XI

Noite fria, noite branca,Noite da Russia polar,És como a imagem da morte,Ó longa noite do norte,Feita de neve e luar.

Noite fria, noite branca,Noite da Russia polar,És como a imagem da morte,Ó longa noite do norte,Feita de neve e luar.

Noite fria, noite branca,

Noite da Russia polar,

És como a imagem da morte,

Ó longa noite do norte,

Feita de neve e luar.

—Dize lá o resto.

—Não sei. Tive de escrever para a Messejana uma carta que o avôsinho queria, e puz logo o jornal de parte.

—Esses versos fazem frio! disse rindo o avô.

—Frio e mêdo! accrescentou Hilda.

—Se elle faz d’esses versos áseñorita, constipa-a, disse Maria Ignez.

O avô e as duas outras meninas riram muito da phrase.

—Coitados! continuou o Rodarte. Chega a ser comico esse cortejo da hespanhola! Tirados os nossos dois patricios, que são alegres, mas excellentes pessoas e proprietarios abastados, tudo o mais não vale um caracol.

—E D. Ramon? perguntou Maria Ignez.

—Quem sabe lá o que elle é! É um emigrado, que me não parece um forte sustentaculo da monarchia, nem um inimigo poderoso da republica.

—E o Vianninha? perguntou Hilda.

—O Vianninha é um pobre escripturario defazenda, respondeu Araujo Rodarte, que anda a estudar o modo de não morrer de fome.

—Não, avôsinho! replicou Hilda. Elle anda a estudar o meio de conquistar aseñorita.

—Está ella feliz com esse pretendente!

—Pois assim pobre como é, disse Maria Ignez, está apaixonada por elle a Sequeira. Dizem até que tem deitado sangue pela bôcca.

—Pobre rapariga! que tão mal empregou o seu coração! ponderou o Rodarte. E elle é um tolo, porque o pae da Sequeira tem alguma coisa de seu, possue duas marinhas em Alcacer, e é um homem que trabalha muito. De mais a mais, boa gente.

E Maria Ignez interrompeu a conversação, exclamando:

—Sabem quem vem acolá? São os nossos patricios.

—Antes elles do que os outros, disse o avô.

O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas vinham effectivamente subindo para Brancannes, onde sabiam que iam encontrar as tres lindas patricias.

A sua chegada trouxe maior animação ao dialogo.

—Então que vae lá por esse mundo da praia? perguntou o velho Rodarte.

—Algumas novidades ha.

—Novidades! Quaes?

—A andaluza foi com o pae para Lisboa, disse o morgado de Reguengos.

—Os nossos sentimentos... replicou Hilda.

O morgado fez-se purpurino.

—Ó minha senhora! disse elle. Tanto eu como este meu companheiro estamos aqui a banhos e queremos divertir-nos. Olhamos para tudo isto como se estivessemos no theatro. A andaluzatem sido a peça que está em scena: assistimos ao espectaculo e divertimo-nos a nosso modo.

—Assim é, confirmou o proprietario das Alcaçovas.

—Pois que hão de elles fazer! ponderou Araujo Rodarte. E mais?

—O conselheiro anda fazendo as suas despedidas. Já nos foi deixar bilhete.

—Mas elle contava ainda demorar-se! observou Araujo Rodarte.

—Lá estão commentando no Lapido a resolução do conselheiro.

—Mas ainda ha mais novidades! lembrou o morgado de Reguengos.

—Digam sempre.

—O Lemos planeou agora um espectaculo de curiosos em favor do Asylo. Parece que querem representar uma comedia escripta pelo Goes.

—Mas quem representa? perguntou Maria Ignez.

—Elles esperam que v. ex.ᵃˢ entrem.

—Nós! conclamaram as tres meninas.

—Ellas! exclamou simultaneamente o avô.

—Mas a mim consta-me por linhas travessas, disse o proprietario das Alcaçovas, que o pae do Lemos está furioso com a demora d’elle em Setubal, e que mais dia menos dia o virá buscar para o acompanhar a Lisboa, visto que se vae aproximando a época da abertura das aulas.

—Pobre pae! observou o Rodarte. O rapaz está aqui está a tomar capêllo em Physica.

—Tempo tem elle já para isso!

—Pois essa idéa do espectaculo é mesmo d’uma cabeça desconcertada!

—Outra novidade! exclamou o morgado de Reguengos.

—Qual?

—Appareceu o sueco!

—Tinha-se perdido? perguntou rindo Araujo Rodarte.

—Não, senhor. Tinha ido a Cintra sem dar cavaco á gente.

Os dois alemtejanos foram a Brancannes com o proposito astucioso de evitar que as Rodartes tomassem parte no espectaculo planeado n’aquella manhã pelo estudante d’Alcacer. Sondariam sobre o assumpto o animo do velho Rodarte. Mas logo ficaram tranquillos vendo que tanto o avô como as netas pensavam do mesmo modo: ellas não entrariam na récita.

O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas continuaram a não dar importancia á concorrencia amorosa do estudante e dos outros, quenão tinham onde cahir mortos. Mas o galanteio de ambos com as duas Rodartes ia-se accentuando com um caracter de seriedade, que abrangia já a ideia do casamento, se ellas os não repellissem.

Queriam pois evitar, um e outro, que collaborassem n’um espectaculo de rapazes as duas senhoras, Hilda e Maria Ignez, admittida a possibilidade de que ellas lhes acceitassem a côrte.

Não sabiam elles ao certo o numero de personagens femininos que a peça exigiria; mas preveniam a hypothese de uma annuencia ao convite do estudante.

Combinado o espectaculo no caféEsperança, e compromettido Aurelio Goes a escrever a peça, o estudante, o jornalista e o Vianninha foram em grupo ao encontro das Rodartes.

Vinham ellas já descendo de Brancannes com o avô e os dois alemtejanos, quando os tres as avistaram.

N’essa occasião o morgado de Reguengos colhiauma flôr e offerecia-a a Hilda. O estudante viu isto, e desfechou de longe uma gargalhada.

—Sabem vocês, disse elle aos companheiros, o que aquelle pedaço de bruto lhe está dizendo decerto agora?

—O que é?

—Aposto que ha de ser isto:

Aqui tem este raminho,Que da minha mão se offerece.Não é como eu queria,Nem como a senhora D. Hilda merece.

Aqui tem este raminho,Que da minha mão se offerece.Não é como eu queria,Nem como a senhora D. Hilda merece.

Aqui tem este raminho,

Que da minha mão se offerece.

Não é como eu queria,

Nem como a senhora D. Hilda merece.

E riram todos tres.

—Parece-me que á bêsta nos viu rir? disse o estudante.

—Tambem a mim me parece! respondeu o Vianninha, muito timido.

—Pois com tamanha bêsta não quero eu brincadeiras.

E o estudante foi o primeiro a desandar pelo mesmo caminho, sendo logo seguido pelos seus dois companheiros.

O conselheiro Antunes e D. Estanislada ficaram inquietos com o que tinham ouvido.

O seu segredo estava descoberto: oazeitehavia-se entornado, enodoando ambos.

Não era D. Enrique que batera á porta, porque D. Enrique estava em Lisboa, mas devia ser uma pessoa que soubessetudo.

Quem seria essa pessoa?

D. Estanislada propendia a crêr que fosse a senhoria.

—Porquê? perguntou-lhe o conselheiro.

—Porque es beata, y las beatas lo saben todo: lo que Dios no les dice, lo saben ellas por el Diablo.

Era uma razão, mas o conselheiro não a acceitava sem repugnancia:

—Nada! Foi um homem. Certamente o sueco,que andava por aqui. É verdade que elle não me viu entrar, porque fugiu. Mas suspeitou que eu houvesse entrado e, n’essa supposição, veio pregar-nos esta peça.

—Nada!teimava D. Estanislada.La voz no era la del sueco!

—Precisamos acautelar-nos, porque podem resultar de tudo isto consequencias muito desagradaveis. Eu sou um homem sério, e se não desejo comprometter uma dama, não desejo comprometter-me tambem a mim proprio. O melhor será eu recolher-me por alguns dias a Santarem, antes mesmo de D. Enrique voltar, porque d’este modo elle não poderá crêr, se lhe chegar aos ouvidos a denuncia, que eu desaproveitasse um só instante da sua ausencia.

—D. Enrique nada sabrá, dizia a hespanhola, muito menos timida que o conselheiro.

—Eu sei lá! Isto leva caminho de lhe chegar aos ouvidos. O seguro morreu de velho, e o melhor é acautelarmo-nos. Estanislada, minha rica Estanislada do meu coração, eu vou passar uns dias a Santarem, e voltarei depois.

—Que fatalidad!exclamava ella.

O conselheiro não descansou senão quando se viu fóra da porta. D. Estanislada viera antes á janella para o certificar de que não estava ninguem na rua.

—Nada! Não quero comprometter a minha reputação, a minha respeitabilidade, tudo! ia monologando o conselheiro. Amanhã faço constar que o governador civil de Santarem me chamou para um negocio urgente da politica do districto. Faço, pelo sim pelo não, as minhas despedidas, para não alimentar suspeitas, para mostrar quepartomas nãofujo, e por aqui me sirvo até mais vêr.

E, apos uma pausa, muito sentencioso:

—Não ha mulher nenhuma que valha a reputação de um homem.

Effectivamente, no comboio de segunda-feira pela manhã o conselheiro partiu para Lisboa e de Lisboa para Santarem.

Ao apear-se na estação da sua terra, o mesmo pensamento sentencioso acudiu ao espirito do conselheiro:

—Nada! Não ha mulher nenhuma que valha a reputação de um homem!

O estudante de Alcacer havia divulgado apeçaque pregára ao conselheiro e a D. Estanislada. Era já do dominio publico á hora em que o conselheiro andava fazendo as suas despedidas.

Os dois alemtejanos sabiam-no perfeitamente quando se encontraram com as Rodartes, no domingo, em Brancannes, mas limitaram-se, por conveniencia devida ás damas, a dizer que no caféEsperançaestavam discutindo os motivos da retirada do conselheiro.

E era verdade. Em todo esse dia a hespanhola mãe foi ali tão discutida quanto a hespanhola filha o havia sido quando era a unica belleza dominadora de Setubal, isto é, antes da chegada das tres netas doPadre Eterno.

D. Enrique regressou na segunda-feira de tarde com Soledad.

—Foi usted a Lisboa? perguntavam-lhe os desfructadores.

—He ido á los toros!

—Ah! Foi usted aos touros? E que tal?

—Una broma!

E ficavam-se a rir, logo que elle voltava costas, da singular coincidencia de ter ido aos touros aquelle homem que, durante a sua ausencia,fôra, segundo a expressão picaresca do estudante, lidado pelo conselheiro.

Mas D. Enrique vinha mais contente do que fôra, porque tivera occasião de fallar em Lisboa com outros emigrados, e a opinião d’elles era que o estado anarchico de Hespanha não podia continuar por muito tempo. O remedio viria de alguma parte, ou d’uma intervenção das potencias estrangeiras ou de uma reacção espontanea do paiz.

Era a esperança providencial de todos os emigrados a prefigurar-lhes um desfecho mais rapido do que os factos em verdade promettiam.

O estudante, o jornalista e o Vianninha resolveram, á volta de Brancannes, demorar o convite ás Rodartes, para entrarem na récita, até que estivesse escripta a comedia e se soubesse ao certo qual o numero dos personagens femininos.

O jornalista metteu-se em casa a trabalhar de afogadilho na suapeça, de que elle proprio já fallava com orgulho, quando ás dez horas da noite apparecia no café do Lapido para tomar cognac, como uma celebridade noctivaga.

Contava com uma verdadeira glorificação no theatro, esperava que o seu triumpho no palco de Setubal teria grande écco em Lisboa. Coroado como dramaturgo na patria de Bocage, para entrar no palco deD. Maria IIsó lhe seria preciso... atravessar o Tejo.

A sua reputação estava feita ou perto d’isso.

Ao segundo dia de trabalho, annunciou que na sua comedia apenas entraria uma mulher. Esta noticia contrariou muito o estudante, mas Aurelio Goes respondeu-lhe que a espontaneidade do talento não se podia torcer como um arame, e que o que a sua cabeça lhe déra espontaneamentefôra uma comedia com um só personagem feminino.

Então, alguns desfructadores,habituésdo Lapido, suggeriram a ideia de que, para não melindrar as damas, o melhor seria não convidar nenhuma, e encarregar-se o estudante de umtravesti.

Não repugnou a Julio de Lemos esta ideia, porque lhe daria no palco maior evidencia e, por isso mesmo, maior gloria.

Acceitou.

—Que nome tenho eu lá na peça? perguntava elle a Aurelio Goes.

—És a baroneza de Piães.

—Casada ou solteira?

—Casada.

—E distincta?

—Certamente.

Escriptas as primeiras scenas, foram-se logo ensaiando.

O jornalista distribuiu os papeis; os ensaios faziam-se de dia, depois do almoço. Uma commissão encarregára-se de passar a casa: a coisa corria ás mil maravilhas.

Eis o programma da festa, redigido pelo dramaturgo:

UMA NOITE SINISTRAComedia em tres actos e em verso, original do festejado escriptor o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio GoesDISTRIBUIÇÃO DOS PERSONAGENSBaroneza de PiãesSr. Julio de LemosBarão de PiãesSr. J. ViannaD. Mendo EspinoteSr. Aurelio GoesD. Diogo CucufateSr. Tenente EpaminondasD. Fafes EstorninhoSr. Tenente RosalgarD. Gualter ByscaiaSr. Alferes RuivoO escrivão de fazendaN. N.A acção passa-se na actualidade, em Braga.Ensaiador—Sr. Aurelio Goes.

UMA NOITE SINISTRA

Comedia em tres actos e em verso, original do festejado escriptor o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes

DISTRIBUIÇÃO DOS PERSONAGENS

A acção passa-se na actualidade, em Braga.

Ensaiador—Sr. Aurelio Goes.

AGazeta Setubalensee aTrombeta Ullyssiponenseannunciaram, além e áquem do Tejo, o brilhante espectaculo que ia realisar-se em Setubal, punham no sette estrello o novel e talentoso author, Aurelio Goes, que, se os calculos não falhavam, viria a nivelar-se com Almeida Garrett, e elogiavam a vocação artistica dos distinctos amadores, que em seguida nomeavam.

Ambas as noticias haviam sido escriptas pelo proprio Aurelio Goes.

Tambem elle se lembrára de officiar ao ministerio das obras publicas reclamando, para a noite da récita, um comboio extraordinario a preços reduzidos, mas não obteve resposta.

Escreveu a um amigo de Lisboa encarregando-o de encommendar uma coroa de louros, que era para elle, e de ir entender-se com o proprietario daTrombeta, para que lhe fizesse um adeantamento de dois mezes.

A coroa foi logo encommendada, porque o amigo de Aurelio Goes tinha tanto juizo como elle.

Mas o proprietario daTrombeta, que só d’ahi a dois dias poude ser encontrado, recusou-se formalmente a fazer o adeantamento pedido, chegando a dizer ao intermediario que osr. Aureliosó lhe mandava de Setubal noticias de interesse proprio; que estava muito desgostoso com elle, e que se dentro de quinze dias não regressasse a Lisboa, o despediria da redacção.

Depois d’esta entrevista desoladora, o amigo de Aurelio Goes correu á loja onde tinha encommendadoa coroa, para suspender a encommenda, mas, ó fatalidade! a coroa estava já feita, e exposta namontrecom este distico, que tinha tambem sido encommendado:Ao notavel e talentoso dramaturgo Aurelio Goes, futuro émulo de Garrett.

Pobre emissario! Ficou entalado, responsavel pela despeza da coroa. Escreveu para Setubal a contar o que era passado, quanto aos louros e á brutalidade do proprietario daTrombeta.

Aurelio Goes respondeu, na volta do correio, que ia arranjar dinheiro para a coroa, que não prescindiria dos louros por caso nenhum, e que fosse dizer ao «tyranno daTrombeta», expressão sua, que dentro de quinze dias estaria de regresso em Lisboa com uma carregação de gloria, que faria subir os fundos daTrombeta.

E, para que tudo coubesse no praso fatal que lhe era marcado, resolveu-se que a récita se realisasse dentro de dez dias.

Activaram-se os trabalhos, Aurelio Goes desenvolvera uma actividade assombrosa, retocava as ultimas scenas da comedia, assistia aos ensaios, e tratava de arranjar dinheiro para os louros.

Julio de Lemos, muito contente com o seu papel de baroneza de Piães, em que obteria uma ovação, estava d’isso convencido, occupava-se, nas horas livres de ensaios, em preparar a suatoilette.

Lembrou-se de D. Estanislada para lhe fornecer o guarda-roupa, mas lembrou-se obrigado pelas circumstancias, porque o morgado de Reguengos declarára categoricamente em alguma parte que, por seu conselho, as Rodartes não contribuiriam para a récita senão com o preço do seu camarote.

E o estudante, quando soube isto, dissera:

—Essa grande bêsta imagina talvez que terei de apparecer em scena como Eva no Paraizo Terreal! Pois engana-se redondamente.

E foi pedir a D. Estanislada que lhe valesse n’aquella afflicção.

Soledad tinha ido ao banho com o pae, mas D. Estanislada recebeu-o amavelmente, prometteu-lhe pôr á sua disposição o guarda-roupa de que precisasse.

Julio de Lemos, muito captivado, agradeceu-lhe a amabilidade e, para lisonjeal-a na sua formosura, contou-lhe a scena que se seguira aopic-nicde Troia, disse-lhe que, no sorteio de damas a que se procedêra, ella tinha cahido em sorte ao sueco.

D. Estanislada riu muito com essa brincadeira, e explicou então a si mesma os ciumes do conselheiro, e a presença do sueco, de noite, na sua rua.

Esta revelação não cahiu em cesto rôto.

Vencida a difficuldade datoilettepara o estudante, tudo estava prompto, e a noite da recita chegou finalmente.

Subiu o panno. O palco representava uma sala, que fingia communicar com outras. Ouvia-se umsol-e-dó, com pretensões a orchestra de salão. Devia ser um baile.

D. MENDOeD. DIOGO(entram ambos, conversando, pela porta do fundo. O sol-e-dó vae esmorecendo. Salienta-se á vista dos espectadores a casaca de D. Mendo, que é antiga e enorme.)D. MENDOMas se conhecem?D. DIOGOSim! sim!Agora, que estás no baile,Emancipa-te de mim.Passeia, namora, primo,Faze a côrte, dize graças,Pódes até, se quizeres,Tu, morgado de Boaças,Ser um rei entre as mulheres!D. MENDOUm rei com manto emprestado!Julgo ouvir, a cada passo,Dizer a voz de um palhaço:«Largue a casaca, morgado!»Que entre a fôrma e entre o fatoDeve a união ser tamanhaComo entre a casca e a lagosta,Entre o ouriço e a castanha.Mas eu com esta casacaCheiro a D. Miguel I.Suppõe que eu sou a castanha:Ella é o ouriço... cacheiro.D. DIOGOOra adeus! Em Braga serve...D. MENDOEssa ironia é cruel!Onde ella faria vistaSeria em Penafiel,Que lá as casacas todasSão ainda mais pesadasE têm as abas dobradas,Dizem...D. DIOGOPensei que sabias!D. MENDONão. Eu já lá estive uns dias,Mas nunca mudei de fato.Ora eu com esta casacaA que Bocage decertoFez no seu tempo uma quadra,Devo par’cer um retratoD’estes da Feira da Ladra!E depois que desconcertoEntre a casaca e o chapeu!Percebem todos á leguaQue trago o que não é meu.Um chapeu moderno,claque,Fôrro preto, lettra de ouro,Armado com boas molas,Dando ao abrir-se um estouro. (E abriu a claque com estrondo.)A casaca... um monumentoDe remota fundação!Faz lembrar a sé de BragaCom abas e cabeção;A guerra de Troia em panno;Affonso Henriques cosido.Affonso Henriques decertoÉ que eu trago em mim vestido!D. DIOGOPateta! Mais te valiaTalvez deitar-te ao sol-postoCom as gallinhas! (ironico.)D. MENDOQue ouvi?!Pôr as gallinhas, entendo,Mas pôr o sol, nunca vi!D. DIOGOAhi vem a dona da casa!D. MENDOAgora, que vou ter publico,Sinto-me arder n’uma braza!

D. MENDOeD. DIOGO(entram ambos, conversando, pela porta do fundo. O sol-e-dó vae esmorecendo. Salienta-se á vista dos espectadores a casaca de D. Mendo, que é antiga e enorme.)D. MENDOMas se conhecem?D. DIOGOSim! sim!Agora, que estás no baile,Emancipa-te de mim.Passeia, namora, primo,Faze a côrte, dize graças,Pódes até, se quizeres,Tu, morgado de Boaças,Ser um rei entre as mulheres!D. MENDOUm rei com manto emprestado!Julgo ouvir, a cada passo,Dizer a voz de um palhaço:«Largue a casaca, morgado!»Que entre a fôrma e entre o fatoDeve a união ser tamanhaComo entre a casca e a lagosta,Entre o ouriço e a castanha.Mas eu com esta casacaCheiro a D. Miguel I.Suppõe que eu sou a castanha:Ella é o ouriço... cacheiro.D. DIOGOOra adeus! Em Braga serve...D. MENDOEssa ironia é cruel!Onde ella faria vistaSeria em Penafiel,Que lá as casacas todasSão ainda mais pesadasE têm as abas dobradas,Dizem...D. DIOGOPensei que sabias!D. MENDONão. Eu já lá estive uns dias,Mas nunca mudei de fato.Ora eu com esta casacaA que Bocage decertoFez no seu tempo uma quadra,Devo par’cer um retratoD’estes da Feira da Ladra!E depois que desconcertoEntre a casaca e o chapeu!Percebem todos á leguaQue trago o que não é meu.Um chapeu moderno,claque,Fôrro preto, lettra de ouro,Armado com boas molas,Dando ao abrir-se um estouro. (E abriu a claque com estrondo.)A casaca... um monumentoDe remota fundação!Faz lembrar a sé de BragaCom abas e cabeção;A guerra de Troia em panno;Affonso Henriques cosido.Affonso Henriques decertoÉ que eu trago em mim vestido!D. DIOGOPateta! Mais te valiaTalvez deitar-te ao sol-postoCom as gallinhas! (ironico.)D. MENDOQue ouvi?!Pôr as gallinhas, entendo,Mas pôr o sol, nunca vi!D. DIOGOAhi vem a dona da casa!D. MENDOAgora, que vou ter publico,Sinto-me arder n’uma braza!

D. MENDOeD. DIOGO(entram ambos, conversando, pela porta do fundo. O sol-e-dó vae esmorecendo. Salienta-se á vista dos espectadores a casaca de D. Mendo, que é antiga e enorme.)

D. MENDO

Mas se conhecem?

D. DIOGO

Sim! sim!

Agora, que estás no baile,

Emancipa-te de mim.

Passeia, namora, primo,

Faze a côrte, dize graças,

Pódes até, se quizeres,

Tu, morgado de Boaças,

Ser um rei entre as mulheres!

D. MENDO

Um rei com manto emprestado!

Julgo ouvir, a cada passo,

Dizer a voz de um palhaço:

«Largue a casaca, morgado!»

Que entre a fôrma e entre o fato

Deve a união ser tamanha

Como entre a casca e a lagosta,

Entre o ouriço e a castanha.

Mas eu com esta casaca

Cheiro a D. Miguel I.

Suppõe que eu sou a castanha:

Ella é o ouriço... cacheiro.

D. DIOGO

Ora adeus! Em Braga serve...

D. MENDO

Essa ironia é cruel!

Onde ella faria vista

Seria em Penafiel,

Que lá as casacas todas

São ainda mais pesadas

E têm as abas dobradas,

Dizem...

D. DIOGO

Pensei que sabias!

D. MENDO

Não. Eu já lá estive uns dias,

Mas nunca mudei de fato.

Ora eu com esta casaca

A que Bocage decerto

Fez no seu tempo uma quadra,

Devo par’cer um retrato

D’estes da Feira da Ladra!

E depois que desconcerto

Entre a casaca e o chapeu!

Percebem todos á legua

Que trago o que não é meu.

Um chapeu moderno,claque,

Fôrro preto, lettra de ouro,

Armado com boas molas,

Dando ao abrir-se um estouro. (E abriu a claque com estrondo.)

A casaca... um monumento

De remota fundação!

Faz lembrar a sé de Braga

Com abas e cabeção;

A guerra de Troia em panno;

Affonso Henriques cosido.

Affonso Henriques decerto

É que eu trago em mim vestido!

D. DIOGO

Pateta! Mais te valia

Talvez deitar-te ao sol-posto

Com as gallinhas! (ironico.)

D. MENDO

Que ouvi?!

Pôr as gallinhas, entendo,

Mas pôr o sol, nunca vi!

D. DIOGO

Ahi vem a dona da casa!

D. MENDO

Agora, que vou ter publico,

Sinto-me arder n’uma braza!

Entra Julio de Lemos em travesti de mulher. A sua entrada em scena produz hilaridade no publico.BARONEZAÓ morgado! que surpreza!Que prazer! quanto eu estimo!Beijo-lhe as mãos, D. Diogo,Pois que nos trouxe seu primo.D. MENDOBaroneza! Eu folgo muito...O meu peito rejubila... (Inclina-se. Sóbe-lhe para a cabeça o cabeção da casaca.)(á parte) Não posso dár á cabeça,Que me não suba a mochilla!D. DIOGO(apertando a mão á baroneza)E tem que me agradecer,Porque o primo não queriaVir ao baile!BARONEZAPóde ser!D. DIOGOSó questão detoilette.Mas emfim...D. MENDO(á parte) Vim de casaca,E ainda cabiam mais sete!BARONEZAO barão, quando soubér,Ha de ficar encantadoCo’a surpreza do morgado.Eu mesma lh’o vou dizer.E agora, morgado, goze,Que entre a fina flôr do MinhoNão ha quem lhe leve a palma,Quem tenha mais gentil alma,Melhor sangue em pergaminho,Além do que nós sabemos...Pois por cá todos lhe dãoUmas cem pipas de vinhoE oitenta carros de pão.D. MENDOAi! baroneza! Foi tempo!...Já não sou quem d’antes era.Sinto-me triste, sou mono.Matou-me o phylloxera!Deu nas vinhas... e no dono!BARONEZANão se chore... pobresinho!Que não é occasião.Se quizer... compro-lhe o vinho,Seu primo... compra-lhe o pão.D. DIOGOEstá dito, baroneza.Quer o meu braço?BARONEZAPois não!Morgado, goze, namore,Que eu vou dizer ao barão. (A baroneza e D. Diogo saem de braço dado por uma das portas lateraes.)

Entra Julio de Lemos em travesti de mulher. A sua entrada em scena produz hilaridade no publico.BARONEZAÓ morgado! que surpreza!Que prazer! quanto eu estimo!Beijo-lhe as mãos, D. Diogo,Pois que nos trouxe seu primo.D. MENDOBaroneza! Eu folgo muito...O meu peito rejubila... (Inclina-se. Sóbe-lhe para a cabeça o cabeção da casaca.)(á parte) Não posso dár á cabeça,Que me não suba a mochilla!D. DIOGO(apertando a mão á baroneza)E tem que me agradecer,Porque o primo não queriaVir ao baile!BARONEZAPóde ser!D. DIOGOSó questão detoilette.Mas emfim...D. MENDO(á parte) Vim de casaca,E ainda cabiam mais sete!BARONEZAO barão, quando soubér,Ha de ficar encantadoCo’a surpreza do morgado.Eu mesma lh’o vou dizer.E agora, morgado, goze,Que entre a fina flôr do MinhoNão ha quem lhe leve a palma,Quem tenha mais gentil alma,Melhor sangue em pergaminho,Além do que nós sabemos...Pois por cá todos lhe dãoUmas cem pipas de vinhoE oitenta carros de pão.D. MENDOAi! baroneza! Foi tempo!...Já não sou quem d’antes era.Sinto-me triste, sou mono.Matou-me o phylloxera!Deu nas vinhas... e no dono!BARONEZANão se chore... pobresinho!Que não é occasião.Se quizer... compro-lhe o vinho,Seu primo... compra-lhe o pão.D. DIOGOEstá dito, baroneza.Quer o meu braço?BARONEZAPois não!Morgado, goze, namore,Que eu vou dizer ao barão. (A baroneza e D. Diogo saem de braço dado por uma das portas lateraes.)

Entra Julio de Lemos em travesti de mulher. A sua entrada em scena produz hilaridade no publico.

BARONEZA

Ó morgado! que surpreza!

Que prazer! quanto eu estimo!

Beijo-lhe as mãos, D. Diogo,

Pois que nos trouxe seu primo.

D. MENDO

Baroneza! Eu folgo muito...

O meu peito rejubila... (Inclina-se. Sóbe-lhe para a cabeça o cabeção da casaca.)

(á parte) Não posso dár á cabeça,

Que me não suba a mochilla!

D. DIOGO(apertando a mão á baroneza)

E tem que me agradecer,

Porque o primo não queria

Vir ao baile!

BARONEZA

Póde ser!

D. DIOGO

Só questão detoilette.

Mas emfim...

D. MENDO

(á parte) Vim de casaca,

E ainda cabiam mais sete!

BARONEZA

O barão, quando soubér,

Ha de ficar encantado

Co’a surpreza do morgado.

Eu mesma lh’o vou dizer.

E agora, morgado, goze,

Que entre a fina flôr do Minho

Não ha quem lhe leve a palma,

Quem tenha mais gentil alma,

Melhor sangue em pergaminho,

Além do que nós sabemos...

Pois por cá todos lhe dão

Umas cem pipas de vinho

E oitenta carros de pão.

D. MENDO

Ai! baroneza! Foi tempo!...

Já não sou quem d’antes era.

Sinto-me triste, sou mono.

Matou-me o phylloxera!

Deu nas vinhas... e no dono!

BARONEZA

Não se chore... pobresinho!

Que não é occasião.

Se quizer... compro-lhe o vinho,

Seu primo... compra-lhe o pão.

D. DIOGO

Está dito, baroneza.

Quer o meu braço?

BARONEZA

Pois não!

Morgado, goze, namore,

Que eu vou dizer ao barão. (A baroneza e D. Diogo saem de braço dado por uma das portas lateraes.)

D. MENDO(só)Goze! Namore! Tem graça!Póde alguem ser tão audaz,Que vá mostrar-se n’um baileAssim, por deante e (volta-se) por traz!Vim de rastos, constrangido,Estou aqui compromettido!Não saio d’aqui, não saio.Fallar ás damas? Dançar?N’essa tolice não caio.Não me hão de lá apanhar! (Sentando-se.)Chego a Braga d’esta vezPor uns dois dias ou trez.Trago um fato de viagem:Eis toda a minha bagagem.Entro em casa de meu primo.—Como vaes tu?—Que surpreza!Ó diabo! adivinhaste!Mas tu sabes que apanhasteUm baile da baroneza?!—Um baile?—Um baile!—E depois?—Um baile d’estes que valem,Dados em Braga, por dois.—Não vou.—Has de ir.—Mas não posso!—Não pódes! porque?—Por tudo!Ou melhor, talvez, por nada!Pensas que eu visto casacaP’ra fazer uma jornada?!Que é da casaca? Não tenho!Gosto de andar á ligeira,Cheio de sol e poeira,Assim mesmo,—como venho.—Mas, primo, talvez se arranjeAlgum meio... deixa vêr.—Só o capote de um conegoMe póde agora valer!—Não rias! Que ideia! Espera!Se me não falha a memoria,A casaca do papá,Que Deus tenha em santa gloria,No guarda-roupa ainda está.—Santo Deus! quero lá isso!Ó primo! que reinação!Uma casaca, talvez,Com que o tio outr’ora fezDe valido papa-finaQuando a Carlota JoaquinaBurlou a Constituição!—Vae-se vêr. Tem paciencia...Vem a casaca. Medonha!Isto que eu trago vestidoE em que me sinto mettidoComo dentro d’uma fronha!—Primo, não vou.—Qual historia!Verás lá muitas assim.N’esta Braga, que é fiel,O tempo de D. MiguelDura ainda, e não tem fim!Vaes á moda.—Á moda... antiga!—Talvez que alguma morgada,Camapheu como o seu broche,Se sinta lisonjeadaD’esse aspectovieille-roche.—E entre no meu coração,Por engano, e por seu pé,Julgando, por ser em Braga,Que vae ouvir missa á Sé!—Ora adeus! Calças, collete,Gravata, lenço, chapeu,O resto datoilette,Tudo isso, empresto-te eu.E zás, põe me na tortura,Despe-me, veste-me, entala-me,Puxa, repuxa, estrebucha,Desaperta, aperta, empala-me!Traz-me ajoujado, arrastado,Acho-me, sem saber como,Preso dentro de uma sacca!Vim a pé... n’esta casaca,E o primo veio a meu lado!

D. MENDO(só)Goze! Namore! Tem graça!Póde alguem ser tão audaz,Que vá mostrar-se n’um baileAssim, por deante e (volta-se) por traz!Vim de rastos, constrangido,Estou aqui compromettido!Não saio d’aqui, não saio.Fallar ás damas? Dançar?N’essa tolice não caio.Não me hão de lá apanhar! (Sentando-se.)Chego a Braga d’esta vezPor uns dois dias ou trez.Trago um fato de viagem:Eis toda a minha bagagem.Entro em casa de meu primo.—Como vaes tu?—Que surpreza!Ó diabo! adivinhaste!Mas tu sabes que apanhasteUm baile da baroneza?!—Um baile?—Um baile!—E depois?—Um baile d’estes que valem,Dados em Braga, por dois.—Não vou.—Has de ir.—Mas não posso!—Não pódes! porque?—Por tudo!Ou melhor, talvez, por nada!Pensas que eu visto casacaP’ra fazer uma jornada?!Que é da casaca? Não tenho!Gosto de andar á ligeira,Cheio de sol e poeira,Assim mesmo,—como venho.—Mas, primo, talvez se arranjeAlgum meio... deixa vêr.—Só o capote de um conegoMe póde agora valer!—Não rias! Que ideia! Espera!Se me não falha a memoria,A casaca do papá,Que Deus tenha em santa gloria,No guarda-roupa ainda está.—Santo Deus! quero lá isso!Ó primo! que reinação!Uma casaca, talvez,Com que o tio outr’ora fezDe valido papa-finaQuando a Carlota JoaquinaBurlou a Constituição!—Vae-se vêr. Tem paciencia...Vem a casaca. Medonha!Isto que eu trago vestidoE em que me sinto mettidoComo dentro d’uma fronha!—Primo, não vou.—Qual historia!Verás lá muitas assim.N’esta Braga, que é fiel,O tempo de D. MiguelDura ainda, e não tem fim!Vaes á moda.—Á moda... antiga!—Talvez que alguma morgada,Camapheu como o seu broche,Se sinta lisonjeadaD’esse aspectovieille-roche.—E entre no meu coração,Por engano, e por seu pé,Julgando, por ser em Braga,Que vae ouvir missa á Sé!—Ora adeus! Calças, collete,Gravata, lenço, chapeu,O resto datoilette,Tudo isso, empresto-te eu.E zás, põe me na tortura,Despe-me, veste-me, entala-me,Puxa, repuxa, estrebucha,Desaperta, aperta, empala-me!Traz-me ajoujado, arrastado,Acho-me, sem saber como,Preso dentro de uma sacca!Vim a pé... n’esta casaca,E o primo veio a meu lado!

D. MENDO(só)

Goze! Namore! Tem graça!

Póde alguem ser tão audaz,

Que vá mostrar-se n’um baile

Assim, por deante e (volta-se) por traz!

Vim de rastos, constrangido,

Estou aqui compromettido!

Não saio d’aqui, não saio.

Fallar ás damas? Dançar?

N’essa tolice não caio.

Não me hão de lá apanhar! (Sentando-se.)

Chego a Braga d’esta vez

Por uns dois dias ou trez.

Trago um fato de viagem:

Eis toda a minha bagagem.

Entro em casa de meu primo.

—Como vaes tu?—Que surpreza!

Ó diabo! adivinhaste!

Mas tu sabes que apanhaste

Um baile da baroneza?!

—Um baile?—Um baile!—E depois?

—Um baile d’estes que valem,

Dados em Braga, por dois.

—Não vou.—Has de ir.—Mas não posso!

—Não pódes! porque?—Por tudo!

Ou melhor, talvez, por nada!

Pensas que eu visto casaca

P’ra fazer uma jornada?!

Que é da casaca? Não tenho!

Gosto de andar á ligeira,

Cheio de sol e poeira,

Assim mesmo,—como venho.

—Mas, primo, talvez se arranje

Algum meio... deixa vêr.

—Só o capote de um conego

Me póde agora valer!

—Não rias! Que ideia! Espera!

Se me não falha a memoria,

A casaca do papá,

Que Deus tenha em santa gloria,

No guarda-roupa ainda está.

—Santo Deus! quero lá isso!

Ó primo! que reinação!

Uma casaca, talvez,

Com que o tio outr’ora fez

De valido papa-fina

Quando a Carlota Joaquina

Burlou a Constituição!

—Vae-se vêr. Tem paciencia...

Vem a casaca. Medonha!

Isto que eu trago vestido

E em que me sinto mettido

Como dentro d’uma fronha!

—Primo, não vou.—Qual historia!

Verás lá muitas assim.

N’esta Braga, que é fiel,

O tempo de D. Miguel

Dura ainda, e não tem fim!

Vaes á moda.—Á moda... antiga!

—Talvez que alguma morgada,

Camapheu como o seu broche,

Se sinta lisonjeada

D’esse aspectovieille-roche.

—E entre no meu coração,

Por engano, e por seu pé,

Julgando, por ser em Braga,

Que vae ouvir missa á Sé!

—Ora adeus! Calças, collete,

Gravata, lenço, chapeu,

O resto datoilette,

Tudo isso, empresto-te eu.

E zás, põe me na tortura,

Despe-me, veste-me, entala-me,

Puxa, repuxa, estrebucha,

Desaperta, aperta, empala-me!

Traz-me ajoujado, arrastado,

Acho-me, sem saber como,

Preso dentro de uma sacca!

Vim a pé... n’esta casaca,

E o primo veio a meu lado!

(D. Fafes Estorninho, D. Gualter Byscaia e o escrivão de fazenda entram pela porta do fundo. D. Mendo levantas-se vendo-os entrar.)D. FAFESeD. GUALTER(simultaneamente)Ó que surpreza! Um abraço!Que noite nem estreiada! (abraçam-n’o de um e outro lado.)D. MENDO(á parte)Fica tão longe a casaca,Que não senti mesmo nada! (Olhando para o escrivão de fazenda, que lhe abaixa a cabeça.)Ó D. Gualter, ó D. Fafes,Ser apresentado estimoAo distincto cavalheiro,Que tendes por companheiro.Será elle nosso primo?D. GUALTERNão é. Mas outra valiaEste senhor recommenda.Isto já de fidalguia!...D. FAFESÉ o escrivão de fazenda. (apresentando D. Mendo)Meu primo Mendo de SousaNoronha Alvim e Lambaças...Aqui falta alguma cousa!Emfim: senhor de Boaças.D. MENDOFalta o Tinoco materno.De meu pae falta o Rolim.D. FAFES(emendando)Mendo de Sousa NoronhaAlvim Tinoco Rolim,Senhor do Brejo e Boaças.D. MENDOAgora falta o Lambaças!D. FAFES(rindo)Nenhum de nossos avósFaz falta onde estamos nós!D. MENDO(ao escrivão)Muito emfim me lisonjeaConhecer este senhor.Faça de conta, de ideiaQue me tem ao seu dispôr.Estendo-lhe a minha mão,Senhor... senhor escrivãoDe fazenda... propria ou alheia?D. GUALTER(precipitado)Não faças troça do homem.N’estes bons tempos felizesDe liberdade e igualdadeNós andamos nas mãos d’elleP’ra que não nos tire a pelleEsticando-a nas matrizes.D. MENDOEntão cá vocês não pagam?(D. Fafes conversa entretanto com o escrivão de fazenda)D. GUALTERPagamos pouco. Bem vêsQue ninguem faz em colheitasO que antigamente fez.D. MENDOE então recorrem ás peitas!

(D. Fafes Estorninho, D. Gualter Byscaia e o escrivão de fazenda entram pela porta do fundo. D. Mendo levantas-se vendo-os entrar.)D. FAFESeD. GUALTER(simultaneamente)Ó que surpreza! Um abraço!Que noite nem estreiada! (abraçam-n’o de um e outro lado.)D. MENDO(á parte)Fica tão longe a casaca,Que não senti mesmo nada! (Olhando para o escrivão de fazenda, que lhe abaixa a cabeça.)Ó D. Gualter, ó D. Fafes,Ser apresentado estimoAo distincto cavalheiro,Que tendes por companheiro.Será elle nosso primo?D. GUALTERNão é. Mas outra valiaEste senhor recommenda.Isto já de fidalguia!...D. FAFESÉ o escrivão de fazenda. (apresentando D. Mendo)Meu primo Mendo de SousaNoronha Alvim e Lambaças...Aqui falta alguma cousa!Emfim: senhor de Boaças.D. MENDOFalta o Tinoco materno.De meu pae falta o Rolim.D. FAFES(emendando)Mendo de Sousa NoronhaAlvim Tinoco Rolim,Senhor do Brejo e Boaças.D. MENDOAgora falta o Lambaças!D. FAFES(rindo)Nenhum de nossos avósFaz falta onde estamos nós!D. MENDO(ao escrivão)Muito emfim me lisonjeaConhecer este senhor.Faça de conta, de ideiaQue me tem ao seu dispôr.Estendo-lhe a minha mão,Senhor... senhor escrivãoDe fazenda... propria ou alheia?D. GUALTER(precipitado)Não faças troça do homem.N’estes bons tempos felizesDe liberdade e igualdadeNós andamos nas mãos d’elleP’ra que não nos tire a pelleEsticando-a nas matrizes.D. MENDOEntão cá vocês não pagam?(D. Fafes conversa entretanto com o escrivão de fazenda)D. GUALTERPagamos pouco. Bem vêsQue ninguem faz em colheitasO que antigamente fez.D. MENDOE então recorrem ás peitas!

(D. Fafes Estorninho, D. Gualter Byscaia e o escrivão de fazenda entram pela porta do fundo. D. Mendo levantas-se vendo-os entrar.)

D. FAFESeD. GUALTER(simultaneamente)

Ó que surpreza! Um abraço!

Que noite nem estreiada! (abraçam-n’o de um e outro lado.)

D. MENDO(á parte)

Fica tão longe a casaca,

Que não senti mesmo nada! (Olhando para o escrivão de fazenda, que lhe abaixa a cabeça.)

Ó D. Gualter, ó D. Fafes,

Ser apresentado estimo

Ao distincto cavalheiro,

Que tendes por companheiro.

Será elle nosso primo?

D. GUALTER

Não é. Mas outra valia

Este senhor recommenda.

Isto já de fidalguia!...

D. FAFES

É o escrivão de fazenda. (apresentando D. Mendo)

Meu primo Mendo de Sousa

Noronha Alvim e Lambaças...

Aqui falta alguma cousa!

Emfim: senhor de Boaças.

D. MENDO

Falta o Tinoco materno.

De meu pae falta o Rolim.

D. FAFES(emendando)

Mendo de Sousa Noronha

Alvim Tinoco Rolim,

Senhor do Brejo e Boaças.

D. MENDO

Agora falta o Lambaças!

D. FAFES(rindo)

Nenhum de nossos avós

Faz falta onde estamos nós!

D. MENDO(ao escrivão)

Muito emfim me lisonjea

Conhecer este senhor.

Faça de conta, de ideia

Que me tem ao seu dispôr.

Estendo-lhe a minha mão,

Senhor... senhor escrivão

De fazenda... propria ou alheia?

D. GUALTER(precipitado)

Não faças troça do homem.

N’estes bons tempos felizes

De liberdade e igualdade

Nós andamos nas mãos d’elle

P’ra que não nos tire a pelle

Esticando-a nas matrizes.

D. MENDO

Então cá vocês não pagam?

(D. Fafes conversa entretanto com o escrivão de fazenda)

D. GUALTER

Pagamos pouco. Bem vês

Que ninguem faz em colheitas

O que antigamente fez.

D. MENDO

E então recorrem ás peitas!

N’esta altura da representação começou-se a ouvir barulho no palco. Não parecia que fosse rubrica da peça.

D. Mendo, extranhando o barulho, dirigiu-se á porta do fundo, e gritou para dentro: Calem-se, seus burros!

D. GUALTER(levantando a voz para poder ser ouvido)Finge a gente que o estima,Trata-o de Santo Antoninho,Mão por baixo, mão por cima.Se não ha nem pão nem vinho!D. MENDO(descendo da porta do fundo, muito arreliado porque o barulho entre-scenas continua)Mão por cima... é bom criterio.Mas mão por baixo... é mais serio!D. GUALTER(explicando com o gesto correspondente)Mão por cima e mão por baixo.

D. GUALTER(levantando a voz para poder ser ouvido)Finge a gente que o estima,Trata-o de Santo Antoninho,Mão por baixo, mão por cima.Se não ha nem pão nem vinho!D. MENDO(descendo da porta do fundo, muito arreliado porque o barulho entre-scenas continua)Mão por cima... é bom criterio.Mas mão por baixo... é mais serio!D. GUALTER(explicando com o gesto correspondente)Mão por cima e mão por baixo.

D. GUALTER(levantando a voz para poder ser ouvido)

Finge a gente que o estima,

Trata-o de Santo Antoninho,

Mão por baixo, mão por cima.

Se não ha nem pão nem vinho!

D. MENDO(descendo da porta do fundo, muito arreliado porque o barulho entre-scenas continua)

Mão por cima... é bom criterio.

Mas mão por baixo... é mais serio!

D. GUALTER(explicando com o gesto correspondente)

Mão por cima e mão por baixo.

Continua e augmenta o barulho entre-scenas. Sente-se fallar de rijo, altercar. Da platêa rompem alguns scius.

D. MENDOIsso então tinha outro nomeQuando não havia fome.Chamava-se: ser capacho!D. FAFES(em voz alta, cada vez mais alta, cuidando poder dominar o barulho que vinha do fundo do palco)Muito alegre este D. Mendo!D. GUALTER(berrando para poder ser ouvido)Parece rapaz, e é velho!D. FAFES(gritando cada vez mais)Tem uma casa soberba!D. MENDO(com voz de estentor, para o escrivão de fazenda)Tenho. Mas n’outro concelho.

D. MENDOIsso então tinha outro nomeQuando não havia fome.Chamava-se: ser capacho!D. FAFES(em voz alta, cada vez mais alta, cuidando poder dominar o barulho que vinha do fundo do palco)Muito alegre este D. Mendo!D. GUALTER(berrando para poder ser ouvido)Parece rapaz, e é velho!D. FAFES(gritando cada vez mais)Tem uma casa soberba!D. MENDO(com voz de estentor, para o escrivão de fazenda)Tenho. Mas n’outro concelho.

D. MENDO

Isso então tinha outro nome

Quando não havia fome.

Chamava-se: ser capacho!

D. FAFES(em voz alta, cada vez mais alta, cuidando poder dominar o barulho que vinha do fundo do palco)

Muito alegre este D. Mendo!

D. GUALTER(berrando para poder ser ouvido)

Parece rapaz, e é velho!

D. FAFES(gritando cada vez mais)

Tem uma casa soberba!

D. MENDO(com voz de estentor, para o escrivão de fazenda)

Tenho. Mas n’outro concelho.

N’isto o barulho augmenta entre-scenas, sente-se cahir uma cadeira, e de repente, correndo de um lado para outro, atravessa o palco Julio de Lemos, emtravestide baroneza de Piães eatraz d’elle, aos pontapés, um dos quaes ainda lhe raspou, um sujeito de cabellos grisalhos, baixo, atarracado, ardendo em colera.

Uma grande parte do publico, composto de setubalenses, reconheceu o homem dos pontapés: era o pae do estudante de Alcacer. As familias banhistas, incluindo as Rodartes e Soledad, assustaram-se. Ouviram-se guinchos hystericos. Na platêa explodiram risadas. E ao charivari no palco correspondeu o charivari dos guinchos e das gargalhadas na platêa e nos camarotes.

Os actores, D. Mendo, D. Fafes, D. Gualter e todos os mais, corriam de um lado para outro gritando, berrando, apparecendo e desapparecendo por entre os bastidores.

O administrador do concelho sahiu precipitadamente do seu camarote.

Ao cabo de cinco minutos de tumulto, o panno desceu.

Na platêa continuavam as risadas, mas nos camarotes iam diminuindo os guinchos.

Vozes explicavam da platêa para os camarotes:

—Não é nada! É o pae do estudante que o veio buscar!

—É o pae! é o pae! Não se afflijam, minhas senhoras.

Alguns homens sahiam da platêa, corriam ao palco.

D. Enrique berrava ao fundo do seu camarote:

—Que broma! que broma!

Finalmente, ao cabo de um quarto de hora de verdadeira ingrezia, o panno subiu, e Aurelio Goes, ainda enfardelado na sua enorme casaca de D. Mendo, veio dizer á bôcca da scena:

—Minhas senhoras e meus senhores: tendodesapparecido do palco o sr. Julio de Lemos, o espectaculo não póde continuar hoje.

O proprietario das Alcaçovas, que tinha ido ao camarote das Rodartes, para lhes explicar o que tudo aquillo era, e tranquillisal-as, dizia:

—Bem me constava a mim que o pae do Lemos estava muito quesilado com elle, e não tardaria a vir buscal-o. Rebentou hoje como uma bomba!

Imagine-se quanto deu que fallar este caso estupendamente comico!

Pela manhã dizia-se na praia que o pae do estudante havia corrido atraz d’elle pela rua da Conceição, e que um popular, vendo uma mulher a fugir e um homem a gritar que a prendessem, deitara a mão á supposta mulher; que Julio de Lemos apanhára n’esse momento nova roda de pontapés, e que o pae, agarrando-lhe por um braço, o levára para a hospedaria, tendo embarcado ambos no comboio da manhã para Lisboa.

Episodios altamente risiveis, boquejavam-se: soube-se então que o jornalista havia mandado vir de Lisboa, para si proprio, uma coroa de louros, a qual coroa de louros ficára no theatro pendurada de um prego. Fazia-secalembourcom a palavraprego, porque se soube logo tambem aquem o jornalista pedira emprestado o dinheiro para pagar a coroa. Accrescentava-se que o estudante se esquecêra, na atrapalhação em que ficára, de restituir atoilettea D. Estanislada, mas averiguou-se depois que o pae de Julio de Lemos havia mandado entregar tudo.

Aurelio Goes não apparecia, estava envergonhado e furioso: envergonhado pelofiascoe furioso por vêr perdida a occasião de trepar para o pedestal de Garrett.

Á noite asseverou-se, e era verdade, que Aurelio Goes havia partido no comboio da tarde para Lisboa, á franceza, sem dizer adeus a ninguem, nem mesmo á pessoa que lhe havia emprestado o dinheiro para a coroa de louros.

Só duas pessoas, não que ellas o dissessem a ninguem, haviam tirado algum proveito d’essa mallograda récita.

A primeira era D. Estanislada que, graças ao estudante, ficára sabendo que, no sorteio de Troia, havia cahido em sorte ao sueco.

A segunda era o sueco que, na noite da récita, tinha offerecido um camarote de segunda ordem á senhora Magdalena e á menina Ricardina.

Pois que! A menina Ricardina soubera tecer a sua rede, e apanhou nas malhas o sueco. Foi com esse fim que ella o chamára para lhe fazer as confidencias que sabemos. Elle, encantado com tão boa fortuna, porque era essa a primeira portugueza que se lhe tornava accessivel, voltára na noite seguinte, e logo n’essa noite ficou estabelecido o galanteio.

A menina Ricardina contou á mãe que o sueco lhe tinha dito que queria desposal-a, e a sr.ª Magdalena, depois da filha lhe prometter queteria muito juizo, prometteu ao Senhor do Bomfimum sueco de cêra, se o namoro viesse a disparar em casamento.

Annunciada a récita, o sueco offereceu á namorada um camarote de segunda ordem, camarote de industria escolhido para dar pouco nas vistas: era de bôcca.

E logo que a sr.ª Magdalena e a filha se sentaram no camarote offerecido, o sueco, a proposito de saber se ellas queriam alguma coisa, foi visital-as, e ficou.

Sentou-se discretamente ao fundo do camarote, encantado com a mobilidade gracil com que Ricardina mexia a cabeça, olhando para um e outro lado como um passaro na gaiola.

Ella estava delirante de alegria por se vêr no theatro, coisa que já lhe não acontecia havia dois annos, desde que um rapaz, que tinha ido a banhos, lhe offerecera duas cadeiras no barracão dos Dallots para ella assistir com a mãe á representação daMão do finado.

Mas vêr-se de camarote, n’um espectaculo concorrido pelas melhores familias da terra e de fóra, estonteava-a d’alegria e de orgulho.

Quando principou a desencadear-se no palco a tempestade, que fez gorar o espectaculo, a menina Ricardina pôz-se de pé, como quasi toda a gente, e aproveitou a occasião para ir sentar-se, ao fundo do camarote, perto do sueco.

A mãe ficou muito entretida a vêr o escandalo do palco, sem dar a menor attenção ao escandalo do camarote. O sueco e a menina Ricardina, de mãos entrelaçadas, muito ternos, já se não importavam senão comsigo mesmos, indifferentes ao tumulto que de repente se havia levantado.

Entretanto D. Estanislada estranhava não vêr o sueco, porque, depois que o estudante lhe contáraa historia do sorteio, ella havia architectado um romance de amor internacional.

O sueco, na sua opinião, tomára a sério o sorteio, o sueco amava-a, e por isso o conselheiro. Antunes o tinha encontrado perto da casa de D. Enrique, com o que, como sabemos, ficára furioso.

Havia, é verdade, uma carta do sueco para Soledad, carta que D. Estanislada e o conselheiro abriram e leram, mas essa carta bem podia ser um habil disfarce do sueco para prevenir a hypothese de qualquer escandalo futuro.

Não fingira a principio o conselheiro, tambem habilmente, namorar Soledad para afastar suspeitas do seu galanteio com D. Estanislada? Pois muito bem! O sueco fazia o contrario, simulava namorar Soledad para se aproximar, sem dar nas vistas, do coração de D. Estanislada.

A hespanhola mãe principiava a sentir-se amada pela segunda vez em Setubal.

O sueco mal podia imaginal-o! Elle andava n’umas paschoas desde que possuia o coração da menina Ricardina. Já se não importava de Soledad, que seria mais bella, não o negava, mas não era tão accessivel, tão meiga, tão carinhosa para elle.

O theatro, n’aquella noite da récita mallograda, foi-se esvaziando, os espectadores sahiam fazendo commentarios em voz alta, rindo, só a sr.ª Magdalena, a menina Ricardina e o sueco se deixaram ficar para ser os ultimos a sahir.

Já começavam a apagar-se as luzes quando os tres desceram. E como a noite estivesse serena, posto não houvesse luar, o sueco convidou a sr.ª Magdalena a irem dar um pequeno passeio. Ella objectou que poderia ser isso reparado, mas a filha, vendo que a mãe não se entendia muito bemcom a aravia do sueco, replicou que não havia luar e que até fazia bem dar um passeio n’uma noite de verão: que bem encalmada saira ella do theatro. Calma d’amor, principalmente, porque o sueco, de mãos enlaçadas com a menina Ricardina, fizera subir o thermometro.

Foram caminhando até ao largo das Almas, e ahi metteram para o Campo do Bomfim, os dois adiante, a sr.ª Magdalena fiscalisando-os.

Contornaram o campo, e a sr.ª Magdalena, quando passavam em direcção á capella do Senhor do Bomfim,, não se dispensou de parar para rezar de longe á milagrosa imagem da sua especial devoção.

Foi n’essa occasião que o sueco roubára um beijo á menina Ricardina.

Estou a imaginar o que algum dos mais ingenuos dos meus leitores dirá comsigo mesmo: «Ah! o primeiro beijo! que delicioso momento de felicidade, esse!»

Perdão, leitor ingenuo! Não era o primeiro beijo que elle dava, mas o terceiro. Sim, o terceiro, um terceiro... franciscano, a julgar pela modestia com que passou dos labios do sueco para a face da menina Ricardina, como se passasse de uma cella para outra. Dir-se-ia que era um beijo de sandalias, porque passou sem fazer barulho.

Quando recolheram a casa, a sr.ª Magdalena disse á menina Ricardina:

—Não sei como tu te podes entender com o sueco!

—Por quê, minha mãe?

—Eu entendo muito pouco do que elle diz!

—Pois eu entendo-o perfeitamente...

Ó amor! ó lingua universal dos corações namorados! tu és a unica lingua que se póde aprendersem grammatica e sem diccionario! lingua de substantivos apenas, em que dois nomes proprios se juntam para formar o plural!

Todos os acontecimentos que se tinham dado nos ultimos dias haviam contribuido para diminuir e empallidecer a côrte de admiradores que, antes da chegada das Rodartes, acompanhava por toda a parte a bella andaluza.

Os dois alemtejanos, como dois corações patriotas, desertaram da côrte castelhana para a côrte portugueza, logo que o Alemtejo se viu soberanamente glorificado na pessoa das tres Graças da Messejana.

O sueco havia-se retirado para Cintra, segundo constava, quando Soledad fôra para Lisboa com o pae. Estava certamente contrariado pela concorrencia que lhe faziam os outros pretendentes á mão da bella andaluza. Ella propria pensava isto.

O conselheiro Antunes retirára-se para Santarem.

Depois da noite fatal da récita, o estudante e o jornalista desappareceram, abandonaram o seu posto de cortezãos.

Restavam apenas o hespanhol, o Vianninha e os officiaes de caçadores.

Já não haviatertuliaspossiveis, Soledad passava as noites sentada com a familia n’um banco da Praia, aturando ás vezes D. Ramon, outras vezes o Vianninha ou o tenente Epaminondas ou o alferes Ruivo, mas nada d’isso, que era pouco, podia contentar a sua alma de andaluza: atertulia, a queridatertulia, que tanto lhe electrisava os nervos, fazia-lhe muita falta.

Abrindo e fechando oabanico, aborrecia-se, chegava a bocejar. Tinha desesperos intimos, raivas surdas.

E, quando passava pela casa das Rodartes, e via luz nas janellas, uma revoltada emulação fazia brilhar, n’um relampago, as pupillas negras dos seus olhos.

—Ao menos as tres irmãs, as Rodartes, entretinham-se ás noites, ao passo que ella, rainha quasi desthronada, só tinha por futuro um banco da Praia e uma côrte cada vez mais reduzida.

Uma vez, com manifesto mau humor, perguntára Soledad ao tenente Epaminondas, ironicamente, se aquillo que havia ás noites em casa das Rodartes eramtertulias.

E o tenente, muito desdenhoso, respondera rindo:

—Quaestertulias! São os dois alemtejanos que estão a jogar o loto na côrte doPadre Eterno!

Mas Soledad, raivosa, mordera o beiço.


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