Didone... No mai die fiamma impuraFeci l'are fumar per vostro scherno;Dunque perché congiuraTutto il ciel contra me, tutto l'inferno?OsmidaAh! pensa a te non irritar gli Dei...DidoneChe Dei? Son nomi vani,Son chimere sognatte, ó ingiusti son.Metastasio.(Didone.)Norberto de Meirelles communicou, immediatamente, ao cunhado o acontecido com a religiosa benedictina, pedindo-lhe conselho para evitar que a filha se fizesse freira.O bacharel Sampayo chamou a capitulo os seus vastos expedientes de perfidia, e conglobou-os n'um, do qual ousou afiançar ao cunhado um exito feliz.Chamou pessoa idonea para executal-o, e de Lisboa veio ao Porto um individuo encarregado da seguinte missão:Entrou, um dia, no pateo do mosteiro de S. Bento esse homem, e perguntou na portaria, se lhe seria possivel fazer chegar ás mãos da snr.ª D. Carlota Angela um bilhetinho de sua mãe.A porteira respondeu affirmativamente, como era de esperar, recebeu o bilhete, e entregou-o a Carlota, que saia do côro, onde costumava passar as manhãs em oração.Era este o conteúdo do bilhete:Uma pessoa quer fallar á snr.ª D. Carlota ácerca deFrancisco Salter de Mendonça; mas deseja estar só com ella em uma grade. A pessoa espera resposta.Carlota alvoroçada correu ao locutorio, e exclamou:—Estou aqui.O enviado do bacharel aproximou-se, e disse:—Sou eu que a procuro, minha senhora; mas na esperança de ser demorada a nossa pratica, pedia o favor de me fallar n'uma grade, porque este logar é improprio para se tratarem cousas de tamanho segredo.Carlota olhou em redor de si, viu uma criada com uma chave, e disse com precipitação:—Empresta-me a grade por um bocadinho? empresta, por quem é?—Sim, minha senhora—disse a criada.Carlota indicou ao homem de Lisboa a grade, e correu a encontral-o.Não tinha ainda elle terminado as formalidades da cortezia, disse Carlota impaciente:—Elle já veio? Está em Lisboa?Estas perguntas eram feitas a tremer. Carlota, não podendo com a afflictiva duvida da resposta, apressou-se a interrogal-o assim, cuidando que a certeza com que perguntava por Mendonça vivo a desopprimia da suspeita de que elle era morto.O homem não estava preparado para perguntas tão expeditas. Ficou perplexo, e esta indecisão deu azo a novas perguntas:—Traz-me cartas d'elle? dê-m'as...—Não trago cartas, minha senhora.—Não?!—atalhou ella com vehemencia e sobresalto.—Não, snr.ª D. Carlota. Francisco Salter não lhe escreveria, ainda que podesse...—Como?! não entendo!... Não escreveria... porque?—Se a menina serenar um pouco, tomarei a liberdade de historiar-lhe vagarosamente a vida do homem que lhe mereceu um grande amor, digno, permitta-me dizer-lh'o, de ser melhor applicado.—Isso é uma calumnia! isso é mentira!—exclamou Carlota, sem pesar a gravidade das palavras que ouvira, e das que proferira com exaltada acrimonia.—Eu desculpo-a das injurias que me dirige, porque avalio a surpreza dolorosa, que lhe fazem tão horriveis novas. Queira escutar-me.Francisco Salter saiu do Porto amando-a, como se ama aos vinte e quatro annos, com esse amor imprevidente, superficial, e arriscado ás variantes do coração logo que as tempestades de outras paixões se levantam, sopradas por um casual encontro com outra mulher. Era um rapaz no comêço de uma bella carreira, com espiritos ambiciosos, sem bens de fortuna, e descontente da sua sorte... O desengano devia vir, logo que os olhos da pessoa, que elle amava, deixassem de influencial-o. Chegou a Lisboa, onde tinha valiosos amigos e parentes, e onde fora chamado para receber uma honrosa commissão para o Brazil, com augmento na sua carreira, e promessas seguras de grandes vantagens.Francisco Salter de Mendonça rejeitaria a gloria, se o amor fosse de mais rija tempera; renunciaria um almirantado, se o coração de Carlota Angela saciasse n'elle a louvavel ambição de se fazer grande por merecimento proprio. Obedeceu ao orgulho, e partiu para o Brazil, como a menina sabe. Escreveu-lhe, talvez, uma carta muito saudosa, muito lamuriante, muito esperançosa; mas... partiu.No Brazil, foi recebido como era de esperar. Encontrei-o na melhor sociedade, posto que a melhor sociedade de lá só se faça valiosa pelo dinheiro. As ricas herdeiras olhavam-o como um rapaz distincto, capitão da real brigada, bem fallante, gentil, bravo, soberbo de si, e collocaram-o na posição de escolher.Vejo que v. s.ª está anciada. Se a continuação da minha visita a molesta, peço licença, e retiro-me.—Não... não... queira dizer—balbuciou Carlota, tirando com violencia a respiração do seio convulsivo.—Os fumos da vaidade e os da ambição—proseguiu o porta-voz do bacharel—ennevoaram aos olhos de Mendonça a imagem de Carlota Angela. Eu, que fora nos primeiros dias seu confidente, sabia que a menina existia n'este convento; recordei-lhe com pezar o indigno perjurio, e elle respondia-me que a ausencia era o balsamomaravilhoso das chagas que o amor fazia. Confesso que me angustiou esta baixa condição de alma! e muito principalmente depois que vi algumas cartas de v. s.ª, escriptas emquanto elle fazia a viagem.Passados mezes, dois ou tres, se tanto, Mendonça dá parte aos seus amigos de que vae tomar estado com a filha unica de um opulento negociante, dotada com centenares de contos.—E casou?—exclama Carlota, lançando com vertiginoso impeto as mãos ás grades.—Casou—respondeu o homem, friamente.Carlota soltou um grito, que não tem outro comparavel na expressão da angustia humana. Era o ruido agudo do estalar de todos os tecidos do coração, do rasgarem-se todos os vasos de sangue, do embate dos pulmões lacerados contra as paredes do peito. E, depois, os dedos recurvos nos ferros da grade, relaxaram-se, hirtos como os de um cadaver, e o corpo resvalou da cadeira para o chão com estrondoso baque.O homem horrorisou-se um instante da sua obra, e recuou até á porta para retirar-se; mas a sua missão não estava ainda cumprida. Relampagueou-lhe uma ideia lucida. Desceu á portaria, e disse que fosse Alguem á grade, onde se achava desmaiada a snr.ª D. Carlota.A este tempo já a madre porteira, alarmada pelo estrondo da quéda, entrava pressurosa na grade, e vendo Carlota no chão, chamou-a a altos gritos. Houve grande rumor no convento, e entre as muitas pessoas que desceram á portaria, vinham D. Rufina e a noviça.O homem de Lisboa permanecia imperturbavel na grade, esperando que o interrogassem, já depois que Carlota fora transportada, com frouxos signaes de vida, ao seu quarto, acompanhada de um medico, que a fortuna trouxera n'esse conflicto.—Alguma das senhoras é a tia da snr.ª D. Carlota Angela?—perguntou o homem.—Sou eu—respondeu a pavida religiosa.—Concede-me alguns minutos sem testimunhas?As outras senhoras deixaram só Rufina; o delegado do bacharel proseguiu:—Essa menina desfalleceu, quando eu lhe noticiei o casamento de Francisco Salter de Mendonça.—O casamento?!—Sim, minha senhora.—O que geralmente se diz é que morreu.—Casou, e morreu, dias depois.—Oh meu Deus!—clamou a freira, levando as mãos ás faces—oh meu Deus, o que se passa debaixo de vossos olhos! Francisco de Mendonça casou!... O senhor tem a certeza d'isso?!—Como quem assistiu ao casamento e á morte. Esta segunda parte é que sua sobrinha ignora, porque me não deu tempo. Agora convém que v. s.ª lh'a diga, para que a morte sirva de perdão ao ingrato, e a ingratidão lhe converta em quasi indifferença a morte. É assim que essa pobre menina ha de recuperar a tranquillidade que precisa; e eu, que espontaneamente aqui vim dar-lhe o golpe, que ninguem lhe queria dar, com o bom proposito de curar a ferida com o proprio sangue d'ella, retiro-me, delegando em v. s.ª o complemento da minha obra. Minha senhora, recebo as suas ordens.Soror Rufina surgira de uma especie de lethargo, depois que o desconhecido saíra.Foi ao quarto da sobrinha, e viu-a sentada no leito, com os cotovêlos fincados nos joelhos, e o rosto entre as mãos. Saíam-lhe das palpebras os olhos vidrentos e immoveis como os de um cadaver embalsamado. Parecia não ver alguem, e a respiração das pessoas, que a rodeavam, nem sequer se ouvia. O olhar de Carlota fazia terror.A religiosa chamou-a tres vezes, como a mãe delirante chamaria sua filha morta; o pavor, porém, d'aquelle olhar sem luz nem movimento, parecia responder-lhe que estava morto o coração que devia ouvil-a. Rufina abraçou-a vertiginosamente, agitando-a com desespêro: o corpo obedecia ao impulso, com a inerte obediencia do cadaver, mas os olhos lá estavam na sua terrivel immobilidade como que seguindo a alma que lhe fugira arrancada pelas garras de um demonio.—Que é isto, snr. doutor! está morta minha sobrinha?—bradou a religiosa ao medico.—Não está morta, minha senhora; póde estar demente.Carlota Angela soltou um profundo grito, ergueu-se sobre os joelhos no leito, travou das tranças com frenetico delirio, deixou caír os braços semi-mortos, e recaíu no torpor de momentos antes.Passado o espanto, todos os corações se derramaram alli em lagrimas. Não sabiam ao certo que immensa angustia era aquella; mas adivinhavam-a. Todas se voltaram para Jesus crucificado, de joelhos oraram chorando, e a oração era a mesma em todos os espíritos:«Se ella está demente, levae-a, Senhor!»Aquelle estado era impossivel longo tempo. Durante vinte e quatro horas succediam-se as syncopes, cada vez mais prolongadas e assustadoras. O medico, descrido da acção dos antispasmodicos, aconselhou que lhe fallassem muito na causa d'aquelle accidente, confiado na vitalidade febril que dão as agonias moraes; e nas lagrimas consecutivas.Assim o aconselhara; ninguem, todavia, queria encarregar-se de tão cruel flagellação.Soror Rufina esperara a saída das incessantes visitas, para, com o soccorro do céo, executar o duro supplicio de Carlota. O coração dizia-lhe que tal expediente seria um tormento inutil; mas o medico ajuntara ao conselho razões que a convenceram.A sós, Carlota fitou-a com uma turvação de olhar, que deu quebranto á resolução da freira.—Se ella está demente, de que serve este triste remedio?!—dizia soror Rufina—Eu vou verter-lhe fel na chaga do coração, e nem posso ao menos contar com a intelligencia d'ella para lhe faltar á razão! Se Deus a chamasse a si, que maior felicidade lhe poderia eu desejar! Minha filha!—murmurou ella, aconchegando-a ao seio—Tu não me conheces? Sou a tua boa tia, a melhor das tuas amigas. A tua dor me dóe tambem, Carlota. É preciso que nos consolemos uma á outra. Diz-me uma palavra só, anjinho... Conheces a tua tia, menina?—Se conheço!...—disse com meigo sorriso, Carlota, abraçando-a pelo pescoço. Rufina estremeceu de alegria,comprimindo com transporte o seio da sobrinha ao seu, e cobrindo-lhe de lagrimas e beijos a face.—E és a minha querida filha, pois não és?—proseguiu a freira—É de mim que esperas allivios d'esta agonia, e amor para toda a vida? Aceitas as consolações de tua tia, crendo que é ella o instrumento de que a misericordia de um Deus piedoso se serve?—Não me falle em Deus!—bradou com impetuosa violencia Carlota Angela.Rufina tremeu e empallideceu como assombrada de um raio.—Está douda a infeliz!—disse ella—Agora sim, creio que não ha valer-lhe! Ó Mãe Santissima, ó Senhor dos Afflictos, levae esta alma para vós... não consintaes que os labios digam blasphemias, que o espirito d'esta virtuosa creatura não sente.—Não me falle em Deus!—repetiu Carlota, esgazeando sinistramente os olhos—Não ha Deus, nem justiça, nem misericordia. Ha inferno n'este mundo para os innocentes, para os que, fugindo ao odio humano, se acolhem ao amparo divino.—Jesus!—atalhou a religiosa—Que palavras são essas, filha!?—Eu não merecia esta morte, minha tia. Que fiz eu para morrer assim desesperada de achar a remuneração de tamanha perfidia?! Abandonada, esquecida por elle... Que horror!Carlota Angela tapava o rosto, e arquejava, fugindo impetuosa aos braços da freira.—Que horror!—continuava ella, apertando as fontes com as mãos, e tirando com violencia pela respiração—Trahida por Francisco!... Todo este amor, a amor de toda a minha vida, calcado, desprezado, ao mesmo tempo que eu o ia alimentando com lagrimas diante d'aquella cruz, onde eu cuidei que se encontrava compaixão!...—E encontra, minha filha; e ainda agora das chagas de Jesus Christo está correndo o balsamo que te ha de curar, Carlota!—Curar-me!... A tia não sabe o que eu soffro, não conheceu esta dor, não sabe que desesperada vae ser aminha agonia! Eu tenho a morte já na garganta. Era preciso que eu perdesse o juizo para se crer que ha Deus. Morrer assim, e sentir a causa da morte... isto é mais que barbaridade... o demonio não póde tanto, e um Deus não consentiria padecimento tamanho... Oh!... quem me apressasse a morte... quem me désse um veneno... quem me arrancasse do coração esta agonia!... Oh meu Deus!...—bradou ella, estendendo os braços para o crucifixo.Soror Rufina correu a tomar a cruz de sobre a commoda, e aproximou-lh'a. Carlota cravou-lhe os olhos, um momento humedecidos de lagrimas, e lançou-a de si com um violento gesto de repulsão.—É mentira tudo isso!—exclamava ella, agitando as mãos com frenesi, como se a tia teimasse em dar-lhe a cruz—É mentira tudo! não ha Deus, não ha nada a que uma desgraçada, como eu, possa recorrer! Deus não consentiria que houvesse um perverso tal como esse homem, nenhuma miseravel como eu...—E, se souberes que foi castigado o perverso que te faz soffrer tanto, Carlota, crês que ha justiça de Deus?—Castigado!... não ha n'este mundo castigo para tamanha ingratidão... Elle é feliz a esta hora, nos braços de outra, com os carinhos de outra mulher, e eu... aqui, nas agonias da morte, sem poder saber que tempo hão de durar!... Meu Deus, eu morro arrependida de vos ter negado, se me levardes já...—E tomando a cruz, que beijava fervorosamente, proseguiu:—Levae-me, Senhor... tirae-me d'este inferno, ou fazei que eu endoudeça! Se eu sou grande peccadora, dae-me as penas eternas da outra vida, se lá não ha memoria das amarguras d'este mundo! Dae-me o outro inferno por este, e eu darei sempre louvores á vossa misericordia!... Não me escuta!—bradou Carlota com desesperada indignação, querendo arremessar a cruz.—Filha!—Deixe-me acabar, minha tia... Eu não quero esperanças... esperanças!... em que? Não quero consolações de ninguem... A maldade d'aquelle homem não me deixa já crer no amor de ninguem... Fujam todos de mim, que eu sou uma mulher amaldiçoada, sem ter offendido umasó pessoa... É a maldição de meu pae que chegou ao céo. Fui enganada, tinha fé n'aquelle homem, estou assim penando, porque o acreditei... É um castigo maior que o meu delicto! Deus devia perdoar á pobre mulher de dezoito annos, e castigar o traidor por quem me perdi...—E castigou.—Como?—Chamando-o a contas.—Diga, diga, minha tia... que é? chamando-o a contas!... pois elle...—Morreu... pouco tempo depois que perjurou, Carlota. Agora crês que ha Deus?... crês na justiça divina?Carlota não ouvia. Os olhos pasmaram, como se a paralysia os ferisse de subito. Os labios ficaram semiabertos, como se por elles perpassasse a derradeira expiração. Os braços decairam com mortal quebranto.A freira abraçara-a, sustendo a cruz entre os dois seios, e invocando Jesus, e Carlota.Dorothea entrara, ouvindo os gritos de Rufina. Subira ao leito, clamando agudos ais, porque julgara morta Carlota.—Vá ver se está algum medico dentro—disse Rufina.—Mandem-o chamar, a toda a pressa, se não estiver. Chamem tambem o capellão... Parece-me que a matei, cuidando que a salvava.Dorothea saíra, levando o alvoroço e o terror, pelos dormitorios, onde eccoavam os seus altos gemidos. Soror Rufina, desalentada, enfraquecida de espirito, e de fé, como aquelles santos de quem o Senhor se queixou, disse, lavada em lagrimas:—Meu Deus! são terriveis os vossos juizos, e terriveis as vossas intenções! Quando a innocencia assim padece, como castigareis o crime?Fora como o morder da vibora entranhada o pungir de alma que vibrou em dolorosissimo tremor o corpo todo da religiosa. Era a consciencia, que recebia em si o fel da injuria que os labios cuspiram; mas não passara d'elles. A apavorada freira, livida como o sacrilego aterrado pelo remorso, ouviu um murmurio, que lhe recrudesceu o pavor. Era Carlota que lhe dizia:—Oremos pela alma do infeliz.Correu ao leito, correram as religiosas que entraram com Dorothea. Viram Carlota Angela com as mãos erguidas, e a face coberta de lagrimas. Ergueram tambem as mãos, choraram tambem, ajoelharam, vendo Rufina de joelhos.—É um Padre nosso e uma Avè Maria por alma de Francisco—balbuciou Carlota, soluçando, com inexprimivel afflicção.O medico entrava n'esse conflicto, e presenciando as lagrimas de Carlota, fez um gesto afirmativo. Dorothea interrogou-o com anciado olhar. O medico, entreabrindo ligeiramente os labios com um sorriso, queria dizer:—Está salva.IXMon Dieu! comme il est difficileDe courre avec de l'argent!Théophile de Veau.Trocando com vontade pouco experta,Por incerta fortuna esta mais certa.C. Pereira de Castro.(Lisboa edificada.)Francisco Salter de Mendonça, de Lisboa ao Rio de Janeiro escrevera um diario, em que mais se accusava a si de ingrato que aos seus cavillosos protectores de crueis. A saudade era encruada pelo arrependimento.Ao passo que o horizonte da patria se perdia nas orlas do mar, o atribulado mancebo já não sentia da esperança o conforto que o alentava no instante da partida. Afigurava-se-lhe um sonho horroroso estar elle tão longe, cada vez mais longe, de Carlota Angela. Ideiava e desfiava todas as consequencias que podia trazer a sua formal rejeição do encargo e da patente.«Se me prendessem,—escrevera elle no diario—que maior prova podia eu dar a Carlota de que a minha liberdade, longe d'ella, seria o meu supremo captiveiro?«Preso debaixo do céo em que ella vive, teria a liberdade de escrever-lhe, de animal-a, de a ver talvez um dia chegar lacrimosa aos ferros do meu carcere, e encher-m'o de quantas alegrias podem elevar uma alma nobre sobre astucias de miseraveis tyrannos.«Seria grande mágoa para ella a minha prisão, a minha baixa, a minha quéda irremediavel no principio da vida? Oh! de certo era; mas essa dor desvanecel-a-hia a convicção de ser tão amada, tão preterida á gloria, á honra e aos sorrisos da fortuna!«Por que não lhe dei eu o nobre orgulho de me sacrificar, de me abater aos olhos de todo o mundo, com tanto que me engrandecesse aos olhos d'ella, d'ella, para quem eu queria honras, glorias, corôas, mundos, tudo grande, tudo sublime, e tudo pequeno em confronto do coração que lhe dei?!«E, depois, a minha prisão seria de pouco tempo, porque os meus parentes são poderosos, e o dinheiro do pae de Carlota exhaurir-se-hia ao mesmo tempo que o coração de sua filha seria mil vezes multiplicado em apêgo, em gratidão, em ternura, e coragem para affrontar commigo os obstaculos.«Mas nem talvez eu chegasse a ser preso. Julgar-me-hia o governo em demasia castigado com a baixa, com a desconsideração e com o desprezo. Toda a gente me olharia como se olha um homem pobre, e de mais a mais rebelde ao serviço da patria. Que importava isso? Carlota Angela seria o meu talisman; as riquezas brotariam de seu coração inesgotavel; todos me invejariam ao pé d'ella; apontar-nos-hiam como modelos de affeição, e de honra na affeição, que tão rara se encontra. Com o tempo, eu seria chamado a merecer o premio de calcar a intriga, e o nosso pão na opulencia não seria mais doce que o pão da pobreza.«Que fiz eu, homem vil, homem sem alma?«Mascarei-me com as palavras «honra e dever», e estou deshonrado perante Carlota! Impuz-lhe um juramento de morrer minha escrava, fiz que ella me adjudicasse a sua vida, apontei-lhe o claustro como seu eterno carcere, e não tive valor para me deixar perseguir por amor d'ella!«Ó coração duro, que assim te deshonraste com tão baixo egoismo!«Tu choravas, quando lhe escreveste um adeus, mas essas lagrimas pôde enxugal-as a razão, tão villã como tu! Mentias n'esse pranto, abjecto, avarento, que te sentiste sobresalteado de orgulho e alegria, quando as dragonas de major da armada te deslumbraram a duas mil leguas distantes de Carlota.«Não sou digno de mais a ver, sem córar de vergonha,não! Se ella me não escrever, se rasgar e pizar e cuspir as minhas cartas, eu devo ter o cynismo de tragar a affronta, já que tive a villania de a merecer.»A estas paginas da consciencia opprimida, succediam-se outras de lagrimosa ternura. Nunca a saudade se exprimira com mais contrição de alma, com mais doridos afagos á imagem querida que os recebe chorosa, com devaneios de mais poesia amarga, d'essa que só sabem desentranhar do coração os que sentem voluptuosa dor em despedaçal-o.Francisco Salter atravessara o Atlantico sem um amigo, sem um ouvido attento onde contasse, com attrição de penitente, as saudades e pungimentos que o laceravam.Eram bellas as noites, era de magia o céo estrellado, as luas-cheias no mar parece que recolhem de mais perto, n'aquella vasta solidão, as confidencias do amante, dando-se como espelho, para que, a milhares de leguas, a contemplativa amada veja n'ella os olhos do que a pranteia.Mendonça, porém, angustiava-se mais com esse espectaculo, só donoso de extasis, e dulcissimo de espirituaes colloquios para amantes felizes.E escreveu assim:«O desgraçado não supporta as alegrias dos homens, nem as da natureza. Se a sua alma está de luto, cubra-se de negro tudo que o cerca. Se sulca os mares, refervam as vagas batidas pelo látego da tormenta; forre-se de nuvens torvas o céo, rebôem em turbilhões, prenhes de coriscos; rua o ultimo mastro lascado pelo raio, e espumem contra a derradeira táboa do naufragado as fauces do dragão que abre um abysmo em cada resfôlego.«O amanhecer não tem cantares, nem a tarde murmurios, nem a solidão arroubamentos para esse que a natureza repelliu de si, como leproso, chagado no coração, contagioso de pestilencial desesperança.«Eu subi ha pouco á tolda, e vi a lua, que oito dias antes me vira no Candal, ao pé de Carlota. Não pude fital-a. Os meus olhos caíram sobre o dorso do mar, bem perto do navio, onde não chegava a refulgencia da lua. Alli estive fascinado, n'aquelle ponto negro. Similhava-se-mea um tumulo, e o fremir da onda quebrada na quilha soava-me como um gemido de mulher que eu lançasse áquelle abysmo...«E fugi, meu Deus, fugi, porque me não déstes um raio de esperança.«Ó Carlota, Carlota, matar-te-hia eu?!»Este fragmento de uma pagina, transcripto ao acaso, sirva para avaliar que afflictivo tranzito lhe foram os cincoenta dias de viagem.No desembarque, Francisco Salter de Mendonça sentiu vergar o corpo ás commoções da alma. Adoeceu, e, na ardor da febre, escreveu a Carlota essa longa carta com que o bacharel Sampayo espertou o lume do seu fogão. Eram estas as ultimas linhas da carta:«Se eu morrer, minha querida Carlota, ouso d'aqui já pedir-te o meu perdão. A memoria de um morto é sagrada. Todas as ingratidões e villanias desapparecem com o miseravel corpo que os vermes desfazem. Fica a alma no seio de Deus, ou fóra do céo. Se Deus acolher a minha, de lá te chamarei; se me repellir este espirito, purificado no fogo da saudade, errarei em torno de ti, pedindo-te perdão, porque tu és a unica pessoa que eu offendi n'este mundo. A offensa, minha amiga, está expiada. Tenho soffrido penas sobrenaturaes. Achei doçura e suavidade no supplicio, emquanto me considerei algoz da tua felicidade, infame vendilhão que te troquei por alguns punhados de ouro. Depois, porém, que expelli em lagrimas a peçonha do coração, ouso dizer a Deus que este flagello é de mais... esta quéda na sepultura, aberta no caminho de palmas que eu de lá vira, é um acto da Providencia que assimilha um escarneo. Não tenho forças nem vista para mais, Carlota. Compaixão, anjo do céo! Amor... não t'o mereço: seria duplicada infamia pedil-o agora. Adeus.»Após uma longa enfermidade, Mendonça esperava alvoroçado o paquebote que fazia regulares viagens entre Portugal e o Brazil.O coração afiançava-lhe uma carta, muitas cartas de Carlota; umas accusando-o, outras absolvendo-o.O paquebote chegou. Salter teve muitas cartas. Examinou os sobrescriptos, primeiro com o rosto incendido pelo giro alvorotado do sangue; depois, á maneira que estremava as cartas, sobreveio o desmaio, a pallidez do susto; e finalmente o turvamento, a prostração, o cair alquebrado sobre uma cadeira, com os dedos recurvados na fronte, que revia suores frios.Aquietada a angustia, depois de enfurecidos impetos, Salter quiz escrever, arrojou a penna, e levou as mãos á fronte, como a segurar uma ideia consoladora.—Vou a Portugal!—murmurou elle—fujo, deserto, perco-me, mas vou a Portugal. Carlota está morta, ou atraiçoou-me!Este projecto foi-lhe um desafôgo n'aquelle dia. Nenhum estorvo se lhe avultava insuperavel. O governador chamara-o para lhe communicar as ordens que recebera do governo e entregar-lhe officios do almirantado. Dava-se pressa do reino ao capitão da real brigada em executar os trabalhos commettidos, visto que Portugal ia ser compellido a reunir-se com Napoleão na causa do continente. Era um prognostico da indecorosa subserviencia com que, alguns mezes depois, a côrte portugueza rompeu com Inglaterra, para, decorridos poucos dias, lhe pedir auxilio na vilipendiosa e impolitica fuga.Não invejamos a gloria do historiador portuguez d'esse tempo, pelas nauseas e vergonhas que lhe ha de custar a narração exacta do envilecimento a que descera a terra do marquez de Pombal. Se não fosse o receio de enjoar o leitor, que lê um romance, cansado de ler livros com ideias, escrevia agora aqui uns threnos plangentes sobre a patria de D. João I e D. Manoel. Ainda me tolhe outro mêdo, e vem a ser o de me ver a braços com difficuldades na resposta aos que me perguntarem se a patria de D. Fernando I e Affonso VI valia mais em dignidade, primor, e independencia que a do marido de D. Carlota Joaquina. Questões são estas que desentoam aphonicamente da indole d'esta escriptura, mais que todas sujeita a fazer-se ridicula, se dá ares de ser obra de quem sorve uma conspicua pitada, para julgar depois os reis e os povos.O que se quer é saber no que pararam os projectos de Francisco Salter de Mendonça; se desertou, se morreu, ou transigiu com a desgraça.Nenhuma das hypotheses.No dia seguinte ao da intencionada fuga, o amante de Carlota Angela foi visitado por um individuo, que disse ser natural do Porto, e ir liquidar uma herança no Rio de Janeiro.Mendonça acolheu-o com alegria, suppondo-o portador de carta de Carlota. Disse o portuense que viera alli dar-lhe uma nova, talvez desagradavel ao principio, mas estimavel, quando a reflexão desvanecesse os effeitos da má noticia.—Que é?—atalhou Mendonça—Estou preparado para o que for.—Eu conheço Norberto de Meirelles, sou negociante como elle, e sei todos os passos da sua vida. Soube que v. s.ª lhe pedira a filha em casamento; soube que lh'a prometteu, para evitar que ella saísse judicialmente; e tambem soube que elle roeu a corda, como costuma em muitos outros contractos, quando o doutor Sampayo lhe participou de Lisboa que v. s.ª era mandado para aqui. É isto verdade, ou não?—É, pelo menos assim o creio; mas antes de mais nada, queira responder-me a uma pergunta, para eu o ouvir com socego: D. Carlota vive?—Vive, e vive feliz, pois não vive!—Feliz!... diz o senhor...—Eu que o digo é porque o sei... Mulheres, meu amigo, mulheres! V. s.ª espanta-se? Bem se vê que está ainda muito verde, e não conhece o mundo... Longe da vista, longe do coração. As raparigas d'agora são como as ventoinhas. Palavriado, e mais palavriado; novellas e mais novellas; crendices e papagaices; e de tino e juizo nem para mandar cantar um cego.—Eu não entendo essa mistura de anexins com que o senhor está retardando a nova que me traz. Tem a bondade de se explicar com a possivel clareza?—Lá vou, snr. Francisco Salter de Mendonça, lá vou; mas será bom que se previna, se ainda me não adivinhou...A filha do tal snr. Norberto confirma o dictado de que de ruim arvore, nunca bom fructo.—Quer dizer que...—interrompeu, coriscando fogo dos olhos, o impetuoso mancebo.—O senhor vejo que se enfada... Estou arrependido de cá vir com similhante...—Com similhante commissão?!—concluiu Mendonça, erguendo-se em attitude ameaçadora.—Commissão!—gaguejou o interlocutor com sensiveis signaes de surprendido.—Sim!... diga o resto, quero ouvir o resto; mas depressa.—V. s.ª está fóra de si!—tornou o atrapalhado homem, lançando a mão ao chapéo e á bengala—Eu não vim aqui offendel-o, e v. s.ª recebe-me de um modo que eu não mereço... N'esse caso retiro-me.Mendonça, sofreando a cólera, tomou-lhe da mão urbanamente o chapéo, e obrigou-o com branda coacção a sentar-se.—Desculpe-me este desatino. O senhor, se alguma vez amou, deve passar-me por esta escandecencia propria de um rapaz ardente, com o coração ainda intacto d'essas punhaladas que, muito repetidas, chegam a matar a sensibilidade. Estou de animo frio para escutal-o. Queira v. s.ª continuar.—Eu...—disse o portuense, disfarçando ineptamente o sobresalto—eu... se aqui vim, foi para o desenganar... e mais nada...—Pois muito lhe agradecerei o desengano, quando o senhor me disser o engano.—Pois não adivinhou ainda? O senhor é esperto, segundo ouvi dizer, e já ha muito que devia entender que a tal menina não o amava.—Entendi agora—disse serenamente Mendonça com habil artificio.—Mas, como prova v. s.ª isso?—Como provo?—Sim, como prova? Eu creio tanto no amor de Carlota Angela, quanto reputo v. s.ª um calumniador emquanto me não provar essa espantosa novidade.—As provas, n'este caso...—São difficeis, bem o sei; mas o senhor ha de poder dizer-me: Carlota não o ama, porque deu esta ou aquella prova de o não amar.—A prova acho eu que é bastante dizer-lhe que ella, a esta hora, está casada com outro.—Essa é realmente a suprema das provas possiveis; mas, se lhe não custa, conte-me os promenores d'esse casamento. Quem se diz tão intimamente informado da vida de Norberto de Meirelles deve elucidar melhor as cousas. Quem é o noivo de Carlota?—O noivo...—tartamudeou o homem, enfiando de novo.—É do Porto?—Sim, senhor, é do Porto.—Como se chama?—Chama-se... esquece-me agora... v. s.ª de certo não conhece, ainda que eu lh'o diga... é um rapaz do commercio, que mora....—Sim, onde mora? Diga-me a rua, que eu o auxiliarei na recordação do nome, porque sei os nomes de todos os pretendentes de Carlota. Mora na rua de?...—Na rua... de... ora que cabeça esta!... O senhor atrapalhou-me de tal modo que me fez perder...—Até a memoria das ruas! é original essa perda! Diga-me mais, entretanto que lhe não lembra: Onde estava Carlota, quando o senhor saíu do Porto?—Onde havia de estar?... Estava em casa... e tinha estado no convento...—No convento de...—No convento, sim, no convento de...—Tambem perdeu a memoria dos conventos! Descanse, senhor portuense, tome fôlego, e tranquillise-se, porque receio d'aqui a pouco, que nem do Porto se lembre. Fallemos de outro assumpto. Como está Norberto de Meirelles?—Está bom, não ha mal que lhe chegue...—Aquelle homem é rijo, sendo tão magro!—Isso é verdade!—E sempre tão pallido!—Parece um defunto.—Vejo que o senhor até perdeu a memoria do seu amigo Norberto! Conhece-lhe os intimos segredos domesticos; mas não se recorda que elle é gordo e vermelho! Estou maravilhado do muito que me conta! E D. Rosalia continúa a cantar com aquella angelica voz que nós lhe conhecemos?O noticiador estava tolhido de mêdo. A esta ultima pergunta fez uma cara de apiedar as feras. Salter cruzara os braços sobre o peito, cravara os olhos nos olhos esgazeados do infeliz agente do bacharel Sampayo, e mandara-o sentar. Á segunda vez, a offerta da cadeira era pouco urbana: Mendonça pozera-lhe a mão no hombro direito, carregando com força bastante para aterrar o ensoado hospede, que se julgara em perigo. Este susto converteu-se em convicção de pancadaria certa, quando Salter correu a lingueta da chave.—O senhor treme como todos os miseraveis alugados para uma acção infame. Não trema—disse Mendonça—que eu não lhe faço mal. Se o não fiz saltar por aquella janella, quando proferiu com menos respeito o nome de D. Carlota Angela, agora de certo o acompanharei até á porta da rua.Mas conte-me a sua vida. Essa presença é inculcadora. O seu trajar é limpo, e a natureza deu-lhe cara de homem de bem. Que officio tem o senhor? Vive d'estas emprezas?Responda com desabafo. Quem o mandou aqui trazer a noticia d'esse casamento?—V. s.ª... eu... obrigado pela necessidade...—Diga; desengasgue-se d'esse nó de vergonha que tem na garganta. O senhor está entalado! Ora vamos: dizia o senhor—forçado pela necessidade...—Deixei-me seduzir por um homem, que me mandou... aqui...—Esse homem é Joaquim Antonio de Sampayo.—O mesmo é verdade, é esse...—Designadamente para o fim de me avisar que a snr.ª D. Carlota casava?—Sim, senhor.—E não o ensaiou para representar melhor o seupapel?... O senhor executou miseravelmente a commissão do seu mandatario, e precisa de uma leve correcção, para que ninguem mais se fie na sua destreza. O senhor tem aqui papel e tinteiro. Escreva ahi, com clareza e verdade, o programma que lhe deu o bacharel Joaquim Antonio de Sampayo.—V. s.ª quer-me perder!... eu sou empregado na intendencia...—E receia perder o emprego? Homens do seu quilate não se deslocam por tão pouco. O senhor é um homem necessario ao Estado, e hoje mais que nunca ao ajudante da intendencia, porque é depositario de um segredo que o infamaria muito. Ora ande lá; escreva. Como se chama? deixe-me ver o visto do seu passaporte.O miserando biltre tirou do bolso uma carteira, e estendeu o braço tremulo a Mendonça, que proseguiu, relanceando um olhar ao passaporte, e outro furtivo ao hospede:—Escreva lá:Declaro eu Luiz José Godinho...A penna não escreve?!O pallido Godinho é que não escrevia; e, se picara o papel muitas vezes com o bico da penna, fora o tremor do pulso.O silencio de Mendonça, esperando a tarda resposta, dera tempo a Godinho para meditar um lance dos que a desesperação suscitam, quando ha a optar entre dois perigos certos.Francisco Salter, senhor de si, e ainda mais do cobarde animo do homem, não se arreceiava do impetuoso salto que elle deu fóra da cadeira, lançando mão da grossa bengala.—Deixe-me sair, quando não, atravesso-o com este estoque!—exclamou o transfigurado Godinho, desembainhando o longo ferro, e apontando-o ao ventre de Mendonça.O que susteve o official de marinha firme no seu posto, foi mais o espanto que a bravura.—Então?—bradou o amanuense da policia, livido e tartamudo como se fosse elle o ameaçado—Abre-mea porta, ou não abre? Olhe que eu passo-o de um lado ao outro!Francisco Salter afastara-se; Godinho correra á porta, vendo desapparecer o adversario; rodara a chave com feliz exito; galgava o corredor que o devia levar á escada; mas na extremidade d'esse corredor havia uma porta que se abriu: Godinho estacou um momento diante de Mendonça, recuou o braço armado para impellir uma estocada porém a ponta de um faim a duas pollegadas do peito, restaurou-lhe o juizo prudencial, que perdera, um instante. Restava-lhe um expediente, talvez o mais legal e propicio de quantos tinha: gritou aqui de el-rei que o matavam, a berros de possesso, tres vezes, sem tomar fôlego.—Cala-te, miseravel, que ninguem te mata!—disse Mendonça.A força accumulara-se-lhe nos pulmões: era um gritar de homem que estrebuxa quasi esganado.—Vae escrever o que me disseste, canalha, e depois retira-te em paz.—Aqui de el-rei que me matam!—Então salta d'aquella janella abaixo, e diz ao bacharel Sampayo que te recompense a fractura das pernas!—Aqui de el-rei que me matam!Mendonça, repuxando-o pela gola da casaca, arrojou-o para a escada, e assentou-lhe com o salto da bota um rijo impulso no costado. Godinho galgou oito degraus com destreza de funambulo, mas do oitavo para baixo faltou-lhe o equilibrio, e resvalou de costas até ao patamar. Ahi, quiz erguer-se; mas os musculos intercostaes desobedeceram á velocidade do espirito. O primeiro amanuense da intendencia soffrera desagradavel reforma na disposição das costellas: sem embargo, Azais notaria ahi uma nova compensação: as cordas vocaes augmentaram de rigidez; os aqui de el-reis eram cada vez mais estridentes.Os visinhos e passageiros acudiram em tropel. Godinho pedia que o levantassem e conduzissem a casa do conde dos Arcos, de quem era hospede.Hospede do capitão-general!Isto inquietou Mendonça e desenvolveu a inergia caridosa dos circumstantes. Qual d'elles mais carinhoso e diligente em saber a offensa para depôr contra o offensor, porfiavam em conduzil-o nos braços. Godinho dizia apenas, comprimindo as costellas, rebeldes ao arquejar doloroso do diaphragma, que puxava por ellas:—Sejam muito boas testimunhas que o snr. Francisco Salter de Mendonça me quiz matar, em sua propria casa!Conduziram-o uns, e ficaram outros, em grupo, á porta de Mendonça, e defronte das janellas, contando aos que passavam a tentativa de assassinio perpetrada pelo official de marinha.Luiz José Godinho trouxera da intendencia carta de apresentação ao conde dos Arcos, e outras confidenciaes, sobre negocios do Estado. O governador hospedara-o com distincção, julgando-o digno da hospedagem pela confiança que apparentava merecer a Manique, e conhecimento, que tinha, da causa mysteriosa por que Francisco Salter devia, a todo o custo, ser retido no Rio de Janeiro, sob qualquer pretexto.Uma hora depois d'este successo, cujas consequencias não surprenderam o imprudente moço, o capitão da real brigada foi chamado á presença do governador, e interrogado ácerca dos motivos que lhe dera Luiz José Godinho para tamanha ferocidade, em sua propria casa, que deve ser asylo sagrado até para inimigos, quando se é cavalheiro. Mendonça, enfadado pelo ar supercilioso do interrogatorio, respondeu que fosse inquirido em sua presença o offendido, que era essa a praxe da lei.O governador espinhou-se, e mandou recolher á cadeia o official, para ser entregue aos juizes do crime.Francisco Salter de Mendonça não grangeara amigos nem protectores no Rio de Janeiro. O seu viver fora intimo e só, fóra do serviço. Entretinha-o, na soledade, a amargura.A justiça ouviu com sobrecenho a defeza do joven official, e achou a justificação inferior ao delicto. Godinho negava ter confessado o embuste para que viera commissionado pelo ajudante do intendente geral da policia. Osmagistrados, porém, convictos de que o offendido era pessoa bemquista de Manique, patrono de alguns, e amigo de outros, negaram ao preso, em ultimo recurso, o direito de se defender de um estoque.Mendonça escreveu para o reino; mas Godinho voltara, são e correcto das costellas, no paquebote em que vinham as cartas: quem as viu e queimou foi o bacharel Sampayo.A situação do amante de Carlota Angela era extremamente infeliz.Ao cabo de quatro mezes de carcere, sem novas do reino, nem absolvição da culpa, perdera o animo e a esperança.Já lhe não era lenitivo o escrever no seu diario, porque a dor, ao encadeiar-se na desesperação, seu derradeiro elo, quebrou no coração as cordas onde soava o gemido.Depois veio a furia, que contorce e despedaça, o impotente raivar contra os homens e contra Deus, a tentação do suicidio, combatida pela imagem de Carlota, mas de novo irritada, a cada navio que chegava, sem uma nova d'ella.Mendonça tinha um amigo. Era um escravo alugado que o servia, um negro que lhe passava os alimentos, e chorava encostado aos ferros, porque não sabia consolal-o.Era o preto quem lhe trazia as cartas dos amigos do reino, ignorantes da sua prisão, e implorava aos juizes a liberdade do preso; alcançando apenas para si repellões desprezadores e, muitas vezes vergoadas de chibata sobre as lagrimas.O escravo offerecera-se a Mendonça para vir a Portugal com cartas. Esta vinda seria uma fuga, porque o dono do preto, sem um deposito equivalente ao valor da cousa, não consentiria a sua saida, e Mendonça, desprovido de meios para a sua subsistencia, não podia garantir com dinheiro a volta do escravo...Conspirava tudo contra o desamparado moço. O proprietario do negro, receioso de perder o aluguer, visto que Mendonça lhe não pagara um mez, chamou a si oescravo. Francisco vendeu o que podia merecer o preço mensal do seu unico amigo, e continuou a ver, perto de si, aquelles olhos reluzentes de lagrimas, lagrimas que lhe faziam bem ao coração, porque o mais desgraçado dos homens é o que não tem sequer por si o olhar compadecido de um cão.Entretanto o escravo ideiara o arrojo de vir a Portugal, fugindo.Trabalhava na difficil execução d'essa traça, quando a escunaGuerra-voadorchegou ao Rio de Janeiro com a nova de que o principe regente saíra de Portugal para estabelecer a côrte n'aquelle porto.Foi o escravo quem primeiro levou esta nova ao carcere.Francisco Salter apertou a mão do negro e disse:—Seremos ambos livres, meu amigo.X
Didone... No mai die fiamma impuraFeci l'are fumar per vostro scherno;Dunque perché congiuraTutto il ciel contra me, tutto l'inferno?OsmidaAh! pensa a te non irritar gli Dei...DidoneChe Dei? Son nomi vani,Son chimere sognatte, ó ingiusti son.Metastasio.(Didone.)
Metastasio.(Didone.)
Norberto de Meirelles communicou, immediatamente, ao cunhado o acontecido com a religiosa benedictina, pedindo-lhe conselho para evitar que a filha se fizesse freira.
O bacharel Sampayo chamou a capitulo os seus vastos expedientes de perfidia, e conglobou-os n'um, do qual ousou afiançar ao cunhado um exito feliz.
Chamou pessoa idonea para executal-o, e de Lisboa veio ao Porto um individuo encarregado da seguinte missão:
Entrou, um dia, no pateo do mosteiro de S. Bento esse homem, e perguntou na portaria, se lhe seria possivel fazer chegar ás mãos da snr.ª D. Carlota Angela um bilhetinho de sua mãe.
A porteira respondeu affirmativamente, como era de esperar, recebeu o bilhete, e entregou-o a Carlota, que saia do côro, onde costumava passar as manhãs em oração.
Era este o conteúdo do bilhete:
Uma pessoa quer fallar á snr.ª D. Carlota ácerca deFrancisco Salter de Mendonça; mas deseja estar só com ella em uma grade. A pessoa espera resposta.
Carlota alvoroçada correu ao locutorio, e exclamou:
—Estou aqui.
O enviado do bacharel aproximou-se, e disse:
—Sou eu que a procuro, minha senhora; mas na esperança de ser demorada a nossa pratica, pedia o favor de me fallar n'uma grade, porque este logar é improprio para se tratarem cousas de tamanho segredo.
Carlota olhou em redor de si, viu uma criada com uma chave, e disse com precipitação:
—Empresta-me a grade por um bocadinho? empresta, por quem é?
—Sim, minha senhora—disse a criada.
Carlota indicou ao homem de Lisboa a grade, e correu a encontral-o.
Não tinha ainda elle terminado as formalidades da cortezia, disse Carlota impaciente:
—Elle já veio? Está em Lisboa?
Estas perguntas eram feitas a tremer. Carlota, não podendo com a afflictiva duvida da resposta, apressou-se a interrogal-o assim, cuidando que a certeza com que perguntava por Mendonça vivo a desopprimia da suspeita de que elle era morto.
O homem não estava preparado para perguntas tão expeditas. Ficou perplexo, e esta indecisão deu azo a novas perguntas:
—Traz-me cartas d'elle? dê-m'as...
—Não trago cartas, minha senhora.
—Não?!—atalhou ella com vehemencia e sobresalto.
—Não, snr.ª D. Carlota. Francisco Salter não lhe escreveria, ainda que podesse...
—Como?! não entendo!... Não escreveria... porque?
—Se a menina serenar um pouco, tomarei a liberdade de historiar-lhe vagarosamente a vida do homem que lhe mereceu um grande amor, digno, permitta-me dizer-lh'o, de ser melhor applicado.
—Isso é uma calumnia! isso é mentira!—exclamou Carlota, sem pesar a gravidade das palavras que ouvira, e das que proferira com exaltada acrimonia.
—Eu desculpo-a das injurias que me dirige, porque avalio a surpreza dolorosa, que lhe fazem tão horriveis novas. Queira escutar-me.
Francisco Salter saiu do Porto amando-a, como se ama aos vinte e quatro annos, com esse amor imprevidente, superficial, e arriscado ás variantes do coração logo que as tempestades de outras paixões se levantam, sopradas por um casual encontro com outra mulher. Era um rapaz no comêço de uma bella carreira, com espiritos ambiciosos, sem bens de fortuna, e descontente da sua sorte... O desengano devia vir, logo que os olhos da pessoa, que elle amava, deixassem de influencial-o. Chegou a Lisboa, onde tinha valiosos amigos e parentes, e onde fora chamado para receber uma honrosa commissão para o Brazil, com augmento na sua carreira, e promessas seguras de grandes vantagens.
Francisco Salter de Mendonça rejeitaria a gloria, se o amor fosse de mais rija tempera; renunciaria um almirantado, se o coração de Carlota Angela saciasse n'elle a louvavel ambição de se fazer grande por merecimento proprio. Obedeceu ao orgulho, e partiu para o Brazil, como a menina sabe. Escreveu-lhe, talvez, uma carta muito saudosa, muito lamuriante, muito esperançosa; mas... partiu.
No Brazil, foi recebido como era de esperar. Encontrei-o na melhor sociedade, posto que a melhor sociedade de lá só se faça valiosa pelo dinheiro. As ricas herdeiras olhavam-o como um rapaz distincto, capitão da real brigada, bem fallante, gentil, bravo, soberbo de si, e collocaram-o na posição de escolher.
Vejo que v. s.ª está anciada. Se a continuação da minha visita a molesta, peço licença, e retiro-me.
—Não... não... queira dizer—balbuciou Carlota, tirando com violencia a respiração do seio convulsivo.
—Os fumos da vaidade e os da ambição—proseguiu o porta-voz do bacharel—ennevoaram aos olhos de Mendonça a imagem de Carlota Angela. Eu, que fora nos primeiros dias seu confidente, sabia que a menina existia n'este convento; recordei-lhe com pezar o indigno perjurio, e elle respondia-me que a ausencia era o balsamomaravilhoso das chagas que o amor fazia. Confesso que me angustiou esta baixa condição de alma! e muito principalmente depois que vi algumas cartas de v. s.ª, escriptas emquanto elle fazia a viagem.
Passados mezes, dois ou tres, se tanto, Mendonça dá parte aos seus amigos de que vae tomar estado com a filha unica de um opulento negociante, dotada com centenares de contos.
—E casou?—exclama Carlota, lançando com vertiginoso impeto as mãos ás grades.
—Casou—respondeu o homem, friamente.
Carlota soltou um grito, que não tem outro comparavel na expressão da angustia humana. Era o ruido agudo do estalar de todos os tecidos do coração, do rasgarem-se todos os vasos de sangue, do embate dos pulmões lacerados contra as paredes do peito. E, depois, os dedos recurvos nos ferros da grade, relaxaram-se, hirtos como os de um cadaver, e o corpo resvalou da cadeira para o chão com estrondoso baque.
O homem horrorisou-se um instante da sua obra, e recuou até á porta para retirar-se; mas a sua missão não estava ainda cumprida. Relampagueou-lhe uma ideia lucida. Desceu á portaria, e disse que fosse Alguem á grade, onde se achava desmaiada a snr.ª D. Carlota.
A este tempo já a madre porteira, alarmada pelo estrondo da quéda, entrava pressurosa na grade, e vendo Carlota no chão, chamou-a a altos gritos. Houve grande rumor no convento, e entre as muitas pessoas que desceram á portaria, vinham D. Rufina e a noviça.
O homem de Lisboa permanecia imperturbavel na grade, esperando que o interrogassem, já depois que Carlota fora transportada, com frouxos signaes de vida, ao seu quarto, acompanhada de um medico, que a fortuna trouxera n'esse conflicto.
—Alguma das senhoras é a tia da snr.ª D. Carlota Angela?—perguntou o homem.
—Sou eu—respondeu a pavida religiosa.
—Concede-me alguns minutos sem testimunhas?
As outras senhoras deixaram só Rufina; o delegado do bacharel proseguiu:
—Essa menina desfalleceu, quando eu lhe noticiei o casamento de Francisco Salter de Mendonça.
—O casamento?!
—Sim, minha senhora.
—O que geralmente se diz é que morreu.
—Casou, e morreu, dias depois.
—Oh meu Deus!—clamou a freira, levando as mãos ás faces—oh meu Deus, o que se passa debaixo de vossos olhos! Francisco de Mendonça casou!... O senhor tem a certeza d'isso?!
—Como quem assistiu ao casamento e á morte. Esta segunda parte é que sua sobrinha ignora, porque me não deu tempo. Agora convém que v. s.ª lh'a diga, para que a morte sirva de perdão ao ingrato, e a ingratidão lhe converta em quasi indifferença a morte. É assim que essa pobre menina ha de recuperar a tranquillidade que precisa; e eu, que espontaneamente aqui vim dar-lhe o golpe, que ninguem lhe queria dar, com o bom proposito de curar a ferida com o proprio sangue d'ella, retiro-me, delegando em v. s.ª o complemento da minha obra. Minha senhora, recebo as suas ordens.
Soror Rufina surgira de uma especie de lethargo, depois que o desconhecido saíra.
Foi ao quarto da sobrinha, e viu-a sentada no leito, com os cotovêlos fincados nos joelhos, e o rosto entre as mãos. Saíam-lhe das palpebras os olhos vidrentos e immoveis como os de um cadaver embalsamado. Parecia não ver alguem, e a respiração das pessoas, que a rodeavam, nem sequer se ouvia. O olhar de Carlota fazia terror.
A religiosa chamou-a tres vezes, como a mãe delirante chamaria sua filha morta; o pavor, porém, d'aquelle olhar sem luz nem movimento, parecia responder-lhe que estava morto o coração que devia ouvil-a. Rufina abraçou-a vertiginosamente, agitando-a com desespêro: o corpo obedecia ao impulso, com a inerte obediencia do cadaver, mas os olhos lá estavam na sua terrivel immobilidade como que seguindo a alma que lhe fugira arrancada pelas garras de um demonio.
—Que é isto, snr. doutor! está morta minha sobrinha?—bradou a religiosa ao medico.
—Não está morta, minha senhora; póde estar demente.
Carlota Angela soltou um profundo grito, ergueu-se sobre os joelhos no leito, travou das tranças com frenetico delirio, deixou caír os braços semi-mortos, e recaíu no torpor de momentos antes.
Passado o espanto, todos os corações se derramaram alli em lagrimas. Não sabiam ao certo que immensa angustia era aquella; mas adivinhavam-a. Todas se voltaram para Jesus crucificado, de joelhos oraram chorando, e a oração era a mesma em todos os espíritos:
«Se ella está demente, levae-a, Senhor!»
Aquelle estado era impossivel longo tempo. Durante vinte e quatro horas succediam-se as syncopes, cada vez mais prolongadas e assustadoras. O medico, descrido da acção dos antispasmodicos, aconselhou que lhe fallassem muito na causa d'aquelle accidente, confiado na vitalidade febril que dão as agonias moraes; e nas lagrimas consecutivas.
Assim o aconselhara; ninguem, todavia, queria encarregar-se de tão cruel flagellação.
Soror Rufina esperara a saída das incessantes visitas, para, com o soccorro do céo, executar o duro supplicio de Carlota. O coração dizia-lhe que tal expediente seria um tormento inutil; mas o medico ajuntara ao conselho razões que a convenceram.
A sós, Carlota fitou-a com uma turvação de olhar, que deu quebranto á resolução da freira.
—Se ella está demente, de que serve este triste remedio?!—dizia soror Rufina—Eu vou verter-lhe fel na chaga do coração, e nem posso ao menos contar com a intelligencia d'ella para lhe faltar á razão! Se Deus a chamasse a si, que maior felicidade lhe poderia eu desejar! Minha filha!—murmurou ella, aconchegando-a ao seio—Tu não me conheces? Sou a tua boa tia, a melhor das tuas amigas. A tua dor me dóe tambem, Carlota. É preciso que nos consolemos uma á outra. Diz-me uma palavra só, anjinho... Conheces a tua tia, menina?
—Se conheço!...—disse com meigo sorriso, Carlota, abraçando-a pelo pescoço. Rufina estremeceu de alegria,comprimindo com transporte o seio da sobrinha ao seu, e cobrindo-lhe de lagrimas e beijos a face.
—E és a minha querida filha, pois não és?—proseguiu a freira—É de mim que esperas allivios d'esta agonia, e amor para toda a vida? Aceitas as consolações de tua tia, crendo que é ella o instrumento de que a misericordia de um Deus piedoso se serve?
—Não me falle em Deus!—bradou com impetuosa violencia Carlota Angela.
Rufina tremeu e empallideceu como assombrada de um raio.
—Está douda a infeliz!—disse ella—Agora sim, creio que não ha valer-lhe! Ó Mãe Santissima, ó Senhor dos Afflictos, levae esta alma para vós... não consintaes que os labios digam blasphemias, que o espirito d'esta virtuosa creatura não sente.
—Não me falle em Deus!—repetiu Carlota, esgazeando sinistramente os olhos—Não ha Deus, nem justiça, nem misericordia. Ha inferno n'este mundo para os innocentes, para os que, fugindo ao odio humano, se acolhem ao amparo divino.
—Jesus!—atalhou a religiosa—Que palavras são essas, filha!?
—Eu não merecia esta morte, minha tia. Que fiz eu para morrer assim desesperada de achar a remuneração de tamanha perfidia?! Abandonada, esquecida por elle... Que horror!
Carlota Angela tapava o rosto, e arquejava, fugindo impetuosa aos braços da freira.
—Que horror!—continuava ella, apertando as fontes com as mãos, e tirando com violencia pela respiração—Trahida por Francisco!... Todo este amor, a amor de toda a minha vida, calcado, desprezado, ao mesmo tempo que eu o ia alimentando com lagrimas diante d'aquella cruz, onde eu cuidei que se encontrava compaixão!...
—E encontra, minha filha; e ainda agora das chagas de Jesus Christo está correndo o balsamo que te ha de curar, Carlota!
—Curar-me!... A tia não sabe o que eu soffro, não conheceu esta dor, não sabe que desesperada vae ser aminha agonia! Eu tenho a morte já na garganta. Era preciso que eu perdesse o juizo para se crer que ha Deus. Morrer assim, e sentir a causa da morte... isto é mais que barbaridade... o demonio não póde tanto, e um Deus não consentiria padecimento tamanho... Oh!... quem me apressasse a morte... quem me désse um veneno... quem me arrancasse do coração esta agonia!... Oh meu Deus!...—bradou ella, estendendo os braços para o crucifixo.
Soror Rufina correu a tomar a cruz de sobre a commoda, e aproximou-lh'a. Carlota cravou-lhe os olhos, um momento humedecidos de lagrimas, e lançou-a de si com um violento gesto de repulsão.
—É mentira tudo isso!—exclamava ella, agitando as mãos com frenesi, como se a tia teimasse em dar-lhe a cruz—É mentira tudo! não ha Deus, não ha nada a que uma desgraçada, como eu, possa recorrer! Deus não consentiria que houvesse um perverso tal como esse homem, nenhuma miseravel como eu...
—E, se souberes que foi castigado o perverso que te faz soffrer tanto, Carlota, crês que ha justiça de Deus?
—Castigado!... não ha n'este mundo castigo para tamanha ingratidão... Elle é feliz a esta hora, nos braços de outra, com os carinhos de outra mulher, e eu... aqui, nas agonias da morte, sem poder saber que tempo hão de durar!... Meu Deus, eu morro arrependida de vos ter negado, se me levardes já...—E tomando a cruz, que beijava fervorosamente, proseguiu:—Levae-me, Senhor... tirae-me d'este inferno, ou fazei que eu endoudeça! Se eu sou grande peccadora, dae-me as penas eternas da outra vida, se lá não ha memoria das amarguras d'este mundo! Dae-me o outro inferno por este, e eu darei sempre louvores á vossa misericordia!... Não me escuta!—bradou Carlota com desesperada indignação, querendo arremessar a cruz.
—Filha!
—Deixe-me acabar, minha tia... Eu não quero esperanças... esperanças!... em que? Não quero consolações de ninguem... A maldade d'aquelle homem não me deixa já crer no amor de ninguem... Fujam todos de mim, que eu sou uma mulher amaldiçoada, sem ter offendido umasó pessoa... É a maldição de meu pae que chegou ao céo. Fui enganada, tinha fé n'aquelle homem, estou assim penando, porque o acreditei... É um castigo maior que o meu delicto! Deus devia perdoar á pobre mulher de dezoito annos, e castigar o traidor por quem me perdi...
—E castigou.
—Como?
—Chamando-o a contas.
—Diga, diga, minha tia... que é? chamando-o a contas!... pois elle...
—Morreu... pouco tempo depois que perjurou, Carlota. Agora crês que ha Deus?... crês na justiça divina?
Carlota não ouvia. Os olhos pasmaram, como se a paralysia os ferisse de subito. Os labios ficaram semiabertos, como se por elles perpassasse a derradeira expiração. Os braços decairam com mortal quebranto.
A freira abraçara-a, sustendo a cruz entre os dois seios, e invocando Jesus, e Carlota.
Dorothea entrara, ouvindo os gritos de Rufina. Subira ao leito, clamando agudos ais, porque julgara morta Carlota.
—Vá ver se está algum medico dentro—disse Rufina.—Mandem-o chamar, a toda a pressa, se não estiver. Chamem tambem o capellão... Parece-me que a matei, cuidando que a salvava.
Dorothea saíra, levando o alvoroço e o terror, pelos dormitorios, onde eccoavam os seus altos gemidos. Soror Rufina, desalentada, enfraquecida de espirito, e de fé, como aquelles santos de quem o Senhor se queixou, disse, lavada em lagrimas:
—Meu Deus! são terriveis os vossos juizos, e terriveis as vossas intenções! Quando a innocencia assim padece, como castigareis o crime?
Fora como o morder da vibora entranhada o pungir de alma que vibrou em dolorosissimo tremor o corpo todo da religiosa. Era a consciencia, que recebia em si o fel da injuria que os labios cuspiram; mas não passara d'elles. A apavorada freira, livida como o sacrilego aterrado pelo remorso, ouviu um murmurio, que lhe recrudesceu o pavor. Era Carlota que lhe dizia:
—Oremos pela alma do infeliz.
Correu ao leito, correram as religiosas que entraram com Dorothea. Viram Carlota Angela com as mãos erguidas, e a face coberta de lagrimas. Ergueram tambem as mãos, choraram tambem, ajoelharam, vendo Rufina de joelhos.
—É um Padre nosso e uma Avè Maria por alma de Francisco—balbuciou Carlota, soluçando, com inexprimivel afflicção.
O medico entrava n'esse conflicto, e presenciando as lagrimas de Carlota, fez um gesto afirmativo. Dorothea interrogou-o com anciado olhar. O medico, entreabrindo ligeiramente os labios com um sorriso, queria dizer:
—Está salva.
Mon Dieu! comme il est difficileDe courre avec de l'argent!Théophile de Veau.
Théophile de Veau.
Trocando com vontade pouco experta,Por incerta fortuna esta mais certa.C. Pereira de Castro.(Lisboa edificada.)
C. Pereira de Castro.(Lisboa edificada.)
Francisco Salter de Mendonça, de Lisboa ao Rio de Janeiro escrevera um diario, em que mais se accusava a si de ingrato que aos seus cavillosos protectores de crueis. A saudade era encruada pelo arrependimento.
Ao passo que o horizonte da patria se perdia nas orlas do mar, o atribulado mancebo já não sentia da esperança o conforto que o alentava no instante da partida. Afigurava-se-lhe um sonho horroroso estar elle tão longe, cada vez mais longe, de Carlota Angela. Ideiava e desfiava todas as consequencias que podia trazer a sua formal rejeição do encargo e da patente.
«Se me prendessem,—escrevera elle no diario—que maior prova podia eu dar a Carlota de que a minha liberdade, longe d'ella, seria o meu supremo captiveiro?
«Preso debaixo do céo em que ella vive, teria a liberdade de escrever-lhe, de animal-a, de a ver talvez um dia chegar lacrimosa aos ferros do meu carcere, e encher-m'o de quantas alegrias podem elevar uma alma nobre sobre astucias de miseraveis tyrannos.
«Seria grande mágoa para ella a minha prisão, a minha baixa, a minha quéda irremediavel no principio da vida? Oh! de certo era; mas essa dor desvanecel-a-hia a convicção de ser tão amada, tão preterida á gloria, á honra e aos sorrisos da fortuna!
«Por que não lhe dei eu o nobre orgulho de me sacrificar, de me abater aos olhos de todo o mundo, com tanto que me engrandecesse aos olhos d'ella, d'ella, para quem eu queria honras, glorias, corôas, mundos, tudo grande, tudo sublime, e tudo pequeno em confronto do coração que lhe dei?!
«E, depois, a minha prisão seria de pouco tempo, porque os meus parentes são poderosos, e o dinheiro do pae de Carlota exhaurir-se-hia ao mesmo tempo que o coração de sua filha seria mil vezes multiplicado em apêgo, em gratidão, em ternura, e coragem para affrontar commigo os obstaculos.
«Mas nem talvez eu chegasse a ser preso. Julgar-me-hia o governo em demasia castigado com a baixa, com a desconsideração e com o desprezo. Toda a gente me olharia como se olha um homem pobre, e de mais a mais rebelde ao serviço da patria. Que importava isso? Carlota Angela seria o meu talisman; as riquezas brotariam de seu coração inesgotavel; todos me invejariam ao pé d'ella; apontar-nos-hiam como modelos de affeição, e de honra na affeição, que tão rara se encontra. Com o tempo, eu seria chamado a merecer o premio de calcar a intriga, e o nosso pão na opulencia não seria mais doce que o pão da pobreza.
«Que fiz eu, homem vil, homem sem alma?
«Mascarei-me com as palavras «honra e dever», e estou deshonrado perante Carlota! Impuz-lhe um juramento de morrer minha escrava, fiz que ella me adjudicasse a sua vida, apontei-lhe o claustro como seu eterno carcere, e não tive valor para me deixar perseguir por amor d'ella!
«Ó coração duro, que assim te deshonraste com tão baixo egoismo!
«Tu choravas, quando lhe escreveste um adeus, mas essas lagrimas pôde enxugal-as a razão, tão villã como tu! Mentias n'esse pranto, abjecto, avarento, que te sentiste sobresalteado de orgulho e alegria, quando as dragonas de major da armada te deslumbraram a duas mil leguas distantes de Carlota.
«Não sou digno de mais a ver, sem córar de vergonha,não! Se ella me não escrever, se rasgar e pizar e cuspir as minhas cartas, eu devo ter o cynismo de tragar a affronta, já que tive a villania de a merecer.»
A estas paginas da consciencia opprimida, succediam-se outras de lagrimosa ternura. Nunca a saudade se exprimira com mais contrição de alma, com mais doridos afagos á imagem querida que os recebe chorosa, com devaneios de mais poesia amarga, d'essa que só sabem desentranhar do coração os que sentem voluptuosa dor em despedaçal-o.
Francisco Salter atravessara o Atlantico sem um amigo, sem um ouvido attento onde contasse, com attrição de penitente, as saudades e pungimentos que o laceravam.
Eram bellas as noites, era de magia o céo estrellado, as luas-cheias no mar parece que recolhem de mais perto, n'aquella vasta solidão, as confidencias do amante, dando-se como espelho, para que, a milhares de leguas, a contemplativa amada veja n'ella os olhos do que a pranteia.
Mendonça, porém, angustiava-se mais com esse espectaculo, só donoso de extasis, e dulcissimo de espirituaes colloquios para amantes felizes.
E escreveu assim:
«O desgraçado não supporta as alegrias dos homens, nem as da natureza. Se a sua alma está de luto, cubra-se de negro tudo que o cerca. Se sulca os mares, refervam as vagas batidas pelo látego da tormenta; forre-se de nuvens torvas o céo, rebôem em turbilhões, prenhes de coriscos; rua o ultimo mastro lascado pelo raio, e espumem contra a derradeira táboa do naufragado as fauces do dragão que abre um abysmo em cada resfôlego.
«O amanhecer não tem cantares, nem a tarde murmurios, nem a solidão arroubamentos para esse que a natureza repelliu de si, como leproso, chagado no coração, contagioso de pestilencial desesperança.
«Eu subi ha pouco á tolda, e vi a lua, que oito dias antes me vira no Candal, ao pé de Carlota. Não pude fital-a. Os meus olhos caíram sobre o dorso do mar, bem perto do navio, onde não chegava a refulgencia da lua. Alli estive fascinado, n'aquelle ponto negro. Similhava-se-mea um tumulo, e o fremir da onda quebrada na quilha soava-me como um gemido de mulher que eu lançasse áquelle abysmo...
«E fugi, meu Deus, fugi, porque me não déstes um raio de esperança.
«Ó Carlota, Carlota, matar-te-hia eu?!»
Este fragmento de uma pagina, transcripto ao acaso, sirva para avaliar que afflictivo tranzito lhe foram os cincoenta dias de viagem.
No desembarque, Francisco Salter de Mendonça sentiu vergar o corpo ás commoções da alma. Adoeceu, e, na ardor da febre, escreveu a Carlota essa longa carta com que o bacharel Sampayo espertou o lume do seu fogão. Eram estas as ultimas linhas da carta:
«Se eu morrer, minha querida Carlota, ouso d'aqui já pedir-te o meu perdão. A memoria de um morto é sagrada. Todas as ingratidões e villanias desapparecem com o miseravel corpo que os vermes desfazem. Fica a alma no seio de Deus, ou fóra do céo. Se Deus acolher a minha, de lá te chamarei; se me repellir este espirito, purificado no fogo da saudade, errarei em torno de ti, pedindo-te perdão, porque tu és a unica pessoa que eu offendi n'este mundo. A offensa, minha amiga, está expiada. Tenho soffrido penas sobrenaturaes. Achei doçura e suavidade no supplicio, emquanto me considerei algoz da tua felicidade, infame vendilhão que te troquei por alguns punhados de ouro. Depois, porém, que expelli em lagrimas a peçonha do coração, ouso dizer a Deus que este flagello é de mais... esta quéda na sepultura, aberta no caminho de palmas que eu de lá vira, é um acto da Providencia que assimilha um escarneo. Não tenho forças nem vista para mais, Carlota. Compaixão, anjo do céo! Amor... não t'o mereço: seria duplicada infamia pedil-o agora. Adeus.»
Após uma longa enfermidade, Mendonça esperava alvoroçado o paquebote que fazia regulares viagens entre Portugal e o Brazil.
O coração afiançava-lhe uma carta, muitas cartas de Carlota; umas accusando-o, outras absolvendo-o.
O paquebote chegou. Salter teve muitas cartas. Examinou os sobrescriptos, primeiro com o rosto incendido pelo giro alvorotado do sangue; depois, á maneira que estremava as cartas, sobreveio o desmaio, a pallidez do susto; e finalmente o turvamento, a prostração, o cair alquebrado sobre uma cadeira, com os dedos recurvados na fronte, que revia suores frios.
Aquietada a angustia, depois de enfurecidos impetos, Salter quiz escrever, arrojou a penna, e levou as mãos á fronte, como a segurar uma ideia consoladora.
—Vou a Portugal!—murmurou elle—fujo, deserto, perco-me, mas vou a Portugal. Carlota está morta, ou atraiçoou-me!
Este projecto foi-lhe um desafôgo n'aquelle dia. Nenhum estorvo se lhe avultava insuperavel. O governador chamara-o para lhe communicar as ordens que recebera do governo e entregar-lhe officios do almirantado. Dava-se pressa do reino ao capitão da real brigada em executar os trabalhos commettidos, visto que Portugal ia ser compellido a reunir-se com Napoleão na causa do continente. Era um prognostico da indecorosa subserviencia com que, alguns mezes depois, a côrte portugueza rompeu com Inglaterra, para, decorridos poucos dias, lhe pedir auxilio na vilipendiosa e impolitica fuga.
Não invejamos a gloria do historiador portuguez d'esse tempo, pelas nauseas e vergonhas que lhe ha de custar a narração exacta do envilecimento a que descera a terra do marquez de Pombal. Se não fosse o receio de enjoar o leitor, que lê um romance, cansado de ler livros com ideias, escrevia agora aqui uns threnos plangentes sobre a patria de D. João I e D. Manoel. Ainda me tolhe outro mêdo, e vem a ser o de me ver a braços com difficuldades na resposta aos que me perguntarem se a patria de D. Fernando I e Affonso VI valia mais em dignidade, primor, e independencia que a do marido de D. Carlota Joaquina. Questões são estas que desentoam aphonicamente da indole d'esta escriptura, mais que todas sujeita a fazer-se ridicula, se dá ares de ser obra de quem sorve uma conspicua pitada, para julgar depois os reis e os povos.
O que se quer é saber no que pararam os projectos de Francisco Salter de Mendonça; se desertou, se morreu, ou transigiu com a desgraça.
Nenhuma das hypotheses.
No dia seguinte ao da intencionada fuga, o amante de Carlota Angela foi visitado por um individuo, que disse ser natural do Porto, e ir liquidar uma herança no Rio de Janeiro.
Mendonça acolheu-o com alegria, suppondo-o portador de carta de Carlota. Disse o portuense que viera alli dar-lhe uma nova, talvez desagradavel ao principio, mas estimavel, quando a reflexão desvanecesse os effeitos da má noticia.
—Que é?—atalhou Mendonça—Estou preparado para o que for.
—Eu conheço Norberto de Meirelles, sou negociante como elle, e sei todos os passos da sua vida. Soube que v. s.ª lhe pedira a filha em casamento; soube que lh'a prometteu, para evitar que ella saísse judicialmente; e tambem soube que elle roeu a corda, como costuma em muitos outros contractos, quando o doutor Sampayo lhe participou de Lisboa que v. s.ª era mandado para aqui. É isto verdade, ou não?
—É, pelo menos assim o creio; mas antes de mais nada, queira responder-me a uma pergunta, para eu o ouvir com socego: D. Carlota vive?
—Vive, e vive feliz, pois não vive!
—Feliz!... diz o senhor...
—Eu que o digo é porque o sei... Mulheres, meu amigo, mulheres! V. s.ª espanta-se? Bem se vê que está ainda muito verde, e não conhece o mundo... Longe da vista, longe do coração. As raparigas d'agora são como as ventoinhas. Palavriado, e mais palavriado; novellas e mais novellas; crendices e papagaices; e de tino e juizo nem para mandar cantar um cego.
—Eu não entendo essa mistura de anexins com que o senhor está retardando a nova que me traz. Tem a bondade de se explicar com a possivel clareza?
—Lá vou, snr. Francisco Salter de Mendonça, lá vou; mas será bom que se previna, se ainda me não adivinhou...A filha do tal snr. Norberto confirma o dictado de que de ruim arvore, nunca bom fructo.
—Quer dizer que...—interrompeu, coriscando fogo dos olhos, o impetuoso mancebo.
—O senhor vejo que se enfada... Estou arrependido de cá vir com similhante...
—Com similhante commissão?!—concluiu Mendonça, erguendo-se em attitude ameaçadora.
—Commissão!—gaguejou o interlocutor com sensiveis signaes de surprendido.
—Sim!... diga o resto, quero ouvir o resto; mas depressa.
—V. s.ª está fóra de si!—tornou o atrapalhado homem, lançando a mão ao chapéo e á bengala—Eu não vim aqui offendel-o, e v. s.ª recebe-me de um modo que eu não mereço... N'esse caso retiro-me.
Mendonça, sofreando a cólera, tomou-lhe da mão urbanamente o chapéo, e obrigou-o com branda coacção a sentar-se.
—Desculpe-me este desatino. O senhor, se alguma vez amou, deve passar-me por esta escandecencia propria de um rapaz ardente, com o coração ainda intacto d'essas punhaladas que, muito repetidas, chegam a matar a sensibilidade. Estou de animo frio para escutal-o. Queira v. s.ª continuar.
—Eu...—disse o portuense, disfarçando ineptamente o sobresalto—eu... se aqui vim, foi para o desenganar... e mais nada...
—Pois muito lhe agradecerei o desengano, quando o senhor me disser o engano.
—Pois não adivinhou ainda? O senhor é esperto, segundo ouvi dizer, e já ha muito que devia entender que a tal menina não o amava.
—Entendi agora—disse serenamente Mendonça com habil artificio.—Mas, como prova v. s.ª isso?
—Como provo?
—Sim, como prova? Eu creio tanto no amor de Carlota Angela, quanto reputo v. s.ª um calumniador emquanto me não provar essa espantosa novidade.
—As provas, n'este caso...
—São difficeis, bem o sei; mas o senhor ha de poder dizer-me: Carlota não o ama, porque deu esta ou aquella prova de o não amar.
—A prova acho eu que é bastante dizer-lhe que ella, a esta hora, está casada com outro.
—Essa é realmente a suprema das provas possiveis; mas, se lhe não custa, conte-me os promenores d'esse casamento. Quem se diz tão intimamente informado da vida de Norberto de Meirelles deve elucidar melhor as cousas. Quem é o noivo de Carlota?
—O noivo...—tartamudeou o homem, enfiando de novo.
—É do Porto?
—Sim, senhor, é do Porto.
—Como se chama?
—Chama-se... esquece-me agora... v. s.ª de certo não conhece, ainda que eu lh'o diga... é um rapaz do commercio, que mora....
—Sim, onde mora? Diga-me a rua, que eu o auxiliarei na recordação do nome, porque sei os nomes de todos os pretendentes de Carlota. Mora na rua de?...
—Na rua... de... ora que cabeça esta!... O senhor atrapalhou-me de tal modo que me fez perder...
—Até a memoria das ruas! é original essa perda! Diga-me mais, entretanto que lhe não lembra: Onde estava Carlota, quando o senhor saíu do Porto?
—Onde havia de estar?... Estava em casa... e tinha estado no convento...
—No convento de...
—No convento, sim, no convento de...
—Tambem perdeu a memoria dos conventos! Descanse, senhor portuense, tome fôlego, e tranquillise-se, porque receio d'aqui a pouco, que nem do Porto se lembre. Fallemos de outro assumpto. Como está Norberto de Meirelles?
—Está bom, não ha mal que lhe chegue...
—Aquelle homem é rijo, sendo tão magro!
—Isso é verdade!
—E sempre tão pallido!
—Parece um defunto.
—Vejo que o senhor até perdeu a memoria do seu amigo Norberto! Conhece-lhe os intimos segredos domesticos; mas não se recorda que elle é gordo e vermelho! Estou maravilhado do muito que me conta! E D. Rosalia continúa a cantar com aquella angelica voz que nós lhe conhecemos?
O noticiador estava tolhido de mêdo. A esta ultima pergunta fez uma cara de apiedar as feras. Salter cruzara os braços sobre o peito, cravara os olhos nos olhos esgazeados do infeliz agente do bacharel Sampayo, e mandara-o sentar. Á segunda vez, a offerta da cadeira era pouco urbana: Mendonça pozera-lhe a mão no hombro direito, carregando com força bastante para aterrar o ensoado hospede, que se julgara em perigo. Este susto converteu-se em convicção de pancadaria certa, quando Salter correu a lingueta da chave.
—O senhor treme como todos os miseraveis alugados para uma acção infame. Não trema—disse Mendonça—que eu não lhe faço mal. Se o não fiz saltar por aquella janella, quando proferiu com menos respeito o nome de D. Carlota Angela, agora de certo o acompanharei até á porta da rua.
Mas conte-me a sua vida. Essa presença é inculcadora. O seu trajar é limpo, e a natureza deu-lhe cara de homem de bem. Que officio tem o senhor? Vive d'estas emprezas?
Responda com desabafo. Quem o mandou aqui trazer a noticia d'esse casamento?
—V. s.ª... eu... obrigado pela necessidade...
—Diga; desengasgue-se d'esse nó de vergonha que tem na garganta. O senhor está entalado! Ora vamos: dizia o senhor—forçado pela necessidade...
—Deixei-me seduzir por um homem, que me mandou... aqui...
—Esse homem é Joaquim Antonio de Sampayo.
—O mesmo é verdade, é esse...
—Designadamente para o fim de me avisar que a snr.ª D. Carlota casava?
—Sim, senhor.
—E não o ensaiou para representar melhor o seupapel?... O senhor executou miseravelmente a commissão do seu mandatario, e precisa de uma leve correcção, para que ninguem mais se fie na sua destreza. O senhor tem aqui papel e tinteiro. Escreva ahi, com clareza e verdade, o programma que lhe deu o bacharel Joaquim Antonio de Sampayo.
—V. s.ª quer-me perder!... eu sou empregado na intendencia...
—E receia perder o emprego? Homens do seu quilate não se deslocam por tão pouco. O senhor é um homem necessario ao Estado, e hoje mais que nunca ao ajudante da intendencia, porque é depositario de um segredo que o infamaria muito. Ora ande lá; escreva. Como se chama? deixe-me ver o visto do seu passaporte.
O miserando biltre tirou do bolso uma carteira, e estendeu o braço tremulo a Mendonça, que proseguiu, relanceando um olhar ao passaporte, e outro furtivo ao hospede:
—Escreva lá:Declaro eu Luiz José Godinho...
A penna não escreve?!
O pallido Godinho é que não escrevia; e, se picara o papel muitas vezes com o bico da penna, fora o tremor do pulso.
O silencio de Mendonça, esperando a tarda resposta, dera tempo a Godinho para meditar um lance dos que a desesperação suscitam, quando ha a optar entre dois perigos certos.
Francisco Salter, senhor de si, e ainda mais do cobarde animo do homem, não se arreceiava do impetuoso salto que elle deu fóra da cadeira, lançando mão da grossa bengala.
—Deixe-me sair, quando não, atravesso-o com este estoque!—exclamou o transfigurado Godinho, desembainhando o longo ferro, e apontando-o ao ventre de Mendonça.
O que susteve o official de marinha firme no seu posto, foi mais o espanto que a bravura.
—Então?—bradou o amanuense da policia, livido e tartamudo como se fosse elle o ameaçado—Abre-mea porta, ou não abre? Olhe que eu passo-o de um lado ao outro!
Francisco Salter afastara-se; Godinho correra á porta, vendo desapparecer o adversario; rodara a chave com feliz exito; galgava o corredor que o devia levar á escada; mas na extremidade d'esse corredor havia uma porta que se abriu: Godinho estacou um momento diante de Mendonça, recuou o braço armado para impellir uma estocada porém a ponta de um faim a duas pollegadas do peito, restaurou-lhe o juizo prudencial, que perdera, um instante. Restava-lhe um expediente, talvez o mais legal e propicio de quantos tinha: gritou aqui de el-rei que o matavam, a berros de possesso, tres vezes, sem tomar fôlego.
—Cala-te, miseravel, que ninguem te mata!—disse Mendonça.
A força accumulara-se-lhe nos pulmões: era um gritar de homem que estrebuxa quasi esganado.
—Vae escrever o que me disseste, canalha, e depois retira-te em paz.
—Aqui de el-rei que me matam!
—Então salta d'aquella janella abaixo, e diz ao bacharel Sampayo que te recompense a fractura das pernas!
—Aqui de el-rei que me matam!
Mendonça, repuxando-o pela gola da casaca, arrojou-o para a escada, e assentou-lhe com o salto da bota um rijo impulso no costado. Godinho galgou oito degraus com destreza de funambulo, mas do oitavo para baixo faltou-lhe o equilibrio, e resvalou de costas até ao patamar. Ahi, quiz erguer-se; mas os musculos intercostaes desobedeceram á velocidade do espirito. O primeiro amanuense da intendencia soffrera desagradavel reforma na disposição das costellas: sem embargo, Azais notaria ahi uma nova compensação: as cordas vocaes augmentaram de rigidez; os aqui de el-reis eram cada vez mais estridentes.
Os visinhos e passageiros acudiram em tropel. Godinho pedia que o levantassem e conduzissem a casa do conde dos Arcos, de quem era hospede.
Hospede do capitão-general!
Isto inquietou Mendonça e desenvolveu a inergia caridosa dos circumstantes. Qual d'elles mais carinhoso e diligente em saber a offensa para depôr contra o offensor, porfiavam em conduzil-o nos braços. Godinho dizia apenas, comprimindo as costellas, rebeldes ao arquejar doloroso do diaphragma, que puxava por ellas:
—Sejam muito boas testimunhas que o snr. Francisco Salter de Mendonça me quiz matar, em sua propria casa!
Conduziram-o uns, e ficaram outros, em grupo, á porta de Mendonça, e defronte das janellas, contando aos que passavam a tentativa de assassinio perpetrada pelo official de marinha.
Luiz José Godinho trouxera da intendencia carta de apresentação ao conde dos Arcos, e outras confidenciaes, sobre negocios do Estado. O governador hospedara-o com distincção, julgando-o digno da hospedagem pela confiança que apparentava merecer a Manique, e conhecimento, que tinha, da causa mysteriosa por que Francisco Salter devia, a todo o custo, ser retido no Rio de Janeiro, sob qualquer pretexto.
Uma hora depois d'este successo, cujas consequencias não surprenderam o imprudente moço, o capitão da real brigada foi chamado á presença do governador, e interrogado ácerca dos motivos que lhe dera Luiz José Godinho para tamanha ferocidade, em sua propria casa, que deve ser asylo sagrado até para inimigos, quando se é cavalheiro. Mendonça, enfadado pelo ar supercilioso do interrogatorio, respondeu que fosse inquirido em sua presença o offendido, que era essa a praxe da lei.
O governador espinhou-se, e mandou recolher á cadeia o official, para ser entregue aos juizes do crime.
Francisco Salter de Mendonça não grangeara amigos nem protectores no Rio de Janeiro. O seu viver fora intimo e só, fóra do serviço. Entretinha-o, na soledade, a amargura.
A justiça ouviu com sobrecenho a defeza do joven official, e achou a justificação inferior ao delicto. Godinho negava ter confessado o embuste para que viera commissionado pelo ajudante do intendente geral da policia. Osmagistrados, porém, convictos de que o offendido era pessoa bemquista de Manique, patrono de alguns, e amigo de outros, negaram ao preso, em ultimo recurso, o direito de se defender de um estoque.
Mendonça escreveu para o reino; mas Godinho voltara, são e correcto das costellas, no paquebote em que vinham as cartas: quem as viu e queimou foi o bacharel Sampayo.
A situação do amante de Carlota Angela era extremamente infeliz.
Ao cabo de quatro mezes de carcere, sem novas do reino, nem absolvição da culpa, perdera o animo e a esperança.
Já lhe não era lenitivo o escrever no seu diario, porque a dor, ao encadeiar-se na desesperação, seu derradeiro elo, quebrou no coração as cordas onde soava o gemido.
Depois veio a furia, que contorce e despedaça, o impotente raivar contra os homens e contra Deus, a tentação do suicidio, combatida pela imagem de Carlota, mas de novo irritada, a cada navio que chegava, sem uma nova d'ella.
Mendonça tinha um amigo. Era um escravo alugado que o servia, um negro que lhe passava os alimentos, e chorava encostado aos ferros, porque não sabia consolal-o.
Era o preto quem lhe trazia as cartas dos amigos do reino, ignorantes da sua prisão, e implorava aos juizes a liberdade do preso; alcançando apenas para si repellões desprezadores e, muitas vezes vergoadas de chibata sobre as lagrimas.
O escravo offerecera-se a Mendonça para vir a Portugal com cartas. Esta vinda seria uma fuga, porque o dono do preto, sem um deposito equivalente ao valor da cousa, não consentiria a sua saida, e Mendonça, desprovido de meios para a sua subsistencia, não podia garantir com dinheiro a volta do escravo...
Conspirava tudo contra o desamparado moço. O proprietario do negro, receioso de perder o aluguer, visto que Mendonça lhe não pagara um mez, chamou a si oescravo. Francisco vendeu o que podia merecer o preço mensal do seu unico amigo, e continuou a ver, perto de si, aquelles olhos reluzentes de lagrimas, lagrimas que lhe faziam bem ao coração, porque o mais desgraçado dos homens é o que não tem sequer por si o olhar compadecido de um cão.
Entretanto o escravo ideiara o arrojo de vir a Portugal, fugindo.
Trabalhava na difficil execução d'essa traça, quando a escunaGuerra-voadorchegou ao Rio de Janeiro com a nova de que o principe regente saíra de Portugal para estabelecer a côrte n'aquelle porto.
Foi o escravo quem primeiro levou esta nova ao carcere.
Francisco Salter apertou a mão do negro e disse:
—Seremos ambos livres, meu amigo.