ANTONIO FOGUEIRA

ANTONIO FOGUEIRA

N’uma excellente manhã de um maio risonho e feliz, duas creanças, que já eram orphãs de mãe, perderam igualmente seu pae! Além da orphandade, teriam tambem a negra fome e a sombria miseria indigente, se não fôra o bom cura, o padre Clemente Carvalhosa, que as foi buscar a casa, levando uma de cada lado, pela mão, para aresidencia! O Thomé Barbante, um tio d’essas creanças, tambem compadecido, ou, talvez, humilhado pelo caridoso procedimento do ecclesiastico, foi-lhe pedir que lhe désse uma para sua casa. O Carvalhosa cedeu-lhe a Quina, ficando com o Tone, que elle, n’um momento egoista, pensou vagamente em ir mettendo pela igreja, para de futuro ter quem lhe ajudasse á missa. Porém o Bernardo Repolho, lavrador remediado, que morava n’outra aldeia, a distancia de leguas, não lhe consentiu realisar esta ambição: sabendoda orphandade dos filhos de seu irmão André, que tanto eram seus sobrinhos como do Barbante, condoeu-se e, consultando a sua auctoritaria Engracia, resolveramadoptaremTone, visto Deus não os ter favorecido comum rapaz, que tanto haviam desejado!... Para a mulher de Bernardo, era uma consolação forçada!... Por espaço de annos presenteára generosamente todos os santos acreditados nas visinhanças, chegando a ir em romaria beber das diversas aguas milagrosas, tão apregoadas e tão efficazes, que nascem debaixo dos penedos, onde esses bemaventurados tinham apparecido!... Frequentára, tambem, com assiduidade, os banhos de mar, indo durante muitos annos, a Vianna, pelo tempo da Agonia, sempre dominada por um tamanho desespero de maternidade, que de uma vez chegou a tomartrinta banhosnos tres dias da festa!... Porém, as esperanças de ter um filho íam desapparecendo, a esterilidade de Engracia affirmava-se de cada vez mais com a idade! Viveu muito tempo n’uma constante aspiração, impaciente e nervosa, chegando aos quarenta e cinco annos—ao momento dos desenganos! —sem descendencia... A sua intransigencia, o seu mau humor, contra os filhos dos outros, ía caíndo n’uma melancolia latente, quasi n’um ediotismo, quando seu marido lhe propoz o trazerem para casa o orphão de seu irmão André, que acabava de morrer pobre... Engracia abraçou, inesperadamente, com alegria, esta idéa e adoptou com benevolencia a creança desamparada! Pediu instantemente a seu marido, que fosse, mesmo n’aquelle dia, buscar o pequeno... Para a satisfazer,o Repolho não teve remedio senão pedir ao padre Beiral, a bôa egua lanzuda. O ecclesiastico cedeu-lh’a facilmente, perguntando com a sua curiosidade de homem idoso:

—Então é o filho d’esse teu irmão que morava lá para os lados de Monção?...

—Sim, senhor, esse mesmo—respondeu o Repolho. Era muito pobre, não deixou nada...

—Pois fazes bem, fazes bem—applaudiu o sacerdote. É uma obra de caridade... Deixal-os ao desamparo, é creal-os para ladrões. Vae homem, vae, leva a egua da côrte...

E, no dia seguinte de manhã, Bernardo partiu, chegando ao anoitecer a casa do Thomé Barbante, dizendo-lhe peremptoriamente, qual a sua resolução e mais a de Engracia. Foi muito gabado este procedimento. Todas as pessoas diziam, inclusivamente o Carvalhosa, que o pequeno viria a ser bem feliz; porque, estes tios que o adoptavam, eram ricos e não tinham herdeiros necessarios. Porém, quem não entendia as cousas do mesmo modo enthusiasta, era o proprio Tone. Quando lh’o fizeram comprehender, principiou a berrar desalmadamente, dizendo que não, que não... que não queria ir. E, no momento em que o punham ao collo do Bernardo, que já estava montado, prompto para a partida, principiou a estrebuxar, a morder nos punhos de seu tio que o segurava amoravelmente, a chamar alto por seu pae enterrado e porfiando por se atirar abaixo do albardão. A final, como lhe prometteram que voltaria de tarde, para brincar com sua irmã Quina, quetambem ficava a chorar em altos gritos pelo Tone, deixou-se levar. Porém, só quiz ir ao collo do tio Barbante que elle conhecia, e não aod’aquelle home, que nunca tinha visto. Foi por esse motivo que o padre Carvalhosa teve de emprestar amalhadapara o Barbante ir montado, e lá partiram ambos, pelos caminhos ensombrados da freguezia, o Thomé com o pequeno adiante de si, escachado no albardão.

D’este modo, assim illudido, é que o Tone foi e ficou. O Barbante, para não ser presentido pelo sobrinho, retirou-se ao amanhecer, quando elle ainda dormia innocentemente. Desde essa hora, as duas creanças irmãs, que sempre tinham brincado juntas, na mais simpathica convivencia, ficaram vivendo a distancia de leguas, separadas por altas montanhas, que no inverno se costumam cobrir de grossas camadas de geada!

A nova paisagem, com a qual o pequeno Tone se tinha de familiarisar, era de uma sombriedade austera, penetrada de melancolia. É verdade que em baixo, no coração do povoado, havia campos onde os ribeiros sussurravam, indo regar os prados, de um verde claro, e os milharaes alegres. Porém em volta, era uma cinta escura de altas montanhas, com plantações de pinheiros que tem uma côr energica, mas triste, e com arrogantes penedias, que ameaçavam desmoronar-se. Lá no alto, onde os penedos se accumulavam toscamente, uns postos sobre os outros, viam-se frequentemente, occupados no seu rude trabalho, sob a inclemencia dos soes e das chuvas, os quebradores de pedra! Estes homensde um aspecto rude e carregado, com a pelle pergaminhada pelos rigores de todos os tempos, perfuravam pacientemente com as suas brocas, os penedos, que depois quebravam a tiro, cujo som ululante e cavernoso echoava pelas quebradas da montanha!

Na aldeia onde Tone nascera, o aspecto dos campos, a vegetação, era mais familiar e intima. Os terrenos mais suavemente accidentados, deixavam aos seus olhos vivos, mais largo espaço para ambicionar. Havia um rio largo, que no inverno engrossava arrogantemente com as chuvas copiosas. Dos silvados impenetraveis, povoados de sombras que lhe mettiam medo, costumavam saír inesperadamente, quando elle se aproximava, os melros, voando para longe, com assobios agudos e espantados. A sua memoria tenaz de creança devia possuir por muito tempo, nitidamente, o vivo quadro da sua linda igreja caiada e alegre, com uma torre alta, e os tres sinos que tocavam ao domingo! Era a igreja onde elle ia á missa com sua mãe e onde os primeiros deslumbramentos produzidos pelos opulentos dourados dos altares e pelas attitudes senhoris das imagens das santas, se lhe ergueram na imaginação! Era de um pittoresco mimoso o quadro d’essa igreja, collocada na encosta, com a sua brancura que se destacava do souto de velhos castanheiros e carvalhos que a cercavam! Áquella imaginação infantil de Tone, deviam fazer falta estas cousas amadas pelos seus olhos vivos e ingenuos! N’estes caminhos pedragosos de agora, não se podia correr doidamente como n’aquelles outros, pelos quaes andara atrás de sua irmã Quina, para aagarrar. Por isso, nos primeiros tempos, fartava-se de chorar, tinha perrices freneticas e chamava em altos gritos por seu pae, por sua tia Clara, por sua irmã e não queria comer. Mas a mulher do Bernardo Repolho affeiçoou-se-lhe imprevistamente e acarinhava-o, procurando consolal-o, promettendo-lhe dôces e santinhos, que lhe havia de trazer das romarias. E n’um dia, para mostrar a effectividade das suas promessas, fez-lhe uma dadiva surprehendente, a qual foi recebida pelo Tone com tal alvoroço, que por si só parecia capaz de lhe obscurecer todas as lembranças risonhas do seu passado mediocre! Engracia comprou-lhe um pequeno cabrito, de pello lusidio e negro, um pequenino cabrito que faziamé,mé, com uma voz tremida e saudosa, na qual talvez quizesse exprimir a saudade de seus companheiros, que deixára na liberdade incondicional das montanhas!

Todos os rapazes da visinhança, que já se davam muito com o Tone, lhe invejaram, desejando-a, a posse d’este animal, e não occultavam que, nos seus peitos infantis, se guardavam estragados sentimentos de cubiça! Acercavam-se do possuidor, dizendo-lhe em tom melifluo e condescendente, palavras agradaveis, de muita e sincera amisade, por meio das quaes desejavam captar-lhe a benevolencia. Porém, como elle resistia, afastando-se, altivo e orgulhoso, com o cabrito pelo baraço, que lhe atara ao pescoço, um dos amigos propoz-lhe de um modo astuto:

—Olha, semodeixas levar a comer ali adiante, dou-te esta carapuça nova...

O Tone olhou com modo avido para a carapuça offerecida, que era vermelha e, depois de calcular mentalmente as vantagens, condescendeu:

—Pois sim, dá cá a carapuça!

Foram os dois e muitos outros, com o cabrito em grande distincção, festejando-o com alaridos, como um triumphador romano. Quando chegaram junto de uma poça, onde encontraram um pasto verde, que julgaram appetitoso, pararam, porque entendiam que o cabrito deveria comer. Para conseguirem isto, usaram de subterfugios infantis, escolhendo-lhe meticulosamente a melhor herva, que profiavam metter-lhe na bôca... Quando o animal, com os seus dentes finos, mastigava, levantava-se da parte das creanças uma expressiva satisfação, olhando para o animal n’um silencio attencioso e meditativo; todos deante d’elle, agachados, contemplando-o com veneração!...

Estes e outros factos similhantes, fizeram com que o Tone fosse esquecendo gradualmente o seu estreito passado. Como tinha os mimos de Engracia e as lisonjas cavilosas dos seus companhiros, principiou a desenvolver-se-lhe uma vontade forte, desejos impertinentes, certa irascibilidade e orgulho. D’entre os rapazes com quem brincava, só distinguia o Zé do sachristão; porque este lhe consentia o tocar o sino pequeno,a bambom, nas occasiões de enterro! E como o Zé na escola jáescrevia debuxadoe o Tone, apesar de ter oito annos ainda nem sabia aslettras, disse-lhe o do sachristão:

—Ócoisa, quando é que tu vaes com a gente p’ro studo?

O Tone respondeu-lhe com um desdem despresador:

—Eu não vou...Issode studo não presta...

—Presta meu asno... Vae, e tu verás que presta. Começas logo na carreira doA.

—O que é a carreira doA?!—indagou o da Engracia, com modo suspeitoso...

—É a carta. Ai! tu não sabes! Olha, pede á tua mãe que te merque a carta, que é muito linda. Tem um gallo... é muito linda. Depois vae ao studo, que andam lá muitos rapazes. Quando não está o senhor mestre, a gente brinca ás escondidas, joga o talo na eira... Vae meu asno que é bonito.

Influido d’este modo pediu, n’esse mesmo dia, á mãe, que o levasse á escola. Engracia, para o não ouvir chorar, lavou-lhe logo a cara e conduziu-o a casa do mestre que era o senhor Antoninho Beiral... O senhor Antoninho Beiral, um rapaz forte, espadaúdo, alentado, era tambem o melhor caçador de perdizes da redondeza! Andára em Braga a estudar para padre, com o fim de succeder naencommendaçãoa seu tio; mas não conseguira presbiterar-se, por terdesfeitiadoum velho conego na pessoa de uma creada massiça e de rosto oval... Depois d’isto, cortada a carreira, retirou-se definitivamente para a sua aldeia, deixando crescer grandes barbas, andando pelos montes e por entre os milhos ás perdizes eás moças... De vez em quando, para se desaborrecer, dava aula de instrucção primaria, pois era o professor official!... Os seus discipulos temiam-n’o; porque elle era severo e zurzia-os, com uma vargasta pelas orelhas ou com duzias de palmatoadasbem puchadas, quando os suppunha delinquentes! Se emquanto osenhor professorandava ás perdizes, elles se divertiam na eira, a jogar o talo ou ás escondidas, logo que persentiam ao longe o ladrar do podengo, arregimentavam-se pressurosamente para irem ao encontro do senhor Antoninho pedir-lhe a benção, do que elle osdispensava, passando de espingarda ao hombro, com um modo carregado e negativo.

No dia em que Engracia lhe levou o Tone, a mulher do Repolho teve de esperar que o senhor mestre viesse; porque andava no monte... Logo que chegou, viu Engracia, humilde, com o rapasito ao lado e perguntou-lhe com indifferença:

—Queria alguma cousa?...

—Se me fazia a esmolinha de me deixar entrar este pequeno cá para o studo—respondeu.

—Que idade tem?

—Oito annos.

—Traz a carta?

—É isto que comprei lá em baixo na tenda, senhor?

E mostrou-lhe, com o braço estendido, um pequeno folheto de capa de papel pintado. O senhor Antoninho, lançando-lhe um olhar infimo e despresador, concluiu:

—É isso mesmo, sim senhora. Deixe ficar. Olha rapaz, vae p’rá acolá.

E apontou-lhe a estremidade de um banco, onde o Tone, amedrontado e encolhido se foi sentar... Em seguida, o senhor mestre entregou a um discipulo a espingarda, para lh’a ir pôr na varanda, emquanto elle se foi sentar, de modo brusco e pesado, na cadeiraprofessoral, onde se conservou silencioso, durante alguns minutos com a testa apanhada na mão esquerda!... Por fim, tirando de uma gaveta e collocando em cima da mesa, n’uma evidencia terrificante, a palmatoria disciplinar, indicou aos descipulos que n’esse dia, não passariamsem molho, como elle costumava dizer.

Mas o Tone da Rosaria não gostou d’aquellestudo: o mestre era brusco, tinha uma voz grossa, que repellia, uma cara rude, com muita barba. Na mesma tarde em que entrou para a escola, viu, com um semblante cheio de susto, que, o seu amigo, o Zé do sachristão, a unica veneração que o Tone tinha n’este mundo, foi severamente castigado com dois murros, levantando-se do chão a deitar sangue pelo nariz, só por lhe ter caido um borrão na escripta! O Zé chorou soluçando reprimidamente, desculpando-se, e ficou muito tempo no seu logar, a olhar para omanual, com os seus olhos vermelhos do chôro, fingindo uma penetração que não tinha. Por um movimento espontaneo e sympathico, o Tone foi ter com o seu amigo, para o consolar! Porém, o mestre, disse-lhe com uma voz estrondosa, que se fosse sentar... Elle obedeceu, encolhido de medo, como um cão escorraçado, e principiou tambem a chorar, soluçando...

Quando chegou a casa disse:

—Ora eu não quero mais aquellestudo...

—Porque?—indagou sua mãe.

—O mestre bate nos rapazes. O Zé da igreja verteu sangue pelo nariz e chorou muito...

—Mas tu has de saber a lição e o senhor mestre ha de ser muito teu amigo...

—Não quero ir mais... Elle bate-me e faz-me deitar sangue pelo nariz...

E não voltou mais. Quiz antes os seus devertimentos:—ir para o campo com os filhos dos lavradores que andavam com o gado e não estavam para aprender a ler, jogar otalocom elles, abrir covas á mão para enterrar pedras que fingissem de mortos, compraraos outrosgaitas, com o pão que levava de casa... O Tone andava quasi sempre acompanhado do seu cabrito, que elle mandava com ama voz exigente e imperiosa... Os seus amigos, para o desgostarem, desmereciam-lhe o animal. Porém, n’um dia, em que esse cabrito appareceu puxando um carro novo, todos os invejosos se submetteram. O Zé do sachristão que lh’o viu e lhe cubiçou, carro e cabrito, disse-lhe:

—Das-m’o, Tone?

—Não—respondeu energicamente.

—Pois tambem, quando quizeres tocar o sino pequeno, a repique nos dias de festa e abambomnos enterros, não te hei de deixar...

—É o mesmo—respondeu com isenção.

O Zé propoz-lhe:

—Se me désses o carro e o cabrito, deixava-te tocar o sino e dava-te uma cousa muito linda que eu tenho...

—O que é?—indagou com os olhos muito abertos.

—É um ninho com cinco melrinhos...

—Isso não presta—desdenhou o Tone, cheio de soberba.

—Ai, não presta, tomaral-o tu! Os melrinhos já têem pennas, estão quasi a voar...

—E onde é o ninho?—indagou o dono do cabrito e do carro.

—Arreguilal-o—respondeu arregaçando a palpebra inferior do olho esquerdo. Querias saber; mas não chuchas. É n’um sitio...

—Vamos lá ver?

—E das-me o carro?

—Dou; mas tu has de me deixar tocar o sino no dia da festa, e das-me o ninho.

—Pois sim, então dá p’ra cá o carro. Amanhã não ha studo e então vamos tirar os melrinhos, que já são grandes!

—Eu quero hoje o ninho...—exigiu o Tone.

—Hoje vou p’ro studo, não posso!—desculpou-se o Zé, visivelmente infeliz.

—Não vás hoje ao mestre. Isso de studo não presta!—aconselhou o Tone desdenhoso.

—Ai, elle é onão vás hoje. E o meu pae? Não, que o meu pae, depois, bate-me.

—Elle não sabe. Gazeia hoje Zé...

E o do sachristão, para obter o carro, resolveu-se a gazear. Com elles ambos foram outros rapazes que tambem andavam na escola e outros que não andavam. Desejavam ver o ninho, que estava n’um carvalho, perto de uma poça, segundo affirmava o Zé.

Encaminharam-se por entre uns silvados. Como era no tempo das amoras, pararam muitas vezes para ascolherem. Houve algumas bulhas, porque todos desejavam apanhar as que estavam mais maduras. Antes de chegarem ao sitio do ninho, passaram por umas cerejas que tiveram tentações de comer... Porém, como eram do padre Beiral, reconsideraram, com a lembrança de que o mestre, que era sobrinho do ecclesiastico, sabendo-o, os zurziria com a chibata de marmeleiro, que tinha encostada á parede, na aula. Quando chegaram ao pé do carvalho annunciado, disse o do sachristão:

—Olha, Tone, o ninho é ali.

—Deixas-me subir p’r’o tirar?

—Não senhor, que tu és muito pequeno—respondeu com orgulho, alongando os beiços. Podes cair e depois a tua mãe vemcom aquellas...

—Deixa-me ir Zé, que eu não caio—insistiu o Tone, com voz de pedinte.

O do sachristão, para conciliar todos os desejos propoz:

—É melhor tu ires para cima dos penedos. Eu subo e dou-te o ninho para a mão. Queres?

—Pois então vá lá—rematou o da Engracia, concordando. Mas não dás a estes, não?

—Não, dou a ti...

Os companheiros, offendidos com esta exclusão, disseram orgulhosamente:

—Olhem, o diabo do asno! Tem medo que lhe comam a porcaria do ninho!...

O Zé do sachristão principiou a subir. Primeiro abraçou-se ao carvalho, depois encolheu as pernas, em seguida fincou o lado interno dos joelhos para se segurar,e por fim, o lado interno dos pés para se impellir... Quando se ia chegando ao cimo do carvalho, elevando-se assim, prudentemente, agarrou-se a um forte galho, segurando-se com presistencia. E disse para os que, debaixo, o seguiam attentamente com os olhos:

—Cá estão, os cinco melrinhos. Já tem penna.

—Dá-os para cá—disse o Tone de cima de penedo, relanceando um olhar despresador para os outros rapazes, que se conservaram afastados, n’uma reserva sensata e orgulhosa...

—Chega-te mais para cá—observou-lhe o Zé.

—Não posso mais—respondeu desconsolado, inclinando-se do penedo para o carvalho.

—Então levo-os eu para baixo. Se caem no chão morrem e depois tu não me dás o carro.

E principiou a descer, tendo previamente mettido no seio, os cinco melros pequenos. Como precaução, para os não esmagar, descia afastando o corpo do velho tronco do carvalho, agarrando-se tenazmente com as mãos e fincando os pés na casca nodosa. Quando chegou a baixo, disse mostrando os cinco passaros, que ia tirando um a um, de dentro da camisa:

—Toma. Agora dá cá o carro.

—Dá tu primeiro os melros—observou-lhe o Tone.

—Isso arreguilal-o!... Então, mão por mão, como os rapazes.

Todos os companheiros cercaram o possuidor dos melros, olhando-o com olhos seccos e avidos!...

Um pediu-lhe com um tom melodioso e humilde:

—Dás-me este melrinho, Tone?

—Não!—respondeu avaramente o da Engracia.

—Tambem eu te não dou uma cousa...

—O que é?

—Quatro botões amarellos de duzia, muito lindos...

E mostrou-lhe na palma da mão, para lhe causar inveja, quatro botões com armas reaes, que tinham sido furtados de uma antiga farda meliciana do avô. O filho da Engracia gostou muito dos botões amarellos de armas reaes, que valiam cada um, doze fôrmas! Por isso trocaram. O Tone deu-lhe um melro por todos, por isso ficou sómente com quatro, que metteu sensata e reservadamente dentro da carapuça, para os não opprimir e para lho’s não cubiçarem com os olhos. Os outros rapazes, com o fim de captarem a confiança do Tone, davam-lhe generosos conselhos:

—Sabes o que deves fazer? Dá aos melrinhos sopas de vinho—dizia um.

Outro offerecia:

—Ó aquelle, tu queres pão para elles, que eu dout’o? Olha que hão de ter fome...

E n’esta idéa caritativa, afastavam-lhes com os dedos sujos as mandibulas, introduzindo-lhes na bôca pão esfarellado, que os melros regeitavam.

Um dos rapazes teve esta idéa:

—Sabes o que os passarinhos querem? É beber.

Passava ali um regato que em baixo ía fertilisar um campo de herva. Na superficie da corrente, iam folhas verdes e guiços. As tenras plantas que tinham nascido no logar onde corria a agua, curvavam-se obedientemente,à sua passagem. Porém, nos momentos em que a força da corrente era menor, erguiam-se com orgulho, retomando a sua posição habitual. Os rapazes, quizeram dar de beber aos melros n’este regato. Para isso mettiam-lhe o bico na agua, empregando um esforço meticuloso e cuidado. Porém elles, assim, não bebiam bem, e o Zé do sachristão, que tinha onze annos, disse com voz emphatica:

—É que os melrinhos não sabem como se bebe, meus asnos? Ensinae primeiro aos animaes como se bebe!...

Este alvitre foi adoptado e, para conseguirem o fim desejado, lembraram-se de imitar, o modo como presumiam que os melros velhos dariam de beber aos seus filhos. Tomavam a bôca cheia de agua e introduziam o bico de cada passarito entre os beiços. Porém, como d’este modo ainda não bebiam, abriam-lhe de novo as mandibulas á força, e com uma palha molhada na corrente, deixavam lhes cair gotas na garganta. Mas este processo era demorado, a paciencia infantil esgotou-se e o Tone, para andar mais rapidamente, metteu debaixo de agua a cabeça de um dos melros, ao qual se encarregara de dar de beber e afogou-o, principiando depois a choramingar. O Zé possuidor do carro, disse com desconfiança:

—Sim, matta-os e vem cá para eu te dar o carro que has de vel-o por um canudo!...

Na realidade, o filho da Engracia achava-se descontente com a troca e principiava a pedir outra vez o seu carro e o seu cabrito. O Zé respondeu lhe:

—Isso é que não! Quem dá e torna a tirar ao inferno vae pagar!

E ao pronunciar estas palavras cabalisticas, fez no ar uma cruz de maldição, com a mão em gume, afastando-se com o cabrito e com o carro.

O sol ainda ía alto e os rapazes, para gazearem correctamente, deviam chegar a casa ás horas a que poderia ter terminado a escola. Para se entreterem mais algum tempo, lembraram-se de jogar o botão. A sorte marcou oreie ofossa—o primeiro e ultimo aatirar á buraca; porque foiesteo jogo preferido. Era n’uma encruzilhada de dois caminhos, onde havia um cruzeiro. O Zé do sachristão e os outrosmaiores, tiravam das saccas que traziam ao pescoço, por dentro da camisa, asfôrmas... O Tone conservava-se triste, a certa distancia; pois que, antes de principiaremá buraca, já lhe tinham ganho os botões amarellos,á parede. Com o fim de obter mais fôrmas para poder jogar, teve que vender ao Teixugo os melrospor duas duzias. Porém, no momento em que estavam verdadeiramente presos n’este entretenimento ambicioso, ouviram uma voz tremenda que lhes bradou de cima do muro sobranceiro, com uma ironia terrificante:

—Sim senhores, lindos meninos! Então uma gazeadella, ein?!

Era o senhor Antoninho, que ali apparecera casualmente, andando á caça! Quando o mestre suppunha queaquellesdiscipulos o estavam esperando na eira como de costume, vae-os encontrar ali a jogar o botão!... Os rapazes ao verem-n’o, olharam-se repassados de umterror estupidificante, ficando n’uma coacção espasmodica! Os musculos faciaes permaneceram n’uma regidez tetanica, e os olhos, muito abertos, fixaram-se, com uma insensibilidade apparente, nosenhor professor! Porém, quando este se dispunha a descer o muro para os punir a murro, elles seguiram o instincto salvador!... Fugiram, deixando o carro, o cabrito, os melros, as fôrmas e... tudo! O sobrinho do padre Beiral ainda lhes gritou de longe, iracundo:

—Andae meus grandes marotos, que ámanhã vos ensinarei. Assim é que se vae á escola?! Ella vos saberá ao alho, a gazeadella! A pelle das vossas mãos é que o ha de pagar!

Depois de mais os não ver, pegou nos melros, estorcegou-lhes o pescoço, metteu-os no bolso, e disse para si, com mais reflexão:

—Sempre servem para um arroz!...

E foi indolentemente, pelo caminho adiante, assobiando, com a espingarda ao hombro.

Alguns annos depois, o Antonio da Engracia era tido como o rapaz mais turbulento d’aquelles sitios:—attribuiam-lhe, a elle e aos seus companheiros, todos os casos bulhentos que por ali se davam. De todos os seus amigos da infancia, faltava um, o Zé do sachristão, que tinha ido para o Brazil, e já escrevera muitas cartas. Na ultima fallava palavrosamente, com muitas repetições emphaticas, de largos projectos de fortuna! Affirmava estar muito contente, e promettia, se Deus o ajudasse, vir d’ahi a annos, fazer o orgulho de seu pae. Um longo periodo d’essa carta desvirgulada, era destinado especialmente a recommendar muito o pequeno cão, que deixara na aldeia no dia da partida... Tinha-o em grande estimação, lembrava-se todos os dias doRabicho, desejava encontral-o quando voltasse...Esse animal, magro, aleijado, rijo e bom, representava, para aquelle rapaz, um affecto incondicional, uma dedicação cheia de provas... Obtivera-as na paciencia com que lhe soffrera as travessuras infantis. Se lhe batia, em vez de fugir ou de ladrar, rojava-se-lhe aos pés, com o ventre para o ar, os olhos humidos e resignados, ganindo humildemente, n’uma obediencia absoluta... Na manhã de julho, na qual José partira, quando elle, com os olhos rasos de lagrimas, se despedia das mulheres da visinhança, que lhe atacavam os bolsos de fructa; quando, pela ultima vez para muitos annos, olhava para aquellas paredes negras e musgosas da sua aldeia, para os penedos que estavam no alto do monte, para os pinhaes sombrios... espalhando sobre essas cousas inanimadas uma vista de saudade; quando se despedia dos seus amigos que ficavam... o seu cão, aquelle mesmo que recommendava em todas as cartas, acompanhara-o, indo na frente, a vinte passos, com uma perna no ar, correndo alegremente, bebendo nos regatos do caminho, voltando atrás para festejar seu dono, com movimentos expressivos de cauda, e saltava-lhe ao peito! Fôra com o sachristão e seu filho até meia legua fóra da freguezia; porém, ovelho, julgando inconveniente esta companhia, escorraçou-o para casa, fazendo-lhe gestos de uma fingida colera theatral, atirando-lhe pedras, e dizia: «Passa fóra, Rabicho». O cão, com a sua perspicacia quasi humana, conhecendo que era importuno, incommodo, que não devia proseguir, subiu a um muro, e ali permaneceu de pescoço firme, com o focinho para diante, as orelhastesas, os olhos fixos, n’uma attitude observadora, até que elles desappareceram!... Este rapaz de quatorze annos deixava a sua aldeia e as suas queridas affeições. Ia muito longe, procurar uma fortuna incerta!... Poderia, no contacto do mundo indifferente, perder muitas das intimas recordações da sua terra. Porém, o que elle nunca esqueceria, era o dia em que partiu, as mulheres que lhe davam a fructa chorando, os rapazes que ficavam sentados nas pedras do caminho e a firmeza esperta do seu cão em cima d’aquelle muro! Em todos os quadros da sua vida infantil, que muitas vezes reproduziria de memoria, para contentar a saudade natural, appareceria decerto aquelle cão, em cima d’aquelle muro, n’uma posição intelligente e nervosa, com sol a illuminal-o fortemente de um lado!... N’esta ultima carta, ainda se lembrava nitidamente de toda a visinhança, designando cada um com o seu nome por extenso e acrescentando-lheo alcunho.Á senhoraEngracia do Repolho, por exemplo, aconselhava a que mandasse o seu Antonio paraaquella, affirmando-lhe de um modo cathegorico «que ali é que se ganhava dinheiro ese fazia a gente homem».

O sachristão, tendo soletrado meditadamente, por tres vezes, toda essa extensa carta, saíu de casa para a levar ao padre Beiral, o mais circumspecto dos ecclesiasticos visinhos!... Era um homem pacato, com algumas impaciencias veniaes, com muitas impertinencias de achaques, lembrando-se, sempre que lhe perguntavam pela saude, que vinha a morrer da bexiga, pelo que batia com dois dedos no baixo ventre exclamando:

—Ah! vem a ser d’aqui... D’aqui é que hei de ir para os anjinhos como o João Thomaz!...

O João Thomaz era um seu antigo condiscipulo, que morrera parochiando na freguezia limitrophe!...

Na sua comprida varanda telhada e soalheira, é que o Beiral reproduzia as suas queixas, cumprindo, já se entende, regularmente com as suas resas!... Interrompia-se sómente para deitarum milhinhoás gallinhas, que esgravatavam no quinteiro e que logo ao verem-n’o passear de lado para lado, faziam cácárácá... Mas, todos os seus peccados, vinham de que os porcos, impacientes e gulosos, afugentavam as aves com grunhidos, com impulsos de focinho, o que, para elle, era mesmo uma damnação... Por isso o ecclesiastico, com pequenos gestos de frenesi, quando isto succedia, voltava á cesta do milho, tomava novamente a mão cheia, e espalhava-o habilidosamente no quinteiro, com um largo gesto de orador que abrange um auditorio. As gallinhas, já conhecedoras d’esta artimanha, logo que sentiam o crepitar do grão sobre as pedras do quinteiro, corriam precipitadamente de todos os lados, com as azas abertas, os pescoços alongados, as mandibulas promptas, e principiavam a comer soffregamente, antes que chegassem de novo os porcos.

No momento em que entrou na varanda o sachristão, remoía, o padre Beiral, as ultimas palavras da sua resa. O pae dobrazileirodisse-lhe do fundo da escada de pedra, mostrando-lhe um papel azul, com um bom riso de contentamento:

—Cá a temos, senhor!...

O ecclesiastico abriu-se tambem, n’um riso expontaneo e exclamou:

—Não t’o disse eu?! O rapaz não se esquecia... Lá por não teres na ultima barca, não é que se não lembrasse.

—Vae muito bem, com a ajuda de Deus que tudo manda, vae muito bem!

—Está bom, homem. Entra cá para cima.

E n’uma voz mais baixa:

—Que diabos de porcos aquelles! São o vivo demonio. Ó Maria—chamava. Anda cá rapariga!

Do lado do quintal respondeu uma voz sadia, n’um tom malcreado e agudo:

—Que é, senhor?

—Aquelles porcos que rompem o lençol... Deixa lá Manuel... Vem cá p’ra cima que a rapariga arranjará isso. Com que então o teu Zé escreveu e dá bôas noticias!... Muito bem, muito bem...

—Aqui lh’a trago...—certificava com rosto satisfeito, apresentando uma carta de papel azul, pautado, muito fino, que lhe rangia entre os dedos. Trazia-a cuidadosamente dobrada, tendo rasgado unicamente a parte collada pela obreia vermelha e quadrangular. Mostrava com orgulho o talho da letra commercial do sobrescripto, os carimbos de tinta atijolada, os dois sellos azues, representando a dôce efigie do imperador, com a sua fina barba-toda. Depois, para que o ecclesiastico visse o que o seu Zé dizia, abriu melindrosamente a carta, e entregou-lha affirmando em seguida:

—Leia, senhor, leia queestá-themesmo umhome. Falla com uma cabeça!...

E, ao pronunciar estas simples palavras, tinha lagrimas orgulhosas, por ter um filho quenão merecia a Deus Nosso Senhor.

O Beiral disse-lhe:

—Confesso-t’o agora Manuel. Nunca pensei que fosse para lá fazer boas cousas. É bem certo o dictado: «Quem bom é, em toda a parte se salva.»

E, com a inflexão do homem que conhece muito o mundo, acrescentou com uma reserva premeditada:

—Olha que as más companhias por esse universo fóra são muitas. Digo-t’o eu, Manuel, que são muitas.

Depois, com os seus bons oculos de aço, que primeiro limpou ao forro da batina, tomou a carta aberta, pol-a á distancia do comprimento do braço, e, com signal approvativo de cabeça, disse com voz cantada:

—Apre! Bonita letra! Meu sobrinho sempre disse que para cousas de escripta era um dos que tinha mais geito. Do que elle não gostava, era que o teu filho andasse por esses montes aos ninhos. Lá com isso damnava-se. Todos os caçadores são assim... Que lhes matem a criação nos ninhos, não gostam nada!...

E ria de um modo secco e breve.

—Saiu-me um rapaz que não mereço ao Altissimo. Leia essa carta, senhor!—considerou o pae dobrazileiro, com uma pronuncia sensibilisada e lacrimosa.

O clerigo continuou:

—Está bom, o rapaz sabe da cortezia. «Meu presadissimo pae.» Meu sobrinho puxou-te bem por elle.

—Estou-lhe obrigadissimo. Isso ainda que ponha a cara onde elle põe os pés...

—Não lhe pagas não, pódes dizer—concluiu convencido.

E continuou a lêr n’um tom pausado, cheio de cadencia, pronunciando com inflexão approvativa de elogio...

—«Desejo ir, muito brevemente aessa, para dar alegria a meu pae.» Não tem duvida, é bom filho. Ha quantos annos foi?

—Faz seis lá passante o S. João que vem.

E o ecclesiastico, como recordando-se, confirmou:

—É verdade. Agora me lembro. Quando me veiu dizer adeus, dei-lhe peras das que tenho d’esse tempo.

O sachristão acrescentou melancolicamente.

—Parece que foi honte, senhor!...

—E queres vêr o que elle diz aqui abaixo?! «Diga á tia Engracia do Repolho que mande o Tone paraesta.»

—Logo lá hei de ir—affirmou com simplicidade o sachristão.

O Beiral interrompeu com energia:

—É malhar em ferro frio! Um grande brejeiro, é que elle é. Não sae ao teu, que por andar com elle tambem cheguei a pensar que ficasse por ahi um...

E remoeu longamente a lingua na bôca, para concluir com os beiços alongados e as proeminencias malares vermelhas:

—... ummeliante.

O sachristão atalhou com serenidade orgulhosa:

—Elle tinha um pae! Vossa Senhoria bem sabe, que não punha nada em lhe atirar os braços a terra, em lhe pôr os ossos n’um feixe!...

O Beiral respondeu:

—Deste-lhe a criação. Elle não era dos mais quietos (e sorriu bondosamente), valha a verdade que não era dos mais quietos; mas soubeste ser pae. Nunca foi como esse brejeiro, esse grande tratante, que me escangalhou uma videira o anno passado (enthusiasmava-se gradualmente), e me roubou as uvas que eu tinha ali para uma necessidade, para uma doença! Sabes? aquella videira lá do outro lado, ao pé da porta de baixo, e que seccou depois!...

O sachristão respondeu intrigado, coçando a cabeça:

—Valha-nos a Santa Igreja!... Aquillo vae mal, senhor. O rapaz tem feito muitas; mas ha de encontrar o seuhome.

—O que?—diz o clerigo afogueado. O seu homem hei de ser eu! Uma farda ás costas! Uma farda, entendes tu?! Não descanço emquanto lh’o não fizer. Tenho muito amigo,nesseVianna! Olha que lh’a arranjo.

E ficou com um aspecto apopletico:—concentrava-se-lhe gradualmente o sangue nas faces, os olhos tomavam uma vivacidade tigrina e a voz era tremula e humida. Contra oadoptivode Engracia ainda disse muitas cousas:—elle é que lhe tinha aleijado um carneiro, attribuia-lhe o desmoronamento de uma parede que apparecera no chão em certa manhã de inverno, e affirmava que não fôra a ventania mas sim o Antonio que lhe destelhara um canastro, com o fim malefico de se lheestragarem as espigas com toda a chuva de uma tempestuosa e terrivel noite de inverno. E concluiu assim:

—Pódes dar graças a Deus que o teu saiu-te um rapaz chibante. Mas este de cá!... Este grandissimo maroto que me aleijou o carneiro! Bem se vê que falta um homem n’aquella casa! O Bernardo é um... umcebola. Já disse á Engracia que mandasse aquelle (não sei como lhe chame, Deus me não castigue!) para a terra!... Mas qual manda ou qual carapuça! É uma babosa pelo garotaço, e quer deixar-lhe tudo. Emprega-o bem!

O sachristão, que era homem de rosto moderado, cheio de conveniencias, depois de ter escutado respeitosamente as invectivas do sacerdote, cortou-lhe assim a conversa:

—Pois sim senhor... Então vou lá ao senhor mestre mostrar-lhe a carta domeu.Tamemlhe manda muitas recommendações e eu quero que elle veja.

—Talvez o não encontres—disse o Beiral mudando de tom.—Aquillo, a estas horas, anda lá para o monte á caça. Mas chega lá sempre, a ver se o vês, que os professores gostam muito d’essas novidades e d’essas attenções.

E quando o pae dobrazileirojá ía no caminho, o padre tornou a chamal-o de cima, debruçando-se na varanda, para lhe dizer:

—Mostra tambem a carta á Engracia do Repolho, não te esqueças, para vêr se manda esselicantepor uma barra fóra!...

—Não tem duvida, senhor. Não me esqueço, logo lá vou.

E o ecclesiastico recolhendo-se, concluiu para si, com um bondoso gesto de impaciencia:

—Mas que diabo ha de ir fazer ao Brazil, aquelle desgraçado, se nem sequer aprendeu a escrever o seu nome!...

Por isso o Beiral ficou triste, remoendo intimamente as suas idéas singelas e sem caracter. Sentindo o cacarejar espantadiço de uma gallinha, que fugia precipitadamente diante do focinho impetuoso de um cevado, tomou da cesta a mão direita cheia de milho e espalhou-o na largura do quinteiro, dizendo:ó diabo!Depois, com o seu olhar fixo, de pouca penetração, seguiu os movimentos dos porcos e das aves, pensando nas cousas insignificantes da sua vida baralhada!

O sachristão, no caminho para casa do senhor Antoninho, levava na mão esquerda, a carta cuidadosamente dobrada. Todos a viam—era de fino papel azul, que rangia entre os dedos, um papel bem conhecido. As pessoas que o encontravam e que haviam recebido noticias dos filhos que tinham no Brazil, contavam-lhas miudamente. Aquelles a quem faltava carta, havia muitos annos, mostravam-se tristes, desconsolados, impertinentes na conversa, quasi invejosos, querendo duvidar das felicidades que se deprehendiam d’aquelle venturoso papel!

O Manuel, como não encontrou na aula o senhor professor, desceu a um caminho para ir a casa da Engracia, com a intensão reservada de lhe ler a carta,acrescentando-lhe os commentarios favoraveis do padre Beiral. Porém a mulher do Repolho não estava para o aturar e disse-lhe, com modo desabrido, que não queria receber conselhos e que «quem lhe encommendára o sermão que lh’o pagasse». Não admirava este azedume a quem soubesse que lhe tinha morrido, n’esse dia, um touro que valia oito moedas! A perda irritara-a, o modo furtuito como aconteceraessa desgraçaindispozera-a para ouvir o sachristão, que, offendido pelas respostas aggressivas de Engracia, respondeu, tambem melindrado:

—Ó santinha, eu tenho lá nada com as suas cousas, com os seus touros!...

—Pois tambem eu não me importo com as suas riquezas! O seu filho, se tem muito, que se levante de noite da cama, para o comer!

E, com um estrepito insolente, bateu-lhe com a porta na cara.

O pae dobrazileiro, que era um homem moderado e bem fallante, offendeu-se com isto, perdeu a cabeça e, ao retirar-se, ainda disse, voltado para a porta que se fechára, com uma voz alta e insolente:

—Ah! minha tronga! O que tu querias era um bom fueiro n’esse costado! Fosses minha mulher, que te não havia de faltar!

Engracia, que percebeu este alanzoado, ainda veio fóra para lhe responder, e disse:

—Olhe, dê láretolicasna sua casa! Alguem cá o chamou?! Ora o diabo do camello!

O Manuel, na volta para casa do Beiral, repetiu oque se passára com a mulher do Repolho, acrescentando:

—Se Vossa Senhoria lhe arranja uma farda para o meliante, ganha o céu! Era uma bem pregada! Elle anda por ahi a fazel-as gordas; mas ha de encontrar oseu homem!

O sacerdote, novamente indignado, certificou-lhe:

—Oh! se encontra! E hei de ser eu, já te disse! Isso, a farda, tem-n’a elle tão certa como dois e dois serem quatro...

E depois de um silencio reflectivo, o Beiral concluiu:

—Que a Engracia não é má mulher; mas anda com a cabeça perdida com o brejeiro! Lá essas arenegações d’ella, não faças tu caso. Olha que perder, não faz bom cabello. A gente, quando lhe succede uma desgraça, não sabe o que diz.

A proposito, o Beiral narrou pelo miudo ocaso do touro; porque o sabia. Tinha-lh’o contado a Feliciana, que presenceara tudo, que vira caír o demo do bicho da ribanceira abaixo, espapando-se no caminho. Andava o animal, com outro gado, no campo a pastar. Parecia que trazia o mafarrico no corpo; porque todo o santo dia o viram n’uma constante brincadeira, a escornar os outros, a dar corridas em vez de comer socegado! Parecia mesmo doido, a fugir pelos campos com a cabeça estendida para diante, o rabo levantado em fórma de pau de bandeira, e a extremidade felpuda ondeando, como um pennacho! Depois, quando chegava a uma beira alta, estacava de repente a olhar parao longe muito tempo e, raspando no chão com um pé, continuava a comer muito de vagar, como se nada tivesse sido com elle! Passado algum tempo vinham-lhe novos caprichos, nova maluquice e corria para os bois a escornal-os, a provocal-os á lucta, á corrida, ao salto... O pastor bem lhe fallava, bem lhe berrava, mas era o mesmo que nada! Por fim determinou não fazer caso d’elle e deixal-o lá, chegando mesmo em certos momentos a tomar interesse, a sorrir-se inconscientemente, quando o touro atravessava vistosamente, dando pulos, por entre as arvores. O pastor era um rapasito de doze annos, com a cara manchada de nodoas de terra, o olho vivaz, vestido com uma camisa de tomentos muito suja, e umas calças remendadas. Estava a olhar risonho e irreflectidamente para o animal, quando elle passou de uma vez com mais furia, com as pernas muito abertas, o dorso arqueado, a cauda horisontal, a cabeça baixa, dando saltos cheios de capricho... Ia na direcção da estrada, para o lado onde havia um muro alto! Corria n’uma vertigem, com um impeto louco e, o rapazito, esperava vel-o parar rapidamente, antes de chegar á extremidade! Porém não succedeu assim! D’esta feita venceu mais que a largura do campo, saltou o muro e caiu em baixo, no fundo caminho pedregoso, dando um forte berro, ao mesmo tempo estridente e lamentoso, que foi echoar nas cavidades dos montes proximos. Ficou instantaneamente morto e a Engracia teve de o vender aos marchantes da villa proxima que, no dia seguinte, poderam dar carne a pataco o arratel!

Ora, foi por causa d’esta perda de moedas, que Engracia estava azuada e respondeu mal ao sachristão, que ía lá para lhe dar conselhos, sem lh’os pedirem!...

O Beiral terminou conceituosamente:

—Isto de perder não faz bom cabello... Coitada! Tu bem sabes que não faz bom cabello... Coitada!

Quando o Antonio chegou aos vinte annos feitos, já tinha esquecido completamente a aldeia risonha onde nascera e o rosto bom de sua irmã Quina que, por seu lado, se o encontrasse, tambem não seria capaz de reconhecer o seu amigo de infancia, n’este homem barbado, com modos bruscos de feirante, com gestos insolentes e desordeiros de troquilha!... E tanto se habituou a ter vida vagabunda, que nos ultimos tempos, não dormia em casa de seus paes adoptivos, metade dos dias de cada semana!... Andava pelas tabernas, de feira em feira, n’uma vida accidentada e bulhenta, sempre em companhia de outrosfeirantes, e da Marianna Ripa, sua amasia!... Esta Marianna Ripa era uma mocetona alta, bem proporcionada, com certa vivacidade vaidosa e impudica!—uma creatura demoniaca,cheia de tentações malditas, infelismente appetecidas pelos fracos da carne, pelos numerosos peccadores de todos os tempos!... Nos seios altos e avolumados, nos quadris largos, a que ella dava geitos lubricos, quando andava, para fazer assim ondular as saias de côres vivas e excitantes... residiam as tentações infinitas das lendarias Magdalenas, antes do santo dia do venturoso arrependimento!... As feições rasgadas e energicas accentuavam-lhe o caracter dominador, que melhor se lhe reconhecia no olhar cheio de impudencia e lubricidade! A sua vida passava-se pelas feiras, entre troquilhas, com os quaes se entendia nos ajustes de gados, bebendo como elles por copos de meia canada, interessando-se nas suas vendas e trocas! O predominio que Marianna exercia sobre o Fogueira, depois que era sua amasia, todos os companheiros d’elle, o Rio-Tinto, o Fanfarra... o sabiam. Era ella que muitas vezes o impedia de ir a casa, dando-lhe conselhos malditos, indusindo-o a que abusasse da affeição que Engracia e Bernardo lhe tinham, para lhespilhar tudo em vida!...

—Porque—insinuava-lhe a moça—pode-te acontecer, como lá a um rapaz da minha freguezia... Ateve-se ao que a madrinha lhe havia de deixar por morte, não se segurou nas cousas a tempo e, vae a bebeda da velha, roeu-lhe a corda e lá se foi tudo!... Em vez de lhe testar a elle os campos, como tinha promettido, metteu-se com a coruja, um tratante de um padreca, que lhe principiou a contar tantas lonas, que a coira vae deixar tudo lá a uma confraria e o asno ficou a chuchar no dedo!

Estas idéas allucinavam o cerebro do adoptivo da Engracia, que depois de escutar Marianna, ficava mais estonteado do que tivesse bebido, de uma assenada, uma canada do rascante!... No entanto a verdade é que esta vida mundana de feirante, na companhia da Marianna e dos seus amigos, quadrava-lhe, era sympathica áquella organisação impetuosa!... Os seus modos estouvados, os seus arremeços selvagens e doidos pelos quaes era notado entre troquilhas, é que já lhe tinham garantido o alcunho de «Fogueira». Alem d’isso, como era franco, generoso—um mãos rotas—os que o cercavam, a Ripa principalmente, entendia que se o seu amante viesse a obter qualquer cousa da herança da mãe, era certo que alguma parte lhe caberia!... Por isso o aconselhava d’aquelle modo, e todos o lisongeavam com blandicias intencionaes.

Foi por este tempo, e n’uma das occasiões em que o Antonio andava por fóra, que succedeua desgraçade que morreu o Bernardo Repolho:

Era um dia chuvoso; via-se a cumiada dos montes coberta por densas nevoas designativas de chuva prolongada! Soprava um vento forte, que produzia na amplitude dos campos uma ondulação uniforme nos arvoredos. Como se estava verdadeiramente no coração do inverno, no mez de fevereiro, os campos e os montes sem flores e sem folhas, tinham um aspecto duro de severidade! As chuvas, em grossas bategas, acompanhadas de fortes saraivadas, batiam rijamente nos telhados com uma crepitação ruidosa e aspera, que se continuava, durante horas! N’um d’estes dias de inverniateimosa e tristonha é que o Bernardo Repolho teve necessidade de ir buscar uma carrada de barro, do qual muito precisava para arranjar o seu forno!... Por isso, na primeira aberta illusoria, mandou o Chico tirar os bois da côrte, cangou-os, pol-os ao carro e partiram... A barreira era na encosta de um monte alto e muito ingreme. Bernardo e o Chico, quando íam pelo caminho, já descortinavam ao longe, essa excavação de um alaranjado irritante, que sobresaía no terreno circumjacente, melhor do que a mancha clara de uma eira. Como o barranco estava logo por cima da estrada de carro e, para chegar lá, bastava subir um estreito carreiro em declive, Bernardo disse ao rapasito que ficasse á sôga dos bois, que eram novos e muito espantadiços, emquanto elle ía cavar o barro e acarretal-o. Porém, quando chegou acima e viu no fundo da barreira uma tamanha accumulação de agua da chuva que, para a atravessar, tinha de se arregaçar, sentiu uma impressão desfavoravel, e inconsideradamente disse:

—Diabo! Que mar!...

Na realidade a chuva, durante a noite, tinha sido mais copiosa do que elle pensára! Escorrera em grandes enxurradas pelo monte abaixo e infiltrara-se, abrindo fundas guellas no terreno, vindo accumular-se no fundo, formando uma especie de larga poça. O Bernardo reconheceu perfeitamente, que para tirar o barro, só o podia fazer do logar onde as fendas estavam ameaçadoras e escancaradas, como guellas de lobo uivando! Porém, com a ajuda de Deus, o Repolho aventurou-se e, puxando as calças até ao joelho, metteu-seá agua com o fim de passar... O perigo a que se foi submetter era evidente, a barreira suprajacente parecia estar quasi a esboroar-se... porém o marido da Engracia foi para diante, sem preoccupação nem receio, principiando a dar sacholadas bem puchadas, para aproveitar aquellaaberta! N’esse momento é que passava pelo lado de cima um visinho que lhe disse:

—Oh! diabo. Com este tempo ao barro, é por força sangria desatada!

Bernardo, voltando-se para elle, respondeu com a sua cara de bom homem:

—Ah! Es tu Joaquim? É que tenho lá o forno a caír, precisa a patroa de coser o pão e, vae por isso, vim buscar esta carrada...

O outro observou-lhe com penetração:

—Mas tu ahi não estás bem, home! Esta terra pode-te caír em cima.

Bernardo considerou despreoccupado:

—Ora, logo havia de caír, n’um migalhito que eu aqui me demoro! Não cae.

—Não cae!—insistiu Joaquim. Não era o filho de minha mãe, que se ía metter ahi. Se se esbarronda, ficas ahi espapado, como um sapo. P’ros filhos que tens!... Olha, tu lembras-te d’aquelles dois homes, que ficaram enterrados na barreira lá em baixo?! Foi uma cousa assim, por causa da chuva.

Bernardo recordou o facto dizendo:

—Ah! bem sei. Isso foi n’um domingo. Se te parece, trabalhar ao domingo!... Foi um castigo.

—Home, não é domingo, nem meio domingo. A barreiracaíu-lhes em cima e matou-os. Tu ahi não estás bem. Eu cá mandava a cosedura do pão p’rás profundas do inferno e vinha outro dia buscar o barro! Vê lá no que te mettes. O diabo arma-as.

—Á sorte de Deus—rematou Bernardo com resignação.

E continuou a cavar, com pressa, aproveitando o bocanho, que não durou muito. Uma chuva pesada e forte, principiou a caír sobre os arvoredos, produzindo o fremito de muitos enxames de zangões! A atmosphera, densa e opaca, de uma côr uniforme entre o cinzento e o azul, a côr da aguapulverisada, obscurecia os objectos distantes. O vento impetuoso impellia a chuva, produzindo no ar ondulações extensas e regulares. Os ramos delgados das cerdeiras, dobravam-se passivamente. O rapasito, que ficara no caminho, guardando os bois, aconchegava-se, tiritando, ao velho corucho de palha, que o cobria. Os seus pés vermelhos, lavados pela chuva, estavam sobre a lama. As mãos escondia-as nos sovacos para as aquecer. Com o fim de se abrigar do vento que passava zumbindo, mettia-se por detrás dos bois, conservando a aguilhada encostada a si. Os seus cabellos castanhos, de um comprimento desleixado e desigual, empastavam-se-lhe na testa. O olhar era mortificado e de paciencia; porque a tia Engracia, nos seus pessimos momentos de genio irrascivel, batia-lhe; e o Antonio dava-lhe pontapés immerecidos. Por isto, e porque era engeitado, é que o Bernardo Repolho, um homem compadecido, mais se lhe affeiçoara... Porém esta amisade, nunca obstou a quesua mulher o esmurrasse desalmadamente e a que, seu filho adoptivo, lhe désse pontapés que o atiravam de focinhos!...

Como a chuva engrossava de cada vez mais, o Repolho chamou o Chico, para se recolher na cova onde elle se abrigára da chuva, recommendando-lhe, ao mesmo tempo, que calçasse o carro para os bois não fugirem. Então o rapaz, pegou n’uma grande pedra, supezando-a contra o peito e foi-a atravessar diante das rodas do carro. Depois, unindo-se muito ao seu corucho, para se agasalhar, subiu a ladeira, saltou o portello e, inclinando instinctivamente o tronco, correu pelo monte acima, entrando no barranco por um carreiro. Elle e seu amo ficaram ambos abrigados sob aquella mesma abobada de terra que, na opinião do Joaquim Moita, quanda fallára a Bernardo, podia esbarrondar-se e matal-os n’um prompto—n’um abrir e fechar de olhos. Mas elles achavam-se ali bem, n’um silencio meditativo, diante das montanhas, cuja corpulencia se confundia no esfumado da chuva copiosa. Como o vento soprava do sul, não os incommodava. Bernardo estava em pé, com a sachola encostada ao hombro e o Chico agachado junto d’elle. Conservaram-se algum tempo calados, olhando distraidamente para o ar, que tinha impulsos ondulatarios como o das vagas, para os campos subjacentes de um verde esmorecido, para as arvores proximas que se vergavam á força da ventania. O Repolho entreteve-se alguns minutos a considerar como as gotas da chuva tornavam aspera e irregular a superficie da agua barrenta, que se accumulárano fundo da barreira!... O rapasito, sentado sobre os calcanhares, olhava para os montes distantes, contando mentalmente o numero de cabeços, nunca acertando com quantos eram!... Porém a chuva carregava de cada vez, com mais impeto, e o velho disse com tristeza:

—Santo nome de Maria, que tempo este!

O Chico observou:

—Parece que hoje não podemos carregar, tio Bernardo...

—Estou-t’e a ver que sim, home! E isso é que é uma da breca!

—Então vamos já para o lume—aconselhou o rapaz. Estou com um frio, que nem sinto.

Bernardo respondeu com voz reprehensiva, mas benevolamente:

—És maluco! E tua ama? Se apparecemos lá sem o barro para compor o forno, faz ahi uma pregação de seiscentas pipas! Isso, ainda que se esteja até á noite, havemos de o levar!

Calaram-se, conservando-se ambos n’uma taciturnidade ingenua e triste! Um travesso pardal, dando pios seccos e asperos, saltava nos ramos de um carvalho proximo, alegremente despreocupado. A chuva caía de cada vez em maior abundancia! O som gemebundo do vento estendia-se amplamente pelas quebradas, com o seu ulular maguado, de uma longa plangencia funeraria!

As enxurradas cresciam, descendo com impeto pelos montes. Este sussurro aspero e saliente lançava uma discordancia rebelde no assobiar espaçado do ventona amplidão! O Bernardo Repolho e o Chico escutavam, com semblantes dependentes d’este ruido das aguas que se aproximavam! O barulho vinha crescendo para elles, precipitando-se de barranco em barranco! Ambos calculavam mentalmente, prevenindo-o, sem o menor susto, sem a menor idéa de perigo, que os enxurros d’aquelle monte, tendo de se vir reunir nos pontos mais baixos, juntariam as suas aguas áquellas que ali estavam no fundo da barreira, diante dos seus olhos indifferentes... Na realidade, pouco depois as largas fendas abertas na terra ao lado d’elles, principiaram a vomitar as aguas que vinham do alto monte!... O seu volume crescia de uma maneira incongruente e precipitada!... A principio tinha-se ouvido sómente um sussurrar brando, umou-oude mar distante... Em seguida esse barulho foi-se engrossando, foi enrouquecendo de um modo cada vez mais antipathico e aproximava-se rapidamente, como a voz stertorosa de um trovão, que viesse do lado das montanhas... Por fim, quasi inesperadamente, sentiu-se um estampido rapido, juntou-se-lhe um estrondo abafado e terrificador, que pareceu surgir das profundas entranhas da terra! Durou apenas alguns segundos!... Porém, tanto Bernardo como o seu pequeno creado, não tiveram tempo de comprehender o que seria!... A enorme barreira, sob a qual se abrigavam da chuva e do vento tempestuoso, caíu sobre elles, com a brutalidade inconsciente de um grande penedo que se tivesse desprendido de um alto pincaro e sepultou-os de um modo fulminante!...

Assim morreram estas duas creaturas, indifferentemente, por esta fórma singela e e pallida!

O visinho, que predissera ao Bernardo Repolho a desgraça que lhe podia acontecer, estava a certa distancia, abrigado da chuva sob um velho carvalho ramudo, e presenciou a catastrophe! Foi elle que a descreveu nas suas mais insignificantes particularidades, fallando e gesticulando animadamente, como quem se tinha encontrado, mais ou menos envolvido n’este acontecimento obscuro da morte de um homem e de um pobre engeitado, verificado em circumstancias de um tão vigoroso effeito theatral! E por que os seus conterraneos, que o escutavam com os olhos abertos e muito pasmados, tiveram a simploria idéa de attribuirem o successo a artimanhas infernaes, dizendo: «o demonio arma-as», o Joaquim exclamou com certa intimativa volteriana e vivamente resentido para com o morto Bernardo Repolho, que despresára os sensatos conselhos que elle lhe dera:

—Qual demonio nem meio demonio! Foi a cabeça d’elle que não regulou, é o que foi! Eu bem lh’o disse: «Home, tu ahi não estás bem». Mas elle que era muito teimoso, respondeu-me assim com a sua cara de lorpa e debom serás: «Ora, não ha de ter duvida, se Deus quizer...» Não tinha duvida, não tinha duvida, mas foi morrendo, espapado! Ficou mesmo como um pato, sem dar um pio! Assim é que elles se ensinam!... Onão tem duvidafoi o que se viu!—rematou com modo triumphante, quasi de uma vingança satisfeita!

Uma rapariga nova, uma engeitada de cara sardenta, com os cabellos mal penteados, e que escutara attentamente a narrativa, tomou a deixa de Joaquim da Moita e interferiu com esta observação:

—Ai! não tem duvida não tem duvida! Por causa do não tem duvida, é que pariu minha mãe!

Toda esta gente, depois que a chuva passou, se dirigiu ao logar onde o caso succedera. Pelo caminho íam, conversando, em magotes. Algumas mulheres, relembravam com voz emphatica, como de quem dá um esclarecimento, que tinham visto n’esse mesmo dia Bernardo, caminhar para a morte, de pé, em cima do seu carro, com a aguilhada encostada ao hombro, na despreoccupação serena de um predistinado! O rapasito que tambem morrera debaixo da terra, o Chico, ía á soga, todo encolhido, coberto com o seu corucho, berrando aos touros, que puchavam mal, encostando-se com teimosia um ao outro... Certas pessoas referiam insignificancias da vida do Repolho dando-lhe certo valor, fazendo-as sobresaír, e recordavam as ultimas palavras que lhe tinham ouvido, ainda mesmo n’aquelle dia, horas antes, quando passára em frente da porta da Anna Benta!... Bernardo tinha dito, com aquelle seu bom modo triste «que estava um inverno de se pedir misericordia a Deus Nosso Senhor!...» e a Rosa Viuva, queria fazer acreditar a todas as pessoas presentes, que taes palavras significavam que o homem de Engracia tivera uma voz de dentro do coração, que lhe predissera a morte!... E como alguns homens incredulos lhe retorquiram: «Isso póde lá ser!» ella recordou tambem outraphrase saliente, que tinha ouvido ao mesmo Bernardo, no domingo precedente, ao saír da missa: «Isto não está tempo cá para os velhos, mulher!... Com esta invernia caímos ahi como tordos!...» E assim tinha succedido, não chegou a durar oito dias!... Por isso, todos vieram a concordar, que o pobre homem adivinhara o seu fim, o triste fim que havia de ter de baixo de uma barreira!...

Ao logar do sinistro, onde já estava muito povo reunido, chegaram as auctoridades, para se desenterrarem os cadaveres. Vinha o cirurgião, o José Pandega,—um rapaz de bigode e pêra como os soldados, que, farto de andar a estudar latim em Braga durante nove annos, arranjou depois um emprego no telegrapho, onde tambem se não deu bem, tomando por fim a resolução de ir receitar cosimentos e mesinhas aos seus conterraneos, pelos mesmos livros de veterenaria por onde, um velho frade, seu tio, medicamentára, durante muitos annos, as populações doentes d’aquellas freguezias!... Este ecclesiastico, a quem ninguem negou as faculdades do maior philosopho das redondezas, tinha, entre muitos, um notavel aphorismo, que eu aqui divulgo á sciencia absorta e que o sobrinho acceitava pelo achar frizante e consolador: «Os burros são do mesmo modo que a gente, para a medicina, por consequencia—rematava voltando-se para os seus doentes—paparoca e beberoca, sedênhos para a frente, esfregações de agua forte, algumas cataplasmas e deixa-te andar que, se morreres, é só uma vez». Com o Pandega vinha o senhor Agostinho Manco, juiz eleito, um homemmagro que fôra dabicha. Logo em seguida appareceu o regedor, conhecido pela alcunha do Antonio Cápatrás, um individuo vermelho, muito estupido, que só sabia emborrachar-se, como diziam os visinhos.

Depois d’estes personagens chegarem é que se principiou a desenterrar os cadaveres! Com esse fim, quatro jornaleiros começaram a dar sacholadas auxiliados pelo Joaquim da Moita que vira morrer o Bernardo, e que limitou o trabalho, indicando-lhes o sitio provavel, onde poderiam estar os defuntos. Todas as pessoas presentes, principalmente as mulheres e creanças, tomadas de uma curiosidade invejosa, empurravam-se reciprocamente, procurando com avidez os sitios que julgavam melhores, para presenciarem tudo que se passasse. Para isso iam collocar-se nos pontos mais eminentes, e algumas em logares perigosos!... O cirurgião Pandega, reconhecendo com a sua prespicacia illustrada, que a filha da Rosa Trinta não estava bem, disse-lhe de longe, com voz de auctoridade:

—Ó diabo de rapariga, sae d’ahi que te póde acontecer o mesmo! Se se esbarronda essa terra ficas espapada!...

E acrescentou, com um modo ligeiro e superior, repuchando a sua comprida pêra:

—Isto de gente estupida não se póde aturar de modo algum!...

A rapariga obedeceu sem retorquir e mudou-se para cima de um muro, d’onde reconheceu que tambem podia ver tudo... Porém, pelo lado de baixo estava o meliante do José Teixugo, espreitando-lhe as pernascom olhadellas peccaminosas!... A Rosa Trinta, percebendo a immoralidade, advirtiu de longe sua filha:

—Ó Tonia, não vês esse maroto do Teixugo a olhar-te p’ras pernas! Tira-te d’ahi, anda.

A rapariga, verificando a verdade da asseveração de sua mãe, ficou irritada e disse offendida, arremettendo com uma pedra ao rapaz:

—Olhem o diabo do cara de foinha! Vae espreitar as da tua irmã! Não tens vergonha malandro? Ahhh...—rematou voltando-se para elle com a bôca escancarada.

O Teixugo, rindo com um riso trocista, respondeu-lhe:

—Olha que minha irmã talvez as não tenha tão borradas como as tuas! Vergonha deves ter tu, minha gata pellada, por andares com as pernas tão sujas.

No entretanto o regedor, Antonio Cápatrás, e o Agostinho Manco, juiz eleito, revestidos da sua auctoridade assistiam ao acto solemne, em mangas de camisa!... O José Pandega recommendava aos que desenterravam os defuntos, que andassem de vagar, para lhe não darem alguma sacholada. Um d’elles disse ao cirurgião:

—Sabe o que a gente precisava, seu Zé? Uma boa infusa de vinho, para este suor se não recolher p’ra dentro. Você que sabe d’essa cousa de sedênhos e medicinas, bem o entende, seu Zé.

Por um acaso feliz chegaram n’esse momento duas canecas do bom rascante que a Engracia, viuva recente do Repolho, mandava para os trabalhadores que lhe desenterravam o marido. Todas as pessoas lhe applaudirama lembrança inesperada e a mulher que trouxera o vinho, affirmou com modo persuasivo, que fôra a propria tia Engracia que o fôra tirar do tonel do canto, que erado bôque tinham. Os homens, quando acabaram de beber, tiveram umahhh... prolongado e satisfeito, confessando um d’elles:

—É a melhor pinga que ha pelos arredores. O Bernardo queria-o vender lá para a villa, e já lhe davam dez moedas.

O regedor considerou:

—Foi bem tolo em o não beber. Se o levasse nas tripas, fazia melhor do que estar o poupal-o para quem cá fica...

Depois de escorripicharem as duas canecas, os jornaleiros continuaram a cavar com mais cautela, para não tocarem com as sacholas nos cadaveres, como os prevenira o cirurgião. A primeira cousa que se descubriu foi o chapéu do Bernardo, humedecido e barrento. Todos reconheceram que era esse mesmo chapéu, esbeiçado e já roto, que elle costumava usar. O José Pandega, affirmou com certa intimativa:

—Na cabeça d’elle é que vós o não tornaes a ver!

Todas as pessoas confirmaram esta opinião sensata. Era verdade! Na cabeça do defunto, que estava debaixo d’aquelle barro, elles nunca mais veriam aquelle chapéu esbeiçado e roto!

Pouco depois, com mais algumas enchadadas, appareceram os defuntos. A ultima camada de barro, foi tirada cuidadosamente com as mãos. Os dois cadaveres estavam de bruços, ambos inteiriçados, rigidos. Ao deBernardo, que era mais pesado, metteram-lhe uma tábua por baixo do tronco e levantaram-n’o ao ar, ficando o corpo aprumado, severo, com um aspecto de phantasma! O cadaver do rapasito do gado, como no momento em que a barreira se esboroou estava agachado sobre os calcanhares, encontraram-no dobrado sobre si mesmo, com a cabeça debaixo do corpo e a cara encostada ao peito, quebrado pela espinha. Ambos estavam inteiramente desfigurados, por causa da camada de terra adherente, empastando-lhe os cabellos, tapando-lhe os olhos e a bôca. Todas as pessoas presentes vieram agrupar-se em volta das duas tábuas, sobre as quaes, os mortos, permaneciam deitados de costas. O Chico, para o conservarem bem estendido, tiveram de o atar pelo tronco e pelos pés ao seu esquife provisorio com uma corda; porque, em virtude da rigidez cadaverica, tendia a dobrar-se sobre o ventre. Ali, diante dos corpos exanimes, o juiz, o regedor e o cirurgião, fallaram em dar parte d’este acontecimento tragico, n’um officio, ao senhor administrador, affirmando-lhe que a culpa d’elles morrerem, tinha sido d’elles mesmos, que se tinham ido metter na bôca da morte. Depois concluiram, que o que era necessario fazer-se-lhe já, era amortalhal-os, para se proceder aosofficiose enterral-os, quanto antes, para não principiarem a cheirar!... Depois d’isto, o Pandega, lembrou-se de tirar o barro dos rostos sujos, e para isso foi buscar uma pouca de palha de uma moreia proxima, e fel-o.


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