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Nota de editor:Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.Rita Farinha (Jul. 2008)BIBLIOTHECADECLASSICOS PORTUGUEZESPROPRIETARIO E FUNDADORMELLO D'AZEVEDOBibliotheca de Classicos PortuguezesProprietario e fundador—Mello d'AzevedoCHRONICADEEL-REI D. AFFONSO VPORRuy de PinaVOL. I[Illustration]ESCRIPTORIO147—Rua dos Retrozeiros—147LISBOA1901Duas palavras de introducçãoEl-reiD. Manuelencomendou com grande efficaciaa Ruy de Pina a chronica de D. Affonso V. E elle escreveu baseado em informações e nos documentos que poude alcançar, com uma sinceridade notavel em chronista de palacio occupando cargos de confiança regia.Parcial todavia, pouco inclinado a cousas de Hespanha e da nobreza, conta-nos a historia d'esse periodo de fórma que parece preparar o espirito do leitor para as grandes luctas do reinado seguinte.A historia da épocha de D. Affonso V importa ao estudo da nacionalidade portugueza em qualquer ponto de vista. Affirma-se a auctoridade real, apezar das prodigalidades do rei, a independencia da nação em combates rijos, a expansão ultramarina define-se com o arrojo dos navegantes e dos homens de guerra, a cultura dos espiritos sóbe, os costumes policiam-se, attende-se a melhoramentos materiaes nas povoações.A propria figura do rei desperta vivamente a attenção; os seus primeiros annos passaram num meio agitado, difficil, triste talvez, pelas luctas palacianas, mas util para a formação de espirito culto pela frequencia, provavel, de homens superiores como os infantes D. Pedro e D. Henrique. Pelo que nos conta Ruy de Pina foi lastima que Affonso V fosse rei, porque era bom de mais, com sua parte de phantasia mansa.Era um sereno, depiadosa condição,familiar, grande amador de musica e de livros, e tambem de emprezas arriscadas.Quando a Excellente Senhora professou, grassava em algumas cidades do paiz o contagio com grande intensidade, elle desconsolado quiz deixar a governança, queria ser leigo no seu mosteiro do Varatojo.Como era generoso e pouco calculista, sem sentir, pouco a pouco, foi accumulando de mercês certos fidalgos insaciaveis, o que originou depois a grande lucta dos primeiros annos de João II.N'esses quadros agitados destacam-se figuras principaes como o infante D. Pedro, o das sete partidas, e D. Henrique o navegador, sempre com a sua idéa fixa de descobrir terras, os condes de Viana, e de Avranches, grandes senhores, e aquelle singular bispo D. Garcia de Menezes tão brilhante orador e guerreiro que tristemente encerrou a sua vida.Outros vultos de raro perfil movimentam ainda a épocha, D. Pedro o rei intruso de Aragão, filho do infante D. Pedro, erudito, collecionador de livros e medalhas, o duque de Borgonha, a Excellente Senhora. No meio das luctas e intrigas estrondea o casamento de D. Leonor. Depois das gloriosas jornadas de Alcacer, Tanger, Anafé e Arzilla, a ida para França.O chronista não esquece os movimentos populares,as luctas na cidade de Lisboa, as uniões e alvoroços; nem a lucta contra o Turco que em 1480 quasi se assenhoreou do Mediterraneo.Hoje conhecemos outros documentos, os antecedentes da Alfarrobeira estão mais esclarecidos, papeis de aleivosia como o testemunho do escudeiro João Rodrigues correm impressos.Ha documentos tambem para o modo de viver da épocha que em geral não mereceram attenção aos chronistas, os que dizem respeito a costumes, a questões economicas, ao direito. A publicação das Ordenações, começadas em tempo de João I.º é facto capital. Em chronicas francezas encontram-se noticias de valor, ainda não approveitadas. Finalmente será preciso estudar noutra parte, e hoje ha muitos elementos publicados, o admiravel esforço do infante de Sagres, e da sua gente, n'este periodo, nos gloriosos descobrimentos dos novos caminhos maritimos, dos archipelagos do Atlantico revelados successivamente,G. Pereira.PROLOGOdaChronica do Mui Alto e Mui Poderoso PrincipeEL-REI D. AFFONSOD'ESTE NOME O QUINTOE dos Reis de Portugal o duodecimo, dirigido ao muito alto e muito excellente Principe, El-Rei D. Manuel, seu sobrinho, nosso Senhor, por cujo mandado Ruy de Pina, Cavalleiro de sua casa e seu Chronista Mór e Guarda Mór da Torre do Tombo, nova e primeiramente a compozO maissingular e mais proveitoso conselho, Serenissimo Rei, que Demetrio Phalereo, philosofo mui sabedor, deu ao grande Tholomeu, Rei do Egypto, para sobre todolos Reis de seu tempo poder ser mais excellente, foi que procurasse de vêr, e ter por mui familiares os livros, principalmente aquelles, em que os virtuosos costumes e claros feitos dos illustres Reis e Principes passados fossem verdadeiramente escriptos: amoestando-o que com vivo cuidado os lesse e ouvisse: nem era sem causa; porque,como mui prudente, sabia que os livros, posto que sejam conselheiros mortos, sempre porém ensinam e dão verdadeiros e sãos conselhos, mui livres e isentos das paixões dos conselheiros vivos, dos quaes muitas vezes por não saberem, e outras por não quererem, e muitas mais por não ousarem, se nega e esconde a clara verdade, que a seus maiores e Senhores pospõem ás proprias inclinações e paixões d'affeição, odio, lisonjaria, interesse ou temor, que são causa da mais certa queda, e principal destruição de reinos e senhorios. E por tanto, muito poderoso senhor, no conhecimento dos bons exemplos e das cousas passadas, de que a Historia é um vivo espelho, e os livros são fieis thesoureiros, se recebe, para não errar, conselho sem paixão, e doutrina sem receio, de que á Humanidade e ao Estado Real principalmente se segue um mui seguro proveito, e por isso a Deus grande e mui assignado serviço.E posto que das Chronicas e lembranças escriptas das perfeitas bondades e memorandas façanhas dos claros barões não naturaes e estrangeiros, quando as lemos e ouvimos, logo nos movem para aborrecer os vicios, e com uma virtuosa inveja de seus gloriosos exemplos, nos espertam e guiam para o caminho de suas louvadas virtudes e fama; porém, outra differença de vergonha, outra viveza de gloria, outro acendimento d'esforço sentimos logo em nossos corações, quando lendo topamos, e com tento esguardamos nas excellentes virtudes e prosperas empresas de nossos proprios naturaes, e maiormente d'aquelles de que descendemos; porque tanto mais nos acendem e obrigam para os semelharmos e seguirmos, quanto a certa verdade de suas virtuosas obras e grandes feitos é de maior contententamento e mais chegada a nosso fresco conhecimento, com que a não duvidamos.E por esta tão urgente causa e bem tão universal, e principalmente por honra e gloria de vossos reinos de Portugal, Vossa Mui Real Senhoria, como virtuoso Rei mui piedoso e verdadeiro successor d'elles que é, sabendo que a memoria das reaes virtudes e feitos imperiaes do mui glorioso Rei D. Affonso o quinto, vosso tio e predecessor, cujo irmão legitimo era o mui illustre Infante D. Fernando vosso padre, por negligencia sua ou mingoa d'escriptores não eram já do escuro esquecimento menos gastadas, que sua carne e seu corpo que a terra comia: por mais illustrardes vossa legitima descendencia, e vossa corôa real não ficar sem uma guarnição de pedraria tão preciosa, como é sua clara e louvada memoria: e assi por Vossa Alteza mostrar um santo ensino e maravilhoso exemplo de Rei, encommendou com grande efficacia a mim Ruy de Pina, Cavaleiro de vossa casa, Chronista Mór de vossos reinos e Guarda Mór da Torre do Tombo d'elles, que, quanto á minha deligencia e entendimento fosse possivel, trabalhasse de haver as cousas notaveis de seu tempo, e para sua Chronica mais necessarias, e a compozesse. E como quer, muito poderoso Rei, que a carrega e peso d'esta Obra, por ser tão digna e tão necessaria, e com desejo e cuidado tão virtuoso, como é este vosso, já foi outras vezes posta e encommendada sobre os hombros e forças d'outros chronistas d'estes reinos, que ante mim foram pessoas de singular doutrina e mui sufficientes: e por suas grandes e desesperadas difficuldades e peso incomportavel, elles nem sómente a moveram; porém eu que para vencer e passar com ella caminhos já tão cerrados e de tanta aspereza e escuridão, convertidas já em uma manifesta impossibilidade, por vir ao fim de vosso desejo e esperança, tomei por guia e salvo conduto de tantos temores vosso mandado e o vivodesejo que sobre todos em mim sinto de sempre bem e lealmente servir Vossa Real Senhoria, e inteiramente lhe obedecer: confiando que ao menos, pelo merecimento de minha obediencia, algum tanto serei relevado do erro da ignorancia e temeraria ousadia com que emprendi e acabei esta real e mui verdadeira chronica, cuja sequencia é n'esta maneira.CHRONICAdoSENHOR REI D. AFFONSO VCAPITULO INarraçãoO muito alto e muito excellente Rei D. Duarte, d'este nome o primeiro, e onzeno dos Reis de Portugal, acabou sua desejada e necessaria vida com claros signaes de grande contrição, e com certo testemunho de salvação de sua alma, em a Villa de Thomar, quinta feira IX dias de Setembro, anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil e quatrocentos e XXXVIII: no qual dia por espaço de duas horas o sol em grande cantidade foi cris, assi como tambem o foi na hora do fallecimento d'El-Rei D. João seu padre, e da RainhaD. Filippasua madre. E as cousas que de sua antecipada morte se conjeituram, e aos autos de prantos e tristezas que se n'ella não podiam escusar, e como foi levado ao mosteiro da Batalha, onde jaz sepultado, em sua Chronica, onde propriamente pertence, com maior declaraçãoestãoapontadas.E por seu fallecimento ficaram legitimos dois filhos e quatro filhas: I o Principe D. Affonso filho seu maior, primogenito herdeiro, que logo foi alevantado por Rei, que de sua edade havia seis annos e entrava em sete: e o Infante D. Fernando, padre d'El-Rei D. Manuel nosso Senhor: e a Infante D. Filippa, que no anno que o dito Rei falleceu se finou em Lisboa de onze annos: e a Infante D. Lyanor, que foi imperatriz d'Allemanha: e a Infante D. Catherina que sem casar falleceu e jaz em Santo Eloy de Lisboa: e a Infante D. Joanna, de que a Rainha D. Lyanor ficou prenhe, e foi Rainha de Castella, casada com El-Rei D. Anrique, o quarto d'este nome.E ficaram outrosi vivos estes irmãos d'El-Rei D. Duarte, filhos d'El Rei D. João I; o Infante D. Pedro, que era duque de Coimbra: e o Infante D. Anrique, que era duque de Vizeu e tinha o Mestrado de Christus: e o Infante D. João, que era Condestabre do Reino e tinha o Mestrado de Santiago: e o Infante D. Fernando, que então era captivo em Fez e tinha o Mestrado d'Aviz: e a Infante D. Izabel, legitima duqueza de Borgonha, casada com o duque Filippe: e D. Affonso conde de Barcelos, que depois foi duque de Bragança, que era filho natural d'El-Rei D. João.Ao tempo que o dito Rei falleceu não eram em Thomar outras pessoas principaes, depois do Principe D. Affonso e seu irmão, salvo a Rainha D. Lyanor sua mulher, filha d'El-Rei D. Fernando d'Aragão, e o Infante D. Pedro, irmão primeiro legitimo d'El-Rei: o qual, por dar ordem ao alevantamento d'El-Rei D. Affonso seu sobrinho, e ás outras cousas que pertenciam para bem do reino, ficou na dita villa e não foi com o corpo de seu irmão, a que não falleceu outra muita e honrada companhia.CAPITULO IIAlevantamento d'El-ReiEraquinta feira logo seguinte, dez dias do dito mez: o Infante D. Pedro, como Principe a que das cerimonias reaes e das outras cousas em que cabia descrição e virtude nada s'escondeu, fez fazer antre o convento e os paços do castello da dita villa um assentamento assi real e ricamente guarnecido, como para o auto cumpria. E á bespora do dito dia, o Infante com todolos fidalgos e nobre gente da côrte foram aos paços d'El-Rei, que eram dentro no convento, vestidos por então os corpos dos panos mais ricos, mas as almas e caras de clara tristeza, que em todos não era fingida, mas verdadeira e justa, assi pela privação d'El-Rei, que era muito virtuoso e para todos de grande humanidade e boa condição, como por lhes os corações revelarem as grandes divisões e muitos trabalhos, em que pela soccessão de tão novo Rei se haviam de vêr, como viram.O Principe D. Affonso posto em vestiduras reaes, e bem acompanhado de todos, sahiu fóra ao assentamento, onde pelo Infante D. Pedro com grande reverença, e muito acatamento foi posto na cadeira real. E emquanto um Mestre Guedelha, singular fysico e astrologo, por mandado do Infante regulava, segundo as influencias e cursos dos planetas, a melhor hora e ponto em que se poderia dar aquella obediencia: o Infante volveu a contenença ao povo, e com grão segurança e palavras mansas disse:«Como quer que, o dia d'hoje com muitos dos que virão, teriamos justa causa dar lugar a nossos olhos,que com muitas lagrimas testemunhassem a dôr e perda que recebemos na morte de um Principe tão catholico e tão virtuoso, e tão necessario a nós todos como foi El-Rei meu Senhor e irmão, cuja alma Deus haja: devemos, porém, consirar como catholicos e de razão, que, pois em escusar sua morte não ha remedio, que duas cousas sómente nos ficam, para que a Deus e ao mundo certefiquemos o amor e boa vontade que lhe tinhamos. A primeira, em nossas orações, jejuns e obras meritorias havermos sua alma em memoria para a encommendarmos a Deus. A segunda, este ramo em todolos signaes de virtudes tão florecido, que de seu real Tronco naceo, que é o mui excellente Princepe D. Affonso seu filho nosso Senhor, que temos presente, havermo-lo de reconhecer, servir e amar por nosso só natural e verdadeiro Rei e Senhor, como o requere nossa mui antiga e costumada lealdade, e o Direito nos obriga. E, porém, vo-lo apresento aqui para o assi em todo o reconhecerdes, e vos encommendo da sua parte, que para o assi fazerdes não hajaes respeito á sua nova idade, mas ás velhas obrigações em que para isso lhe soes e sua Real Senhoria nos dá já uma mui certa esperança d'acharmos n'elle honra, mercê, favor e justiça, como cada um o merecer e lh'o requerer.»E em dizendo Mestre Guedelha, que era boa hora para fazer sua obediencia, o Infante com os giolhos em terra tomou as mãos ao Principe, e em lh'as beijando disse:«Muito alto e muito excellente Senhor, assi como vos eu hoje ponho n'esta seda, em que vós por graça de Deus legitimente recebeis o real Septro e senhorio d'estes vossos reinos, assi espero com sua ajuda e minha grande lealdade de vo-los ajudar a manter e deffender com todas as minhas forças e poder, e saber,quando me vossa Mercê mandar, ou eu sentir que cumpre a vosso estado e serviço.»E com estas palavras acabando se alevantou.E logo D. Duarte de Meneses, alferes mór, filho do conde D. Pedro de Meneses, primeiro capitão de Ceuta, com a bandeira real levantada, e os reis d'armas e arautos com elle começaram alli sua grita, e depois com ella foram pela villa, repetindo-a tres vezes, segundo custume, com toda aquella cerimonia e solemnidade que a tal auto real pertencia; porque o Infante D. Pedro, por cuja ordenança e mandado se fazia, era Principe n'aquellas cousas mui ensinado, e quiz n'aquelle auto que não ficasse cousa dina por fazer: assi porque assi o requeria sua grande bondade e a muita lealdade em que nascêra: como por mostrar a muitos de damnadas maginações, e á Rainha D. Lyanor principalmente, que aquella fôra sempre, e era sua leal e verdadeira tenção d'obedecer, e não a outra falsa de querer por força reinar, como lhe faziam crêr que elle desejava. Porque a Rainha, como quer que sempre foi muito honesta, virtuosa, prudente, devota e muito amiga da vida e honra d'El-Rei seu marido: porém sempre em sua vida mostrou ao Infante D. Pedro que não lhe tinha boa vontade: e as causas porque assim fosse eram occultas para culpar o Infante, salvo se procedessem de induzimentos alheios, que em sua feminil fraqueza de ligeiro fariam impressão, ou por ventura procederia das imisades que foram entre El-Rei D. Fernando d'Aragão, pae da rainha, e o conde d'Urgel, pae da Infante D. Izabel, mulher do dito Infante D. Pedro, que pertendeu por direito na successão d'Aragão, e foi d'El-Rei n'ella vencido.CAPITULO IIIDe como começaram de entender nas cousas do reino, e se viu o testamento d'El-ReiTantoque a Rainha viu seu filho alevantado por Rei, logo fez chamar á sua casa o Infante D. Pedro, e o Arcebispo de Lisboa, D. Pedro de Noronha, primo com irmão de seu pae d'ella, e as outras principaes pessoas que hi eram. Perante as quaes, em presença de notairos publicos, fez abrir e lêr o testamento d'El-Rei seu marido, em que foi achado ella, sem ajuda d'outra pessoa, ficar in solido testamenteira de sua alma, e titor e curador de seus filhos, e regedor do reino, e herdeira de todo o movel. E encommendou n'elle muito que, por dinheiro, ou captivos, ou por outra qualquer maneira tirassem de poder dos mouros o Infante D. Fernando seu irmão; e quando por semelhantes meios não fosse possivel, que então Ceuta sem escusa se desse por elle; da qual publicação a Rainha por sua guarda mandou tomar estromentos, e começou logo a usar do regimento inteiramente sem alguma publica contradicção: como quer que alguns seus servidores avisados e virtuosos, e que de verdade amavam sua vida, honra e descanso, logo sã e secretamente lhe disseram em conselho n'esta maneira:Conselho que se deu á Rainha«Senhora, o peso d'este cargo de reger, que assi soltamente tomaes, é mui grande e tal, que muitos barões abastados de fortaleza de coração e de prudencia o receáram. E por serdes mulher e ainda estrangeira,como quer que para isso haja em vós sã consciencia e conhecidas virtudes com mui santo desejo, em caso que não houvesseis n'elle alguma contradicção, certo duvidamos que o possaes soffrer; porque Vossa Senhoria ha-de consirar que são n'este reino tres Infantes, grandes Principes, e de muita autoridade, e naturaes da terra, que hão d'estimar por quebra e abatimento de seus estados serem regidos por mulher, especialmente não natural nem herdeira, como vós sois, e que o por suas bondades e assessego de todos quizessem consentir, não falleceriam outros amigos de novidades, que lh'o fariam sentir e obrar por outra maneira: de que se não podem escusar odios, escandalos e outros muitos males, em especial claros impedimentos para vós, nem elles estes reinos poderdes reger, como a serviço de Deus e d'El-Rei, e bem d'elles cumpre: de que vos muito deve pesar. E não vos fieis nos offerecimentos e muita parte que vos muitos de si agora prometem, para crerdes que o esforço d'estes enfraquentára o dos outros; porque em fim todos, ou a mór parte hão de seguir a vontade dos Infantes, qualquer que fôr, quanto mais que já agora pelas praças se solta, que El-Rei nosso Senhor, vosso marido, que santa gloria haja, vos não podia leixar este cargo de reger: cá este poder demleger regedor do reino era sómente ao reino e aos tres estados d'elle reservado; e d'onde isto agora sae de presumir é que mais jaz. Pelo qual nosso conselho seria, que agora com prazer e assessego vosso, e do reino, consirados todos estes inconvenientes, leixasseis assi de vossa vontade este regimento, antes que depois o leixardes forçada, ou impedida de vossa natural fraqueza, ou de outras forças maiores: o que deve ser com pouca honra e contentamento vosso. E a vós, Senhora, bem abastara terdes cuidadoda criação de vossos filhos, e do descargo d'alma d'El-Rei vosso marido, que são cousas assás grandes, honradas e honestas.»A Rainha, como era senhora de bom entender e de tenção sã, e conforme em todo ao serviço de Deus, pareceu-lhe bem este conselho, e quizera-o seguir; mas não falleceram logo outros, que com outras razões córadas ao revés d'estas, a mudaram d'este proposito, e fizeram tomar determinação de todavia reger só: dando-lhe estes, por principal causa, a segurança da vida e estado de seus filhos, que em poder do Infante D. Pedro lhe faziam crêr que não seriam muito seguros, por ser principe poderoso, amado do povo, e tinha filhos, e podia n'elle entrar o desejo de reinar, que vence todolos outros; e assi venceria n'elle a divida lealdade para o executar.CAPITULO IVDa vinda do Infante D. Anrique à côrte, e das cousas que se logo acordaramO Infante D. Anrique, depois da vinda do cerco de Tangere, que veiu fallar a El-Rei seu irmão a Portel, como anojado do captiveiro do Infante D. Fernando, seu irmão: e por o feito se não seguir, como desejava, se tornou logo ao reino do Algarve, sem mais tornar a este; e como lá foi avisado da doença d'El-Rei, pelo grande amor e muita lealdade que lhe tinha, partiu logo: e assi trigou suas jornadas, que em mui poucos dias chegou a Thomar, onde já achou El-Rei fallecido. Mas a Rainha, e o Infante D. Pedro, e toda a côrte, vendo-o com sua tristelivré, renovaram com sua vista outros prantos maiores, nem era sem razão; porque n'elle pareciam signaes de tanta tristeza, e dizia palavras de tanto sentimento, que aos dormentes na dôr espertava para chorar, e ser tristes.A Rainha depois d'esto enviou chamar o Infante D. Pedro, e lhe disse:«Senhor Irmão, porque sinto que é necessario dar-se ordem e remedio ás cousas do reino, que estão ora suspensas, eu vos rogo muito que tomeis cuidado de ter em vossa casa conselho: e Vós, e o Infante vosso irmão, com os principaes que aqui são, apontae o que em taes tempos e casos convem que se faça: e trazei-m'o para o vêr, e me acordar comvosco e se fazer o que fôr serviço de Deus, e d'El-Rei meu filho, Senhor, e bem de seus reinos».A qual cousa se poz logo em execução, e se teve conselho, em que foi acordado que aos embaixadores de Castella, que hi eram por despachar, fosse por então respondido, que esperassem a vinda dos grandes do reino, com que El-Rei ordenava de fazer côrtes e ter conselho: e que logo haveriam resposta.E estes embaixadores vinham a El-Rei D. Duarte, e chegaram ao tempo de seu fallecimento; e as pessoas que eram, e o que requeriam, e com quefundamento, ao diante se dirá.Acordaram outrosi, por quanto em Castella começava d'haver movimentos, que pareciam principios de guerra, que os alcaides das fortalezas dos estremos fossem avisados sobre bôa guarda e defensão d'ellas: e assi que se fizesse o geral acostumado chamamento, para o saimento que se havia de fazer na Batalha, e côrtes em Torres Novas. E as cartas, que sobre isto haviam de ir, acordou o Infante D. Anrique com os do conselho, que fossem assignadas peloInfante D. Pedro; mas elle com mostrança de muita honestidade se escusou: e a Rainha assignou aquellas, e todalas outras até ás côrtes; porque n'ellas se acordou outra ordem de Regimento, como se dirá.E assi tomou cuidado a Rainha de cumprir aquellas cousas do testamento d'El-Rei, que logo cumpriam de se acabar. E de todo o movel que lhe foi leixado tomou para si a capella e reposte, e repartiu as cousas de guarda-roupa e estrebaria por essas pessoas a que lhe parecia razão, e a que mais afeiçoada era: não se esquecendo prover com vestimentas, das roupas e pannos de seda que ficáram, a algumas egrejas e mosteiros, em que sentiu que podia d'isso haver necessidade.CAPITULO VComo o Infante D. Fernando foi jurado por Princepe, se El-Rei não houvesse filho legitimoEstandoassi estes Senhores em Thomar, esperando o tempo do saimento e côrtes, foram alli juntas quasi todolas pessoas principaes do reino, com esperança e certidão de futuras mudanças, salvo o Infante D. João, que era doente em Alcacere do Sal, a que por grande resguardo da Infante sua mulher, a morte d'El Rei seu irmão não foi descoberta se não depois que foi retornado em sua saude, a que não fossem contrairas novas para elle tão tristes. E sendo presentes em conselho os Infantes e o conde de Barcellos seu irmão, e o Infante D. Pedro propoz logo primeiro dizendo:«Senhor irmão, e honrados senhores fidalgos que aqui estaes, bem vêdes que a nova idade d'El Rei nosso Senhor assi n'elle, como nos outros meninos, é sojeita a muitos casos e desastres, de que Deus nossoSenhor o guarde e defenda. E porque d'aqui até que sua Mercê tenha idade e desposição para casar e haver filhos, se passará bom espaço de tempo: meu voto é, por sermos fóra d'algumas duvidas que por sua morte em tal tempo podiam sobrevir, que o Senhor Infante D. Fernando seu irmão, seja logo aqui intitulado e jurado por Principe e seu herdeiro, até que a Deus praza de dar a El-Rei nosso Senhor filho que de tal nome se possa intitular, e o sobceda: e n'isto não sómente faremos o que é necessario, mas ainda pagaremos o que devemos a nossa lealdade, e ao grande amor que tinhamos a El-Rei meu Senhor e irmão, e ao que somos certos que nos elle tinha. E este tempo é tal, em que estas obrigações se devem a seus filhos pagar, em todo o que redunda em suas honras, estado e serviço».Acabou o Infante sua proposição, em que não foram necessarias mais razões para suas sinas, para se louvar, e haver por justa e bôa sua tenção. Pelo qual os Infantes e o Conde de Barcellos, e os outros senhores que eram presentes, por si e por todolos do reino logo fizeram d'isto um auto solemnisado por juramento, perante notairos publicos, em cumprimento do qual o Infante D. Fernando se chamou e intitulou por Princepe, até que El-Rei houve filho.CAPITULO VIPrimeiro consentimento da Rainha para El-Rei seu filho casar com a filha do Infante D. PedroA Rainha por este accordo e determinação de que foi certificada, recebeu em sua tristeza muita consolação, e em seus cuidados descanço, e em seus receios grande segurança: especialmente porser d'ella inventor e principal movedor o Infante D. Pedro, em quem, pelas causas que já toquei, lhe faziam sem causa ter suspeitas, a seus filhos perigosas, e a ella desleaes; como quer que por elle nunca foram cuidadas, nem por alguma obra, nem congeitura fossem sentidas. Pelo qual, como Senhora virtuosa e agardecida a boa vontade e obras que o Infante D. Pedro começára de mostrar, mandou logo a elle o doutor Ruy Fernandes com esta mesagem:«Senhor, diz a Rainha nossa Senhora, que por saber bem o grande amor que vos El-Rei seu Senhor tinha, e o desejo que sempre teve para vossa honra e acrecentamento: e como, em cumprimento de sua tenção leixou dito a Frei Gil de Tavulla, seu confessor, que sua derradeira vontade era, que o Principe seu filho casasse com D. Isabel vossa filha; que assi por cumprir principalmente a vontade d'El-Rei seu Senhor, como por vos mostrar com obras de vossa honra e contentamento, o contrairo do que por ventura vos fazem d'ella crêr: e des-hi, porque vê que é este um dos melhores casamentos do mundo que a El-Rei seu filho, Senhor, agora melhor pode vir, lhe apraz que este casamento logo entre ambos se faça; e que para isso vos envia por mim seu consentimento, que por ventura atégora haverieis por duvidoso, e não tão certo.»CAPITULO VIIResposta do Infante D. Pedro á RainhaO Infante, como ouviu este recado, em que viu o cabo de sua bemaventurança, com o coração cheio de alegria, e os olhos por isso não vasios de lagrimas, disse:«Doutor amigo, dizei á Rainha, minha Senhora, que lhe beijo as mãos por tamanhas duas mercès, como em sua embaixada me mandou offerecer: cá uma, de sua Senhoria haver por bem que este casamento se faça, é a maior que para mim pode ser. E a outra não na estimo em menos; pois se lembrou de m'a fazer sem meu requerimento. E que álem da paga principal que n'isso recebe de suas muitas virtudes, prazerá a Deus que eu a servirei por maneira que se não arrependa d'este seu proposito: mas que por agora me não parece tempo conveniente para isso, assi por a pouca idade d'El-Rei meu Senhor, em que se não perde tempo, como pela tristeza geral, em que com tanta razão todos seus vassallos estamos; e que sua Senhoria haja por bem que isto se alargue mais alguns dias, nos quaes se procurará a dispensação que se requer, e o povo perderá parte d'este sentimento, e se poderá fazer então melhor e com mais honestidade, e com aquellas cerimonias e festas que se a taes pessoas deve.»CAPITULO VIIIContradicção que houve em algumas pessoas no consentimento do casamento d'El-Rei com a filha do Infante D. PedroO consentimento e prazer da Rainha ácerca d'este casamento, não foi egualmente recebido nos corações de todos os que alli eram: cá uns o aprovavam com prazer e sem paixão, e outros com tristeza, odio, inveja e cobiça, o não podiam padecer. E entre alguns d'estes que hi havia, o principal, diziam, que era o conde de Barcellos, a quem pareciaque da conclusão e outorga d'este casamento pesava muito. E, como quer que em publico o não contradissesse, procurava porém secretamente, por meio do Arcebispo D. Pedro, de Lisboa, a quem a Rainha dava muita fé, e não tinha boa vontade ao Infante D. Pedro, como do que ácerca d'este casamento lhe tinha prometido, ella se desdissesse, com fundamento de trabalhar com toda sua possibillidade que El-Rei casasse com sua neta, D. Isabel, filha maior do Infante D. João; porque o conde de Barcellos, como já disse, foi filho natural d'El-Rei D. João, e teve tres filhos legitimos da filha do Condestabre D. Nuno Alvares Pereira, com quem primeiro casou: saber D. Affonso, conde d'Ourem; e D. Fernando, conde d'Arrayolos: e a Infante D. Isabel, mulher do Infante D. João; e por falecimento da filha do Condestabre casou com D. Costança de Noronha, filha do conde de Gyam e irmã d'este Arcebispo, que elle com razão amava muito; porque n'ella havia assaz de virtudes e fremosura e outras bondades, porque o bem merecia: e d'ella não houve filho nem filha, e por seu respeito o conde de Barcelos amava muito todas suas cousas d'ella, e em especial seus irmãos, entre os quaes o principal era o Arcebispo, asi por sua idade maior, como por sua denidade; e por isso o conde fiava d'elle, e lhe encarregava a estorva d'este casamento d'El Rei com a filha do Infante D. Pedro: e não falleciam outros que o n'isso assaz ajudavam. Da qual cousa o Infante por seus meios foi logo avisado: e como era prudente e discreto, não lhe esqueceu o que geralmente se crê e afirma da inconstancia e pouca firmeza que muitas mulheres por sua natural condição tem, quão ligeiramente se movem. Pelo qual, por segurar o passado, foi logo fallar á rainha, pedindo-lhe com palavras em que havia muita razão e honestidade,que da mercê e consentimento que lhe tinha prometido ácerca do casamento d'El-Rei com sua filha, lhe desse uma certidão e segurança assignada por ella; do que a Rainha muito aprouve, e encommendou ao Infante que a fizesse, como fez, em um Alvará, na fórma que cumpria: e Ella o assignou e lh'o deu, que o tivesse.CAPITULO IXDe como se fez o saimento d'El-Rei no mosteiro da BatalhaEl-Reie o Principe seu irmão, e a Rainha e Infantes, e outros muitos prelados e condes, e senhores do reino, partiram de Thomar para o mosteiro da Batalha no fim do mez d'Outubro, que era o termo, a que as gentes, para o saimento d'El-Rei, se haviam n'elle de ajuntar, e des-hi para as côrtes em Torres Novas, e por estas ceremonias de saimentos, que aos Reis e Princepes, depois de suas mortes, em suas reaes sepulturas se fazem, serem tão geraes e tão costumadas em Espanha e assim n'estes reinos de Portugal, que pela mór parte todos hão d'ellas noticias e informação: por fugir o vicio e avorrecimento da proloxidade, a mim pareceu escusado descreve-lo aqui particularmente, e sómente abaste brevemente saber que na pompa e cerimonias de suas exequias se guardou e cumpriu todo o que ao estado de um tão alto Principe em tal auto cumpria; e nos bureis e lutos dos corpos de todos, e nas lagrimas geraes de todolos olhos, e na commum tristeza de todolos rostos, em todo o reino claramente pareciaquanto em sua vida era de todos amado, e a grande perda e desamparo que, por sua morte e pelo perder, todos recebiam.CAPITULO XComo ante de se fazerem as primeiras côrtes em Torres Novas, se fez uma conjuração contra o Infante D. PedroAcabadoo saimento, assi como alli eram juntos, assim se foram todos a Torres Novas, onde por dar logar que alguns alcaides e outras pessoas acabassem de vir, para fazer as menagens e dar a obediencia a El-Rei, sem se começarem as côrtes se passaram alguns poucos dias: nos quaes por meio principalmente de Vasco Fernandes Coutinho, marechal, que depois foi primeiro conde de Marialva, foram liados por juramento contra o Infante D. Pedro casi todolos fidalgos do reino, em que entravam, por mais principaes, o Arcebispo D. Pedro, e D. Sancho seu irmão, e o priol do Crato D. Frei Nuno de Goes; os quaes juntos secretamente em uma egreja, o marechal, como quer que outros hi estivessem de mór valor e auctoridade, elle para os mais commover a seu proposito, porque tinha para isso audacia, lhe fez uma falla com largas razões, cuja sustancia foi:«Que o regimento do reino e criação d'El-Rei e seus irmãos por disposição do testamento d'El-Rei ficára, como sabiam, que não saisse do poder da Rainha; o que elles deviam requerer e procurar que se cumprisse; assi por ser razão, como por a Rainha ser mulher estrangeira, da qual por se mostrarem emfavor de seu serviço e tenção sempre receberiam honra, favor, mercê e acrecentamento; e por isso deviam trabalhar que não viesse em maneira alguma ao Infante D. Pedro, de cujos rigores e mostranças suas falsas, que fazia ao povo, de justo e sã conciencia, não podiam receber se não o contrairo; e que isto lhes seria facil de fazer; porque por parte do Infante D. Pedro, quando muito podesse ser, seria povo e gente meuda, que sem cabeceiras não teriam forças nem dariam ajuda, e que por a sua d'elles eram os que estavam presentes com outros muitos que logo seriam com elles; e mais cria do Infante D. Anrique, e sabia do conde de Barcellos, que seriam em sua ajuda, pedindo-lhe em conclusão, que o houvessem todos assi por bem, e o affirmassem, e segurassem com juramento.»Do que a todos aprouve, e o poseram em escripto, que logo juraram.Mas, como quer que n'isto entrassem grandes homens, e de muita auctoridade, porém seus signaes e juramentos tiveram d'hi a pouco pouca firmeza; todos os mais se desdisseram e acostaram á banda do Infante D. Pedro e dos outros Infantes que foram com elle; porque n'aquelle tempo todo o reino finalmente estava á vontade e disposição dos filhos e netos d'El Rei D. João.E d'este ajuntamento assi jurado, que á rainha logo foi notificado, porque confiou n'elle muito mais do que devera, se lhe seguiu todo seu damno, perda, desassocego, e emfim a morte, não como a seu estado cumpria; porque crendo, que n'estes para seus feitos haveria a firmeza que juraram e lhe prometteram, não se contentou no principio d'estes movimentos d'alguns meios bons e honestos, que lhe foram apontados; do que a ella pelos não acceitar se seguiumuito mal, e ao reino, e a muitos d'elles pouco bem, como se dirá.CAPITULO XIComo se deu a obediencia e fizeram as menagens a El-Rei e se praticou sobre quem regeriaAssignadoo dia da proposição das côrtes, El-Rei teve seu estrado e Real Estado em uma pequena praça, que se faz ante a egreja de Santiago d'aquella villa, onde todolos senhores e officiaes e procuradores dos povos postos em sua costumada e antiga ordenança, começou e fez arenga, que para tal auto se requere e costuma, o doutor Vasco Fernandes de Lucena, mui elegante e cheia de mui dôces palavras e graves sentenças para aquelle caso da obediencia; e com necessarias e vivas razões exortou todolos que eram presentes para a fazerem; como a arenga foi acabada os Infantes primeiro, e des-hi os condes e os outros senhores deram logo suas menagens e obediencias a El-Rei, segundo sua boa e devida lealdade; e começaram logo de mover sobre quem teria o regimento do reino, que das côrtes era o ponto mais sustancial, no que houve entre todos grandes desvairos; porque os mais se mostravam segundo opinião das parcialidades que tinham, justificando cada uns suas tenções, e aos menos, que haviam respeito ao bem commum e assessego do reino, não eram recebidos nem ouvidos seus meios.CAPITULOXIIConcordia feita entre a Rainha e o Infante D. Pedro acerca do regimentoE porque a competencia e deferença do regimento não era principalmente salvo entre a Rainha e o Infante D. Pedro, a Rainha, como senhora, que de sua virtuosa condição desejava todo o bem e assessego, sentindo os malles e damnos que d'estas diversões se podiam seguir, pelos atalhar com alguma justa concordia, enviou rogar ao Infante D. Pedro por meio do Infante D. Anrique, que lhe fosse falar: do que o Infante foi muito alegre; e, escolhendo para isso tempo conveniente, satisfez logo a seu requerimento: e, sendo ambos sós apartados, a Rainha lhe disse muitas rasões sobre o desvairo do regimento, em que bem pareceu que havia n'ella muita virtude, sã conciencia e grande discrição e justo juizo, concluindo que lhe rogava que ambos sem outro meio se quizessem sobre isso concordar.O Infante D. Pedro, como era Principe justo, bom, e temente a Deus, foi de suas palavras assaz contente; e com outras de grande reverencia e acatamento lh'as teve muito em mercê; e depois d'alguns meios, sobre que entre si debateram, finalmente foram acordados d'esto:«Que com a Rainha ficasse o cargo da criação de seus filhos, e com a governança e ministração de toda a fazenda; e ao Infante ficasse o regimento da justiça e o titulo de defensor dos reinos por El-Rei.»O qual meio, por muitas rasões, que entre si praticaram, houveram por justo e razoado; e mostraram ambos ser d'elle muito contentes.CAPITULO XIII

Nota de editor:Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.Rita Farinha (Jul. 2008)BIBLIOTHECADECLASSICOS PORTUGUEZESPROPRIETARIO E FUNDADORMELLO D'AZEVEDOBibliotheca de Classicos PortuguezesProprietario e fundador—Mello d'AzevedoCHRONICADEEL-REI D. AFFONSO VPORRuy de PinaVOL. I[Illustration]ESCRIPTORIO147—Rua dos Retrozeiros—147LISBOA1901Duas palavras de introducçãoEl-reiD. Manuelencomendou com grande efficaciaa Ruy de Pina a chronica de D. Affonso V. E elle escreveu baseado em informações e nos documentos que poude alcançar, com uma sinceridade notavel em chronista de palacio occupando cargos de confiança regia.Parcial todavia, pouco inclinado a cousas de Hespanha e da nobreza, conta-nos a historia d'esse periodo de fórma que parece preparar o espirito do leitor para as grandes luctas do reinado seguinte.A historia da épocha de D. Affonso V importa ao estudo da nacionalidade portugueza em qualquer ponto de vista. Affirma-se a auctoridade real, apezar das prodigalidades do rei, a independencia da nação em combates rijos, a expansão ultramarina define-se com o arrojo dos navegantes e dos homens de guerra, a cultura dos espiritos sóbe, os costumes policiam-se, attende-se a melhoramentos materiaes nas povoações.A propria figura do rei desperta vivamente a attenção; os seus primeiros annos passaram num meio agitado, difficil, triste talvez, pelas luctas palacianas, mas util para a formação de espirito culto pela frequencia, provavel, de homens superiores como os infantes D. Pedro e D. Henrique. Pelo que nos conta Ruy de Pina foi lastima que Affonso V fosse rei, porque era bom de mais, com sua parte de phantasia mansa.Era um sereno, depiadosa condição,familiar, grande amador de musica e de livros, e tambem de emprezas arriscadas.Quando a Excellente Senhora professou, grassava em algumas cidades do paiz o contagio com grande intensidade, elle desconsolado quiz deixar a governança, queria ser leigo no seu mosteiro do Varatojo.Como era generoso e pouco calculista, sem sentir, pouco a pouco, foi accumulando de mercês certos fidalgos insaciaveis, o que originou depois a grande lucta dos primeiros annos de João II.N'esses quadros agitados destacam-se figuras principaes como o infante D. Pedro, o das sete partidas, e D. Henrique o navegador, sempre com a sua idéa fixa de descobrir terras, os condes de Viana, e de Avranches, grandes senhores, e aquelle singular bispo D. Garcia de Menezes tão brilhante orador e guerreiro que tristemente encerrou a sua vida.Outros vultos de raro perfil movimentam ainda a épocha, D. Pedro o rei intruso de Aragão, filho do infante D. Pedro, erudito, collecionador de livros e medalhas, o duque de Borgonha, a Excellente Senhora. No meio das luctas e intrigas estrondea o casamento de D. Leonor. Depois das gloriosas jornadas de Alcacer, Tanger, Anafé e Arzilla, a ida para França.O chronista não esquece os movimentos populares,as luctas na cidade de Lisboa, as uniões e alvoroços; nem a lucta contra o Turco que em 1480 quasi se assenhoreou do Mediterraneo.Hoje conhecemos outros documentos, os antecedentes da Alfarrobeira estão mais esclarecidos, papeis de aleivosia como o testemunho do escudeiro João Rodrigues correm impressos.Ha documentos tambem para o modo de viver da épocha que em geral não mereceram attenção aos chronistas, os que dizem respeito a costumes, a questões economicas, ao direito. A publicação das Ordenações, começadas em tempo de João I.º é facto capital. Em chronicas francezas encontram-se noticias de valor, ainda não approveitadas. Finalmente será preciso estudar noutra parte, e hoje ha muitos elementos publicados, o admiravel esforço do infante de Sagres, e da sua gente, n'este periodo, nos gloriosos descobrimentos dos novos caminhos maritimos, dos archipelagos do Atlantico revelados successivamente,G. Pereira.PROLOGOdaChronica do Mui Alto e Mui Poderoso PrincipeEL-REI D. AFFONSOD'ESTE NOME O QUINTOE dos Reis de Portugal o duodecimo, dirigido ao muito alto e muito excellente Principe, El-Rei D. Manuel, seu sobrinho, nosso Senhor, por cujo mandado Ruy de Pina, Cavalleiro de sua casa e seu Chronista Mór e Guarda Mór da Torre do Tombo, nova e primeiramente a compozO maissingular e mais proveitoso conselho, Serenissimo Rei, que Demetrio Phalereo, philosofo mui sabedor, deu ao grande Tholomeu, Rei do Egypto, para sobre todolos Reis de seu tempo poder ser mais excellente, foi que procurasse de vêr, e ter por mui familiares os livros, principalmente aquelles, em que os virtuosos costumes e claros feitos dos illustres Reis e Principes passados fossem verdadeiramente escriptos: amoestando-o que com vivo cuidado os lesse e ouvisse: nem era sem causa; porque,como mui prudente, sabia que os livros, posto que sejam conselheiros mortos, sempre porém ensinam e dão verdadeiros e sãos conselhos, mui livres e isentos das paixões dos conselheiros vivos, dos quaes muitas vezes por não saberem, e outras por não quererem, e muitas mais por não ousarem, se nega e esconde a clara verdade, que a seus maiores e Senhores pospõem ás proprias inclinações e paixões d'affeição, odio, lisonjaria, interesse ou temor, que são causa da mais certa queda, e principal destruição de reinos e senhorios. E por tanto, muito poderoso senhor, no conhecimento dos bons exemplos e das cousas passadas, de que a Historia é um vivo espelho, e os livros são fieis thesoureiros, se recebe, para não errar, conselho sem paixão, e doutrina sem receio, de que á Humanidade e ao Estado Real principalmente se segue um mui seguro proveito, e por isso a Deus grande e mui assignado serviço.E posto que das Chronicas e lembranças escriptas das perfeitas bondades e memorandas façanhas dos claros barões não naturaes e estrangeiros, quando as lemos e ouvimos, logo nos movem para aborrecer os vicios, e com uma virtuosa inveja de seus gloriosos exemplos, nos espertam e guiam para o caminho de suas louvadas virtudes e fama; porém, outra differença de vergonha, outra viveza de gloria, outro acendimento d'esforço sentimos logo em nossos corações, quando lendo topamos, e com tento esguardamos nas excellentes virtudes e prosperas empresas de nossos proprios naturaes, e maiormente d'aquelles de que descendemos; porque tanto mais nos acendem e obrigam para os semelharmos e seguirmos, quanto a certa verdade de suas virtuosas obras e grandes feitos é de maior contententamento e mais chegada a nosso fresco conhecimento, com que a não duvidamos.E por esta tão urgente causa e bem tão universal, e principalmente por honra e gloria de vossos reinos de Portugal, Vossa Mui Real Senhoria, como virtuoso Rei mui piedoso e verdadeiro successor d'elles que é, sabendo que a memoria das reaes virtudes e feitos imperiaes do mui glorioso Rei D. Affonso o quinto, vosso tio e predecessor, cujo irmão legitimo era o mui illustre Infante D. Fernando vosso padre, por negligencia sua ou mingoa d'escriptores não eram já do escuro esquecimento menos gastadas, que sua carne e seu corpo que a terra comia: por mais illustrardes vossa legitima descendencia, e vossa corôa real não ficar sem uma guarnição de pedraria tão preciosa, como é sua clara e louvada memoria: e assi por Vossa Alteza mostrar um santo ensino e maravilhoso exemplo de Rei, encommendou com grande efficacia a mim Ruy de Pina, Cavaleiro de vossa casa, Chronista Mór de vossos reinos e Guarda Mór da Torre do Tombo d'elles, que, quanto á minha deligencia e entendimento fosse possivel, trabalhasse de haver as cousas notaveis de seu tempo, e para sua Chronica mais necessarias, e a compozesse. E como quer, muito poderoso Rei, que a carrega e peso d'esta Obra, por ser tão digna e tão necessaria, e com desejo e cuidado tão virtuoso, como é este vosso, já foi outras vezes posta e encommendada sobre os hombros e forças d'outros chronistas d'estes reinos, que ante mim foram pessoas de singular doutrina e mui sufficientes: e por suas grandes e desesperadas difficuldades e peso incomportavel, elles nem sómente a moveram; porém eu que para vencer e passar com ella caminhos já tão cerrados e de tanta aspereza e escuridão, convertidas já em uma manifesta impossibilidade, por vir ao fim de vosso desejo e esperança, tomei por guia e salvo conduto de tantos temores vosso mandado e o vivodesejo que sobre todos em mim sinto de sempre bem e lealmente servir Vossa Real Senhoria, e inteiramente lhe obedecer: confiando que ao menos, pelo merecimento de minha obediencia, algum tanto serei relevado do erro da ignorancia e temeraria ousadia com que emprendi e acabei esta real e mui verdadeira chronica, cuja sequencia é n'esta maneira.CHRONICAdoSENHOR REI D. AFFONSO VCAPITULO INarraçãoO muito alto e muito excellente Rei D. Duarte, d'este nome o primeiro, e onzeno dos Reis de Portugal, acabou sua desejada e necessaria vida com claros signaes de grande contrição, e com certo testemunho de salvação de sua alma, em a Villa de Thomar, quinta feira IX dias de Setembro, anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil e quatrocentos e XXXVIII: no qual dia por espaço de duas horas o sol em grande cantidade foi cris, assi como tambem o foi na hora do fallecimento d'El-Rei D. João seu padre, e da RainhaD. Filippasua madre. E as cousas que de sua antecipada morte se conjeituram, e aos autos de prantos e tristezas que se n'ella não podiam escusar, e como foi levado ao mosteiro da Batalha, onde jaz sepultado, em sua Chronica, onde propriamente pertence, com maior declaraçãoestãoapontadas.E por seu fallecimento ficaram legitimos dois filhos e quatro filhas: I o Principe D. Affonso filho seu maior, primogenito herdeiro, que logo foi alevantado por Rei, que de sua edade havia seis annos e entrava em sete: e o Infante D. Fernando, padre d'El-Rei D. Manuel nosso Senhor: e a Infante D. Filippa, que no anno que o dito Rei falleceu se finou em Lisboa de onze annos: e a Infante D. Lyanor, que foi imperatriz d'Allemanha: e a Infante D. Catherina que sem casar falleceu e jaz em Santo Eloy de Lisboa: e a Infante D. Joanna, de que a Rainha D. Lyanor ficou prenhe, e foi Rainha de Castella, casada com El-Rei D. Anrique, o quarto d'este nome.E ficaram outrosi vivos estes irmãos d'El-Rei D. Duarte, filhos d'El Rei D. João I; o Infante D. Pedro, que era duque de Coimbra: e o Infante D. Anrique, que era duque de Vizeu e tinha o Mestrado de Christus: e o Infante D. João, que era Condestabre do Reino e tinha o Mestrado de Santiago: e o Infante D. Fernando, que então era captivo em Fez e tinha o Mestrado d'Aviz: e a Infante D. Izabel, legitima duqueza de Borgonha, casada com o duque Filippe: e D. Affonso conde de Barcelos, que depois foi duque de Bragança, que era filho natural d'El-Rei D. João.Ao tempo que o dito Rei falleceu não eram em Thomar outras pessoas principaes, depois do Principe D. Affonso e seu irmão, salvo a Rainha D. Lyanor sua mulher, filha d'El-Rei D. Fernando d'Aragão, e o Infante D. Pedro, irmão primeiro legitimo d'El-Rei: o qual, por dar ordem ao alevantamento d'El-Rei D. Affonso seu sobrinho, e ás outras cousas que pertenciam para bem do reino, ficou na dita villa e não foi com o corpo de seu irmão, a que não falleceu outra muita e honrada companhia.CAPITULO IIAlevantamento d'El-ReiEraquinta feira logo seguinte, dez dias do dito mez: o Infante D. Pedro, como Principe a que das cerimonias reaes e das outras cousas em que cabia descrição e virtude nada s'escondeu, fez fazer antre o convento e os paços do castello da dita villa um assentamento assi real e ricamente guarnecido, como para o auto cumpria. E á bespora do dito dia, o Infante com todolos fidalgos e nobre gente da côrte foram aos paços d'El-Rei, que eram dentro no convento, vestidos por então os corpos dos panos mais ricos, mas as almas e caras de clara tristeza, que em todos não era fingida, mas verdadeira e justa, assi pela privação d'El-Rei, que era muito virtuoso e para todos de grande humanidade e boa condição, como por lhes os corações revelarem as grandes divisões e muitos trabalhos, em que pela soccessão de tão novo Rei se haviam de vêr, como viram.O Principe D. Affonso posto em vestiduras reaes, e bem acompanhado de todos, sahiu fóra ao assentamento, onde pelo Infante D. Pedro com grande reverença, e muito acatamento foi posto na cadeira real. E emquanto um Mestre Guedelha, singular fysico e astrologo, por mandado do Infante regulava, segundo as influencias e cursos dos planetas, a melhor hora e ponto em que se poderia dar aquella obediencia: o Infante volveu a contenença ao povo, e com grão segurança e palavras mansas disse:«Como quer que, o dia d'hoje com muitos dos que virão, teriamos justa causa dar lugar a nossos olhos,que com muitas lagrimas testemunhassem a dôr e perda que recebemos na morte de um Principe tão catholico e tão virtuoso, e tão necessario a nós todos como foi El-Rei meu Senhor e irmão, cuja alma Deus haja: devemos, porém, consirar como catholicos e de razão, que, pois em escusar sua morte não ha remedio, que duas cousas sómente nos ficam, para que a Deus e ao mundo certefiquemos o amor e boa vontade que lhe tinhamos. A primeira, em nossas orações, jejuns e obras meritorias havermos sua alma em memoria para a encommendarmos a Deus. A segunda, este ramo em todolos signaes de virtudes tão florecido, que de seu real Tronco naceo, que é o mui excellente Princepe D. Affonso seu filho nosso Senhor, que temos presente, havermo-lo de reconhecer, servir e amar por nosso só natural e verdadeiro Rei e Senhor, como o requere nossa mui antiga e costumada lealdade, e o Direito nos obriga. E, porém, vo-lo apresento aqui para o assi em todo o reconhecerdes, e vos encommendo da sua parte, que para o assi fazerdes não hajaes respeito á sua nova idade, mas ás velhas obrigações em que para isso lhe soes e sua Real Senhoria nos dá já uma mui certa esperança d'acharmos n'elle honra, mercê, favor e justiça, como cada um o merecer e lh'o requerer.»E em dizendo Mestre Guedelha, que era boa hora para fazer sua obediencia, o Infante com os giolhos em terra tomou as mãos ao Principe, e em lh'as beijando disse:«Muito alto e muito excellente Senhor, assi como vos eu hoje ponho n'esta seda, em que vós por graça de Deus legitimente recebeis o real Septro e senhorio d'estes vossos reinos, assi espero com sua ajuda e minha grande lealdade de vo-los ajudar a manter e deffender com todas as minhas forças e poder, e saber,quando me vossa Mercê mandar, ou eu sentir que cumpre a vosso estado e serviço.»E com estas palavras acabando se alevantou.E logo D. Duarte de Meneses, alferes mór, filho do conde D. Pedro de Meneses, primeiro capitão de Ceuta, com a bandeira real levantada, e os reis d'armas e arautos com elle começaram alli sua grita, e depois com ella foram pela villa, repetindo-a tres vezes, segundo custume, com toda aquella cerimonia e solemnidade que a tal auto real pertencia; porque o Infante D. Pedro, por cuja ordenança e mandado se fazia, era Principe n'aquellas cousas mui ensinado, e quiz n'aquelle auto que não ficasse cousa dina por fazer: assi porque assi o requeria sua grande bondade e a muita lealdade em que nascêra: como por mostrar a muitos de damnadas maginações, e á Rainha D. Lyanor principalmente, que aquella fôra sempre, e era sua leal e verdadeira tenção d'obedecer, e não a outra falsa de querer por força reinar, como lhe faziam crêr que elle desejava. Porque a Rainha, como quer que sempre foi muito honesta, virtuosa, prudente, devota e muito amiga da vida e honra d'El-Rei seu marido: porém sempre em sua vida mostrou ao Infante D. Pedro que não lhe tinha boa vontade: e as causas porque assim fosse eram occultas para culpar o Infante, salvo se procedessem de induzimentos alheios, que em sua feminil fraqueza de ligeiro fariam impressão, ou por ventura procederia das imisades que foram entre El-Rei D. Fernando d'Aragão, pae da rainha, e o conde d'Urgel, pae da Infante D. Izabel, mulher do dito Infante D. Pedro, que pertendeu por direito na successão d'Aragão, e foi d'El-Rei n'ella vencido.CAPITULO IIIDe como começaram de entender nas cousas do reino, e se viu o testamento d'El-ReiTantoque a Rainha viu seu filho alevantado por Rei, logo fez chamar á sua casa o Infante D. Pedro, e o Arcebispo de Lisboa, D. Pedro de Noronha, primo com irmão de seu pae d'ella, e as outras principaes pessoas que hi eram. Perante as quaes, em presença de notairos publicos, fez abrir e lêr o testamento d'El-Rei seu marido, em que foi achado ella, sem ajuda d'outra pessoa, ficar in solido testamenteira de sua alma, e titor e curador de seus filhos, e regedor do reino, e herdeira de todo o movel. E encommendou n'elle muito que, por dinheiro, ou captivos, ou por outra qualquer maneira tirassem de poder dos mouros o Infante D. Fernando seu irmão; e quando por semelhantes meios não fosse possivel, que então Ceuta sem escusa se desse por elle; da qual publicação a Rainha por sua guarda mandou tomar estromentos, e começou logo a usar do regimento inteiramente sem alguma publica contradicção: como quer que alguns seus servidores avisados e virtuosos, e que de verdade amavam sua vida, honra e descanso, logo sã e secretamente lhe disseram em conselho n'esta maneira:Conselho que se deu á Rainha«Senhora, o peso d'este cargo de reger, que assi soltamente tomaes, é mui grande e tal, que muitos barões abastados de fortaleza de coração e de prudencia o receáram. E por serdes mulher e ainda estrangeira,como quer que para isso haja em vós sã consciencia e conhecidas virtudes com mui santo desejo, em caso que não houvesseis n'elle alguma contradicção, certo duvidamos que o possaes soffrer; porque Vossa Senhoria ha-de consirar que são n'este reino tres Infantes, grandes Principes, e de muita autoridade, e naturaes da terra, que hão d'estimar por quebra e abatimento de seus estados serem regidos por mulher, especialmente não natural nem herdeira, como vós sois, e que o por suas bondades e assessego de todos quizessem consentir, não falleceriam outros amigos de novidades, que lh'o fariam sentir e obrar por outra maneira: de que se não podem escusar odios, escandalos e outros muitos males, em especial claros impedimentos para vós, nem elles estes reinos poderdes reger, como a serviço de Deus e d'El-Rei, e bem d'elles cumpre: de que vos muito deve pesar. E não vos fieis nos offerecimentos e muita parte que vos muitos de si agora prometem, para crerdes que o esforço d'estes enfraquentára o dos outros; porque em fim todos, ou a mór parte hão de seguir a vontade dos Infantes, qualquer que fôr, quanto mais que já agora pelas praças se solta, que El-Rei nosso Senhor, vosso marido, que santa gloria haja, vos não podia leixar este cargo de reger: cá este poder demleger regedor do reino era sómente ao reino e aos tres estados d'elle reservado; e d'onde isto agora sae de presumir é que mais jaz. Pelo qual nosso conselho seria, que agora com prazer e assessego vosso, e do reino, consirados todos estes inconvenientes, leixasseis assi de vossa vontade este regimento, antes que depois o leixardes forçada, ou impedida de vossa natural fraqueza, ou de outras forças maiores: o que deve ser com pouca honra e contentamento vosso. E a vós, Senhora, bem abastara terdes cuidadoda criação de vossos filhos, e do descargo d'alma d'El-Rei vosso marido, que são cousas assás grandes, honradas e honestas.»A Rainha, como era senhora de bom entender e de tenção sã, e conforme em todo ao serviço de Deus, pareceu-lhe bem este conselho, e quizera-o seguir; mas não falleceram logo outros, que com outras razões córadas ao revés d'estas, a mudaram d'este proposito, e fizeram tomar determinação de todavia reger só: dando-lhe estes, por principal causa, a segurança da vida e estado de seus filhos, que em poder do Infante D. Pedro lhe faziam crêr que não seriam muito seguros, por ser principe poderoso, amado do povo, e tinha filhos, e podia n'elle entrar o desejo de reinar, que vence todolos outros; e assi venceria n'elle a divida lealdade para o executar.CAPITULO IVDa vinda do Infante D. Anrique à côrte, e das cousas que se logo acordaramO Infante D. Anrique, depois da vinda do cerco de Tangere, que veiu fallar a El-Rei seu irmão a Portel, como anojado do captiveiro do Infante D. Fernando, seu irmão: e por o feito se não seguir, como desejava, se tornou logo ao reino do Algarve, sem mais tornar a este; e como lá foi avisado da doença d'El-Rei, pelo grande amor e muita lealdade que lhe tinha, partiu logo: e assi trigou suas jornadas, que em mui poucos dias chegou a Thomar, onde já achou El-Rei fallecido. Mas a Rainha, e o Infante D. Pedro, e toda a côrte, vendo-o com sua tristelivré, renovaram com sua vista outros prantos maiores, nem era sem razão; porque n'elle pareciam signaes de tanta tristeza, e dizia palavras de tanto sentimento, que aos dormentes na dôr espertava para chorar, e ser tristes.A Rainha depois d'esto enviou chamar o Infante D. Pedro, e lhe disse:«Senhor Irmão, porque sinto que é necessario dar-se ordem e remedio ás cousas do reino, que estão ora suspensas, eu vos rogo muito que tomeis cuidado de ter em vossa casa conselho: e Vós, e o Infante vosso irmão, com os principaes que aqui são, apontae o que em taes tempos e casos convem que se faça: e trazei-m'o para o vêr, e me acordar comvosco e se fazer o que fôr serviço de Deus, e d'El-Rei meu filho, Senhor, e bem de seus reinos».A qual cousa se poz logo em execução, e se teve conselho, em que foi acordado que aos embaixadores de Castella, que hi eram por despachar, fosse por então respondido, que esperassem a vinda dos grandes do reino, com que El-Rei ordenava de fazer côrtes e ter conselho: e que logo haveriam resposta.E estes embaixadores vinham a El-Rei D. Duarte, e chegaram ao tempo de seu fallecimento; e as pessoas que eram, e o que requeriam, e com quefundamento, ao diante se dirá.Acordaram outrosi, por quanto em Castella começava d'haver movimentos, que pareciam principios de guerra, que os alcaides das fortalezas dos estremos fossem avisados sobre bôa guarda e defensão d'ellas: e assi que se fizesse o geral acostumado chamamento, para o saimento que se havia de fazer na Batalha, e côrtes em Torres Novas. E as cartas, que sobre isto haviam de ir, acordou o Infante D. Anrique com os do conselho, que fossem assignadas peloInfante D. Pedro; mas elle com mostrança de muita honestidade se escusou: e a Rainha assignou aquellas, e todalas outras até ás côrtes; porque n'ellas se acordou outra ordem de Regimento, como se dirá.E assi tomou cuidado a Rainha de cumprir aquellas cousas do testamento d'El-Rei, que logo cumpriam de se acabar. E de todo o movel que lhe foi leixado tomou para si a capella e reposte, e repartiu as cousas de guarda-roupa e estrebaria por essas pessoas a que lhe parecia razão, e a que mais afeiçoada era: não se esquecendo prover com vestimentas, das roupas e pannos de seda que ficáram, a algumas egrejas e mosteiros, em que sentiu que podia d'isso haver necessidade.CAPITULO VComo o Infante D. Fernando foi jurado por Princepe, se El-Rei não houvesse filho legitimoEstandoassi estes Senhores em Thomar, esperando o tempo do saimento e côrtes, foram alli juntas quasi todolas pessoas principaes do reino, com esperança e certidão de futuras mudanças, salvo o Infante D. João, que era doente em Alcacere do Sal, a que por grande resguardo da Infante sua mulher, a morte d'El Rei seu irmão não foi descoberta se não depois que foi retornado em sua saude, a que não fossem contrairas novas para elle tão tristes. E sendo presentes em conselho os Infantes e o conde de Barcellos seu irmão, e o Infante D. Pedro propoz logo primeiro dizendo:«Senhor irmão, e honrados senhores fidalgos que aqui estaes, bem vêdes que a nova idade d'El Rei nosso Senhor assi n'elle, como nos outros meninos, é sojeita a muitos casos e desastres, de que Deus nossoSenhor o guarde e defenda. E porque d'aqui até que sua Mercê tenha idade e desposição para casar e haver filhos, se passará bom espaço de tempo: meu voto é, por sermos fóra d'algumas duvidas que por sua morte em tal tempo podiam sobrevir, que o Senhor Infante D. Fernando seu irmão, seja logo aqui intitulado e jurado por Principe e seu herdeiro, até que a Deus praza de dar a El-Rei nosso Senhor filho que de tal nome se possa intitular, e o sobceda: e n'isto não sómente faremos o que é necessario, mas ainda pagaremos o que devemos a nossa lealdade, e ao grande amor que tinhamos a El-Rei meu Senhor e irmão, e ao que somos certos que nos elle tinha. E este tempo é tal, em que estas obrigações se devem a seus filhos pagar, em todo o que redunda em suas honras, estado e serviço».Acabou o Infante sua proposição, em que não foram necessarias mais razões para suas sinas, para se louvar, e haver por justa e bôa sua tenção. Pelo qual os Infantes e o Conde de Barcellos, e os outros senhores que eram presentes, por si e por todolos do reino logo fizeram d'isto um auto solemnisado por juramento, perante notairos publicos, em cumprimento do qual o Infante D. Fernando se chamou e intitulou por Princepe, até que El-Rei houve filho.CAPITULO VIPrimeiro consentimento da Rainha para El-Rei seu filho casar com a filha do Infante D. PedroA Rainha por este accordo e determinação de que foi certificada, recebeu em sua tristeza muita consolação, e em seus cuidados descanço, e em seus receios grande segurança: especialmente porser d'ella inventor e principal movedor o Infante D. Pedro, em quem, pelas causas que já toquei, lhe faziam sem causa ter suspeitas, a seus filhos perigosas, e a ella desleaes; como quer que por elle nunca foram cuidadas, nem por alguma obra, nem congeitura fossem sentidas. Pelo qual, como Senhora virtuosa e agardecida a boa vontade e obras que o Infante D. Pedro começára de mostrar, mandou logo a elle o doutor Ruy Fernandes com esta mesagem:«Senhor, diz a Rainha nossa Senhora, que por saber bem o grande amor que vos El-Rei seu Senhor tinha, e o desejo que sempre teve para vossa honra e acrecentamento: e como, em cumprimento de sua tenção leixou dito a Frei Gil de Tavulla, seu confessor, que sua derradeira vontade era, que o Principe seu filho casasse com D. Isabel vossa filha; que assi por cumprir principalmente a vontade d'El-Rei seu Senhor, como por vos mostrar com obras de vossa honra e contentamento, o contrairo do que por ventura vos fazem d'ella crêr: e des-hi, porque vê que é este um dos melhores casamentos do mundo que a El-Rei seu filho, Senhor, agora melhor pode vir, lhe apraz que este casamento logo entre ambos se faça; e que para isso vos envia por mim seu consentimento, que por ventura atégora haverieis por duvidoso, e não tão certo.»CAPITULO VIIResposta do Infante D. Pedro á RainhaO Infante, como ouviu este recado, em que viu o cabo de sua bemaventurança, com o coração cheio de alegria, e os olhos por isso não vasios de lagrimas, disse:«Doutor amigo, dizei á Rainha, minha Senhora, que lhe beijo as mãos por tamanhas duas mercès, como em sua embaixada me mandou offerecer: cá uma, de sua Senhoria haver por bem que este casamento se faça, é a maior que para mim pode ser. E a outra não na estimo em menos; pois se lembrou de m'a fazer sem meu requerimento. E que álem da paga principal que n'isso recebe de suas muitas virtudes, prazerá a Deus que eu a servirei por maneira que se não arrependa d'este seu proposito: mas que por agora me não parece tempo conveniente para isso, assi por a pouca idade d'El-Rei meu Senhor, em que se não perde tempo, como pela tristeza geral, em que com tanta razão todos seus vassallos estamos; e que sua Senhoria haja por bem que isto se alargue mais alguns dias, nos quaes se procurará a dispensação que se requer, e o povo perderá parte d'este sentimento, e se poderá fazer então melhor e com mais honestidade, e com aquellas cerimonias e festas que se a taes pessoas deve.»CAPITULO VIIIContradicção que houve em algumas pessoas no consentimento do casamento d'El-Rei com a filha do Infante D. PedroO consentimento e prazer da Rainha ácerca d'este casamento, não foi egualmente recebido nos corações de todos os que alli eram: cá uns o aprovavam com prazer e sem paixão, e outros com tristeza, odio, inveja e cobiça, o não podiam padecer. E entre alguns d'estes que hi havia, o principal, diziam, que era o conde de Barcellos, a quem pareciaque da conclusão e outorga d'este casamento pesava muito. E, como quer que em publico o não contradissesse, procurava porém secretamente, por meio do Arcebispo D. Pedro, de Lisboa, a quem a Rainha dava muita fé, e não tinha boa vontade ao Infante D. Pedro, como do que ácerca d'este casamento lhe tinha prometido, ella se desdissesse, com fundamento de trabalhar com toda sua possibillidade que El-Rei casasse com sua neta, D. Isabel, filha maior do Infante D. João; porque o conde de Barcellos, como já disse, foi filho natural d'El-Rei D. João, e teve tres filhos legitimos da filha do Condestabre D. Nuno Alvares Pereira, com quem primeiro casou: saber D. Affonso, conde d'Ourem; e D. Fernando, conde d'Arrayolos: e a Infante D. Isabel, mulher do Infante D. João; e por falecimento da filha do Condestabre casou com D. Costança de Noronha, filha do conde de Gyam e irmã d'este Arcebispo, que elle com razão amava muito; porque n'ella havia assaz de virtudes e fremosura e outras bondades, porque o bem merecia: e d'ella não houve filho nem filha, e por seu respeito o conde de Barcelos amava muito todas suas cousas d'ella, e em especial seus irmãos, entre os quaes o principal era o Arcebispo, asi por sua idade maior, como por sua denidade; e por isso o conde fiava d'elle, e lhe encarregava a estorva d'este casamento d'El Rei com a filha do Infante D. Pedro: e não falleciam outros que o n'isso assaz ajudavam. Da qual cousa o Infante por seus meios foi logo avisado: e como era prudente e discreto, não lhe esqueceu o que geralmente se crê e afirma da inconstancia e pouca firmeza que muitas mulheres por sua natural condição tem, quão ligeiramente se movem. Pelo qual, por segurar o passado, foi logo fallar á rainha, pedindo-lhe com palavras em que havia muita razão e honestidade,que da mercê e consentimento que lhe tinha prometido ácerca do casamento d'El-Rei com sua filha, lhe desse uma certidão e segurança assignada por ella; do que a Rainha muito aprouve, e encommendou ao Infante que a fizesse, como fez, em um Alvará, na fórma que cumpria: e Ella o assignou e lh'o deu, que o tivesse.CAPITULO IXDe como se fez o saimento d'El-Rei no mosteiro da BatalhaEl-Reie o Principe seu irmão, e a Rainha e Infantes, e outros muitos prelados e condes, e senhores do reino, partiram de Thomar para o mosteiro da Batalha no fim do mez d'Outubro, que era o termo, a que as gentes, para o saimento d'El-Rei, se haviam n'elle de ajuntar, e des-hi para as côrtes em Torres Novas, e por estas ceremonias de saimentos, que aos Reis e Princepes, depois de suas mortes, em suas reaes sepulturas se fazem, serem tão geraes e tão costumadas em Espanha e assim n'estes reinos de Portugal, que pela mór parte todos hão d'ellas noticias e informação: por fugir o vicio e avorrecimento da proloxidade, a mim pareceu escusado descreve-lo aqui particularmente, e sómente abaste brevemente saber que na pompa e cerimonias de suas exequias se guardou e cumpriu todo o que ao estado de um tão alto Principe em tal auto cumpria; e nos bureis e lutos dos corpos de todos, e nas lagrimas geraes de todolos olhos, e na commum tristeza de todolos rostos, em todo o reino claramente pareciaquanto em sua vida era de todos amado, e a grande perda e desamparo que, por sua morte e pelo perder, todos recebiam.CAPITULO XComo ante de se fazerem as primeiras côrtes em Torres Novas, se fez uma conjuração contra o Infante D. PedroAcabadoo saimento, assi como alli eram juntos, assim se foram todos a Torres Novas, onde por dar logar que alguns alcaides e outras pessoas acabassem de vir, para fazer as menagens e dar a obediencia a El-Rei, sem se começarem as côrtes se passaram alguns poucos dias: nos quaes por meio principalmente de Vasco Fernandes Coutinho, marechal, que depois foi primeiro conde de Marialva, foram liados por juramento contra o Infante D. Pedro casi todolos fidalgos do reino, em que entravam, por mais principaes, o Arcebispo D. Pedro, e D. Sancho seu irmão, e o priol do Crato D. Frei Nuno de Goes; os quaes juntos secretamente em uma egreja, o marechal, como quer que outros hi estivessem de mór valor e auctoridade, elle para os mais commover a seu proposito, porque tinha para isso audacia, lhe fez uma falla com largas razões, cuja sustancia foi:«Que o regimento do reino e criação d'El-Rei e seus irmãos por disposição do testamento d'El-Rei ficára, como sabiam, que não saisse do poder da Rainha; o que elles deviam requerer e procurar que se cumprisse; assi por ser razão, como por a Rainha ser mulher estrangeira, da qual por se mostrarem emfavor de seu serviço e tenção sempre receberiam honra, favor, mercê e acrecentamento; e por isso deviam trabalhar que não viesse em maneira alguma ao Infante D. Pedro, de cujos rigores e mostranças suas falsas, que fazia ao povo, de justo e sã conciencia, não podiam receber se não o contrairo; e que isto lhes seria facil de fazer; porque por parte do Infante D. Pedro, quando muito podesse ser, seria povo e gente meuda, que sem cabeceiras não teriam forças nem dariam ajuda, e que por a sua d'elles eram os que estavam presentes com outros muitos que logo seriam com elles; e mais cria do Infante D. Anrique, e sabia do conde de Barcellos, que seriam em sua ajuda, pedindo-lhe em conclusão, que o houvessem todos assi por bem, e o affirmassem, e segurassem com juramento.»Do que a todos aprouve, e o poseram em escripto, que logo juraram.Mas, como quer que n'isto entrassem grandes homens, e de muita auctoridade, porém seus signaes e juramentos tiveram d'hi a pouco pouca firmeza; todos os mais se desdisseram e acostaram á banda do Infante D. Pedro e dos outros Infantes que foram com elle; porque n'aquelle tempo todo o reino finalmente estava á vontade e disposição dos filhos e netos d'El Rei D. João.E d'este ajuntamento assi jurado, que á rainha logo foi notificado, porque confiou n'elle muito mais do que devera, se lhe seguiu todo seu damno, perda, desassocego, e emfim a morte, não como a seu estado cumpria; porque crendo, que n'estes para seus feitos haveria a firmeza que juraram e lhe prometteram, não se contentou no principio d'estes movimentos d'alguns meios bons e honestos, que lhe foram apontados; do que a ella pelos não acceitar se seguiumuito mal, e ao reino, e a muitos d'elles pouco bem, como se dirá.CAPITULO XIComo se deu a obediencia e fizeram as menagens a El-Rei e se praticou sobre quem regeriaAssignadoo dia da proposição das côrtes, El-Rei teve seu estrado e Real Estado em uma pequena praça, que se faz ante a egreja de Santiago d'aquella villa, onde todolos senhores e officiaes e procuradores dos povos postos em sua costumada e antiga ordenança, começou e fez arenga, que para tal auto se requere e costuma, o doutor Vasco Fernandes de Lucena, mui elegante e cheia de mui dôces palavras e graves sentenças para aquelle caso da obediencia; e com necessarias e vivas razões exortou todolos que eram presentes para a fazerem; como a arenga foi acabada os Infantes primeiro, e des-hi os condes e os outros senhores deram logo suas menagens e obediencias a El-Rei, segundo sua boa e devida lealdade; e começaram logo de mover sobre quem teria o regimento do reino, que das côrtes era o ponto mais sustancial, no que houve entre todos grandes desvairos; porque os mais se mostravam segundo opinião das parcialidades que tinham, justificando cada uns suas tenções, e aos menos, que haviam respeito ao bem commum e assessego do reino, não eram recebidos nem ouvidos seus meios.CAPITULOXIIConcordia feita entre a Rainha e o Infante D. Pedro acerca do regimentoE porque a competencia e deferença do regimento não era principalmente salvo entre a Rainha e o Infante D. Pedro, a Rainha, como senhora, que de sua virtuosa condição desejava todo o bem e assessego, sentindo os malles e damnos que d'estas diversões se podiam seguir, pelos atalhar com alguma justa concordia, enviou rogar ao Infante D. Pedro por meio do Infante D. Anrique, que lhe fosse falar: do que o Infante foi muito alegre; e, escolhendo para isso tempo conveniente, satisfez logo a seu requerimento: e, sendo ambos sós apartados, a Rainha lhe disse muitas rasões sobre o desvairo do regimento, em que bem pareceu que havia n'ella muita virtude, sã conciencia e grande discrição e justo juizo, concluindo que lhe rogava que ambos sem outro meio se quizessem sobre isso concordar.O Infante D. Pedro, como era Principe justo, bom, e temente a Deus, foi de suas palavras assaz contente; e com outras de grande reverencia e acatamento lh'as teve muito em mercê; e depois d'alguns meios, sobre que entre si debateram, finalmente foram acordados d'esto:«Que com a Rainha ficasse o cargo da criação de seus filhos, e com a governança e ministração de toda a fazenda; e ao Infante ficasse o regimento da justiça e o titulo de defensor dos reinos por El-Rei.»O qual meio, por muitas rasões, que entre si praticaram, houveram por justo e razoado; e mostraram ambos ser d'elle muito contentes.CAPITULO XIII

Nota de editor:Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.Rita Farinha (Jul. 2008)

Rita Farinha (Jul. 2008)

Bibliotheca de Classicos PortuguezesProprietario e fundador—Mello d'AzevedoCHRONICADEEL-REI D. AFFONSO VPORRuy de PinaVOL. I[Illustration]ESCRIPTORIO147—Rua dos Retrozeiros—147LISBOA1901

Proprietario e fundador—Mello d'Azevedo

[Illustration]

El-reiD. Manuelencomendou com grande efficaciaa Ruy de Pina a chronica de D. Affonso V. E elle escreveu baseado em informações e nos documentos que poude alcançar, com uma sinceridade notavel em chronista de palacio occupando cargos de confiança regia.

Parcial todavia, pouco inclinado a cousas de Hespanha e da nobreza, conta-nos a historia d'esse periodo de fórma que parece preparar o espirito do leitor para as grandes luctas do reinado seguinte.

A historia da épocha de D. Affonso V importa ao estudo da nacionalidade portugueza em qualquer ponto de vista. Affirma-se a auctoridade real, apezar das prodigalidades do rei, a independencia da nação em combates rijos, a expansão ultramarina define-se com o arrojo dos navegantes e dos homens de guerra, a cultura dos espiritos sóbe, os costumes policiam-se, attende-se a melhoramentos materiaes nas povoações.

A propria figura do rei desperta vivamente a attenção; os seus primeiros annos passaram num meio agitado, difficil, triste talvez, pelas luctas palacianas, mas util para a formação de espirito culto pela frequencia, provavel, de homens superiores como os infantes D. Pedro e D. Henrique. Pelo que nos conta Ruy de Pina foi lastima que Affonso V fosse rei, porque era bom de mais, com sua parte de phantasia mansa.

Era um sereno, depiadosa condição,familiar, grande amador de musica e de livros, e tambem de emprezas arriscadas.

Quando a Excellente Senhora professou, grassava em algumas cidades do paiz o contagio com grande intensidade, elle desconsolado quiz deixar a governança, queria ser leigo no seu mosteiro do Varatojo.

Como era generoso e pouco calculista, sem sentir, pouco a pouco, foi accumulando de mercês certos fidalgos insaciaveis, o que originou depois a grande lucta dos primeiros annos de João II.

N'esses quadros agitados destacam-se figuras principaes como o infante D. Pedro, o das sete partidas, e D. Henrique o navegador, sempre com a sua idéa fixa de descobrir terras, os condes de Viana, e de Avranches, grandes senhores, e aquelle singular bispo D. Garcia de Menezes tão brilhante orador e guerreiro que tristemente encerrou a sua vida.

Outros vultos de raro perfil movimentam ainda a épocha, D. Pedro o rei intruso de Aragão, filho do infante D. Pedro, erudito, collecionador de livros e medalhas, o duque de Borgonha, a Excellente Senhora. No meio das luctas e intrigas estrondea o casamento de D. Leonor. Depois das gloriosas jornadas de Alcacer, Tanger, Anafé e Arzilla, a ida para França.

O chronista não esquece os movimentos populares,as luctas na cidade de Lisboa, as uniões e alvoroços; nem a lucta contra o Turco que em 1480 quasi se assenhoreou do Mediterraneo.

Hoje conhecemos outros documentos, os antecedentes da Alfarrobeira estão mais esclarecidos, papeis de aleivosia como o testemunho do escudeiro João Rodrigues correm impressos.

Ha documentos tambem para o modo de viver da épocha que em geral não mereceram attenção aos chronistas, os que dizem respeito a costumes, a questões economicas, ao direito. A publicação das Ordenações, começadas em tempo de João I.º é facto capital. Em chronicas francezas encontram-se noticias de valor, ainda não approveitadas. Finalmente será preciso estudar noutra parte, e hoje ha muitos elementos publicados, o admiravel esforço do infante de Sagres, e da sua gente, n'este periodo, nos gloriosos descobrimentos dos novos caminhos maritimos, dos archipelagos do Atlantico revelados successivamente,

G. Pereira.

E dos Reis de Portugal o duodecimo, dirigido ao muito alto e muito excellente Principe, El-Rei D. Manuel, seu sobrinho, nosso Senhor, por cujo mandado Ruy de Pina, Cavalleiro de sua casa e seu Chronista Mór e Guarda Mór da Torre do Tombo, nova e primeiramente a compoz

Narração

Alevantamento d'El-Rei

De como começaram de entender nas cousas do reino, e se viu o testamento d'El-Rei

Conselho que se deu á Rainha

Da vinda do Infante D. Anrique à côrte, e das cousas que se logo acordaram

Como o Infante D. Fernando foi jurado por Princepe, se El-Rei não houvesse filho legitimo

Primeiro consentimento da Rainha para El-Rei seu filho casar com a filha do Infante D. Pedro

Resposta do Infante D. Pedro á Rainha

Contradicção que houve em algumas pessoas no consentimento do casamento d'El-Rei com a filha do Infante D. Pedro

De como se fez o saimento d'El-Rei no mosteiro da Batalha

Como ante de se fazerem as primeiras côrtes em Torres Novas, se fez uma conjuração contra o Infante D. Pedro

Como se deu a obediencia e fizeram as menagens a El-Rei e se praticou sobre quem regeria

Concordia feita entre a Rainha e o Infante D. Pedro acerca do regimento


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