Como El-Rei D. Affonso Anriques fazendo tregoa com os Mouros de Santarem mandou lá a D. Mem Moniz a espiar a Villa, e do conselho que teve com os seus para ir sobre ella.
Duvidoso El-Rei D. Affonso Anriques nesta maneira de poder tomar a nobre Villa de Santarem, assi pelas duvidas que punham esses com que falava, como pela grande deficuldade que desse mesmo feito parecia, com todo seu grande animo, que sempre em Deos esperava, e a nhumas deficuldades se rendia, determinou toda via de trabalhar sobre esso, e fazendo treguas com os Mouros, por certo tempo, mandou D. Mem Moniz sabedor de todo este negocio, e conselho lá, para que visse, por qual parte, se podia a Villa furtar, e entrar mais descançado, e seguramente, o qual indo lá, e assentando a tregua espiou todo mui bem, como homem mui avizado, e de grande engenho, e esforço que era, e da tornada falou com El-Rei em segredo fazendo-lhe o caso possivel, prometendo-lhe que elle seria o que fosse diante, e dos primeiros que no lugar entrassem, e poria a sua bandeira sobre o muro, e quebraria as fechaduras das portas, e assi o fez depois, porque era tão bom Cavalleiro, de sua pessoa, e para tanto, que para servir El-Rei, e cumprir sua Cavallaria, todalas cousas lhe pareciam mui ligeiras, e seguras de perigo.
El-Rei foi mui ledo com seu recado, e esforço, porque entendia, fazendo-se como D. Mem Moniz dizia, a Villa poderia tomar, não sendo primeiro descuberto, e tanto lhe pareceo que cumpria ser feito com grande segredo, que não quiz falar esta cousa aos de seu Conselho, em seu Paço, receando-se de poder ser em algum modo ouvido, antes foi um dia a folgar ao campo chamado Arnado, e alli apartou D. Lourenço Viegas, e D. Gonçalo de Souza, e D. Pero Paes seu Alferes, e outros, e contou-lhes todo seu intento, e proposito do que queria fazer, mandou-lhes que o tivessem em mui grande segredo sobpena de morte, em tal guiza, que ninguem o podesse entender, em quanto alli estivessem, nem á partida, e o conselho acabado, tornou-se El-Rei para o Paço, e vindo pela rua da figueira velha chegando á Praça disse uma velha regateira contra as outras: «Quereis vós saber, o que El-Rei com aquelles seus companheiros falou» disseram ellas: «Que falou?» Falou disse ella, «como fossem furtar Santarem». El-Rei que passando ouvio tudo, e vendo todos aquelles com que falara esta cousa ir comsigo diante sem nunca se apartarem delle, foi assi maravilhando-se até o Paço, e como descavalgou chamou os todos, e disse-lhes: «Não atentastes no que disse aquella velha, certo se algum de vós se apartára de mim, eu cuidava que fora descuberto por elle, e lhe mandara por ello cortar a cabeça, sem o merecer».
Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua gente para ir tomar Santarem, e do voto que fez no caminho a S. Bernaldo, o qual naquella hora lhe foi revelado lá em França, onde estava.
Depois desto fez El-Rei prestes sómente os seus continuos de sua caza, e alguns poucos de Coimbra, com Gonçalo Gonçalves, e assi mantimentos que lhes abastassem, e ante que partisse foi-se ao Moesteiro de Santa Cruz a falar com aquelle devoto homem Prior do Moesteiro em que elle tinha grande e singular devação, e encomendou-lhe sua alma, e seu estado, assi como houvesse de partir deste mundo, dizendo-lhe todo o que tinha ordenado para ir fazer, e quando havia de ser, encomendando-lhe muito afincadamente que naquelle dia com seus amigos rogasse a Deos de vontade que o quizesse ajudar naquelle feito a que iam por seu serviço, e que esta couza tivesse em grande segredo. Então se partio El-Rei uma segunda feira não sabendo ninguem para onde iam; salvo aquelles a que o comunicara, e levaram o caminho tão revessado, e encuberto que os Mouros não houveram novas delles, e vieram aquelle dia poer as tendas em Alfasar, esta foi a sua primeira jornada, ao seguinte dia partiram, e foram dormir a Codornolos, e dali mandou El-Rei a Martim Mohaz que fosse dizer aos Mouros de Santarem que elle levantava a tregua da li em diante, e que a paz dantre si, e elles, fosse quebrada até tres dias, que segundo costume daquelle tempo, cada um podia engeitar a tregua a seu imigo quando lhe aprovesse, com tanto que lho fizesse primeiro saber. Martim Mohaz foi, e depois de comprir o mandado que levava, tornou á quarta feira a Aldeguas, onde El-Rei estava, o qual partio da li, e indo pela serra Dalvardos acertou-se que D. Pedro irmão bastardo del-Rei, que fora já em França, ia falando com elle dos muitos milagres, que naquella terra Deos fazia pelo Abbade S. Bernaldo que então era vivo, e como lhe Deos outorgava toda couza que lhe pedia.
Então El-Rei movido a devação pelas couzas que lhe seu irmão assi contava, disse: «Eu á honra, e louvor de Deos, prometo que se me elle Santarem quizer dar, por sua piedade, e pelos rogos do Bemaventurado S. Bernaldo, que vós dizeis, e eu lhe dê toda esta terra para a sua Ordem quanta vejo daqui até o mar, e que faça um Moesteiro em que Frades da sua Ordem vivam a serviço de Deos, e porque ella seja mais acrecentada». E segundo conta a Lenda de S. Bernaldo, tanto que El-Rei fez este voto, logo lhe a elle foi revelado lá em França, onde estava esta promessa del-Rei, e como havia de tomar Santarem aos Mouros, e em como aquelle Moesteiro que El-Rei prometera de fazer seria mui nobre, e abastado de todalas couzas, segundo depois foi, e é agora um dos grandes, e ricos Moesteiros da sua Ordem que ha na Christandade.
Tanto que o Abbade S. Bernaldo assi houve esta revelação mandou logo tanger a Cabido, e todos os Monges juntos, lhes contou o que lhe fora revelado, então todos cantando: «Te Deum Laudamus», foram á Egreja dar graças a Deos, e mandáram logo partir certos Monges para Portugal com livros da sua regra, e ordenança, e os que quizessem, viessem para alli, os quaes em se começando a obra do Moesteiro, vieram hi ter, e tomaram posse pela ordem da Doação que lhe El-Rei fizera, começando hi de viver, segundo sua Regra com muito acrecentamento, o qual a N. Senhor aprouve que fosse sempre depois, e agora neste tempo.
Como El-Rei D. Affonso Anriques descubrio aos seus que iam sobre Santarem, e das rezões que disse a todos.
Na serra Dalvados, que acima dissemos, esteve El-Rei a quinta feira até noite, e dahi abalaram ao serão andando toda a noite, até a mata que está sobre Pernes, onde chegaram sexta feira amanhecente, então concirou El-Rei que era bem descobrir a todos seu desejo, e ao que iam, e fez-lhe uma falla nesta maneira: «Meus bons Cavalleiros, e amigos, mais verdadeiramente, que a outros nhuns se ha de chamar, bem sabeis quantos trabalhos, e fadigas comigo, e sem mi padecestes por azo desta Villa de que ácerca estamos, e quanta guerra, e males tem feitos á nossa Cidade de Coimbra, e a todo meu Reino por muito tempo, pelo qual detreminei de a vir com vosco escalar, e tomar, como em Deos espero, e ainda que parece necessario chamar mais gente para esso, e seja certo que me viera de mui boa vontade, porém não quiz, nem escolhi mais que vós soes, em que sempre puz, e ponho meus conselhos, e fadigas, e cuja lealdade, e valentia, em muitos perigos meus conhecida me deu sempre de vós, tal, e tão firme confiança, que com a graça de Deos, ei já por feito o que vimos a fazer, alem desto vejo em vossos gestos, e continencias não menos sentirdes, e dezejardes, esta couza que eu mesmo, o que me cauza tanto prazer, que já me não parece termos nisto mais pejo, que a detença deste dia, que passe azinha, para com a graça de N. Senhor nos irmos a noite seguinte apossentar dentro na Villa, e o que tenho cuidado para se esto mais ligeiramente fazer, escolham-se cento e vinte de nós, para dez esquadras partidos a cada uma doze, que logo no primeiro sobir, se achem não menos de dez sobre o muro, e assi se dobre cada vez o conto da gente.
Os primeiros que sobirem alevantem logo minha bandeira, para esforço dos nossos, e esmaio dos imigos se espertarem do sono, e a poz esto quebrai as fechaduras das portas, e assi a volta, e estrondo, dos que pela porta entrarem, ajuntados com os de dentro esmaiarão mais os imigos, em cuja matança de homens sahidos do sono, uns, e desarmados, bem vedes quam pouco ha de fazer. Vós a nhuma pessoa não perdoeis, nem deis vida, nem a homem, nem a mulher, moço, nem velho, de qualquer idade, e qualidade, todos andem á espada, e esto fazei com grande e trigozo esforço, que Deos será ahi em nossa ajuda, para cada um de nós matar cento delles, e hoje, e á menhã fazem por nós oração geral o Prior, e todos os Conegos do Moesteiro de Santa Cruz, a que eu ante que partisse notifiquei o que vinhamos fazer, e assi tambem a Cleresia, com todo o povo, e por que lhes disse que tinha trato, e intelligencia na Villa, para nos dentro receberem, me perdoe Deos esta mentira, que ácinte lhe disse, porque lhe esforçasse os corações, e vontades; assi meus amigos vos esforçai, e peleijai como sempre fizestes, lembrando-vos o que fazeis por Deos, por mi, e por vós, por vossos filhos, e netos, hi serei eu, e me verei com vosco, que não póde haver afronta, nem perigo, que a viver, e morrer me aparte de vós, como vejo que fareis por mi».
Ouviram todos a El-Rei, mui promptos, e animados, em seus corações, para ouzarem, e cometerem todo o que lhes falou, mas consirando elles antre si, a grande ardideza del-Rei, e o muito perigo a que se queria poer, apartaram-se com elle, e disseram. «Senhor vossa pessoa, não irá com nosco, que se formos vencidos, nossos imigos não haverão tanto louvor, nem que morramos delles, ou todos, não é muito de curar, salva vossa pessoa, e tirada de semelhante risco, cuja perda que Deos defenda seria perder-se Portugal, e leixando-vos nòs entrar em tamanho perigo, seria nossa linhagem sempre desdita, e prasmada, como filhos de tredores, que tendo tal Rei consentiram perde-lo». El-Rei respeitando o que lhe assi diziam, a muito amor respondeo-lhes com outro tanto, estas palavras: «Oh amigos, rogo a Deos se este anno, eu hei de viver sem vós tais Cavalleiros tomardes esta Villa de Santarem, a elle praza que antes eu desta vez em ella morra».
Como El-Rei D. Affonso Anriques chegou de noite aos Olivaes de Santarem, e dos sinais que pareceram.
Passado assi esto com outras muitas palavras, e praticas sobre o caso, aparelharam todo o que fazia mister, para tal obra, e leixando alli as tendas, e todo o al que traziam, cavalgaram em seus cavallos, e chegaram aos olivaes de Santarem, de noite. Esto era em vespora de S. Miguel de Maio sete dias andado do mez, na era de mil cento e quorenta e sete annos, (1147) e chegados alli viram um sinal, que lhes esforçou muito mais os corações; viram uma estrella grande ardente com grande raio correndo pelo Ceo, da parte da Serra, que alumiava a terra, e foi ferir no mar. Vendo esto disseram logo todos.Senhor Deos todo poderoso a Villa é em vossas mãos. Esso mesmo no dia que El-Rei mandou notificar aos Mouros o britamento das treguas, que acima dissemos aos da Villa, appareceo outro sinal mui espantoso pronostico de sua mortindade, que foi na terceira noite seguinte, viram no Ceo a horas do meio dia semelhança de um Touro ir por meio do Ceo, levando chamas de fogo acezas, desde o cabo até á cabeça. O que esses mais sabedores antre os Mouros, intrepetáram que Santarem haveria cedo Rei novo, e seria o filho del-Rei de Sevilha Mouro, cujo Santarem, e Lisboa, e parte da Estremadura era.
Sendo já El-Rei com os seos perto da Villa, lançaram-se em um valle encuberto, e escuso, tão acerca do lugar, que ouviam falar as velas do muro, quando bradavam uns aos outros, e estiveram alli toda a noite, com os cavallos pelas redeas, vigiando com grande cuidado, do que ao dia seguinte esperavam de fazer, sem os Mouros delles haverem nhum sentimento.
Em esta noite, e o dia seguinte o Prior de Santa Cruz de Coimbra, com grande devação ocupado em rogar a Deos por El-Rei, mandou fazer aos seus Conigos orações publicas, e particulares, e elle em seu orar mui devotamente dizia: «Senhor Deos todo poderoso, que sem combate, nem força humana fizeste cair os muros de Jericó, e a rogo, e voz de Jezoé, mandaste estar quedo o Sol de seu curço contra Guabaão, pesso á tua infinda bondade, que segundo tua grande misericordia queiras dar vitoria a El-Rei D. Affonso afadigado por te servir, dando-lhe Sol, e sombra que ajude sua tenção, e todo o azo como tome a Villa, que vai ganhar, para teu serviço, e livrar dos imigos que a tem com doesto de tua santa Fé, e por tal que a çuja seita de Mafamede seja lançada fóra della, e o teu santo nome seja sempre hi louvado.
Como El-Rei D. Affonso Anriques e os seus escalaram a Villa de Santarem, e foi entrada, e tomada.
Desque veio a madrugada sobre o quarto dalva, quando elles entenderam que as velas estavam mais sosegadas, e sonorentas, e os da Villa mais desegurados, e entregues ao sono, partiram donde estavam, leixando naquelle valle os pajes com os cavallos, e tomaram o somideiro antre Motiraz, e a fonte Datamarma, a qual assi chamam em Arabigo, pelas aguas della, que são doces, e foram assi pelo meio do Vale, indo diante D. Mem Moniz que sabia bem as entradas, e saidas, e El-Rei mais atraz, e posto que por onde levaram tenção de escalar, achassem o contrario do que cuidavam, porém Deos a cujo poder não póde haver contrario, lhe tornou em bem este impedimento, por mostrar assi seu poder e ajuda, que no lugar porque haviam de entrar, e sobir, tinham por certo não haver ahi nhuma guarda, e acharam estar duas velas, postas em um cadafalço, feito de novo, que se espertavam um ao outro; e nisto, a rolda que andava pelo muro requerendo ás velas, chegou por hi, e falou-lhe, e os Christãos leixáram-se estar quedos, em um pão, que hi estava, até lhes parecer que as velas poderiam adormecer.
E ao cabo de pouco abalou D. Mem Moniz trigozo com os seus pelo infesto, e foi por cima da caza de um oleiro, ao muro a poer a escada, em uma aste a fundo, e deu no telhado fazendo grande som; do que D. Mendo havendo grande pezar de pela ventura, espertarem as velas amergeu-se, e de hi a pouco fez assentar curvo, um mancebo, e por cima delle poz a escada mais entregue no muro por onde tanto que acima sobio logo levantou a bandeira del-Rei, que levava; subiram dous com elle, e não sendo ainda mais de tres sobre o muro, não leixaram as velas de acordar, e senti-los, e falou um delles com voz rouca, e dormente, como desvelado, e tresnoitado, e disse:Menhuque quer dizer,quem anda ahi. Respondeo então D. Mendo por Aravia, que era dos da rolda, e tornava por lhe dizer cousas que compriam, que decesse abaixo; o Mouro tanto que deceo foi D. Mendo mui prestes a mata-lo, e cortou-lhe a cabeça, e deitou-a aos de fóra, para mais seu esforço, e seguro, e nesto a outra vela quando ouvio, e conheceo que eram Christãos, e não sendo ainda em cima do muro, mais que dez dos nossos, chegaram os da rolda correndo aos brados da vela que ouviram, e encontrando-se com os Christãos, vieram ás cutiladas bravamente os nossos por darem começo, e entrada ao porque iam, e os Mouros pola tolher, antes que o mal mais crecesse.
D. Mendo nesta afronta bradou chamando em ajuda Santiago Patrão de Espanha; e El-Rei tambem do pé do muro, altas vozes acodio: «Santa Maria Virgem Bemaventurada, e glorioso Apostolo Santiago acorre-nos». Bradando aos seus, que eram em cima do muro. «Matai-os: andem á espada todos, que não fique nhum», e os que sobiram, apartaram-se logo pelo muro, em duas partes peleijando cada uma com os Mouros que vinham.
Era já tamanha a volta, e arroido de ambas partes que se não podiam entender, El-Rei disse então aos seus mui apressado: «Façamos ajuda aos nossos, e tenhamo-nos á parte dextra se podermos sobir alfam, e Gonçalo Gonçalves com os seus a seextra, que filhe primeiro o caminho que do ceicego, que não possam os Mouros vir por lá, e tomar primeiro a entrada da porta, e assi atalhados se percam os nossos dentro á nossa mingua, e deshonra». Mas o Senhor Deos, que ajuda as obras de seu serviço lhes mudou em melhor, e mais seguro sua tenção, e fadiga, que onde se trabalhavam de entrar pelo muro, entraram pela porta, e de dez escadas que fizeram, duas sós abastaram para tudo, porque sobiram até vinte e cinco, os quaes correram mui prestes a quebrar as portas com um machado que lhes fora dado de fora, e britadas as fechaduras, e ambudes entrou El-Rei a pé com os seus, e poendo os giolhos em terra, antre as portas, com grande prazer, se encomendou, e deu muitas graças a Deos.
Os Mouros acodiram todos alli peleijando mui rijamente, e vendo já dentro comsigo tanta gente desesperando de se poder alli ter, acolheram-se os mais delles a Alfam, mas pelo despercebimento em que se acharam foram logo entrados, e mui muitos delles homens, e molheres, e moços trazidos á espada de que foi o sangue tanto pelas ruas, que parecia serem alli mortos grande multidão de gados. Todos os que escaparam de não serem mortos na peleija, foram cativos com grandes, e ricos despojos que na Villa se acharam. Foram hi antre outros cativos, tres Cavalleiros principaes mui ricos de que El Rei houve fazenda de grande valia. Para o escalamento desta Villa foram escolhidos, primeiramente D. Mem Moniz Guarda mór del-Rei, e delle mui querido, filho de D. Egas Moniz, e D. Pedro Affonso irmão del-Rei bastardo, e D. Lourenço Viegas, e D. Pero Paes seu Alferes, e D. Gonçalo de Souza, e outros nobres homens.
Como Auzary Alcaide de Santarem, tomada a Villa, fugio para Sevilha, e El-Rei se tornou a Coimbra e donde se chamou a Villa Santarem.
Entrada, e tomada assi a Villa de Santarem, Auzary Alcaide mór della, escapou fugindo, com tres de cavallo consigo caminho de Sevilha, quanto mais pôde. Estava El Rei Mouro de Sevilha sobre a Torre do ouro chamada, e quando Auzary assomou vendo-o El-Rei vir, veio-lhe por sentido, segundo muitas vezes o coração sente dante mão, e advinha as cousas, que seria aquelle Auzary, e disse-o alli aos que com elle estavam; elles mostráram não cair em couza de tão longe enxergada, e tambem por desviar El-Rei do sentido de más novas antecipado; e disse então El-Rei: «Se aquelle que vem é Auzary, e chegando a aquelle porto derem agua aos cavallos: Santarem é tomado; e se não derem de beber, Santarem é cercado, e vem Auzary a gram pressa a demandar soccorro». Os de cavallo chegando ao porto deram agua de seu vagar, El-Rei carregou-se mais de sua prognostica, e chegando Auzary, contou-lhe como se tomára a Villa, e da grande mortindade que se nella fizera de que El-Rei de Sevilha, e todos os Mouros houveram grande pezar, não só pela perda desta Villa, mas de outras a que a perda desta dava cauza forçada.
El-Rei D. Affonso desque tomou a Villa, poz nella seu Alcaide, leixando-a abastecida como compria, e tornou-se para Coimbra com muito prazer, onde contando á Rainha sua molher, e a outros muitos como lhe acontecera na tomada de Santarem, disse estas palavras: «Dou a Deos dos Ceos muitos louvores, ante cujos olhos todalas couzas são sabidas, e conhecidos; que não tenho agora a grande maravilha, serem pelo seu poder em outro tempo os muros de Jericó, como se lê derribados, nem estar quedo o Sol por rogo de Josué um dia todo, em comparação da piedade, e misericordia que lhe aprouve fazer comigo, em me dar um tão forte lugar tomado com tão pouca gente, pelo qual glorifico o seu Santo nome, e suas maravilhosas obras, as quaes renovando em nossos dias elle, quiz mostrar neste feito, tanto sobre poder humano, que qaando me eu vi ante as portas da Villa abertas, poendo meus giolhos em terra com muita devação, e prazer de minha alma, orei a elle palavras que me elle naquella hora, como todo o al, então deu no esprito quejandas agora não saberia dizer: mas dos ousados esforços, e cometimentos, que se na tomada da Villa fizeram, digam-no os que se alli acharam, porque não é em mi dize-lo». Esta Villa se chamava antigamente Cabilycrasto, e depois da morte de Santa Eyrea, lhe pozeram os Christãos nome de Santarem, que vem de Santa Eyrea Martyre que a ella veio ter.
Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a tomou, e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda.
Depois de tomado Santarem se foi El-Rei D. Affonso para Coimbra como se disse, e não para descançar, nem repousar seu coração, que nunca cessava de buscar afrontas, e louvadas impresas, em que Deos fosse servido, mas para o melhor ordenar, como em fresco, se milhor aproveitasse do vencimento, e tomada de Santarem, sabendo que nas guerras fama de uma vitoria aproveitada com tempo dá azo a muitas, pelo qual ajuntou logo seu poder para conquistar os lugares que ficavam na Estremadura de Santarem até o mar, em especial a Cidade de Lisboa, a qual tomou no modo que se segue.
Chegando El-Rei a terra onde Lisboa está situada, pareceo-lhe milhor guerrear, e tomar as fortalezas ao redor della ante de cercar a Cidade por tal que quando viesse o cerco tivessem os seus menos trabalho nas forragens, e se podessem os seus mais ligeiramente sem outras guardas estender pela terra, e alli tomou logo o Castello de Mafora, e deu-o a D. Fernão Monteiro, o primeiro Mestre de Aviz que houve em Portugal, e apoz esto foi logo cercar Sintra, e tomou-a, mas se foi por força, se por preitesia não o achamos escrito, e sendo assi tomada, appareceo no mar uma frota de cento e oitenta velas, de gentes, que naquelle tempo moveram de Alemanha, e de Inglaterra, e de França, para guerrear os infieis por serviço de Deos, e vindo assi todos de mar em fóra demandar terra á rocha de Sintra.
Estava El-Rei D. Affonso em cima do Castello, e seus principaes que com elle eram, e maravilhando-se do ajuntamento, e navegação de tão grande frota, mandou logo quatro Cavalleiros, a saber que gentes eram, e a causa de sua vinda, os quaes chegando a Cascaes já a frota toda pousava, vieram então a fallar, e preguntar-lhes que gentes eram? Elles responderam, que eram Christãos partidos de suas terras para virem guerrear por serviço de Deos os Mouros imigos de sua santa Fé. Nesta frota vinham muitos Condes, e outros grandes Senhores, mas a escritura não falla de seus nomes, mais que de quatro, um por nome Mossem Guilhem de longa espada, Conde de Lincoll de que se diz ser em seu tempo havido pelo milhor Cavalleiro, que sabiam em toda a Inglaterra, nem França, ao outro chamavam Childe Rolym, ao outro D. Liberche, ao outro D. Ligel.
Sabendo El-Rei pelos que lá mandára como eram Christãos, e da tenção que traziam para servir a Deos, foi desso mui ledo, e bem se lhe poz no sentido que Deos fizera mover aquella gente, e aportar em sua terra, por lhe fazer tanta mercê, que a Cidade de Lisboa fosse tomada, e deu-lhe por ello em seu coração muitos louvores, pelo qual lhes enviou mensageiros, porque lhes mandou dizer como elle soubera os bons movimentos, e tenção de suas boas vontades, que traziam para servir a Deos, e que fossem bem certos que não sem misterio seu, e vontade, elles eram alli aportados trazendo-os N. Senhor a tal logar, onde o bem podiam servir, e comprir seus desejos, e devação, e não menos accrescentar suas honras para esse mundo, porque de alli donde elles estavam pouzados não mais de cinco leguas, estava uma cidade de Mouros mui guerreira das principaes de Espanha, de que por mar, e por terra se fazia muita guerra, e dano aos Christãos, a qual tinha mui fermoso porto, em que suas Náos, e muitas mais podiam mui seguramente estar ancoradas, e elles haver muitos mantimentos em abastança, e pois ao Senhor Deos aprouvera sem irem trabalhar mais longe, traze-los tão perto de tamanho azo, e oportunidade para o que vinham buscar, não leixassem esta empresa por Deos tão querida, e mostrada por outra nhuma creatura, e que elle como Rei que era da terra os ajudaria a esso com todas suas forças, como elles bem veriam.
Andaram assim estes recados de uma parte, e da outra, até que vieram concertar de irem juntamente todos cercar a Cidade, á condição que sendo tomada, ametade fosse del-Rei, e a outra metade dos Estrangeiros, e assim logo El-Rei por terra, e a frota por mar foram poer cerco a Lisboa; El-Rei acentou seu arrayal da parte do Oriente, onde agora está o Moesteiro de S. Vicente de Fóra, e os Inglezes, e outras gentes tomaram a parte do Ponente, onde ora são os Martyres. Durou o cerco perto de cinco mezes, por a Cidade ser mui forte, de sitio, e cerca, e estarem dentro muitos Mouros, que a mui bem defendiam; fizeram-se neste cerco grandes escaramuças, e fortes combates, em que se matavam muitos Cavalleiros de uma parte, e da outra. Cada um arrayal dos Christãos, edeficou sua Egreja em que enterrassem os que alli morriam, e El-Rei D. Affonso fez a sua, onde depois foi edeficado o Moesteiro de S. Vicente á honra do Martyre S. Vicente, e os Estrangeiros edeficaram outra que ora é chamada Santa Maria dos Martyres. Estas Egrejas estão agora dentro dos muros da Cidade, desque a cercou El-Rei D. Fernando o noveno Rei de Portugal, como se adiante dirá, porque quando Lisboa esta vez foi tomada a Mouros, não era sua cerca maior, que quanto se ora vê, e chama cerca velha.
Quando veio em dia dos Martyres S. Chrispino, e Chrispiniano, que é aos vinte e cinco dias do mez de Outubro, andando a era do Senhor em mil cento quorenta e sete annos, (1147) foi a Cidade mui rijamente, e com grande determinação combatida, dando o Senhor Deos tanta graça aos Christãos, que seu esforço, e gram devação de peleijar por seu serviço, passava pelas muitas feridas, e mortes, e todas outras grandes difficuldades, e perigos do combate, havendo elles todo por menos, pelo grande pezar que tinham em lhe parecer que todo seu trabalho seria debalde, e Deos não servido, se a Cidade se não tomasse, e assi com este fervor, e mui animosa determinação, poendo em fim o que os seus devotos corações tanto desejavam, entraram a Cidade por força.
Entrou-se principalmente por a porta que ora chamam de Alfama, e de hi pelas outras portas, e depois de entrada foi dentro a peleija muito mais fera, que janda soe antre irados vencedores, e vencidos, desesperados, peleijando já os Mouros com estremada desesperação, e vontade de querer antes morrer antre as mortes de suas molheres, e perdimento de filhos, paes, parentes, e amigos, e assi os Christãos não com menos indinação por infieis entrados, e vencidos querendo ainda mais deter, e daninficar seu vencimento, nem se querendo dar por vencidos, por tanto foi tão grande a mortindade delles, e sobejo o conto dos que foram mortos, e trazidos a ferro, que é escuzado cuidar quão poucos ficáram.
Do que El Rei D. Affonso Anriques fez depois de entrada a Cidade de Lisboa, e tomada, e do que falou, e passou com as gentes Estrangeiras.
Oesque a Cidade de Lisboa assi foi tomada por El-Rei D. Affonso Anriques, e aquelles Estrangeiros, com elle ajuntou logo El-Rei todos, e com grande procissão se foram á Mesquita onde ora está a Sé edeficada, e depois de limpa, e mundificada das abominaveis ceremonias que hi eram feitas da seita de Mafamede, os Clerigos, e Bispos revestidos, segundo sua ordem, comTe Deum laudamus, entraram nella, e assi foi consagrada, e instituida á honra e louvor da Virgem Maria, celebrando logo em ella os officios Divinos, nomeando-a por Sé Cathedral, se ao Santo Padre aprouvesse. Feito esto mandou El-Rei logo chamar Mossem Guilhem de longa espada, Childe Rolim, e D. Liberche, e D. Ligell, e outros Capitães, grandes, que eram na companhia dos Estrangeiros, e disse-lhes. «Amigos bem sabeis como concertámos se nos Deos desse a Cidade que a partissemos por meio, e pois a elle por sua piedade aprouve de a tomarmos, muitos louvores, e graças lhe sejam dadas, vós escolhei, e tomai Cavalleiros, e eu darei outros que vão partir a Cidade, e assi todalas cousas que dentro, e fóra della houver, e forem achadas.»
Vendo esto aquelles Capitães, e gentes Estrangeiras tiveram a grande bem o que El Rei dizia, e responderam-lhe que haveriam sobre ello concelho, e lhe tornariam reposta. O concelho, e determinação delles foi, que pois partiram de suas terras, e foram alli vindos, só com tenção de servir a Deos, nem fora outro nenhum seu proposito, e vontade, não queriam haver Cidades, nem terras, nem outras riquezas, quanto mais não lhes parecendo cousa conveniente que tal Cidade fosse partida, nem manteuda com El Rei de por meio em sua terra, que abastava para elles leixarem-na em poder de Christãos como fora seu dezejo, e assi se foram a El-Rei, e lho disseram mui francamente, o que lhes elle muito agradeceo, offerecendo-se, que se alguns delles, e de suas gentes quizessem ficar em sua terra, elle lhe daria lugares para povoarem, e viverem em elles izentamente, e ás suas vontades. Depois desto partio El-Rei grandemente com os Capitães, e gentes que quizeram tornar para suas terras, e assi se espediram delle com muita sua graça, e os que ficáram para morarem na terra escolheram para sua povoração vivenda a Atouguia, e Lourinhã, e Arruda, e Villa-verde, e Villa-franca, que primeiro foi chamada Cornagoa, porque aquelles que a povoaram eram Ingrezes de Cornualha, e chamaram-na do nome de sua terra, e povoaram tambem a Azambuja, e pozeram-lhe este nome, porque estava alli um grande Azambujeiro, e os Ingrezes por em sua lingoa fazerem do mascolino, femenino, chamaram-lhe Azambuja. E segundo memoria dos edeficadores daquelle lugar, o senhor daquelles que a povoaram havia nome Rolim, não que por esso fosse Childe Rolim, o que em cima dissemos ser um dos grandes Senhores que naquella frota vinha, o qual não é de cuidar que ficasse em Portugal para povoar terra de novo, havendo tantas Villas, e lugares povoados, de que mais com rezão se devera partir com elle ficando na terra, mas é bem de crer, que fosse outro algum Capitão Fidalgo seu parente, com que folgassem de ficar, e seguir alguma daquella gente, segundo que desentão, e hoje em dia seus sucessores, bem mostráram sua cavallaria, e fidalguia com muita honra, e serviços feitos aos Reis, e Reino de Portugal, e outros alguns destas gentes povoaram Almada, e pela nomeação deste nome se mostra que foram muitos a povoa-la, e faze-la, ou por trabalho de suas pessoas, ou por contribuirem dinheiros para esso, porque o proprio nome seu em linguagem Ingreza é, vimadel, que quer dizer em Portuguez:todos a fazemos, e depois por tempo, que todalas cousas muda, corrompendo-se o nome, lhe chamáram Almadam, o que ainda vae ter a Almadee, que soa em Ingrez, todo feito, mas leixaremos aqui um pouco de proseguir a Estoria por contarmos de alguns milagres, que a N. Senhor aprouve de fazer por alguns Martyres, que no cerco, e entrada de Lisboa morreram, em especial de um Cavalleiro Alemão por nome Anrique, sendo muita razão, que os Justos sejam como diz a sagrada Escritura em memoria eterna, e de sua gloria por Deos manifestada, se faça louvada menção, pois se faz de seus temporaes feitos, cujos merecimentos por muito que neste mundo mereçamos, não chega á gloria, e louvor do premio, que no outro ante Deos se alcança.
Dos milagres que Deos mostrou pelo Cavalleiro Anrique Alemão que morreo quando a Cidade de Lisboa foi entrada.
Acima se disse, como durando o cerco de Lisboa soterraram os mortos naquellas duas Egrejas, que nos reaes se fizeram para esso, e tomando-se a Cidade aconteceo dos que na entrada soterraram na Egraja que ora é chamada S. Vicente de Fóra, um nobre, e valente Cavalleiro Alemão chamado Anrique, comprido de bons, e virtuosos costumes, foi morto naquelle combate peleijando mui esforçadamente, e sendo assi enterrado naquelle lugar N. Senhor em cujos olhos é mui preciosa a morte dos seus Santos, e Bemaventurados aquelles, segundo elle disse, que no amor de Deos, quanto mais os que por seu amor morrem, fazia por este Cavalleiro Anrique muitos milagres de que alguns sómente por mostra brevemente diremos.
Vinham na frota daquellas gentes Estrangeiras dous homens surdos, e mudos de seu nacimento, e indo um dia á sepultura daquelle Cavalleiro deitaram-se apar delle com grande devação, pedindo em suas vontades, que por seus merecimentos lhes empetrasse do Senhor Deos piedade, e misericordia para sua infermidade, elles jazendo assi adormeceram ambos, e appareceu-lhes logo em sonhos o Cavalleiro Anrique vestido em trajos de Romeiro, trazendo na mão um bordão de palma, e falou áquelles mancebos, dizendo-lhe: «Alevantai-vos folgai, e havei prazer, e hi ouvi, e falai, que pelos merecimentos meus, e destes Martyres, que aqui jazemos, ganhastes do Senhor Deos graça, a qual é com vosco». E dito esto desapareceo; elles então acordaram, e achando-se sãos de todo, ouvindo, e falando milagrosamente, e assi em voz e linguagem clara, começaram a contar a todo o povo o milagre que Deos em elles fizera pelos merecimentos deste Cavalleiro.
E El-Rei D. Affonso, e todos os que hi estavam davam muitas graças, e louvores ao Senhor Deos, que taes maravilhas obra, como diz o Profeta, por honrar, e exaltar os seus Santos, e amigos. Era este Cavalleiro Anrique natural de uma Villa que se chama Bom composta na ribeira de Reina quatro leguas acima de Colonha, na qual eu fui, e estive dessas vezes, que áquellas partes fui enviado por Embaixador, vendo-a sempre com muita affeição, e saudosa lembrança deste Santo Cavalleiro Anrique.
Como o Cavalleiro Anrique appareceo em sonhos a um homem bom, mandando-lhe que soterrasse um seu Escudeiro apar delle, que na entrada de Lisboa muito ferido morrera.
Logo a poucos dias que esto aconteceo veio a morrer um Escudeiro deste Cavalleiro Anrique de grandes feridas, que tambem houve na entrada da Cidade, e enterraram-no na mesma Egreja donde jazia seu senhor, e sendo alli soterrado, appareceo de noite o Cavalleiro Anrique a um homem muito velho, que servia aquella Egreja e havia nome Anrique como elle, dizendo-lhe: «Levanta-te, e vai ao lugar onde os Christãos enterraram o meu Escudeiro alongado de mim, toma o seu corpo, e vem enterra-lo aqui junto comigo, porque quem me seguio, e se ajuntou comigo na morte, não deve ser apartado na sepultura». Do que aquelle homem bom nada curou, e vindo-lhe outro tal segundo aparecimento, e amoestação tão pouco curou desso, como da primeira, então lhe appareceo a terceira vez o Cavalleiro Anrique mui irado, e com sembrante bravo, e queixoso ameaçando-o com palavras de grande medo, se logo não fosse comprir o que por tantas vezes lhe dissera, pelo qual aquelle bom velho cheio de temor se levantou logo de noite, e foi com candeias á sepultura onde jazia o Escudeiro, e desenterrou-o trazendo-o elle por si só e lhe fez uma cova a milhor que pode apar do Cavalleiro Anrique onde o enterrou, e quando veio pela menhã, achou-se o velho tão são, e sem cançasso do trabalho da noite passado, sendo impossivel por sua cançada idade pode-lo fazer, como se jouvera em sua cama folgando sem fazer nada, e contando ao outro dia todo assi como lhe acontecera, aos Prelados, e a todo o povo deram todos muitos louvores a N. Senhor.
Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anrique, e dos milagres que Deos por elle fazia.
Querendo ainda o Senhor Deos segundo a grande avondança de sua infinda benificencia, mostrar por mais maravilhas quanto lhe tinha aprazido, o serviço deste Cavalleiro Anrique, appareceo á cabeceira de sua sepultura uma palma semelhante áquella que trazem os Romeiros de Jerusalem em suas mãos; assi começou em verdecer, e deitar folhas, e crecer sobre a terra, em sua altura juxta. El-Rei, e todos vendo tão grande, e famoso milagre, louvaram muito a Deos, e quantos enfermos alli vinham tomar palma, e deitavam ao colo logo eram sãos a essa hora, de qualquer infermidade que tivessem, e outros a tomavam, e tostavam, e depois de moida bebiam della aquelle pó, e assi mesmo se achavam logo sãos das dores que tinham, e tanta foi a continuação da muita gente que vinha tomar daquella palma, que a pouco tempo não ficou nada della sobre a terra, até por não porem boa guarda nella, vieram alguns de noite, e a arrancaram de todo, levando o que ficava sobre a terra. Por estes milagres, e outros que N. Senhor aprouve de fazer pelos seus Santos Martyres, que alli morreram, tinha El-Rei nelles mui grande devação, que se sentia em si algum abalamento de doença deitava-se em oração sobre seus jazigos, e achava-se logo remediado.
De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de fazer Lisboa Bispado, e quem foi o primeiro Bispo della.
Passado assi todo esto fez El-Rei juntar toda sua gente que com elle era, e disse-lhe: «Amigos meus eu até agora como vistes depois de tomada esta terra, e Cidade, me ocupei em ordenar, e destribuir os bens temporaes della, os quaes muitas vezes tem rezão, não em dignidade, nem em preiminencia, mas em ordem para se haver primeiro de entender nelles, que nos espirituaes, para que Deos seja assi mais ordenadamente servido, segundo requere a orde, e maneira das cousas deste mundo, e a fraqueza da condição humana sem o temporal não póde vagar no espiritual, agora é muita rezão que não tardemos mais de entender no espiritual, ordenemos, e elejamos quem nesta Cidade seja Bispo, e Pastor de nossas Almas, e regedor da Egreja Cathedral». Louvaram todos o que El-Rei dizia, e então foi eleito um homem virtuoso, que alli era, chamado Gilberto, de muito boa vida, e costumes, e leterado em Degredos, e a poz esto mandou El-Rei logo notificar ao Papa cumpridamente o cerco, e tomada de Lisboa, da eleição do Bispo, que por serviço de Deos novamente fizera, pedindo a Sua Santidade o quizesse confirmar. O Papa lhe outorgou todo esto, e outras mais cousas que lhe enviou pedir, dando-lhe grandes perdões, indulgencias para as Egrejas que tinha feitas. Tanto que este recado veio de Roma chamou El-Rei o Bispo Gilberto, e disse-lhe: «Bispo estas duas Egrejas, foram aqui edeficadas como sabeis, tendo nós ainda esta Cidade cercada para se nellas enterrarem os que morriam, pois a N. Senhor aprouve de vermo-lo, e podermo-lo fazer, eu quero dotalas começando primeiro no Moesteiro de S. Vicente de Fora». E então o dotou de muitas posseções, porque entendeo que poderiam bem, e sem mingoa viver, os que em elle houvessem de servir a Deus, e para os Povos terem mais azo, e devação de ajudar, e fazer o Moesteiro poz em elle grandes indulgencias, que lhe o Papa mandou, e assi tambem na Egreja de Santa Maria dos Martyres.
De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou Prior no Moesteiro de S. Vicente de Fóra, e quem foi primeiro Prior delle, e de que Ordem.
E depois desto consirando El-Rei como o seu Moesteiro de S. Vicente de Fóra houvesse de ser milhor servido prepoz de poer em elle Capellães Clerigos onestos, e estando neste seu preposito, aconteceo chegar a Lisboa um Frade Flamengo de boa, e onesta vida, chamado Gualterio, e com elle quatro Frades seus companheiros, que vinham a buscar onde fizessem um Moesteiro da Ordem de que elles eram, para nelle viverem. El-Rei sabido de sua vida e preposito folgou muito, e mandou por elle dizendo-lhe como edeficara aquelle Moesteiro de S. Vicente, rogando-lhe que elle, e seus companheiros quizessem nelle viver, e estar por ser caza para esto mui conveniente, e para Deos hi delle ser servido; aprouve muito dello a Gualterio, e a seus companheiros, e foram-se logo para o Moesteiro.
Queria muito este Prior Gualterio, que o Moesteiro fosse chamado da Ordem que elle era, e que El-Rei no Moesteiro não tivesse nhum especial poder, o que não querendo El-Rei consentir, se partio Gualterio com os seus compenheiros para onde vieram. El-Rei fez então Prior um Conego Estrangeiro, que havia nome Damer, o qual a cabo de poucos annos se foi tambem para sua terra, por onde parecendo a El-Rei que Religiosos assi vaguanãos, e fóra de Suprior, por muita devação que tragam, e presumam não hão graça para durar á ordem, e serviço de Deus, determinou de mandar ao Moesteiro do Banho que é da Ordem dos das sobrepelizes por um Conego que chamavam Guodinos, que fosse o Prior do Moesteiro, o qual assi Prior por suas virtudes foi eleito por Bispo de Lamego, e El-Rei então mandou por outro Conego a esse mesmo Moesteiro do Banho, que havia nome D. Mendo, e havendo oito annos que era Prior, se veio a finar; e a poz este houve outro Prior, que chamavam D. Paio, e foi o derradeiro Prior que em S. Vicente houve em tempo del Rei D. Affonso, e posto que estas cousas que dissemos fossem feitas por espaço de tempos, em vida del-Rei D. Affonso, nós contamo-las aqui juntas por pertencerem á tomada de Lisboa. Ora adiante diremos outras cousas que se fizeram logo seguintes á sua tomada.
Dos Lugares que El-Rei D. Affonso Anriques depois tomou na Estremadura, e Alem do Tejo.
Depois de El-Rei D. Affonso Anriques ter tomado Lisboa como se já disse, logo naquelle anno seguinte andando a era de N. Senhor em mil e cento e quorenta e oito annos, (1148), foi El-Rei sobre Alanquer, e Obidos, e Torres Vedras, e sobre outros Castellos da Estremadura, que ainda eram de Mouros, durando em os tomar seis annos, e depois que os teve assentados, e assi toda a terra da Estremadura, ajuntou todas suas gentes, e passou-se a Alentejo, onde fez grande destruição em os Mouros, tomando-lhes Alcacere, Evora, Elvas, Moura, e Serpa, e outros lugares até chegar a Beja, o qual tendo-a cercada entrou grande poder de Mouros pela Comarca da Beira a fim de retraher, e fazer cessar o dano que El-Rei em elles fazia em Alentejo, e cercaram Trancozo, e depois de combatido e tomado por força destruiram o logar, e deixaram-no, matando muitos Christãos, e levando muitos delles cativos.
El-Rei D. Affonso posto que lhe estas novas chegassem, não se quiz levantar do cerco, que tinha sobre Beja, antes a combateo então fortemente com engenhos, e artilharias, até que a tomou por força, e pelo despeito que tinha do mal que os Mouros fizeram em Trancozo, todos os Mouros de Beja andaram á espada, ficando mui poucos vivos. Foi Beja tomada na era do Senhor de mil cento e cincoenta e cinco annos (1155). Feita assi esta destruição nos Mouros, e havidas estas vitorias nas terras Dalentejo, leixou El-Rei Beja, e todolos outros Lugares mui bastecidos, e providos de Cavalleiros, e gente que os mui bem podassem defender, e guardar, e tornou-se para Coimbra com muita honra, e grande prazer, pelas mercês, e grandes vencimentos, que lhe N. Senhor Deos contra Mouros dera.
Dos filhos que El-Rei D. Affonso houve, e como cazou sua filha Dona Mofalda.
Tanto que El-Rei D. Affonso chegou a Coimbra lhe foi logo commettido cazamento para sua filha Dona Mofalda; elle teve tres filhas, e um só filho, o filho houve nome D. Sancho, que herdou o Reino por falecimento de seu pai, e em sendo Ifante foi sempre mui bom e esforçado Cavalleiro, e valente, e depois que Reinou, não menos bom, virtuoso, e esforçado Rei, fazendo muitas cavallarias, e accrescentando seu Reino como em seu logar contaremos, e a primeira filha houve por nome Dona Mofalda, que foi cazada com D. Reymondo, filho do Conde D. Reymondo de Barcelona, e a outra chamada Dona Urraca, cazou com El-Rei D. Fernando de Lião; a terceira filha houve nome Dona Tareja. Esta foi cazada com D. Felippe Conde de Frandes, e sendo assi commettido a El-Rei D. Affonso o dito cazamento para sua filha Dona Mofalda, o vieram a concertar, que o Conde D. Reymondo de Barcelona viesse á Cidade de Tuye, que era del-Rei D. Affonso, e alli fizessem vistas antre si sobre este cazamento. Então se partio El-Rei para lá com muitos Senhores, Prelados, e Cavalleiros, levando comsigo a Rainha Sua mulher, e suas filhas. Chegáram a Tuye dez dias andados do mez de Janeiro; dahi a oito dias chegou o Conde D. Reymondo; fez-lhe El-Rei dar bairro, e pouzadas grandes, e boas para elle, e toda sua gente, que com elle vinha, a qual era muita, e mui luzida; vindo o Conde, El-Rei sahio-o a receber acompanhado de honrados Prelados, e outros Grandes do Reino, e Cavalleiros mui principaes; iam com elle D. João Arcebispo de Braga, D. Mendo Bispo de Lamego, D. Izidoro Bispo de Tuye, D. Pedro Conde das Asturias, o Conde D. Ramiro, e o Conde D. Vasco, D. Gonçalo de Souza, D. Pedro Paes seu Alferes, e outros muitos ricos homens, e Cavalleiros com muita gente. Quando o Conde chegou veio El-Rei para elle, e o recebeu com muita honra, e gazalhado, trazendo-o consigo até o Paço, alli descavalgáram, e se foram logo para onde estava a Rainha, e as Ifantes, e o Conde esso mesmo fez grande reverencia á Rainha, e suas filhas, de que foi mui bem recebido, e depois de fallarem alli um pouco tomou El-Rei o Conde, e levou-o para onde haviam de comer.
Aquelle dia comeo o Conde com El-Rei em sala, elle, e todos os que com elles vinham, e assi a Rainha, e as Ifantes com suas Donas, e Donzelas, e desque acabáram de comer, vieram Jograes, e tangedores, e foram grandes danças. Isto acabado, havendo-se o Conde de ir colher a suas pouzadas se quizera alli despedir del-Rei, e elle não quiz, se não que se espedice só da Rainha, e suas filhas, e foi-se com elle até porta do Paço onde havia de cavalgar, e El-Rei tinha já ahi cavallo para ir com o Conde; mas o Conde não o quiz consentir em nhuma maneira; ficou então El-Rei, e todos os outros Senhores, e Cavalleiros da Corte, se foram com o Conde até sua pouzada. El Rei mandou a todos seus Officiaes, que dessem todas as cousas sem dinheiro, que o Conde houvesse mister, em quanto hi estivesse, e des aquelle dia em diante, começáram a fallar no trato do cazamento da Ifante, e do filho do Conde; estiveram em o concertar até dous dias por andar de Janeiro em que se fez o cazamento; no qual dia sendo hi juntos muitos Senhores, e Prelados, e Cavalleiros de uma parte e da outra, foi lida á Rainha, e Ifantes uma Procuração de D. Reymondo filho do dito Conde porque dava poder a seu Pai, que em seu nome podesse receber com elle a Ifante D. Mofalda filha del-Rei D. Affonso. E vista a Procuração, El-Rei tomou sua filha, e trouxe-a ante o Arcebispo de Braga, o qual tomou o Conde pela mão, e assi a Ifante, e então os recebeu, elle como Procurador de seu filho, e ella por si, como manda a Santa Madre Egreja de Roma, e esto feito, entregou El-Rei sua filha ao Conde, que a levasse consigo até onde houvessem de ser feitas as vodas, e o Arcebispo de Braga, e D. Martim Moniz, e assi Donas, e Donzelas foram em sua companhia della. Deu El-Rei ricas joias ao Conde, e aos seus fez mercês de modo que elle, e todos os que com elle vinham partiram mui contentes del-Rei. Partio-se assi o Conde, levando a Ifante consigo, e elle partido, El-Rei se tornou para Coimbra com toda sua gente, e Corte.
Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e venceo El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama.
Sempre despois deste cazamento El-Rei D. Affonso esteve, e andou por aquelles lugares, que ganhára aos Mouros, provendo-os das couzas, que lhe compriam para sua defenção, como fossem governados em justiça, e estando assi em Alcacer na era do Senhor de mil e cento e sessenta e cinco annos (1165) havendo já El-Rei setenta e um de sua idade, veio recado como Cezimbra estava mingoada de gente, que a tomaria se fosse sobre ella. A esta nova partio logo El-Rei de Alcacer com toda sua gente, e foi-a combater com tanta affronta, que ainda que a Villa, e Castello eram mui fórtes, filhou-a por força, e desque teve a Villa socegada, e posto nella quem a guardasse, determinou de ir ver Palmella, e o acento, e fortaleza della, levando consigo, sessenta bons Cavalleiros, e alguma gente de pé, e besteiros, e chegando a Palmella, e estando vendo-a, asomou El-Rei de Badalhouse com muita Mourama das frontarias daredor, em que havia quatro mil homens de cavallo, e sessenta mil de pé, e vinham ao longo sem ordem a gram pressa para soccorrer Cezimbra, descuidados de verem, nem acharem alli Christãos. Teve-se El-Rei traz um cabeço, e vendo os que eram com elle tanta gente, começáram de haver grande receio, e todos aconselhavam El-Rei que se acolhesse a seu araial o milhor que podesse, e delles diziam, que se puzesse em uma alta serra, que por hi vai, que se chama a serra Dazeitão, e tomassem em ella algum lugar fórte para se deffenderem, até ir recado aos do arraial.
El-Rei com quanto vio o medo, e receio dos seus pela grande multidão dos Mouros; porém esforçando-se no poderio de Deos ser maior que o dos homens, no qual elle sempre esperando se achava vencedor, fallou aos seus em esta maneira: «Que esmaio é este amigos, ou que nova desconfiança do Senhor Deos, nem que vedes vós agora de novo, para tanta torvação; estes muitos, que vedes são os que vós muito menos, dos que ora soes, sempre vencestes, para esso ganhamos nós peleijando, e vencendo, á cincoenta annos, tanto merecimento, e honra ante Deos, e o Mundo, para todo em uma só hora, fugindo perdermos, certo que ouvindo-vos, o que ouço, se vos a todos não conhecera, podera mal cuidar, serdes os que comigo vencestes muitos mais, que estes imigos no campo Dourique, e em outros lugares, não ponhaes ante vós meus amigos, quantos mais são, que nós, mas quanto no poder, e querer de Deos, por quem peleijamos, são muito menos que nós; o medo, em que os Deos já poz para nós maiormente se dermos nelles de sobresalto, fará que lhes pareçamos muitos mais do que somos, e elles assi mesmos, menos muito, do que são, e tendo-nos Deos tantas vezes mostrado esta verdade, podeis ainda cuidar em nos devermos de retraher, nem fugir, Deos por nós sempre contra elles em honra, e vencimento, e nos queremos ora poer em deshonra, e nossos imigos em gloria, e esforço contra nós. Ora havei Cavalleiros, que mingua de fé, mingua de crença, nos encurta o esforço, mal concorda no coração de Christão esmaio com ardideza, mal no Christão desconfiança com fé, que inda que poucos sejamos, tambem de muitos, poucos são os que peleijam, não tem hoje estes nossos imigos em seus corações, cousa mais certa que topando-se no campo convosco, e comigo, haverem-se logo por vencidos, tanto que nos virem não ficará destroço, nem mortos, nem vencimentos passados, quantos contra elles houvemos, que como prezentes ante si não ponham, este de agora, que com a graça de Deos haveremos. Pelo qual meus bons Cavalleiros, não vos venham por sentido medos, de que nosso Senhor Deos sempre livrou, e mostrou o contrario, e pois por tantas, e tão milagrosas vitorias, que sobre nosso poder, por sua piedade nos deu, temos tão sabido nada ser a elle impossivel, não devemos nada temer, vamos logo com sua graça, que nos sempre acompanha ferir nos imigos. Eu quero hoje ser vosso pendão, e ver se me quereis seguir, e guardar como sempre fizestes, que pois Deus ordenou para mostrar mais seu gram poder, com tão poucos me aqui acertasse, eu determino por seu serviço, hoje neste dia, de vencedor, ou de morto me não partir do campo».
Desque El-Rei acabou de fallar, vendo os seus em elle tão grande confiança, e determinação, todos mui esforçados com suas palavras, e esforço, disseram, que por muito mais dezigual que o cazo fosse, delles aos Mouros, pois elle seu corpo determinava poer a tal feito, elles lhes não faleceriam, e o seguiriam como sempre fizeram, dizendo que dessem logo nelles. Vinham já pelo infesto acima, a cerca, e não haviam mais que tardar. Abalou então El-Rei á pressa com grande coração, e esforço, e todos com elle, em se mostrando fez dar ás trombetas, e foram ferir nos primeiros tão rijamente, que logo muitos delles foram derribados, antre mortos, e feridos. Os Mouros achando-se salteados, e conhecendo, que aquelle era El-Rei D. Affonso, que tanto temiam, figurando-se-lhe, que seria muita mais gente, foi o medo em elles tão grande, que começaram logo a fugir, parecendo aos trazeiros, que os seus mesmos, que voltavam fugindo, eram imigos, como soi a fazer gente de medo cortada, e assi correndo o desmaio por elles, se puzeram todos em desbarate. Alguns contam, que se guardou El-Rei para de madrugada dar nelles, onde foram vistos pouzar, por ser ora, e tempo azado, para mais desmaio, e desbarato dos Mouros, e assi o fez, e os desbaratou. Como quer, que fosse feito, foi em que entrou saber de Cavallaria, com grande coração, e esforço ajudado por nosso Senhor, por cujo serviço se aventurava. Seguio El-Rei apoz os Mouros matando, e ferindo, e cativando muitos no alcance tomando-lhes a carriagem, e despojos grandes, de quanto traziam. Tanto que o desbarato foi acabado, mandou El-Rei dous Cavalleiros a grande pressa a Cezimbra a suas gentes, que lá ficaram, que logo fossem todos com elle, e foram ao outro dia todos e juntos, muito ledos, pela boa andança, que Deos dera a El-Rei, e não menos tristes, por se não acertarem com elle na batalha. Tanto que os de Palmella viram o desbarato dos seus Mouros, e os Christãos juntos contra si, tendo perdida a esperança do soccorro, preitejaram se com El-Rei, que os leixasse sahir em salvo, e lhes dariam a Villa, e a El Rei aprouve dello, e assi houve a Villa de Palmella.
Do desvairo que sobreveio antre El-Rei D. Affonso Anriques e El-Rei D. Fernando de Lião seu genro, e como se quebrou a perna a El Rei D. Affonso, e foi prezo del-Rei D. Fernando, por caso da perna quebrada.
Sendo El-Rei D. Fernando de Lião casado com Dona Urraca, filha del-Rei D. Affonso Anriques como acima dissemos, veio a deixa-la, e apartar-se della por mandado do Papa, por serem parentes mui chegados, e cazarem sem dispensação, mas o modo como este apartamento foi feito, nem o que se fez desta Rainha Dona Urraca não achamos escrito, salvo, que houve della um filho chamado D. Affonso, que depois da morte de seu pai foi Rei de Lião. Tomando El-Rei D. Affonso deste feito grande pezar, pôs em sua vontade de ir cercar Badalhouse, que estava em poder de Mouros, por ser da Conquista del-Rei D. Fernando de Lião, e ajuntando suas gentes para esso foi poer cerco sobre a Villa, estragando-lhe pães, e vinhas, e fazendo-lhe tanto dano, e apresso, que veio a toma-la. Como quer que os Mouros se mui bem defendessem, El-Rei D. Fernando quando soube que El-Rei D. Affonso de Portugal tomára Badalhouse, enviou lhe a dizer por seus Mensageiros, que lha leixasse, pois sabia que era sua, e de seu Reino, e El-Rei D. Affonso lhe respondeo que lha não havia de leixar, e então o dezafiáram sobre esto, pelo qual El-Rei D. Fernando de Lião ajuntou logo seu poder, e veio contra El-Rei a Badalhouse, e vinha com elle D. Diogo o bom senhor de Biscaya, com cuja irmã chamada Dona Urraca Lopes filha do Conde de Navarra, foi depois cazado este Rei D. Fernando. Vinha tambem D. Fernando Rodriguez de Castro, sendo então ambos vassallos deste Rei D. Fernando de Lião, dezavindos del-Rei de Castella, e vindo já acerca disseram a El-Rei D. Affonso.
«Senhor, aqui é El-Rei D. Fernando, e toda a sua oste. Pois assi é, disse El-Rei: Armemo-nos, e saiamos a elle ao campo, que pois nos vem buscar, bem é que nos achem lá fóra em campo comsigo». Então se armáram todos, e sahiram fóra da Villa, e nisto disseram a El-Rei D. Affonso como os seus se embaraçavam já com D. Diogo o bom, e com D. Fernando Rodriguez de Castro, que vinham na dianteira mui bons Cavalleiros, e El-Rei com este recado abalou rijo a cavallo, correndo por sahir fóra da Villa a chegar aos seus, e aconteceo, que o cabo do ferrolho não ficára bem colhido ao abrir das portas, e o cavallo, assi como ia correndo topou nelle com uma ilharga de guiza, que se ferio muito, e quebrou a perna esquerda del Rei, o qual não deixou por esto de chegar aos seus a ajuda-los, e nisto o cavallo que ia ferido, não podendo mais sofrer-se cahio com El-Rei em um senteal, sobre a mesma perna, e acabou-se de quebrar de todo, de modo que os seus não poderam mais levanta-lo, nem poer a cavallo, e então Fernão Rodriguez Castelhano, que o vio cair foi dizer a El-Rei D. Fernando: «Senhor ali jás El-Rei D. Affonso com uma perna quebrada, hi prende-lo, que mais sem trabalho vo-lo deu Deos nas mãos do que eu cuidava.»
Chegou então El-Rei D. Fernando onde El-Rei jazia, e por os seus, que o viram cair, e se acertaram serem poucos, e os imigos muitos, houve de ser tomado, e prezo com estes que hi eram com elle; não se podendo valer, nem ser valido, e com os outros seus, que se colhiam á Villa, entráram os del-Rei D. Fernando de mistura, e devulgando-se já o dezastre del-Rei D. Affonso, foi a Villa nessa hora tomada, segundo logo tudo falece, como falece o Capitão. Levou assi El-Rei D. Fernando consigo a El-Rei D. Affonso para a Villa, e fez-lhe mui bem pençar da perna, e em quanto o teve em poder, assentando-o sempre a par de si, fazendo-lhe muita honra; despois veio apreitejar com elle, que lhe desse a terra da Corunha, que é do Minho, até o Castello da Lobeira, uma legoa álem de ponte Vedra, e porcima pelos chãos de Castella, aquella terra, que deram ao Conde D. Anrique seu pai, como no começo da Estoria se disse, fazendo-lhe tambem menagem, que tanto que em besta cavalgasse se tornasse a sua prizão; El Rei D. Affonso nem podendo al fazer disse que lhe prazia.
Despois de entregar a terra, e Fortalezas, e fazer a dita menagem, El-Rei D. Fernando o soltou, e elle tornou para seu Reino, e sendo mui bem são da perna, nunca mais quiz cavalgar em besta, por não tornar a menagem, antes sempre depois andou em carro, como soiam andar os Reis antigamente, e logo no anno seguinte de mil e cento e sessenta e seis annos (1166), dia Dassenção, em Coimbra fez El-Rei como mui prudente, e discreto que era, fazer todos os Grandes, e Conselhos do Reino todo menagem a seu filho o Ifante D. Sancho, e este seu quebramento de perna, foi sempre atribuido ao que sua mãi lhe rogou, quando a poz em prizão, segundo atraz nesta Estoria se contem.
Em que fala, e amoesta Duarte Galvão Autor, quanto se devem escuzar as maldições dos pais, e mãis aos filhos.
O pezar que me faz, e a todos fará vendo este dezastre del-Rei D. Affonso Anriques, me faz falar contra as maldições dos pais, e mãis, que ameude se lançam com pouco tento e resguardo, devendo-se escuzar com muito, vendo, e sabendo todos, que com nome de filhos nos reconciliou Deos para si, e com nome de Pai nosso, mandou que o adorassemos, com o nome em que se conclue, e encerra a maior obrigação e ajuntamento de reverencia, e amor que póde haver, antre nós, nem de nós para elle, por onde os filhos devem muito fazer por acatar sempre seus pais, e mãis, segundo por Deos lhe é distintamente mandada escuzar de os provocar a semilhantes maldições, antes recea-las muito, e teme las, por injustas que sejam, como se diz das excommunhões, que desprezando-as haverá por ventura lugar de obrar, como justas, e ajuntadas com outros males de que mal peccado andamos acompanhados descote, e ante Deos desmerecemos, porque tanto quiz Deos, que se guarde, e acate, a ordem que neste mundo ordenou, que elle mesmo sendo sem peccado justo Julgador, sofreo ter injustamente julgado, por injustos, e perversos julgadores, por terem na terra o cargo, e presidencias por elle ordenadas, o que tanto mais devem os filhos acatar, e sofrer a seus pais, e mãis, quanto a lei de justiça, e ordenança de Deos, lho devem ainda por grande obrigação de natural reverencia, e amor.
E os pais muito mais de seu cabo devem a meu juizo escuzar semelhantes maldições, quanto mais idade, e entender tem, concirando que são homens, e pais de homens, e que elles poderiam já fazer outro tanto a seus pais, e mãis, maiormente que os erros dos filhos não podem ser tão danosos, que muito mais não sejam as maldições dos pais, lançando-se sempre por humano defeito da sanha vendicativa, a qual se decega em desenfriada ira, não procedesse, não haveria lugar contra o sobejo amor dos pais, e mãis, sendo sempre tamanho, que quanto mais com causa dizem ao filho: «Má morte te mate», vendo-lhe algum mal muito menos de morte se culpam, e matam por elle, e Deos manda, que das nossas injurias, e danos, leixemos a vingança a elle. Dessas pessoas lhe devemos mais leixar de que aos outros devemos tomar que são pais, e filhos, os quais toda a rezão obriga, que antre si mais se comportem, e hajam em suas cousas paciencia, pois Deos que as fez a quem se ainda mais nesso erra, ha com elles paciencia, e assi escuzaram os filhos a culpa tão crime como é desobediencia aos pais, de conhecimento tamanho para Deos como é aos filhos, que lhe deu, por benção, fazerem filhos de maldição, a qual por esto só tambem por injusta que fosse abastaria pela ventura, para fazerem por pena, e peccado do pai, penar o filho inocente neste mundo, em que bem podemos padecer por culpas, e peccados alheios, assi como filhos por pais, e servos por senhores; ainda que no outro não possamos, se não pelos proprios nossos, e da verdade deste caso prouvera a Deos que tiveramos em outra parte a prova, e exemplo mais longe, e estrangeiro, e não del-Rei D. Affonso, que sendo tão virtuoso, e todos seus feitos sempre com virtuosa tenção, e de serviço de Deos, não leixou maldição de mãi, mais madrasta que empecer a este Rei, na pessoa, na fazenda, e na honra, a filho tão virtuoso.
Como os Mouros vieram com Albojame Rei de Sevilha cercar El-Rei D. Affonso Anriques em Santarem, e como El-Rei foi a peleijar com elles, e os desbaratou e venceo.
Estando assi El-Rei D. Affonso em seu Reino, andando em colos de homens, e outras horas em carros como já em cima dissemos, veio-se para Santarem, e correndo novas pela terra, do desastre do britamento da perna, e da preitezia e menajem que ficára com El-Rei D. Fernando de Lião por cuja causa, não cavalgava em cavallo, nem era de sua pessoa poderoso para fazer guerra como dantes, nem suas costumadas cavallarias, tomaram os Mouros ousadia, e esperança grande de se vingarem, e fazer grande danno a Portugal, pelo qual Albojame Rei de Sevilha, ajuntou grande multidão de Mouros, de toda Andaluzia, e de outras partes, e atravessando todo, antre Tejo e Odiana, matando, e estragando tudo por onde vinham, vieram cercar Santarem, onde El-Rei D. Affonso estava, destroindo-lhe toda a terra de redor. Saiam os Christãos ás barreiras a escaramuçar com elles, e de uma parte, e da outra morriam muitos.
El Rei D. Affonso por não poder cavalgar a cavallo, e sair a elles era mui enojado em seu coração acostumado a vencer nos campos, e cercar, e não ser cercado, pelo qual determinando de sair fóra em carro, a lhes dar batalha, alguns dos seus lho contradisseram, e outros diziam que era bem ficar na Villa, e que elles sairiam a peleijar com os Mouros, concelhos ambos muito fóra do parecer del-Rei, e do seu grande animo, e por tanto lhe respondeo, e disse: «Amigos não cumpre agora ver se sairemos, ou não; mas é tempo de tomardes tal esforço para peleijar, que eu possa perante todos louvar os que o bem fizerem, e eu mesmo em pessoa vos ajudarei a esso contra os imigos, quanto em mim fôr como sempre fiz, e se pela ventura alguns tiverem receo, o que não cuido, fiquem na Villa, e não vão lá que eu não poderei sofrer já mais tanta vergonha.» Então acordaram que era bem sair fóra em toda maneira, e estando já prestes para um dia certo, e corregidos como deviam de ir, e de quaes havia El-Rei de ser guardado, aconteceo virem novas a El-Rei D. Affonso como El-Rei D. Fernando de Lião seu genro, vinha com muita gente, o qual por ser Rei mui virtuoso, e mui chegado a Deos, como quer que se quitasse de sua filha, e sobre vence-lo parecesse ser rezão estar delle queixoso, por buscar azo de não cumprir a menagem que lhe tinha feito de tanto que cavalgasse em uma besta, acudir a sua Corte, não olhando nada desto, como soube, que El-Rei Albojame com grande poder tinha cercado El-Rei D. Affonso em Santarem ajuntou sua gente, e partio para o ajudar, e andando então a era do Senhor em mil e cento e setenta e um annos, (1171) assi que vindo recado certo a El-Rei D. Affonso Anriques de como El-Rei D. Fernando de Lião era acerca, e que em poucos dias seria com elle, foi em grande pensamento, cuidando que vinha contra elle por rezão da menagem a que não fora, e posto nesta duvida tanto mais, determinou de peleijar primeiro com os Mouros, e tambem os Mouros de sua parte quando souberam de sua vinda, crendo que vinha contra elles, em ajuda del-Rei D. Affonso seu sogro, determinaram levantar o cerco, e saio então El-Rei D. Affonso a elles, no modo que dantes tinha ordenado, e depois de muito peleijarem fez grande mortindade nelles, e desbarato, de muitos prezos, mortos, e feridos, e grandes e ricos despojos tomados.
Assi se foram os Mouros destroçados fogindo quanto mais podiam. El-Rei D. Fernando quando soube que os Mouros eram desbaratados, e El-Rei D. Affonso descercado, não quiz ir mais adiante, posto que perto fosse, e esteve alli quedo tres dias, enviando dizer a El-Rei D. Affonso que tomasse prazer, e nada receasse delle, que não abalára, nem vinha a outra cousa, se não só por o descercar, e pois os Mouros já eram idos, que ficasse com a paz de Deus, e El-Rei D. Affonso lhe deu por ello muitas graças, e é que desque foi prezo na batalha que houve com este D. Fernando de Lião seu genro, nunca depois foi visto ledo, nem haver prazer como dantes, e quando lhe lembravam as cavallarias que dantes soia fazer contra Mouros, e quam temido era delles, não podia estar que mui enxergadamente se não entristecesse, mas porque deste tempo até que o Corpo de S. Vicente foi trazido a Lisboa, não achamos outra cousa que de contar seja, queremos aqui dizer como, e em que modo foi aqui trazido.