XIV

D. Ramon Mendoza, que era o hespanhol mais insipido de que ha memoria, não conquistára vantagens amorosas junto de Soledad.

Ella achava-o, como toda a gente, uma individualidade incolor, fugidia, d’estas que não deixam a ninguem uma impressão duradoira.

Apesar de vêr muito dizimada a sua côrte galante, Soledad não dava maior attenção ao hespanholito. Nem o coração nem a razão a impelliam para elle. O coração recebia-o com indifferença; a razão dizia a Soledad que, depois de ter tido um tão variado cortejo, seria um desaire recorrer áprata de casa,—a um patricio insignificante.

Sabendo que o sueco voltára a Setubal, lembrou-se de atiçar de novo a chamma do amor n’esse coração da Scandinavia, que tanta vez selhe havia rendido. Mas por onde andava elle, que lhe não apparecia?

Uma noite, tendo a familia Saavedra recolhido a casa, depois de passear na alameda da Praia, Soledad ficou por algum tempo á janella.

A noite estava calmosa, a casa era abafada, tinha apenas duas janellas. D. Enrique deitára-se, fôra para a cama lêr os jornaes hespanhoes que n’esse dia o correio lhe trouxera.

D. Estanislada andava, como sabemos, em reservada observação a respeito do sueco: se elle era um namorado timido, como suppunha, ella o alentaria com a sua audacia de abelha-mestra andaluza.

Deitado o marido, D. Estanislada abriu a outra janella da sala, a pretexto de tomar ar. Cada uma, mãe e filha, occupava sua janella. E ambas tinham o mesmo pensamento: vêr se o sueco, protegido pela noite, passaria por ali.

A menina Ricardina, por dentro da vidraça do seurez-de-chaussée, esperava tambem o sueco, e sentia-se contrariada pela presença das hespanholas, que pareciam não ter somno n’aquella noite.

A principio suppôz que mãe e filha estivessem apenas tomando o fresco, mas deram onze e meia no relogio de S. Julião, deu meia noite, e ellas não sahiam da janella.

A meia noite era a hora marcada para a entrevista do sueco com a menina Ricardina. A sr.ª Magdalena dormia profundamente a essa hora. A filha levantava-se do leito, abria cautelosamente a janella, vinha esperar, no silencio da noite, o sueco. Mas n’aquella noite, vendo as hespanholas, ficára por dentro da vidraça, espreitando-as.

Á meia noite em ponto—a pontualidade em tudo é uma caracteristica das raças do norte—osueco assomou á esquina da rua, que julgava deserta a essa hora, segundo o costume.

Viu porém gente nas duas janellas da casa de D. Enrique, e fechada a vidraça de Ricardina.

Ficou por sua vez contrariado, perplexo, sem saber se havia de retroceder ou de avançar. Coseu-se com a sombra do muro, parou, indeciso.

N’esse momento tres corações de mulher monologaram simultaneamente.

O coração de Ricardina:

—É elle!

O coração de Soledad:

—É elle!

O coração de D. Estanislada:

—É elle!

O sueco observava de longe, via dois vultos de mulher nas janellas da casa de D. Enrique, sem comtudo poder distinguil-os. Mas um d’esses vultos havia de ser, certamente, o de Soledad, e então aviventou-se no coração do sueco o rescaldo da agradavel impressão, que a belleza d’essa mulher lhe havia causado.

Ella era realmente formosa, tinha uma graça acirrante, uma graça meridional, que punha em vibração os nervos de todos os homens, especialmente os de um homem do norte.

Mas Ricardina, sem ser tão bella, nem tão graciosa, sabia melhor talvez conquistar e deixar-se conquistar. As pequenas felicidades que Ricardina já lhe havia concedido, eram o prologo tentador de uma promessa, e não ha homem nenhum, seja do norte ou do sul, que se não sinta vibrante a dois passos de uma posse sem restricções.

Estava, pois, o sueco ardendo em dois fogos, e muito longe de imaginar que um terceiro incendio o ameaçava de perto. Esse terceiro incendio era D. Estanislada.

De repente, olhando do escuro para a casa de D. Enrique, viu mexer-se n’uma das janellas um lenço branco.

Era o lenço de Soledad.

D’ahi a momentos, na segunda janella, outro lenço branco passou cavillosamente pelas narinas de D. Estanislada.

Elle viu tudo isto, e, sem poder reconhecer Soledad nem D. Estanislada, ficou cada vez mais desorientado.

Lembrando-se de que Ricardina, comquanto tivesse a janella fechada, o devia estar esperando, olhou para orez-de-chaussée, e viu uma ponta de lenço assomar por baixo da vidraça e logo desapparecer.

Sem saber o que fizesse, deixou-se estar no escuro, esperando os acontecimentos.

D’ahi a pouco, um lenço branco cahiu de uma das janellas de D. Enrique para a rua, e ouviu-se descer uma vidraça.

Era Soledad que ia deitar-se e que, disfarçadamente, para que a mãe não désse por isso, tinha deixado cahir o lenço como de um balcão da idade média.

D. Estanislada, a quem não era facil enganar, viu a manobra do lenço da filha e, mal ella voltara costas, fez o mesmo, com mais algum descaramento: agitou o lenço e deixou-o cahir á rua. Depois fechou com estrondo a janella.

D. Enrique, que, tendo passado pela vista os jornaes, já dormitava, accordou ouvindo o barulho da vidraça; teve um estremecimento nervoso e regougou:

—Que broma!

Voltando-se para o outro lado, tornou a pegar no somno.

O sueco ainda esteve cerca de um quarto dehora alapardado no escuro, mas, vendo abrir-se a janella de Ricardina, sahiu da sombra, sem todavia perder de vista os dois lenços brancos, que estavam no chão.

Quando elle se approximava dorez-de-chaussé, sentiu abrir-se cautelosamente a porta da sr.ª Magdalena.

Um fremito de electricidade amorosa percorreu todo o seu corpo; n’aquella noite o amor triumpharia sem restricções, pensou elle.

Mas Ricardina atravessou rapidamente a rua, com um passinho de passaro, apanhou os dois lenços que estavam no chão debaixo das janellas das hespanholas, e correu para casa.

O sueco, sem saber a façanha gloriosa de Martim Moniz no castello de Lisboa, ia a imital-o por intuição, quiz atravessar-se na porta, para entrar, mas Ricardina empurrou-o com desabrimento, dizendo iracunda:

—Não! nunca!

E fechou a porta da rua. Depois fechou as portas da janella.

E o sueco achou-se em plena rua, cada vez mais atarantado, sem perceber nada de tudo aquillo.

Ricardina estava como uma bicha contra o sueco, contra as hespanholas, contra o enguiço d’aquella noite.

Jurava vingar-se de tudo e de todos, e, tendo visto cahir os lenços, quizera adquiril-os como prova da leviandade de Soledad e de D. Estanislada. Percebera, com a sua aguda intuição maliciosa, a comedia representada pela mãe e pela filha, procurando enganarem-se uma á outra.

A primeira ideia de Ricardina foi lançar mão de todos os meios que podessem libertal-a da visinhança das hespanholas: lembrou-se de mandaros lenços a D. Enrique, dentro de uma carta anonyma, em que lhe explicasse o que se tinha passado.

Mas receando ir provocar uma tragedia domestica—como ella conhecia mal D. Enrique!—resolveu, por fim, enviar á filha o lenço da mãe, enviar á mãe o lenço da filha, descobrindo o plano de ambas, e ameaçando-as com uma denuncia.

Assim fez. Chamou um rapasito que tinha andado com ella na escóla, e encarregou-o de escrever as duas cartas, e de sobrescriptal-as.

A D. Estanislada dizia:

«Ahi vae o lenço que a senhora sua filha atirou hontem ao sueco, pensando que usted não dava por isso. Tenha tento na bola, quando não eu aviso o seu homem, e espalho em toda a cidade este grande escandalo. O melhor é safar-se d’aqui quanto antes.»

Para Soledad o texto era este:

«A senhora sua mãe, logo que usted fechou hontem a janella, atirou ao sueco este lenço, que lhe mando. Veja usted que tem dentro das portas a sua primeira rival. Aconselho-a, se quizer evitar um grande escandalo, a que trate de sahir de Setubal».

Ricardina esperou que D. Enrique sahisse de casa, para mandar entregar, pelo mesmo rapasito, as duas cartas, com os lenços dentro.

O expediente surtiu effeito, porque n’essa noite não se abriram as janellas da casa de D. Enrique.

O sueco, ao dar da meia noite, foi, muito timidamente, procurar uma reconciliação com Ricardina.

Viu a janella fechada, mas, perdendo um pouco a timidez, aproximou-se da vidraça: Ricardinaestava n’uma posição estudada, com o rosto apoiado na mão direita, olhando para o céo onde a lua passava entre nuvens.

O sueco bateu com os dedos na vidraça, e Ricardina, que lhe seguia disfarçadamente os movimentos, fingiu despertar, sobresaltada, da sua apaixonadaréverie. Encarando com o sueco, fez um movimento de desdem, e recahiu em simulada contemplação.

Elle pôz as mãos como supplicando-lhe que levantas-se a vidraça.

Ricardina, mostrando-se contrariada, abriu a janella e perguntou-lhe de repellão:

—O que quer o sr. de mim? Ainda tem cara de me apparecer aqui?!

O sueco desculpou-se: que sim, que tinha cara, porque tinha coração. Que a amava muito. Que na vespera não quizera aproximar-se para a não comprometter. Que não tinha culpa de que as hespanholas—e n’isto teve graça—se lembrassem de fazer d’elle lavadeira, dando-lhe lenços para lavar.

Ricardina mostrou-se resentida, ciumenta, e não quiz dizer n’essa noite a sua ultima palavra de perdão. Era uma tactica habil, para subjugar o sueco, para o obrigar a reconquistar o terreno perdido.

Por dentro dos vidros, ás escuras, Soledad e D. Estanislada tinham vindo, cada uma por sua vez, espreitar para a rua, na esperança de que o sueco voltasse.

Ambas o viram: Soledad surprehendeu-o n’uma attitude comica, a implorar de mãos postas á menina Ricardina que levantasse a vidraça. Ficou indignada, não tanto pela attitude humilhante d’elle, como por ter a certeza de que lhe roubavam...mais um.

D. Estanislada, a quem a filha não fallava desde pela manhã, deixou-a deitar para vir pé-ante-pé espreitar por dentro dos vidros.

Reconheceu facilmente a corpolencia do sueco, dobrado sobre a janella de Ricardina.

—Ai! pensou D. Estanislada, que elle namora a lambisgoia da filha da senhoria! Estou bem arranjada com maus visinhos de ao pé da porta! O melhor é tratar de pôr-me ao fresco, porque eu já fiquei desconfiada quando n’aquella noite, em que cá esteve o conselheiro, a tal menina Ricardina deixou cahir o annel debaixo da meza!

E reflectindo um instante:

—Ai! que foi ella que bateu e gritou á porta!

No dia seguinte, á volta do banho, quiz o acaso que as duas hespanholas encontrassem o sueco. Elle ia para cumprimental-as, quando Soledad, que levava grande dianteira á mãe, lhe disse bruscamente:

—Picaro!

Sem ter percebido bem o que Soledad dissera, mas reconhecendo em todo caso que ella quizera insultal-o, atordoado, indeciso, levou a mão ao chapeu quando passava junto de D. Estanislada.

E ella, sem parar, disse-lhe altivamente:

—Infáme!

Ás sete horas da manhã, Araujo Rodarte e as suas tres netas sahiram, como de costume, para o banho.

Atravessaram o passeio da Praia de Troino, riscado havia tres annos. Os eucalyptos haviam crescido com a precocidade que caracterisa o desenvolvimento d’estas arvores, de modo que abrigavam uma legião de passaros, cuja chilreada era como que um doce concerto matutino.

Sobre o lago, e nas seis extensas avenidas que do lago irradiam, algumas borboletas passavam, batendo, na palpitação da luz, as suas azas brancas.

Um rapasito, que vinha de levar o almoço ao pae, empregado na Doca, havia poisado a cafeteira sobre a borda do lago, e, de joelhos, brincava mettendo as mãos na agua, agitando-a, para fazer turbilhonar os peixes vermelhos.

As Rodartes e o avô sentaram-se alguns momentos em dois dos bancos que torneam o lago, porque o sol ia descobrindo, e era agradavel aos banhistas, na travessia de casa para o banho, descansar na frescura d’aquelle oasis.

Depois cortaram na direcção da praia, a que faltava o pittoresco das praias do norte do paiz, onde os arruamentos das barracas alvejam garridamente.

Em Setubal o systema seguido é o do wagon e o da prancha. Os banhistas despem-se e vestem-se nos compartimentos do wagon, e mergulham na agua agarrados á prancha. Osmironesaproveitam a sombra escassa do wagon para sentar-se a gosar o espectaculo da praia.

Salomé e o avô, que não tomavam banho, sentaram-se á sombra, emquanto Hilda e Maria Ignez foram fazer a suatoilettebalnear.

O Sado estava tranquillo e diamantino. Alguns golfinhos davam saltos, ao largo, n’uma folia declownsaquaticos.

Sobre a abertura da barra a luz cahia em jorros doirando o mar, e a torre do Outão, com os seus contornos duros, dava relevo á margem direita do Sado.

A concorrencia de banhistas era, áquella hora, diminuta. Uma creança, nos braços do banheiro, gritava como possessa, e outra creança, de sete a oito annos, mettida dentro d’agua, ria de vêr chorar a outra, e chapinhava-a saracoteando-se no banho. Uma hespanhola gorda, agarrada á prancha, resfolegava como uma phoca. E um padre, de camisola de malha, fazia ensaios de natação inhabil, arrastando-se na ondulação da agua até ir esbarrar na areia.

Araujo Rodarte e Salomé estiveram um momento calados, até que, de repente, disse elle á neta:

—Admira não estarem cá hoje os nossos patricios!

—Foram a Lisboa tratar de negocios, segundo disseram ás manas, respondeu Salomé.

E o velho, com ar de alegre ironia, observou:

—Como ellas andam bem informadas!

Salomé sorriu-se.

—Sempre quero vêr—disse o Rodarte após um momento de silencio—se aquellas duas senhoras—referia-se a Hilda e Maria Ignez—terão coragem para me fazer alguma traição!...

—Alguma traição?!

—Sim, se terão coragem para me deixar só comtigo na Messejana!

—Não pense n’isso, avôsinho.

—Dizes tu que não pense n’isso! Mas em que hei-de eu pensar senão em vocês! Que tenho eu que me prenda agora mais no mundo?! A velhice não me tornou ainda tão tolo, que não perceba o que é um namoro. Lá de que as tuas irmãs são requestadas pelos nossos patricios, já não posso eu duvidar. E não me revolta isso, mas entristece-me. Sempre vos tenho dito que não tenhaes pressa de casar, sobretudo de casar mal, porque estaes habituadas a viver bem; mas não posso levar a minha exigencia até ao ponto de vos querer para freiras. Que anda moiro na costa, é certo, e que os dois nossos patricios são pessoas estimaveis, e maridos convenientes, não é menos certo. Mas o que me entristece é o receio de vêr desfeito de um dia para o outro o nosso pequeno grupo de familia, indo a Hilda para Reguengos e a Maria Ignez para as Alcaçovas. Ficaremos nós, como dois solitarios, no casarão da Messejana. E tu, Salomé, e tu, que noticias me dás do teu coração?...

—Nem o sinto! respondeu, sorrindo, Salomé.

—Pareceu-me que o pateta do Vianninha pretendia fazer-te a côrte...

—Sim... talvez. Perdia o tempo.

—Já anda desilludido, porque apparece menos. Era um mau casamento, porque é sempre um mau casamento aquelle em que se conquista uma supposta felicidade á custa da infelicidade de outrem. O pateta tem feito soffrer a Sequeira, que se apaixonou por elle, e que podia empregar-se melhor. E o ratão do sueco! o que é feito d’elle?

—Creio que andará arrastando a aza áseñorita. Não o tenho visto.

—Grande aza deve ser, se fôr proporcional ao hombro! Olha lá: o hespanholito?

—D. Ramon?

—Sim.

—Deve andar com os seus patricios. Tambem o não tenho visto.

—De toda essaala dos namoradosque ahi appareceu tão galharda, apenas se salvaram talvez dois cavalleiros andantes.

—Quaes, avôsinho?

—Quaes! Os que combatem por tuas irmãs, e que m’as querem levar, cada um para sua terra differente...

N’este momento Hilda e Maria Ignez, vestidas para o banho, sahiram do wagon.

São raras as mulheres que conseguem triumphar de uma tão desgraçadatoilette: blusa e calção de flanella. Mas principalmente Hilda, graças á sua correcta plastica, livrava-se do ridiculo datoilette. O relevo do seio, accentuado sem exagero, aformoseava-lhe o busto.

Sentindo-as fallar, o avô gritou-lhes logo:

—Não apanhem sol, meninas!

—Já vamos, avôsinho, já vamos, responderam ellas quasi simultaneamente.

E, dando as mãos uma á outra, saltaram da prancha ao mesmo tempo, fazendo agitar a agua, que salpicou a prancha e ainda o wagon.

Rindo e mergulhando, o banho foi para ellas, como sempre, uma folia quasi infantil.

Araujo Rodarte, ouvindo-as, ficou pensativo, calado. O seu espirito fixou-se n’um pensamento, que, momentos antes, havia revelado a Salomé: queriam roubar-lhe aquellas duas netas, e entristecia-o o lembrar-se que tinha de separar-se d’ellas.

Estavam ainda as duas Rodartes no banho, quando chegaram á praia o alferes Ruivo e o tenente Rosalgar, que não deixavam nunca, todas as manhãs, de ir dár uma vista de olhos ás banhistas.

Desde o mallogrado espectaculo daNoite sinistra, aquelles dois officiaes, bem como o tenente Epaminondas, ficaram sendo conhecidos no caféEsperançapelos nomes dos personagens que na peça lhes haviam sido distribuidos.

Assim, por isso que as alcunhas se tinham já divulgado, podemos dizer queD. Fafes EstorninhoeD. Gualter Byscaiaestão sobre o wagon, conversando com Araujo Rodarte e Salomé, sem comtudo deixarem de dar attenção ao banho de Hilda e Maria Ignez.

—Parece-me, disse aos dois Araujo Rodarte, que ainda não tinha tido o gosto de os vêr desde aquella noite....

—AquellaNoite sinistra! atalharam ambos os officiaes, fazendo allusão ao titulo da peça, e rindo ás gargalhadas.

—Foi pena que tivessem tanto trabalho!

—Tudo aquillo divertiu, respondeu o alferes Ruivo. Divertiu mais ainda, talvez, do que se se tivesse preenchido todo o espectaculo. E deixourecordações alegres para muito tempo! Sabem v. ex.ᵃˢ uma coisa? Desde aNoite sinistraeu passei a ser conhecido porD. Gualter Byscaia, e aqui o tenente porD. Fafes Estorninho.

—Tem graça! observou Araujo Rodarte.

Os dois officiaes continuaram a rir, enviezando o olhar para Hilda e Maria Ignez, que sahiam do banho, subindo á prancha.

—Mas, disse Salomé, ainda entrava tambem um collega de v. ex.ᵃˢ....

—Era o Epaminondas, minha senhora, respondeu o tenente Rosalgar. Esse é oD. Diogo Cucufate.

Salomé e o avô riram.

—E a comedia do Goes parecia ter algum merecimento. Foi pena que não chegasse ao fim! disse Araujo Rodarte.

—Pena especialmente para o Lemos—observou o alferes Ruivo—que nunca foi egualado em tamanha desgraça por nenhum Talma amador!

—Pobre rapaz... e pobre pae! reflexionou Araujo Rodarte.

—Eu nunca vi apanhar tanto pontapé! atalhou o tenente Rosalgar.

—E como o Julio, accrescentou o alferes, largou a fugir vestido de mulher, galgando dois a dois os degraus da escada até se vêr na rua!

—O que lhe valeu foi não tropeçar no vestido! commentou o tenente.

—A D. Estanislada esteve em risco, disse o alferes, de perder uma das melhores peças do seu guarda-roupa.

—Não! Quem perdeu a peça foi o Goes. A peça e a gloria!

Riram todos muito com esta observação do tenente Rosalgar.

E d’ahi a momentos o alferes:

—A gloria e... a coroa!

—O que é isso da coroa? perguntou Araujo Rodarte.

—Ah! Pois v. exc.ᵃˢ não sabem? O Goes tinha mandado vir de Lisboa uma coroa de louros para se coroar a si proprio!

—Sim?! perguntou Salomé.

—Sim, minha senhora, explicou o alferes. Ora o melhor da passagem é que foi o Marcolino, marcador do caféEsperança, quem emprestou ao Goes o dinheiro para pagar a coroa, e parece que está resolvido a rifal-a para vêr se salva o emprestimo.

—Isso tem muita graça! apostrophou Araujo Rodarte. Eu recebi lá em casa a importancia do meu camarote. Se soubesse que se rifava a coroa, tinha reservado essa quantia para me habilitar a ser coroado, perorou o velho rindo.

—O administrador do concelho, de combinação com o presidente do conselho director do Asylo, resolveu, visto que o espectaculo não chegou a ultimar-se, mandar restituir aos espectadores a importancia das respectivas entradas. Mas o Marcolino fez justiça por suas proprias mãos: vendo a coroa dependurada no camarim do Goes, deitou-lhe a mão, para não perder tudo, e vae rifal-a.

—Uma acção bonita, alvitrou o tenente Rosalgar, era comprar um bilhete da rifa em nome de Bocage, que tem mais direito á coroa do que o Goes.

—Não! eu cá, se me sahir o premio, disse o alferes, faço presente da coroa á tia Felismina do hotel Escoveiro: ao menos, durante um semestre, não nos ha-de faltar louro na comida.

—Pois o melhor de tudo, observou AraujoRodarte, era mandar de presente a coroa ao rapaz, porque lhe póde servir para outra vez.

—N’essa não cáe o Marcolino!

D’ahi a pouco mais de dez minutos, Hilda e Maria Ignez sahiam do wagon.

O Rodarte e as netas despediram-se dos dois officiaes.

E o alferes Ruivo ficou dizendo ao tenente:

—Ellas vinham do banho um appetite!

—Ó filho, a Hilda é uma mulher de truz! e a outra não é nenhuma asneira tambem!

D. Estanislada principiou a pensar na conveniencia de sahir de Setubal.

Desde o momento em que uma pessoa d’aquella terra possuia dois dos seus segredos amorosos, conhecia a historia das suas leviandades internacionaes, um pouco serodias, só restava á delinquente fazer ablativo de viagem, para evitar a atoada do ridiculo.

D. Enrique incommodava-a menos que o ridiculo. Não era do marido que receava, mas das más linguas, que n’uma terra pequena ferem mais, porque mordem de perto.

Indignava-a o preconceito social que impõe ao coração humano o dever de esfriar antes de morrer. Segundo as praxes estabelecidas, uma mulher de vinte annos póde ter vinte namoros. Acha-se isso muito natural, e diz-se d’essa mulher com um certo ar de desculpa: «É alegre». Mas se uma mulher de quarenta annos tiver dois namoros, toda a gente a censura, e a opinião publica não faz senão gritar por toda a parte: «É devassa».

Ora a boa logica ensina que a mulher de quarenta annos tem menos tempo para viver do que a mulher de vinte. Rasão é esta para aproveitar o tempo, para se despedir da vida, que já não póde ser longa.

A propria natureza intercallou o dia natural, que é um symbolo da existencia humana, entre dois crepusculos, o da manhã e o da tarde. Porque ha de pois ser negado ao coração o direito de ter dois momentos de brilho e de calor, dois crepusculos amorosos, que abram e fechem a existencia?

D. Estanislada achava profundamente odiosa e absurda a fiscalisação que a sociedade exerce com a mulher casada. Se o marido não vê ou não quer vêr, para que ha de a bisbilhotice malevola emprestar-lhe os oculos da moralidade?

D. Enrique não era um Othello, nunca o fôra. Se lhe dissessem alguma coisa em desabono da esposa, encolheria desdenhosamente os hombros, limitar-se-ia certamente a dizer:Es una broma!

Com que direito vinha a menina Ricardina substituir-se a D. Enrique para o effeito da moralidade?!

Então D. Estanislada havia casado com D. Enrique, e era a menina Ricardina quem fiscalisava, sem procuração de D. Enrique, a fidelidade conjugal de D. Estanislada!

De mais a mais, a menina Ricardina podia esperar que a mãe se deitasse, para vir á janella conversar com um homem, e a D. Estanislada não era permittido que, estando o marido a dormir, fizesse exactamente a mesma coisa?!

Em conclusão: D. Estanislada achava o mundo mal organisado, e estava disposta, não a concertal-o, mas a illudil-o.

Ora desde que a menina Ricardina, má visinha de ao pé da porta, sabia tudo, era impossivel illudil-a: convinha, portanto, ir tentar melhor fortuna n’outra região onde a illusão podesse florescer mais desafogada d’espiões.

Pensando na resolução de todos estes problemas, que de perto a interessavam, e reconhecida a impossibilidade de regressar desde logo a Hespanha, cujo estado politico continuava a ser o mesmo, D. Estanislada lembrou-se, com certa saudade, do conselheiro Antunes.

Elle amara-a, déra-lhe provas d’isso; só tinha o defeito de ser, como todos os portuguezes, na opinião de D. Estanislada, muito timido. Mas sendo timidos os portuguezes, sendo esse o seu natural, não havia encontral-os melhores. E, timidez por timidez, o conselheiro já estava experimentado, gostava d’ella.

O mesmo foi lembrar-lhe o conselheiro e, como ideia associada, Santarem, onde elle vivia.

Fez pois tenção de aconselhar o marido a sahir de Setubal, cidade insipida, que mais insipida ficaria ainda depois de encerrada a estação balnear.

Não consultou, sobre este projecto, Soledad, que, como já n’outras occasiões tinha acontecido, andava amuada com a mãe. Tambem Soledad parecia rezar ás vezes pela cartilha da sociedade, e resentir-se de que a mãe não sacrificasse em sua honra os ultimos clarões da belleza que declinava.

Não era porque Soledad amasse o sueco. Mas o seu brio de hespanhola revoltava-se contra a ideia de que todos pretendessem roubar-lhe admiradores, até sua propria mãe.

Soledad olhava para oabanico, que com tantosalerorequebrava, e parecia-lhe que era comoque uma espada partida na mão de um conquistador.

Cuidava ouvir dizer-lhe oabanico:

—Soledad, flôr da Andaluzia, tanto me tens incommodado, abrindo-me e fechando-me, fazendo-me bailar na tua mão nervosa, como n’umbolerosem fim, e o que tens tu, bella Soledad, conseguido com isso? Os teus admiradores vão desertando uns após outros; tu, que a principio timbraste em mostrar-te altiva e incomprehensivel, porque te imaginavas inegualavel, tens visto fazer-se em roda de ti a solidão das realezas decahidas, a solidão da ilha de Santa Helena, onde se abateu o maior orgulho humano. As Rodartes foram mais felizes do que tu, e comtudo não dispõem dos teus recursos de hespanhola, dosaleroe doabanico, dois irmãos gemeos, que fazemos estremecer os corações. Os leques de que ellas usam foram comprados alli na Praça do Bocage, na loja do Trindade, e são semsaborões como todos os leques portuguezes, ao passo que eu, apesar de haver uma republica hespanhola, continuo a ser o rei das Hespanhas,—a alma do Cid recortada sobre uma folha de papel. Até a Ricardina te roubou o sueco: és, pobre de ti! como o leão moribundo, a quem as Ricardinas injuriam. Desperta, altiva flôr da Andaluzia, readquire o teu orgulho de raça, volta as costas a este mundo prosaico, onde só parece haver sal nas marinhas, e vai procurar n’outra parte os triumphos, as homenagens a que a tua belleza te dá direito.

Soledad ouviu oabanicoe deu-lhe credito, como todas as hespanholas. Por isso, quando D. Enrique, já meio convencido por D. Estanislada, fallou um dia em transferirem-se para Santarem, Soledad pareceu apoiar esse projecto, que lhepromettia uma vida mais alegre do que a de Setubal.

O Marcolino, marcador do caféEsperança, perguntou a D. Enrique se queria ficar com um bilhete para a rifa da coroa de louros.

E o hespanhol, muito desdenhoso, respondeu-lhe que não, porquese iba a marchar.

—Para Hespanha? insistiu o marcador.

D. Enrique zangou-se: que para Hespanha só voltaria com a realeza dos Bourbons.

E o Marcolino, que foi o primeiro republicano que pimpolhou em Setubal, respondeu-lhe mentalmente:

—Tens que esperar!...

Mas saber o Marcolino uma noticia era o mesmo que sabel-a todo o caféEsperança, e, dentro de algumas horas, toda a cidade de Setubal, e, dentro d’alguns dias, as aldeias de Azeitão e a povoação de Palmella.

—Que D. Enrique seiba a marchar, dizia-se, espalhava-se.

No caféEsperançaapertavam D. Ramon Mendoza, troçavam-n’o, perguntavam-lhe se elle não fazia valer os direitos que a sorte lhe concedera; que casta de hespanhol era elle, que deixava fugir, sem a ter ferido no coração, a sua bella patricia?

E D. Ramon, muito indifferente, muito insôsso, pedia gazoza, e respondia sorrindo:

—Que santos de casa não fazem milagres.

Não tardou a chegar ao conhecimento da menina Ricardina a noticia de que a familia Saavedra ia retirar-se. Ricardina ficou contentissima, e a sr.ª Magdalena não o ficou menos, porque havia arrendado a casa por seis mezes a D. Enrique, e poderia alugal-a ainda outra vez, para aproveitar o resto da estação balnear.

Ricardina, na esperança de que a noticia fosse verdadeira, achou que devia tratar o sueco de modo a desvial-o de Soledad, sem comtudo se alargar em concessões, que o satisfizessem.

Assim foi que se mostrou menos crua para elle: abriu a janella, e permittiu-lhe que a beijasse nas mãos.

—Só nas mãos, porque, dizia ella, não podia confiar n’elle.

O sueco pretendeu mais uma vez justificar-se, e contou a Ricardina a scena que tivera com as hespanholas, que não só o não cumprimentaram, mas até o mimosearam com epithetos offensivos.

—O sr. é que tem a culpa de tudo isso! disse-lhe Ricardina continuando a fingir-se ciumenta.

—Eu! nó! respondeu elle com uma convicção muito guttural.

—Pois quem! O sr. andava a acolytal-as a ambas, á mãe e á filha, e não queria levar com as galhetas na cara!

O sueco percebeu pouco d’esta metaphora, que Ricardina aprendera nos habitos devotos, egrejeiros da mãe.

E ella, muito tagarella, continuára moendo palavras:

—Sabe o sr. o que deve fazer agora?

—Nó saberr!

—Vá para onde ellas forem. O que lhe importa o negocio do sal? Mais vale um gosto na vida que seis vintens na algibeira.

—Nó! Nó! respondia o sueco com uma bonhomia babosa.

Elle já estava habituado a que Ricardina o tratasse por tu, tratamento carinhoso, que nunca mais havia recebido desde que sahira da Scandinavia, e todo o seu ideal consistia agora em conseguirque ella voltasse a empregar esse terno vocativo.

Mas Ricardina, muito arteira, obstinava-se em tratal-o porsenhor, sem o repellir, é certo, mas sem o acarinhar como antes d’aquella fatal noite dos dois lenços.

Um namorado meridional haveria, decerto, feito uma scena de ciumes, diria a Ricardina que, pois que ella assim o aconselhava, seguiria as Saavedras para onde quer que ellas fossem, mas um homem do norte, muito calmo, muito pacifico, não encontra no seu temperamento a facilidade de representar no amor o drama tempestuoso.

Quando o sueco se despedia de Ricardina, beijando-lhe outra vez as mãos, ia resignado a esperar que o diluvio passasse e que o arco da alliança brilhasse sobre os ultimos destroços do diluvio.

Depois, chegando aohotel Escoveiro, dois copinhos deKirsch-wasseradormeciam-n’o n’uma serena esperança de que Ricardina voltaria a ser a mesma.

E, por entre os fumos doKirsche do cachimbo, pensava elle:

—Que voltas que o mundo dá! Quem me havia de dizer a mim que estimaria ainda a ausencia de Soledad!

E o cachimbo ia-se apagando, e o sueco adormecia tranquillamente...

Dentro de tres dias a familia Saavedra preparou as suas malas para sahir de Setubal.

D. Enrique andou fazendo despedidas e partiu para Santarem primeiro que a mulher e a filha: ia alugar casa. Lá estava o conselheiro Antunes para n’esta e outras tarefas lhe servir de Cyreneu...

A mãe de Soledad dizia a quem a queria ouvir que apenas levava saudades do peixe-espada. Soledad mostrava-se muito contente com a mudança de terra.

No caféEsperançacommentava-se esta subita retirada da familia Saavedra, e attribuia-se a duas causas principaes: a attracção que, de Santarem, o conselheiro Antunes exercia no coração de D. Estanislada, e a emulação de Soledad pela concorrencia das Rodartes no amor.

Ablaguenão poupava D. Enrique, que, segundo se dizia, ia metter-se na boca do lobo: o lobo era, n’este caso, o conselheiro Antunes.

Quanto ás Rodartes, a opinião publica elogiava-as pela modestia com que se apresentavam: se ellas tinham prejudicado o prestigio de Soledad, não era porque houvessem concorrido acintosamente para isso.

Fôra uma serie de fatalidades imprevistas que apeiára Soledad do pedestal em que nos primeiros tempos se enthronisou. Todos os grandes imperios desabam, segundo a lei fatal da Historia: Soledad teve a mesma sorte dos grandes imperios.

Era certo, já toda a gente o sabia, que o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas estavam namorados de Hilda e Maria Ignez, mas não fôra porque ellas os disputassem encarniçadamente a Soledad, nem porque se salientassem em garridices espectaculosas.

OPadre Eterno, como geralmente se chamava a Araujo Rodarte, era um velho sympathico, que a opinião publica respeitava, e mais ainda o respeitou, quando se tornou conhecido um facto em que o seu nome se achou envolvido.

O Sequeira, negociante, fôra visitar o Rodarte e descrevera-lhe, com lagrimas nos olhos, o estado da filha, cuja vida perigava, porque a infeliz menina, apaixonada pelo Vianninha, passava dias encerrada no seu quarto, chorando, sem querer vêr ninguem.

Commoveu-se o velho Rodarte da angustia de um pae, cujo coração a dôr dilacerava.

—Mas, dissera Araujo Rodarte ao Sequeira, porque não procura ter uma conferencia com o Vianninha, a fim de que elle cabalmente se explique sobre as suas intenções?

—Não posso, sr. Rodarte, respondera-lhe o Sequeira. Não posso. É superior ás minhas forças o ter que pedir a um homem que corresponda ao amor de minha filha, sobretudo quandoesse homem se deveria julgar muito feliz em desposal-a.

Araujo Rodarte ficou pensativo durante alguns momentos, e disse depois:

—Tem rasão, sr. Sequeira. Mas eu acho que o Vianninha não é senão um doidivanas, que gosta de se divertir sem criterio. Succede isso a muitos moços. São raros até os que pensam de outro modo.

—Depois que veiu para ahi essa maldita hespanhola foi que elle, suciando com o Lemos e com o tal jornalista de Lisboa, principiou a despresar a minha filha.

—A hespanhola, sr. Sequeira, não tem culpa de ser bonita, nem de haver sido educada á maneira do seu paiz. Sabe v. s.ª perfeitamente que os costumes hespanhoes dão maior liberdade á mulher do que entre nós. Se uma menina portugueza andasse constantemente seguida por um cortejo de admiradores, seria isso reparado e censurado. Mas em Hespanha vive-se muito ao ar livre, na rua, e são admittidas liberdades que em grande parte resultam d’esse teor de vida. Olhe, eu, quando aqui cheguei, condescendi em ir a umpic-nic, porque julguei que seria essa uma festa tão pacata como as do meu Alemtejo. Quando lá me vi, arrependi-me muito de ter acceitado o convite, e arrependi-me, sobretudo, porque, além das minhas netas, apenas havia duas senhoras, a mulher e a filha de D. Enrique, cujos habitos de educação brigavam naturalmente com os de tres pobres meninas nadas e creadas, longe da sociedade, n’um canto do Alemtejo. Fiz logo tenção de me afastar o mais que podesse, não por falta de confiança em minhas netas, mas para evitar que ellas andassem nas bôccas do mundo. Este meu procedimento não foi ditado por orgulho oupor qualquer outro sentimento de altivez pessoal. Foi prudencia, foi experiencia do mundo... Mas vamos ao caso do Vianninha. Acho justas as rasões pelas quaes o sr. Sequeira não quer ter explicações com elle. Comtudo, se a isso me auctorisa, e se isso deseja, poderei eu tel-as.

—Ó sr. Rodarte! grande favor me faria encarregando-se d’essa missão, procurando salvar minha filha de uma vida tormentosa, a que a morte porá termo em breve, certamente.

Afogaram-se em lagrimas os olhos do Sequeira, e nos olhos de Araujo Rodarte tambem passaram lagrimas.

Despediram-se os dois cordealmente.

Araujo Rodarte, não querendo dar a saber a Salomé o motivo d’aquella entrevista que tivera com o Sequeira, mandou recado ao seu banheiro para que lhe fosse fallar. Não podendo escrever elle proprio, quiz evitar que Salomé tivesse de escrever ao Vianninha solicitando uma audiencia para o avô.

Pelo banheiro mandou Araujo Rodarte dizer ao Vianninha que esperava dever-lhe o obsequio de lhe dispensar dois momentos de attenção.

Logo que sahiu da repartição de fazenda, o Vianninha foi procurar Araujo Rodarte.

Houve quem o visse entrar para lá, e envenenasse o facto, espalhando logo que o Vianninha requestava Salomé, a unica das tres irmãs cujo coração era considerado devoluto.

Araujo Rodarte expoz com bondosa gravidade os motivos d’aquella entrevista, desculpando-se com a sua auctoridade de velho para intervir n’um assumpto que não lhe dizia directamente respeito.

—Trata-se, explicou, da menina Sequeira. Conheço a familia d’essa pobre menina, cuja vida corre perigo, e cuja felicidade e salvação consistiriaem poder ser esposa do sr. Vianna. Peço-lhe, pois, que me diga, por attenção para com a minha edade, quaes são as suas intenções a este respeito.

O Vianninha ficou surprehendido com a interpellação:

—As minhas intenções, sr. Rodarte! Eu digo a v. ex.ª o que posso dizer sobre o assumpto: Adelaide e eu fomos creados juntos, paredes meias, porque nossos paes eram visinhos. Viamo-nos a toda a hora, e habituámo-nos a ser amigos um do outro. Mas pensava eu que Adelaide apenas tinha por mim o sentimento que eu tinha por ella,—simples estima, nada mais. E tanto isto é verdade, da minha parte, que eu tive passageiros namoros com outras meninas. É certo, porém, que eu sabia que Adelaide se contrariava com isso. Amuava, deixava de me fallar, de me cumprimentar até. Mas eu ria-me, não fazia caso, e dizia-lhe adeus por brincadeira, sempre que a via á janella, embora ella me não correspondesse. Quando veiu aseñorita,—refiro-me á filha de D. Enrique—eu, por ser amigo do Lemos e por me ter relacionado com o Goes, que andavam no grupo da familia Saavedra, associei-me a elles, passeiava com Soledad e com a mãe, e devo dizer francamente que me não era desagradavel a companhia. Soube então que Adelaide suspeitou de que eu namorasse Soledad, e que se tinha incommodado com isso, a ponto de se fechar no seu quarto, e não querer tomar alimentos. Uma vez, tendo pena d’ella, cheguei a rufar com os dedos na vidraça do seu quarto, chamando-a. Bastava-me para isso estender o braço por uma das janellas da minha casa. Adelaide devia calcular que era eu, mas não veiu á janella, não quiz responder.

—Talvez não ouvisse, atalhou Araujo Rodarte.

—Ouvia por força, porque estava fechada no seu quarto.

—Resentida com o sr. Vianna, quiz mostrar o seu resentimento.

—Pois foi isso talvez, mas eu nunca mais a vi.

—E, se não sou indiscreto, o que lhe teria dito n’essa occasião o sr. Vianna, se ella abrisse a janella?

—Eu? Eu ter-lhe-ia dito que se não amofinasse com tolices, que era seu amigo, que gostava apenas de me divertir, e que não queria que ella se ralasse com isso.

—Ah! n’esse caso, o sr. Vianna, sem aliás tomar um compromisso com essa senhora, dava-lhe uma prova de amisade e de estima, que mostra que ella não deixou ainda de ser, no seu espirito, a dedicada companheira de infancia...

—Pois decerto. Estimaria que ella se não tornasse infeliz por culpa do seu proprio genio.

—Não diga genio, sr. Vianna. Chame-lhe antes coração. Ella ama, e soffre as torturas de um amor, que não julga correspondido. Triste cegueira a dos moços, que não se lembram um momento de que nada torna tão agradavel a existencia como um coração que nos seja sinceramente dedicado! Desculpe-me que lhe falle assim, em nome dos meus cabellos brancos, sr. Vianna. O coração de D. Adelaide Sequeira já está experimentado: tem sido firme e leal, apesar de não ser correspondido. Que maior e melhor felicidade poderia encontrar o sr. Vianna!

—Eu reconheço tudo isso, sr. Rodarte, mas devo confessar que me vexa a ideia de que sou pobre e Adelaide é rica. Esse casamento seria mal visto por muitas pessoas, especialmente pelo pae de Adelaide...

—O pae! atalhou Araujo Rodarte. O que um pae deseja sempre é a felicidade dos seus filhos. O pae de D. Adelaide Sequeira vê a filha doente, ameaçada de morte, e deseja certamente salval-a. Quanto á opinião publica, o que poderá ella dizer contra um casamento que o amor santifica? E se disser, deixal-a dizer, porque a opinião publica, quando não tem rasão, é combatida pelas consciencias honestas, e essas são os unicos juizes auctorisados. N’uma palavra, não repugna ao sr. Vianna sahir d’esta casa noivo de D. Adelaide Sequeira?

—Mas subsistem ainda as minhas duvidas quanto á familia d’ella...

—Não subsistem. O sr. Vianna tem o incommodo de voltar amanhã á mesma hora, e todas as suas duvidas deixarão de existir.

No dia seguinte, quando o Vianninha voltou a casa de Araujo Rodarte, encontrou-se com o pae de Adelaide Sequeira: o casamento ficou ajustado n’esse dia.

Constou isto, a maledicencia, que desconfiou da ida do Vianninha a casa das Rodartes, teve de confessar-se vencida, e a intervenção doPadre Eterno, n’esta negociação feliz, tornou-se sympathica á opinião publica, deu maior prestigio ao avô, e, reflexamente, ás netas.

Quando fallavam ao velho Araujo Rodarte no proximo casamento da Sequeira, dizia elle:

—Fiz-me agora S. Gonçalo d’Amarante,—com uma unica differença.

—Qual?

—Caso as novas, em vez das velhas, o que prova que não faço milagres.


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