CAPITULO CLII

De como o Senhor D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, se foi de Ceuta para Barcellona, e se intitulou Rei d'AragãoE porque n'este tempo e da cidade de Ceuta se foi para Barcellona o Senhor D. Pedro, filho maior do Infante D. Pedro, que na mesma cidade acabou intitulado Rei d'Aragão, o fundamento e causa que para isso houve foi n'esta maneira.Por morte d'El-Rei D. Affonso, Rei d'Aragão e de Napoles, não ficou filho algum legitimo que o herdasse, e sómente lhe ficou um filho bastardo, D. Fernando, que depois da morte d'El-Rei seu padre, por favores e grandes riquezas que lhe leixou, herdou e teve o reino de Napoles; era irmão d'El-Rei D. Affonso, D. João Rei de Navarra, que herdara este reino por razão da filha d'El-Rei D. Carlos com que casou, de que houve uma filha, que foi casada com El-Rei D. Anrique de Castella, de que não devidamente se quitou, quando casou com a Rainda D. Joanna de Portugal, como atraz fica, e houve tambem um filho que se chamou o Principe D. Carlos, e sendo ainda Rei da Navarra viuvou, e por haver liança para suas contendas, que em Castella e Aragão tinha, casou com uma filha do almirante de Castella, de que tendo já filhos sobcedeu por morte do dito Rei D. Affonso seu irmão os reinos d'Aragão e de Cicilia, e o Principe D. Carlos seu filho, dizem que por mau trato da madrasta, lhe pediu que lhe leixasse o reino de Navarra para o reger, pois a ellein solidumpor contracto pertencia, e porque o pae não disistia d'elle andavam ambos em grandes desvairos, até que odito Principe falleceu, a tempo que seu casamento era concordado com a Infante D. Catarina de Portugal, como atraz fica, e de sua morte que foi julgada por artificial, se deu muita culpa e causa á Rainha sua madrasta, poendo-lhe que o mandara sem tempo matar, por tal que os reinos de seu marido livremente ficassem, como ficaram a D. Fernando filho d'ella, que depois foi Rei de Castella e d'Aragão, de que os povos foram mui tristes e anojados; porque D. Carlos era Principe de muitas virtudes, e lhes dava esperança de ser bom Rei, pelo qual a cidade de Barcellona, com todo o principado de Catelonha alevantaram a obdiencia a El-Rei D. João, e a deram a El-Rei de França, que os deffendeu um tempo, até que se concertou com El-Rei D. João, que pelo não guerrear lhe leixou o condado de Roselhão pacifico, em que entrou Perpinhão, e anojados d'isso os de Barcelona tomaram por Senhor El-Rei D. Anrique de Castella, que com perda d'Aragão tambem todos se concertaram.E El-Rei D. Anrique mandou sair de Barcelona a gente d'armas, que em sua defesa tinha, e sobre esta concordia dos Reis foram as grandes e famosas vistas de Fonte Rabia, a que Lopo d'Almeida e o doutor João Fernandez da Silveira, que depois foi barão d'Alvito, foram em favor d'El-Rei D. Anrique enviados por El-Rei D. Affonso.E porém os regedores de Barcellona buscando já por caminhos desesperados alguma esperança de sua salvação, trataram secretamente com o dito Senhor D. Pedro, que como só e principal herdeiro que era da casa d'Urgel, e assi a quem pertenciam de direito os reinos d'Aragão quizesse intitular-se d'elles, e assi receber logo em seu senhorio e poder o principado de Catelonha com a cidade de Barcellona com cujo podere forças, se o coração e saber lhe não fallecesse, cobraria o mais que El Rei D. João tiranamente possuia. Sobre o qual D. Pedro, em segredo se aconselhou logo com seu confessor, que quanto a Deus e ao mundo lhe fallou e aconselhou o que devia. E assi fallou sobre o caso com alguns fidalgos e cavalleiros prudentes de que se fiava, de que foi aconselhado, pospostos muitos pejos que D. Pedro apontou, que não sómente devia desejar e d'aceitar cousa tamanha e tão honrada que assi livremente lh'offereciam, mas ainda que a devia trabalhar e requerer, e com ella antes morrer, que viver nos desfavores e desprezos e mingoas em que vivia. Com as quaes cousas movido o dito D. Pedro, determinou aceitar a dita empresa, e por seus assinados e sellos assi o certificou e segurou á dita cidade.E este negocio sempre andou secreto até esta ida d'El-Rei a Ceuta, onde sobre concerto vieram armadas duas gallés de Barcellona, com mostrança que vinham a seu trafego d'armada.D. Pedro fôra com o Infante na dita entrada que disse, e quando tornou a Ceuta achou hi as galés, de cujos patrões e regedores que n'ellas vinham, foi de sua tenção certificado, que era logo o levarem, e depois de D. Pedro pedir a El-Rei, que perante o Infante seu irmão, e o conde de Villa Real, e Paio Rodriguez, Contador Mór de Lisboa o quizesse ouvir, elle com palavras de muita obediencia e autoridade disse a El-Rei todo o movimento passado, e que a este fim eram vindas aquellas galés, pedindo-lhe para isso licença, allegando-lhe muitas razões porque o devia fazer, ao menos por fazer Rei um seu vassallo, que como sua feitura o havia sempre de servir e lhe obedecer.E leixadas muitas alterações que sobre isso houveram, El-Rei por então não se pôde escusar, e lhe outorgoua dita licença; e porque o conde de Villa Real tinha grande afeição pela muita honra mercê, que o Infante D. Pedro em regendo sempre lhe fizera, offereceu e deu logo ao dito Senhor D. Pedro, prata e bons corregimentos de casa, e depois lhe enviou cavallos e gente d'armas, o que outro algum do reino não fez. E porém começou El-Rei de dilatar a D. Pedro o tempo da dita licença, com fundamento de se querer ainda d'elle servir n'aquella vinda a que viera de gentes e armas mui bem corregido, de que D. Pedro tomava grande paixão, especialmente porque El-Rei aparelhava vêr-se com El-Rei D. Anrique, de que receava que sua ida em Aragão sendo revellada receberia total embargo, e com elle manifesta queda de tamanha honra como parecia que se lhe aparelhava.E uma noite querendo D. Pedro fallar a El-Rei sobre sua partida, presumindo El-Rei a causa porque seria, se escusou de o ouvir remettendo-o para o outro dia; pelo qual D. Pedro logo aquella noite, porque os patrões já mais não queriam esperar, se metteu nas galés e se foi com elles, e a El-Rei leixou por escripto a causa porque assi se partira, e a leal tenção que levava para sempre o servir. Mas n'esta prosperidade D. Pedro durou pouco; porque em breve acabou com peçonha sua vida dentro em Barcelona, onde na Igreja maior jaz sepultado.CAPITULO CLIIDe como o escallamento de Tangere se commetteu a segunda vez pelo Infante D. Fernando sem consentimento d'El-ReiEstandoEl-Rei em Ceuta, algumas vezes commetteu entrar e ir sobre Arzilla, com desejo e apparelhos de a tomar, e tantas contrariedades recebeu para isso dos grandes invernos que logo sobrevinham, que nunca seu desejo com seus commettimentos poderam vir a algum effeito, e da derradeira vez d'Alcacere se tornou El-Rei para Ceuta, havendo que o escallamento de Tangere era a elle desesperado; porque cria que aos mouros era já descoberto, assi por christãos que captivaram, como por mouros que fugiam, que todos lh'o diriam, em especial pela gente sua que viram quando a primeira vez sobre a cidade foi amanhecer.E porém em se partindo disse ao Infante seu irmão que por conselho e accordo dos condes, que com elle eram, mandasse tentar a dita entrada ou outra alguma, porque a cidade bem se podesse filhar, e se tal fosse o avisasse; porque quando não viesse com toda sua gente e poder, ao menos como cavalleiro, e com poucos, folgaria ser no feito.O Infante sobr'isto mandou algumas vezes tentar e experimentar o dito escalamento, que se achou e examinou estar ainda sem alguma innovação, e para se fazer como cumpria, pelo qual determinou fazer-lo por si sem El'Rei. Dizendo que do sentimento que algumas escutas dos mouros haveriam de sua vinda, poderiam os de Tangere receber tal aviso, com que o feito de todo se perdesse, e porém ante de sua partida,tendo conselho com muitos e principaes homens que com elle estavam, Fernão Tellez lhe disse que era presente:«Senhor, n'esta determinação que tomaes, e em que nos pedis conselho, ante de dizer meu voto, queria de vós saber primeiro duas cousas, a primeira se houvestes licença d'El-Rei para só fazerdes o feito, e a segunda se tendes para elle gente que vos abaste».E o conde d'Odemira vendo que aquelles eram pontos sustanciaes e que em todo contradiziam á vontade e proposito do Infante, pelo lisonjar para a commissão de Mertola, e da Commenda Mór de Santiago, que lhe então requeria e houve, respondeu logo a Fernão Tellez com palavras assi irosas e asperas, em que o Infante consentio, que no exemplo d'este aprenderam os outros o que no caso diriam.E porém o Infante, porque a pergunta de Fernão Tellez ácerca da gente lhe pareceu boa e necessaria, quiz saber de todos de que gente para o feito se perceberia. Em que houve muitas sentenças, e com alguma o commettimento do infante (por lhe não desprazerem) se desfazia, anichillando em todo a resistencia e fraqueza dos mouros, salvo com a do conde de Viana que disse:«Senhor, eu não sei como estes senhores entendem isto que vos conselham, não querendo para acabar este feito, uns dizem vinte, e outros ao mais cento homens, pois eu Senhor não sou mais sandeu, e certifico-vos que me pesaria ser dos quinhentos que o commetessem para o bem acabar; porque quem bem consirar que por força ha-de lançar fóra de suas casas, e de tal cidade como é Tangere, a cerca de tres mil homens de peleja que n'ella vivem, e lhe haver de captivar suas mulheres e filhos, e roubar suas fazendas, em cujo amor se criaram e vivem, a razão lheensinará a gente que lhe cumprirá para vencer tantas forças, quanto mais que esta gente não são alarves com cajados por armas, mas é bem armada, feroz e ousada, e já se não hão d'espantar das mortes das mulheres e filhos; porque já muitas vezes as viram e padeceram, por isso Senhor vêde bem primeiro o em que vos meteis».Mas o Infante pelo ardente desejo que para isso tinha, pospostas todalas contradições, determinou de o fazer, de que alguns tiveram que o Infante por seu mui nobre e alto coração com que sempre suspirou por grandes e arduas empresas, não se contentava fazer nenhuma cousa, por boa e façanhosa que fosse, sendo debaixo de mando e capitania d'outrem, ainda que fôra um grande Imperador.E porém Diogo de Bairros, e João Falcão tiveram maneira que logo El-Rei fosse em Ceuta, como foi por elles de todo avisado, e de noite como El-Rei houve o aviso, logo a grande pressa mandou diante o Chichorro com vinte ginetes, para que o Infante sobresevesse em sua partida até sua chegada, mas o Chichorro achou já o Infante partido, e El-Rei com grão trigança partiu logo apóz elles acerca de sol posto com oito de cavallo e muita gente de pé, que de cançadaficouem Alcacere. E assi apressou seu caminho que ante manhã chegou aos medoõs que são junto de Tangere.E porque não topou com seu irmão, que fôra por outro caminho e ficava atrás, houve por sem duvida que elle era já dentro na cidade com o feito prosperamente acabado, pela qual maginação elle e todos davam muitas graças e louvores a Deus, e porém estando assi com os ouvidos álerta, esperando a grita e rumor da cidade, chegou a El-Rei o marechal, que o Infante mandara correr a cidade, por dessimular oescallamento a que com tempo devido não podera chegar; porque como o Infante no caminho viu que a noite lhe fallecia para n'ella chegar á cidade, lançou-se a duas legoas em cillada, e por dissimulação mandou correr com fundamento de ao outro dia tornar commetter o feito. Mas El-Rei com mostranças mais de tristeza que d'alegria se tornou a Alcacere, mui cansado e todolos seus; porque sem descer nem repousar andaram as maiores, nem mais fragosas quinze legoas que podem assignar, e o Infante onde estava em cillada, como soube da vinda e descontentamento d'El-Rei, partiu logo, e foi-se tambem a Alcacere anojado do conde D. Duarte, de quem suspeitou que o aviso d'El-Rei procedera. Mas o Infante não pôde escapar a uma grave e aspera reprensão que El-Rei seu irmão lhe fez pela perigosa ousadia que sem sua licença e contra seu mandado commettera.CAPITULO CLIIIDe como o escallamento de Tangere se commetteu finalmente a terceira vez pelo Infante D. Fernando, e do desastrado sobcedimento que houvePartiu-seEl-Rei para Ceuta, com fundamento de se vêr com El-Rei de Castella, que era já em Gibaltar, e o Infante ficou em Alcacere, onde pelo conde D. Sancho foi incitado para com tudo não desistir do mesmo escallamento que havia de todo por acabado, e que então a empresa d'elle lhe vinha melhor e com mais sua honra, pois El-Rei ia já d'elle de todo desconfiado, e que tivesse maneira que o conde D. Duarte não fosse com elle; porque além denão ser necessario, segundo elle sabia entoar suas cousas, cresse que todo o merecimento do feito quanto se bem fizesse havia de atribuir a si mesmo.E a tenção de tal conselho bem parece que de inveja, ou d'alguma outra paixão ia propriamente guiada e mais que da verdade, segundo a qual o conde D. Duarte fôra para conselho e ajuda de tal feito mui necessario; porque pelo acabamento de seus grandes feitos era havido e confirmado por mui singular capitão.Com este proposito o Infante se foi a Ceuta e para o escallamento, se se podesse fazer, pediu licença a El-Rei, que lh'a deu, dizendo-lhe que segundo a fortuna n'este caso se mostrara a elle tão contraira o havia de todo por perdido, e porém o leixava nas mãos de Deus e nas suas, e visse se por alguma maneira podia tomar o lugar; porque posto que lhe prouvesse muito acertar-se no feito; porém muito mais lhe pesaria perder-se, se sem elle se podesse cobrar, e com isto se tornou o Infante a Alcacere, sem o querer revelar em Ceuta, receando não se poder escusar do conde D. Duarte e d'outros senhores, que o haviam para isso de requerer. E depois de tornar e mandar firmar outras vezes a segurança do escallamento, aos XIX dias de Janeiro de mil e quatrocentos e sessenta e quatro partiud'Alcacere, e mandou levar quatro escadas, de que deu cargo áquellas pessoas em que entendeu que havia saber e esforço para isso.E na tristeza e pezo que todos levavam pelo caminho, logo para bem do feito pareceu desaventurado pronostico, especialmente que sendo sobre o cabeço, que dizem d'Almenar, pareceu no ceu á vista de todos um espantoso cometa, que lançava de si muitos raios de fogo em figura de dragão. Ali disse então Gomez Freire, nobre fidalgo e de grande coração:«Oh! noite má, para quem t'aparelhas», que ficou em proverbio muito tempo acostumado.E assi chegaram os primeiros com grande luar junto com a cidade, onde porque a lua de todo se pozesse, esperaram até tres horas ante manhã. E logo Diogo de Bairros, e João Falcão como principaes movedores do feito, pediram e requereram a alguns do conselho d'El-Rei e do Infante que hi eram, que juntamente fossem com elles como testemunhas vêr como estava; porque se por algum caso se perdesse ou desaviasse, elles ficassem por verdadeiros e livres da culpa, e João de Sousa a que seu resguardo pareceu bem acceitou sua companhia, antre os quaes foi dado aviso que as escadas não se pozessem, salvo depois que a guarda dos mouros descesse do castello para fundo.E aqui é de saber que este lanço de muro porque o escallamento era ordenado, cerra no castello da parte do sertão em que ha cinco cubellos, em fim dos quaes seguindo para fundo está uma torre que se chamava de Gillahare.E porque do castello havia sahida para o muro por uma ponte levadiça, acordaram os christãos, que por quanto os mouros do castello sentindo a gente no muro poderiam sahir pela ponte e impedir e damnificar os que subissem pelas escadas, que a gente assi como subisse no muro, assi se mettesse logo entre a dita ponte e as escadas, e uns resistissem aos mouros que do castello quizessem sahir, e outros corressem pelo muro a fundo para tomarem outra torre que está sobre um postigo, que se chama de Gurer, com que se cobravam duas cousas para o feito mui necessarias e seguras. A primeira para a gente poder de fóra entrar mui livremente sem perigo nem contradição dos mouros, e a segunda senhoreavam aescada do muro para que a salvo podiam descer e entrar para a cidade.E os dois principaes escalladores e guiadores, foram primeiramente no muro, e assi os outros que após elles haviam de seguir. E acertou-se que a rolda dos mouros havendo já d'elles algum sentimento estava lançada entre as ameas d'aquella parte, para differençar bem se eram os barbaros da serra, que ás vezes com suas cargas e bestas se lançavam ao pé do muro, ou por ventura christãos, e tanto espaço tomou para de sua duvida se certificar, que dos christãos houveram sessenta lugar para subir, que por pontos d'honra em taes tempos e casos mui prejudiciaes, não quizeram guardar o que entre elles fôra concordado. Pelo qual João Falcão vendo começos de tanto desmando, disse a João de Sousa que tomasse ou matasse um mouro guarda que tinha ante si. E João de Sousa como fidalgo acordado e de bom coração remetteu a elle, o qual da sombra da morte que comsigo viu, acabou ser desenganado de sua duvida e começou de se poer em defesa, e em João de Sousa correndo a lança nas mãos para lhe dar, o mouro em se retrahendo cahiu do muro contra a cidade dentro em um pomar, d'onde começou logo dar grandes brados, senificando com elles o damno dos christãos que se aparelhava, e os christãos como os ouviram sem mais outra consiração, crendo que outra sua grita ao menos para desmaio dos contrairos aproveitaria muito, logo a deram com altas vozes, e não sem grande estrondo de trombetas que já eram em cima, a que os mouros acordaram, e com muita trigança acudiram por saber a causa de tamanho rumor, principalmente os que guardavam a torre do muro porque os christãos haviam de passar. Os quaes assi como viram os nossos estar no muro, assi se tornarame pozeram á porta da torre, de que podiam bem defender aos christãos a passagem do muro para o não poderem descer para a cidade; porque com sós paos sem outras armas, aos que por elle passassem, segundo era estreito podiam levemente lançar d'elle abaixo, e assi o faziam, e os christãos não podendo já passar não leixavam por isso de subir; porque o Infante era já ao pé do muro, que a uns por amor, e a outros com temor constrangia para isso, e assi como subiam não podendo al fazer assi se mettiam por esses cubellos, e outros descendo para fundo não podendo passar ficavam amontoados, sem poderem aproveitar a si nem danar aos contrairos.A cidade era já toda posta em armas e grande alvoroço, e como o alcaide que se chamava Abrahem Benaamet foi por si certificado que nas outras partes da cidade não havia outro commetimento nem affronta que muito receou, salvo n'aquella, mandou logo ali vir grande claridade de fogo, e com besteiros e espingardeiros, que em grande numero mandou metter no pomar que era defronte d'onde os christãos estavam, matavam e feriam muitos, e muitos em se revolvendo cahiam do muro entre elles, que claramente eram logo espedaçados, e com gente que se enadeu no castello, que sahiu pela ponte levadiça, tomaram as escadas postas no muro, ainda que não foi sem grande peleja que sobr'isso houve, e foi de maneira que do castello e de todalas partes, os mouros sem algum seu perigo faziam um piadoso estrago nos christãos, porque sendo as escallas tomadas não tinham algum remedio de salvação. O que todo bem visto por João de Sousa, disse ao Infante de cima do muro, que não mandasse subir mais gente; porque o feito com a gente subida eram de todo perdidos, e o Infante sobre esperança de tanta alegria, ouvindo recadotão certo e tão triste, não menos anojado que esforçado arremetteu a uma escada de troços que mandara armar, e quizera por ella subir dizendo que o que fosse de tão bons criados e servidores como já dentro eram, seria d'elle até com elles morrer. Mas era hi o conde d'Odemira, e o commendador mór de Christus com outros, que com palavras prudentes e de bom esforço o detiveram, dizendo-lhe que aquella gente por boa e nobre que fosse, em caso que Portugal a perdesse, bem poderia cobrar outra tal e melhor; mas não a elle que era tal e tamanho Principe, que o reino teria d'elle para sempre muita mingua e grande necessidade, e que não desse causa que Tangere fosse tantas vezes sepultura de Infantes de Portugal, e com estas e outras razões de conforto a estas conformes a que o Infante obedeceu, vendo já o feito sem algum remedio, se tornou para Alcacere.E dos christãos entre mortos e captivos ficaram trezentos, todos os mais homens escolhidos e especiaes, duzentos mortos e cento captivos, e dos mortos foram principaes, D. Gonçalo Coutinho, conde de Marialva, e D. Rodrigo seu filho bastardo, e Gomes Freire d'Andrade, e D. Jorge de Crasto, filho de D. Alvaro, que depois foi conde de Monsanto, e D. João de Eça, e João de Taide, e Pedro Coelho, e Rui Diaz Lobo, e Pero de Sousa seu irmão, Fernão de Macedo, e Pedro de Macedo seu irmão, e Alvaro de Sá, e Fernão Vaz Côrte Real, Rui Paes, e Pero Paes, filhos de Payo Rodriguez, Contador Môr, e assi outros muitos e bons cavalleiros e homens de nobre sangue e bom coração.E dos captivos principaes, que aos cubellos se recolheram e preitejaram com os mouros, foi D. Fernando Coutinho, marechal, Fernão Tellez, Ruy Lopez Coutinho, João Falcão, e Diogo da Silva, que depois foiconde de Portalegre, Garcia de Mello, D. Alvaro de Lima, filho do visconde D. Lionel de Lima; e outros muitos até o dito numero, em cujos grandes resgates além das mortes de tanta e tão nobre gente, o reino recebeu uma durosa magua e grandissima perda, a qual testemunhou bem com os grandes prantos e geraes lamentações que em todo elle por este caso se fizeram, e na gloria da victoria que os mouros tinham, praticando e examinando se entre os christãos mortos ou captivos seria hi o conde D. Duarte, respondeu um velho e entre elles de grandeauctoridade: «não busqueis hi o conde D. Duarte; porque na grande desordenança dos christãos vi eu bem que não andava hi».CAPITULO CLIVComo El-Rei foi d'este triste caso avisado em Ceuta, o dia que tinha concertadas vistas em Gibaltar com El-Rei de Castella, a que todavia foi, e o fundamento das ditas vistasUmAntão Vaz, alfaqueque, era n'este desastrado caso, e como viu o triste sobcedimento d'elle, logo a grande pressa o veiu notificar á condessa de Viana, que era em Alcacere, a qual logo com grande trigança por mar e por terra o fez saber a El-Rei, cujos avisos, por impedimentos que no caminho houveram, precedeu um outro, que o Infante em chegando a Alcacere logo lhe enviou por um seu escudeiro, que chegou a El-Rei ante manhã, na hora que estava de caminho para Gibaltar, onde por meio do conde de Ledesma tinha vistas concertadas com El-Rei D. Anrique de Castella que o já esperava.E El-Rei não quiz desfazer sua ida, e porém despachou o conde de Viana, que logo tornou ao Infante seu irmão ao confortar e desapassionar do caso passado, que o cumpriu com muita prudencia e despejo, e de que o Infante mostrou receber algum descanço e menos dôr.El-Rei em partindo avisou o escudeiro, que até não ser no mar não dissese nada do caso, por não commover a choro e tristeza os senhores que em sua companhia tinha ordenados, que eram o conde deGuimarães, e D. João seu irmão, o conde de Monsanto, o conde da Atouguia, o Prior do Crato, e muitos outros do conselho, e gentis homens fidalgos de sua casa, com os quaes El-Rei passou a Gibaltar, onde El-Rei de Portugal e El-Rei de Castella tiveram suas praticas e concordias, cuja sustancia foi requerer El-Rei D. Anrique liança a El Rei D. Affonso, para contra os grandes de Castella, que com desleal alevantamento d'El-Rei D. Affonso o moço seu meio irmão lhe queriam desobedecer, e que para ter mais razão de o ajudar, queria que a Infante D. Isabel sua irmã casasse com El-Rei D. Affonso; e D. Joanna que então era havida por sua filha, e jurada por Princeza de Castella, casasse com D. João Principe de Portugal. E sobr'isto fizeram acordos promettidos e jurados nas mãos de D. Jorge, Bispo d'Evora, que depois foi Arcebispo de Lisboa e Cardeal. Os quaes principalmente pela grande inconstancia do dito Rei D. Anrique, e por impedimentos e contradições outras que se seguiram não houveram effeito.E não sómente sobre estes casos os ditos Reis fizeram esta vez estas vistas; mas depois outras com muitas embaixadas, e porque d'ellas nunca resultou conclusão que entre elles se executasse nem cumprisse, não farei agora d'ellas nem depois muita menção.CAPITULO CLVDe como El-Rei em pessoa correu o campo d'ArzillaTornou-seEl-Rei a Ceuta, onde foi aconselhado que por quanto a boa fortuna n'esta jornada d'Africa então lhe não terçava á sua vontade, consirada isso mesmo a perda da gente com outros inconvenientes assaz efficazes, que sem mais fazer nem commetter outra cousa se devia de tornar ao reino, e dar a seus vassallos algum pão de paz e descanso. E porém El-Rei sem embargo de todo determinou correr primeiro o campo d'Arzila, e vê-la, com desejo de a tomar, o que logo pôs em obra; porque partiu logo para Alcacere, e de hi com o Infante passou a serra pelo porto d'Alfeixe, e em amanhecendo deram em umas aldeias, que com o aviso e mêdo da ida d'El-Rei eram já despovoradas, e porém correram legoa e meia por outras partes, e n'aquellas principalmente que o Infante D. Fernando barrejou mataram alguns mouros e captivaram muitos, e arrancaram muito gado e outro despojo, com que já de noite passaram o rio de Tagadarte, e junto com elle da banda d'Alcacere se alojaram aquella noite. Na qual sobrevieram tantas chuvas, e tão aspera tempestade com que a ribeira encheu de maneira, que se a não tiveram passada e ficando alem d'ella, se dispunham a mui certo perigo; porque a infinda gente dos mouros que logo cresceu deu d'isso ao diante claro testemunho.E por esta causa não pôde El-Rei vêr Arzilla, de que recebeu então gram desprazer, e muito mais depois que soube que os mouros da villa indo elle sobre ella tinham determinado dar-lh'a, e virem ao caminho entregar-lhe as chaves, e tornou-se a Ceuta onde oscavallos e a gente por mau trato, e por aspereza dos tempos lhe falleciam. E por isso logo começou de declarar sua vinda e despedir a gente; e porém El-Rei não era satifeito; porque em todo o tempo d'esta passagem se não vira em alguma travada peleja de mouros, como elle desejava.CAPITULO CLVIDe como El-Rei D. Affonso foi correr a serra de Benafocú, e como foi em grande perigo, e como mataram os mouros o conde D. Duarte, e a Diogo da Silveira, escrivão da poridadeEstandoEl-Rei com este descontentamento, que de seu animo grande e esforçado procedia, vieram por caso a Ceuta quatro mouros, que o metteram em grande alvoroço de grande cavalgada e boa escaramuça, que lhe dariam na serra de Benacofú, onde havia a mais guerreira gente d'Africa. E El-Rei com um natural desejo que para isso tinha, e com outra sêde já de vingança, fallou com Lourenço de Caceres, adail, que foi vêr, e lhe disse o caminho que para aquelle podia levar.Era em Ceuta o conde D. Duarte, e como quer que alli viera aforrado sem cavallos, armas, nem gente para sómente despachar com elles seus negocios, El-Rei mandou que fosse com elle, ao que obedeceu, e porém com carregume e tristeza de sua morte, que a alma lhe adivinhava, e logo publicamente o disse, que aquelle dia seria sua fim, especialmente porque um Frei Luiz, D. Abbade do Mosteiro da Cerzeda, homem estrangeiro, e de juizos d'astrologo mui certo lhe disse que havia de morrer sob alheia capitania.Partiu El-Rei com oitocentos de cavallo, e pouca gente de pé, e foi-se alojar junto com o castello d'Almunhacar, onde repousou o outro dia quasi todo, e o Infante D. Fernando seu irmão era já partido para Portugal, e porém com El-Rei eram capitães e pessoas principaes o duque de Bragança, o conde de Guimarães, e D. Affonso que depois foi conde de Faram, seus filhos, e o conde de Villa Real, D. Affonso de Vasconcellos, que foi depois conde de Penella, e o conde de Monsanto, e o conde de Vianna, e D. Anrique seu filho, e outros muitos fidalgos e cavalleiros e nobres homens com que partiu e entrou de noite na serra, que em todo para os de pé era mui aspera e fragosa, quanto mais para cavallos tão trabalhados, e como foi manhã repartiram-se as gentes em capitanias, e á ventura começaram de correr a terra, e os mouros que por almenaras eram já d'esta entrada avisados, uns embrenhavam suas mulheres e filhos nas mattas e serras que ali ha mui fortes e com grande espessura, e outros com muita braveza e esforço vinham travar escaramuças e pelejas, que por uns e por outros houve em muitas partes mui bem pelejadas, em que dos mouros entre mortos e feridos houve gram numero, e não sem muito dano dos christãos, de que muitos em offender mouros e defender e salvar christãos fizeram feitos mui assignados.El-Rei andou pelo espigão da serra; porque a encavalgou por um de dois espinhaços que ella faz, e sahiu por outro, e foi ter a uma grande aldeia cabeceira das outras, onde comeu e repousou um pouco. E então mandou a Lopo d'Almeida e ao adail, que com a gente necessaria levassem a cavalgada ao pé da serra onde o esperassem, e d'ali abalou El Rei com mais vagar do que o tempo e a terra requeriam, e de um cabeço em que se pôs, mandou aos espingardeirose besteiros e gente de pé, que por mór despejo se fossem diante caminho de Tutuam, onde aquella noite havia de repousar, e depois de passado um grande espaço ainda com passos vagarosos seguiu sua viagem, e após elle sem muito alvoroço vinham alguns mouros de cavallo, e sobresendo El-Rei disse: «Parece-me que estes mouros na maneira em que vem mais quererão paz que peleja», com os quaes esteve á falla, querendo d'elles saber se queriam ser seus como os outros, a que os mouros pediram horas d'acordo e consulta com outros seus visinhos, que em grande somma eram postos em um cabeço que El-Rei já leixara; e porque a resposta tardava El-Rei abalou, e com seu estandarte diante sobiu com os de cavallo a um cerro alto e de pedras e barrocas mui fragoso; era na reguarda d'elle o conde de Villa Real e bem detraz, e o conde de Guimarães pediu a El-Rei que por quanto o conde seu cunhado ficava em grande perigo o mandasse com espingardeiros e besteiros soccorrer, para que já se não acharam, e El-Rei lhe mandou dizer que logo sem mais esperar se recolhesse a elle; mas o conde como era esforçado e singular capitão, e nas manhas dos mouros assaz avisado, mandou dizer a El-Rei que lhe despejasse o porto e se fosse embora; porque elle por seu serviço se recolheria com sua honra e com dano dos mouros.E certamente como quer que o conde de Villa Real por sua bondade d'armas outras vezes mereceu e ganhou grande honra e muito louvor, n'este dia em especial o acrescentou muito mais; porque álém de se recolher como cumpria a um singular capitão, indo como ardido cavalleiro, os imigos nas voltas e esperadas que n'elles muitas vezes fez receberam muitas mortes e damnos.Estando El-Rei n'aquelle teso, a sua gente cada vezlhe mingoava mais, e a dos mouros crescia contra elle em maior avantagem, e em vozes altas e iradas disseram contra os christãos:«Dizei a vosso Rei que não queremos com elle paz se não crua guerra, e que saiba por estas barbas e cabeças que tocamos, que hoje é o dia da nossa vingança»E em se El-Rei decendo da serra carregaram os mouros logo sobr'elle, e das ilhargas feriam mui mal os cavallos, a que El-Rei com quatrocentos de cavallo que com elle seriam, fez com muita destreza tres voltas curtas, em que além d'outros feriu e matou per si um mouro com muito despejo e ardideza, e porque o perigo sobre El-Rei recrecia cada vez maior, alguma gente sua esquecida da lealdade e defendimento que lhe deviam, lembrando-se mais de sua propria salvação começavam de o desamparar, e náo aproveitavam brados nem vozes, por bem que se n'elles altamente afiasse a desleal vergonha com que em tal tempo leixavam seu Rei com sua bandeira.E vendo-se já El-Rei mui afrontado, sendo estreitamente aconselhado que ao menos das serras se salvasse para o campo, chamou o conde D. Duarte e disse-lhe:«Conde, ficai com estes mouros, porque lhe conheceis melhor as manhas, e acaudellai esta minha gente.»E o conde lhe respondeu:«Senhor, eu não quizera que em tal tempo me dereis este cuidado, especialmente porque não tenho aqui minha gente que me conhece, cá pois estes que são presentes e vossos, não obedecem a vosso mandado, menos cumprirão o meu, porém pois que o assi haveis por vosso serviço, hei por muito bem empregado a mi mesmo em qualquer trabalho e perigo que me acontecer, até morte.»E o conde não era em suas palavras enganado,por que como El-Rei moveu, assi o fizeram todos após elle, sem o conde poder aproveitar em nada, antes seu cavallo logo lhe foi morto, e elle ferido, sobre que acudiu o conde de Monsanto seu cunhado, trabalhando de o poer em outro cavallo, em que se acertaram os loros tão compridos, que o conde com a perna direita nunca pôde vingar a sella, antes com a espora feriu o cavallo nas ancas, que aos couces o lançou logo no chão.O conde D. Duarte não vendo já esperança de sua vida, pediu ao conde de Monsanto que salvasse a sua e o leixasse. E porém os mouros carregaram sobre elle e leixaram alli seu corpo sem vida, e não sem primeiro sentirem muita vingança de sua morte, sendo já primeiro junto com elle morto um Nuno Martins de Villa-Lobos seu criado, que como bom recebeu aquella morte por lhe querer soccorrer com seu cavallo de que se deceu.E El-Rei com assaz afronta se recolheu por uma lomba a fundo, onde seu estandarte nas mãos de Duarte d'Almeida, alferes, foi dos mouros muitas vezes abatido, e fôra tomado se o esforçado acordo do alferes e valentia de Ruy de Sousa o não salvaram.Foram alli mortos Diogo da Silveira, escrivão da poridade, e Fernão de Sousa, alcaide de Guimarães, e Luis Mendes de Vasconcellos, e Pero Gonçalves, secretairo, e outros que acabaram como bons e leaes cavalleiros.Deceu El-Rei ao pé do monte ainda dos mouros bem perseguido, e quizera fazer sobr'elles uma volta, para com elles em pelleja esprementar sua fortuna, mas por força de nobres homens que hi eram, vendo a disposição de tamanho perigo, o tiraram e passaram além de um rio, onde chegou a elle o condede Villa Real que sempre ficara de tras, que seu braço e acordo escusou muito dano a El-Rei, que em publico lhe disse: «Conde a fé ficou hoje toda em vós», e de hi contra vontade de muitos, El-Rei se foi aquella noite alojar a Tutuam, e ao outro dia partiu para Ceuta. E no caminho fez vir ante si D. Anrique de Menezes, filho do conde D. Duarte, e o confortou com louvores da honrada morte de seu pae, e com esperança de grande acrecentamento, que por seus serviços e merecimentos lhe faria como fez, porque alli o fez conde, e lhe deu todalas mercês que seu pae tinha. Verdade é que lhe tirou Vianna de Caminha, e lhe deu depois Vallença com o titulo de conde d'ella, e depois o de Loulé.CAPITULO CLVIIDe como El-Rei se veiu a Portugal e foi em romaria, a Guadalupe, e se viu com El-Rei D. Anrique e com a Rainha, sua mulherTantoque El-Rei despachou suas cousas em Ceuta, se partiu logo para o reino, e veiu desembarcar a Tavilla, e de hi foi ter a Evora a Pascoa d'este anno de mil e quatrocentos e sessenta e quatro. Passada a qual se foi a Elvas, e d'hi com alguns senhores e fidalgos escolhidos, secretamente se foi em romaria a Santa Maria de Guadalupe. E de hi para concerto já praticado se foi ao lugar da ponte do Arcebispo, onde se viu com El-Rei D. Anrique, e com a Rainha D. Joana sua irmã. E alli tiveram as mesmas praticas e acordos de Gibaltar sobre casamentos e lianças, que em fim não houveram effeito,porque a Infante D. Isabel de Castella, contra vontade d'El-Rei D. Anrique, e por meio do Arcebispo de Tolledo casou logo com D. Fernando, Principe d'Aragão e de Cicilia, que depois reinaram pacificamente em Castella, e o Principe de Portugal casou com a Senhora D. Lianor sua prima com irmã, filha maior do Infante D. Fernando, que depois foi Rainha de Portugal.N'este anno de mil e quatrocentos sessenta e quatro, no mez d'Agosto, falleceu o Papa Pio, e sobcedeu após elle o Papa Paulo segundo.CAPITULO CLVIIIDe como houve em Castella grande devisão, sobre que houve vistas na cidade da Guarda com a Rainha irmã d'El-ReiE noanno seguinte de mil e quatrocentos e sessenta e cinco houve em Castella entre El-Rei D. Anrique e os senhores do reino grande differença; porque alguns por vicios e erros que lhe punham, lhe alevantaram a obediencia e a deram ao Infante D. Affonso, que em moço alevantaram por Rei, sobre a qual cousa a Rainha D. Joana de Castella para pedir ajuda e socorro contra os revés a El-Rei D. Anrique seu marido, e assi ainda sobre os ditos e lianças veiu á cidade da Guarda em Portugal. Onde El-Rei tambem veiu, e fez côrtes de todolos grandes e povos de seus reinos, e todos a ellas vieram salvo o Infante D. Fernando, que em vindo adoeceu na sua villa de Covilhã e não pôde estar n'ellas, nas quaes a Rainha em nome d'El-Rei e seu requereua dita ajuda, com fundamentos e causas que pareciam de honra, razão e proveito, mas em fim conhecida a condição variavel do dito Rei D. Anrique, e outras cousas mui perjudiciaes a taes lianças, foi El-Rei aconselhado que em tal discordia e empreza nem lianças se não antremettesse, da qual cousa com a mais honestidade que pôde se escusou. Como quer que nos primeiros movimentos sua tenção foi dar-lhe ajuda, para que antes d'estas côrtes fez alguns percebimentos. E segundo o muito desejo que para isso tinha, não fôra maravilha forçar as prudentes vozes e acordos de seu conselho, se o dito Rei D. Anrique fôra dos seus vassallos mais tempo desobedecido; mas falleceu logo o dito Rei D. Affonso seu irmão e competidor, por cuja morte todalas rebeliões e alvoroços cessaram em Castella; porque os cavaleiros desobedientes não tendo cabeça de seu alevantamento, volveram logo a obediencia d'El-Rei D. Anrique.CAPITULO CLIXDe como se concertou casamento entre o Principe D. João com a Senhora D. Lianor filha do Infante D. FernandoE as cousas que nos annos seguintes de mil e quatrocentos sessenta e seis, sessenta e sete e sessenta e oito, n'estes reinos de Portugal sobcederam, foi concerto que se fez do Principe D. João, filho d'El-Rei D. Affonso com a Senhora D. Lianor, filha maior do Infante D. Fernando; porque como quer que o dito Principe muitas vezes fôra d'El-Rei D. Anrique requerido para casar com a Senhora D. Joana sua filha, Princeza que então se diziade Castella, e El-Rei D. Affonso era a isso inclinado; porque no tempo d'este requerimento sobreveio o mau sobcedimento do escallamento de Tangere, de que o Infante D. Fernando ficou mui anojado e triste, e El-Rei D. Affonso seu irmão pelo confortar e alegrar como era razão, e tambem porque a dita Senhora D. Lianor sua filha por seu real sangue, muitas bondades, e gram perfeição era dina de um grande Imperador, prouve-lhe que o casamento do Principe seu filho se fizesse com ella. E que emquanto ambos cumprissem a idade necessaria para contraer perfeito matrimonio, se houvesse a despensação Apostolica como se houve do Papa Paulo. E porém ao tempo que a dita despensação veio, que foi no anno de mil e quatrocentos e setenta, o Infante D. Fernando era fallecido como se dirá.CAPITULO CLX

De como o Senhor D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, se foi de Ceuta para Barcellona, e se intitulou Rei d'Aragão

De como o escallamento de Tangere se commetteu a segunda vez pelo Infante D. Fernando sem consentimento d'El-Rei

De como o escallamento de Tangere se commetteu finalmente a terceira vez pelo Infante D. Fernando, e do desastrado sobcedimento que houve

Como El-Rei foi d'este triste caso avisado em Ceuta, o dia que tinha concertadas vistas em Gibaltar com El-Rei de Castella, a que todavia foi, e o fundamento das ditas vistas

De como El-Rei em pessoa correu o campo d'Arzilla

De como El-Rei D. Affonso foi correr a serra de Benafocú, e como foi em grande perigo, e como mataram os mouros o conde D. Duarte, e a Diogo da Silveira, escrivão da poridade

De como El-Rei se veiu a Portugal e foi em romaria, a Guadalupe, e se viu com El-Rei D. Anrique e com a Rainha, sua mulher

De como houve em Castella grande devisão, sobre que houve vistas na cidade da Guarda com a Rainha irmã d'El-Rei

De como se concertou casamento entre o Principe D. João com a Senhora D. Lianor filha do Infante D. Fernando


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