Devo dizer-lhes que este Carlinhos era um adoravel petulante de buço preto e olhos claros, cheio de vivacidades com raparigas, prompto a rir, delgadito e forte, tendo pelos actos de bravura uma quasi religião. Compensavam-se n'elle delicadezas de femea, brancuras de mãos, flexibilidades de cinta, uma doçura candida de feições, toda a graça ondulosa emfim, dos que adolescem á larga, sem cuidados nem represalias paternas, com os primeiros esboços d'essa energia physica, tenaz, inquebrantavel, leviana e generosa, que ainda agora é tradição em certas raças da provincia, e guarda fama de povoado em povoado. A escóla fôra-lhe apenas um pretexto de troça, onde esse incorrigivel tinha posto em debandada a auctoridade classica dos mestres. E como n'esse periodo as primeirasdesordens do sangue, ensaiavam pelo campo da aventura, mais agora ou mais logo, as suas sortidas, não havia mesada que chegasse, nem horas para folhear as lições. Demais, a sua impetuosidade que esplendia côr e frescura de saude, pouco dava á vida cerebral; portanto, voltou á aldeia sem curso, elançado de figura, tendo as olheiras symtomaticas do amor esbanjado, lendo romances, com uma arte especial de surprehender mulheres, e predilecções decididas por quanto fosse prazer.
—Doido, dizia a gente pobre da aldeia, mas que rapaz!
A fortuna da familia fazia-o no sitio uma especie de menino d'oiro, sagrado e por todos querido; desculpavam-lhe as audacias, tinha entrada em todos os lares, e quando nas romagens o seu cavallo piafava nos adros das ermidas, ou a galope ia cortando a chafranafra das feiras, as raparigas deslumbradas achavam-n'o bello como um deus, e muitas fugiam com elle, mandando á fava os namorados. Realmente ninguem achava extraordinarias estas coisas. O que as velhas camponezas então faziam, era ter saudades do pae, rico grão-senhor de herdades e quintas, destemido, brilhante, alegre aventureiro, que ainda emvesperas de morrer tinha raptado a lavradora das Lages; aquella russa magnifica de carnação, que tinha o ar d'uma grossa madona eborense, hão-de estar lembrados, hein? Carlinhos mesmo, era um filho do amor, vindo não se sabia d'onde, amor d'acaso, d'alguma arribana de granja, d'algum arredado logarejo entre serras e moinhos. O certo era que dias após haverem enterrado no velho cemiterio, a filha que ao rico homem restava da esposa legitima, entrara o marido em casa com um pequenito pela mão, fôra junto da esposa mortificada de prantos, e sem palavra tinha-lhe deposto no regaço aquella encantadora miniatura de Carlinhos pequeno, a mais fresca e divina que era possivel sonhar. A pobre senhora que se via sem descendencia, já não estava em idade de ter filhos; resignada ás traições do marido, e ennobrecida d'esse grande orgulho benevolo e senhoril, que ainda na provincia revelam as antigas familias, acceitara obambinosem cousa alguma perguntar. Além de que, adoptando a creança, assegurava-se herdeiro á casa, e os filhos do irmão de seu marido não participariam ceitil na grande fortuna do casal. Ah, mas esse exemplo d'adopção tinha dado a mulheres semmarido, phrenesis bruscos de contagio, e certo foi que muitas creanças appareceram dizendo-se irmãs de Carlinhos. Talvez calumnias forjadas pela outra familia, ainda que fallando sério, não faltassem a taes pretenções, uns signaes de verosimilhança. Tanto os da Oriola, que assim era conhecida a familia do Carlinhos, como os da Torre, que assim nomeavam a casa do tio adversário—eram fortunas de respeito e gente de poderio. Os primeiros tinham o maior nucleo da propriedade de redor da Oriola, aldeia perdida entre carvalhaes e sobreiros; os segundos faziam séde de governo proximo a S. Mathias, outra aldeia nos valles de Beja. Uns tinham cabellos pretos, alta estatura fina, nariz direito, olhos claros, e uma côr fulva de pelle, nuançada em deliciososduvets; eram da Oriola. Mas outros insculpiam-se herculeos e loiros, nariz recurvo, dentes carniceiros, barba rara, e os olhos singularmente obliquos contra um nariz que arfava com destrezas de hispano-arabes; eram da Torre.
Pois extraordinaria bizarria! Dos trinta annos para baixo, toda a Oriola copiava o typo do pae de Carlinhos; e acontecia o mesmo em S. Mathias, a respeito do typoloiro da Torre. Nas terras de roda, estas coïncidencias faziam riso, ainda que se explicassem com honra, aqui para nós. Os da Oriola davam pão á sua aldeia, como os da Torre a S. Mathias. Lá vinha o proverbio—mesmo pão, mesmas feições. E sendo assim...
Ora cada qual d'estas familias rivaes—e nunca pude saber porque rivaes, questões de ciumes talvez, uma herança mal repartida, ambições de riqueza ou voga entre os povoados, eleições renhidas n'algum anno de mais gastos, emfim qualquer pequenino attrito d'esta natureza ou d'outra, onde o orgulho dos senhores ruraes, tão vehemente e meticuloso, faisca determinando incendios e intimas assolações—cada qual d'estas familias, ia eu contando aos senhores, não passava dia sem discutir com uma rica metralha de descomposturas, escarneos e desdens, o viver da outra. Em torno d'estes odios interfamiliares, tinham-se formado mesmo pequenas côrtes, feitas com figurinhas insipidas de proprietarios, mulhersitas seccas e beatas, maldizentes na sua dentuça podre, com poucos meios e grandes deslumbramentos pelas pratas de casa rica, sabendo as mesmas historias e queixando-se dos mesmos flatos, levando e trazendorecadinhos, segredinhos, pequeninos fetidos d'intriga, em preço do chá com doce que pelos serões lhes serviam, e da quasi familiaridade que em publico, esses senhores de terreola lhes dispensavam. Na casa da Oriola sabiam-se por exemplo a horas e a tempo, os vestidos de sêda da prima Dora de S. Mathias, como ella se vestia em sendo madrinha de baptisado, o que tocava no piano, e quem estivera a jantar no dia dos seus annos.
—Diz que houve balancé até de manhã.
E noticias da cortiça exportada para Inglaterra, lã que vendiam os da Torre, e dos rebanhos, carneiros, vaccas, porcos, cavallos, poldras...
—Tão maus, que elevaram o preço dos carneiros, só para prejudicar os lavradores somenos. E os porcos d'elles não prestam, carne de cão, mais dura!...
Cada viajata de Dora durante a estação de banhos, cada mez d'opera em Lisboa, no inverno, as primaveras com o pae pela Andaluzia, no Algarve, ou em Marrocos e Gibraltar, para espreitar o dolente azul do Mediterraneo do alto das artilhadas escarpas inglezas, eram motivos de censuras na Oriola, e surdas prophecias de ruina iminente. As mulheritasda terra vinham aos serões com seus maridos, trazer o que sabiam da Torre, inventar quando não havia que trazer, e a mãe de Carlinhos commentava os casos entre velhas creadas que a tinham acalentado, velhinhas que davam tu á sua dona, enroscando-se-lhe aos pés com somnolencia de gatas fugidas ao serviço. Mas, desgraçadas das visitas que ousavam julgar diante da rica viuva, o proceder da sobrinha ou do cunhado—que tombadas em graça, nunca mais lhe viam os dentes e provavam o dôce! Ella só, viuva de Fernando Zarco, podia discutir os desvarios de seus parentes; o resto contava sem commentarios o que ouvia por fóra, ou ia escutando o que ella dizia, sem retrucar mais, aliás...
Na casa da Torre, exasperação identica a respeito da Oriola, não havendo serão que as estroinices do primo não fossem esmiuçadas, exageradas e discutidas. Carlinhos não tinha pae, Dora não tinha mãe. Mas auctoritaria e toda orgulhosa do seu reino domestico, da riqueza e alta educação que recebera, tambem ella punha em torno de si uma pequenina côrte dulcerosa e servil. Era mais nova que o primo, e a sua belleza de loira, magnifica ealta, toda fresca em batas d'estofo exotico, deliciosa de cabellos e mãos, com uns ares d'inaccessivel castellã, fazia d'ella a musa do districto, e a paixão de quantos gordos filhos de casa opulenta, batiam por feiras e lavouras em grande. Viam-se os dois muitas vezes, Carlinhos e Dora, casualmente nas festas de Beja, em praias de banhos, e por Lisboa, onde até acontecia ficarem no mesmo hotel. O pae d'ella, Manuel Zarco, fingia não dar pelo sobrinho, oengeitado, como elle dizia na sua brutalidade morgadia. Os rapazes, porém, é que se iam mirando ás furtadellas, sem querer saber das caturrices do velho. Carlinhos, tão ruidoso e leviano por onde quer que andasse, ficava sério e perturbado sob esses rapidos encontros com Dora, e os seus olhos claros esmaltavam profundezas ardentes, e melancolias de quem fica a scismar. Porque em verdade, mulher alguma podia equiparar-se a Dora, pela nobreza do seu typo, estudada elegancia de maneiras, vestuario, contos de fortuna e altivez de familia. Os bem informados n'isto d'interesses e allianças possiveis ou premeditadas, não viam por essa orla toda do districto, um casamento á altura de Dora, a menos que aorgulhosa descesse, o que todos diziam não ser provavel. Apenas um noivo a merecia bem, Carlinhos.
—Esse, opinavam as terras circumvisinhas, quando as gallinhas tiverem dentes.
Precisamente esse dia, a aldeia de S. Mathias suspendera os trabalhos do campo em signal de festa; os das herdades tinham vindo com os seus cajados e as rudes botas altas de coiro branco, rolavam bailaricos por todas as casas; e no terreiro da egreja, ás portas das vendas, no balcão da escola régia, ou mesmo ás embocadas das ruas, por aqui, por alli, os camponezes em ranchos, fato novo, ruborescencias de vinho no queimar da face, havia mais de tres horas que aguardavam a boda. Os campos n'esses meados de junho, tinham primeiros doirados do trigo maduro, ondulante e farto, que a aura por zonas encama n'uma saudação graciosa; por um lado e outro, entre gavelas arrepeladas sem ordem, remoinhos desflorados de messe, como labios de rapariga ardente, ria o escarlate das papoulas; e como aos sóes da quadra tinham vindo as cigarras, ruido de cega-rega, trocavam alertas d'arvore em arvore, á medida que ia avançando o verão. Entanto ainda asnoites eram frias, e o orvalho da manhã perlava nas folhas, secretas lagrimas d'amor trahido; corria mesmo agua por alvercas e ribeiros, fria, salobra das terras atravessadas, dando erectos viços aos panascaes verdejantes, ás junças e mentrastes das ribanceiras. Microscopicamente, as vinhas iam esboçando cachos, entre pampanos pizados d'amarello e vermelho ferrugem; começam a vir os perdigotos, as rolas tinham chegado d'uma aspera migração, e desconfio que os melros, casados de fresco fazendo musica de opereta entre os murmurios das cannas e dos silvados, arredondavam já os seus ninhos, á espera da petizada. N'essa grande paz bucolica, a alma abraçava simples ideaes de ventura, nua d'ambições desordenadas e volupias lividas, e na doçura de palpitar entre aromas silvestres, ia voando em cata de amores delicados e mansos idyllios, pelas veredas onde as condoidas espigas se curvavam, a depôr nos regaços esmolinhas do primeiro trigo em sazão. Vista de longe, a aldeia era encantadora d'alegria e brancura. Nas collinas, de roda, empoleiradas ermidas vigiavam por ella dia e noite; Deus foragido pela descrença das cidades, andava por alli talvez na estaturade algum velho mendigo de fallas doces e resignada humildade; e pela noite, quando os rebanhos vagarosos seguiam para os curraes, esse cantinho rustico tinha scenas biblicas d'uma graça innocente, pastores e pastoras ajoelhando ao toque das Trindades para dizer oangelus, risos de ganhões pelas devesas, cantigas que se apagavam nas corcovas dos caminhos, emfim tudo quanto entretece a elegia plangente do morrer do sol. Esse dia casava-se o Carlinhos com a prima Dora, e as duas casas fortes do districto, tantos annos separadas por odios, iam emfim restaurar-se na bôa cordealidade, por esse laço dos primogenitos.
Imagine-se o espanto e a curiosidade que um tão inesperado successo derramou por toda a provincia, conhecidas como eram as desavenças dos Zarcos, desde tanto apregoadas. Mas assim como tinham ficado na sombra os motivos de apartamento, assim tambem incognitas ficaram as molas intimas da nova amizade entre as duas casas. Evidente, que o principal motivo de ligação era o casamento dos rapazes; isso não bastava entretanto; outras secretas ponderações deviam terinfluido; e essas, quaes? Porque, emfim, era conhecida a indole orgulhosa e tenaz da viuva; as suas phrases sobre o cunhado citavam-se em modelo d'altivez varonil e decidida independencia; e por seu lado o da Torre não a poupava tambem. Nem uma só vez Dora tinha fallado a sua tia; creancita ainda, succedera encontral-a não sei que de vezes; os olhos pretos da viuva detinham-se um momento na figurinha petulante da bébé, e desviavam-se logo sem rastro d'affecto. Verdade é que o velho Zarco referindo-se a Carlinhos, punha sempre palavras crueis, marau, vadio, o filho d'aquella...
Subitamente, eis que os rapazes iam casar! Jámais por aquellas redondezas se tinha dado coisa parecida. Vamos nós agora a vêr, se a da Oriola virá dormir á Torre! diziam muito interessadas, das suas soleiras, as gordas comadres de S. Mathias. A mór parte nem tal acreditaria, mesmo vendo. E as apostas começaram. A vêr como dorme! Apostar em como não dorme! A camarilha de Manuel Zarco arengava com sobranceria, entre os grupos mais impacientes:
—Afinal, quem se humilha são os da Oriola. É bom saber!
E uma de preto, a Fevronia, toda preponderante, meia azul e sapato rôto, batia palmas n'uma loucura, dizendo por todas as casas:
—Quem viver tem muito que contar, não haja duvida.
Foi n'este marulhar d'opiniões e trocadilhos, que um forte rumor de sege alborotou a aldeia e emquanto rapazes descalços corriam, cães ladravam, e cabeças de mulheres vinham ás portas espreitar avidamente, os trens da Oriola romperam a grande passo pela rua larga, vindo topar alfim nas escaleiras do adro. Este caso foi muito fallado, e ainda se pasma da magestade com que se apeou a viuva da sua grande berlinda estofada a casimira perola, grandes fivelões e lanternas de prata esculpida. Tinha-se chegado muito povo a vêr, as janellas guarnecidas de madamas, e o mordomo da senhora viuva, gordalhudo, com uma expressão presidencial, desenrolou um rico tapete amarello e branco pelo adro, desde o estribo até aos portaes do templo; os creados da taboa tinham-se erguido e descoberto; e n'isto Manuel Zarco com um riso amarello, todo curvado de obsequios, casaca e luva branca, saíra a receber sua cunhada; e quasi a medo, todos repararam, offerecera-lhea mão para saltar. Diz que ella nem o encarou, e foi sósinha pelo tapete fóra de cabeça alta, um dos braços pendentes, e a cauda do seu vestido de damasco negro roçagava que parecia mesmo da senhora rainha. Carlinhos ia atraz, um pouco deslocado na casaca de noivo, porque em verdade ia-lhe melhor a jaqueta e o chapeu largo. E fechavam cortejo as velhitas que tinham embalado a viuva, ambas de roxo, ajoujadas, chapeus muito profusos de violetas, e mitenes de renda onde as suas velhas mãos boiavam carcomidas. Junto ao altar tinham posto uma grande poltrona em setim rutilante, flordelisado a ouro velho, onde a viuva se assentou sem mais cerimonia; e todos em pé serviam-lhe de côrte, com passadinhas respeitosas e pequenas vénias cheias d'uncção. Apoiado á espalda da poltrona, velho Zarco mastigava demoradamente as palavras com o seu modo somnolento, siflando osssde quando em quando, e ella sem lhe dar attenção, um momo altivo de labio, entretinha-se a esfolhar com o seu pé de fidalga, rosas brancas espalhadas pela alcatifa.
Embalde o da Torre lhe fez notar que melhor seria assignarem as escripturas emcasa d'elle, como era natural, até ficava alli perto, no largo. V. ex.adescançaria um pouco nos quartos de minha filha...
—Meu cunhado, não me sinto fatigada, assignaremos isso no gabinete do prior, onde quer que seja, mas sem arredar pé da egreja, que é casa de todos. E a proposito, disse ella tirando o relogio, é a hora, duas e meia. Janto ás seis, o caminho é longo.
O da Torre ia a sair, a viuva tinha-se erguido sem reparar na impressão que estavam fazendo os seus cortantes modos de dizer. Manuel Zarco deixou-se caminhar ao lado d'ella foi-lhe lembrando com voz mansa que os velhos rancores deviam acabar com aquelle enlace dos filhos: tudo afinal se esquece.
—Tudo não! disse ella bruscamente. E proseguiu: pódem casar, pódem casar. Carlinhos além de tudo, não é meu filho, aliaz tinha-lhe prohibido esta alliança, meu cunhado!
—V. ex.aé então muito orgulhosa, notou velho Zarco despeitado d'aquelle tom.
—Crê isso? disse a viuva abrindo o grande leque d'oiro e plumas, que reluzia n'uma polvilhação de pequeninas pedras.—E de repente, n'um accesso de voz intimativo: Sabe, meu cunhado, que seu irmão era homem para oter morto, se acaso tem vindo a saber... Porque francamente, disse ella com os dentes cerrados, rigida e faiscante nos seus damascos negros, francamente, é desprezivel, o senhor! Tenho ainda nos pulsos signaes das suas unhas. Adoro o Carlinhos, creia—eis porque ás vezes me aterro da mulher que elle escolheu. Meu Deus, se essa creaturinha sahir ao pae!
Os dentes do outro rangeram—porque não casou então comigo? disse elle com frenesis na raiz dos cabellos.
A viuva riu-lhe na cara.
—Eu? Eu? Ora, meu cunhado!
Fez dois passos na alcatifa, quebrando n'uma crispadura electrica e larga, a enorme cauda applicada de rendas antigas, ao tempo que os dedos de Zarco rasgavam convulsivamente a luva descalça de rompante. Ambos trahiam colera noszig-zaguesque faziam marchando. Os olhos ainda magnificos da viuva procuravam o da Torre, phosphorentes d'ameaça. E o velho, como quem não acha outro caminho para fugir:
—Emfim, desmancha-se este casamento, se quer.
—Não, já agora, elles desgraçadamenteadoram-se, Carlinhos mostrou-me as cartas, amor de muitos annos, inda eram pequeninos. Deus sabe se o senhor mesmo approximou...—E subia-lhe a voz em graves dramaticos, com vibrações de metal.—Mas, meu cunhado, acautele-se, acautele-se! Sua filha vai comigo, voltal-a-hei contra o senhor.
—Oh, disse elle, experimente.
—Pois veremos.
—Vou buscal-a, resumiu elle transtornado, curvando-se. E muito baixo, querendo dominal-a: que inimigo horrivel eu tinha, se a senhora fosse um homem!
—Matava-o, respondeu ella estendendo o punho n'um gesto de Rachel. E ajuntou a rir: tão certo!...
Carlinhos vinha para elles, já o velho Zarco se afastava. E vendo-o no seu ar de cavalheiro, estatura correcta, alto, um fulvo esplendido de pelle, bocca firme nos cantos sob a velludagem do buço, quasi innocente na graça leal do sorriso, esse rir da viuva, correndo imperceptiveisnuances, foi gradualmente adoçando, enternecendo, perfumando como um licor que se evola entornado, de modo que era divino quando Carlinhos, femininamente, lhe deu a beijar a testa. Ellaentão sem se importar, attrahiu-o a si n'uma paixão de leôa, como se nunca mais se vissem, e dizia-lhe coisas entrecortadas, a chorar, a beijal-o furiosamente, estreitava-o mesmo sobre o coração, com impetos d'abandonada, que se fica nos occasos da vida, sem mais ninguem que amar. Fosses tu das minhas entranhas, não te queria mais que te quero! E essa maldita, hade expulsar-me do teu coração.—Elle queria contel-a, quasi envergonhado de os estarem olhando á roda, jurava-lhe, promettia tudo, n'um precipitar de palavras meigas. E á flôr da abobada nua e branca da egreja, andorinhas corriam chilreando, filhos e mães que inda não tinham emigrado, e demoravam residencia no calor dos velhos ninhos patriarchaes.
N'isto, fez-se um grande rumor, que alastrado, mais e mais confuso, por todas as ruelas, ia pondo as gentes de sobreaviso; viram-se rapazes e mulheres correndo ás esquinas que defrontavam com o largo, janellas que abertas de chofre inchavam de gentio com fatos de gala, grupos freneticos buscando posição de vêr melhor; e de repente, quandoa orchestra de Beja entrou a choramingar uma symphonia no côro, ondas de familia romperam na portada sem guardavento, invadindo as capellas, enchendo a nave, querendo forçar a balaustrada carunchosa do sanctuario. Jámais S. Mathias tinha visto coisa igual, nem quando D. Pedro V fôra a Beja—e francamente, de logo perdeu a esperança de tornar a gosar outra grandeza assim de boda. A casa da Torre era no largo, grande, pesada, singular, com esquinas de granito negro, onde os escudos postos ao través esculpiam complicados symbolos de nobreza, leões com asas, metade de um cavalleiro armado de lança e capacete, Nossa Senhora dentro d'uma torre, cabeças de moiro n'um molho: e só aguias eram algumas tres! Sobre os portões de columnellos gastos, com argolas de bronze para prender as bestas, e portas de carvalho fortalecidas com magnifica pompa de ferrarias damasquinadas, esses brazões repetiam-se mutilados; no fundo do pateo aberto, d'um sabor arabe, e com arcos á volta cobertos de hera via-se a ampla escadaria de corrimões de bronze, alcatifada de fresco e cheia de vasos decorativos; um velho cypreste lhe fazia sentinella, hirto á beira d'um poço octogono, todoem altos relevos de pedra rugosa—em casotas, acorrentados, inquietos, dois grandes mastins abriam sobre quem chegava, o duro olhar sanguinolento. Na fachada cá fóra, a correnteza de janellas senhoriaes, fria de butareus e cimalhas onde os estorninhos gritavam, deixava pender ricamente sobre as velhas saccadas, preciosas colchas hereditarias, amarellas com grandes passaros em lhamas de prata, azul pallido n'uma loucura de mandarins e pagodes, ou d'altos relevos brancos, verdes, escarlates, sobre foscos de oiro indiano, onde as grossas franjas luziam. Pois d'essa casa severa, vomitára subito um cortejo bizarro de noivado—á frente vinham os figurões de Beja em grandemise, ricassos das terras proximas que tinham chegado nas suas seges, velhos amigos de Zarco, lavradores, funccionários, ultimos parentes da familia... E rodeavam o da Torre todo pallido na sua grande barba, que levava a filha pelo braço como uma grande musa germanica, alta, pudica, esplendidamente branca e vaporosa n'um véu que lhe cahia aos pés. Fez bulha na aldeia o senhor coronel do 17 com as suas medalhas ao peito, e um velho general de metro e vinte e cinco, gesticulandopara a direita e para a esquerda, que mirava as femeas lampeiro como um galo, ao pé do vigario capitular, um côr de parede, que mui dulceroso e beato, afiára o dente em tres dias d'abstinencia, sonhando as delicias docopo d'agua. Seguiam damas paramentadas de oiro e plumachos, luvas chinfrins de dois botões, pulsos eticos chincalhando braceletes, muito estrepitosas em sêdas de côr terrivel: e disse uma d'ellas para a outra, que seguia ao lado, mortificada no peso da cuia—quem está mesmo um cangalho é a Sardinha. Esta coisa causou grande pasmo; estar a Sardinha um cangalho! Hi!... Muitas agglomerando-se em trouxa, discutiam tão famoso caso. E gabou-se a morgada das Palmas, uma trigueirona de cabello corredio, labio gretado, sêcca e presumida, que de chapéo branco e vestido verde, fazia pensar n'um grande molho de nabos. Depois as creadas, sinceras raparigas que choravam—isto deu pena em S. Mathias—e quasi em braços no meio d'ellas, uma velhita em sêda preta, pequenina como uma creança, levava um ramo de rosas brancas e o leque da noiva, abanando n'um triste ar resignado, a sua cabeça branca d'octogeneria. A aldeia estava toda no largo, gralhando aessa hora, gente das lavoiras de roda, uma chafranafra de mulheres e homens que se rasgava e bipartia, ao passar o acompanhamento. A cada passo, pequeninos lances detinham a procissão bruscamente, e viam-se as raparigas sahir dos ranchos, tostadas, fortes, rindo com soberbas dentaduras, cabellos de trigo maduro remoinhando em serpente no alto das cabeças...
—Com sua licença—e deitavam flôres sobre a herdeira, commovidas, um ar de filhas de burgo medieval. Á porta da igreja, o Carlinhos estava entre os seus, crescia a turba embatendo-se; e por traz a viuva muito pallida, tinha os vagos olhos das frias estatuas antigas, inertes, dilatados d'insomnia, como prescrutando ao longe os tempos em que ainda não eram de pedra, e uma vida lhes circulava e ria no alvor dos membros nús. Deu-se então no Zarco e na viuva, ao mesmo tempo, um calafrio de ciume, quando os noivos se encontraram com a mesma flamma nos olhos; e os dois perceberam que iam ficar de mais n'esse idyllio de creanças, absortas uma na outra, que esquecidas de tudo, iam de mãos dadas pela igreja fóra. N'essas velhas idades d'amor egoista, em que os filhos são ocalor, o orgulho o motivo de viver—o choque d'ambos, percebendo que lhes tinha acabado o imperio sobre essas adoradas creaturas, foi tão violento e fulminante, que se deixaram ficar atraz no meio da turba, com vagares de fundo desalento, ella direita, sem desmanchar a estatura soberba, derrubado elle, pacifico, apagado, enorme como um elefante, e sem dar uma palavra para não desatar alli em soluços, trespassado dos primeiros regelos do abandono. Cortando então por entre a gente, ouvia por toda a banda humildes palavras de conforto e piedade; velhas mães que o encontravam, lacrimejantes, attentando-lhe na face descahida—Vae ficar só n'aquella casa tamanha, coitadinho do amo Zarco hade-lhe custar. Isto de filhos!
—E são os da Oriola que levam a nossa menina! Abaixar-se o amo...
Porque todos os subditos sabiam já da capitulação deshonrosa d'esse velho rei de charnecas e montados; umas poucas de palavras colhidas na altercação com a viuva, serviram de base a toda a sorte de commentario e parlenda sobre o casamento; pintava-se e repintava-se de grupo em grupo, a expressão terrivel da viuva fallando a seu cunhado,palavras cruas ditas por ella,acautele-se, acautele-se levo-a comigo, e outras muitas; e o amo Zarco todo enfiado, ali a ouvir, a rezar desculpas, a fazer-lhe vénias. C'os diabos—nem que comesse os sobejos d'aquella magana!
—Fosse comigo, fazia cada qual em grandes quizilias.
—Ai, argumentavam muitos pachorrentos, é o que se vê hoje em dia.
—Tão má, filhos, que nem as escripturas quiz assignar em casa do cunhado.
—Inda assim não entalasse o rabo, figurona!
Mas depois de longas conjecturas, recapitulando, toda a gente acabava por dizer que andava ali o quer que fosse. Olá se andava!
No gabinete do parocho tinham posto uma grande mesa, e em roda bancos negros da confraria das Almas, para os convidados se assentarem. Era uma casa verdenta de paredes, com fendas ao través na abobada, pintada de frescos mais que barbarengos; e por um buraco de cima, passava a corda da sineta, que desde que se rachára o sino, servia para chamar á missa a freguezia. Ao fundo, pezavaum grande armario de carvalho negro com espelhos de metal que verdejavam; e paineis de santos esburacados á navalha, cahiam aqui e além, emmoldurados em talhas carcomidas. Uma luz de cava vinha de cima, por uma janella sem portas, onde se cruzavam varões de ferro. Como a casa era estreita, apenas foram á leitura do contracto, os intimos amigos ou personagens de pezo. E o tabelião Mathias homemzarrão com uma cabecinha humoristica de japonico, estimavel e estupido, principiou com a sua voz em falsete nos fins de cada periodo, a ler artigo por artigo as escripturas, circumvagando a cada clausula os seus olhitos por cima d'umas olheiras paposas, onde as bexigas tinham picado covinhas de sombra.
«...e mais dou a minha filha Dora Victorina Maria de Sousa Alvim Mexia Zarco da Cunha Menezes... as herdades denominadas da Cova, das Sesmarias, da Chaminé, e Côrtes tanto Grandes como Pequenas, com seus montes, gados, arvoredos, dependencias e serventias, a partir do dia em que desposar o dito seu primo Carlos; e mais lhe faço doação de todas as minhas lavoiras do Guadiana, que vão entre os moinhos da Coitada e a minhaquinta de Valle de Borrucho, constando de doze herdades seguidas, partindo d'uma banda com o Guadiana, da outra com a estrada de Moira, da outra...» E aqui Mathias foi obrigado a parar, porque um borborinho d'espanto se levantára entre os convidados.—Que? Dava tudo aquillo á filha? As lavoiras do Guadiana, o melhor trecho de propriedades do Baixo Alemtejo? Mas endoidecera esse homem com certeza! Despir-se para enriquecer o genro! Tomé dos Panascos, que trouxera arrendadas muitas terras da Torre, e passava pelo melhor avaliador da cercania, punha as mãos na cabeça com uma face attonita e consternada.—Jesus! Não contente de humilhar-se ante a viuva, inda em cima lhe cobria o filho de oiro. Mas é que ia ficar arrasado! Dar á filha mais de seiscentos contos, sem restricções, sem condições, sem cautellas... E Thomé foi junto do seu velho amigo, e disfarçadamente puxando-lhe a manga:
—Olha que te arrependes, Manuel. Que é que te fica para viver?
O da Torre encolheu os hombros.
—Desgostos, fez elle muito baixo, e disse ao tabellião para continuar.
—«E outrosim lhe entrego toda a plantaçãode vinha e olival, que possuo livre e isempta, no sitio das Barrocas, freguezia de S. Pedro de Portel, cerca de quatrocentos milheiros de cepa e tres mil pés de oliveira...»
—Meu pae, balbuciou Dora, avançando para o velho que estava junto da banca ennovelando a barba n'um movimento calmo.
—Vá, Mathias, depressa! ordenou elle, emquanto cada vez mais, n'um phrenesi crescente, os convidados se acotovellavam e comprimiam, não querendo acreditar no que lhes fôra lido. O tabellião enumerou o que restava d'uma fortuna rural cedida em dote, moinhos, hortas, ferragiaes, montados de retalho, ruas inteiras da aldeia; tudo que Zarco possuia, bom e mau, pequeno e grande, tudo dava a sua filha com a mais generosa confiança.
—Mathias, disse ainda o velho Zarco, falta a casa da minha residencia, o quintallão e as abegoarias. Accrescente que a contar de hoje, lh'os dou tambem.—E voltado para a cunhada, com a sua face radiante de altivez fidalga, fingia não sentir as murmurações de roda. Fóra, na igreja, no adro, no largo, por essas casas todas da aldeia, já se contava que o amo Zarco estava doido, e peor ainda, iaficar ás sopas da filha. Dera-lhe tudo, sem acautelar a sua rica subsistencia, o seu vestuario, o seu sequito. E uma hesitação quebrava agora em facções a gentana: á piedade succedera nos ganhões o fatigante receio de serem despedidos da casa pelos amos novos. Zarco descia—quando um tocante episodio deu nos espiritos a nota mais viva da emoção. Foi a leitura, do que a pequena velha que levava o ramo de rosas e o leque, dava á sua menina. Mathias, elle mesmo commovido, ia dizendo:... Umas contas de oiro com imagem de Nossa Senhora da Conceição, a sua capoteira de velludo verde, duzentos dobrões em oiro n'uma bolsa vermelha, a tapada da Vanga...
Dos bellos olhos pudicos de Dora saltaram lagrimas por baixo do véu; nos proprios olhos de Carlinhos faiscavam pontos humidos; de redor nas gentes, faziam-se monossyllabos ternos; mas toda radiante de ser o alvo, correndo a assembléa com a sua cabeça tremula, a velhita exclamou:
—Esperem lá, esperem...—e para Mathias, muito ruidosa nas sêdas pretas: leia lá!
—«...com a expressa condição de residir seis mezes do anno em casa de seu pae,durante nove annos, ou em logar d'ella, algum de seus filhos, caso seja fecundo o casal.»
—Ouviste bem? redarguiu ella sensibilisada, abraçando-se a Dora, e a sua cabeça dava pela cintura da noiva. É que nós não queremos ficar abandonados, nem eu, nem teu pae, e a nossa casa.—O que fez com que o dos Panascos fosse dizer baixo a Manuel Zarco:
—A velhota teve mais juizo que tu. Emfim lá estou, se um dia... É como se fosse tua casa, Manuel, bem sabes!—Chegou então a vez de se saber o que dava ao Carlinhos a senhora viuva. Mathias começou com a sua voz gordurosa, e para ouvir, inda os convidados se apertavam mais. Era quasi uma replica da viuva, á arrogancia com que o da Torre amontoára riquezas aos pés da filha. Foi longa a lista, novas herdades iam passando, arribanas, laranjaes, vinhedos, joias, louças, palacios, rebanhos, casebres, trens... D'esta vez quem se espantava era a Oriola—e por seu turno a viuva ficou nua.
Processionalmente então, e á medida que iam firmando o contracto, como a cerimonia findava, em reverencias de vassallos anteuma grande potencia, passavam os convidados diante dos noivos, com sorrisos de grande gala, alguma graça estudada, dando parabens com ares cavalheiros, ou demorando-se a affirmar esta ou aquella intimidade, na adoração dos mil e setecentos contos de dote. As mulheres sobretudo, cercavam Dora de pequenas ternuras ridiculas, beijos muito repenicados, segredinhos entre risadas. A morgada das Palmas fez-lhes prometter que a iriam visitar ao seu monte de residencia; o general citou alguma coisa no gosto bocagiano; velhos lavradores que tinham trazido ao collo Carlinhos e Dora, de palpebra humida davam-lhe conselhos, descançando-lhes no hombro as suas grossas mãos de trabalho. E n'uma avidez, sempre de longe, a viuva contemplava a sobrinha, idealisada no meio dos tules, como uma grande figura de legenda.
Quando viu menos gente no gabinete, Zarco foi apresentar Dora a sua cunhada; a recepção foi quasi affectuosa, abalada a viuva como estava, pela grande batalha de generosidade que momentos antes ferira com o da Torre. Foi quando Dora levantou para beijar a tia pela primeira vez, o grande véu de noiva em que vinha envolta. Essa bellezasenhorial d'uma soberba esculptura, que a viuva nunca pudera contemplar assim em plena efflorescencia, pareceu feril-a com o seu esplendor de pureza e brancura, porque se pôz muito pallida, apenas o véu de Dora se erguera. E por muito tempo ainda, considerava sem poder fallar, a sobrinha. Em volta, nas gentes da Oriola, o mesmo fremito de surpreza fizera correr murmurios de labio em labio. As duas velhas aias tinham corrido a Dora, e soluçavam. E a viuva de mãos no peito, como sustendo-lhe o frenetico pulsar, reconhecia por verdadeiro o que por varias vezes lhe chegára aos ouvidos, vagamente, como uma opinião sem força—isto é, que Dora era o retrato vivo d'aquella querida filha, tão meigamente loira e tão formosa, unica creatura que ella amára no casamento, e pela qual mesmo tinha chegado a aborrecer menos o marido, Laura emfim, a sua pobre creança, morta com vinte annos, pouco antes da adopção de Carlinhos.
Evocação da unica memoria que ainda hoje a fazia toda vibrar, esta resurreição em Dora, da celeste creatura nascida das suas entranhas, exacerbando angustias passadas, acordaram na viuva de Fernando Zarco, menosasperos propositos de conducta. E voava-lhe a idéa pelas lembranças já longinquas dos seus primeiros tempos de esposa, aos dezasseis annos, quando por cubiça do pae, uma vez acordára no leito do lavrador da Oriola.
Seis annos de infecundidade tinham assignalado depois melhor essa frieza d'esposos, que quasi nem se haviam conhecido. Era ao tempo ainda dos dois irmãos serem amigos, companheiros de caçadas e aventuras. Manuel com as suas espaduas de hercules, e uma barba de scandinavo muito frizada nas pontas, quasi branca junto dos labios, era o typo da prudencia, fallava pouco, e ria com todos os dentes, um riso ingenuo que antes parecia de rapariga pela doçura do esmalte; e quando os seus olhos de violeta, atravessados d'um brilho leal e timido, se erguiam a procural-a, ella experimentava não sei porque, tamanha melancholia e quebramento, que se ficava ainda com mais pena de ser mulher de Fernando, um tostado, para mais grosseiro e leviano. Ah, como isso ia já longe! E Manuel todos os dias achava alguma pequena lembrança que lhe trazer; ninharias primeiro sem intuito previsto, depois expendidas a furto, acceites em segredo... O certo é que ella amou ocunhado, porque o perfume d'esses beijos a embriagava, no carmim dos seus labios d'adolescente. Fernando, que era soberbo, aspero, intractavel, brutal,coração ao pé da bocca, desconfiou mas sem medir a profundeza da culpa. Ella vivia n'esse tempo inteiramente só, sem amigos, nem protecções do marido, muito nova, tão cheia d'impetos! E das profundezas do seu corpo exhuberante, cheio de fecundas desordens e d'amores indomaveis, vendo-se alli abandonada, vinham-lhe furias de peccar. Um domingo, os irmãos tinham ficado mal; nascera aquella filha, de quem Dora copiava a belleza—e tal documento da sua culpa, trouxe-lhe a secreta vergonha que agora gotejava odio sobre o irmão de seu marido.
Depois da benção, o sr. vigario geral pronunciou uma allocução toda faustosa e erudita, em que se comparava a vida a uma nau vogando no mar procelloso das paixões, entre escolhos de vicios e malquerenças; e alli sua rev.madescompôz mais uma vez os seus adversarios politicos, attribuindo-lhes a ultima estiagem e a decadencia dos costumes;e com philaucia denunciou que os maridos não tratando senão d'eleições abandonam as esposas á phantasia das suas pobres cabecitas, do que se aproveitava o demonio para ir centuplicando os adulterios. Isto levou tamanho donáto a philosophar sobre a familia, e desfilaram as qualidades dos Zarcos, o seu amor ao progresso e á liberdade, e do que os povos de roda lhes deviam, pois ainda no inverno passado, os fidalgos tinham dado córte gratuito nas herdades perto, afim da pobre gente ter lume nas asperas noitadas.
Saltou d'aqui naturalmente nas inimizades que por tantos annos tinham separado as duas familias (inimizade não, emendou logo com um meneio unctuoso; diremos antes melindre, susceptibilidade ferida, pequena divergencia de familia—era de mui bonitos termos s. rev.ma! Inda que...) Mas, proseguia o orador, o distrito todo exultava de vêr unidas de novo as duas casas, todos davam graças.—E batendo no pulpito, com gestos de quem chama a si o melhor da christandade, uma imponencia no carão, fechou trecho com um latinorio dos santos padres, faustoso e seraphico, que por sinal mereceu uma palavra irreverente ao lavrador dos Panascos.
Quando a cerimonia acabou, foguetaria e vivorio estrondeavam por essa aldeia toda, repercutindo os entônos e ritornellos de fraga em fraga—enternecia a tarde nos campos com a descida do sol, uma poeira de oiro tamisava os fundos, aqui, além, immovel sobre o ar, e dando á paisagem velhos tons de pintura fanada. E o cortejo sahiu da igreja como viera, mas bem numeroso e mais rico, pois lhe estava adiccionada toda a Oriola, ganhões, creados, convivas, amigos, as duas velhas aias, e coisa pasmosa! a propria senhora viuva.—Anda, sempre te abaixaste, bem feito! dizia-seá daFevronia, na passagem do cortejo. O coronel dera o braço á viuva que descera meio véu; o generalito, gazil como um rato sabio, levava a morgada das Palmas, muito birrenta de lhe terem descosido a cauda verde nabiça; e Dora pelo braço de Carlinhos, vermelha, comovida, grandes olhos de saphira humida, radiava a frenetica belleza d'uma virgem que se abala e palpita, ao primeiro contacto d'um homem.
O cortejo é que não ia directamente ao portão d'entrada da Torre, mas enfiou pelo enorme pateo de lavoira ao lado, a pretexto de vêr afuncçãoque se preparava aos servose trabalhadores. N'um banquete monstro, S. Mathias e a Oriola congraçavam, comendo ao lado uma da outra, na melhor harmonia e folgança; e só no intuito de sagrar esta confraternagem, a viuva accedera vir a casa de seu cunhado, sem quebrar as juras que fizera, pois não passaria o terreno neutro do pateo. Desconforme como um dominio, era esse pateo de muralhas rudes e portadas soberbas, onde os varões de bronze raiavam, e pendiam das portas formidandas, como corações de molochs, os grandes cadeados de ferro. Descia-se das cozinhas por um balcão de pedra com escadarias lateraes e mutiladas estatuas, em cujos velhos pilares se vinha tanchar a dentuça dos corrimões estruidos. Diante do balcão, ia ao fim do pateo uma alameda de castanheiros gigantescos, murmuros sob a verdura das suas folhas acres, d'onde um frescor gottejava no esmaiar da tarde. Um grande portão aberto ao fundo dava sobre os laranjaes da horta, sombrios áquella hora n'um verde metallico condensado, redondos até ao chão relvoso pelas imbibições da rega, humidos, picados de fructa, e filtrados d'uma aura toda enervante em nupciaes essencias. N'essa alameda de castanheiros amigos, tantas vezes percorridodo pae e da filha, onde pela manhã palafreneiros passeavam á redea os cavallos de sella, ou vinham limpar o pequeno coupé de serviço, onde tinham logar as tosquias, as ferras e as matanças nas epocas da praxe; n'essa alameda tinham construido uma mesa sem fim para quem chegasse, homem, mulher ou creança, fosse d'onde fosse e viesse de onde viesse. Aos lados alargava-se o pateo até ás abegoarias, cavallariças e estabulos. E um tom de boda reinava por toda a parte; nas carretas de trabalho postas em bateria, mais os seus tropheus de forquilhas, ensinhos e pás, radiando das joeiras, arneiros e mulins, como panoplias em sala d'armas; nas paredes cobertas de murta e gilbarbeira, onde as corôas d'espigas maduras faziam rodopiar serpentes de oiro pallido; nas largas manjadouras que as bestas esfocinham rilhando os fenos perfumosos; em arcos de flôres de arvore em arvore, risos e saudações levadas a um delirio realmente captivante. Em quatro dias tinha-se abatido um rebanho de carneiros e bodes, o arroz viera n'uma quantidade de carretas, não sei quantos moios de lobeiro em farinha para a amassadura, o poder do mundo em couves, para mais de vinte pipasde vinho... E a Fevronia punha as mãos doerrorde moedas que ia custar a frescata ao fidalgo—mas coitada! era uma pobre, sempre foi atando ao cós das saias a mais funda taleiga de quadrados, e sumindo-se debaixo do chále a mais disforme escudella da sua pilheira, para arrepanhar as sobrasinhas. Ora, deixal-o custar caro! Em compensação, que grande kermesse em plena tarde, sob a viva e sagrada cupula das arvores, onde trigueiros e loiros dos dois burgos rivaes, se abraçavam cantando e rindo nos seus luxos domingueiros, cinta escarlate, chapéus de borla, jaleca ao hombro, e a camisa crua de grandes collarinhos molles, acolchetada pelo nó da goela. Com a largueza do terreiro, a malta farandolava em quantos recreios havia: por aqui atiravam a barra os valentões arregaçados até aos hombros, estriando as musculaturas bovinas nos rompantes d'uma destreza infrene aos berros de cada vez que alguem passava a baliza, ou não chegava a ella; por além bailava-se de roda das arvores, deitando as vagarosas cantigas do trabalho rustico; em tal sitio havia saltos, n'outro luctas,desgarradasn'outro; e tudo isto n'um borborinho infernal que ensurdecia a gente. Vinhamchegando as raparigas de claros cabellos lisos nas fontes, com flôres no remoinho das tranças. E a Oriola abrasava de as vêr tão brancas, boas carnações flamengas, saude affiançada, perna dura, seio fecundo, dentes finos, e essa maravilhosa doçura d'olhos violeta, tão peculiar como era sabido, aos bastardos do amo Zarco da Torre. Ellas iam apparecendo a pequenos ranchos, envergonhadas dosde fóra, lenços em cruz sobre os seios inviolados, de mãos dadas e braços bamboleantes, como os recrutas em passeio.
Os negros da Oriola diziam-lhes então gracinhas, botavam-lhe rima na passagem; e era vel-as a rir escondendo os olhos c'os braços, abalando côr de romã umas atraz das outras, para dizerem de longe aos mariolas—que não se fizessem destemidos nem confiados, e fossem lá ter chalaças com as pretas da sua terra, perceberam? Mas a outra porção da Oriola por seu lado, gente madura e reflectida, ainda desconfiada da senhoril hospedagem na Torre, sempre tinha querido inspeccionar, vêr com os seus olhos, apalpar com os seus dedos, todo o maravilhoso arsenal agricola, instrumentos, machinas, animaes, bombas, poços, bebedoiros e hortejos—e poressa aldeia que viera, subia um respeito de gente cavadora e mandada, que mal disposta para o da Torre, agora se dobrava, reconhecendo n'elle o genio de um lavrador modelo. Ah! o que se chama grandeza, ordem, elegancia e precisão! Que gados, que acommodações, as cathedralescas médas d'azinho, pombaes, palheiros, ferramentas de trabalho!
Colossal tudo aquillo—e os tostados da Oriola baixavam os seus olhos arabes e premiam os seus beiços de negros, ante a victoriosa grandeza dos loiros de S. Mathias. Quem havia de esperar, compadre, uma coisa assim?—N'isto, um velhote grosso e vagaroso, que do balcão andava mirando tudo, apenas o cortejo apontou para o lado das abegoarias, poz-se a repicar do alto uma sineta: era o jantar. E duas philarmonicas romperam latindo musicatas gentias, emquanto as palmas, os gritos, os vivas e os saltos, centuplicavam de toda a banda.
E a viuva deixava-se ir entre as aldeias congraçadas, que no abandono animal da vida rustica, riam alto com dentes famintos, e na passagem dos amos, tirando os gorros, acenando de longe com os chapéus, erguiam meio corpo da mesa, para lhes dar bôas tardesfamiliares. Alguns mais ratões da Oriola—e sempre a Oriola teve fama de moços reinadios—botando cantiga ás raparigas, que chegadas tarde ficavam sem logar nas mesas, offereciam-lhes por cadeira os joelhos e por encosto o coração. Ellas riam largo, já menos esquivas; muitas, sollicitadas, davam-se por noivas d'aquelle e mais d'este; e á ordem do homensinho da sineta, chegava a creadagem com o arroz dos fornos, aloirado entre ramos de salsa, empilhando-se em alguidares desconformes, d'onde rompiam fumando, tenras, succulentas, as pernas dos perús e dos patos. Então foi uma loucura de vivas, saltos, gritos e cantares. Passava o vinho em picheis de barro, as saudes choviam nos estimulos da sede, o tenir dos pratos era inquietador. Nunca Carlinhos fôra mais querido que n'essa tarde placida de noivado, onde tudo ria á sua mocidade leviana; a Dora que elle levava pelo braço e readquiria vivezas de pomba; os pavões, que sob os telhados das abegoarias, inquietos, gritando d'entorno ás femeas, abriam enormes leques mosqueados d'ouro verde; nuvens de pombos que o ruido assombrava forçando-os a revoar de cimalha em cimalha; e ao largo a paisagem caindon'uma paz luminosa, muito irisada em tintas subtis.
Ella foi-se isolando, isolando do ruido, até ao portão que dava para a horta; parecia conhecer aquelles logares, distrahida, como quem resuscita apagadas memorias. Olhava o muro de buxo talhado em fórmas architecturaes, circumscrevendo o jardim pela esquerda, até se perder n'uma folhagem aspera d'alfarrobeiras. Para aquelles lados n'outro tempo havia um murmurio de fonte: tinha sido uma noite sem estrellas, o braço de Zarco sustinha-a pela cintura e levava-a, de modo que os seus pés nem tocavam o chão. E assustada, ficára a ouvir aquele choro timido d'agua corrente: espera! ouço passos...—É o vento, disséra elle, e os seus beijos endoideciam-n'a. Lá estava ella ainda a gottejar na pequena concha musguenta, que um grupo de ephebos sustinha, cavalgando golfinhos. Fôra em maio, a flôr dos favaes enchia os campos d'essencias, o marido caçava o javali por Hespanha—n'essa noiteelletinha querido roubal-a, conduzil-a aos seus dominios—ella resistira, não! não!... mas o perfume da sua barba tão loira envolvia-a n'uma fascinação terrivel, e a bocca pequenina, sincera, humida, talhada aburil, ao mesmo tempo imperiosa e feminina, tinha-se collado por ella toda: quem poderia recusar cousa alguma? Ouvia ainda o breack rolando pelas asperidões da estrada, os cavallos que voavam, elle a guiar; e ao curvar-se para puxar as redeas ou chicotear os hanoverianos, o clarão das lanternas illuminava-o de perfil... Oh, as venturas absorventes que se resumem n'um momento de peccado! Dir-se-hia o perfil antigo d'um Deus hellenico, branco, herculeo, alado em juventudes divinas.
—Vaes ter frio, minha filha.
—Frio, eu, ao pé de ti!...
E do capuz negro dobournousque ella levava, forrado de pelles setinosas, os seus olhos ficavam absorvidos n'elle muito tempo, muito, muito. A noite fazia as arvores terriveis, interminaveis os campos; e apagando a perspectiva, approximava mais as montanhas, e punha traições na goela dos precipicios... Vinham-lhe a cada passo pequeninos medos, as pupilas verdes do remorso que a penetravam de faúlhas calcinantes—lá está um vulto além, n'aquelle canto da estrada... Os troncos corriam atraz d'elles com pernas de gigantes, ennovelando-se, augmentandoem numero á medida que o breack fugia.
—Jesus! dizia ella n'um terror, são talvez espiões de meu marido.
Depois na ponte, um passaro tinha dado um grito, secretos escarneos foram ciciando pelos labios das folhas; de longe em longe, uivavam as raposas com fome. A cabecinha d'ella descahia no braço do cunhado, fazendo uma caricia penetrante. Era espirituosamente tocada, correcta, d'um modelo audacioso em que havia primores. E como ambos eram pouco lidos, incapazes de fazer um amor litterario, dialogado por imagens, cheio de contrascenas, permutavam as suas emoções tocando os corpos, n'uma descarga de volupias balsamicas. O que ella lhe admirava era a seriedade do aspecto, a forte enformatura dos encontros, uma força de gigante cingida em delicadezas de creancinha. Esse rapaz sem violencias, envergonhado de ser tamanho, uns receios de a molestar a cada beijo, silencioso, tranquillo, com melancholias brumosas do norte, subjugava pelo contraste, os impetos e os orgulhos da natureza d'ella, toda impaciencias,coquetteriese ardores.
Á chegada eram deshoras, cantavam osprimeiros gallos em S. Mathias—ella nunca tinha por alli passado.
—Gente na estrada, estamos perdidos!
Manuel tinha atirado os cavallos por um olival a dentro, apagára as lanternas, e obreakem solavancos lá ia arrastado pelos terrenos declivosos. Pararam. Um rumor de carros vinha da aldeia, guisos de mulas, a voz de um homem cantando... Elles, á escuta, ouviam bater os corações, com medo de alguem os ter pescado. Agarrada ao pescoço de Zarco, ella batia os dentes, tresvairada n'uma paixão.
—Viram-nos, Jesus.
—Não, escuta, redarguia elle sopeando os cavallos. Em roda, iam e vinham as sombras, no pavor das coisas sonhadas a arder em febre. Ella exaltara-se: adoro-te.
—Mas, por Deus, não grites! dizia elle.—Davam beijos de lava, o amplexo accendia-os, nenhum luctava, foram-se possuindo...
E agora velhos, inuteis na felicidade dos filhos, tendo-lhes dado tudo, sem amor, nem coragem, cheios de cabellos brancos, odiavam-se por desgraça!—Era ao fim do laranjal, o muro de buxo apparecia de novo, nespereiras em flôr abriam parasol por cimad'um portello baixo—toda a aventura se lhe reconstruia na idéa, nitida, chammejando horriveis saudades. Sim! os carros de matto abalando á meia noite de S. Mathias, a voz do homem cantando, esse fluctuante mysterio da noite, é verdade, um sapatinho de velludo que perdera ao entrar, por aquelle portello, ao collo d'elle... Oh, a medonha angustia de se não ter outra vez dezeseis annos! Para além, olival, terrenos declivosos: obreakparára ao pé d'aquella grande oliveira.
—Não sentes pena de deshonrar teu irmão?
—Mas cala-te, dizia Manuel num tom de queixa, emquanto a levava nos braços docemente, como uma creança adormecida. Ella, supersticiosa, fallára-lhe do grito que déra o passaro noctambulo, quando obreakentrou na ponte. Talvez prenuncio de desgraça!—Ao que elle respondia: doida! Reparou nas roseiras que por alli floriam agora, como n'um cemiterio consagrado pela saudade de muitos amores fenecidos. Fôra alli, junto ao murosinho de buxo, que a respiração d'elle tinha sifflado n'uma furia de titan semilouco, e o sapato caíra... Quantas vezes depois o amaldiçoára, sentindo impreteriveis desejos d'ir contar tudo ao marido, ao mesmo tempoque um suor frio a aljofrava, só de pensar que Fernando podia vir a ter noticia do adulterio. Sim, odio, era odio que lhe tinha n'este momento! Mas como seria bom desabrochar n'outra juventude, radiar a seducção d'uma nova belleza, ter ainda pudores de vestal, frescuras d'epiderme carminea, virgindades de noiva, para ir direita áquelle infame, atirar-lhe os braços ao pescoço, e dizer-lhe: adoro-te, macula-me outra vez!
Outras recordações então, lugubres, implacaveis, acastellavam na sua mente, espectros de remorsos longinquos e gumes de suspeitas mal esboçadas. Lembrava-lhe Fernando trazendo Carlinhos pela mão, depois da morte de Laura, a dizer-lhe com palavras de chumbo, espaçadas intencionalmente—este é meu, ficará n'esta casa! E como a olhára dizendo isto, apenas ella n'um movimento de repulsa, erguera a cabeça para dizer que não. O terror d'esses annos conjugaes tinha sido bem cruel. Era o marido fital-a—tremia toda como um vime. Quando elle se exaltava, ou se bebia, ou em os negocios correndo mal, a cada momento ella receiava, que arrastando-a pelos cabellos, o marido lhe gritasse: prostituta! Crescera nos povos a sua reputação de santidade; asesmolas que fazia nem tinham conta, ia de noite vêr os doentes, matar a fome ás cabanas sem chefe, e o seu nome incubava-o uma lenda de poeticas virtudes e castidade suavissima. Se viessem a saber, que vergonha! E ante o marido, o seu orgulho vergára, e fizera-se neutra a sua violenta personalidade. Nos ultimos annos, Fernando Zarco tinha caído n'um marasmo desopilante, não saía, não recebia, não fallava. Ás vezes, ia ella levar-lhe de comer com o riso nos labios, uma palavra carinhosa para lhe inspirar conforto; e estendendo o braço para agarrar no talher, lentamente, como tendo alguma coisa grave a indagar, elle ficava a miral-a com o ardor dos seus olhos encovados; depois ia baixando a cabeça n'uma confusão, vagarosa, funebremente—sim! sim!—e viam-se-lhe as narinas arfando nos haustos d'uma raiva subterranea.
Chegou á porta que rasgava no muro, por sob a cupula das nespereiras; correu-lhe o ferrôlho depressa, empurrou-a com o pé, cheia de curiosidade de penetrar no olival, até á velha oliveira onde n'aquella noite, o carro tinha parado. Mas recuou com um gritinho de susto. O cunhado nas almofadas dobreak,á sombra da arvore, aguardava por ella como n'outro tempo.
Manuel Zarco não quiz prolongar á viuva, a visão theatral que se impozera, e desceu do carro para vir ter com ella. Em vez de veredas e barrancos tortuosos, uma larga estrada cortava agora o olival, entre eucalyptos colossaes, que sacudiam á briza molhos de folhas em cutello. Ella nem podia fallar, branca de susto, humilhada de vergonha, e sentindo o coração grosso de lagrimas. A voz de Zarco era triste, porque tambem elle não tinha sido feliz.
—Como não quer demorar-se, disse elle, mandei os carros aqui. Partirá quando quizer, as creadas nao tardam. A carruagem em que veio fil-a reservar aos noivos, por ser ampla. Póde ir n'estebreak, é velho mas de boas molas, tenho-o ha vinte e quatro annos...
—Antigamente, tornou ella junto ao portello, vencendo um grande embaraço, não havia roseiras aqui.
—Não, disse elle galante, nasceram por onde o teu vestido roçou.—A sua voz tremia.
—Chut! casaram hoje os nossos filhos.
—Mentes. Carlinhos vem d'uma ciganavelha, a quem hoje dei o que ella quiz levar. Teem-m'o dito muita vez! É negra, traz uma filha, ouço que vivem de roubar por essas feiras.
—É verdade, murmurou ella suspirando; filhos só os tive de ti.—Chorava a sua mocidade agitada, as terriveis dôres que soffrêra, os orgulhos feridos de mulher.
—Ouve, disse-lhe então elle com supplica, não me tenhas odio, não tenhas. Dora é tuna creança, ama-a um pouco, assim como amarias a que nos morreu. Ellas parecem-se. Sobretudo, não lhe digas mal de mim.
—Ah, bem vejo que amavas tua mulher...
—E tu que amastes meu irmão?
—Mas é falso.
—De que serviria acreditar agora n'isso? Estavamos doidos quando nos amámos.
—Sim, doidos d'amor. Ai como a gente envelhece depressa!
—Razão para ficarmos amigos, já que tudo morreu. Fernando nunca veio a saber...
—Prouvera a Deus que assim fosse! Cala-te d'ahi! disse ella bruscamente. Na hora da morte ia beijal-o, repelliu-me; morreu, dizendo a horrivel palavra. E por tua causa! Não poderás dizer nunca que te provoquei.Quando vinhas, fugi-te muitas vezes. Tudo me abandonava então!...
—Esqueçamos: a vida dos nossos rapazes, exige. Vá, perdôa. Elles viverão seis mezes comigo, seis mezes comtigo. De mais, ficámos pobres. Os pobres não devem ter ruins paixões.—Ella cortava rosas, no rosal que extravasava de roda. As velhas aias tinham chegado entanto a pequeninos passos, arregaçando muito as suas sedas festivas; em carros de toldo, jumentos e mulas, a creadagem repleta, cantando, chalaçando, deixava S. Mathias caminho da aldeia. A viuva relanceou ainda os olhos por aquelles sitios, lentamente, como a impregnar a memoria d'aquella idyllica paisagem.
E para que ouvissem todos, fallando alto, pediu desculpa a Manuel Zarco de não assistir aocopo d'agua, mas sentia-se indisposta, tinha que receber os noivos... Elle abriu a porta dobreak, esperou curvado que ella subisse.
—Zarco, disse a viuva aconchegando-se a um lado, emquanto as velhas subiam e se anichavam tambem. Os nossos filhos que não demorem a partida, vão ter frio pelo caminho. Principiavam córos de grilos na espessura amarellenta das hervas, o sol cahia portraz das arvores; á esquerda, nos vagos fumos da tarde, Beja torrejava.
—Adeus, disse a viuva sem colera, estendendo ao velho as duas mãos descalças. Zarco sem fallar, beijou essas mãos inda pequeninas e brancas.
Os cocheiros tinham vindo; e sob o pingalim, os cavallos arrancaram obreakd'ao pé da oliveira, em direitura á estrada.
—Adeus, disse a viuva, apertando ao seio as rosas que colhera no rosal.—Zarco parado, as mãos cahidas, ficára imbecilmente de pé, todo vasio de reacção.
—Eh, esperem, gritou de repente aos cocheiros.
Obreaktinha outra vez parado. Com os olhos estourando lagrimas, elle correu á portinhola com um pequeno embrulho para a viuva, que conforme disse, esquecera na igreja.
—Obrigada, respondeu ella com a voz um pouco tremula.—E o carro abalou. Junto da ponte, já longe, a estrada fazia um cotovello para a esquerda, e bruscamente o olival desapparecia. Então a viuva voltou-se muito, chorosa, inda viu Zarco immovel no meio da estrada, disse-lhe adeus com o lenço. Depois tudo se foi com as arvores que se interpunham,a estrada, o muro da horta, os olivaes, a aldeia. Ficou a desembrulhar o pacote que elle lhe déra.
—Que chinellinha mais rica! disse uma das velhas bispando o que continha o embrulho. Ere o sapato de velludo bordado a oiro, que ella, a tal noite...
—Cabeça a minha! Quiz trazer sapatos largos para o caminho, e afinal só vem um, que para mais me não serve.
A outra velha acudiu com admiração:
—Nem eu sei de pé, que possa caber n'uma chinellita d'estas.
E a viuva com um rir doloroso:
—Cabiam os meus, no tempo em que eram leves a ponto de atravessarem jardins sem pousar no chão.
—Ora! isso é o tal conto de fadas, disse a mais pequena das velhas.
—É verdade, um conto de fadas, tornou a viuva. Mas aconteceu!—E os seus olhos iam na direcção do olival.(Voltar ao Conteúdo)
Á meia noite, depois de ter abraçado os amigos no Martinho, com uma ternura de adeuzes que o caracterblaséde quasi todos tornára, valha a verdade, intempestiva, Jorge Miguel tomou vagarosamente o caminho habitual da sua casa, scismando em que era esse o seu ultimo «fóra de horas» de Lisboa. Morava ao Monte havia nove annos, no pincaro do outeiro mesmo, sobranceiro á cidade, ao pé da ermida—n'uma casinhola de pobres cujo primeiro andar o novo senhorio repartira entre elle e um empregadorio velho do Museu.
Alli, com os seus livros, sem creado, varrendo a casa elle mesmo, com pares de calças por cima de todas as cadeiras e cartapacios n'um tumulto de rumas pelo chão, Jorge Miguel fazia uma vida concentrada de alchimista,silenciosa, de porta fechada ás visitas e cerebralidade muda ás expansões.
A cidade, que o conhecia n'um fumo de lenda um pouco feita através das suasblagues, afizera-se a lhe consentir em publico um eu á parte, explicando por maluquice a concentração solitaria dos seus giros, e mesmo por bebedeira as apoplexias de humor que a certas horas convertiam a sua apathia triste em improvisação epileptica, archi-estouvada.
Áquella hora a cidade apaziguava os seus tumultos, cahia do gaz um langoroso bruxuleio; os transeuntes, menos; e todo aquelle socego entrava na solidão mental do pobre moço, escruciando-lhe a vida de um nunca mais á vida de solteiro. Porque Jorge Miguel, farto de viver sósinho, ia casar.
A historia d'esse amor era uma d'estas cousas occasionaes, despertadas na vida entre duas cogitações mais amargosas, arrastadas longos annos entre preguiças de affecto e desfallencias de vontade, relegadas successivamente para os longes do futuro, e que um dia afinal se impõem como a solução pelo absurdo de um problema economico impossivel de resolver de outra maneira. A vida litteraria, unica paixão absorvente que se lhetinha conhecido, chegada ao cume, collocára-o na alternativa de, ou ter de rebentar de martyrio n'um meio hostil a toda a ideia de arte independente, ou de pôr ponto brusco n'uma producção que mesmo apesar de fulgurante e vigorosa só conseguia produzir no publico uma surda irritação minaz contra o escriptor. Entre a miseria odiada e a espectativa de uma madorna plethorica n'um canto de provincia, Jorge Miguel acabára alfim por se vencer; e d'esta vez, arrazado, dera no orgulho o golpe mestre, fazendo as malas para esse desterro onde a bestificação do matrimonio lhe açaimaria os ultimos piaffões de archanjo revoltado.
Quando chegou a casa estavam quatro malas fechadas na ante-camara, umcouvre-piedsacorreado com guarda-chuvas e bengalas, dois moveis envoltos em lona que os gallegos não tinham podido levar na ultima padiola, para a gare—e os aposentos sem trastes, o relogio parado no muro, o vento ronronando nas arvores do adro, tudo aquillo lhe pareceu como o responso da sua mocidade já fria e decomposta. A um canto da pequenina sala de trabalho, um monte de papeis, tombo da sua bohemia, aguardava o auto-de-fé liquidador.Jorge Miguel despiu o casaco, trouxe um alguidar da cozinha, e chegando para o pé da papelada uma das malas, começou á luz da vella o inventario d'esse archivo de quinze annos rebolados por todas as maluqueiras da vida sensacional e litteraria. Eram primeiro bilhetes de visita e bilhetes postaes agradecendo livros, pedindo entrevistas, artigos, palavras de favor—menus de jantar, convites de exposições e de concertos, ramitos sêccos, retratos insepultos, carteis com monogrammas, dizendo, em lingua inverosimil, adorações litterarias com resaibos a estranhos sentimentos—e Jorge Miguel passeiava os olhos devagar n'aquellas coisas, evocava um momento as epochas e as respostas, e phreneticamente, para asphyxiar a saudade, chegava os papeis á vella, e ia-os atirando incendiados para a concavidade do alguidar. Cartas de Paris, cartas de Roma, da America, de Coimbra, todos os cantos do mundo e da provincia, homenagens fervorosas, anonymias de odios truculentos, discipulados timidos, identificações a distancia n'um ideal sonhado, em pontos antipodaes de educação e temperamento, consultas de mysteriosas litterarias, de celibatarias impacientes pedindo conselho paracasos de psychologia individual cheios de acirrante... e desatavam-se os maços das fitas já ardidas da poeira das gavetas, as velhas folhas rolavam, talhes de lettra e prosa succediam-se, e sempre a impassivel vella, com a alma da luz azul, muito direita, consumia implacavelmente essas chimericas memorias onde tantos corações tinham batido d'elle ao mesmo tempo. Quando o pobre alguidar foi cheio de restos, e da mocidade de Jorge Miguel nada restava a mais do que algumas lagrimas a ferver-lhe na pelle do rosto, uma vacuidade estranha entrou-lhe n'alma, sendo então que o relogio parado e o silencio da casa pareceram marcar um fim de mundo.
Abriu a janella um pouco sobre a noite, e com o alguidar ainda quente despejou á rua a sarabanda das cinzas aggregadas ainda em folhas inteiriças, que o vento espiralou no ar em borboletas tenebrosas; e as que tinham vindo de longe, tomaram por caminhos rapidos, ao largo; e algumas hesitavam, sem se lembrarem já da morada de seus donos; entraram-lhe pela janella outras, eram as orphãs, como a pedir ao escriptor que as adoptasse; e algumas finalmente, como suicidas inertes, baquearam no chão pulverisadas,e o vento d'alba as varreu pouco a pouco aos quatro cantos do destino.
Accendeu um cigarro, o somno fôra-se, e como aquellas cinzas fatidicas, a attenção pulverisava-se-lhe, incapaz de reflectir sobre o problema terrivel que era esse internato de vagabundo illustre na aldeia, em agricultor, ao lado de uma mulher com quem mal entretivera fallarios triviaes alguma vez.
Estavam a dar quatro horas da manhã, e silenciosas nevoas vindas do mar cobriam lentamente o céo de pallidos vapores, toldando a lua poente, e alongando-se para o interior da terra em farrapanas obliquas, que incineravam phantasticamente os bairros afastados. Áquella hora Lisboa offerecia, das alturas do Monte, quasi sem luzes, uma desolação madornal de cemiterio, planificada na bruma, rebatida toda em lavouras de sulcos que eram bairros dobrados sobre si.
As cinzas dos papeis, minutos antes queimados, de certo áquella hora se estariam espalhando pelo inextricavel de todos aquelles bairros inquietantes, procurando, n'uma afflicção, os signatarios das cartas e bilhetes n'elles escriptos para lhes fazerem queixa dadeserção de Jorge Miguel. Eil-as no ar, tiritando, as pobres borboletas, a orientarem-se no dedalo das casas pelos milhões de fios do telegrapho, receiosas de que o vento as pulverise antes de chegarem, com palavras legiveis ainda, ao seu destino. Eil-as a adejar de angustia nas vidraças, entrando nas casas pelo respiradouro das chaminés, indo ás alcovas, pousando nos travesseiros, indo aos cemiterios, pousando nos jazigos, e n'uns e n'outros interrompendo os somnos e as doces mortes.
—Não sabem? Jorge Miguel aposthasia de cavalleiro templario do paradoxo, de arcebispo da leria, de arcabuzeiro da rotina a balas de loucura...
E o alarme acordado apenas na mágoa d'elle, affigurava-se-lhe entenebrecer de luto a terra inteira, parecendo-lhe que de cada bairro, cada café, cada cartaz, cada esquina de rua, cada casa, mentes dispersas, adorações indefinidas, affectividades anonymas nascidas do deslumbramento da sua arte estravagante, se erguiam da cama no estado inconsciente de phantasmas, tomavam pelo caminho dos papeis queimados vindo de roda, pelo ar, a lhe fazer um côro de implorações. Lentamente, comoamanhecia, por todo aquelle vasto mappa encinzeirado, luzes de gaz vinham-se apagando em linhas divergentes, como se esse extinguir gradual de estrellinhas somnambulas fosse a sua gloria de escriptor morrendo nos esquecimentos da aldeia, quando outro espirito subisse, mais vivamente moderno, a allumiar a ingratidão das gerações.
Encostou-se um bocado, mas não podia dormir, os rumores matinaes sobresaltavam-n'o; dir-se-hia que toda a cidade se levantára mais cedo para trepar á montanha e lhe invadir a casa de vozidos. Entrementes, o dia clareava, e quando foram horas de partir, Jorge Miguel, chegando pela ultima vez á varanda, casualmente viu no parapeito um bocado de papel carbonisado, onde subsistiam legiveis duas rapidas linhas de escriptura. Leu o seguinte: «de resto, meu caro, para ser celebre é necessario viver longe, e não ter tido nunca amigos intimos».
Foi sob esta impressão martyrisante que elle deixou de vez a capital.
O rebentar na provincia foi terrivel; receberam-n'o á chegada da diligencia com uma musica de pretos, que era a estreia da phylarmonica:quatro carpinteiros a trombonear canudos de latão, um barrigudo a zurzir os pratos como fulo, e o do zabumba, macanjo, dando co'a maçaneta nos garotos. Como os musicos não soubessem senão a marcha da Ione, ensaiada á pressa para as procissões da Semana Santa, com esse batuque funebre seguiram, em passo de enterro, pela rua da grande villa, no meio dos raios te partam do cocheiro que despregava as pilecas na subida, e de um certo riso de um padre, de lhe fazer calafrios pela medulla.