CHRONICAS DE VIAGEM

CHRONICAS DE VIAGEMVIUma festa de charidadeOrganisara-se nas Caldas da Rainha uma festa de charidade, no Salão da Convalescença, em beneficio da Associação Promotora do Ensino dos Cegos.Luiz Gama, este endiabrado rapaz que toda Lisboa conhece e estima, rapaz que parece um velho quando joga owhist, posto andasse muito azoinado com oscallixtosque lhe rodeiavam a mesa do jogo, fosse em plena Alameda, nas horas de calma, ou sob o Ceu de Vidro, nos intervallos da valsa, que elle raras vezes perdia, não poude resistir ao convite que lhe fizeram algumas senhoras para tomar parte namatinée.Comprometteu-se, e comprometteu-me pedindo-me com instancia que lhe escrevesse uns versos, consentaneos{54}ao seu genio alegre, para dizer no Salão da Convalescença. Eu não chegava então para os largos passeios que todas as semanas fazia com o meu amigo Carrilho. Luiz Gama insistia, porém, e não tive outro remedio senão procurar um assumpto entre um copo d'agua das Caldas e a partida d'um comboio.Não estava Luiz Gama sendo, segundo elle mesmo caramunhava, uma victima doscallixtos? Toda a gente o sabia. Pois bem. Lembrei-me de proporcionar á victima uma excellente occasião para vingar-se publicamente dos seus algozes, e mandei-lhe isto, que elle teve a paciencia de decorar e dizer:OS CALIXTOSSe os ha?! Que os ha, é de fé.Até suppõe muita genteQue Adão e Eva tiveramN'um joguinho que fizeramPor callixto uma serpente.Eva perdeu... quanto tinha.O proprio Adão foi noprégoPôr a caixa do rapé!Só os não vê quem fôr cego...Se os ha?! Que os ha, é de fé.{55}Ha-os de varios feitios.Um, gallinha nunca farta,Cobrindo co'a aza o filho,Vai vendo carta por cartaComo a comer grãos de milho.Um outro a penca intrometteEntre as cartas e o sujeito,Como se fosse um petizQue a gente tivesse ao peito,Sendo a ama d'um nariz.Até se diz que um parceiroDomironea penca assuouNo Ceu de Vidro, domingo,Porque em boa fé pensouQue era o seu que tinha pingo.Já encontrei um callixtoGordo, obeso, uma balêa,Que me poz o barrigaço—Façam vossencias ideia!—Em peso sobre este braço!O general é medonho!Não ha callixto peiorEntre os maus que tenho visto.Vejam lá! é meu callixtoDesde que elle era major!{56}No Gremio um desconhecidoFoi-se sentar a meu lado:Perdi a trena e o leme,Apanhei logo um xelemeE outro d'ahi a bocado.Perguntei-lhe: Em seu juizoQual animal é maior?Hesitou. D'ahi a um instanteDisse que era o elephante.—«Pois então faça favor«D'ouvir isto que lhe digo,(Repliquei, de mim já fóra,Ameaçador, fulminante)«Olhe, snr. elephante,«Não posso mais!... vá-se embora.»Em sendo calvo o callixto,Tremo logo só de vel-o.É tão callixto o diabo,Que até do proprio cabelloPor callixtice deu cabo!Ha outros que têm madeixasComo cachos de banana,E que escorrem sobre a genteAlgum óleo impertinenteOu agua circassiana.{57}Tambem os ha femininos,Que põem o pé na cadeira,Mostrando a botina... Eu achoQue, sendo d'esta maneira,Só encallixtam por baixo...Mas a peior das callixtas...Não me lembra agora isto!A coisa... não vae ao fim!Pois se um senhor que é callixtoEstá d'além a olhar p'ra mim!Cahiu em boa Luiz Gama! No dia seguinte oscallixtosresolveram vingar-se d'elle por sua vez: apanhou uma grande sova aowhist.{58}{59}CHRONICAS DE VIAGEMVIIFigueira da FozDesde S. Martinho do Porto até á Marinha Grande a linha ferrea da Figueira é a mesma que fazia antigamente o serviço especial entre a fabrica da Marinha Grande e o porto de S. Martinho.O pinhal abunda no trajecto d'esta linha, logo que se passa a estação de Vallado: o famoso pinhal de Leiria, filho querido d'el-rei D. Diniz.Em toda esta região, que vamos atravessando, houve outr'ora porém um senhor ainda mais poderoso do que D. Diniz: era o mar.Alfeizerão, que deixamos ha muito, terra dentro, fôra até ao seculoXVIum bello porto de mar, que podia abrigar mais de oitenta embarcações.D. Diniz, que tinha em Monte Real a sua habitação{60}predilecta, quiz fazer na villa de Paredes um porto de mar. Sobre as ruinas de Paredes assenta a actual Pederneira.Fez-se effectivamente o porto, porque, como diz o proverbio,El-rei Diniz fez quanto quiz, mas grandes alluviões de areia foram obstruindo o porto. D. Diniz pretendeu pôr um obstaculo a essas enormes alluviões mandando semear o pinhal de Leiria e adoptando outras providencias conducentes ao mesmo fim.Uma d'essas providencias consistiu em ordenar aos foreiros da casa da Nazareth que lançassem, contra o mar, um certo numero de carradas de areia, que o vento fosse accumulando no largo da egreja e nas ruas do Sitio.Da povoação de Paredes, que devia ser importante, graças ao movimento do seu porto, existe apenas... a Pederneira.O mar espraiou-se pois por toda esta região, que vamos atravessando, até que as alluviões de areia lhe disputaram o dominio.E hoje a locomotiva assobia o hymno do progresso atravez do pinhal de D. Diniz, deixando ao largo o mar, que perdemos de vista para só tornar a enxergal-o nas proximidades da Figueira da Foz.A estação que se segue á da Marinha Grande é a de Leiria.{61}No alto do monte escarpado, o castello de Leiria, com a sua torre de menagem menos mal conservada, desenha-se no azul, immovel e sereno.Ha muitos annos que eu não tinha visto este vetusto castello, que me deixára uma impressão desagradavel quando então passei em Leiria caminho da Batalha. Nas ruas de Leiria o castello, esmagando-me com o peso dos seus muros e da sua torre, parecia seguir-me por toda a parte, como um fardo que me dobrava os hombros. Era asphyxiante, visto da cidade, aquelle castello. Mas, visto de longe, como agora, affigurou-se-me um dos mais bonitos castellos que sobrevivem ainda, gostei de vêl-o altivo na sua decadencia, magestoso ainda na sua inutilidade, esperando impassivel a hora em que a tempestade derrube os seus muros com um feixe de raios...Passado o apeadeiro dos Milagres, é Monte-Real, o sitio predilecto de D. Diniz, a primeira estação que se encontra.Apezar da ardencia d'esse dia, extremamente calmoso, apezar de ser oppressiva a temperatura, abafadiço o ar, passou pelo meu espirito um relampago de historia patria, vi de relance D. Diniz, trovador aventuroso, rei galante, envolvido nas suas proezas tunantescas de Leiria, frequentando de noite, enamorado de uma camponeza, a aldeia de Amor...{62}El-rei DinizFez quanto quiz,Até no amor...Graças ao sceptro,Graças ao plectro,Rei-trovador.Depois, quiz-me parecer tolice de marca maior estar a remexer no rescaldo da historia amorosa de D. Diniz em dia de tão intensa calma, fechei de subito o livro da memoria, forcejei por lembrar-me de que eu tinha escolhido aquelle dia precisamente para não pensar em nada que me desse cuidado, e puz-me a olhar para a paizagem que ia apparecendo e fugindo como no fundo de um kaleidoscopo.A Amieira, que é o ponto de bifurcação do ramal de Alfarellos, possue, como se sabe, uma nascente de aguas medicinaes, que está sendo explorada com bons creditos.Ahi, encostadas á grade da estação, vimos as primeiras camponezas do valle do Mondego, com o seu trajo caracteristico,—bellos exemplares de opulencia plastica, e saudamos n'essas tres camponezas, sadias e robustas, a mulher do norte.E as tres camponezas, ouvindo ou não ouvindo as nossas saudações enthusiasticas, comiam maçãs, rilhando-as{63}um pouco suinamente, ó prosa da realidade, terrivel prosa!Não se póde já ser um pouco artista, nem mesmo em viagem!O valle do Mondego principiou a desenrolar-se deante dos nossos olhos, com os seus esteiros, a sua linha recta coberta de verdura e scintillante de agua.Entre a Amieira e a Figueira medeiam apenas dois apeadeiros, o de Lares e o de Santo Aleixo: as primeiras casas da Figueira não tardaram a apparecer-nos como guarda avançada d'essa bonita cidade maritima, já então tão concorrida de banhistas.Na estação da Figueira entramos noamericanoporque o meu amigo Carrilho propoz, e eu approvei, que fossemos antes de jantar a Buarcos.Oamericanodeslisa ao longo da praia. Deslisa é um modo de dizer, porque, justamente quando passavamos em frente do Bairro Novo, oamericanoemperrou pela primeira vez, saltou fóra das calhas, um muar cahiu estatelado. Quando isto aconteceu pela segunda vez, no meio das pragas de varios hespanhoes que enchiam o carro, o meu amigo Carrilho propoz que fizéssemos a pé o passeio de Buarcos.E assim mesmo é que foi: largamos a andar por alli fóra intrepidamente.Buarcos é uma especie de retiro de banhistas{64}pacatos, que fogem do bulicio da Figueira. Bom ar, bom mar, mas pouca gente. Pacato de mais. Quasi ao mesmo tempo que chegavamos a Buarcos, tendo feito o caminho a pé, chegava oamericano, com os muares escalavrados das successivas quedas que tinham dado.O conductor perguntou-nos se queriamos ir vêr a mina do Cabo Mondego ou se faziamos tenção de ir vêr a fabrica. Dissemos-lhe que faziamos apenas tenção de ir jantar á Figueira. Então o conductor disse-nos que, visto termos ido a pé, tendo pago os nossos logares, queria de algum modo indemnisar-nos, fazendo-nos transportar immediatamente á Figueira.Pasmamos d'aquillo, d'aquelle originalamericano, tão caprichoso no seu serviço irregular!O carro partiu, e foi-se enchendo pelo caminho. Só então reconhecemos que tinhamos feito um grande passeio a pé, quasi sem dar por isso.Anoitecia. O céu e o mar estavam serenos. Um vaporzinho rebocava um navio, porque a barra da Figueira, apesar dos melhoramentos que se lhe têm feito, é simplesmente detestavel. No alto, o Bairro Novo alvejava com as suas construcções recentes, elegantes, e, ao trote dos muares, entramos de novo na Figueira, parando era frente doHotel Universal.Esperámos, á janella do hotel, que nos servissem{65}o jantar, e pudemos surprehender d'ahi a physionomia um pouco hybrida mas pittoresca da Figueira: o mar batia contra a muralha, o navio entrava rebocado, uns pescadores passavam altercando, e dois homens de chapeu alto e sobrecasaca passeiavam, conversando. Bastava effectivamente isto para caracterisar a Figueira com todo o seu ar pretencioso de cidade e o seu aspecto de praia de banhos, sendo que os da terra andam de chapéu alto, no grave exercicio das suas funcções judiciaes, administrativas, commerciaes, e os de fóra, os banhistas, em plena praia, exhibem fato de flanella branca e chapeu de côco.NoHotel Universaljantaram apenas comnosco á mesa mais dois hospedes, ambos brazileiros, que estiraram desde a sopa até ao café uma conversa merencoria como elles, que ambos estavam doentes.Um dos dois, o mais sorumbatico de ambos, fallou da morte,—assumpto divertidissimo! Disse-nos que todas as noites, a bordo do paquete, quando se fazia silencio, a idéa da morte, passando pelo seu espirito, o atormentava.Eu perguntei ao meu amigo Carrilho o que tinhamos nós com aquillo?Concordámos em que não tinhamos nada, absolutamente nada, com os pavores phantasticos do brazileiro.{66}Levantámo-nos da mesa; vimos um predio illuminado, ouvimos musica.Perguntamos ao criado que predio era aquelle.—É o theatro do Principe D. Carlos, e ha hoje espectaculo.Muito bem. Iriamos dar um passeio pela cidade, e cahiriamos depois no theatro.Todo o aspecto commercial da cidade estava então em evidencia: as lojas illuminadas, bellas lojas, devendo citar-se uma ourivesaria, que fazia lembrar um estabelecimento do Chiado.Na Praça Nova a colonia balnear, composta principalmente de hespanhoes, espanejava-se garrulamente, e em torno da praça as lojas de negocio, havendo ás portas grupos de homens, uns a pé, outros sentados, denunciavam o movimento commercial da cidade.Na Praça Nova encontrámos o deputado Pereira dos Santos e o visconde de Miranda do Corvo, que tiveram a amabilidade do nos ir mostrar os magnificos clubs da Figueira e de nos acompanhar ao theatro.No theatro havia pouca gente. Um prestidigitador, cujo nome me esqueceu, fazia umassortessediças, com pouca limpeza. Mas o theatro fôra para nós um salvaterio, porque nos permittiu esperarmos ahi pela hora da partida do comboio, meia noite e vinte.{67}E, n'um dos intervallos, entre muitos episodios da chronica balnear da Figueira, ouvi contar um, que me divertiu hilariantemente, e que no capitulo seguinte tentarei reproduzir.Á meia noite, quando sahimos do theatro, havia ainda luz nos clubs e nos cafés. As janellas das roletas e das batotas brilhavam com o clarão interior dos candieiros de petroleo, porque a cidade da Figueira só agora vae ser illuminada a gaz.Despedindo-nos dos nossos amigos visconde de Miranda do Corvo e Pereira dos Santos, dirigimo-nos para a estação do caminho de ferro, atravez de uma escuridade profunda, sem saber onde punhamos os pés, tropeçando a cada passo.Que reles economia a da Companhia, que fazendo um comboio depois da meia noite, não manda illuminar o caminho da estação!Ás tres horas e 46 minutos da manhã chegavamos ás Caldas da Rainha, frescos, apesar da caminhada a Buarcos, da estopada funebre do brazileiro, de duas horas de prestidigitação no theatro do Principe D. Carlos e dos trambolhões que démos em caminho da estação,—sem vermos um palmo adeante do nariz.{68}{69}CHRONICAS DE VIAGEMVIIIUma victima da dançaDurante oito annos consecutivos, a D. Serafina Barros, da Mealhada, foi com o marido tomar banhos do mar em Espinho.Aquillo era já sabido: no dia 15 de agosto partiam; a 15 de outubro recolhiam á Mealhada.D. Serafina pensava durante o resto do anno n'esse gaudio balnear, esperava-o com uma certa anciedade, porque a Mealhada era, a respeito desalsifrés, uma terra morta, e D. Serafina tinha pela dança uma paixão feroz.Agora, que já orçava pelos quarenta e dois annos, era preciso que D. Serafina fosse procurar a dança aonde quer que a houvesse, visto que espontaneamente{70}a dança já não vinha procural-a a ella. E, para encontrar parceiro na assembléa de Espinho, tornava-se ainda assim indispensavel uzar de uma tal ou qual diplomacia, fazer com que o Barros dissesse aos sujeitos, por elle apresentados á mulher, que ella gostava muito de dançar, forçando ás vezes a situação a ponto de dizer: «Como prova do agrado com que recebeste a apresentação d'este cavalheiro, deves dançar a primeira quadrilha com sua ex.ª»O cavalheiro, fulminado por esta perfidia amavel, inclinava a cabeça ao sacrificio, offerecia o braço a D. Serafina, e ia dançar com ella.O Barros ficava contentissimo com o bom resultado da sua diplomacia, porque não podia aturar a mulher quando ella não conseguia dançar.Se o cavalheiro respondia quejá estava compromettido, como então se dizia, para as tres primeiras quadrilhas, se nenhum pequeno de treze annos havia convidado D. Serafina para dançar, o Barros, tendo lido um jornal ou dado uma volta pela sala da roleta, vinha espreitar da porta a mulher dizendo com os seus botões:—Está como umabicha!E estava. Em casa elle o pagaria ouvindo-a sarrasinar n'uma cegarrega de lamurias, accusando-o de não ter a consideração social de que dispunha o Lemos{71}de Formoselha e o Barradas de Esmoriz, cujas mulheres, não sendo mais novas nem mais bonitas do que ella, estavam sempre no meio da casa.O Barros desculpava-se: que o Lemos era um trunfo politico, por ter em Lisboa um genro que fôra ministro tres vezes, e que se lhe dançavam com a mulher era para fazer a bôca doce a elle e a ella, por causa do genro; quanto á mulher do Barradas, «bem sabes tu, Fininha, o motivo porque ella dança sempre... á custa da reputação do marido.»D. Serafina não se dava por convencida. Influencia politica tambem o Barros tinha na Mealhada: que se lembrasse elle das cartas que o bispo de Vizeu lhe escrevia sempre que havia eleições, tratando-o mano a mano quando lhe pedia votos: meu Barros lá, meu Barros cá. Fosse o Barros mais esperto e soubesse explorar em proveito da mulher a sua importancia politica. Mas era um asno. O snr. D. Antonio ia todos os annos tomar banhos para Espinho; sempre que o Barros chegava, o snr. D. Antonio ia-o visitar de varapau na mão. Ora dissesse-lhe o Barros que só lhe tornaria a dar os votos se lhe arranjasse par para a mulher dançar na assembléa, e o snr. D. Antonio faria com que todo o partido reformista, que estivesse em Espinho, fosse dançar com ella.—Ó mulher! replicava o Barros. Isso póde lá{72}fazer-se! Isso é lá coisa que se faça! Tu não sabes o que estás a dizer!—Sei muito bem o que digo; sempre soube. Isto de eleições é um negocio para aquelles que não são tolos como tu. Tanto faz pedir uma commenda como uma quadrilha. Acaso será maior vergonha pedir para arranjar um par do que um emprego? Só elle, um pedaço d'asno, dava os seus votos de graça! Nem commendador era ainda!O Barros procurava acalmal-a:—Que o snr. D. Antonio não era homem a quem se pedissem commendas. Ria-se d'isso.Mas Serafina não se calava nunca por falta de argumentos:—Ah! o snr. D. Antonio ria-se d'isso! mas elle proprio quizera ser bispo, que era uma especie de commendador da egreja ou mais ainda!N'estas discussões domesticas sobre a eterna questão da dança, era sempre Serafina que ficava victoriosa. O Barros reconhecia n'ella superioridade de raciocinio, força de logica. Cada pessoa, pensava elle, tem pelo menos um defeito. Ora as mulheres, quando são espertas, ainda que tenham o seu defeito, sabem sempre desculpal-o. O homem tem a força do pulso; a mulher tem a força do argumento. O homem póde bater na mulher, mas acaba por ser batido por ella,—logicamente.{73}E o defeito da Fininha, o seu gosto pela dança, não era d'aquelles defeitos que compromettem a honra dos maridos. A mulher do Barradas d'Esmoriz, essa sim, servia-se da dança para chegar a certos fins illegitimos. Mas a Fininha gostava da dança pela dança,—sem segundas vistas.E a Fininha, a respeito da mulher do Barradas, dizia-lhe muitas vezes:—O que eu vejo é que as que se portam peior não ficam nunca sentadas!—Por isso mesmo... respondia o Barros.—Por isso mesmo!? Então na sociedade todas as distincções devem ser para quem menos as merece!? Que premio destinam então os homens ás mulheres honestas?!O Barros embuchava.—Lá está o raio da logica!... pensava elle.—Sim, que visse, que reparasse, continuava Serafina. Ao passo que ella passava noites inteiras sem dançar, tendo a consciencia de ser uma esposa virtuosa, a Barradas andava sempre n'uma roda viva, e a filha do Saraiva de Mogofores, que fugira com um quintanista de direito para o Bussaco, e estivera lá dois dias com elle, não chegava para as encommendas na assembléa de Espinho. Elle Barros bem sabia que a sua Fina, quando casou, tanto podia ir para o{74}ceu como para o leito conjugal, porque não se podia ser mais donzella; e depois que casou, nunca ninguem se atrevera com ella, nem mesmo o escrivão de fazenda, que era baboso por mulheres.E isto era exacto. A honradez de Serafina tinha duas muralhas que a defendiam: a virtude e a fealdade. Trigueira, ossuda, com as sobrancelhas espêssas e um buço de adolescente, fazia lembrar uma cigana. Como as ciganas, gostava das côres vivas,tapageuses. Dançando, saracoteava os quadris, rebolia-se, peneirando sobre o pavimento uns passinhos curtos, miudos e travados. As outras riam-se d'aquella quarentona amulatada, toda perliquiteta, que na dança tirava a vez ás meninas solteiras. O proprio Barros algumas vezes ouvia estes remoques, e em casa, timidamente, com um grande medo da Serafina e da logica, dizia-lh'o.Ella replicava:—Deixa-as rir: é inveja. Muitas vezes me disse o papá que eu, se não fosse tão alta, era tal e qual a snr.ª D. Carlota Joaquina.—Salvo seja!... acudia o Barros.—Nas feições, homem de Deus. E no meio da casa não me troco por nenhuma d'essas lambisgoias de vinte annos, que não foram ainda capazes de aprender as marcas dosLanceiros!Mas um anno, em Espinho, fez-se uma terrivel{75}conspiração contra D. Serafina: meninas e meninos de vinte annos combinaram entre si empregar esforços para que a cigana da Mealhada não tornasse a dançar; um rapaz do Porto, a quem ella disse uma vez—Sempre mostra que é tripeiro!—foi o chefe da conspiração.A coisa chegou a ponto de que n'uma noite de menor concorrencia, n'uma quadrilha franceza, dançaram comperna de pau, indo o par marcante fazercoté, tendo Serafina ficado sentada e estando disponivel um caloiro de Coimbra.Serafina jurou aos seus deuses não voltar mais a Espinho; e no anno seguinte o Barros levou-a á Figueira da Foz.Mas na Figueira havia grande numero de hespanholas e de portuguezas novas, que dançavam sempre. Serafina estava fula, e um dia fez com que o marido se entendesse com um dos directores do Club, o Peres, de Leiria.—V. ex.ª, disse-lhe o Barros, na sua qualidade do director deve zelar igualmente os direitos de todos os socios. Ora a verdade é que minha mulher, que gosta de dançar, não tem dançado nunca, ao passo que outras senhoras, que pagaram quota igual, andam n'um sarilho continuo. Peço, em nome da justiça, providencias a v. ex.ª{76}O Peres era reformista, sabia que o Barros pesava na eleição da Mealhada; não o quiz desgostar.—Que sim. Que elle não dançava, mas que havia de fallar aos rapazes, e de os apresentar á snr.ª D. Serafina.Mas o Peres nada poude conseguir dos rapazes: que não, que lá esse sacrificio não faziam elles. Que a D. Serafina era um monstro indançavel.Muito entalado, o Peres já estava resolvido a perpetrar rheumaticamente uma quadrilha, quando passou na Figueira um destacamento, cujo capitão fôra antigo condiscipulo do Peres.O capitão Lamprêa, de botas empoeiradas e barretina no braço, disse ao Peres que iareinarum bocado, porque tinha bebido bem ao jantar; que o apresentasse a uma dama.O Peres teve um pensamento machiavelico: impingir-lhe D. Serafina.Estava-se já organisando uma quadrilha. De pé, alguns pares esperavam. Um amador desalsifrés, Justino Soares, por vocação, andarilhava, combinandovis-á-vis. O Peres, poisando o braço direito sobre os hombros do capitão Lamprêa, avançou na sala, e aproximando-se de Serafina solicitou para o seu velho amigo e condiscipulo a honra de uma quadrilha.O capitão Lamprêa recuou instinctivamente. Mas{77}o Peres, ao ouvido, dizia-lhe com um sorriso de malicia.—O que?! Um militar portuguez não recua nunca!Serafina acceitára com muito gosto: que sim, que tinha muita honra.O Peres disse ao capitão Lamprêa que lhe ia arranjarvis-á-vis.Mas n'isto ouviu-se tocar uma corneta, e o capitão Lamprêa, voltando-se rapidamente para D. Serafina:—Ora esta! exclamou. Chama-me o dever. Já não tenho tempo de dançar! Que contrariedade! Mas á volta, minha senhora, terei a honra e o prazer de dançar com v. ex.ªFôra providencial aquella corneta tocando a recolher.E D. Serafina, durante quinze dias, perguntava com um sorriso de agradecimento ao Peres de Leiria:—Quando volta o seu amigo capitão?{78}{79}CHRONICAS DE VIAGEMIXNa EriceiraN'esta bella Ericeira, á beira mar plantada, faltam principalmente duas cousas... além de outras muitas: não ha flores nem passeios.Um namorado, se tem imaginação botanica, não encontrará facilmente, para offerecer á sua dama, nada melhor do que umaperninha de manjarico, como dizem os saloios.Quanto aos passeios, são pouquissimos: a estrada de Cintra, incompleta; a de Mafra que, á sahida da Ericeira, é muito ingreme. Restam S. Sebastião e as Furnas, que são o pão nosso de cada dia, pela simples razão de não haver por onde variar.Acontece que, sendo poucos os passeios, toda a gente se encontra marchando sobre o mesmo terreno,—como se estivesse fazendo sentinella.Por isso, a cada momento esbarramos com os{80}mesmos adultos e com as mesmas creanças, sempre muitas creanças,—principalmente este anno.Tenho, é certo, uma natural affeição pelas creanças, mas não posso deixar de dizer que ellas chegam ás vezes, quando são tão numerosas como aqui, a embaraçar a marcha governativa das praias.As creanças são sempre opposição, sophysmam e conspiram.Havia outr'ora uma arma para vencel-as: a dictadura paterna. Mas as dictaduras são sempre violentas, ainda mesmo quando exercidas paternalmente. De modo que, graças á brandura dos nossos costumes, como se diz em S. Bento, se as creanças de agora teimam, o governo cede sem querer sahir da constituição, e a opposição triumpha sem que a Carta seja desacatada... mais uma vez.Ora a civilisação tem evolucionado profundamente a maneira de pensar das creanças.Quasi se póde affirmar que já não ha creanças, pois que essas pequeninas creaturas, que eu por ahi vejo a toda a hora em tão grande numero, são antes espiritos adultos que povôam os corpos de verdadeiros cidadãos de Lilliput.Na minha infancia, havia ainda creanças, moralmente fallando, e eu tambem o fui.Até aos doze annos, divertia-se a gente em casa{81}fazendo theatros e egrejas. Eu fui actor e sachristão em minha casa; ou antes, eu só, nomeu theatro, valia por uma companhia inteira, desde o emprezario até ao contra-regra, e, naminha egreja, cheguei ás vezes a ser uma collegiada inteira, incluindo o Dom Prior.Muitas pessoas da familia imaginaram que eu teria vocação ecclesiastica, tal era o meu enthusiasmo pelos officios divinos e pela vida de sachristia.Completa illusão!Aquillo não era de mim; era do tempo. Todas as creanças foram então assim.Quando uma vez por outra nos era concedido ir passar o serão n'uma casa amiga, o que nós faziamos, as creanças d'esse tempo, era entretermo-nos em adivinhações e joguinhos de prendas, a um canto do salão ou em qualquer outra sala onde os adultos não estavam.As pessoas crescidas, como nós lhes chamavamos, dançavam, jogavam owhist, o voltarete ou conversavam simplesmente.Os homens fallavam de politica: fallava-se muito n'aquelle tempo do marechal Saldanha, o heroe da Regeneração; principiava a fallar-se de Fontes Pereira de Mello, o ministro novo,—o ministro janota.As senhoras fallavam de criadas e modas, como agora, como sempre.{82}Não foram os adultos que mudaram moralmente, porque o thema de suas conversações continua a ser o mesmo,—para os homens a politica, para as senhoras as modas e as criadas: quem mudou foram as creanças.Lembro-me muito bem de algumas adivinhações que então nos entretinham, pela maior parte difficilimas,—exemplo:Serra na cabeça,Foucinha no rabo.Adivinha, tolo,Que é gallo.E esta, egualmente difficil:Uma velhinha,Muito encorrilhadinha,EncostadinhaA uma tranquilha.Passa, asno,Passa é.Adivinha o que isto é.E ainda outras mais, todas do mesmo theor.Que grande surriada quando qualquer de nós, pesar as palavras da adivinhação, mas attendendo{83}apenas ao seu conjuncto, bem merecia os epithetos detoloeasno, não atinando com o conceito do enygma!Então, os paes e as mães, interrompendo a sua conversação, recommendavam menos barulho.E os pequenos obedeciam, porque, n'aquelle tempo, não eram ainda opposição, como agora.Apesar da revolução ter derrubado os Cabraes, o regimen paterno pautava-se ainda pela tradição cabralina, que era por sua vez uma revivescencia do regimen miguelista: o pau decidia todas as questões em ultima instancia; era a suprema razão.Perante o pau, o pau que era palmatoria ou bengala, o que para o effeito valia o mesmo, as creanças cediam, os paes triumphavam.Os pequenos de hoje em dia já se não divertem do mesmo modo, mas, em desproporção com a sua altura, divertem-se um pouco... á grande.São os adultos que lhes fornecem pretexto para divertir-se; mas são as creanças que realmente se divertem.Lembra-me a este respeito uma anecdota authentica.Na Ericeira ha dois cemiterios: um que está cheio, e por isso condemnado; o outro, de construcção recente.Como seja preciso pagar a despeza feita com o{84}novo cemiterio, a contribuição parochial augmentou este anno.Ha dias, uma mulher, indo pagar a sua contribuição, queixou-se, achou que era muito pesada.Explicaram-lhe o caso: que era preciso pagar a construcção do cemiterio.E vae ella respondeu;—Uns são que pagam, e os outros que gosam.Authentico, repito.Póde applicar-se esta anecdota ás creanças da colonia balnear da Ericeira.Quem paga para se divertir são os adultos; mas são realmente as creanças que se divertem.No Club, os primeiros a tirar par e a collocarem-se no meio da casa, são os pequenos.Mas como os pequenos sejam muitos, a direcção do Club viu-se forçada a recorrer a uma medida severa, e mandou affixar na porta do salão o seguinte aviso:«As creanças que concorrerem ássoiréesdo Club apenas poderão dançar na sala de entrada, a fim de não prejudicarem a boa ordem das danças no salão».Os pequenos leram o aviso, e não gostaram. Houve amuos, piadas, protestos. A direcção, severa como Catão o Censor, manteve a sua resolução. Tudo foi pelo melhor durante duas ou tres noites, mas as{85}creanças lá tinham a sua fisgada,—sem que se soubesse o que, na sua qualidade de opposição, haviam resolvido.Aconteceu que um valsista foi escolher para parceira de valsa uma menina de treze ou quatorze annos.Os pequenos, reunidos em grupo, cochicharam entre si.Conspiravam; não havia duvida. Mas qual seria o seu plano? Mysterio!Pouco depois toca-se uma quadrilha, e os chefes da opposição conseguem que algumas senhoras vão dançar com elles.Então os supracitados chefes argumentam do seguinte modo, revolucionaria e logicamente:—Se um socio do Club póde dançar com uma pequena, uma socia do mesmo Club póde dançar com um pequeno. O direito e a quota são eguaes perante os sexos.A quadrilha dançou-se, os pequenos dançaram, e a revolta triumphou.Foi uma especie dejaneirinha, de revolução pacifica, feita sem sangue, apenas com as portas fechadas.Os directores de sala pensaram gravemente na sua embaraçosa situação.{86}Entregar o poder? Mas, segundo a logica das indicações constitucionaes, deveriam entregal-o aos vencedores. Teriamos pois um ministerio, quero dizer uma direcção de creanças.Fugir á vergonha que os cobria? Mas os directores precisavam tomar banhos de mar, e não tinham ainda a sua conta.Ficar, permanecer? Sim... talvez. Houve quem lembrasse que governar era transigir.Para ganhar tempo, transigiu-se.Um dos directores tomou para si o papel de duque de Avilla:—Fiquemos, e conversaremos depois.Entretanto, a revolta victoriosa campeava em pleno salão. Passavam rapidamente, nas voltas da valsa, por deante dos dois arcos da porta, meninas de dez annos bailando com meninos de doze. E os pares adultos passaram a ser n'essa noite verdadeiros pares degalão branco, tendo apenas as honras de valsistas, porque na realidade não pudéram dançar.O boato da victoria dos pequenos correu rapidamente por todas as casas.Creanças de dois annos fizeram perrice, choramigaram, gritaram que as levassem ao Club,—para valsar.—Pelo amor de Deus! supplicavam os directores.{87}Que não venham mais creançcas! Isto é uma inundação de pequenos!A sala da entrada do Club, que havia sido destinada ás creanças, estava deserta. E os revoltosos, embriagados com a victoria, continuavam a valsar no salão.A direcção, como todos os vencidos, azoinava. Queria dar uma satisfação publica á sociedade, e a si mesma. Exercer represalias para com as creanças seria uma cobardia revoltante. Em todo caso, á sombra dos pequenos, já os grandes começavam a rir-se.Era preciso uma idéa salvadora, uma sahida qualquer.O pianista, sempre por ordem dos pequenos, principiava a tocar uma quadrilha. Então, por uma d'estas lembranças que passam rapidamente pelo espirito, illuminando como os meteoros, resolveu-se organisar uma quadrilha só composta dos paes, que foram dançar na sala de entrada, ao mesmo tempo que os filhos dançavam no salão, que era destinado aos paes. Esta inversão do papeis produziu geral hilaridade; salvara-se a situação com um epigramma, que é o unico desforço possivel nas situações perdidas...Mas os heroesinhos vencedores tomaram gosto a essa especie de junta revolucionaria que haviam constituido e, não contentes com a posse do salão, principiaram{88}a inventar divertimentos por sua conta e risco.Imaginaram uma toirada... platonica, isto é, uma toirada sem toiros, mas em tudo o mais a caracter.Monteras, jalecas, capas, bandarilhas, tudo segundo o rigor tauromachico.Mas, quanto aos toiros, esses, por intervenção de pessoas prudentes, foram substituidos por alguns garotos da beiramar, que se constituiram em curro para ir ganhar 100 réis por cabeça.Eu encontrei na Praça do Jogo da Bola, conversando um com o outro, um toiro e um toireiro.Andavam combinando as sortes a que um se prestaria e que o outro aproveitaria.—Mas olhe lá, menino—dizia o toiro—olhe que se me chegar á pelle, eu marro-lhe a valer.E o toireiro, fallando muito á mão, dizia ao toiro:—Não tenhas medo, que eu só te ponho os ferros no fato.Como se vê, são as creanças que estão dando as cartas e as toiradas, este anno, na Ericeira.Decididamente, indubitavelmente: já não ha creança!{89}CHRONICAS DE VIAGEMXUm pic-nicHa oito dias, um grupo de familias, a banhos na Ericeira, realisou na Foz umpic-nic.Fallou-se muito da festa nos dias que medeiaram entre o projectal-a e o realisal-a. Pendo hoje a crêr que o que principalmente diverte em todas as festas é o antegostal-as. Fazer projectos... fóra de S. Bento, torna-se sempre agradavel. Só acho comparavel ao prazer de antegostal-as, o de recordal-as... annos depois.Como n'este mundo não haja felicidade sem o contrapeso de contrariedades, acontece que a melhor maneira da gente gosar consiste em imaginar o goso que vae ter e que ás vezes, na realidade das coisas, sáe muito inferior ao que se esperava. Ás vezes ou... sempre;—sempre é que é. Passados annos, se a gente{90}se lembra de uma festa em que esteve, de uma hora de alegria que passou, dá apenas importancia ao que ella teve de bom, e já não deita conta ao que ella teve de menos agradavel.A saudade é uma feição predominante do meu espirito: por isso eu saboreio as minhas recordações com prazer muito mais doce do que aquelle que as realidades me déram...Umpic-nicé, certamente, uma festa muito convidativa... no programma, quando se trata de fazer a distribuição dos encargos que tocam a cada um: as aves a este, as fructas áquelle, os vinhos a aquell'outro.Entre pessoas que se estimam, e que vivem na melhor intimidade, todas essas combinações culinarias servem de pretexto para matar o tempo agradavelmente.A espectativa de um dia bem passado, em plena natureza, seja no campo ou á beira mar, é o ante-gosto de uma diversão nos nossos habitos de todos os dias, um córte excepcional, e como tal attrahente, no ramerrão da nossa vida ordinaria.—Nem sempre rainha nem sempre gallinha... dizia um rei portuguez.Pois bem! umpic-nicé uma variante á gallinha do nosso espirito, é uma especie de sardinha salgada que nos vae saber muito bem... como distracção.{91}Surgem, na discussão do projecto, idéas extravagantes, caprichos exoticos: ha tal que não dispensa nunca os foguetes n'umpic-nice que portanto faz questão ministerial dos foguetes...—Ó homem de Deus! mas se você não ha de comer os foguetes, porque é que os não dispensa?—É porque eu, em Lisboa, não janto nunca com foguetes e, como se trata de uma diversão aos nossos habitos, quero que até nos foguetes seja completa a diversão.—Muito bem. Haverá pois foguetes. Ó thesoureiro, escreva ahi, por baixo da verba das uvas, a verba dos foguetes. Ponha lá duas duzias.—Pouco! Pouquissimo! Duas duzias de foguetes não é coisa que se oiça bem. Você sabe que D. PedroI, quando tinha insomnias, sahia a bailar pelas ruas com grande arruido? Pois eu pareço-me um pouco com elle... Quando espero divertir-me, desejo que todos fiquem sabendo que eu me estou divertindo á larga.—N'esse caso, thesoureiro, seis duzias de foguetes.Depois, um outro lembra que é preciso escrever a verba dos palitos, porque o palito como que prolonga a impressão de um bom jantar, e, como espera comer bem, quer prolongar esse prazer pelo maior tempo possivel.{92}—Pois sim! Thesoureiro, seis massos de palitos...Isto é alegre, divertido, desopilante.Chega porém o dia dopic-nice as contrariedades levantam-se debaixo dos pés.Madame *** amanheceu com a sua enxaqueca,—a terrivel enxaqueca que a persegue desde o seu ultimo parto.O snr. Fulano espera a cada momento um telegramma importante de Lisboa e vae subresaltado.Finalmente, o menino Arthur, ao subir para ochar-à-bancs, entalou um dedo, e a mãe quasi que perdeu os sentidos com a dôr do filho...Confessem francamente se isto não costuma ser assim? Ora aqui está porque eu disse ha pouco que todas as festas trazem o seu cortejo de contrariedades.D'esta vez, na Ericeira, todos os adultos se comprometteram a não ter enxaquecas nem telegrammas. E todas as creanças prestaram juramento solemne de não entalar os dedos na portinhola dochar-à-bancs.Partimos alegremente, cerca de quarenta pessoas, para opic-nic, para a Foz, que fica a pequena distancia da Ericeira, e que se chama assim porque alli entra no mar, depois de haver descripto varios torcicollos, a ribeira de Porto.O sitio todos nos o conheciamos.Pittoresco, em verdade. O rio contorce-se dentro{92}do areal e interna-se pela terra passando por entre margens onde a vinha parece sorrir verduras ao abrigo das fragas.Alli a dois passos, o mar, o mar franjado de espumas rebentando na areia.Sitio delicioso! De mais a mais, nada nos havia esquecido. Fôra n'um carro de bois o barco em que deviamos deitar as redes; foram as redes; foram os bellos pitéos que cada um se encarregou de levar. Não havia esquecido nada; n'uma palavra, nada!Mas, chegámos lá, e vimos que faltava uma coisa, que aliás a ninguem havia lembrado! E essa coisa era realmente indispensavel, imprescindivel. Essa coisa era... a sombra!Sim! Havia o barco, as redes, o jantar, boa disposição, mas faltava unicamente a sombra.Então, sobre a praia batida pelo sol, principiamos a procurar impacientemente, avidamente aquillo que nos faltava e de que todos se haviam esquecido: a sombra!Dispersámo-nos em grupos, em pequenas caravanas: procura d'aqui, procura d'alli; todos procuravam sombra.De repente ouviu-se um grito...O que foi?! Appareceu a sombra?Era o snr. Fulano que tinha escorregado de uma lage, e estava estatelado na areia.{94}Outro grito, d'ahi a nada...Agora sim! é a sombra?Qual sombra nem qual diabo?! Foi o menino Arnaldo que se deixou morder por uma vespa.O sujeito dos foguetes estava contrariadissimo.—Não ha foguetes completos n'este mundo! dizia elle. A gente, ao sol, nem póde vêr bem a direcção que um foguete toma no ar! Esta só a mim acontece!O dos palitos exclamava:—Com uma torreira d'estas nem dá gosto jantar,—quanto mais palitar os dentes! Acreditem os snrs. que para palitar os dentes é preciso estar sentado á sombra, serenamente, sem que as moscas nos persigam. Eu não tenho geito nenhum de palitar os dentes com um raio de sol...E os grupos dispersos continuavam procurando a sombra por toda a parte, no rio e na areia.Mas a sombra, com ser uma coisa tão vulgar, não apparecia!Um trocista affiançou que esperassemos pela noite para jantar, porque ao menos á noite haveria sombra.Esta idéa sorriu ao sujeito dos foguetes, porque é justamente á noite que os foguetes podem fazer melhor vista.Mas o dos palitos protestou, por que de noite não lhe seria facil verificar a qualidade dos palitos.{95}Finalmente, depois de muitos trabalhos, uma estreita faixa de sombra appareceu, projectada por um rochedo.—Isso não é sombra que chegue para todos, disseram alguns.Mas não havia melhor: resolvemos portanto anichar-nos dentro da unica sombra que a praia nos offerecia.E, sobre a sombra, as pernas encruzadas á oriental, o prato na areia, jantámos.Chegava o farnel para o dobro da gente, e assim, para evitarmos uma grande bagagem de retorno, resolvemos comer o que poderia ter chegado á farta para nós e... outros tantos.Emquanto jantavamos, uma machina photographica reproduziu o grupo pittoresco. D'este modo ficaremos por largos annos saboreando o nossopic-nicda Foz, ainda muito mais agradavelmente do que no momento em que o fizemos, porque ao menos na photographia não nos falta sombra.Vejam se eu tenho ou não razão para gostar do passado!Depois do jantar dançou-se, ao som de uma caixa de musica, no areial.Se as caixas de musica servem para alguma coisa é para se dançar n'umpic-nic, porque, á volta, confundem-se{96}com a outra bagagem, e ninguem se torna a lembrar mais d'ellas.E é preciso que seja assim, porque eu não conheço nada tão ridiculo como lembrar-se uma pessoa de que já se divertiu ao som de uma caixa de musica!Mas, no regresso, as carruagens e os cavallos esperavam em cima na estrada, e o areial era immenso.Lembramo-nos então que nos tinhamos esquecido dos burros!Como tudo n'este mundo tem compensações, houve quem dissesse que, a haver burros, os foguetes tel-os-hiam espantado.Que sim; que seria um incommodo para... os burros.E o sujeito dos foguetes, satisfeito por não ter que contrariar ninguem, nem mesmo os burros, pois que tinham esquecido, mandou para o ar o seu ultimo foguete.E o outro, o dos palitos, muito bem sentado nochar-à-bancs, affirmava que palitar os dentes era o mesmo que tornar a comer... em sêcco.Mas, sobre tudo, quando estepic-nicha de ser bom, é daqui a vinte annos... quando o recordarmos saudosamente.{97}

Organisara-se nas Caldas da Rainha uma festa de charidade, no Salão da Convalescença, em beneficio da Associação Promotora do Ensino dos Cegos.

Luiz Gama, este endiabrado rapaz que toda Lisboa conhece e estima, rapaz que parece um velho quando joga owhist, posto andasse muito azoinado com oscallixtosque lhe rodeiavam a mesa do jogo, fosse em plena Alameda, nas horas de calma, ou sob o Ceu de Vidro, nos intervallos da valsa, que elle raras vezes perdia, não poude resistir ao convite que lhe fizeram algumas senhoras para tomar parte namatinée.

Comprometteu-se, e comprometteu-me pedindo-me com instancia que lhe escrevesse uns versos, consentaneos{54}ao seu genio alegre, para dizer no Salão da Convalescença. Eu não chegava então para os largos passeios que todas as semanas fazia com o meu amigo Carrilho. Luiz Gama insistia, porém, e não tive outro remedio senão procurar um assumpto entre um copo d'agua das Caldas e a partida d'um comboio.

Não estava Luiz Gama sendo, segundo elle mesmo caramunhava, uma victima doscallixtos? Toda a gente o sabia. Pois bem. Lembrei-me de proporcionar á victima uma excellente occasião para vingar-se publicamente dos seus algozes, e mandei-lhe isto, que elle teve a paciencia de decorar e dizer:

OS CALIXTOSSe os ha?! Que os ha, é de fé.Até suppõe muita genteQue Adão e Eva tiveramN'um joguinho que fizeramPor callixto uma serpente.Eva perdeu... quanto tinha.O proprio Adão foi noprégoPôr a caixa do rapé!Só os não vê quem fôr cego...Se os ha?! Que os ha, é de fé.{55}Ha-os de varios feitios.Um, gallinha nunca farta,Cobrindo co'a aza o filho,Vai vendo carta por cartaComo a comer grãos de milho.Um outro a penca intrometteEntre as cartas e o sujeito,Como se fosse um petizQue a gente tivesse ao peito,Sendo a ama d'um nariz.Até se diz que um parceiroDomironea penca assuouNo Ceu de Vidro, domingo,Porque em boa fé pensouQue era o seu que tinha pingo.Já encontrei um callixtoGordo, obeso, uma balêa,Que me poz o barrigaço—Façam vossencias ideia!—Em peso sobre este braço!O general é medonho!Não ha callixto peiorEntre os maus que tenho visto.Vejam lá! é meu callixtoDesde que elle era major!{56}No Gremio um desconhecidoFoi-se sentar a meu lado:Perdi a trena e o leme,Apanhei logo um xelemeE outro d'ahi a bocado.Perguntei-lhe: Em seu juizoQual animal é maior?Hesitou. D'ahi a um instanteDisse que era o elephante.—«Pois então faça favor«D'ouvir isto que lhe digo,(Repliquei, de mim já fóra,Ameaçador, fulminante)«Olhe, snr. elephante,«Não posso mais!... vá-se embora.»Em sendo calvo o callixto,Tremo logo só de vel-o.É tão callixto o diabo,Que até do proprio cabelloPor callixtice deu cabo!Ha outros que têm madeixasComo cachos de banana,E que escorrem sobre a genteAlgum óleo impertinenteOu agua circassiana.{57}Tambem os ha femininos,Que põem o pé na cadeira,Mostrando a botina... Eu achoQue, sendo d'esta maneira,Só encallixtam por baixo...Mas a peior das callixtas...Não me lembra agora isto!A coisa... não vae ao fim!Pois se um senhor que é callixtoEstá d'além a olhar p'ra mim!

Cahiu em boa Luiz Gama! No dia seguinte oscallixtosresolveram vingar-se d'elle por sua vez: apanhou uma grande sova aowhist.{58}

{59}

Desde S. Martinho do Porto até á Marinha Grande a linha ferrea da Figueira é a mesma que fazia antigamente o serviço especial entre a fabrica da Marinha Grande e o porto de S. Martinho.

O pinhal abunda no trajecto d'esta linha, logo que se passa a estação de Vallado: o famoso pinhal de Leiria, filho querido d'el-rei D. Diniz.

Em toda esta região, que vamos atravessando, houve outr'ora porém um senhor ainda mais poderoso do que D. Diniz: era o mar.

Alfeizerão, que deixamos ha muito, terra dentro, fôra até ao seculoXVIum bello porto de mar, que podia abrigar mais de oitenta embarcações.

D. Diniz, que tinha em Monte Real a sua habitação{60}predilecta, quiz fazer na villa de Paredes um porto de mar. Sobre as ruinas de Paredes assenta a actual Pederneira.

Fez-se effectivamente o porto, porque, como diz o proverbio,El-rei Diniz fez quanto quiz, mas grandes alluviões de areia foram obstruindo o porto. D. Diniz pretendeu pôr um obstaculo a essas enormes alluviões mandando semear o pinhal de Leiria e adoptando outras providencias conducentes ao mesmo fim.

Uma d'essas providencias consistiu em ordenar aos foreiros da casa da Nazareth que lançassem, contra o mar, um certo numero de carradas de areia, que o vento fosse accumulando no largo da egreja e nas ruas do Sitio.

Da povoação de Paredes, que devia ser importante, graças ao movimento do seu porto, existe apenas... a Pederneira.

O mar espraiou-se pois por toda esta região, que vamos atravessando, até que as alluviões de areia lhe disputaram o dominio.

E hoje a locomotiva assobia o hymno do progresso atravez do pinhal de D. Diniz, deixando ao largo o mar, que perdemos de vista para só tornar a enxergal-o nas proximidades da Figueira da Foz.

A estação que se segue á da Marinha Grande é a de Leiria.{61}

No alto do monte escarpado, o castello de Leiria, com a sua torre de menagem menos mal conservada, desenha-se no azul, immovel e sereno.

Ha muitos annos que eu não tinha visto este vetusto castello, que me deixára uma impressão desagradavel quando então passei em Leiria caminho da Batalha. Nas ruas de Leiria o castello, esmagando-me com o peso dos seus muros e da sua torre, parecia seguir-me por toda a parte, como um fardo que me dobrava os hombros. Era asphyxiante, visto da cidade, aquelle castello. Mas, visto de longe, como agora, affigurou-se-me um dos mais bonitos castellos que sobrevivem ainda, gostei de vêl-o altivo na sua decadencia, magestoso ainda na sua inutilidade, esperando impassivel a hora em que a tempestade derrube os seus muros com um feixe de raios...

Passado o apeadeiro dos Milagres, é Monte-Real, o sitio predilecto de D. Diniz, a primeira estação que se encontra.

Apezar da ardencia d'esse dia, extremamente calmoso, apezar de ser oppressiva a temperatura, abafadiço o ar, passou pelo meu espirito um relampago de historia patria, vi de relance D. Diniz, trovador aventuroso, rei galante, envolvido nas suas proezas tunantescas de Leiria, frequentando de noite, enamorado de uma camponeza, a aldeia de Amor...{62}

El-rei DinizFez quanto quiz,Até no amor...Graças ao sceptro,Graças ao plectro,Rei-trovador.

Depois, quiz-me parecer tolice de marca maior estar a remexer no rescaldo da historia amorosa de D. Diniz em dia de tão intensa calma, fechei de subito o livro da memoria, forcejei por lembrar-me de que eu tinha escolhido aquelle dia precisamente para não pensar em nada que me desse cuidado, e puz-me a olhar para a paizagem que ia apparecendo e fugindo como no fundo de um kaleidoscopo.

A Amieira, que é o ponto de bifurcação do ramal de Alfarellos, possue, como se sabe, uma nascente de aguas medicinaes, que está sendo explorada com bons creditos.

Ahi, encostadas á grade da estação, vimos as primeiras camponezas do valle do Mondego, com o seu trajo caracteristico,—bellos exemplares de opulencia plastica, e saudamos n'essas tres camponezas, sadias e robustas, a mulher do norte.

E as tres camponezas, ouvindo ou não ouvindo as nossas saudações enthusiasticas, comiam maçãs, rilhando-as{63}um pouco suinamente, ó prosa da realidade, terrivel prosa!

Não se póde já ser um pouco artista, nem mesmo em viagem!

O valle do Mondego principiou a desenrolar-se deante dos nossos olhos, com os seus esteiros, a sua linha recta coberta de verdura e scintillante de agua.

Entre a Amieira e a Figueira medeiam apenas dois apeadeiros, o de Lares e o de Santo Aleixo: as primeiras casas da Figueira não tardaram a apparecer-nos como guarda avançada d'essa bonita cidade maritima, já então tão concorrida de banhistas.

Na estação da Figueira entramos noamericanoporque o meu amigo Carrilho propoz, e eu approvei, que fossemos antes de jantar a Buarcos.

Oamericanodeslisa ao longo da praia. Deslisa é um modo de dizer, porque, justamente quando passavamos em frente do Bairro Novo, oamericanoemperrou pela primeira vez, saltou fóra das calhas, um muar cahiu estatelado. Quando isto aconteceu pela segunda vez, no meio das pragas de varios hespanhoes que enchiam o carro, o meu amigo Carrilho propoz que fizéssemos a pé o passeio de Buarcos.

E assim mesmo é que foi: largamos a andar por alli fóra intrepidamente.

Buarcos é uma especie de retiro de banhistas{64}pacatos, que fogem do bulicio da Figueira. Bom ar, bom mar, mas pouca gente. Pacato de mais. Quasi ao mesmo tempo que chegavamos a Buarcos, tendo feito o caminho a pé, chegava oamericano, com os muares escalavrados das successivas quedas que tinham dado.

O conductor perguntou-nos se queriamos ir vêr a mina do Cabo Mondego ou se faziamos tenção de ir vêr a fabrica. Dissemos-lhe que faziamos apenas tenção de ir jantar á Figueira. Então o conductor disse-nos que, visto termos ido a pé, tendo pago os nossos logares, queria de algum modo indemnisar-nos, fazendo-nos transportar immediatamente á Figueira.

Pasmamos d'aquillo, d'aquelle originalamericano, tão caprichoso no seu serviço irregular!

O carro partiu, e foi-se enchendo pelo caminho. Só então reconhecemos que tinhamos feito um grande passeio a pé, quasi sem dar por isso.

Anoitecia. O céu e o mar estavam serenos. Um vaporzinho rebocava um navio, porque a barra da Figueira, apesar dos melhoramentos que se lhe têm feito, é simplesmente detestavel. No alto, o Bairro Novo alvejava com as suas construcções recentes, elegantes, e, ao trote dos muares, entramos de novo na Figueira, parando era frente doHotel Universal.

Esperámos, á janella do hotel, que nos servissem{65}o jantar, e pudemos surprehender d'ahi a physionomia um pouco hybrida mas pittoresca da Figueira: o mar batia contra a muralha, o navio entrava rebocado, uns pescadores passavam altercando, e dois homens de chapeu alto e sobrecasaca passeiavam, conversando. Bastava effectivamente isto para caracterisar a Figueira com todo o seu ar pretencioso de cidade e o seu aspecto de praia de banhos, sendo que os da terra andam de chapéu alto, no grave exercicio das suas funcções judiciaes, administrativas, commerciaes, e os de fóra, os banhistas, em plena praia, exhibem fato de flanella branca e chapeu de côco.

NoHotel Universaljantaram apenas comnosco á mesa mais dois hospedes, ambos brazileiros, que estiraram desde a sopa até ao café uma conversa merencoria como elles, que ambos estavam doentes.

Um dos dois, o mais sorumbatico de ambos, fallou da morte,—assumpto divertidissimo! Disse-nos que todas as noites, a bordo do paquete, quando se fazia silencio, a idéa da morte, passando pelo seu espirito, o atormentava.

Eu perguntei ao meu amigo Carrilho o que tinhamos nós com aquillo?

Concordámos em que não tinhamos nada, absolutamente nada, com os pavores phantasticos do brazileiro.{66}Levantámo-nos da mesa; vimos um predio illuminado, ouvimos musica.

Perguntamos ao criado que predio era aquelle.

—É o theatro do Principe D. Carlos, e ha hoje espectaculo.

Muito bem. Iriamos dar um passeio pela cidade, e cahiriamos depois no theatro.

Todo o aspecto commercial da cidade estava então em evidencia: as lojas illuminadas, bellas lojas, devendo citar-se uma ourivesaria, que fazia lembrar um estabelecimento do Chiado.

Na Praça Nova a colonia balnear, composta principalmente de hespanhoes, espanejava-se garrulamente, e em torno da praça as lojas de negocio, havendo ás portas grupos de homens, uns a pé, outros sentados, denunciavam o movimento commercial da cidade.

Na Praça Nova encontrámos o deputado Pereira dos Santos e o visconde de Miranda do Corvo, que tiveram a amabilidade do nos ir mostrar os magnificos clubs da Figueira e de nos acompanhar ao theatro.

No theatro havia pouca gente. Um prestidigitador, cujo nome me esqueceu, fazia umassortessediças, com pouca limpeza. Mas o theatro fôra para nós um salvaterio, porque nos permittiu esperarmos ahi pela hora da partida do comboio, meia noite e vinte.{67}

E, n'um dos intervallos, entre muitos episodios da chronica balnear da Figueira, ouvi contar um, que me divertiu hilariantemente, e que no capitulo seguinte tentarei reproduzir.

Á meia noite, quando sahimos do theatro, havia ainda luz nos clubs e nos cafés. As janellas das roletas e das batotas brilhavam com o clarão interior dos candieiros de petroleo, porque a cidade da Figueira só agora vae ser illuminada a gaz.

Despedindo-nos dos nossos amigos visconde de Miranda do Corvo e Pereira dos Santos, dirigimo-nos para a estação do caminho de ferro, atravez de uma escuridade profunda, sem saber onde punhamos os pés, tropeçando a cada passo.

Que reles economia a da Companhia, que fazendo um comboio depois da meia noite, não manda illuminar o caminho da estação!

Ás tres horas e 46 minutos da manhã chegavamos ás Caldas da Rainha, frescos, apesar da caminhada a Buarcos, da estopada funebre do brazileiro, de duas horas de prestidigitação no theatro do Principe D. Carlos e dos trambolhões que démos em caminho da estação,—sem vermos um palmo adeante do nariz.{68}

{69}

Durante oito annos consecutivos, a D. Serafina Barros, da Mealhada, foi com o marido tomar banhos do mar em Espinho.

Aquillo era já sabido: no dia 15 de agosto partiam; a 15 de outubro recolhiam á Mealhada.

D. Serafina pensava durante o resto do anno n'esse gaudio balnear, esperava-o com uma certa anciedade, porque a Mealhada era, a respeito desalsifrés, uma terra morta, e D. Serafina tinha pela dança uma paixão feroz.

Agora, que já orçava pelos quarenta e dois annos, era preciso que D. Serafina fosse procurar a dança aonde quer que a houvesse, visto que espontaneamente{70}a dança já não vinha procural-a a ella. E, para encontrar parceiro na assembléa de Espinho, tornava-se ainda assim indispensavel uzar de uma tal ou qual diplomacia, fazer com que o Barros dissesse aos sujeitos, por elle apresentados á mulher, que ella gostava muito de dançar, forçando ás vezes a situação a ponto de dizer: «Como prova do agrado com que recebeste a apresentação d'este cavalheiro, deves dançar a primeira quadrilha com sua ex.ª»

O cavalheiro, fulminado por esta perfidia amavel, inclinava a cabeça ao sacrificio, offerecia o braço a D. Serafina, e ia dançar com ella.

O Barros ficava contentissimo com o bom resultado da sua diplomacia, porque não podia aturar a mulher quando ella não conseguia dançar.

Se o cavalheiro respondia quejá estava compromettido, como então se dizia, para as tres primeiras quadrilhas, se nenhum pequeno de treze annos havia convidado D. Serafina para dançar, o Barros, tendo lido um jornal ou dado uma volta pela sala da roleta, vinha espreitar da porta a mulher dizendo com os seus botões:

—Está como umabicha!

E estava. Em casa elle o pagaria ouvindo-a sarrasinar n'uma cegarrega de lamurias, accusando-o de não ter a consideração social de que dispunha o Lemos{71}de Formoselha e o Barradas de Esmoriz, cujas mulheres, não sendo mais novas nem mais bonitas do que ella, estavam sempre no meio da casa.

O Barros desculpava-se: que o Lemos era um trunfo politico, por ter em Lisboa um genro que fôra ministro tres vezes, e que se lhe dançavam com a mulher era para fazer a bôca doce a elle e a ella, por causa do genro; quanto á mulher do Barradas, «bem sabes tu, Fininha, o motivo porque ella dança sempre... á custa da reputação do marido.»

D. Serafina não se dava por convencida. Influencia politica tambem o Barros tinha na Mealhada: que se lembrasse elle das cartas que o bispo de Vizeu lhe escrevia sempre que havia eleições, tratando-o mano a mano quando lhe pedia votos: meu Barros lá, meu Barros cá. Fosse o Barros mais esperto e soubesse explorar em proveito da mulher a sua importancia politica. Mas era um asno. O snr. D. Antonio ia todos os annos tomar banhos para Espinho; sempre que o Barros chegava, o snr. D. Antonio ia-o visitar de varapau na mão. Ora dissesse-lhe o Barros que só lhe tornaria a dar os votos se lhe arranjasse par para a mulher dançar na assembléa, e o snr. D. Antonio faria com que todo o partido reformista, que estivesse em Espinho, fosse dançar com ella.

—Ó mulher! replicava o Barros. Isso póde lá{72}fazer-se! Isso é lá coisa que se faça! Tu não sabes o que estás a dizer!

—Sei muito bem o que digo; sempre soube. Isto de eleições é um negocio para aquelles que não são tolos como tu. Tanto faz pedir uma commenda como uma quadrilha. Acaso será maior vergonha pedir para arranjar um par do que um emprego? Só elle, um pedaço d'asno, dava os seus votos de graça! Nem commendador era ainda!

O Barros procurava acalmal-a:

—Que o snr. D. Antonio não era homem a quem se pedissem commendas. Ria-se d'isso.

Mas Serafina não se calava nunca por falta de argumentos:

—Ah! o snr. D. Antonio ria-se d'isso! mas elle proprio quizera ser bispo, que era uma especie de commendador da egreja ou mais ainda!

N'estas discussões domesticas sobre a eterna questão da dança, era sempre Serafina que ficava victoriosa. O Barros reconhecia n'ella superioridade de raciocinio, força de logica. Cada pessoa, pensava elle, tem pelo menos um defeito. Ora as mulheres, quando são espertas, ainda que tenham o seu defeito, sabem sempre desculpal-o. O homem tem a força do pulso; a mulher tem a força do argumento. O homem póde bater na mulher, mas acaba por ser batido por ella,—logicamente.{73}E o defeito da Fininha, o seu gosto pela dança, não era d'aquelles defeitos que compromettem a honra dos maridos. A mulher do Barradas d'Esmoriz, essa sim, servia-se da dança para chegar a certos fins illegitimos. Mas a Fininha gostava da dança pela dança,—sem segundas vistas.

E a Fininha, a respeito da mulher do Barradas, dizia-lhe muitas vezes:

—O que eu vejo é que as que se portam peior não ficam nunca sentadas!

—Por isso mesmo... respondia o Barros.

—Por isso mesmo!? Então na sociedade todas as distincções devem ser para quem menos as merece!? Que premio destinam então os homens ás mulheres honestas?!

O Barros embuchava.

—Lá está o raio da logica!... pensava elle.

—Sim, que visse, que reparasse, continuava Serafina. Ao passo que ella passava noites inteiras sem dançar, tendo a consciencia de ser uma esposa virtuosa, a Barradas andava sempre n'uma roda viva, e a filha do Saraiva de Mogofores, que fugira com um quintanista de direito para o Bussaco, e estivera lá dois dias com elle, não chegava para as encommendas na assembléa de Espinho. Elle Barros bem sabia que a sua Fina, quando casou, tanto podia ir para o{74}ceu como para o leito conjugal, porque não se podia ser mais donzella; e depois que casou, nunca ninguem se atrevera com ella, nem mesmo o escrivão de fazenda, que era baboso por mulheres.

E isto era exacto. A honradez de Serafina tinha duas muralhas que a defendiam: a virtude e a fealdade. Trigueira, ossuda, com as sobrancelhas espêssas e um buço de adolescente, fazia lembrar uma cigana. Como as ciganas, gostava das côres vivas,tapageuses. Dançando, saracoteava os quadris, rebolia-se, peneirando sobre o pavimento uns passinhos curtos, miudos e travados. As outras riam-se d'aquella quarentona amulatada, toda perliquiteta, que na dança tirava a vez ás meninas solteiras. O proprio Barros algumas vezes ouvia estes remoques, e em casa, timidamente, com um grande medo da Serafina e da logica, dizia-lh'o.

Ella replicava:

—Deixa-as rir: é inveja. Muitas vezes me disse o papá que eu, se não fosse tão alta, era tal e qual a snr.ª D. Carlota Joaquina.

—Salvo seja!... acudia o Barros.

—Nas feições, homem de Deus. E no meio da casa não me troco por nenhuma d'essas lambisgoias de vinte annos, que não foram ainda capazes de aprender as marcas dosLanceiros!

Mas um anno, em Espinho, fez-se uma terrivel{75}conspiração contra D. Serafina: meninas e meninos de vinte annos combinaram entre si empregar esforços para que a cigana da Mealhada não tornasse a dançar; um rapaz do Porto, a quem ella disse uma vez—Sempre mostra que é tripeiro!—foi o chefe da conspiração.

A coisa chegou a ponto de que n'uma noite de menor concorrencia, n'uma quadrilha franceza, dançaram comperna de pau, indo o par marcante fazercoté, tendo Serafina ficado sentada e estando disponivel um caloiro de Coimbra.

Serafina jurou aos seus deuses não voltar mais a Espinho; e no anno seguinte o Barros levou-a á Figueira da Foz.

Mas na Figueira havia grande numero de hespanholas e de portuguezas novas, que dançavam sempre. Serafina estava fula, e um dia fez com que o marido se entendesse com um dos directores do Club, o Peres, de Leiria.

—V. ex.ª, disse-lhe o Barros, na sua qualidade do director deve zelar igualmente os direitos de todos os socios. Ora a verdade é que minha mulher, que gosta de dançar, não tem dançado nunca, ao passo que outras senhoras, que pagaram quota igual, andam n'um sarilho continuo. Peço, em nome da justiça, providencias a v. ex.ª{76}

O Peres era reformista, sabia que o Barros pesava na eleição da Mealhada; não o quiz desgostar.

—Que sim. Que elle não dançava, mas que havia de fallar aos rapazes, e de os apresentar á snr.ª D. Serafina.

Mas o Peres nada poude conseguir dos rapazes: que não, que lá esse sacrificio não faziam elles. Que a D. Serafina era um monstro indançavel.

Muito entalado, o Peres já estava resolvido a perpetrar rheumaticamente uma quadrilha, quando passou na Figueira um destacamento, cujo capitão fôra antigo condiscipulo do Peres.

O capitão Lamprêa, de botas empoeiradas e barretina no braço, disse ao Peres que iareinarum bocado, porque tinha bebido bem ao jantar; que o apresentasse a uma dama.

O Peres teve um pensamento machiavelico: impingir-lhe D. Serafina.

Estava-se já organisando uma quadrilha. De pé, alguns pares esperavam. Um amador desalsifrés, Justino Soares, por vocação, andarilhava, combinandovis-á-vis. O Peres, poisando o braço direito sobre os hombros do capitão Lamprêa, avançou na sala, e aproximando-se de Serafina solicitou para o seu velho amigo e condiscipulo a honra de uma quadrilha.

O capitão Lamprêa recuou instinctivamente. Mas{77}o Peres, ao ouvido, dizia-lhe com um sorriso de malicia.

—O que?! Um militar portuguez não recua nunca!

Serafina acceitára com muito gosto: que sim, que tinha muita honra.

O Peres disse ao capitão Lamprêa que lhe ia arranjarvis-á-vis.

Mas n'isto ouviu-se tocar uma corneta, e o capitão Lamprêa, voltando-se rapidamente para D. Serafina:

—Ora esta! exclamou. Chama-me o dever. Já não tenho tempo de dançar! Que contrariedade! Mas á volta, minha senhora, terei a honra e o prazer de dançar com v. ex.ª

Fôra providencial aquella corneta tocando a recolher.

E D. Serafina, durante quinze dias, perguntava com um sorriso de agradecimento ao Peres de Leiria:

—Quando volta o seu amigo capitão?{78}

{79}

N'esta bella Ericeira, á beira mar plantada, faltam principalmente duas cousas... além de outras muitas: não ha flores nem passeios.

Um namorado, se tem imaginação botanica, não encontrará facilmente, para offerecer á sua dama, nada melhor do que umaperninha de manjarico, como dizem os saloios.

Quanto aos passeios, são pouquissimos: a estrada de Cintra, incompleta; a de Mafra que, á sahida da Ericeira, é muito ingreme. Restam S. Sebastião e as Furnas, que são o pão nosso de cada dia, pela simples razão de não haver por onde variar.

Acontece que, sendo poucos os passeios, toda a gente se encontra marchando sobre o mesmo terreno,—como se estivesse fazendo sentinella.

Por isso, a cada momento esbarramos com os{80}mesmos adultos e com as mesmas creanças, sempre muitas creanças,—principalmente este anno.

Tenho, é certo, uma natural affeição pelas creanças, mas não posso deixar de dizer que ellas chegam ás vezes, quando são tão numerosas como aqui, a embaraçar a marcha governativa das praias.

As creanças são sempre opposição, sophysmam e conspiram.

Havia outr'ora uma arma para vencel-as: a dictadura paterna. Mas as dictaduras são sempre violentas, ainda mesmo quando exercidas paternalmente. De modo que, graças á brandura dos nossos costumes, como se diz em S. Bento, se as creanças de agora teimam, o governo cede sem querer sahir da constituição, e a opposição triumpha sem que a Carta seja desacatada... mais uma vez.

Ora a civilisação tem evolucionado profundamente a maneira de pensar das creanças.

Quasi se póde affirmar que já não ha creanças, pois que essas pequeninas creaturas, que eu por ahi vejo a toda a hora em tão grande numero, são antes espiritos adultos que povôam os corpos de verdadeiros cidadãos de Lilliput.

Na minha infancia, havia ainda creanças, moralmente fallando, e eu tambem o fui.

Até aos doze annos, divertia-se a gente em casa{81}fazendo theatros e egrejas. Eu fui actor e sachristão em minha casa; ou antes, eu só, nomeu theatro, valia por uma companhia inteira, desde o emprezario até ao contra-regra, e, naminha egreja, cheguei ás vezes a ser uma collegiada inteira, incluindo o Dom Prior.

Muitas pessoas da familia imaginaram que eu teria vocação ecclesiastica, tal era o meu enthusiasmo pelos officios divinos e pela vida de sachristia.

Completa illusão!

Aquillo não era de mim; era do tempo. Todas as creanças foram então assim.

Quando uma vez por outra nos era concedido ir passar o serão n'uma casa amiga, o que nós faziamos, as creanças d'esse tempo, era entretermo-nos em adivinhações e joguinhos de prendas, a um canto do salão ou em qualquer outra sala onde os adultos não estavam.

As pessoas crescidas, como nós lhes chamavamos, dançavam, jogavam owhist, o voltarete ou conversavam simplesmente.

Os homens fallavam de politica: fallava-se muito n'aquelle tempo do marechal Saldanha, o heroe da Regeneração; principiava a fallar-se de Fontes Pereira de Mello, o ministro novo,—o ministro janota.

As senhoras fallavam de criadas e modas, como agora, como sempre.{82}

Não foram os adultos que mudaram moralmente, porque o thema de suas conversações continua a ser o mesmo,—para os homens a politica, para as senhoras as modas e as criadas: quem mudou foram as creanças.

Lembro-me muito bem de algumas adivinhações que então nos entretinham, pela maior parte difficilimas,—exemplo:

Serra na cabeça,Foucinha no rabo.Adivinha, tolo,Que é gallo.

E esta, egualmente difficil:

Uma velhinha,Muito encorrilhadinha,EncostadinhaA uma tranquilha.Passa, asno,Passa é.Adivinha o que isto é.

E ainda outras mais, todas do mesmo theor.

Que grande surriada quando qualquer de nós, pesar as palavras da adivinhação, mas attendendo{83}apenas ao seu conjuncto, bem merecia os epithetos detoloeasno, não atinando com o conceito do enygma!

Então, os paes e as mães, interrompendo a sua conversação, recommendavam menos barulho.

E os pequenos obedeciam, porque, n'aquelle tempo, não eram ainda opposição, como agora.

Apesar da revolução ter derrubado os Cabraes, o regimen paterno pautava-se ainda pela tradição cabralina, que era por sua vez uma revivescencia do regimen miguelista: o pau decidia todas as questões em ultima instancia; era a suprema razão.

Perante o pau, o pau que era palmatoria ou bengala, o que para o effeito valia o mesmo, as creanças cediam, os paes triumphavam.

Os pequenos de hoje em dia já se não divertem do mesmo modo, mas, em desproporção com a sua altura, divertem-se um pouco... á grande.

São os adultos que lhes fornecem pretexto para divertir-se; mas são as creanças que realmente se divertem.

Lembra-me a este respeito uma anecdota authentica.

Na Ericeira ha dois cemiterios: um que está cheio, e por isso condemnado; o outro, de construcção recente.

Como seja preciso pagar a despeza feita com o{84}novo cemiterio, a contribuição parochial augmentou este anno.

Ha dias, uma mulher, indo pagar a sua contribuição, queixou-se, achou que era muito pesada.

Explicaram-lhe o caso: que era preciso pagar a construcção do cemiterio.

E vae ella respondeu;

—Uns são que pagam, e os outros que gosam.

Authentico, repito.

Póde applicar-se esta anecdota ás creanças da colonia balnear da Ericeira.

Quem paga para se divertir são os adultos; mas são realmente as creanças que se divertem.

No Club, os primeiros a tirar par e a collocarem-se no meio da casa, são os pequenos.

Mas como os pequenos sejam muitos, a direcção do Club viu-se forçada a recorrer a uma medida severa, e mandou affixar na porta do salão o seguinte aviso:

«As creanças que concorrerem ássoiréesdo Club apenas poderão dançar na sala de entrada, a fim de não prejudicarem a boa ordem das danças no salão».

Os pequenos leram o aviso, e não gostaram. Houve amuos, piadas, protestos. A direcção, severa como Catão o Censor, manteve a sua resolução. Tudo foi pelo melhor durante duas ou tres noites, mas as{85}creanças lá tinham a sua fisgada,—sem que se soubesse o que, na sua qualidade de opposição, haviam resolvido.

Aconteceu que um valsista foi escolher para parceira de valsa uma menina de treze ou quatorze annos.

Os pequenos, reunidos em grupo, cochicharam entre si.

Conspiravam; não havia duvida. Mas qual seria o seu plano? Mysterio!

Pouco depois toca-se uma quadrilha, e os chefes da opposição conseguem que algumas senhoras vão dançar com elles.

Então os supracitados chefes argumentam do seguinte modo, revolucionaria e logicamente:

—Se um socio do Club póde dançar com uma pequena, uma socia do mesmo Club póde dançar com um pequeno. O direito e a quota são eguaes perante os sexos.

A quadrilha dançou-se, os pequenos dançaram, e a revolta triumphou.

Foi uma especie dejaneirinha, de revolução pacifica, feita sem sangue, apenas com as portas fechadas.

Os directores de sala pensaram gravemente na sua embaraçosa situação.{86}

Entregar o poder? Mas, segundo a logica das indicações constitucionaes, deveriam entregal-o aos vencedores. Teriamos pois um ministerio, quero dizer uma direcção de creanças.

Fugir á vergonha que os cobria? Mas os directores precisavam tomar banhos de mar, e não tinham ainda a sua conta.

Ficar, permanecer? Sim... talvez. Houve quem lembrasse que governar era transigir.

Para ganhar tempo, transigiu-se.

Um dos directores tomou para si o papel de duque de Avilla:

—Fiquemos, e conversaremos depois.

Entretanto, a revolta victoriosa campeava em pleno salão. Passavam rapidamente, nas voltas da valsa, por deante dos dois arcos da porta, meninas de dez annos bailando com meninos de doze. E os pares adultos passaram a ser n'essa noite verdadeiros pares degalão branco, tendo apenas as honras de valsistas, porque na realidade não pudéram dançar.

O boato da victoria dos pequenos correu rapidamente por todas as casas.

Creanças de dois annos fizeram perrice, choramigaram, gritaram que as levassem ao Club,—para valsar.

—Pelo amor de Deus! supplicavam os directores.{87}Que não venham mais creançcas! Isto é uma inundação de pequenos!

A sala da entrada do Club, que havia sido destinada ás creanças, estava deserta. E os revoltosos, embriagados com a victoria, continuavam a valsar no salão.

A direcção, como todos os vencidos, azoinava. Queria dar uma satisfação publica á sociedade, e a si mesma. Exercer represalias para com as creanças seria uma cobardia revoltante. Em todo caso, á sombra dos pequenos, já os grandes começavam a rir-se.

Era preciso uma idéa salvadora, uma sahida qualquer.

O pianista, sempre por ordem dos pequenos, principiava a tocar uma quadrilha. Então, por uma d'estas lembranças que passam rapidamente pelo espirito, illuminando como os meteoros, resolveu-se organisar uma quadrilha só composta dos paes, que foram dançar na sala de entrada, ao mesmo tempo que os filhos dançavam no salão, que era destinado aos paes. Esta inversão do papeis produziu geral hilaridade; salvara-se a situação com um epigramma, que é o unico desforço possivel nas situações perdidas...

Mas os heroesinhos vencedores tomaram gosto a essa especie de junta revolucionaria que haviam constituido e, não contentes com a posse do salão, principiaram{88}a inventar divertimentos por sua conta e risco.

Imaginaram uma toirada... platonica, isto é, uma toirada sem toiros, mas em tudo o mais a caracter.

Monteras, jalecas, capas, bandarilhas, tudo segundo o rigor tauromachico.

Mas, quanto aos toiros, esses, por intervenção de pessoas prudentes, foram substituidos por alguns garotos da beiramar, que se constituiram em curro para ir ganhar 100 réis por cabeça.

Eu encontrei na Praça do Jogo da Bola, conversando um com o outro, um toiro e um toireiro.

Andavam combinando as sortes a que um se prestaria e que o outro aproveitaria.

—Mas olhe lá, menino—dizia o toiro—olhe que se me chegar á pelle, eu marro-lhe a valer.

E o toireiro, fallando muito á mão, dizia ao toiro:

—Não tenhas medo, que eu só te ponho os ferros no fato.

Como se vê, são as creanças que estão dando as cartas e as toiradas, este anno, na Ericeira.

Decididamente, indubitavelmente: já não ha creança!{89}

Ha oito dias, um grupo de familias, a banhos na Ericeira, realisou na Foz umpic-nic.

Fallou-se muito da festa nos dias que medeiaram entre o projectal-a e o realisal-a. Pendo hoje a crêr que o que principalmente diverte em todas as festas é o antegostal-as. Fazer projectos... fóra de S. Bento, torna-se sempre agradavel. Só acho comparavel ao prazer de antegostal-as, o de recordal-as... annos depois.

Como n'este mundo não haja felicidade sem o contrapeso de contrariedades, acontece que a melhor maneira da gente gosar consiste em imaginar o goso que vae ter e que ás vezes, na realidade das coisas, sáe muito inferior ao que se esperava. Ás vezes ou... sempre;—sempre é que é. Passados annos, se a gente{90}se lembra de uma festa em que esteve, de uma hora de alegria que passou, dá apenas importancia ao que ella teve de bom, e já não deita conta ao que ella teve de menos agradavel.

A saudade é uma feição predominante do meu espirito: por isso eu saboreio as minhas recordações com prazer muito mais doce do que aquelle que as realidades me déram...

Umpic-nicé, certamente, uma festa muito convidativa... no programma, quando se trata de fazer a distribuição dos encargos que tocam a cada um: as aves a este, as fructas áquelle, os vinhos a aquell'outro.

Entre pessoas que se estimam, e que vivem na melhor intimidade, todas essas combinações culinarias servem de pretexto para matar o tempo agradavelmente.

A espectativa de um dia bem passado, em plena natureza, seja no campo ou á beira mar, é o ante-gosto de uma diversão nos nossos habitos de todos os dias, um córte excepcional, e como tal attrahente, no ramerrão da nossa vida ordinaria.

—Nem sempre rainha nem sempre gallinha... dizia um rei portuguez.

Pois bem! umpic-nicé uma variante á gallinha do nosso espirito, é uma especie de sardinha salgada que nos vae saber muito bem... como distracção.{91}

Surgem, na discussão do projecto, idéas extravagantes, caprichos exoticos: ha tal que não dispensa nunca os foguetes n'umpic-nice que portanto faz questão ministerial dos foguetes...

—Ó homem de Deus! mas se você não ha de comer os foguetes, porque é que os não dispensa?

—É porque eu, em Lisboa, não janto nunca com foguetes e, como se trata de uma diversão aos nossos habitos, quero que até nos foguetes seja completa a diversão.

—Muito bem. Haverá pois foguetes. Ó thesoureiro, escreva ahi, por baixo da verba das uvas, a verba dos foguetes. Ponha lá duas duzias.

—Pouco! Pouquissimo! Duas duzias de foguetes não é coisa que se oiça bem. Você sabe que D. PedroI, quando tinha insomnias, sahia a bailar pelas ruas com grande arruido? Pois eu pareço-me um pouco com elle... Quando espero divertir-me, desejo que todos fiquem sabendo que eu me estou divertindo á larga.

—N'esse caso, thesoureiro, seis duzias de foguetes.

Depois, um outro lembra que é preciso escrever a verba dos palitos, porque o palito como que prolonga a impressão de um bom jantar, e, como espera comer bem, quer prolongar esse prazer pelo maior tempo possivel.{92}

—Pois sim! Thesoureiro, seis massos de palitos...

Isto é alegre, divertido, desopilante.

Chega porém o dia dopic-nice as contrariedades levantam-se debaixo dos pés.

Madame *** amanheceu com a sua enxaqueca,—a terrivel enxaqueca que a persegue desde o seu ultimo parto.

O snr. Fulano espera a cada momento um telegramma importante de Lisboa e vae subresaltado.

Finalmente, o menino Arthur, ao subir para ochar-à-bancs, entalou um dedo, e a mãe quasi que perdeu os sentidos com a dôr do filho...

Confessem francamente se isto não costuma ser assim? Ora aqui está porque eu disse ha pouco que todas as festas trazem o seu cortejo de contrariedades.

D'esta vez, na Ericeira, todos os adultos se comprometteram a não ter enxaquecas nem telegrammas. E todas as creanças prestaram juramento solemne de não entalar os dedos na portinhola dochar-à-bancs.

Partimos alegremente, cerca de quarenta pessoas, para opic-nic, para a Foz, que fica a pequena distancia da Ericeira, e que se chama assim porque alli entra no mar, depois de haver descripto varios torcicollos, a ribeira de Porto.

O sitio todos nos o conheciamos.

Pittoresco, em verdade. O rio contorce-se dentro{92}do areal e interna-se pela terra passando por entre margens onde a vinha parece sorrir verduras ao abrigo das fragas.

Alli a dois passos, o mar, o mar franjado de espumas rebentando na areia.

Sitio delicioso! De mais a mais, nada nos havia esquecido. Fôra n'um carro de bois o barco em que deviamos deitar as redes; foram as redes; foram os bellos pitéos que cada um se encarregou de levar. Não havia esquecido nada; n'uma palavra, nada!

Mas, chegámos lá, e vimos que faltava uma coisa, que aliás a ninguem havia lembrado! E essa coisa era realmente indispensavel, imprescindivel. Essa coisa era... a sombra!

Sim! Havia o barco, as redes, o jantar, boa disposição, mas faltava unicamente a sombra.

Então, sobre a praia batida pelo sol, principiamos a procurar impacientemente, avidamente aquillo que nos faltava e de que todos se haviam esquecido: a sombra!

Dispersámo-nos em grupos, em pequenas caravanas: procura d'aqui, procura d'alli; todos procuravam sombra.

De repente ouviu-se um grito...

O que foi?! Appareceu a sombra?

Era o snr. Fulano que tinha escorregado de uma lage, e estava estatelado na areia.{94}

Outro grito, d'ahi a nada...

Agora sim! é a sombra?

Qual sombra nem qual diabo?! Foi o menino Arnaldo que se deixou morder por uma vespa.

O sujeito dos foguetes estava contrariadissimo.

—Não ha foguetes completos n'este mundo! dizia elle. A gente, ao sol, nem póde vêr bem a direcção que um foguete toma no ar! Esta só a mim acontece!

O dos palitos exclamava:

—Com uma torreira d'estas nem dá gosto jantar,—quanto mais palitar os dentes! Acreditem os snrs. que para palitar os dentes é preciso estar sentado á sombra, serenamente, sem que as moscas nos persigam. Eu não tenho geito nenhum de palitar os dentes com um raio de sol...

E os grupos dispersos continuavam procurando a sombra por toda a parte, no rio e na areia.

Mas a sombra, com ser uma coisa tão vulgar, não apparecia!

Um trocista affiançou que esperassemos pela noite para jantar, porque ao menos á noite haveria sombra.

Esta idéa sorriu ao sujeito dos foguetes, porque é justamente á noite que os foguetes podem fazer melhor vista.

Mas o dos palitos protestou, por que de noite não lhe seria facil verificar a qualidade dos palitos.{95}

Finalmente, depois de muitos trabalhos, uma estreita faixa de sombra appareceu, projectada por um rochedo.

—Isso não é sombra que chegue para todos, disseram alguns.

Mas não havia melhor: resolvemos portanto anichar-nos dentro da unica sombra que a praia nos offerecia.

E, sobre a sombra, as pernas encruzadas á oriental, o prato na areia, jantámos.

Chegava o farnel para o dobro da gente, e assim, para evitarmos uma grande bagagem de retorno, resolvemos comer o que poderia ter chegado á farta para nós e... outros tantos.

Emquanto jantavamos, uma machina photographica reproduziu o grupo pittoresco. D'este modo ficaremos por largos annos saboreando o nossopic-nicda Foz, ainda muito mais agradavelmente do que no momento em que o fizemos, porque ao menos na photographia não nos falta sombra.

Vejam se eu tenho ou não razão para gostar do passado!

Depois do jantar dançou-se, ao som de uma caixa de musica, no areial.

Se as caixas de musica servem para alguma coisa é para se dançar n'umpic-nic, porque, á volta, confundem-se{96}com a outra bagagem, e ninguem se torna a lembrar mais d'ellas.

E é preciso que seja assim, porque eu não conheço nada tão ridiculo como lembrar-se uma pessoa de que já se divertiu ao som de uma caixa de musica!

Mas, no regresso, as carruagens e os cavallos esperavam em cima na estrada, e o areial era immenso.

Lembramo-nos então que nos tinhamos esquecido dos burros!

Como tudo n'este mundo tem compensações, houve quem dissesse que, a haver burros, os foguetes tel-os-hiam espantado.

Que sim; que seria um incommodo para... os burros.

E o sujeito dos foguetes, satisfeito por não ter que contrariar ninguem, nem mesmo os burros, pois que tinham esquecido, mandou para o ar o seu ultimo foguete.

E o outro, o dos palitos, muito bem sentado nochar-à-bancs, affirmava que palitar os dentes era o mesmo que tornar a comer... em sêcco.

Mas, sobre tudo, quando estepic-nicha de ser bom, é daqui a vinte annos... quando o recordarmos saudosamente.{97}


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