Da contradição e mudança que houve n'este acordoFez-seeste acordo entre estes senhores pela manhã, no qual dia os que eram ajuramentados, em especial o Arcebispo de Lisboa, por meio de seus meios, que dentro trazia, souberam logo da falla que a Rainha e o Infante houveram; e, como ficaram ambos d'acordo, do que lhes muito pesou, e em especial se disse, que desprouvera muito ao conde de Barcellos, que desejava e procurava entre elles haver desacordo, por se não aceitar o casamento de El-Rei com a filha do Infante, esperando com a vinda do Infante D. João á côrte, que El-Rei casasse com sua filha, como atraz se tocou.E ao outro dia, sendo ante a Rainha juntos alguns d'estes Principaes seus servidores, lhe perguntáram em que maneira se concordára com o Infante. E a rainha lhes disse que era bem concordada; e que por assi ser dava graças a Deus, dizendo-lhe logo a concordia em que ficaram, e as causas e razões porque ella devia ser, e era d'isso contente. A qual cousa lhe logo todos desdisseram; e que fôra n'isso muito enganada, e seu estado muito abatido; e que ainda errára fazer nada em cousa semelhante sem primeiro lh'o fazer saber, ao menos para a aconselharem, afeando tal concerto com razões e inconvenientes assi córados, e tão aparentes, que a Rainha, vencida d'elles, creu que em fazer tal acordo não podera fazer cousa em todo mais errada. Pelo qual logo alli lhe fizeram tomar outra determinação contraira á em que ficára com o Infante; e que todavia se afirmasse ella só reger sem outra ajuda; e, quando não podesse com algumaparte do regimento, que de sua mão a désse e encarregasse a quem sentisse que havia de servir e fazer sua vontade. O que não ficou logo por saber ao Infante D. Pedro.CAPITULO XIVApontamentos que publicamente se fizeram contra o testamento d'El-Rei para a Rainha não dever regerComesta volta que a Rainha fez do proposito e acordo em que ficára com o Infante, começaram outra vez as differenças e debates entre os grandes e povo sobre o regimento.A Rainha com os de sua parte requeriam para ella toda a governança em solido, assi como no testamento d'El-Rei ficára determinado: os povos geralmente com outros da parte do Infante D. Pedro requeriam o regimento para elle só sem outra ajuda nem companhia, allegando que a Rainha por muitas razões não devia reger; e d'este voto foram Pedro de Serpa, e Vicente Egas, cidadãos e procuradores de Lisboa, homens honrados, bem entendidos, e de grande autoridade. Os quaes altercando sobre estes debates perante El Rei, como quer que era menino, quando um e quando o outro lhe disseram:«Muito alto e poderoso Principe, Rei nosso Senhor, porque nos parece que acerca de se regerem estes reinos por vós, sois requerido que cumprindo o testamento d'El-Rei vosso padre, que Deus haja, deis inteiramente o regimento á Rainha nossa Senhora vossa madre, nós, como procuradores da vossa cidadede Lisboa, e assi em nome dos outros procuradores que aqui são, nossos irmãos, dizemos que sob reverencia de vossa real pessoa, El-Rei vosso padre não podia fazer tal testamento; nem em tal caso leixar Regedor do reino á sua disposição; porque a nós vosso povo pertence por direito enleger quem por defeito de vossa madura edade nos haja por Vós de defender com as armas e reger por leis com justiça.E isto não aggrava vossa legitima sobcessão; nem mingúa em vossas lealdades; cá por serdes seu filho maior legitimo, e barão, nós alegremente vos reconhecemos e recebemos por nosso verdadeiro Rei e Senhor; e com ajuda de Deus vos guardaremos aquella lealdade, fé, e amor, que bons, leaes vassalos devem a Senhor; mas quanto a enleger Regedor, até que Vós sejaes em edade para nos por vós regerdes, nós buscaremos e enlegeremos quem em vosso nome nos haja de reger e governar; porque asi como a nós sómente pertence enleger Rei, se a real e legitima sobcessão dos Reis d'estes reinos por algum caso, o que Deus não queira, se destinguisse, e se não guardaria em tal caso o testamento, nem disposição do Rei postumeiro; assi pertence a nós enleger agora Regedor por Vós; e para serdes servido abasta que nós o enlejamos tal, que seja natural, e do vosso real sangue, e não estrangeiro, e em que haja virtudes, saber, e conciencia, e sobre tudo lealdade, a que se não deva poer suspeita. E vossa mui Real Senhoria, guarde-nos nossa justiça e liberdade, como esperamos, no que recebereis muito serviço: e nós vossos vassalos com vossos reinos receberemos mercê, proveito e assessego, que deveis desejar: e assi o pedimos a vós, mui illustres Infantes e magnificos condes; e requeremos a vós, honrados senhores, e leal povo de Portugal, que aqui soisjuntos para celebrar estas reaes côrtes, que assi juntamente o peçaes e requeraes que se faça.No cabo d'esta falla, assi como os corações dos que a ouviram eram desvairados, assi não houve rostos nem consentimentos eguaes; e por isso não cessáram os primeiros debates do Regimento, os quaes, como sómente eram entre a Rainha e o Infante, como disse, alguns por assessego apontavam que ambos fossem exclusos de reger, e enlegessem outros; outros diziam, mas que ambos regessem juntamente n'aquella parte que a cada um bem coubesse; outros tinham que a Rainha sómente tivesse o Regimento; e outros o davam inteiramente ao Infante: e a esta parte se inclinavam mais os povos; e a cada uns para execução de seus votos não falleciam autorizadas razões.CAPITULO XVDo meio que o Infante D. Anrique tomou entre a Rainha e o Infante D. Pedro ácerca do RegimentoO Infante D. Anrique era a estas differenças presente, e como virtuoso meio trabalhou de as poer em alguma temperança: e posto que alguns tiveram que elle fôra sempre mais inclinado á parte da Rainha que á do Infante; porém, passados quinze dias d'apontamentos e conselhos, foi feita por acordo do Infante D. Anrique, e dos outros do conselho e procuradores do povo uma determinação por maneira de Regimento, que se denunciou em publico ajuntamento por Nuno Martins da Silveira, escrivão da puridade, cuja sustancia foi:«Que a Rainha ficasse por tetor e curador d'El-Reiseu filho com a ministração das rendas e officios; e o Infante D. Pedro tivesse cargo da defensão do reino com titulo de defensor, e o conde d'Arrayollos, filho do conde de Barcellos tivesse cargo da justiça; e que na côrte, onde El-Rei estivesse, andassem sempre seis do conselho repartidos a tempos, e mais um prelado e um fidalgo, e um cidadão; e na côrte outros alguns sem especial necessidade não podessem andar: e que com estes seis do conselho e tres dos estados se determinassem todas as cousas que sobreviessem com autoridade da Rainha e acordo do Infante D. Pedro, estando sempre pelas mais vozes. E sendo caso que seus votos fossem em desvairo por egual, que o notificassem então aos Infantes e condes; e que segundo as mais vozes fosse o negocio da duvida determinado».E as repartições d'estas cousas, em que estes senhores haviam de ter cargo, eram assi limitadas, que muito poucas, e de pequena sustancia podia cada um em seu cargo, por só determinar.Foi mais ordenado «que em cada um anno se fizessem côrtes, ás quaes não viessem mais que dois prelados e cinco fidalgos, e oito cidadãos, e n'ellas se determinassem as duvidas que os do conselho por si não podessem concludir, ou algumas outras em sustancia assi especiaes, que para aquelle tempo devessem ou podessem ser reservadas, assi como mortes de grandes homens e privação d'officios grandes, e perdimentos de terras, e corregimento ou fazimento de leis e ordenações; e que nas côrtes vindoiras sempre se podesse correger e emmendar qualquer defeito ou erro que houvesse nas passadas.» Com outras particularidades, cuja mais expressão não é necessaria.E n'este accordo cuidou o Infante D. Anrique que,se o Infante D. Pedro o assignasse e consentisse, que levemente acabaria com a Rainha que tambem assi o fizesse; mas ella, a que o dito acordo foi primeiro mostrado, por induzimentos de não verdadeiros e sãos conselheiros o denegou fazer, querendo que o Regimento lhe fosse dado inteiramente, e que ella de sua mão daria d'elle a parte que quizesse a quem lhe bem parecesse.E o Infante D. Pedro, como quer que mostrasse do dito acordo sentimento, por lhe ser n'elle mui limitada e adelgaçada a parte do reino que havia de reger, porém por assessego disse: «que faria o que o Infante seu irmão quizesse».Mas o Infante D. Anrique, vendo tão forte o proposito da Rainha, houve o feito por descordado de todo. De que o povo foi logo sabedor, e posto em grande alvoroço contra a tenção da Rainha, e de seguirem a do Infante D. Pedro, qualquer que fosse. Ao qual os povos por Lopo Antonio, que depois foi escrivão da puridade, fizeram saber «que estavam para seguir o que elle ordenasse, affirmando que elle só sem outrem havia de reger.»A Rainha por os de sua parcialidade, que d'este alvoroço foram logo sabedores, foi conselhada que para o atalhar, como cumpria a seu serviço e honra, e bem do reino, convinha que logo assignasse o accordo, e não parecesse que por sua parte ficava; á Rainha prouve fazel-o, e mandou logo chamar o Infante D. Anrique, em cujo poder era o Regimento, e o assignou, e ordenou que os Infantes e os outros prelados e condes, e procuradores, o assignassem e jurassem juntamente, o que todos fizeram em um altar, perante notairos publicos, salvo o arcebispo D. Pedro, que não quiz por não ficar o Regimentoin solidoá Rainha. Mas cada um que assignou e jurou,fez assi seu juramento, e só escreveu seu signal com taes cautellas e palavras, que bem parecia querer leixar a sua disposição fazer sempre depois o que quizesse, sem parecer que o quebrantava.CAPITULO XVIComo a Rainha por meio do conde de Barcellos enviou pedir ao Infante D. Pedro o alvará que lhe tinha dado sobre o casamento d'El-ReiO conde de Barcellos, como quer que assignou este Regimento, não foi porém d'elle satisfeito, por lhe não ficar n'elle alguma parte; e como homem que para acrecentar por qualquer maneira seu nome e proveito, teve sempre grande cuidado, desejando que todavia o casamento d'El-Rei com sua neta se fizesse, vendo que o alvará que a Rainha tinha dado ao Infante D. Pedro lhe era para isso grande embargo, ordenou por si e por outros de sua tenção que a Rainha com razões obrigatorias com que a moveram, mandasse pedir o alvará ao Infante D. Pedro. A qual como quer que, como virtuosa o refusasse, por não quebrar sua verdade, e mais a determinação d'El Rei D. Duarte seu marido; porém como importunada e induzida lh'o fizeram consentir.E, porque algum dos outros que eram n'este acordo, não ousou de ir em nome da Rainha ao Infante pedir-lhe o alvará, o conde de Barcellos acceitou o cargo, e foi ao Infante, e lhe disse:«Senhor, a Senhora Rainha vos manda dizer que sabeis, que vos tem dado um alvará sobre o casamentod'El-Rei nosso Senhor, seu filho com vossa filha; e por quanto este caso é de tamanho peso e importancia, que o não devera passar sem accordo e conselho dos principaes do reino, a que tambem toca; e agora por estes movimentos não é, nem póde n'isso entender, vos roga que lhe mandeis o alvará, e que sobre isso terá a maneira que vir que cumpre, fallando primeiro com nós outros, de quem sabeis que não ha de sahir, salvo cousa que seja vossa honra e acrecentamento.»O Infante lastimado da embaixada e avisado de sua destruição, d'onde nacia, a que fim vinha, disse:«O alvará que dizeis, é em meu poder; e eu, se quizesse, justa e honestamente podia denegar á Senhora Rainha a entrega d'elle; porque não sei como o que por El-Rei meu Senhor e irmão me foi outorgado, e por ella depois a mim lembrado, requerido e outorgado, se me póde revogar sem causa; bem creio que em suas virtudes haveria firmeza de cumprir o que promette, e mais em cousa tão justa e tão honesta, se a não movessem d'ella conselheiros pouco fieis, no que lhe fazem pouco serviço; porém, porque não pareça que eu por força quero, nem tomo, o que com razão me devia ser requerido e dado, dae a sua Senhoria seu alvará, e irá roto, e não são a seu poder, em testemunho da quebra de sua verdade, que me quebrou.»E logo o tirou de um cofre, e o rompeu, e roto o entregou ao conde.CAPITULO XVIIComo El-Rei se foi a Lisboa, onde o Infante D. João veiu a primeira vezUmmez e alguns dias mais duraram as côrtes em Torres Novas, em fim das quaes, por ser o anno de mantimentos mui esteril, e aquella comarca mui cara, acordou a Rainha e os Infantes de se irem, como foram, com El-Rei para Lisboa, onde, por via do mar com industria e aviamento de bons regedores, se buscou razoado provimento, que deu causa serem hi os mantimentos em menos careza, que em alguma outra parte do reino.O Infante D. João, depois de convalescido da doença de que já se disse, soube do fallecimento d'El-Rei seu irmão, de que sobre todos seus irmãos mostrou ser mais anojado e não era sem razão; porque por fallecimento da Rainha D. Filippa, sua madre, o Infante D. João e Infante D. Fernando ficaram pequenos; e El-Rei D. João recolheu para si o Infante D. Fernando, que era mais moço; e deu o Infante D. João a El-Rei Duarte que o criou e amou sempre, como proprio filho: e por esta criação, que com elle teve, álem da geral e natural divida d'El-Rei e irmão lhe devia o Infante D. João, sentiu sobre todos sua morte; porque vindo ante a presença d'El-Rei e da Rainha, depois da obediencia e reverença devida, suas continuas lagrimas e dorosas palavras davam clarotestemunhodo sentimento de seu coração pela morte d'El-Rei. E ali em publico fez logo uma falla á Rainha de grandes offerecimentos, de a servir e amar mais que nunca, com palavras de muita discrição eamor, e acatamento, em que tambem com razões evidentes lhe tocou, que lhe parecia que se não devia antremeter no regimento do reino; e que assi como esta havia de ser sua tenção, assi seria tambem que em todo o mais sua honra, estado, acatamento e serviço se guardasse por todos o mais inteiramente, do que se nunca guardára a outra Rainha; do que ella não foi contente, e muito menos os da sua tenção, que eram presentes: e porque isto foi dito de praça, logo o rumor d'isso sahiu pela cidade, com que os povos e a gente d'ella principalmente começaram de se alvoroçar e praticar entre si secretamente, como tirariam o Regimento á Rainha.CAPITULO XVIIIDo despacho que se deu aos embaixadores de CastellaOs embaixadores de Castella, que eram na côrte, como se atrás disse, pelos desvairos que sobre o Regimento houve em Torres Novas não foram ouvidos, nem despachados até Lisboa, onde juntos á Rainha e Infantes com os deputados do conselho deram sua embaixada, a qual, por ser desgosto d'este reino, se crê que tardou tanto em se ouvir; porque já a sustancia d'ella seria revelada.Requereram em nome d'El-Rei D. João o segundo, que então reinava em Castella, que as egrejas que pela Cisma então foram tiradas aos bispados de Tuy e Badalhouce, e eram regidas por administradores, se tornassem a seus proprios prelados. Outrosi que os mestrados d'Aviz, e Santiago d'estes reinos tornassem umá Ordem e obediencia de Calatrava, e o outro á de Santiago de Castella, cujos membros foram, e que os titulos ficassem, como eram, e as enlições se fizessem cá; mas as confirmações d'elles se houvessem pelos superiores de Castella. Requereram outrosi que alguns bispados d'estes reinos reconhecessem superioridade ao arcebispo de Sevilha, como Metropolitana sua, que sempre fôra. E assim apontaram sobre tomadias de navios, que se fizeram, requerendo restituição, apontando e allegando sobre cada uma d'estas cousas muitas razões e fundamentos de direito: porque entre elles era um grande doutor de direitos.Ouvida esta embaixada, em que tambem os embaixadores tocaram aggravos de sua tardança, houve sobre o despacho d'elles grandes divisões, segundo os votos de cada um; porque a uns parecia bem responder-lhe manso, poendo a defesa d'esto em razões de direito; e a outros parecia que no esforço e confiança d'armas e valentes corações; e finalmente foi havido então por melhor acordo envia-los, como enviaram, sem alguma certa resposta, escurando-se com os movimentos, torvações e pouco assessego que pela morte d'El-Rei ainda no reino havia; e que El-Rei, depois d'haver em todo seu conselho, enviaria logo a El-Rei de Castella a resposta com sua embaixada.E o que d'estes requerimentos se pôde logo saber, foi que não nasceram da propria vontade d'El-Rei, em cujo nome vinham; mas dos Infantes d'Aragão, seus cunhados, que então picavam com elle, e governavam o reino, comfundamentode meter este reino em necessidade, e elles por seus meios e com sua privança o remedearem, e esperando que por isso carregariam maior obrigação a El-Rei de P de meter este reino em necessidade, e elles por seus meios e com sua privança o remedearem, e esperando que por isso carregariam maior obrigação a El-Rei de Portugal e a seus reinos e vassalos, para as necessidades suas, em que esperavam de se vêr, como viram: por quanto fizeramentão lançar fóra d'El-Rei de Castella e de sua côrte o condestabre D. Alvaro de Luna, grande poderoso, e muito seu imigo.CAPITULO XIXComo a Rainha começou de reger e ser em seu regimento prasmadaA Rainha regia o reino, e tinha El-Rei em seu poder, e por seu aio Nuno Martins da Silveira: e como ella era de boa e virtuosa tenção tomava o encarrego do Regimento com mais trabalho e continuação do que tivera em costume, nem requeria sua fraca desposição; e des-hi os requerimentos assi pela boa ordem que se logo deu ao ouvir d'elles, como por haver já dias que se não despachavam, cresciam cada vez mais; o que cada dia, além de ser prenhe, lhe causava dôres e enfermidades, que contrariavam seu bom e verdadeiro proposito; e, sendo com razão aconselhada que temperasse seu grande trabalho, e entrepozesse nos negocios alguns dias para seu repouso e descanso, ella constrangida já de suas proprias necessidades o começou de fazer, não sem reprensões do povo, com que indevidamente logo começaram a acusar sua innocente fraqueza, e queriam asolver seus muitos e desordenados requerimentos, e incomportaveis importunações. Pelo qual alguns se atreviam já havendo por serviço de Deus e d'El-Rei e bem do reino de cometer ao Infante secretamente que tomasse o Regimento de todo; mas elle, ou por sua dissimulação, ou por ser assi sua vontade, a todos tirava de tal esperança; antes em taes cousas assi se fazerem,posto que melhor se podessem e devessem fazer, sempre escusava as fraquezas e innocencia da Rainha com quanto podia.CAPITULO XXFallecimento da Infante D. FilippaN'esteanno de mil e quatrocentos e trinta e nove, no mez de Março, porque começaram de morrer em Lisboa, e se finou de pestenença a Infante D. Filippa, de onze annos, filha d'El-Rei D. Duarte e da Rainha sua mulher, El-Rei e o Principe se foram a Almada; e a Rainha se foi a uma quinta junto com Santo Antão, que se chama Monte Olivete.CAPITULO XXINascimento da Infante D. JoanaE alli pariu a Infante D. Joana, que depois foi Rainha de Castela, e lhe vieram novas como o Infante D. Pedro, seu irmão mais moço, fôra morto em Italia de uma bombardada, estando com El-Rei D. Affonso seu irmão, em cerco sobre a cidade de Napoles. E assi veiu á Rainha n'este anno uma carta consolatoria do Papa Eugenio, confortando-a sobre a morte d'El-Rei seu marido, e amoestando-a que por alguma maneira se não desse a cidade de Ceuta por a soltura do Infante D. Fernando, allegando-lhe para tudo razões santas e catholicas quanto a Deus, e de muita honra e louvor para este reino.CAPITULO XXIPraticas que o Infante D. Pedro teve sobre descontentamentos que tinha da Rainha ácerca do RegimentoNo mez d'Agosto d'este anno de mil e quatrocentos e trinta e nove, a Rainha se foi da quinta de Santo Antão para Sacavem: e o Infante D. Pedro ficou com El-Rei em Lisboa, onde fallando com D. Alvaro Vaz d'Almada, capitão mór do mar, e com outros de que se fiava, disse:«Que por quanto n'esta parte do Regimento que aceitára, segundo era pequena, e a Rainha se havia soltamente em todo, e defamava a elle e todas suas cousas, elle recebia grande abatimento: sua vontade era, por muitas razões que apontou, leixar aquelle pequeno cargo que lhe fôra dado, e ir-se para suas terras: e que porém queria saber que lhes parecia».No que por seus conselheiros houve votos desvairados, cá uns tinham que emprendesse e tomasse o Regimento de todo: e outros que se contentasse com a parte que tinha, e se são fosse: outros que leixasse tudo e se fosse: e a cada um não falleciam razões assaz aparentes para justificar seu parecer. E finalmente foi acordado que d'estas seguisse a parte que ao Infante D. João melhor parecesse; porque era de crêr que á sua seria o Infante D. Anrique e o conde de Barcellos, e assi seus filhos os condes d'Ourem e d'Arrayollos.CAPITULO XXIIComo o Infante D. Pedro e o Infante D. João ambos se viram e fallaram sobre o RegimentoPeloqual o Infante D. Pedro enviou pedir ao Infante D. João, que era em Alcohete, que se vissem, como viram logo ambos, no Oratorio de Santa Maria do Paraiso, em que se depois fundou e mudou o mosteiro de Santos da Ordem de Santiago.E porém ante da ida do Infante D. João, elle primeiro foi avisado do capitão Alvaro Vaz, como de si mesmo, da tenção porque o Infante D. Pedro se queria com elle vêr.Alli os Infantes se apartáram sós, onde o Infante D. Pedro com largo recontamento propoz a tenção em que era de leixar a parte do Regimento que tinha: como era aconselhado pelo contrairo, apontando as causas e razões em que uns e outros se fundavam: e que porém lhe pedia que n'isso o aconselhasse; por que na confiança que tinha de seu saber e certidão de amor, que entre elles havia, sua vontade era seguir o que a elle melhor parecesse.O Infante D. João lhe respondeu:«Senhor irmão, ante d'isto eu tinha já n'este caso assás consirado; e, porque mui em breve vos responda, sabei que se chamais erro acceitardes o Regimento, como sois aconselhado, não sei cousa que possaes acertar, cá se vós nascereis primeiro e vos não fizera Deus tão bom e tão prudente como soes, e assi ao Infante D. Anrique nosso irmão, crêde que eu requerêrao Regimento para mim; e se m'o não quìzerem dar, eu o tomára ou morrêra sobre isso; porque com quanto a Rainha é mui virtuosa e mui discreta e amiga de Deus, nunca vi mór vergonha e abatimento nosso, que sermos regidos por ella; pois é mulher, e mais estrangeira».O Infante D. Pedro lhe respondeu:«Senhor irmão, bem vejo o que dizeis ter fundamento de muita razão, se por todos se quizesse assi consirar com juizos livres de paixão; mas como n'este caso haja propositos e tenções desvairadas, tenho receio nascer d'ellas alguma divisão, que a qualquer reino grande faria perder, quanto mais a este de Portugal tão pequeno, que sem sua destruição não padece algum desacordo; e por elle ser a herdade em que nascemos e que nos criou, e porque nosso padre tanto sangue espargeu, e tanto trabalhou pela conservar e manter, eu sentiria em egual de morte para mim ser eu causa de sua perdição: verdade é que, se com prazer de todos e sem alguma divisão se podesse fazer, logo por serviço de Deus e d'El-Rei meu Senhor, e bem de seus reinos e minha honra, folgaria aceitar este cargo.»O Infante D. João lhe disse:«A divisão e desacordo do reino que temeis, não querendo vós usar do Regimento, não se escusa se a Rainha com estes que agora esforçam sua tenção o reger; porque elles n'esta contrariedade que seguem não hão respeito a algum amor que tenham á Rainha, nem menos ao reino em que vivem, mas sómente por segurarem e escaparem os castigos de seus erros passados, e d'outros, se os fizerem; e para com achaque de necessidades fingidas tomarem causas de pedirem e encurtarem o patrimonio real e acrecentarem o seu; e por esta conta, que é verdadeira, a justiça e a fazendado reino, em que consiste toda sua sustancia, cairiam com elle de necessidade na perdição que temeis: e além de o cuidado e trabalho de reger ser incomportavel ás forças da Rainha, hei ainda mais por principalinconvenienteo Regimento d'este reino ficar só á sua disposição esta vinda dos Infantes de Aragão, seus irmãos, a Castella; porque, como são homens amigos de novidades, e tem no mesmo reino grandes competencias, certo é que se hão de favorecer com este, e poer muitas vezes as gentes d'elle em perigo; e as rendas em despesa por sua ajuda e favor: assi que por estas razões e inconvenientes, que em vós regendo todos cessam, meu conselho é que vós todavia rejaes: e quando o vós não quizerdes ou não poderdes fazer, que o faça o Infante D. Anrique nosso irmão; e des-hi eu, se o caso a isso chegar, e da divisão que tocaes, não tenhaes receio; porque o Infante D. Anrique e o conde de Barcellos, e seus filhos, os condes d'Ourem e d'Arrayllos, que são as pessoas principaes do reino, seguiriam em tudo nossa tenção, quanto mais esta, em que ha tanta necessidade, justiça e honestidade: e se d'alguma parte devem de esperar honra e interesse, em vós a terão mais certa: e por tanto eu me affirmo que todavia deveis reger; e que logo o declareis; e nas côrtes que se ora hão de fazer ácerca d'isso, eu darei e susterei a voz por vós: e não sinto alguem tão ousado, que m'a ouse contrariar.»O Infante D. Pedro finalmente disse:«Que seu parecer era, que por então não devia ácerca d'isto fazer altercação nem mudança alguma; porquanto até ás côrtes havia ainda bom espaço de tempo, no qual poderia ser que a Rainha mesma cansaria n'este cargo, e não se sentiria desposta para elle, e seria contente d'algum tal meio, porque cessassemodios e escandalos entre elles, e o reino seria regido em outro bom assessego, como desejava.»E n'este acordo ficaram; e o Infante D. João se tornou a Alcochete; e o Infante D. Pedro se foi a Camarate, junto com Sacavem.CAPITULO XXIIIComo a Rainha lançou fóra de sua casa certas donzellas, por suspeitas a ella, e affeiçoadas ao Infante D. PedroA Rainha estava em Sacavem com El-Rei e seus filhos, onde seu coração não tinha repouso com novas de mudanças e alvoroços, que se em Lisboa cada dia moviam, de que logo era avisada por pessoas que por isso esperavam haver com ella mais graça, e pelas cousas que lhe faziam crêr, ella começou d'haver e declarar por suspeitas e contrairas a si mesma todas cousas do Infante D. Pedro; pelo qual com palavras irosas, e que não cabiam em sua prudencia, mansidão e virtudes, lançou fóra de sua casa duas donzellas, filhas de Izabel Gomes da Silva, mulher de Pero Gonçalves, vedor da fazenda, e filha de João Gomes da Silva, e irmã d'Aires Gomes da Silva; e assi não consentiu em sua casa outra donzella, filha de João Vaz d'Almada, sobrinha do capitão, por serem pessoas do Infante D. Pedro: o que a Rainha fez por induzimentos alheios sem aquelle resguardo e bom conselho, que a seu estado e serviço cumpria; porque o lançar d'estas donzellas fez contra ella grande escandalo na cidade de Lisboa, por serem dos naturaes e principaes d'ella, e assi por se declararimiga do Infante D. Pedro, que do povo era mui amado; porque até li sua desavença d'ambos podia jazer em suas vontades; mas sua rotura não se dizia nem mostrava tão depressa como se por isto mostrou.CAPITULO XXIVDo alvoroço que se seguiu contra a Rainha pela execução dos varejos de LisboaAcrecentoumais este escandalo contra a Rainha, e para a maior parte do povo soltamente contrariar seu Regimento, passar uma carta em nome d'El-Rei, porque fazia mercê a Nuno Martins da Silveira, seu aio, dos varejos a que os mercadores de Lisboa eram obrígados de sete annos, cuja publicação e esperança de execução aos ditos mercadores causou tanta tristeza e sentimento, que certificados de suas perdições, se se executassem, se soccorreram á camara da cidade, e com palavras em que moviam todos a piedade para si mesmos, e com muitas razões que pareciam de serviço d'El-Rei e bem do reino, lhe pediram que com a Rainha e com o conselho, ou por outra qualquer maneira a tal mercê impedissem.A cidade fez sobre isso seu ajuntamento, em que por força entraram mais dos ordenados; e a elle vieram um Bertolameu Gomes, contador, e outro Alvaro Affonso, escrivão da sisa dos pannos, criado de Nuno Martins, em cujo poder era a carta, por serem os solicitadores d'ella; e, sendo lida em publico, foi tanta a defensão e alvoroço em todo o povo, por ser passada por só auctoridade da Rainha sem accordo do Infante D. Pedro, que Alvaro Affonso, com fundamentode lhe fazerem padecer morte mais crua, o fizeram saltar por uma janella, mas, por cair primeiro em um telhado, não morreu; e a Bertolameu Gomes alguns cidadãos seus amigos com grande difficuldade defenderam a vida: cá n'estes, por serem mui ensinados no que pertencia ás rendas d'El-Rei, havia suspeita, que deram azo e conselho, como esta mercê se pedisse.Os que fizeram este insulto e alvoroço em desacatamento da Rainha, eram quasi todolos do povo com alguns principaes da cidade, e com temor que tinham de a Rainha com rigor de justiça os mandar castigar como porventura mereciam, procuravam e ordenavam assi em secreto, como já em publico, que o Regimento lhe fosse de todo tirado, sobre o qual tinham suas praticas, que enviavam logo ao InfanteD. Pedro, dando-lhe muitas razões e esforço para só tomar o carrego de reger. O qual, como quer que até li sempre mostrasse estranhar com palavras de honestidade aos que lhe em tal caso fallavam, porém a este tempo por ter sabido e visto como a Rainha se declarava ter-lhe desamor e má vontade, d'hi em diante, aos que n'isso o comettiam, já recebia e ouvia mais com rostro de lhe agradecer que o fizessem para vir a effeito, que de lhe pesar.E porque na cidade havia n'este caso propositos e vontades contrairas, assi naciam d'ellas bandos e rumores que mostravam signaes de rompimentos perigosos, aos quaes nem por provimentos e penas dos officiaes de justiça, nem por pregações que se de industria de bons religiosos para ello fizeram, nunca se pôde atalhar, antes crecia cada vez mais.CAPITULO XXVIda do conde d'Arrayollos a Lisboa sobre assessego d'ella, e como não aproveitouEraa este tempo na cidade Pedro Anes Lobato, homem de grande auctoridade e bom cavalleiro, ao qual, como quer que de grande condição de sangue não fosse, El-Rei D. João por conhecer d'elle ser bom e discreto, e em armas homem esforçado, deu a governança da justiça da casa do civel, e a tinha; e por vêr a união e desacordo na cidade tamanho, a que com sua vara e forças não podia resistir, avisou de todo a Rainha, e por muitas causas lhe enviou pedir trigoso remedio. A qual com esses que com ella eram presentes, teve sobr'isso conselho, onde foi acordado que o conde d'Arrayollos, que estava em uma quinta junto com Loures, por ter cargo da justiça do reino e ser pessoa de valor e autoridade, fosse poer assessego nas cousas da cidade, para o qual foi logo chamado, e fallou com a Rainha o que n'aquelle caso cumpria: e d'ella por ser de boa tenção e sã conciencia, e tambem de si mesmo por ser virtuoso e justo, foi avisado segundo o feito estava, de o tratar e assessegar mui mansa e temperadamente.Partiu-se logo o conde para Lisboa com a trigança que se requeria, onde chegou á tarde, e para haver melhor informação das cousas, e ter conselho sobre o remedio d'ellas, quizera repousar algum pequeno espaço de tempo sem n'ellas intender; mas ao outro dia por sua ida foi tanto o alvoroço e desacordo na cidade, e com tanta soltura de palavras deshonestase mostranças de desobediencia, que o conde não sabia que caminho de remedio tomasse; porque os da parte da Rainha favoreceram-se com sua ida, affirmando em seu favor que era para fazer justiça dos alevantadores da união sobre o caso dos varejos, e que contrariavam o Regimento da rainha: e os da parte do Infante D. Pedro e Infante D. João com muitos da cidade, que eram d'outro acordo, tomaram receio de ser por ventura verdade; especialmente porque um Luiz Gonçalves, official na relação, criado de Pedro Anes Lobato, e que ás cousas da Rainha havia grande affeição, affirmou de praça que por a ida do conde á cidade cedo veriam por justiça as gigas da ribeira cheias de pés e mãos de muitos, como de pescado, o que logo se soltou publicamente: e por ser homem d'algum credito e ter officio na casa da justiça, fizeram para isso suas palavras alguma impressão e crença; e pareceu que as não diria sem ter alguma cousa d'isso sentido. Pelo qual alguns principaes cidadãos com verdadeiro temor e occupações fingidas de proverem suas fazendas, se ausentaram da cidade, temendo que em tanto alvoroço não houvesse justo juizo, e que por ventura poderiam receber pena sem culpa.Mas os do povo posposto todo o medo assi continuavam, e acrecentavam a cada vez mais sua união, e com tanto rumor d'algum fim perigoso, que o conde desesperado de com suas forças, nem da justiça poder assessegar o feito como desejava, havido primeiro sobre isso conselho, tentou de o remedear com prégações, palavras brandas, e de conciencia, que por algum bom e entendido religioso em ajuntamentos publicos se dissessem.E havido este por melhor e derradeiro remedio, o conde fez chamar um Frei Vasco da Allagoa, da Ordemde S. Domingos, ao qual por ser padre d'auctoridade e de letras, e ter boa audacia para dizer, encommendou que sobre o caso das uniões e desaccordos da cidade, o domingo seguinte prégasse no seu mosteiro, avisando-o primeiro que todo seu fundamento fosse commover o povo a paz e assessego.E sendo n'aquelle dia por aviamento e rogo do conde juntos no mosteiro quasi todolos da cidade, Frei Vasco começou seu sermão, e por ser servidor da Rainha e ás cousas de seu serviço mais inclinado, esquecido do aviso que lhe fôra dado d'amansar o povo com esperança de bem, tocou o caso e revoltas da cidade com tanta reprensão dos cidadãos e povo d'ella, que com altas exclamações os chamava ingratos e desleaes, trazendo-lhes ás memorias entre outros exemplos, a pena que os cidadãos de Bruges mereceram e houveram pela desobediencia e traição que cometteram contra o duque Filippe.E estando já todo o povo mui descontente e escandalisado das palavras de Frei Vasco, um barbeiro em meia voz, e com rostro iroso disse contra os que junto com elle estavam:«E como egual é o nosso caso dos framengos, que quizeram matar seu principe e Senhor?—Nós não somos tredores mas mui leaes, e não havemos de matar nosso Rei e Senhor; mas porque o amamos havemos todos de morrer por elle, quando lhe cumprir: mas certo este frade alguma cousa tem sentida: porque nos põe esta raiva.»E estas palavras com algum rumor começaram ir de puridade em puridade pelas orelhas de muitos do povo, os quaes assi como as ouviam assi volviam logo os olhos de sanha contra o frade, e com mostranças de tanta indinação, que elle sentindo seu alvoroço,por se não vêr em perigo, desamparou sem conclusão o pulpito, e se acolheu ao mosteiro.O conde d'Arrayollos foi mui descontente do prégador, por errar em todo a sustancia de seu proposito, e do que era para o tempo necessario. E vendo que para amansar o povo já lhe não ficava remedio para o fazer, e que sua estada d'hi em deante lhe faria abatimento, se partiu da cidade, e foi á Rainha dar-lhe de tudo conta.E o povo depois de comer não esquecido do escandalo do sermão foram ao mosteiro e disseram ao priol que logo lançasse Frei Vasco fóra d'elle, se não que o derribariam e queimariam. E o priol aconselhado da necessidade do tempo assi o fez; e o prégador se salvou secretamente.CAPITULO XXVIComo o Infante D. Pedro foi a Lisboa reprender e assessegar as uniões da cidadeO Infante D. Pedro estava em Camarate como já disse, e sabendo que a ida do conde seu sobrinho á cidade nas revoltasd'ellanão aproveitara, desejando poelas em assessego se foi lá; e no mosteiro do Carmo onde pousou fez logo ajuntar os principaes da cidade com os officiaes da Camara, e com a cara grave e palavras de grande autoridade sustancialmente os reprendeu de suas uniões e alevantamentos, com que faziam doésta á Rainha e a elle e a todolos que tinham cargo de reger por El-Rei o reino; e que por isso tinham merecido aspero castigo, e o mereciam maior se o não atalhassem; e que, sesobre aggravos que tivessem recebidos queriam requerer suas liberdades e direito, que o fizessem por outra maneira como subditos, e que seriam bem ouvidos; e não com presumpção de superiores, de poer e despoer Regedor á sua vontade, como diziam, tocando-lhe sobr'isto muitas e notaveis razões conformes a este proposito, as quaes alguns tomaram que não sahiram verdadeiramente de sua vontade; porque tinham concebido que lhe não pesava de semelhantes movimentos por serem contra o Regimento da Rainha e com fundamento de elle o ter; mas a determinação d'este juizo fique sómente a Deus que o soube.Os cidadãos, depois de ouvido o Infante, lhe responderam mui mansamente, tendo-lhe em mercê aconselha-los bem; e d'es-hi asolvendo-se como melhor podéram dos alevantamentos passados, especialmente no caso dos varejos, em que houveram respeito a não serem os mercadores da cidade pela execução d'elles destruidos, e assi em quererem áquelle escrivão, que persumiram ser inventor, dar tal castigo, que outros por seu exemplo semelhantes cousas não inventassem, pedindo ao Infante que em seus trabalhos e aggravos os quizesse ajudar e favorecer, obrigando-o para isso com razões assaz honestas e boas. Onde logo por um dos procuradores dos mestres foi apontado que as divisões e escandalos não nasciam no reino, salvo por o Regimento d'elle ser repartido por muitos, e que para bem ser, ou havia de ficar sómente á Rainha ou a elle, allegando do contrairo muitos inconvenientes não sem fundamentos de razão, como cousa em que já muitas vezes tinham praticado.E o Infante depois de sobretudo haver largas repricas e praticas, lhe encommendou muito o assessego da cidade, e que para as côrtes que se chegavam, podiam livremente requerer e apontar o quelhes bem parecesse, e que elle no que fosse direito e justiça os ajudaria: e com isto se despediu d'elles, e se tornou a Camarate.CAPITULO XXVII
Da contradição e mudança que houve n'este acordoFez-seeste acordo entre estes senhores pela manhã, no qual dia os que eram ajuramentados, em especial o Arcebispo de Lisboa, por meio de seus meios, que dentro trazia, souberam logo da falla que a Rainha e o Infante houveram; e, como ficaram ambos d'acordo, do que lhes muito pesou, e em especial se disse, que desprouvera muito ao conde de Barcellos, que desejava e procurava entre elles haver desacordo, por se não aceitar o casamento de El-Rei com a filha do Infante, esperando com a vinda do Infante D. João á côrte, que El-Rei casasse com sua filha, como atraz se tocou.E ao outro dia, sendo ante a Rainha juntos alguns d'estes Principaes seus servidores, lhe perguntáram em que maneira se concordára com o Infante. E a rainha lhes disse que era bem concordada; e que por assi ser dava graças a Deus, dizendo-lhe logo a concordia em que ficaram, e as causas e razões porque ella devia ser, e era d'isso contente. A qual cousa lhe logo todos desdisseram; e que fôra n'isso muito enganada, e seu estado muito abatido; e que ainda errára fazer nada em cousa semelhante sem primeiro lh'o fazer saber, ao menos para a aconselharem, afeando tal concerto com razões e inconvenientes assi córados, e tão aparentes, que a Rainha, vencida d'elles, creu que em fazer tal acordo não podera fazer cousa em todo mais errada. Pelo qual logo alli lhe fizeram tomar outra determinação contraira á em que ficára com o Infante; e que todavia se afirmasse ella só reger sem outra ajuda; e, quando não podesse com algumaparte do regimento, que de sua mão a désse e encarregasse a quem sentisse que havia de servir e fazer sua vontade. O que não ficou logo por saber ao Infante D. Pedro.CAPITULO XIVApontamentos que publicamente se fizeram contra o testamento d'El-Rei para a Rainha não dever regerComesta volta que a Rainha fez do proposito e acordo em que ficára com o Infante, começaram outra vez as differenças e debates entre os grandes e povo sobre o regimento.A Rainha com os de sua parte requeriam para ella toda a governança em solido, assi como no testamento d'El-Rei ficára determinado: os povos geralmente com outros da parte do Infante D. Pedro requeriam o regimento para elle só sem outra ajuda nem companhia, allegando que a Rainha por muitas razões não devia reger; e d'este voto foram Pedro de Serpa, e Vicente Egas, cidadãos e procuradores de Lisboa, homens honrados, bem entendidos, e de grande autoridade. Os quaes altercando sobre estes debates perante El Rei, como quer que era menino, quando um e quando o outro lhe disseram:«Muito alto e poderoso Principe, Rei nosso Senhor, porque nos parece que acerca de se regerem estes reinos por vós, sois requerido que cumprindo o testamento d'El-Rei vosso padre, que Deus haja, deis inteiramente o regimento á Rainha nossa Senhora vossa madre, nós, como procuradores da vossa cidadede Lisboa, e assi em nome dos outros procuradores que aqui são, nossos irmãos, dizemos que sob reverencia de vossa real pessoa, El-Rei vosso padre não podia fazer tal testamento; nem em tal caso leixar Regedor do reino á sua disposição; porque a nós vosso povo pertence por direito enleger quem por defeito de vossa madura edade nos haja por Vós de defender com as armas e reger por leis com justiça.E isto não aggrava vossa legitima sobcessão; nem mingúa em vossas lealdades; cá por serdes seu filho maior legitimo, e barão, nós alegremente vos reconhecemos e recebemos por nosso verdadeiro Rei e Senhor; e com ajuda de Deus vos guardaremos aquella lealdade, fé, e amor, que bons, leaes vassalos devem a Senhor; mas quanto a enleger Regedor, até que Vós sejaes em edade para nos por vós regerdes, nós buscaremos e enlegeremos quem em vosso nome nos haja de reger e governar; porque asi como a nós sómente pertence enleger Rei, se a real e legitima sobcessão dos Reis d'estes reinos por algum caso, o que Deus não queira, se destinguisse, e se não guardaria em tal caso o testamento, nem disposição do Rei postumeiro; assi pertence a nós enleger agora Regedor por Vós; e para serdes servido abasta que nós o enlejamos tal, que seja natural, e do vosso real sangue, e não estrangeiro, e em que haja virtudes, saber, e conciencia, e sobre tudo lealdade, a que se não deva poer suspeita. E vossa mui Real Senhoria, guarde-nos nossa justiça e liberdade, como esperamos, no que recebereis muito serviço: e nós vossos vassalos com vossos reinos receberemos mercê, proveito e assessego, que deveis desejar: e assi o pedimos a vós, mui illustres Infantes e magnificos condes; e requeremos a vós, honrados senhores, e leal povo de Portugal, que aqui soisjuntos para celebrar estas reaes côrtes, que assi juntamente o peçaes e requeraes que se faça.No cabo d'esta falla, assi como os corações dos que a ouviram eram desvairados, assi não houve rostos nem consentimentos eguaes; e por isso não cessáram os primeiros debates do Regimento, os quaes, como sómente eram entre a Rainha e o Infante, como disse, alguns por assessego apontavam que ambos fossem exclusos de reger, e enlegessem outros; outros diziam, mas que ambos regessem juntamente n'aquella parte que a cada um bem coubesse; outros tinham que a Rainha sómente tivesse o Regimento; e outros o davam inteiramente ao Infante: e a esta parte se inclinavam mais os povos; e a cada uns para execução de seus votos não falleciam autorizadas razões.CAPITULO XVDo meio que o Infante D. Anrique tomou entre a Rainha e o Infante D. Pedro ácerca do RegimentoO Infante D. Anrique era a estas differenças presente, e como virtuoso meio trabalhou de as poer em alguma temperança: e posto que alguns tiveram que elle fôra sempre mais inclinado á parte da Rainha que á do Infante; porém, passados quinze dias d'apontamentos e conselhos, foi feita por acordo do Infante D. Anrique, e dos outros do conselho e procuradores do povo uma determinação por maneira de Regimento, que se denunciou em publico ajuntamento por Nuno Martins da Silveira, escrivão da puridade, cuja sustancia foi:«Que a Rainha ficasse por tetor e curador d'El-Reiseu filho com a ministração das rendas e officios; e o Infante D. Pedro tivesse cargo da defensão do reino com titulo de defensor, e o conde d'Arrayollos, filho do conde de Barcellos tivesse cargo da justiça; e que na côrte, onde El-Rei estivesse, andassem sempre seis do conselho repartidos a tempos, e mais um prelado e um fidalgo, e um cidadão; e na côrte outros alguns sem especial necessidade não podessem andar: e que com estes seis do conselho e tres dos estados se determinassem todas as cousas que sobreviessem com autoridade da Rainha e acordo do Infante D. Pedro, estando sempre pelas mais vozes. E sendo caso que seus votos fossem em desvairo por egual, que o notificassem então aos Infantes e condes; e que segundo as mais vozes fosse o negocio da duvida determinado».E as repartições d'estas cousas, em que estes senhores haviam de ter cargo, eram assi limitadas, que muito poucas, e de pequena sustancia podia cada um em seu cargo, por só determinar.Foi mais ordenado «que em cada um anno se fizessem côrtes, ás quaes não viessem mais que dois prelados e cinco fidalgos, e oito cidadãos, e n'ellas se determinassem as duvidas que os do conselho por si não podessem concludir, ou algumas outras em sustancia assi especiaes, que para aquelle tempo devessem ou podessem ser reservadas, assi como mortes de grandes homens e privação d'officios grandes, e perdimentos de terras, e corregimento ou fazimento de leis e ordenações; e que nas côrtes vindoiras sempre se podesse correger e emmendar qualquer defeito ou erro que houvesse nas passadas.» Com outras particularidades, cuja mais expressão não é necessaria.E n'este accordo cuidou o Infante D. Anrique que,se o Infante D. Pedro o assignasse e consentisse, que levemente acabaria com a Rainha que tambem assi o fizesse; mas ella, a que o dito acordo foi primeiro mostrado, por induzimentos de não verdadeiros e sãos conselheiros o denegou fazer, querendo que o Regimento lhe fosse dado inteiramente, e que ella de sua mão daria d'elle a parte que quizesse a quem lhe bem parecesse.E o Infante D. Pedro, como quer que mostrasse do dito acordo sentimento, por lhe ser n'elle mui limitada e adelgaçada a parte do reino que havia de reger, porém por assessego disse: «que faria o que o Infante seu irmão quizesse».Mas o Infante D. Anrique, vendo tão forte o proposito da Rainha, houve o feito por descordado de todo. De que o povo foi logo sabedor, e posto em grande alvoroço contra a tenção da Rainha, e de seguirem a do Infante D. Pedro, qualquer que fosse. Ao qual os povos por Lopo Antonio, que depois foi escrivão da puridade, fizeram saber «que estavam para seguir o que elle ordenasse, affirmando que elle só sem outrem havia de reger.»A Rainha por os de sua parcialidade, que d'este alvoroço foram logo sabedores, foi conselhada que para o atalhar, como cumpria a seu serviço e honra, e bem do reino, convinha que logo assignasse o accordo, e não parecesse que por sua parte ficava; á Rainha prouve fazel-o, e mandou logo chamar o Infante D. Anrique, em cujo poder era o Regimento, e o assignou, e ordenou que os Infantes e os outros prelados e condes, e procuradores, o assignassem e jurassem juntamente, o que todos fizeram em um altar, perante notairos publicos, salvo o arcebispo D. Pedro, que não quiz por não ficar o Regimentoin solidoá Rainha. Mas cada um que assignou e jurou,fez assi seu juramento, e só escreveu seu signal com taes cautellas e palavras, que bem parecia querer leixar a sua disposição fazer sempre depois o que quizesse, sem parecer que o quebrantava.CAPITULO XVIComo a Rainha por meio do conde de Barcellos enviou pedir ao Infante D. Pedro o alvará que lhe tinha dado sobre o casamento d'El-ReiO conde de Barcellos, como quer que assignou este Regimento, não foi porém d'elle satisfeito, por lhe não ficar n'elle alguma parte; e como homem que para acrecentar por qualquer maneira seu nome e proveito, teve sempre grande cuidado, desejando que todavia o casamento d'El-Rei com sua neta se fizesse, vendo que o alvará que a Rainha tinha dado ao Infante D. Pedro lhe era para isso grande embargo, ordenou por si e por outros de sua tenção que a Rainha com razões obrigatorias com que a moveram, mandasse pedir o alvará ao Infante D. Pedro. A qual como quer que, como virtuosa o refusasse, por não quebrar sua verdade, e mais a determinação d'El Rei D. Duarte seu marido; porém como importunada e induzida lh'o fizeram consentir.E, porque algum dos outros que eram n'este acordo, não ousou de ir em nome da Rainha ao Infante pedir-lhe o alvará, o conde de Barcellos acceitou o cargo, e foi ao Infante, e lhe disse:«Senhor, a Senhora Rainha vos manda dizer que sabeis, que vos tem dado um alvará sobre o casamentod'El-Rei nosso Senhor, seu filho com vossa filha; e por quanto este caso é de tamanho peso e importancia, que o não devera passar sem accordo e conselho dos principaes do reino, a que tambem toca; e agora por estes movimentos não é, nem póde n'isso entender, vos roga que lhe mandeis o alvará, e que sobre isso terá a maneira que vir que cumpre, fallando primeiro com nós outros, de quem sabeis que não ha de sahir, salvo cousa que seja vossa honra e acrecentamento.»O Infante lastimado da embaixada e avisado de sua destruição, d'onde nacia, a que fim vinha, disse:«O alvará que dizeis, é em meu poder; e eu, se quizesse, justa e honestamente podia denegar á Senhora Rainha a entrega d'elle; porque não sei como o que por El-Rei meu Senhor e irmão me foi outorgado, e por ella depois a mim lembrado, requerido e outorgado, se me póde revogar sem causa; bem creio que em suas virtudes haveria firmeza de cumprir o que promette, e mais em cousa tão justa e tão honesta, se a não movessem d'ella conselheiros pouco fieis, no que lhe fazem pouco serviço; porém, porque não pareça que eu por força quero, nem tomo, o que com razão me devia ser requerido e dado, dae a sua Senhoria seu alvará, e irá roto, e não são a seu poder, em testemunho da quebra de sua verdade, que me quebrou.»E logo o tirou de um cofre, e o rompeu, e roto o entregou ao conde.CAPITULO XVIIComo El-Rei se foi a Lisboa, onde o Infante D. João veiu a primeira vezUmmez e alguns dias mais duraram as côrtes em Torres Novas, em fim das quaes, por ser o anno de mantimentos mui esteril, e aquella comarca mui cara, acordou a Rainha e os Infantes de se irem, como foram, com El-Rei para Lisboa, onde, por via do mar com industria e aviamento de bons regedores, se buscou razoado provimento, que deu causa serem hi os mantimentos em menos careza, que em alguma outra parte do reino.O Infante D. João, depois de convalescido da doença de que já se disse, soube do fallecimento d'El-Rei seu irmão, de que sobre todos seus irmãos mostrou ser mais anojado e não era sem razão; porque por fallecimento da Rainha D. Filippa, sua madre, o Infante D. João e Infante D. Fernando ficaram pequenos; e El-Rei D. João recolheu para si o Infante D. Fernando, que era mais moço; e deu o Infante D. João a El-Rei Duarte que o criou e amou sempre, como proprio filho: e por esta criação, que com elle teve, álem da geral e natural divida d'El-Rei e irmão lhe devia o Infante D. João, sentiu sobre todos sua morte; porque vindo ante a presença d'El-Rei e da Rainha, depois da obediencia e reverença devida, suas continuas lagrimas e dorosas palavras davam clarotestemunhodo sentimento de seu coração pela morte d'El-Rei. E ali em publico fez logo uma falla á Rainha de grandes offerecimentos, de a servir e amar mais que nunca, com palavras de muita discrição eamor, e acatamento, em que tambem com razões evidentes lhe tocou, que lhe parecia que se não devia antremeter no regimento do reino; e que assi como esta havia de ser sua tenção, assi seria tambem que em todo o mais sua honra, estado, acatamento e serviço se guardasse por todos o mais inteiramente, do que se nunca guardára a outra Rainha; do que ella não foi contente, e muito menos os da sua tenção, que eram presentes: e porque isto foi dito de praça, logo o rumor d'isso sahiu pela cidade, com que os povos e a gente d'ella principalmente começaram de se alvoroçar e praticar entre si secretamente, como tirariam o Regimento á Rainha.CAPITULO XVIIIDo despacho que se deu aos embaixadores de CastellaOs embaixadores de Castella, que eram na côrte, como se atrás disse, pelos desvairos que sobre o Regimento houve em Torres Novas não foram ouvidos, nem despachados até Lisboa, onde juntos á Rainha e Infantes com os deputados do conselho deram sua embaixada, a qual, por ser desgosto d'este reino, se crê que tardou tanto em se ouvir; porque já a sustancia d'ella seria revelada.Requereram em nome d'El-Rei D. João o segundo, que então reinava em Castella, que as egrejas que pela Cisma então foram tiradas aos bispados de Tuy e Badalhouce, e eram regidas por administradores, se tornassem a seus proprios prelados. Outrosi que os mestrados d'Aviz, e Santiago d'estes reinos tornassem umá Ordem e obediencia de Calatrava, e o outro á de Santiago de Castella, cujos membros foram, e que os titulos ficassem, como eram, e as enlições se fizessem cá; mas as confirmações d'elles se houvessem pelos superiores de Castella. Requereram outrosi que alguns bispados d'estes reinos reconhecessem superioridade ao arcebispo de Sevilha, como Metropolitana sua, que sempre fôra. E assim apontaram sobre tomadias de navios, que se fizeram, requerendo restituição, apontando e allegando sobre cada uma d'estas cousas muitas razões e fundamentos de direito: porque entre elles era um grande doutor de direitos.Ouvida esta embaixada, em que tambem os embaixadores tocaram aggravos de sua tardança, houve sobre o despacho d'elles grandes divisões, segundo os votos de cada um; porque a uns parecia bem responder-lhe manso, poendo a defesa d'esto em razões de direito; e a outros parecia que no esforço e confiança d'armas e valentes corações; e finalmente foi havido então por melhor acordo envia-los, como enviaram, sem alguma certa resposta, escurando-se com os movimentos, torvações e pouco assessego que pela morte d'El-Rei ainda no reino havia; e que El-Rei, depois d'haver em todo seu conselho, enviaria logo a El-Rei de Castella a resposta com sua embaixada.E o que d'estes requerimentos se pôde logo saber, foi que não nasceram da propria vontade d'El-Rei, em cujo nome vinham; mas dos Infantes d'Aragão, seus cunhados, que então picavam com elle, e governavam o reino, comfundamentode meter este reino em necessidade, e elles por seus meios e com sua privança o remedearem, e esperando que por isso carregariam maior obrigação a El-Rei de P de meter este reino em necessidade, e elles por seus meios e com sua privança o remedearem, e esperando que por isso carregariam maior obrigação a El-Rei de Portugal e a seus reinos e vassalos, para as necessidades suas, em que esperavam de se vêr, como viram: por quanto fizeramentão lançar fóra d'El-Rei de Castella e de sua côrte o condestabre D. Alvaro de Luna, grande poderoso, e muito seu imigo.CAPITULO XIXComo a Rainha começou de reger e ser em seu regimento prasmadaA Rainha regia o reino, e tinha El-Rei em seu poder, e por seu aio Nuno Martins da Silveira: e como ella era de boa e virtuosa tenção tomava o encarrego do Regimento com mais trabalho e continuação do que tivera em costume, nem requeria sua fraca desposição; e des-hi os requerimentos assi pela boa ordem que se logo deu ao ouvir d'elles, como por haver já dias que se não despachavam, cresciam cada vez mais; o que cada dia, além de ser prenhe, lhe causava dôres e enfermidades, que contrariavam seu bom e verdadeiro proposito; e, sendo com razão aconselhada que temperasse seu grande trabalho, e entrepozesse nos negocios alguns dias para seu repouso e descanso, ella constrangida já de suas proprias necessidades o começou de fazer, não sem reprensões do povo, com que indevidamente logo começaram a acusar sua innocente fraqueza, e queriam asolver seus muitos e desordenados requerimentos, e incomportaveis importunações. Pelo qual alguns se atreviam já havendo por serviço de Deus e d'El-Rei e bem do reino de cometer ao Infante secretamente que tomasse o Regimento de todo; mas elle, ou por sua dissimulação, ou por ser assi sua vontade, a todos tirava de tal esperança; antes em taes cousas assi se fazerem,posto que melhor se podessem e devessem fazer, sempre escusava as fraquezas e innocencia da Rainha com quanto podia.CAPITULO XXFallecimento da Infante D. FilippaN'esteanno de mil e quatrocentos e trinta e nove, no mez de Março, porque começaram de morrer em Lisboa, e se finou de pestenença a Infante D. Filippa, de onze annos, filha d'El-Rei D. Duarte e da Rainha sua mulher, El-Rei e o Principe se foram a Almada; e a Rainha se foi a uma quinta junto com Santo Antão, que se chama Monte Olivete.CAPITULO XXINascimento da Infante D. JoanaE alli pariu a Infante D. Joana, que depois foi Rainha de Castela, e lhe vieram novas como o Infante D. Pedro, seu irmão mais moço, fôra morto em Italia de uma bombardada, estando com El-Rei D. Affonso seu irmão, em cerco sobre a cidade de Napoles. E assi veiu á Rainha n'este anno uma carta consolatoria do Papa Eugenio, confortando-a sobre a morte d'El-Rei seu marido, e amoestando-a que por alguma maneira se não desse a cidade de Ceuta por a soltura do Infante D. Fernando, allegando-lhe para tudo razões santas e catholicas quanto a Deus, e de muita honra e louvor para este reino.CAPITULO XXIPraticas que o Infante D. Pedro teve sobre descontentamentos que tinha da Rainha ácerca do RegimentoNo mez d'Agosto d'este anno de mil e quatrocentos e trinta e nove, a Rainha se foi da quinta de Santo Antão para Sacavem: e o Infante D. Pedro ficou com El-Rei em Lisboa, onde fallando com D. Alvaro Vaz d'Almada, capitão mór do mar, e com outros de que se fiava, disse:«Que por quanto n'esta parte do Regimento que aceitára, segundo era pequena, e a Rainha se havia soltamente em todo, e defamava a elle e todas suas cousas, elle recebia grande abatimento: sua vontade era, por muitas razões que apontou, leixar aquelle pequeno cargo que lhe fôra dado, e ir-se para suas terras: e que porém queria saber que lhes parecia».No que por seus conselheiros houve votos desvairados, cá uns tinham que emprendesse e tomasse o Regimento de todo: e outros que se contentasse com a parte que tinha, e se são fosse: outros que leixasse tudo e se fosse: e a cada um não falleciam razões assaz aparentes para justificar seu parecer. E finalmente foi acordado que d'estas seguisse a parte que ao Infante D. João melhor parecesse; porque era de crêr que á sua seria o Infante D. Anrique e o conde de Barcellos, e assi seus filhos os condes d'Ourem e d'Arrayollos.CAPITULO XXIIComo o Infante D. Pedro e o Infante D. João ambos se viram e fallaram sobre o RegimentoPeloqual o Infante D. Pedro enviou pedir ao Infante D. João, que era em Alcohete, que se vissem, como viram logo ambos, no Oratorio de Santa Maria do Paraiso, em que se depois fundou e mudou o mosteiro de Santos da Ordem de Santiago.E porém ante da ida do Infante D. João, elle primeiro foi avisado do capitão Alvaro Vaz, como de si mesmo, da tenção porque o Infante D. Pedro se queria com elle vêr.Alli os Infantes se apartáram sós, onde o Infante D. Pedro com largo recontamento propoz a tenção em que era de leixar a parte do Regimento que tinha: como era aconselhado pelo contrairo, apontando as causas e razões em que uns e outros se fundavam: e que porém lhe pedia que n'isso o aconselhasse; por que na confiança que tinha de seu saber e certidão de amor, que entre elles havia, sua vontade era seguir o que a elle melhor parecesse.O Infante D. João lhe respondeu:«Senhor irmão, ante d'isto eu tinha já n'este caso assás consirado; e, porque mui em breve vos responda, sabei que se chamais erro acceitardes o Regimento, como sois aconselhado, não sei cousa que possaes acertar, cá se vós nascereis primeiro e vos não fizera Deus tão bom e tão prudente como soes, e assi ao Infante D. Anrique nosso irmão, crêde que eu requerêrao Regimento para mim; e se m'o não quìzerem dar, eu o tomára ou morrêra sobre isso; porque com quanto a Rainha é mui virtuosa e mui discreta e amiga de Deus, nunca vi mór vergonha e abatimento nosso, que sermos regidos por ella; pois é mulher, e mais estrangeira».O Infante D. Pedro lhe respondeu:«Senhor irmão, bem vejo o que dizeis ter fundamento de muita razão, se por todos se quizesse assi consirar com juizos livres de paixão; mas como n'este caso haja propositos e tenções desvairadas, tenho receio nascer d'ellas alguma divisão, que a qualquer reino grande faria perder, quanto mais a este de Portugal tão pequeno, que sem sua destruição não padece algum desacordo; e por elle ser a herdade em que nascemos e que nos criou, e porque nosso padre tanto sangue espargeu, e tanto trabalhou pela conservar e manter, eu sentiria em egual de morte para mim ser eu causa de sua perdição: verdade é que, se com prazer de todos e sem alguma divisão se podesse fazer, logo por serviço de Deus e d'El-Rei meu Senhor, e bem de seus reinos e minha honra, folgaria aceitar este cargo.»O Infante D. João lhe disse:«A divisão e desacordo do reino que temeis, não querendo vós usar do Regimento, não se escusa se a Rainha com estes que agora esforçam sua tenção o reger; porque elles n'esta contrariedade que seguem não hão respeito a algum amor que tenham á Rainha, nem menos ao reino em que vivem, mas sómente por segurarem e escaparem os castigos de seus erros passados, e d'outros, se os fizerem; e para com achaque de necessidades fingidas tomarem causas de pedirem e encurtarem o patrimonio real e acrecentarem o seu; e por esta conta, que é verdadeira, a justiça e a fazendado reino, em que consiste toda sua sustancia, cairiam com elle de necessidade na perdição que temeis: e além de o cuidado e trabalho de reger ser incomportavel ás forças da Rainha, hei ainda mais por principalinconvenienteo Regimento d'este reino ficar só á sua disposição esta vinda dos Infantes de Aragão, seus irmãos, a Castella; porque, como são homens amigos de novidades, e tem no mesmo reino grandes competencias, certo é que se hão de favorecer com este, e poer muitas vezes as gentes d'elle em perigo; e as rendas em despesa por sua ajuda e favor: assi que por estas razões e inconvenientes, que em vós regendo todos cessam, meu conselho é que vós todavia rejaes: e quando o vós não quizerdes ou não poderdes fazer, que o faça o Infante D. Anrique nosso irmão; e des-hi eu, se o caso a isso chegar, e da divisão que tocaes, não tenhaes receio; porque o Infante D. Anrique e o conde de Barcellos, e seus filhos, os condes d'Ourem e d'Arrayllos, que são as pessoas principaes do reino, seguiriam em tudo nossa tenção, quanto mais esta, em que ha tanta necessidade, justiça e honestidade: e se d'alguma parte devem de esperar honra e interesse, em vós a terão mais certa: e por tanto eu me affirmo que todavia deveis reger; e que logo o declareis; e nas côrtes que se ora hão de fazer ácerca d'isso, eu darei e susterei a voz por vós: e não sinto alguem tão ousado, que m'a ouse contrariar.»O Infante D. Pedro finalmente disse:«Que seu parecer era, que por então não devia ácerca d'isto fazer altercação nem mudança alguma; porquanto até ás côrtes havia ainda bom espaço de tempo, no qual poderia ser que a Rainha mesma cansaria n'este cargo, e não se sentiria desposta para elle, e seria contente d'algum tal meio, porque cessassemodios e escandalos entre elles, e o reino seria regido em outro bom assessego, como desejava.»E n'este acordo ficaram; e o Infante D. João se tornou a Alcochete; e o Infante D. Pedro se foi a Camarate, junto com Sacavem.CAPITULO XXIIIComo a Rainha lançou fóra de sua casa certas donzellas, por suspeitas a ella, e affeiçoadas ao Infante D. PedroA Rainha estava em Sacavem com El-Rei e seus filhos, onde seu coração não tinha repouso com novas de mudanças e alvoroços, que se em Lisboa cada dia moviam, de que logo era avisada por pessoas que por isso esperavam haver com ella mais graça, e pelas cousas que lhe faziam crêr, ella começou d'haver e declarar por suspeitas e contrairas a si mesma todas cousas do Infante D. Pedro; pelo qual com palavras irosas, e que não cabiam em sua prudencia, mansidão e virtudes, lançou fóra de sua casa duas donzellas, filhas de Izabel Gomes da Silva, mulher de Pero Gonçalves, vedor da fazenda, e filha de João Gomes da Silva, e irmã d'Aires Gomes da Silva; e assi não consentiu em sua casa outra donzella, filha de João Vaz d'Almada, sobrinha do capitão, por serem pessoas do Infante D. Pedro: o que a Rainha fez por induzimentos alheios sem aquelle resguardo e bom conselho, que a seu estado e serviço cumpria; porque o lançar d'estas donzellas fez contra ella grande escandalo na cidade de Lisboa, por serem dos naturaes e principaes d'ella, e assi por se declararimiga do Infante D. Pedro, que do povo era mui amado; porque até li sua desavença d'ambos podia jazer em suas vontades; mas sua rotura não se dizia nem mostrava tão depressa como se por isto mostrou.CAPITULO XXIVDo alvoroço que se seguiu contra a Rainha pela execução dos varejos de LisboaAcrecentoumais este escandalo contra a Rainha, e para a maior parte do povo soltamente contrariar seu Regimento, passar uma carta em nome d'El-Rei, porque fazia mercê a Nuno Martins da Silveira, seu aio, dos varejos a que os mercadores de Lisboa eram obrígados de sete annos, cuja publicação e esperança de execução aos ditos mercadores causou tanta tristeza e sentimento, que certificados de suas perdições, se se executassem, se soccorreram á camara da cidade, e com palavras em que moviam todos a piedade para si mesmos, e com muitas razões que pareciam de serviço d'El-Rei e bem do reino, lhe pediram que com a Rainha e com o conselho, ou por outra qualquer maneira a tal mercê impedissem.A cidade fez sobre isso seu ajuntamento, em que por força entraram mais dos ordenados; e a elle vieram um Bertolameu Gomes, contador, e outro Alvaro Affonso, escrivão da sisa dos pannos, criado de Nuno Martins, em cujo poder era a carta, por serem os solicitadores d'ella; e, sendo lida em publico, foi tanta a defensão e alvoroço em todo o povo, por ser passada por só auctoridade da Rainha sem accordo do Infante D. Pedro, que Alvaro Affonso, com fundamentode lhe fazerem padecer morte mais crua, o fizeram saltar por uma janella, mas, por cair primeiro em um telhado, não morreu; e a Bertolameu Gomes alguns cidadãos seus amigos com grande difficuldade defenderam a vida: cá n'estes, por serem mui ensinados no que pertencia ás rendas d'El-Rei, havia suspeita, que deram azo e conselho, como esta mercê se pedisse.Os que fizeram este insulto e alvoroço em desacatamento da Rainha, eram quasi todolos do povo com alguns principaes da cidade, e com temor que tinham de a Rainha com rigor de justiça os mandar castigar como porventura mereciam, procuravam e ordenavam assi em secreto, como já em publico, que o Regimento lhe fosse de todo tirado, sobre o qual tinham suas praticas, que enviavam logo ao InfanteD. Pedro, dando-lhe muitas razões e esforço para só tomar o carrego de reger. O qual, como quer que até li sempre mostrasse estranhar com palavras de honestidade aos que lhe em tal caso fallavam, porém a este tempo por ter sabido e visto como a Rainha se declarava ter-lhe desamor e má vontade, d'hi em diante, aos que n'isso o comettiam, já recebia e ouvia mais com rostro de lhe agradecer que o fizessem para vir a effeito, que de lhe pesar.E porque na cidade havia n'este caso propositos e vontades contrairas, assi naciam d'ellas bandos e rumores que mostravam signaes de rompimentos perigosos, aos quaes nem por provimentos e penas dos officiaes de justiça, nem por pregações que se de industria de bons religiosos para ello fizeram, nunca se pôde atalhar, antes crecia cada vez mais.CAPITULO XXVIda do conde d'Arrayollos a Lisboa sobre assessego d'ella, e como não aproveitouEraa este tempo na cidade Pedro Anes Lobato, homem de grande auctoridade e bom cavalleiro, ao qual, como quer que de grande condição de sangue não fosse, El-Rei D. João por conhecer d'elle ser bom e discreto, e em armas homem esforçado, deu a governança da justiça da casa do civel, e a tinha; e por vêr a união e desacordo na cidade tamanho, a que com sua vara e forças não podia resistir, avisou de todo a Rainha, e por muitas causas lhe enviou pedir trigoso remedio. A qual com esses que com ella eram presentes, teve sobr'isso conselho, onde foi acordado que o conde d'Arrayollos, que estava em uma quinta junto com Loures, por ter cargo da justiça do reino e ser pessoa de valor e autoridade, fosse poer assessego nas cousas da cidade, para o qual foi logo chamado, e fallou com a Rainha o que n'aquelle caso cumpria: e d'ella por ser de boa tenção e sã conciencia, e tambem de si mesmo por ser virtuoso e justo, foi avisado segundo o feito estava, de o tratar e assessegar mui mansa e temperadamente.Partiu-se logo o conde para Lisboa com a trigança que se requeria, onde chegou á tarde, e para haver melhor informação das cousas, e ter conselho sobre o remedio d'ellas, quizera repousar algum pequeno espaço de tempo sem n'ellas intender; mas ao outro dia por sua ida foi tanto o alvoroço e desacordo na cidade, e com tanta soltura de palavras deshonestase mostranças de desobediencia, que o conde não sabia que caminho de remedio tomasse; porque os da parte da Rainha favoreceram-se com sua ida, affirmando em seu favor que era para fazer justiça dos alevantadores da união sobre o caso dos varejos, e que contrariavam o Regimento da rainha: e os da parte do Infante D. Pedro e Infante D. João com muitos da cidade, que eram d'outro acordo, tomaram receio de ser por ventura verdade; especialmente porque um Luiz Gonçalves, official na relação, criado de Pedro Anes Lobato, e que ás cousas da Rainha havia grande affeição, affirmou de praça que por a ida do conde á cidade cedo veriam por justiça as gigas da ribeira cheias de pés e mãos de muitos, como de pescado, o que logo se soltou publicamente: e por ser homem d'algum credito e ter officio na casa da justiça, fizeram para isso suas palavras alguma impressão e crença; e pareceu que as não diria sem ter alguma cousa d'isso sentido. Pelo qual alguns principaes cidadãos com verdadeiro temor e occupações fingidas de proverem suas fazendas, se ausentaram da cidade, temendo que em tanto alvoroço não houvesse justo juizo, e que por ventura poderiam receber pena sem culpa.Mas os do povo posposto todo o medo assi continuavam, e acrecentavam a cada vez mais sua união, e com tanto rumor d'algum fim perigoso, que o conde desesperado de com suas forças, nem da justiça poder assessegar o feito como desejava, havido primeiro sobre isso conselho, tentou de o remedear com prégações, palavras brandas, e de conciencia, que por algum bom e entendido religioso em ajuntamentos publicos se dissessem.E havido este por melhor e derradeiro remedio, o conde fez chamar um Frei Vasco da Allagoa, da Ordemde S. Domingos, ao qual por ser padre d'auctoridade e de letras, e ter boa audacia para dizer, encommendou que sobre o caso das uniões e desaccordos da cidade, o domingo seguinte prégasse no seu mosteiro, avisando-o primeiro que todo seu fundamento fosse commover o povo a paz e assessego.E sendo n'aquelle dia por aviamento e rogo do conde juntos no mosteiro quasi todolos da cidade, Frei Vasco começou seu sermão, e por ser servidor da Rainha e ás cousas de seu serviço mais inclinado, esquecido do aviso que lhe fôra dado d'amansar o povo com esperança de bem, tocou o caso e revoltas da cidade com tanta reprensão dos cidadãos e povo d'ella, que com altas exclamações os chamava ingratos e desleaes, trazendo-lhes ás memorias entre outros exemplos, a pena que os cidadãos de Bruges mereceram e houveram pela desobediencia e traição que cometteram contra o duque Filippe.E estando já todo o povo mui descontente e escandalisado das palavras de Frei Vasco, um barbeiro em meia voz, e com rostro iroso disse contra os que junto com elle estavam:«E como egual é o nosso caso dos framengos, que quizeram matar seu principe e Senhor?—Nós não somos tredores mas mui leaes, e não havemos de matar nosso Rei e Senhor; mas porque o amamos havemos todos de morrer por elle, quando lhe cumprir: mas certo este frade alguma cousa tem sentida: porque nos põe esta raiva.»E estas palavras com algum rumor começaram ir de puridade em puridade pelas orelhas de muitos do povo, os quaes assi como as ouviam assi volviam logo os olhos de sanha contra o frade, e com mostranças de tanta indinação, que elle sentindo seu alvoroço,por se não vêr em perigo, desamparou sem conclusão o pulpito, e se acolheu ao mosteiro.O conde d'Arrayollos foi mui descontente do prégador, por errar em todo a sustancia de seu proposito, e do que era para o tempo necessario. E vendo que para amansar o povo já lhe não ficava remedio para o fazer, e que sua estada d'hi em deante lhe faria abatimento, se partiu da cidade, e foi á Rainha dar-lhe de tudo conta.E o povo depois de comer não esquecido do escandalo do sermão foram ao mosteiro e disseram ao priol que logo lançasse Frei Vasco fóra d'elle, se não que o derribariam e queimariam. E o priol aconselhado da necessidade do tempo assi o fez; e o prégador se salvou secretamente.CAPITULO XXVIComo o Infante D. Pedro foi a Lisboa reprender e assessegar as uniões da cidadeO Infante D. Pedro estava em Camarate como já disse, e sabendo que a ida do conde seu sobrinho á cidade nas revoltasd'ellanão aproveitara, desejando poelas em assessego se foi lá; e no mosteiro do Carmo onde pousou fez logo ajuntar os principaes da cidade com os officiaes da Camara, e com a cara grave e palavras de grande autoridade sustancialmente os reprendeu de suas uniões e alevantamentos, com que faziam doésta á Rainha e a elle e a todolos que tinham cargo de reger por El-Rei o reino; e que por isso tinham merecido aspero castigo, e o mereciam maior se o não atalhassem; e que, sesobre aggravos que tivessem recebidos queriam requerer suas liberdades e direito, que o fizessem por outra maneira como subditos, e que seriam bem ouvidos; e não com presumpção de superiores, de poer e despoer Regedor á sua vontade, como diziam, tocando-lhe sobr'isto muitas e notaveis razões conformes a este proposito, as quaes alguns tomaram que não sahiram verdadeiramente de sua vontade; porque tinham concebido que lhe não pesava de semelhantes movimentos por serem contra o Regimento da Rainha e com fundamento de elle o ter; mas a determinação d'este juizo fique sómente a Deus que o soube.Os cidadãos, depois de ouvido o Infante, lhe responderam mui mansamente, tendo-lhe em mercê aconselha-los bem; e d'es-hi asolvendo-se como melhor podéram dos alevantamentos passados, especialmente no caso dos varejos, em que houveram respeito a não serem os mercadores da cidade pela execução d'elles destruidos, e assi em quererem áquelle escrivão, que persumiram ser inventor, dar tal castigo, que outros por seu exemplo semelhantes cousas não inventassem, pedindo ao Infante que em seus trabalhos e aggravos os quizesse ajudar e favorecer, obrigando-o para isso com razões assaz honestas e boas. Onde logo por um dos procuradores dos mestres foi apontado que as divisões e escandalos não nasciam no reino, salvo por o Regimento d'elle ser repartido por muitos, e que para bem ser, ou havia de ficar sómente á Rainha ou a elle, allegando do contrairo muitos inconvenientes não sem fundamentos de razão, como cousa em que já muitas vezes tinham praticado.E o Infante depois de sobretudo haver largas repricas e praticas, lhe encommendou muito o assessego da cidade, e que para as côrtes que se chegavam, podiam livremente requerer e apontar o quelhes bem parecesse, e que elle no que fosse direito e justiça os ajudaria: e com isto se despediu d'elles, e se tornou a Camarate.CAPITULO XXVII
Da contradição e mudança que houve n'este acordo
Apontamentos que publicamente se fizeram contra o testamento d'El-Rei para a Rainha não dever reger
Do meio que o Infante D. Anrique tomou entre a Rainha e o Infante D. Pedro ácerca do Regimento
Como a Rainha por meio do conde de Barcellos enviou pedir ao Infante D. Pedro o alvará que lhe tinha dado sobre o casamento d'El-Rei
Como El-Rei se foi a Lisboa, onde o Infante D. João veiu a primeira vez
Do despacho que se deu aos embaixadores de Castella
Como a Rainha começou de reger e ser em seu regimento prasmada
Fallecimento da Infante D. Filippa
Nascimento da Infante D. Joana
Praticas que o Infante D. Pedro teve sobre descontentamentos que tinha da Rainha ácerca do Regimento
Como o Infante D. Pedro e o Infante D. João ambos se viram e fallaram sobre o Regimento
Como a Rainha lançou fóra de sua casa certas donzellas, por suspeitas a ella, e affeiçoadas ao Infante D. Pedro
Do alvoroço que se seguiu contra a Rainha pela execução dos varejos de Lisboa
Ida do conde d'Arrayollos a Lisboa sobre assessego d'ella, e como não aproveitou
Como o Infante D. Pedro foi a Lisboa reprender e assessegar as uniões da cidade