CAPITULO XCVI

De como El-Rei mandou vir o duque de Bragança á sua côrte, e como o Infante D. Pedro determinou que em auto de guerra como vinha não leixaria-o passar for sua terra

El-Rei se partiu de Cintra no começo d'Outubro de mil e quatrocentos e quarenta e sete para Lisboa, d'onde por suas cartas mandou vir á sua côrte o duque de Bragança, de que o conde d'Ourem seu filho mostrou a El-Rei para seu conselho e serviço grande necessidade, e o aviso secreto que o duque de seu filho houve, foi que viesse mais em auto de guerra que de paz; porque já tinham commovido El-Rei para ir logo sobre o Infante D. Pedro. O qual pelas espias que com todos trazia foi logo certificado dos percebimentos de gentes e armas que o duque para isso fazia, e como fazia fundamento de vir e passar em tal auto, e sem prazer do Infante por suas terras, e sobre o que o Infante n'isso faria, de resistir com força sua passagem, ou a dessimular com paciencia, teve com os seus conselhos, em que houve votos desacordados, e finalmente o Infante seguindo a opinião do conde d'Abranches e d'alguns outros que com a sua conformaram, determinou com armas lhe resistir, mostrando que recebia de Deus muita mercê despoer-lhe assim de uma pessoa a elle tão damnosa, vingança tão bem aparelhada e tanto desejada, pelo qual de Coimbra se foi á sua villa de Penella, d'onde as novas de seu fundamento correram logo á côrte d'El-Rei que era em Santarem, e com todo o desfavor do Infante alguns fidalgos seus amigos e servidores que eram na côrte, sentindo que em tal tempo teria d'elles necessidade, se vieram logo para elle, assim como Aires Gomez da Silva com Fernão Tellez, e João da Silva seus filhos, e Luiz d'Azevedo, e Martim de Tavora, e Gonçalo d'Atayde, e outros muitos de menos condição, e n'este caso Alvaro Gonçalves da Tayde conde da Atouguia e seus filhos, sendo criados e feitura do Infante, pelo não irem servir n'esta jornada, foram como ingratos á sua criação e bemfeitoria geralmente bem reprendidos, especialmente que para sua encuberta usaram de praticas, e fazendo-se manhosamente e por suas astucias prender e impedir, para não irem acompanhar e servir o Infante, fazendo-o já desleal e contrairo ao serviço e obediencia d'El-Rei.

O Infante D. Pedro, porque a este tempo ainda tinha no Infante D. Anrique sobre todos grande esforço e muita confiança, mandou logo a elle que era em Thomar, João Pirez Diogo, seu cavalleiro, e por elle lhe enviou notificar e trazer por extenso á memoria os muitos agravos e desfavores que d'El-Rei por seus imigos tinha recebidos, e como lhe parecia que estas cousas, segundo as via guiadas do odio e viradas contra toda razão e justiça, que apertavam muito para sua destruição, avisando-o mesmo por mais claro argumento d'isso, da maneira em que o duque vinha, e como a seu despeito queria passar por sua terra e com que fundamento, pedindo-lhe que em tanta e tão injusta pressa e angustia como esta em que estava, elle por sua bondade e com seu valor e auctoridade, pois era em sua mão, lhe quizesse valer, afirmando se, porém, «que seu proposito e determinação era impedir por força e sem escusa a passagem do duque, pois vindo em sombra de poderoso e tendo outro caminho por que sem escandalo poderia ir á côrte, determinava vir pela Louzã, que era sua villa, sem lh'o primeiro fazer saber».

E o Infante D. Anrique por então lhe respondeu, «que do que então em seu caso, e em tal tempo melhor lhe parecesse, lh'o enviaria logo dizer». Como enviou uma vez por Fernão Lopes d'Azevedo, Comendador Mór de Christus, e outra por Martim Lourenço, tambem Cavalleiro da Ordem, cuja conclusão foi: «que o Infante D. Pedro não fizesse de si alguma mudança, até elle Infante D. Anrique não ser com elle em pessoa, para que dizia que se aparelhava».

Do recado que o Infante D. Pedro enviou ao duque, sendo já em caminho

O Infante D. Pedro como era prudente, e por não poer em seu proposito trabalhos escusados, e não fazer despezas baldadas e não necessarias, antes de o duque passar o Mondego, para saber a tenção com que vinha, enviou a elle primeiro Vasco de Sousa, fidalgo de sua casa, e por virtude de uma carta de crença que levava, em presença dos que com elle vinham publicamente lhe disse:

«Senhor, o Infante, meu Senhor, soube de vossa vinda, e d'este auto de guerra em que com tantas gentes vindes, e é certificado, que quereis assi, sem seu prazer, passar por sua terra, de que é muito maravilhado, assi por esta novidade de gentes armadas, que sem necessidade d'El-Rei, seu Senhor, nem do reino levaes, como por lh'o não fazerdes primeiro saber, que pois assi o determinaveis, que quer saber de vós em que maneira vos ha de receber, e que se houver de ser como irmão e amigo, como elle deseja, que queria que vos vades chã e pacificamente, como sempre fostes, e que d'elle e em suas terras recebereis aquella honra, prazer e gasalhado, que sempre recebestes, e que se com este desacostumado estrondo d'armas quizerdes assi passar, que por quanto pela quebra e rompimento em que com elle estaes, a elle seria fraqueza e abatimento consenti-lo, saibaes que vos hade receber no campo como imigo, mas que n'este caso por escusardes os males e damnos que se d'esta viagem podem seguir, deveis tomar outro caminho porque vades, pois sem seu abatimento nem muito trabalho vosso o podeis bem fazer.»

E com isto Vasco de Sousa se despediu, e tornou ao Infante.

Da resposta do duque ao Infante D. Pedro

Após o qual o duque enviou logo a resposta ao Infante, que ainda era em Penella, por Martim Affonso de Sousa, fidalgo de sua casa, que em presença de todos lhe disse:

«Senhor, o duque meu Senhor vos notifica por mim em resposta do que lhe ora enviastes dizer, que depois que nascestes, sempre vos teve por irmão e amigo, a que desejou fazer prazer e serviço, e que agora por este vos tem, e não com menos desejo e vontade, e que por cumprir o que El-Rei lhe mandou, vae a sua côrte por esta estrada publica, e que a gente que traz não é d'ajuntamentos nem d'alvoroço como vos fizeram crêr, mas é a que o soe de acompanhar, e que de vir em acertamento seguido para a côrte caminho direito, haver de tocar vossa terra, que não sabe como seja caso d'agravo nem escandalo vosso; porque n'ella não ha de consentir que se faça damno, força, nem tomadia, sómente pedirem alguns mantimentos se forem necessarios, por seus dinheiros, como vós podereis fazer em suas terras quando por ellas de vontade, ou por necessidade quizesseis passar, e que por tanto elle determina todavia seguir assi seu caminho sem outro desvio, que vos pede que o hajaes assi por bem.»

E o Infante sorrindo-se fingidamente e com cara cheia de verdadeira sanha, lhe respondeu:

«Martim Affonso, dizei ao duque, que não sou tão nescio nem elle tão avisado, que com suas dissimulações haja de enganar minha pessoa, nem abater minha honra; muitos dias ha que nos conhecemos, e muitas vezes passou já por minha casa e por minhas terras; e me lembra bem a gente que trazia e a que tem, e agora sei que traz mil e seiscentos de cavallo armados, com outra muita gente de pé que para esta vinda ajuntou sua e alheia, o que não responde aos tempos passados nem menos á paz e amizade que comigo quer ter. E não lhe declarando mais o fim porque assim vem, pois elle o sabe, nem o abatimento que n'isso recebo pois o deve entender. Finalmente lhe dizei, que se elle não toma algum outro modo de vir, porque a todos pareça e seja notorio que elle por minhas terras vem pacificamente e como irmão e amigo, saiba que vivo lh'o não hei de consentir.»

E com isto Martim Affonso sem outro mais repouso se despedio.

Do que o conde d'Ourem ordenou em favor do duque seu pae para não leixar de proseguir seu caminho, e dos recados que El-Rei ao Infante D. Pedro enviou

E o Infante D. Pedro vendo já por estas premissas passadas que o recontro e peleja com o duque em conclusão se não podia escusar, fez para isso aquelles percebimentos de gentes, armas, artelharias, mantimentos e cousas que sentio serem necessarias, e com aquella trigança e diligencia que o caso requeria. Das quaes cousas todas como passavam o conde d'Ourem foi logo na côrte avisado, e por favorecer a parte do duque seu padre não sendo bem seguro e confiado de muitos que n'aquella viagem o acompanhavam, temendo que na maior affronta o leixariam, fez crêr ao Infante D. Fernando, irmão de El-Rei, que por ser casado com a neta do duque, filha do Infante D. João, este caso era proprio seu. Pedindo-lhe que aos que com o duque vinham quizesse escrever e encommendar sua honra para que em tempo d'alguma affronta e necessidade se sobreviesse, como fracos o não leixassem.

E de ter o conde este receio e desconfiança não era sem causa; porque os mais dos fidalgos da companhia do duque com que refizera tanta somma de gente, não eram de sua casa mas vinham acostados a elle por aquella jornada sómente, e não com fundamento de tomarem por elle armas contra o Infante D. Pedro, mas pelo terem na côrte em sua ajuda e favor para seus negocios e requerimentos que esperavam fazer. E o claro conhecimento que o duque na vespera da affronta d'isto tomou, lhe fez não esperar o dia que para ella se aparelhava, como ao diante se dirá.

E porém o Infante D. Fernando como era de mui pequena idade em que o sangue fervia, não sómente satisfez ao conde com cartas que ordenou á sua vontade, mas ainda se offereceu ir em pessoa em ajuda do duque, e assi lh'o escreveu logo e aos seus, por Alvaro de Faria, que depois foi Commendador do Casal, cuja ida por então não houve effeito; porque as guardas que o Infante nos caminhos trazia o tomaram, e foi a elle trazido, e tomou-lhe as cartas e as leu, e o fez tornar para Santarem, e posto que do Infante nem dos seus não fosse em nenhuma outra cousa maltratado, elle depois de ser na côrte o não apresentou assi, antes no desbarato e destroço da sua pessoa e de seu cavallo, que de industria fingio, se mostrou ser de todo por mandado do Infante despojado, affirmando que dissera sobre tudo algumas palavras mui contrairás ás verdadeiras, e não do reprender com o despedio de si, com que poz os feitos contra o Infante em maior alvoroço e perseguição; porque El-Rei mandou logo riscar de seus livros o assentamento e todalas tenças que o Infante d'elle tinha, e deffendeu aos almoxarifes que d'hi em diante mais lh'os não pagassem. E assi escreveu ao Infante por João Rodrigues Carvalho, escudeiro de sua casa, defendendo-lhe com grande estranhamento «que não tivesse ao duque o caminho, e o leixasse passar livremente, pois o ia servir.» Do qual recado foi o Infante mui triste, e mostrou grande sentimento, e sobre a sem razão de seus agravos e perseguições fallou algumas cousas ao messageiro que pareciam de aspereza, mas não tão feias nem assi malditas, que se não podessem dizer de um agravado servidor a um Senhor mal informado. Mas João Rodrigues como tornou á côrte, ou de sua não boa vontade, ou por ser dos contrairos do Infante assi induzido, afirmou que o Infante publicamente dizia «que não era vassallo d'El-Rei de Portugal, mas subdito e servidor d'El-Rei de Castella, e que assi como podera desterrar d'estes reinos a rainha D. Lianor, que outro tanto saberia fazer aos filhos». Com outras enormes palavras mui contrairas ás que o Infante com elle fallou, com o teor das quaes se fizeram logo autos, e tomaram publicos estromentos, que para mais indinarem o povo contra o Infante, logo foram pelo reino enviados.

Após João Rodrigues, veio ao Infante D. Pedro de mandado do Infante D. Anrique, o Bispo de Ceuta D. João, que com quanto tinha afeição ao conde de Ourem por ser da criação do Condestabre, era porém homem de grande prudencia e de sã e justa tenção. E como quer que apontasse ao Infante muitas causas e razões, porque catolicamente, e segundo a obediencia em que a El-Rei era obrigado não devia impedir a passagem do duque. Em fim não o pôde mover da sua determinação, aprovando-a o Infante com outras razões de honra e cavallaria, e porém taes que não desfaziam nada de sua lealdade a El-Rei, afirmando-se «que se o duque quizesse vir em fórma de pacifico e amigo como sempre viera, que elle o receberia e lhe faria honra e acolhimento como a irmão e amigo, segundo sempre fizera, e que d'outra maneira lh'o não havia de consentir, como por Martim Affonso lhe mandara dizer.»

E estando as cousas n'este ponto, e esperando ainda o Infante D. Pedro em Penella pelo Infante D. Anrique, como lhe tinha enviado dizer, soube que elle sem lh'o fazer saber se partira para Santarem onde era El-Rei e sua côrte, de que o Infante D. Pedro recebeu muita torvação. E não sei como esta virtude de piedade falleceu n'este Principe para seu irmão, pois em seu coração todalas outras parecia que sobejavam, de que alguns disseram que El-Rei por enfraquentar a parte do Infante D. Pedro, o mandara chamar sabendo que o queria ajudar, e outros afirmaram que elle fingira tal chamamento por não ser com seu irmão, vendo já sua determinação de ir contra a defesa d'El-Rei, e por força d'armas resistir á vinda do duque.

E no começo do mez d'Abril d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e nove, veiu ao Infante em Penela Fernão Gonçalves de Miranda com uma grande instrução d'El-Rei, cuja conclusão foi estranhar-lhe muito algumas cousas, em especial seus ajuntamentos e o movimento contra o duque, mandando-lhe em conclusão «que se tornasse a Coimbra, d'onde sem seu mandado não saisse, e leixasse o duque sem contradição passar assi como vinha. E que se o não fizesse, que fosse certo que logo procederia contra elle assi rigorosa e asperamente, como tamanha desobediencia merecia.»

A esta embaixada d'El-Rei respondeu logo o Infante, justificando com largas razões seu proposito, concluindo «que pois sua Mercê o mandava contra sua honra e estado tornar atráz, que outro tanto devia mandar ao duque que primeiro começara, e que posto que na priminencia das pessoas de um e do outro havia em tudo tanta diferença, como ao mundo era notorio, que este caso d'ambos julgasse e houvesse por igual, e ao menos o que defendia a um, não consentisse ao outro. E que pois sua Mercê por então não tinha de gente d'armas tão eminente necessidade, mandasse que o duque passasse por sua terra em modo pacifico, e com a gente de sua casa ordenada, e que n'esta maneira o receberia como a irmão e amigo, e lhe faria e mandaria fazer muita honra e bom acolhimento, como sempre fizera, e que em outra maneira recebendo n'isso tamanha mingoa não o havia por seu serviço, pela grande parte e razão que com seu real sangue tinha» e com esta resposta o despediu.

De como o Infante D. Pedro determinou impedir a passagem ao duque, e se percebeu e partiu para isso

E porque o Infante D. Pedro foi avisado que o duque não leixava de proseguir o caminho que começara, deu logo grande trigança á sua partida, e teve conselho onde e como o esperaria, e alguns lhe aconselhavam, que para sua justificação o leixasse primeiro entrar em sua terra, mas o Infante disse que a todo seu poder o duque por aquella vez não trilharia nenhuma pequena parte da herança que possuia, e que fóra d'ella o queria esperar. Pelo qual de Penela moveu logo com sua gente e carriagem, e se foi á Lousã, e d'hi logo a uma aldêa sua que se diz Villarinho, onde soube que o duque era em Cója, couto e lugar do Bispo de Coimbra, alli concertou e proveu o Infante sua gente, e ordenou com muita destreza suas batalhas, dando a avanguarda a D. James seu filho e com elle o conde d'Abranches, e tomou a reguarda em que havia de ficar.

Alli foi ao Infante dada secretamente uma carta com letra mudada e sem signal, em que o aconselhavam que logo movesse contra o duque porque o não havia d'esperar, mas o Infante publicamente disse «que aquillo era em favor do duque assi lançado, e para elle manifesto engano com que o queriam fazer algum tal desmando, de que esperando victoria ficasse vencido; porque bem cria que o duque que tantos annos se intitulara de filho de tal Rei, e que de tanta e tão honrada gente, para qualquer pesado feito vinha tão bem acompanhado, antes conhecidamente receberia morte, que tornar atrás nem consentir em tal fraqueza, á sua honra e estado tanto contraria.»

De uma falla que o Infante D. Pedro fez aos seus, estando todos a cavallo

Alli fez o Infante aos seus estando todos a cavallo uma comprida falla, em que pareceu pela muita prudencia e gravidade com que a disse, que já havia dias que a tinha cuidada.

Foi sua sustancia alegrar-se primeiramente no esforço, despejo, e segurança que em todos para sua honra claramente via e conhecia, e que não era sem causa; porque todolos que entre si via, poderia contar no amor por seus filhos e netos, pois todos eram seus criados e filhos de seus criados, e assi disse mui particularmente todolos agravos e perseguições, e desfavores, que d'El-Rei por induzimento do duque e do conde seu filho, e dos de sua valia tinha recebidos, com os quaes justificou as causas de sua querella, para cuja emenda e vingança ali eram vindos, e que não cressem que n'isto entrava odio nem escandalo que tivesse d'El-Rei D. Affonso seu Senhor; porque elle como mui leal seu vassallo e servidor, o reconhecia algum não, porque Deus sabia que elle o amava e era razão que amasse sobre todalas cousas do mundo. E que na criação que em sua real pessoa fizera, e na governança, paz e conservação de seus reinos, que dez annos por elle regera e defendera, quem sem paixão o quizesse consirar, acharia d'isso prova mui autorisada, e que o agravo que tinha não era da natural inclinação d'El-Rei, mas da pouca edade sua, com que madura e perfeitamente não podia conhecer os enganos em que contra si seus imigos o traziam, e que a principal causa da inimizade que seus imigos contra elle tinham, não fôra por lhes dar pouco; porque do patrimonio real com honras e titulos muito lhes tinha dado; mas porque lhe não dera todo, especialmente por não dar ao duque a cidade do Porto e a villa de Guimarães, que muitas vezes com outras cousas da corôa mui cegamente lhe pedira, e que o acrescentamento que em si e em seus filhos fizera, fôra sómente de muito amor e grande lealdade, e com mui verdadeiro desejo de servir, em que ao mais leal do mundo não conheceria avantagem; porque da herança da corôa de Portugal, não falando na que El-Rei D. João seu padre lhe dera, ainda a primeira mercê e acrescentamento seu estava por receber, e porque seus contrairos sentiram, que sua bondade e seu livre conselho acerca d'El-Rei, seriam para suas cobiças e acrescentamentos cousas mui suspeitas e perjudiciaes, trabalharam de o apartar d'El-Rei e a El-Rei do amor que lhe devia ter, e credito que lhe devia dar, e que a vinda do duque por sua terra, e na maneira em que vinha, não era com verdadeira necessidade de serviço d'El-Rei, mas sómente pelo abater, ou por dar causa com que El Rei mais se indinasse para sua destruição; porque se o assi leixasse passar sem resistencia, seria publicar fraqueza de coração com seu vituperio e abatimento, o que a elle seria grave pena e ao duque muita gloria, se lhe resistisse indo á côrte, que lh'o reputariam a desobediencia e deslealdade contra El-Rei, para o mais asinha moverem para o que tanto desejavam. E porém que por ser quem era, e decender de quem decendia, finalmente o não havia de consentir, e que tanto esforço teria de morrer sobr'isso vencido com um só page, como então tinha esperança de viver e vencer, vendo-se acompanhado de tantos e tão bons amigos e criados, e que por isso era escusado esforça-los para a vingança de suas injurias com exemplos de feitos passados, pois os via para isso tão esforçados, antes se o caso viesse a rompimento como esperava, lhes encomendava a todos mais piedade que crueza, e com os olhos alevantados ao ceo cheios de muitas lagrimas pedio perdão a Deus com palavras de muita devoção, e se encomendou a elle, e á Virgem Maria sua Madre, e feito isto mandou que se armasem e percebessem todos.

De outra falla que o duque tambem fez aos seus em seu favor contra o Infante, e de como Alvaro Pires de Tavora lhe respondeu

O duque de Bragança não leixou de continuar sua viagem até duas legoas da Louzã, crendo que o Infante D. Pedro com todas suas ameaças não ousaria de lhe resistir, nem se moveria de Penella, assi por não quebrar o mandado e defesa d'El-Rei que para isso tinha, como pela pouca gente de que se percebera. E porém como pelas espias que trazia, soube que o Infante estava já em Serpiz, que era d'elle pouco mais de uma legoa, e vinha com determinação de peleja, foi posto em muito cuidado, e mandou alojar sua gente com aquelle resguardo e seguridade que para o tempo e caso cumpria, e ajuntou logo os fidalgos e pessoas principaes de sua companhia para ter conselho sobre o que faria, ante os quaes disse:

«Nós somos aqui tão acerca do Infante como sabeis, e já devemos crêr que vem com determinação de por força nos resistir, vêde qual será melhor, ou o esperarmos aqui, ou irmos adiante busca-lo, ou por evitarmos as mortes e danos que d'este recontro se podem recrecer nos tornarmos atrás e seguirmos outro caminho, porque aqui por agora não é dar outros meios.»

Sobre o qual houve entre elles votos desvairados, e em fim Alvaro Pires de Tavora, disse:

«Senhor, a mim parece que para quem soes, e para a determinação com que partistes, e para a gente que levaes, seria cousa mui vergonhosa, e para vossa honra de grande vituperio, tornarde-vos atrás nem uma só passada; porque em caso que para Deos fosse razoada encoberta, dizerdes que por escusardes mortes e outros danos o fazeis, o mundo com que agora vivemos vo-lo não ha de levar n'essa conta, mas estimarvo-lo-ha como é razão, por grande fraqueza e assinada judaria; soes grande imigo do Infante e elle vosso, e as mais palavras e dissimulações são escusadas. Porque a amizade que El-Rei entre vós ambos assentou, bem sabemos que foi uma fórma falsa de palavras de que nunca soubestes parte, e assi nunca a guardastes; porque depois sempre em vossas cousas vos tratastes como imigos, e vós o sabeis, e que digaes que El-Rei vos manda chamar, não é o Infante tão privado do entender, consiradas as cousas passadas e o auto em que his, que não entenda que é sem fundamento de seu mal, e de o resistir e contrariar em sua terra, sabei que como Principe e como Cavalleiro tem razão e faz o que deve, e por tanto meu conselho é, que o que elle quer fazer vós o façaes primeiro, que será irmo-lo buscar, e nos desponhamos á ventura que nos vier».

E este conselho aprovou o duque por melhor, e determinou então de o seguir. Pelo qual porque soube que o Infante o havia d'esperar no estremo e confins de sua terra, a que já estava mui chegado, foi alli com esses principaes vêr o lugar de melhor disposição para a peleja, e assi partir e escolher o campo para elles mais seguro. E des-hi volveu a seu alojamento, e fez ajuntar todolos seus, e com quanto era de pouca fala, com a contenença grave e segura lhe fez um razoamento n'esta maneira.

D'outra falla que o duque fez a todolos seus, em que determinou não leixar o seu caminho

Honrados criados e amigos, eu sou aqui vindo por mandado d'El-Rei meu Senhor, como vos disse, e por estas suas cartas o vereis; levo comvosco este publico caminho sem danificar nem agravar alguem como sabeis, e ora sou certificado que o Infante D. Pedro contra defesa e mandado do dito Senhor, vem por elle com proposito de por força m'o impedir, e porque eu por muitas causas que todos entendereis, sou em determinação de todavia seguir ávante, eu vos rogo e encomendo, que para qualquer trabalho e afronta que sobrevier, por serviço d'El-Rei meu Senhor e minha honra esforceis os corações, e desenvolvaes as mãos como de vós e de vossas bondades espero. E sabei certo prazendo a Deos, que a victoria é nossa sem algum vosso perigo; porque a gente do Infante é pouca para a nossa, e vem constrangida e cortada toda de temor; porque além de conhecerem o dano a que se despõem, sabem o erro e deslealdade que cometem, vindo contra a obediencia e mandado de seu Rei e Senhor. E por isso assi por sem duvida, que todos estes na sombra do medo, vendo-nos logo o leixarão. E por isso eu vos encomendo que no sangue d'estes não solteis vossas mãos e ferro a toda a crueza, pois em fim são christãos e vassallos de El-Rei meu Senhor, e á verdade innocentes, ainda que tenho grande receio á vinda do Infante D. Fernando, e do conde d'Ourem meu filho que vem detraz, e na hora do nosso ajuntamento serão comnosco, que por ventura nas mortes e danos d'estes não quererão ter esse resguardo, mas Deos o perdoe, ou acoime ao Infante D. Pedro, pois é causa d'isso, e este trabalho que por mim tomaes, eu sempre vo-lo conhecerei, e El-Rei meu Senhor tambem vo-lo deve e por meus requerimentos e intercessão vo-lo satisfará com honras e mercês, como a bons e leaes vassallos que soes; e com isto se recolheu a seu alojamento.

De como o conde d'Abranches fallou ao Infante, aconselhando-o que desse no duque

O Infante D. Pedro que era já no lugar de Serpiz, soube logo como o duque viera vêr e repartir o campo, e assi da falla que aos seus fizera, e porque de um a outro não havia já mais de meia legoa, o conde d'Abranches assi armado como chegou, sem mandado do Infante se apartou com alguns, e foi vêr o arraial do duque; porque da gente e assento d'elle se informasse para o que esperava, e em tornando lhe perguntou o Infante com mostrança de lhe pesar d'onde vinha, e o conde lhe respondeu:

«Senhor, venho de vêr vossos imigos, de que prazendo a Deus e ao bemaventurado S. Jorge vos eu darei hoje se quizerdes mui boa vingança, e peco-vos por mercê que a não dilateis para mais, e hi logo dar n'elles; porque na desordem e tristeza em que estão, dão já certos signaes de serem cortados com medo e meio desbaratados, e não percaes tão bom dia; porque já em vossa vida nunca havereis outro tal, e não alongueis a vida a quem se lh'a hoje daes, sabei que a encurtará mui cedo a vós, tendo por certo que o duque na maneira em que se repaira e afortaleza não quer vir ávante, e ou se tornará para trás como veiu, ou escondido se salvará por outro caminho.»

E o Infante lhe respondeu: «Conde, não creaes que o duque por filho de quem é, e acompanhado e aconselhado de tão bons fidalgos como com elle vem, especialmente que é assaz entendido, tome nenhum d'esses sestros que abata sua honra; antes pois já determinou de vir, elle virá, e ambos como Deus ordenar esperimentaremos nossas fortunas, e por hoje é bem que repousemos e provejamos no que nos cumpre, e a elles demos lugar que para taes vistas se percebam á sua vontade. Ao menos porque com a culpa de nosso salteamento e trigança, não se encubram e escusem da fraqueza e leve resistencia, que prazendo a Deus n'elles acharemos. E praza a Deus que ou se tornem, ou desviem por alguma maneira como dizeis; porque com guarda de minha honra eu os não veja, e elles possam salvar suas vidas, cá em fim patrimonio são d'El-Rei meu Senhor, em que me sempre pesará minguar e fazer estrago.»

De como o duque não quiz esperar o Infante, e se salvou atravessando secretamente a Serra d'Estrella, e do que o Infante sobr'isso disse e fez

O duque n'aquelle dia que era sexta-feira ante do domingo de Ramos; porque soube que corredores do Infante vieram vêr seu arraial, tambem mostrou que se provia e aparelhava, como quem determinava não desistir de seu proposito, e menos negar a peleja, e segundo o pulso que á sua gente tomou, não achou em todos aquella fortaleza e esforço, que para tal afronta se requeria; porque como atrás disse muitos d'elles não eram proprios seus, e vieram sómente com elle pelo acompanhar pacificamente atè á côrte, sem esperança nem aviso de tal recontro, especialmente contra o Infante D. Pedro, a que muitos d'aquelles tinham afeição secreta, e desejavam servir.

Pelo qual, o duque vendo a fraqueza d'estes, com que não convinha meter sua vida e honra a um tão certo e tão chegado perigo, ou por ventura aconselhado do pouco esforço de seu coração, em que por então foi mui culpado, determinou em si mesmo de não seguir adiante nem cometer o Infante, nem menos o esperar. E ordenou poer-se secretamente em salvo como fez, e não se quiz tornar atráz como viera; porque foi falsamente certificado, que as pontes e barcas do Mondego porque passara, eram por mandado do Infante já todas quebradas e tomadas, o que não foi. Para o qual a mesma sexta-feira ante do domingo de Ramos d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e nove, o duque apartou alguns seus a que revellou o modo de sua partida, e por se escusar rumor nem algum sentimento d'ella, lhes mandou que um e um dessimuladamente se saissem do arraial, e elle com duas sós guias que tomou, em se cerrando a noite se sahiu a cavallo, e se foi com elles ajuntar, que com mui grande perigo e trabalho dos corpos e cavallos atrevessaram a Serra d'Estrella, que lhes jazia á mão esquerda; porque os montes eram grandes e frios, e a serra estava ainda com neves dobradas, de que o duque por ser já mui velho recebeu tão grande padecimento que foi em ponto de morte, e porém da grande frialdade que padeceu ainda lhe ficou d'alli o pescoço e a cabeça baixa em quanto viveu.

E os seus que leixou, como souberam de sua partida, que foi sendo já grande parte da noite passada, foram postos em grande desmaio, e cada um como melhor pôde se apressou de o seguir não sem grande desmando e nenhum acordo, e com perda de muitas cousas que leixavam, crendo que o Infante ou sua gente os seguiria. E assi passaram a serra do Baçó até descerem a outra banda de meio dia contra Covilhã, em que pela grande aspereza dos caminhos e as muitas neves e regelos que n'elle jaziam, os homens suportaram frios e trabalhos incomportaveis, e assi morreram e atereceram muitos cavallos e azemolas, de que muitas ficavam. E se perdeu muita fardagem que os da montanha vieram recolher. E no cimo da serra onde dizem Albergaria, acharam mortas de frio algumas pessoas a que não houve remedio.

As escuitas que o Infante sobre a gente do duque sempre trazia, não houveram sentimento de sua partida, salvo depois que o geral rumor de todos todo lh'o certificou, que foi a tempo em que o duque já teria andadas quatro ou cinco leguas. E por se mais verdadeiramente afirmarem do caminho que levara, não trouxeram ao Infante certo recado se não em amanhecendo, da qual cousa sendo o Infante certificado, mostrou receber por isso tanta gloria e alegria, como pareceu que os seus houveram de pena e tristeza, por o duque se ir assi livrememente e sem contenda, e alguns requereram ao Infante licença para ainda lhes irem seguir o encalço, mas o Infante o não consentio, antes lh'o defendeo, dizendo «que os leixassem ir embora, e que de assi ser, dava por isso muitas graças a Deus.»

E porém a opinião dos mais foi que o Infante errara muito, tendo o duque tão acerca e em tão boa disposição para o cometer, não dar n'elle e o matar se podera; porque quanto alongou sua vida, como o conde d'Abranches lhe disse, tanto antecipou a morte de si mesmo como depois se seguio.

E feito isto, o Infante porque a gente que tinha já lhe não era necessaria por então, fez ajuntar todalas pessoas principaes que hi eram, e com aquellas palavras que mereciam, os que para tal serviço com tão boas vontades se offereceram e disposeram, lhes deu a todos grandes agardecimentos, e os despedio com sinaes de muito amor e obrigação, leixando sómente os continos de sua casa, com que passado o dia de Ramos se tornou a Coimbra.

Como o duque se foi a Santarem onde era El-Rei, e do que se fez contra, o Infante

E o duque como da banda de Covilhã acabou de recolher a gente que o seguio, fez logo seu caminho para Santarem. Onde por aviamento do conde seu filho, foi de toda a côrte assi grandemente, e com tanto triunfo recebido, como se o merecera por batalhas campaes, que contra imigos vencera.

E isto foi por seus aderentes assi ordenado, porque com esta face de fingida honra encobrissem ao mundo o envés do verdadeiro abatimento que o duque em sua vinda tinha recebido. Porque para o proposito com que de suas terras o duque partira, e para a muita gente que comsigo trazia, sempre os seus na côrte afirmaram que o Infante D. Pedro por sua pouca força não ousaria de o cometer, nem lhe defender o caminho. Dando a entender que as mostranças de resistencia que o Infante fazia, eram tudo rebolarias do conde d'Abranches, porque n'estes feitos se governava. E porém assi emprimiram todo o que quizeram no novo e molle entendimento d'El-Rei, que a injuria d'este caso lhe faziam crêr que não era do duque, mas propria de sua pessoa real.

E porque no conselho em que ante El-Rei esto se praticava, o Infante D. Anrique terçou um pouco em favor do Infante seu irmão, afirmando que não consentiria dizer-se, que nenhum filho d'El-Rei D. João faria injuria a seu Rei e Senhor, fez no que contra o Infante D. Pedro então se requeria mui grande contrariedade, com que muitos do conselho se foram, e folgaram de o ajudar, crendo que o Infante D. Anrique clara e descubertamente a seu irmão queria já valer, e alegravam-se, desejando aproveitar ao Infante D. Pedro terem-no para isso por cabeceira, sem o qual consirada bem a disposição do tempo, e pelos contrairos serem de grande condição não ousavam. D'onde segundo a opinião dos prudentes e pessoas d'autoridade, que d'estes feitos tiveram conhecimento, se creu que o Infante D. Anrique n'estes dias falleceu ao Infante D. Pedro com aquelle verdadeiro amor, favor, e ajuda que como a irmão e amigo lhe devia; porque com muito seu louvor, e sem mingoamento de sua muita lealdade lhe podera valer, por maneira com que a El-Rei, e a sua corôa fizera muito serviço, e ao Infante seu irmão desviara morte tão crua e tão abatida como recebeu, e sua tão honrada casa não cahira de todo como cahiu, segundo adiante se dirá, e porque o Infante D. Anrique sobre suas muitas virtudes era assaz prudente e discreto, bem é de crêr que esta piedosa bondade para seu irmão, muitas vezes lhe tocaria e espertaria a memoria, e para o não fazer, o mais honesto e seguro seria leixar a determinação em duvida, salvo se a causa d'isso attribuissemos a algum oculto Juizo Divino.

E por tanto, porque a boa vontade do Infante D. Anrique não perseverou no favor do Infante seu irmão como logo então atentou, foi a querella do duque ouvida d'El-Rei, e posta e crida no mais alto encarecimento de fealdade, que contra seu serviço e estado se podia cometer. Pelo qual logo El-rei começou publicamente declarar a irosa vontade e grande indinação que contra o Infante D. Pedro tinha, a que por aviamento de seus imigos tambem ajuntava o desterro e morte da Rainha D. Lianor, sua madre. E porque no recontamento de suas afeições, desamparo e pobreza, que até morrer passara, o caso contra o Infante mais s'agravasse, faziam com as Infantes irmãs d'El-Rei, que eram meninas, e com os criados da Rainha, que de todas as partes faziam vir, que com lamentações e forçosos choros as apresentassem ante El-Rei muitas vezes, pedindo-lhe por isso do Infante D. Pedro justiça e vingança, como de culpas e crimes já claros e manifestos.

De como El-Rei declarou o Infante por desleal, e mandou fazer geraes percebimentos de guerra para ir sobr'elle

Enviou logo El-Rei cartas de percebimentos de guerra por todo o reino, com declaração de querer por desobediencia e deslealdade do Infante D. Pedro ir contra elle, e assim mandou poer outras cartas publicas de perdão geral para todolos humiziados, que por quaesquer casos andassem fóra do reino, se n'esta ida contra o Infante o viessem servir, e assim se fizeram outras de editos porque mandava a todalas pessoas que eram com o Infante de qualquer estado e condicção que fossem, que a certas horas sob pena do caso maior se partissem logo d'elle, e d'estas algumas se pozeram nas praças publicas de Santarem, e outras haviam de ser por notarios publicadas em Coimbra onde o Infante era, e os primeiros que para isso foram ordenados cometeram o caminho, mas com receio não o seguiram e se tornaram, em cujo lugar foi logo ordenado por El-Rei e enveado a Coimbra Lourenço Abril, seu escrivão da camara, homem mancebo e de bom entender, e como quer que no caminho fosse das guardas do Infante impedido, houve porém de chegar a elle com sua licença e prazer, e tanta pressa se deu para a destruição do Infante, que o duque desapareceu de seu arraial em Coja, bespora de Ramos como atrás fica, e estes editos chegaram ao Infante em Coimbra bespora de Pascoa. O qual depois que foi e viu as cartas que Lourenço Abril sobr'isso levou, lhe disse:

«Lourenço Abril, dizei a El-Rei meu Senhor, que eu só tomo e retenho em mim esta sua provisão, e que não hei por seu serviço e minha honra publicar-se em tal tempo. Não por não querer que em seus reinos e fóra d'elles se cumpram e obedeçam inteiramente seus mandados; porque saiba que eu sou um dos braços mais fortes que tem para lhe ajudar a manter e cumprir sua vontade e justiça. Mas porque estes procedimentos são de sua ira contra mim, eu apello d'elle contra mim agora mal informado, para elle mesmo de mim verdadeiramente e como deve depois bem informado».

E com esta resposta, e com outras palavras a estas conformes se tornou Lourenço Abril a El-Rei, que logo começou de fazer mercê a quem lh'a pedia dos bens e officios dos que eram com o Infante.

Do que o Condestabre filho do Infante D. Pedro fez, estando entre o Tejo e Odiana

Estes dias com todalas torvações e necessidades do tempo, o Condestabre filho do Infante D. Pedro nunca lhe acodiu, e não seria assi sem seu mandado, antes sempre esteve na comarca d'entre Tejo e Odiana, onde tinha o Mestrado d'Avis com suas fortalezas, e mais os castellos das villas d'Elvas e de Marvão, contra o qual fizeram tambem a El-Rei suspeita, e que se devia segurar d'elle. Especialmente que pela liança e amizade que o Infante seu padre com o Condestabre e Mestre d'Alcantara de Castella tinha feita, podia com entrada de gentes estranhas fazer a este reino muito dano, pelo qual acordou El-Rei de enviar sobr'elle, que estava então na Villa de Fronteira, D. Sancho, conde de Odemira como fronteiro mór.

E davam fama pelo reino para mais indinação do povo, que o Infante D. Pedro tinha ordenado com ajuda de Castella prender El-Rei e se senhorear do reino, e assi lançar n'elle grandes pedidos, e outras muitas opressões se o mais tempo regera.

E sendo o Condestabre d'esto certificado, vendo que Fronteira não tinha força nem disposição para n'ella manter cerco nem esperar afronta, aconselhado sobr'isso com bons cavalleiros e pessoas d'autoridade que comsigo tinha, se passou a Marvão, onde confiando na bondade e segurança da fortaleza esteve alguns dias. E porque o conde D. Sancho todavia se fazia prestes para o ir cercar, esses cavalleiros que com o Condestabre eram vendo-o com alguma fantesia de resistencia, a que a nobreza e esforço de seu coração o inclinava, consirando que não sómente á sua honra não cumpria faze-lo, mas que nos feitos do Infante seu padre podia muito danar, lhe disseram:

«Senhor, estas maginações de defensão em que vos vemos, ou de esperardes no campo esta gente que vem, são por agora escusadas; porque a defesa d'armas e homens que tendes é nada em comparação dos que vem sobre vós, se cuidaes dar-lhe praça, e tambem para quem soes, e para o sangue de que descendeis, sabei que seria grande abatimento vosso esperardes cerco, quanto mais tão desesperado de socorro como sabeis que este seria, principalmente cercando-vos pessoa de menos condição que vós e com tanto poder a que não podesseis resistir, em especial vindo com nome d'El-Rei nosso Senhor, a que seria feio desobedecer, e mais se o assim fizesseis seria em todo desacatar ao Infante vosso padre, e não cumprir sua vontade nem mandado, pois vos deve lembrar que a voz e nome, e o serviço d'El-Rei nosso Senhor, sobre tudo vos encommendou e encommenda cada dia, pelo qual nosso conselho é, que logo vos passeis aqui a Valença, que é do Mestre d'Alcantara, em que ha esperança d'achardes melhor acolhimento, e leixae em vossas fortalezas vossos alcaides com a gente que as guardem e tenham por vós, com mandado vosso, que se El-Rei lh'as pedir ou enviar pedir, que descarregando-os de vosso preito e menagem, lh'as entreguem. As quaes levemente tornareis a cobrar se Deus pozer os feitos do Infante vosso padre em bem e assesego, como a elle praza que seja».

Ao qual conselho o Condestabre obedeceu e o cumpriu, e leixou em Marvão por alcaide um Arthur Gonçalvez, que por mandado d'El-Rei entregou a fortaleza. E o Condestabre se passou a Valença, onde por principio de suas fortunas começou logo d'espremenmentar as grande malicias e sobeja ingratidão do Mestre d'Alcantara, que em tudo contrariou, e com nada lhe respondeu á muita honra e mercê, favôr e amparo, que em suas grandes necessidades passadas do Infante D. Pedro poucos dias havia que recebera, como atrás fica.

De uma carta que a Rainha enviou ao Infante D. Pedro seu padre, sobre um conselho que acerca d'elle se tivera para sua morte ou destruição, e do conselho e determinação que o Infante sobr'ella teve

Evolvendo o processo ao Infante D. Pedro, estando elle em Coimbra não sem mortaes padecimentos, pela incertidão que tinha do fim que sua vida e feitos haveriam, foi-lhe dada uma carta da Rainha sua filha, por Vicente Martins seu secretario, porque lhe notificava, «que em um conselho que sobre seus feitos então se tivera, fôra contra elle determinado que El-Rei o fosse cercar, e que dando-se ou tomando-se por força, houvesse por pena de suas culpas uma de tres cousas. Ou morto, ou carcere perpetuo, ou desterro para sempre fóra do reino, para execução do qual El-Rei partiria contra elle aos cinco dias de Maio». E bem é de crêr que a Rainha lhe não enviaria esta carta sem espresso consentimento e mandado d'El-Rei, cujo bem e amor ella teve sempre em tanta estima, que pelo conservar e não perder nem minguar como mui virtuosa que era, nunca nos feitos do Infante seu padre contra o gosto e contentamento d'El-Rei se quiz entremeter. Esta carta foi dada publicamente ao Infante, que depois de sem alguma mudança nem torvação a lêr, com quanto n'ella viu que a morte começava já de bater ás portas de sua vida, elle a cerrou em sua mão e com a cara segura, e mais alegre que triste, esteve um pedaço perguntando ao messegeiro por novas da saude e bôa disposição d'El-Rei seu Senhor, e por as cousas em que se desenfadava, e porque as respostas redundavam todas em louvores e perfeições d'El-Rei, o Infante mostrava por isso tomar muita gloria sem alguma mestura da mortal pena que já recebera e tinha. E com este despejo se assentou a comer, e depois de acabar se recolheu a sua camara, onde fez logo vir esses principaes que com elle eram, perante os quaes mandou lêr a carta que tinha, e como a sustancia d'ella era já espantoso pregão da ira d'El-Rei, ficaram todos mui torvados, mais e menos segundo a bondade e esforço do coração que cada um tinha. E o Infante não dissimulando já sua infinda paixão e tristeza, com as mãos e braços abertos alevantou os olhos ao ceo cheios d'agoa; porque nos taes casos quando fallava assi o tinha por condição natural. E disse logo:

«D'estes agravos e perseguições em que justiça, razão, nem humanidade não consente, eu primeiramente me queixo a Deos como a só e principal Senhor de todalas cousas, e depois á Real casa de Portugal em que nasci e me criei, e a que até agora bem e lealmente sempre servi. E assim á casa d'Inglaterra em que de sangue tanta parte tenho, e finalmente me agravo a vós meus criados, amigos e servidores como a participadores d'esta minha desaventurada fortuna, aos quaes como a companheiros de meus conselhos e perigos, direi em breve n'este caso minha tenção, que é tomar por melhor, mais honra e mais descanço para mim a derradeira parte d'esta determinação que é a morte; porque das outras de que uma é ser desterrado, Deos nunca queira que eu filho ligitimo d'El-Rei D. João, que com tanta honra uma vez sahi de seus reinos, fazendo a muitos em muitas provincias e senhorios estranhos grandes graças e mercês, haja d'andar sobre minha velhice por reinos e terras alheias, pedindo esmolas com muito trabalho e grande deshonra minha. Pois da outra que é ser preso, e que sobre cincoente e sete annos que hei haja de consentir ferros de justiça em minha carne, não sei a quem não pareça ser muito menos mal morrer, e este por mais bem e maior honra escolho para mim, como disse. Mas porque até agora em todas minhas cousas e alheias que tratei sempre, me prouve ser bem aconselhado, n'esta que me parece ser a derradeira, o devo e queria ser melhor. E por isso vos rogo e encomendo, que esguardadas bem todalas circumstancias d'esta fortuna, e a callidade e priminencia da minha pessoa, queiraes sobre tudo consirar, e cada um de manhã me dizer seu parecer, lembrando-lhe que meus imigos segundo esta nova determinação devem logo vir sobre mim, e partir de lá a cinco dias de Maio. E que diga meus imigos, nunca por amor de mim, e por segurança de minha limpeza entendaes que o digo por El-Rei meu Senhor, nem que o meto n'esse conto. Porque em caso que sua mercê venha com mostrança de ira sobre mim, sempre crerei que seu corpo virá com enganos de meus imigos forçado, a que sua nova edade não sabe nem póde resistir, mas que sua vontade sempre para mim e minha honra ficará livre e sã, como se espera de Principe bom e agardecido como elle é. E porém meu primeiro movimento é n'esse mesmo dia partir d'aqui, e os ir buscar e esperar no campo, e pedir a Deos e a El-Rei meu Senhor justiça e vingança d'elles, como de qnem tão sem razão tanto damno e perda me tem feito. E quando se por meus peccados assi não seguir, contentar-me hei acabar como cavalleiro. E porém d'agora para em todo tempo e sempre protesto, que seja com verdadeiro nome de bom e leal vassalo, e servidor d'El-Rei meu Senhor.»

Dos conselhos desvairados que ao Infante sobre sua proposição foram dados

Ao outro dia foram todos juntos, e leixando alguns apontamentos que alguns n'este caso fizeram, finalmente no conselho houve tres conclusões sustanciaes e em si desvairadas, e para cada uma não falleceram estas vozes. A primeira foi do doutor Alvaro Affonso, homem assaz prudente e bom jurista, em que depois de muitas palavras sumariamente concludio «que o Infante como cavalleiro, e principalmente como catholico e bom christão que era, não devia por si ir buscar a morte, mas antes espera-la, em que havia muitas esperanças de vida, e quando sem razão lh'a quizessem dar, que com grande fortaleza d'animo devia de defender sua vida e honra, para que allegou muitos direitos e trouxe mui autorizados exemplos, e que elle por mór resguardo de sua lealdade e mais segurança de sua pessoa, se devia fortalezar em Coimbra, e bastecer e prover d'armas e gentes os castellos de Monte Mór o Velho e de Penella, e aguardar El-Rei, ainda que com todo seu poder o quizesse cercar, e que sendo a cidade tão forte, e tendo elle tanta e tão boa gente comsigo, El-Rei por força o não poderia logo tomar, e que para lhe poer cerco prolongado, ou leixar sobre elle fronteiros, não havia disposição nem possibilidade para isso, e que com Monte Mór teria tambem a Foz de Buarcos, que em suas afrontas se sobreviessem, sempre seriam portas abertas para sua salvação, e que por esta maneira não encurtaria como desesperado sua vida, e como prudente alongaria o tempo, que emfim por sua condição tudo com honra remediaria, especialmente que El-Rei assi como crescesse nos dias, assi iria crescendo e esforçando seu juizo, com que entenderia os enganos em que o traziam, a que sua nova idade por então não alcançava, quanto mais que a Rainha sua filha estava em esperança de emprenhar, e com a geração que Deus lhe daria, El-Rei se acharia mais obrigado para o amar e honrar, e ella teria mór atrevimento de em seus feitos o requerer. E que o povo que com malicias alheias andava emnevoado, cansaria e amansaria de seus alvoroços, e que em fim por partido sempre lhe fariam o que elle quizesse, pois com isso claramente parecia elle com medo da ira de El-Rei, e por necessidade se defender, e não com vontade de o desservir nem desobedecer, pois todos sabiam que elle o tinha e amava por seu verdadeiro Rei e Senhor.»

E com este voto e parecer se foram D. Fadrique, Martim de Tavora, AiresGomes da Silva, João Corrêa, João de Lisboa, secretario, e DiogoAffonso, e Pedro de Tayde, Dayão de Coimbra, que eram todos pessoas debom entender, esforço, e autoridade.

Eram outrosi com o Infante n'estes conselhos Luiz d'Azevedo, e Lopo d'Azevedo, irmãos, e Martim Coelho, e Pero Coelho, tambem irmãos, os quaes por serem entre si por casamentos liados seguiram todos outro acordo, dizendo «que o Infante por maneira alguma não devia esperar cerco, cá não era honra, ao menos por respeito da Garrotea que tinha, nem proveito nem segurança, mas que leixasse suas villas e fortalezas em bom recado, e que com a outra sua gente se saisse de Coimbra, e passasse o Douro, onde n'aquellas comarcas teria a gente das terras de Lopo d'Azevedo, e de Martim Coelho, e Ruy da Cunha, e d'Aires Gomez, e d'outros muitos, com que seguraria sua pessoa e d'aquelles que o seguissem, e que d'alli poderia tornar á Beira, e passar-se a riba do Diana, e andar pelas terras do Condestabre seu filho; porque El-Rei o não podia tanto seguir, que não andasse sempre diante, ou desviado a seu salvo, aconselhando com isto que não sómente trouxessem a voz e nome d'El-Rei seu Senhor, mas muito mais as vontades para o bem e lealmente servir, e com a necessidade e fadiga que os do reino todo por isso receberiam, conhecendo a sem razão de suas perseguições, ousariam dizer a El-Rei a verdade e as falsidades com que seus imigos o moviam contra elle, de que se seguiria que ou o leixariam livremente, ou lhe fariam tal partido de que fosse contente.»

E com isto apontaram outras minguas, trabalhos, despesas e pecados, que o cerco por sua condição trazia comsigo, pelos quaes o devia fugir e avorrecer.

O conde d'Abranches tomou só outra conclusão, ás dos outros que apontei em todo contraira, allegando e tocando com largas palavras, muitas causas, razões e exemplos de Principes passados, porque não devia esperar cerco, e outras tantas para não dever andar pelo reino, especialmente com tão pouca gente, que muitas partes pela estreiteza dos passos, e pelo grande poder d'El-Rei, se podia atalhar e acolher no meio com muita deshonra sua, e assinado perigo seu e dos seus. E concludio com a tenção do Infante que foi «antes morrer grande e honrado, que viver pequeno e deshonrado, e que para isso vestissem todos os corpos de suas armas, e os corações armassem principalmente de muita fortaleza, e que se fossem caminho de Santarem, não como gente sem regra desesperada nem desleal, mas como homens d'acordo, e que iam sob a governança e mando de um tal Principe e tal capitão, que a El-Rei seu Senhor sobre todos era mais leal e servidor mais verdadeiro, e que mandasse a El-Rei pedir e requerer, que com justiça o ouvisse com seus imigos, que lhe tão sem causa tanto mal ordenavam, ou lhe desse com elles campo, em que de suas falsidades e enganos, elle por sua limpeza e lealdade faria que se conhecessem e desdissessem. E quando El-Rei alguma d'estas cousas não houvesse por bem, e todavia quizesse vir sobre elle, que então defendendo-se morressem no campo como bons homens e esforçados cavalleiros.

De como o Infante se teve ao conselho do conde d'Abranches, que foi morrer

E o Infante depois de todos ouvir com muito tento e repouso, e lhes dar por seus conselhos muito louvor e grandes aguardecimentos, finalmente se teve com o conde d'Abranches, que seguiu sua primeira deliberação, e determinou quando melhor não podesse ser, de morrer no campo, requerendo e bradando a El-Rei por sua justiça. E para ella se começou logo de perceber, e tanta foi a fortaleza e segurança do Infante, que n'estes dias com quanto de cousas tão arduas, e tão chegadas á morte se tratava, nunca por isso leixou de ir á caça e ao monte, e ter seraus e festas com sua mulher e donzellas, assi como no tempo de mais assessego e de maior prosperidade que nunca tivera.

Como o Infante D. Pedro e o conde d'Abranches consagraram ambos de morrer um quando o outro morresse

E passados alguns dias depois d'estes conselhos, o Infante não se esfriando em seu proposito, apartou só em uma camara o conde d'Abranches, e lhe disse:

«Conde, sabei que eu sinto já minha alma avorrecida de viver n'este corpo, como desejosa de se sair de suas paixões e tristezas, e consirados os feios combates que minha vida, honra e estado cada dia recebem, com esperança de não minguarem, mas cada vez crescerem mais, certo se as cousas n'esta viagem me não sobcedem como eu desejo, e seria razão, eu todavia determino morrer e acabar inteiro, e não em pedaços, e como quer que tenho outros bons criados e servidores, que por suas bondades folgariam e não se escusariam de morrer comigo, porém em vós sobre todos tomei esta confiança, assi pela irmandade que comigo merecestes ter na santa e honrada Ordem da Garrotea em que somos confrades, como por criação que vos fiz, e principalmente pela certidão que de vossa bondade e esforço tenho ha muito conhecido, e por tanto quero saber de vós, se no dia que d'este mundo me partir, querereis tambem ser meu companheiro, e com isso lembre-vos para satisfazerdes aos primores de vossa honra, que sendo vós tão conhecidamente meu criado e servidor, e tão publico imigo do conde d'Ourem e Arcebispo de Lisboa, depois de minha morte não podeis ter vida, salvo reservada para com mãos d'algozes a perderdes em lugares vis, e com pregões deshonrados.»

«Senhor, respondeu o conde, para caso de tamanho contentamento, como foi sempre e é para mim viver e morrer por vosso serviço, muitas palavras nem os encarecimentos não são necessarios, eu vos tenho muito em mercê escolherdes-me para tal serviço, e eu sou muito contente ter-vos essa companhia na morte, assi como vo-la tive na vida, e se Deus ordenar que d'este mundo vossa alma se parta, sede certo que a minha seguirá logo a vossa, e se as almas no outro mundo podem receber serviço umas das outras, a minha n'esse dia irá acompanhar e servir para sempre a vossa.»

E para mór confirmação d'este proposito o Infante mandou logo chamar o doutor Alvaro Affonso, que era clerigo de missa, perante quem relatou a concordia em que elle e o conde estavam, sobre a qual disse que lhe desse logo o santo sacramento, e o doutor depois de lhe fazer seus requerimentos e protestações para o não receberem (como a elle por sacerdote e por letrado em tal caso cumpria) elle lh'o deu, e elles o receberam com sinaes de muita devoção e contrição, afirmando ambos e cada um «que como fieis christãos a Deus, e leaes vassallos a El-Rei o recebiam, e por taes protestavam morrer quando morressem, e que seu fundamento não era offender, mas defender com razão e justiça a pessoa e honra do Infante.» O qual derribando-se no chão sobre seu peito, com os olhos cheios de lagrimas e com grande fervor de contrição se feria e acusava de seus pecados, e sobre a comunhão tornaram a firmar solenemente seus prometimentos, cujo segredo o Infante encomendou muito ao doutor, de quem depois se houve esta certidão.

Como a Rainha houve d'El-Rei que perdoaria ao Infante seu padre se elle lhe pedisse perdão, e assi lh'o escreveu, e a causa porque não houve effeito

Vendo e ouvindo a Rainha em Santarem tantos alardos e ajuntamentos de gentes com tantos alvoroços e percebimentos para destruição e morte do Infante seu padre; porque n'ella se encerravam em grande perfeição todalas outras virtudes, esta de amor e piedade para elle tambem lhe não falleceu, e assi porque esta natural divida de sangue sempre a espertava por seu remedio, com vivas lembranças de muita dôr e grande compaixão, como tambem porque de sua innocencia d'elle era mui certificada, se pôs um dia ante El-Rei em giolhos, e com perseveradas lagrimas lhe disse:

«Senhor,cesset jam nanus tua, e pois minha desaventura quer que na destruição do Infante meu senhor e padre damnem as falsas culpas mais, do que aproveitam seus merecimentos, nem o grande e verdadeiro amor que vos tenho, peco-vos por mercê, que ao menos como Principe agardecido, vos lembre as obrigações em que por sua tão alta criação, e por outros muitos seus serviços lhe soes, cuja paga devia ser outra, e não esta morte e destruição tão deshonrada, e com isso para alguma mais temperança de tamanha ira tambem vos não esqueça que vos pode nosso Senhor dar de mim filhos que serão vossos ramos, cujas raizes para sua mais honra e louvor deveis desejar e procurar que sejam antes limpas e sãs, que magoadas e sujas como ordenaes.

E El-Rei como era de mui perfeita humanidade, allevantando-a do chão com grande acatamento, lhe respondeu:

«Senhora, de todo o que me dizeis eu sou em mui inteiro conhecimento, mas como quereis que nas cousas do Infante vosso padre eu me faça brando, sendo elle em sua contumacia e para minha obediencia tão duro, de que se não quer conhecer nem arrepender, antes cada vez o mais continuar. Mandei lhe muitas vezes requerer minhas armas, não m'as quiz entregar, outras tantas lhe encomendei e mandei que não impedisse o duque, que por meu mandado vinha a meu serviço, e por me desservir e anojar foi-lhe ter o caminho com outras muitas desobediencias, de que eu a elle nem ao Infante meu irmão não relevaria sem justo castigo. Porém pelo vosso amor principalmente, e porque n'isso sintaes o bem que vos quero, se o Infante vosso padre como quem errou me quizer mandar pedir perdão, eu me haverei com elle por outra melhor maneira de que sejaes contente».

A Rainha lh'o teve muito em mercê, e d'El-Rei houve logo licença para o assi escrever como escreveo ao Infante, o qual vendo a carta, porque acerca d'ella não deliberasse nada sem conselho, depois de aquelles principaes com que suas cousas consultava serem juntos e verem a carta, todos sem contradição concordaram ser bem e honesto que o Infante satisfizesse com o perdão a El-Rei na fórma que elle queria, pois em nada lhe perjudicava, cá parecia deseja-lo assi El-Rei para defesa sua, contra aquelles que para o contrairo o indinavam. E porém o Infante lastimando-se muito dos agravos e desfavores d'El Rei, e confiando muito em sua innocencia recusava muito de o fazer, afirmando-se «que tão novo meio, segundo as cousas estavam não era com fundamento de seu bem, mas que El-Rei com astucia de seus imigos lhe lançava esta cilada de mal, para que n'ella o tomassem como perdão, nascido e causado da confissão de suas culpas e crimes que elle não tinha, com que ao mundo justificassem depois os males passados que lhe ordenaram, e corassem os que ao diante lhe queriam fazer. E que por isso antes queria morrer em que receberia muitos beneficios; porque acabaria inteiro Infante duque de Coimbra, e em sua vida não veria a outrem possuir nada do seu, nem elle como desaventurado seria constrangido andar por terras estranhas pedindo o alheio. E que em fim não lhe tirariam, que a todolos bons que pelos tempos fossem não pesassem de sua morte, a qual segundo sua vida era trabalhosa, esperava que fosse grande descanso já para si mesmo, e certa segurança da vida da Rainha sua filha.» Com outras muitas e boas razões com que se escusava; e em fim vencido d'outras tantas e melhores, com que seus conselheiros como a cavaleiro e christão o aconselharam e requereram, prouve-lhe pedir como pediu a El-Rei o perdão por escripto, na fórma que a todos bem pareceu, e com que El-Rei se devesse satisfazer, e tambem respondeu á Rainha, apontando-lhe largamente algumas cousas com que sua segurança devia ser acautelada.

E tendo já El-Rei recebido sua carta, mostrou se com ella suspenso como arrependido do que tinha outorgado, e porque na carta da Rainha que lhe ella mostrou, entre outras eram umas palavras do Infante que diziam «e isto Senhora faço eu mais por vos comprazer e fazer mandado, que por me parecer razão que o eu assi faça», El-Rei tomou d'ellas achaque para o não cumprir, e rompeu logo a carta do perdão que o Infante lhe mandara, dizendo que pois aquelle arrependimento era fingido e não de vontade, que não queria desistir do que contra elle tinha começado, e assi o fez, do que o Infante foi logo avisado. Porém o que d'esta mudança e nova sanha d'El-Rei, verdadeiramente se pôde entender, foi se a vontade d'El-Rei estivera de todo firme e sã para o Infante, que as palavras da carta da Rainha na forma em que vinham lh'a não revolveram nem danaram contra elle, mas El-Rei tinha já um odio calejado ao Infante, e mais pejou-se por moço em que o espirito da honra já se levantava, de parecer o que lhe já diziam, que se sobjugava á Rainha mais do que era razão e ao Estado de um tamanho Principe cumpria, e para não cumprir o que prometera, tomou aquelle que foi mais achaque que causa verdadeira.

Como os imigos do Infante D. Pedro procuravam haver antes odio que amor nem afeição entre El-Rei e a Rainha sua mulher

Porque os contrairos do Infante, vendo que a Rainha era já para elle a só esperança e remedio de sua salvação, e que por suas perfeições corporaes e muitas bondades, El-Rei lhe tinha e teria cada vez mór afeição, com que a ella e a sua vontade se daria mais, trabalhavam por todalas maneiras de o apartarem d'ella, conselhando-lhe que fosse muitas vezes á caça e montes, dizendo-lhe que a conversação continua de sua mulher em tal idade, não sómente era mui contraira á sua saude, mas ainda mingoa e grande quebra das forças do corpo e do entendimento, e que ficaria afiminado e não dino nem poderoso para soster o peso do Regimento e defensão de seus reinos. E na capella e guarda roupa não falleciam incitadores e ministros d'esta opinião, convocando para isso mesmo fysicos, que para seu proposito tinham bem ensaiados, que com livros e autoridades logo assi o provavam.

E taes conselheiros havia d'estes, que reprovavam o ajuntamento do santo e legitimo matrimonio d'El-Rei com a Rainha, que eram publicos adulteros e deshonestos concubinarios, jazendo como infernaes em mui continuo e reprovado coito.

E porque este caminho não sobcedia de todo á sua vontade, cometeram outro mui errado e muito para reprender; porque fizeram n'estes dias prender D. Alvaro de Castro, camareiro mór d'El-Rei, que depois foi conde de Monsanto, assacando-lhe falsamente que dizia amores á Rainha, por tal que da pena de morte ou desterro que elle por tal caso merecia nascesse infamia á Rainha com que a El-Rei de todo avorrecesse. Mas o imigo da perdição que n'estes feitos andava por medianeiro, não pôde tanto danar, que mais não remedeasse o verdadeiro conhecimento que El-Rei tinha das muitas e limpas bondades da Rainha, e da grande lealdade do conde, com que o logo soltou e depois muito honrou e acrescentou.


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