—É uma mulher de pouco mais ou menos—concluiu o brazileiro, atando as cartas com o nastro—Ora ahi tem... Agora, á vista d'isto, deixe-se andar por cá atraz d'ella...—E o senhor continua o namoro?—perguntou o morgado com os olhos vidrados de lagrimas.—Qual namoro, nem qual diabo! O que eu queria era melhorar da barriga!XI.José Francisco Andraens, mentiste á tua consciencia! Supposto que as tuas barrigas te mereçam quantos desvelos cabem na alçada do oleo d'amendoa dôce e da linhaça, o coração em ti é um musculo cheio de bom e sadio sangue, sangue cruorico que por vezes te borbulha nas arterias, e reçuma á cara em brazumes de ternura lubrica. Mentiste, José Francisco, quando respondeste áquelle pobre morgado, que o que tu querias era melhorar da barriga. Musculo enorme! tu amavas abrasado no lume da faisca electrica em que se estremece cada uma de tuas fibras, rijas de vida, saturadas do boi copioso que assimilas, e das tortas de frango com que pejas diariamente as algibeiras do sobretudo, e das planganas de farinha de pau e araruta que emborcas todasas manhãs. Commendador da ordem de Christo! se o incognito da Providencia, chamadoacaso, te houvesse dado a faculdade de desafogar em vociferações contra a fementida Silvina, dirias, no auge da tua angustia, blasphemias contra as mulheres, injurias insultadoras contra a fidalga de Margaride, e juramentos, por tua honra, de despresal-a e diffamal-a onde quer que fosse a tua lingua peçonhenta e a dos teus amigos famintos de detracção e escandalo. Os que assim procedem, fariam de ti riso, se te ouvissem o dialogo com o teu amigo de Freixieiro; tu, porém, José Francisco Andraens, que não sabes os quatro epithetos triviaes com que se vingam amantes abandonados, ergueste os alçapões da tua alma, e deixaste romper a torrente represada, com estas palavras: «Qual namoro, nem qual diabo! o que eu queria era melhorar da barriga!»Ai! se elle a amava!Não houve ahi cancro de amor que afistulasse, tão no intimo, coração de homem. Aquella propria dôr de estomago, rebelde á linhaça, nos está dizendo finezas do amor de José Francisco, procedida, como é, do uso do chá a que o forçavam successivas noites que passou em casa do tio de Silvina. No principio, o hospede cauteloso recusou a chavena; mas a fidalga teve a impiedade de dizer-lhe que não era extremamente do bom tom rejeitar o chá, a pretexto de ser bebida nociva ao estomago. O brazileiro, no dia seguinte, em vez d'uma, tomou tres chavenas, e em sua casa,para affazer a tripacomo elle dizia, mandava cozinhar grandes chocolateiras de chá, que a moça inexperta chamava o cozimento, e carregava de folha até sahir negro na fervura. José Francisco conhecia o veneno, punha a mão no buxo, e, se não dizia como o papa Ganganelli: «hei-de morrer d'isto...» gritava pela cataplasma de linhaça, mitigava a inflammação, e de puro amor continuavaa immolar o estomago, como fino amante que não tem mais que dar.Ha ahi amadores, José Francisco, que cubiçam a pedraria oriental para construirem um nicho para a mulher amada; pedem a Deus estrellas para lhe marchetarem a alcatifa das botinhas; queriam a lua e as duas ursas para o pavilhão do leito nupcial; os coriscos para lhe brincarem aos pés; os jardins de Semiramis, recendentes de nardo e cardamomo, para lhe deliciarem o olfacto; o sceptro do globo para a mão soberana, e o diadema do universo para a fronte inspirada. Farelorio. Homem de Cozelhas! o teu estomago estragado pelo chá, sobreleva em dolorosa realidade a tudo quanto inventaram poetas, invejosos dos bens de Deus, em quanto tu deixas em paz a lua e as estrellas, e compras dezesete libras de pulseiras, ás quaes a propria Diana caçadora te estenderia os seus divinos braços.Ai! se elle a amava!Por uma tarde de Agosto, na alamêda da Lapa, se andava José Francisco passeando com o seu amigo visconde dos Lagares. A espaços, o amador de Silvina desprendia uns como gemidos desentranhados com estridor de arroto, e o açafroado das belfas, ora se enrubecia mais intenso, ora desmaiava n'um pardacento, que deu nos olhos solicitos do visconde:—Que tem vossê, sôr Andraens?!—perguntou o trinchante da casa real, afervorando o zelo da pergunta com um suave empurrão.—Que hei-de eu ter, amigo visconde? Vossê bem sabe que eu ando mettido n'uma camisa de onze varas. A minha sina, que me lêram quando eu era rapaz, dá-me que eu hei-de passar por um grande desgosto. Até ao presente, em boa hora o digamos, a cousa não me tem ido mal; d'aqui por diante como o outro que diz, um bomem deve estar tem-te não caias.—Mas então vossê que medo tem?—tornou o visconde,variando a mimica com uma palmada na espadua boleada de José Francisco.—Homem, vossê casou quando era moço, e deu-se bem com a mulher, e tem vivido sem sustos; mas eu já cá estão os cincoenta, não sou dos rapazes da moda, e tenho ás vezes umas lembranças que me derrancam o coração.—Ora, deixe-se d'isso, sôr Andraens! Pelos modos a senhora, com quem vossê vai casar, é menina bem comportadinha, e vossê, quando casar, deixe-se de ir muitas vezes ás assembleas, e pouco de visitas, e de theatros; metta-se em sua casa a mais a mulher; trate da sua labutação, e não a deixe pôr pé em ramo verde, sem ir com ella.—Pois não pozeste!—acudiu José Francisco soltando uma risada aspera de sacões, que valia bem um programma.—Vossê ainda está n'essa?A minha mulher, quando eu a tiver, é cá para o amanho da minha casa. Comer e beber, e vestidos, e enfeites d'ouro, não lhe ha-de cançar; mas ir a bailes e a comedias... isso, snr. visconde... olhe cá se me vê algumTna testa! É verdade que a minha futura noiva é toda pronostica e está avezada ao palavriado dos pantomineiros que não tem senão aquillo e a sua miça; mas eu logo que case hei-de pôl-a na lei em que ha-de viver.A mulher é do seu homem, e casou para tratar-lhe das doenças, e do arranjo da familia. Quem quer andar á tuna nas comedias e nos balancés deixa-se estar solteira; não é assim, amigo visconde?—Assim é; mas não será bom apertal-a muito, amigo Andraens... Isto de mulheres, olhe que nem o diabo as quiz guardar, e quando ellas entram a desatremar, adeus, minha vida!—A desatremar!—clamou José Francisco com iracundia.—Então um homem não é senhor de fechar as suas portas, e viver como quizer com a mulher comquem reparte do que tem? do seu dinheiro? do que lhe não custou a ella a ganhar? do seu dinheiro?—Vossê diz bem, sôr José; mas é que ella a isso póde dizer que estava melhor solteira.—Homem, vossê nem parece visconde n'isso que diz!—atalhou com ironia pungente José Francisco.—Eu vou já embuchal-o com uma pergunta:—Quanto vale a tal madama?—Pelos modos, disse o visconde, acho que pouco tem.—Por tudo que ella tem não dou eu seiscentos mil réis. A casa é do morgado, e os bens livres, repartidos por seis irmãos, nem p'ra pagarem a minha divida chegam. E quanto acha vossê que eu tenho, ó amigo visconde?—Vossê, cá segundo os meus calculos, ha-de ter o melhor de cem contos... p'ra cima que não p'ra baixo.—Aqui que ninguem nos ouve, snr. visconde, disse José Francisco muito á puridade, se não fosse aquella tapona que eu levei na costa d'Africa, podia ter os meus quatrocentos contos; agora, mais cem, menos cem mil réis a minha fortuna ha-de andar ahi por duzentos contos, e se as cousas correrem regularmente, cá nos engajados, escuso de bulir no que tenho apurado. Ora ahi tem vossê. Faz favor de me dizer se a rapariga, que não tem nada, casar commigo, não fica a ser rica e respeitada no mundo! Responda a isto, amigo, se é capaz!—Sôr José Francisco, tornou o visconde com sisuda gravidade, olhe que eu tenho andado muito mundo, e visto muita cousa. A rapariga, se casa comsigo, é por que quer figurar. Vossê já não é muito moço, e não sei como ha-de estar em casa mettido a entreter a mulher. Sabe que mais? se está na teima de a não deixar ter alguma folga, o melhor é deixar-se estar solteiro até lhe apparecer moça mais azada p'ro seu modode vida. Deixe cá o arranjo ao meu cuidado, que eu conheço muito negociante aqui no Porto que tem raparigaças como castellos, e vossê não tem senão escolher.—Cale-se lá, homem!—interrompeu com azedume e paixão o de Cozelhas—Eu gosto de Silvina d'uma vez! E, se quer que lhe diga a verdade, já fiz alguma despeza com ella. Vossê inda a não enxergou?—Ainda não á minha vontade; mas na semana que vem vou dar um baile só para a vêr a preceito; já a lobriguei de longe, e alvidou-se-me que ella era bem tirada das canellas, e que tinha a cinta muito delgada.—Isso então!—exclamou o snr. Andraens, com os olhos rutilantes de jubilo, e um sorriso de satyro, que lhe fazia recuar os refegos das bochechas até ás orelhas, como dobras de cortinas apanhadas.—Bem feita até alli! O pescoço é branco como a cal da parede; os braços parecem de leite, e aquillo hão-de ser macios que nem veludo; os olhos, continuou José Francisco, com precipitada torrente de imagens orientaes, parece que entram no interior da gente, e andam sempre a bulir nos buracos como dous grillos; os dentes são da côr d'essa camisa, e tão iguaesinhos que parece mesmo cousa de fazer crescer a agua na bocca; quando ella anda pela casa, aquillo é um gosto vêl-a! parece que está a casa cheia! E ouvil-a fallar?! Vossê não faz uma pequena idéa! Até falla de Sebastopool! (Vê-se que esta feição do talento de D. Silvina foi a que mais deu no gôto do snr. José Francisco Andraens.) Em fim, amigo visconde, mulher como ella não espero topal-a. Tenho-lhe sympathia cá de dentro; sonho com ella todas as noites; dia em que a não veja, ando como a cobra que perdeu a peçonha; se adrega d'ella ir visitar alguem, e eu não a vejo, vou zangado p'ra casa, e já me tem acontecido não ceiar! As cartas d'ella tenho-as na cabeça, e já comprei um livro muito grande, chamado... chamado elle... assim uma cousa a modo... de... vossê hadesaber? Aquillo que ensina a escrever direitas as palavras!...—Uma pauta, ha-de ser pauta...—Qual pauta, nem qual diabo! é um livro, que ensina a escrever com as letras todas... Já me lembra: um breviario.—Ha-de ser isso, ha-de ser isso...—disse o visconde, que apreciou o ensejo de saber que o breviario ensinava a escrever com as letras todas—mas, a fallar verdade—continuou ingenuamente o brazileiro—não me ageito com o tal livreco, e vou-lhe escrevendo como sei. Aqui trago eu na carteira uma carta, respondendo á d'ella de hontem, a vêr se lh'a entrego esta noite. Quer vossê vêr, amigo visconde? Eu p'ra si não tenho aquellas. Ora escute lá; mas o mais acertado é lêrmos primeiro a que ella me escreveu. Vossê vai ficar pasmado; ora ouça.José Francisco sentou-se n'um dos bancos de pedra da alamêda da Lapa, e leu correntemente o seguinte:«Meu caro amigo.«Soube que hontem me procurou. Quiz o meu infortunio que eu não estivesse em casa. O tio anda a pagar visitas, e ordenou que eu o acompanhasse. Passei uma noite insipida, lembrando-me que podia passal-a no remanso duma dôce paz e contentamento d'alma ao lado do homem cujas tão amantes como paternaes palavras me embalam o somno para os sonhos d'um delicioso futuro...»Aqui José Francisco sacudiu na mão o papel, e exclamou radioso:—Olhe isto, amigo visconde!os sonhos d'um delicioso futuro!... Pelos modos, quer dizer que o que ella quer é uma vida socegada para, em vez d'andar em visitas, dormir na sua cama á sua vontade. Não é isto?—Pois elle que ha-de ser senão isso?—disse o visconde gostoso da modestia consultiva do seu amigo, e ia continuar reflexões a proposito, quando José Francisco, menos jubiloso, continuou, lendo:«Estará ainda longe o dia suspirado, meu amigo? Não tem já do meu caracter um profundo conhecimento? Não se demore a confirmar o destino que minha alma anceia, porque desgraçadamente a minha vontade não é de todo livre, e bem póde ser que meu pai, antes da resolução de v. s.ª, tome outra, contraria aos nossos intentos. Sua do coração,S.»—Á troca d'estas linhas do fim—disse o brazileiro um pouco recolhido e melancolico—é que eu hoje tenho andado azoado, e a suspirar cá de dentro. Ora escute lá a resposta:«Meus amores!!! (Na pontuação guardamos a fidelidade que descuramos na orthographia, cuja liberdade concedemos a José Francisco e pedimos alternativamente para nós). As vossas letras recebidas ao fazer d'esta até ao meio consolaram o meu coração saudoso!!... mas as que vem no cabo da vossa carta penetraram qual duro ferro no meu coração saudoso!! Se vosso pai não levar a bem o nosso casamento, ó céos!!! tanto faz querer como não querer o arranjo ha se de fazer, ainda que eu vá ás do cabo; estai descançada, joven Silvina amada!! Logo que eu tenha a nossa casa da Lixa arranjada (que andam lá os estucadores e os pintores) estamos casados e arruma-se d'aqui o pensamento!!! D'este vosso idolatrado até á morte, J. F. Andraens, vosso futuro esposo.»—Que tal?—murmurou com certo ar de pudica modestia o erotico compositor de cartas incendiarias.—Onde diabo aprendeu vossê tanto, ó sôr José?—disse o visconde com sincero espanto.—Isto que aqui vê fil-o de fio a pavio, sem ir aobreviario, amigo visconde. Ponto é ter cá dentro o amor a puxar pelas memorias.José Francisco ergueu-se triumphante com miraculosa agilidade; deu alguns passeios floreando a bengala, e rindo a revezes do espasmo do visconde, que, em sua consciencia, suspeitava de que fosse a carta apocripha; mas, por delicadeza, calou as duvidas.José Francisco tinha desafogado. O arroto já não vinha acompanhado do suspiro. As tres barrigas funccionavam em toda a sua plenitude phisiologica. O jubilo doudo da sua esperança sorria aos arreboes que cintavam o horisonte do oceano; a viração da tarde, brincando na folhagem dos alamos e acacias, rumorejava um soido mellico aos ouvidos d'alma d'aquelle amante feliz.Ai! se elle a amava!Este expansivo dialogo fôra anterior quarenta e oito horas áquell'outro que ouvimos entre o brazileiro, e Christovão Pacheco de Valladares.Quem te ha-de crêr agora, José Francisco Andraens! Que se te dá a ti da barriga, se tu amas tanto a mulher predestinada?! Descança, anjo do amor, no teu céo de duzentos contos, que as filhas dos homens lá irão buscar-te!XII.Ai! como elle a amava!Quantos Paulos, e Romeos, e Othellos mettidos n'aquella côdea grossa de José Francisco Andraens! Que requebros de namorado, e que furias de cioso! Aquella é verdadeira paixão que ora se refrigera com orvalhos do céo, ora se calcina nas labaredas do inferno. A paixão de José Francisco era assim. Ha pouco vimos aquella alma a derramar-se em blandicias de Petrarcha; agora arripia o vêl-a a espirrar coriscos da cratera que lá referve dentro.Mal Christovão Pacheco sahira, galgando atordoado as escadas quatro a quatro, José Francisco arrancou de si a cataplasma d'um impeto que faria lembrar Catão arrancando o proprio redenho. Saltou para o chão, calçouas mouras escarlates que lhe serviam á farta de tapete, lançou sobre as espaduas um capote de camelão de quatro cabeções, enfiou as mangas do mesmo, e sentou-se á escrivaninha, resfolegando vaporadas pelas ventas, que nem javali monteado por lebreus. A criada entrava n'esta occasião com a terceira camada de linhaça, e fez pé atraz, enfiada de puro horror.—Que queres tu, moça?,—mugiu José Francisco.—São as papas...—balbuciou a espavorida criada.—Não quero mais papas. Vai chamar o meu compadre Amaro, e que venha já de marcha para ir com uma carta a Margaride.O brazileiro escreveu na pojadura da veia. O traslado da carta, com a authenticidade do de todas as outras, não pude havel-o, apesar de suadas canceiras que este paiz tão sovinamente remunera aos indefessos obreiros das suas glorias. O que pude tirar a limpo foi ser a carta dirigida a Pedro de Mello, pai de D. Silvina. José Francisco lembrava ao fidalgo a sua divida de um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta réis que lhe emprestára sobre hypotheca da quinta da Lixa. Dizia mais que não podia continuar a remetter as mezadas para os academicos da universidade. Instava pelo prompto pagamento do seu credito, ou trespasse da quinta hypothecada. Ameaçava-o com o poder judiciario, e terminava com estas quatro linhas, unicas authenticas:Pr'ámor da sua filha é que é tudo isto. Se ella andasse direita comigo outro gallo lh'avia de cantar. Assim o quiz, assim o tenha. Comigo não se manga, e está arrumada a pendencia.Ai! se elle a amava!A carta partiu, e José Francisco, aplacado o maior afôgo da convulsão, chamou a moça, pediu uma tigela de tapioca, e comeu á tripa fôrra.Cotejemos agora com os do negreiro os ciumes do morgado de Santa Eufemia. Egas de Encerra-bodes esperavao primo no hotel, curioso de saber o fim a que o chamára o brazileiro. Christovão contou lealmente o acontecido, já barafustando furioso, já enternecendo-se a lagrimas. O de Matto-grosso descompunha-se em gargalhadas, e nem os prantos do primo lhe embargavam as guinadas de riso. Começava a desconfiar o de Santa Eufemia, quando Egas, composto o gesto e a postura, fallou assim:«Um Pacheco Valladares a correr parelhas com um José Francisco na conquista d'uma mulher! Um neto do governador de Cochim a disputar meças de merecimento com um chatim de negros! um moço no mais florido dos annos, gentil de sua pessoa, sacrificado á mazorral caricatura, que ahi está symbolisando uma fortuna tão besta quanto assignalada das vergoadas do látego com que o infame de Deus e dos homens fazia espirrar sangue das costas dos escravos!... Primo Christovão, torne sobre si, peje-se d'essas lagrimas que ahi derramou, e que eu escarneci para não tomar ignominioso quinhão da sua dôr aviltante para evos e para vindouros! Que mulher é essa, a neta do sargento-mór d'Amarante, que anda ahi a chafurdar nos chiqueiros da sua cubiça um appellido que usurpou?Mello!Quem lhe deu a ellaMello?! Seu visavô era Antonio Gonçalves; seu avô era Francisco Antunes Gonçalves; quem enxertou no pai esse pomposo appellido? Silvina Antunes é como ella se chama, essa farrapona que mendiga para uma carruagem e seis vestidos o preço dos ultimos doze pretos que José Andraens mandou acorrentados ao mercado. Primo Valladares, neto de Heitor Valladares, bisneto de D. Mafalda Pacheco e Alvim, açafata illustre da côrte do snr. D. Pedro 2.º, descendente dos Alvins de Braga, onde casou o condestavel D. Nuno Alvares Pereira! primo, lembre-se de quem é, e esmague debaixo das solas das suas botas o coração, se sente que uma gotta de seu nobre sangue se ha degenerado no vilipendioso affectoque prodigalisou á esposa promettida de José Francisco!»Este aranzel fez bem ao coração do morgado. Entrou em si, coçou-se com ambas as mãos algumas vezes, estirou os braços convulsivos com os punhos cerrados, e exclamou de golpe:—Que a leve o diabo!Egas estreitou o primo ao coração com vehemencia, levantou-o tres vezes em peso, e bradou por fim:—Reconheço o meu sangue!Sem embargo d'isto, o morgado de Santa Eufemia precisava de ar, abriu a janella, sorveu tres grandes haustos, e repetiu a phrase que provára ao de Matto-grosso a identidade da sua estirpe:—Que a leve o diabo!N'este comenos, vinha atravessando o largo da Batalha Leonardo Pires.—Lá vem aquelle!—exclamou Egas—Vou chamal-o para lhe dar a noticia que ha-de ser muito agradavel ao seu amigo Jorge. Olé! snr. Albuquerque!Psio.Pires fez uma continencia militar com o chicote.—Suba cá—tornou o fidalgo de Entre-ambos-os-rios—temos que contar-lhe.—Viram aqui passar a Francisca da Cunha?—perguntou Pires.—Não.—Ando-lhe na pista, como galgo que perdeu a lebre, que eu desconfio bem que seja gata, que a minha paixão me dá por lebre.—É muito possivel...—redarguiu a rir o de Matto-grosso—Suba, e verá que não está longe da verdade.O da Maya circumvagou com a luneta em torno da praça duas vezes, e subiu.—Então que temos?! Dou-lhe parte que o meuamigo Jorge Coelho não tarda ahi, e que o duello, se os cavalheiros insistirem, ha-de consummar-se.—Quem falla aqui em duello?—acudiu Egas—Escreva ao seu amigo, e diga-lhe que se deixe estar com a mãi e com o padre lá na sua aldêa, se não quizer vêr Silvina, o anjo de candura, de braço dado com as fronhas carnosas de José Francisco Andraens...—Quem é José Francisco Andraens?—interrompeu Leonardo.Egas de Encerra-bodes compelliu o primo a contar a historia, que, d'esta feita, não sahiu com intermittentes de lagrimas. Era de vêr com que graça soez o amante ultrajado ia já apimentando os sarcasmos detraidores de Silvina, e os projectos de cynica desforra que elle offerecia ao parecer dos seus amigos, projectos que, realisados, collocariam José Francisco n'uma situação tão irrisoria como bemquista do siso commum, o qual é uma cousa muito ao envez do que por ahi nos grandes alcouces da opinião publica se denomina senso-commum.O programma do morgado de Santa Eufemia foi applaudido com razões pouco para se estamparem. Leonardo Pires disse que não avisava o seu amigo para não perder occasião de o ter no Porto alguns dias, e cural-o mais facilmente com a vista do espectaculo hediondo. N'isto, como estivessem os tres á janella, viram assomar no topo da rua de Santo Antonio Silvina, e Francisca da Cunha, seguidas de um criado de farda.—Ellas ahi vem!—disse Pires, e sahiu a encontrar-se com ellas. O morgado de Santa Eufemia, a rasoavel distancia, quando as damas vinham com os olhos postos n'elle, fez recuar o primo, e fechou-lhes a janella na cara. Silvina ria tanto como a prima, quando Pires, com o chicotinho em arco, e quasi aos pulinhos como funambulo que vai fazer a sorte, se lhe atravessou no caminho, dizendo:—Criado de vv. exc.as—O snr. Pires!—disse Francisca toda graça e affabilidade ironica—Faziamol-o no seuchateau... Que é feito de si?—Agoniso, minha senhora, agoniso.—Ai! que funebre vem!—disse Silvina—póde-se agonisar com esse rosto tão de vida, e rubicundo?—Póde-se padecer muito, minha senhora, com o rosto rubicundo—replicou Pires—Eu sei de creaturas, metaphoricamente chamadas humanas que soffrem muito, sem impedimento das massas de toucinho que as envolvem. Darei a v. exc.ª um exemplo. Conheço uma metaphora chamada José Francisco Andraens... (Silvina córou e franziu a testa) monstro cevado em sangue humano, que elle distilla em banha e asneiras, o qual monstro,—ninguem o ha-de crêr, minha senhora—neutralisa o combustivel da paixão com o refrigerante das cataplasmas de linhaça. Ahi tem v. exc.ª um exemplo que justifica de sobra a minha agonia.—Vamos, prima, que são horas—disse Francisca da Cunha, condoida do enleio desacostumado de Silvina.—Pois sim, vamos—disse esta, corrida de modo, que incutiria compaixão em homem que não fosse Pires.—Dão-me as suas ordens, minhas senhoras?—disse elle, ladeando—Ah!—continuou Pires de sobresalto—esquecia-me dizer á snr.ª D. Silvina que o nosso Jorge vem ahi...—Ah! vem?—disse machinalmente Silvina.—Vem, sim, minha senhora, a requerimento meu, por que lhe conheço grande curiosidade de naturalista, e desejo mostrar-lhe José Francisco Andraens, a hyperbole de enxundia, monstro, de quem eu tive a honra de fallar a vv. exc.as, e que até ouso recommendar-lhes, para que vv. exc.asadmirem não só o bruto, mas o effeito prodigioso da linhaça.O enleio de Silvina redundou em colera.—O senhor, disse ella, está-me insultando por que eu e minha prima, confiadas na cortezania da sociedade em que vivemos, sahimos sem um homem, cujo desforço nos desafronte com honra.—Dizes bem, prima—acudiu Francisca, tambem colerica por contagio—Deixemos o villão.Pires, quando lhe voltaram as costas, deu dous passos em seguimento d'ellas, e tomou-lhes o passo.—Continua a petulancia?—disse Silvina irada—olhe que eu trago um criado!—Com libré emprestada, minhas senhoras?—disse o imprudente fidalgo da Maya, que trazia os ouvidos cheios das diffamações geanologicas d'Egas de Encerra-bodes.—Snr.ª D. Silvina, eu fui quem lhe apresentou a nobre alma de Jorge Coelho, que v. exc.ª quiz estragar. Empeçonhou-lh'a, mas não ha-de enlameal-a. Quem vinga Jorge sou eu, Leonardo Pires de Albuquerque. Saiba v. exc.ª que José Francisco Andraens é meu. Aquelle problema de carne hei-de desatal-o eu com o escarneo, e v. exc.ª ha-de ficar submersa nas avalanchas d'aquella montanha de cebo. Agora nós, snr.ª D. Francisca da Cunha. V. exc.ª, que só sabe lêr as cartas do linheiro das Hortas, e que tem tido o indiscreto recreio de me andar ridicularisandono boudoirdas suas dignas amigas, ou se encastella com o linheiro das Hortas lá no seu burgo de Traz-os-Montes, ou tem de esconder-se nas rimas de estopa em que seu futuro esposo lê de pernas ao ar as suas epistolas. Sem mais.Pires, vibrando no ar estalinhos com o chicote, entalou a luneta no olho esquerdo, e foi expandir o jubilo em folgada palestra com os morgados, que o espreitavam.Silvina, quando entrou n'uma casa nobre de Traz da Sé, soffreu um insulto nervoso que desabafou em gritos. Queria Francisca da Cunha consolal-a; mas estava esperando de instante a instante ser assaltada tambemdo mesmo insulto. As senhoras da casa á competencia desfaziam-se em desvelos; mas Silvina respondia apenas: «hei-de vingar-me!»Desiderio Erasmo, como sabem, escreveu a «Apologia da tontice.» Eu não me afouto a encarecer a de Leonardo Pires; porém, assim como os regedores das republicas nobilitam com mercês e titulos não só a estupidez—isso é o menos—mas a infamia soberba d'uma opulencia cevada e medrada em cruezas e deshumanidades, que muito se aventurarmos um voto de louvor a alguns selvagens da civilisação, doudos providenciaes que atiram a vaza do insulto a caras já de si tão sujas, que não ha medo de enferretal-as?Alguns homens, como Pires, seriam muito proveitosos n'uma sociedade como esta. Houve-os sempre com differentes nomes e appellidos. Na antiguidade, chamaram-se Aristophanes, Diogenes, Marcial e Plauto; na meia idade eram os prophetas, os padres da igreja, e, com menos caução de suas prerogativas censorias, os histriões palacianos. Na correnteza d'esta geração por excellencia policiada, mas de todas a mais gafa do que ahi se chama «ridiculo» e do que mais é para chamar-se lastima, ha muito quem tire a campo de zombaria os «ridiculos» do mundo; mas ninguem se vê copiado n'elles, e os copistas de modo o fazem que fique salvo o orgulho de cada azêmola que fita a orelha ao ornejar da copia, mas não responde. A isto é o que ahi dizem «guardar as conveniencias»: á mesma cousa, chamavam d'antes «guardar as costas.»Seja o que fôr, a satyra assim não vinga fructo de servir á geração que está nem á porvindoura.Satyra prestadia, se alguma houve, é a de Leonardo Pires. Eis ahi um doudo, que tolos e sisudos lançarão de suas casas com horror; e todavia qual de nós não sente um Pires, na consciencia, a travar-se de razões e murros com a nossa soberba? Seis Leonardosactivos no Porto purificavam o ar pestilencial que para alli veiu das terras de Santa Cruz. Na idade media, os tabardilhos, as pestes fulminantes; no seculo 16.º o verme roedor que desmedula os ossos através de vinte gerações que hão-de lembrar-se sempre de Colombo pelo mimo; no seculo dezenove, mais que nunca, a peste do Brazil, de que adoecem espiritos empinados em seu orgulho como o de Silvina e Francisca da Cunha.D'um lado Leonardo Pires; de outro lado José Francisco Andraens, e o linheiro das Hortas. Quem levará a melhor? É tola a pergunta. Ha-de ser o linheiro das Hortas, e José Francisco.XIII.O apostolico e dicasissimo padre João Coelho, desde Vallongo até Amarante, excedeu-se a si proprio prégando ao sobrinho o melhor e a maior parte do que disseram philosophos, santos padres, moralistas e casuistas ácerca do amor mundanal e da mulher. Jorge não replicava, por que o não escutava. O egresso, tomando o silencio como victoria, tirava dos corollarios theses novas, que ia defendendo com tamanha profusão de tiradas latinas que, a ser verdade o que elle disse abordoado a Seneca, Santo Agostinho, Euzebio cezariense, e Bredembachio, o amor mundanal e a mulher são cousas muito peores do que pensa o vulgar da gente. Padre João não era erudito que sómente fizesse praça dos exemplos que authorisa a historia. O pulso rijo da engenhosamemoria d'elle entrou nas idades fabulosas e trouxe pelas orelhas certos heroes que os poemas orphicos e os homeridas nos encamparam como sujeitos apresentaveis na boa sociedade. Marte, segundo o padre, era um adultero; Apollo um valdevinos que se andava lamuriando na piugada de Daphne; Hercules um maricas que fiava de cocoras na roca de Omphale; as heroinas da odissea, da iliada, e das tragedias de Eschylo um femeaço impudico e deslavado. Do Olympo desceu padre João aos antigos imperios, e poz pelas ruas da amargura Xerxes, Ciro, Dario, Holophernes, Absalão, Sichem, Salomão, Herodes, Marco Antonio, e muitos outros que pelos modos não deram boa conta de si, ou as mulheres não deram boa conta d'elles.O leitor de certo se convertia ouvindo o egresso; mas Jorge Coelho ia tão dentro em si, tão lacerado pelo abutre da paixão sem esperança, que as palavras do douto velho lhe eram como esponja de fel e vinagre espremida nas chagas. Pernoitaram na Amarante, onde chegaram ao fim da tarde do segundo dia de jornada. Em quanto o egresso entrou no velho templo a fazer oração a S. Gonçalo e visitar os cubiculos onde viveram santos varões da sua creação, Jorge foi sentar-se á beira do Tamega, e ahi rompeu em pranto desfeito, com os olhos postos nas ondulações das serranias para além das quaes lhe ficava o Porto. O padre sahiu indignado do mosteiro praguejando, menos evangelicamente que de seu costume, contra o governo que permittia á municipalidade amarantina que as vivandeiras do destacamento aquartellado nos dormitorios do mosteiro dançassem ebrias e meio nuas a canna verde e a sirandinha no refeitorio e na claustra. É de crer que as mulheres recebessem com galhofa o egresso venerando, cujas botas de borla e chapéo tricorne deviam de parecer cousa de entrudo ás bacchantes que a onda da civilisação revessouno remanso dos monges, em quanto outra engolfou os monges no porto suspirado da sepultura.Ahi me vou eu sahindo com o impertinente vêzo de lastimar os frades! D'esta vez hei-de represar a piedade com que n'outros livros tenho desdourado, no conceito de muita gente, os meus altos espiritos de operario que trabalha á candeia do seculo XIX. Que me importa a mim que nos cubiculos do mosteiro de S. Gonçalo se alojem as vivandeiras do destacamento, e que na claustra sobre as cinzas dos frades vão ellas, repletas de vinho e despejo, dançar a sirandinha e a canna verde? Se eu disser que no tempo dos frades não se viam semelhantes desacatos, hei grande medo que me ponderem que outros desacatos mais attentatorios da religião de Jesus ahi se viram no tempo em que os frades comiam no refeitorio, e medravam nas cellas, onde agora coze o seu vinho o mulherio da tropa. Se o padre João Coelho quizesse, esse é que podia responder a preceito; mas, para bem do leitor, ninguem n'aquella hora se lhe atravessou com argumentos, estando elle na estalagem da Amarante, sentado no escabello, a dizer cousas de sorte magoadas, a respeito da profanação do convento, que todo o auditorio chorava, sendo tres das carpideiras as mais lubricas bailarinas da claustra.Entretanto, Jorge escrevia a Leonardo Pires, dizendo-lhe que resolvera não escrever a Silvina, em quanto lhe durasse a impressão amarga que recebera das revelações do tio, impressão immorredoura, dizia elle. Recommendava-lhe que se informasse da verdade d'aquellas revelações, e sem piedade lhe transmitisse o excesso de peçonha que havia de matal-o. Ajuntava elle que já não amava Silvina; mas que não podia despresal-a; e que entre o amor e o despreso estava o odio, serpente insaciavel que se lhe enroscara no coração.Esta serpente de que se queixa Jorge Coelho é uma alimaria a que os poetas de animo socegado chamamcupido, deus de Gnido, de Paphos, e Amor em estilo chão. Permitte a rhetorica aos amadores enraivados denominar serpente a cousa que d'um dia para outro se transforma em rola gemedora. Não é raro encontrar sujeito que tem aninhado no seio um viveiro d'estas serpentes, as quaes, depois de cuspirem a peçonha, n'uma carta arrufada, em meia duzia de adjectivos azedos como malagueta, metamorphoseam-se em pombal de candidissimas pombinhas que se catam e beijam umas ás outras com langorosos requebros. Da metamorphose o que fica é a peçonha instillada e derramada na circulação sanguinea. Na correnteza do tempo, vem esta peçonha a consolidar-se no coração, e d'ahi procedem as postemas, que degeneram em aleijões, commummente denominados scepticismo, cynismo, devassidão, libertinagem, impudencia, e outras molestias pegadiças. As rolas e as pombas, desde que o coração inficionado as afugenta, passam para o dominio do estilo, e concorrem para que no banquete d'um amor revelho, gotoso e glutão hajam sempre aves.Vem a pêllo fallar da gorda gallinha que padre João trinchou na estalagem da Amarante, em quanto Jorge Coelho, recolhido ao seu quarto, se atirava vestido sobre o leito abafando contra o travesseiro os soluços da afflicção, que o egresso, tão de boa fé como crente na efficacia da historia, julgára minorada com a quarta dissertação que fizera ácerca do amor, segundo a carne, e nomeadamente do amor em Roma na época dos Cezares.Citou versos de Marcial e Juvenal, como prova de que o amor era mau em toda a parte; e, sem elle querer, tambem provou que nas livrarias dos mosteiros entravam livros de moralidade muito equivoca. A ultima these de padre João Coelho assentava n'esta proposição de S. Paulo: «Quem não ama está na morte;» mas tão engenhosamente o erudito frade torceu o bico ao prego que as conclusões eram todas contra o baixo amorterreal, e pregoeiras do amor divino, que elle orador por sua parte cumpria á risca, sem embargo de se pascer em delicias na choruda gallinha, em quanto o sobrinho abafava de dôr no quarto. Esta é a grande vantagem dos que andam empinados em amores do céo, que nunca deixam de comer ás suas horas, e de digerirem em regalados somnos a materia bruta que lhes não pesa na consciencia. Não ha pois duvidar de Montesquieu (parece que foi) que disse—que a religião christã, depois de nos felicitar n'este mundo, nos segurava a felicidade do outro.Padre João dormiu nos coxins macios da sua limpa consciencia; Jorge, apenas o tio se fechou com o breviario, e adormeceu ao quarto psalmo penitenciario (um egresso repleto de gallinha cozida a resar um psalmo penitenciario! parece um paradoxo! Tomára eu saber se David compoz aquellas lastimas antes que as caricias de Bethsabé o enfastiassem!)... Estas incisões intermittentes hão-de perdoar-m'as os leitores que souberem o que é escrever um romance n'um carcere, onde já não ha carrasco, mas existe o espirito do carrasco identificado a uma cousa que nós cá os assassinos e os salteadores denominamos asauthoridades, que medram no cêvo do erario, uns chamando-se procuradores do rei, outros carcereiros, outros chaveiros, outros guardas, a mesma familia representando o rei de theor e modo que fazem odiosa a palavra do symbolo que lhes legitíma a crueza, a barbaridade que lhes tem ladrilhado o coração, e muitas vezes a infamia que se abona com a justiça, essa divina irmã dos anjos, que os cafres trazem tão nusinha e pustolosa por sobre os esterquilinios d'elles.Agora é que me eu perdi de todo... Perdido devéras andava aquelle pobre Jorge Coelho, pelas ruas da Amarante em quanto o padre dormia o somno do justo. Chegou á celebrada ponte, curvou-se no parapeito, e teve tentação de precipitar-se. Foi instantaneo o accessode loucura. Jorge viu a imagem de sua mãi no scintillante reverbero da lua que se espelhava no Tamega, Levantou os olhos para o céo, e disse:«Ó Providencia Divina! leva esta dôr ao coração de minha mãi, para que ella, a santa, peça por mim!»Eram onze horas d'aquella formosa noite de Setembro. Soava apertada nos rochedos a torrente, que scintillava em escamas de prata. De longe vinha a toada soidosa d'uma flauta que tocava a chacara popular dos «Dous renegados.» Jorge amava desde os doze annos os versos maviosos e truculentos d'aquella canção de amor que chora como anjo e obsecra como demonio. Proferiu a letra cadenciando-a com a flauta, e rematou chorando, já não em ancias, mas suavissimamente, como se o espirito de sua mãi lhe alcançasse do céo a mercê das lagrimas que desopprimem.Um vulto entrou na extremidade direita da ponte: era uma das mulheres que padre João vira com santa indignação, a tripudiarem sobre as ossadas dos monges na claustra. Veiu direita a elle, e pediu-lhe uma esmola. Jorge deu-lhe tudo quanto tinha. A mulher viu bastantes moedas de prata, e, estupefacta ou douda de jubilo, nem se retirava nem agradecia.—Vá-se agora, embora, mulher—disse Jorge, sem enfado, mas desejoso da solidão que tão suave lhe estava sendo.—O senhor dá-me este dinheiro todo?!—disse a mulher, que os homens chamam perdida, e que não o estava, nem o podia estar aos olhos do seu Creador.—Dou, sim.—Bem haja, meu senhor!—tornou ella, com lagrimas na voz—já tenho com que ir para a minha familia. Eu sou uma desgraçada, que vim do Algarve, ha tres annos, fugida a meus paes, com um rapaz meu parente, para casarmos onde podesse ser. Elle requereu ao commandante; mas não teve licença para casar commigo;eu depois fui lançar-me aos pés da senhora do commandante, e consegui licença. Quando estavamos muito contentes, mandei buscar a minha certidão e mais papeis á terra; mas disseram-me de lá que nós eramos primos, e não podiamos casar sem dispensa. Não tinhamos dinheiro para ella, e fomos vivendo até vêr se Deus dava remedio. N'este entrementes, o meu primo namorou-se de outra, e deixou-me a morrer á fome. Agora com este dinheirinho vou já amanhã para o Porto, e de lá vou n'um hiate para Tavira, e vou botar-me de joelhos aos pés de minha mãi.—Pois vá, não mude de resolução, e faça por ser boa filha—disse Jorge com maviosa caridade.—O senhor será um anjo do céo?—disse a feliz creatura lavada em lagrimas.—Não sou anjo do céo, não... Vá com Deus.A mulher retrocedeu, e foi ajoelhar diante de um antiquissimo retabulo de granito em que na fachada do templo de S. Gonçalo sobresahem os grosseiros relevos de uma Senhora com Jesus morto no regaço. Jorge viu, ao clarão sereno da lampada que pende sobre a imagem, a mulher ajoelhada. Banhou-se-lhe o espirito de um contentamento, que não poderia existir na terra, se acima d'este tremedal, não velasse um Deus as acções do homem que póde erguer-se do seu rasto até hombrear com os anjos.Entre Jorge e aquella peccadora que resava, avultou ainda a imagem da mulher pura, a mãi, a santa, onde chegára talvez a revelação das penas do filho. Silvina, n'esse momento, nada era na vida de Jorge. Nem a poesia da paixão pôde disputar o espirito do mancebo á poesia da caridade.Entretanto, o varão justo, o padre João Coelho, acordava com a digestão consummada, voltou-se para o outro lado, e reatou a nota quebrada de um beatifico ronco.XIV.As prelecções de historia antiga que padre João fizera, desde o Porto até casa, não tocaram o juizo nem o coração de Jorge; mas as singelas palavras da indulgente mãi, e as caricias dos irmãos, acalmaram algum tanto a febril paixão do academico. D. Antonia, de proposito, passou com o filho no adro da igreja rural, quando, ao fim da tarde, se celebrava dentro um baptisado. Entraram na modesta igrejinha, e foram ajoelhar no arco. A viuva, depois que orou, foi sentar-se n'um banco tosco da capella-mór, e chamou para junto de si o filho.—Senta-te aqui, Jorge;—disse ella—quero fallar com o meu filho ao pé da sepultura de seu pai. Não a esqueceste ainda, pois não?Jorge desceu a vista sobre uma das lages que formavam o estreito pavimento da capella-mór. D. Antonia continuou:—Tenho fé em que o meu coração n'este lugar, onde ha cinco annos venho chorar todos os dias, te saberá dizer o que teu bom pai te diria, filho. Se Deus me não fizer o milagre de ajuntar ao teu espirito mais dez annos, serão perdidas as minhas consolações, e tu as tomarás como conselhos importunos...—Não, minha mãi...—atalhou Jorge, commovido pelo terror santo do local, e pela imagem de seu pai, em cuja fronte morta elle dera um beijo cinco annos antes—os seus conselhos...—São conselhos de mulher, conselhos de mãi, que quer desterrar da tua alma lembranças d'outra mulher que me rouba o coração de meu filho. Deus levou-me teu pai, Jorge; e Deus não me podia enganar quando d'aquella tribuna, estando eu ajoelhada sobre esta lousa, me dizia que a compensação da boa alma que chamou para si, eras tu. Lembras-te d'uns beijos fervorosos que eu te dava, quando erguias as mãos ao pé de mim n'este mesmo sitio? Não te deixava eu a face molhada de minhas lagrimas, Jorge? Lembras-te?—Lembro-me, minha mãi... E porque está chorando agora?—disse compadecido o moço.—Parece-me que é saudade das dôres de então, filho... As de hoje são inconsolaveis... Nunca tive orgulho peccaminoso, Deus sabe que não; mas orgulho do meu dominio no teu animo, Jorge, tinha-o muito grande; e agora vejo que pequeno valor tem o dominio de mãi, logo que um acaso infeliz depara aos dezoito annos de uma criança os affectos verdadeiros ou simulados da mulher que nunca se viu, nem conheceu nos brinquedos da infancia. Isto é triste! A natureza poderá justificar este vulgar infortunio; mas a piedade e o dever choram-se, e não ha razão que convença uma mãia conformar-se com a desvalia em que tu tiveste os meus rogos durante tres mezes.—Eu não desvaliei os seus mandados, minha mãi—disse Jorge em tom de carinhosa submissão—Havia uma corrente invencivel que me prendia á desgraça...—E partiu-se essa corrente, filho?... O teu silencio diz-me que não... Olha, Jorge... se essa mulher fosse digna de ti, eu dizia-te que me trouxesses para casa mais uma filha; se ella fosse virtuosa e pobre, seria um thesouro, na nossa casa onde sobra o necessario; se fosse rica e creada nas regalias da sociedade, aconselhava-te que a não sacrificasses á nossa solidão e pobreza comparativa; mas, filho, essa menina, que te enganou o coração, não tem virtudes que suppram a riqueza, nem a riqueza que possa compensar o coração estragado e sem escrupulos do homem, que não és tu, mercê do Senhor! Antes de teu tio ir ao Porto, já eu sabia, meu filho, quem era Silvina. Nada disse ao padre do que sabia, quando lhe pedi que fosse em meu nome pedir-te que viesses para nós, que te choravamos. Tu sabes que eu tive uma companheira no convento de Braga, menina de muitas virtudes, que mereceu a Deus casar com um negociante do Porto. Foi a ella que eu escrevi pedindo-lhe informações da tua vida, e não se demoraram. O marido d'esta senhora procurou-te varias vezes, e nunca pôde encontrar-te. Andavas perdido na tua cegueira, meu pobre filho! Abre os olhos da tua alma, e attenta nas lagrimas da pobre mãi que não póde contar com o amparo de tres meninas, nem ellas contam com outro amparo senão o teu. Não achas tanta gente boa a pedir-te amor, filho? Tudo nos queres tirar a nós para o atirar aos pés de uma mulher que d'aqui a um anno será na tua memoria apenas um remorso, senão fôr antes uma vergonha?—Uma vergonha!... atalhou Jorge, mais ferido na vaidade que surprehendido da qualificação.—Pois qual é o nome que dá o mundo ás paixões que humilham os que as soffrem, e mortificam uma familia que não espera d'ellas senão amarguras, desgraças, e abysmos?! Jorge, meu querido filho, faz um esforço de vontade! Vence-te, que podes. Ajuda a efficacia das minhas orações. Em nome d'estas cinzas queridas, peço-te em nome de teu pai, que tantas vezes me disse, quando te via triste, aos quatorze annos; «não tires da tua vista este menino, que ha-de perder-se, se entrar no mundo, d'onde me eu salvei com o teu amor»; é teu pai que te pede pela minha bocca, Jorge, esquece essa mulher; não lhe escrevas, os teus amigos que te não fallem d'ella; absorve-te no meu amor; folga com a innocencia de tuas irmãs: volta a Coimbra quando o desejo do estudo renascer no teu animo socegado; entrega-te de novo aos teus prazeres da caça; restaura a tua saude, que trazes tão quebrantada; eu pedirei aos amigos da nossa casa que a frequentem mais a miudo; teu tio ha-de saber conversar com o teu espirito instruido; compra os livros que quizeres; satisfaz todos os caprichos que te não arruinem a saude nem a alma; tens a duas leguas d'aqui uma villa onde ha sociedade, e familias que te estimam. Lucta, filho, deixa triumphar tua mãi do prestigio d'essa mulher, que nunca te deu uma lagrima, nem sabe o travor das que tu me tens feito chorar...—Basta, minha mãi—murmurou Jorge, levando aos labios a mão tremula da magoada senhora—Luctarei, e... morrerei, se não vencer.—Vences, filho, vences! exclamou D. Antonia com a vehemencia da sua fé e da sua razão.—Vences, porque Deus não dá ás más paixões o poder de matarem uma creatura, que póde desafogal-as nos braços de sua mãi.—E erguendo as mãos para o altar, disse com a voz convulsiva—Graças, meu Redemptor!Anoitecera. Padre João, que era o vigario da freguezia,andava discretamente passeando no adro, e entretendo os sobrinhos para não interromperem a pratica, cujo assumpto elle adivinhara. D. Antonia ergueu-se, tomou a mão do filho, e sahiu da igreja. No adro, estavam brincando as tres irmãs de Jorge, a mais velha das quaes tinha nove annos, e o irmão mais novo que nascera depois da morte de seu pai. Saltaram os mais novos aos abraços á mãi, e as duas meninas ao pescoço de Jorge, com grande alarido. Sentou-se elle nos degraus do cruzeiro do adro, e tomou para sobre os joelhos as duas meninas, que á fina força queriam ennastrar-lhe nos cabellos as suas rozas brancas. D. Antonia contemplava o grupo com o semblante banhado de alegria. O egresso, debruçado sobre a parede baixa que contornava o adro, fallava com o mordomo da festa de S. Sebastião ácerca do numero de padres e do prégador que devia chamar. Os meninos mais novos já tinham largado a mãi para apedrejarem as andorinhas que chilreavam em redor do campanario, cuja sineta unica era movida debaixo por um cordel, que os pequenos a muito custo respeitavam por alli estar o tio padre.Resolvido o negocio da festividade do orago, padre João tirou pela corda, e tocou as nove badaladas das Ave-Marias. Todos ergueram as mãos, e resaram em voz alta. «Ora, Deus nos dê boas noites.»—Disse o padre. Rodearam-no os meninos a beijar-lhe a mão, e Jorge tambem depois que sua mãi lhe deu a fronte.Terminado este lance, cuja poesia santa não ha pedil-a a corações que deram com ella no pégo da lama brilhante onde dizem que a poesia está, Jorge Coelho fitou os olhos no occidente, e reconheceu o anoitecer dos seus dias passados; viu o boleado pardacento das serranias longiquas que lhe estavam redizendo os pensamentos da sua infancia; ouvia ainda as vibrações do sino que repicava no baptisado de seus irmãosinhos, e dobrára na morte de seu pai, reconcentrou-se; sentiuuma secreta amargura que não era angustia de saudade, nem pavor de previsões afflictivas... Que era, pois, esse vulto lá muito ao longe, ao pé d'aquella myriada de estrellas que repontava na cumieira da montanha? Era a imagem de Silvina ainda perto do céo, porque de lá vinha cahindo, bella como os anjos que lá nasceram; e, rebeldes á piedade, á virtude, á suprema graça, aqui se despenham, e despenhados vencem ainda disputando ao Senhor as almas immaculadas. Era Silvina, toda de festa e risos, reptando-o á lucta com um sorriso affrontoso, e esgares de escarneo ao protesto santo jurado sobre a sepultura d'um pai, e assellado com lagrimas de mulher sem macula. Era a visão maldita, a fada inexoravel dos que vem a esta hecatomba, predestinadas victimas, que o mundo sacrifica e cospe.Era Silvina, sempre Silvina, a dizer-lhe:«Que mulher viste mais linda que eu!? Quem te deu philtros de mais saborosa peçonha!? Vê se te sorriem uns labios com mais dôces favos de phrases que assignalaram a mais bella hora da tua vida!»Meu pobre Jorge Coelho! Tua mãi não te salva d'esse captiveiro. Teu pai, esse resgatava-te, se te désse um lugar no seu leito!...É intransitivo o calix!XV.A primeira carta de Leonardo Pires ao condiscipulo dizia que Silvina ia todos os dias á Foz de carroção, e almoçava bifes e fiambre no hotel inglez. Ajuntava a isto o picaresco informador que a menina usava de anquinhas no vestido de banho, e fazia de nereida saracoteando-se na agua, requebrando-se em risos e ditos galanteadores aos tritões de baêta azul que a rodeavam, e sahindo dos braços de Neptuno mui peneirada aos saltinhos pela praia, que eram umas delicias vêl-a. Dizia mais, que Francisca da Cunha, ao sahir do banho, era uma cousa desazada como perua que saltasse de um tanque a escorrer agua. Este era sempre o estilo do fidalgo da Maya. Rematava dizendo que o morgado de Santa Eufemia fazia todos os dias a Silvina o sacrificio de selavar no oceano, dando grandes urros, e devorando bois assados no hotel da Boa-vista.Jorge Coelho tragou este veneno, e odiou o amigo que sem piedade lh'o vasava no coração. O innocente esperava que Leonardo lhe enviasse, senão uma carta, ao menos palavras consolativas de Silvina, incentivos apaixonados á esperança, lagrimas de saudade e protestos de firmeza eterna.Na segunda carta dizia Leonardo Pires que tendo elle azo de encontrar-se com Silvina na calçada dos Clerigos, na loja do snr. Antonio das Alminhas, lhe fallara de Jorge, contando-lhe o motivo da sua repentina partida para a provincia, com o que a boa da menina se rira grandemente, dizendo que seria muito de receiar que o tio padre trouxesse uma palmatoria debaixo da sotaina. A isto respondera Leonardo—e não duvidamos acredital-o—que Jorge devéras merecia meia duzia de palmatoadas, quando sahiu do baile da assemblea, apaixonado por um anjo que fizera presente das suas azas á gravata do morgado de Santa Eufemia. E como quer que Silvina redarguisse com voltar-lhe as costas, Leonardo fôra fallar a Francisca da Cunha que estava á porta do snr. Antonio das Alminhas, conversando amores com um linheiro das Hortas, o qual linheiro lhe estava dizendo que o dia estava muito bonito.Jorge Coelho respondia a estas cartas sem fallar de Silvina, e dizendo pouco de si. Divagava por assumptos tristes, dissabores da vida que em seu começo tropeça na desgraça; rebates de saudade d'um tempo que mais não voltaria; os encantos perdidos do céo, das arvores e das montanhas que elle amara tanto; a magia do viver em familia despoetisada; o coração desaffeito das caricias maternaes e já insensivel ao sabor d'ellas; longos dias, sem um sorriso, encadeados a noites desveladas sobre livros em que elle, como Hamlet, não via senãopalavras,palavras,palavras.Na terceira carta dizia Jorge ao seu amigo que talvez não fosse a Coimbra, porque a saude lhe minguava com a vontade, e a perspectiva da morte era a visão mais risonha que o visitava ao cahir da folhagem dos seus bosques, onde elle passava os dias com um anjo de nove annos, a sua irmã Angela.D. Antonia não entendia o filho. Via-o triste; mas triste o vira sempre desde criança. Espreitava-o de noite no seu quarto, e achava-o sempre com os cotovêlos na mesa de estudo, o rosto entre as mãos, e um livro aberto. Se o interrogava ácerca da sua saude, Jorge respondia sempre que não soffria senão o mal-estar da sua doentia imaginação. A mãi, fiada em suas orações, esperava o melhor, e agradecia já a Deus a cura completa de seu filho.Padre João, porém, via mais de perto o fio ás cousas.—O rapaz come muito pouco!...—dizia o sagacissimo egresso á cunhada—Não nos fiemos n'aquelle exterior pacifico, mana. Alli ha amargura secreta enfronhada n'uns ares de serenidade, que não é d'aquelles annos. Jorge está magro, macilento, e não dorme. Debaixo da janella d'elle encontro a miudo muito papel rasgado. Já pude concertar uns pedacinhos, e lá encontrei o nome da fada má, que nos ha-de perder Jorge.—Perder!... não diga tal, mano João!—exclamou a viuva, estorcendo os dedos, e já com as lagrimas, a fio.—Perder, sim!... Mana Antonia, eu já tive vinte annos, e entrei no mosteiro aos trinta e dous... Vou aconselhal-a. Quer resgatar o seu filho das ciladas da sereia?... Olhe que só Ulysses venceu uma vez sereias. Que me conste; desde Ulysses até nós, as vencedoras são ellas sempre, quando as victimas as não podem examinar de perto, e vêr que ellas escondem naagua a metade monstruosa do corpo. (A erudição mythologica do padre nem D. Antonia poupava!)—Então que conselho me dá, mano?—atalhou a senhora.—Quando Jorge der signaes de doença grave, quando uma ponta de febre lhe accender as faces, mande-o para o Porto.—Para o Porto?! Que desproposito é esse!?—Deixe-o ir examinar de perto o monstro. Deixe-o cahir na conta da sua indigna paixão. Deixe-o ir ouvir o descredito da tal mulher. Ha mulheres como a lança de Pélias: curam a ferida que fazem. Eu já me arrependi de obedecer aos rogos da mana. Jorge devia deixar o Porto espontaneamente. Logo que eu sube que mulher era a tal Silvina, devia abandonal-o a elle á miseria da sua illusão. A esta hora estava elle talvez desenganado. Sabe porque? Aqui tenho uma carta do negociante Ferreira, casado com a sua amiga do convento. Diz-me que Silvina arranjara a final um brazileiro millionario, tão monstruoso em corpo como ella é monstruosa na alma. Se Jorge estivesse a esta hora no Porto, cercado de homens que fazem zombaria das affeições serias e das ridiculas, curava-se. Aqui, se lhe eu annunciar as baixezas da Circea que o bestificou, não me acredita; e, se me acreditar, não temos balsamo que lhe feche a chaga; verá que elle a rasga mais com as suas proprias unhas, Mana Antonia, o meu parecer é este. Não me argumente, que não sabe, nem póde. Se a sua vontade fôr outra, lavo d'ahi as minhas mãos...D. Antonia foi direita ao quarto do filho, e entrou de sobresalto. Surprehendeu-o a escrever. Jorge fez um gesto machinal para entremetter n'outros papeis a folha em que escrevia.—Escondes de mim o que escreves, filho?—disse D. Antonia, com magoada brandura.—Não, minha mãi, não escondo...—Pois eu não vi?!—tornou ella, sorrindo tristemente.—São cartas para os meus condiscipulos.—Deixas vêr-m'as, Jorge? Que poderás tu dizer aos teus amigos, que não dissesses a tua mãi?! Fallas das tuas amarguras? Conta-m'as tambem a mim.—Eu não fallo de amarguras, minha mãi—disse Jorge, erguendo-se, para afastar a mãi da banca.—Communico a um amigo os meus estudos, as minhas impressões de leitura, cousas que não podem recrear uma senhora...—Assim será, Jorge... Tu nunca me mentiste, nem mentirás, pois não?Jorge guardou escrupuloso silencio, respondendo com um tregeito, que valia tanto como a supplica de perdão.N'este momento, apeava no pateo um cavalheiro da villa proxima, que vinha visitar o academico. Jorge foi logo á sala, a mãi acompanhou-o até fóra do quarto; e retrocedeu a examinar os papeis, logo que o viu entretido. Foi fácil estremal-o dos outros pela frescura da tinta. No alto da folha, leu estas palavras: «AO ANOITECER DA VIDA.» Depois seguia assim:«Vou d'este mundo, quando custa morrer aos que se estorcem entre uma saudade e uma esperança. Saudade! de que hei-de eu tel-a?! E que posso esperar? Quem me dera já as trevas! Esta luz, que me alumia, é ainda a d'aquelle clarão infernal do baile. Queria fugir de mim proprio, como de um inimigo. Não me has-de tu matar, paixão! Morro porque não podia viver. Se não fosse aquella mulher, era outra. Eu vejo e palpo a morte ha muitos annos. A fugir da morte, refugiei-me no coração de Silvina. Porque me disse ella: «no mundo deve existir a imagem da mulher digna de senhorear-lhe a alma com a de sua mãi, cuja face eu beijaria com respeito e ternura de filha?» E como Deus pôde crear no coração humano para zombaria pensamentosassim! Á mulher infame devia morrer a memoria das palavras com que se exprime a virtude... Sinto-me tranquillo... A compensação dos affrontados é esta. No mal e no bem te reconheço, Providencia Divina!... Mas o mal para que é? Se é necessaria na ordem do mundo a ignominia, a crueza, a infamia, a desgraça, fôra digno da perfeição divina deixar ás almas inculpadas o galardão de não sentirem a absurda justiça do Creador.«Que és tu, bem? que és tu, virtude?... que és tu...»Aqui fôra interrompido Jorge pela subita entrada da mãi.D. Antonia quasi não entendera o escripto; mas algumas palavras, as do titulo só, bastaram a compenetral-a de consternação e terror. Ouviu os passos de padre João, chamou-o anciada, e mostrou-lhe o papel. O egresso leu, e respondeu risonho:—Não tem de que se lastimar por em quanto, minha irmã. Isto é um accesso de febre; mas não me assusta; o que eu receio é a outra que não interroga a Providencia, e obriga o enfermo a inclinar a face para o seio, e esperar resignadamente a morte. Vá á sala, que o hospede quer comprimental-a.D. Antonia sahiu, e padre João escreveu o seguinte no papel que lêra:«O pucaro pergunta ao obreiro porque o fez quebradiço. O oleiro responde: porque eras barro antes de seres pucaro.»«Virtude é o diamante em que se pulverisam os raios da desgraça. Aquelle é virtuoso que olha em torno de si, e vê prostradas as calamidades.»«O reino de Deus não está em palavras sonoras; mas em virtudes. (S. Paulo—aos impacientes de Corintho).»«Coração apoucado, sossobra, se não podes com a tua miseria; mas não abandones a tua memoria a uma piedade vã, que é quasi uma zombaria.»
—É uma mulher de pouco mais ou menos—concluiu o brazileiro, atando as cartas com o nastro—Ora ahi tem... Agora, á vista d'isto, deixe-se andar por cá atraz d'ella...
—E o senhor continua o namoro?—perguntou o morgado com os olhos vidrados de lagrimas.
—Qual namoro, nem qual diabo! O que eu queria era melhorar da barriga!
José Francisco Andraens, mentiste á tua consciencia! Supposto que as tuas barrigas te mereçam quantos desvelos cabem na alçada do oleo d'amendoa dôce e da linhaça, o coração em ti é um musculo cheio de bom e sadio sangue, sangue cruorico que por vezes te borbulha nas arterias, e reçuma á cara em brazumes de ternura lubrica. Mentiste, José Francisco, quando respondeste áquelle pobre morgado, que o que tu querias era melhorar da barriga. Musculo enorme! tu amavas abrasado no lume da faisca electrica em que se estremece cada uma de tuas fibras, rijas de vida, saturadas do boi copioso que assimilas, e das tortas de frango com que pejas diariamente as algibeiras do sobretudo, e das planganas de farinha de pau e araruta que emborcas todasas manhãs. Commendador da ordem de Christo! se o incognito da Providencia, chamadoacaso, te houvesse dado a faculdade de desafogar em vociferações contra a fementida Silvina, dirias, no auge da tua angustia, blasphemias contra as mulheres, injurias insultadoras contra a fidalga de Margaride, e juramentos, por tua honra, de despresal-a e diffamal-a onde quer que fosse a tua lingua peçonhenta e a dos teus amigos famintos de detracção e escandalo. Os que assim procedem, fariam de ti riso, se te ouvissem o dialogo com o teu amigo de Freixieiro; tu, porém, José Francisco Andraens, que não sabes os quatro epithetos triviaes com que se vingam amantes abandonados, ergueste os alçapões da tua alma, e deixaste romper a torrente represada, com estas palavras: «Qual namoro, nem qual diabo! o que eu queria era melhorar da barriga!»
Ai! se elle a amava!
Não houve ahi cancro de amor que afistulasse, tão no intimo, coração de homem. Aquella propria dôr de estomago, rebelde á linhaça, nos está dizendo finezas do amor de José Francisco, procedida, como é, do uso do chá a que o forçavam successivas noites que passou em casa do tio de Silvina. No principio, o hospede cauteloso recusou a chavena; mas a fidalga teve a impiedade de dizer-lhe que não era extremamente do bom tom rejeitar o chá, a pretexto de ser bebida nociva ao estomago. O brazileiro, no dia seguinte, em vez d'uma, tomou tres chavenas, e em sua casa,para affazer a tripacomo elle dizia, mandava cozinhar grandes chocolateiras de chá, que a moça inexperta chamava o cozimento, e carregava de folha até sahir negro na fervura. José Francisco conhecia o veneno, punha a mão no buxo, e, se não dizia como o papa Ganganelli: «hei-de morrer d'isto...» gritava pela cataplasma de linhaça, mitigava a inflammação, e de puro amor continuavaa immolar o estomago, como fino amante que não tem mais que dar.
Ha ahi amadores, José Francisco, que cubiçam a pedraria oriental para construirem um nicho para a mulher amada; pedem a Deus estrellas para lhe marchetarem a alcatifa das botinhas; queriam a lua e as duas ursas para o pavilhão do leito nupcial; os coriscos para lhe brincarem aos pés; os jardins de Semiramis, recendentes de nardo e cardamomo, para lhe deliciarem o olfacto; o sceptro do globo para a mão soberana, e o diadema do universo para a fronte inspirada. Farelorio. Homem de Cozelhas! o teu estomago estragado pelo chá, sobreleva em dolorosa realidade a tudo quanto inventaram poetas, invejosos dos bens de Deus, em quanto tu deixas em paz a lua e as estrellas, e compras dezesete libras de pulseiras, ás quaes a propria Diana caçadora te estenderia os seus divinos braços.
Ai! se elle a amava!
Por uma tarde de Agosto, na alamêda da Lapa, se andava José Francisco passeando com o seu amigo visconde dos Lagares. A espaços, o amador de Silvina desprendia uns como gemidos desentranhados com estridor de arroto, e o açafroado das belfas, ora se enrubecia mais intenso, ora desmaiava n'um pardacento, que deu nos olhos solicitos do visconde:
—Que tem vossê, sôr Andraens?!—perguntou o trinchante da casa real, afervorando o zelo da pergunta com um suave empurrão.
—Que hei-de eu ter, amigo visconde? Vossê bem sabe que eu ando mettido n'uma camisa de onze varas. A minha sina, que me lêram quando eu era rapaz, dá-me que eu hei-de passar por um grande desgosto. Até ao presente, em boa hora o digamos, a cousa não me tem ido mal; d'aqui por diante como o outro que diz, um bomem deve estar tem-te não caias.
—Mas então vossê que medo tem?—tornou o visconde,variando a mimica com uma palmada na espadua boleada de José Francisco.
—Homem, vossê casou quando era moço, e deu-se bem com a mulher, e tem vivido sem sustos; mas eu já cá estão os cincoenta, não sou dos rapazes da moda, e tenho ás vezes umas lembranças que me derrancam o coração.
—Ora, deixe-se d'isso, sôr Andraens! Pelos modos a senhora, com quem vossê vai casar, é menina bem comportadinha, e vossê, quando casar, deixe-se de ir muitas vezes ás assembleas, e pouco de visitas, e de theatros; metta-se em sua casa a mais a mulher; trate da sua labutação, e não a deixe pôr pé em ramo verde, sem ir com ella.
—Pois não pozeste!—acudiu José Francisco soltando uma risada aspera de sacões, que valia bem um programma.—Vossê ainda está n'essa?
A minha mulher, quando eu a tiver, é cá para o amanho da minha casa. Comer e beber, e vestidos, e enfeites d'ouro, não lhe ha-de cançar; mas ir a bailes e a comedias... isso, snr. visconde... olhe cá se me vê algumTna testa! É verdade que a minha futura noiva é toda pronostica e está avezada ao palavriado dos pantomineiros que não tem senão aquillo e a sua miça; mas eu logo que case hei-de pôl-a na lei em que ha-de viver.
A mulher é do seu homem, e casou para tratar-lhe das doenças, e do arranjo da familia. Quem quer andar á tuna nas comedias e nos balancés deixa-se estar solteira; não é assim, amigo visconde?
—Assim é; mas não será bom apertal-a muito, amigo Andraens... Isto de mulheres, olhe que nem o diabo as quiz guardar, e quando ellas entram a desatremar, adeus, minha vida!
—A desatremar!—clamou José Francisco com iracundia.—Então um homem não é senhor de fechar as suas portas, e viver como quizer com a mulher comquem reparte do que tem? do seu dinheiro? do que lhe não custou a ella a ganhar? do seu dinheiro?
—Vossê diz bem, sôr José; mas é que ella a isso póde dizer que estava melhor solteira.
—Homem, vossê nem parece visconde n'isso que diz!—atalhou com ironia pungente José Francisco.—Eu vou já embuchal-o com uma pergunta:—Quanto vale a tal madama?
—Pelos modos, disse o visconde, acho que pouco tem.
—Por tudo que ella tem não dou eu seiscentos mil réis. A casa é do morgado, e os bens livres, repartidos por seis irmãos, nem p'ra pagarem a minha divida chegam. E quanto acha vossê que eu tenho, ó amigo visconde?
—Vossê, cá segundo os meus calculos, ha-de ter o melhor de cem contos... p'ra cima que não p'ra baixo.
—Aqui que ninguem nos ouve, snr. visconde, disse José Francisco muito á puridade, se não fosse aquella tapona que eu levei na costa d'Africa, podia ter os meus quatrocentos contos; agora, mais cem, menos cem mil réis a minha fortuna ha-de andar ahi por duzentos contos, e se as cousas correrem regularmente, cá nos engajados, escuso de bulir no que tenho apurado. Ora ahi tem vossê. Faz favor de me dizer se a rapariga, que não tem nada, casar commigo, não fica a ser rica e respeitada no mundo! Responda a isto, amigo, se é capaz!
—Sôr José Francisco, tornou o visconde com sisuda gravidade, olhe que eu tenho andado muito mundo, e visto muita cousa. A rapariga, se casa comsigo, é por que quer figurar. Vossê já não é muito moço, e não sei como ha-de estar em casa mettido a entreter a mulher. Sabe que mais? se está na teima de a não deixar ter alguma folga, o melhor é deixar-se estar solteiro até lhe apparecer moça mais azada p'ro seu modode vida. Deixe cá o arranjo ao meu cuidado, que eu conheço muito negociante aqui no Porto que tem raparigaças como castellos, e vossê não tem senão escolher.
—Cale-se lá, homem!—interrompeu com azedume e paixão o de Cozelhas—Eu gosto de Silvina d'uma vez! E, se quer que lhe diga a verdade, já fiz alguma despeza com ella. Vossê inda a não enxergou?
—Ainda não á minha vontade; mas na semana que vem vou dar um baile só para a vêr a preceito; já a lobriguei de longe, e alvidou-se-me que ella era bem tirada das canellas, e que tinha a cinta muito delgada.
—Isso então!—exclamou o snr. Andraens, com os olhos rutilantes de jubilo, e um sorriso de satyro, que lhe fazia recuar os refegos das bochechas até ás orelhas, como dobras de cortinas apanhadas.—Bem feita até alli! O pescoço é branco como a cal da parede; os braços parecem de leite, e aquillo hão-de ser macios que nem veludo; os olhos, continuou José Francisco, com precipitada torrente de imagens orientaes, parece que entram no interior da gente, e andam sempre a bulir nos buracos como dous grillos; os dentes são da côr d'essa camisa, e tão iguaesinhos que parece mesmo cousa de fazer crescer a agua na bocca; quando ella anda pela casa, aquillo é um gosto vêl-a! parece que está a casa cheia! E ouvil-a fallar?! Vossê não faz uma pequena idéa! Até falla de Sebastopool! (Vê-se que esta feição do talento de D. Silvina foi a que mais deu no gôto do snr. José Francisco Andraens.) Em fim, amigo visconde, mulher como ella não espero topal-a. Tenho-lhe sympathia cá de dentro; sonho com ella todas as noites; dia em que a não veja, ando como a cobra que perdeu a peçonha; se adrega d'ella ir visitar alguem, e eu não a vejo, vou zangado p'ra casa, e já me tem acontecido não ceiar! As cartas d'ella tenho-as na cabeça, e já comprei um livro muito grande, chamado... chamado elle... assim uma cousa a modo... de... vossê hadesaber? Aquillo que ensina a escrever direitas as palavras!...
—Uma pauta, ha-de ser pauta...
—Qual pauta, nem qual diabo! é um livro, que ensina a escrever com as letras todas... Já me lembra: um breviario.
—Ha-de ser isso, ha-de ser isso...—disse o visconde, que apreciou o ensejo de saber que o breviario ensinava a escrever com as letras todas—mas, a fallar verdade—continuou ingenuamente o brazileiro—não me ageito com o tal livreco, e vou-lhe escrevendo como sei. Aqui trago eu na carteira uma carta, respondendo á d'ella de hontem, a vêr se lh'a entrego esta noite. Quer vossê vêr, amigo visconde? Eu p'ra si não tenho aquellas. Ora escute lá; mas o mais acertado é lêrmos primeiro a que ella me escreveu. Vossê vai ficar pasmado; ora ouça.
José Francisco sentou-se n'um dos bancos de pedra da alamêda da Lapa, e leu correntemente o seguinte:
«Meu caro amigo.
«Soube que hontem me procurou. Quiz o meu infortunio que eu não estivesse em casa. O tio anda a pagar visitas, e ordenou que eu o acompanhasse. Passei uma noite insipida, lembrando-me que podia passal-a no remanso duma dôce paz e contentamento d'alma ao lado do homem cujas tão amantes como paternaes palavras me embalam o somno para os sonhos d'um delicioso futuro...»
Aqui José Francisco sacudiu na mão o papel, e exclamou radioso:
—Olhe isto, amigo visconde!os sonhos d'um delicioso futuro!... Pelos modos, quer dizer que o que ella quer é uma vida socegada para, em vez d'andar em visitas, dormir na sua cama á sua vontade. Não é isto?
—Pois elle que ha-de ser senão isso?—disse o visconde gostoso da modestia consultiva do seu amigo, e ia continuar reflexões a proposito, quando José Francisco, menos jubiloso, continuou, lendo:
«Estará ainda longe o dia suspirado, meu amigo? Não tem já do meu caracter um profundo conhecimento? Não se demore a confirmar o destino que minha alma anceia, porque desgraçadamente a minha vontade não é de todo livre, e bem póde ser que meu pai, antes da resolução de v. s.ª, tome outra, contraria aos nossos intentos. Sua do coração,S.»
—Á troca d'estas linhas do fim—disse o brazileiro um pouco recolhido e melancolico—é que eu hoje tenho andado azoado, e a suspirar cá de dentro. Ora escute lá a resposta:
«Meus amores!!! (Na pontuação guardamos a fidelidade que descuramos na orthographia, cuja liberdade concedemos a José Francisco e pedimos alternativamente para nós). As vossas letras recebidas ao fazer d'esta até ao meio consolaram o meu coração saudoso!!... mas as que vem no cabo da vossa carta penetraram qual duro ferro no meu coração saudoso!! Se vosso pai não levar a bem o nosso casamento, ó céos!!! tanto faz querer como não querer o arranjo ha se de fazer, ainda que eu vá ás do cabo; estai descançada, joven Silvina amada!! Logo que eu tenha a nossa casa da Lixa arranjada (que andam lá os estucadores e os pintores) estamos casados e arruma-se d'aqui o pensamento!!! D'este vosso idolatrado até á morte, J. F. Andraens, vosso futuro esposo.»
—Que tal?—murmurou com certo ar de pudica modestia o erotico compositor de cartas incendiarias.
—Onde diabo aprendeu vossê tanto, ó sôr José?—disse o visconde com sincero espanto.
—Isto que aqui vê fil-o de fio a pavio, sem ir aobreviario, amigo visconde. Ponto é ter cá dentro o amor a puxar pelas memorias.
José Francisco ergueu-se triumphante com miraculosa agilidade; deu alguns passeios floreando a bengala, e rindo a revezes do espasmo do visconde, que, em sua consciencia, suspeitava de que fosse a carta apocripha; mas, por delicadeza, calou as duvidas.
José Francisco tinha desafogado. O arroto já não vinha acompanhado do suspiro. As tres barrigas funccionavam em toda a sua plenitude phisiologica. O jubilo doudo da sua esperança sorria aos arreboes que cintavam o horisonte do oceano; a viração da tarde, brincando na folhagem dos alamos e acacias, rumorejava um soido mellico aos ouvidos d'alma d'aquelle amante feliz.
Ai! se elle a amava!
Este expansivo dialogo fôra anterior quarenta e oito horas áquell'outro que ouvimos entre o brazileiro, e Christovão Pacheco de Valladares.
Quem te ha-de crêr agora, José Francisco Andraens! Que se te dá a ti da barriga, se tu amas tanto a mulher predestinada?! Descança, anjo do amor, no teu céo de duzentos contos, que as filhas dos homens lá irão buscar-te!
Ai! como elle a amava!
Quantos Paulos, e Romeos, e Othellos mettidos n'aquella côdea grossa de José Francisco Andraens! Que requebros de namorado, e que furias de cioso! Aquella é verdadeira paixão que ora se refrigera com orvalhos do céo, ora se calcina nas labaredas do inferno. A paixão de José Francisco era assim. Ha pouco vimos aquella alma a derramar-se em blandicias de Petrarcha; agora arripia o vêl-a a espirrar coriscos da cratera que lá referve dentro.
Mal Christovão Pacheco sahira, galgando atordoado as escadas quatro a quatro, José Francisco arrancou de si a cataplasma d'um impeto que faria lembrar Catão arrancando o proprio redenho. Saltou para o chão, calçouas mouras escarlates que lhe serviam á farta de tapete, lançou sobre as espaduas um capote de camelão de quatro cabeções, enfiou as mangas do mesmo, e sentou-se á escrivaninha, resfolegando vaporadas pelas ventas, que nem javali monteado por lebreus. A criada entrava n'esta occasião com a terceira camada de linhaça, e fez pé atraz, enfiada de puro horror.
—Que queres tu, moça?,—mugiu José Francisco.
—São as papas...—balbuciou a espavorida criada.
—Não quero mais papas. Vai chamar o meu compadre Amaro, e que venha já de marcha para ir com uma carta a Margaride.
O brazileiro escreveu na pojadura da veia. O traslado da carta, com a authenticidade do de todas as outras, não pude havel-o, apesar de suadas canceiras que este paiz tão sovinamente remunera aos indefessos obreiros das suas glorias. O que pude tirar a limpo foi ser a carta dirigida a Pedro de Mello, pai de D. Silvina. José Francisco lembrava ao fidalgo a sua divida de um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta réis que lhe emprestára sobre hypotheca da quinta da Lixa. Dizia mais que não podia continuar a remetter as mezadas para os academicos da universidade. Instava pelo prompto pagamento do seu credito, ou trespasse da quinta hypothecada. Ameaçava-o com o poder judiciario, e terminava com estas quatro linhas, unicas authenticas:
Pr'ámor da sua filha é que é tudo isto. Se ella andasse direita comigo outro gallo lh'avia de cantar. Assim o quiz, assim o tenha. Comigo não se manga, e está arrumada a pendencia.
Ai! se elle a amava!
A carta partiu, e José Francisco, aplacado o maior afôgo da convulsão, chamou a moça, pediu uma tigela de tapioca, e comeu á tripa fôrra.
Cotejemos agora com os do negreiro os ciumes do morgado de Santa Eufemia. Egas de Encerra-bodes esperavao primo no hotel, curioso de saber o fim a que o chamára o brazileiro. Christovão contou lealmente o acontecido, já barafustando furioso, já enternecendo-se a lagrimas. O de Matto-grosso descompunha-se em gargalhadas, e nem os prantos do primo lhe embargavam as guinadas de riso. Começava a desconfiar o de Santa Eufemia, quando Egas, composto o gesto e a postura, fallou assim:
«Um Pacheco Valladares a correr parelhas com um José Francisco na conquista d'uma mulher! Um neto do governador de Cochim a disputar meças de merecimento com um chatim de negros! um moço no mais florido dos annos, gentil de sua pessoa, sacrificado á mazorral caricatura, que ahi está symbolisando uma fortuna tão besta quanto assignalada das vergoadas do látego com que o infame de Deus e dos homens fazia espirrar sangue das costas dos escravos!... Primo Christovão, torne sobre si, peje-se d'essas lagrimas que ahi derramou, e que eu escarneci para não tomar ignominioso quinhão da sua dôr aviltante para evos e para vindouros! Que mulher é essa, a neta do sargento-mór d'Amarante, que anda ahi a chafurdar nos chiqueiros da sua cubiça um appellido que usurpou?Mello!Quem lhe deu a ellaMello?! Seu visavô era Antonio Gonçalves; seu avô era Francisco Antunes Gonçalves; quem enxertou no pai esse pomposo appellido? Silvina Antunes é como ella se chama, essa farrapona que mendiga para uma carruagem e seis vestidos o preço dos ultimos doze pretos que José Andraens mandou acorrentados ao mercado. Primo Valladares, neto de Heitor Valladares, bisneto de D. Mafalda Pacheco e Alvim, açafata illustre da côrte do snr. D. Pedro 2.º, descendente dos Alvins de Braga, onde casou o condestavel D. Nuno Alvares Pereira! primo, lembre-se de quem é, e esmague debaixo das solas das suas botas o coração, se sente que uma gotta de seu nobre sangue se ha degenerado no vilipendioso affectoque prodigalisou á esposa promettida de José Francisco!»
Este aranzel fez bem ao coração do morgado. Entrou em si, coçou-se com ambas as mãos algumas vezes, estirou os braços convulsivos com os punhos cerrados, e exclamou de golpe:
—Que a leve o diabo!
Egas estreitou o primo ao coração com vehemencia, levantou-o tres vezes em peso, e bradou por fim:
—Reconheço o meu sangue!
Sem embargo d'isto, o morgado de Santa Eufemia precisava de ar, abriu a janella, sorveu tres grandes haustos, e repetiu a phrase que provára ao de Matto-grosso a identidade da sua estirpe:
—Que a leve o diabo!
N'este comenos, vinha atravessando o largo da Batalha Leonardo Pires.
—Lá vem aquelle!—exclamou Egas—Vou chamal-o para lhe dar a noticia que ha-de ser muito agradavel ao seu amigo Jorge. Olé! snr. Albuquerque!Psio.
Pires fez uma continencia militar com o chicote.
—Suba cá—tornou o fidalgo de Entre-ambos-os-rios—temos que contar-lhe.
—Viram aqui passar a Francisca da Cunha?—perguntou Pires.
—Não.
—Ando-lhe na pista, como galgo que perdeu a lebre, que eu desconfio bem que seja gata, que a minha paixão me dá por lebre.
—É muito possivel...—redarguiu a rir o de Matto-grosso—Suba, e verá que não está longe da verdade.
O da Maya circumvagou com a luneta em torno da praça duas vezes, e subiu.
—Então que temos?! Dou-lhe parte que o meuamigo Jorge Coelho não tarda ahi, e que o duello, se os cavalheiros insistirem, ha-de consummar-se.
—Quem falla aqui em duello?—acudiu Egas—Escreva ao seu amigo, e diga-lhe que se deixe estar com a mãi e com o padre lá na sua aldêa, se não quizer vêr Silvina, o anjo de candura, de braço dado com as fronhas carnosas de José Francisco Andraens...
—Quem é José Francisco Andraens?—interrompeu Leonardo.
Egas de Encerra-bodes compelliu o primo a contar a historia, que, d'esta feita, não sahiu com intermittentes de lagrimas. Era de vêr com que graça soez o amante ultrajado ia já apimentando os sarcasmos detraidores de Silvina, e os projectos de cynica desforra que elle offerecia ao parecer dos seus amigos, projectos que, realisados, collocariam José Francisco n'uma situação tão irrisoria como bemquista do siso commum, o qual é uma cousa muito ao envez do que por ahi nos grandes alcouces da opinião publica se denomina senso-commum.
O programma do morgado de Santa Eufemia foi applaudido com razões pouco para se estamparem. Leonardo Pires disse que não avisava o seu amigo para não perder occasião de o ter no Porto alguns dias, e cural-o mais facilmente com a vista do espectaculo hediondo. N'isto, como estivessem os tres á janella, viram assomar no topo da rua de Santo Antonio Silvina, e Francisca da Cunha, seguidas de um criado de farda.
—Ellas ahi vem!—disse Pires, e sahiu a encontrar-se com ellas. O morgado de Santa Eufemia, a rasoavel distancia, quando as damas vinham com os olhos postos n'elle, fez recuar o primo, e fechou-lhes a janella na cara. Silvina ria tanto como a prima, quando Pires, com o chicotinho em arco, e quasi aos pulinhos como funambulo que vai fazer a sorte, se lhe atravessou no caminho, dizendo:
—Criado de vv. exc.as
—O snr. Pires!—disse Francisca toda graça e affabilidade ironica—Faziamol-o no seuchateau... Que é feito de si?
—Agoniso, minha senhora, agoniso.
—Ai! que funebre vem!—disse Silvina—póde-se agonisar com esse rosto tão de vida, e rubicundo?
—Póde-se padecer muito, minha senhora, com o rosto rubicundo—replicou Pires—Eu sei de creaturas, metaphoricamente chamadas humanas que soffrem muito, sem impedimento das massas de toucinho que as envolvem. Darei a v. exc.ª um exemplo. Conheço uma metaphora chamada José Francisco Andraens... (Silvina córou e franziu a testa) monstro cevado em sangue humano, que elle distilla em banha e asneiras, o qual monstro,—ninguem o ha-de crêr, minha senhora—neutralisa o combustivel da paixão com o refrigerante das cataplasmas de linhaça. Ahi tem v. exc.ª um exemplo que justifica de sobra a minha agonia.
—Vamos, prima, que são horas—disse Francisca da Cunha, condoida do enleio desacostumado de Silvina.
—Pois sim, vamos—disse esta, corrida de modo, que incutiria compaixão em homem que não fosse Pires.
—Dão-me as suas ordens, minhas senhoras?—disse elle, ladeando—Ah!—continuou Pires de sobresalto—esquecia-me dizer á snr.ª D. Silvina que o nosso Jorge vem ahi...
—Ah! vem?—disse machinalmente Silvina.
—Vem, sim, minha senhora, a requerimento meu, por que lhe conheço grande curiosidade de naturalista, e desejo mostrar-lhe José Francisco Andraens, a hyperbole de enxundia, monstro, de quem eu tive a honra de fallar a vv. exc.as, e que até ouso recommendar-lhes, para que vv. exc.asadmirem não só o bruto, mas o effeito prodigioso da linhaça.
O enleio de Silvina redundou em colera.
—O senhor, disse ella, está-me insultando por que eu e minha prima, confiadas na cortezania da sociedade em que vivemos, sahimos sem um homem, cujo desforço nos desafronte com honra.
—Dizes bem, prima—acudiu Francisca, tambem colerica por contagio—Deixemos o villão.
Pires, quando lhe voltaram as costas, deu dous passos em seguimento d'ellas, e tomou-lhes o passo.
—Continua a petulancia?—disse Silvina irada—olhe que eu trago um criado!
—Com libré emprestada, minhas senhoras?—disse o imprudente fidalgo da Maya, que trazia os ouvidos cheios das diffamações geanologicas d'Egas de Encerra-bodes.—Snr.ª D. Silvina, eu fui quem lhe apresentou a nobre alma de Jorge Coelho, que v. exc.ª quiz estragar. Empeçonhou-lh'a, mas não ha-de enlameal-a. Quem vinga Jorge sou eu, Leonardo Pires de Albuquerque. Saiba v. exc.ª que José Francisco Andraens é meu. Aquelle problema de carne hei-de desatal-o eu com o escarneo, e v. exc.ª ha-de ficar submersa nas avalanchas d'aquella montanha de cebo. Agora nós, snr.ª D. Francisca da Cunha. V. exc.ª, que só sabe lêr as cartas do linheiro das Hortas, e que tem tido o indiscreto recreio de me andar ridicularisandono boudoirdas suas dignas amigas, ou se encastella com o linheiro das Hortas lá no seu burgo de Traz-os-Montes, ou tem de esconder-se nas rimas de estopa em que seu futuro esposo lê de pernas ao ar as suas epistolas. Sem mais.
Pires, vibrando no ar estalinhos com o chicote, entalou a luneta no olho esquerdo, e foi expandir o jubilo em folgada palestra com os morgados, que o espreitavam.
Silvina, quando entrou n'uma casa nobre de Traz da Sé, soffreu um insulto nervoso que desabafou em gritos. Queria Francisca da Cunha consolal-a; mas estava esperando de instante a instante ser assaltada tambemdo mesmo insulto. As senhoras da casa á competencia desfaziam-se em desvelos; mas Silvina respondia apenas: «hei-de vingar-me!»
Desiderio Erasmo, como sabem, escreveu a «Apologia da tontice.» Eu não me afouto a encarecer a de Leonardo Pires; porém, assim como os regedores das republicas nobilitam com mercês e titulos não só a estupidez—isso é o menos—mas a infamia soberba d'uma opulencia cevada e medrada em cruezas e deshumanidades, que muito se aventurarmos um voto de louvor a alguns selvagens da civilisação, doudos providenciaes que atiram a vaza do insulto a caras já de si tão sujas, que não ha medo de enferretal-as?
Alguns homens, como Pires, seriam muito proveitosos n'uma sociedade como esta. Houve-os sempre com differentes nomes e appellidos. Na antiguidade, chamaram-se Aristophanes, Diogenes, Marcial e Plauto; na meia idade eram os prophetas, os padres da igreja, e, com menos caução de suas prerogativas censorias, os histriões palacianos. Na correnteza d'esta geração por excellencia policiada, mas de todas a mais gafa do que ahi se chama «ridiculo» e do que mais é para chamar-se lastima, ha muito quem tire a campo de zombaria os «ridiculos» do mundo; mas ninguem se vê copiado n'elles, e os copistas de modo o fazem que fique salvo o orgulho de cada azêmola que fita a orelha ao ornejar da copia, mas não responde. A isto é o que ahi dizem «guardar as conveniencias»: á mesma cousa, chamavam d'antes «guardar as costas.»
Seja o que fôr, a satyra assim não vinga fructo de servir á geração que está nem á porvindoura.
Satyra prestadia, se alguma houve, é a de Leonardo Pires. Eis ahi um doudo, que tolos e sisudos lançarão de suas casas com horror; e todavia qual de nós não sente um Pires, na consciencia, a travar-se de razões e murros com a nossa soberba? Seis Leonardosactivos no Porto purificavam o ar pestilencial que para alli veiu das terras de Santa Cruz. Na idade media, os tabardilhos, as pestes fulminantes; no seculo 16.º o verme roedor que desmedula os ossos através de vinte gerações que hão-de lembrar-se sempre de Colombo pelo mimo; no seculo dezenove, mais que nunca, a peste do Brazil, de que adoecem espiritos empinados em seu orgulho como o de Silvina e Francisca da Cunha.
D'um lado Leonardo Pires; de outro lado José Francisco Andraens, e o linheiro das Hortas. Quem levará a melhor? É tola a pergunta. Ha-de ser o linheiro das Hortas, e José Francisco.
O apostolico e dicasissimo padre João Coelho, desde Vallongo até Amarante, excedeu-se a si proprio prégando ao sobrinho o melhor e a maior parte do que disseram philosophos, santos padres, moralistas e casuistas ácerca do amor mundanal e da mulher. Jorge não replicava, por que o não escutava. O egresso, tomando o silencio como victoria, tirava dos corollarios theses novas, que ia defendendo com tamanha profusão de tiradas latinas que, a ser verdade o que elle disse abordoado a Seneca, Santo Agostinho, Euzebio cezariense, e Bredembachio, o amor mundanal e a mulher são cousas muito peores do que pensa o vulgar da gente. Padre João não era erudito que sómente fizesse praça dos exemplos que authorisa a historia. O pulso rijo da engenhosamemoria d'elle entrou nas idades fabulosas e trouxe pelas orelhas certos heroes que os poemas orphicos e os homeridas nos encamparam como sujeitos apresentaveis na boa sociedade. Marte, segundo o padre, era um adultero; Apollo um valdevinos que se andava lamuriando na piugada de Daphne; Hercules um maricas que fiava de cocoras na roca de Omphale; as heroinas da odissea, da iliada, e das tragedias de Eschylo um femeaço impudico e deslavado. Do Olympo desceu padre João aos antigos imperios, e poz pelas ruas da amargura Xerxes, Ciro, Dario, Holophernes, Absalão, Sichem, Salomão, Herodes, Marco Antonio, e muitos outros que pelos modos não deram boa conta de si, ou as mulheres não deram boa conta d'elles.
O leitor de certo se convertia ouvindo o egresso; mas Jorge Coelho ia tão dentro em si, tão lacerado pelo abutre da paixão sem esperança, que as palavras do douto velho lhe eram como esponja de fel e vinagre espremida nas chagas. Pernoitaram na Amarante, onde chegaram ao fim da tarde do segundo dia de jornada. Em quanto o egresso entrou no velho templo a fazer oração a S. Gonçalo e visitar os cubiculos onde viveram santos varões da sua creação, Jorge foi sentar-se á beira do Tamega, e ahi rompeu em pranto desfeito, com os olhos postos nas ondulações das serranias para além das quaes lhe ficava o Porto. O padre sahiu indignado do mosteiro praguejando, menos evangelicamente que de seu costume, contra o governo que permittia á municipalidade amarantina que as vivandeiras do destacamento aquartellado nos dormitorios do mosteiro dançassem ebrias e meio nuas a canna verde e a sirandinha no refeitorio e na claustra. É de crer que as mulheres recebessem com galhofa o egresso venerando, cujas botas de borla e chapéo tricorne deviam de parecer cousa de entrudo ás bacchantes que a onda da civilisação revessouno remanso dos monges, em quanto outra engolfou os monges no porto suspirado da sepultura.
Ahi me vou eu sahindo com o impertinente vêzo de lastimar os frades! D'esta vez hei-de represar a piedade com que n'outros livros tenho desdourado, no conceito de muita gente, os meus altos espiritos de operario que trabalha á candeia do seculo XIX. Que me importa a mim que nos cubiculos do mosteiro de S. Gonçalo se alojem as vivandeiras do destacamento, e que na claustra sobre as cinzas dos frades vão ellas, repletas de vinho e despejo, dançar a sirandinha e a canna verde? Se eu disser que no tempo dos frades não se viam semelhantes desacatos, hei grande medo que me ponderem que outros desacatos mais attentatorios da religião de Jesus ahi se viram no tempo em que os frades comiam no refeitorio, e medravam nas cellas, onde agora coze o seu vinho o mulherio da tropa. Se o padre João Coelho quizesse, esse é que podia responder a preceito; mas, para bem do leitor, ninguem n'aquella hora se lhe atravessou com argumentos, estando elle na estalagem da Amarante, sentado no escabello, a dizer cousas de sorte magoadas, a respeito da profanação do convento, que todo o auditorio chorava, sendo tres das carpideiras as mais lubricas bailarinas da claustra.
Entretanto, Jorge escrevia a Leonardo Pires, dizendo-lhe que resolvera não escrever a Silvina, em quanto lhe durasse a impressão amarga que recebera das revelações do tio, impressão immorredoura, dizia elle. Recommendava-lhe que se informasse da verdade d'aquellas revelações, e sem piedade lhe transmitisse o excesso de peçonha que havia de matal-o. Ajuntava elle que já não amava Silvina; mas que não podia despresal-a; e que entre o amor e o despreso estava o odio, serpente insaciavel que se lhe enroscara no coração.
Esta serpente de que se queixa Jorge Coelho é uma alimaria a que os poetas de animo socegado chamamcupido, deus de Gnido, de Paphos, e Amor em estilo chão. Permitte a rhetorica aos amadores enraivados denominar serpente a cousa que d'um dia para outro se transforma em rola gemedora. Não é raro encontrar sujeito que tem aninhado no seio um viveiro d'estas serpentes, as quaes, depois de cuspirem a peçonha, n'uma carta arrufada, em meia duzia de adjectivos azedos como malagueta, metamorphoseam-se em pombal de candidissimas pombinhas que se catam e beijam umas ás outras com langorosos requebros. Da metamorphose o que fica é a peçonha instillada e derramada na circulação sanguinea. Na correnteza do tempo, vem esta peçonha a consolidar-se no coração, e d'ahi procedem as postemas, que degeneram em aleijões, commummente denominados scepticismo, cynismo, devassidão, libertinagem, impudencia, e outras molestias pegadiças. As rolas e as pombas, desde que o coração inficionado as afugenta, passam para o dominio do estilo, e concorrem para que no banquete d'um amor revelho, gotoso e glutão hajam sempre aves.
Vem a pêllo fallar da gorda gallinha que padre João trinchou na estalagem da Amarante, em quanto Jorge Coelho, recolhido ao seu quarto, se atirava vestido sobre o leito abafando contra o travesseiro os soluços da afflicção, que o egresso, tão de boa fé como crente na efficacia da historia, julgára minorada com a quarta dissertação que fizera ácerca do amor, segundo a carne, e nomeadamente do amor em Roma na época dos Cezares.
Citou versos de Marcial e Juvenal, como prova de que o amor era mau em toda a parte; e, sem elle querer, tambem provou que nas livrarias dos mosteiros entravam livros de moralidade muito equivoca. A ultima these de padre João Coelho assentava n'esta proposição de S. Paulo: «Quem não ama está na morte;» mas tão engenhosamente o erudito frade torceu o bico ao prego que as conclusões eram todas contra o baixo amorterreal, e pregoeiras do amor divino, que elle orador por sua parte cumpria á risca, sem embargo de se pascer em delicias na choruda gallinha, em quanto o sobrinho abafava de dôr no quarto. Esta é a grande vantagem dos que andam empinados em amores do céo, que nunca deixam de comer ás suas horas, e de digerirem em regalados somnos a materia bruta que lhes não pesa na consciencia. Não ha pois duvidar de Montesquieu (parece que foi) que disse—que a religião christã, depois de nos felicitar n'este mundo, nos segurava a felicidade do outro.
Padre João dormiu nos coxins macios da sua limpa consciencia; Jorge, apenas o tio se fechou com o breviario, e adormeceu ao quarto psalmo penitenciario (um egresso repleto de gallinha cozida a resar um psalmo penitenciario! parece um paradoxo! Tomára eu saber se David compoz aquellas lastimas antes que as caricias de Bethsabé o enfastiassem!)... Estas incisões intermittentes hão-de perdoar-m'as os leitores que souberem o que é escrever um romance n'um carcere, onde já não ha carrasco, mas existe o espirito do carrasco identificado a uma cousa que nós cá os assassinos e os salteadores denominamos asauthoridades, que medram no cêvo do erario, uns chamando-se procuradores do rei, outros carcereiros, outros chaveiros, outros guardas, a mesma familia representando o rei de theor e modo que fazem odiosa a palavra do symbolo que lhes legitíma a crueza, a barbaridade que lhes tem ladrilhado o coração, e muitas vezes a infamia que se abona com a justiça, essa divina irmã dos anjos, que os cafres trazem tão nusinha e pustolosa por sobre os esterquilinios d'elles.
Agora é que me eu perdi de todo... Perdido devéras andava aquelle pobre Jorge Coelho, pelas ruas da Amarante em quanto o padre dormia o somno do justo. Chegou á celebrada ponte, curvou-se no parapeito, e teve tentação de precipitar-se. Foi instantaneo o accessode loucura. Jorge viu a imagem de sua mãi no scintillante reverbero da lua que se espelhava no Tamega, Levantou os olhos para o céo, e disse:
«Ó Providencia Divina! leva esta dôr ao coração de minha mãi, para que ella, a santa, peça por mim!»
Eram onze horas d'aquella formosa noite de Setembro. Soava apertada nos rochedos a torrente, que scintillava em escamas de prata. De longe vinha a toada soidosa d'uma flauta que tocava a chacara popular dos «Dous renegados.» Jorge amava desde os doze annos os versos maviosos e truculentos d'aquella canção de amor que chora como anjo e obsecra como demonio. Proferiu a letra cadenciando-a com a flauta, e rematou chorando, já não em ancias, mas suavissimamente, como se o espirito de sua mãi lhe alcançasse do céo a mercê das lagrimas que desopprimem.
Um vulto entrou na extremidade direita da ponte: era uma das mulheres que padre João vira com santa indignação, a tripudiarem sobre as ossadas dos monges na claustra. Veiu direita a elle, e pediu-lhe uma esmola. Jorge deu-lhe tudo quanto tinha. A mulher viu bastantes moedas de prata, e, estupefacta ou douda de jubilo, nem se retirava nem agradecia.
—Vá-se agora, embora, mulher—disse Jorge, sem enfado, mas desejoso da solidão que tão suave lhe estava sendo.
—O senhor dá-me este dinheiro todo?!—disse a mulher, que os homens chamam perdida, e que não o estava, nem o podia estar aos olhos do seu Creador.
—Dou, sim.
—Bem haja, meu senhor!—tornou ella, com lagrimas na voz—já tenho com que ir para a minha familia. Eu sou uma desgraçada, que vim do Algarve, ha tres annos, fugida a meus paes, com um rapaz meu parente, para casarmos onde podesse ser. Elle requereu ao commandante; mas não teve licença para casar commigo;eu depois fui lançar-me aos pés da senhora do commandante, e consegui licença. Quando estavamos muito contentes, mandei buscar a minha certidão e mais papeis á terra; mas disseram-me de lá que nós eramos primos, e não podiamos casar sem dispensa. Não tinhamos dinheiro para ella, e fomos vivendo até vêr se Deus dava remedio. N'este entrementes, o meu primo namorou-se de outra, e deixou-me a morrer á fome. Agora com este dinheirinho vou já amanhã para o Porto, e de lá vou n'um hiate para Tavira, e vou botar-me de joelhos aos pés de minha mãi.
—Pois vá, não mude de resolução, e faça por ser boa filha—disse Jorge com maviosa caridade.
—O senhor será um anjo do céo?—disse a feliz creatura lavada em lagrimas.
—Não sou anjo do céo, não... Vá com Deus.
A mulher retrocedeu, e foi ajoelhar diante de um antiquissimo retabulo de granito em que na fachada do templo de S. Gonçalo sobresahem os grosseiros relevos de uma Senhora com Jesus morto no regaço. Jorge viu, ao clarão sereno da lampada que pende sobre a imagem, a mulher ajoelhada. Banhou-se-lhe o espirito de um contentamento, que não poderia existir na terra, se acima d'este tremedal, não velasse um Deus as acções do homem que póde erguer-se do seu rasto até hombrear com os anjos.
Entre Jorge e aquella peccadora que resava, avultou ainda a imagem da mulher pura, a mãi, a santa, onde chegára talvez a revelação das penas do filho. Silvina, n'esse momento, nada era na vida de Jorge. Nem a poesia da paixão pôde disputar o espirito do mancebo á poesia da caridade.
Entretanto, o varão justo, o padre João Coelho, acordava com a digestão consummada, voltou-se para o outro lado, e reatou a nota quebrada de um beatifico ronco.
As prelecções de historia antiga que padre João fizera, desde o Porto até casa, não tocaram o juizo nem o coração de Jorge; mas as singelas palavras da indulgente mãi, e as caricias dos irmãos, acalmaram algum tanto a febril paixão do academico. D. Antonia, de proposito, passou com o filho no adro da igreja rural, quando, ao fim da tarde, se celebrava dentro um baptisado. Entraram na modesta igrejinha, e foram ajoelhar no arco. A viuva, depois que orou, foi sentar-se n'um banco tosco da capella-mór, e chamou para junto de si o filho.
—Senta-te aqui, Jorge;—disse ella—quero fallar com o meu filho ao pé da sepultura de seu pai. Não a esqueceste ainda, pois não?
Jorge desceu a vista sobre uma das lages que formavam o estreito pavimento da capella-mór. D. Antonia continuou:
—Tenho fé em que o meu coração n'este lugar, onde ha cinco annos venho chorar todos os dias, te saberá dizer o que teu bom pai te diria, filho. Se Deus me não fizer o milagre de ajuntar ao teu espirito mais dez annos, serão perdidas as minhas consolações, e tu as tomarás como conselhos importunos...
—Não, minha mãi...—atalhou Jorge, commovido pelo terror santo do local, e pela imagem de seu pai, em cuja fronte morta elle dera um beijo cinco annos antes—os seus conselhos...
—São conselhos de mulher, conselhos de mãi, que quer desterrar da tua alma lembranças d'outra mulher que me rouba o coração de meu filho. Deus levou-me teu pai, Jorge; e Deus não me podia enganar quando d'aquella tribuna, estando eu ajoelhada sobre esta lousa, me dizia que a compensação da boa alma que chamou para si, eras tu. Lembras-te d'uns beijos fervorosos que eu te dava, quando erguias as mãos ao pé de mim n'este mesmo sitio? Não te deixava eu a face molhada de minhas lagrimas, Jorge? Lembras-te?
—Lembro-me, minha mãi... E porque está chorando agora?—disse compadecido o moço.
—Parece-me que é saudade das dôres de então, filho... As de hoje são inconsolaveis... Nunca tive orgulho peccaminoso, Deus sabe que não; mas orgulho do meu dominio no teu animo, Jorge, tinha-o muito grande; e agora vejo que pequeno valor tem o dominio de mãi, logo que um acaso infeliz depara aos dezoito annos de uma criança os affectos verdadeiros ou simulados da mulher que nunca se viu, nem conheceu nos brinquedos da infancia. Isto é triste! A natureza poderá justificar este vulgar infortunio; mas a piedade e o dever choram-se, e não ha razão que convença uma mãia conformar-se com a desvalia em que tu tiveste os meus rogos durante tres mezes.
—Eu não desvaliei os seus mandados, minha mãi—disse Jorge em tom de carinhosa submissão—Havia uma corrente invencivel que me prendia á desgraça...
—E partiu-se essa corrente, filho?... O teu silencio diz-me que não... Olha, Jorge... se essa mulher fosse digna de ti, eu dizia-te que me trouxesses para casa mais uma filha; se ella fosse virtuosa e pobre, seria um thesouro, na nossa casa onde sobra o necessario; se fosse rica e creada nas regalias da sociedade, aconselhava-te que a não sacrificasses á nossa solidão e pobreza comparativa; mas, filho, essa menina, que te enganou o coração, não tem virtudes que suppram a riqueza, nem a riqueza que possa compensar o coração estragado e sem escrupulos do homem, que não és tu, mercê do Senhor! Antes de teu tio ir ao Porto, já eu sabia, meu filho, quem era Silvina. Nada disse ao padre do que sabia, quando lhe pedi que fosse em meu nome pedir-te que viesses para nós, que te choravamos. Tu sabes que eu tive uma companheira no convento de Braga, menina de muitas virtudes, que mereceu a Deus casar com um negociante do Porto. Foi a ella que eu escrevi pedindo-lhe informações da tua vida, e não se demoraram. O marido d'esta senhora procurou-te varias vezes, e nunca pôde encontrar-te. Andavas perdido na tua cegueira, meu pobre filho! Abre os olhos da tua alma, e attenta nas lagrimas da pobre mãi que não póde contar com o amparo de tres meninas, nem ellas contam com outro amparo senão o teu. Não achas tanta gente boa a pedir-te amor, filho? Tudo nos queres tirar a nós para o atirar aos pés de uma mulher que d'aqui a um anno será na tua memoria apenas um remorso, senão fôr antes uma vergonha?
—Uma vergonha!... atalhou Jorge, mais ferido na vaidade que surprehendido da qualificação.
—Pois qual é o nome que dá o mundo ás paixões que humilham os que as soffrem, e mortificam uma familia que não espera d'ellas senão amarguras, desgraças, e abysmos?! Jorge, meu querido filho, faz um esforço de vontade! Vence-te, que podes. Ajuda a efficacia das minhas orações. Em nome d'estas cinzas queridas, peço-te em nome de teu pai, que tantas vezes me disse, quando te via triste, aos quatorze annos; «não tires da tua vista este menino, que ha-de perder-se, se entrar no mundo, d'onde me eu salvei com o teu amor»; é teu pai que te pede pela minha bocca, Jorge, esquece essa mulher; não lhe escrevas, os teus amigos que te não fallem d'ella; absorve-te no meu amor; folga com a innocencia de tuas irmãs: volta a Coimbra quando o desejo do estudo renascer no teu animo socegado; entrega-te de novo aos teus prazeres da caça; restaura a tua saude, que trazes tão quebrantada; eu pedirei aos amigos da nossa casa que a frequentem mais a miudo; teu tio ha-de saber conversar com o teu espirito instruido; compra os livros que quizeres; satisfaz todos os caprichos que te não arruinem a saude nem a alma; tens a duas leguas d'aqui uma villa onde ha sociedade, e familias que te estimam. Lucta, filho, deixa triumphar tua mãi do prestigio d'essa mulher, que nunca te deu uma lagrima, nem sabe o travor das que tu me tens feito chorar...
—Basta, minha mãi—murmurou Jorge, levando aos labios a mão tremula da magoada senhora—Luctarei, e... morrerei, se não vencer.
—Vences, filho, vences! exclamou D. Antonia com a vehemencia da sua fé e da sua razão.—Vences, porque Deus não dá ás más paixões o poder de matarem uma creatura, que póde desafogal-as nos braços de sua mãi.—E erguendo as mãos para o altar, disse com a voz convulsiva—Graças, meu Redemptor!
Anoitecera. Padre João, que era o vigario da freguezia,andava discretamente passeando no adro, e entretendo os sobrinhos para não interromperem a pratica, cujo assumpto elle adivinhara. D. Antonia ergueu-se, tomou a mão do filho, e sahiu da igreja. No adro, estavam brincando as tres irmãs de Jorge, a mais velha das quaes tinha nove annos, e o irmão mais novo que nascera depois da morte de seu pai. Saltaram os mais novos aos abraços á mãi, e as duas meninas ao pescoço de Jorge, com grande alarido. Sentou-se elle nos degraus do cruzeiro do adro, e tomou para sobre os joelhos as duas meninas, que á fina força queriam ennastrar-lhe nos cabellos as suas rozas brancas. D. Antonia contemplava o grupo com o semblante banhado de alegria. O egresso, debruçado sobre a parede baixa que contornava o adro, fallava com o mordomo da festa de S. Sebastião ácerca do numero de padres e do prégador que devia chamar. Os meninos mais novos já tinham largado a mãi para apedrejarem as andorinhas que chilreavam em redor do campanario, cuja sineta unica era movida debaixo por um cordel, que os pequenos a muito custo respeitavam por alli estar o tio padre.
Resolvido o negocio da festividade do orago, padre João tirou pela corda, e tocou as nove badaladas das Ave-Marias. Todos ergueram as mãos, e resaram em voz alta. «Ora, Deus nos dê boas noites.»—Disse o padre. Rodearam-no os meninos a beijar-lhe a mão, e Jorge tambem depois que sua mãi lhe deu a fronte.
Terminado este lance, cuja poesia santa não ha pedil-a a corações que deram com ella no pégo da lama brilhante onde dizem que a poesia está, Jorge Coelho fitou os olhos no occidente, e reconheceu o anoitecer dos seus dias passados; viu o boleado pardacento das serranias longiquas que lhe estavam redizendo os pensamentos da sua infancia; ouvia ainda as vibrações do sino que repicava no baptisado de seus irmãosinhos, e dobrára na morte de seu pai, reconcentrou-se; sentiuuma secreta amargura que não era angustia de saudade, nem pavor de previsões afflictivas... Que era, pois, esse vulto lá muito ao longe, ao pé d'aquella myriada de estrellas que repontava na cumieira da montanha? Era a imagem de Silvina ainda perto do céo, porque de lá vinha cahindo, bella como os anjos que lá nasceram; e, rebeldes á piedade, á virtude, á suprema graça, aqui se despenham, e despenhados vencem ainda disputando ao Senhor as almas immaculadas. Era Silvina, toda de festa e risos, reptando-o á lucta com um sorriso affrontoso, e esgares de escarneo ao protesto santo jurado sobre a sepultura d'um pai, e assellado com lagrimas de mulher sem macula. Era a visão maldita, a fada inexoravel dos que vem a esta hecatomba, predestinadas victimas, que o mundo sacrifica e cospe.
Era Silvina, sempre Silvina, a dizer-lhe:
«Que mulher viste mais linda que eu!? Quem te deu philtros de mais saborosa peçonha!? Vê se te sorriem uns labios com mais dôces favos de phrases que assignalaram a mais bella hora da tua vida!»
Meu pobre Jorge Coelho! Tua mãi não te salva d'esse captiveiro. Teu pai, esse resgatava-te, se te désse um lugar no seu leito!...É intransitivo o calix!
A primeira carta de Leonardo Pires ao condiscipulo dizia que Silvina ia todos os dias á Foz de carroção, e almoçava bifes e fiambre no hotel inglez. Ajuntava a isto o picaresco informador que a menina usava de anquinhas no vestido de banho, e fazia de nereida saracoteando-se na agua, requebrando-se em risos e ditos galanteadores aos tritões de baêta azul que a rodeavam, e sahindo dos braços de Neptuno mui peneirada aos saltinhos pela praia, que eram umas delicias vêl-a. Dizia mais, que Francisca da Cunha, ao sahir do banho, era uma cousa desazada como perua que saltasse de um tanque a escorrer agua. Este era sempre o estilo do fidalgo da Maya. Rematava dizendo que o morgado de Santa Eufemia fazia todos os dias a Silvina o sacrificio de selavar no oceano, dando grandes urros, e devorando bois assados no hotel da Boa-vista.
Jorge Coelho tragou este veneno, e odiou o amigo que sem piedade lh'o vasava no coração. O innocente esperava que Leonardo lhe enviasse, senão uma carta, ao menos palavras consolativas de Silvina, incentivos apaixonados á esperança, lagrimas de saudade e protestos de firmeza eterna.
Na segunda carta dizia Leonardo Pires que tendo elle azo de encontrar-se com Silvina na calçada dos Clerigos, na loja do snr. Antonio das Alminhas, lhe fallara de Jorge, contando-lhe o motivo da sua repentina partida para a provincia, com o que a boa da menina se rira grandemente, dizendo que seria muito de receiar que o tio padre trouxesse uma palmatoria debaixo da sotaina. A isto respondera Leonardo—e não duvidamos acredital-o—que Jorge devéras merecia meia duzia de palmatoadas, quando sahiu do baile da assemblea, apaixonado por um anjo que fizera presente das suas azas á gravata do morgado de Santa Eufemia. E como quer que Silvina redarguisse com voltar-lhe as costas, Leonardo fôra fallar a Francisca da Cunha que estava á porta do snr. Antonio das Alminhas, conversando amores com um linheiro das Hortas, o qual linheiro lhe estava dizendo que o dia estava muito bonito.
Jorge Coelho respondia a estas cartas sem fallar de Silvina, e dizendo pouco de si. Divagava por assumptos tristes, dissabores da vida que em seu começo tropeça na desgraça; rebates de saudade d'um tempo que mais não voltaria; os encantos perdidos do céo, das arvores e das montanhas que elle amara tanto; a magia do viver em familia despoetisada; o coração desaffeito das caricias maternaes e já insensivel ao sabor d'ellas; longos dias, sem um sorriso, encadeados a noites desveladas sobre livros em que elle, como Hamlet, não via senãopalavras,palavras,palavras.
Na terceira carta dizia Jorge ao seu amigo que talvez não fosse a Coimbra, porque a saude lhe minguava com a vontade, e a perspectiva da morte era a visão mais risonha que o visitava ao cahir da folhagem dos seus bosques, onde elle passava os dias com um anjo de nove annos, a sua irmã Angela.
D. Antonia não entendia o filho. Via-o triste; mas triste o vira sempre desde criança. Espreitava-o de noite no seu quarto, e achava-o sempre com os cotovêlos na mesa de estudo, o rosto entre as mãos, e um livro aberto. Se o interrogava ácerca da sua saude, Jorge respondia sempre que não soffria senão o mal-estar da sua doentia imaginação. A mãi, fiada em suas orações, esperava o melhor, e agradecia já a Deus a cura completa de seu filho.
Padre João, porém, via mais de perto o fio ás cousas.
—O rapaz come muito pouco!...—dizia o sagacissimo egresso á cunhada—Não nos fiemos n'aquelle exterior pacifico, mana. Alli ha amargura secreta enfronhada n'uns ares de serenidade, que não é d'aquelles annos. Jorge está magro, macilento, e não dorme. Debaixo da janella d'elle encontro a miudo muito papel rasgado. Já pude concertar uns pedacinhos, e lá encontrei o nome da fada má, que nos ha-de perder Jorge.
—Perder!... não diga tal, mano João!—exclamou a viuva, estorcendo os dedos, e já com as lagrimas, a fio.
—Perder, sim!... Mana Antonia, eu já tive vinte annos, e entrei no mosteiro aos trinta e dous... Vou aconselhal-a. Quer resgatar o seu filho das ciladas da sereia?... Olhe que só Ulysses venceu uma vez sereias. Que me conste; desde Ulysses até nós, as vencedoras são ellas sempre, quando as victimas as não podem examinar de perto, e vêr que ellas escondem naagua a metade monstruosa do corpo. (A erudição mythologica do padre nem D. Antonia poupava!)
—Então que conselho me dá, mano?—atalhou a senhora.
—Quando Jorge der signaes de doença grave, quando uma ponta de febre lhe accender as faces, mande-o para o Porto.
—Para o Porto?! Que desproposito é esse!?
—Deixe-o ir examinar de perto o monstro. Deixe-o cahir na conta da sua indigna paixão. Deixe-o ir ouvir o descredito da tal mulher. Ha mulheres como a lança de Pélias: curam a ferida que fazem. Eu já me arrependi de obedecer aos rogos da mana. Jorge devia deixar o Porto espontaneamente. Logo que eu sube que mulher era a tal Silvina, devia abandonal-o a elle á miseria da sua illusão. A esta hora estava elle talvez desenganado. Sabe porque? Aqui tenho uma carta do negociante Ferreira, casado com a sua amiga do convento. Diz-me que Silvina arranjara a final um brazileiro millionario, tão monstruoso em corpo como ella é monstruosa na alma. Se Jorge estivesse a esta hora no Porto, cercado de homens que fazem zombaria das affeições serias e das ridiculas, curava-se. Aqui, se lhe eu annunciar as baixezas da Circea que o bestificou, não me acredita; e, se me acreditar, não temos balsamo que lhe feche a chaga; verá que elle a rasga mais com as suas proprias unhas, Mana Antonia, o meu parecer é este. Não me argumente, que não sabe, nem póde. Se a sua vontade fôr outra, lavo d'ahi as minhas mãos...
D. Antonia foi direita ao quarto do filho, e entrou de sobresalto. Surprehendeu-o a escrever. Jorge fez um gesto machinal para entremetter n'outros papeis a folha em que escrevia.
—Escondes de mim o que escreves, filho?—disse D. Antonia, com magoada brandura.
—Não, minha mãi, não escondo...
—Pois eu não vi?!—tornou ella, sorrindo tristemente.
—São cartas para os meus condiscipulos.
—Deixas vêr-m'as, Jorge? Que poderás tu dizer aos teus amigos, que não dissesses a tua mãi?! Fallas das tuas amarguras? Conta-m'as tambem a mim.
—Eu não fallo de amarguras, minha mãi—disse Jorge, erguendo-se, para afastar a mãi da banca.—Communico a um amigo os meus estudos, as minhas impressões de leitura, cousas que não podem recrear uma senhora...
—Assim será, Jorge... Tu nunca me mentiste, nem mentirás, pois não?
Jorge guardou escrupuloso silencio, respondendo com um tregeito, que valia tanto como a supplica de perdão.
N'este momento, apeava no pateo um cavalheiro da villa proxima, que vinha visitar o academico. Jorge foi logo á sala, a mãi acompanhou-o até fóra do quarto; e retrocedeu a examinar os papeis, logo que o viu entretido. Foi fácil estremal-o dos outros pela frescura da tinta. No alto da folha, leu estas palavras: «AO ANOITECER DA VIDA.» Depois seguia assim:
«Vou d'este mundo, quando custa morrer aos que se estorcem entre uma saudade e uma esperança. Saudade! de que hei-de eu tel-a?! E que posso esperar? Quem me dera já as trevas! Esta luz, que me alumia, é ainda a d'aquelle clarão infernal do baile. Queria fugir de mim proprio, como de um inimigo. Não me has-de tu matar, paixão! Morro porque não podia viver. Se não fosse aquella mulher, era outra. Eu vejo e palpo a morte ha muitos annos. A fugir da morte, refugiei-me no coração de Silvina. Porque me disse ella: «no mundo deve existir a imagem da mulher digna de senhorear-lhe a alma com a de sua mãi, cuja face eu beijaria com respeito e ternura de filha?» E como Deus pôde crear no coração humano para zombaria pensamentosassim! Á mulher infame devia morrer a memoria das palavras com que se exprime a virtude... Sinto-me tranquillo... A compensação dos affrontados é esta. No mal e no bem te reconheço, Providencia Divina!... Mas o mal para que é? Se é necessaria na ordem do mundo a ignominia, a crueza, a infamia, a desgraça, fôra digno da perfeição divina deixar ás almas inculpadas o galardão de não sentirem a absurda justiça do Creador.
«Que és tu, bem? que és tu, virtude?... que és tu...»
Aqui fôra interrompido Jorge pela subita entrada da mãi.
D. Antonia quasi não entendera o escripto; mas algumas palavras, as do titulo só, bastaram a compenetral-a de consternação e terror. Ouviu os passos de padre João, chamou-o anciada, e mostrou-lhe o papel. O egresso leu, e respondeu risonho:
—Não tem de que se lastimar por em quanto, minha irmã. Isto é um accesso de febre; mas não me assusta; o que eu receio é a outra que não interroga a Providencia, e obriga o enfermo a inclinar a face para o seio, e esperar resignadamente a morte. Vá á sala, que o hospede quer comprimental-a.
D. Antonia sahiu, e padre João escreveu o seguinte no papel que lêra:
«O pucaro pergunta ao obreiro porque o fez quebradiço. O oleiro responde: porque eras barro antes de seres pucaro.»
«Virtude é o diamante em que se pulverisam os raios da desgraça. Aquelle é virtuoso que olha em torno de si, e vê prostradas as calamidades.»
«O reino de Deus não está em palavras sonoras; mas em virtudes. (S. Paulo—aos impacientes de Corintho).»
«Coração apoucado, sossobra, se não podes com a tua miseria; mas não abandones a tua memoria a uma piedade vã, que é quasi uma zombaria.»