—Tu?
Surprehendido, elle encarou-a. Viu-lhe o perfil dealbado por um lampejo da sulfatara interior, e a lascivia da bocca aspirando o halito das suas benignas palavras.
—O meu noivo, balbuciava ella n'uma especie de amoroso delirio, poetisado pelas cadencias da voz debordando em melodias. Procura-o perto. Talvez te não responda, apesardos meus suspiros que o chamam, noite e dia. É uma estranha creatura, esse noivo, bella como a apparição do Christo a Santa Thereza, porém fria e fatal aos que se lhe approximam. Só prostrada na terra eu ouso chegar-me a elle, como um reptil a uma corça branca dos bosques. Entre nós, eu bem conheço, ha o boqueirão d'uns poucos de seculos de cultura. Quero preencher com a minha belleza esse formidavel precipicio que me prohibe de o adorar. Ai de mim! Embalde os meus braços tremulos se lhe estendem, e os meus olhos extaticos vão pousar-se, como pombas, no esplendor da sua belleza tão pura. Elle não quer ouvir os meus soluços, nem derramar nos meus cabellos a calorosa uncção das suas caricias. É nobre, é altivo. O seu destino o preserva das minhas traiçoeiras ciladas. Todas as aflicções da minha alma, todas as reluctancias da minha juventude, dias de esperança, noites de delirio, nostalgias a olhar do angulo d'um terraço o cotovello d'estrada por onde a sua carruagem se sumiu... tudo ahi fica murcho e desfeito no caminho dos seus passos, sem que elle volte a cabeça para me lêr no branco dos olhos a cruciantissima dôr que a sua pisadura fezverter. Annos e annos, esta cegueira luctou por captivar-lhe a misericordia, sem reparar nas concessões infamantes que a minha alma ia fazendo aos desejos que a torturavam. Quiz transfigurar primeiro o meu amor n'um celeste e casto poema, todo espiritual, todo intimo; subtilisal-o em dedicações, impôr-lhe sacrificios... devotar-me emfim á sua felicidade, calando o grito do meu coração que reclama sem partilha, essa creatura em que elle não póde pensar sem deslumbramentos. Protesto inutil! Filha de grosseiras gentes, puidas de miseria, e fazendo do vicio desforço para amordaçar o desespero, estava escripto que eu havia de andar a rojo, como a serpente, tentando a claridade immortal da sua adolescencia.
Luiza calou-se, arquejante. E os seus cabellos roçavam pela bocca de Ruy, mordicando-lhe a pelle do queixo com uma titilação imperceptivel.
—Emfim, a minha paixão chega a um limite e rebenta, prevendo o instante em que elle me vai fugir para não voltar. Oh não me abandones tu!
—Vem gente, tornava Ruy n'um sobresalto.
A mesma loucura os tomava e fazia pulsar estreitamente unidos, assim como n'uma bocca muda, um labio a outro labio.
—Não! É um minuto mais, dizia ella. Eu já não sei o que digo. A idéa de que outra mulher terá beijado a tua bocca tira-me o somno, e o meu sangue tumultua e allucina-se desde que perdi a esperança de te captivar a um simples fremito das minhas sobrancelhas. Eu não te peço um desses amorfos e dessorados amores que sob a umbella da igreja podem mostrar-se a toda gente, na atonia estupida em que a lei amosenda asfiorituredo coração. Tornei-me um animal de luxo, não é assim? cuja posse disputam em tua casa esses homens. Então escolho-te! Estou no meu direito. E como uma escrava, estatelo-me no chão que tu pisas, para que me esmagues a cabeça depois de me haveres cingido, uma vez só que seja.
Ella cahira-lhe aos pés, e beijava-lh'os com a exaltação d'uma louca e os phrenesis d'uma enfeitiçada. N'aquele instante, Ruy nem sequer teve um gesto para apanhal-a do chão. Fizera-se muito pallido. Os seus braços tinham cahido. E um terrivel sorriso zigzagueava na sua bocca enygmatica. Dirieis umacreança, que chegada ao fim d'um bello conto, subito se desencanta do entrecho, e passa adiante, sem lhe ligar mais attenção. Assim elle entrou nos quartos da marqueza, bruscamente, deixando-a prostrada nos primeiros degraus da escadaria.
Por conseguinte, Ruy tinha-a recusado, depois de a ouvir monologar como uma actriz fastidiosa. Interdicta e buscando vencer o asco que de si mesma lhe vinha, Luiza escutava o furioso debater da sua vaidade sacudida na estriadura d'aquella humilhação. Sahiram as visitas, voltaram da festa os creados, que pouco a pouco, ceia finda, iam desertando para os seus dormitorios. Luiza trouxe o caldo á marqueza, vazou-lhe o calice de Madeira com a mesma solicitude machinal, sem ter reparado na escarradeira cheia de sangue, na somnolencia e na pallidez da pobre dama. Renovou o azeite da lampada do oratorio, desceu á cozinha onde sua irmã pela centesima vez insistia em lhe aconselhar o casamento com Ezequiel, como mastro decocagnepara a familia inteira: e de joelhos, na capella, para as rezas da noite, por mais que fizesse, o seu espirito perdia-se em oceanos de magua: até que afogueada, estupida descismar no seu destino, veio ao terraço banhar a cabeça nas brisas da noite.
Os ultimos romeiros desciam do monte, e amadornavam por esses caminhos os echos das cantigas, deixando atraz de si n'uma espectativa lugubre, a somnolencia espectral dos arvoredos. Uma livida noite amortalhava o immenso descampado. Entre cerraceiros de nevoa, a lua minguante subia por ondas de claridade torva, gordurenta, sem reflexos, como uma agua-forte sinistra que rolasse as suas tragedias de cinzento, desfazendo nos macissos as ultimasnuancesde paisagem. Ai, pobre Luiza! Aquella repulsa fazia-a rolar na sua idéa a uma condição, além de cuja ignominia ella julgava se não podia descer mais. Quanto daria ella agora, a pobre tonta, por voltar a ser na estima d'elle a sua companheira de brinquedos, a sua pessoa de confiança, a sua amiga, a sua irmã?... e poder encaral-o com os olhos limpidos d'outr'ora, sem córar por aquella scena de seducção premeditada, que até na propria consciencia a envilecia! Agora ella olhava á roda de si cahida da exaltação que a levára a cingir-se com elle, interrogando-se, perscrutando-se, dizendo-se indigna de todas as commiserações.Era uma mulher sem vergonha, quasi ignobil, que inspirára o nojo, mesmo formosa, mesmo intacta, ao primeiro homem a quem estendera as pomas dos seus desejos. Podia aceitar quaesquer das infamantes soluções que lhe propunham: ser a amante do creado, ou ir saciar o deleite ephemero d'um dia ao marquez e aos mais debochados do seu sequito. O seu desejo extincto, tudo o mais lhe era indifferente; e a morte começava d'ali por diante, com a frialdade do seu coração prohibido de bater por alguem. Mesmo, não via outro destino além de prostituir-se ou matar-se. Para ella o mundo começava em Ruy, acabava em Ruy, e só durára no cyclo em que elle a trouxera enfeitiçada. Ruy sequestrado ao seu amor: adeus mocidade, alegria chilreante, manhãs no terraço á hora de dar alpista aos canarios, projectos, ardores, phantasias, esperanças! Elle recusára-a: de que lhe serviam pois as turgidas pomas, a cinta ondulosa de serpente, e o divino ventre de geraneo e espuma, todas as expansões, todos os calafrios, todos os mimos, de que a adolescencia avelluda e povôa o corpo da mulher? Na contensão capitosa dos seus extasis, Ruy vira apenas a selvageria do goso que extravasaem gestos de braços e na effervescencia torpida dos beijos. Além da grosseira exterioridade lasciva e calida, tudo o mais lhe escapára d'aquelle amor confessado violentamente, refinamentos, fremitos, intellectuaes sobresaltos... o prazer dos sentidos vibrantes á visão da pessoa que se adora... os infinitos respeitos, supplicas balbuciadas por entre os dentes cerrados, transluzindo ameaça—e delicadezas submissas d'escrava—e esse fluido que sobrenada da alma amorosa, e enche de poesia tudo o que se palpa e respira, em torno d'ella.
Desceu ao jardim, direita ao poço. Havia um silencio opaco e terrivel, que pesava no ambito á semelhança d'um remorso que fibra a fibra estivesse roendo um coração. O poço era largo, com uma nora por cima, e a amura de pedra escancarada ao ar. Se ao menos elle diria «Coitada!» quando lhe fossem contar como ella tinha morrido!... E inhalava para se dar alento, grandes haustos d'ar frio. Os seus olhos deram co'as janellas do palacio, illuminadas ainda. Eram, d'uma banda, as janellas de Ruy, e da outra a lampada do oratorio, cuja porta abria sobre o quarto de dormir da senhora marqueza. Vamos! era precisoser forte. Nossa Senhora estenderia os braços para impedir que ella se despenhasse no inferno. E pôz-se a medir a queda, esburcinada no boccal de pedra da nascente. Atafulhada de sombra, a pavorosa goela não mexia. De quando em quando, uma gotta escapava-se dos alcatruzes da nora, indo fazer lá no fundo umplhau!glacial. Entretanto a nevoa fazia aos arvoredos,toilettesde gaze, para a festa funebre de Luiza. Solicitamente o luaceiro vinha, aqui, além, tocar o bojo d'uma perola d'orvalho, as transparencias d'uma renda de bruma, os claros da argentea brancura immaculada... Ella desfolhou a rosa que puzera nos cabellos. Ergueu o espirito para o alto, com uma doçura branca de martyr; e persignando-se, enxugava as ultimas lagrimas. Na calada começou então a retinir uma campainha. Nos quartos da marqueza? Era a chamar Luiza. Oh pobre madrinha! Luiza estava já sentada á beira do poço, prompta a escorregar-se á agua. Porém uma instantanea sombra tinha passado nos stores do oratorio, cujas vidraças soaram no terraço em bocadinhos. Que era aquillo? Alguma coisa de anormal se estava passando. Quem gritára? Engano? Allucinação? Luiza fez um salto, esquecidada morte, e deitou a correr para d'onde o barulho partia. Quando entrou no quarto da marqueza, cahira pelas escadas, derribára Ezequiel que vinha pelo corredor, rasgára as saias nas portas, tropeçando nos moveis umas poucas de vezes. Viu a cama vazia e toda cheia de sangue nos travesseiros. A porta do oratorio estava aberta, e sobre a alcatifa, entre portas, a pobre senhora estorcia-se, quasi núa, vomitando sangue em espumosas golfadas. Luiza agarrou-se a ella, gritando que lhe acudissem: e em toda a casa, de repente, tinha sido um alvoroço extraordinario. Ezequiel, que foi o primeiro a chegar, inda viu a velha revolver os olhos, dar um estremeção que lhe retezou as pernas ao comprido. E de repente ficou-se.
—Coitadinha, coitadinha! Está prompta, dizia o velho em tom beato. Eu bem previa esta desgraça! Mas Luiza barafustava para que elle fosse chamar depressa o marquez, e mandasse á villa buscar o doutor Souza.—Depressa, depressa que ella vai-se-nos aqui sem sacramentos! Elle abanava a careca, tendo remodelado na face a mascara patriarchal dos dias serenos. Desolava-se muito pelos cantos. Como aquillo fôra depressa! Uma coisa queninguem esperava! Lá conseguiram transportal-a para a cama. O corpo estava frio. Um dos braços, levantado, cahiu inerte nas roupas, apenas o deixaram.—Está morta! Mas ninguem vinha acudir! Que estava fazendo nos quartos toda aquella gente que não ouvira os gritos d'alarme? Ezequiel entrava e sahia, ia a uma porta, voltava á capella, idiota d'espanto, abanando as mãos, sem saber.—Ah menina Luiza, menina Luiza; eu bem lhe disse esta manhã. Chegou-se a ella:—O que ha de ser agora de ti?
A camareira não ouvia, agarrada á marqueza, e seguindo a installação da morte n'aquella physionomia de cera. A sua rica madrinha! A sua amiga! A sua unica affeição!
—Casa commigo, insistia Ezequiel. A minha vida é pouca coisa. Deixo-te tudo. Casa commigo.
Já o marquez vinha entrando, com Ruy e os seus amigos, e toda a gente da casa áquella hora estremunhada.
O fidalgo curvou-se para o leito: dizia phrases d'espanto, allucinadas e d'um grande effeito decorativo.
—Mas, senhores, ella resfria! Oh fatalidade! e outras muitas, que os amigos, umpouco lassos na digestão da ceia, trocavam por outras da mesma polida complacencia. Compuzera um rosto d'afflicção reprimida, conforme de rigor na circumstancia, e que foi muito apreciado pelo que dizia dos seus affectos maritaes. Lagoaças e pai Cezario tinham-n'o abraçado a tres quartos, dizendo—coragem! n'um magnifico accento de contra-basso.
Quando de repente Luiza deu um grito, vendo os olhos da marqueza irem ficando vitrosos. Alguns curvaram-se a vêr. Ezequiel e Lagoaças trouxeram velas accesas. E o choro das creadas abriu de repente no quarto uma ladainha horrifica de lamentos. Uma especie de teia d'aranha revestia devagar as pupillas pallidas da morta.
—O espelho, o espelho.
Ezequiel trouxe do gabinete um espelhinho de punho ornado; puzeram-lh'o á bocca.
—Inda respira!
Mas o pulso perdia-se. O coração queria calar-se. A aura hysterica descorrelacionava os movimentos de Ruy, cujas mãos buscavam juntar-se n'uma supplica frenetica de que ninguem fazia caso.
—Jesus! dizia Luiza erguendo os braços,entre as mulheres de joelhos. Onde está o nome de Jesus não ha perigo á salvação. E as rezas perdiam-se em ondas de soluços. Então o marquez tirou a boina da cabeça, avançou dois passos com o espelho que já não embaciára, collado á bocca da fidalga. E n'um tom alto:
—A senhora marqueza de Selmes morreu.(Voltar ao Conteúdo)
Ha quinze annos, vespera de Natal, n'uma noite bem frigida e chuvosa, ia eu em jornada através das serras, caminho da minha aldeia, a fim de consoar, conforme a velha usança, no aconchego patriarchal da familia: quando a sege que me levava estalou com fracasso, desabando em bocados pelo chão. A custo pudéra salvar-me do destroço, que a sege velha e de correias, sobre duas grandes rodas esculptadas, esbarrondara de chofre contra um amontoado de penedos, e o cocheiro contuso em muitas partes do corpo, era quasi impotente para sustar os galgões dos cavallos sacudidos pelo terror da derrocada. No meio das trevas, áquella hora, sob a chuva sibilante, como encontrar agasalho?
Era no mais cerrado das brenhas. Lugubres penedias estacavam por toda a banda.
Asperas montanhas pareciam vir a despenhar-se sobre as gargantas estreitas da passagem. E nem a mais dubia fogueira de pastores, casinholo de coutada, voz ou campanario, revelando a proximidade de creatura humana! A muito custo podemos remover do caminho as bagagens e destroços da pesada traquitana, eu, o cocheiro e mais um velho creado que me seguia a cavallo.
Com fortes brados, aos quatro ventos do campo, fomos chamando alguem que alli vivesse; mas nem sequer latidos de cão logramos saccar das goelas carbonosas da noite. Sempre aquelle ruido prostrado, regular, desesperante, da chuva nas urzes e pinheiros anões, que o vento trazia e levava no mesmo agreste rythmo, como o jogo uniforme de uma joeira que joeirasse d'alto, bagos d'agua frigidos, e crueis.
Por infelicidade, o cocheiro não era do sitio, e mal sabia dizer d'aquelles caminhos incertos. Beja inda talvez ficasse a nove leguas d'ali. Os cavallos extenuados não queríam marchar. E olhavamo-nos interdictos, á luz da pobre lanterna que por milagre escapára ao desastre.
Emfim, já nos decidiamos a ficar por baixodas azinheiras, n'algum abrigo escavado da montanha, quando se ouviram badaladas de sino distinctamente.
—Graças a Deus! exclamei eu todo alegre, que vamos ter guarida no passal do bom padre ou eremitão que d'aquelle campanario nos está chamando. Onde é, cocheiro?
O homem esteve sem responder um bocado. Era um alemtejão supersticioso, tostado, leal, e gigantesco.
—Aquillo, senhor, disse alfim o colosso, fica por traz de cerros que levam vinte horas a galgar a um homem. De noite, sempre os sons parecem mais perto, e enganam uma pessoa nas contas que deita.
—Bom! mas que sino é aquelle? Convento, freguezia, castello ou casa do diabo?
Vi o rapaz benzer-se com um movimento brusco, e lentamente ir contando, que era o sino de Santa-Agatha, ruinaria maior que uma cidade, com quatro torres dominando as chapadas dos montes, e casarões aonde ninguem tinha ido desde que houvera lá fogo.—Ninho de demonios e malfeitores! Emtrinta e tres, a guerra civil correra lá, farejando as riquezas do culto—as freiras tinham debandado pelas serras, com os seus habitos brancos e osseus rostinhos macerados—por quatro dias as chammas lamberam os sanctuarios—e diz que duas ou tres religiosas, entrevaditas, centenarias, se deixaram morrer nas suas cellas, cantando psalmos, por não haverem já parentes e amigos, em cujo seio ir acabar. Agora só voltava ao mosteiro algum maltez perseguido, ou pessoa empenhada em roubar cantarias, alguma porta de carvalho, e restos d'alfaias sepultas nos entulhos.
Lentamente então, como um fumo d'incenso que oscilla subindo pelas incertezas penumbrosas da neve, assim a lenda se formára e fôra condensando, detalhando, subindo em espiras poeticas, dos claustros gothicos da velha abbadia. E o cocheiro accrescentou:
—Pelos modos, os diabos dizem lá missa a deshoras, com mitras que nem bispos!
—Venha essa lanterna, disse eu sem mais ouvir. Meia ração d'aguardente e tabaco! Vossês abriguem-se ahi como poderem, que eu já volto!
—Mas onde é que o senhor vae?
—Ora essa! á abbadia. Tocou-se á missa: o diabo já deve ter subido ao altar. O cocheiro ainda quiz accumular obstaculos; até que vendo-os sem resultado, apontou-me o caminhoprovavel do mosteiro, lá longe, sobre as altas serranias, a cujo sopé se tinha desmantelado a nossa berlinda de viagem.
Pondo-me a caminho, confesso, foram-me os primeiros passos bem duros. O terreno pedregoso abria fendas onde os pés se enterravam em lama; tufos d'esteva e piorno vedavam a passagem, circumdavam-me, prendiam-me o fato, ou vinham dar-me bofetadas nas faces com as suas mãos pegajosas. E assim fui mais d'uma hora, tropeçando d'um lado e cahindo d'outro, pelo espinhaço lugubre da cordilheira. Entanto as nuvens desdobravam-se, menos espessas, correndo, té que uma claridade de lua velada poude orientar-me na marcha.
Alguns corpos avançados da ruinaria começaram alfim a mostrar-se, pequenas capellas com arcos gothicos, sombras esguias de cyprestes, casarões onde bulia a herva açoitada pelo vento... Dez passos além, achei-me n'uma alpendroada vasta de pedra, toda em arcarias de capiteis mutilados. Ao centro murmuravauma fonte, cahida ás gottas sobre uns restos de tanque esculpido; e via-se um portico ao fundo, com feixes de columnelos, e nichos de apostolos em oração.
Mais dois passos e entrava na igreja. Parte da abobada tinha já cahido. Arcarias altas, flexuosas, em series parallelas d'uma extensão desmedida, iam até ao sanctuario. No parapeito d'um ou outro pulpito, pendiam tapetes de hera—e por um bocado de muralha derrubada via-se o claustro, contrafortes, arcos butantes, rendas de janellas manuelinas, estatuas partidas, e montões de pedras lavradas que a vegetação damninha ia vestindo, engolfando, no labyrintho das suas teimosas grinaldas.
Lentamente, emquanto marchava entre as maninhas plantas da serra, eu fôra evocando da nevoenta penumbra das minhas reminiscencias d'infancia, a lenda que tantas vezes tinha ouvido contar, pelo inverno, quando finda a ceia os pastores e couteiros vinham fazer circuito comnosco, de roda do brasido, na cozinha abobadada da herdade, cujas chaminés se erguiam dos tectos, como duas torres quadradas de solar.
Lembrava-me de ter ouvido a minha avó,como a abbadia fôra uma das mais venerandas casas de reclusão de todo o reino, successivamente enriquecida pelos reis, visita de prelados, e refugio de muitas princezas e bastardas que alli dormiam o ultimo somno, nos seus jazigos de pedra, de cujos nichos a velhice alluira figuras e inscripções.
Apesar das enormissimas riquezas que as religiosas mandavam repartir pelas gafarias e misericordias da provincia, a regra impunha ás monjas uma pobreza frigidissima. Dormiam n'uma tabua, as pobres servas, sem enxergão nem cobertura, e com uma pedra tosca por cabeceira. E vivendo de hervas e legumes, sem mais tempero que um fio d'azeite e um punhado de sal, ellas appareciam na estamenha branca das tunicas, afiladas na sua espiritualisação perpetua de prece, antes como umas sombras de loucas, espectros de mal soffridas angustias, marchando nos claustros em genuflexões de extaticas, e como dobradas ao peso das camandulas e das orações. Um velho Papa da idade gothica doara então o mosteiro de reliquias, compadecido por austeridade tamanha d'enclausura, e permittindo que as monjas pudessem dar-se a glutonaria mundana d'um cordeiro guisado, na ceia doNatal, sob a condição expressa de ser branco e acabado de nascer.
Sempre na minha lembrança, desde então, tinha ficado aquella humilde historia das freiritas, dormindo em tarimbas de castanho, e jantando couves de azeite e sal. No collegio, muita vez, punha-me a fazer esforços para me representar a figura benevola d'aquelle santo Papa da idade gothica, risonho sem duvida e encarquilhado, com o seu barretinho de purpura, e um grande annel de turqueza, concedendo ás filhas de Santa-Agatha o cordeiro branco para a consoada do Natal. Vinham-me aquellas coisas n'um fundo de fantasia, para assim dizer bysantino, sem perspectiva aerea, com o nimbo de oiro nas cabeças, e pregas miudinhas no bocatel das roupagens—e tão longe do nosso tempo! tão longe do nosso espirito que eu acabava sempre por sorrir á inverosimilhança das legendas contadas por minha avó.
Todos os annos na herdade, depois de se haver dito a ladainha diante do presépe armado no oratorio, com grande pompa de vellas accesas, cobertas de sêda, paineis de santos, flôres, amuletos ecearinhasde trigo grelado em pratos da India, ás escuras,durante os vinte e cinco longos dias de uma lua—todos os annos, á hora de servir a espetada de lombo de porco com migas, da ceia do Natal, quando já tudo se assentára em volta da mesa, eu me não esquecia de inquirir.
—Avó. Se o cordeiro de Santa-Agatha estará tenro e capaz de ser manducado pelas freiritas sem dentes?...
Lá me sorria a bôa velha, com uma expressão de melancholia que eu n'esse tempo não era capaz de interpretar. E á direita d'ella marcando intervallo na mesa, um talher inactivo aguardava meu avô, que fazia já onze annos de fallecido quando eu tocava os dezeseis.
Ai! esse talher era a grande nota solemne da ceia, o symbolo sacrosanto do espirito de familia, perpetuando o respeito do nome através das revoluções da idade. O copo estava cheio, o guardanapo desdobrado, e chegado á mesa o tamborete.
A todo o instante ia entrar na sala o phantasma do velho lavrador, com a sua matilha de galgas argelinas, e uma d'aquellas grandes risadas que elle dava, em nos vendo felizes a todos.
Ceia de Natal! Ceia de Natal! Não seria eu, não, que d'aquella vez havia de começar cantigas ao Deus-menino, ante o presépe da nossa casadas Torres.
Nem iria assentar-me, tão pouco, entre meus irmãos, partilhando a espetada de lombo no meio da gralhada das creanças, e dos sainetes dos pastores e maioraes. Oh como o frio da montanha me fazia agora lembrado omadeiro do Natal, tão escrupulosamente escolhido entre os troncos mais corpulentos das cathedralescas médas d'azinho da nossa provincia; omadeiroque as comadres vão vêr a casa das comadres e cuja enormidade d'alguma fórma passa por luxo e synthetisa a abundancia da casa! Ceia de Natal! Ceia de Natal! N'aquella noite de cordealidade, tão intima na vida do campo alemtejano, em que o primogenito da familia tem obrigação de consagrar aos creados o primeirotoastda ceia, a minha ausencia, eu bem n'a via! trazendo lagrimas aos olhos de minha mãe, e longos annos permanecendo archivada entre as tristezas do seu amantissimo coração.—Paciencia! dizia eu, deixando os meus olhos correr por cima da phantastica decoração de ruinas,como quem busca fixar a realidade no meio das oscillações que a sombra despregava das arcarias.
Cessára a chuva de todo, e o vento que ennovelava os castellos de nuvens, muito baixas, vinha depois marrar com ellas de encontro ás fragas da cordilheira.
Torvos luaceiros cardavam sobre as coisas, aspectos pardos e monacaes, d'esse tom vago, inquietador, inexplicavel, que permitte á imaginação de agigantar o que apenas entrevê.
E assim dirieis que se alongavam na noite os butareus das quatro torres, e que os boqueirões da treva mastigavam, e como lanças tremiam os columnelos do templo, espetando na abobada imaginarias cabeças; emquanto patrulhas de cyprestes paravam a escutar, se áquella hora rastejaria no mosteiro um infinitesimo de vida, só que fosse. A primeira coisa que notei, foi que não estava só, porque ao raspar d'um phosphoro para accender o cachimbo, pude lobrigar na portaria vultos de gente acocorada.
Pouco a pouco, os meus olhos afizeram-se a destrinçar na sombra os objectos; e entrei a bispar vultos pequenos, corcovados, que surgiam por todas as bandas da serra, vagarosos,cosidos ás pedras, derreados do caminho, e arrastando sapatos de trabalho, com gorros nos olhos e capotes negros sobre os hombros.
Pelas encostas, longe, perto, muitas luzinhas deslocavam-se em direitura ao mosteiro, como fanaes guiando a um conclave outros tantos conspiradores.
Duas ou tres cadeirinhas entram no adro, buscando a sombra dos arcos com uma cautela apavorada, e aos hombros de homens, que pelo rastejo dos passos e lentidão dos meneios, ia jurar tinham passado os oitenta annos. Em poz das liteiras, mulas brancas trazendo mulheres embiocadas em ponches... jumentinhos de trabalho com gente que tossia... e até n'uma especie d'esquife, um vulto entre roupas dava grandes gemidos, quando os portadores oscillavam mais bruscamente a padiola em que o traziam.
Muito embuçado na capa, eu ia-me approximando da turba, corcovado e arrastando os passos como os outros; e já sem medo, pois não podia ser capitania de ladrões aquella gente assim misturada de invallidos. Quando de repente, patas de cavallos fizeram estrupida nas lages, e eu vi fazer-se um movimentosimultaneo em todos os magotes, para acorrerem ao encontro dos cavalleiros. Eram quatro. E dois d'elles, que porventura seriam os juvenis da cavalgata, a julgar pela ligeireza com que apearam, tinham vindo ajudar o que ficára sobre a cella, aguardando que o desmontassem da mulla branca onde viera escarranchado.
Era este um grande velho de cabellos compridos, em ligeiros flocos por baixo d'um chapeirão d'ecclesiastico, envolto n'uma capa com romeira de lontra, e de quem todo o mundo se acercava para lhe beijar a mão. Caminhando, espargia bençãos sobre as cabeças curvadas á sua passagem. Aprumava com esforço a grande figura biblica e severa, em cujas linhas fulgurava como um relampago genial d'estatuaria, e em cujos gestos calmos rescendia a solemnidade d'um apostolo enviado a remir d'um captiveiro.
Tinham acceso entretanto algumas tochas, cujos clarões deixavam vêr a fisionomia de aquella assembléa extravagante. Oh minha cabeça esvaida de cansaço! Eu não posso affirmar lucidamente se acaso era sonho o que se estava passando: tão extraordinarias visões me tiveram estarrecido na formidavel sombrado templo. Lembro-me que o sino tocou de novo. Era um som funebre e longinquo degong, espargindo na noite um terror de evocação; alguma coisa como a voz do tempo, chamando os homens a um ajuste de contas definitivo.
Pelas arcarias do claustro, que eu avistára por entre a derrocada d'um muro, vinha marchando uma procissão de monjas lentas, mirradas, pequeninas, cambaleantes, e tão brancas e diaphanas á luz das tochas, que ellas pareciam ter acordado n'aquelle instante dos seus sepulchros, transpondo os seculos á voz expiadora dogong. Entre os véos cahiam-lhe os cabellos, mais alvos do que a neve, e das suas sandalias batendo as pedras do claustro, vinha um som baço de sepulturas vasias, sepulturas com fome, chamando por aquelles destroços de santas, d'onde a alma parecia ter voado, através das divinisações augustas do martyrio.
Poucas eram: mas vagarosamente a procissão ia crescendo no percurso, ao clarão bruxuleante das luzes; porque a todo o instante a turba se abria para deixar passar uma velhinha segurando uma tocha entre as mãos descarnadas. Alguem lhe tirára o capote de cimados hombros, e da cabeça o bioco de burel que a encapuchava. E surgia assim, daquella lugubre crosta, uma monjasinha branca de Santa-Agatha, cingida na estamenha da ordem, o véo de nodosa e rude grossaria... e que a pequeninos passos de centenaria, oscillando a trémula cabeça, lá ia enfileirar-se no préstito, com as suas rugas cheias d'eternidade.
A esse tempo, a enorme basilica rompia violentamente da sombra, ampla, majestosa, cheia de mysterios e esplendores, mesmo assim na ruinaria das suas esculpturas e rendas ogivaes. E prolongava-se em crepusculos doces, além das naves, pelos rasgões da derrocada, ondeava á oscillação das luzes, parecendo expandir-se, como outro'ra, num grande hausto d'uncção fervorosa e fé christã.
Em cada recanto, cada arco, por todos aquelles nichos, pelas capellas, diante dos baixos-relevos e das estatuas, agora bruxuleavam lampadas, cirios, fogueiras, luzes bizarras de fachos, cuja vermelhidão tingia de sangue os caprichos manuelinos da architectura.
Em face a gigantescos lampadarios de prata e oiro, pendentes da cupula arruida em cachos de lumes lividos, o altar-mór appareceu de subito n'uma aureola de pompas, damascos, flôres evasos de oiro cravejados de pedraria. O frontal todo de lhamas, faiscava entre a fumarada dos thuribulos, as grandes flôres de purpura emmaranhadas no estofo, em cuja trama buliam bruscos formigueiros de diamantes, saphiras e esmeraldas. E por cima na abobada, a noite errava, espavorida dos fogos que oscillavam cá em baixo, nas inquietações do vento. E ao rumor das rezas accordavam as aves nocturnas nos seus ninhos: pombas e francelhos voejando de friso em friso, grandes corvos sinistros partindo em bandos das rosaceas, encandeados co'a luz, tornando a vir, tornando a ir... Pensarieis que regressavam das tumbas, os espiritos das monjas, e se iam familiarisando ás ruinas, e conhecendo n'ellas o maravilhoso sanctuario doutro tempo.
—Meu senhor, disse uma voz.
A vista das monjas, a multidão cahira de joelhos, tocada de veneração por aquellas creaturas celestes, mumias da fé catholica, que a oração transfigurára até á innocencia ideal dos serafins.
Tosca e triturante, a estamenha lhes cingia a esqualidez das ossadas: vinha na frente a abbadessa, de báculo e mitra, com uma capade brocado, sob o pallio d'uma riqueza estonteadora. As mais seguiam duas a duas, acocoradas quasi pela idade, e guardando não obstante uma especie de aerea graça da infancia, através da caricatura d'aquelle cerimonial complicado. Em todas, o olhar extincto, como um brasido nas cinzas, perdera a incandescencia entre as macerações da vida ascética. E d'entre a mortalha alvacenta das vestes, cada vulto sêcco vos lembraria um violoncello com todas as cordas partidas, de haver tocado, longos annos, a symphonia pathetica da dôr.
O que dissera,meu senhor, puxou-me de banda: era um embuçado d'estatura pequena, gestos aduncos, e botas molles.
Levou-me para detraz da escadaria d'um pulpito. Engolfamo-nos por um portello baixo e tenebroso, em cujo trevo marinhava, luctando, na frialdade limosa da pedra, uma caterva horrivel de grotescos. E como transpunhamos o portello, o homem tirou da capa uma lanterna. Vi então diante de mim um velhito lesto, pequeno, azougado, os olhos debruados de purpura, e com um grande nariz pendido como um monco, até encontrar a aresta d'um queixo arqueado como a prôa d'um saveiro. Dirieis que as duas pontas iam tentar bravaguerreia: a do nariz embirrando com a do queixo, a do queixo não sentindo lá grande sympathia pela do nariz. Mas felizmente interpunha-se a bocca, sentinella vigilante daquella discordia d'appendices, e que mesmo sem dentes, intervinha, mordendo o que primeiro rompesse as hostilidades.
—Que quer dizer toda esta mascarada? disse eu.
O velho olhava para mim com um riso estupido de bobo. Tinha um barretinho de sêda no craneo, grandes orelhas espalmadas aos lados dos olhos, a bocca em meia lua e um collar de barba dura, direita, branco sujo, prestava-lhe a caricatura demoniaca d'um bode, á luz fumosa da lanterna. Foi pelo corredor aos saltinhos, e eu seguia-o tomado de um espanto sem saber por que.
Ao fundo começava uma escaleira aberta na muralha, tortuosa, falhada nos degraus, e obstruida por grandes pedregulhos. E o velho começou a subil-a, levando a lanterna na mão. Como a escadaria era de volta acanhada, e o passo de espira excessivamente baixo e deprimido, forçoso nos era de subir corcovados, porque não fendessemos o craneo d'encontro ao rebordo dos degraus superiores. Fomostropeçando assim nas pedras soltas e alluidas, partindo as unhas nas junturas da muralha—elle sinistro, lesto, arqueado, escorregando, pulando certo quatro e cinco degraus d'uma vez; eu agarrado ás pregas da sua capa e á morna viscosidade das suas mãos, cujas unhas se me cravavam na carne, como os dentes metalicos d'uma pinça.
—Afinal não me explicou que diabo vem fazer aqui toda esta familia.
Elle sorriu-se. Tambem d'esta vez não fizera caso da minha pergunta.
E eu começava a não vêl-o com olhos lisonjeiros.
A escada não tinha fim, caracolando sempre nas trévas humidas, onde passava o voejar dos morcegos, os guinchos dos ratos, e toda a sorte de sopros e rizadas maléficas.
O ultimo trago d'aguardente acaba de se me sumir nas profundezas da goela. E valha a verdade, eu ia perdendo um pouco a noção justa das coisas. Fórmas, rumores, simples idéas e suggestões me lançavam de roda, n'uma sarabanda de incoherencias.
Dir-se-hia nos iamos sequestrando, pouco a pouco, ao mundo normal e quotidiano, com os seus phenomenos e leis eternamente asmesmas, para invadirmos não sei que exotica região onde tudo era diverso: a atmosphera e a luz, as figuras, as sensações, e as naturaes affinidades de ser a ser.
Por instantes, quando o homemzinho passava na luzerna do luar lançada por alguma fresta da torre, eu ia jurar que elle mudava de figura, á proporção que ia subindo. Já não tinha na cabeça o solidéu de sêda preta. As suas orelhas avantajavam-se aos lados dos olhos despegando-se-lhe do craneo como as dos morcegos, em grandes pregas cobertas de cabellos. E deixei de ouvir o rumor dos seus passos, emtanto que a subida se tornava vertiginosa, inquietadora, embriagante. Cada vez os degraus me pareciam mais estreitos, o passo de espira mais apertado, e o caracol de pedra mais asphyxiante. E nas trévas da torre, emquanto eu ouvia os resfollegos do velho saltando os degraus com furias de possesso, um ar denso e gorduroso forçava-me o cavername do peito a centuplicar d'inspirações, como n'um paroxismo de syncope.—Ar! Ar!
A minha cabeça rolava entre vertigens: via moscas de fogo saltarem-me por diante dos olhos. E era como se cada um dos meus sentidos, estando separado de mim, não pudesseou não quizesse procurar-me sensações nitidas e exactas—tanto as coisas que eu tocava me pareciam differentes. Larvas de gelo, escorregadias, sem fórma, tocavam-me nas mãosshake-handsbruscos. Abria então a bocca para gritar que me acudissem: e percebia que elle voltava logo a cabeça, porque sentia, positivamente eu sentia na cara o caustico dos seus olhos dilatados nas trévas, acobardando a minha alma varada d'um inexplicavel calafrio. Até que emfim chegamos a uma especie de sala rasgada de porticos, por onde a lua entrava. E rompemos n'ella como o estampido d'uma granada: o velho indo cahir de bruços no pavimento, e eu por cima d'elle, n'uma exaltação furiosa—a ponto de por cinco minutos rolarmos no chão corpo a corpo, engalfinhados, como se algum de nós pretendesse esquartejar o companheiro. Prestes porém o lesto demonio se me escapulira das mãos, e sem uma palavra, deixando a capa, correra aos varandins da torre a debruçar-se.
A sala era grande, com varandins d'esculptura aberta, que pareciam bordar uma antiga renda de cruzes de Malta e folhagens, sobre o azul pallido do céo.
Uma floresta de cordas, mastros, travessõese guindastes, emmaranhava o ambiente e corria de banda a banda. Pendiam sinos dos porticos, negros, immoveis, suspensos, como aves de rapina dormitando... mil tamanhos, mil formatos, uns grandes, outros pequenos, bojudos estes, aquelles campanulados... E na cupula toda aberta de lucarnas até á flexa, a zunida do vento fazia uma especie de côro em surdina, instrumentado a risadas e pequenos silvos de mangação.
O velho fizera um gesto. Uma badalada profunda sacudiu de chofre a ruinaria inteira, dos alicerces ás grimpas, e foi-se alargando pela cordilheira, attenuando, extinguindo, n'uma vibração magnifica de sonoridade.
Terrífico e supremo era o accento d'aquella lingua de cyclope, que o pulmão de bronze insufflára, no seu vagar prophetico, e que retalhava o silencio da noite como um echo da vida eterna, soado através da impenitencia dos homens.
Outra badalada mais forte, e outra, e outra ainda. Crucitando d'assombro, os bandos de corvos fugiam por todos os lados. E as massas de sonoridade precipitavam-se nos ares, desgrenhandouma procella de bramidos, e como um apocalypse prégado ao universo estarrecido a nossos pés. Para fazer dobrar alguns d'aquelles grandes sinos, o velho trepava aos varandins e supportes, desdenhando as vertigens da altura: e eu via-o marinhar então pelas cordagens, correr como um gato ao longo dos cabrestantes, suspender-se, desapparecer, cabriolar, suffocado, e insistindo, e voltando, n'um jogo macabro d'esforços, que ainda mais lhe accentuava a contornadura demoniaca que elle tinha.
A cada manobra do velho, era como se as badaladas me fossem batidas em cheio, no coração, derramando-se-me em crises d'angustia por toda a rede dos nervos convulsivados. Foi n'este estado que eu corri direito a elle, e pude agarrar-lhe as pernas no momento em que o maldito se preparava a descrever nos ares uma arrojada espiral, como Quasimodo, abraçando pela cinta o reboleiro maior do carrilhão.
Ao mesmo tempo, começava a produzir-se um phenomeno extraordinario. Seria illusão dos meus sentidos?... effeitos da minha sensibilidade doentia, que perdendo o caracter proprio, se mutilára, exaltára, para rolar depoisnas phantasmagorias verdes da loucura? Mas affigurava-se-me que uma especie de vida magnetica ia atravessando as ruinas, como se a falla dos sinos houvesse resuscitado no edificio o genio hostil que alli reinava, e este agora reagisse, contra o germen christão que os nocturnos visitantes todos os annos insistiam em replantar no sanctuario.
Aquillo era evidente, pulsava na pedra, rumorejava na esfusiada dos ventos, cahia em gottas das arestas e das folhagens parasitas.
A principio disse commigo—é uma vertigem do meu espirito exasperado pelas extravagancias da viagem, uma perturbação do alcool que eu ingeri em dóses abusivas... O velho fizera-me frenetico... Os meus nervos estavam carregados de fluido... Porém já na egreja me ferira esta percepção de movimentos disfarçados, esta matinada occulta da sombra contra a luz, esta suspeita de bruxaria latente.
Tinha-me rido d'aquilo—Ora adeus! Estou sonhando. E agora, Jesus! não era engano. A sarabanda macabra rompia.
Muros e escaninhos começavam a debater-se n'uma lucta mysteriosa de encantamentos.
Em cada molecula, em cada penumbra, em cada vôo, a energia decompunha-se em fluidos antagonicos; um que tinha saudades do velho culto, e era mesquinho em quantidade; outro que assoberbava o primeiro, e se declarára no campo adversario. Mesmo, esta sombria batalha toldava-me a cabeça, estava patente á minha alma, obscurecia-me a razão; e o meu proprio corpo vibrava d'ella, e eu sentia em mim os dois guerreiros buscando derribar-se a golpes d'espadão. Não, não era engano! Andava tudo, falava tudo, mexia tudo, e tudo parecia sentir, deliberar e ter vontade. Dos baixos relêvos brotavam gestos, mimicas, summulas de dialogos...
Iam falar as boccas das estatuas. Os velhos doutores resuscitando os velhos schismas. Velhos demonios trucidando as ingenuidades da fé no carnaval das velhas ironias. Muitos santos pretendiam mesmo disputar com os demonios.
N'um baixo relêvo daCeia, a figura do Christo ergueu-se e bateu com força na meza, colerico por um apostolo se rir, quando elle, sagrando o calix, disse do vinho—este é o meu sangue!
Debaixo dos pés da Madona, renasciam ascabeças da serpente, á medida que ella as esmagava.
E uma circulação impetuosa girava nas arterias da pedra, insufflando vida ás columnatas, fazendo palpitar as rendas das ogivas, e dando apoplexia ás faces das cariatides.
—Velho! Velho! exclamei eu fóra de mim, deitando-lhe as mãos ás goelas. Quem és tu? Fala! D'onde vens? Que queres de mim?
Já a raiva me escumava nos cantos da bocca. A minha gana seria esmagar-lhe a cabeça d'encontro ás pedras da muralha. Porque eu via n'elle o médium da farandola macabra que ia na egreja. Eram obra sua os tregeitos dos monstros esculpidos nas columnatas, o riso mau dos demonios-morcegos nos frisos manuelinos do côro; emfim, o exaspero do Christo, no baixo relêvo daCeia—e todos os fremitos, todos os sôpros, todas as oppressões, todas as desconfianças, todas as risadas, que eu ouvia, que eu sentia, e passavam por mim o visco do seu contacto asqueroso.
Á sua voz obedeciam aquelles milhões e milhões de forças occultas e satanicas: e elle tinha o dom d'arrastar na espira lôbrega dos seus maleficios, o desgraçado que se lhe approximasse.
Oh, não era ausencia d'energia physica que me impedia de o acabar—elle era magro, ossoso, quasi decrepito... Mas a sua vista dava-me um embaraço! Com o mais ligeiro impulso eu poderia derribal-o. Mas um assombro terrivel, um pavor inexplicavel, uma fascinação que eu não sabia definir, amordaçavam-me, faziam de mim um destroço de captivo em poz d'aquelle tenebroso e phantastico vencedor.
A essa hora, na egreja, tudo estava a postos. Pela abobada cahida, eu pudéra vêr, a nossos pés, o côro profundo, sobre uma massa amarellenta de pilastras fasciadas de relêvos. D'alli surgiam á luz dos brandões, as primeiras bancadas de carvalho, com logares separados, onde cada figura de monja apparecia dobrada sobre a estante do livro de rezas.
Na grande cadeira gothica da abbadessa, a meio do côro, duas vellas faziam brilhar o baculo de oiro, uma mitra mexia ás vezes sobre uma cabecinha pellada de centenaria—e para traz a sombra invadia tudo, e via-se na parede uma rosacea sem vidros, por onde entrava, poeirenta e diaphana, uma grande cheia de luar. Depois a egreja enorme, com as esculpturas mutiladas, as rendas em bocadospelo chão, os nichos, muitos, desertos, e os jogos e caprichos da luz e da sombra, forjando effeitos de scenographia formidavel, de cujo tumulto, ao fundo, o altar mór destacava n'uma apotheose de magnificencias, entre a fumarada do incenso, e os vôos dos pombos espavoridos.
O velho reaccendeu a lanterna. Havia ao centro da casa uma especie de grande cravo de castanho, com teclas de cobre oxidado, aonde vinham ter as cordagens de toda aquella sinalhada. Com gesto placido elle conduziu-me ao teclado, sobre cuja arca depuzera a lanterna escancarada. E desenrolando um grosso manuscripto de musica, pol-o na estante, e fez-me signal a que me assentasse n'um monte de cordas que estava perto.
A musica era torturadamente escripta, coberta de emendas, intercalada de referencias á margem.
É obra sua? perguntei eu. Elle fez que sim com a cabeça. E começou; já o arcebispo ao altar dizia oorate, e soava nos mosaicos da basilica o rumor dos que ajoelhavam.
Ahi começa o velho a fazer soar o carrilhão, e eu já sinto outra vez os meus pavorestomarem fórma, e as minhas angustias irem cavalgando extravagantes bruxarias. Cada vez mais á roda dos meus sentidos, fosforeja e zumbe esta encarniçada lucta dos dois fluidos antagonicos, que a pouco e pouco se depuram, quando a minha percepção lhe consegue fixar a transcendencia.
Um revindica o culto das florestas, das aguas e dos rochedos. É a grande alma pagã da natureza, que impulsiona os mundos d'uma vida extraordinaria, e tem voz, no bramido das vagas, e faz as flôres e os archipelagos, e chispa das rochas que o ferro morde, e chora lagrimas de leite nas folhas arrancadas da figueira. É o mais antigo, é o mais forte: e a todo o transe elle tenta reconquistar o solo, com a audacia heroica d'um régulo expulso de dominios seus. Tem a symbolica dos antigos mystérios, o outro. E bisonho e tenebroso, desceu do outeiro onde uma noite uns soldados estavam crucificando um vagabundo. Prégando jejuns e penitencias, emquanto ia fazendo da cobardia uma virtude, e não sei que refrigerio da morte, gritava ao mundo—venho destruir a obra da Mulher. E por entre o unisono das harpas, na choral dos serafins, ouve-se o alarido dos que na fogueiraescruciam, e os latins do inquisidor que os manda morrer em nome da misericórdia celeste.
—Velho!
Repara bem, como até na gralhada dos sinos parece evidenciar-se a batalha das duas legiões. Aquelles sinos além são pela egreja; mas aquell'outros aposthasiaram e insurgiram-se.
As mesmas tuas mãos de maestro ferindo o teclado, parecem obedecer a dois musicos diversos, degladiando-se sem quebrança de rythmo, n'uma especie de sabbat artistico, alternativamente piedoso e diabolico. Por momentos, tudo isto se me afigura symptoma d'alguma psychopathia bizarra, evolucionada no exaspero mental que esta noite em mim produziu.
Faço esforços de rehaver a minha antiga serenidade, ponho-me a vêr se coordeno as minhas faculdades d'analyse e de critica, e se restabeleço a limpidez do meu juizo, a sangue frio.
—Eu é quesou talvez duplo, e não a maneira de ser das fórmas que me circundam.
As minhas operações mentaes é que estãofraccionadas e desparallelas, como se a fouce do cerebro me não dividisse o esferoide em dois ovulos estrictamente iguaes, senão o houvesse desigualmente bipartido, lobulo maior, lobulo mais pequeno... e cada um derivando em modos de ser incompativeis.
Porém esta hypothese eriça-me os cabellos. Adeus harmonia de funccionalismo mental! Falta d'obediencia a uma mesma força coordenadora e dirigente! Para cada metade do meu corpo, uma contenção vital diversa da outra, energia differente, outro caracter, outra impulsão...
Actividades parciaes, cerebrações avulsas, acordariam n'esses varios districtos do meu encephalo sem rei, nem roque, chocando as suas indoles sobranceiras, como pequenos despotas em gran-ducados rivaes. A dualidade surgiria por fim d'esse chaos encephalico, como uma terrivel dupla vergontea de loucura: venho a dizer, dois individuos n'um corpo, discutindo, acotovellando-se, perseguindo-se, um contrariando a vontade ao outro, annulando este os esforços d'aquelle: e nenhum deixando dormir nem descançar o companheiro. Mas é isto. Positivamente é isto—estes dois maus irmãos que juraram anniquilar-sed'um golpe: fratricidas que a mesma impulsão vae arrastando de roda um do outro, á espera do instante em que possam beber-se o sangue. Um d'elles fraco, cheio de mysticismos poeticos e visualidades atravessadas de inquietações. Timido, nasceu comigo, é filho de minha mãe, uma devota. Mas o outro foi crescendo nos livros, o estudo inoculou-lhe audacia, a arte agigantou-lhe as dimensões, n'este momento elles barafustam, e eu cuido que estremece pela basilica toda, este tragico drama que apenas se me debate nos nervos, e ensanguenta os musculos da cabouqueira que eu trago sobre os hombros.
Por consequencia estou doido. Um pavor gelado invade-me o peito.
Estendo para o altar os braços supplicantes. E o velho continúa a sua musica grandiosa, indifferente a tudo o mais, emquanto no altar celebra missa o arcebispo.
A execução d'essa musica parece absorvel-o e mirral-o como um galope d'annos desgraçados.
A primeira investida é confusa, o velho treme de medo, correm-lhe lágrimas na cara,quatro e quatro, e murmura não sei que palavras cabalisticas. Eil-o se endireita e recomeça.
E pouco a pouco a minha alma abre as asas e suspende-se n'um paiz lilaz de supremos extasis acusticos.
Já a riqueza dos timbres e a gracilidade dos motivos me fazem esquecer que seja um carrilhão de sinos que eu escuto. Alguma coisa da potencia orchestral do orgão, profunda, gothica, lithurgica, mas mais unida, mais colossal, mais grandiosa, se evola d'essas campanulas de bronze que faz soar no meio das serras o mais prodigioso maestro do mundo. O carrilhão faz-se voz da architectura de repente, e o desdobramento na musica dos caprichos floreteados na pedra pelo cinzel—tanto os meios d'expressão se centuplicam e vão fasciando de originaes melodias, arrancos trágicos e indomáveis rouquejos de paixão.
A voz de cada sino presta uma inflexão, uma emoção á voz da cathedral que desperta e vive como um ser perplexo e gigantesco: e d'aquellas resonancias que a mão do artista humanisára, como interpretando um estado d'alma doloroso, a angustia d'uma raça, cahiam tristezas, desprendiam-se adeuses, voavamrecordações... recordações de vozes ouvidas n'outro tempo, na bocca d'alguem que eu, valha a verdade, já não sabia dizer quem fosse.
Vamos aoCredo. O carrilhão centuplica o enxame instrumental de grupos harmonicos, e é o momento em que o universo une a bocca á poeira, para afirmar essa fé que elle tanta vez terá sentido esmorecer no coração. Oh, a musica do velho era uma grande opera de effeitos supremos, onde a alma se banhava aspirando ao mysterio d'um ideal celeste e inaccessivel. Vinha d'ella uma intensidade de dôr heroica que dava soluços á melodia unanime dos motivos symphonicos; desencadeando-se em rajadas no badalar dos grandes sinos. A principio era uma coisa lenta, que se apagava como um rythmo de reza, de nave em nave.
Era uma grande litania de humildes, cortada por algum soluço afflictivo, e em cuja penumbra se apercebiam circulos d'almas cada vez mais vastos, n'uma paisagem de ballada, livida e nocturna.
Outros soluços vão repercutindo o dobre d'aquella angustia suprema, n'um côro trágico de sessenta seculos de soffrimentos.
Já o effeito cresce, desencadeia-se, rebenta. Ha gritos funebres, insurreições apenas suffocadas, roucas ladainhas que chegam de longe pedindo socorro...
Ai! n'essa apotheose de crença espiritual, por vezes a estridencia dos brados faz suspeitar o terror em vez da luminosa confiança que deita a cabeça no regaço da fé, e a imposição feroz d'um credo absurdo, em vez de simples doutrina conciliante ao caracter, e inteiramente suave ao coração. E o offertorio passa, a campainha do acolyto annuncia oSanctus, e o sacrificio da missa principia.
Emtanto que no meio d'aquellas instrumentações picturaes do carrilhão, d'onde o mysterio da missa se ennubla e desenvolve, sempre o pensamento musical podia seguir-se, com a pureza d'um psalmo; tão limpido, que eu cerrava os beiços de medo que o meu halito embaciar pudesse, a crystallinidade d'aquelle adoravel motivo.
Mas da bocca dos sinos, como d'uma cornucopia emborcada, vão golfando inumeraveis turbilhões d'espiritos fatuos, sylphos de carrilhão, vibrações tornadas fórma que vão e vem, sobem e descem, cabriolam, zigzagueam, rolando, partindo, tornando a ir, e diffundindo-senos longes em grandes circulos concentricos, onde as figuras se perdem emfim, n'uma bruma côr de cinza. Todos são excessivamente pequenos, com uma multidão de caras differentes, pequeninos braços, pequeninas pernas, que se agitam n'uma quantidade de mimicas pittorescas. Apenas escapados dos sinos, eil-os correm uns ao encontro dos outros, larvas do medonho, embryões do pesadello, conforme a imanação sonora d'onde procedem: e agarrando-se pelos hombros, continuam nos ares a fantastica batalha que eu assignalára já para cada atomo das ruinas. Cada vez mais, cada vez mais, esses milhares de anões parecem recrudescer das sinistras gargantas do bronze, e bem depressa elles foram tantos, que faziam uma espécie de exhalação fumosa interposta aos meus olhos e os objectos, que se alongava depois n'uma grande lingua, rapida e turbilhonante, ascendendo na flecha audaz do campanario.
Já a torre estava cheia d'aquellas larvas cúpidas do som, sedentas de lucta, phreneticas de movimento, em cuja carcassa podiam vêr-se todas as espécies de caras, idades, sexos e configurações. Tinham umas a côr verde das folhagens; eram as mais numerosas e asque mais robustamente cabriolavam. Mas outras eram pardas, alongadas, noctiluzentes, com a vibratilidade dos vermes e a cabeçorra disforme dos peixes-sapos. Havia-as corcundas, havia-as tortas, havia-as barbudas. Encarquilhadas, hydropicas, leprosas.
Em figura de rato, em figura de sapo, em figura de morcego... e mesmo certas pareciam esqueletos d'aves antediluvianas, marchando aos pinchos, com um grande bico maior que o corpo, direito, espesso, que não podiam erguer da melancholica postura em que o levavam pendurado. Tinham asas quasi todas; algumas eram armadas de espinhos, outras traziam capuzes sobre os olhos, o breviario na manga e camandulas á cintura: e até muitas, brandindo fachos, corriam através da batalha, pondo um clarão de sangue em todo esse pavoroso arraial de maleficios.
E as que nasciam iam empurrando as que já eram adultas.
Crescia a chusma atropellando-se, comprimindo-se: até que não cabendo na torre, cahiam pelos varandins, aos milhares, ou esmagadas contra a parede ahi seccavam e por fim desappareciam. Na debandada, um panico lhes convulsionava ainda mais ospequeninos membros, e de rustilhão precipitavam-se, agarradas umas ás outras, e dispersando-se em circulos, quando já as suas figuras pareciam ganhar d'aptidão o que iam perdendo em nitidez de contornos. Pelo céo, aquelles circuitos simulavam fortes migrações de passaros cinzentos, cerrando os seus exercitos até aos confins do horizonte.
E mal os sinos paravam, havia um claro turbilhão de mostrengos... só um ou outro mirrava, n'uma asfixia de silencio, lentamente, pingando ás gottas no chão que o consumia, ou ficava cabriolando nas cordas em piruetas de acrobata, ou pouzado n'um ferro, arésta, teia d'aranha, entrava a balouçar-se monotonamente, até agonizar de todo e desfazer-se.
—Oh Deus! Deus grande, Deus omnipotente e misericordioso! ampara, por quem és, a minha fé, e não deixes apagar na loucura a bruxuleante luz da minha razão.
Quando o arcebispo ergue a hostia, e sôa em concavo pela igreja, o bater das mãos contricto sobre os peitos, porque é que este musico soluça, errando a vista pelos angulos da torre, á procura d'alguem que alli não está? E a sua figurinha de satyro arrepela-se,lugubre e grotesca, como a d'um macaco que tivesse por dentro a alma contricta d'um christão. Já as pombas volitam de novo sob a cupula, brancas, purissimas, adejando outra vez pacificadas, quando os ultimos turbilhões de mostrengos se despregam dos sinos mudos, esfusiando pelas ogivas, sob os lategos da uncção celeste que se irradia da hostia, feita carne, e do vinho do calix, feito sangue.
No momento, obenedictussegue, e o carrilhão murmura de mansinho, como n'um unisono de violinos e harpas, a mais suavepreghieraque o perdão do Senhor haja inspirado a um penitente. Manso e manso, os seraphins de pedra unem as mãos, batendo as asas de jubilo, com os seus typos frustes de creanças, em cujas cabelleiras se accende um oiro fosco d'aureolas; e das partidas lyras arrancam, com os seus dedos, vagos preludios de um mysticismo fluido, vaporoso, que embriaga d'extase, e em equivalencia approximarieis dos mais recatados perfumes de jasmim e de nardo, violeta e rosa branca, vaporizando-se de corollas abertas no claro-escuro d'um claustro, e que á noite espargissem suggestões de bemaventurança, na cella virginal d'uma noviça.
Sim! n'esse preludio do velho, chora talvez a imploração d'um crime antigo, expiado em annos de supplicas nunca ouvidas, e centuplicando d'eloquencia, através do tempo, té que afinal a tortura do musico excede os limites d'expressão concedida ao homem, e iguala e imita a eloquencia de Deus, para, confundida n'ella, coagir o Monarcha dos céos a perdoar. Tudo n'este supremo instante a solicita, os fieis que voltam a face para o carrilhão que os arrebata, as esculpturas, as pombas, e o arcebispo emfim que ao dar a benção, estende para a torre o braço tremulo, e absolve d'um gesto o extranho musico.
Limpo de nevoas todo o céo de dezembro esmaecia, d'uma pureza elysea incomparavel—e argentea a lua rola, espalhando ao redor madeixas claras, como uma cabeça morta debaby, á procura do tronco, pelos valles, antes que o gallo da missa solte o seu primeiro apello, para o baptismo de Jesus feito creança.
Na poeira do luar, pelos rasgões da rosacea, um turbilhão de seraphins rompe na igreja, brancos de marmore, nascendo da nuvem como uma geração espontanea de caritas bochechudas, boccas em flexa, olhosde saphira, e o tom chlorotico, translucido, que participa do paraiso e da tumba, e no qual poderá lêr-se, mau grado a espiritualização da eterna estancia, essa infinita nostalgia dos pequeninos seres arrancados ao calor dos seios maternaes.
Por um instante, palpita sobre o côro alada tromba, como uma emigração de passaros radiosos, pyrilampos, borboletas, que oscilla e se desloca na fumarada argentea do astro, turbilhonando em rodopios d'apotheose: depois do que converge á torre, e pelos varandins enfia, n'uma espiral de sonho alvinitente. Mas é um exercito que lentamente baixa o vôo, silencioso, rufado apenas, nofrou-froudas asitas quasi imperceptiveis. A alguns mal se lhes lobriga a cabeça, envoltos como voam, nas suas camisotas de nuvem; outros inquietos, não podem estar poizados muito tempo em qualquer ponto, e n'um phrenesi de movimento, mexem, debicam, bolem no teclado dos sinos, nas esculpturas, chamando-se, vindo em chusma rir de um monstro ou cariatide, arrepellando-se os cabellos uns aos outros, jogando as escondidas por traz das heras que abraçam a muralha, de roda dos varandins, pelas cordagens—e atéum que escorregou nas lageas, ficou de bruços, choramingando, com birra, á espera de que alguem o fosse levantar.
Os mais robustos então descolam do pavimento uma das lageas, a um canto, e acocorados na terra, escavam com as unhas uma toca.
Pela segunda vez, o gallo da missa gritou da cupula, e elles, que o escutam, precipitam com furia o seu trabalho, a fim de que a tarefa esteja prompta antes que a ave solte o seu terceiro grito de alarme.
Bem depressa ha um buraco fundo no chão da grande sala, e—oh surpresa!—aparece um pé, um microscopico pésito de creança roxo de frio, inteiriçado: e logo depois do pé uma pernita, o tronco, uma cabeça... Já a curiosidade impertiga a pequenada, que se achega e acocora, em circuito cingindo-se pelos pescoços, n'uma profusão de momos espantados.
O pequenino cadaver está descoberto, e cada qual n'elle procura insuflar o ligeiro filete vital que em si conduz. Uns lhe aquecem as mãos com seus beijitos leves como abelhas, outros lhe sopram das palpebras a vilissima terra que lh'as come, emquantomuitos lhe fabricam uma samarra, com os pedaços que arrancam ás suas proprias vestimentas.
Emfim, a creancita ressurge, esfrega os olhos—dois ou tres calafrios passam de manso á flôr da sua epiderme opaca e ecchymosada—e a vida nasce, ha movimentos, pequenos haustos, suspiros... mas sempre á roda do pescoço um vergão negro estrangula-a, estygma de infamia paterna, que o velho encara estralejando os dentes, n'um terror confuso de assassino. Pela terceira vez o gallo canta, e triumphante, o turbilhão de seraphins levanta vôo, ascendendo pelo céo, n'uma espiral de nevoas côr de rosa.
Porém de repente, o pequenito recorda-se, volta a cabeça, estende os braços para o musico que de rastos avança, desesperado, por não lhe poder tomar as mãositas protectoras. Oh, era tempo! Ha já cem annos que elle assim vagabundea nas ruinas, sem repouso esse sineiro que amara uma abbadessa; e annos e annos desfilam, e sempre a terra a recusar sepultura ao amante, e sempre a colera de Deus a expungir da sua gloria, o monstro que assassinára o filho, no proprio dia em que elle foi nascido. Annos e annos o miseravel tentaraapaziguar a colera do Eterno, vindo á missa do gallo da abbadia, interpretar pela musica do carrilhão fantastico as escruciadoras angustias da sua alma lassa, atormentada, mas ainda no fim d'estes esforços o céo que redimia a creança, como se não julgasse bastante a expiação do pae, abandonava-o!
Surdo, maldito, o desespero começa a babar-lhe da bocca, imprecações incoherentes. De novo o carrilhão blasphemo, vomita das campanulas de bronze, a sua bruxaria macabra de mostrengos. Os ultimos fieis arrastam as sapatas no adro, e pela montanha as luzitas descem ondulosas, hesitantes, como um bailado de pyrilampos.
Agora um, outro ao depois, os lampadarios se extinguem diante das capelas: o altar-mór não phosphoreja mais as suas rutilancias d'estofo e pedrarias: o arcebispo foi-se, as monjas voltaram talvez aos seus sepulchros, porque as procuro em balde nos cadeirões do côro, pela egreja e nos claustros, á chamma dos ultimos archotes que lambem de sangue os gestos das estatuas, as arcarias confusas, os baixos relêvos e os nichos.
Deito os meus olhos de roda, espavoridos, e ha risadinhas, voejos, as heras trepam emgrossas lianas, que se abraçam nos columnellos da torre, e prolongadas, tenazes, n'uma luxuria contorcida de serpentes, alastram as suas pernadas entre as pedras, como uma avançada de exercito que em nome da natureza, toma posse do terreno que lhe havia sido usurpado. O terror dá-me epilepsias de fuga, d'uma vertigem, d'uma raiva! e precipito-me na escada, ás escuras, sem mais ouvir os queixumes do musico, que as vegetações vão sugando, assimilando em si, absorvendo, n'uma troncagem monstruosa de figueira.
Chego á igreja, quebrado pelas brutalidades d'essa queda espiral de oitenta metros. E atraz de mim não ouço mais que a floresta a esbravejar, tomando posse da ruina, e os estalidos da cantaria que rebenta, escarvada pela violencia das raizes que esconjuntam a architectura a punhaladas de ciume. Agarro um facho, em bramidos, delirante d'um medo que centuplica as minhas ancias de vida livre, em meio dos campos: e ao acaso, entre os cyprestes, pelo claustro, os risos guiam-me: bem depressa descubro uma luz vaga, coando-se por baixo d'uma porta baixa e carcomida. Dentro ha rumores, levesfrou-frousde sêda que se acamam, tinir de pratos... E nophrenesi medonho que me agita, deito os hombros á porta—a porta voa, e uma orgia d'espectros patenteia-se, n'uma luz glauca em que as figuras mergulham, confundidas, alongando as roupagens pardacentas. A principio eu não pude destrinçar as lugubres carcassas, uma a uma, mas já a minha vista insiste sobre as fórmas... ha um festim servido sobre a mesa, flôres que se desfazem em poeira; e n'um brilho d'enterro as tochas ardem, mostrando á roda esqueletos de monjas, a devorar co'as mandibulas descarnadas, e cardeaes, marquezas, gentis-homens, que entre si permutam toda a casta de motetes dulcerosos.
E mais distante, á luz do fogo que enrubesce na chaminé de pedra armoriada, o senhor arcebispo tange um violão, meneando a calva emquanto a abbadessa ergue os seus vestidos veneraveis, para esboçar o primeiro passo do minuete, acordado nas cordas do instrumento.
—Rompe a manhã! grita o creado aos meus ouvidos.
Esfrego os olhos.
A nevoa esfarrapa chuveiros na montanha. É dia claro. Uma caleça nova nos aguarda. E o sineiro da abbadia? A gente sempre sonha cada asneira!(Voltar ao Conteúdo)