Passou á ingenuidade da galhofa que lhe fizeram na «Assembléa» narrando as miudezas da casaca, e expoz o collete ginja e a gravata das orelhas fabulosas. E terminou em tom de lastima, accusando a perfidia da mulher a quem elle quizera dar o seu nome.Egas de Encerra-bodes, depois de provar que nalinhagem de Silvina havia um reles sargento-mór e um capitão de milicias, afóra duas bastardias e um filho sacrilego no seculo XVI, entrou a fuzilar colera dos olhos, tocando no ponto mais grave dos queixumes do neto do governador de Cochim.—Eu, dizia elle batendo no peito com a mão aberta, eu, primo Christovão, na sua posição teria açoutado os perros que o escarneceram na «Assembléa.» Esses que riram de Christovão Pacheco é a villanagem, cujos paes vieram para o Porto de rabona de cotim, chapéo braguez, e o tamanco herdado. Os nossos caseiros, quando a liberalidade de nossos paes, lhes concedia poderem enroupar de cotim os filhos, mandavam-os para aqui. Os filhos d'esses que para aqui vieram, primo, são os insultadores da risada boçal, os miseraveis que através da casaca, da pelle da luva, e do verniz das botas, estão accusando o costado proprio do fardo, o pé que reclama o tamanco, e a mão que suspira pelo cabo da enxada. Tenho visto esse gentio nos botequins, e por sobre o hombro observo os risos de grosseira mofa com que recebem o despreso dos que elles denominamparvalheiras. Parvalheiras, a nós, primo, que temos em nossas casas a educação que elles tem entre as balanças, e timbramos em honrar os appellidos de nossos avós, descendo até elles para que elles não subam até nós. Se quer vêr quanto é villã a basofia d'estes tendeiros, que trocam por titulos ceiras de figos e costaes de bacalhau, tenha o primo a longanimidade de os admittir á sua convivencia, e verá como se elles desfazem em lorpas cortezias, e citam a cada instante o seu nome, como um dos seus amigos d'elles... Vamos ao ponto essencial. Christovão Pacheco foi ultrajado. Um primo de Egas de Matto-grosso não é ultrajado impunemente.Tem um rival, primo?—É de crer que sim.—Fidalgo?—Isso não sei.—Cumpre sabêl-o.Uma hora depois entraram fardos de fato feito no quarto do morgado de Santa Eufemia, e logo botas do sapateiro francez, e chapéos da melhor fabrica. Vestiu-se Christovão Pacheco, e era de vêr em que gentil moço se transfigurou, e que nova alma entrou n'aquelle corpo. Se elle tivesse lido frei Luiz de Sousa, aquelle esbelto cortezão que se sepultára no frade, recordaria estas palavras escriptas com tanta sciencia do absurdo coração do homem: «É nossa natureza muito amiga de si, e experiencia nos ensina que não ha nenhuma tão mortificada que deixe de mostrar algum alvoroço para uma peça de vestido novo. Alegra e estima-se, ou seja pela novidade, ou pela honra e gasalhado que recebe o corpo: até os pensamentos e as esperanças renova um vestido novo.»2Assim foi o morgado de Santa Eufemia. Quando se viu, desconheceu-se. Outro corpo e outra alma. Olhava para o polimento das botas, e o vidrado d'ellas reverberava-lhe na alma em lampejos de alegria. Não se cançava de correr a mão pela macia seda do chapéo, e remirava-se ao espelhinho que o imaginoso chapelleiro enquadrára no centro da copa. Com o que elle se ia zangando foi com as luvas de nove pontos e meio, que gemiam pelas costuras, com a pressão do dedo polegar que queria á força entrar com os outros de uma assentada. O do Matto-grosso explicou ao primo os mysterios da luva, com muito mais siso que um certo folhetinista do Porto inventor dos mysterios da dança. No Porto ha gente para inventar tudo quanto ha.Os dous morgados sahiram da «Aguia d'Ouro» no domingo posterior áquelle em que Silvina fallára um momento com Jorge, no jardim. Para o jardim foramtambem elles, seguindo Silvina e Francisca, que saturam da missa dos Congregados. Quando subiam a rua de Santo Antonio, um grupo de elegantes, para quem a physionomia do morgado ficára indelevel, desde o baile, pararam maravilhados da reforma, fixando-o com impertinente reparo.O morgado de Matto-grosso estacou em frente do grupo, e disse:—Ora vamos: andem, ou desandem!Os elegantes abriram alas, encarando-se mutuamente com um ar de pasmados da propria docilidade.—Bravo! exclamou Leonardo Pires, que seguia de perto os morgados.Egas de Encerra-bodes voltou-se rapido para o da Maya, e disse mal assombrado:—Que é lá isso?—Dissebravo!—replicou Pires com serena jovialidade, porque gostei immenso de vêr aquelles bigorrilhas ladearem á esquerda e direita, e comprehendi a razão porque elles pararam contemplando este cavalheiro que eu vi,mutatis mutandis, no baile da Assembléa Portuense. Eu honro-me tambem de ser parvalheira, e como tal me apresento, pedindo-lhe que me recebam no numero dos seus conhecidos em quanto me não conhecerem digno da sua amisade. Sou da Maya, da familia dos Pires e Albuquerques, e primeir'annista da faculdade de direito. Tenciono formar-me porque não tenho que fazer, e não me conformo á vida de meus antepassados, que viviam dos galgos e dos cavallos. Abomino cordialmente o Porto; mas ha aqui uma mulher que me tem preso a esta terra pela fibra vingativa d'um coração nobre. Aqui estou esperando a hora de provar-lhe que senão brinca com um homem que tem esculpidas no seio as maximas herdadas de avós.Pires foi fallando n'este estilo até ao jardim. O morgado de Matto-grosso, scismando com o que seria nolivro dos costadosa familia de Pires e Albuquerques da Maya, escassamente ouviu o enfatuado palavrorio do mettidiço. Christovão ia um pouco desconfiado da bacharelice de Pires, que já o tratava por «vossê» quando entrou no jardim.Lá estava Silvina. Rodeavam-na alguns cavalheiros do Minho, censurando-lhe a crueldade com que abandonara o morgado de Santa Eufemia. D. Francisca da Cunha chanceava com remoques os patronos da victima do collete-ginja. A fidalga de Freixieiro, esporeada pela prima, fazia tambem riso do morgado, calando os rumores da consciencia que a não louvava. Era, pois, certo que o coração d'esta menina, degenerado acaso do seu bom natural, em poucos mezes de pratica de outra sociedade, se estava doendo de ter desconfessado, no baile, o amor de um homem, cuja mão tres mezes antes apertára com fervoroso amor e esperança de ser d'elle.Jorge Coelho presenciava de longe, e cioso, a attenção que Silvina dava aos cavalheiros minhotos. Não os conhecia, para afoutar-se a entrar na roda, e interrogar com uma palavra vaga o coração de Silvina. Esta, porém, repellindo com desdenhosa philosophia os pesares que secretamente a remordiam, ergueu a fronte desanuviada, poz os olhos nos de Jorge, e fez uma ligeira cortezia, que todos julgaram ser um aceno para chamal-o.A este tempo chegavam, perto de Silvina, Egas de Encerra-bodes, Christovão de Valladares, e Leonardo Pires. O do Matto-grosso comprimentou alguns primos que estavam na roda; e o de Santa Eufemia, voltando as costas para as senhoras, respondia, sem saber o que, a algumas perguntas d'um cavalheiro. O inquieto Pires, furando por entre todos, foi apertar a mão a Silvina, e dizer-lhe que estava o ideal da quinta essencia das fadas, com o que D. Francisca se riu, e riso fôra aquelle queabrira na testa de Pires um vinco dos que promettem cataclismos.—Dá-me novas de Jorge?—disse Pires a D. Silvina.—Eu cheguei hontem da Maya, e não pude ainda encontral-o no hotel. O amor reduzil-o-ia a Sylpho, minha senhora?—proseguiu o estabalhoado, mordendo o charuto ao canto esquerdo dos beiços, e arqueando os braços na cintura.—O seu amigo, disse Silvina, em voz alta, para desaffrontar-se da grosseira postura do morgado—está defronte de mim.Pires fez uma pirueta sobre o calcanhar direito, fitou a luneta no condiscipulo, contemplou-o da altura da sua critica, volveu de novo o rosto risonho para a dama, e disse:Sobre a pyra fumegante,Ardem ternos corações.D. Francisca deu largas a uma risada estridula. Silvina sorriu prasenteiramente á tolice. Alguns morgados receberam o dito como cousa de espirito. Pires, contente do seu auditorio, ia retirar-se quando o morgado de Santa Eufemia, voltando a cara jubilosamente soez para o grupo, soltou uma cascalhada secca e desafinada que assanhou cruelmente os nervos de Silvina.Todos estes movimentos foram seguidos de outro mais significativo. Os olhares convergiram todos sobre Jorge, que ficou encarnado até ás orelhas. Alguns dos cavalheiros murmuraram o quer que fosse, e nomeadamente Egas de Encerra-bodes fitou-o insolentemente, e disse a meia voz:—É aquelle?!—Pelos modos!—respondeu o primo.—Pobre criança! é preciso dizer ao pai que o mande buscar.VIII.Tinha Leonardo Pires, á volta com muita pequice, assomos de brios capazes de enganar a gente. Não levou em paciencia que os morgados rissem do seu amigo. Encarou com ferocidade o de Matto-grosso, e disse, estendendo o braço em attitude esculptural para o lado onde Jorge estava:—Aquella criança, que alli está, tem um dedo de homem, que faz recuar perfeitamente o gatilho de uma pistola.Os circumstantes algum tempo não tugiram. Se não fosse o melodramatico da postura, a cousa não era para rir; mas a lentidão, com que Pires desceu o braço, fez espirrar uma cascalhada universal, salvo Silvina que arquejava em ancias de raiva.Jorge conheceu que o escarneciam. Ergueu-se, veiu direito ao grupo, accendeu o charuto no de Egas de Encerra-bodes, murmurou seccamente umobrigadissimo, e foi saudar Silvina e Francisca com a desenvoltura desacostumada que lhe dava agora o ciume e a ira.Silvina, contente da façanha, deu-lhe lugar immediato no seu banco. Porém, o pai de D. Francisca da Cunha, adivinhando tempestade nos olhares coriscantes de Christovão Pacheco, ergueu-se, puxou para baixo as pantalonas que tinham marinhado até meia-canella, e disse:—Vamos, meninas, são horas de jantar; vamos ás sopas.Levantou-se Jorge, sem ter dito palavra; mas Silvina, estendendo-lhe a mão, de sorte lh'a apertára e sacudira, que fez evidente a intenção de tornar bem reparado o feitio, muito de notar-se em menina de sua idade e educação aldeã.Mal as damas voltaram costas, o morgado de Santa Eufemia foi bruscamente a Jorge Coelho, e disse-lhe:—O senhor é um petisco! Não se me ande a fazer fino, quando não...Jorge respondeu assim á brutal arremettida:—A phrase é de carreiro; e, se não é carreiro quem me insulta, deve de ser um embriagado.Leonardo Pires dá um passo á frente de Jorge, põe a mão no peito, e exclama nem facundo nem irado:—Eu sou insultado na pessoa do meu amigo: exijo uma satisfação.O fidalgo de Traz-os-Montes, fazendo signal de retirada á filha e sobrinha, entremetteu-se no grupo que se ia cerrando, abriu os braços, e tirou do peito estas memoraveis palavras:—Os senhores estão aqui desacreditando a provincia. Se querem ser o que lá no matto são os homens de figados, peguem em dous carvalhos cerquinhos, edeem até tocar a quebrado; mas não queiram que os botem ás gazetas ámanhã. A minha opinião é esta. O menino vá para um lado—disse a Jorge, empurrando-o com brandura—e o senhor morgado para outro. Em quanto á rapariga, minha sobrinha, ámanhã eu a porei em casa do pai.Jorge, tirado pelo braço de Pires, sahiu do jardim, e pôde ainda vêr nos olhos de Silvina, um movimento de radioso orgulho da bravura d'elle.Na tarde d'esse dia recebeu Jorge a primeira carta de Silvina que resava assim: «É bello ser amada por um homem de coração e esforço. É bello poder testemunhar a desaffronta do homem que se ama; mas é triste não poder, na presença de Deus e dos homens, dizer-lhe:—TUA POR TODA A VIDA!»O academico da Maya ouvira lêr a carta, e disse, com quanta vehemencia lhe permittiu a posição horisontal n'um canapé, e as pernas sobre as costas d'uma cadeira:—Essa mulher tem espirito, palavra de honra! Amor e estilo, amigo Jorge, são o alpha e omega d'esta humanidade perfeita em que tivemos a dita de cahir das nuvens. De que diabo serve a rhetorica com que estragamos a memoria em Coimbra, não me dirás?! Se o padre Cardoso, que fez um compendio da arte de fallar, escrever uma carta como essa, diz tu que eu sou um parvo e que me não hei-de vingar da Francisca da Cunha! Diante d'estes talentos brutos, sem mão d'obra, como é o da tua Silvina, os Quintilianos e os Longinos ficam no tremedal da sua protervia explicando aenallagee ohyperbaton. Oh! o estilo é muito mais a mulher que o homem! Eu dispensava bem tres partes do coração na mulher que me soubesse acepilhar e lapidar um periodo! Ha lá nada mais lindo? A formosura fenece como as flôres; o estilo fica. Silvina, a eloquente Silvina, quando de pura velhice não tiver aquelles dentesde marfim e esmalte, ficará com a bocca cheia de phrases melodiosas, como o canto do cysne. Tu és feliz, Jorge, mas a mesada deve estar nas vascas da morte. Estás sem vintém?—Não; meu tio padre mandou-me cincoenta mil réis para lhe eu comprar dez volumes da Encyclopedia Catholica, e eu...—Já devoraste cinco volumes emrost beef, e luvas brancas e charutos, não é verdade?—E minha mãi encommendou-me duas peças de durante, e não sei que mais, que está esperando ha oito dias... Hontem recebi d'ella uma carta, que me fez pena e saudade...—Tem estilo?—interrompeu Pires, sentando-se estabalhoadamente.—Não brinques com cousas sagradas: minha mãi não tem estilo, e n'esta carta o que me diz é copiado do seu livro de orações.—Ora essa!... Isso é original! Deixas-me vêr a carta-jaculatoria de tua mãi?—Deixo... Aqui a tens... eu leio.Jorge Coelho, commovido, leu o seguinte:«Abro o meu livro de orações e copio estas palavras para que meu Jorge as leia:—A infeliz mãi, cujo filho começa a frequentar as sociedades põe toda a sua esperança na protecção de Maria. Começa o joven mancebo por alguns desmanchos que fazem conceber grandes receios ácerca do restante da sua idade. A mãi assim lh'o diz, e dá os mais ternos conselhos; elle, porém, rebella-se contra aquelle tão puro affecto, contra aquella dolorosa previsão de mãi, e assomando-se lhe pergunta porque duvida de sua honra e prudencia, e acrescenta: Parece-vos o meu comportamento reprehensivel, porque não frequentaes a sociedade: eu faço o que fazem todos.—Infeliz!—a mãi exclama—que te deitas a perder por isso que fazes o que todos fazem.—Ri oinsensato dos temores maternos, e adianta-se ás cegas n'um caminho semeado de escolhos. Tudo está posto em aventura: a honra n'este mundo, e a salvação no outro. Não sabe a mãi o que faça para salvar o objecto de tantas lagrimas e crueis angustias. Vê perdido o filho, e perdido para sempre. Maria, porém, consoladora dos afllictos se lhe mostra como dôce visão... E a mãi afflicta, de joelhos, com as mãos postas, exclama: «Ó Maria, auxilio dos christãos, salvai meu filho, rogai por elle!»—Jorge, eu orei com estas palavras: a Mãi de Jesus ha-de ouvir-me, e fallar-te commigo ao coração. Vem, vem para nós: teus irmãos chamam-te com saudade, e eu com lagrimas.»Leonardo Pires respeitou a commoção de seu amigo, e principiava um discurso de molde segundo o caso pedia, quando o morgado de Matto-grosso, e outro dos cavalheiros que entrava na roda do jardim, assomaram na porta.—Temos duello—disse a meia voz, Pires, entalando no olho direito o aro circular da luneta e esguelhando a bocca.—Queiram entrar—proseguiu elle, adiantando-se para a porta—se é que entende com o meu amigo Jorge a honra da visita dos cavalheiros.Egas de Encerra-bodes entrou e disse:—Vem aqui commigo o snr. Theotonio Tinoco Pitta de Lucena, da casa da Trofa, fidalgo tão antigo como o solar dos Lucenas. O snr. Jorge não me conhece. Eu sou primo do morgado de Santa Eufemia: tenho dito de sobra para justificar o meu nascimento.—Ha-de perdoar-me—disse Pires,—não precisava v. exc.ª dizer tanto para justificar o seu nascimento...—E atalhou logo a ironia vendo que o vulto do morgado se anuviava de mau agouro:—o senhor morgado é tido e havido na conta de muito bom sangue da provincia...—E do melhor de Portugal—cortou logo Egas—Vamosao ponto da nossa missão. Christovão Pacheco de Valladares manda perguntar ao snr. Jorge Coelho se algum de seus avós lhe transmittiu o fôro que torna iguaes no campo da honra, nobre com nobre, as pelejas do pundonor aggravado.Jorge ficou atalhado com o espavento da pergunta, e ia pedir explicação da linguagem que lhe fez lembrar o tedioso Clarimundo, quando Pires, sacudindo as borlas do seu rob-de-chambre respondeu:—Jorge Coelho herdou de seus avós a honra, é quanto basta. Na sala do palacio de Cintra não está lá o escudo dos Coelhos, porque o cobre a mortalha da«..............misera e mesquinhaQue depois de ser morta foi rainha.»Jorge por sua mãi, é Sepulveda, appellido que traz á memoria o caso miserando, aquelle naufragio de que por ventura das letras patrias nasceu um poema!...—Deixemo-nos de lerias!—interrompeu Theotonio Tinoco.—Lérias! o snr. Pitta de Lucena chama a isto lerias!—acudiu Pires—Então que quer o senhor?—Queremos que esse amigo dê uma satisfação ao outro a quem elle chamou bebado hoje.—Mas, primo Tinoco—disse o do Matto-grosso—bem sabes que o primo Christovão não propõe, nem aceitaria desafio, a quem não tiver nascimento.—Ficamos agora sabendo que este cavalheiro é de familia de bom sangue...—Eu não sei de que sangue é a minha familia—atalhou Jorge serenamente.—O meu amigo Pires não o sabe melhor que eu, e vv. exc.ashão-de ter a bondade de dizer ao snr. morgado de Santa Eufemia que a côr do nosso sangue lá a veremos no campo, quando elle quizer.—Nomeie os seus padrinhos, para nos entendermos com elles—disse Egas.—Um serei eu, se derem licença—disse a voz de um homem, que entrou de subito no quarto.—Meu tio!—exclamou Jorge, beijando-lhe a mão.Era, com effeito, o padre João Coelho.Leonardo Pires e os outros olharam com veneração para a figura sublime do velho, que trajava rigorosamente as vestes de sacerdote. Jorge baixara os olhos, em quanto o padre, com as palpebras humidas, e as mãos convulsas, fitava e comprimia ao seio o sobrinho. Passados instantes, disse compassadamente:—Tantos annos e trabalho para te aproveitar, Jorge, e tu em tão pouco tempo te perdeste! Ha menos de nove mezes que sahiste dos braços de tua mãi, e venho-te encontrar na vespera de expôr o corpo e a alma com menos desculpa que o salteador que traz o peito á bala e o coração damnado pela perversidade!E voltando-se para os tres cavalheiros, disse com uns assomos de nobre authoridade e sorriso ironico:—Quem são estes folgados rebentos de illustrissimas prosapias que vem aqui desenfastiar-se dos tedios da sua inercia, estragando a alma de uma criança? Ouvi aqui nomear appellidos estrondosos que representam varões de grandes serviços á religião e á patria: é lastima que os netos dos Tinocos e dos Pachecos andem pregoando o desafio, o derramamento de sangue, como prova de honradas consciencias e altos espiritos. Melhor lhes fôra que as suas consciencias fossem mais christãs que honradas. Não se illustram memorias de avós derramando doutrinas impias. Se o seculo as aceita, senhores, então reneguem vv. exc.asdas virtudes de seus avós, que outros seculos laurearam. Se os costumes barbaros d'esta civilisação, que por escarneo se chama assim, se conformam com os seus animos, não andem hypocritamente chorando saudades de Sião, os que seatascam nas immundicies de Babilonia. Jorge, eu fui aqui mandado por tua mãi: não quererá Deus que tu desobedeças á voz que te chama. Eu só quero exercitar sobre ti a authoridade do conselho; tua mãi chama-te: deves hoje mesmo sahir do Porto commigo. A vv. exc.asrogo eu mui humildemente que se não afflijam da perda de um noviço na confraria dos heroes do tempo. Costumavam nossos avós, antes de entrarem na cavallaria, velarem as armas no templo do Deus vivo; meu sobrinho vai armar-se cavalleiro, que não é ainda, e depois voltará á arena. Riem-se os nobres senhores? Velar as armas é sacramento de tanto ponto, que nem o fidalgo da Mancha se deu por bem posto na sua missão, antes de armar-se cavalleiro no curral d'uma bodega, e o mesmo foi dar sova brava nos arrieiros. Tens tu já Dulcinea, meu sobrinho? Claro é que sim. Ora, pois, aguarda melhores dias para as tuas façanhas, e diz aos teus padrinhos que te deixem ser mais algum tempo bom filho, bom irmão, e bom christão.Egas de Encerra-bodes já não estava muito de bons humores com o padre. Tinoco Pitta não o tinha entendido, e abria a bocca pela terceira vez. Leonardo Pires não se atrevia a despregar da lingua aquellas espontaneas e por vezes graciosas parvoiçadas que lhe vinham á flux da abundancia do coração. Jorge Coelho tinha tão de negro cerrado o espirito que não balbuciou palavra. Era impossivel a desobediencia; mas deixar Silvina, sem levar comsigo a certeza de que a distancia não mataria n'ella a paixão nascente, isso era uma dôr que o pobre moço desafogou em pranto desfeito, passando ao quarto immediato que era o de Leonardo Pires.O morgado de Matto-grosso, para evadir-se á posição embaraçosa em que se via, despediu-se com estas palavras:—Muito bem: eu vou dizer ao cavalheiro offendido por seu sobrinho, que o offensor não tem imputação,attendendo á sua criancice, e mais ainda ao facto de a mãi o mandar chamar para o seu regaço, como criança que é desmamada de fresco.—Não, senhor, atalhou o padre com seraphica brandura, diga ao senhor morgado de Santa Eufemia, creio que assim se chama o seu amigo, diga-lhe que seja generoso no perdão das injurias; que não desdoure os seus antepassados barateando o sangue honrado que elles lhes transmittiram; diga-lhe sobre tudo v. exc.ª que seja christão. Lembre-lhe que o desafio é uma ferocidade que nem se quer prova coragem, porque a verdadeira coragem é aquella admiravel abnegação dos louvores do mundo aos impetos da raiva, e valoroso louvavel aos olhos do Senhor é só aquelle que tem mão de suas iras, e desarma com humildade sem baixeza os féros e acommettidas do inimigo.—Teu tio é grandemente lido nos classicos!—disse Pires, no quarto immediato, a Jorge Coelho, que enxugava as lagrimas teimosas.IX.Pobre coração! Tão puras lagrimas não has-de choral-as mais. D'essa grande afflicção de que tu appellas para a morte, has-de lembrar-te sempre com saudade, meu amigo. Na tua angustia ha os prantos do anjo, saudoso do céo. Na mulher que deixas, cuidas que te fica a santa companheira do Eden que a tua candura via na terra, aberto ao amor sem mancha, convidativo de santos gosos. De dez em dez annos pararás, no caminho da vida, peregrino da sepultura; voltarás o rosto para aquelle teu dia dos dezenove annos, e verás em flôres, fenecidas mas ainda graciosas, os espinhos por onde a pedaços te fica, meu pobre Jorge, o coração. Saberás então o que é a saudade; pedirás á desgraça dôres semelhantes ás da tua mocidade para abençoal-as; atiraráscom o peito ás sarças das paixões vertiginosas para espertares os pungitivos desgostos do amor contrariado. Não já lagrimas, se não fel derramará o coração, que devêras ter dado a Deus, desde que o mundo t'o desbaratou a repellões e injurias. Chora, filho da sina maldita dos poetas, chora no seio de tua mãi; bem póde ser que ainda lá te espere o anjo da tua guarda.Jorge Coelho não proferira uma palavra desobediente ao tio padre. Apenas, quando enfardava a roupa nas malas, enxugando as lagrimas antes de erguer o rosto disse:—Meu tio entende que me é honroso sahir do Porto sem responder ao desafio?...—Padre João, que abria o seu enorme lenço escarlate para se assoar, ficou algum tempo com os braços suspensos, e o lenço pendurado, e assim esteve, como estupefacto cravados os olhos no sobrinho, que esperava a resposta. O nariz, porém, urgia: padre João Coelho levou o trombetear da limpeza até á hyperbole, dobrou o lenço em quadro, depois enrolou-o, deu com elle mais alguns torcegões ao nariz, armou-se de pitada, e disse:—Não é Deus que os perde; é o demónio que ensandece aquelles que quer aproveitar. Que é honra, Jorge? O evangelho que te diz das injurias, do odio, das affrontas, das injustiças? O filho de Deus dictou e rubricou com o seu sangue a lei, a regra, os deveres da humanidade; não importa ser o evangelho obra de Deus; não importa que alli venham prescriptas as maximas da boa e honrada vida: o evangelho é já inefficaz por que a humanidade inventou uma honra que se prova e sustenta com o duello: a vossa honra, cegos miseraveis dignos de lagrimas, lava-se no sangue, justifica-se pelo homicidio, ao qual a legislação decreta a forca, e a convenção social o galardão da bravura. Jorge, quem te disse que o assassino era honrado?O academico apenas respondeu:—Meu tio, vamos; eu estou prompto.Leonardo Pires já estava no largo da Batalha, chamando a attenção dos numerosos transeuntes que paravam em magotes para verem o cavalleiro com as esporas cravadas nos ilhaes de uma égua de fina raça que se empinava, e corcovava, e atirava ora couces, ora galões medonhos. É que Leonardo Pires vira D. Francisca da Cunha n'uma janella do palacio do snr. Manoel Guedes, e de si para si entendeu que lhe ia bem dar-se n'aquelle espectaculo hyppico, mesmo com perigo de quebrar a cabeça, como de facto quebrou, e tão desgraciosamente o fez, que Francisca da Cunha, anciada de riso, dizem que cahira extenuada n'uma othomana.Andava o infeliz Pires atraz da egua espavorida, com ajuda dos gallegos do chafariz, quando Jorge e o tio desceram da hospedaria da Estrella do Norte para a praça.Apanhada a cavalgadura, indiscreta e desasada para heroismos de amor, Pires montou de salto, e acompanhou até Vallongo o condiscipulo, com evidente desagrado do padre. No caminho, em quanto o egresso ficára atraz compondo os loros do macho fleumatico, o amador infausto de Francisca da Cunha disse a Jorge:—Que queres que eu diga a Silvina, se o tio a não mandar para a aldêa?—Diz-lhe, respondeu Jorge commovido, com os olhos marejados de lagrimas—diz-lhe que eu não posso contar com a minha vida para lh'a offerecer. Diz-lhe que eu não fugi de cobarde; por quem és, Pires, não consintas que me ella ultraje, duvidando da minha coragem. Falla-lhe de minha mãi, que eu sei que ella me amará ainda mais, vendo que eu respeito tanto as lagrimas da que me formou o coração que eu lhe dei, e ella achou digno de si. As minhas cartas mando-t'as a ti para lh'as entregares... Silencio, que ahi está meu tio.—Snr. padre João Coelho, disse alegremente Leonardo, pique o bucephalo cá para a frente.—Alexandre Magno não montava machos, senhor estudante, respondeu o padre. Andaria mais acertado com a historia se me honrasse antes com as tradições de Sancho Pança. O machinho sabe que leva em cima um engenho velho, que se acerta de inclinar na carga cahe cada peça para o seu lado.—Mas leva uma grande alma, replicou Pires.—O macho? perguntou o padre, sorrindo.—Sim, senhor.—Lá em Coimbra estuda-se essa psycologia de veterinaria? As grandes almas passaram, pelos modos, dos Aristides e Catões para estes quadrupedes! Se assim é, que nos fica para nós, senhor academico?—Eu queria dizer ao meu nobre amigo que o macho leva um cavalleiro com grande alma.—Muito obrigado ao seu favor, snr. Pires. Eu tambem o entendi; mas metti-me a engraçado a vêr se desafiava o riso, do meu pobre Jorge, que vai ahi melancolico, como nunca foi filho algum para os braços de sua mãi e irmãos.—É que Jorge Coelho, tornou o estouvado infanção da Maya, está como a avesinha a pairar emplumada, que salta para o rebordo do ninho, e vacilla entre ir para a mãi que a está dentro chamando com o cibo, ou voejar para a arvore em flôr que a está enamorando de longe.—É uma bucolica bonita que o senhor vai poetisando—tornou o padre, fechando o olho direito e sorvendo uma canora pitada pela venta correspondente.—A avesinha (se dá licença, eu componho em linguagem chan e fradesca uma estrophe do idyllio) a avesinha deixou piar a carinhosa mãi, e desferiu as tenras azas na pontaria da arvore florida; e, como quer que as forças lhe cançassem do desusado vôo, não teve a avesinha remedio senão abater-se ao chão para pousar. E vai n'isto, andava por alli á caça de ninhos um gato ou uma gata brava, seja gato ou gata; o essencial é que apenas otriste passarinho apegou, o animal damninho fez-lhe o salto d'entre umas balças, e o filho da pobre mãi, que se morria de paixão no ninho, lá foi empolgado pelo gato ou pela gata... Lafontaine não inventou este conto, e merecia a pena; não importa: compuzem'ol-o nós, snr. Pires,ad usum delphini, e seja delfim o nosso Jorge.A allusão desgraciosa da gata foi tão clara quanto desagradavel a Jorge. Era uma injuria á mulher querida, á sombra lagrimosa que o ia acompanhando, e instigando a reagir contra o dominio de parentes, e exhortando a emancipar o coração d'uma tutela que lhe deixava da vida as regalias que bastavam á criança, mas não ao homem.Azedado, pois, pelo motejo da bucolica do padre João, Jorge disse com vehemencia:—Meu tio offereça a moralidade dos contos a quem lhe pedir lições.Padre João, depois de breve pausa, respondeu brandamente e com magoada tristeza:—Não te envergonhes de pedir-me lições, filho, que as não pedes sómente a um velho; dá-t'as um amigo, que foi homem antes de ser frade, e estudou os homens, depois que o mandaram sahir da sua cella, como cousa inutil á sociedade. Se me não quizeres as lições, de que sirvo eu, Jorge? Já agora irei prégando sempre, quer me ouçam, quer me repulsem, como manda o apostolo.. Desagradou-te a allegoria do conto, e convidas-me assim a ser mais natural. Jorge, repara bem no que te diz este velho que, no teu modo pouco respeitoso de fallar a uma mãi, «te premuniu com cabedal de philosophia christã, bastante para defender das tentações todas as nações da biblia exterminadas por causa do peccado.» Sei de cór as tuas palavras, porque m'as entalhou na alma o espinho da ingratidão. Deves-me bons desejos de te fazer bom e honrado: não me sejas ingrato. Agora, escuta, filho. Vinte e quatro horas antes dete apparecer, procurei-te, porque do Porto fui avisado dos teus desvios: como te não encontrei, fui colher mais informações; voltei á noite á hospedaria tres vezes, e ás duas horas não tinhas ainda recolhido. No dia seguinte, que foi hoje, procurei-te ás nove horas da manha: tinhas já sahido. Déste-me tempo de sobra para eu me instruir das miudezas da tua historia de tres semanas. Sei quem é a creatura que te ourou a cabeça. É uma feia alma n'um formoso estojo; é uma aventureira...—Meu tio, isso é crueldade e calumnia—interrompeu Jorge allucinado.—Bate, mas escuta, dizia o philosopho: é uma aventureira de maridos, que engodou o morgado de Santa Eufemia, em quanto julgou desnecessario o consentimento do velho fidalgo para a realisação do casamento que a fazia rica. Desvanecidas as esperanças do morgado, cuja rudeza lhe não desdizia com o espirito arteiro, voltou-se para um rico brazileiro de Cabeceiras de Basto; mas o brazileiro não lhe entendeu os pespontes da eloquencia, e disse que queria mulher com quem elle se entendesse. Chamada por uma prima, professora em armadilhas ao casamento...—Francisca da Cunha?—exclamou Pires, erguendo-se nos estribos.—Justamente, Francisca da Cunha, menina matreira que...—Olhe que eu amo essa mulher, snr. padre Coelho!—interrompeu solemnemente Leonardo.—Pois faz v. s.ª muito bem: o amor do proximo é preceito divino: sou de parecer que a ame; mas não lhe dou os parabens... Vinha eu dizendo que a tal Silvina já no Porto, de mãos dadas com a prima, não duvidou visitar uma estalajadeira de Margaride que viera a banhos de mar, porque esta estalajadeira tinha um filho que viera do Brazil, com alguns centos de contos, negociados na escravatura. E como o filho da estalajadeiranão andava acostumado a comprar senão negras possantes e trabalhadoras, recusou comprar a compleição melindrosa da fidalga de Margaride. D'ahi veio o saber-se, pelo dizer a snr.ª D. Silvina, que o poderoso brazileiro é filho d'uma taverneira, e que fôra para o Brazil com umas soletas e chapéo de Braga que lhe dera de esmola o pai da fidalga. Eis aqui o que eu pude averiguar da pessoa por quem meu sobrinho troca os carinhos de sua mãi, a dôce amisade de seus irmãos, e as lições amoraveis de seu velho tio.Jorge Coelho ficou enleado, e não replicou; Leonardo Pires, porém, que nunca em sua vida pensára o que dizia, senão meia hora depois de o dizer, exclamou:—Mas ha-de confessar, snr. padre João, que ellas são boas mulheres!—Boas!...—murmurou o padre, que não entendeu o sentido do adjectivo—boas... quer-me parecer que não são muito!—Ora essa! pois não as acha bonitas e elegantes?—Eu não as conheço; mas creio que são bonitas e elegantes: e d'ahi?—E d'ahi!Amor omnia vincit!o amor tudo vence.—Agradeço a traducção—disse, sorrindo, o padre, que, a fallar a verdade, tinha uns sorrisos que muito justificavam o dito de ter sido «homem» antes de ser frade.—O snr. Leonardo Pires não tem mãi?—acrescentou o padre, após um curto intervallo, com summa seriedade.—Tenho, sim senhor; mas não tenciono namorar minha mãi—disse precipitadamente Leonardo.O padre fitou-o com tristeza e admiração, um momento, e depois disse-lhe com bons modos:—Praza a Deus que o coração esteja menos derrançado que a linguagem... snr. Leonardo Pires, eu tenho setenta annos; deprava-se um rapaz; mas respeita-se um velho.D'esta vez, o imperturbavel Pires não teve que responder.Tinham chegado a Vallongo. Jorge estendeu a mão ao seu amigo, e disse-lhe suffocado:—Adeus! não sei se te verei mais... Sinto a morte no coração!O padre fez um frio comprimento ao amigo de seu sobrinho, dizendo-lhe:—Deus o tenha de sua mão.Leonardo partiu; e o egresso, com os olhos embaciados de lagrimas, murmurou:—Jorge! quem te abriu as portas da desgraça foi aquelle homem.X.Não esqueceram de certo ao leitor attento estas linhas da carta que o morgado de Santa Eufemia recebeu do pai:—Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou ordem ao meu amigo brazileiro para te dar para a jornada cinco pintos.O brazileiro amigo do fidalgo de Freixieiro era o snr. José Francisco Andraens, natural de Cozelhas, desde 1844 estabelecido no Porto, onde viera tratar do baço, do pancreas, e d'outras entranhas importantes do snr. José Francisco Andraens. Na mente do illustre enfermo estava retirar-se para a provincia de Piauhy, onde tinha a sua feira de pretos, logo que restaurasse o estomago e as mais partes circumjacentes da sua alma. Porém, como quer que um seu amigo velho, e companheirode viagem para o Brazil, em rapazes, estivesse no Porto com o titulo de visconde dos Lagares, e este o fizesse conhecido por meio das gazetas por uma esmola de cincoenta mil réis ao hospital da Santissima Trindade, o snr. José Francisco viu-se tão festejado, tão requestado, tão necessario ao Porto, que mandou vender os pretos em ser, e liquidar os creditos.Tentemos um debuxo de José Francisco. Deve estar entre cincoenta a cincoenta e cinco annos, estatura menos de mean, com tres barrigas, das quaes a primeira, começando pela parte mais nobre do sujeito, principia onde o vulgar da gente tem os joelhos, e, depois d'uma arremettida adiposa, retrahe-se na linha imaginaria da cintura, e estreita-se em fórma de cabeça. A segunda barriga pega da primeira, ondeia com tres ordens de refegos por sobre as falsas costellas, ladêa tumida e retesada como os flancos d'um ôdre posto de través, e vai perder-se nos sovacos, mandando para as costas uma corcunda da sua mesma natureza. A terceira barriga pendura-se da face interna do queixo inferior, amplia-se flacida e lustrosa como um buxo mal cheio de vitella, e assenta sobre a segunda, no ponto hypothetico do esterno. A parte anatomica d'este bosquejo toda ella se libra em conjecturas. O author não assevera senão a existencia das barrigas.Isto tudo tem uma base caprichosa: são cousas que a linguagem do paradoxo denomina pés. Vacilla a critica no confrontal-os com objecto dos tres reinos: uma tartaruga envolta em bezerro dá-nos uns longes da realidade; mas falta-nos o simile para os declivios, gargantas e barrocaes dos joanetes. Os pés de José Francisco são a desesperação dos Gavarni. O marrão do alvanel poderia arrancal-os d'um golpe d'uma pedreira por acaso; mas Apelles mais depressa pintaria uvas que enganassem o bico sequioso da passarinhada.No tocante á cara o snr. Andraens é homem, apesard'outros animaes que lhe não disputam os fóros da humanidade, porque não teem um curso de historia natural. O rubor do tomate desmaia ao pé das papeiras faciaes do brazileiro. O nariz enfronha-se de envergonhado entre as trouxas de tecidos, que lhe debruam os olhos de oppilações carnosas, sebaceas e luzidias. A menina do olho é rutilante e azougada, posto que as secreções visinhas lhe bezuntem a raiz das pestanas.O snr. Andraens é commendador da ordem de Christo, desde que o seu amigo visconde dos Lagares foi nomeado trinchante da casa real. Afóra isto, o brazileiro de Cozelhas, na qualidade de accionista do Banco Commercial do Porto, é orador vitalicio d'aquella assembléa, em que não são raros os talentos de maior porte. Tal era o amigo do velho fidalgo de Freixieiro.José Francisco esperava que o filho de Vasco procurasse os cinco pintos, segundo a ordem que recebera. Decorridos alguns dias, escreveu ao seu amigo, a dizer-lhe que o fidalgo novo não apparecera para receber o dinheiro. Tornou o velho a escrever ao brazileiro, encarregando-o de procurar o filho, aconselhal-o que fosse para casa, e pagar a despeza que elle tivesse feito na estalagem.Foi o snr. Andraens áAguia d'Ouro, e como não encontrasse Christovão, deixou dito ao criado do quarto quem era e a precisão que tinha de fallar com o morgado. Já vinha descendo as escadas, e voltou acima a chamar o criado.—Olhe lá, disse elle, o fidalgo deve muito cá na casa?—Não, senhor: o fidalgo paga todas as semanas.—Está bom, está bom, vossê não diga que eu perguntei isto, e pegue lá para matar o bicho ámanhã.—Dizendo, abriu uma bolsa de retroz coalhada de missanga, e tirou trinta réis que deu ao criado com a mão direitafechada, para que a esquerda se não escandalisasse da prodigalidade.Na manhã do dia seguinte, foi o morgado de Santa Eufemia a casa do brazileiro, e conduziram-o ao seu quarto de dormir, porque José Francisco estava ainda recolhido com a barriga n.º 2 envolta de papas de linhaça.—Estou aqui emplasmado, senhor morgado—disse José Francisco, arqueando os braços por sobre a esphera abdominal.—Então o snr. José que tem?—Mande-se sentar, meu fidalgo. Eu estou aqui com uns calores cá de dentro, que dão que fazer á botica; mas isto, se Deus quizer, não é nada. Pois, meu senhor e amigo, seu pai escreveu-me, como ha-de saber, para eu lhe dar um dinheirito, e depois tornou a escrever-me para eu ir ter aonde a v. s.ª e dizer-lhe que o melhor é ir-se para casa, quanto antes, porque o velho, pelos modos, está lá arrenegado por si. Então, vai ou não vai?—Por estes dias, irei; mas já já não se me arranja cá a minha vida, snr. José.—Então o senhor, ainda que eu seja confiado, que tem cá que fazer? Ahi, por mais que me digam, anda derriço... Eu hei-de saber o que é quando fallar com a fidalga de Margaride que o conhece muito bem ao senhor morgado...—Então o senhor conhece a D. Silvina de Mello?—Conheço-a como os meus dedos...—respondeu o snr. Andraens, com um sorriso intencional, que passou desapercebido ao morgado.—É bem boa estampa, ó senhor morgado, não é? ora diga a verdade!—É muito bonita, isso é.—Rapariga d'uma vez! e bem-fallada!? isso então quando calha de fallar, aquillo não despega nem á mão de Deus-padre! Falla em tudo quanto ha! Até em Sebastopool,senhor morgado! Um d'estes dias tinha eu lá ido a troco cá de certa pendencia, e veiu á collecção a guerra da Russia, e ella começou alli a manobrar as batalhas, e se fôr como ella diz o snr. D. Miguel (Deus o traga) não tarda cá. Eu não tenho partidos, e até a fallar a verdade, sou commendador por esta gente, mas em fim, quero-me cá com os velhos, e gente como era a antiga já se não topa. Pois é verdade... eu...—E a fidalga—atalhou o morgado—nunca lhe fallou em mim, snr. José?—Fallou, pois então? disse-me até que o senhor queria casar com ella... é assim ou não é?—Isso é verdade. Paixão de raiz como a que eu tenho por ella não a torno a ter pela mais pintada.—Ah! que me diz?—acudiu o brazileiro com espanto—pois a cousa é isso? Quer apostar que o senhor está aqui pr'a-mor d'ella?—Em fim, o coração não mente... Á conta d'ella é que eu aqui estou. Passaram-se uns poucos de mezes sem eu ter carta, desde que ella veiu para o Porto. Arranjei como pude licença do pai, e vim encontral-a cá a namorar outro, um trampolineirito a quem eu queria dar uma escovadela, mas antes de hontem fugiu lá para cascos de rolha.—Conte-me isso, conte-me isso—exclamou José Francisco com vehemente interesse.—É como lhe digo, snr. José. Agora preciso demorar-me alguns dias a ver o que ella faz.—Com que então diz-me o senhor morgado—disse meditabundo e detidamente o brazileiro—que ella andava já com o miolo ás voltas por outro sujeito!... As mulheres são o diabo!... Quer o senhor saber?! Mas isto é pedra que cahe em poço, ouviu o senhor?—Eu não digo nada; póde fallar snr. José.—Pois então, vou desembuchar... Eu tenho emprestado algum dinheiro ao Pedro de Mello, pai da Silvina,para elle mandar aos rapazes que andam a estudar p'ra doutores em Coimbra. A casa do Mello é boa, mas está empenhada até aqui.—(O snr. José Francisco poz um dedo na barriga n.º 3, que deu de si como um balão de borracha). Ha-de haver tres mezes que eu fui levar á filha umas libras que o pai lhe mandou dar para vestimentas. Eu andava com o olho em cima de uma quintarola bem boa d'elle, que parte com os meus terrões da Lixa, e não se me dava de lhe ir dando aos poucos algum dinheiro até lhe apanhar a propriedade que me faz muita conta. E vai se não quando, meu amiguinho e senhor morgado, veiu a fidalga á sala assignar o recibo, e p'ra'qui p'racolá, palavra puxa palavra, eu deixei-me estar ao cavaco com ella e com a prima, e jantei lá n'esse dia, e fiquei p'ra a noite. A fallar-lhe a verdade nua e crua, como o outro que diz, eu não sei o que sentia cá no interior! Que diabo é isto que eu sinto? disse eu cá c'os meus botões. Eu andei por lá por esses mundos de Christo, vi muita mulata e branca de encher o olho, tive as minhas rapaziadas, porque em fim, a gente é de carne e osso; mas nunca me buliu cá por dentro mulher nenhuma como esta! Se o senhor morgado ouvisse o palavriado d'ella! Deixe vêr se me lembro... Não encarreiro... Ora deixe estar o senhor.. Eu tenho alli uma carta d'ella...—Uma carta d'ella!—interrompeu o morgado a fumegar.—Pois então? uma carta d'ella, umas poucas; mas ha lá uma em que ella escreve o mesmo que tinha dito de bocca. Faz o senhor favor de me ir áquella gavetinha do meio da commoda, e dar-me de lá um caixotinho de vidro, que tem uns bordados de papel dourado na cobertoira?...Christovão Pacheco abriu com a mão convulsa a gaveta, e levou á cama do snr. Andraens a caixinha indicada. O brazileiro tirou um feixe de cartas, cintadas comuma fita de nastro, abriu algumas, regougando palavras soltas de cada uma d'ellas, e por fim acertou com a carta que procurava, e exclamou:—Cá está ella! tal e qual. Ora faz favor de lêr, que eu não estou hoje muito escorreito dos olhos.O morgado de Santa Eufemia, entalado, enfiado, tremulo e escarlate até á raiz dos cabellos, leu o seguinte:«Meu bom e muito querido amigo. Tanto eu como minha prima Francisca, ella por amisade reconhecida, e eu do coração affectuoso lhe agradecemos o valioso mimo com que se dignou brindar-nos a sua generosidade...»—Isso foi, interrompeu o brazileiro, a respeito de umas pulseiras de ouro que eu mandei ás duas, que me custaram dezesete libras e mais uns pósinhos, não fallando na caixota em que foram os estojos que me tinha custado em Paris quarenta e oito francos. Empreguei bem o meu dinheiro, não tem duvida! Ora faz favor de continuar com essa trapalhice:O morgado proseguiu na leitura acerba, limpando as camarinhas de suor que lhe transpiravam da testa:«Apreciamos a dadiva já pelo que ella vale, já pelos sentimentos delicados que ella representa...»—Isso é bem dito, não é, ó senhor morgado?—interrompeu o snr. José Francisco.—Lá que ella tem uma cabecinha como não ha outra, isso pau pau, pedra pedra, a verdade ha-de dizer-se. O que lhe falta é miôlo... Ora ande lá... vá lendo:«Nunca eu aceitaria—continuava a carta de Silvina—uma prenda de homem, que não tivesse uma explicação honrosa. Esta, que eu tenho no meu pulso, não me faz estremecer a mão de pejo. Os meus sentimentos a respeito de v. s.ª tenho-lh'os dito tantas vezes, que repetil-os seria abusar da sua attenção, e descer um pouco da minha senhoril, dignidade. V. s.ª sabe como eu aprecio as paixões proprias dos meus annos...»José Francisco Andraens deu dous galões no leito, e clamou:—É ahi, é ahi onde está a cousa!Christovão continuou, já deletreando, porque a raiva lhe nublava os olhos:«Não creio na duração do amor impetuoso. A violencia da vibração fatiga as cordas da alma...»—Olhe lá—atalhou o brazileiro—isso que vem a dizer? esse bocado não o percebi bem...A violencia da vibração fatiga as cordas... que diabo!...—Quer dizer, respondeu o morgado com anciado esforço, quer dizer que... sim... eu acho que isto vem a dizer... que as paixões fortes adoentam a gente...—Ah! sim, senhor, ha-de ser isso... eu cá sinto os estragos no interior... Ora faz favor de vêr o resto.O morgado leu:«A minha ambição é encontrar um amigo verdadeiro, um coração sereno, um homem para quem o mundo não tenha abysmos, dos que tem no fundo a desgraça da esposa trahida, e esquecida. Receba no coração estas palavras da sua dedicada e constante amiga,Silvina.»—Que me diz o senhor a isso?—interpellou José Francisco, dando uma palmada no hombro do entorpecido morgado.—O que eu lhe digo, snr. José!...—tornou o morgado, atirando a carta para sobre o leito.—O que eu lhe digo é que esta mulher...
Fica, pois, justificado o desgosto de Silvina, quando viu Jorge córar, por ter beijado a flôr, onde os labios da peregrina minhôta haviam imprimido o beijo de encommenda para a provincia.
—Agora, disse ella; são dous os beijos que leva a sua mãi, em uma só flôr. Queira Deus que o halito dos labios do filho não tirasse o perfume ao dos labios da amiga.
—Creio que sim—disse Jorge corando outra vez—creio que sim...
—Porque?!—atalhou Silvina com despeito mal comprimido.
—Porque sinto no coração o perfume do seu beijo.
Sahiu-se melhor do que eu pensava. É aquella uma das respostas que costumam ir de casa gizadas; mascreio no improviso. E assim, explicado o segundo accesso de escarlate, desvaneceu-se o desaire em que estava Jorge na opinião caprichosa da dama, que replicou muito requebrada:
—Pois não esperdice o perfume, porque nunca sentirá no coração outro mais puro, mais digno de incensar o seu amor reflectido do céo.
—Amor!—interrompeu Jorge com exaltado impeto de criança—Olhe que essa palavra póde ser-me veneno para toda a vida, se v. exc.ª consentir que eu a guarde...
—No mais intimo de sua alma... Guarde... que nunca a proferi com tão pouco conhecimento de quem a dou, e tão pouca esperança de a vêr florir em venturas.
Jorge Coelho ia naturalmente córar terceira vez, quando Francisquinha da Cunha chegou, com ar de zanga, e disse:
—Vamos, prima, que o pai quer sahir... e é tão cedo... que raiva! estava agora ouvindo uma enfiada de tolices tão peregrinas...
—De quem?
—Eu sei cá de quem? d'um homem que se chama Pires, e que este senhor conhece... Não lh'o diga, não? Eu fui indiscreta...
—Não diz nada—acudiu Silvina—pois não, snr. Jorge?
—Eu, minha senhora!...
—Asseverou-me—continuou Francisca gesticulando vertiginosamente com cabeça e braços—que se eu o não amasse, havia de espirrar á minha fronte de algoz o seu sangue de Larra, de Werter, de... Ai que homem, que homem aquelle! O que se produz na Maya! Ó filha, eu não posso perder aquillo!... Pires é meu...
Ai! o pai... Vamos, Silvina.
Silvina estendeu a mão a Jorge, e disse a meia voz:
—Vá vêr-me ámanhã ao jardim de S. Lazaro.
Jorge balbuciou alguma cousa que não vinha do coração. N'este momento, um receio doloroso o affligia com esta pergunta: «Esta mulher irá escarnecer-te, como viste escarnecido o teu amigo?»
As occorrencias do jardim de S. Lazaro, no dia immediato, não merecem chronica. O que póde, porém, succeder a um moço, que passeia o coração amante, no jardim do Porto, é bom de dizer-se, e folga a moral de ouvil-o.
Se o leitor está no Porto, e vai apaixonado ao jardim de S. Lazaro, e conhece a familia da menina casadoura, por quem anda em brasa, faz a sua primeira cortezia, e foge de encontral-a segunda vez, porque repetir a cortezia é, além de provincianismo puro minhoto, cousa que cheira a inconveniencia, e póde ser até escandalo. Resta-lhe o expediente commum, e salva assim a honra das familias: é amoutar-se como fauno por entreas murtas e bosques de acacias, lobrigando aqui, e além, a caça estranha.
No jardim de S. Lazaro os dous sexos dão ao passeio o que as sovinas municipalidades não tem querido dar-lhe; isto é, uma luxuosa superabundancia de estatuas, as quaes, tirante a alma, nem sempre se avantajam ás do marmore nacional. Sentam-se as meninas, mui bem compostas e ageitadas de mãos e cabeça, e alli se estão deleitando na vista do repuxo, em quanto o papá rufa com tres dedos na tampa da caixa do tabaco o compasso da modinha conhecida de Verdi ou Donizetti, que as trombetas bastardas estão executando...executando, sim, é a palavra.
Ao relance artistico dos olhos não é feio aquillo. Cuida enxergar o myope em cada renque de cadeiras uma fileira demadonas de la sedia; mas a illusão d'um myope não vale os desconsolos de tanta gente que tem a sua vista escorreita, e pensa que a estatua deve ter umquantum satisde espiritualidade.
Ha pontos na casca do globo em que a virtude custa pouco. Não sei se a bemaventurança é accessivel por igual de todas as terras; mas, convencido da rectidão que assiste aos negocios dos outros mundos, quer-me parecer que quatro virgens a um tempo, sahidas em espirito, uma de Pekin, outra de Constantinopla, outra de Paris, e a quarta do Porto, devem de ter differente recebimento e quartel nas regiões da gloria, onde ha premios para a virtude.
Na razão directa da tentação, nos esforços em rebatel-a, é que deve ser aferida cada alma victoriosa que, apesar dos demonios succubos e incubos, se alista nas legiões do céo. Não se dogmatisa, entendam: quer-se escassamente enunciar idéa nova, resaibada de heresia, a vêr se algum hypocrita illustra o livro, com as injurias da sua caridade apostolica. Não ha no romance outromerito que o inculque, nem perspectiva melhor agourada para o editor.
As adoraveis virtudes das senhoras do Porto não são de todo um merecimento: orçam mais por uma necessidade. O homem d'alli sente um terço, ou ainda menos das precisões espirituaes que, n'outras partes, incommodam o coração humano. Esta feliz frugalidade procede do geito d'aquella sociedade, geito antigo que degenerou em aleijão, rachitismo moral, corcunda hereditaria, e de mais a mais pegadiça, por quanto, se não é do Porto, e por lá apégar alguns mezes, leitor, apalpe as costas, e topará uma protuberancia a crescer, a crescer, até se formar corcunda, que irá comsigo a stoda a parte.
Aquelle aleijão, de barreiras do Porto a dentro, não fica mal a ninguem. Os liliputianos, conta Swift, chanceavam o viajante europeu, que tinha a ridicula felicidade de ser um homem bem apessoado e perfeito. As bellezas do Congo recuam de puro nojo diante de um formoso nariz branco sem pingentes. No Porto ha o escarneo e o tedio que explicam o paradoxo do selvagem.
A juventude masculina da cidade heroica está em contacto com a civilisação d'este seculo pelo alfaiate. Não poderam os velhos trancar as portas do burgo de Moninho Viegas á invasão dos figurinos. Calção e rabicho foram banidos; o tamanco e o chinelo d'ourélo cederam, constrangidos, o joanête indigena ao verniz, e ao couro da Russia; o difficil, porém, era pentear, vestir e calçar o espirito de gaito e arte que a gente, fitando em rosto o filho da civilisação portuense, não tivesse de descer os olhos a buscar-lhe nos pés o tamanco. É o sestro das transfigurações de golpe e abruptas.
Um joven bem estrellado de minas e camapheus, chama-se no Porto um janota. A menina ingenua diz á visinha: «conhece aquelle janota?» ou «fulaninha namoraum janota louro.» Não se cuide, porém, que este epitheto implica mofa ou menospreso como em Maçãs de D. Maria, ou Lamas d'Orelhão. O janota portuense é uma cousa séria, que póde ser vereador, e irmão da ordem terceira.
Por via de regra, o janota é uma creatura que nasce, cresce, abre-se em florescencia variegada de frakes, e colletes, e pantalonas; toma posse do balcão paterno aos trinta annos, corta o bigode para que lhe descontem as letras, põe oculos se teve o infortunio de estragar a vista com a luneta que lhe servia de não vêr nada, fructifica em crianças gordas que entrajam á escoceza, e escôa-se de vida através de quarenta annos de lerda pachorra de espirito, legando á prole um nome limpo, com pequenas farruscas que se ensaboam na barreia de um necrologio, e dous legados de cincoenta mil reis ás entrevadas da Cordoaria, e alguma cousa ao hospital do Terço.
D'este viver assim resultam duas cousas que explicam muitas outras: primeira, que o elegante portuense dispende os annos perigosos da adolescencia vestindo-se de manhã para sahir de tarde; segunda, que as meninas, ao despegar da costura, ageitam os laçarotes do toucado, entufam os punhos das manguinhas, encostam o cotovello ao peitoril da janella, seguem o olhar de esguelha que lhe vai revirando o terceiro ou quarto janota predilecto, e fecha a janella quando a passagem do quinto é duvidosa.
D'est'arte, as paixões são innocentes e ao mesmo tempo substanciaes como um caldo de gallinha. As relações epistolares não derrancam a pureza das olhaduras. A carta, em regra, é declaração escripta que tolhe a poesia da declaração muda. Palestras, quer de sala, quer a horas mortas, da rua para a janella, que piedosa criada deixou aberta, são, se a patrulha o tolera, a morte de ambas as declarações, porque o janota que falla émuito menos soffrivel e grammatical que o janota que escreve. Ainda assim, o casamento remata isto que se chama onamoro. E o mais é que ella e elle, nas suas horas de recolhimento, cada qual a só por só com a sua consciencia, contempla saudoso o passado e diz: «Que bella mocidade eu tive! muito me diverti!»
Ponderam alguns authores que a morigeração dos costumes portuenses é o necessario effeito do atraso da civilisação e policia da classe media, em que as outras no Porto se embaralham e perdem. Esta palavra «civilisação» anda mal trazida para tudo. Se o refinamento das industrias, se a arte de crear capitaes, no minimo do tempo e com diminuto trabalho, constitue a maxima civilisação material, o Porto ganha a aposta aos mais ambiciosos prospectos de riqueza aventados pelos economistas. E assim é que alli enxameam os Midas no ouro e nas orelhas; porém, menos castigados que o fabulado Midas da theologia grega, logram digerir o boi e o toucinho na succulenta substancia que a natureza lhes deu.
Os que negam ao Porto a vanguarda do progresso industrial, que é a mesma civilisação, irmã gemea da intellectiva, e fonte da sã moral, derruem desde os alicerces a sciencia moderna, confessando assim a utopia do systema vulgarisado nas escolas, nas gazetas, e nas fórmas de governar das nações mais cultas. No Porto, dão-se as mãos a riqueza e os costumes edificativos, para se justificarem estes por aquella, e a primeira pelos segundos. A industria é a de hoje: os costumes são os de ha um seculo. O chefe de familia poderá ser moedeiro falso, negreiro aposentado com exercicio na casa real, alliciador de escravos brancos, contrabandista tolerado; mas a filha d'esse homem da época vive intemerata como a filha de Virginio; cuida que seu pai, recolhendo a casa encalmado e suado, vem de servir a patria como Cincinnato; e, chegada a occasião de exercitar asvirtudes antigas, não duvidará ser Lucrecia, e Lucrecia menos equivoca que a de Colatino.
Sobre este assumpto, mediocre seria o engenho que não produzisse um volume. Em louvor do Porto, escreveu o socio da academia real das sciencias Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos dous folhetins de nervo e polpa, com muito sal attico á mistura. O abundoso escriptor escreveria in-folios, se lhe aprouvesse, porque já um dos sete sabios da Grécia, Pittacus, parece que era, escreveu um volume dos louvores da mó d'uma atafona; e, para encarecimento do rábano, deixou Marciano um tractado muito de vêr-se. O talento é uma cousa temivel.
Ora não vão já d'aqui os malsins de intenções maliciarem essas inoffensivas palavras, que não desprimoram, nem arguem deshonra ao paladium das liberdades patrias, como usam dizer os artigueiros da terra a proposito de qualquer empeço que lhes assombre o seu municipio, se acontece o governo ir de encontro a alguma postura sobre a carne de porco, ou cousa assim em que valha a pena lembrar ao mundo que o Porto é o paladium das liberdades patrias.
N'isto pensava eu no jardim de S. Lazaro, n'aquelle dia em que Jorge Coelho, mais imprudente que atrevido, se avisinhára de Silvina, que, passados minutos de conversação, lhe disse:
—Não se demore mais tempo, porque toda a gente nos observa com ar espantadiço. Eu cuido que estamos dando grande escandalo.
Jorge Coelho retirou, e deu o braço ao amigo Pires, que fremia de raiva resultante d'uma desfeita que recebera de D. Francisca.
—Desfeita!—disse Jorge—pois uma senhora faz desfeitas!?...
—O requinte hediondo da insolencia!—vociferou o fidalgo da Maya tascando com phrenesi a ponta do charuto.
—Que te fez?
—Ouviu-me hontem na «Assembléa » uma declaração, acolheu-a com doudo enthusiasmo, disse-me que eu era um homem tão admiravel como perigoso; tremeu de pavor quando eu lhe fiz sentir o desfastio com que me arrancaria as entranhas, se me ella não aceitasse a vida como complemento da sua. Tudo isto me authorisava a offerecer-lhe hoje uma carta, com a certeza de me ser aceita. Offereço-lh'a, e ella responde-me que não sabia lêr se não letra redonda! Leonardo de Sousa Pires e Albuquerque sabe vingar-se. Vou ámanhã á Maya; depois... ai d'ella e de mim!
Christovão Pacheco de Valladares, morgado de Santa Eufemia, esteve sete dias e sete noites emparedado no seu quarto da hospedaria da «Aguia d'Ouro» depois d'aquelle desastre da «Assembléa.» Alguns hospedes repararam na reclusão, e averiguaram dos criados que exquisito homem era aquelle. D'estes hospedes, o mais grado era o morgado de Matto-grosso, solarengo de «Entre-ambos-os-rios» homem de grandes brios e musculos. Apenas informado, foi bater á porta de Christovão Pacheco, dizendo pela fechadura que abrisse que era parente e amigo. A identidade do parentesco foi de facil prova.
—O primo Pacheco não póde duvidar—disse o morgado de Matto-grosso—que um irmão de meu setimoavô, que havia nome Heitor Moniz de Valladares foi casar á casa de Santa Eufemia com D. Urbana Pacheco, filha de Lopo Pacheco, governador de Cochim...
—A fallar-lhe a verdade—disse o de Santa Eufemia—eu não sei nada de linhagens; mas tenho ouvido fallar a meu pai n'esse governador de Chacim.
—Cochim, primo Christovão, Cochim.
—Ou Cochim, ou lá o que é...
—E saiba que da sua prosapia sahiram os mais illustres sangues das familias do Minho. Talvez v. exc.ª, primo, não saiba que a nossa linhagem está mui de perto aparentada com Porto-Carreiros!
—Não sabia, nem sei de que sirva isso.
—De que sirva isso!—acudiu Egas de Villas-boas Cão e Aboim Encerra-bodes, que assim se chamava o morgado de Matto-grosso. Não diga tal, primo Christovão Pacheco. Pois ignora que do solar dos Porto-Carreiros, fidalgos mais velhos que a monarchia trezentos annos, sahiu ha cinco seculos um infanção, que casou em Castella, e foi tronco da descendencia que vem illustrar-se na pessoa da actual imperatriz de França?1
—Não sabia, palavra de honra, e isso que faz?—tomou o de Freixieiro.
—Faz que somos parentes da imperatriz, e que podemos dizel-o á bocca cheia a esses de sangue azul da capital, que nos chamam a nós fidalgos de meia tigella, esquecidos de que os mais nobres barões da côrte deAffonso edificaram os seus solares entre Douro e Minho, e d'aqui, por si ou seus filhos, acompanharam os reis da primeira dynastia ás conquistas do restante da Lusitania, e d'além-mar.
—A fallar-lhe a verdade, primo, quando entro a pensar n'essas cousas com que meu pai me quebra a cabeça, parece-me que trocava toda a minha fidalguia por algumas libras.
—Oh! que blasphemia!—Exclamou Egas n'um impeto de sincera indignação.—Troca-se por libras um neto de Heitor Moniz de Valladares!?
—Não é trocar-me por libras;—acudiu desabridamente o de Santa Eufemia—é que eu estou de vinte e oito annos, e ainda não pude sahir de casa senão duas vezes com esta; e não tenho remedio senão ir-me embora para Freixieiro, por que meu pai escreve-me hoje essa carta que o primo póde lêr, e depois me dirá se me não era melhor ser antes um caseiro das minhas fazendas, que me não servem de nada, n'esta idade em que eu preciso de dinheiro.
—Vejamos isto—disse o de Matto-grosso, abrindo a carta, e lendo o seguinte:
«Meu estimado filho.
Já te disse que venhas para casa, que não ha dinheiro para andar em folganças. Os tempos estão muito bicudos, e o bicho já pegou nas videiras. Os bezerros do caseiro da Portela lá estão com a molestia, e a cheia levou a parede do lameiro do Quinchoso. Tudo são despezas. O abbade pegou-me pela palavra, e quer que eu mande pôr a porca no sino da igreja. O milho ainda não chegou á conta; os quatro carros que se venderam não chegaram para pagar as decimas. O garrano está de todo espravonado; pozes-te-o bom com a tua ida ao Porto. Tudo são desgraças.Em quanto á roupa nova, deixa-te disso; a casaca que levaste está muito boa, e o melhor é fazel-a em Guimarães, que são mais em conta os alfaiates. Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou ordem ao meu amigo brasileiro para te dar para a jornada cinco pintos; olha se ajustas a cavalgadura sem gorgeta. Dou-te a minha benção, e sou teu pai carinhoso,
«Vasco.»
—Que me diz a isso?—exclamou Christovão.
—Eu sempre ouvi dizer—respondeu o primo Egas—que meu tio Vasco era um tanto fona; comprehendo que na idade do primo Christovão custa muito não brilhar na sociedade, a que o nosso nascimento nos dá direito; não obstante, seu pai está accumulando para o seu filho unico uma grande casa, e é preciso perdoar-lhe a intenção que é boa. Vamos ao mais importante: o primo quer dinheiro? quer os meus cavallos? quer os meus lacaios? tem tudo ás suas ordens; o que eu não consinto é que diga que trocava os seus brazões por algumas libras. Vamos, franqueza, precisa de fato? Chama-se já aqui o alfaiate: hoje mesmo póde sahir de ponto em branco. Tenho cá dous cavallos, ocoriscoe ophaetonte: o primo monta qual quizer. Diga-me agora a que veiu ao Porto.
O morgado de Santa Eufemia, entre jubiloso e magoado, contou ao primo a historia doseu amor de raiz, como elle dizia. Mostrou as cartas de Silvina, que elle tinha atadas com um barbante n'uma bolsa interior da mala. Passou á ingenuidade da galhofa que lhe fizeram na «Assembléa» narrando as miudezas da casaca, e expoz o collete ginja e a gravata das orelhas fabulosas. E terminou em tom de lastima, accusando a perfidia da mulher a quem elle quizera dar o seu nome.
Egas de Encerra-bodes, depois de provar que nalinhagem de Silvina havia um reles sargento-mór e um capitão de milicias, afóra duas bastardias e um filho sacrilego no seculo XVI, entrou a fuzilar colera dos olhos, tocando no ponto mais grave dos queixumes do neto do governador de Cochim.
—Eu, dizia elle batendo no peito com a mão aberta, eu, primo Christovão, na sua posição teria açoutado os perros que o escarneceram na «Assembléa.» Esses que riram de Christovão Pacheco é a villanagem, cujos paes vieram para o Porto de rabona de cotim, chapéo braguez, e o tamanco herdado. Os nossos caseiros, quando a liberalidade de nossos paes, lhes concedia poderem enroupar de cotim os filhos, mandavam-os para aqui. Os filhos d'esses que para aqui vieram, primo, são os insultadores da risada boçal, os miseraveis que através da casaca, da pelle da luva, e do verniz das botas, estão accusando o costado proprio do fardo, o pé que reclama o tamanco, e a mão que suspira pelo cabo da enxada. Tenho visto esse gentio nos botequins, e por sobre o hombro observo os risos de grosseira mofa com que recebem o despreso dos que elles denominamparvalheiras. Parvalheiras, a nós, primo, que temos em nossas casas a educação que elles tem entre as balanças, e timbramos em honrar os appellidos de nossos avós, descendo até elles para que elles não subam até nós. Se quer vêr quanto é villã a basofia d'estes tendeiros, que trocam por titulos ceiras de figos e costaes de bacalhau, tenha o primo a longanimidade de os admittir á sua convivencia, e verá como se elles desfazem em lorpas cortezias, e citam a cada instante o seu nome, como um dos seus amigos d'elles... Vamos ao ponto essencial. Christovão Pacheco foi ultrajado. Um primo de Egas de Matto-grosso não é ultrajado impunemente.
Tem um rival, primo?
—É de crer que sim.
—Fidalgo?
—Isso não sei.
—Cumpre sabêl-o.
Uma hora depois entraram fardos de fato feito no quarto do morgado de Santa Eufemia, e logo botas do sapateiro francez, e chapéos da melhor fabrica. Vestiu-se Christovão Pacheco, e era de vêr em que gentil moço se transfigurou, e que nova alma entrou n'aquelle corpo. Se elle tivesse lido frei Luiz de Sousa, aquelle esbelto cortezão que se sepultára no frade, recordaria estas palavras escriptas com tanta sciencia do absurdo coração do homem: «É nossa natureza muito amiga de si, e experiencia nos ensina que não ha nenhuma tão mortificada que deixe de mostrar algum alvoroço para uma peça de vestido novo. Alegra e estima-se, ou seja pela novidade, ou pela honra e gasalhado que recebe o corpo: até os pensamentos e as esperanças renova um vestido novo.»2
Assim foi o morgado de Santa Eufemia. Quando se viu, desconheceu-se. Outro corpo e outra alma. Olhava para o polimento das botas, e o vidrado d'ellas reverberava-lhe na alma em lampejos de alegria. Não se cançava de correr a mão pela macia seda do chapéo, e remirava-se ao espelhinho que o imaginoso chapelleiro enquadrára no centro da copa. Com o que elle se ia zangando foi com as luvas de nove pontos e meio, que gemiam pelas costuras, com a pressão do dedo polegar que queria á força entrar com os outros de uma assentada. O do Matto-grosso explicou ao primo os mysterios da luva, com muito mais siso que um certo folhetinista do Porto inventor dos mysterios da dança. No Porto ha gente para inventar tudo quanto ha.
Os dous morgados sahiram da «Aguia d'Ouro» no domingo posterior áquelle em que Silvina fallára um momento com Jorge, no jardim. Para o jardim foramtambem elles, seguindo Silvina e Francisca, que saturam da missa dos Congregados. Quando subiam a rua de Santo Antonio, um grupo de elegantes, para quem a physionomia do morgado ficára indelevel, desde o baile, pararam maravilhados da reforma, fixando-o com impertinente reparo.
O morgado de Matto-grosso estacou em frente do grupo, e disse:
—Ora vamos: andem, ou desandem!
Os elegantes abriram alas, encarando-se mutuamente com um ar de pasmados da propria docilidade.
—Bravo! exclamou Leonardo Pires, que seguia de perto os morgados.
Egas de Encerra-bodes voltou-se rapido para o da Maya, e disse mal assombrado:
—Que é lá isso?
—Dissebravo!—replicou Pires com serena jovialidade, porque gostei immenso de vêr aquelles bigorrilhas ladearem á esquerda e direita, e comprehendi a razão porque elles pararam contemplando este cavalheiro que eu vi,mutatis mutandis, no baile da Assembléa Portuense. Eu honro-me tambem de ser parvalheira, e como tal me apresento, pedindo-lhe que me recebam no numero dos seus conhecidos em quanto me não conhecerem digno da sua amisade. Sou da Maya, da familia dos Pires e Albuquerques, e primeir'annista da faculdade de direito. Tenciono formar-me porque não tenho que fazer, e não me conformo á vida de meus antepassados, que viviam dos galgos e dos cavallos. Abomino cordialmente o Porto; mas ha aqui uma mulher que me tem preso a esta terra pela fibra vingativa d'um coração nobre. Aqui estou esperando a hora de provar-lhe que senão brinca com um homem que tem esculpidas no seio as maximas herdadas de avós.
Pires foi fallando n'este estilo até ao jardim. O morgado de Matto-grosso, scismando com o que seria nolivro dos costadosa familia de Pires e Albuquerques da Maya, escassamente ouviu o enfatuado palavrorio do mettidiço. Christovão ia um pouco desconfiado da bacharelice de Pires, que já o tratava por «vossê» quando entrou no jardim.
Lá estava Silvina. Rodeavam-na alguns cavalheiros do Minho, censurando-lhe a crueldade com que abandonara o morgado de Santa Eufemia. D. Francisca da Cunha chanceava com remoques os patronos da victima do collete-ginja. A fidalga de Freixieiro, esporeada pela prima, fazia tambem riso do morgado, calando os rumores da consciencia que a não louvava. Era, pois, certo que o coração d'esta menina, degenerado acaso do seu bom natural, em poucos mezes de pratica de outra sociedade, se estava doendo de ter desconfessado, no baile, o amor de um homem, cuja mão tres mezes antes apertára com fervoroso amor e esperança de ser d'elle.
Jorge Coelho presenciava de longe, e cioso, a attenção que Silvina dava aos cavalheiros minhotos. Não os conhecia, para afoutar-se a entrar na roda, e interrogar com uma palavra vaga o coração de Silvina. Esta, porém, repellindo com desdenhosa philosophia os pesares que secretamente a remordiam, ergueu a fronte desanuviada, poz os olhos nos de Jorge, e fez uma ligeira cortezia, que todos julgaram ser um aceno para chamal-o.
A este tempo chegavam, perto de Silvina, Egas de Encerra-bodes, Christovão de Valladares, e Leonardo Pires. O do Matto-grosso comprimentou alguns primos que estavam na roda; e o de Santa Eufemia, voltando as costas para as senhoras, respondia, sem saber o que, a algumas perguntas d'um cavalheiro. O inquieto Pires, furando por entre todos, foi apertar a mão a Silvina, e dizer-lhe que estava o ideal da quinta essencia das fadas, com o que D. Francisca se riu, e riso fôra aquelle queabrira na testa de Pires um vinco dos que promettem cataclismos.
—Dá-me novas de Jorge?—disse Pires a D. Silvina.—Eu cheguei hontem da Maya, e não pude ainda encontral-o no hotel. O amor reduzil-o-ia a Sylpho, minha senhora?—proseguiu o estabalhoado, mordendo o charuto ao canto esquerdo dos beiços, e arqueando os braços na cintura.
—O seu amigo, disse Silvina, em voz alta, para desaffrontar-se da grosseira postura do morgado—está defronte de mim.
Pires fez uma pirueta sobre o calcanhar direito, fitou a luneta no condiscipulo, contemplou-o da altura da sua critica, volveu de novo o rosto risonho para a dama, e disse:
Sobre a pyra fumegante,Ardem ternos corações.
Todos estes movimentos foram seguidos de outro mais significativo. Os olhares convergiram todos sobre Jorge, que ficou encarnado até ás orelhas. Alguns dos cavalheiros murmuraram o quer que fosse, e nomeadamente Egas de Encerra-bodes fitou-o insolentemente, e disse a meia voz:
—É aquelle?!
—Pelos modos!—respondeu o primo.
—Pobre criança! é preciso dizer ao pai que o mande buscar.
Tinha Leonardo Pires, á volta com muita pequice, assomos de brios capazes de enganar a gente. Não levou em paciencia que os morgados rissem do seu amigo. Encarou com ferocidade o de Matto-grosso, e disse, estendendo o braço em attitude esculptural para o lado onde Jorge estava:
—Aquella criança, que alli está, tem um dedo de homem, que faz recuar perfeitamente o gatilho de uma pistola.
Os circumstantes algum tempo não tugiram. Se não fosse o melodramatico da postura, a cousa não era para rir; mas a lentidão, com que Pires desceu o braço, fez espirrar uma cascalhada universal, salvo Silvina que arquejava em ancias de raiva.
Jorge conheceu que o escarneciam. Ergueu-se, veiu direito ao grupo, accendeu o charuto no de Egas de Encerra-bodes, murmurou seccamente umobrigadissimo, e foi saudar Silvina e Francisca com a desenvoltura desacostumada que lhe dava agora o ciume e a ira.
Silvina, contente da façanha, deu-lhe lugar immediato no seu banco. Porém, o pai de D. Francisca da Cunha, adivinhando tempestade nos olhares coriscantes de Christovão Pacheco, ergueu-se, puxou para baixo as pantalonas que tinham marinhado até meia-canella, e disse:
—Vamos, meninas, são horas de jantar; vamos ás sopas.
Levantou-se Jorge, sem ter dito palavra; mas Silvina, estendendo-lhe a mão, de sorte lh'a apertára e sacudira, que fez evidente a intenção de tornar bem reparado o feitio, muito de notar-se em menina de sua idade e educação aldeã.
Mal as damas voltaram costas, o morgado de Santa Eufemia foi bruscamente a Jorge Coelho, e disse-lhe:
—O senhor é um petisco! Não se me ande a fazer fino, quando não...
Jorge respondeu assim á brutal arremettida:
—A phrase é de carreiro; e, se não é carreiro quem me insulta, deve de ser um embriagado.
Leonardo Pires dá um passo á frente de Jorge, põe a mão no peito, e exclama nem facundo nem irado:
—Eu sou insultado na pessoa do meu amigo: exijo uma satisfação.
O fidalgo de Traz-os-Montes, fazendo signal de retirada á filha e sobrinha, entremetteu-se no grupo que se ia cerrando, abriu os braços, e tirou do peito estas memoraveis palavras:
—Os senhores estão aqui desacreditando a provincia. Se querem ser o que lá no matto são os homens de figados, peguem em dous carvalhos cerquinhos, edeem até tocar a quebrado; mas não queiram que os botem ás gazetas ámanhã. A minha opinião é esta. O menino vá para um lado—disse a Jorge, empurrando-o com brandura—e o senhor morgado para outro. Em quanto á rapariga, minha sobrinha, ámanhã eu a porei em casa do pai.
Jorge, tirado pelo braço de Pires, sahiu do jardim, e pôde ainda vêr nos olhos de Silvina, um movimento de radioso orgulho da bravura d'elle.
Na tarde d'esse dia recebeu Jorge a primeira carta de Silvina que resava assim: «É bello ser amada por um homem de coração e esforço. É bello poder testemunhar a desaffronta do homem que se ama; mas é triste não poder, na presença de Deus e dos homens, dizer-lhe:—TUA POR TODA A VIDA!»
O academico da Maya ouvira lêr a carta, e disse, com quanta vehemencia lhe permittiu a posição horisontal n'um canapé, e as pernas sobre as costas d'uma cadeira:
—Essa mulher tem espirito, palavra de honra! Amor e estilo, amigo Jorge, são o alpha e omega d'esta humanidade perfeita em que tivemos a dita de cahir das nuvens. De que diabo serve a rhetorica com que estragamos a memoria em Coimbra, não me dirás?! Se o padre Cardoso, que fez um compendio da arte de fallar, escrever uma carta como essa, diz tu que eu sou um parvo e que me não hei-de vingar da Francisca da Cunha! Diante d'estes talentos brutos, sem mão d'obra, como é o da tua Silvina, os Quintilianos e os Longinos ficam no tremedal da sua protervia explicando aenallagee ohyperbaton. Oh! o estilo é muito mais a mulher que o homem! Eu dispensava bem tres partes do coração na mulher que me soubesse acepilhar e lapidar um periodo! Ha lá nada mais lindo? A formosura fenece como as flôres; o estilo fica. Silvina, a eloquente Silvina, quando de pura velhice não tiver aquelles dentesde marfim e esmalte, ficará com a bocca cheia de phrases melodiosas, como o canto do cysne. Tu és feliz, Jorge, mas a mesada deve estar nas vascas da morte. Estás sem vintém?
—Não; meu tio padre mandou-me cincoenta mil réis para lhe eu comprar dez volumes da Encyclopedia Catholica, e eu...
—Já devoraste cinco volumes emrost beef, e luvas brancas e charutos, não é verdade?
—E minha mãi encommendou-me duas peças de durante, e não sei que mais, que está esperando ha oito dias... Hontem recebi d'ella uma carta, que me fez pena e saudade...
—Tem estilo?—interrompeu Pires, sentando-se estabalhoadamente.
—Não brinques com cousas sagradas: minha mãi não tem estilo, e n'esta carta o que me diz é copiado do seu livro de orações.
—Ora essa!... Isso é original! Deixas-me vêr a carta-jaculatoria de tua mãi?
—Deixo... Aqui a tens... eu leio.
Jorge Coelho, commovido, leu o seguinte:
«Abro o meu livro de orações e copio estas palavras para que meu Jorge as leia:—A infeliz mãi, cujo filho começa a frequentar as sociedades põe toda a sua esperança na protecção de Maria. Começa o joven mancebo por alguns desmanchos que fazem conceber grandes receios ácerca do restante da sua idade. A mãi assim lh'o diz, e dá os mais ternos conselhos; elle, porém, rebella-se contra aquelle tão puro affecto, contra aquella dolorosa previsão de mãi, e assomando-se lhe pergunta porque duvida de sua honra e prudencia, e acrescenta: Parece-vos o meu comportamento reprehensivel, porque não frequentaes a sociedade: eu faço o que fazem todos.—Infeliz!—a mãi exclama—que te deitas a perder por isso que fazes o que todos fazem.—Ri oinsensato dos temores maternos, e adianta-se ás cegas n'um caminho semeado de escolhos. Tudo está posto em aventura: a honra n'este mundo, e a salvação no outro. Não sabe a mãi o que faça para salvar o objecto de tantas lagrimas e crueis angustias. Vê perdido o filho, e perdido para sempre. Maria, porém, consoladora dos afllictos se lhe mostra como dôce visão... E a mãi afflicta, de joelhos, com as mãos postas, exclama: «Ó Maria, auxilio dos christãos, salvai meu filho, rogai por elle!»—Jorge, eu orei com estas palavras: a Mãi de Jesus ha-de ouvir-me, e fallar-te commigo ao coração. Vem, vem para nós: teus irmãos chamam-te com saudade, e eu com lagrimas.»
Leonardo Pires respeitou a commoção de seu amigo, e principiava um discurso de molde segundo o caso pedia, quando o morgado de Matto-grosso, e outro dos cavalheiros que entrava na roda do jardim, assomaram na porta.
—Temos duello—disse a meia voz, Pires, entalando no olho direito o aro circular da luneta e esguelhando a bocca.—Queiram entrar—proseguiu elle, adiantando-se para a porta—se é que entende com o meu amigo Jorge a honra da visita dos cavalheiros.
Egas de Encerra-bodes entrou e disse:
—Vem aqui commigo o snr. Theotonio Tinoco Pitta de Lucena, da casa da Trofa, fidalgo tão antigo como o solar dos Lucenas. O snr. Jorge não me conhece. Eu sou primo do morgado de Santa Eufemia: tenho dito de sobra para justificar o meu nascimento.
—Ha-de perdoar-me—disse Pires,—não precisava v. exc.ª dizer tanto para justificar o seu nascimento...—E atalhou logo a ironia vendo que o vulto do morgado se anuviava de mau agouro:—o senhor morgado é tido e havido na conta de muito bom sangue da provincia...
—E do melhor de Portugal—cortou logo Egas—Vamosao ponto da nossa missão. Christovão Pacheco de Valladares manda perguntar ao snr. Jorge Coelho se algum de seus avós lhe transmittiu o fôro que torna iguaes no campo da honra, nobre com nobre, as pelejas do pundonor aggravado.
Jorge ficou atalhado com o espavento da pergunta, e ia pedir explicação da linguagem que lhe fez lembrar o tedioso Clarimundo, quando Pires, sacudindo as borlas do seu rob-de-chambre respondeu:
—Jorge Coelho herdou de seus avós a honra, é quanto basta. Na sala do palacio de Cintra não está lá o escudo dos Coelhos, porque o cobre a mortalha da
«..............misera e mesquinhaQue depois de ser morta foi rainha.»
—Deixemo-nos de lerias!—interrompeu Theotonio Tinoco.
—Lérias! o snr. Pitta de Lucena chama a isto lerias!—acudiu Pires—Então que quer o senhor?
—Queremos que esse amigo dê uma satisfação ao outro a quem elle chamou bebado hoje.
—Mas, primo Tinoco—disse o do Matto-grosso—bem sabes que o primo Christovão não propõe, nem aceitaria desafio, a quem não tiver nascimento.
—Ficamos agora sabendo que este cavalheiro é de familia de bom sangue...
—Eu não sei de que sangue é a minha familia—atalhou Jorge serenamente.—O meu amigo Pires não o sabe melhor que eu, e vv. exc.ashão-de ter a bondade de dizer ao snr. morgado de Santa Eufemia que a côr do nosso sangue lá a veremos no campo, quando elle quizer.
—Nomeie os seus padrinhos, para nos entendermos com elles—disse Egas.
—Um serei eu, se derem licença—disse a voz de um homem, que entrou de subito no quarto.
—Meu tio!—exclamou Jorge, beijando-lhe a mão.
Era, com effeito, o padre João Coelho.
Leonardo Pires e os outros olharam com veneração para a figura sublime do velho, que trajava rigorosamente as vestes de sacerdote. Jorge baixara os olhos, em quanto o padre, com as palpebras humidas, e as mãos convulsas, fitava e comprimia ao seio o sobrinho. Passados instantes, disse compassadamente:
—Tantos annos e trabalho para te aproveitar, Jorge, e tu em tão pouco tempo te perdeste! Ha menos de nove mezes que sahiste dos braços de tua mãi, e venho-te encontrar na vespera de expôr o corpo e a alma com menos desculpa que o salteador que traz o peito á bala e o coração damnado pela perversidade!
E voltando-se para os tres cavalheiros, disse com uns assomos de nobre authoridade e sorriso ironico:
—Quem são estes folgados rebentos de illustrissimas prosapias que vem aqui desenfastiar-se dos tedios da sua inercia, estragando a alma de uma criança? Ouvi aqui nomear appellidos estrondosos que representam varões de grandes serviços á religião e á patria: é lastima que os netos dos Tinocos e dos Pachecos andem pregoando o desafio, o derramamento de sangue, como prova de honradas consciencias e altos espiritos. Melhor lhes fôra que as suas consciencias fossem mais christãs que honradas. Não se illustram memorias de avós derramando doutrinas impias. Se o seculo as aceita, senhores, então reneguem vv. exc.asdas virtudes de seus avós, que outros seculos laurearam. Se os costumes barbaros d'esta civilisação, que por escarneo se chama assim, se conformam com os seus animos, não andem hypocritamente chorando saudades de Sião, os que seatascam nas immundicies de Babilonia. Jorge, eu fui aqui mandado por tua mãi: não quererá Deus que tu desobedeças á voz que te chama. Eu só quero exercitar sobre ti a authoridade do conselho; tua mãi chama-te: deves hoje mesmo sahir do Porto commigo. A vv. exc.asrogo eu mui humildemente que se não afflijam da perda de um noviço na confraria dos heroes do tempo. Costumavam nossos avós, antes de entrarem na cavallaria, velarem as armas no templo do Deus vivo; meu sobrinho vai armar-se cavalleiro, que não é ainda, e depois voltará á arena. Riem-se os nobres senhores? Velar as armas é sacramento de tanto ponto, que nem o fidalgo da Mancha se deu por bem posto na sua missão, antes de armar-se cavalleiro no curral d'uma bodega, e o mesmo foi dar sova brava nos arrieiros. Tens tu já Dulcinea, meu sobrinho? Claro é que sim. Ora, pois, aguarda melhores dias para as tuas façanhas, e diz aos teus padrinhos que te deixem ser mais algum tempo bom filho, bom irmão, e bom christão.
Egas de Encerra-bodes já não estava muito de bons humores com o padre. Tinoco Pitta não o tinha entendido, e abria a bocca pela terceira vez. Leonardo Pires não se atrevia a despregar da lingua aquellas espontaneas e por vezes graciosas parvoiçadas que lhe vinham á flux da abundancia do coração. Jorge Coelho tinha tão de negro cerrado o espirito que não balbuciou palavra. Era impossivel a desobediencia; mas deixar Silvina, sem levar comsigo a certeza de que a distancia não mataria n'ella a paixão nascente, isso era uma dôr que o pobre moço desafogou em pranto desfeito, passando ao quarto immediato que era o de Leonardo Pires.
O morgado de Matto-grosso, para evadir-se á posição embaraçosa em que se via, despediu-se com estas palavras:
—Muito bem: eu vou dizer ao cavalheiro offendido por seu sobrinho, que o offensor não tem imputação,attendendo á sua criancice, e mais ainda ao facto de a mãi o mandar chamar para o seu regaço, como criança que é desmamada de fresco.
—Não, senhor, atalhou o padre com seraphica brandura, diga ao senhor morgado de Santa Eufemia, creio que assim se chama o seu amigo, diga-lhe que seja generoso no perdão das injurias; que não desdoure os seus antepassados barateando o sangue honrado que elles lhes transmittiram; diga-lhe sobre tudo v. exc.ª que seja christão. Lembre-lhe que o desafio é uma ferocidade que nem se quer prova coragem, porque a verdadeira coragem é aquella admiravel abnegação dos louvores do mundo aos impetos da raiva, e valoroso louvavel aos olhos do Senhor é só aquelle que tem mão de suas iras, e desarma com humildade sem baixeza os féros e acommettidas do inimigo.
—Teu tio é grandemente lido nos classicos!—disse Pires, no quarto immediato, a Jorge Coelho, que enxugava as lagrimas teimosas.
Pobre coração! Tão puras lagrimas não has-de choral-as mais. D'essa grande afflicção de que tu appellas para a morte, has-de lembrar-te sempre com saudade, meu amigo. Na tua angustia ha os prantos do anjo, saudoso do céo. Na mulher que deixas, cuidas que te fica a santa companheira do Eden que a tua candura via na terra, aberto ao amor sem mancha, convidativo de santos gosos. De dez em dez annos pararás, no caminho da vida, peregrino da sepultura; voltarás o rosto para aquelle teu dia dos dezenove annos, e verás em flôres, fenecidas mas ainda graciosas, os espinhos por onde a pedaços te fica, meu pobre Jorge, o coração. Saberás então o que é a saudade; pedirás á desgraça dôres semelhantes ás da tua mocidade para abençoal-as; atiraráscom o peito ás sarças das paixões vertiginosas para espertares os pungitivos desgostos do amor contrariado. Não já lagrimas, se não fel derramará o coração, que devêras ter dado a Deus, desde que o mundo t'o desbaratou a repellões e injurias. Chora, filho da sina maldita dos poetas, chora no seio de tua mãi; bem póde ser que ainda lá te espere o anjo da tua guarda.
Jorge Coelho não proferira uma palavra desobediente ao tio padre. Apenas, quando enfardava a roupa nas malas, enxugando as lagrimas antes de erguer o rosto disse:—Meu tio entende que me é honroso sahir do Porto sem responder ao desafio?...—Padre João, que abria o seu enorme lenço escarlate para se assoar, ficou algum tempo com os braços suspensos, e o lenço pendurado, e assim esteve, como estupefacto cravados os olhos no sobrinho, que esperava a resposta. O nariz, porém, urgia: padre João Coelho levou o trombetear da limpeza até á hyperbole, dobrou o lenço em quadro, depois enrolou-o, deu com elle mais alguns torcegões ao nariz, armou-se de pitada, e disse:
—Não é Deus que os perde; é o demónio que ensandece aquelles que quer aproveitar. Que é honra, Jorge? O evangelho que te diz das injurias, do odio, das affrontas, das injustiças? O filho de Deus dictou e rubricou com o seu sangue a lei, a regra, os deveres da humanidade; não importa ser o evangelho obra de Deus; não importa que alli venham prescriptas as maximas da boa e honrada vida: o evangelho é já inefficaz por que a humanidade inventou uma honra que se prova e sustenta com o duello: a vossa honra, cegos miseraveis dignos de lagrimas, lava-se no sangue, justifica-se pelo homicidio, ao qual a legislação decreta a forca, e a convenção social o galardão da bravura. Jorge, quem te disse que o assassino era honrado?
O academico apenas respondeu:
—Meu tio, vamos; eu estou prompto.
Leonardo Pires já estava no largo da Batalha, chamando a attenção dos numerosos transeuntes que paravam em magotes para verem o cavalleiro com as esporas cravadas nos ilhaes de uma égua de fina raça que se empinava, e corcovava, e atirava ora couces, ora galões medonhos. É que Leonardo Pires vira D. Francisca da Cunha n'uma janella do palacio do snr. Manoel Guedes, e de si para si entendeu que lhe ia bem dar-se n'aquelle espectaculo hyppico, mesmo com perigo de quebrar a cabeça, como de facto quebrou, e tão desgraciosamente o fez, que Francisca da Cunha, anciada de riso, dizem que cahira extenuada n'uma othomana.
Andava o infeliz Pires atraz da egua espavorida, com ajuda dos gallegos do chafariz, quando Jorge e o tio desceram da hospedaria da Estrella do Norte para a praça.
Apanhada a cavalgadura, indiscreta e desasada para heroismos de amor, Pires montou de salto, e acompanhou até Vallongo o condiscipulo, com evidente desagrado do padre. No caminho, em quanto o egresso ficára atraz compondo os loros do macho fleumatico, o amador infausto de Francisca da Cunha disse a Jorge:
—Que queres que eu diga a Silvina, se o tio a não mandar para a aldêa?
—Diz-lhe, respondeu Jorge commovido, com os olhos marejados de lagrimas—diz-lhe que eu não posso contar com a minha vida para lh'a offerecer. Diz-lhe que eu não fugi de cobarde; por quem és, Pires, não consintas que me ella ultraje, duvidando da minha coragem. Falla-lhe de minha mãi, que eu sei que ella me amará ainda mais, vendo que eu respeito tanto as lagrimas da que me formou o coração que eu lhe dei, e ella achou digno de si. As minhas cartas mando-t'as a ti para lh'as entregares... Silencio, que ahi está meu tio.
—Snr. padre João Coelho, disse alegremente Leonardo, pique o bucephalo cá para a frente.
—Alexandre Magno não montava machos, senhor estudante, respondeu o padre. Andaria mais acertado com a historia se me honrasse antes com as tradições de Sancho Pança. O machinho sabe que leva em cima um engenho velho, que se acerta de inclinar na carga cahe cada peça para o seu lado.
—Mas leva uma grande alma, replicou Pires.
—O macho? perguntou o padre, sorrindo.
—Sim, senhor.
—Lá em Coimbra estuda-se essa psycologia de veterinaria? As grandes almas passaram, pelos modos, dos Aristides e Catões para estes quadrupedes! Se assim é, que nos fica para nós, senhor academico?
—Eu queria dizer ao meu nobre amigo que o macho leva um cavalleiro com grande alma.
—Muito obrigado ao seu favor, snr. Pires. Eu tambem o entendi; mas metti-me a engraçado a vêr se desafiava o riso, do meu pobre Jorge, que vai ahi melancolico, como nunca foi filho algum para os braços de sua mãi e irmãos.
—É que Jorge Coelho, tornou o estouvado infanção da Maya, está como a avesinha a pairar emplumada, que salta para o rebordo do ninho, e vacilla entre ir para a mãi que a está dentro chamando com o cibo, ou voejar para a arvore em flôr que a está enamorando de longe.
—É uma bucolica bonita que o senhor vai poetisando—tornou o padre, fechando o olho direito e sorvendo uma canora pitada pela venta correspondente.—A avesinha (se dá licença, eu componho em linguagem chan e fradesca uma estrophe do idyllio) a avesinha deixou piar a carinhosa mãi, e desferiu as tenras azas na pontaria da arvore florida; e, como quer que as forças lhe cançassem do desusado vôo, não teve a avesinha remedio senão abater-se ao chão para pousar. E vai n'isto, andava por alli á caça de ninhos um gato ou uma gata brava, seja gato ou gata; o essencial é que apenas otriste passarinho apegou, o animal damninho fez-lhe o salto d'entre umas balças, e o filho da pobre mãi, que se morria de paixão no ninho, lá foi empolgado pelo gato ou pela gata... Lafontaine não inventou este conto, e merecia a pena; não importa: compuzem'ol-o nós, snr. Pires,ad usum delphini, e seja delfim o nosso Jorge.
A allusão desgraciosa da gata foi tão clara quanto desagradavel a Jorge. Era uma injuria á mulher querida, á sombra lagrimosa que o ia acompanhando, e instigando a reagir contra o dominio de parentes, e exhortando a emancipar o coração d'uma tutela que lhe deixava da vida as regalias que bastavam á criança, mas não ao homem.
Azedado, pois, pelo motejo da bucolica do padre João, Jorge disse com vehemencia:
—Meu tio offereça a moralidade dos contos a quem lhe pedir lições.
Padre João, depois de breve pausa, respondeu brandamente e com magoada tristeza:
—Não te envergonhes de pedir-me lições, filho, que as não pedes sómente a um velho; dá-t'as um amigo, que foi homem antes de ser frade, e estudou os homens, depois que o mandaram sahir da sua cella, como cousa inutil á sociedade. Se me não quizeres as lições, de que sirvo eu, Jorge? Já agora irei prégando sempre, quer me ouçam, quer me repulsem, como manda o apostolo.. Desagradou-te a allegoria do conto, e convidas-me assim a ser mais natural. Jorge, repara bem no que te diz este velho que, no teu modo pouco respeitoso de fallar a uma mãi, «te premuniu com cabedal de philosophia christã, bastante para defender das tentações todas as nações da biblia exterminadas por causa do peccado.» Sei de cór as tuas palavras, porque m'as entalhou na alma o espinho da ingratidão. Deves-me bons desejos de te fazer bom e honrado: não me sejas ingrato. Agora, escuta, filho. Vinte e quatro horas antes dete apparecer, procurei-te, porque do Porto fui avisado dos teus desvios: como te não encontrei, fui colher mais informações; voltei á noite á hospedaria tres vezes, e ás duas horas não tinhas ainda recolhido. No dia seguinte, que foi hoje, procurei-te ás nove horas da manha: tinhas já sahido. Déste-me tempo de sobra para eu me instruir das miudezas da tua historia de tres semanas. Sei quem é a creatura que te ourou a cabeça. É uma feia alma n'um formoso estojo; é uma aventureira...
—Meu tio, isso é crueldade e calumnia—interrompeu Jorge allucinado.
—Bate, mas escuta, dizia o philosopho: é uma aventureira de maridos, que engodou o morgado de Santa Eufemia, em quanto julgou desnecessario o consentimento do velho fidalgo para a realisação do casamento que a fazia rica. Desvanecidas as esperanças do morgado, cuja rudeza lhe não desdizia com o espirito arteiro, voltou-se para um rico brazileiro de Cabeceiras de Basto; mas o brazileiro não lhe entendeu os pespontes da eloquencia, e disse que queria mulher com quem elle se entendesse. Chamada por uma prima, professora em armadilhas ao casamento...
—Francisca da Cunha?—exclamou Pires, erguendo-se nos estribos.
—Justamente, Francisca da Cunha, menina matreira que...
—Olhe que eu amo essa mulher, snr. padre Coelho!—interrompeu solemnemente Leonardo.
—Pois faz v. s.ª muito bem: o amor do proximo é preceito divino: sou de parecer que a ame; mas não lhe dou os parabens... Vinha eu dizendo que a tal Silvina já no Porto, de mãos dadas com a prima, não duvidou visitar uma estalajadeira de Margaride que viera a banhos de mar, porque esta estalajadeira tinha um filho que viera do Brazil, com alguns centos de contos, negociados na escravatura. E como o filho da estalajadeiranão andava acostumado a comprar senão negras possantes e trabalhadoras, recusou comprar a compleição melindrosa da fidalga de Margaride. D'ahi veio o saber-se, pelo dizer a snr.ª D. Silvina, que o poderoso brazileiro é filho d'uma taverneira, e que fôra para o Brazil com umas soletas e chapéo de Braga que lhe dera de esmola o pai da fidalga. Eis aqui o que eu pude averiguar da pessoa por quem meu sobrinho troca os carinhos de sua mãi, a dôce amisade de seus irmãos, e as lições amoraveis de seu velho tio.
Jorge Coelho ficou enleado, e não replicou; Leonardo Pires, porém, que nunca em sua vida pensára o que dizia, senão meia hora depois de o dizer, exclamou:
—Mas ha-de confessar, snr. padre João, que ellas são boas mulheres!
—Boas!...—murmurou o padre, que não entendeu o sentido do adjectivo—boas... quer-me parecer que não são muito!
—Ora essa! pois não as acha bonitas e elegantes?
—Eu não as conheço; mas creio que são bonitas e elegantes: e d'ahi?
—E d'ahi!Amor omnia vincit!o amor tudo vence.
—Agradeço a traducção—disse, sorrindo, o padre, que, a fallar a verdade, tinha uns sorrisos que muito justificavam o dito de ter sido «homem» antes de ser frade.—O snr. Leonardo Pires não tem mãi?—acrescentou o padre, após um curto intervallo, com summa seriedade.
—Tenho, sim senhor; mas não tenciono namorar minha mãi—disse precipitadamente Leonardo.
O padre fitou-o com tristeza e admiração, um momento, e depois disse-lhe com bons modos:
—Praza a Deus que o coração esteja menos derrançado que a linguagem... snr. Leonardo Pires, eu tenho setenta annos; deprava-se um rapaz; mas respeita-se um velho.
D'esta vez, o imperturbavel Pires não teve que responder.
Tinham chegado a Vallongo. Jorge estendeu a mão ao seu amigo, e disse-lhe suffocado:
—Adeus! não sei se te verei mais... Sinto a morte no coração!
O padre fez um frio comprimento ao amigo de seu sobrinho, dizendo-lhe:
—Deus o tenha de sua mão.
Leonardo partiu; e o egresso, com os olhos embaciados de lagrimas, murmurou:
—Jorge! quem te abriu as portas da desgraça foi aquelle homem.
Não esqueceram de certo ao leitor attento estas linhas da carta que o morgado de Santa Eufemia recebeu do pai:—Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou ordem ao meu amigo brazileiro para te dar para a jornada cinco pintos.
O brazileiro amigo do fidalgo de Freixieiro era o snr. José Francisco Andraens, natural de Cozelhas, desde 1844 estabelecido no Porto, onde viera tratar do baço, do pancreas, e d'outras entranhas importantes do snr. José Francisco Andraens. Na mente do illustre enfermo estava retirar-se para a provincia de Piauhy, onde tinha a sua feira de pretos, logo que restaurasse o estomago e as mais partes circumjacentes da sua alma. Porém, como quer que um seu amigo velho, e companheirode viagem para o Brazil, em rapazes, estivesse no Porto com o titulo de visconde dos Lagares, e este o fizesse conhecido por meio das gazetas por uma esmola de cincoenta mil réis ao hospital da Santissima Trindade, o snr. José Francisco viu-se tão festejado, tão requestado, tão necessario ao Porto, que mandou vender os pretos em ser, e liquidar os creditos.
Tentemos um debuxo de José Francisco. Deve estar entre cincoenta a cincoenta e cinco annos, estatura menos de mean, com tres barrigas, das quaes a primeira, começando pela parte mais nobre do sujeito, principia onde o vulgar da gente tem os joelhos, e, depois d'uma arremettida adiposa, retrahe-se na linha imaginaria da cintura, e estreita-se em fórma de cabeça. A segunda barriga pega da primeira, ondeia com tres ordens de refegos por sobre as falsas costellas, ladêa tumida e retesada como os flancos d'um ôdre posto de través, e vai perder-se nos sovacos, mandando para as costas uma corcunda da sua mesma natureza. A terceira barriga pendura-se da face interna do queixo inferior, amplia-se flacida e lustrosa como um buxo mal cheio de vitella, e assenta sobre a segunda, no ponto hypothetico do esterno. A parte anatomica d'este bosquejo toda ella se libra em conjecturas. O author não assevera senão a existencia das barrigas.
Isto tudo tem uma base caprichosa: são cousas que a linguagem do paradoxo denomina pés. Vacilla a critica no confrontal-os com objecto dos tres reinos: uma tartaruga envolta em bezerro dá-nos uns longes da realidade; mas falta-nos o simile para os declivios, gargantas e barrocaes dos joanetes. Os pés de José Francisco são a desesperação dos Gavarni. O marrão do alvanel poderia arrancal-os d'um golpe d'uma pedreira por acaso; mas Apelles mais depressa pintaria uvas que enganassem o bico sequioso da passarinhada.
No tocante á cara o snr. Andraens é homem, apesard'outros animaes que lhe não disputam os fóros da humanidade, porque não teem um curso de historia natural. O rubor do tomate desmaia ao pé das papeiras faciaes do brazileiro. O nariz enfronha-se de envergonhado entre as trouxas de tecidos, que lhe debruam os olhos de oppilações carnosas, sebaceas e luzidias. A menina do olho é rutilante e azougada, posto que as secreções visinhas lhe bezuntem a raiz das pestanas.
O snr. Andraens é commendador da ordem de Christo, desde que o seu amigo visconde dos Lagares foi nomeado trinchante da casa real. Afóra isto, o brazileiro de Cozelhas, na qualidade de accionista do Banco Commercial do Porto, é orador vitalicio d'aquella assembléa, em que não são raros os talentos de maior porte. Tal era o amigo do velho fidalgo de Freixieiro.
José Francisco esperava que o filho de Vasco procurasse os cinco pintos, segundo a ordem que recebera. Decorridos alguns dias, escreveu ao seu amigo, a dizer-lhe que o fidalgo novo não apparecera para receber o dinheiro. Tornou o velho a escrever ao brazileiro, encarregando-o de procurar o filho, aconselhal-o que fosse para casa, e pagar a despeza que elle tivesse feito na estalagem.
Foi o snr. Andraens áAguia d'Ouro, e como não encontrasse Christovão, deixou dito ao criado do quarto quem era e a precisão que tinha de fallar com o morgado. Já vinha descendo as escadas, e voltou acima a chamar o criado.
—Olhe lá, disse elle, o fidalgo deve muito cá na casa?
—Não, senhor: o fidalgo paga todas as semanas.
—Está bom, está bom, vossê não diga que eu perguntei isto, e pegue lá para matar o bicho ámanhã.—Dizendo, abriu uma bolsa de retroz coalhada de missanga, e tirou trinta réis que deu ao criado com a mão direitafechada, para que a esquerda se não escandalisasse da prodigalidade.
Na manhã do dia seguinte, foi o morgado de Santa Eufemia a casa do brazileiro, e conduziram-o ao seu quarto de dormir, porque José Francisco estava ainda recolhido com a barriga n.º 2 envolta de papas de linhaça.
—Estou aqui emplasmado, senhor morgado—disse José Francisco, arqueando os braços por sobre a esphera abdominal.
—Então o snr. José que tem?
—Mande-se sentar, meu fidalgo. Eu estou aqui com uns calores cá de dentro, que dão que fazer á botica; mas isto, se Deus quizer, não é nada. Pois, meu senhor e amigo, seu pai escreveu-me, como ha-de saber, para eu lhe dar um dinheirito, e depois tornou a escrever-me para eu ir ter aonde a v. s.ª e dizer-lhe que o melhor é ir-se para casa, quanto antes, porque o velho, pelos modos, está lá arrenegado por si. Então, vai ou não vai?
—Por estes dias, irei; mas já já não se me arranja cá a minha vida, snr. José.
—Então o senhor, ainda que eu seja confiado, que tem cá que fazer? Ahi, por mais que me digam, anda derriço... Eu hei-de saber o que é quando fallar com a fidalga de Margaride que o conhece muito bem ao senhor morgado...
—Então o senhor conhece a D. Silvina de Mello?
—Conheço-a como os meus dedos...—respondeu o snr. Andraens, com um sorriso intencional, que passou desapercebido ao morgado.—É bem boa estampa, ó senhor morgado, não é? ora diga a verdade!
—É muito bonita, isso é.
—Rapariga d'uma vez! e bem-fallada!? isso então quando calha de fallar, aquillo não despega nem á mão de Deus-padre! Falla em tudo quanto ha! Até em Sebastopool,senhor morgado! Um d'estes dias tinha eu lá ido a troco cá de certa pendencia, e veiu á collecção a guerra da Russia, e ella começou alli a manobrar as batalhas, e se fôr como ella diz o snr. D. Miguel (Deus o traga) não tarda cá. Eu não tenho partidos, e até a fallar a verdade, sou commendador por esta gente, mas em fim, quero-me cá com os velhos, e gente como era a antiga já se não topa. Pois é verdade... eu...
—E a fidalga—atalhou o morgado—nunca lhe fallou em mim, snr. José?
—Fallou, pois então? disse-me até que o senhor queria casar com ella... é assim ou não é?
—Isso é verdade. Paixão de raiz como a que eu tenho por ella não a torno a ter pela mais pintada.
—Ah! que me diz?—acudiu o brazileiro com espanto—pois a cousa é isso? Quer apostar que o senhor está aqui pr'a-mor d'ella?
—Em fim, o coração não mente... Á conta d'ella é que eu aqui estou. Passaram-se uns poucos de mezes sem eu ter carta, desde que ella veiu para o Porto. Arranjei como pude licença do pai, e vim encontral-a cá a namorar outro, um trampolineirito a quem eu queria dar uma escovadela, mas antes de hontem fugiu lá para cascos de rolha.
—Conte-me isso, conte-me isso—exclamou José Francisco com vehemente interesse.
—É como lhe digo, snr. José. Agora preciso demorar-me alguns dias a ver o que ella faz.
—Com que então diz-me o senhor morgado—disse meditabundo e detidamente o brazileiro—que ella andava já com o miolo ás voltas por outro sujeito!... As mulheres são o diabo!... Quer o senhor saber?! Mas isto é pedra que cahe em poço, ouviu o senhor?
—Eu não digo nada; póde fallar snr. José.
—Pois então, vou desembuchar... Eu tenho emprestado algum dinheiro ao Pedro de Mello, pai da Silvina,para elle mandar aos rapazes que andam a estudar p'ra doutores em Coimbra. A casa do Mello é boa, mas está empenhada até aqui.—(O snr. José Francisco poz um dedo na barriga n.º 3, que deu de si como um balão de borracha). Ha-de haver tres mezes que eu fui levar á filha umas libras que o pai lhe mandou dar para vestimentas. Eu andava com o olho em cima de uma quintarola bem boa d'elle, que parte com os meus terrões da Lixa, e não se me dava de lhe ir dando aos poucos algum dinheiro até lhe apanhar a propriedade que me faz muita conta. E vai se não quando, meu amiguinho e senhor morgado, veiu a fidalga á sala assignar o recibo, e p'ra'qui p'racolá, palavra puxa palavra, eu deixei-me estar ao cavaco com ella e com a prima, e jantei lá n'esse dia, e fiquei p'ra a noite. A fallar-lhe a verdade nua e crua, como o outro que diz, eu não sei o que sentia cá no interior! Que diabo é isto que eu sinto? disse eu cá c'os meus botões. Eu andei por lá por esses mundos de Christo, vi muita mulata e branca de encher o olho, tive as minhas rapaziadas, porque em fim, a gente é de carne e osso; mas nunca me buliu cá por dentro mulher nenhuma como esta! Se o senhor morgado ouvisse o palavriado d'ella! Deixe vêr se me lembro... Não encarreiro... Ora deixe estar o senhor.. Eu tenho alli uma carta d'ella...
—Uma carta d'ella!—interrompeu o morgado a fumegar.
—Pois então? uma carta d'ella, umas poucas; mas ha lá uma em que ella escreve o mesmo que tinha dito de bocca. Faz o senhor favor de me ir áquella gavetinha do meio da commoda, e dar-me de lá um caixotinho de vidro, que tem uns bordados de papel dourado na cobertoira?...
Christovão Pacheco abriu com a mão convulsa a gaveta, e levou á cama do snr. Andraens a caixinha indicada. O brazileiro tirou um feixe de cartas, cintadas comuma fita de nastro, abriu algumas, regougando palavras soltas de cada uma d'ellas, e por fim acertou com a carta que procurava, e exclamou:—Cá está ella! tal e qual. Ora faz favor de lêr, que eu não estou hoje muito escorreito dos olhos.
O morgado de Santa Eufemia, entalado, enfiado, tremulo e escarlate até á raiz dos cabellos, leu o seguinte:
«Meu bom e muito querido amigo. Tanto eu como minha prima Francisca, ella por amisade reconhecida, e eu do coração affectuoso lhe agradecemos o valioso mimo com que se dignou brindar-nos a sua generosidade...»
—Isso foi, interrompeu o brazileiro, a respeito de umas pulseiras de ouro que eu mandei ás duas, que me custaram dezesete libras e mais uns pósinhos, não fallando na caixota em que foram os estojos que me tinha custado em Paris quarenta e oito francos. Empreguei bem o meu dinheiro, não tem duvida! Ora faz favor de continuar com essa trapalhice:
O morgado proseguiu na leitura acerba, limpando as camarinhas de suor que lhe transpiravam da testa:
«Apreciamos a dadiva já pelo que ella vale, já pelos sentimentos delicados que ella representa...»
—Isso é bem dito, não é, ó senhor morgado?—interrompeu o snr. José Francisco.—Lá que ella tem uma cabecinha como não ha outra, isso pau pau, pedra pedra, a verdade ha-de dizer-se. O que lhe falta é miôlo... Ora ande lá... vá lendo:
«Nunca eu aceitaria—continuava a carta de Silvina—uma prenda de homem, que não tivesse uma explicação honrosa. Esta, que eu tenho no meu pulso, não me faz estremecer a mão de pejo. Os meus sentimentos a respeito de v. s.ª tenho-lh'os dito tantas vezes, que repetil-os seria abusar da sua attenção, e descer um pouco da minha senhoril, dignidade. V. s.ª sabe como eu aprecio as paixões proprias dos meus annos...»
José Francisco Andraens deu dous galões no leito, e clamou:
—É ahi, é ahi onde está a cousa!
Christovão continuou, já deletreando, porque a raiva lhe nublava os olhos:
«Não creio na duração do amor impetuoso. A violencia da vibração fatiga as cordas da alma...»
—Olhe lá—atalhou o brazileiro—isso que vem a dizer? esse bocado não o percebi bem...A violencia da vibração fatiga as cordas... que diabo!...
—Quer dizer, respondeu o morgado com anciado esforço, quer dizer que... sim... eu acho que isto vem a dizer... que as paixões fortes adoentam a gente...
—Ah! sim, senhor, ha-de ser isso... eu cá sinto os estragos no interior... Ora faz favor de vêr o resto.
O morgado leu:
«A minha ambição é encontrar um amigo verdadeiro, um coração sereno, um homem para quem o mundo não tenha abysmos, dos que tem no fundo a desgraça da esposa trahida, e esquecida. Receba no coração estas palavras da sua dedicada e constante amiga,Silvina.»
—Que me diz o senhor a isso?—interpellou José Francisco, dando uma palmada no hombro do entorpecido morgado.
—O que eu lhe digo, snr. José!...—tornou o morgado, atirando a carta para sobre o leito.—O que eu lhe digo é que esta mulher...