Como a Rainha mandou secretamente preceber os de sua valia que viessem ás côrtes armadosA Rainha sendo d'estas cousas informada, sentindo que os alvoroços da cidade não cessavam, antes creciam com fundamento de o Regimento lhe ser tirado, o notificou logo pelo reino a todolos fidalgos, e pessoas d'estima, que entendeu serem por ella, encommendando-lhes que para as côrtes logo vindoiras viessem d'armas e gentes assi percebidos, que com sua segurança podessem resistir a qualquer contrariedade que os povos em seu dessserviço quizessem ordenar e fazer: e para ser mais em segredo, não o escreveu a todos particularmente, mas ordenou regimentos paracadacomarca, e escudeiros de que fiava; e com suas cartas de crença os andassem secretamente mostrando áquellas pessoas que ella queria.A qual cousa com quanto pareceu ser incoberta, foi logo ao Infante D. Pedro revelada, e ainda mostrado por mór certeza um dos proprios regimentos: e maravilhado d'isso o descobriu e mostrou logo ao conde d'Arrayollos, que com grande trigança veiu sobr'isso fallar á Rainha, espantando-se muito de tal movimento, e reprendendo quem lh'o conselhára, pedindo-lhe afincadamente com respeitos de serviço de Deus e d'El-Rei, e d'ella, e bem do reino, que o atalhasse,e escrevesse áquelles que cessassem do que lhes tinha escripto.E como quer que ella por sua virtuoza tenção lhe pareceu assi bem e prometesse ao conde de o assi fazer, não se achou porém quem depois o fizesse; antes se soube que logo veiu a ella Pedro Annes Lobato certificar-lhe que os percebimentos e alvoroços d'alguns creciam cada vez mais por seu respeito, e que a fama era que ella os ordenava assi para morte d'alguns principaes por sua vingança, o que como quer que elle sabia o contrairo e o desdissesse, que o não criam como suspeito a suas cousas; e assi tambem lhe pediu que com assessego o remedeasse.E a Rainha crendo que aproveitaria sua desculpa, escreveu logo sobre aquelle caso mui graciosamente á cidade, certificando-lhe o contrairo do que tinham concebido; e encommendando-lhes sua paz e assessego com grande instancia, e com sua crença a Pedro Annes, o qual com quanto em camara dissesse além da carta da Rainha muitas razões e causas para desfazerem suas maginações e cessarem de seus alevantamentos, não aproveitou nada: e com tudo responderam á Rainha «que a causa dos receios e alvoroços que tinham, os seus principalmente os faziam, affirmando e divulgando cousas para assi ser; que os mandasse castigar, e tudo cessaria».E como quer que a Rainha para satisfação d'elles mandasse sobr'isso fazer exame e deligencias para ser asperamente punido quem taes movimentos fizesse: finalmente não se achou certo autor, nem cousa a que em especial fosse razão dar-se fé nem autoridade, e com tudo a furia do povo não amansava.CAPITULO XXVIIIComo o Infante D. Pedro e o Infante D. João sobre estas cousas se tornáram a vêr, e o que acordáramO Infante D. João a este tempo era doente em Alcochete; e enviou ao Infante D. Pedro que fosse, como foi, ve-lo, e sendo ambos juntos, o Infante D. João lhe disse:«Senhor irmão, por não estar em disposição de poder ir onde estaveis, vos enviei pedir que chegasseis aqui; assi porque folgo muito de vos vêr, como principalmente por saber parte de vós, e de vossos feitos com a Senhora Rainha, os quaes não devem estar bem nem como á vossa honra cumpre, segundo a soltura e atrevimento que todolos fidalgos tem de fallar contra vós, tirando os de minha casa, e para se isto remedear convem que façaes o que não fizestes, que é nomearde-vos logo por Regedor do reino in solido. E para sosterdes vossa empresa tendes em vossa ajuda mui certos a mim e ao conde d'Ourem que aqui está comigo; e assi a cidade de Lisboa que vo-lo requere; e comvosco serão outros muitos que nos ajudarão n'esta contenda; e então venham os do juramento armados contra vós; e os Infantes d'Aragão entrem a favorecer o partido de sua irmã».O Infante D. Pedro lhe disse:«Leixando o mais que me dizeis, a esta derradeira condição por mais sustancial vos responderei primeiro; e digo que já vos disse outras vezes, quão pouco contente sou da Rainha e de seus máos conselheiros, e da dureza de sua condição, com que nunca quiz perder esta seita contra mim; e Deus sabe que cá lhenão fui nunca nem sou em culpa para assi ser; antes lhe tive sempre merecimento, por desejar de a servir como era razão: e o galardão que d'ella houve foi sempre odio e má vontade para mim e minhas cousas; e mais agora, onde na esperança de suas honras e mercês já os fidalgos como dizeis me não olham senão por desprezo, crendo que o que mais fizer contra mim maior parte haverá d'ellas. E por isto e principalmente por minha segurança, certo prazer-me-ha muito ter corregimento; mas porque a esta sazão e tempo, segundo as divisões estão, eu o não poderia fazer sem esperança de muito damno e grande perda d'este reino, o que eu não queria, a mim parece como vos já disse, leixarmos vir o tempo das côrtes; e se n'ellas se acordar que tenha o Regimento, então serei contente de o tomar; e d'outra maneira não».O Infante D. João disse:«Certo bem me parece vossa conclusão; mas tenho receio a estes de Lisboa com esta vossa dilação perderem por ventura este fervor que tem para vossa ajuda, e serem depois máos de tomar a nosso preposito».«Não cureis (respondeu o Infante D. Pedro) cá se Deus vir que é seu serviço, Elle por sua bondade ordenará como se faça; e por isso sede certo, que por nenhuma cousa não emprenderei encargo que seja sem côrtes; mas que sei que a Rainha escreve aos fidalgos que são de sua parte, que venham a ellas poderosos, eu como defensor o quero fazer saber ás cidades e villas do reino; e que sejam prestes para qualquer movimento e novidade que se seguir.»E com esta tenção que seu irmão aprovou, se despediu d'elle.CAPITULO XXIXComo o Infante D. Pedro avisou e percebeu o reino sobre os alvoroços que se ordenavamE Tanto que o Infante D. Pedro foi em Camarate, que era no começo de Setembro do anno de mil e quatrocentos e XXXIX, logo escreveu a todolos logares do reino notificando-lhe os movimentos que se esperavam, de que era certificado, e as causas de quem procediam, encommendando-lhe que logo se fizessem e estivessem prestes para quando vissem seu recado; por quanto de semelhantes uniões não se podia seguir, salvo desserviço de Deus e d'El-Rei e grande mal e damno de seus reinos e naturaes, e assi foram avisados doInfanteos messageiros que levaram as cartas, que todas em todo o reino a um dia certo e logo assignado por elle, fossem dadas. E tanto que assi escreveu, se partiu para Coimbra e suas terras.A carta para Lisboa foi dada na Camara da Feitura a XV dias, sendo já o Infante partido, e depois de vista foi posta nas portas principaes da Sé, onde esteve alguns dias sem haver logar de se poder acabar de lêr, e de noite com candeias a vinham trelladar; e sobre as cousas d'ella as praticas e alvoroços eram tamanhos, que em publico e em secreto não se fallava em outra cousa.Os da cidade depois de haverem seu conselho acordaram responder ao Infante, em que remercearam sua notificação, e se offereceram para todalas cousas que fossem de sua honra e serviço, e elle dispozesse e mandasse. As outras cidades e villas do reino responderamtodas conforme a isto em sustancia; sómente a cidade do Porto emadeo mais, que queria que o Infante D. Pedro só, sem outra ajuda nem companhia fosse Regedor: e com estas cartas houve no reino grande alvoroço, com alguma indinação contra a Rainha, por n'ellas se tocar entrada de gentes extrangeiras n'este reino em seu favor e ajuda.Mas se o Infante isto escreveu por ter d'isso a esse tempo alguma certidão, ou o fez de industria por alvoroçar as gentes contra a Rainha e contra os que seguiam sua tenção, isto fique a Deus e em sua conciencia, sómente é de crêr que o Infante o não faria sem causa; especialmente porque a esse tempo os Infantes d'Aragão irmãos das Rainhas de Portugal e de Castela prosperavam n'aquelle reino; e era de presumir que nos aggravos de que se ella queixava, se socorreria a elles, que a deviam e podiam bem ajudar, e elles lh'o não denegariam por seu sangue e grandeza.CAPITULO XXXComo se o Infante D. Pedro despediu da Rainha, e da falla que como descontente lhe fezAnteque o Infante D. Pedro partisse de Camarate para suas terras, foi a Sacavem fallar a El-Rei; e depois de se despedir d'elle e lhe beijar a mão entrou onde a Rainha estava, e com a presença carregada lhe disse em pé e de praça algumas palavras, cuja sustancia foi recontar-lhe serviços que lhe tinha feitos com desejo de fazer outros maiores, de que finalmente até então não houvera d'ella outro galardão, salvo odio e má vontade comque sempre procurára em todo sua deshonra e abatimento; e assi lhe tocou nas differenças em que andavam, e nos percebimentos que mandára fazer, e em outras cousas d'esta calidade, com razões assaz graves e honestas, e em fim declarou «que até li a Rainha o tivera como ella queria, e que d'hi em deante o tomaria como o achasse». E n'esta conclusão que pareceu de rompimento, se despediu d'ella sem lhe beijar a mão, nem cometer de o fazer. O que a Rainha ouviu com grande segurança e assessego, e não lhe respondeu cousa alguma; porque o Infante com sua trigosa partida não deu a isso lugar, e porém sentiu muito partir-se assi d'ella o Infante com mostrança de tamanho desacatamento; o que por assi passar de praça foi logo divulgado, que a uma parte e a outra acrecentou mais materia d'alvoroços e uniões.CAPITULO XXXIComo a Rainha com El-Rei e seus filhos se foi a Alanquer, e do que se seguiu em LisboaA Rainha se partiu com El-Rei e seus filhos e sua casa para Alanquer, muito revosa dos movimentos e alvoroços de Lisboa, e pouco segura em Sacavem onde estava, por ser aldêa fraca e tão perto da cidade, como quer que d'alguns seus fosse aconselhada que o não fizesse, antes que se fosse dentro á cidade; porque era de crêr que sua presença daria ao povo menos ousadia para contra ella seguirem e acabarem o que tinham começado; e que sua ausencia com mostrança de temor causaria o contrairo.Os officiaes de Lisboa vendo esta mudança da Rainhafizeram logo seu ajuntamento, onde Vicente Egas, homem cidadão velho, entendido e de grave representação fez uma falla com largo recontamento, cuja sustancia foi avisar a cidade dos males e perigos que por as mudanças presentes se lhe aparelhavam; e como para terem por cabeça alguma pessoa que por ella os resistisse, lhe era necessario enlegerem e tomarem alferes, apontando logo o capitão Alvaro Vaz d'Almada, que da cidade fôra o derradeiro alferes, como por outros muitos e mui dinos merecimentos e louvores que d'elle com verdade recontou; no que todos consentiram, e por dois cidadãos o enviaram logo chamar,por quanto era fóra da cidade; e em chegando á ribeira, sendo já sabido a determinação sobre que vinha, se ajuntou com elle a mór parte da cidade, e assi acompanhado com grande honra foi levado á Camara, onde por os vereadores com certas cerimonias e largas palavras de grande seu louvor e muita confiança, lhe foi entregue a bandeira da cidade com suas condições; e elle a recebeu com palavras cortezes e discretas, e de grande esforço; porque era cavalleiro que n'este reino e fóra d'elle por esperiencias mostrou que isto e muito mais de louvar havia n'elle, cá em França por sua ardideza e bondades foi feito conde d'Abranxes, e em Inglaterra por sua valentia foi recebido por companheiro da Ordem da Garrotea, de que principes christãos e pessoas de grande merecimento são confrades; e em Portugal por todas estas, e mais por sua linguagem e fidalguia mereceu ser como foi capitão mór do mar.CAPITULO XXXIIAccordo que o povo de Lisboa fez ácerca do RegimentoEstandoo Regimento do reino n'este balanço, mais com mostranças de guerra que de paz, e com signaes mais de perigo que de segurança, os officiaes macanicos de Lisboa com outra gente popular se ajuntaram em S. Domingos da Cidade, onde fizeram escrever e assignaram um acordo, em que por algumas razões que apontaram, e em especial por o perigo e não bom Regimento do reino, declaravam e se affirmavam, «que o Infante D. Pedro fosse seu Regedor e defensor sómente; e que assi promettiam de o requerer nas côrtes; e que o contrairo não consentiriam ou morreriam sobr'isso, se o caso assi requeresse.»A qual cousa sendo logo sabida, como quer que a alguns parecesse determinação de pouco peso e auctoridade, o contrairo pareceu a Pedro Annes Lobato, que por ser muito servidor da Rainha, se foi logo a Alanquer onde estava, e lhe notificou com tristeza aquelle acordo, havendo-o por principio mui contrairo a seu serviço, affirmando que não podia ser sem favor e consentimento dos principaes, e com aquelle acatamento que devia a reprendeu muito da segurança que n'estes feitos sempre tivera, e o pouco cuidado de os remediar nos começos ante d'alguma execução, especialmente estando tão ácerca e tão avisada cada dia dos movimentos que se faziam.E perguntado pela Rainha e pelos do conselho que hi eram, que se faria ou que remedio se dariapara o povo cessar de seu alvoroço, Pedro Annes respondeu «que já não sabia, salvo pedi-lo a Deus.»E finalmente depois de sobre isso praticarem, acordaram que a Rainha escrevesse, como logo escreveu á cidade, e além das razões santas e virtuosas na sua carta logo declaradas, por que deveram ser bem seguros dos receios com que se alteravam, Pedro Annes que era o messegeiro, lhes disse outras muitas mais, a ellas conformes, em que não fallecia siso e prudencia; mas d'isto em fim se fez pouca estima, e responderam a tudo como já endurecidos em sua maginação e porfia.CAPITULO XXXIIIComo a cidade de Lisboa entendeu contra o Arcebispo D. Pedro pelos cubelos da alcaçova que tomouNãoé de duvidar que a Rainha para toda paz, bem, e assessego do reino tivesse sempre mui virtuoso desejo; mas muitas vezes por ventura, por estar assi determinado na providencia divina, os seus sem vontade d'ella damnavam e faziam duvidoso seu proposito; porque estando a cidade de Lisboa em alguma consiração de repouso por o que a Rainha lhe tinha escripto e enviado dizer, o Arcebispo D. Pedro seu primo, que em todo seguiu sua tenção, pousava nos seus paços d'Alcaçova pegados com Sancta Cruz, e porque entre elles e o castello vae um lanço de muro em que está a porta, que se chama de Martim Moniz com alguns cubellos altos, mandou cobrir e abrir para elles uma porta porque se corriam por cima do muro, ficando a porta da cidadeque sahia para fóra sujeita a sua disposição, e da outra parte dos paços contra o bairro dos escolares, tinha dias havia feita uma torre mui alta, forte e fremosa em que se acolhia; e sendo as cousas da Rainha havidas na opinião do povo por tão suspeitas, o Arcebispo além da obra e refazimento que nos cubellos mandara fazer, dizia soltamente palavras ques pareciam ameaças com esforço alheio. E deu aos seus armas além das custumadas, e dizia-lhes de praça taes razões, que os mettia em alvoroço; e elles fallando ousadamente pela cidade, mettiam a outros muitos em outro maior: e com isto não apagavam, mas acendiam mais a suspeita e receios que o povo tinha: a qual cousa sentida pelos officiaes, fizeram sobre isso vereação e acordo; e por dois deputados para isso mandaram requerer em sustancia ao Arcebispo que logo despachasse e leixasse o muro e cubellos, que eram proprios da cidade, de que a tinha forçada. O qual anojando-se de tal recado, como era de aspera condição, e não muito sobjecto a deliberado conselho, respondeu aos messegeiros de maneira que foram d'elle mui descontentes; sobre o qual se tornaram outra vez a juntar em camara, e se alguns com difficuldade o não temperaram, o primeiro acordo era de mór rigor e damno; mas em fim acordaram que os cubellos fossem logo despachados, e fechada a porta que o Arcebispo mandára abrir; do que elle mui anojado, sendo constrangido para o cumprir, se sahiu logo da cidade, e depois para Castella, como ao diante se dirá.CAPITULO XXXIVVinda do Infante D. João á cidadeA cidade de Lisboa, pela confusão e receios em que estava,acordoude enviar o capitão Alvaro Vaz ao Infante D. João, notificar-lhe os feitos como estavam e pedir-lhe por mercê, que para ser sua cabeceira quizesse estar na cidade, porque sua presença lhes era mui necessaria, até que nos feitos se tomasse alguma boa conclusão.Ao Infante prouve muito de o fazer; e se veiu logo a ella e pousou nas casas da Moeda, onde entendida a sustancia do caso, conhecendo que a maior parte da inclinação e vontade do povo e cidadãos, era o Infante D. Pedro reger, louvou muito seu proposito, e os esforçou n'elle.CAPITULO XXXVComo a Rainha escreveu a Lisboa e todo o reino sobre o assessego d'elleA Rainha como foi em Alanquer, logo escreveu a Lisboa, e alli geralmente a todas as cidades, villas e povos do reino, notificando-lhe alguns beneficios e boas obras que já lhes procurara para os obrigar; e assim as causas dos aggravos e sem razões que ácerca do Regimento recebia, para os mover a piedade, descarregando-os com razõas boas, honestas e de razão, dos temores que d'ella tinham ácerca dometer das gentes estrangeiras n'estes reinos, e segurando-os da vingança que lhes faziam crêr que ella d'alguns cruamenta queria tomar; encommendando-lhes e requerendo finalmente, que para as côrtes que se chegavam, cessassem de requerer novidades acerca do Regimento, e quizessem approvar o que El-Rei D. Duarte seu marido leixara, ou ao menos o que nas côrtes de Torres Novas fôra acordado, com alguns protestos fundados em sua boa e virtuosa tenção, mandando que por seu descargo se d'ello se seguissem alguns males e inconvenientes, que suas cartas se registassem nos livros das camaras, e puzessem nos cartorios das religiões: o que se não fez assim; porque na maior parte do reino era o alvoroço tamanho contra a Rainha, que álem de não quererem vêr suas cartas, ainda tratavam os messegeiros d'ellas asperamente, e não como deviam. E porque Gomes Borges que era escrivão da chancelaria d'El-Rei, poz nas portas da Sé a carta que a Rainha enviou a Lisboa, foram os povos sobre elle, e tão indinados, que com difficuldade escapou da morte.CAPITULO XXXVIDeclaração que Lisboa fez de o Infante D. Pedro só reger o ReinoEstando assi as cousas n'esta confusão, o doutor Diogo Affonso Mangancha em que havia letras e ardideza com pouco repouso, e um Lopo Fernandes, tanoeiro de Lisboa, homem velho afazendado, e de que o povo fazia grande cabeceira, estes ou por serem afeiçoados á parte do Infante D. Pedro, ou porlhes parecer razão elle só reger e não a Rainha, ordenaram e praticaram entre si que o doutor fizesse na camara uma publica falla sobre isso, affirmando que todavia era bom, antes das côrtes se fosse possivel, assi se declarar e requerer; e que ao menos no cabo da falla conheceriam nos rostos dos mais suas vontades para seu aviso: e era opinião que d'esto não desprazia ao Infante D. João, pelo favor que dava e gasalhado que fazia a este tanoeiro.E junta a mór parte da cidade na camara, sem geralmente se saber a que fim, o doutor Diogo Affonso propoz sua falla, em que logo com muitas e vivas rasões tocou os erros que havia em o Regimento do reino ser repartido, como fôra em Torres Novas; e assi com determinações do Direito Canonico e Civil, e com auctoridades do Testamento Novo e Velho, e com exemplos d'historias antigas reprovou Regimento publico ser dado a mulher, porque excludio a Rainha; e com outras de não menos rasão e auctoridade provou que devia ser dado a homem barão, em que houvesse as virtudes e calidades que todas achou com verdade no Infante D. Pedro, para o qual concludio que devia ser requerido e forçado para isso, quando por sua vontade o não quizesse acceitar.Acabando o doutor sua falla, foi-lhe por um vereador dadas graças por ella em nome de todos, os quaes encommendaram logo ao capitão que desse sobre o caso sua voz, que a deu com cautellas e fundamentos de homem prudente e mui avisado, em que concludiu mais além, que era grande perigo e aleijão, El-Rei ser mais criado em poder de mulheres; e não menos erro reger a Rainha, não sem muitos merecimentos e grandes louvores d'ella, que tambem apontou para ser sempre servida e acatada; e que o Infante D. Pedro devia reger.Era alli Martim Alho, cidadão honrado, e por ser muito servidor da Rainha quizera dilatar esta conclusão para outro ajuntamento e mais pessoas, parecendo-lhe que se apertava muito em seu d'esserviço; mas Ruy Gomes da Grã, outro si cidadão, e de boa e antiga linhagem, que era presente, com palavras de grande auctoridade e rasão contradisse muito a dilação n'este caso, e louvou a breve conclusão; e depois de muitas praticas e largos apontamentos, elle com os mais approvaram e pozeram em escripto este accordo que se segue.CAPITULO XXXVIIFórma do acordo sobre o RegimentoEmnome de Deus nosso Remidor e Salvador Jesus Christo, e de sua Santissima Madre a Virgem Maria nossa Senhora. Acordâmos em uma voz e acordo, todolos fidalgos, cidadãos, e homens bons da cidade de Lisboa, consirando o trabalho e grande destruição que em todo o reino ha por causa de ter diversos Regedores, entre os quaes sempre era divisão, em grande damno e perda de todo o reino, querendo a cidade remediar a serviço de Deus e d'El-Rei nosso Senhor, como aquella que sobre todas as cousas d'este mundo mui leal e verdadeiramente o ama, todos em uma voz acordamos, e determinamos que n'estas côrtes que ora prazendo a Deus serão feitas, conhecendo nós a grande lealdade e muita prudencia do muito alto e muito excellente Principe e Senhor o Infante D. Pedro, e como é filho legitimo do muito poderoso e virtuoso Rei D. João nosso Senhor,cuja alma Deus haja, e o mais ancião sangue chegado á mui alta e real corôa do muito excellente e poderoso Principe El-Rei D. Affonso nosso Senhor, que elle dito Senhor Infante D. Pedro seja Regedor livremente e in solido n'estes reinos, e até que prazendo a Deus, El-Rei nosso Senhor, que sobre todos mais lealmente amamos, seja em edade para os por si poder reger e deffensar, ao qual tempo o dito Senhor Infante D. Pedro seu leal sangue e vassalo leixará livremente a possessão de seus reinos e senhorio; e lhe entregará a ministração e Regimento d'elles pacificamente, para El-Rei nosso Senhor os governar e reger, como fizeram os mui virtuosos Reis d'onde elle descende; e vindo tal caso, que o Senhor Infante D. Pedro não possa ter o Regimento e governança dos ditos reinos, que por esta fórma e maneira seja dada e a haja o mui leal Principe e Senhor Infante D. Anrique seu irmão; e fallecendo elle, seja por o semelhante dada ao Senhor Infante D. João; e por esta guisa ao Senhor Infante D. Fernando, que Deus de terras de mouros traga com bem e liberdade a estes reinos; e fallecendo todos ante que El-Rei D. Affonso nossoSenhorseja em edade para reger, que então por esta fórma venha o dito Regimento ao conde de Barcellos, e aos condes d'Ourem e d'Arrayollos seus filhos, com todas as clausulas e condições suso escriptas.E assi acordamos e determinamos que a muito alta e muito excellente e muito prezada a Rainha D. Lianor nossa Senhora seja sempre em sua vida honrada e manteuda, acatada e servida em seu alto e real estado; e por esta mui nobre e leal cidade de Lisboa e povo d'ella lhe seja sempre feito tanto serviço, prazer, e mandado, assi como somos teudos e obrigados por bons e leaes vassallos, e por ser madre d'El-Rei nossoSenhor, assi e pela guisa que lh'o sempre fizemos em vida d'El-Rei D. Duarte, seu marido nosso Senhor, cuja alma Deus haja; e muito mais podendo-se fazer.Alguns houve alli e poucos, a que d'este acordo não prouve; em especial a Martim Alho, que sobre algumas palavras que acerca d'esso disse, não lhe conveiu mais esperar; e se foi com sua vida e honra, a que o rumor do povo começava já de ser contrairo.CAPITULO XXXVIIINotificação d'este accordo ao Infante D. João, que o approvouFeitoe assignado este accordo, enviaram logo chamar Vasco Gil, confessor do Infante D. João, ao qual deram o accordo e lhe encommendaram que o mostrasse ao Infante, a cuja prudencia, correição e prazer o sometiam.E mui em breve tornou Vasco Gil com a resposta em que o Infante approvava e louvava seu accordo, não como cousa feita por homens, mas como inspirada n'elles por Deus. E que porém ao outro dia quinta feira fossem ouvir missa com elle a Sancto Spiritu, e que alli lhes responderia.Ao qual dia juntos todos e ouvida a missa, que se disse muito solemne com seus capellães e cantores, o Infante apartou os da cidade sómente e alli resumiu o accordo que fizeram e lhe enviaram mostrar. Onde com palavras de grande equidade lhes aguardeceu a notificação d'elle. E com razões de muita auctoridade o approvou, offerecendo-se a elles.E pois aquella era a verdade, que pospostos os espantos,ameaças e receios que se logo apontaram, promettia de lh'a ajudar a manter e cumprir: pelo qual a cidade assi favorecida em seu proposito fez no outro dia ajuntar no refeitorio de S. Domingos todo o povo, aquelle que pôde caber, onde em pulpito Pedro Anes Sarrabodes notificou em alta voz o accordo passado e a maneira que se n'isso tivera, requerendo a todos que dissessem o que d'elle lhes parecia. Onde logo sem bem se acabar a pregunta um Diogo Pirez, alfayate, bradando respondeu: «que accordo nem parecer ha de ser o nosso, salvo assignarmos todos esse, e fazermos logo vir o Infante D. Pedro, e comece de reger!»Com aquella voz seguiram tantas vozes, que alguma se não ouvia; e com os assignados dos que tinham assignado foram logo outros tantos postos, que não cabiam em um grande quaderno; porque assi trabalhava cada macanico official de poer alli seu nome como se na postura d'elle acrecentasse sua honra e fazenda, e remedeasse de todo a necessidade do reino.CAPITULO XXXIXNotificação do dito accordo á Rainha, que o contrariou, e assi aos Infantes e ao reinoConcordadoe assignado este accordo, a cidade o notificou logo á Rainha com fundamentos e causas justas e honestas, e com palavras do mór acatamento seu, que no caso cabiam. A qual lhes respondeu com uma notavel justificação, desfazendo e anichilando particularmente todalas cousas do acordo, denegando-lhe em todo a auctoridade para talpoderem fazer, sem ajuntamento e concordia dos tres Estados do Reino, encomendando-lhes a revogação do accordo com algumas protestações e cautellas dos damnos, se sobr'isso viessem.Não sómente a cidade de Lisboa notificou este accordo á Rainha, mas logo aos Infantes D. Pedro e D. Anrique, e condes; e assi ás cidades e villas do reino. E o Infante D. Pedro lhes respondeu agardecendo-lhes com palavras mui graciosas seu proposito, eofferecendo-secom outras de muito peso e discrição, aceitar o Regimento e seguir jurar e manter as condições do acordo. No qual isso mesmo as cidades e villas do reino sustancialmente consentiram. E principalmente a cidade do Porto por ter aquello mesmo dias havia determinado.Mas o Infante D. Anrique na resposta que sobr'isso enviou, não mostrou ser do accordo contente, não por erro da sustancia d'elle, mas no modo que tiveram, por tomarem em tal caso a autoridade e poder que aos tres Estados do Reino em côrtes era sómente reservado, conforme ao que a Rainha apontára, concludindo em remeter seu acordo e tenção para as côrtes que se logo esperavam, onde tudo bem visto e consirado se faria o que fosse mais serviço de Deus e d'El-Rei, e bem de seus reinos, amoestando-os finalmente para paz e assessego, poendo-lhes os inconvenientes da divisão. E mais de si mesmo justificando tudo com palavras e razões de tanta autoridade, que bem pareciam dinas de tal Principe. E que sobretudo iria a Coimbra fallar ao Infante D. Pedro, e ao conde de Barcellos seus irmãos, e a conclusão que tomassem lhes faria logo saber.D'esta resposta do Infante D. Anrique não foram os da cidade contentes; e muito menos o Infante D. João que n'ella era presente, o qual tomou cargo deresponder, como respondeu por ella a seu irmão, em que lhe afirmou o acordo se fazer e divulgar com sua autoridade, justificando com vivas razões todolos passos d'elle, tocando mui verdadeiramente para assi ser as necessidades em que o reino estava e danos que recebia por a multidão e divisão dos Regedores; e quanto um era mais necessario e proveitoso, o qual não podia nem devia ser, salvo o Infante D. Pedro seu irmão, por as calidades que n'elle para isso havia, que logo apontou dinas d'outro Regimento maior. Pedindo emfim, que com elle quizesse dizer:—Confirmat hoc Deus, quod operatus est in nobis.—D'este acordo de Lisboa pesou muito ao conde de Barcellos; e comquanto era assaz discreto e avisado, em recebendo a acta da cidade, não pôde dessimullar o desprazer e sentimento que por isso recebia. E não era por singular affeição que tivesse á Rainha, nem por sentir que em ser o Infante D. Pedro Regedor era perda ou damno do reino; mas sómente segundo juizo commum e especiaes, que se depois seguiram, era com respeitos de seu interesse particular; de que porventura lhe dava mais esperança a brandura da Rainha governando, que o rigor e justiça do Infante regendo.CAPITULO XLPartida do Arcebispo D. Pedro fóra do reinoD. Pedro, Arcebispo de Lisboa, era na Alhandra anojado pela privação dos cubellos da cidade, como já disse; onde fallando com um Affonso Martins, ourives, que da cidade sobre cousas de suas rendas fôra com elle negociar, tocouos accordos e movimentos da cidade com palavras de doesto dos cidadãos e povos d'ella; ameaçando-os com cerco poderoso de gentes estrangeiras, e com outros muitos males e deshonras, de que os em pessoa d'aquello logo certificava, e que não tardariam muito, congeiturando de sua confiança e favorecendo sua ameaça em alguns do reino e em outros muitos de fóra d'elle, que eram os infantes d'Aragão e sua valía. A qual cousa o ourives respondeu bem e avisadamente, esforçando se em lhe não parecer direito de sua verdadeira vontade; porque d'elle não era de crêr cousa que tanto contrariava a seu sangue e habito, e na bemfeitoria e mercê que d'El-Rei D. João e de seus reinos tinha recebido.Com o sentimento e juizo que o ourives tomou da tenção do Arcebispo, se tornou á cidade, onde o logo fez saber na camara d'ella. E por isso, e por se provar em uma inquirição que se contra o Arcebispo tirou, que brasfemara do Senhor que o fizera, a cidade com sua cleresia appellaram d'elle e o suspenderam de suas rendas e dinidade; e se enviaram queixar d'elle á Sé Apostolica por um João Lourenço Farinha, cidadão e pessoa de saber e auctoridade, com supplicatorias em nome d'El-Rei e dos Infantes. Pelo qual o Arcebispo se quizera colher a Obidos, e os da villa com sua suspeita o não quizeram n'ella receber.E elle vendo que os feitos se inclinavam já contrairos de seu proposito e desejo, se partiu para Castella, d'onde depois foi retornado como se dirá.A Rainha sendo já certificada da determinação em que o povo estava de lhe tirar o Regimento e da-lo ao Infante, sendo assi aconselhada por aquelles que a serviam, escreveu aos fidalgos que sostinham sua parte que não viessem ás côrtes, e se escusassem como melhor vissem; e enviassem a ella procurações abastantescom suas protestações de não outorgarem nem obedecerem em cousa que se n'ellas accordasse. E elles assi o fizeram, os quaes eram o Arcebispo de Braga, o Priol do Crato, o marechal D. Duarte, senhor de Bragança, D. Duarte de Menezes, Fernão Coutinho, Gonçallo Pereira de Riba-Vizella, Alvaro Pirez de Tavora, Diogo Soarez d'Albergaria, Fernão Soarez, Ruy Vaz Pereira, Luiz Alvares de Sousa, Pero Gomes d'Abreu, Lyonel de Lima, Gomes Freire, Lopo Vaz de Castel-Branco, Martim Affonso de Mello, Diogo Lopes Lobo, Fernão de Sá, João de Gouvêa, D. Sancho de Noronha, e alguns filhos d'estes, e outras algumas pessoas d'outra condição.Mas como quer que estes não viessem ás côrtes, posto que fossem tão grandes pessoas, ellas não se leixaram de fazer, nem elles recusaram obedecer inteiramente ás determinações d'ellas. Que por aquelle tempo, ainda que os fidalgos muito valessem, não era seu valor para contrariar a vontade dos filhos e netos d'El-Rei D. João, com que o reino e todalas cousas d'elle, por amor e razão logo pendiam.CAPITULO XLIComo o castello de Lisboa foi pela cidade tomado e dado ao Infante D. João, e o que se n'isso seguiuD. Affonso, senhor de Cascaes, e D. Fernando seu filho sostinham a parte da Rainha; e porque D. Affonso era alcaide mór de Lisboa, tanto que sentiram as voltas da cidade contrairas a sua tenção se meteram no castello, e com elles alguns fidalgos seus amigos e outra gente de sua criação:e começaram logo de poer n'elle grandes avisos de guardas de dia, e vellas e roldas publicas de noite. E os da cidade vendo tal novidade, e sendo certificados de muitas ameaças e palavras deshonestas que as vellas contra elles diziam, como sentidos d'isso acordaram de ir combater o castello. Mas o Infante D. João por evitar escandalos e damnos que se podiam d'isso seguir, por então os impediu; e tomou o cargo de assessegar se podesse esta alteração, por meio de D. Maria de Vasconcellos, mulher de D. Affonso, a qual por consentimento, e com seguridade do povo lhe veiu fallar ás casas da Moeda. Onde o Infante com palavras mui honestas e virtuosas lhe apontou, que por assessego de tantos alvoroços e uniões, quantos na cidade via contra seu marido e filho, fizesse com elles que lhe entregassem o castello, ou consentissem por sua segurança, que o Infante pousasse dentro, e elles tivessem suas forças e menagem.D. Maria com este recado se veiu ao castello, e depois de sobre tudo haverem suas praticas e conselhos, ella tornou ao Infante com resposta e determinação de seu regimento. A qual brevemente foi elles não entregarem o castello, nem receberem outrem n'elle, nem se sahirem d'elle.Verdade é que o pae logo consentira em alguns dos meios apontados; mas o filho por ser mancebo, em que o sangue e pontos de honra ferviam, o houve por abatimento e o estorvou, especialmente porque havia o partido da Rainha que seguiam, por mais esforçado que o do Infante D. Pedro que contrariavam; e juntamente com isto D. Maria disse ao Infante D. João:«Senhor, se vossa mercê tanto desejo tem d'haver este castello, não sei porque o não tem d'haver tambem quantos outros ha no reino; pois está em vossamão, e o podeis fazer, e para certidão d'isto a Rainha minha Senhora vos envia por mim dizer, que ella é tão magoada das sem razões que o Infante D. Pedro contra ella tem feitas, e cada dia ordena, que antes se despoeria a todolos trabalhos e perigos do mundo, que consentir ser elle Regedor d'estes reinos. E que para verdes que o não faz por ella desejar para si o regimento, é mui contente que o hajaes vós. E para isso renunciará o direito que n'elle tem; pois sabeis que é todo o que de razão e justiça se requere. E mais lhe praz que El-Rei nosso Senhor seu filho case com D. Isabel vossa filha: e que d'aqui em diante vos terá em lugar de padre, para por este respeito e assi por ser já mulher d'El-Rei vosso irmão, que vos tanto amou, olhardes por ella e por suas cousas».O Infante sorrindo-se das derradeiras palavras de D. Maria lhe disse:«D. Maria, porque vos responda segundo logo começastes, a mim pesa de vosso marido e filho não consentirem em alguma das cousas que lhe por vós enviei apontar; Deus sabe que eu o fazia por seu bem; se lhes d'isso sobrevier algum mal pesar-me-ha; mas eu sem cargo. E quanto das outras cousas que da parte da Senhora Rainha me dissestes, dizei a sua Senhoria que nunca Deus queira nem quererá que entre os filhos d'El-Rei D. João, que nas mocidades em tanto amor e concordia se criaram, seja agora semeada tal cizania, porque se desamem e desconcertem; eu haveria temor de Deus e vergonha do mundo, não digo acceitar, mas sómente lembrar-me d'acceitar o Regimento do reino, em que tivesse dois irmãos mais velhos, e taes para isso, como são o Infante D. Pedro, e o InfanteD. Anrique. E quanto ao casamento d'El-Rei meu Senhor com minha filha não sendo o caso como é, certo seria a maior honra e o móracrecentamento que eu poderia desejar. De uma cousa sede bem certa, que com melhor vontade e menos sentimento meu soffreria ve-la no mundo em uma publica dissolução, que Deus não queira, que casa-la por tal maneira, contra a honra e vontade do Infante meuirmão, que me tem e eu lhe tenho mui verdadeiro amor. Cá não sómente erraria a elle, por ter já n'isso entendido e ser cousa mui razoada, mas ainda desobedeceria á alma e mandado d'El-Rei meu Senhor e irmão que Deus haja. Cuja vontade, assi na vida como na morte, sabeis que foi este casamento d'El-Rei nosso Senhor seu filho, com a filha do Infante meu irmão se fazer em toda maneira. E por isso esta é a razão que se faça, e não se deve contrariar. Mas vós dizei á Senhora Rainha, que sem isto que me por vós manda cometer, me tem sua mercê por fiel e certo seu servidor, e lhe peço por mercê que queira viver como é razão, e não curar de cousas que a ella nem ao reino não cumprem. E vós por seu bem e assessego, e com vossa discrição assi lh'o deveis d'aconselhar».E com isto a despediu.Os da cidade vendo a contumacia e ousadia de D. Affonso, receosos de poder ser com algum fundamento que a elles podesse ao diante trazer damno e perigo, por accordo geral que sobr'isso houveram, foram cercar o castello e o vallaram d'arredor, e lhe pozeram estancias e guardas para que de noite nem de dia não entrasse nem sahisse d'elle alguma pessoa, nem os de dentropodessemreceber soccorro, aviso, nem mantimentos.E porque D. Affonso e seu filho com sua gente entráram no castello de subito, sem percebimento de mantimentos, vendo se apertados da necessidade e perigo, e frouxos de esperança de remedio, leixou o castelloao Infante D. João com algumas seguranças que requereu, e se foi para a Rainha.CAPITULO XLII
Como a Rainha mandou secretamente preceber os de sua valia que viessem ás côrtes armadosA Rainha sendo d'estas cousas informada, sentindo que os alvoroços da cidade não cessavam, antes creciam com fundamento de o Regimento lhe ser tirado, o notificou logo pelo reino a todolos fidalgos, e pessoas d'estima, que entendeu serem por ella, encommendando-lhes que para as côrtes logo vindoiras viessem d'armas e gentes assi percebidos, que com sua segurança podessem resistir a qualquer contrariedade que os povos em seu dessserviço quizessem ordenar e fazer: e para ser mais em segredo, não o escreveu a todos particularmente, mas ordenou regimentos paracadacomarca, e escudeiros de que fiava; e com suas cartas de crença os andassem secretamente mostrando áquellas pessoas que ella queria.A qual cousa com quanto pareceu ser incoberta, foi logo ao Infante D. Pedro revelada, e ainda mostrado por mór certeza um dos proprios regimentos: e maravilhado d'isso o descobriu e mostrou logo ao conde d'Arrayollos, que com grande trigança veiu sobr'isso fallar á Rainha, espantando-se muito de tal movimento, e reprendendo quem lh'o conselhára, pedindo-lhe afincadamente com respeitos de serviço de Deus e d'El-Rei, e d'ella, e bem do reino, que o atalhasse,e escrevesse áquelles que cessassem do que lhes tinha escripto.E como quer que ella por sua virtuoza tenção lhe pareceu assi bem e prometesse ao conde de o assi fazer, não se achou porém quem depois o fizesse; antes se soube que logo veiu a ella Pedro Annes Lobato certificar-lhe que os percebimentos e alvoroços d'alguns creciam cada vez mais por seu respeito, e que a fama era que ella os ordenava assi para morte d'alguns principaes por sua vingança, o que como quer que elle sabia o contrairo e o desdissesse, que o não criam como suspeito a suas cousas; e assi tambem lhe pediu que com assessego o remedeasse.E a Rainha crendo que aproveitaria sua desculpa, escreveu logo sobre aquelle caso mui graciosamente á cidade, certificando-lhe o contrairo do que tinham concebido; e encommendando-lhes sua paz e assessego com grande instancia, e com sua crença a Pedro Annes, o qual com quanto em camara dissesse além da carta da Rainha muitas razões e causas para desfazerem suas maginações e cessarem de seus alevantamentos, não aproveitou nada: e com tudo responderam á Rainha «que a causa dos receios e alvoroços que tinham, os seus principalmente os faziam, affirmando e divulgando cousas para assi ser; que os mandasse castigar, e tudo cessaria».E como quer que a Rainha para satisfação d'elles mandasse sobr'isso fazer exame e deligencias para ser asperamente punido quem taes movimentos fizesse: finalmente não se achou certo autor, nem cousa a que em especial fosse razão dar-se fé nem autoridade, e com tudo a furia do povo não amansava.CAPITULO XXVIIIComo o Infante D. Pedro e o Infante D. João sobre estas cousas se tornáram a vêr, e o que acordáramO Infante D. João a este tempo era doente em Alcochete; e enviou ao Infante D. Pedro que fosse, como foi, ve-lo, e sendo ambos juntos, o Infante D. João lhe disse:«Senhor irmão, por não estar em disposição de poder ir onde estaveis, vos enviei pedir que chegasseis aqui; assi porque folgo muito de vos vêr, como principalmente por saber parte de vós, e de vossos feitos com a Senhora Rainha, os quaes não devem estar bem nem como á vossa honra cumpre, segundo a soltura e atrevimento que todolos fidalgos tem de fallar contra vós, tirando os de minha casa, e para se isto remedear convem que façaes o que não fizestes, que é nomearde-vos logo por Regedor do reino in solido. E para sosterdes vossa empresa tendes em vossa ajuda mui certos a mim e ao conde d'Ourem que aqui está comigo; e assi a cidade de Lisboa que vo-lo requere; e comvosco serão outros muitos que nos ajudarão n'esta contenda; e então venham os do juramento armados contra vós; e os Infantes d'Aragão entrem a favorecer o partido de sua irmã».O Infante D. Pedro lhe disse:«Leixando o mais que me dizeis, a esta derradeira condição por mais sustancial vos responderei primeiro; e digo que já vos disse outras vezes, quão pouco contente sou da Rainha e de seus máos conselheiros, e da dureza de sua condição, com que nunca quiz perder esta seita contra mim; e Deus sabe que cá lhenão fui nunca nem sou em culpa para assi ser; antes lhe tive sempre merecimento, por desejar de a servir como era razão: e o galardão que d'ella houve foi sempre odio e má vontade para mim e minhas cousas; e mais agora, onde na esperança de suas honras e mercês já os fidalgos como dizeis me não olham senão por desprezo, crendo que o que mais fizer contra mim maior parte haverá d'ellas. E por isto e principalmente por minha segurança, certo prazer-me-ha muito ter corregimento; mas porque a esta sazão e tempo, segundo as divisões estão, eu o não poderia fazer sem esperança de muito damno e grande perda d'este reino, o que eu não queria, a mim parece como vos já disse, leixarmos vir o tempo das côrtes; e se n'ellas se acordar que tenha o Regimento, então serei contente de o tomar; e d'outra maneira não».O Infante D. João disse:«Certo bem me parece vossa conclusão; mas tenho receio a estes de Lisboa com esta vossa dilação perderem por ventura este fervor que tem para vossa ajuda, e serem depois máos de tomar a nosso preposito».«Não cureis (respondeu o Infante D. Pedro) cá se Deus vir que é seu serviço, Elle por sua bondade ordenará como se faça; e por isso sede certo, que por nenhuma cousa não emprenderei encargo que seja sem côrtes; mas que sei que a Rainha escreve aos fidalgos que são de sua parte, que venham a ellas poderosos, eu como defensor o quero fazer saber ás cidades e villas do reino; e que sejam prestes para qualquer movimento e novidade que se seguir.»E com esta tenção que seu irmão aprovou, se despediu d'elle.CAPITULO XXIXComo o Infante D. Pedro avisou e percebeu o reino sobre os alvoroços que se ordenavamE Tanto que o Infante D. Pedro foi em Camarate, que era no começo de Setembro do anno de mil e quatrocentos e XXXIX, logo escreveu a todolos logares do reino notificando-lhe os movimentos que se esperavam, de que era certificado, e as causas de quem procediam, encommendando-lhe que logo se fizessem e estivessem prestes para quando vissem seu recado; por quanto de semelhantes uniões não se podia seguir, salvo desserviço de Deus e d'El-Rei e grande mal e damno de seus reinos e naturaes, e assi foram avisados doInfanteos messageiros que levaram as cartas, que todas em todo o reino a um dia certo e logo assignado por elle, fossem dadas. E tanto que assi escreveu, se partiu para Coimbra e suas terras.A carta para Lisboa foi dada na Camara da Feitura a XV dias, sendo já o Infante partido, e depois de vista foi posta nas portas principaes da Sé, onde esteve alguns dias sem haver logar de se poder acabar de lêr, e de noite com candeias a vinham trelladar; e sobre as cousas d'ella as praticas e alvoroços eram tamanhos, que em publico e em secreto não se fallava em outra cousa.Os da cidade depois de haverem seu conselho acordaram responder ao Infante, em que remercearam sua notificação, e se offereceram para todalas cousas que fossem de sua honra e serviço, e elle dispozesse e mandasse. As outras cidades e villas do reino responderamtodas conforme a isto em sustancia; sómente a cidade do Porto emadeo mais, que queria que o Infante D. Pedro só, sem outra ajuda nem companhia fosse Regedor: e com estas cartas houve no reino grande alvoroço, com alguma indinação contra a Rainha, por n'ellas se tocar entrada de gentes extrangeiras n'este reino em seu favor e ajuda.Mas se o Infante isto escreveu por ter d'isso a esse tempo alguma certidão, ou o fez de industria por alvoroçar as gentes contra a Rainha e contra os que seguiam sua tenção, isto fique a Deus e em sua conciencia, sómente é de crêr que o Infante o não faria sem causa; especialmente porque a esse tempo os Infantes d'Aragão irmãos das Rainhas de Portugal e de Castela prosperavam n'aquelle reino; e era de presumir que nos aggravos de que se ella queixava, se socorreria a elles, que a deviam e podiam bem ajudar, e elles lh'o não denegariam por seu sangue e grandeza.CAPITULO XXXComo se o Infante D. Pedro despediu da Rainha, e da falla que como descontente lhe fezAnteque o Infante D. Pedro partisse de Camarate para suas terras, foi a Sacavem fallar a El-Rei; e depois de se despedir d'elle e lhe beijar a mão entrou onde a Rainha estava, e com a presença carregada lhe disse em pé e de praça algumas palavras, cuja sustancia foi recontar-lhe serviços que lhe tinha feitos com desejo de fazer outros maiores, de que finalmente até então não houvera d'ella outro galardão, salvo odio e má vontade comque sempre procurára em todo sua deshonra e abatimento; e assi lhe tocou nas differenças em que andavam, e nos percebimentos que mandára fazer, e em outras cousas d'esta calidade, com razões assaz graves e honestas, e em fim declarou «que até li a Rainha o tivera como ella queria, e que d'hi em deante o tomaria como o achasse». E n'esta conclusão que pareceu de rompimento, se despediu d'ella sem lhe beijar a mão, nem cometer de o fazer. O que a Rainha ouviu com grande segurança e assessego, e não lhe respondeu cousa alguma; porque o Infante com sua trigosa partida não deu a isso lugar, e porém sentiu muito partir-se assi d'ella o Infante com mostrança de tamanho desacatamento; o que por assi passar de praça foi logo divulgado, que a uma parte e a outra acrecentou mais materia d'alvoroços e uniões.CAPITULO XXXIComo a Rainha com El-Rei e seus filhos se foi a Alanquer, e do que se seguiu em LisboaA Rainha se partiu com El-Rei e seus filhos e sua casa para Alanquer, muito revosa dos movimentos e alvoroços de Lisboa, e pouco segura em Sacavem onde estava, por ser aldêa fraca e tão perto da cidade, como quer que d'alguns seus fosse aconselhada que o não fizesse, antes que se fosse dentro á cidade; porque era de crêr que sua presença daria ao povo menos ousadia para contra ella seguirem e acabarem o que tinham começado; e que sua ausencia com mostrança de temor causaria o contrairo.Os officiaes de Lisboa vendo esta mudança da Rainhafizeram logo seu ajuntamento, onde Vicente Egas, homem cidadão velho, entendido e de grave representação fez uma falla com largo recontamento, cuja sustancia foi avisar a cidade dos males e perigos que por as mudanças presentes se lhe aparelhavam; e como para terem por cabeça alguma pessoa que por ella os resistisse, lhe era necessario enlegerem e tomarem alferes, apontando logo o capitão Alvaro Vaz d'Almada, que da cidade fôra o derradeiro alferes, como por outros muitos e mui dinos merecimentos e louvores que d'elle com verdade recontou; no que todos consentiram, e por dois cidadãos o enviaram logo chamar,por quanto era fóra da cidade; e em chegando á ribeira, sendo já sabido a determinação sobre que vinha, se ajuntou com elle a mór parte da cidade, e assi acompanhado com grande honra foi levado á Camara, onde por os vereadores com certas cerimonias e largas palavras de grande seu louvor e muita confiança, lhe foi entregue a bandeira da cidade com suas condições; e elle a recebeu com palavras cortezes e discretas, e de grande esforço; porque era cavalleiro que n'este reino e fóra d'elle por esperiencias mostrou que isto e muito mais de louvar havia n'elle, cá em França por sua ardideza e bondades foi feito conde d'Abranxes, e em Inglaterra por sua valentia foi recebido por companheiro da Ordem da Garrotea, de que principes christãos e pessoas de grande merecimento são confrades; e em Portugal por todas estas, e mais por sua linguagem e fidalguia mereceu ser como foi capitão mór do mar.CAPITULO XXXIIAccordo que o povo de Lisboa fez ácerca do RegimentoEstandoo Regimento do reino n'este balanço, mais com mostranças de guerra que de paz, e com signaes mais de perigo que de segurança, os officiaes macanicos de Lisboa com outra gente popular se ajuntaram em S. Domingos da Cidade, onde fizeram escrever e assignaram um acordo, em que por algumas razões que apontaram, e em especial por o perigo e não bom Regimento do reino, declaravam e se affirmavam, «que o Infante D. Pedro fosse seu Regedor e defensor sómente; e que assi promettiam de o requerer nas côrtes; e que o contrairo não consentiriam ou morreriam sobr'isso, se o caso assi requeresse.»A qual cousa sendo logo sabida, como quer que a alguns parecesse determinação de pouco peso e auctoridade, o contrairo pareceu a Pedro Annes Lobato, que por ser muito servidor da Rainha, se foi logo a Alanquer onde estava, e lhe notificou com tristeza aquelle acordo, havendo-o por principio mui contrairo a seu serviço, affirmando que não podia ser sem favor e consentimento dos principaes, e com aquelle acatamento que devia a reprendeu muito da segurança que n'estes feitos sempre tivera, e o pouco cuidado de os remediar nos começos ante d'alguma execução, especialmente estando tão ácerca e tão avisada cada dia dos movimentos que se faziam.E perguntado pela Rainha e pelos do conselho que hi eram, que se faria ou que remedio se dariapara o povo cessar de seu alvoroço, Pedro Annes respondeu «que já não sabia, salvo pedi-lo a Deus.»E finalmente depois de sobre isso praticarem, acordaram que a Rainha escrevesse, como logo escreveu á cidade, e além das razões santas e virtuosas na sua carta logo declaradas, por que deveram ser bem seguros dos receios com que se alteravam, Pedro Annes que era o messegeiro, lhes disse outras muitas mais, a ellas conformes, em que não fallecia siso e prudencia; mas d'isto em fim se fez pouca estima, e responderam a tudo como já endurecidos em sua maginação e porfia.CAPITULO XXXIIIComo a cidade de Lisboa entendeu contra o Arcebispo D. Pedro pelos cubelos da alcaçova que tomouNãoé de duvidar que a Rainha para toda paz, bem, e assessego do reino tivesse sempre mui virtuoso desejo; mas muitas vezes por ventura, por estar assi determinado na providencia divina, os seus sem vontade d'ella damnavam e faziam duvidoso seu proposito; porque estando a cidade de Lisboa em alguma consiração de repouso por o que a Rainha lhe tinha escripto e enviado dizer, o Arcebispo D. Pedro seu primo, que em todo seguiu sua tenção, pousava nos seus paços d'Alcaçova pegados com Sancta Cruz, e porque entre elles e o castello vae um lanço de muro em que está a porta, que se chama de Martim Moniz com alguns cubellos altos, mandou cobrir e abrir para elles uma porta porque se corriam por cima do muro, ficando a porta da cidadeque sahia para fóra sujeita a sua disposição, e da outra parte dos paços contra o bairro dos escolares, tinha dias havia feita uma torre mui alta, forte e fremosa em que se acolhia; e sendo as cousas da Rainha havidas na opinião do povo por tão suspeitas, o Arcebispo além da obra e refazimento que nos cubellos mandara fazer, dizia soltamente palavras ques pareciam ameaças com esforço alheio. E deu aos seus armas além das custumadas, e dizia-lhes de praça taes razões, que os mettia em alvoroço; e elles fallando ousadamente pela cidade, mettiam a outros muitos em outro maior: e com isto não apagavam, mas acendiam mais a suspeita e receios que o povo tinha: a qual cousa sentida pelos officiaes, fizeram sobre isso vereação e acordo; e por dois deputados para isso mandaram requerer em sustancia ao Arcebispo que logo despachasse e leixasse o muro e cubellos, que eram proprios da cidade, de que a tinha forçada. O qual anojando-se de tal recado, como era de aspera condição, e não muito sobjecto a deliberado conselho, respondeu aos messegeiros de maneira que foram d'elle mui descontentes; sobre o qual se tornaram outra vez a juntar em camara, e se alguns com difficuldade o não temperaram, o primeiro acordo era de mór rigor e damno; mas em fim acordaram que os cubellos fossem logo despachados, e fechada a porta que o Arcebispo mandára abrir; do que elle mui anojado, sendo constrangido para o cumprir, se sahiu logo da cidade, e depois para Castella, como ao diante se dirá.CAPITULO XXXIVVinda do Infante D. João á cidadeA cidade de Lisboa, pela confusão e receios em que estava,acordoude enviar o capitão Alvaro Vaz ao Infante D. João, notificar-lhe os feitos como estavam e pedir-lhe por mercê, que para ser sua cabeceira quizesse estar na cidade, porque sua presença lhes era mui necessaria, até que nos feitos se tomasse alguma boa conclusão.Ao Infante prouve muito de o fazer; e se veiu logo a ella e pousou nas casas da Moeda, onde entendida a sustancia do caso, conhecendo que a maior parte da inclinação e vontade do povo e cidadãos, era o Infante D. Pedro reger, louvou muito seu proposito, e os esforçou n'elle.CAPITULO XXXVComo a Rainha escreveu a Lisboa e todo o reino sobre o assessego d'elleA Rainha como foi em Alanquer, logo escreveu a Lisboa, e alli geralmente a todas as cidades, villas e povos do reino, notificando-lhe alguns beneficios e boas obras que já lhes procurara para os obrigar; e assim as causas dos aggravos e sem razões que ácerca do Regimento recebia, para os mover a piedade, descarregando-os com razõas boas, honestas e de razão, dos temores que d'ella tinham ácerca dometer das gentes estrangeiras n'estes reinos, e segurando-os da vingança que lhes faziam crêr que ella d'alguns cruamenta queria tomar; encommendando-lhes e requerendo finalmente, que para as côrtes que se chegavam, cessassem de requerer novidades acerca do Regimento, e quizessem approvar o que El-Rei D. Duarte seu marido leixara, ou ao menos o que nas côrtes de Torres Novas fôra acordado, com alguns protestos fundados em sua boa e virtuosa tenção, mandando que por seu descargo se d'ello se seguissem alguns males e inconvenientes, que suas cartas se registassem nos livros das camaras, e puzessem nos cartorios das religiões: o que se não fez assim; porque na maior parte do reino era o alvoroço tamanho contra a Rainha, que álem de não quererem vêr suas cartas, ainda tratavam os messegeiros d'ellas asperamente, e não como deviam. E porque Gomes Borges que era escrivão da chancelaria d'El-Rei, poz nas portas da Sé a carta que a Rainha enviou a Lisboa, foram os povos sobre elle, e tão indinados, que com difficuldade escapou da morte.CAPITULO XXXVIDeclaração que Lisboa fez de o Infante D. Pedro só reger o ReinoEstando assi as cousas n'esta confusão, o doutor Diogo Affonso Mangancha em que havia letras e ardideza com pouco repouso, e um Lopo Fernandes, tanoeiro de Lisboa, homem velho afazendado, e de que o povo fazia grande cabeceira, estes ou por serem afeiçoados á parte do Infante D. Pedro, ou porlhes parecer razão elle só reger e não a Rainha, ordenaram e praticaram entre si que o doutor fizesse na camara uma publica falla sobre isso, affirmando que todavia era bom, antes das côrtes se fosse possivel, assi se declarar e requerer; e que ao menos no cabo da falla conheceriam nos rostos dos mais suas vontades para seu aviso: e era opinião que d'esto não desprazia ao Infante D. João, pelo favor que dava e gasalhado que fazia a este tanoeiro.E junta a mór parte da cidade na camara, sem geralmente se saber a que fim, o doutor Diogo Affonso propoz sua falla, em que logo com muitas e vivas rasões tocou os erros que havia em o Regimento do reino ser repartido, como fôra em Torres Novas; e assi com determinações do Direito Canonico e Civil, e com auctoridades do Testamento Novo e Velho, e com exemplos d'historias antigas reprovou Regimento publico ser dado a mulher, porque excludio a Rainha; e com outras de não menos rasão e auctoridade provou que devia ser dado a homem barão, em que houvesse as virtudes e calidades que todas achou com verdade no Infante D. Pedro, para o qual concludio que devia ser requerido e forçado para isso, quando por sua vontade o não quizesse acceitar.Acabando o doutor sua falla, foi-lhe por um vereador dadas graças por ella em nome de todos, os quaes encommendaram logo ao capitão que desse sobre o caso sua voz, que a deu com cautellas e fundamentos de homem prudente e mui avisado, em que concludiu mais além, que era grande perigo e aleijão, El-Rei ser mais criado em poder de mulheres; e não menos erro reger a Rainha, não sem muitos merecimentos e grandes louvores d'ella, que tambem apontou para ser sempre servida e acatada; e que o Infante D. Pedro devia reger.Era alli Martim Alho, cidadão honrado, e por ser muito servidor da Rainha quizera dilatar esta conclusão para outro ajuntamento e mais pessoas, parecendo-lhe que se apertava muito em seu d'esserviço; mas Ruy Gomes da Grã, outro si cidadão, e de boa e antiga linhagem, que era presente, com palavras de grande auctoridade e rasão contradisse muito a dilação n'este caso, e louvou a breve conclusão; e depois de muitas praticas e largos apontamentos, elle com os mais approvaram e pozeram em escripto este accordo que se segue.CAPITULO XXXVIIFórma do acordo sobre o RegimentoEmnome de Deus nosso Remidor e Salvador Jesus Christo, e de sua Santissima Madre a Virgem Maria nossa Senhora. Acordâmos em uma voz e acordo, todolos fidalgos, cidadãos, e homens bons da cidade de Lisboa, consirando o trabalho e grande destruição que em todo o reino ha por causa de ter diversos Regedores, entre os quaes sempre era divisão, em grande damno e perda de todo o reino, querendo a cidade remediar a serviço de Deus e d'El-Rei nosso Senhor, como aquella que sobre todas as cousas d'este mundo mui leal e verdadeiramente o ama, todos em uma voz acordamos, e determinamos que n'estas côrtes que ora prazendo a Deus serão feitas, conhecendo nós a grande lealdade e muita prudencia do muito alto e muito excellente Principe e Senhor o Infante D. Pedro, e como é filho legitimo do muito poderoso e virtuoso Rei D. João nosso Senhor,cuja alma Deus haja, e o mais ancião sangue chegado á mui alta e real corôa do muito excellente e poderoso Principe El-Rei D. Affonso nosso Senhor, que elle dito Senhor Infante D. Pedro seja Regedor livremente e in solido n'estes reinos, e até que prazendo a Deus, El-Rei nosso Senhor, que sobre todos mais lealmente amamos, seja em edade para os por si poder reger e deffensar, ao qual tempo o dito Senhor Infante D. Pedro seu leal sangue e vassalo leixará livremente a possessão de seus reinos e senhorio; e lhe entregará a ministração e Regimento d'elles pacificamente, para El-Rei nosso Senhor os governar e reger, como fizeram os mui virtuosos Reis d'onde elle descende; e vindo tal caso, que o Senhor Infante D. Pedro não possa ter o Regimento e governança dos ditos reinos, que por esta fórma e maneira seja dada e a haja o mui leal Principe e Senhor Infante D. Anrique seu irmão; e fallecendo elle, seja por o semelhante dada ao Senhor Infante D. João; e por esta guisa ao Senhor Infante D. Fernando, que Deus de terras de mouros traga com bem e liberdade a estes reinos; e fallecendo todos ante que El-Rei D. Affonso nossoSenhorseja em edade para reger, que então por esta fórma venha o dito Regimento ao conde de Barcellos, e aos condes d'Ourem e d'Arrayollos seus filhos, com todas as clausulas e condições suso escriptas.E assi acordamos e determinamos que a muito alta e muito excellente e muito prezada a Rainha D. Lianor nossa Senhora seja sempre em sua vida honrada e manteuda, acatada e servida em seu alto e real estado; e por esta mui nobre e leal cidade de Lisboa e povo d'ella lhe seja sempre feito tanto serviço, prazer, e mandado, assi como somos teudos e obrigados por bons e leaes vassallos, e por ser madre d'El-Rei nossoSenhor, assi e pela guisa que lh'o sempre fizemos em vida d'El-Rei D. Duarte, seu marido nosso Senhor, cuja alma Deus haja; e muito mais podendo-se fazer.Alguns houve alli e poucos, a que d'este acordo não prouve; em especial a Martim Alho, que sobre algumas palavras que acerca d'esso disse, não lhe conveiu mais esperar; e se foi com sua vida e honra, a que o rumor do povo começava já de ser contrairo.CAPITULO XXXVIIINotificação d'este accordo ao Infante D. João, que o approvouFeitoe assignado este accordo, enviaram logo chamar Vasco Gil, confessor do Infante D. João, ao qual deram o accordo e lhe encommendaram que o mostrasse ao Infante, a cuja prudencia, correição e prazer o sometiam.E mui em breve tornou Vasco Gil com a resposta em que o Infante approvava e louvava seu accordo, não como cousa feita por homens, mas como inspirada n'elles por Deus. E que porém ao outro dia quinta feira fossem ouvir missa com elle a Sancto Spiritu, e que alli lhes responderia.Ao qual dia juntos todos e ouvida a missa, que se disse muito solemne com seus capellães e cantores, o Infante apartou os da cidade sómente e alli resumiu o accordo que fizeram e lhe enviaram mostrar. Onde com palavras de grande equidade lhes aguardeceu a notificação d'elle. E com razões de muita auctoridade o approvou, offerecendo-se a elles.E pois aquella era a verdade, que pospostos os espantos,ameaças e receios que se logo apontaram, promettia de lh'a ajudar a manter e cumprir: pelo qual a cidade assi favorecida em seu proposito fez no outro dia ajuntar no refeitorio de S. Domingos todo o povo, aquelle que pôde caber, onde em pulpito Pedro Anes Sarrabodes notificou em alta voz o accordo passado e a maneira que se n'isso tivera, requerendo a todos que dissessem o que d'elle lhes parecia. Onde logo sem bem se acabar a pregunta um Diogo Pirez, alfayate, bradando respondeu: «que accordo nem parecer ha de ser o nosso, salvo assignarmos todos esse, e fazermos logo vir o Infante D. Pedro, e comece de reger!»Com aquella voz seguiram tantas vozes, que alguma se não ouvia; e com os assignados dos que tinham assignado foram logo outros tantos postos, que não cabiam em um grande quaderno; porque assi trabalhava cada macanico official de poer alli seu nome como se na postura d'elle acrecentasse sua honra e fazenda, e remedeasse de todo a necessidade do reino.CAPITULO XXXIXNotificação do dito accordo á Rainha, que o contrariou, e assi aos Infantes e ao reinoConcordadoe assignado este accordo, a cidade o notificou logo á Rainha com fundamentos e causas justas e honestas, e com palavras do mór acatamento seu, que no caso cabiam. A qual lhes respondeu com uma notavel justificação, desfazendo e anichilando particularmente todalas cousas do acordo, denegando-lhe em todo a auctoridade para talpoderem fazer, sem ajuntamento e concordia dos tres Estados do Reino, encomendando-lhes a revogação do accordo com algumas protestações e cautellas dos damnos, se sobr'isso viessem.Não sómente a cidade de Lisboa notificou este accordo á Rainha, mas logo aos Infantes D. Pedro e D. Anrique, e condes; e assi ás cidades e villas do reino. E o Infante D. Pedro lhes respondeu agardecendo-lhes com palavras mui graciosas seu proposito, eofferecendo-secom outras de muito peso e discrição, aceitar o Regimento e seguir jurar e manter as condições do acordo. No qual isso mesmo as cidades e villas do reino sustancialmente consentiram. E principalmente a cidade do Porto por ter aquello mesmo dias havia determinado.Mas o Infante D. Anrique na resposta que sobr'isso enviou, não mostrou ser do accordo contente, não por erro da sustancia d'elle, mas no modo que tiveram, por tomarem em tal caso a autoridade e poder que aos tres Estados do Reino em côrtes era sómente reservado, conforme ao que a Rainha apontára, concludindo em remeter seu acordo e tenção para as côrtes que se logo esperavam, onde tudo bem visto e consirado se faria o que fosse mais serviço de Deus e d'El-Rei, e bem de seus reinos, amoestando-os finalmente para paz e assessego, poendo-lhes os inconvenientes da divisão. E mais de si mesmo justificando tudo com palavras e razões de tanta autoridade, que bem pareciam dinas de tal Principe. E que sobretudo iria a Coimbra fallar ao Infante D. Pedro, e ao conde de Barcellos seus irmãos, e a conclusão que tomassem lhes faria logo saber.D'esta resposta do Infante D. Anrique não foram os da cidade contentes; e muito menos o Infante D. João que n'ella era presente, o qual tomou cargo deresponder, como respondeu por ella a seu irmão, em que lhe afirmou o acordo se fazer e divulgar com sua autoridade, justificando com vivas razões todolos passos d'elle, tocando mui verdadeiramente para assi ser as necessidades em que o reino estava e danos que recebia por a multidão e divisão dos Regedores; e quanto um era mais necessario e proveitoso, o qual não podia nem devia ser, salvo o Infante D. Pedro seu irmão, por as calidades que n'elle para isso havia, que logo apontou dinas d'outro Regimento maior. Pedindo emfim, que com elle quizesse dizer:—Confirmat hoc Deus, quod operatus est in nobis.—D'este acordo de Lisboa pesou muito ao conde de Barcellos; e comquanto era assaz discreto e avisado, em recebendo a acta da cidade, não pôde dessimullar o desprazer e sentimento que por isso recebia. E não era por singular affeição que tivesse á Rainha, nem por sentir que em ser o Infante D. Pedro Regedor era perda ou damno do reino; mas sómente segundo juizo commum e especiaes, que se depois seguiram, era com respeitos de seu interesse particular; de que porventura lhe dava mais esperança a brandura da Rainha governando, que o rigor e justiça do Infante regendo.CAPITULO XLPartida do Arcebispo D. Pedro fóra do reinoD. Pedro, Arcebispo de Lisboa, era na Alhandra anojado pela privação dos cubellos da cidade, como já disse; onde fallando com um Affonso Martins, ourives, que da cidade sobre cousas de suas rendas fôra com elle negociar, tocouos accordos e movimentos da cidade com palavras de doesto dos cidadãos e povos d'ella; ameaçando-os com cerco poderoso de gentes estrangeiras, e com outros muitos males e deshonras, de que os em pessoa d'aquello logo certificava, e que não tardariam muito, congeiturando de sua confiança e favorecendo sua ameaça em alguns do reino e em outros muitos de fóra d'elle, que eram os infantes d'Aragão e sua valía. A qual cousa o ourives respondeu bem e avisadamente, esforçando se em lhe não parecer direito de sua verdadeira vontade; porque d'elle não era de crêr cousa que tanto contrariava a seu sangue e habito, e na bemfeitoria e mercê que d'El-Rei D. João e de seus reinos tinha recebido.Com o sentimento e juizo que o ourives tomou da tenção do Arcebispo, se tornou á cidade, onde o logo fez saber na camara d'ella. E por isso, e por se provar em uma inquirição que se contra o Arcebispo tirou, que brasfemara do Senhor que o fizera, a cidade com sua cleresia appellaram d'elle e o suspenderam de suas rendas e dinidade; e se enviaram queixar d'elle á Sé Apostolica por um João Lourenço Farinha, cidadão e pessoa de saber e auctoridade, com supplicatorias em nome d'El-Rei e dos Infantes. Pelo qual o Arcebispo se quizera colher a Obidos, e os da villa com sua suspeita o não quizeram n'ella receber.E elle vendo que os feitos se inclinavam já contrairos de seu proposito e desejo, se partiu para Castella, d'onde depois foi retornado como se dirá.A Rainha sendo já certificada da determinação em que o povo estava de lhe tirar o Regimento e da-lo ao Infante, sendo assi aconselhada por aquelles que a serviam, escreveu aos fidalgos que sostinham sua parte que não viessem ás côrtes, e se escusassem como melhor vissem; e enviassem a ella procurações abastantescom suas protestações de não outorgarem nem obedecerem em cousa que se n'ellas accordasse. E elles assi o fizeram, os quaes eram o Arcebispo de Braga, o Priol do Crato, o marechal D. Duarte, senhor de Bragança, D. Duarte de Menezes, Fernão Coutinho, Gonçallo Pereira de Riba-Vizella, Alvaro Pirez de Tavora, Diogo Soarez d'Albergaria, Fernão Soarez, Ruy Vaz Pereira, Luiz Alvares de Sousa, Pero Gomes d'Abreu, Lyonel de Lima, Gomes Freire, Lopo Vaz de Castel-Branco, Martim Affonso de Mello, Diogo Lopes Lobo, Fernão de Sá, João de Gouvêa, D. Sancho de Noronha, e alguns filhos d'estes, e outras algumas pessoas d'outra condição.Mas como quer que estes não viessem ás côrtes, posto que fossem tão grandes pessoas, ellas não se leixaram de fazer, nem elles recusaram obedecer inteiramente ás determinações d'ellas. Que por aquelle tempo, ainda que os fidalgos muito valessem, não era seu valor para contrariar a vontade dos filhos e netos d'El-Rei D. João, com que o reino e todalas cousas d'elle, por amor e razão logo pendiam.CAPITULO XLIComo o castello de Lisboa foi pela cidade tomado e dado ao Infante D. João, e o que se n'isso seguiuD. Affonso, senhor de Cascaes, e D. Fernando seu filho sostinham a parte da Rainha; e porque D. Affonso era alcaide mór de Lisboa, tanto que sentiram as voltas da cidade contrairas a sua tenção se meteram no castello, e com elles alguns fidalgos seus amigos e outra gente de sua criação:e começaram logo de poer n'elle grandes avisos de guardas de dia, e vellas e roldas publicas de noite. E os da cidade vendo tal novidade, e sendo certificados de muitas ameaças e palavras deshonestas que as vellas contra elles diziam, como sentidos d'isso acordaram de ir combater o castello. Mas o Infante D. João por evitar escandalos e damnos que se podiam d'isso seguir, por então os impediu; e tomou o cargo de assessegar se podesse esta alteração, por meio de D. Maria de Vasconcellos, mulher de D. Affonso, a qual por consentimento, e com seguridade do povo lhe veiu fallar ás casas da Moeda. Onde o Infante com palavras mui honestas e virtuosas lhe apontou, que por assessego de tantos alvoroços e uniões, quantos na cidade via contra seu marido e filho, fizesse com elles que lhe entregassem o castello, ou consentissem por sua segurança, que o Infante pousasse dentro, e elles tivessem suas forças e menagem.D. Maria com este recado se veiu ao castello, e depois de sobre tudo haverem suas praticas e conselhos, ella tornou ao Infante com resposta e determinação de seu regimento. A qual brevemente foi elles não entregarem o castello, nem receberem outrem n'elle, nem se sahirem d'elle.Verdade é que o pae logo consentira em alguns dos meios apontados; mas o filho por ser mancebo, em que o sangue e pontos de honra ferviam, o houve por abatimento e o estorvou, especialmente porque havia o partido da Rainha que seguiam, por mais esforçado que o do Infante D. Pedro que contrariavam; e juntamente com isto D. Maria disse ao Infante D. João:«Senhor, se vossa mercê tanto desejo tem d'haver este castello, não sei porque o não tem d'haver tambem quantos outros ha no reino; pois está em vossamão, e o podeis fazer, e para certidão d'isto a Rainha minha Senhora vos envia por mim dizer, que ella é tão magoada das sem razões que o Infante D. Pedro contra ella tem feitas, e cada dia ordena, que antes se despoeria a todolos trabalhos e perigos do mundo, que consentir ser elle Regedor d'estes reinos. E que para verdes que o não faz por ella desejar para si o regimento, é mui contente que o hajaes vós. E para isso renunciará o direito que n'elle tem; pois sabeis que é todo o que de razão e justiça se requere. E mais lhe praz que El-Rei nosso Senhor seu filho case com D. Isabel vossa filha: e que d'aqui em diante vos terá em lugar de padre, para por este respeito e assi por ser já mulher d'El-Rei vosso irmão, que vos tanto amou, olhardes por ella e por suas cousas».O Infante sorrindo-se das derradeiras palavras de D. Maria lhe disse:«D. Maria, porque vos responda segundo logo começastes, a mim pesa de vosso marido e filho não consentirem em alguma das cousas que lhe por vós enviei apontar; Deus sabe que eu o fazia por seu bem; se lhes d'isso sobrevier algum mal pesar-me-ha; mas eu sem cargo. E quanto das outras cousas que da parte da Senhora Rainha me dissestes, dizei a sua Senhoria que nunca Deus queira nem quererá que entre os filhos d'El-Rei D. João, que nas mocidades em tanto amor e concordia se criaram, seja agora semeada tal cizania, porque se desamem e desconcertem; eu haveria temor de Deus e vergonha do mundo, não digo acceitar, mas sómente lembrar-me d'acceitar o Regimento do reino, em que tivesse dois irmãos mais velhos, e taes para isso, como são o Infante D. Pedro, e o InfanteD. Anrique. E quanto ao casamento d'El-Rei meu Senhor com minha filha não sendo o caso como é, certo seria a maior honra e o móracrecentamento que eu poderia desejar. De uma cousa sede bem certa, que com melhor vontade e menos sentimento meu soffreria ve-la no mundo em uma publica dissolução, que Deus não queira, que casa-la por tal maneira, contra a honra e vontade do Infante meuirmão, que me tem e eu lhe tenho mui verdadeiro amor. Cá não sómente erraria a elle, por ter já n'isso entendido e ser cousa mui razoada, mas ainda desobedeceria á alma e mandado d'El-Rei meu Senhor e irmão que Deus haja. Cuja vontade, assi na vida como na morte, sabeis que foi este casamento d'El-Rei nosso Senhor seu filho, com a filha do Infante meu irmão se fazer em toda maneira. E por isso esta é a razão que se faça, e não se deve contrariar. Mas vós dizei á Senhora Rainha, que sem isto que me por vós manda cometer, me tem sua mercê por fiel e certo seu servidor, e lhe peço por mercê que queira viver como é razão, e não curar de cousas que a ella nem ao reino não cumprem. E vós por seu bem e assessego, e com vossa discrição assi lh'o deveis d'aconselhar».E com isto a despediu.Os da cidade vendo a contumacia e ousadia de D. Affonso, receosos de poder ser com algum fundamento que a elles podesse ao diante trazer damno e perigo, por accordo geral que sobr'isso houveram, foram cercar o castello e o vallaram d'arredor, e lhe pozeram estancias e guardas para que de noite nem de dia não entrasse nem sahisse d'elle alguma pessoa, nem os de dentropodessemreceber soccorro, aviso, nem mantimentos.E porque D. Affonso e seu filho com sua gente entráram no castello de subito, sem percebimento de mantimentos, vendo se apertados da necessidade e perigo, e frouxos de esperança de remedio, leixou o castelloao Infante D. João com algumas seguranças que requereu, e se foi para a Rainha.CAPITULO XLII
Como a Rainha mandou secretamente preceber os de sua valia que viessem ás côrtes armados
Como o Infante D. Pedro e o Infante D. João sobre estas cousas se tornáram a vêr, e o que acordáram
Como o Infante D. Pedro avisou e percebeu o reino sobre os alvoroços que se ordenavam
Como se o Infante D. Pedro despediu da Rainha, e da falla que como descontente lhe fez
Como a Rainha com El-Rei e seus filhos se foi a Alanquer, e do que se seguiu em Lisboa
Accordo que o povo de Lisboa fez ácerca do Regimento
Como a cidade de Lisboa entendeu contra o Arcebispo D. Pedro pelos cubelos da alcaçova que tomou
Vinda do Infante D. João á cidade
Como a Rainha escreveu a Lisboa e todo o reino sobre o assessego d'elle
Declaração que Lisboa fez de o Infante D. Pedro só reger o Reino
Fórma do acordo sobre o Regimento
Notificação d'este accordo ao Infante D. João, que o approvou
Notificação do dito accordo á Rainha, que o contrariou, e assi aos Infantes e ao reino
Partida do Arcebispo D. Pedro fóra do reino
Como o castello de Lisboa foi pela cidade tomado e dado ao Infante D. João, e o que se n'isso seguiu