De como o Regente foi avisado da secreta partida da Rainha, e do que logo sobr'isso se fezE o Regente pouco mais de meia noite foi avisado da partida da Rainha sumariamente, por Gil Pirez de Resende, contador de Santarem, sem lhe saber dizer o caminho que fizera, nem se levara consigo as Infantes, e a poucas horas tornou o Infante a ser certificado do caminho da Rainha, e como levava consigo a Infante D. Joana, e leixava doente a Infante D. Lianor, que depois foi Imperatriz, e d'esta mudança mostrou o Regente grande tristeza e sentimento, ainda que alguns diziam que era fingida; eporém mandou logo a Martim Affonso de Miranda com notairos, a escrever e segurar todo o que se achasse em Almeirim. E o que se conhecesse por da Rainha, que era já sómente roupa de camas e pannos, mandou entregar aos officiaes d'El-Rei, e as outras cousas dos seus se entregaram por recadação a um Martim d'Almeida, cavalleiro de Santarem. E foi logo a Almeirim pela Infante D. Lianor, que entregou a D. Guiomar de Castro, que foi sua aia até o tempo que d'estes reinos partiu para Allemanha.E assi mandou logo o Regente em nome d'El-Rei caminho do Crato Diogo Fernandes d'Almeida, que era védor da fazenda, pedindo á Rainha, sua madre com mui brandas razões e mui fortes seguranças que se tornasse, e que elle e os Infantes iriam por ella, e se o não quizesse fazer que ao menos entregasse a Infante D. Joana. E que se isto tudo denegasse, que presentes notairos que consigo levava lhe fizesse em nome d'El-Rei protestações a não ser obrigado elle, nem o reino dar-lhe dote nem arras, nem outra cousa alguma.Diogo Fernandes aceitou a embaixada; mas segundo o que d'elle se suspeitou, elle a não cumpriu como devera; porque chegou sómente a Alter do Chão, uma légua do Crato, e d'alli se tornou para Santarem, sem obrar nada do que lhe mandáram; dando por razão que alli fôra por maneira informado da tenção da Rainha para não fazer nada do que lhe ia requerer, que houvera por escusado ir mais adiante; mas a geral opinião foi que por ser casado com uma filha do Priol do Crato, elle era sabedor de todolos movimento passados, e que folgou de não fazer por si cousa em que a Rainha recebesse nojo nem desserviço contra seu sogro.O Regente avisou logo d'este caso os Infantes seusirmãos, e assi os grandes, e cidades e villasprincipaesdo reino, requerendo-os e percebendo-os com seus corpos e armas, para serviço d'El-Rei e defensão do reino, crendo que a Rainha não faria de si tal movimento sem muito esforço e atrevimento de Portugal e de Castella.E no provimento d'estas cartas e avisos, poz o Regente tanta diligencia, que em dia de todolos Santos ante das missas foram todas feitas e enviadas, e assi uma sua e de sua mão á Rainha, que não aproveitou, em que lhe pediu muito por mercê que se tornasse, prometendo-lhe que com sua tornada elle faria quanto ella mandasse.Os embaixadores de Castella eram ainda a este tempo em Santarem como disse; de que o Regente por seu descargo e limpeza houve prazer; porque sabia que a elles era mui claro quanto elle procurava por seu assessego d'ella, e os mandou logo chamar, e em saindo para a missa lhes fez com muita autoridade uma falla de sua desculpa acerca da partida da Rainha, rogando-lhes que pois se fôra tão sem conselho e tanto contra o que cumpria a seu estado, e sem licença d'El-Rei seu filho, fizessem com ella que ante de sair do reino se tornasse á côrte, com grandes prometimentos de elle em seus feitos fazer tudo o em que ella recebesse contentamento, prazer e serviço: e d'isto para seu resguardo pediu estromentos.N'este dia e nos outros logo seguintes, trouxeram ao Regente presos muitos dos que d'Almeirim se iam para a Rainha, e os que achava serem seus moradores, logo os mandava todos soltar com liberdade e licença segura de a irem servir se quizessem, salvo um João Paez Cantor, e Diogo de Pedrosa, que eram casados com criadas da Rainha, aos quaes por haver n'elles alguma sospeita, que estando o Regente nospaços de Santarem tratavam de o matarem á bésta, foi dado tormento d'açoutes nos pés, e por não confessarem culpa que os obrigasse a outra maior pena, os mandou soltar.O Regente por segurar as comarcas do reino em que tinha alguma suspeita, encomendou a da Beira ao Infante D. Anrique, e a d'entre Tejo e Odiana ao Infante D. João. E mandou á cidade do Porto Ayres Gomez da Silva, para com a cidade fazer defensa e resistencia a quaesquer rebates que n'aquella comarca sobreviessem. E assim mandou que aos do Crato não fosse em todo o reino dado mantimento, mais do que cumprisse á Rainha, e a vinte pessoas que a servissem, de que se ella muito aggravou.CAPITULOLXVIIDo que a Rainha fez depois de ser no CratoA Rainha como foi no Crato, logo d'hi enviou por todo o reino cartas, que já d'Almeirim levava feitas, em que sustancialmente se escusava de sua mudança, e acusava por ella o Regente e suas asperezas, encomendando e requerendo a todos com sombras d'ameaças de guerras e males do reino, que lhe tornassem o Regimento e o tirassem ao Infante, contra quem apontava cousas em que parecia não reger como devia. E porque o reino todo, especialmente o povo, eram inclinados á parte do Infante, foram os que receberam suas cartas tão indinados contra a Rainha, e tratavam tão mal os primeiros messegeiros d'ellas, que os segundos temendo taes escarmentos, haviam por melhor es A Rainha como foi no Crato, logo d'hi enviou por todo o reino cartas, que já d'Almeirim levava feitas, em que sustancialmente se escusava de sua mudança, e acusava por ella o Regente e suas asperezas, encomendando e requerendo a todos com sombras d'ameaças de guerras e males do reino, que lhe tornassem o Regimento e o tirassem ao Infante, contra quem apontava cousas em que parecia não reger como devia. E porque o reino todo, especialmente o povo, eram inclinados á parte do Infante, foram os que receberam suas cartas tão indinados contra a Rainha, e tratavam tão mal os primeiros messegeiros d'ellas, que os segundos temendo taes escarmentos, haviam por melhor escondel-as e não apresental-as.E o Infante D. Pedro d'estas cartas da Rainha que viu, houve muito nojo, e mostrou grande sentimento; porque infamavam em alguns passos sua conciencia e autoridade, e por modo de desculpa e limpeza sua, escreveu a Lisboa como a cabeça do reino, as forças de suas culpas que se n'ellas continham. Escusando-se de cada uma particularmente, com a verdade de sua innocencia.CAPITULO LXVIIIComo falleciam os mantimentos á Rainha e ao Priol do CratoE o Priol do Crato não se proveu de tantos mantimentos como lhe eram para tal caso necessarios, enganado nas esperanças do conde de Barcellos, e dos outros fidalgos da Beira, que prometeram tanto que a Rainha fosse em suas terras, que elles em pessoa com gentes e provimentos em abastança, seriam logo com ella, ao que nenhum d'elles quiz nem pôde satisfazer, como quer que para isso fossem da Rainha e do Priol mui afincadamente requeridos, e por este caso os mantimentos recolhidos lhes começaram de fallecer, especialmente carnes e pescados, e para os haver, pela estreita guarda e defesa que para isso havia não tinha já esperança nem remedio. Pelo qual conveiu á Rainha com palavras assaz piedozas pedir ao Infante D. João, que estava em Extremoz, que alevantasse a defesa e lhe leixasse ir mantimentos dos logares de redor. Mas o Infante escusando-se de o fazer lhe respondeu acusando com muita graveza e temperança seu movimento. Em especial de poer sua honra, seu estado, e sua honestidade em poder do Priol e deseus filhos, que não tinham no reino fama de muito honestos, pedindo-lhe em fim que para escusar semelhantes necessidades e outras maiores, se quizesse tornar, do que ella não curou.CAPITULO LXIXDe uma embaixada d'El-Rei d'Aragão e de Napoles que veiu ao Infante D. Pedro sobre os feitos da RainhaEstandoa Rainha no Crato, chegou a Santarem ao Infante D. Pedro com embaixada d'El-Rei D. Affonso, Rei d'Aragão e de Napoles, sobre cousas da Rainha sua irmã, um Bispo de Segorve, pessoa em que havia muita doutrina e grande auctoridade. E apontou alguns meios de concordia entre ambos, o que o Regente por conselho que sobre isso teve, respondeu:«Que para se tomar n'elles conclusão boa e honesta, como esperava em Deus que tomaria, era necessario a Rainha ser presente, ou ao menos em algum logar de suas terras, com tal repouso e assessego que não parecesse fugida. E para isso que elle antes de tudo se fosse á Rainha, e como com ella em cada uma d'estas maneiras acabasse sua tornada, se tornasse a elle. E que sobre isso se ajuntariam com elle os Infantes seus irmãos, e os do conselho d'El-Rei nosso Senhor. E praticariam ácêrca dos meios apontados, e se concordariam por seu meio no que mais honesto e de razão parecesse. E que se a Rainha não quizesse tornar, que elle d'hi seguisse embora sua viagem e escusasse sua vinda mais a elle.»Ao Bispo pareceu bem o motivo do Regente, e com isso se foi á Rainha; a qual porque não approvou nenhuma das cousas que lhe aconselhava, se despediu d'ella e se partiu para seu Rei sem conclusão certa do porque viera.CAPITULO LXXDe como o Regente determinou pôr cêrco ao Crato e ás outras fortalezas do Priol, e a que pessoas os cêrcos foram encommendadosO InfanteD. Pedro por recados e cartas da Rainha e do Priol que foram tomados e trazidos a elle dos portos que se guardavam, foi certificado como procuravam metter gentes d'armas de Castella em Portugal, e bastecer as fortalezas que sustinham sua voz com armas e mantimentos de fóra, e assi se fazerem alguns alevantamentos no reino contrairos a seu Regimento, para que soube certo que em uma parte e na outra se faziam trigosos percebimentos, e consirando camanho dano se seguiria a dar-se logar a isso, e não se atalhar, determinou com accôrdo dos Infantes, com quanto era entrada de inverno, de logo se poer cêrco ao Crato e ás outras fortalezas do Priol, e cobra-las por força ou partido, como mais fôsse possivel. Para que logo mandou perceber o reino, que a isso não foi negligente.E encommendou-se o cerco e tomada do castelo de Beluer a Lopo d'Almeida, que depois foi por El-Rei feito primeiro conde d'Abrantes, e assi que tomasse e segurasse os celleiros das terras chãs do Priol. E assi se encommendou o cerco da Amieira ao capitãoAlvaro Vaz d'Almada, conde d'Abranches, ordenando a cada um as gentes e apparelhos que cumpriam. E foi accordado que o Regente e o Infante D. João, e condes d'Ourem e d'Arrayollos fossem sobre o Crato. Mandou o Regente outrosi em nome d'El-Rei fazer e pôr editos publicos, com pena de morte e perdimento de bens, a todos aquelles que estivessem no Crato e nas fortalezas do Priol, se dentro de dez dias não se sahissem, salvo as vinte pessoas á Rainha ordenadas, e assi com promessa de perdão de todos os casos aos que a El-Rei logo se viessem. Exceptuando alguns poucos a que expressamente o tal perdão não se estendia, em que entrava o Priol e seus filhos.Tomou Lopo d'Almeida com tal cuidado o cerco e tomada de Beluer, que por seus engenhos, forças e combates poz o castello e gente d'elle em tanta necessidade e affronta, que conveiu ao alcaide, que se chamava João Lopez de Nobrega, bom homem e esforçado cavalleiro, depois de fazer muita resistencia, com grande dano dos cercadores, concertar-se e entregar o castello com segurança sua e dos cercados, tomando primeiro certos dias de tregoa, em que como bom servidor pediu socorro ao Priol, e por lh'o não poder dar, entregou por seu mandado o castello a XVII dias de Dezembro de mil quatro centos e quarenta.O capitão Alvaro Vaz a que o cerco da Amieira, como disse, era encarregado, partiu de Lisboa por terra com sua gente d'armas e de pé, que era muita e mui bem concertada, e assim com as artilherias e provisões que para o cerco convinham, e todo posto em mui segura e singular ordenança, fazendo-o assi como homem que o vira e passara em outros reinos já muitas vezes. E tambem folgou de o ordenar, assi por dar a entender n'este pequeno cerco o que faria em outros maiores se lh'os encomendassem.CAPITULO LXXIComo El-Rei quiz vêr e viu o capitão na ordenança de guerra em que vinhaViera-seEl-Rei a Alemquer, porque Santarem onde estava, começou de poerse mal de pestenensa; e posto que fosse de tão pequena edade, porém bem inclinado de sua propria natureza, que o provera de mui nobre e mui grande coração, desejou muito de vêr o capitão e sua gente na ordenança de guerra em que vinham, e sentindo-lhe Alvaro Gonçalvez d'Arayde, seu aio, este vivo argulho e desejo, louvou-lh'o muito. E disse que era bem que cumprisse; mas por não errar em seu serviço e estado, indo de proposito vêr uma sua cousa tão pequena, seria bem que como d'acerto fosse á caça, ao campo d'entre a Castanheira e Villa-Nova, e que alli como de recontro veria o capitão e a gente que então havia de passar.E a outro dia andando alli El-Rei com seus galgos e gaviães, assomou o capitão, e sabendo já que El-Rei o queria vêr, apurou ainda muito mais sua ordenança, e de sua pessoa com seus pages armados se concertou em grande perfeição. Porque n'aquelle auto d'armas, por seu braço e por esperimentadas ardidezas passadas, a elle n'este reino se dava muito louvor; e tanto que foi atravez d'onde o El-Rei olhava, se apartou só da gente, armado sobre uma facanea, e com grande alegria e desenvoltura se lançou fóra d'ella, e a pé foi beijar as mãos a El-Rei, e lhe disse:«Senhor, assi como eu sou o primeiro que vossa Senhoria vê n'estes habitos, assi prazendo a Deus nãoserei eu n'elles o segundo, em todo o que cumprir por vosso serviço e por defensão de vossos reinos.»El-Rei folgou muito de o vêr, e com palavras e contenenças lhe fez mais honra e mór acolhimento do que de sua pouca edade se esperava, e assi se despediu o capitão e seguiu sua viagem até á Amieira, que logo cercou e combateu até que a tomou.E n'este cerco não aconteceram cousas assignadas para escrever; porém houve algumas cousas d'agoiro, que por sua novidade tocarei brevemente. Porque na hora que ali aconteceram, porque pareciam mui duvidosas, se tomaram d'ellas testemunhos publicos e mui autorizados. Uma foi que em se acabando d'assentar o cerco, desceu á vista de todos tres vezes uma aguia do céo sobre um ninho de cegonha, que sobre as casas do Priol estava, e das duas vezes levou dois cegonhos novos, e da terceira não ficou o pae, que para a perdição do Priol e dos filhos foi triste prognostico. A outra foi que a pedra do primeiro tiro de polvora que com um quartão se fez, deu por um escudo das armas do Priol que estava sobre a porta da villa, e só sem outra quebradura o desapegou das mãos de dois anjos que o tinham e o levou ao chão em pedaços. A outra foi que o segundo tiro que se fez matou um homem, sobre cujo corpo estando já na egreja para se soterrar, deu outra vez o terceiro tiro, e em um escano em que jazia o tornou a espedaçar.CAPITULO LXXIIComo a Rainha meteu de Castella gente d'armas n'estes reinos para se bastecer, e do que fizeramSendoa Rainha e o Priol atalhados para dos logares vizinhos nem do reino já não haverem mantimentos, e assi sentindo já o engano que de seus alliados em seu movimento receberam, não ficou aberta outra porta d'esperança, de soccorro e provisão senão a de Castella. Pelo qual a peso de suas joias e baixellas, mandaram para soldo vir ao Crato um D. Affonso Anriquez, que estava em Castella na villa d'Alconchel, com até sessenta de cavallo e cento homens de pé, com os quaes, e com os do Crato antes de receberem mais impedimentos e affrontas, trabalharam de por força se bastecer de trigo, cevada, e gados pelos logares d'arredor, entre os quaes foi Cabeça da Vide, que D. Affonso foi barrejar e roubar com cento e LXXX de cavallo e duzentos de pé, e recolheu o despojo ao Crato, sem haver no logar nem no caminho outra resistencia, salvo a que os d'Alter do Chão lhe quizeram fazer, que por não serem cautelosos no auto da guerra foram tambem de D. Affonso desbaratados, e alguns de uma parte e da outra mortos e muitos feridos, com que todo o reino e principalmente os d'aquella comarca foram para os do Crato mui indinados, e da Rainha mui descontentes.O Infante D. Pedro constrangido e nojado d'estas entradas e correduras que pelo reino assi soltamente se faziam, apressou por isso mais sua partida. E acompanhado de muita gente que o veiu servir, partiu deSantarem caminho d'Aviz, onde com o Infante D. João e condes d'Ourem e d'Arrayollos tinha concertado seu ajuntamento, para hi terem conselho sobre o que fariam; porque o Infante D. Anrique era na Beira para a defender, como se disse.CAPITULO LXXIIIDa resposta que o Regente houve d'algumas cousas que com sua embaixada enviou a Roma requererEmse o Regente alongando em uns casaes, que se dizem o Couto, entre Santarem e Aviz, chegaram a elle Ruy da Cunha, Priol de Santa Maria de Guimarães, e o Provincial do Carmo D. João, Bispo que depois foi de Ceuta e da Guarda, que vinham de Roma, onde foram enviados por embaixadores ao Papa Eugenio; os quaes entre as outras cousas que requereram e trouxeram concedidas, foivivae vocis oraculoa despensação para El-Rei poder casar com D. Isabel, filha maior do Infante D. Pedro. E não veiu em escripto; porque a Rainha D. Lianor sentindo que não podia fazer maior nojo, que em lhe estorvar este casamento, trabalhou com El-Rei e Rainha de Castella, e com El-Rei d'Aragão e de Napoles, e com El-Rei de Navarra, todos seus irmãos, que por algumas razões que sem muito fundamento allegaram, fizessem com o Papa que por alguma maneira não outorgasse a despensação para o dito casamento necessaria. O que elles todos fizeram por seus embaixadores com muita instancia, e por tanto o Papa por não desprezar a tantos e taes Reis, houve então por bom expediente não outorgar a despensação emescripto por não ser publica, e a concedeu aos embaixadores em secreto,vivæ vocis oraculo, como disse, para o casamento se poder logo fazer, e depois lh'a mandar por Bula patente, como mandou por Fernão Lopez d'Azevedo, Commendador Mór de Christo, que lá tornou por embaixador.E assi trouxeram mais por Bulla expedida, em como o Papa isentou para sempre as administrações de Tuy e d'Olivença dos Bispados de Tuy e de Badalhouce, a que eram em Castella d'antigamente sobgeitas, e assi houve o Mestrado d'Aviz d'estes reinos por isento do Mestrado de Calatrava, e o Mestrado de Santiago por isento da Ordem d'Ucrés, que são em Castella, a cuja obediencia de primeiro fundamento eram obrigados. E poz aos Reis de Castella silencio perpetuo, com estreitas censuras e graves excommunhões, se mais o contrairo requeressem, como até então sempre requereram. E certo esta graça estimou muito o Regente; porque sabia que em vida d'El-Rei D. João seu padre, e d'El-Rei D. Duarte seu irmão, com quanto isto sempre desejaram e requereram com rasões e causas mui evidentes e sustanciaes, nunca os Papas que n'aquelles tempos foram, em caso que lhes parecesse razão, com receios d'agravos e importunações dos Reis de Castella o ousaram outorgar, e depois até agora sempre isso esteve e está em pacifico effeito.CAPITULO LXXIVComo em se accordando o cêrco do Crato soube o Regente que a Rainha D. Lianor era partida do Crato para Castella, e como todavia seguiu, e do que se fezChegouo Regente a Aviz, onde de muitas partes lhe accudiu muita gente, para a qual com quanto no reino havia grande careza de mantimentos, houve porém d'elles alli muita abastança. E sendo certificado que o Infante D. João seria com elle bespora de Natal, lhe leixou a villa para seu aposentamento. E na ribeira de Seda se foi alojar no campo, onde os Infantes e conde d'Ourem e conde d'Arrayollos, com outros senhores e fidalgos do conselho se viram. E logo todos consultaram ácêrca do que fariam, em que depois de muitos debates, finalmente se accordaram com o Infante D. João, que disse:«Que ante de tudo á Rainha por uma pessoa honrada fosse primeiro pedido e requerido que se tornasse para suas terras, ou para outro qualquer logar que ella quizesse não sendo sospeito, com todalas seguranças que ella pedisse, e que elles todos iriam por ella e a serviriam e acatariam como ella merecia, por ser mulher e madre de dois seus naturaes Reis e Senhores, e que se ella o quizesse fazer, todo seu trabalho o houvessem n'isso por bem empregado; porque com isso o menos ficaria por acabar, e que quando ella esto não houvesse por bem, que então fossem cercar e combater o Crato até o tomarem por força, ou como melhor podessem, guardando sempre qualquer casa ou torre em que a Rainha e a Infante estivessem, poracatamento e reverença de sua real pessoa e estado, cá era razão apagar-se logo aquella pequena brasa; porque d'ella se não seguisse ao reino outro incendio e dano maior.»A Rainha como foi certificada que os Infantes determinavam ir cerca-la, vendo que o conde de Barcellos e os outros fidalgos se escusavam de ir por ella e a servir como ficaram, quizera-se logo partir do Crato para Castella; mas foi aconselhada que por agravar mais seu caso não o fizesse até os Infantes serem já em caminho contra ella; porque então pareceria razão faze-lo; pois poderiam dizer que com temor de a não prenderem ou deshonrarem o fazia, pelo qual tanto que soube que elles moviam seu arraial da Ribeira de Seda contra o Crato, ella na noite em que amanheceu dia de S. Thomás, que vem a XXIX de Dezembro, de mil e quatrocentos e quarenta e um, se partiu para Albuquerque, e foram principaes em sua companhia o Priol do Crato e D. Affonso Anriquez, e D. Affonso, senhor de Cascaes, e D. Fernando, seu filho, e alguns outros; porque a mais gente ficou no castello do Crato com Gonçalo da Silveira e Vasco da Silveira, filhos de Nuno Martins da Silveira, a que a guarda de todo ficou encomendada. E estes acabaram depois em serviço da Rainha suas vidas em Castella, e assi os ditos D. Affonso e D. Fernando, e o Priol do Crato, que no Agosto seguinte falleceram em Çamora.Alguns moradores do Crato e principaes, comquanto alli estavam sobjeitos ao Priol, eram porém servidores secretos do Regente. E como sentiram a partida da Rainha, fizeram logo dois avisos, um ao Regente do caso como passara, e outro aGarciaRodriguez de Siqueira, Comendador Mór d'Aviz, que era capitão em Alter, para que fosse logo como foi pormeio e engenho d'elles cobrar a villa, e depois de se bem apoderar d'ella e a segurar com fortes palanques do dano que os do castello lhe poderiam fazer, o notificou logo aos Infantes, que acordaram enviar logo a Gonçalo da Silveira, e a Vasco da Silveira, Vasco Martins de Mello, por ser casado com uma sua irmã, filha tambem de Nuno Martinz da Silveira, para que os aconselhasse como o tempo e razão requeria e que sem mais resistencia entregassem o castello. Mas Gonçallo da Silveira, sobre quem a defensão principalmente pendia, se escusou da entrega, como fidalgo em que pareceu que havia bondade, lealdade e discrição, e o coração lhe não fallecia.Com este recado tornou Vasco Martinz aos Infantes, que não leixaram de seguir seu caminho até serem sobre o logar; porque receiaram que a Rainha com gente e mantimentos de Castella bastecesse os logares, pois n'elles com essa esperança leixava sua gente.O conde d'Ourem com a gente de Lisboa se aposentou dentro na villa, e os Infantes fóra em torno do castello, onde em chegando fizeram publico alardo com toda a gente, em que se acharam doze mil homens de peleja com muita artilharia, que logo foi assentada em ordenança de combate, de que os mais do castello tomáram grande desmaio; e porém ante d'algum cometimento, o Regente mandou outra vez por o dito Vasco Martinz requerer Gonçallo da Silveira que entregasse o castello e se tornasse para El-Rei que lhe faria muita mercê, e serviria seu officio d'escrivão da Puridade como o fôra seu pae, e que seu irmão seria acrecentado com outras abastanças e razões, de que Gonçalo da Silveira algum tanto vencido com prazer dos Infantes, tomou assento que o não combatessem por X dias, dentro dos quaes se aRainha depois de ser requerida por elle, lhe não desse soccorro e ajuda com que bem se podessem defender que elle entregaria a fortaleza, e que se lh'o desse, que elle aquelle trabalho e outro maior soffreria até, morrer por seu serviço.Foi logo a Rainha de todo esto avisada por Gonçalo Annes, criado do Priol e alcaide do Crato, que como prudente messegeiro, lhe disse mui largamente as difficuldades que havia na defensão do castello, por ser tamanho e contra tal e tanta gente, e enfraquentou muito com vivas razões a esperança que a Rainha lhe dava, e tinha em uns oitocentos homens d'armas que a Rainha de Castella sua irmã lhe mandara para isso offerecer, dizendo-lhe «que estes não eram pagos nem juntos, e estavam ainda em Castella por suas casas. E que por tantos favores de pães, de que os Infantes seus irmãos enganosamente a basteciam, não abastavam para tal tempo e tamanha necessidade, e que em caso que esta gente e outra mais os quizesse soccorrer, que pois não podia ser pelo céo, menos seria pela terra em que por todalas partes havia tanta e tão forte resistencia, que era impossivel ou assignada sandice fazer-se.»E emfim a Rainha com o Priol visto todo, accordaram que o castello se entregasse, para que logo mandou Pero de Goes seu filho, que com segurança dos castellos o leixou livre, e o Regente o entregou logo ao Infante D. João, e deu em nome d'El-Rei o Priorado do Crato a D. Anrique de Castro, filho de D. Fernando de Castro, e depois a D. João d'Atayde, por cuja morte o houve tambem D. Vasco d'Atayde seu irmão. E depois de despedir com mercês e mui graciosas palavras aquellas pessoas que n'esta jornada o vieram servir, e que por então não houve mester, se partiu caminho d'Abrantes, e com elle o conded'Ourem. E o Infante D. João se tornou para a cidade d'Evora.CAPITULO LXXVComo o Infante D. Pedro e o Infante D. Anrique se foram a Lamego para passarem entre Doiro e Minho. E como o conde de Barcellos se poz em defesa, e do que se n'isso passouE ante de seu apartamento tiveram conselho sobre o que ao diante deviam fazer, e accordaram que por quanto já se começara d'entender contra os que eram reveis e desobedientes a seu Regimento, que o Regente se fosse á Beira juntar-se com o Infante D. Anrique, para que ambos pela melhor maneira que o tempo lh'o offerecesse, assessegassem os desmandos e alvoroços em que os fidalgos d'aquella comarca andavam. E assi soubessem logo se o conde de Barcellos queria estar á sua obediencia e ordenança como os outros, e se o contradissesse, que procedessem contra elle de feito e direito, como sua contumacia requeria, pois com ella dava causa a se fazer em muita parte do reino muito mal, e pouca justiça.Foi-se o Regente a Coimbra, e alli se refez da mais gente que pôde, e posta em ordenança e com esperança de guerra se foi a Vizeu, e alli no Couto se viu com o Infante D. Anrique, que tambem para o caso estava de gente, armas e mantimentos mui bem percebido, os quaes por assi sentirem que cumpria se partiram logo para Lamego, onde chegaram com proposito de assi poderosos passarem o Douro, e o Re Foi-se o Regente a Coimbra, e alli se refez da mais gente que pôde, e posta em ordenança e com esperança de guerra se foi a Vizeu, e alli no Couto se viu com o Infante D. Anrique, que tambem para o caso estava de gente, armas e mantimentos mui bem percebido, os quaes por assi sentirem que cumpria se partiram logo para Lamego, onde chegaram com proposito de assi poderosos passarem o Douro, e o Regente usar inteiramente de seu officio nas comarcas d'Entre Doiro e Minho, e Tras os Montes.A Rainha por conselho do conde de Barcellos se partiu d'Albuquerque, com fundamento de ir ao longo do estremo até através da comarca de Tras os Montes, para ir entrar em Portugal pelas terras d'Alvaro Pirez de Tavora, onde o conde de Barcellos e os de sua opinião se offereceram de a irem receber e servir. E de Ledesma a que chegou, enviou seus messegeiros ao conde para saber sua determinação e vontade, e para lh'a fazer maior e mais forte, lhe enviou novos esforços com esperança de grande honra e acrecentamento seu; os quaes messegeiros foram a elle, que estava em Guimarães ao tempo que os Infantes chegaram a Lamego, e sendo de sua chegada d'elles certificado, e da maneira e tenção com que iam, não pôde dessimular a muita tristeza e grande cuidado que por isso recebeu, e respondeu á Rainha escusando-se com coisas necessarias, a não poder cumprir por então seu requerimento, reprendendo com largas razões o pouco cuidado que os Infantes d'Aragão para sua restituição mostravam. E por se mostrar forte aos que de sua parte já sentia mui fracos, enviou dizer ao conde d'Ourem seu filho, que dissesse como disse da sua parte ao Regente, que escusasse passar o Douro, porque elle lh'o não havia de consentir, de que o Infante mostrou grande sentimento, e com palavras e contenença não livres de sanha, respondeu ao conde por maneira, que sentindo elle como a honra e estado de seu pae se despunha a grande perigo, pediu ao Regente por mercê que sobre o caso não houvesse por mal que elle mandasse um cavalleiro por messegeiro a seu pae, de que ao Infante aprouve, e ainda com desejo de mais assessego o obrigava que para isso elle não devia mandar alguem, mas ir em pessoa. E porque Luiz Alvarez de Sousa, que ao conde foi sobr'isso enviado, não lhe abrandou em nada sua tenção,tornou a elle em pessoa o conde d'Ourem seu filho, o qual como quer que com palavras de muito amor e razões de grande efficacia lhe pedisse que se decesse de sua opinião, pois o tempo e a razão assi o queriam, nunca o pôde acabar, e assi assaz triste e anojado tornou para o Regente sem alguma conclusão.O conde de Barcellos moveu de Guimarães com mostrança de ao Infante defender por força a passagem. E assentou-se com sua gente em auto de guerra em Meisanfrio, que é logar sobre o Douro duas leguas de Lamego. E mandou alagar e metter de sob a agua todalas barcas e bateis do rio, pelo qual o Infante aceso já em desejo de vingança para que os desprezos e porfia do conde o moviam, determinou logo de passar contra elle, e para isso ordenou que no Douro sobre toneis se fizesse uma ponte porque a gente e cavallos podessem em breve e mui seguramente passar, e assi se fez prestes do mais que para rompimento e peleja cumpria. As quaes cousas vendo o conde d'Ourem aparelhadas com tal trigança para destruição de seu pae, ajuntou comsigo para sua ajuda alguns principaes, perante quem fallou ao Regente. E com palavras de grande prudencia e muita piedade, e com outras de não menos obrigação, lhe pediu que sobrestivesse em sua passagem e lhe desse logar que volvesse a seu pae; porque esperava de o tornar á sua obediencia e serviço prouve d'isso ao Infante, e lhe louvou muito a dôr e cuidado que para remedio de seu pae a todos mostrava. Porque entre as outras virtudes muitas que no Infante havia, esta era n'elle de grande perfeição, ser para as execuções de sua sanha mui temperado, e mui ligeiro de mover por rogos e intercessões dos bons.O conde d'Ourem foi logo a seu pae, e tão evidentes lhe mostrou os erros de sua dureza e os principiosque se ordenavam para sua quéda, que vencido do evidente perigo que via, mais que de sua propria vontade, lhe prouve vir como veiu a Lamego falar aos Infantes. Os quaes como souberam de sua vinda sahiram a recebe-lo fóra da cidade acompanhados de muita e mui nobre gente.E posto que entre o conde e o Regente havia odios mui verdadeiros, porém n'aquella hora que se viram houve entre elles palavras fingidas de tanto amor e cortezia, e se abraçavam a cada passo com tanta alegria, que pareceu que um não estimava nem desejava mais bem que a vista do outro, sem alguma lembrança de roturas passadas, e nas contenenças do povo que os assi viam, bem parecia que todos haviam d'isso grande prazer.Era hi presente o Arcebispo de Braga D. Fernando, que com vozes altas começou de cantar o principio do salmoEcce quam bonum & quam jucundum habitare fratres in unum; como a quem parecia que na concordia d'estes Senhores se segurava de todo a paz e descanço do Reino. Os quaes como foram na cidade fallaram entre si suas cousas, e assi nos desvairos passados, e o Regente recebeu com bem na cara as desculpas do conde, que ficou de todo á sua obediencia, approvando em todo o seu Regimento, e prometteu de mais não servir nem seguir a Rainha, salvo n'aquellas cousas em que os mesmos Infantes a servissem, e assi concludiram que o casamento d'El-Rei de necessidade se fizesse logo com a filha do Infante, ao menos com recebimento simples; porque ao tomar de sua casa, se fariam depois suas festas solenes e reaes, como a sua honra e estado cumpria. E assi prouve ao Regente a requerimento do conde que seu cunhado D. Pedro, o Arcebispo de Lisboa, que andava em Castella desterrado, fosse como foi á sua dinidade restituido,e lhe outorgou para si e para os seus outras muitas graças e mercês, a que depois seu agardecimento não respondeu com egual balança.E concordado assi todo se despediram uns dos outros: o Regente e o conde d'Ourem para Lisboa, e o Infante D. Anrique para suas terras, e o conde de Barcellos tornou-se d'onde viera; e isto foi no fim de Fevereiro do anno de mil e quatrocentos e quarenta e um.CAPITULO LXXVIDas côrtes que se fizeram sobre o casamento d'El-Rei com a Rainha D. Isabel, filha do Infante D. PedroComoo Regente foi em Lisboa logo ordenou côrtes, que com solene ordenança de cidades e villas, e pessoas principaes do reino se fizeram em Torres Vedras, onde além d'outras muitas cousas, em que por bem da Republica se entendeu, o Infante D. Pedro com fundamentos passados da vontade d'El-Rei D. Duarte, e com a necessidade presente que disse, com muita autoridade e eficacia requereu aos do reino outorga e consentimento para El-Rei seu Senhor casar com sua filha, e o povo por conhecer ser verdade o que apontava, e que em christãos não havia por então mulher com que El-Rei tão bem podesse casar como a seu estado e honra cumpria, e assi movidos da humanidade e resguardo com que o pediu, não sómente foram d'isso todos contentes, mas ainda para quando embora tomasse sua casa lh'offereceram um rico presente. Pelo qual o Infante se foi a Obidos, onde era El-Rei, e alli em dia da Ascensão, á tarde, no anno de mil e quatrocentos equarenta e um, á vista de todos se celebraram os esposoiros entre El-Rei e a Rainha, nas mãos de um Daião d'Evora que servia El-Rei de seu fisico, entrando El-Rei em edade de dez annos. E como os procuradores do povo acabaram de ser respondidos a seus capitulos e requerimentos, se despediram.CAPITULO LXXVIIComo o Regente por meio do conde de Barcellos procurou de se concordar com a Rainha D. Lianor, e das cousas por que ella não quizO Infante D. Pedro de se assi concordar com o conde de Barcellos mostrou que recebia prazer e descanso, crendo que para tranquillidade do reino que procurava, tinha a mais aspera difficuldade passada. E para temperar e vencer a outra da Rainha que sobre tudo desejava, ante de partir de Lamego fallou com o conde seu irmão, e lhe pediu que para ambos se concordarem, como sempre desejara, quizesse entre a Rainha e elle ser medeaneiro; porque elle tinha razão de n'isso a servir, e ella de o querer.Mostrou o conde que d'isso lhe prazia muito, e enviou logo a ella que era já em Madagal, Alvaro Pirez de Tavora, de que muito fiava, encommendando-lhe muito com razões e causas mui evidentes o concerto da Rainha com o Infante, e assi sua desculpa pela não servir na fórma que com ella tinha assentado.A Rainha não ouviu esta embaixada com boa vontade, nem a acceitou como se confiava. Assi por haver já por suspeito o conde, pela concordia feita entreelle e o Regente, em que Alvaro Pirez tambem entrara; como porque lhe parecia, segundo os Infantes seus irmãos estavam então apoderados de Castella e Aragão e Navarra, que com as gentes e poder d'estes reinos apremariam e guerreariam o Regente por maneira que de necessidade lhe conviesse leixar a ella livremente o Regimento, como requeria e desejava. E este esforço e presunção tomava ella porque n'este tempo os Infantes seus irmãos e o Principe D. Anrique, com odio que tinham ao conde e Condestabre se concordaram e cercaram El-Rei em Medina del Campo, e o entraram por força, e recolheram sua pessoa d'El-Rei a seu poder, e lançaram fóra fugidos e destroçados o Condestabre e o Mestre d'Alcantara, e outros que eram dentro em ajuda e defensão d'El-Rei. E n'esta sombra de prosperidade em que a Rainha via seus irmãos em Castella, tomou tanta confiança para seu recurso, que não quiz haver por bom nenhum meio que de Portugal sem o Regimento e criação d'El-Rei lhe fosse cometido. Antes para mais apressar sua destruição e proveza, foi como não devia aconselhada, que para em seu caso obrigar mais seus irmãos, quando os fosse vêr devia levar e dar-lhe para sua ajuda alguma gente d'armas, de que em suas revoltas tinham a necessidade que sabiam, o que á Rainha pareceu bem, e para prover aos seus e a outros que para isso tomou, de cavallo armas e soldo, vendeu e apenhou a mór parte de quanta prata e joias tinha. E camanho erro n'isso fez, ella em suas minguas sem longa tardança o sentiu, porque finalmente o amparo e soccorro que em suas fadigas houve de seus irmãos, com quanto eram tamanhos Senhores, se tornou sómente em fortunas dobradas, e claros enganos em que a trouxeram, e com que acabaram de lhe levar todo o que para repairo seu e dos seus lhe ficava.CAPITULO LXXVIIIComo a Rainha D. Lianor se foi á côrte d'El-Rei de Castella, e das embaixadas que vieram a PortugalA Rainha n'esta enganosa confiança de sua certa restituição se foi á côrte d'El-Rei de Castella, a que os Infantes d'Aragão então governavam de todo; dos quaes logo em sua chegada foi com muita honra e acatamento recebida e agasalhada. Onde depois de em pessoa recontar suas querellas e aggravos, com mais graveza por ventura do que foram em effeito, El-Rei por satisfazer a ella e cumprir a vontade dos Infantes, enviou ao Infante D. Pedro uma e muitas vezes mui continuas embaixadas, umas brandas e outras com aspereza, umas mostrando desejar paz, e outras mais desafiando guerra, apontando sempre taes meios em favor e contentamento da Rainha, que a sem razão e o desserviço d'El-Rei de Portugal e o dano do seu reino, que claramente comsigo traziam, conselhavam que se não acceitassem; especialmente porque em todos se requeria que a criação d'El-Rei e do Principe seu irmão e irmãs fosse á desposição da Rainha, ou ao menos em poder de dois cavalleiros, quaes a ella prouvesse, que fossem de todo isentos da juridição e mandado do Infante, o que o reino todo por causas mui evidentes e necessarias sempre contrariou, e muito mais o Regente, que mostrava haver por singular bem-aventurança e grande repouso para si e para seus filhos o amor d'El-Rei, de que tinha certa esperança, pois com tanto amor e perfeição o criava, e de que seria desesperado se fórade seu poder, e com seu odio e de muitos outros o criassem.E porém sempre lhe prouve, e assi o respondia, que á Rainha tornando-se a estes reinos fossem inteiramente dadas todalas terras e renda que n'elles tinha, com a criação de seus filhos livremente. Ainda que em umas côrtes que n'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e dois em Evora se fizeram, foi por todolos tres estados requerido e concordado que a Rainha devia por direito ser de todo privada, e que principalmente não devia vir a estes Reinos, assi pela gente estrangeira que como imiga n'elles metera e os guerreara, como pelos grandes trabalhos e muitas despezas que com receio de guerra tinham por sua causa padecido, em especial se houve por mui perigoso inconveniente o odio e má vontade que aos principaes do reino já tinha, de que se esperava ella com El-Rei seu filho procurar sempre destruições e cruas vinganças, que a muita lealdade de seus vassallos lhe não mereciam.Os Infantes d'Aragão confiados no mando da governança de Castella que possuiam, havendo por seu abatimento não se fazerem os feitos da Rainha sua irmã á sua vontade, enviaram ao Regente que era em Santarem outra embaixada, que elles fingiam ser já derradeira, em que vieram por embaixadores um Gomez de Benavides, e outro Affonso Fernandes de Ledesma, doutor em leis, e pessoas de grande estima e auctoridade em Castella; estes em seus apontamentos seguiram os passados dos outros. Trazendo logo comsigo arautos e trombetas, como officiaes de desafio real, para que se ás cousas tocantes á Rainha não respondessem conformes a seu requerimento, que solemnemente desafiassem logo a guerra de reino a reino. A qual publicavam mui soltamente, crendo quecom medo d'ella este reino ácerca do Regimento se mudara de seu primeiro proposito.E estando estes embaixadores ainda por responder, veiu com uma carta da mão d'El-Rei para o Regente, um Custodio, da Ordem de S. Francisco de Castella, e com o trellado d'ella aos embaixadores, em que sustancialmente affirmava o que elles mesmos já requereram. Apontando as cousas porque devia com rasão favorecer e ajudar a Rainha. E que por ellas sem quebrantamento das pazes podia a estes reinos justamente fazer guerra.CAPITULO LXXIX
De como o Regente foi avisado da secreta partida da Rainha, e do que logo sobr'isso se fezE o Regente pouco mais de meia noite foi avisado da partida da Rainha sumariamente, por Gil Pirez de Resende, contador de Santarem, sem lhe saber dizer o caminho que fizera, nem se levara consigo as Infantes, e a poucas horas tornou o Infante a ser certificado do caminho da Rainha, e como levava consigo a Infante D. Joana, e leixava doente a Infante D. Lianor, que depois foi Imperatriz, e d'esta mudança mostrou o Regente grande tristeza e sentimento, ainda que alguns diziam que era fingida; eporém mandou logo a Martim Affonso de Miranda com notairos, a escrever e segurar todo o que se achasse em Almeirim. E o que se conhecesse por da Rainha, que era já sómente roupa de camas e pannos, mandou entregar aos officiaes d'El-Rei, e as outras cousas dos seus se entregaram por recadação a um Martim d'Almeida, cavalleiro de Santarem. E foi logo a Almeirim pela Infante D. Lianor, que entregou a D. Guiomar de Castro, que foi sua aia até o tempo que d'estes reinos partiu para Allemanha.E assi mandou logo o Regente em nome d'El-Rei caminho do Crato Diogo Fernandes d'Almeida, que era védor da fazenda, pedindo á Rainha, sua madre com mui brandas razões e mui fortes seguranças que se tornasse, e que elle e os Infantes iriam por ella, e se o não quizesse fazer que ao menos entregasse a Infante D. Joana. E que se isto tudo denegasse, que presentes notairos que consigo levava lhe fizesse em nome d'El-Rei protestações a não ser obrigado elle, nem o reino dar-lhe dote nem arras, nem outra cousa alguma.Diogo Fernandes aceitou a embaixada; mas segundo o que d'elle se suspeitou, elle a não cumpriu como devera; porque chegou sómente a Alter do Chão, uma légua do Crato, e d'alli se tornou para Santarem, sem obrar nada do que lhe mandáram; dando por razão que alli fôra por maneira informado da tenção da Rainha para não fazer nada do que lhe ia requerer, que houvera por escusado ir mais adiante; mas a geral opinião foi que por ser casado com uma filha do Priol do Crato, elle era sabedor de todolos movimento passados, e que folgou de não fazer por si cousa em que a Rainha recebesse nojo nem desserviço contra seu sogro.O Regente avisou logo d'este caso os Infantes seusirmãos, e assi os grandes, e cidades e villasprincipaesdo reino, requerendo-os e percebendo-os com seus corpos e armas, para serviço d'El-Rei e defensão do reino, crendo que a Rainha não faria de si tal movimento sem muito esforço e atrevimento de Portugal e de Castella.E no provimento d'estas cartas e avisos, poz o Regente tanta diligencia, que em dia de todolos Santos ante das missas foram todas feitas e enviadas, e assi uma sua e de sua mão á Rainha, que não aproveitou, em que lhe pediu muito por mercê que se tornasse, prometendo-lhe que com sua tornada elle faria quanto ella mandasse.Os embaixadores de Castella eram ainda a este tempo em Santarem como disse; de que o Regente por seu descargo e limpeza houve prazer; porque sabia que a elles era mui claro quanto elle procurava por seu assessego d'ella, e os mandou logo chamar, e em saindo para a missa lhes fez com muita autoridade uma falla de sua desculpa acerca da partida da Rainha, rogando-lhes que pois se fôra tão sem conselho e tanto contra o que cumpria a seu estado, e sem licença d'El-Rei seu filho, fizessem com ella que ante de sair do reino se tornasse á côrte, com grandes prometimentos de elle em seus feitos fazer tudo o em que ella recebesse contentamento, prazer e serviço: e d'isto para seu resguardo pediu estromentos.N'este dia e nos outros logo seguintes, trouxeram ao Regente presos muitos dos que d'Almeirim se iam para a Rainha, e os que achava serem seus moradores, logo os mandava todos soltar com liberdade e licença segura de a irem servir se quizessem, salvo um João Paez Cantor, e Diogo de Pedrosa, que eram casados com criadas da Rainha, aos quaes por haver n'elles alguma sospeita, que estando o Regente nospaços de Santarem tratavam de o matarem á bésta, foi dado tormento d'açoutes nos pés, e por não confessarem culpa que os obrigasse a outra maior pena, os mandou soltar.O Regente por segurar as comarcas do reino em que tinha alguma suspeita, encomendou a da Beira ao Infante D. Anrique, e a d'entre Tejo e Odiana ao Infante D. João. E mandou á cidade do Porto Ayres Gomez da Silva, para com a cidade fazer defensa e resistencia a quaesquer rebates que n'aquella comarca sobreviessem. E assim mandou que aos do Crato não fosse em todo o reino dado mantimento, mais do que cumprisse á Rainha, e a vinte pessoas que a servissem, de que se ella muito aggravou.CAPITULOLXVIIDo que a Rainha fez depois de ser no CratoA Rainha como foi no Crato, logo d'hi enviou por todo o reino cartas, que já d'Almeirim levava feitas, em que sustancialmente se escusava de sua mudança, e acusava por ella o Regente e suas asperezas, encomendando e requerendo a todos com sombras d'ameaças de guerras e males do reino, que lhe tornassem o Regimento e o tirassem ao Infante, contra quem apontava cousas em que parecia não reger como devia. E porque o reino todo, especialmente o povo, eram inclinados á parte do Infante, foram os que receberam suas cartas tão indinados contra a Rainha, e tratavam tão mal os primeiros messegeiros d'ellas, que os segundos temendo taes escarmentos, haviam por melhor es A Rainha como foi no Crato, logo d'hi enviou por todo o reino cartas, que já d'Almeirim levava feitas, em que sustancialmente se escusava de sua mudança, e acusava por ella o Regente e suas asperezas, encomendando e requerendo a todos com sombras d'ameaças de guerras e males do reino, que lhe tornassem o Regimento e o tirassem ao Infante, contra quem apontava cousas em que parecia não reger como devia. E porque o reino todo, especialmente o povo, eram inclinados á parte do Infante, foram os que receberam suas cartas tão indinados contra a Rainha, e tratavam tão mal os primeiros messegeiros d'ellas, que os segundos temendo taes escarmentos, haviam por melhor escondel-as e não apresental-as.E o Infante D. Pedro d'estas cartas da Rainha que viu, houve muito nojo, e mostrou grande sentimento; porque infamavam em alguns passos sua conciencia e autoridade, e por modo de desculpa e limpeza sua, escreveu a Lisboa como a cabeça do reino, as forças de suas culpas que se n'ellas continham. Escusando-se de cada uma particularmente, com a verdade de sua innocencia.CAPITULO LXVIIIComo falleciam os mantimentos á Rainha e ao Priol do CratoE o Priol do Crato não se proveu de tantos mantimentos como lhe eram para tal caso necessarios, enganado nas esperanças do conde de Barcellos, e dos outros fidalgos da Beira, que prometeram tanto que a Rainha fosse em suas terras, que elles em pessoa com gentes e provimentos em abastança, seriam logo com ella, ao que nenhum d'elles quiz nem pôde satisfazer, como quer que para isso fossem da Rainha e do Priol mui afincadamente requeridos, e por este caso os mantimentos recolhidos lhes começaram de fallecer, especialmente carnes e pescados, e para os haver, pela estreita guarda e defesa que para isso havia não tinha já esperança nem remedio. Pelo qual conveiu á Rainha com palavras assaz piedozas pedir ao Infante D. João, que estava em Extremoz, que alevantasse a defesa e lhe leixasse ir mantimentos dos logares de redor. Mas o Infante escusando-se de o fazer lhe respondeu acusando com muita graveza e temperança seu movimento. Em especial de poer sua honra, seu estado, e sua honestidade em poder do Priol e deseus filhos, que não tinham no reino fama de muito honestos, pedindo-lhe em fim que para escusar semelhantes necessidades e outras maiores, se quizesse tornar, do que ella não curou.CAPITULO LXIXDe uma embaixada d'El-Rei d'Aragão e de Napoles que veiu ao Infante D. Pedro sobre os feitos da RainhaEstandoa Rainha no Crato, chegou a Santarem ao Infante D. Pedro com embaixada d'El-Rei D. Affonso, Rei d'Aragão e de Napoles, sobre cousas da Rainha sua irmã, um Bispo de Segorve, pessoa em que havia muita doutrina e grande auctoridade. E apontou alguns meios de concordia entre ambos, o que o Regente por conselho que sobre isso teve, respondeu:«Que para se tomar n'elles conclusão boa e honesta, como esperava em Deus que tomaria, era necessario a Rainha ser presente, ou ao menos em algum logar de suas terras, com tal repouso e assessego que não parecesse fugida. E para isso que elle antes de tudo se fosse á Rainha, e como com ella em cada uma d'estas maneiras acabasse sua tornada, se tornasse a elle. E que sobre isso se ajuntariam com elle os Infantes seus irmãos, e os do conselho d'El-Rei nosso Senhor. E praticariam ácêrca dos meios apontados, e se concordariam por seu meio no que mais honesto e de razão parecesse. E que se a Rainha não quizesse tornar, que elle d'hi seguisse embora sua viagem e escusasse sua vinda mais a elle.»Ao Bispo pareceu bem o motivo do Regente, e com isso se foi á Rainha; a qual porque não approvou nenhuma das cousas que lhe aconselhava, se despediu d'ella e se partiu para seu Rei sem conclusão certa do porque viera.CAPITULO LXXDe como o Regente determinou pôr cêrco ao Crato e ás outras fortalezas do Priol, e a que pessoas os cêrcos foram encommendadosO InfanteD. Pedro por recados e cartas da Rainha e do Priol que foram tomados e trazidos a elle dos portos que se guardavam, foi certificado como procuravam metter gentes d'armas de Castella em Portugal, e bastecer as fortalezas que sustinham sua voz com armas e mantimentos de fóra, e assi se fazerem alguns alevantamentos no reino contrairos a seu Regimento, para que soube certo que em uma parte e na outra se faziam trigosos percebimentos, e consirando camanho dano se seguiria a dar-se logar a isso, e não se atalhar, determinou com accôrdo dos Infantes, com quanto era entrada de inverno, de logo se poer cêrco ao Crato e ás outras fortalezas do Priol, e cobra-las por força ou partido, como mais fôsse possivel. Para que logo mandou perceber o reino, que a isso não foi negligente.E encommendou-se o cerco e tomada do castelo de Beluer a Lopo d'Almeida, que depois foi por El-Rei feito primeiro conde d'Abrantes, e assi que tomasse e segurasse os celleiros das terras chãs do Priol. E assi se encommendou o cerco da Amieira ao capitãoAlvaro Vaz d'Almada, conde d'Abranches, ordenando a cada um as gentes e apparelhos que cumpriam. E foi accordado que o Regente e o Infante D. João, e condes d'Ourem e d'Arrayollos fossem sobre o Crato. Mandou o Regente outrosi em nome d'El-Rei fazer e pôr editos publicos, com pena de morte e perdimento de bens, a todos aquelles que estivessem no Crato e nas fortalezas do Priol, se dentro de dez dias não se sahissem, salvo as vinte pessoas á Rainha ordenadas, e assi com promessa de perdão de todos os casos aos que a El-Rei logo se viessem. Exceptuando alguns poucos a que expressamente o tal perdão não se estendia, em que entrava o Priol e seus filhos.Tomou Lopo d'Almeida com tal cuidado o cerco e tomada de Beluer, que por seus engenhos, forças e combates poz o castello e gente d'elle em tanta necessidade e affronta, que conveiu ao alcaide, que se chamava João Lopez de Nobrega, bom homem e esforçado cavalleiro, depois de fazer muita resistencia, com grande dano dos cercadores, concertar-se e entregar o castello com segurança sua e dos cercados, tomando primeiro certos dias de tregoa, em que como bom servidor pediu socorro ao Priol, e por lh'o não poder dar, entregou por seu mandado o castello a XVII dias de Dezembro de mil quatro centos e quarenta.O capitão Alvaro Vaz a que o cerco da Amieira, como disse, era encarregado, partiu de Lisboa por terra com sua gente d'armas e de pé, que era muita e mui bem concertada, e assim com as artilherias e provisões que para o cerco convinham, e todo posto em mui segura e singular ordenança, fazendo-o assi como homem que o vira e passara em outros reinos já muitas vezes. E tambem folgou de o ordenar, assi por dar a entender n'este pequeno cerco o que faria em outros maiores se lh'os encomendassem.CAPITULO LXXIComo El-Rei quiz vêr e viu o capitão na ordenança de guerra em que vinhaViera-seEl-Rei a Alemquer, porque Santarem onde estava, começou de poerse mal de pestenensa; e posto que fosse de tão pequena edade, porém bem inclinado de sua propria natureza, que o provera de mui nobre e mui grande coração, desejou muito de vêr o capitão e sua gente na ordenança de guerra em que vinham, e sentindo-lhe Alvaro Gonçalvez d'Arayde, seu aio, este vivo argulho e desejo, louvou-lh'o muito. E disse que era bem que cumprisse; mas por não errar em seu serviço e estado, indo de proposito vêr uma sua cousa tão pequena, seria bem que como d'acerto fosse á caça, ao campo d'entre a Castanheira e Villa-Nova, e que alli como de recontro veria o capitão e a gente que então havia de passar.E a outro dia andando alli El-Rei com seus galgos e gaviães, assomou o capitão, e sabendo já que El-Rei o queria vêr, apurou ainda muito mais sua ordenança, e de sua pessoa com seus pages armados se concertou em grande perfeição. Porque n'aquelle auto d'armas, por seu braço e por esperimentadas ardidezas passadas, a elle n'este reino se dava muito louvor; e tanto que foi atravez d'onde o El-Rei olhava, se apartou só da gente, armado sobre uma facanea, e com grande alegria e desenvoltura se lançou fóra d'ella, e a pé foi beijar as mãos a El-Rei, e lhe disse:«Senhor, assi como eu sou o primeiro que vossa Senhoria vê n'estes habitos, assi prazendo a Deus nãoserei eu n'elles o segundo, em todo o que cumprir por vosso serviço e por defensão de vossos reinos.»El-Rei folgou muito de o vêr, e com palavras e contenenças lhe fez mais honra e mór acolhimento do que de sua pouca edade se esperava, e assi se despediu o capitão e seguiu sua viagem até á Amieira, que logo cercou e combateu até que a tomou.E n'este cerco não aconteceram cousas assignadas para escrever; porém houve algumas cousas d'agoiro, que por sua novidade tocarei brevemente. Porque na hora que ali aconteceram, porque pareciam mui duvidosas, se tomaram d'ellas testemunhos publicos e mui autorizados. Uma foi que em se acabando d'assentar o cerco, desceu á vista de todos tres vezes uma aguia do céo sobre um ninho de cegonha, que sobre as casas do Priol estava, e das duas vezes levou dois cegonhos novos, e da terceira não ficou o pae, que para a perdição do Priol e dos filhos foi triste prognostico. A outra foi que a pedra do primeiro tiro de polvora que com um quartão se fez, deu por um escudo das armas do Priol que estava sobre a porta da villa, e só sem outra quebradura o desapegou das mãos de dois anjos que o tinham e o levou ao chão em pedaços. A outra foi que o segundo tiro que se fez matou um homem, sobre cujo corpo estando já na egreja para se soterrar, deu outra vez o terceiro tiro, e em um escano em que jazia o tornou a espedaçar.CAPITULO LXXIIComo a Rainha meteu de Castella gente d'armas n'estes reinos para se bastecer, e do que fizeramSendoa Rainha e o Priol atalhados para dos logares vizinhos nem do reino já não haverem mantimentos, e assi sentindo já o engano que de seus alliados em seu movimento receberam, não ficou aberta outra porta d'esperança, de soccorro e provisão senão a de Castella. Pelo qual a peso de suas joias e baixellas, mandaram para soldo vir ao Crato um D. Affonso Anriquez, que estava em Castella na villa d'Alconchel, com até sessenta de cavallo e cento homens de pé, com os quaes, e com os do Crato antes de receberem mais impedimentos e affrontas, trabalharam de por força se bastecer de trigo, cevada, e gados pelos logares d'arredor, entre os quaes foi Cabeça da Vide, que D. Affonso foi barrejar e roubar com cento e LXXX de cavallo e duzentos de pé, e recolheu o despojo ao Crato, sem haver no logar nem no caminho outra resistencia, salvo a que os d'Alter do Chão lhe quizeram fazer, que por não serem cautelosos no auto da guerra foram tambem de D. Affonso desbaratados, e alguns de uma parte e da outra mortos e muitos feridos, com que todo o reino e principalmente os d'aquella comarca foram para os do Crato mui indinados, e da Rainha mui descontentes.O Infante D. Pedro constrangido e nojado d'estas entradas e correduras que pelo reino assi soltamente se faziam, apressou por isso mais sua partida. E acompanhado de muita gente que o veiu servir, partiu deSantarem caminho d'Aviz, onde com o Infante D. João e condes d'Ourem e d'Arrayollos tinha concertado seu ajuntamento, para hi terem conselho sobre o que fariam; porque o Infante D. Anrique era na Beira para a defender, como se disse.CAPITULO LXXIIIDa resposta que o Regente houve d'algumas cousas que com sua embaixada enviou a Roma requererEmse o Regente alongando em uns casaes, que se dizem o Couto, entre Santarem e Aviz, chegaram a elle Ruy da Cunha, Priol de Santa Maria de Guimarães, e o Provincial do Carmo D. João, Bispo que depois foi de Ceuta e da Guarda, que vinham de Roma, onde foram enviados por embaixadores ao Papa Eugenio; os quaes entre as outras cousas que requereram e trouxeram concedidas, foivivae vocis oraculoa despensação para El-Rei poder casar com D. Isabel, filha maior do Infante D. Pedro. E não veiu em escripto; porque a Rainha D. Lianor sentindo que não podia fazer maior nojo, que em lhe estorvar este casamento, trabalhou com El-Rei e Rainha de Castella, e com El-Rei d'Aragão e de Napoles, e com El-Rei de Navarra, todos seus irmãos, que por algumas razões que sem muito fundamento allegaram, fizessem com o Papa que por alguma maneira não outorgasse a despensação para o dito casamento necessaria. O que elles todos fizeram por seus embaixadores com muita instancia, e por tanto o Papa por não desprezar a tantos e taes Reis, houve então por bom expediente não outorgar a despensação emescripto por não ser publica, e a concedeu aos embaixadores em secreto,vivæ vocis oraculo, como disse, para o casamento se poder logo fazer, e depois lh'a mandar por Bula patente, como mandou por Fernão Lopez d'Azevedo, Commendador Mór de Christo, que lá tornou por embaixador.E assi trouxeram mais por Bulla expedida, em como o Papa isentou para sempre as administrações de Tuy e d'Olivença dos Bispados de Tuy e de Badalhouce, a que eram em Castella d'antigamente sobgeitas, e assi houve o Mestrado d'Aviz d'estes reinos por isento do Mestrado de Calatrava, e o Mestrado de Santiago por isento da Ordem d'Ucrés, que são em Castella, a cuja obediencia de primeiro fundamento eram obrigados. E poz aos Reis de Castella silencio perpetuo, com estreitas censuras e graves excommunhões, se mais o contrairo requeressem, como até então sempre requereram. E certo esta graça estimou muito o Regente; porque sabia que em vida d'El-Rei D. João seu padre, e d'El-Rei D. Duarte seu irmão, com quanto isto sempre desejaram e requereram com rasões e causas mui evidentes e sustanciaes, nunca os Papas que n'aquelles tempos foram, em caso que lhes parecesse razão, com receios d'agravos e importunações dos Reis de Castella o ousaram outorgar, e depois até agora sempre isso esteve e está em pacifico effeito.CAPITULO LXXIVComo em se accordando o cêrco do Crato soube o Regente que a Rainha D. Lianor era partida do Crato para Castella, e como todavia seguiu, e do que se fezChegouo Regente a Aviz, onde de muitas partes lhe accudiu muita gente, para a qual com quanto no reino havia grande careza de mantimentos, houve porém d'elles alli muita abastança. E sendo certificado que o Infante D. João seria com elle bespora de Natal, lhe leixou a villa para seu aposentamento. E na ribeira de Seda se foi alojar no campo, onde os Infantes e conde d'Ourem e conde d'Arrayollos, com outros senhores e fidalgos do conselho se viram. E logo todos consultaram ácêrca do que fariam, em que depois de muitos debates, finalmente se accordaram com o Infante D. João, que disse:«Que ante de tudo á Rainha por uma pessoa honrada fosse primeiro pedido e requerido que se tornasse para suas terras, ou para outro qualquer logar que ella quizesse não sendo sospeito, com todalas seguranças que ella pedisse, e que elles todos iriam por ella e a serviriam e acatariam como ella merecia, por ser mulher e madre de dois seus naturaes Reis e Senhores, e que se ella o quizesse fazer, todo seu trabalho o houvessem n'isso por bem empregado; porque com isso o menos ficaria por acabar, e que quando ella esto não houvesse por bem, que então fossem cercar e combater o Crato até o tomarem por força, ou como melhor podessem, guardando sempre qualquer casa ou torre em que a Rainha e a Infante estivessem, poracatamento e reverença de sua real pessoa e estado, cá era razão apagar-se logo aquella pequena brasa; porque d'ella se não seguisse ao reino outro incendio e dano maior.»A Rainha como foi certificada que os Infantes determinavam ir cerca-la, vendo que o conde de Barcellos e os outros fidalgos se escusavam de ir por ella e a servir como ficaram, quizera-se logo partir do Crato para Castella; mas foi aconselhada que por agravar mais seu caso não o fizesse até os Infantes serem já em caminho contra ella; porque então pareceria razão faze-lo; pois poderiam dizer que com temor de a não prenderem ou deshonrarem o fazia, pelo qual tanto que soube que elles moviam seu arraial da Ribeira de Seda contra o Crato, ella na noite em que amanheceu dia de S. Thomás, que vem a XXIX de Dezembro, de mil e quatrocentos e quarenta e um, se partiu para Albuquerque, e foram principaes em sua companhia o Priol do Crato e D. Affonso Anriquez, e D. Affonso, senhor de Cascaes, e D. Fernando, seu filho, e alguns outros; porque a mais gente ficou no castello do Crato com Gonçalo da Silveira e Vasco da Silveira, filhos de Nuno Martins da Silveira, a que a guarda de todo ficou encomendada. E estes acabaram depois em serviço da Rainha suas vidas em Castella, e assi os ditos D. Affonso e D. Fernando, e o Priol do Crato, que no Agosto seguinte falleceram em Çamora.Alguns moradores do Crato e principaes, comquanto alli estavam sobjeitos ao Priol, eram porém servidores secretos do Regente. E como sentiram a partida da Rainha, fizeram logo dois avisos, um ao Regente do caso como passara, e outro aGarciaRodriguez de Siqueira, Comendador Mór d'Aviz, que era capitão em Alter, para que fosse logo como foi pormeio e engenho d'elles cobrar a villa, e depois de se bem apoderar d'ella e a segurar com fortes palanques do dano que os do castello lhe poderiam fazer, o notificou logo aos Infantes, que acordaram enviar logo a Gonçalo da Silveira, e a Vasco da Silveira, Vasco Martins de Mello, por ser casado com uma sua irmã, filha tambem de Nuno Martinz da Silveira, para que os aconselhasse como o tempo e razão requeria e que sem mais resistencia entregassem o castello. Mas Gonçallo da Silveira, sobre quem a defensão principalmente pendia, se escusou da entrega, como fidalgo em que pareceu que havia bondade, lealdade e discrição, e o coração lhe não fallecia.Com este recado tornou Vasco Martinz aos Infantes, que não leixaram de seguir seu caminho até serem sobre o logar; porque receiaram que a Rainha com gente e mantimentos de Castella bastecesse os logares, pois n'elles com essa esperança leixava sua gente.O conde d'Ourem com a gente de Lisboa se aposentou dentro na villa, e os Infantes fóra em torno do castello, onde em chegando fizeram publico alardo com toda a gente, em que se acharam doze mil homens de peleja com muita artilharia, que logo foi assentada em ordenança de combate, de que os mais do castello tomáram grande desmaio; e porém ante d'algum cometimento, o Regente mandou outra vez por o dito Vasco Martinz requerer Gonçallo da Silveira que entregasse o castello e se tornasse para El-Rei que lhe faria muita mercê, e serviria seu officio d'escrivão da Puridade como o fôra seu pae, e que seu irmão seria acrecentado com outras abastanças e razões, de que Gonçalo da Silveira algum tanto vencido com prazer dos Infantes, tomou assento que o não combatessem por X dias, dentro dos quaes se aRainha depois de ser requerida por elle, lhe não desse soccorro e ajuda com que bem se podessem defender que elle entregaria a fortaleza, e que se lh'o desse, que elle aquelle trabalho e outro maior soffreria até, morrer por seu serviço.Foi logo a Rainha de todo esto avisada por Gonçalo Annes, criado do Priol e alcaide do Crato, que como prudente messegeiro, lhe disse mui largamente as difficuldades que havia na defensão do castello, por ser tamanho e contra tal e tanta gente, e enfraquentou muito com vivas razões a esperança que a Rainha lhe dava, e tinha em uns oitocentos homens d'armas que a Rainha de Castella sua irmã lhe mandara para isso offerecer, dizendo-lhe «que estes não eram pagos nem juntos, e estavam ainda em Castella por suas casas. E que por tantos favores de pães, de que os Infantes seus irmãos enganosamente a basteciam, não abastavam para tal tempo e tamanha necessidade, e que em caso que esta gente e outra mais os quizesse soccorrer, que pois não podia ser pelo céo, menos seria pela terra em que por todalas partes havia tanta e tão forte resistencia, que era impossivel ou assignada sandice fazer-se.»E emfim a Rainha com o Priol visto todo, accordaram que o castello se entregasse, para que logo mandou Pero de Goes seu filho, que com segurança dos castellos o leixou livre, e o Regente o entregou logo ao Infante D. João, e deu em nome d'El-Rei o Priorado do Crato a D. Anrique de Castro, filho de D. Fernando de Castro, e depois a D. João d'Atayde, por cuja morte o houve tambem D. Vasco d'Atayde seu irmão. E depois de despedir com mercês e mui graciosas palavras aquellas pessoas que n'esta jornada o vieram servir, e que por então não houve mester, se partiu caminho d'Abrantes, e com elle o conded'Ourem. E o Infante D. João se tornou para a cidade d'Evora.CAPITULO LXXVComo o Infante D. Pedro e o Infante D. Anrique se foram a Lamego para passarem entre Doiro e Minho. E como o conde de Barcellos se poz em defesa, e do que se n'isso passouE ante de seu apartamento tiveram conselho sobre o que ao diante deviam fazer, e accordaram que por quanto já se começara d'entender contra os que eram reveis e desobedientes a seu Regimento, que o Regente se fosse á Beira juntar-se com o Infante D. Anrique, para que ambos pela melhor maneira que o tempo lh'o offerecesse, assessegassem os desmandos e alvoroços em que os fidalgos d'aquella comarca andavam. E assi soubessem logo se o conde de Barcellos queria estar á sua obediencia e ordenança como os outros, e se o contradissesse, que procedessem contra elle de feito e direito, como sua contumacia requeria, pois com ella dava causa a se fazer em muita parte do reino muito mal, e pouca justiça.Foi-se o Regente a Coimbra, e alli se refez da mais gente que pôde, e posta em ordenança e com esperança de guerra se foi a Vizeu, e alli no Couto se viu com o Infante D. Anrique, que tambem para o caso estava de gente, armas e mantimentos mui bem percebido, os quaes por assi sentirem que cumpria se partiram logo para Lamego, onde chegaram com proposito de assi poderosos passarem o Douro, e o Re Foi-se o Regente a Coimbra, e alli se refez da mais gente que pôde, e posta em ordenança e com esperança de guerra se foi a Vizeu, e alli no Couto se viu com o Infante D. Anrique, que tambem para o caso estava de gente, armas e mantimentos mui bem percebido, os quaes por assi sentirem que cumpria se partiram logo para Lamego, onde chegaram com proposito de assi poderosos passarem o Douro, e o Regente usar inteiramente de seu officio nas comarcas d'Entre Doiro e Minho, e Tras os Montes.A Rainha por conselho do conde de Barcellos se partiu d'Albuquerque, com fundamento de ir ao longo do estremo até através da comarca de Tras os Montes, para ir entrar em Portugal pelas terras d'Alvaro Pirez de Tavora, onde o conde de Barcellos e os de sua opinião se offereceram de a irem receber e servir. E de Ledesma a que chegou, enviou seus messegeiros ao conde para saber sua determinação e vontade, e para lh'a fazer maior e mais forte, lhe enviou novos esforços com esperança de grande honra e acrecentamento seu; os quaes messegeiros foram a elle, que estava em Guimarães ao tempo que os Infantes chegaram a Lamego, e sendo de sua chegada d'elles certificado, e da maneira e tenção com que iam, não pôde dessimular a muita tristeza e grande cuidado que por isso recebeu, e respondeu á Rainha escusando-se com coisas necessarias, a não poder cumprir por então seu requerimento, reprendendo com largas razões o pouco cuidado que os Infantes d'Aragão para sua restituição mostravam. E por se mostrar forte aos que de sua parte já sentia mui fracos, enviou dizer ao conde d'Ourem seu filho, que dissesse como disse da sua parte ao Regente, que escusasse passar o Douro, porque elle lh'o não havia de consentir, de que o Infante mostrou grande sentimento, e com palavras e contenença não livres de sanha, respondeu ao conde por maneira, que sentindo elle como a honra e estado de seu pae se despunha a grande perigo, pediu ao Regente por mercê que sobre o caso não houvesse por mal que elle mandasse um cavalleiro por messegeiro a seu pae, de que ao Infante aprouve, e ainda com desejo de mais assessego o obrigava que para isso elle não devia mandar alguem, mas ir em pessoa. E porque Luiz Alvarez de Sousa, que ao conde foi sobr'isso enviado, não lhe abrandou em nada sua tenção,tornou a elle em pessoa o conde d'Ourem seu filho, o qual como quer que com palavras de muito amor e razões de grande efficacia lhe pedisse que se decesse de sua opinião, pois o tempo e a razão assi o queriam, nunca o pôde acabar, e assi assaz triste e anojado tornou para o Regente sem alguma conclusão.O conde de Barcellos moveu de Guimarães com mostrança de ao Infante defender por força a passagem. E assentou-se com sua gente em auto de guerra em Meisanfrio, que é logar sobre o Douro duas leguas de Lamego. E mandou alagar e metter de sob a agua todalas barcas e bateis do rio, pelo qual o Infante aceso já em desejo de vingança para que os desprezos e porfia do conde o moviam, determinou logo de passar contra elle, e para isso ordenou que no Douro sobre toneis se fizesse uma ponte porque a gente e cavallos podessem em breve e mui seguramente passar, e assi se fez prestes do mais que para rompimento e peleja cumpria. As quaes cousas vendo o conde d'Ourem aparelhadas com tal trigança para destruição de seu pae, ajuntou comsigo para sua ajuda alguns principaes, perante quem fallou ao Regente. E com palavras de grande prudencia e muita piedade, e com outras de não menos obrigação, lhe pediu que sobrestivesse em sua passagem e lhe desse logar que volvesse a seu pae; porque esperava de o tornar á sua obediencia e serviço prouve d'isso ao Infante, e lhe louvou muito a dôr e cuidado que para remedio de seu pae a todos mostrava. Porque entre as outras virtudes muitas que no Infante havia, esta era n'elle de grande perfeição, ser para as execuções de sua sanha mui temperado, e mui ligeiro de mover por rogos e intercessões dos bons.O conde d'Ourem foi logo a seu pae, e tão evidentes lhe mostrou os erros de sua dureza e os principiosque se ordenavam para sua quéda, que vencido do evidente perigo que via, mais que de sua propria vontade, lhe prouve vir como veiu a Lamego falar aos Infantes. Os quaes como souberam de sua vinda sahiram a recebe-lo fóra da cidade acompanhados de muita e mui nobre gente.E posto que entre o conde e o Regente havia odios mui verdadeiros, porém n'aquella hora que se viram houve entre elles palavras fingidas de tanto amor e cortezia, e se abraçavam a cada passo com tanta alegria, que pareceu que um não estimava nem desejava mais bem que a vista do outro, sem alguma lembrança de roturas passadas, e nas contenenças do povo que os assi viam, bem parecia que todos haviam d'isso grande prazer.Era hi presente o Arcebispo de Braga D. Fernando, que com vozes altas começou de cantar o principio do salmoEcce quam bonum & quam jucundum habitare fratres in unum; como a quem parecia que na concordia d'estes Senhores se segurava de todo a paz e descanço do Reino. Os quaes como foram na cidade fallaram entre si suas cousas, e assi nos desvairos passados, e o Regente recebeu com bem na cara as desculpas do conde, que ficou de todo á sua obediencia, approvando em todo o seu Regimento, e prometteu de mais não servir nem seguir a Rainha, salvo n'aquellas cousas em que os mesmos Infantes a servissem, e assi concludiram que o casamento d'El-Rei de necessidade se fizesse logo com a filha do Infante, ao menos com recebimento simples; porque ao tomar de sua casa, se fariam depois suas festas solenes e reaes, como a sua honra e estado cumpria. E assi prouve ao Regente a requerimento do conde que seu cunhado D. Pedro, o Arcebispo de Lisboa, que andava em Castella desterrado, fosse como foi á sua dinidade restituido,e lhe outorgou para si e para os seus outras muitas graças e mercês, a que depois seu agardecimento não respondeu com egual balança.E concordado assi todo se despediram uns dos outros: o Regente e o conde d'Ourem para Lisboa, e o Infante D. Anrique para suas terras, e o conde de Barcellos tornou-se d'onde viera; e isto foi no fim de Fevereiro do anno de mil e quatrocentos e quarenta e um.CAPITULO LXXVIDas côrtes que se fizeram sobre o casamento d'El-Rei com a Rainha D. Isabel, filha do Infante D. PedroComoo Regente foi em Lisboa logo ordenou côrtes, que com solene ordenança de cidades e villas, e pessoas principaes do reino se fizeram em Torres Vedras, onde além d'outras muitas cousas, em que por bem da Republica se entendeu, o Infante D. Pedro com fundamentos passados da vontade d'El-Rei D. Duarte, e com a necessidade presente que disse, com muita autoridade e eficacia requereu aos do reino outorga e consentimento para El-Rei seu Senhor casar com sua filha, e o povo por conhecer ser verdade o que apontava, e que em christãos não havia por então mulher com que El-Rei tão bem podesse casar como a seu estado e honra cumpria, e assi movidos da humanidade e resguardo com que o pediu, não sómente foram d'isso todos contentes, mas ainda para quando embora tomasse sua casa lh'offereceram um rico presente. Pelo qual o Infante se foi a Obidos, onde era El-Rei, e alli em dia da Ascensão, á tarde, no anno de mil e quatrocentos equarenta e um, á vista de todos se celebraram os esposoiros entre El-Rei e a Rainha, nas mãos de um Daião d'Evora que servia El-Rei de seu fisico, entrando El-Rei em edade de dez annos. E como os procuradores do povo acabaram de ser respondidos a seus capitulos e requerimentos, se despediram.CAPITULO LXXVIIComo o Regente por meio do conde de Barcellos procurou de se concordar com a Rainha D. Lianor, e das cousas por que ella não quizO Infante D. Pedro de se assi concordar com o conde de Barcellos mostrou que recebia prazer e descanso, crendo que para tranquillidade do reino que procurava, tinha a mais aspera difficuldade passada. E para temperar e vencer a outra da Rainha que sobre tudo desejava, ante de partir de Lamego fallou com o conde seu irmão, e lhe pediu que para ambos se concordarem, como sempre desejara, quizesse entre a Rainha e elle ser medeaneiro; porque elle tinha razão de n'isso a servir, e ella de o querer.Mostrou o conde que d'isso lhe prazia muito, e enviou logo a ella que era já em Madagal, Alvaro Pirez de Tavora, de que muito fiava, encommendando-lhe muito com razões e causas mui evidentes o concerto da Rainha com o Infante, e assi sua desculpa pela não servir na fórma que com ella tinha assentado.A Rainha não ouviu esta embaixada com boa vontade, nem a acceitou como se confiava. Assi por haver já por suspeito o conde, pela concordia feita entreelle e o Regente, em que Alvaro Pirez tambem entrara; como porque lhe parecia, segundo os Infantes seus irmãos estavam então apoderados de Castella e Aragão e Navarra, que com as gentes e poder d'estes reinos apremariam e guerreariam o Regente por maneira que de necessidade lhe conviesse leixar a ella livremente o Regimento, como requeria e desejava. E este esforço e presunção tomava ella porque n'este tempo os Infantes seus irmãos e o Principe D. Anrique, com odio que tinham ao conde e Condestabre se concordaram e cercaram El-Rei em Medina del Campo, e o entraram por força, e recolheram sua pessoa d'El-Rei a seu poder, e lançaram fóra fugidos e destroçados o Condestabre e o Mestre d'Alcantara, e outros que eram dentro em ajuda e defensão d'El-Rei. E n'esta sombra de prosperidade em que a Rainha via seus irmãos em Castella, tomou tanta confiança para seu recurso, que não quiz haver por bom nenhum meio que de Portugal sem o Regimento e criação d'El-Rei lhe fosse cometido. Antes para mais apressar sua destruição e proveza, foi como não devia aconselhada, que para em seu caso obrigar mais seus irmãos, quando os fosse vêr devia levar e dar-lhe para sua ajuda alguma gente d'armas, de que em suas revoltas tinham a necessidade que sabiam, o que á Rainha pareceu bem, e para prover aos seus e a outros que para isso tomou, de cavallo armas e soldo, vendeu e apenhou a mór parte de quanta prata e joias tinha. E camanho erro n'isso fez, ella em suas minguas sem longa tardança o sentiu, porque finalmente o amparo e soccorro que em suas fadigas houve de seus irmãos, com quanto eram tamanhos Senhores, se tornou sómente em fortunas dobradas, e claros enganos em que a trouxeram, e com que acabaram de lhe levar todo o que para repairo seu e dos seus lhe ficava.CAPITULO LXXVIIIComo a Rainha D. Lianor se foi á côrte d'El-Rei de Castella, e das embaixadas que vieram a PortugalA Rainha n'esta enganosa confiança de sua certa restituição se foi á côrte d'El-Rei de Castella, a que os Infantes d'Aragão então governavam de todo; dos quaes logo em sua chegada foi com muita honra e acatamento recebida e agasalhada. Onde depois de em pessoa recontar suas querellas e aggravos, com mais graveza por ventura do que foram em effeito, El-Rei por satisfazer a ella e cumprir a vontade dos Infantes, enviou ao Infante D. Pedro uma e muitas vezes mui continuas embaixadas, umas brandas e outras com aspereza, umas mostrando desejar paz, e outras mais desafiando guerra, apontando sempre taes meios em favor e contentamento da Rainha, que a sem razão e o desserviço d'El-Rei de Portugal e o dano do seu reino, que claramente comsigo traziam, conselhavam que se não acceitassem; especialmente porque em todos se requeria que a criação d'El-Rei e do Principe seu irmão e irmãs fosse á desposição da Rainha, ou ao menos em poder de dois cavalleiros, quaes a ella prouvesse, que fossem de todo isentos da juridição e mandado do Infante, o que o reino todo por causas mui evidentes e necessarias sempre contrariou, e muito mais o Regente, que mostrava haver por singular bem-aventurança e grande repouso para si e para seus filhos o amor d'El-Rei, de que tinha certa esperança, pois com tanto amor e perfeição o criava, e de que seria desesperado se fórade seu poder, e com seu odio e de muitos outros o criassem.E porém sempre lhe prouve, e assi o respondia, que á Rainha tornando-se a estes reinos fossem inteiramente dadas todalas terras e renda que n'elles tinha, com a criação de seus filhos livremente. Ainda que em umas côrtes que n'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e dois em Evora se fizeram, foi por todolos tres estados requerido e concordado que a Rainha devia por direito ser de todo privada, e que principalmente não devia vir a estes Reinos, assi pela gente estrangeira que como imiga n'elles metera e os guerreara, como pelos grandes trabalhos e muitas despezas que com receio de guerra tinham por sua causa padecido, em especial se houve por mui perigoso inconveniente o odio e má vontade que aos principaes do reino já tinha, de que se esperava ella com El-Rei seu filho procurar sempre destruições e cruas vinganças, que a muita lealdade de seus vassallos lhe não mereciam.Os Infantes d'Aragão confiados no mando da governança de Castella que possuiam, havendo por seu abatimento não se fazerem os feitos da Rainha sua irmã á sua vontade, enviaram ao Regente que era em Santarem outra embaixada, que elles fingiam ser já derradeira, em que vieram por embaixadores um Gomez de Benavides, e outro Affonso Fernandes de Ledesma, doutor em leis, e pessoas de grande estima e auctoridade em Castella; estes em seus apontamentos seguiram os passados dos outros. Trazendo logo comsigo arautos e trombetas, como officiaes de desafio real, para que se ás cousas tocantes á Rainha não respondessem conformes a seu requerimento, que solemnemente desafiassem logo a guerra de reino a reino. A qual publicavam mui soltamente, crendo quecom medo d'ella este reino ácerca do Regimento se mudara de seu primeiro proposito.E estando estes embaixadores ainda por responder, veiu com uma carta da mão d'El-Rei para o Regente, um Custodio, da Ordem de S. Francisco de Castella, e com o trellado d'ella aos embaixadores, em que sustancialmente affirmava o que elles mesmos já requereram. Apontando as cousas porque devia com rasão favorecer e ajudar a Rainha. E que por ellas sem quebrantamento das pazes podia a estes reinos justamente fazer guerra.CAPITULO LXXIX
De como o Regente foi avisado da secreta partida da Rainha, e do que logo sobr'isso se fez
Do que a Rainha fez depois de ser no Crato
Como falleciam os mantimentos á Rainha e ao Priol do Crato
De uma embaixada d'El-Rei d'Aragão e de Napoles que veiu ao Infante D. Pedro sobre os feitos da Rainha
De como o Regente determinou pôr cêrco ao Crato e ás outras fortalezas do Priol, e a que pessoas os cêrcos foram encommendados
Como El-Rei quiz vêr e viu o capitão na ordenança de guerra em que vinha
Como a Rainha meteu de Castella gente d'armas n'estes reinos para se bastecer, e do que fizeram
Da resposta que o Regente houve d'algumas cousas que com sua embaixada enviou a Roma requerer
Como em se accordando o cêrco do Crato soube o Regente que a Rainha D. Lianor era partida do Crato para Castella, e como todavia seguiu, e do que se fez
Como o Infante D. Pedro e o Infante D. Anrique se foram a Lamego para passarem entre Doiro e Minho. E como o conde de Barcellos se poz em defesa, e do que se n'isso passou
Das côrtes que se fizeram sobre o casamento d'El-Rei com a Rainha D. Isabel, filha do Infante D. Pedro
Como o Regente por meio do conde de Barcellos procurou de se concordar com a Rainha D. Lianor, e das cousas por que ella não quiz
Como a Rainha D. Lianor se foi á côrte d'El-Rei de Castella, e das embaixadas que vieram a Portugal