Sai se o vulto de meu corpoMas ei non.Cá ós çocos vos fica mortoO coraçon.Egas Moniz Coelho. (?)... Si notre affection est traversée; si elle rencontre des obstacles, elle réagit, et cette réaction, impétueuse, convulsive, comme celle de tout ressort agitée et comprimée, nous porte á des mouvemens desordonnés, par conséquent accompagnés de souffrance. Notre affection, alors, devientpassion. Et comme les obstacles qui l'irritent ne peuvent jamais être placés que par les intérêts d'autres personnes, elle nous anime d'une violentehainecontre ces personnes si offensives, si importunes; elle change notre douceur en brusquerie, notre générosité en sentimens odieux.Azais. (Précis du systême universel.)Francisco Salter foi, n'aquelle mesmo dia, ao Candal offerecer a Norberto de Meirelles os seus serviços em Lisboa, onde era chamado pressurosamente.O negociante não tinha pratica ou habilidade bastante para simular no rosto a surpreza ou o descontentamento da inesperada ausencia do genro apalavrado. Manifestou, em toda a expressiva estupidez com que a providencia dos grosseiros velhacos lhe dotara a physionomia, a alegria damnada que lhe não cabia no bojo do peito. Mendonça evidenciou as suas suspeitas, e arrependeu-se de não ter convertido em peçonha toda aquella alegria, aceitando a fuga de Carlota, horas antes.—Desejava despedir-me das senhoras—disse Mendonça.—Minha mulher—tartamudeou o negociante—foiá missa, e mais a menina, a uma capellinha á Bandeira, senão com todo o gosto...Mendonça, quando entrara o portão da quinta, vira Carlota através de uma vidraça. Carlota, pé ante pé, viera, a occultas da mãe, avisinhar-se da sala, com o sentido de, caso o pae a não chamasse, entrar na sala onde Mendonça estava, como de passagem para outra, e fingir-se surprendida do encontro.Foi o que ella fez ao tempo em que o negociante acabava de improvisar uma missa na capella da Bandeira.—Ai!—exclamou ella—estavam aqui!...—Acabava eu de pedir licença ao snr. Meirelles—disse Mendonça, sorrindo ironicamente—para offerecer a v. s.ª e a sua mãe o meu prestimo em Lisboa, para onde parto hoje ás quatro horas da tarde.O arrozeiro, em pé, com os braços estendidos ao longo dos flancos abdominaes, abria e fechava as mãos, como um idiota: não sabia fazer outra gesticulação mais parva, quando a sua inepcia fosse tal que se lhe fechassem todas as evasivas de uma posição falsa.—O snr. Norberto—proseguiu Francisco Salter, cedendo ao prazer de affrontar a mentira do villão diante da propria filha—disse-me que v. s.ª e sua mãe estavam na Bandeira ouvindo missa, e eu... retirava-me...Carlota encarou o velho, e viu um tregeitar de olhos, que a obrigou a baixar os d'ella, por vergonha de si e de seu pae. Salter teve dó de ambos, e mudou de conversação.—Não sei que motivos imprevistos me chamam a Lisboa; talvez as ameaças de uma nova invasão hespanhola, ou bem póde ser que se tema um definitivo assalto da França...—Pois virão cá esses herejes de Napoleão?!—exclamou o negociante, já transfigurado pelo susto dos francezes, mal incomparavelmente maior, que destruiu o vexame em que o deixou a apparição da filha.—Póde ser que venham, snr. Norberto, responder ao desafio que lhes mandamos pelos nossos soldados do Roussillon, quando a França liquidava as suas contas com a Hespanha.Norberto não o entendeu; mas redarguiu:—Se elles cá vem, é contar que não deixam nada; diz que mettem a saque tudo quanto topam, pois não mettem?—É possivel; mas v. s.ª previna-se, escondendo o seu precioso aqui no Candal, por exemplo, onde de certo os francezes não virão. Ahi está o inconveniente de ser rico. Já o snr. Norberto está a soffrer com o mêdo de que o obriguem a uma contribuição...—Se lhe parece.... o caso não é para menos: quem não tem nada, tanto se lhe dá como se lhe deu; mas quem lhe custou a ganhar o que tem, pouco ou muito, quer paz e socego.—Não se aterre antes de tempo, snr. Norberto,—replicou Mendonça, sorrindo a Carlota—quando os francezes invadissem Portugal, eu ajudaria a v. s.ª a defender o que é seu, não só como esposo de sua filha, mas tambem como seu amigo.—Isso lá...—regougou o mercieiro—muito obrigado, não me despeço do favor: mas o senhor é militar, e quando isso for não lhe ha de faltar por lá que fazer, na guerra do mar.—Assim aconteceria—tornou Mendonça, enterrando lentamente o estillete observador—se eu não tencionasse pedir a minha baixa do serviço, para evitar que as revoluções perturbem a felicidade de minha mulher e a minha.—Então que modo de vida queria o senhor ter, se casasse com a minha Carlota?—Outro qualquer mais permanente, mais descansado; negociante, por exemplo.—E que é dos fundos?—Fundos?—Sim, o casco do negocio?—O casco!... a que chama v. s.ª casco?—Casco é o cabedal para começar.—Meu sogro dar-me-hia...—Dinheiro?! meu amiguinho, está quasi todo empregado em torrões; e eu, emquanto vivo, não dou nada.—Mais uma razão—replicou Mendonça, condoidodo vexame de Carlota, e seguro, mais que seguro, do villão caracter do arrozeiro—mais uma razão para v. s.ª não receiar a invasão dos francezes... Agora tem logar—proseguiu elle, mudando de ironico para circumspecto e grave—uma observação que me esqueceu ha dias, quando tive a ventura de pedir-lhe a snr.ª D. Carlota. Eu, snr. Norberto, pedi sua filha, simplesmente sua filha; não pedi dinheiro, nem pedirei jámais. Eu conto com recursos proprios para que ella não sinta falta de commodidades que deixou em casa de seus paes. O meu patrimonio é a patente que tenho e as bem fundadas esperanças de me augmentar n'esta carreira. Não me julgue v. s.ª atido ao dote de sua filha, nem cuide que me affligi com a ameaça de nada lhe dar emquanto vivo. Póde o snr. Norberto gastar, ou augmentar o que tem, que sua filha não esperará a morte do pae para poder comprar mais um vestido. Faça, portanto, justiça ás minhas intenções, e conceda-me que eu dê liberdade a algumas ideias que me estão inquietando e magoando.V. s.ª não procedeu lealmente commigo, quando me deu, sem reparo, sua filha. Rogo á snr.ª D. Carlota me consinta este desabafo, porque a clareza, n'este momento, é necessaria a todos nós, e o amor e o decoro costumam, nas almas nobres, soffrer juntos, quando um d'elles é offendido... e agora são ambos.—Eu não entendo o que v. s.ª ahi está a dizer—atalhou Norberto conscienciosamente.—O snr. Mendonça...—acudiu Carlota; mas o pejo embargou-lhe a voz.—Eu queria dizer ao snr. Norberto de Meirelles—tornou Mendonça—que fez v. s.ª mal em dar uma palavra de que se quer desquitar por meios menos honestos, e á custa talvez da minha liberdade. A ida de seu cunhado á capital, e a ordem de eu ir, sem perda de tempo, a Lisboa, escondem uma trama que eu espero desenredar em oito dias. Se o snr. Norberto e seu cunhado julgaram que uma intriga basta para aniquilar um amor de dois annos, uma união de toda a vida já abençoada por Deus, que vê a pureza das minhas ambições, enganaram-se! Retardar não é destruir. Eu confio tanto no generosocoração da snr.ª D. Carlota como em mim proprio; e só o muito amor me podia dar a mim esta franqueza com que fallo, e a ella a indulgencia com que me ouve accusar o proceder injusto de seu pae.—O senhor está a insultar-me!—exclamou Norberto—e demais a mais em minha casa!—Eu não insulto, senhor, queixo-me de ter sido ultrajado, e reconheço, n'esse desabrimento, que é certissima a perfidia com que fui enganado. Retiro-me, para que v. s.ª não me offenda terceira vez, dizendo-me que o insulto.—Pois o melhor é isso—redarguiu Norberto.—O senhor pensava que me levava á valentona? Eu tambem tenho amigos, e sei o que hei de fazer!...—Que ha de fazer o pae?—disse Carlota com altivez—O pae não póde fazer nada.—Que dizes tu, Carlota?!—trovejou Norberto.—Digo que não ha forças humanas que me privem de casar com este senhor. O pae governa no seu dinheiro, e nós nada lhe pedimos. O snr. Mendonça, se quizesse ser menos generoso com meu pae, estaria já casado commigo, porque eu o auctorisei a tirar-me de casa por justiça.Norberto, como todas as indoles abjectas, caira no miseravel da sua atonia, sob a fulminante coragem de Carlota. Francisco Salter aproximou-se d'ella, tomou-lhe a mão, como se estivessem sós, e murmurou:—A virtude, que Carlota chamou generosidade, continúa. Vou a Lisboa, porque sou militar, e transgrido a honra e dever não me apresentando.Mendonça despediu-se de Carlota Angela, que chorava, e de Norberto de Meirelles, que limpava com o canhão da japona de cotim o suor da brunida testa.D. Rosalia faltara a este conflicto, porque, atarefada na cozinha com a liquidação dos legumes vendidos na manhã d'aquelle dia, não dera fé de entrar Mendonça.Carlota Angela, apenas sósinha com seu pae, voltou-lhes as costas, e saiu da sala.Norberto ficara de tal modo aturdido com o desembaraço da filha, que parecia temel-a. Procurou a mulher,e contou-lhe, como elle podia, o succedido. D. Rosalia benzeu-se tres vezes, e tres vezes levou os braços em arco á altura da cabeça, acção favorita da grossa matrona, quando queria exprimir o supremo espanto.Animando-se mutuamente, entraram no quarto de Carlota, e gritaram ambos ao mesmo tempo:—Filha ingrata! nós te amaldiçoamos!—Para sempre!—disse a solo o snr. Norberto.—Para sempre!—repetiu D. Rosalia.—Amaldiçoada!—bradaram em dueto.—E por que me amaldiçoam?—disse Carlota—que crimes são os meus?—Ainda perguntas?!—respondeu Norberto, opilando olhos, bochechas, nariz, e tudo o mais susceptivel de opilação na sua elastica physionomia—Pois não tiveste o atrevimento de me dizer ainda agora que eu não podia fazer nada?—Disse, sim, senhor; disse, porque ha só um meio de me prohibir o casamento com a pessoa a quem o pae me deu: é matarem-me.—Isso diz-se a teu pae, rapariga?—-bradou a mãe.—A verdade diz-se aos paes; mentir-lhes é que é crime. Para que hei de eu dizer que faço a vontade a meu pae, se não sou capaz de cumprir a minha palavra? Logo que Mendonça voltar de Lisboa, se elle me não procurar, procuro-o eu. Se elle me quizesse com a mira no dote, faria todas as diligencias por que me dotassem, ou morreria de paixão por me não dotarem; felizmente, o homem que Deus me destina é a mim que me ama, e não ao dinheiro de meus paes; para ser sua mulher basta-me o coração; pois bem, fique o dinheiro a meu pae, e seja o coração para o homem que não exige de mim outros thesouros.Norberto olhava Rosalia, Rosalia olhava Norberto, grotescamente pasmados. Estranha era para elles a linguagem, o enthusiasmo, a altiveza, as attitudes de Carlota. Queriam contradictal-a com os argumentos triviaes de um casamento rico; mas a migalha de bom senso que tinham ambos, bastava a convencel-os da inutilidade de similhantes razões. Queriam leval-a pelo terror; mas comtanto mimo a tinham deixado emancipar-se desde creança, que não sabiam agora com que gestos, com que palavras, exprimir o agastamento, a admoestação irada, a soberania paternal.O coração de Rosalia era bom, e seria ella a protectora do casamento, se a não tolhessem os prejuizos de classe. A mulher de Norberto cuidava, em boa consciencia, que sua filha não podia ser feliz, casando sem o precedente de escripturas de doação, sem a concorrencia de doadores bem ricos e bem estupidos por parte do noivo. Por mais que ella quizesse descobrir no official de marinha os encantos que seduziram sua filha, a tapada creatura o que encontrava era motivo para pasmar cada vez mais.—Um engarilho de bigode como um chibo...—dizia ella a Carlota, depois que Norberto se retirara com mêdo de ceder á indignação, que o enfurecia—um pechibeque que não tem terra, nem leira, nem ramo de figueira, ó rapariga, que feitiço te fez aquelle patavina? Ha por ahi tanto rapaz bem azado, com negocio estabelecido, e creditos... se querias casar, por que o não tinhas dito, que já se tinha escolhido a flor dos rapazes do Porto? Está ahi o filho do Antonio José da Silva, e do Joaquim José Guimarães, que por entre os dentes deram a entender a teu pae que te queriam, e ainda estão solteiros, não tens mais que fallar... Ó mulher! isso foi enguirimanço do demonio! Por que não casas tu com um dos outros?—Perde o tempo, minha mãe—disse Carlota com firmeza.—Esses homens aborreço-os; o mundo tem para mim um só homem; não vejo, nem quero ver outro: é Francisco de Mendonça, porque sou d'elle, considero-me já sua mulher, e...—Tu que dizes, Carlota!?—bradou apavorada D. Rosalia—És já mulher d'elle? Pois tu... Credo! tu estás ahi a dizer blasphemias... Ó desgraçada, pois tu...—Eu quê! o que está ahi a mãe a fazer uns espantos que não sei a que vem? Se me julgou culpada de alguma acção indigna de mim, é mais uma injustiça que faz ao homem que amo. Tenha a segurança de que Mendonça não me humilha; pelo contrario, eleva-me, ama-me bastante,e é bastante virtuoso para não querer que a minha consciencia me accuse de alguma fraqueza.Oh! ninguem sabe comprehender, como quem ama, uma nobre alma! Tenho eu, e elle tambem tem a infelicidade de sermos avaliados por pessoas que adoram o dinheiro sobre todas as cousas, e crêem que fóra do dinheiro não ha virtudes nem contentamentos. Ó minha mãe, foi uma desgraça darem-me uma educação differente da que receberam meus paes. Eu vejo as cousas e as pessoas de um modo diverso. Olho para a riqueza como para um obstaculo á minha ventura, e não posso deixar de aborrecel-a...Bem vejo que minha mãe se admira d'esta linguagem, creia que não é falta de respeito, nem confiança nas minhas fracas forças; é animo que me dá um amor puro, e digno de mim; é uma força de que eu preciso para convencer meus paes de que privar-me de casar com Mendonça é o mesmo que matar-me!Minha mãe não quer que eu morra, e ha de proteger-me, ha de amollecer o duro coração de meu pae, ha de lembrar-lhe que o consentimento dado não póde ser negado sem deshonra para elle, e grandes torturas para mim. Seja por mim, minha querida mãe, seja boa como tem sido sempre. Tenha dó da sua filha unica, da filha que nunca lhe desobedeceu, e, se hoje desobedece, deve ser muito dolorosa a violencia que lhe querem fazer...Carlota Angela soluçava no seio de D. Rosalia, cujos vasos lacrimaes se romperam copiosamente.Eram de bom agouro as lagrimas da enternecida mãe.As difficuldades, que ella oppunha, eram vencidas por novas supplicas de Carlota. D. Rosalia acabara por prometter, com o seu silencio, vencer a resistencia do marido.Norberto saíra entretanto para o Porto, e fora ao paço do bispo prevenir a magistratura ecclesiastica contra as diligencias de Francisco Salter de Mendonça. Alguem o aconselhou que fizesse entrar sua filha n'um convento, para obviar ao rapto, visto que, dado o passo da fuga, o mais airoso e honesto era remediar a deshonra irreparavel sem o casamento.D. Rosalia Sampayo tinha uma irmã freira benedictina, no Porto, senhora muito reformada, muito rezadeira, e havida em conta de predestinada, lá dentro, e de religiosa illustrada entre as pessoas das suas relações.Carlota Angela visitava-a miudas vezes, e entretinha-se longas horas na grade, e até alguns dias dentro do mosteiro, onde sua tia lhe ensinava muitas devoções mirificamente salutares, com as quaes Carlota saía convencida de que, fazendo-as um mez, ganharia indulgencias bastantes para remir das penas do purgatorio toda a christandade.A madre Rufina, sem desagradar ao seu director espiritual, frade carmelita de poucas lettras e muitas virtudes, era uma tolerante senhora, a quem Carlota confessara a sua inclinação ao official de marinha, resultando-lhe d'ahi ter de rezar, por conselho da tia, mais algumas devoções para que a Virgem lhe inspirasse o melhor destino n'este mundo.Carlota dizia-lhe que o seu apaixonado era pobre. Madre Rufina replicava que pobre era quem não tinha a graça de Deus. Carlota redarguiu que talvez os paes não a dessem a um rapaz sem dote. A benedictina appellava para a vontade do Altissimo, que fazia tudo pelo melhor. Ora, Carlota Angela, melhor ou peior avisada, entendia que Deus, na maxima parte dos actos humanos, e nomeadamente nos casamentos, não punha nem dispunha. Isto será menos orthodoxo; mas é necessario impor á responsabilidade do homem, ou do diabo, cousas que por ahi ha que não parecem de Deus.Norberto de Meirelles foi do paço do bispo ao convento de S. Bento da Avè Maria, e fez chamar sua cunhada. Contou a desordem em que se achava sua casa, foi eloquente no seu genero, desafogou a ira abafada em presença da filha, e terminou dizendo que, o mais tardar no dia seguinte, Carlota havia de entrar no convento, onde estaria até se lhe varrer a mania de casar com o tal Pedro-malas-artes.A madre Rufina respondeu que na casa do Senhor não se recebia ninguem introduzido á força; que sua sobrinha não estava no caso de aceitar com prazer o recolher-sea um convento, quando o seu coração propendia e ligava a outros amores. E concluiu, aconselhando a seu cunhado prudencia e caridade com as inclinações de Carlota, que, se não eram convenientes aos olhos do mundo, tambem não eram peccadoras aos olhos de Deus.E, em resposta ás impertinentes réplicas de Norberto de Meirelles, a digna esposa do Senhor prometteu chamar sua sobrinha, relatar-lhe as mágoas de seu pae, tentar demovel-a do seu proposito, e pedir muito, primeiro, a Maria Santissima que tocasse o coração de Carlota com a resolução mais conducente ao caminho da virtude n'este mundo, que é o da salvação no outro.Norberto saiu pouco contrito, e notou que sua cunhada gosava uma reputação usurpada. O homem achava aquelles principios irreconciliaveis com a santidade de que D. Rosalia fazia o panegyrico, todos os dias. Não obstante, a irritação moderou-se-lhe, na esperança de que, em ultimo refugio, seu cunhado doutor faria em Lisboa, com o dinheiro, o que a violencia não conseguisse cá.A freira pediu ao capellão do mosteiro que lhe acompanhasse sua sobrinha; e teve com ella o seguinte dialogo, quasi textual dos apontamentos de Carlota Angela, que devemos á confidencia de uma sua amiga, de quem logo fallaremos:—Teu pae, menina, esteve aqui hontem, e fez-me pena. Pediu-me que te despersuadisse do amor a...—Pediu-lhe um impossivel, minha tia—interrompeu Carlota.—Nada é impossivel a Deus, minha sobrinha.—Deus escuta-se na consciencia, e a consciencia não me condemna o coração.—Mas que te diz ella sobre os deveres de uma filha?—Diz que tenho satisfeito a todos aquelles em que correspondo aos deveres de pae.—Não sejas tão absoluta nas tuas respostas, Carlota. A desobediencia é um crime.—E o suicidio, minha tia?—O suicidio é o maior dos crimes, porque é o desprezo do divino remedio nas dores passageiras d'esta vida.—Pois creia que obedecer é morrer; se obedeço, se retiro o meu amor... retirar, meu Deus! eu disse uma loucura! eu não posso retirar o meu amor a Francisco; o mais que posso é mentir; mas essa mentira custa-me a morte... é o suicidio, e mais ainda... é um assassinio, porque eu mato o homem que me é tudo n'esta vida...Carlota rompeu n'um alto soluçar de lagrimas, que fez chorar a religiosa.—É escusado—disse esta, após um longo intervallo de silencio, cortado de suspiros—é escusado combater a tua paixão. Eu pedi tanto ao Senhor, em communidade, com algumas santinhas d'esta casa, que te mudasse a tenção, que já agora não posso duvidar que o céo abençôa a tua união com esse mancebo. Já não te reprehendo, nem dissuado, minha sobrinha. Faremos com tua mãe o que não podérmos fazer com o espirito teimoso de teu pae. Enternece-a com as tuas lagrimas, menina; esperta-lhe a compaixão de que está cheio um coração maternal.—Já o consegui; minha mãe chorou commigo, e prometteu alcançar de meu pae o consentimento que elle já tinha dado.—Já tinha dado?! a quem?—A Francisco Salter, quando me foi pedir.—E depois? desdisse-se!...—Quando consentiu, foi para dar tempo a meu tio de nos urdir uma traição. Francisco partiu hontem para Lisboa, chamado a toda a pressa. O plano é talvez demoral-o lá; mas de que serve a má fé de meu pae, e as astucias de meu tio? Cá está o meu coração para vencer tudo. Cêdo ou tarde, Francisco voltará, e depois... e depois, se tanto for necessario, fujo de casa.—Santo nome de Jesus! não digas tal desatino, que offendes a Deus. O teu amor, se tal fizesses, deixaria de ser um sentimento honesto, minha sobrinha. Ha nódoas que nunca se lavam, e intenções boas que deixam sempre uma face má voltada para os juizos severos do mundo. Já agora, filha, esgota todo o teu calix de fel para que se não diga que achaste doçura no crime. Eu entrei de vinte e dois annos n'esta casa, estou cá ha vinte e seis, e ainda me recordo do que era o mundo lá de fóra, e oque lá não aprendi ensinaram-me cá pessoas que entraram para aqui sangrando ainda das chagas que receberam lá.Carlota, eu hoje não te fallo a linguagem que me ouviste até aos quatorze annos. Conheço o teu coração, e acompanhei-lhe o desenvolvimento mais de perto que teus paes. Tua mãe não te podia entender, porque tua mãe saiu aos quinze annos da companhia de um tio abbade para casar com um homem capaz de lhe abafar a intelligencia, se ella a tivesse. Teu pae é um honrado commerciante, tem sabido augmentar os seus haveres com a mira de te deixar muito rica, e não entende nada de coração.Já vês, minha querida sobrinha, que teus paes ignoram a sua culpa, e não fazem mais do que julgam ser o melhor para a tua felicidade. Não os desgostes emquanto for compativel a obediencia com os affectos invenciveis da tua alma. Teu pae quer que te recolhas a este convento. Se vieres, se quizeres vir para a minha companhia, não preciso dizer-te que as tuas acções hão de ser aferidas pelos deveres de uma menina recolhida n'esta casa. D'aqui diligenciaremos o teu casamento com esse sujeito; mas as nossas diligencias hão de cooperar todas sobre o animo de teu pae, até obtermos o consentimento, esquecendo-nos de que elle procedeu mal, negando o que uma vez tinha concedido. Agora, pensa, Carlota.—Tenho pensado.—Queres, ou não queres entrar no convento?—Quero sim, minha tia; hoje mesmo, se é possivel.—É, que eu tenho ainda licença para tu poderes entrar; mas é preciso que teu pae o saiba.Carlota Angela desceu acceleradamente as escadas que conduziam da grade para a portaria. Ia banhada de lagrimas. Ao abrir-se a porta, com o seu tristonho ranger nos gonzos, Carlota estremeceu, e apoiou a face, como esvaîda, no cunhal do muro.—Vem, menina,—disse do interior a madre Rufina.Carlota Angela pôz o pé no limiar, e exclamou, estendendo os braços para a madre porteira:—Disse-me agora o coração que era para sempre!... Que é isto que eu sinto, meu Deus!—Se é Deus que t'o faz sentir, minha sobrinha, louvemol-o todas pelo bello presagio que te inspirou.A porta fechou-se. Carlota, rodeada de freiras, e nos braços de todas, soltou um ai que parecia um grito desentranhado do coração.VIQui amans egens ingressus est princeps in amoris vias,Superavit œrumnis is suis œrumnas Herculis.Plauto.(Persa.)O demonio da ambição...A. Herculano.(Monge de Cister.)Francisco Salter de Mendonça, logo que chegou a Lisboa, procurou o ministro da marinha, e encontrou-o, contra as suas presumpções, bem encarado e affavel.D. Rodrigo de Sousa Coutinho era um astuto politico, sabia conhecer os parvos pavores do intendente geral da policia, e amava bastante a pasta para contrariar as suggestões do principe regente, que tremia dos pedreiros-livres, quando não tremia das conspirações da filha de Carlos IV.Ainda assim, o ministro, protector affeiçoado de Salter de Mendonça, e particular amigo do frade progenitor, que valia muito com Mellos e Ficalhos, houve-se astutamente na recepção do official de marinha, mostrando-lhe a ordem do dia, em que era promovido a capitão-tenente, e dando-lhe os emboras da escolha acertada que o principe regente fizera dos seus talentos e energia, para, com mais dois officiaes, o enviar ao Brazil a correr com o apresto de uma esquadra, que as prevenções da guerra demandavam.Este gracioso acolhimento desfez, ao primeiro intuito, as suspeitas de Mendonça. A intriga era incompativel com a mercê do posto, e a honraria do encargo. A reflexão, porém, sobreveio ao juizo da primeira impressão, e Salter, recordando o que se passara no Candal, creu denovo que o bacharel promovera o seu desterro, simulada com a mascara do favor.A nova de ter sido adjunto ao intendente Manique o tio de Carlota Angela revalidou a desconfiança.Mendonça apresentou-se ao ministro, e pediu licença para tornar ao Porto, onde o chamavam compromissos, do coração em que a sua palavra de honra se achava empenhada. D. Rodrigo objectou com a necessidade urgente da partida no praso fixo de quatro dias; discorreu profusamente ácerca da primazia dos deveres de portuguez em confronto com os particulares do coração; e encareceu o azedume com que sua alteza, o principe regente» veria posporem-se negocios do estado ás allianças amorosas de um subdito que lhe merecera tão relevante prova de real confiança.Instava, por outra parte, o frade benedictino, e a parentella illustre do frade, vaticinando ao capitão-tenente um almirantado em poucos annos de serviço.Para estes prophetas de glorias ensurdecera Mendonça.O coração accusava-o de ingrato e vil, se a cabeça se deixava instantaneamente desvairar com as vanglorias da fama. A imagem chorosa de Carlota Angela apparecia-lhe como um estimulo de honra, se o fraco espirito humano inclinava ouvidos aos embaimentos da consideração, do renome, e dos altos destinos a que o conduzia uma boa estrella.Mendonça, quando as felicitações de amigos e invejosos pareciam já galardoal-o das bizarrias previstas, meditava rejeitar não só o novo posto e a commissão mais valiosa que elle, mas tambem a patente que já tinha. O tempo urgia, e os aprestos para a saída acceleravam-se com extraordinaria diligencia. O capitão da real brigada deliberou pedir a sua baixa, ou, caso lh'a negassem, dar parte de doente. N'este proposito estava, quando recebeu uma carta de Carlota Angela, datada no convento de S. Bento da Avè Maria.Carlota contava-lhe miudamente os successos que a levaram ao convento; o patrocinio que encontrara em sua tia, as esperanças que esta lhe dava de docilisar a pertinaciado pae; o contentamento que ella sentia em esperar no remanso d'aquelle santo asylo o esposo querido; a liberdade que estava gosando alli de pensar no seu anjo, alli, onde ninguem tentava desvanecer-lh'o do coração; em resumo, Carlota dizia-lhe que estava prevenida contra todas as borrascas, assegurando-o de que só saíria do mosteiro para ser esposa do predilecto da sua alma. Não ajuntaremos ao conciso extracto da longa carta as meiguices de amorosa uncção, os enternecidos deliquios da saudade, os azedumes e dulcidão d'esse agrodoce espinho, que rasga o seio ao mesmo tempo que o balsamo da esperança allivia a dor, cicatrizando a chaga. Essa carta era o que devia ser uma carta de Carlota Angela: a alma inteira, no que a alma n'uma virgem tem de communicativo ao coração estranho, se estranho póde dizer-se o coração amigo que se sente e escuta dentro do nosso.Francisco Salter era formado d'este barro humano, contra o qual se tem vociferado e estampado muita satyra.A mais suave maledicencia, querendo poupar a natureza humana ás querelas e libellos da philosophia rixosa, diz que o homem é um mysterio.A theologia christã, para desencarregar o supremo artifice do desaire da sua obra, diz que o homem é um ente degenerado da sua primitiva puridade.Em boa paz com theologos e philosophos, a mim se me afigura que o homem é um composto de grandeza e pequenez, uma dualidade de gigante e pygmeu.Mendonça tinha uma unica macula na sua excellente natureza: era a imperfeição, era a falha do grande brilhante, que o leitor, de animo frio e vista clara, vae ver commigo.A carta de Carlota Angela tranquillisou-o; não disse tudo—alegrou-o, deu-lhe um ar radioso de confiança e certeza na dedicação, que momentos antes lhe incutia o receio da mudança.O homem é assim.Parece que o amor sem a desconfiança, a esperança sem a duvida, lhe dá um socego de espirito que não quadraá sua natureza irrequieta. O pungir de constante espinho é-lhe um necessario estimulo de vida. Se elle sáe do coração, é forçoso que fira o orgão de outras paixões. Se o amor prevalece á ambição de gloria ou de riquezas, satisfaça-se o amor, e a outra paixão resultará com toda a impetuosidade do arco retezado... Não se tirem já contra Francisco Salter conclusões que o vago d'aquellas premissas não auctorisa.A carta não baixou a temperatura, mas mitigou o rescaldo do amor, a ancia da incerteza, affrontamento das conjecturas que elle formava ácerca do destino que o irritado Norberto daria a Carlota, depois da arrojada ameaça do Candal.Se a levariam fóra do reino:Se a casariam violentamente com outro:Se a encerrariam n'um convento, incommunicavel:Se a despersuadiriam com razões das que vencem o vulgar das mulheres, quando o amante as não anima com a sua presença:Se Carlota seria uma mulher vulgar, susceptivel de succumbir ás contrariedades.Tudo isto eram hypotheses atormentadoras; mas a carta respondia a todas. Carlota estava a salvo da perseguição; sósinha com o seu amor, que ninguem lhe impugnava; nutrindo-o com saudades na solidão do claustro. Este convencimento aplacou a vertigem de Mendonça.A ideia de pedir a baixa pareceu-lhe desnecessaria. O espaçar-se o casamento para mais tarde afigurou-se-lhe racional e necessario aos seus deveres de militar, e ao cumprimento dos encargos com que o principe regente o honorificava.E, depois, dizia n'elle o ente pensante:«Não será bem decoroso para mim voltar do Brazil com uma posição tão acrescida em honras, que ninguem possa notar desigualdade entre mim e a filha do opulento commerciante?«Como homem brioso, não deverei eu querer que a propria Carlota me considere um homem disputado por herdeiras iguaes, ou ainda superiores a ella?«Os paes de Carlota, quando eu voltar habilitadopara entrar no valimento dos mais poderosos, e igualar-me a elles, não terão pejo, vendo-me entrar em sua casa a castigal-os com pedir-lhes, segunda vez, a filha, sem dote?»Assim fallava o orgulho do espirito; o coração, porém, patrocinando o anjo puro, a quem similhantes conjecturas injuriavam, tinha arrebatamentos de tão sentida queixa, ou clamava com tamanha ternura á consciencia incorrupta do mancebo, que, mais de uma vez, o amor saiu victorioso, e o projecto de pedir a baixa readquiriu novos estimulos.E os sonhos de gloria?E os respeitos do mundo, que não eram, como hoje, restrictos ao dinheiro?E o cortar uma carreira, quando a aurora do seu brilhante dia raiava tão sem nuvens?E uma longa vida a viver só das commoções de um amor satisfeito?E o emparelhar com os mais nobres, quando se tem um nascimento obscuro, ou se não póde, sem desdouro, proferir o nome do pae, que inverga, não a farda do general, mas o habito dos monges negros?Replicava assim o orgulho reagente; e o amor supplicante exorava de novo; a imagem melancolica de Carlota Angela espelhava-se no coração do moço; resurgia ovante em toda a sua nobreza e isenção a amorosa alma, e a tenção de não partir reaccendia-se mais calida e inabalavel.Assim, pois, chegou Mendonça a submetter o seu requerimento ao despacho do ministro.Maior seria o pasmo de D. Rodrigo, se não julgasse o capitão da real brigada de marinha compromettido na maçonaria, onde se pactuara que a desobediencia implicaria pena de morte, a ferro ou a veneno como a de José Anastacio de Figueiredo, em Mafra, á sombra das telhas reaes.O ministro chamou o requerente a uma audiencia secreta, e disse-lhe que não só lhe negava a baixa, mas até lhe exigia o cumprimento das ordens regias; que seria mal visto de sua alteza o subdito que tão mal correspondesseao regio conceito: que seria degenerado portuguez o que, no solemne momento de pôr peito em defeza da patria e á remuneração de patrioticos feitos, se furtasse aos trabalhos e ás glorias: que seria irrisorio não justificar o requerimento de baixa com mais motivos para tamanho desconcerto que um pueril amor, que não devia passar de um incidente de terceira ordem na vida de um homem intelligente, e fadado para estrondosos destinos: que, finalmente, o valimento se converteria em castigo, se elle requerente persistisse na disparatada baixa, cuja concessão lhe grangearia o riso de uns, o odioso de outros, suspeitas perigosas de muitos, e, mais que tudo, a mal-querença de sua alteza, que tencionava nomeal-o major da armada, logo que servisse tres mezes no Brazil.O remate da allocução era a douradura da pilula. Major da armada! a aspiração mais vantajosa de tantos, que a não realisavam na velhice! Voltar, depois de alguns mezes, a Portugal, major da armada, condecorado, ennobrecido, chamado aos conselhos do soberano, e talvez ao ministerio!Mas deixar Carlota no convento, a carinhosa Carlota, amada dois annos, amada para sempre, votada aos sacrificios, aos desprezos, ás injurias, a tudo, para lhe merecer a elle a renuncia de glorias que retardavam um enlace tão suspirado!Mendonça, na vespera da saida para o Rio de Janeiro, escreveu esta carta:«Vê, minha Carlota, que eu choro. A afflicção não me deixa outro desafogo. Quando receberes esta carta, separam-nos centenares de leguas. Eu parto ámanhã para o Brazil, obrigado pela minha condição de servo agaloado. Deram-me o commando de um navio, e mandam-me cumprir serviços de que eu cobraria esperanças para grandes honras, se a minha gloria unica não fosses tu, esposa da minha alma. Quiz dar a minha baixa, requeri, instei, negaram-m'a, e impozeram-me as leis militares. Quiz dizer-te um adeus por algum tempo; não me consentiram delongas, porque a corvetaAmazonaesperava-me quasi aprestada para se fazer á vela.«Mas eu não parto, Carlota. Comtigo fico, anjo. Omeu coração ahi fica, ahi está pulsando no teu. As lagrimas de saudade que choras, choram-as tambem os meus olhos. Entre nós, n'esta longa distancia que nos separa, prende-nos a mesma cadeia de dores, de afflicções, de terriveis presentimentos. Quando te doer no coração o presagio da minha morte, sentil-o-hei tambem eu lá, e chamarei por ti no silencio da minha alma, n'este grito surdo da saudade, que é um despedaçar de todos os ligamentos da vida.«Por que choramos nós, Carlota? Invoquemos a razão desvairada pela angustia; suppliquemos a essa filha de Deus, senão remedio, ao menos conforto ás nossas dores. Deveremos nós chorar como choram amantes infelizes? Eu creio que não, minha cara esposa. Se hoje nos dissessem: «a vossa união ha de realisar-se passados seis mezes, ou ainda um anno», teriamos justo motivo para nos rebellarmos contra o destino, contra a Providencia que nos aproximou tão dignos um do outro?«Não, Carlota, porque o nosso amor não está ameaçado de alguma sinistra casualidade que o aniquile ou arrefeça. As distancias são impossiveis entre duas almas identificadas. Para ti no claustro, para mim na amplidão dos mares haverá sempre o mesmo santuario de fervente amor, a mesma acção de graças a Deus, que não quer o infortunio dos que o confessam e chamam nas suas agonias. As nossas lagrimas ha de a esperança enxugal-as. A esperança nos acordará dos sonhos tristes. A saudade, que desalenta e cansa, irá ao futuro pedir sorrisos ás risonhas imagens da nossa ventura de esposos. Oh! nós não temos razão para chorar uma separação de alguns mezes, quando nos separamos tão confiados, como se acabassemos de receber a benção no altar, como se, no derradeiro abraço, sentissemos entre nossas faces o rosto de um filho.«Que ridente imagem esta, ó Carlota! que estranho palpitar de coração eu sinto agora! que delicias nos aguardam para o dia immorredouro da nossa felicidade!«Animo, minha adorada esposa! Eu careço de imaginar que tens coração para aceitar, sem fraqueza, esta dor. Preciso alentar-me da tua coragem, para que o auxilioda razão não esmoreça. Animei-te; mas as lagrimas não me deixam escrever, nem a ti te deixarão entender estas palavras. Agora se me cerra em indizivel tortura o coração. Largo a penna, desafógo em gemidos este aperto de alma, similhante ao impossivel de comparar-se. Não me venço. Já creio que te perdi. Accuso-me de ingrato por que não deserto, e calco as leis, e fujo para ti, e te roubo a todo o mundo, para mendigar comtigo uma esmola em paiz estrangeiro. Eu sou vil, sou indigno de ti, e rasgarei esta carta, ou ler-t'a-hei de joelhos, para que tu me perdôes tamanho crime.«Que digo eu, meu Deus! que penso eu, e que farei da minha vida! Impossivel, Carlota, impossivel deixar de seguir o meu destino! Agora mesmo sou chamado á secretaria para receber as ultimas ordens. Este calix irremediavel ha de ser tragado, ou a deshonra, a perseguição, e o perder-te... Que horrivel palavra!«Um juramento, Carlota! Faz-me um juramento, ajoelhada diante de um crucifixo. Eu não o tenho aqui, mas invoco o testimunho de Deus, porque o meu coração, quando tu proferires estas palavras, ha de ouvir-t'as, e recolhel-as. Jura que só sairás do claustro para ser minha esposa; e, se a morte me colher longe de ti, acabarás ahi teus dias, e nenhum ente sobre a terra roubará á minha alma a melhor parte que lhe fica no mundo, esperando que Deus a chame para a acolher ao infinito amor da bemaventurança.«Juraste, Carlota? Agora crê que o meu espirito te pediria contas d'esse juramento, se a perfidia denegrisse a tua alma immaculada.«Perfida!... tu!... Perdôa-me, anjo do céo, pelas lagrimas que choro, pelas que tu choras, mais puras, mais angustiosas que as minhas!«Adeus.....................»VIIFiel é Deus, que não soffre termos mais peso do que aquelle com que podem os nossos, hombros. Delle se devem esperar os verdadeiros allivios, e nesta fé se acabam os quebrantos.Fr. Antonio das Chagas.(Cartas.)Carlota Angela proferira o juramento, ajoelhada diante de uma cruz; foram, porém, d'ahi levantal-a os braços de D. Rufina, que, acudindo ao soluçar dos gemidos, a encontrara esvaida.Depois que a lançou á cama, a religiosa leu a carta, e disse a uma noviça que vinha entrando:—Quando assim se amam duas creaturas, a vontade de Deus está n'esse amor: tudo que os homens fizerem contra elle é um sacrilegio, é um attentado contra os designios do Altissimo.A noviça, depositária dos segredos de Carlota, leu tambem a carta, e foi sentar-se á cabeceira do leito, encostando ao seio a face desmaiada da sua amiga.Os sentidos de Carlota restauraram-se espavoridos. Tremia toda, e fitava com spasmo e assombro o rosto lagrimoso de Dorothea.—Chora, chora, Carlotinha—disse a noviça, dando-lhe o exemplo, e acariciando-a com beijos.—Se eu podesse chorar...—balbuciou Carlota, encolhendo-se em tremuras de frio entre os braços de Dorothea.—E, se elle morresse, não soffrerias mais, menina?!Carlota fitou-a espantada, e disse com voz rouca pela suffocação:—Se elle morresse... quem?... pois sabes...—Sei; li a carta, e tua tia tambem a leu, e chorou. Eu não acho razão bastante para succumbires assim.—Eu não succumbo... se succumbisse, estava morta... Ainda vivo; mas, Dorothea, eu creio que morro, e morro brevemente...—Arrepende-te, alma de pouca fé!—disse a tia, mostrando a sua nobre fronte de cabellos brancos, coberta com o magestoso véo negro, por entre os cortinados do leito—Que fallas ahi em morrer, creança! Vida, muita vida, e muita confiança em Deus, e esperança em dias melhores, é o que te ensina esta carta, mulher sem animo. Vamos lel-a de novo: sou eu que a leio, e veremos se o coração de uma velha sabe melhor que a moça entender o coração de um mancebo.D. Rufina, sorrindo com fagueira graça, abriu a carta, sentou-se na cama de Carlota, e acompanhou a leitura com suas glosas, não deixando sem ellas a menor phrase esperançosa.A respiração profunda de Carlota, o convulsivo soluçar, o gemido indomavel que lhe fugia em agudissimos ais, interromperam, muitas vezes, a leitora. Era então que as consoladoras annotações de Rufina, e o assentimento da noviça, redobravam de persuasiva eloquencia, capaz de maravilhar as freiras, que suppozeram sempre estranha á linguagem das paixões a austera religiosa.Terminada a leitura, soror Rufina, descontente com o insensivel resultado das suas consolações, appellou para o influxo sobrehumano da religião.—Venham cá ambas,—disse ella—vamos todas tres pedir de joelhos ao Senhor, que leve e traga a porto de salvamento o nosso Francisco.—Sim, sim!—exclamou Carlota Angela, saltando do leito, e seguindo-a com passos vacillantes.Ajoelharam, e oraram afervoradamente. Seria difficil estremar entre as tres qual era d'ellas a que pedia a Deus o salvamento do amante: tal era a devoção de todas.—Agora respiremos!—disse, terminada a reza, a freira—Has de vel-o, has de ser sua esposa, minha Carlota.Nas grandes agonias, qualquer esperança exalta acrença em agouros, em presagios, em superstições até. Carlota, pensando que sua tia recebera a suprema graça da revelação, exclamou com alegria e transporte:—Que foi, minha tia? Disse-lh'o Deus?—Deus, filha, não falla a creaturas tão peccadoras e indignas como tua tia; mas consente que se possa contar com os effeitos da sua divina misericordia. Tudo o que se pede ao Senhor, com humildade e justiça, consegue-se. E, assim, te repito, Carlota, que Francisco Salter voltará, será teu marido, e tereis larga remuneração dos soffrimentos que offerecerdes a Deus em desconto dos contentamentos que sobejam aos felizes d'este mundo.Estas palavras soaram tocantes e solemnes como o prophetisar da que a communidade reverenciava assistida de graça superior. Carlota sentia alargar-se a golilha de ferro que lhe entalava na garganta o respiro e a falla. As lagrimas, represadas no coração, rebentaram em torrentes: e o sangue, que se retivera suspenso, circulava de novo, rosando-lhe a lividez cadaverica do rosto.Estava desopprimida; e fora a esposa de Jesus misericordioso que lhe insuflara alentos. Fora uma freira das que desafiavam o riso dos incredulos com suas devoções, e austeras impertinencias; fora uma mulher, das que morreram para o mundo ou o mundo matara, das que se acolheram a Deus ou Deus tirara do seu inferno em vida, fora essa a que tirara da cruz, onde expirara o amantissimo redemptor dos homens, remedio de vida, e esperança para a chaga de um coração de dezesete annos, ferido de desespêro e morte.Assim, pois, na cella da rigida religiosa se desafogavam e consolavam affectos dos que, fóra d'alli, no mundo tolerante e vicioso, são julgados rebellião contra a vontade paternal, escandalo para filhas submissas, e peccadora cegueira do coração humano!Quam inventiva não é a caridade! quam largas bracejam as vergonteas d'esse tronco evangelico, regado pelas lagrimas d'aquella a quem Jesus perdoara por ter amado muito!A desvelada noviça não deixava sósinha Carlota, um instante. Ella e Rufina revezavam-se ao pé da pensativamenina, que parecia querer fugir-lhes, já não para se carpir, mas para orar; que, na oração sentia Carlota outro espirito em si, o murmurio de outros labios supplicantes, a fervorosa crença de Mendonça inflammar-lhe a fé.A serenidade viera com a confiança no futuro: do sobresalto, da afflicção, pouco e pouco socegada, ficara a melancolia suave da paciencia, essa que só Deus concede aos que á sua misericordia recorreram na adversidade, e em sua vontade se louvaram.D. Rosalia visitava a filha miudas vezes, o pae raras; e de breve demora, porque o silencio de Carlota, que elle julgava desaffeição, desanimava-o de a ver, e incommodava-o a sós com ella.Dizia a mãe, nos primeiros tempos, que não havia tirar-lhe o sim para o casamento; mas que ainda era cêdo para descorçoar. Dois mezes depois, mostrou-se mais docil a pertinacia, e já elle dizia que, na volta de Mendonça, tudo se faria pelo melhor: é que o ajudante do intendente geral da policia, por occasião de lhe pedir mais seis mil cruzados, explicara o saque, dizendo que esta quantia se fazia mister para crear novos embaraços ao regresso de Salter, logo que a commissão, a que fora, estivesse cumprida.Decorreram quatro mezes. Os navios vindos do Rio, já com a nova da chegada doAmazonas, e cartas dos tripulantes, receberam a bordo uma visita da policia, e entregaram a correspondencia. Entre as cartas havia uma de grande volume, subscriptada a D. Carlota Angela de Meirelles, residente no mosteiro de S. Bento da Avè Maria, no Porto.O bacharel Sampayo deslacrou esta carta, leu oito folhas de papel, e lançou-as ao brazeiro, aquecendo e esfregando as mãos á lavareda. O malvado queimara alli o traslado das mais tristes imagens, o desafogo da mais dorida saudade que ainda apertou coração de homem! O impio não se amiserara de tantos signaes de lagrimas em que a tinta se apagara! Que raptos de alegria, e suspiradas consolações aquella carta, que voejava no ar em faúlas, levaria a Carlota! Que esperanças tão bellas o perverso queimou com a chamma d'aquelle papel!Entretanto, Carlota, que contara os dias, e calculara, mil vezes, com Dorothea, o primeiro em que devia receber novas de Mendonça, mandava todos os dias de estafeta uma servente para a porta do correio, esperando a lista, ou interrogando o carteiro. Sempre, em vão! A antiga dor renascia em cada correio; redobrava a afflicção a cada esperança frustrada.Conspiravam em consolal-a Rufina e a noviça, esta com razões mais carinhosas que persuasivas, aquella confirmando o vaticinio da felicidade promettida. Os allivios da primeira eram sempre proficuos e desejados; os da segunda faziam-a proromper em gemidos, que tambem eram desabafo.Decorreram tres mezes de afflictivas esperanças, sempre enganadoras para todas. Nem uma carta, nem duas linhas escriptas no leito da morte!Carlota Angela tremia de pronunciar uma desconfiança acerba que lhe trazia o coração em agonias. Soror Rufina rogava incessantemente á bondade divina que afastasse da sobrinha o temor que a sobresaltava a ella. Dorothea segredava á freira os seus receios, e esta pedia-lhe muito encarecidamente que não proferisse uma palavra sobre tal desconfiança.Acontecia, porém, que todas suspeitavam o mesmo; a morte de Francisco Salter.Carlota receiava que as suas amigas julgassem possivel ter elle morrido; assentimento tal seria para ella uma especie de evidencia, porque tão pouco basta para certificar suspeitas entranhadas n'um espirito que a desgraça fez supersticioso. As outras calavam o presentimento funesto, cuidando que a matariam.N'este conflicto, correu no Porto a noticia da morte de Francisco Salter de Mendonça. Ninguem sabia dizer por onde a noticia viera; os amigos, porém, do honesto e talentoso official de marinha contavam-se que elle morrera no Rio de Janeiro, quando a gloria o vinha buscar por uma carreira esperançosa de grandes destinos.A noticia chegou ao convento. Souberam-a todas, excepto Carlota Angela.Rufina caíu doente, e Dorothea denunciava-se á infelizmenina, evitando-a, quando mais anciosa de compaixão e carinho se sentia impellida para ella.As freiras olhavam a pobresinha com mais piedade que nunca; animavam-a como se quizessem ter parte em seu coração para a salvarem pela amizade, quando houvessem de revelar-lhe a mortal noticia. Carlota estranhava os melancolicos olhares, os beijos e caricias de todas, a condolencia terna com que, as mais afastadas da sua convivencia, a vinham espairecer ao seu quarto.Norberto de Meirelles procurara sua filha, n'esses dias em que a noticia vogava. Soror Rufina estava de cama; recebera primeiro o recado do pae de Carlota. Esta preparava-se para ir á grade, quando a anciada tia lhe disse:—Vou-te aconselhar a desobediencia, minha sobrinha, e Deus me perdôe por sua immensa bondade. Não vás á grade. Eu tomo sobre mim a responsabilidade de mais um peccado.E, voltando-se para a criada, mandou dizer a Norberto que sua filha não podia fallar-lhe; mas esperasse alguns minutos, que alguem iria em logar d'ella.—E por que é isso, minha tia?!—perguntou a sobrinha admirada.—Porque sim, minha filha. Receio que elle te venha fallar...—continuou balbuciante—em cousas desagradaveis.E, sentando-se no leito, a febricitante religiosa, ajudada de Carlota, vestiu-se, e foi á grade encostada a Dorothea.—Então a pequena que tem?—perguntou Norberto.—Está doente.—Já lhe chegou a noticia! Que tenha paciencia. Deus tudo faz pelo melhor...—Tambem digo o mesmo—atalhou Rufina.—E o mano agora que lhe quer? Consolal-a?—Quero dizer-lhe que é preciso mudar de rumo, e tirar o sentido do homem que morreu.—Isso ha de dizer-se-lhe por outras palavras menos terminantes.—Isso lá é bom p'rá mana; eu cá digo as cousas como sei.—Pois sim; mas consinta que eu a disponha para o golpe, e depois tudo se lhe dirá com prudencia e caridade.—Pois ella ainda não sabe que morreu o homem?!—Não, mano; se a noticia fosse alegre, tinha-se-lhe dito; mas eu não acho necessario dar-se-lhe uma nova que a póde matar.—Qual matar, nem meio matar!—replicou o brutal arrozeiro, tregeitando com os beiços carnudos um gesto de incredulidade—Pobre de quem morre, diz o dictado. Ainda é de bom tempo, cunhada. Isto de raparigas namoradas, são como as viuvas: choramigam oito dias, e ficam frescas como se não fosse nada com ellas.—Está enganado. Pergunte a minha irmã, que tem coração de esposa e de mãe, se isso assim é. Estou bem convencida que ella fará um diverso juizo do soffrimento de Carlota. Emfim, mano, eu ergui-me da cama para vir aqui, e estou a tremer de frio e febre. Conceda que eu me retire, pedindo-lhe pelo divino amor de Deus que deixe ao meu cuidado revelar a noticia á desgraçada Carlota. O mais difficultoso é curar depois a ferida, se o golpe não for de morte: confio em Maria Santissima que não será.—Pois então adeus—tornou Norberto, puxando para as orelhas a gola do capote de quartos.—Arranje cá isso do melhor modo, e diga-lhe que venha cá p'ra fóra, a ver se ella se tenta com algum de tres noivos, o qual melhor, que eu trago na mira. Se eu a quizesse casar com um morgado da provincia, fidalgo, e senhor de casa com capella, já me fallaram para isso; mas, a fallar a verdade, o que eu quero é homem de negocio, ou filho de negociante com dote á vista; não faço bem, cunhada?—O mano lá sabe o que lhe convem; mas nunca faça calculos sem contar com a vontade de Carlota. Parece-me que lhe posso asseverar que ella não sairá mais d'este convento. Perdeu um esposo; mas o esposo verdadeiro, o esposo das almas angustiadas está cá dentro; é Jesus Christo, o unico bem que ha de entrar no coração espedaçado de Carlota, e cural-o com a esperança de encontrar na bemaventurança o primeiro que perdeu.—Pois Carlota ha de ser freira?!—interrompeu com impetuosa grita Norberto, derrubando a gola do capote, que era de mais na cara afogueada pela ingrata nova.—O mano faz um espanto—redarguiu mansamente Rufina—como se eu lhe dissesse que sua filha havia de praticar um crime!...—É que eu não quero!...—redarguiu elle, batendo um troante murro na banqueta.—O mano não quer; mas a sua vontade agora vae encontrar outra vontade sem comparação mais poderosa: é a vontade omnipotente do Senhor, que move os mundos e os corações. Não me disse, ha pouco, que Deus tudo fazia pelo melhor? Pois bem, póde ser que a divina vontade quizesse para as suas eternas nupcias a que havia de ser esposa de outro, que Deus chamou a si.—Veremos como isso ha de ser. Em todo o caso eu quero minha filha cá para fóra. Não a creei para freira, tenho muito que lhe deixar.—Tudo o que o mano tem póde varrel-o um ligeiro sôpro da desgraça. Modere a sua soberba, que não o castigue Deus, que abate os soberbos, e exalta os humildes. E, demais, a casa do Senhor não se abre só para as meninas pobres. Eu deixei um grande patrimonio quando aqui entrei, e vim achar uma riqueza incomparavelmente maior do que a que deixei: foi o esquecimento do mundo, e o amor sempre crescente de outro melhor. Ora, bem póde ser que sua filha se deixe namorar dos anjos, e rompa com os amores tranzitorios d'esta vida. Em summa, o que eu lhe digo, meu cunhado, é que minha sobrinha só póde ser salva pela religião; e eu, se Deus me achar digna, hei de estender-lhe a mão ao abysmo onde a lançaram, e encaminhal-a por onde eu vir que ella é menos infeliz. Não posso mais, estou fatigada e angustiada, adeus.Norberto de Meirelles enfiou de novo a cara oleosa na pelucia da gola, sobraçou a enorme bengala encastoada de prata, e saíu do atrio do mosteiro com as ventas fumegantes.VIII
Sai se o vulto de meu corpoMas ei non.Cá ós çocos vos fica mortoO coraçon.Egas Moniz Coelho. (?)
Sai se o vulto de meu corpoMas ei non.Cá ós çocos vos fica mortoO coraçon.
Egas Moniz Coelho. (?)
... Si notre affection est traversée; si elle rencontre des obstacles, elle réagit, et cette réaction, impétueuse, convulsive, comme celle de tout ressort agitée et comprimée, nous porte á des mouvemens desordonnés, par conséquent accompagnés de souffrance. Notre affection, alors, devientpassion. Et comme les obstacles qui l'irritent ne peuvent jamais être placés que par les intérêts d'autres personnes, elle nous anime d'une violentehainecontre ces personnes si offensives, si importunes; elle change notre douceur en brusquerie, notre générosité en sentimens odieux.Azais. (Précis du systême universel.)
... Si notre affection est traversée; si elle rencontre des obstacles, elle réagit, et cette réaction, impétueuse, convulsive, comme celle de tout ressort agitée et comprimée, nous porte á des mouvemens desordonnés, par conséquent accompagnés de souffrance. Notre affection, alors, devientpassion. Et comme les obstacles qui l'irritent ne peuvent jamais être placés que par les intérêts d'autres personnes, elle nous anime d'une violentehainecontre ces personnes si offensives, si importunes; elle change notre douceur en brusquerie, notre générosité en sentimens odieux.
Azais. (Précis du systême universel.)
Francisco Salter foi, n'aquelle mesmo dia, ao Candal offerecer a Norberto de Meirelles os seus serviços em Lisboa, onde era chamado pressurosamente.
O negociante não tinha pratica ou habilidade bastante para simular no rosto a surpreza ou o descontentamento da inesperada ausencia do genro apalavrado. Manifestou, em toda a expressiva estupidez com que a providencia dos grosseiros velhacos lhe dotara a physionomia, a alegria damnada que lhe não cabia no bojo do peito. Mendonça evidenciou as suas suspeitas, e arrependeu-se de não ter convertido em peçonha toda aquella alegria, aceitando a fuga de Carlota, horas antes.
—Desejava despedir-me das senhoras—disse Mendonça.
—Minha mulher—tartamudeou o negociante—foiá missa, e mais a menina, a uma capellinha á Bandeira, senão com todo o gosto...
Mendonça, quando entrara o portão da quinta, vira Carlota através de uma vidraça. Carlota, pé ante pé, viera, a occultas da mãe, avisinhar-se da sala, com o sentido de, caso o pae a não chamasse, entrar na sala onde Mendonça estava, como de passagem para outra, e fingir-se surprendida do encontro.
Foi o que ella fez ao tempo em que o negociante acabava de improvisar uma missa na capella da Bandeira.
—Ai!—exclamou ella—estavam aqui!...
—Acabava eu de pedir licença ao snr. Meirelles—disse Mendonça, sorrindo ironicamente—para offerecer a v. s.ª e a sua mãe o meu prestimo em Lisboa, para onde parto hoje ás quatro horas da tarde.
O arrozeiro, em pé, com os braços estendidos ao longo dos flancos abdominaes, abria e fechava as mãos, como um idiota: não sabia fazer outra gesticulação mais parva, quando a sua inepcia fosse tal que se lhe fechassem todas as evasivas de uma posição falsa.
—O snr. Norberto—proseguiu Francisco Salter, cedendo ao prazer de affrontar a mentira do villão diante da propria filha—disse-me que v. s.ª e sua mãe estavam na Bandeira ouvindo missa, e eu... retirava-me...
Carlota encarou o velho, e viu um tregeitar de olhos, que a obrigou a baixar os d'ella, por vergonha de si e de seu pae. Salter teve dó de ambos, e mudou de conversação.
—Não sei que motivos imprevistos me chamam a Lisboa; talvez as ameaças de uma nova invasão hespanhola, ou bem póde ser que se tema um definitivo assalto da França...
—Pois virão cá esses herejes de Napoleão?!—exclamou o negociante, já transfigurado pelo susto dos francezes, mal incomparavelmente maior, que destruiu o vexame em que o deixou a apparição da filha.
—Póde ser que venham, snr. Norberto, responder ao desafio que lhes mandamos pelos nossos soldados do Roussillon, quando a França liquidava as suas contas com a Hespanha.
Norberto não o entendeu; mas redarguiu:
—Se elles cá vem, é contar que não deixam nada; diz que mettem a saque tudo quanto topam, pois não mettem?
—É possivel; mas v. s.ª previna-se, escondendo o seu precioso aqui no Candal, por exemplo, onde de certo os francezes não virão. Ahi está o inconveniente de ser rico. Já o snr. Norberto está a soffrer com o mêdo de que o obriguem a uma contribuição...
—Se lhe parece.... o caso não é para menos: quem não tem nada, tanto se lhe dá como se lhe deu; mas quem lhe custou a ganhar o que tem, pouco ou muito, quer paz e socego.
—Não se aterre antes de tempo, snr. Norberto,—replicou Mendonça, sorrindo a Carlota—quando os francezes invadissem Portugal, eu ajudaria a v. s.ª a defender o que é seu, não só como esposo de sua filha, mas tambem como seu amigo.
—Isso lá...—regougou o mercieiro—muito obrigado, não me despeço do favor: mas o senhor é militar, e quando isso for não lhe ha de faltar por lá que fazer, na guerra do mar.
—Assim aconteceria—tornou Mendonça, enterrando lentamente o estillete observador—se eu não tencionasse pedir a minha baixa do serviço, para evitar que as revoluções perturbem a felicidade de minha mulher e a minha.
—Então que modo de vida queria o senhor ter, se casasse com a minha Carlota?
—Outro qualquer mais permanente, mais descansado; negociante, por exemplo.
—E que é dos fundos?
—Fundos?
—Sim, o casco do negocio?
—O casco!... a que chama v. s.ª casco?
—Casco é o cabedal para começar.
—Meu sogro dar-me-hia...
—Dinheiro?! meu amiguinho, está quasi todo empregado em torrões; e eu, emquanto vivo, não dou nada.
—Mais uma razão—replicou Mendonça, condoidodo vexame de Carlota, e seguro, mais que seguro, do villão caracter do arrozeiro—mais uma razão para v. s.ª não receiar a invasão dos francezes... Agora tem logar—proseguiu elle, mudando de ironico para circumspecto e grave—uma observação que me esqueceu ha dias, quando tive a ventura de pedir-lhe a snr.ª D. Carlota. Eu, snr. Norberto, pedi sua filha, simplesmente sua filha; não pedi dinheiro, nem pedirei jámais. Eu conto com recursos proprios para que ella não sinta falta de commodidades que deixou em casa de seus paes. O meu patrimonio é a patente que tenho e as bem fundadas esperanças de me augmentar n'esta carreira. Não me julgue v. s.ª atido ao dote de sua filha, nem cuide que me affligi com a ameaça de nada lhe dar emquanto vivo. Póde o snr. Norberto gastar, ou augmentar o que tem, que sua filha não esperará a morte do pae para poder comprar mais um vestido. Faça, portanto, justiça ás minhas intenções, e conceda-me que eu dê liberdade a algumas ideias que me estão inquietando e magoando.
V. s.ª não procedeu lealmente commigo, quando me deu, sem reparo, sua filha. Rogo á snr.ª D. Carlota me consinta este desabafo, porque a clareza, n'este momento, é necessaria a todos nós, e o amor e o decoro costumam, nas almas nobres, soffrer juntos, quando um d'elles é offendido... e agora são ambos.
—Eu não entendo o que v. s.ª ahi está a dizer—atalhou Norberto conscienciosamente.
—O snr. Mendonça...—acudiu Carlota; mas o pejo embargou-lhe a voz.
—Eu queria dizer ao snr. Norberto de Meirelles—tornou Mendonça—que fez v. s.ª mal em dar uma palavra de que se quer desquitar por meios menos honestos, e á custa talvez da minha liberdade. A ida de seu cunhado á capital, e a ordem de eu ir, sem perda de tempo, a Lisboa, escondem uma trama que eu espero desenredar em oito dias. Se o snr. Norberto e seu cunhado julgaram que uma intriga basta para aniquilar um amor de dois annos, uma união de toda a vida já abençoada por Deus, que vê a pureza das minhas ambições, enganaram-se! Retardar não é destruir. Eu confio tanto no generosocoração da snr.ª D. Carlota como em mim proprio; e só o muito amor me podia dar a mim esta franqueza com que fallo, e a ella a indulgencia com que me ouve accusar o proceder injusto de seu pae.
—O senhor está a insultar-me!—exclamou Norberto—e demais a mais em minha casa!
—Eu não insulto, senhor, queixo-me de ter sido ultrajado, e reconheço, n'esse desabrimento, que é certissima a perfidia com que fui enganado. Retiro-me, para que v. s.ª não me offenda terceira vez, dizendo-me que o insulto.
—Pois o melhor é isso—redarguiu Norberto.—O senhor pensava que me levava á valentona? Eu tambem tenho amigos, e sei o que hei de fazer!...
—Que ha de fazer o pae?—disse Carlota com altivez—O pae não póde fazer nada.
—Que dizes tu, Carlota?!—trovejou Norberto.
—Digo que não ha forças humanas que me privem de casar com este senhor. O pae governa no seu dinheiro, e nós nada lhe pedimos. O snr. Mendonça, se quizesse ser menos generoso com meu pae, estaria já casado commigo, porque eu o auctorisei a tirar-me de casa por justiça.
Norberto, como todas as indoles abjectas, caira no miseravel da sua atonia, sob a fulminante coragem de Carlota. Francisco Salter aproximou-se d'ella, tomou-lhe a mão, como se estivessem sós, e murmurou:
—A virtude, que Carlota chamou generosidade, continúa. Vou a Lisboa, porque sou militar, e transgrido a honra e dever não me apresentando.
Mendonça despediu-se de Carlota Angela, que chorava, e de Norberto de Meirelles, que limpava com o canhão da japona de cotim o suor da brunida testa.
D. Rosalia faltara a este conflicto, porque, atarefada na cozinha com a liquidação dos legumes vendidos na manhã d'aquelle dia, não dera fé de entrar Mendonça.
Carlota Angela, apenas sósinha com seu pae, voltou-lhes as costas, e saiu da sala.
Norberto ficara de tal modo aturdido com o desembaraço da filha, que parecia temel-a. Procurou a mulher,e contou-lhe, como elle podia, o succedido. D. Rosalia benzeu-se tres vezes, e tres vezes levou os braços em arco á altura da cabeça, acção favorita da grossa matrona, quando queria exprimir o supremo espanto.
Animando-se mutuamente, entraram no quarto de Carlota, e gritaram ambos ao mesmo tempo:
—Filha ingrata! nós te amaldiçoamos!
—Para sempre!—disse a solo o snr. Norberto.
—Para sempre!—repetiu D. Rosalia.
—Amaldiçoada!—bradaram em dueto.
—E por que me amaldiçoam?—disse Carlota—que crimes são os meus?
—Ainda perguntas?!—respondeu Norberto, opilando olhos, bochechas, nariz, e tudo o mais susceptivel de opilação na sua elastica physionomia—Pois não tiveste o atrevimento de me dizer ainda agora que eu não podia fazer nada?
—Disse, sim, senhor; disse, porque ha só um meio de me prohibir o casamento com a pessoa a quem o pae me deu: é matarem-me.
—Isso diz-se a teu pae, rapariga?—-bradou a mãe.
—A verdade diz-se aos paes; mentir-lhes é que é crime. Para que hei de eu dizer que faço a vontade a meu pae, se não sou capaz de cumprir a minha palavra? Logo que Mendonça voltar de Lisboa, se elle me não procurar, procuro-o eu. Se elle me quizesse com a mira no dote, faria todas as diligencias por que me dotassem, ou morreria de paixão por me não dotarem; felizmente, o homem que Deus me destina é a mim que me ama, e não ao dinheiro de meus paes; para ser sua mulher basta-me o coração; pois bem, fique o dinheiro a meu pae, e seja o coração para o homem que não exige de mim outros thesouros.
Norberto olhava Rosalia, Rosalia olhava Norberto, grotescamente pasmados. Estranha era para elles a linguagem, o enthusiasmo, a altiveza, as attitudes de Carlota. Queriam contradictal-a com os argumentos triviaes de um casamento rico; mas a migalha de bom senso que tinham ambos, bastava a convencel-os da inutilidade de similhantes razões. Queriam leval-a pelo terror; mas comtanto mimo a tinham deixado emancipar-se desde creança, que não sabiam agora com que gestos, com que palavras, exprimir o agastamento, a admoestação irada, a soberania paternal.
O coração de Rosalia era bom, e seria ella a protectora do casamento, se a não tolhessem os prejuizos de classe. A mulher de Norberto cuidava, em boa consciencia, que sua filha não podia ser feliz, casando sem o precedente de escripturas de doação, sem a concorrencia de doadores bem ricos e bem estupidos por parte do noivo. Por mais que ella quizesse descobrir no official de marinha os encantos que seduziram sua filha, a tapada creatura o que encontrava era motivo para pasmar cada vez mais.
—Um engarilho de bigode como um chibo...—dizia ella a Carlota, depois que Norberto se retirara com mêdo de ceder á indignação, que o enfurecia—um pechibeque que não tem terra, nem leira, nem ramo de figueira, ó rapariga, que feitiço te fez aquelle patavina? Ha por ahi tanto rapaz bem azado, com negocio estabelecido, e creditos... se querias casar, por que o não tinhas dito, que já se tinha escolhido a flor dos rapazes do Porto? Está ahi o filho do Antonio José da Silva, e do Joaquim José Guimarães, que por entre os dentes deram a entender a teu pae que te queriam, e ainda estão solteiros, não tens mais que fallar... Ó mulher! isso foi enguirimanço do demonio! Por que não casas tu com um dos outros?
—Perde o tempo, minha mãe—disse Carlota com firmeza.—Esses homens aborreço-os; o mundo tem para mim um só homem; não vejo, nem quero ver outro: é Francisco de Mendonça, porque sou d'elle, considero-me já sua mulher, e...
—Tu que dizes, Carlota!?—bradou apavorada D. Rosalia—És já mulher d'elle? Pois tu... Credo! tu estás ahi a dizer blasphemias... Ó desgraçada, pois tu...
—Eu quê! o que está ahi a mãe a fazer uns espantos que não sei a que vem? Se me julgou culpada de alguma acção indigna de mim, é mais uma injustiça que faz ao homem que amo. Tenha a segurança de que Mendonça não me humilha; pelo contrario, eleva-me, ama-me bastante,e é bastante virtuoso para não querer que a minha consciencia me accuse de alguma fraqueza.
Oh! ninguem sabe comprehender, como quem ama, uma nobre alma! Tenho eu, e elle tambem tem a infelicidade de sermos avaliados por pessoas que adoram o dinheiro sobre todas as cousas, e crêem que fóra do dinheiro não ha virtudes nem contentamentos. Ó minha mãe, foi uma desgraça darem-me uma educação differente da que receberam meus paes. Eu vejo as cousas e as pessoas de um modo diverso. Olho para a riqueza como para um obstaculo á minha ventura, e não posso deixar de aborrecel-a...
Bem vejo que minha mãe se admira d'esta linguagem, creia que não é falta de respeito, nem confiança nas minhas fracas forças; é animo que me dá um amor puro, e digno de mim; é uma força de que eu preciso para convencer meus paes de que privar-me de casar com Mendonça é o mesmo que matar-me!
Minha mãe não quer que eu morra, e ha de proteger-me, ha de amollecer o duro coração de meu pae, ha de lembrar-lhe que o consentimento dado não póde ser negado sem deshonra para elle, e grandes torturas para mim. Seja por mim, minha querida mãe, seja boa como tem sido sempre. Tenha dó da sua filha unica, da filha que nunca lhe desobedeceu, e, se hoje desobedece, deve ser muito dolorosa a violencia que lhe querem fazer...
Carlota Angela soluçava no seio de D. Rosalia, cujos vasos lacrimaes se romperam copiosamente.
Eram de bom agouro as lagrimas da enternecida mãe.
As difficuldades, que ella oppunha, eram vencidas por novas supplicas de Carlota. D. Rosalia acabara por prometter, com o seu silencio, vencer a resistencia do marido.
Norberto saíra entretanto para o Porto, e fora ao paço do bispo prevenir a magistratura ecclesiastica contra as diligencias de Francisco Salter de Mendonça. Alguem o aconselhou que fizesse entrar sua filha n'um convento, para obviar ao rapto, visto que, dado o passo da fuga, o mais airoso e honesto era remediar a deshonra irreparavel sem o casamento.
D. Rosalia Sampayo tinha uma irmã freira benedictina, no Porto, senhora muito reformada, muito rezadeira, e havida em conta de predestinada, lá dentro, e de religiosa illustrada entre as pessoas das suas relações.
Carlota Angela visitava-a miudas vezes, e entretinha-se longas horas na grade, e até alguns dias dentro do mosteiro, onde sua tia lhe ensinava muitas devoções mirificamente salutares, com as quaes Carlota saía convencida de que, fazendo-as um mez, ganharia indulgencias bastantes para remir das penas do purgatorio toda a christandade.
A madre Rufina, sem desagradar ao seu director espiritual, frade carmelita de poucas lettras e muitas virtudes, era uma tolerante senhora, a quem Carlota confessara a sua inclinação ao official de marinha, resultando-lhe d'ahi ter de rezar, por conselho da tia, mais algumas devoções para que a Virgem lhe inspirasse o melhor destino n'este mundo.
Carlota dizia-lhe que o seu apaixonado era pobre. Madre Rufina replicava que pobre era quem não tinha a graça de Deus. Carlota redarguiu que talvez os paes não a dessem a um rapaz sem dote. A benedictina appellava para a vontade do Altissimo, que fazia tudo pelo melhor. Ora, Carlota Angela, melhor ou peior avisada, entendia que Deus, na maxima parte dos actos humanos, e nomeadamente nos casamentos, não punha nem dispunha. Isto será menos orthodoxo; mas é necessario impor á responsabilidade do homem, ou do diabo, cousas que por ahi ha que não parecem de Deus.
Norberto de Meirelles foi do paço do bispo ao convento de S. Bento da Avè Maria, e fez chamar sua cunhada. Contou a desordem em que se achava sua casa, foi eloquente no seu genero, desafogou a ira abafada em presença da filha, e terminou dizendo que, o mais tardar no dia seguinte, Carlota havia de entrar no convento, onde estaria até se lhe varrer a mania de casar com o tal Pedro-malas-artes.
A madre Rufina respondeu que na casa do Senhor não se recebia ninguem introduzido á força; que sua sobrinha não estava no caso de aceitar com prazer o recolher-sea um convento, quando o seu coração propendia e ligava a outros amores. E concluiu, aconselhando a seu cunhado prudencia e caridade com as inclinações de Carlota, que, se não eram convenientes aos olhos do mundo, tambem não eram peccadoras aos olhos de Deus.
E, em resposta ás impertinentes réplicas de Norberto de Meirelles, a digna esposa do Senhor prometteu chamar sua sobrinha, relatar-lhe as mágoas de seu pae, tentar demovel-a do seu proposito, e pedir muito, primeiro, a Maria Santissima que tocasse o coração de Carlota com a resolução mais conducente ao caminho da virtude n'este mundo, que é o da salvação no outro.
Norberto saiu pouco contrito, e notou que sua cunhada gosava uma reputação usurpada. O homem achava aquelles principios irreconciliaveis com a santidade de que D. Rosalia fazia o panegyrico, todos os dias. Não obstante, a irritação moderou-se-lhe, na esperança de que, em ultimo refugio, seu cunhado doutor faria em Lisboa, com o dinheiro, o que a violencia não conseguisse cá.
A freira pediu ao capellão do mosteiro que lhe acompanhasse sua sobrinha; e teve com ella o seguinte dialogo, quasi textual dos apontamentos de Carlota Angela, que devemos á confidencia de uma sua amiga, de quem logo fallaremos:
—Teu pae, menina, esteve aqui hontem, e fez-me pena. Pediu-me que te despersuadisse do amor a...
—Pediu-lhe um impossivel, minha tia—interrompeu Carlota.
—Nada é impossivel a Deus, minha sobrinha.
—Deus escuta-se na consciencia, e a consciencia não me condemna o coração.
—Mas que te diz ella sobre os deveres de uma filha?
—Diz que tenho satisfeito a todos aquelles em que correspondo aos deveres de pae.
—Não sejas tão absoluta nas tuas respostas, Carlota. A desobediencia é um crime.
—E o suicidio, minha tia?
—O suicidio é o maior dos crimes, porque é o desprezo do divino remedio nas dores passageiras d'esta vida.
—Pois creia que obedecer é morrer; se obedeço, se retiro o meu amor... retirar, meu Deus! eu disse uma loucura! eu não posso retirar o meu amor a Francisco; o mais que posso é mentir; mas essa mentira custa-me a morte... é o suicidio, e mais ainda... é um assassinio, porque eu mato o homem que me é tudo n'esta vida...
Carlota rompeu n'um alto soluçar de lagrimas, que fez chorar a religiosa.
—É escusado—disse esta, após um longo intervallo de silencio, cortado de suspiros—é escusado combater a tua paixão. Eu pedi tanto ao Senhor, em communidade, com algumas santinhas d'esta casa, que te mudasse a tenção, que já agora não posso duvidar que o céo abençôa a tua união com esse mancebo. Já não te reprehendo, nem dissuado, minha sobrinha. Faremos com tua mãe o que não podérmos fazer com o espirito teimoso de teu pae. Enternece-a com as tuas lagrimas, menina; esperta-lhe a compaixão de que está cheio um coração maternal.
—Já o consegui; minha mãe chorou commigo, e prometteu alcançar de meu pae o consentimento que elle já tinha dado.
—Já tinha dado?! a quem?
—A Francisco Salter, quando me foi pedir.
—E depois? desdisse-se!...
—Quando consentiu, foi para dar tempo a meu tio de nos urdir uma traição. Francisco partiu hontem para Lisboa, chamado a toda a pressa. O plano é talvez demoral-o lá; mas de que serve a má fé de meu pae, e as astucias de meu tio? Cá está o meu coração para vencer tudo. Cêdo ou tarde, Francisco voltará, e depois... e depois, se tanto for necessario, fujo de casa.
—Santo nome de Jesus! não digas tal desatino, que offendes a Deus. O teu amor, se tal fizesses, deixaria de ser um sentimento honesto, minha sobrinha. Ha nódoas que nunca se lavam, e intenções boas que deixam sempre uma face má voltada para os juizos severos do mundo. Já agora, filha, esgota todo o teu calix de fel para que se não diga que achaste doçura no crime. Eu entrei de vinte e dois annos n'esta casa, estou cá ha vinte e seis, e ainda me recordo do que era o mundo lá de fóra, e oque lá não aprendi ensinaram-me cá pessoas que entraram para aqui sangrando ainda das chagas que receberam lá.
Carlota, eu hoje não te fallo a linguagem que me ouviste até aos quatorze annos. Conheço o teu coração, e acompanhei-lhe o desenvolvimento mais de perto que teus paes. Tua mãe não te podia entender, porque tua mãe saiu aos quinze annos da companhia de um tio abbade para casar com um homem capaz de lhe abafar a intelligencia, se ella a tivesse. Teu pae é um honrado commerciante, tem sabido augmentar os seus haveres com a mira de te deixar muito rica, e não entende nada de coração.
Já vês, minha querida sobrinha, que teus paes ignoram a sua culpa, e não fazem mais do que julgam ser o melhor para a tua felicidade. Não os desgostes emquanto for compativel a obediencia com os affectos invenciveis da tua alma. Teu pae quer que te recolhas a este convento. Se vieres, se quizeres vir para a minha companhia, não preciso dizer-te que as tuas acções hão de ser aferidas pelos deveres de uma menina recolhida n'esta casa. D'aqui diligenciaremos o teu casamento com esse sujeito; mas as nossas diligencias hão de cooperar todas sobre o animo de teu pae, até obtermos o consentimento, esquecendo-nos de que elle procedeu mal, negando o que uma vez tinha concedido. Agora, pensa, Carlota.
—Tenho pensado.
—Queres, ou não queres entrar no convento?
—Quero sim, minha tia; hoje mesmo, se é possivel.
—É, que eu tenho ainda licença para tu poderes entrar; mas é preciso que teu pae o saiba.
Carlota Angela desceu acceleradamente as escadas que conduziam da grade para a portaria. Ia banhada de lagrimas. Ao abrir-se a porta, com o seu tristonho ranger nos gonzos, Carlota estremeceu, e apoiou a face, como esvaîda, no cunhal do muro.
—Vem, menina,—disse do interior a madre Rufina.
Carlota Angela pôz o pé no limiar, e exclamou, estendendo os braços para a madre porteira:
—Disse-me agora o coração que era para sempre!... Que é isto que eu sinto, meu Deus!
—Se é Deus que t'o faz sentir, minha sobrinha, louvemol-o todas pelo bello presagio que te inspirou.
A porta fechou-se. Carlota, rodeada de freiras, e nos braços de todas, soltou um ai que parecia um grito desentranhado do coração.
Qui amans egens ingressus est princeps in amoris vias,Superavit œrumnis is suis œrumnas Herculis.Plauto.(Persa.)
Plauto.(Persa.)
O demonio da ambição...A. Herculano.(Monge de Cister.)
O demonio da ambição...
A. Herculano.(Monge de Cister.)
Francisco Salter de Mendonça, logo que chegou a Lisboa, procurou o ministro da marinha, e encontrou-o, contra as suas presumpções, bem encarado e affavel.
D. Rodrigo de Sousa Coutinho era um astuto politico, sabia conhecer os parvos pavores do intendente geral da policia, e amava bastante a pasta para contrariar as suggestões do principe regente, que tremia dos pedreiros-livres, quando não tremia das conspirações da filha de Carlos IV.
Ainda assim, o ministro, protector affeiçoado de Salter de Mendonça, e particular amigo do frade progenitor, que valia muito com Mellos e Ficalhos, houve-se astutamente na recepção do official de marinha, mostrando-lhe a ordem do dia, em que era promovido a capitão-tenente, e dando-lhe os emboras da escolha acertada que o principe regente fizera dos seus talentos e energia, para, com mais dois officiaes, o enviar ao Brazil a correr com o apresto de uma esquadra, que as prevenções da guerra demandavam.
Este gracioso acolhimento desfez, ao primeiro intuito, as suspeitas de Mendonça. A intriga era incompativel com a mercê do posto, e a honraria do encargo. A reflexão, porém, sobreveio ao juizo da primeira impressão, e Salter, recordando o que se passara no Candal, creu denovo que o bacharel promovera o seu desterro, simulada com a mascara do favor.
A nova de ter sido adjunto ao intendente Manique o tio de Carlota Angela revalidou a desconfiança.
Mendonça apresentou-se ao ministro, e pediu licença para tornar ao Porto, onde o chamavam compromissos, do coração em que a sua palavra de honra se achava empenhada. D. Rodrigo objectou com a necessidade urgente da partida no praso fixo de quatro dias; discorreu profusamente ácerca da primazia dos deveres de portuguez em confronto com os particulares do coração; e encareceu o azedume com que sua alteza, o principe regente» veria posporem-se negocios do estado ás allianças amorosas de um subdito que lhe merecera tão relevante prova de real confiança.
Instava, por outra parte, o frade benedictino, e a parentella illustre do frade, vaticinando ao capitão-tenente um almirantado em poucos annos de serviço.
Para estes prophetas de glorias ensurdecera Mendonça.
O coração accusava-o de ingrato e vil, se a cabeça se deixava instantaneamente desvairar com as vanglorias da fama. A imagem chorosa de Carlota Angela apparecia-lhe como um estimulo de honra, se o fraco espirito humano inclinava ouvidos aos embaimentos da consideração, do renome, e dos altos destinos a que o conduzia uma boa estrella.
Mendonça, quando as felicitações de amigos e invejosos pareciam já galardoal-o das bizarrias previstas, meditava rejeitar não só o novo posto e a commissão mais valiosa que elle, mas tambem a patente que já tinha. O tempo urgia, e os aprestos para a saída acceleravam-se com extraordinaria diligencia. O capitão da real brigada deliberou pedir a sua baixa, ou, caso lh'a negassem, dar parte de doente. N'este proposito estava, quando recebeu uma carta de Carlota Angela, datada no convento de S. Bento da Avè Maria.
Carlota contava-lhe miudamente os successos que a levaram ao convento; o patrocinio que encontrara em sua tia, as esperanças que esta lhe dava de docilisar a pertinaciado pae; o contentamento que ella sentia em esperar no remanso d'aquelle santo asylo o esposo querido; a liberdade que estava gosando alli de pensar no seu anjo, alli, onde ninguem tentava desvanecer-lh'o do coração; em resumo, Carlota dizia-lhe que estava prevenida contra todas as borrascas, assegurando-o de que só saíria do mosteiro para ser esposa do predilecto da sua alma. Não ajuntaremos ao conciso extracto da longa carta as meiguices de amorosa uncção, os enternecidos deliquios da saudade, os azedumes e dulcidão d'esse agrodoce espinho, que rasga o seio ao mesmo tempo que o balsamo da esperança allivia a dor, cicatrizando a chaga. Essa carta era o que devia ser uma carta de Carlota Angela: a alma inteira, no que a alma n'uma virgem tem de communicativo ao coração estranho, se estranho póde dizer-se o coração amigo que se sente e escuta dentro do nosso.
Francisco Salter era formado d'este barro humano, contra o qual se tem vociferado e estampado muita satyra.
A mais suave maledicencia, querendo poupar a natureza humana ás querelas e libellos da philosophia rixosa, diz que o homem é um mysterio.
A theologia christã, para desencarregar o supremo artifice do desaire da sua obra, diz que o homem é um ente degenerado da sua primitiva puridade.
Em boa paz com theologos e philosophos, a mim se me afigura que o homem é um composto de grandeza e pequenez, uma dualidade de gigante e pygmeu.
Mendonça tinha uma unica macula na sua excellente natureza: era a imperfeição, era a falha do grande brilhante, que o leitor, de animo frio e vista clara, vae ver commigo.
A carta de Carlota Angela tranquillisou-o; não disse tudo—alegrou-o, deu-lhe um ar radioso de confiança e certeza na dedicação, que momentos antes lhe incutia o receio da mudança.
O homem é assim.
Parece que o amor sem a desconfiança, a esperança sem a duvida, lhe dá um socego de espirito que não quadraá sua natureza irrequieta. O pungir de constante espinho é-lhe um necessario estimulo de vida. Se elle sáe do coração, é forçoso que fira o orgão de outras paixões. Se o amor prevalece á ambição de gloria ou de riquezas, satisfaça-se o amor, e a outra paixão resultará com toda a impetuosidade do arco retezado... Não se tirem já contra Francisco Salter conclusões que o vago d'aquellas premissas não auctorisa.
A carta não baixou a temperatura, mas mitigou o rescaldo do amor, a ancia da incerteza, affrontamento das conjecturas que elle formava ácerca do destino que o irritado Norberto daria a Carlota, depois da arrojada ameaça do Candal.
Se a levariam fóra do reino:
Se a casariam violentamente com outro:
Se a encerrariam n'um convento, incommunicavel:
Se a despersuadiriam com razões das que vencem o vulgar das mulheres, quando o amante as não anima com a sua presença:
Se Carlota seria uma mulher vulgar, susceptivel de succumbir ás contrariedades.
Tudo isto eram hypotheses atormentadoras; mas a carta respondia a todas. Carlota estava a salvo da perseguição; sósinha com o seu amor, que ninguem lhe impugnava; nutrindo-o com saudades na solidão do claustro. Este convencimento aplacou a vertigem de Mendonça.
A ideia de pedir a baixa pareceu-lhe desnecessaria. O espaçar-se o casamento para mais tarde afigurou-se-lhe racional e necessario aos seus deveres de militar, e ao cumprimento dos encargos com que o principe regente o honorificava.
E, depois, dizia n'elle o ente pensante:
«Não será bem decoroso para mim voltar do Brazil com uma posição tão acrescida em honras, que ninguem possa notar desigualdade entre mim e a filha do opulento commerciante?
«Como homem brioso, não deverei eu querer que a propria Carlota me considere um homem disputado por herdeiras iguaes, ou ainda superiores a ella?
«Os paes de Carlota, quando eu voltar habilitadopara entrar no valimento dos mais poderosos, e igualar-me a elles, não terão pejo, vendo-me entrar em sua casa a castigal-os com pedir-lhes, segunda vez, a filha, sem dote?»
Assim fallava o orgulho do espirito; o coração, porém, patrocinando o anjo puro, a quem similhantes conjecturas injuriavam, tinha arrebatamentos de tão sentida queixa, ou clamava com tamanha ternura á consciencia incorrupta do mancebo, que, mais de uma vez, o amor saiu victorioso, e o projecto de pedir a baixa readquiriu novos estimulos.
E os sonhos de gloria?
E os respeitos do mundo, que não eram, como hoje, restrictos ao dinheiro?
E o cortar uma carreira, quando a aurora do seu brilhante dia raiava tão sem nuvens?
E uma longa vida a viver só das commoções de um amor satisfeito?
E o emparelhar com os mais nobres, quando se tem um nascimento obscuro, ou se não póde, sem desdouro, proferir o nome do pae, que inverga, não a farda do general, mas o habito dos monges negros?
Replicava assim o orgulho reagente; e o amor supplicante exorava de novo; a imagem melancolica de Carlota Angela espelhava-se no coração do moço; resurgia ovante em toda a sua nobreza e isenção a amorosa alma, e a tenção de não partir reaccendia-se mais calida e inabalavel.
Assim, pois, chegou Mendonça a submetter o seu requerimento ao despacho do ministro.
Maior seria o pasmo de D. Rodrigo, se não julgasse o capitão da real brigada de marinha compromettido na maçonaria, onde se pactuara que a desobediencia implicaria pena de morte, a ferro ou a veneno como a de José Anastacio de Figueiredo, em Mafra, á sombra das telhas reaes.
O ministro chamou o requerente a uma audiencia secreta, e disse-lhe que não só lhe negava a baixa, mas até lhe exigia o cumprimento das ordens regias; que seria mal visto de sua alteza o subdito que tão mal correspondesseao regio conceito: que seria degenerado portuguez o que, no solemne momento de pôr peito em defeza da patria e á remuneração de patrioticos feitos, se furtasse aos trabalhos e ás glorias: que seria irrisorio não justificar o requerimento de baixa com mais motivos para tamanho desconcerto que um pueril amor, que não devia passar de um incidente de terceira ordem na vida de um homem intelligente, e fadado para estrondosos destinos: que, finalmente, o valimento se converteria em castigo, se elle requerente persistisse na disparatada baixa, cuja concessão lhe grangearia o riso de uns, o odioso de outros, suspeitas perigosas de muitos, e, mais que tudo, a mal-querença de sua alteza, que tencionava nomeal-o major da armada, logo que servisse tres mezes no Brazil.
O remate da allocução era a douradura da pilula. Major da armada! a aspiração mais vantajosa de tantos, que a não realisavam na velhice! Voltar, depois de alguns mezes, a Portugal, major da armada, condecorado, ennobrecido, chamado aos conselhos do soberano, e talvez ao ministerio!
Mas deixar Carlota no convento, a carinhosa Carlota, amada dois annos, amada para sempre, votada aos sacrificios, aos desprezos, ás injurias, a tudo, para lhe merecer a elle a renuncia de glorias que retardavam um enlace tão suspirado!
Mendonça, na vespera da saida para o Rio de Janeiro, escreveu esta carta:
«Vê, minha Carlota, que eu choro. A afflicção não me deixa outro desafogo. Quando receberes esta carta, separam-nos centenares de leguas. Eu parto ámanhã para o Brazil, obrigado pela minha condição de servo agaloado. Deram-me o commando de um navio, e mandam-me cumprir serviços de que eu cobraria esperanças para grandes honras, se a minha gloria unica não fosses tu, esposa da minha alma. Quiz dar a minha baixa, requeri, instei, negaram-m'a, e impozeram-me as leis militares. Quiz dizer-te um adeus por algum tempo; não me consentiram delongas, porque a corvetaAmazonaesperava-me quasi aprestada para se fazer á vela.
«Mas eu não parto, Carlota. Comtigo fico, anjo. Omeu coração ahi fica, ahi está pulsando no teu. As lagrimas de saudade que choras, choram-as tambem os meus olhos. Entre nós, n'esta longa distancia que nos separa, prende-nos a mesma cadeia de dores, de afflicções, de terriveis presentimentos. Quando te doer no coração o presagio da minha morte, sentil-o-hei tambem eu lá, e chamarei por ti no silencio da minha alma, n'este grito surdo da saudade, que é um despedaçar de todos os ligamentos da vida.
«Por que choramos nós, Carlota? Invoquemos a razão desvairada pela angustia; suppliquemos a essa filha de Deus, senão remedio, ao menos conforto ás nossas dores. Deveremos nós chorar como choram amantes infelizes? Eu creio que não, minha cara esposa. Se hoje nos dissessem: «a vossa união ha de realisar-se passados seis mezes, ou ainda um anno», teriamos justo motivo para nos rebellarmos contra o destino, contra a Providencia que nos aproximou tão dignos um do outro?
«Não, Carlota, porque o nosso amor não está ameaçado de alguma sinistra casualidade que o aniquile ou arrefeça. As distancias são impossiveis entre duas almas identificadas. Para ti no claustro, para mim na amplidão dos mares haverá sempre o mesmo santuario de fervente amor, a mesma acção de graças a Deus, que não quer o infortunio dos que o confessam e chamam nas suas agonias. As nossas lagrimas ha de a esperança enxugal-as. A esperança nos acordará dos sonhos tristes. A saudade, que desalenta e cansa, irá ao futuro pedir sorrisos ás risonhas imagens da nossa ventura de esposos. Oh! nós não temos razão para chorar uma separação de alguns mezes, quando nos separamos tão confiados, como se acabassemos de receber a benção no altar, como se, no derradeiro abraço, sentissemos entre nossas faces o rosto de um filho.
«Que ridente imagem esta, ó Carlota! que estranho palpitar de coração eu sinto agora! que delicias nos aguardam para o dia immorredouro da nossa felicidade!
«Animo, minha adorada esposa! Eu careço de imaginar que tens coração para aceitar, sem fraqueza, esta dor. Preciso alentar-me da tua coragem, para que o auxilioda razão não esmoreça. Animei-te; mas as lagrimas não me deixam escrever, nem a ti te deixarão entender estas palavras. Agora se me cerra em indizivel tortura o coração. Largo a penna, desafógo em gemidos este aperto de alma, similhante ao impossivel de comparar-se. Não me venço. Já creio que te perdi. Accuso-me de ingrato por que não deserto, e calco as leis, e fujo para ti, e te roubo a todo o mundo, para mendigar comtigo uma esmola em paiz estrangeiro. Eu sou vil, sou indigno de ti, e rasgarei esta carta, ou ler-t'a-hei de joelhos, para que tu me perdôes tamanho crime.
«Que digo eu, meu Deus! que penso eu, e que farei da minha vida! Impossivel, Carlota, impossivel deixar de seguir o meu destino! Agora mesmo sou chamado á secretaria para receber as ultimas ordens. Este calix irremediavel ha de ser tragado, ou a deshonra, a perseguição, e o perder-te... Que horrivel palavra!
«Um juramento, Carlota! Faz-me um juramento, ajoelhada diante de um crucifixo. Eu não o tenho aqui, mas invoco o testimunho de Deus, porque o meu coração, quando tu proferires estas palavras, ha de ouvir-t'as, e recolhel-as. Jura que só sairás do claustro para ser minha esposa; e, se a morte me colher longe de ti, acabarás ahi teus dias, e nenhum ente sobre a terra roubará á minha alma a melhor parte que lhe fica no mundo, esperando que Deus a chame para a acolher ao infinito amor da bemaventurança.
«Juraste, Carlota? Agora crê que o meu espirito te pediria contas d'esse juramento, se a perfidia denegrisse a tua alma immaculada.
«Perfida!... tu!... Perdôa-me, anjo do céo, pelas lagrimas que choro, pelas que tu choras, mais puras, mais angustiosas que as minhas!
«Adeus.....................»
Fiel é Deus, que não soffre termos mais peso do que aquelle com que podem os nossos, hombros. Delle se devem esperar os verdadeiros allivios, e nesta fé se acabam os quebrantos.Fr. Antonio das Chagas.(Cartas.)
Fiel é Deus, que não soffre termos mais peso do que aquelle com que podem os nossos, hombros. Delle se devem esperar os verdadeiros allivios, e nesta fé se acabam os quebrantos.
Fr. Antonio das Chagas.(Cartas.)
Carlota Angela proferira o juramento, ajoelhada diante de uma cruz; foram, porém, d'ahi levantal-a os braços de D. Rufina, que, acudindo ao soluçar dos gemidos, a encontrara esvaida.
Depois que a lançou á cama, a religiosa leu a carta, e disse a uma noviça que vinha entrando:
—Quando assim se amam duas creaturas, a vontade de Deus está n'esse amor: tudo que os homens fizerem contra elle é um sacrilegio, é um attentado contra os designios do Altissimo.
A noviça, depositária dos segredos de Carlota, leu tambem a carta, e foi sentar-se á cabeceira do leito, encostando ao seio a face desmaiada da sua amiga.
Os sentidos de Carlota restauraram-se espavoridos. Tremia toda, e fitava com spasmo e assombro o rosto lagrimoso de Dorothea.
—Chora, chora, Carlotinha—disse a noviça, dando-lhe o exemplo, e acariciando-a com beijos.
—Se eu podesse chorar...—balbuciou Carlota, encolhendo-se em tremuras de frio entre os braços de Dorothea.
—E, se elle morresse, não soffrerias mais, menina?!
Carlota fitou-a espantada, e disse com voz rouca pela suffocação:
—Se elle morresse... quem?... pois sabes...
—Sei; li a carta, e tua tia tambem a leu, e chorou. Eu não acho razão bastante para succumbires assim.
—Eu não succumbo... se succumbisse, estava morta... Ainda vivo; mas, Dorothea, eu creio que morro, e morro brevemente...
—Arrepende-te, alma de pouca fé!—disse a tia, mostrando a sua nobre fronte de cabellos brancos, coberta com o magestoso véo negro, por entre os cortinados do leito—Que fallas ahi em morrer, creança! Vida, muita vida, e muita confiança em Deus, e esperança em dias melhores, é o que te ensina esta carta, mulher sem animo. Vamos lel-a de novo: sou eu que a leio, e veremos se o coração de uma velha sabe melhor que a moça entender o coração de um mancebo.
D. Rufina, sorrindo com fagueira graça, abriu a carta, sentou-se na cama de Carlota, e acompanhou a leitura com suas glosas, não deixando sem ellas a menor phrase esperançosa.
A respiração profunda de Carlota, o convulsivo soluçar, o gemido indomavel que lhe fugia em agudissimos ais, interromperam, muitas vezes, a leitora. Era então que as consoladoras annotações de Rufina, e o assentimento da noviça, redobravam de persuasiva eloquencia, capaz de maravilhar as freiras, que suppozeram sempre estranha á linguagem das paixões a austera religiosa.
Terminada a leitura, soror Rufina, descontente com o insensivel resultado das suas consolações, appellou para o influxo sobrehumano da religião.
—Venham cá ambas,—disse ella—vamos todas tres pedir de joelhos ao Senhor, que leve e traga a porto de salvamento o nosso Francisco.
—Sim, sim!—exclamou Carlota Angela, saltando do leito, e seguindo-a com passos vacillantes.
Ajoelharam, e oraram afervoradamente. Seria difficil estremar entre as tres qual era d'ellas a que pedia a Deus o salvamento do amante: tal era a devoção de todas.
—Agora respiremos!—disse, terminada a reza, a freira—Has de vel-o, has de ser sua esposa, minha Carlota.
Nas grandes agonias, qualquer esperança exalta acrença em agouros, em presagios, em superstições até. Carlota, pensando que sua tia recebera a suprema graça da revelação, exclamou com alegria e transporte:
—Que foi, minha tia? Disse-lh'o Deus?
—Deus, filha, não falla a creaturas tão peccadoras e indignas como tua tia; mas consente que se possa contar com os effeitos da sua divina misericordia. Tudo o que se pede ao Senhor, com humildade e justiça, consegue-se. E, assim, te repito, Carlota, que Francisco Salter voltará, será teu marido, e tereis larga remuneração dos soffrimentos que offerecerdes a Deus em desconto dos contentamentos que sobejam aos felizes d'este mundo.
Estas palavras soaram tocantes e solemnes como o prophetisar da que a communidade reverenciava assistida de graça superior. Carlota sentia alargar-se a golilha de ferro que lhe entalava na garganta o respiro e a falla. As lagrimas, represadas no coração, rebentaram em torrentes: e o sangue, que se retivera suspenso, circulava de novo, rosando-lhe a lividez cadaverica do rosto.
Estava desopprimida; e fora a esposa de Jesus misericordioso que lhe insuflara alentos. Fora uma freira das que desafiavam o riso dos incredulos com suas devoções, e austeras impertinencias; fora uma mulher, das que morreram para o mundo ou o mundo matara, das que se acolheram a Deus ou Deus tirara do seu inferno em vida, fora essa a que tirara da cruz, onde expirara o amantissimo redemptor dos homens, remedio de vida, e esperança para a chaga de um coração de dezesete annos, ferido de desespêro e morte.
Assim, pois, na cella da rigida religiosa se desafogavam e consolavam affectos dos que, fóra d'alli, no mundo tolerante e vicioso, são julgados rebellião contra a vontade paternal, escandalo para filhas submissas, e peccadora cegueira do coração humano!
Quam inventiva não é a caridade! quam largas bracejam as vergonteas d'esse tronco evangelico, regado pelas lagrimas d'aquella a quem Jesus perdoara por ter amado muito!
A desvelada noviça não deixava sósinha Carlota, um instante. Ella e Rufina revezavam-se ao pé da pensativamenina, que parecia querer fugir-lhes, já não para se carpir, mas para orar; que, na oração sentia Carlota outro espirito em si, o murmurio de outros labios supplicantes, a fervorosa crença de Mendonça inflammar-lhe a fé.
A serenidade viera com a confiança no futuro: do sobresalto, da afflicção, pouco e pouco socegada, ficara a melancolia suave da paciencia, essa que só Deus concede aos que á sua misericordia recorreram na adversidade, e em sua vontade se louvaram.
D. Rosalia visitava a filha miudas vezes, o pae raras; e de breve demora, porque o silencio de Carlota, que elle julgava desaffeição, desanimava-o de a ver, e incommodava-o a sós com ella.
Dizia a mãe, nos primeiros tempos, que não havia tirar-lhe o sim para o casamento; mas que ainda era cêdo para descorçoar. Dois mezes depois, mostrou-se mais docil a pertinacia, e já elle dizia que, na volta de Mendonça, tudo se faria pelo melhor: é que o ajudante do intendente geral da policia, por occasião de lhe pedir mais seis mil cruzados, explicara o saque, dizendo que esta quantia se fazia mister para crear novos embaraços ao regresso de Salter, logo que a commissão, a que fora, estivesse cumprida.
Decorreram quatro mezes. Os navios vindos do Rio, já com a nova da chegada doAmazonas, e cartas dos tripulantes, receberam a bordo uma visita da policia, e entregaram a correspondencia. Entre as cartas havia uma de grande volume, subscriptada a D. Carlota Angela de Meirelles, residente no mosteiro de S. Bento da Avè Maria, no Porto.
O bacharel Sampayo deslacrou esta carta, leu oito folhas de papel, e lançou-as ao brazeiro, aquecendo e esfregando as mãos á lavareda. O malvado queimara alli o traslado das mais tristes imagens, o desafogo da mais dorida saudade que ainda apertou coração de homem! O impio não se amiserara de tantos signaes de lagrimas em que a tinta se apagara! Que raptos de alegria, e suspiradas consolações aquella carta, que voejava no ar em faúlas, levaria a Carlota! Que esperanças tão bellas o perverso queimou com a chamma d'aquelle papel!
Entretanto, Carlota, que contara os dias, e calculara, mil vezes, com Dorothea, o primeiro em que devia receber novas de Mendonça, mandava todos os dias de estafeta uma servente para a porta do correio, esperando a lista, ou interrogando o carteiro. Sempre, em vão! A antiga dor renascia em cada correio; redobrava a afflicção a cada esperança frustrada.
Conspiravam em consolal-a Rufina e a noviça, esta com razões mais carinhosas que persuasivas, aquella confirmando o vaticinio da felicidade promettida. Os allivios da primeira eram sempre proficuos e desejados; os da segunda faziam-a proromper em gemidos, que tambem eram desabafo.
Decorreram tres mezes de afflictivas esperanças, sempre enganadoras para todas. Nem uma carta, nem duas linhas escriptas no leito da morte!
Carlota Angela tremia de pronunciar uma desconfiança acerba que lhe trazia o coração em agonias. Soror Rufina rogava incessantemente á bondade divina que afastasse da sobrinha o temor que a sobresaltava a ella. Dorothea segredava á freira os seus receios, e esta pedia-lhe muito encarecidamente que não proferisse uma palavra sobre tal desconfiança.
Acontecia, porém, que todas suspeitavam o mesmo; a morte de Francisco Salter.
Carlota receiava que as suas amigas julgassem possivel ter elle morrido; assentimento tal seria para ella uma especie de evidencia, porque tão pouco basta para certificar suspeitas entranhadas n'um espirito que a desgraça fez supersticioso. As outras calavam o presentimento funesto, cuidando que a matariam.
N'este conflicto, correu no Porto a noticia da morte de Francisco Salter de Mendonça. Ninguem sabia dizer por onde a noticia viera; os amigos, porém, do honesto e talentoso official de marinha contavam-se que elle morrera no Rio de Janeiro, quando a gloria o vinha buscar por uma carreira esperançosa de grandes destinos.
A noticia chegou ao convento. Souberam-a todas, excepto Carlota Angela.
Rufina caíu doente, e Dorothea denunciava-se á infelizmenina, evitando-a, quando mais anciosa de compaixão e carinho se sentia impellida para ella.
As freiras olhavam a pobresinha com mais piedade que nunca; animavam-a como se quizessem ter parte em seu coração para a salvarem pela amizade, quando houvessem de revelar-lhe a mortal noticia. Carlota estranhava os melancolicos olhares, os beijos e caricias de todas, a condolencia terna com que, as mais afastadas da sua convivencia, a vinham espairecer ao seu quarto.
Norberto de Meirelles procurara sua filha, n'esses dias em que a noticia vogava. Soror Rufina estava de cama; recebera primeiro o recado do pae de Carlota. Esta preparava-se para ir á grade, quando a anciada tia lhe disse:
—Vou-te aconselhar a desobediencia, minha sobrinha, e Deus me perdôe por sua immensa bondade. Não vás á grade. Eu tomo sobre mim a responsabilidade de mais um peccado.
E, voltando-se para a criada, mandou dizer a Norberto que sua filha não podia fallar-lhe; mas esperasse alguns minutos, que alguem iria em logar d'ella.
—E por que é isso, minha tia?!—perguntou a sobrinha admirada.
—Porque sim, minha filha. Receio que elle te venha fallar...—continuou balbuciante—em cousas desagradaveis.
E, sentando-se no leito, a febricitante religiosa, ajudada de Carlota, vestiu-se, e foi á grade encostada a Dorothea.
—Então a pequena que tem?—perguntou Norberto.
—Está doente.
—Já lhe chegou a noticia! Que tenha paciencia. Deus tudo faz pelo melhor...
—Tambem digo o mesmo—atalhou Rufina.—E o mano agora que lhe quer? Consolal-a?
—Quero dizer-lhe que é preciso mudar de rumo, e tirar o sentido do homem que morreu.
—Isso ha de dizer-se-lhe por outras palavras menos terminantes.
—Isso lá é bom p'rá mana; eu cá digo as cousas como sei.
—Pois sim; mas consinta que eu a disponha para o golpe, e depois tudo se lhe dirá com prudencia e caridade.
—Pois ella ainda não sabe que morreu o homem?!
—Não, mano; se a noticia fosse alegre, tinha-se-lhe dito; mas eu não acho necessario dar-se-lhe uma nova que a póde matar.
—Qual matar, nem meio matar!—replicou o brutal arrozeiro, tregeitando com os beiços carnudos um gesto de incredulidade—Pobre de quem morre, diz o dictado. Ainda é de bom tempo, cunhada. Isto de raparigas namoradas, são como as viuvas: choramigam oito dias, e ficam frescas como se não fosse nada com ellas.
—Está enganado. Pergunte a minha irmã, que tem coração de esposa e de mãe, se isso assim é. Estou bem convencida que ella fará um diverso juizo do soffrimento de Carlota. Emfim, mano, eu ergui-me da cama para vir aqui, e estou a tremer de frio e febre. Conceda que eu me retire, pedindo-lhe pelo divino amor de Deus que deixe ao meu cuidado revelar a noticia á desgraçada Carlota. O mais difficultoso é curar depois a ferida, se o golpe não for de morte: confio em Maria Santissima que não será.
—Pois então adeus—tornou Norberto, puxando para as orelhas a gola do capote de quartos.—Arranje cá isso do melhor modo, e diga-lhe que venha cá p'ra fóra, a ver se ella se tenta com algum de tres noivos, o qual melhor, que eu trago na mira. Se eu a quizesse casar com um morgado da provincia, fidalgo, e senhor de casa com capella, já me fallaram para isso; mas, a fallar a verdade, o que eu quero é homem de negocio, ou filho de negociante com dote á vista; não faço bem, cunhada?
—O mano lá sabe o que lhe convem; mas nunca faça calculos sem contar com a vontade de Carlota. Parece-me que lhe posso asseverar que ella não sairá mais d'este convento. Perdeu um esposo; mas o esposo verdadeiro, o esposo das almas angustiadas está cá dentro; é Jesus Christo, o unico bem que ha de entrar no coração espedaçado de Carlota, e cural-o com a esperança de encontrar na bemaventurança o primeiro que perdeu.
—Pois Carlota ha de ser freira?!—interrompeu com impetuosa grita Norberto, derrubando a gola do capote, que era de mais na cara afogueada pela ingrata nova.
—O mano faz um espanto—redarguiu mansamente Rufina—como se eu lhe dissesse que sua filha havia de praticar um crime!...
—É que eu não quero!...—redarguiu elle, batendo um troante murro na banqueta.
—O mano não quer; mas a sua vontade agora vae encontrar outra vontade sem comparação mais poderosa: é a vontade omnipotente do Senhor, que move os mundos e os corações. Não me disse, ha pouco, que Deus tudo fazia pelo melhor? Pois bem, póde ser que a divina vontade quizesse para as suas eternas nupcias a que havia de ser esposa de outro, que Deus chamou a si.
—Veremos como isso ha de ser. Em todo o caso eu quero minha filha cá para fóra. Não a creei para freira, tenho muito que lhe deixar.
—Tudo o que o mano tem póde varrel-o um ligeiro sôpro da desgraça. Modere a sua soberba, que não o castigue Deus, que abate os soberbos, e exalta os humildes. E, demais, a casa do Senhor não se abre só para as meninas pobres. Eu deixei um grande patrimonio quando aqui entrei, e vim achar uma riqueza incomparavelmente maior do que a que deixei: foi o esquecimento do mundo, e o amor sempre crescente de outro melhor. Ora, bem póde ser que sua filha se deixe namorar dos anjos, e rompa com os amores tranzitorios d'esta vida. Em summa, o que eu lhe digo, meu cunhado, é que minha sobrinha só póde ser salva pela religião; e eu, se Deus me achar digna, hei de estender-lhe a mão ao abysmo onde a lançaram, e encaminhal-a por onde eu vir que ella é menos infeliz. Não posso mais, estou fatigada e angustiada, adeus.
Norberto de Meirelles enfiou de novo a cara oleosa na pelucia da gola, sobraçou a enorme bengala encastoada de prata, e saíu do atrio do mosteiro com as ventas fumegantes.