De um cumprimento que o Infante D. Pedro acerca de sua innocencia por meio de religiosos fez com El Rei
E o Infante D. Pedro por muitas esmolas e bemfeitorias que aos mosteiros e casas d'oração sempre fazia, era dos religiosos d'ellas sempre em suas orações e devoções muito encommendado a Deos, em especial n'este tempo de sua tanta afflição, os quaes sabendo a determinação errada e perigosa em que o Infante estava de partir, recorreram muitos a elle, e como officiaes da alma o amoestavam, e lhe requeriam da parte de Deos aquellas cousas de que sua maior segurança e salvação se podia seguir, e principalmente que não partisse nem fizesse de si alguma mudança, e antes esperasse a fortuna, que acometer.
E ao Infante crendo que o conselho dos taes poderia vir da vontade de Deos, prouve obedecer-lhe, e quiz finalmente poer seus feitos em suas mãos, e d'elles apartou um Frei Antão, prior do mosteiro de Aveiro, e outro Frei Dinis que depois foi confessor d'El-Rei, pessoas de grande doutrina e mui santa vida, aos quaes disse os fundamentos que o moviam a sua partida, e as razões que lhe contrariavam esperar cerco, e menos andar como fugido pelo reino, e assi as injurias e sem razões que d'El-Rei por induzimento de seus imigos tinha por extenso recebidas. Porém que lhes parecesse que isto podiam remediar, que elle sobreseria em sua partida, e por maior cumprimento com El-Rei e mais sua limpeza faria o que elles ordenassem, e que para firme segurança de manter sempre o que prometia, e que se fizesse d'elle justiça se a merecesse, que ante de ser ouvido lhe prazia mais que todos seus filhos fossem entregues em poder d'El-Rei.
Estes religiosos vendo tanta justificação, esforçaram-se acabar esta concordia, crendo que não podia ser homem tão sem juizo, e tão fóra de humanidade que a denegasse, e acordaram que com isto Frei Antão por mais secreto fosse só a El-Rei, o qual partiu logo com inteira crença e instrução do Infante, dando graças a Deos por elle se someter a tanta razão, com a qual esperava tudo acabar a serviço de Deos, e d'El-Rei, e bem de seus reinos e vassallos, mas este padre por muito que apressou sua ida, já diante achou o imigo da razão e os contrairos do Infante, com que não pôde nem ousou dar a El-Rei as cartas do Infante, e muito menos lhe falar; porque os imigos do Infante de que El-Rei em todolos lugares e todalas horas era cercado, como sentiram que um religioso de tanta autoridade, que em tal tempo ia de mandado do Infante, não podia se não levar cousas de muita concordia e conclusão, de que lhes muito pesava, não sómente o impediram e ameaçaram para mais alli não estar, mas ainda lhe defenderam que não tornasse com a resposta ao Infante, pelo qual se foi triste e mui espantado para o mosteiro de Bemfica, d'onde avisou de todo o Infante.
Como El-Rei não tinha possibilidade de ir sobre o Infante como proposera, e como a partida do Infante de Coimbra foi causa da sua morte
El-Rei não sabendo da determinação do Infante, que era partir de Coimbra, fazia fundamento cerca-lo n'ella, o que pela muita gente que cresceu e pelos mantimentos, e assi outras provisões que se não podiam haver; e menos tantas bestas, bois, e carros para as armas, artilherias e carriagem, que para tal certo eram necessarios, parecia mui dificultoso ou impossivel faze-lo. Pelo qual muitos entendidos se afirmaram, consirado o pouco provimento que El-Rei tinha, e o muito que para tal empreza lhe era necessario que não podera haver, se o Infante não sahira de Coimbra, que El-Rei por aquelle anno não podera cerca-lo, e que o mais de dano que lhe podera fazer fôra comete-lo de passagem, o que ao Infante segundo estava percebido, trouxera mais honra que dano nem perigo.
Porém foi logo El-Rei certificado por um Lourenço Affonso, procurador de Coimbra, que o Infante se despunha a partir, e queria vir a Santarem, afeando o mais que pôde sua tenção, de que o duque e o conde seu filho, como principaes da empresa foram mui alegres; porque viram chegar-se o effeito de sua esperança e desejo, que era a morte do Infante, cuja dilação a elles poderia trazer perda e perigo. Pelo qual El-Rei acordou de sobre ser até saber da certa determição do Infante, e então mandou poer fronteiros nos castellos d'arredor de Coimbra, receando que o Infante queria por ventura guerrear o reino, e andar por elle como lhe fôra aconselhado, e foi Diogo da Cunha a Thomar, e D. Duarte de Menezes a Pombal, e o proto-notario Berredo a Leiria, e assi outros a outros lugares.
O Infante dava grande pressa á sua partida, porque não passasse de cinco dias de Maio que tinha posto; porque n'esse dia fôra certificado que El-Rei movia contra elle como se disse, e porém de dinheiro por suas muitas despesas tinha grande necessidade, de que por emprestimos dos seus criados e servidores se proveu em alguma maneira. E porque a moeda fallecia e não se podia haver, era conselhado para trato e serviço da gente, que da prata lavrada que tinha se fizessem uns quadrantes, da lei e peso de leaes que era então moeda do reino, e que sem mais outra letra nem figura valessem o preço d'elles. O que o Infante não quiz consentir, antes o defendeu estreitamente, e d'isto o reprenderam depois que se intitulara de Rei, e mandara fazer moeda e justiça, o que foi assacado mas não verdadeiro.
Como o Infante D. Pedro partiu de Coimbra, e como seguiu seu caminho até Rio Maior, e do conselho que hi teve
Sendo o Infante prestes para cumprir sua opinião, fez a um domingo que eram cinco dias de Maio partir diante com sua gente ordenada D. James seu filho, que foi dormir no campo logo acerca de Coimbra, e essa noite ficou o Infante na cidade em que com grande mostrança de muita alegria mandou dançar, e fazer festas como sohia. E depois de ter suas cousas providas se foi á Sé, e a Santa Cruz, e a Santa Clara por serem casas em que tinha singular devoção, e alli com sinaes de bom christão se encomendou a Deus, e com a cara alegre e mui descarregada se despediu de sua mulher, e dos que com ella ficaram, e foi com toda sua gente dormir ao lugar da Egua, que é cabeça da comenda mór de Christus, onde seriam com elle até mil homens de cavallo, e cinco mil de pé, com muita carriagem de bois e bestas.
Com o Infante além d'outros muitos e bons cavalleiros e escudeiros, eram estas pessoas principaes: D. James seu filho, o conde d'Abranches, Aires Gomez da Silva, e seus filhos João da Silva e Fernão Tellez, Ruy da Cunha, Gonçallo d'Ataide, Pero de Lemos, Luiz d'Azevedo, e Lopo d'Azevedo irmãos, e Martim Coelho, e Pedro Coelho irmãos, e Pero de d'Atayde, e João Corrêa, e Fernão Corrêa, Fernão d'Alvarez da Maya, João Peixoto, e Lopo Peixoto irmãos.
E no arrayal do Infante se levantaram duas bandeiras, uma sua, e outra de seu filho, e em ambas iam de uma parte umas letras que diziamLealdade, e da outraJustiça e Vingança.
E ao outro dia ante que o Infante abalasse, fez ajuntar sua gente, que repartiu em capitanias, e a todos fez uma fala, cuja sustancia foi saniar a boa tenção e limpeza de sua vida «que sómente era como leal servidor d'El-Rei seu Senhor, ir pedir e conseguir ante elle justiça.» E assi em defender com razões de leal português, que se não fizessem males nem roubos, e que pagassem bem os mantimentos e cousas que tomassem. E sobre tudo encomendou aos capitães o castigo, pás, e assessego de sua gente, e principalmente que se não escandalizassem nem alevantassem por cousas que ouvissem, em caso que parecessem contradizer a suas bondades e muita lealdade.
E assi foi o Infante fazendo com muito resguardo suas jornadas até o mosteiro da Batalha, onde o vedor da obra d'elle que fôra sollergião d'El-Rei D. João seu padre quiz com armas e artelharias poer o mosteiro em resistencia e defesa contra elle, mas os frades lh'o não consentiram, e abrindo as portas mandaram dizer ao Infante que o receberiam na fórma e com as cerimonias que elle ordenasse, mas o Infante não quiz que fosse salvo como sempre fôra, encomendando-lhe que na procissão com que a elle viessem, como de costume tinham, cantassem devotamente por elle o salmo que começa.
Qui habitat in adjutorio altissimi in protectione Dei celi commorabitur—que se podia bem aplicar á sua viagem.
E alli ouviu missa e mandou dizer outras muitas pelas almas d'El-Rei e da Rainha seus padres, e se despediu de seus ossos, que cedo havia de vir acompanhar, e esteve olhando com muita tristeza a sepultura ainda vasia, que em sua capella lhe fôra ordenada, sobre que disse muitas cousas que pareciam já revelações d'alma, e sentimento da carne que a cedo havia de povoar, como foi, e n'esta ordenança chegou a Alcobaça, e assi foi dos frades recebido e encomendado a Deus.
E como El-Rei soube que o Infante passava Leiria, logo mandou sobr'elle corredores, e outra gente de cavallo, para que sua gente com menos licença se soltasse fazer dano.
E porém o Infante chegou a Rio Maior, de que ha cinco legoas a Santarem, onde teve conselho se iria adiante como vinha, ou se enviaria seus messegeiros a El-Rei para que lhe pedisse seguridade com que em alguma bôa fórma, acerca das culpas que lhe falsamente davam fosse ouvido com justiça. E os que verdadeiramente o amavam, posposta toda outra fantesia e paixão lhe davam mui são conselho, que elle não seguiu; porque lhe disseram «que para uma parte nem para a outra não devia ir mais adiante, e que assi como viera se tornasse para Coimbra; porque assaz tinha cumprido por sua honra chegar alli e estar tres dias acerca de seus contrairos, que tendo já então muita mais gente e poder que elle, nunca lhe ousavam vir ter o passo, nem fazer uma leve resistencia, contrariando muito todo outro fundamento, e muito mais enviar-se embaixada a El-Rei, de cuja pouca idade diziam, que já o Infante emquanto as cousas assi andassem não devia fiar sua vida, em caso que com sinaes e sêllos lh'a segurassem; pois por induzimentos de sens contrairos, tantas vezes e em tantas cousas lh'os tinham quebrados, e que muito mais lh'o fariam fazer n'esta em que todo seu desejo se cumpria, e álem d'isso se punha a outra perigosa ventura, que era seguindo mais adiante, e chamando-o El-Rei como a vasallo, e não indo nem obedecendo logo despejadamente como a leal servidor cumpre, cahiria em rebellião e desobediencia clara, de que os achaques passados contra elle ficariam certas culpas, com causas verdadeiras para sua mais justificada perseguição, quanto mais que metendo seu arraial adiante nos olivaes de Santarem, segundo a grande espessura d'elles, e derribando-se pelos caminhos atrás, ficava de todo atalhado sem lhe ficar sómente uma possibilidade de salvação nem desposição de peleja, e que quando se quizesse salvar, já seria ao menos com perda da gente de pé e de toda sua carriagem, com que ficava de todo perdido e desbaratado, e que se por ventura quizesse seguir contra Lisboa com fundamento de se lançar e segurar n'ella, que era maginação errada e certo perigo seu; porque a cidade segundo tudo andava revolto, já não era a madre que o criara segundo elle dizia e confiava, mas que a havia d'achar mui irada, bem guardada madrasta contra si, por onde não ficava poderoso de adiante nem atráz se salvar, se El-Rei com seus imigos lhe saisse nas costas como era de crêr, e que em tanta angustia lhe seria forçado, ou pedir misericordia duvidosa, ou receber morte certa e desesperada de vingança, ao que sem extrema necessidade se não devia arriscar, ao menos por resguardo e segurança de tantos innocentes, quantos com elle sem causa morreriam.»
Aos quaes conselhos o Infante disse: «Bem sinto já que estar aqui não é necessario, e muito menos ir adiante contra Santarem, assi pelas causas e razões que bem apontastes, como principalmente porque hei por grande graveza para mim, parecer que levamos as pontas de nossas armas contra o lugar onde está a Real pessoa d'El-Rei meu Senhor, a que eu sobre todos desejo melhor obedecer e mais acatar e servir. Porém minha determinação é por nenhuma maneira tornar atraz, mas quero-me ir por este caminho contra Lisboa, não com esperança de me a ella acolher, porque n'ella não tenho trato nem segurança, mas não póde ser que meus imigos sabendo que vou assi com muito menos gente e poder do que agora tem, não saiam a mim com suas valias; porque terão possibilidade e tempo de cumprir o que tanto desejam, e mais escusarão trabalho, que a El-Rei meu Senhor por todos respeitos não é conveniente nem necessario, e esta só mercê peço a Deus que seja assi, porque é a maior que d'elle posso receber; e se não vierem a mi então chegaremos á ponte de Loures, e d'ali faremos volta por Torres Vedras e Obidos até Coimbra, onde esperamos a ventura que vier, e espero que a Rainha minha filha, e o Infante D. Anrique meu irmão remedeiem em tanto meus feitos, como a minha honra e estado cumpre.
Mas esta esperança que o Infante publicava de seu irmão, era para com ella favorecer e animar sua gente; porque em seu coração já tinha certa desesperação, o que acabou de confirmar quando por tres dias que em Rio Maior esteve, não viu em seu favor recado de seu irmão nem da Rainha, em que até então muito confiava. E o que os prudentes poderam conceber de tão errado conselho e tenção, como o Infante em tal tempo e caso seguiu, não foi salvo que desejando de morrer com algum mais cumprimento de sua honra, e com maior descargo de sua conciencia, quiz antes ser cometido d'El-Rei, que parecer cometedor, e que por isso lhe deu as costas, de que mostrou alguma prova e experiencia o lugar em que ao diante foi morto em que se alojou, onde por tres ou quatro dias repousou, podendo-se n'elle livremente salvar.
Como o Infante partiu de Rio Maior e se foi a Alcoentre, e as pessoas d'El-Rei que hi mandou matar, e a causa porque
E porém o Infante moveu de Rio Maior contra Lisboa, e a opinião e rumor geral era, que por trato que com alguns d'ella tinha, se queria n'ella acolher e remedear; e com quanto esta fama era fingida e não verdadeira, não leixou de causar morte crúa a dois mancebos de Lisboa, que por haver n'elles suspeita de trato por serem criados do Infante, foram publica e innocentemente feitos em quartos, e postos pelos mais publicos lugares da cídade.
Seguiu o Infante seu caminho em sua ordenança, e a uma sexta feira XVI dias de Maio chegou ao lugar d'Alcoentre, em que dos ginetes e corredores d'El-Rei foi sempre seguido e perseguido, dizendo em altas vozes contra elle que os ouvia, palavras torpes e mui feas, chamando-lhe traidor tirano, e falso hypocrita roubador do povo, com outras vilezas e fealdades a estas conformes, das quaes o Infante sempre encomendava aos seus que se não anojassem nem lhes respondessem, e porém elle em as ouvir recebia em si muita dôr e grande sentimento, especialmente porque as bocas d'aquelles, porque tantas torpezas contra elle sahiam, já lhe muitas vezes beijaram as mãos por honras e mercês que d'elle receberam, e como alojou alli seu arraial, coube a guarda da herva e lenha a Aires Gomes da Silva, sobre que vieram logo corredores da gente d'El-Rei travando com elles, e procurando escaramuça com desejo da gente do Infante se desmandar por algum seu dano, e com esses rebates que na guarda se faziam, veiu nova ao arraial que Aires Gomes com sua gente era dos d'El-Rei cercado e posto em grande affronta, a que o conde d'Abranches com grande trigança logo sahiu, e com elle quasi todos os do arraial não guardando alguma regra em sua sahida, antes com muita desordem e desmando romperam por muitas partes o palanque, e deram com muita força nos corredores, de que alguns d'elles achando-se atalhados, querendo-se salvar cahiram em um grande tremedal e lagoa, de que não poderam sahir, onde entre mortos e presos ficaram logo até trinta, e os vivos levaram logo ante o Infante, entre os quaes o principal era um Pero de Castro, fidalgo e criado do Infante D. Anrique, a que o Infante D. Pedro disse:
«Ó máo ingrato e traidor, assi como por tua boca sahiram hoje tantas vilezas, com que tão falsa e desavergonhadamente magoavas minha pessoa e estado, como tambem não entraram em tua memoria as muitas honras e mercês, que de mim tão poucos dias ha recebestes, para as leixares de dizer, e contentares-te de me fazer mal com tuas mãos, cá pareceram por tua escusa que eram forçadas d'outro mando e senhorio maior, e não com a lingoa com que cuidavas que me escandalisavas os ouvidos, e tu feriste-me no coração, certamente a morte com que logo acabasses, ainda seria áquem da culpa que tens, e pena que mereces.»
E então com um páo que tinha na mão lhe deu por cima da cabeça, e sobre esta pancada houve logo dos que eram presentes tantas feridas, de que logo morreu, e dos outros uns mandou o Infante logo degolar, e outros enforcar, segundo a condição das pessoas que eram.
Aquelle dia escapou por grande ventura Gonçalo Rodrigues de Sousa, que era capitão dos ginetes. E assi alguns outros a que valeu a bondade de seus cavallos; porque até o logar de Pontevel lhe seguiu o conde o encalço, e d'alli temendo alguma volta de gente fresca e mais poderosa, se tornou para o Infante.
Com a morte d'estes homens não foi menos a torvação e desmaio no arraial do Infante, do que foi alvoroço e indinação contra elle em toda a côrte d'El-Rei, a que as novas chegaram logo de noite; porque a mais da gente do Infante vendo tamanha crueza, julgaram-na por claro rompimento contra El-Rei, e temendo a pena da culpa em que por isso encorriam, pungidos da lealdade que não podiam encobrir, mostravam em suas caras uma publica tristeza, que de seus corações dava mui certos sinaes de fraqueza, com que muita gente, especialmente de pé, logo aquella noite fugiram do arraial, e por serras e veredas como melhor podiam se tornaram a suas casas, a que o doutor Alvaro Affonso com uma publica fala que a todos sobr'isso fez, quizera remedear mas não aproveitava.
Como El-Rei proveu e segurou a cidade de Lisboa para o Infante se não recolher a ella
Como El-Rei foi certificado da ida do Infante a Lisboa, receoso de ser com fundamento d'algum trato que n'ella tivesse, mandou logo por mar e por terra muitos fidalgos e outra gente, que a guardaram e seguraram a seu serviço. E moveu logo de Santarem contra o Infante com muita e mui formosa gente, que segundo a sentença dos que o melhor deviam saber, entre de cavallo e de pé, seriam numero de trinta mil homens de peleja, que segundo as memorias dos que a viam, foi a mór somma de gente d'armas que até então n'este reino se ajuntou.
Foi El-Rei conselhado que não apressasse suas jornadas, assi por melhor trato e alojamento de suas gentes, como porque tendo a cidade segura, quanto o Infante mais a ella se chegasse, tanto se despunha a maior perigo, pelo damno que dos moradores d'ella, álem dos que d'El-Rei podia receber.
Como o Infante partiu de Castanheira, e se foi alojar no Ribeiro d'Alfarrobeira
E o Infante sendo no campo junto com o lugar da Castanheira, foi avisado que El-Rei era já de Santarem contra elle partido; e porque o lugar em que estava era campo devasso e sem disposição de se poder defender, e muito menos de resistir, principalmente porque a gente não leixava cada dia de lhe fugir, leixando já alguma parte de sua fardagem, partiu um domingo com voz de se ir a Lisboa, em que n'aquelle dia queria entrar. Mas isto se fingio assi por tal, que a gente na esperança de se salvar fosse com elle e não lhe fugisse mais, e ante do meio dia se alojou logo a além d'Alverca, em um ribeiro que se diz d'Alfarrobeira.
E o assento de seu arraial na maneira em que estava, foi d'aquelles que nas cousas da guerra tinham bom conhecimento muito louvado; porque havia n'elle disposição natural e artificial para poucos se defenderem a muitos, e alli houve o Infante por melhor esperar sua ventura e não seguir ávante, assi porque foi logo avisado da guarda de Lisboa, que de todo estava irada contra elle, como porque tinha ainda esperança que quando El-Rei sobre elle chegasse e o visse, que teria lembrança de quanto serviço lhe fizera, e não se esqueceria d'outros muitos seus merecimentos, com que lhe fizesse algum bom e seguro partido, e que para outros lh'o lembrarem e fazerem fazer não acabava de desconfiar do Infante D. Anrique, e d'outros muitos a que já fizera honra e mercê. E quando isto assi não sobcedesse, e o rompimento não se escusasse, que ao menos tinha escolhido lugar onde como Principe acabaria, e não sem alguma vingança.
E alli esperou El-Rei, que logo á terça-feira, vinte dias de Maio, pela manhã, chegou sobre elle, e mandou assentar seu arraial, de que o Infante ficou de todo cercado. E em vindo El-Rei com suas batalhas para chegar ao Infante, o conde d'Abranches sahiu e foi vêr sua gente, de cuja somma, gentilleza e percebimento foi muito maravilhado, e em volvendo como quer que de praça para esforço dos seus mostrasse e dissesse o contrairo, porém ao Infante não encobriu a verdade, a quem desenganou da pouca esperança que em sua resistencia e forças devia ter, e alguns disseram que o conde pedira e requerera ao Infante, vista a desegual comparação que havia de uns a outros, que só se fosse e salvasse, e o leixasse com sua gente alli, onde folgaria acabar por seu serviço, e que o Infante não quizera. Mas, o que mais verdadeiramente ácerca d'isto se deve crêr, é que o conde pela certa sabedoria que tinha do proposito do Infante, que era morrer, e pelo consagramento que ambos por isso tinham feito, não lhe cometteria nem ousaria cometer tal cousa, em que ao menos ficava o Infante por fé perjuro e fraco.
Como El-Rei chegou sobre o arraial do Infante D. Pedro, e como por caso e sem deliberação se seguiu sua morte
El-Rei trazia já determinado por aquelle dia em que sobre o Infante chegou não o cometer, nem lhe dar combate algum, e dizem que com algum fundamento de bem para o Infante, e porém por seus trombetas e Reis d'armas e arautos mandou em torno do arraial do Infante dar espantosos pregões, mandando a todalas pessoas que com elle eram, que logo sob grandes penas com suas armas o leixassem, e se viessem a El-Rei. Ao que nenhum dos do Infante obedeceu, antes do arraial d'El-Rei se lançaram com o Infante pelo amor que lhe tinham, Fernão da Fonseca, seu criado, alcaide de Lisboa, que por este caso sahiu depois de seu siso, e assi acabou; e João Vogado, que depois foi escrivão da fazenda d'El-Rei, e estes escaparam, e Rodrigo d'Anellos, bom cavalleiro, e um Gonçallo Fernandes, que fôra corregedor da côrte, que ambos logo ali morreram.
E no travamento que n'este dia sem mandado d'El-Rei nem de seus capitães houve de uma gente com a outra, de que se seguiu a morte do Infante e do conde d'Abranches, houve muitas opiniões, porém aquella que os de mór auctoridade afirmaram é esta:
Andando as gentes de uma parte e da outra provendo suas necessidades, buscando os cercados do Infante maneiras para se defender, e os mais d'El-Rei para ofender, aconteceu que certos besteiros da gente d'El-Rei tomaram uma encuberta, e se meteram escondidos em um arvoredo que sobre a agua hi estava, d'onde sem serem vistos faziam tiros aos do arraial do Infante, de que alguns desavisadamente cahiam mortos e feridos. E Alvaro de Brito Pestana, que tinha então carrego dos espingardeiros d'El-Rei, lhes mandou outrosi, que de um cabeço em que estavam tirassem aos do Infante, em que se fez algum dano, e o Infante vendo começos de tanto mal, pelo em alguma maneira desviar, mandou poer fogo a algumas bombardas que trazia encarretadas, e que tirassem aos do cabeço, de que cria que o dano recebido procedia, d'onde por máo tento e pouco resguardo d'algum bombardeiro dos do Infante sahiu a pedra de uma bombarda que foi dar junto com a tenda d'El-Rei, sobre que muita e nobre gente logo acudiu, cuidando que na pessoa d'El-Rei fizera algum dano como publicamente se disse, o que não fez.
E porém foi por isto tanto o alvoroço na gente de El-Rei, e com tamanha indinação contra o Infante e os seus, que logo sem outro mandado nem repartida ordenança de peleja como se esperava, guiados sómente de sua sanha, deram mui fortemente no arraial do Infante, e romperam e entraram por muitas partes, cuja gente, e pela maior parte de pé, não podendo sofrer tanta força, com tamanho medo e perigo esquecidos do amparo e defesa do Infante, o leixaram e começaram de tomar a fugida por sua salvação, e o Infante vendo tamanha afronta, andando a cavallo se poz logo a pé com leves armas, socorrendo aos lugares de mór necessidade e fraqueza com grande esforço, o qual por armas defensivas trazia sómente vestida uma cota de malha, e em cima uma jorne de veludo cremesin, e na cabeça uma servilheira. E vendo elle que sobre a parte de sua estancia que era já rota recrecia a mór afronta de peleja, acudiu ali com muita trigança e ousadia; porque em caso que a vil gente lhe fugisse, não falleceram outros muito bons que com esforçados corações oferecendo já suas vidas á morte sostinham e defendiam sua querella, tanto quanto e suas forças era possivel. E como quer que o Infante d'alguns cavalleiros de sua guarda fosse requerido que se retraisse, aconselhados da força e multidão da gente que viam contraira, a que não podia já resistir, elle o não quiz fazer, antes com sua cara esperta e segura, posposto todo o medo e perigo, rompendo por sua gente em que já via muitos mortos e feridos, seguiu adiante, e não com ociosidade do seu braço direito, com que segundo testemunho dos que o viram, álem d'outros que feria bravamente, dez escudeiros de seu ferro ficaram alli mortos, e andando o Infante assi revolto n'esta peleja foi nos peitos ferido de uma seta que lhe atravessou o coração, de que a poucos passos e menos horas cahiu logo morto, sem antes nem depois receber outra ferida, e o bésteiro que o ferio bem foi conhecido e havido por assaz destro em seu oficio, o qual com outros de seu mester segundo fama, foram em especial pelos imigos do Infante escolhidos e ordenados contra elle, para mais cedo abreviarem sua morte, a qual elle recebeu com sinaes de verdadeira contrição e grande arrependimento de seus pecados, que deu piedosa esperança da salvação de sua alma, pelos quaes sinaes o Bispo de Coimbra, que sobre elle logo acudio, o assolveu em lhe a alma saindo da carne; porque não houve tempo de confissão, que elle nas derradeiras palavras de sua vida afincada e devotadamente pediu; e porém elle no mesmo dia fôra confessado e absolto, e fizera em seu testamento que leixou algumas adições, porque claro pareceu que acabou como sempre viveu, catolico e bom christão, e leal vasallo e servidor d'El-Rei, em edade de cincoenta e sete annos.
Como o conde d'Abranches tambem logo foi morto, e como acabou como esforçado cavalleiro, e do que se mais seguiu no cabo da batalha
O conde d'Abranches andando a cavallo em outra parte do arraial, provendo e resistindo em sua estancia como bom e ardido cavalleiro, a muitas afrontas que o perseguiam, um moço chegou a elle e chorando lhe disse:
«Senhor conde que fazeis; porque o Infante D. Pedro é morto». E o conde com quanto esta embaixada era de morte, que sem escusa nem dilação desafiou logo sua vida, elle com a cara segura e o coração esforçado disse ao moço «calla-te e aqui o não digas a ninguem». E com isto ferio rijamente o cavallo das esporas, e foi-se descer em seu alojamento, onde sem alguma torvação pedio pão e vinho, de que por esforçar mais seu esforço comeu e bebeu alguns bocados, e tomou suas armas para com ellas honrar sua sepultura, que era a terra em que havia de cair, e sahio a pé pelo arraial, que de todalas partes era já entrado e vencido, e como foi conhecido logo os d'El-Rei uns sobre os outros carregaram sobr'elle cometendo-o de todas as partes para o matar, mas elle logo com uma lança que cortaram, e depois com sua espada os feria e escarmentava de maneira, que os que a primeira vez o cometiam, de mortos ou feridos não volviam a elle a segunda, e assi pelejou um grande pedaço como mui valente e acordado cavalleiro, não sem grande espanto dos que o viam trazendo as mãos e todas suas armas cheias não de seu sangue mas de muito alheio que espargeo, porque emquanto andou em pé e se pôde revolver, nunca sua carne recebeu golpe que a cortasse. E em fim vencido já de muito trabalho e longo cansaço, disse em altas vozes;—Ó corpo, já sinto que não podes mais, e tu minha alma já tardas—e com isto se leixou cair tendido no chão, e uns dizem que disse,—ora fartar rapazese outrosora vingar villanagem. Cujo corpo que já não resistia, foi logo de tantos golpes ferido, que em breve despedio a alma de si para ir acompanhar a do Infante como lhe tinha promettido, e alli um seu amigo, que não usou do que devia, lhe cortou e levou a cabeça com que a El-Rei foi pedir acrescentamento e honra de cavallaria, e o tronco ficou no chão feito em pedaços, até que por requerimento de João Vaz d'Almada seu irmão bastardo, que era vedor d'El-Rei, houve logo enterramento no campo, e depois sepultura honrada.
E os outros fidalgos e nobre gente que eram com o Infante, vendo tão claro seu destroço, cada um desamparou a defesa das estancias que lhe foram encomendadas, e como desesperados das vidas não lhe fallecendo o coração e acordo para vingarem suas mortes, se soltaram pelo arraial á aventura que se lhes oferecesse, e em fim de mortos, feridos, ou presos não escapou algum.
E dos principaes da gente do Infante morreram ali: João Mascarenhas, alferes do Infante, e Luiz Gomez da Grã, que levava a bandeira de D. James, e um seu irmão, e Diogo Peixoto, e Rodrigo d'Anellos, e outros cavalleiros e escudeiros de boa sorte, e foram muitos feridos; e da parte d'El-Rei morreram principaes Ruy Mendez Cerveira, aposentador-mór d'El-Rei, e Fernão de Sá, alcaide-mór do Porto, e João Rodriguez Toscano, e assi alguns bons com outra gente de baixa condição, que fariam numero de até XXV.
Da maneira que se teve com o corpo do Infante D. Pedro, e como foi vilmente tratado e soterrado
O corpo do Infante jouve todo aquelle dia sem alma descuberto no campo á vista de todos, e sob a noite o lançaram homens vis sobre um pavés, e o metteram hi logo em uma pobre casa, onde entre corpos já vazios d'almas e fedorentos, jouve tres dias sem candea, nem cobertura nem oração, que por sua alma publica se dissesse nem ousasse de dizer, o que foi grande prasmo e vituperio da casa real; porque a honra e acatamento que ali se devia, já não era do Infante morto sem sentido, mas era propria dos vivos que lhe fizessem, e da principal culpa de se isso assi fazer, El-Rei por sua mocidade e poucas experiencias passadas foi justamente então relevado, mas foi attribuida aos velhos e principaes da côrte, imigos do Infante, porque El-Rei n'aquelle tempo em tudo se governava; porque como lisongeiros e bafejados da fortuna, lhe faziam crêr que esta fôra batalha perigosa e campal, e de grande honra sua, em que por sinaes de victoria e triunfo, e por enxalçamento maior de seu estado, e por cerimonia acostumada convinha jazerem assi os corpos no campo da rota, das vidas e sepulturas privados, aniquilando em comparação d'esta a famosa batalha de Farsallia, em que Julio Cesar venceu Pompeo, e a de Canas, em que os romanos foram d'Anibal com tanto estrago vencidos. E isto não se fazia por honra nem estado d'El-Rei, pois claramente era magoa de sua corôa, e publico abatimento de seu sangue, mas ordenavam-no assi seus imigos por acrescentar no cume da desordenada vingança.
Exclamação á morte do Infante D. Pedro
Ó inconstante fortuna, quão secreto segredo é o de tua variavel condição e semelhança de grande poder! Quem se fiará de ti, quem não haverá medo de ti, pois aquelles que com moderados giros allevantas no mais alto gráo da honra e da gloria, esses com apressadas voltas trocas e derribas em profunda pena, em deshonra mortal: os que hoje por tua ordenança fazes ricos, estimados, e grandes senhores, de manhã por tua desordem os tornas logo pobres abatidos em semelhança de servos, para cuja prova para que são outros passados e mais antigos exemplos senão este presente, lembrando-vos quem foi este excellente Infante D. Pedro, e agora vermo-lo jazer onde jaz; porque sendo Principe de tamanho estado, virtudes e grandeza, herdado de tantas terras e senhorio, e dotado de muitas mais bondades e virtudes, e sendo filho legitimo d'El-Rei D. João, Rei no mundo tão glorioso vencedor e nunca vencido, que por seu braço e esforço defendeu e acrescentou estes reinos, e parecia que tu, fortuna, por isso o servias e acatavas, e agora já não sómente vimos que o desconheces, mas ainda na propria patria em que nasceu e que honrou lhe denegas uma pouca de terra em que o metam, e um pedaço de panno grosseiro com que o cubram; hontem sendo vivo o serviam e honravam com razão grandes senhores, e hoje não acha quem morto o enterre, se não servos e pessoas mui vis.
Ó enganosa fortuna ou alguma outra força oculta; porque a este descreto e mui prudente Infante cegastes seu tão claro entendimento e limpo juizo, com que não entendeu o perigo de sua honra, e vida, e fazenda em que se meteo, e vós Infante D. Pedro como não apartastes com vosso siso, devoção, prudencia e lealdade de nevoas de tanta contradição, e a vossa vida e limpeza tão suspeitosas e contrairas; porque não tomastes a longura do tempo por cura de vossas paixões, e seguro remedio de vossos feitos, pois estava em vosso poder, e se havieis que recebieis evidentes agravos e injustas perseguições, causadas contra vós do odio de vossos imigos, que vos faziam n'estes derradeiros dias avorrecer a vida, e por maior honra e descanso vosso desejar a morte como dizeis; porque vos não lembrava para a escusardes, que com ella havieis de necessidade matar e desterrar e destruir vossa mulher e filhos, e os nobres mui honrados amigos, criados e servidores que tinheis, e vos haviam de seguir, despensareis com vossa morte paixões e trabalhos por dardes a estes vida, segurança e descanso, pois o penhor e remedio d'isto era sómente viverdes, e vossa morte havia de ser o contrairo.
E tu fortuna imiga da razão e piedade com tua crueza assi o executaste; porque logo se viu o triste Infante sahir-se em Coimbra dos paços em que vivia, e sem algum resguardo de sua honra e estado, com medo da morte duvidosa, anda-la procurando certa pelas casas pobres e alheias, de maneira que fugindo crueza, parecia que a pedia avorrecendo piedade; vimos de seus filhos, D. James logo preso aparelhado para o cutello, e D. Pedro o maior fugido e desterrado em Castella, pedindo esmollas a quem já fizera mercê, e outros por escapar suas vidas vimos ir escondidos e mudados por terras estranhas, encobrindo com habitos e sinaes de pobreza suas mui nobres pessoas, que o real e mui alto sangue de que descendiam, em honra, abastanças e estado criara; vimos logo seus amigos, criados e servidores, uns mortos e outros presos e desterrados, e todos de suas honras, favores, officios, beneficios, rendas e patrimonios sem alguma misericordia de todo privados.
Ó mui excellente Rei D. Affonso, onde estava vossa piedosa humanidade, onde se escondeu n'este passo vosso singular agardecimento, grande prudencia, e mui alto saber! Ó Divina Providencia! Ó Virtudes Celestiaes, pois com mãos não avaras os XVII annos d'este glorioso e mancebo Rei, n'este tempo dotastes de mais perfeições e bondades d'alma do que a outros Principes de muitos mais annos fizestes; porque tambem lhe não allumiastes seu mui angelico entendimento, com que perfeitamente conhecesse os falsos erros e claros enganos em que seus apassionados servidores e conselheiros n'estes feitos o traziam emlheado e cego por tal, que do conhecimento d'esta verdade e limpeza, que nunca foi conhecida, se evitara a morte e perda de um tão perfeito e innocente Principe, que a elle mesmo Rei sobre todos era proveitoso e mais necessario, pois não é de duvidar que sua vida fôra sempre um forte freio e certa conservação da corôa e patrimonio real de seus reinos, e sua morte havia de ser o que foi redea solta de sua desolução e encurtamento! Ó duque de Bragança e conde d'Ourem vosso filho; porque contra o Infante D. Pedro quizestes ser, e fostes principaes movedores e sós capitães d'esta feia e dorosa empresa!
Não foi certamente por hereje nem máo christão; porque suas obras o aprovavam por mui catholico e amigo de Deus. Nem seria por injusto nem incorrecto nas cousas da justiça, pois n'ella sua balança sem odio nem affeição foi sempre mui egual e direita. Nem prodigo e destruidor do thesouro e fazenda real, pois aproveitou e governou sempre com singular provisão e muita temperança. E se alguma cousa da corôa real tomou e emlheou para ser culpado, não foi para si nem seus filhos, mas foi sómente a que a vós e cousas vossas deu, nem seria por ser de fraco coração e não desposto para defensão dos reinos que regeu, pois sabeis com quanto esforço, deligencia e ousadia sempre os defendeu, procurando-lhe sempre paz e justiça, e nunca guerra nem torvação, pois certamente menos devera ser por desleal, ou por se sentir n'elle como tyranno alguma vituperada cobiça e danado desejo para reinar, segundo ao novo rei e a seu povo, para sua maior indinação fizestes entender, pois a todos foi notorio que não sómente se não achou contra elle culpa, porque verdadeiramente assi parecesse, nem se podesse bem conjecturar, mas ainda está claro, que durar a vida d'El-Rei tanto tempo em seu poder, e procura-la sempre com tanto amor e cuidado juntamente com sua mui real e perfeita creação o relevam contra si de semelhantes maginações, e de todo o alimpam d'esta errada suspeita, cá por suas muitas virtudes e grande lealdade teve como era razão a vida, saude e estado d'El-Rei em tanta veneração e resguardo, que álém de se conhecer que sobre todalas cousas o amava, ainda parecia que o adorava, e se em seu coração entrara proposito tão reprovado, elle ou secreta ou artificialmente o privara da vida, para que teve largo tempo e boa disposição, ou o fizera criar e criara em tanta torpeza e danados costumes, com que não podendo os máos leixar nem dos bons aprender, se fizera para si mais dino de privação que da governança e regimento de nenhum reino, cujo defeito e indisposição causara requerer-se n'estes outro novo regedor ou rei como já outras vezes se fez, mas não se póde negar que El-Rei assi para Deus e para o mundo, como para si mesmo e para seus reinos e vassallos, foi tão altamente criado e ensinado tão perfeitamente, que a certidão d'isso que em sua real pessoa e mui nobre coração por evidencia de obras claramente se mostrava, fazia que nos reinos estranhos por sua louvada fama fosse desejado por seu proprio Principe, e nos seus proprios servido e adorado por Rei; e porque o Infante D. Pedro tal o criou, bem se viu que por tal o amou e serviu sem alguma sua quebra nem defeito, usando seu officio de regente com tanta perfeição e cumprimento, que mais pareceu que acceitara tal cargo para sua pena e trabalho, mais que para sua gloria nem descanço, cujo galardão devera ser outro e não este que lhe procurastes, cá vos leixaste guiar d'odio, inveja e cobiça, com que lhe causaste a morte tão vituperada com tamanhas maguas em sua limpeza; mas porque com isto a bondade e justiça de Deus foi claramente offendida, elle como justo e poderoso que é, não permittiu que tamanha culpa ficasse sem grave pena e justa vingança, pelo qual sua severa justiça e profundo saber, a que nada s'esconde ainda que fosse por tempos e passos tão vagarosos, quiz por castigo d'este e por enxemplo d'outros, que qual de vós irmãos infante e duque, em tantos males, mortes e desaventuras um ao outro tivesse a culpa, o neto do innocente, no neto do culpado com deshonrada e mortal pena de sangue egualmente a vingasse e justificasse depois, e assi se fez, como d'esta triste e espantosa execução depois de muitos annos passados a praça d'Evora foi publica testemunha, segundo em seus tempos e logares está mais declarado.
E acabados os tres dias o corpo do Infante por homens de prema, e com consentimento d'El-Rei foi levado em uma escada á egreja d'Alverca, onde porentão foi vilmente e com grande desacatamento soterrado; porque depois houve outras sepulturas, e com grandes cerimonias e solemnidades, como ao diante se dirá.
Das feições, costumes e virtudes do Infante D. Pedro
O Infante D. Pedro por certo foi um singular Principe, dino de louvor entre os bons e louvados Principes que no mundo em seu tempo houve, homem de grande corpo, e de seus membros em todo bem proporcionado, e de poucas carnes; teve o rosto comprido, nariz grosso, olhos um pouco moles, os cabellos da cabeça crespos, e os da barba algum tanto ruivos como inglez; seu andar a pé era vagaroso e com grande repouso, suas palavras eram graciosas, com doce orgão de dizer, e nas sentenças mui graves e sustanciaes, e quando alguma sanha o tocava era sua cara mui temerosa, e porém não lhe durava muito, cá por siso ou condição natural, logo se lembrava de mansidão e temperança; foi algum tanto culpado em credeiro e vingativo, ainda que o desejo da vingança pareceu que não foi n'elle de grande e vicioso ardor, pois dilatou e temperou a que teve em sua mão, que para sua vida fôra mui segura e necessaria.
Suas roupas e trajos e maneira de viver, foram sempre de homem honesto, prudente e grande autoridade, e de moço até idade de LVII annos, em que acabou, sempre foi muito catholico temente a Deus, e de grande oração, e fez muitas esmolas. Honrou muito as pessoas ecclesiasticas a que sempre se escusou dar suas mãos a beijar, nem consentio estararem em giolhos ante elle.
Foi mui temperado em todolos autos da carne. Nunca se soube ter com alguma outra mulher carnal affeição, salvo com a sua propria, que legitimanente recebeu, com que ainda usava de grande temperança, cá como devoto e mui continente se apartava d'ella em todolos dias de jejuns, e dias outros solemnes da Egreja. E nas quaresmas com as roupas que de dia trazia, com essas de noite se lançava sempre vestido sobre palha, sem outra roupa nem cama ordenada; cada dia por sua devoção rezava as Oras Canonicas segundo custume romão, com outras muitas orações em que tinha devoção. Foi muito devoto do Arcanjo S. Miguel, por cuja devoção touxe por divisa as balanças; porque em sendo moço em uma doença que teve, foi de todos julgado por morto, e por um Martim Gonçalvez, capellão d'El-Rei seu padre foi assi levado ao altar da capela de S. Miguel, que está nos paços de Lisboa, a que foi devotamente encomenda-lo, d'onde milagrosamente logo retornou com vida e saude, em cuja memoria e por sua singular gratificação, com suas despesas proprias mandou fazer nos dias que viveu casas e obras muitas piedosas, assi como a egreja da cerca de Penella, e S. Miguel d'Aveiro, e o mosteiro de Santa Maria da Misericordia, que deu á ordem de S. Domingos, e a egreja de Tentugal com outras.
Fez sempre uma mui louvada profissão do tempo, que nunca em seus dias lhe passou sem beneficio ou louvor; teve para todalas cousas horas certas e limitadas que nunca traspassou; deu a casa de Santo Eloy de Lisboa, em que jaz o Bispo D. Domingos Jardo, aos clerigos da ordem e regra de S. João Evangelista.
Foi Principe de grande conselho, prudente, e de viva memoria, e foi bem latinado e assaz mistico em sciencias e doutrinas de letras, e dado muito ao estudo; elle tirou de latim em linguagem o regimento de Principes, que Frei Gil Correado compoz, e assi tirou o livro dos Officios de Tullio, eVegecio de Re Militari, e compoz o livro que se diz daVirtuosa Bemfeitoriacom uma confissão a qualquer christão mui proveitosa. E foi mui justo, de que lhe veiu sempre avorrecer os máos, e fazer bem aos bons.
Foi muito verdadeiro e mui constante, e de mui claro entendimento; foi liberal com medida, e assi caçador e monteiro com temperança; porque o estudo em que se mais deleitava o privava de semelhantes prazeres; fez primeiramente usar que os Reis e Principes n'estes reinos comessem em publico, e fossem em suas mesas acompanhados, o que d'antes não faziam, cá pela mór parte sempre comiam retraidos; dizendo elle que suas mesas deviam ser escollas de sua côrte, para que costumava mandar lêr proveitosos livros, e ter praticas e disputa, de que se tomava muito ensino e doutrina.
Tirou as aposentadorias de Lisboa, e ordenou os estaos que deu causa a grande ennobrecimento da cidade, e assi fez outras muitas obras boas, e proveitosas ordenanças para o reino.
Porque sua alma recebera de Deus o galardão, pois em sua vida este mundo lhe foi tão ingrato.
Do que a Rainha fez com a nova da morte do Infante seu padre
A Rainha D. Isabel mulher d'El-Rei e filha do Infante D. Pedro ficara em Santarem, onde em breve lhe foi dada a triste certidão da morte de seu padre, que ella com publicos sinaes de mortal dôr muito sentio e chorou, e não como alheia mas como sua propria morte, e não era sem causa; porque em caso que não houvesse n'ella tantos dias nem tão madura edade, de que se esperasse perfeito conhecimento nas cousas, era porém naturalmente abastada de muita discrição e prudencia com que sentiu bem, que álém da grande perda que na privação de seu padre, não sendo vivo recebia, ainda sua vida com morte antecipada se dispunha a claro perigo como foi, e sobre tudo lhe dava mór tormento parecer-lhe que os imigos do Infante seu padre teriam com sua morte mais coradas causas a aprivarem e apartarem El-Rei seu Senhor d'ella, pois ante d'isto e sem alguma razão com grande instancia já o procuravam, como atraz fica.
Como a Infante mulher do Infante D. Pedro soube de sua morte, e do que se fez de seus filhos
A Infante mulher do Infante D. Pedro era em Coimbra, onde sendo salteada com a nova triste de sua morte e da prisão de D. James seu filho, desejando achar quem logo a matasse, andava sem algum acordo de mosteiro em mosteiro, e por casas alheias, não por escapar sua vida que já avorrecia, mas por escusar á morte e prisão d'outros seus filhos que comsigo trazia, e não sem muitas lamentações e grandes prantos seus, e de muitas pessoas que a seguiam e acompanhavam.
Ficaram do Infante estes filhos, a Rainha D. Izabel mulher d'El-Rei, e D. Fellipa, que ella já trazia em sua casa em edade de sete annos, a qual não foi casada, e sem obrigação de religião, viveu e acabou mui honesta e santamente no mosteiro d'Odivellas, onde jaz, e o Senhor D. Pedro seu filho maior, que depois sem casar morreu em Barcellona, intitulado Rei d'Aragão, e D. James que depois foi Arcebispo de Lisboa e cardeal em Roma, e jaz mui honradamente sepultado em Florença, e D. João que morreu casado intitulado Rei de Chipre, e D. Briatiz que foi honradamente casada em Borgonha pela duqueza sua tia com Monseor de Cleves, de que nasceu o Filipe Monseor que foi lá Gram Senhor.
N'esta peleja foi preso D. James filho do Infante, e com elle muitos fidalgos e outra nobre gente do Infante, com que El-Rei acerca de suas solturas se houve com aquella nobreza e piedade que de tal Rei sobre victoria se esperava. E pelos ditos e testemunhos dos presos, foram logo tiradas inquirições sobre as culpas de desleal em que culpavam o Infante, e mais buscados para isso os cofres de suas escrituras, que no arraial foram tomados, e finalmente contra elle não se achou outra cousa, que com razão magoasse sua limpeza e bondade, salvo represando errado juizo por não obedecer ao conselho de se não mover de Coimbra e seguir opinião tão errada, como foi partir-se d'ella, onde se esperava era de crêr, que seus feitos andando o tempo tiveram bom remedio, e sua vida e honra receberam segura salvação.
Como os imigos do Infante procuravam que El-Rei se quitasse da Rainha, e quão virtuosamente El-Rei o fez com ella
El-Rei cumpriu alli no campo os tres dias, que para cerimonia do vencimento da batalha lhe fizeram crêr que eram necessarios, acabados os quaes despediu alguma gente do seu arraial, e com os Infantes, duque, e condes e prelados, e com outra muita e mui nobre gente, partiu para a cidade de Lisboa, onde foi mui altamente e com grande triumfo recebido, e alli por causa ainda do Infante se fez justiça crua d'alguns e mui innocentes.
E os imigos do Infante D. Pedro consirando no muito amor e grande affeição que El-Rei tinha á Rainha sua mulher, e no muito maior que ao diante com razão lhe poderia ter, com que o provocaria sempre para vingança e destruição sua, logo como viram a morte do Infante, lhe conselharam e requereram, que para segurança de sua vida, bem e assessego de seus reinos e vassallos se quitasse d'ella como de imiga, e já suspeita á sua real pessoa, e houvesse outra mulher, cá para Deos e para o mundo o podia e devia fazer. Allegando-lhe para isso muitas causas e razões que pareciam boas e necessarias, para cuja aprovação não falleciam autoridades e direitos, nem menos theologos e letrados induzidos que o confirmavam. Mas El-Rei em que havia bondades reaes e mui sã consciencia, e que nas virtudes e amor da Rainha tinha mui gram confiança, não deu a isso consentimento, antes para magoa e desfavor dos que tamanho erro lhe aconselhavam, o que elle muito estranhou, a mandou logo visitar e aconsolar a Santarem, e escusar-se com palavras de muito amor de a não ir vêr, e pedir-lhe que ella por si mesma o fizesse.
E com esta visitação de que a Rainha estava desesperada foi em sua paixão e tristeza mui satisfeita, e sem muito trespasso, sendo d'El-Rei primeiro certificada do modo em que a elle pelo mais contentar iria, deu logo ordem á sua partida; e ella com suas damas e casa, por accordo d'El-Rei, se vestiu com uma honesta temperança de dó. El-Rei sahiu a recebe-la, e d'elle e de toda sua côrte foi com tanto acatamento e tão grandes cerimonias recebida, como até seu tempo nunca o foi outra Rainha, e na vista e fala que ambos logo houveram, pareceram mostranças de tanto prazer e contentamento, como se nunca entrevieram as desaventuras passadas.
Como El-Rei fez aos Reis e Principes christãos uma geral notificação da morte do Infante, e das respostas que houve, e da embaixada do duque e duquesa de Borgonha, que sobre a morte do dito Infante e sua desculpa foi principal
E porque esta morte do Infante nos reinos e terras estranhas parecesse justa, hi logo em Lisboa firmaram os imigos do Infante uma instrucção contra elle, assaz feia e mui difamatoria, que El-Rei por escusa e justificação de sua morte enviou por seus messegeiros ao Papa e alguns Principes christãos, cujas respostas não vieram conformes a sua tenção, antes todos sem exceição, com apontamentos de muitos louvores e grandes merecimentos do Infante, enviaram acerca de sua morte muito reprender El-Rei, avisando principalmente as paixões particulares e enganos dos de seu conselho, e escusando em alguma maneira sua pouca e não madura idade, pois tinha razão de se reger e governar por elles.
E porém El-Rei deu logo Guimarães ao duque de Bragança, que sempre requerera e lhe fôra denegado pelo Infante D. Pedro, e quizera haver a cidade do Porto, a que se seus cidadãos não resistiram, já a vontade de El-Rei era inclinada, e por esta maneira deu a villa de Portalegre ao conde D. Sancho, a que valeu a resistencia e leal porfia dos moradores.
E porém a principal embaixada que a El-Rei sobr'este caso do Infante veiu, foi uma do duque Felipe de Borgonha e da duqueza D. Isabel sua mulher, irmã do Infante D. Pedro, em que veiu por embaixador o Daião de Vergi, que com muitas causas e razões fundadas em razão e direito, o enviaram escusar e aprovar sua innocencia e limpeza e pedir para seu corpo a sepultura que lhe El-Rei D. João, seu padre, em sua real capella ordenara, e assi que se não negasse para sua mulher e filhos e criados amparo e piedade, a que pedio que fossem restituidas suas honras e fazendas.
E como quer que o effeito d'este requerimento, por contemplação do duque e de seu filho foi algum tempo suspenso, porém não tardou muito que por elle D. James se soltou, e se foi a casa da dita duquesa sua tia, e de sua mão enviado a Roma, onde pelo Papa Callisto foi feito Cardeal do titulo de Santo Estaço, e após elle foi D. Briatiz sua irmã, que a duquesa com muita honra lá casou, como atrás já brevemente fica tocado.
E porque na primeira denegação que El-Rei fez á sepultura do Infante o dito embaixador requereu que lhe mandasse dar seus ossos para os levar a Borgonha, onde a duquesa sua irmã lhe daria sepultura honrada e merecida, receoso El-Rei de os furtarem da egreja d'Alverca, onde devassamente jaziam, os mandou tirar e levar ao castello d'Abrantes, cuja guarda e segurança encomendou a Lopo d'Almeida, que depois foi primeiro conde d'Abrantes.
De como a judaria de Lisboa foi roubada, e a causa porque
E no fim d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e nove, certos moços christãos por travessura fizeram algum mal, ou sem razões a alguns judeus que andavam na ribeira de Lisboa, sobre que se agravaram á justiça e ao doutor João d'Alpoem, que era corregedor, o qual provendo sobr'isso, mandou publicamente açoutar alguns d'elles, de que algum povo meudo e a voltas d'elle outras gentes que eram na cidade, assi se escandalizaram dos judeus, que sem mais outro acordo nem conselho, antes com grande onião e alvoroço, dizendomatalos e roubalos, cometeram a judaria pela porta que vem ao poço de Fotea, e a roubaram toda até o Poio, em que dos judeus que supunham em resistencia houve alguns mortos, ao qual insulto logo acudiram com muita força os officiaes da justiça, e principalmente D. Alvaro conde de Monsanto, que com suas forças atalharam o mais roubo e dano que se determinava fazer.
Foi El-Rei d'isto logo avisado por Pero Gaçalvez seu secretario, estando já com a Rainha na cidade d'Evora. E pedido com grande instancia, que a esta necessidade em pessoa quizesse prover, porque os rumores e alvoroços eram já taes na cidade, a que sem sua pessoa não se esperava resistir, á qual cousa El-Rei veiu em pessoa, e de muitos que pelo mesmo caso achou presos, mandou fazer publicas justiças, de que contra sua real pessoa se alevantavam oniões tão irosas, que houve por bem cessar de fazer mais cruas execuções; porque prendiam e puniam principalmente as pessoas, em cujas mãos as cousas do roubo por qualquer maneira se achavam; porque muitos que as não roubaram innocentemente padeciam.
De como foi o casamento da Inperatriz D. Lianor irmã d'El-Rei com o Imperador Frederico, e festas que por elle se fizeram
Tornou-se El-Rei a Evora, e na entrada do anno de mil e quatrocentos e cincoenta, houve cartas do Imperador d'Allemanha Frederico, que então se chamava Rei dos romãos, porque lhe prazia casar com a Infante D. Lianor sua irmã, segundo que fôra já apontado e requerido por El-Rei D. Affonso Rei de Napoles e d'Aragão seu tio d'ella, sobre a qual cousa El-Rei veiu ter côrtes geraes em Santarem, em que foi acordado que o dito casamento se fizesse, para cujo dote o reino com pedidos satisfaria o que fosse razão e se concordassem.
Foi logo para isso ordenado por embaixador o doutor João Fernandez da Silveira, homem fidalgo prudente e grão letrado, que depois foi o primeiro barão d'Alvito. O qual no mez de Junho do dito anno se partiu e foi á côrte do dito Rei de Napoles, onde com os embaixadores e procuradores do Imperador, que para o caso eram hi vindos, o dito doutor por meio do dito Rei a que tudo ia cometido, concertaram o dito casamento, de que fizeram autenticos contratos, e assinaram tempo certo a que o dito Imperador enviaria sua embaixada com seu suficiente procurador, para em seu nome receber por mulher a dita Infante, que havia de ser na entrada do anno que vinha de mil quatrocentos e cincoenta e nove, e logo levada a Allemanha. Da qual cousa sendo El-Rei logo avisado, se foi com sua côrte a Lisboa, onde entrou a uma quarta feira XXIII de Junho, que por acertamento foi bespora do Corpo de Deos e de S. João juntamente, onde quiz que o dito recebimento e entrega se fizesse com grandes e reaes festas, para que fez grandes provimentos e deu muita pressa.
E os embaixadores do Imperador que eram dois, tardavam já mais tempo do que fôra concordado, e a causa d'isso foi, porque em Castella no caminho de Santiago, a que vieram em romaria, foram roubados e deteudos, os quaes topou em seu destroço em Portugal, na Arrifana de Santa Maria, Afonso Nogueira, Bispo de Coimbra, que d'hi a pouco tempo logo foi Arcebispo de Lisboa, os quaes ambos eram homens de ordens sacras e letrados, um se dizia confessor do Imperador e outro seu capellão, e vendo Affonso Nogueira sua necessidade, e que não vinham em auto e habitos como cumpria a embaixadores de tamanho Senhor e que tão alto casamento haviam de fazer, determinou indo á mesma romaria de Santiago se volver com elles, a que com suas despezas, prata e cama e servidores, mandou servir e prover com muita nobreza e em grande cumprimento, e em Coimbra fez comprar muitos pannos finos, de que a elles e aos seus mandou fazer de vestir, segundo ás pessoas de cada um pertencia. E com elles leixou hi todo provimento com que de seu vagar se fossem a Lisboa, para onde elle se adiantou; porque avizasse El-Rei do que lhe cumpria, e logo ao caminho se tornou aos ditos embaixadores, com que foi por Villa Franca, onde o Infante D. Anrique os recebeu com festas e mui manificamente, e foram dormir ao Lumiar quinta feira trinta dias do mez de Julho do dito anno de mil e quatrocentos cincoenta e um, e ao outro dia foram recebidos de toda a côrte e cidade com muita e mui nobre gente, e de caminho foram decer aos paços d'Alcaçova. Em que El-Rei na sala grande, que para isso estava em grande perfeição aparelhada, os recebeu assentado em sua cadeira triunfante, posta em seu estrado real, acompanhado de muitos senhores e fidalgos como o auto requeria, e aquella hora não foi mais que d'encomendas e visitações, com as quaes feitas se despediram e foram aposentados nos estaos do Rocio onde lhe foram aparelhadas as casas necessarias como a taes pessoas cumpria. E assi lhe foram ordenados mantimentos e provisões, e outras cousas de graça em muita abastança.
E os ditos embaixadores repousaram alguns dias, dentro dos quaes depois de vistos e examinados os contratos do dito casamento, e assi os poderes que traziam para o fazer, o recebimento entre a Imperatriz e o procurador do Imperador se ordenou de fazer, e fez solemnemente por palavras de presenente nos paços do duque, que são junto com S. Cristovão, a um domingo IX dias de Agosto de mil e quatrocentos cincoenta e um, ao qual foram El-Rei, e o Infante D. Fernando seu irmão, e o Infante D. Anrique seu tio, e condes e perlados e muitos nobres senhores, e assi foi a Rainha com a Infante D. Joana, e com muitas outras donas e donzellas de grande condição.
E por honra e memoria d'aquelle dia depois do casamento acabado, a requerimento da Imperatriz e dos embaixadores, outorgou El-Rei dificeis perdões de mui rigorosos casos, e fez quita de grandes dividas, que para outras pessoas particulares lhe foram requeridas. E houve aquelle dia convite real de vinhos e fruitas em uma notavel perfeição, e assi muitas danças e festas em toda a noite. E depois em todolos dias que a Imperatriz esteve na cidade ante de sua partida houve sempre mui suntuosos banquetes, em que d'El-Rei e da Rainha foi muitas vezes convidada, e assi os embaixadores e Infantes, como em ricos momos que o Infante D. Fernando por si fez, e outros de muito mór riqueza e singular invenção, que o Infante D. Anrique mandou fazer, com outros de muitos senhores e fidalgos, e sobre todos o d'El-Rei, em que desafiou os cavalleiros para as justas reaes, que manteve na rua Nova, com condições mui excellentes e de grande gentilleza, e assi propostos grados e empresas mui ricas para quem mais galante viesse á tea e assim melhor justasse. A que o Infante D. Fernando veiu com seus ventureiros vestidos de guedelhas de seda fina como selvagens, em cima de bons cavallos envestidos e cubertos de figuras e côres d'alimarias conhecidas, e outras diformes, e todas mui naturaes, e o Infante D. Fernando por melhor justador venceu então o grado, que foi uma rica copa de que fez logo mercê a Diogo de Mello. E assi vieram outros seis ventureiros do Infante D. Anrique ricos e em bôa ordenança, e após elles outros muitos, que no primeiro dia e em outros quatro que El-Rei manteve justaram, em que se fizeram notaveis e maravilhosos encontros. E depois das justas houve touros, e canas e mais momos e banquetes e muitos entremezes de grandes invensões, e com muita custa.
Da partida da Imperatriz d'estes reinos, e das pessoas que com ella foram
E finalmente sendo já todalas pessoas ordenadas, e navios e cousas prestes para a partida da Imperatriz, uma segunda feira XXV dias d'outubro ante de embarcar e se meter no mar, ordenou El-Rei que fossem todos ouvir missa á Sé, para onde El-Rei foi diante com a Imperatriz, e após elles a Rainha, e com ella o Infante D. Fernando, e logo a Infante D. Caterina que levava o Infante D. Anrique, e após ella a Infante D. Joanna com que ia o marquez d'Ourem, e estas pessoas reaes foram todas a cavallo, e a outra gente que era muita e mui nobre, assi homens como mulheres foram todos a pé.
E como entraram na Sé a Imperatriz se foi á cortina d'El-Rei, e com ella as Infantes suas irmãs, El-Rei se foi para a da Rainha, que por ser prenhe e ter na emprenhidão fortes accidentes se retraiu a uma capella da charolla em que ouviu missa.
Foi a principal missa dita em Pontifical e mui solemne, e com pregação á partida e auto consoante, acabada a qual, e dada a benção pelo Bispo de Ceuta com muita solemnidade e devoção á Imperatriz, abalaram todos até á porta da Sé, d'onde a Imperatriz com muitas lagrimas se despedio da Rainha que não pôde mais ir, e de hi El-Rei com todolos outros senhores e senhoras se foi com a Imperatriz a pé, até o cais da Ribeira, em que era feita uma ponte de toneis, porque entraram em uma carraca que para ella se armou e concertou em grande perfeição.
E á primeira era ordenado que com ella fosse o Infante D. Fernando, e elle o desejou e procurou assi pela acompanhar mui honradamente, segundo a pessoa que era, como por ir vêr El-Rei D. Affonso de Napoles seu tio que muito desejava. E em fim El-Rei o não houve por bem, e foram com ella o conde de Ourem, que então fôra feito novamente marquez de Valença de Minho, e a condessa de Villa Real a Velha com muitas donas e donzellas, e o Bispo de Coimbra D. Luiz Coutinho, e Lopo d'Almeida, e Pero Vaz de Mello, regedor da casa do civel de Lisboa, e Alvaro de Sousa, mordomo mór, e Affonso de Miranda, e Gomez de Miranda, e Gomez Freire, e João Freire, e D. Diogo de Castello o Velho, e Fernão da Silveira, e Martim Mendez de Berredo, e outros muitos cavalleiros a que então foram ordenadas quinhentas e oitenta emcavalgaduras, e para sua embarcação levaram duas carracas e seis náos, e duas caravellas; e porque depois da Imperatriz ser embarcada sobrevieram ventos contrairos, ella sem sair da carraca esteve no porto sobre ancora muitos dias; e porém como Deos deu vento de viagem, partiram de Lisboa e foram a Ceuta a cinco dias de Dezembro.
E a Imperatriz com todos sahiu em terra, e foi de pé em romaria a Santa Maria d'Africa. Era então capitão de Ceuta o conde D. Sancho, que com as festas que pôde lhe fez muito honrado recebimento, e deu banquetes na terra, e assi muito refresco para o mar. E d'hi fizeram vella, e passaram ao mar grandes e perigosas tromentas, e em fim aportaram a salvamento em porto Liorne, junto com Pisa, bespora de Santa Maria Candelaram, primeiro dia de Fevereiro.