A Ruiva

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Ataberna doPescadaficava mesmo em frente ao cemiterio dos Prazeres, e era frequentada pela gente do sitio, especialmente de noite, á hora em que os cabouqueiros e os britadores abandonam os seus trabalhos e entram na cidade, em ruido.

Tratava-se então de levantar um muro de cantaria que fosse como a fachada opulenta da gelida cidade de cadaveres; na planura que medeia entre o cemiterio e as terras, o terreno via-se revolto; os carros de mão jaziam esquecidos; os montes de pedras miudas e de argamassas antigas tornavam penoso o transito. Na lama constante do caminho, eram profundos os sulcos que as seges de enterro deixavam até á porta do cemiterio, escancarada sempre, como a guela d’um plesiosauro faminto.

Em anoitecendo, tudo aquillo era de uma contemplação lugubre e mysteriosa, em que se adivinhava o trabalho de milhões de larvas; o ladrar dos cães tinha um echo desolado, que tornava depois mais sinistro o silencio; a porta fechava-se sem rumor, girando em gonzos discretos, e uma luz esmaecia na treva, no fundo dos cyprestes e dos tumulos, diante de um santuario deserto, onde o Christo, do alto, olhava vagamente o guarda-vento.

Começavam então a chegar á tasca os guardas encanecidos no mister de receber enterros, graves nos seus uniformes fatidicos, os coveiros angulosos e vesgos lançando de si um fetido deleterio; e cada um, dando boas noites á tia Lauriana, ia sentar-se á banca, no seu lugar, chupando pontas de cigarro e pedindo decilitros. Todas as noites a casa se enchia, e o aspecto era sempre o mesmo.

Ao fundo, encostada ao balcão forrado de zinco, a tia Lauriana, mulher de grandes seios e arrecadas, que tinha a especialidade dos pasteis de bacalhau, e pernas masculas sahindo de grosseiras saias de baetilha; ao canto, o cego de chapeirão derrubado, attitude fria, faminta, dolorida e apagada, a rebeca nos joelhos, a manta de riscas ao hombro, a eterna noite nas feições. O grupo dos trolhas junto da porta, discutia o preço das couves e o numero de ventres perfurados com facas de ponta, durante a semana. Zé Claudino tinha a palavra; a sua authoridade indiscutivel de orador popular, fazia-lhe cahir dos labios, como um rosariode sons, as palavras graves, indecorosas, chulas e poeticas, em mixto turbulento e intelligente.

Bebedos extraordinarios fallam de tudo e descrevem parabolas no sólo, com a sombra de seus copos embrutecidos. Dous ou tres embirram com a sombra.

—Mette-te commigo, resmungam; cahe n’essa, minha tyranna!

—A velhaca, commentam, tem agora a mania de ir adiante de mim. Esta manhã era atraz. Mas não me larga! Bebeda!

—Era o que me faltava! Sucia de marmanjos!

E insistentes, aos zig-zagues:

—Persegue-me anda, persegue-me, que levas doisbutes.

—Lá isso, ouve-se outro dizer na rua, lá isso, não digo eu... Que elle ha um Deus que nos governa: é boa!

Eu entrava, comprimentando os velhos conhecimentos.

—Ditosos olhos, estudantinho! dizia um.

—Ó seu casaca! fazia outro.

—Seja bem apparecido e pague-nos dois dedos demarufo.

Um velho fressureiro, com o olho esgazeado de sicario experiente, tocando-me o braço com a sua mão ensanguentada, ia aconselhando baixo:

—Prove-me do branco, doutor; prove-me do branco que é umareinação! Com um pastelinho, não lhe conto nada...

Aquelles eram os meus amigos, perigosos amigos contrahidos na intimidade do vicio e no surdo deboche das tascas.

Sentava-me. A Lauriana vinha, sorrindo, servir-me; e o seu olho pardo, sequioso, acariciava a brancura do meu pescoço, appetecia os meus cabellos de um louro claro, tons insipidos, sob as abas do chapéo esburacado. O seu halito empestava a dez passos, trazido nas azas do seu amor quente e brutal, de uma infamia cheia de mercancia. Ouvindo-me pedir qualquer cousa, o olhar adoçava-se-lhe como o d’essas gatas a quem coçamos o craneo; e eu sentia exhalar-se d’ella um fartum de gorduras fundidas, que me perturbava. N’essa noite chegou o tio Farrusco.

Era coveiro e o mais asqueroso,—o da valla; aspecto repellente, perfil aspero e cortante, descarnadas as faces, as mãos aduncas e gastas, cheias de terra e de cabellos.

Sobre a testa, de uma pollegada de largo, cahiam grenhas fermentadas; as orelhas desappareciam-lhe sob a lã sebacea d’um barrete cinzento; por um rasgão da camisa, furava uma moita de cabellos hirsutos, brancos como um pé de junco sêcco, nascido entre as pedras d’um muro arruinado de azenha decrepita. Quasi lhe ficavam pelas esquinas a que se encostava, os farrapos em que embrulhava o corpo esqueletico e lustroso, como de couro curtido.

Um cabouqueiro tostado, perfil adunco de coruja, bateu-lhe no hombro.

—Tio Farrusco!

O outro tentou aprumar a estatura, lassa na molleza da embriaguez e resmungou:

—Que é lá isso, patêgo?—O seu olho envidraçado não podia fitar; fios de baba desciam-lhe lentos, aos cantos da bocca.

—Olá, fez o cabouqueiro; a maré encheu. E sacudia-o.

—Mais bebedo é vossê, grande cavalgadura!

Tentava caminhar; a sua sombra oscillava amplificada na parede, como a d’um ante-diluviano phenomenal, e quasi se não comprehendia bem como aquella cousa era um homem. Arrastou-se custosamente para um canto; ao passar por Zé Claudino tomou-lhe o copo, levou á bocca o vinho e esteve bebendo devagar. As gotas, d’um roxo sujo, cahiam-lhe pelas barbas. O nó da garganta subia-lhe e descia com vagarosos movimentos de embolo no cylindro d’uma bomba. Pousou o copo com ruido, com a manga da jaqueta limpou os beiços.

—E a filha? perguntaram-lhe. ARuiva... O tempo tem estado famoso para doentes. Um sol quentinho que é um forno.—Do fundo, alguem disse para Zé Claudino:

—ARuivainda é viva?

E um trolha curioso:

—Não era essa que deitava sangue pela bocca? Na tenda do Malaquias vi eu... foi pelo Santo Amaro, faz agora annos...

Mas cada um procurava informar-se:

—Umagajade grenha encarnada, um signalzinho de cabellos no pescoço... o que? Era filha d’aquillo? E apontavam o coveiro.

—Bem sei, diziam; que peça! A que estava com o Nicolau das seges d’enterro. Contem-me cá quem isso era. Bebeda, como ratos! Ora esperem. Ella era tambem da sucia da Panasqueira. Lembras-te, Zé Claudino?

—Bons tempos, fez o interrogado do fundo da sua saudade dissoluta, aquella noite no palheiro do Panellas. Vinte raparigas dos casaes, todas pimponas, vieram dormir á granja. Alta noite, piscava o olho; alta noite...

—Não ponhas mais na carta.Tosqueitudo! Quebailões! E aRuivatambem era...

—Uma mulher dos diabos! Enfezadita dos nervos, mas coragem que tinha diabo. Quando ella se deitou ao Nicolau, aquella vez pelo Entrudo, além ao Quintalinho! Prega-lhe duastaponas, que nem eu sei como o nãovirou!

O coveiro olhava, sem comprehender, um pasmo idiota na face. Na penumbra da taberna, aquelle asqueroso vulto tinha uma expressão rembrantesca e crua, que fazia medo. O deboche nunca se concentrára tanto, podia-se jurar.

—Mas, tio Farrusco, aRuivavai melhor, hein?

—Melhor, melhor, gaguejou elle. Esta manhã vi-a estar dormindo... mais branca!—Pagascambrainha[1], ó tyranno? Uma pessoa, c’os diabos, gosta de molhar a palavra. Quero lá saber!...

[1]Aguardente.

[1]Aguardente.

Tentava apoiar-se na banca, com as duas mãos tremulas. Ouviam-no cantarolar baixo, babando-se:

Foi fazer uma caçadaÁ serra de Montalvão!

Foi fazer uma caçadaÁ serra de Montalvão!

Foi fazer uma caçadaÁ serra de Montalvão!

Foi fazer uma caçada

Á serra de Montalvão!

E com risadinhas pequenas e cruas, geladas, doidas, que produziam como ogritodo estanho, aconchegou-se ao canto, para dormir, com circulos de cão vadio que se anicha. Todos procuravam espicaçal-o com uma chufa. Blasphemava-se em voz alta, uma riqueza inultrapassavel de obscenidades.

—A minha filha, resmungava o tio Farrusco. Querem saber da minha filha, da Ruiva... Sucia de tarimbeiros!...

Foi fazer uma caçadaÁ serra...

Foi fazer uma caçadaÁ serra...

Foi fazer uma caçadaÁ serra...

Foi fazer uma caçada

Á serra...

Ainda hoje, o Nicolau que atira á valla as rezes que se abatem no hospital[2], me disse que atrazia alli. É boa! Se eu bem vi o sacco... e cosido que elle vinha.

[2]É no Alto de S. João que se sepultam os cadaveres do hospital; para o nosso caso, porém, isso não importa.

[2]É no Alto de S. João que se sepultam os cadaveres do hospital; para o nosso caso, porém, isso não importa.

ARuivaem postas!—Ria-se. Cahira tudo n’um silencio algido.

Calou-se, e depois:

—Tambem eu hei-de morrer. Quero lá saber nada d’aquella grande velhaca!

—Vamos, disse eu. Ha una cousa peor que um cão damnado: é um coveiro bebedo. E sahi.

Um dia antes, o meu escalpello penetrára o corpo d’essa perdida creatura, que veio a fornecer subsidios notaveis á minha these inaugural.

Inquiri pormenores. Disseram-me que o tio Farrusco fôra casado com uma vendedeira, a Martha, muito conhecida por Buenos-Ayres. Soube-se depois que as hortaliças que esta mulher vendia, eram pelo marido plantadas no cemiterio, para lá da valla e longe das vistas dos indiscretos, hortaliças que com o tempo e o bello tempero da terra adquiriam grande desenvolvimento.

Se lh’as gabavam, Martha retorquia:

—Ai! bom dinheiro custam, fregueza. Vem todas as manhãs de Odivellas, uma estopada que eu sei!...

E explicava que um cunhado, da quinta do snr. marquez de Borba, tinha seu vintem e um bocadinho de terra onde se faziam os bellos nabos e aquellaslombardas folhudas. Caro, tudo pelas ultimas, dizia pondo a sogra, os cordões a luzir no peito.

Carolina nasceu no dia da morte da mãi. Até alli, o coveiro vivera sem miserias, mas, morta a mulher, descobriu-se d’onde vinham as couves e ninguem mais lh’as comprou. Não se sabe como a pequena se creára, mas aos doze annos era bonita, franzininha, o nariz arrebitado, descalça e cheia de remendos.

E sem consciencia do que via, acompanhava o pai na sinistra occupação de sepultar os mortos. Assim crescera. N’aquella miseranda existencia entrára a crear predilecções. Começou a amar principalmente os mortos que paravam á porta do cemiterio em ricas berlindas douradas, entre filas de gatos pingados lugubres de tochas accesas, e puxados por seis parelhas cobertas de crepes. Visitava-os na casa da observação, acocorada a um canto com o olhar absorto, durante as vinte e quatro horas que os caixões alli passavam abertos, e onde contemplava, deitados na petrea immobilidade derradeira, os que na sua vaidade egoista, corruptos e miasmaticos, iam habitar em sepulchros de marmore, com figuras sentimentaes na fachada e pomposas inscripções nas lapides. Póde dizer-se que aprendeu a lêr no cemiterio, quando curiosa na sua pobreza esfrangalhada queria saber os nomes e posições occupadas no mundo pelos que habitavam aquella branca cidade de marmores, de que se julgava rainha.

Uma tarde, passeando na grande rua que corre ao longo da fachada do cemiterio tinha parado a contemplar, no alto d’um pedestal glorioso, a estatua do conde das Antas. E fallava ainda nos seus ultimos dias, d’aquella energica figura de soldado, grande barba sobre o peito e cabeça de um vigor leonino, a mão apertando o punho da espada... e desde então, a sua ancia pedia-lhe militares, que arrastam nas ruas os sabres prateados e destacam, na agitação dos enterros, d’entre os gravestoilettesnegros com a alegria embriagadora dos seus vivos rutilantes e das suas divisas sanguineas, côr dos desejos insaciaveis. Nos seus devaneios passavam pallidas figuras de alferes, dos que tilintam esporas no lagedo dos passeios e retorcem bigodes frisados, contemplando as janellas, em domingos de procissão. Todos os dias visitava a casa das observações: alli, sobre bancas expunham-se caixões abertos; ella mesma mettia nas mãos dos mortos as argolas de alarme, e tal emprego quotidiano permittia-lhe vêr gentes de todas as castas e profissões. Meninas ricas, filhas de millionarios e nascidas entre velludos, aureas meninices em berços de renda, acalentadas por amas normandas de cachos louros, iam alli dormindo nos seus caixões de setim, victimas de tisica galopante, olhos vitreos e face cavada, labios brancos em listras lividas e o gelado sorriso dos martyres, clareando em reflexos os rostos, de uma rigidez de esculptura.

Rapazes pobres, dos que ao clarão das forjascrestaram a vida, figuras seccas de famintos, torciam nos rostos expressões de soffrer infernal e gelavam-se na nudez miseranda da morte, ao lado de reverendos, com a barba bem feita, a batina nova e grave, quebrada em pregas symetricas, finas camisas de bretanha, tiras de folhos e sapatos de fivela, cingindo, á força de apertadas com uma fita, contra o peito, cruzes de marfim bento, symbolo d’uma fé que nunca os caracterisou na vida.

E os grandes devassos, os magros adulteros que nosfoyersdas operas e nos camarins das cantoras, nas casas de batota e nas alcovas faceis fazem publica a sua dissolução e deshonra, vinham tambem, diante da pequena, exhibir a ultima elegancia.

Carolina, pelo numero e aspecto dos convidados d’um enterro, chegára á perfeição de fixar a posição social de qualquer defunto.

Os conselheiros reuniam graves figuras circumspectas de velhotes de luva preta e grandes pés, folgados em botas macias. Os condes faziam-se acompanhar dos coches da casa real, riqueza oxydada e rota, em que se sentiam os annos, os ratos e o oleo dos cabellos reaes.

Os escriptores arrastavam figuras chupadas, de luneta, vastas cabelleiras polvilhadas de caspa, expectoração de discursos com gestos amplos e eloquencia estrondosa. Conhecia o bombeiro, o policia, o correio e o juiz de irmandade. E odiava quem vinha só para entrar na cova, os que embarcavam para o outro mundo sem deixar, nagare, algunsamigos da infancia, ou herdeiros capazes deguardar conveniencias. Ouvia n’esses momentos dizer ao pai:

—Sucia de vadios! quando tinha de abrir cova sem receber gorgeta.

E aprendera a dizer com elle esta phrase profunda:

—Até morrem pelo amor de Deus; cambada!...

Havendo enterro grande, punha umagaribaldivermelha, azeite nos cabellos ruivos, sapatos de duraque preto, sem tacões e chatos como linguados. Toda risonha ajoelhava-se na passagem do prestito, movendo os labios como quem reza. Depois, na volta:

—Uma esmolinha por aquella alma de Deus!

E comprava pevides, amendoim torrado e alfeloa, á tia Palma, uma de capote verde, sem um olho, que vinha vender á porta n’um taboleiro velho, seccas golodices de arraial. O que a abalava era aquella vida na casa das observações. Olhava já sem terror os cadaveres, como se fossem pessoas adormecidas no mesmo quarto, cada qual na sua maca de estalagem. Os homens sobretudo. Alguns eram ainda novos, louros, pallidos e bem feitos; alguns ricos, tinham a pelle fina, de um contacto setinoso e bom.

Nas horas de calor, de verão, quando sob os cyprestes, os empregados do cemiterio dormiam, ia devagarinho sem ser presentida á casa dos depositos,escolhia os cadáveres dos moços, dos bellos, se os havia e como um pequeno vampiro sequioso entreabria as mortalhas, despregando com uma navalhinha as camisas; mettia a mão devagarinho, pelo peito, mettia, escorregando-a ao longo das carnes, beliscando-as levemente, com prazer; o olhar dilatava-se-lhe, havia na sua face uma mancha de excitação, mordia os labios exaltada; e palpando, estudando, comprehendendo e adivinhando, ficava absorta, um pouco curvada sobre os corpos, o halito ardente, uma palpitação larga e cheia de impeto. A sua imaginação rasgava as nevoas indecisas que diante da intelligente maldade, a sua inexperiencia despregava como uma mascara casta e limpida, cheia de placidez. Estas explorações fizeram-a muito cedo mulher, preparando-a a comprehender mysterios e umas meias phrases que ouvia aos gatos-pingados, se passavam por ella. Ás vezes, eram rapazes de quinze a vinte annos que jaziam.

Carolina em os vendo exaltava-se, todos os nervos se lhe distendiam na ancia d’um desejo que jámais formulára. D’uma vez tinha beijado sôfrega uma fronte, com balbuciações afflictas, ardendo em peccado, como uma alma de reprobo.

Não conhecera mãi, nunca uma boa mulher a beijara e o coveiro não reprimia diante da filha as suas expansões brutaes. Entregue a si propria, chamuscada por caricias perfidas de homens entregues á rota corrente da sua bestialidade, fizera-se n’isto.Havia no entanto dentro d’ella ainda, uma cousa ideal e inexplicavel, certa virgindade infantil: de noite rezava! Vinham-lhe tristezas intimas, a insomnia triturava-lhe por vezes a saude, como n’um almofariz de bronze. Sem saber porquê, era desgraçada. Desejaria ser como uma pequena que vira um dia costurando á porta fuma carvoaria, com uma rosa nas tranças. Mas de subito, alguma cousa a arremessava á lembrança condemnada dos homens adormecidos na casa de observação, e via-os surgir das suas mortalhas alinhavadas, sorrindo, com vida; estendiam os braços a procural-a; roídos de vermes, muitos vinham, como na dança doRoberto, roçar-lhe pelos quadris os membros esqualidos e podres.

E estonteada, fitando no vacuo aquella visão candente, miseravel nos seus quinze annos, sentava-se extenuada e languescida, á sombra dos cyprestes annosos e dos tumulos soberbos, com a cabeça aos baques, revolta a alma por criminosas commoções. Era já noite muitas vezes, quando ia só para casa, fóra do cemiterio. O pai ficava embrulhado n’um cobertor, com um gorro de lã preta por cujos rasgões lhe furavam os cabellos; deitava-se no concavo d’algum velho tumulo vazio; se cahia geada, erguia a tampa d’um jazigo de familia para ir estender-se nas gavetas, entre caixões de chumbo.

Já estava acostumado áquellafolia, e depois, assim não dormia as manhãs na cama, e podia começar cedo o trabalho, regando logo de madrugadada os canteiros dos tumulos das familias que lhe pagavam esse trabalho, varrendo dos pedestaes as folhas seccas que o vento despregava dos ramos, e alta noite, com passadas lentas e lugubres, nas tragicas encruzilhadas de cyprestes, reanimando ou accendendo, com o rôlo mettido nos dedos, as lampadas extinctas pelas lufadas do nordeste.

Nem uma vez se lembrou de Carolina que ficava de noite, na cidade, separada d’elle, a sua filha, entregue á leviandade dos seus quinze e aos furores de coração d’um aprendiz de marceneiro que a perseguia, preso de maus instinctos. Carolina era branca, delicada e nervosa; o seu sangue tinha originalidades singulares, inquietações de lucta e o furor da aventura, e do seu seio dimanava essa ancia ardente de que se fazem os gozos, anciada como ama sêde antiga.

Dormia n’uma casita arruinada e miseranda, occulta no fundo d’um pateo sem luz de lampeão, para onde abriam as janellas de taboinhas de casas suspeitas, em que marinheiros tocavam guitarra.

A historia das suas exaltações enraizava tambem como uma hera, n’aquellas más janellas, pelas noites escuras de verão, quando encostada ao peitoril da janella, escutava altercações, descantes e venalidades, na confidencia de carroceiros.

N’estas disputas Carolina entrevia uma cousa, que se apoderava rapidamente do seu organismo, enroscando-se-lhe no corpo como serpente com frio,amarrotando e polluindo no amplexo alguma ainda que pouca, d’essa adoravel modestia que é o thesouro das mulheres honestas.

Viam-na de manhã quando sahia, dar bons dias á visinhança e sorrir ás peccadoras mendigas, que nas tabernas jantavamgravanzospor qualquer pataco, ter com ellas palestras. Desassombradamente olhava para os homens, tinha desdens para uma ordem de gente e creára predilecções pelos louros; nos seus trapos escolhia sempre côres que dessem na vista; e calculista, com o olho febril, architectava aventuras: seria de noite, uma chuva miuda peneirar-se-hia do alto, sobre as calçadas; fugiria embrulhada no chalito, com um louro... Hein?

Da janella da sua mansarda empinada sobre um banco de pinho, podia vêr o que se passava na alcova d’um pobre bordel fronteiro. Apagava a luz para não ser vista, subia ao banco, encostada á janella; e alli, durante horas passava a espreitar o que fazia a visinhança. Scenas equivocas desenrolavam-se por lá. Era tão curioso! A nudez impura dos contactos fazia-lhe regorgitar de dentro uma seiva, cuja plenitude a estonteava. Era a febre do sangue infeccionado pelos microzimas do vicio e o desejo da cadella nubente que uma força espicaça de irritantes curiosidades e terrores deliciosos. Aquillo vinha-lhe ás ondas, como a babuge das praias contra fraguedos solitarios.

Corôas de padres esverdeados, mostravam-se á luz de candieiros de petroleo; no espelhinho dostoucadores das commodas, reflectiam-se grupos sombrios, estranhas phantasias das incarnações do Vichnou. E alguem dedilhando guitarras, entoava com voz rouca fados rasteiros do conde de Vimioso e da Severa, entre exhalações de aguardente. E tiniam garrafas, sentia-se o cheiro das sardinhas assadas.Toastsdesbragados expluiam claramente. As vozes das mulheres guinchavam. Alguem rolava pelo sobrado e rimas de pratos cahiam, com estrondo, em migalhas no meio de pragas de raios. D’uma vez tresloucada, descera á rua. Domingo, de inverno. A noite lobrega alongava-se. Alguem gritava—Jornal da Noite, traz a lista de Hespanha!

O frio penetrava as carnes. Carolina tremia, labios seccos, uma afflicção enorme subindo-lhe do estomago. Não sabia para onde ir. Quereria as cousas mais violentas, amplexos de ferro, beijos de lava, o vasto oceano d’um amor sem fim e sem felicidade.

Mas o aprendiz de marceneiro, um rapaz athletico e sanguineo, appetites excentricos, sahia da officina, dava com ella, aproximava-se com umapiada...

Carolina recuava humilhada e cheia de vergonha. E sem uma palavra deitava a correr para a mansarda, subia a escada sem parar, fechava-se por dentro, e atirando-se para cima do leito desatava a soluçar sem remedio a desconsolação d’aquella vida, que fluctuava sem linha de conducta.

O candieiro apagava-se no alongamento danoite. Das torres da Estrella uma badalada cahia sobre a cidade adormecida, a vibração enorme alongava-se, n’um circulo infinito...

E no silencio da mansarda, Carolina abria os olhos com um terror em que dançavam phantasmas sardonicos, com a cara do aprendiz.

Era a tarde de Nossa Senhora dos Prazeres. O tempo serenára, o céo não tinha nuvens e no azul espiritualisado, os vôos brancos dos pombos davam uma innocencia casta ao ambiente. Havia arraial n’essa tarde. A procissão sahida da igreja de Santos, por entre farrapos de bandeiras e verdores de buxo, devia entrar na capella do cemiterio, á noitinha, em meio de foguetes e aromas do peixe frito, cuidadosamente consumido pela fome do povoléo curioso.

Na explanada que vai terminar á porta dos Prazeres, as pequenas barracas de lona enchiam-se de grupos; filhas de saias engommadas, olheiras fundas com fadistas de calças esticadas sobre alpargatas de linho. As mulheres gordas, lenço vermelho, os grossos braços nús, refogavam mexilhão, vermelhas do calor; em torno os soldados passavam, de chibata, rostos vulgares e bestiaes dilatados em risos enormes; e meneando-se, diziam brutezas ás pequenas ovarinas sujas. Na confusão dos grupos os garotos sujos, vivamente alegres, corriam relanceando olhares famintos sobre os bolos seccos das vendedeiras ambulantes, e de passagem pediam cinco reis. Aqui e além viam-se sobrea relva, petiscando, familias de operários, pequenas louras e limpas, typos de costureiras futuras, traços finos, scismadores e delicados. Os vadios esqueleticos, de calções em frangalhos, apregoavam agua. No ar os ruidos multiplices abafavam-se uns aos outros, e das continuas pulsações resultantes elevava-se um ruido uniforme e indistincto, como de ebullição longinqua. Os municipaes da patrulha iam atravessando devagar, nos seus cavallos negros, e os capacetes esguios de cuja crista jorrava a branca cabelleira dos pennachos de linho, salpicavam de originalidade a paizagem. Eram um enlevo. As criadas olhavam-os suspirando. O ruido crescia. O sol mergulhava com uma pompa escarlate, no silencio do rio, e o poente inflammado era de uma amplidão sem balizas. Dentro do cemiterio o mesmo movimento de quem ia e vinha. Pessoas fornidas de carnes, esposas espessas de oleiros, capellistas de chapelinho, laços escandalosos e sombrinha, liam, soletrando as inscripções tumulares. Admirava-se o marmore, as fachadas. Os pequenos vagarosos colhiam alfazema e sardinheiras. Alguns olhavam através das rotulas, o interior dos jazigos, a vêr quem tinha berloques de contas e figuras bordadas a lã em molduras ricas. Alguns ferreiros de mãos callosas, descançavam na borda dos pedestaes, tasquinhando as suas merendas; muitos bebiam pelas garrafas, fazendo saudes aos compadres. E todo o mundo ria a sua pandega, afazer arraialcom grossas bobages cruas de taberna ede officina. As mulheres de vestidos de merino, com folhos, mantas de lã com borlas cahidas atraz, chale bem dobrado no braço, olhavam pasmadas. Os fragmentos das palestras, apanhados de passagem, eram os mais originaes e contrastantes. Veteranos procuravam o tumulo do conde das Antas. Explicavam os emblemas, a attitude féra da estatua.

—Portugal velho! commentavam. Elle e o Saldanha!...

E familiares, um clarão purpureo na face:

—O nosso velho! diziam. No 19 de maio...

E outros queriam vêr o tumulo do Palmella. Uma velha de Aveiro ouvira dizer na terra que era obra famosa. Alguem explicava as riquezas do duque, as suas quintas, dois contos diarios de rendimento; a duqueza era bonita e um pouco gorda; elle tinha sido da marinha. De resto boas pessoas e fidalgos da gema; pela Semana Santa pediam na sé para os pobres e sustentavam asylos. E iam semeando o chão de espinhas de peixe, de cascas de laranja, e os ares de rumores de palestra. Mas estrondeavam foguetes. Uma philarmonica sentia-se ao longe. Corriam. Era a procissão. Á frente um marceneiro espadaudo trazia o pendão, pomposo na sua capa de sêda vermelha. Virgens de branco, rosas na cabeça, typos de gaiatos disfarçados em saias, vinham gravemente, acertando o passo. E sobre as cabeças um andor de pau dourado e pequeno trazia a imagem, cheia de flôres de papel.Carolina com agaribaldimelhor, uma rêde de contas nos cabellos ruivos, fôra tambem á festa. O coveiro embebedava-se em casa doPescada, com a barba feita, o seu carão anguloso e miseravel, inerte sob as abas d’um chapéo de Braga. Carolina vestira-se logo de manhã, toda brunida, botas de duraque sem tacões, brincos de vidro prateado, arzinho alegre, o branco appetite da sua carne anemica, feminil e debil. E fôra ao cemiterio espairecer um bocado, com um farnel no lenço, laranjas, duas queijadinhas da tia Palma.

A senhora Marcellina que fôra ama do padre Anselmo e agora arranjava criadas e concertava cadeiras, tinha promettido a Carolina ir lá ter com ella mais a mulata, que sahira do hospital havia uma semana e lhe estava devendo cousa de quatro moedas. A Marcellina morava no pateo tambem, no primeiro andar, tinha arranjos de casa e barbicas pela cara, sua meia duzia de lençoes, um rico cordão de ouro com medalha e uma Senhora das Dôres com olhos de vidro,mesmo viva, a olhar para uma pessoa.

E fallava-se: que havia papeis, uma panella de dinheiro no quintal, ricos manteletes nas commodas, que tinham pertencido á irmã do padre Anselmo. Marcellina era uma pessoa baixa e vagarosa, aspecto redondo e rôxo de hemorrhoida, feridas na perna emplastada, anneis pelos dedos e o vozeirão d’um quartel-mestre sahindo do capote d’alcoviteira. A sua historia apoiava o enredo principal nogoverno civil, no hospital e na rua das Atafonas. De resto encontrára o padre Anselmo, capellão da Guia etomára-lhe amizade. Boa pessoa, o padre Anselmo, amigo do seu amigo, boas manhãs na cama, de inverno, beberricava-lhe um quasi nada, ratão, pregando bellas peças; manhã cedo, ella ainda na cama, e vinha elle da missa, descobria-a, zás, uma palmada. E morrêra. Tudo quanto é bom acaba. A gente falla, falla ... um dia chega. E dava grandes suspiros. Carolina conhecia-a. Mal luzia o buraco, já a senhora Marcellina corria a vidraça e vinha de coifa branca, espanejar o peitoril. Tinha um sorriso agradavel; um dente tropego, unico e esquecido, esverdinhava-lhe na bocca desmobilada; as barbicas hirsutas recordavam uma gata mansinha que se corcova electrica, sob as festas do dono. Era-lhe de mais a mais muito obrigada.—De rastos que eu ande, dizia, de rastos que eu ande, não lhe pago as obrigações que lhe devo. Quando estivera doente, com tosse e muita febre, ninguem dizia que ella escapava, a senhora Marcellina vinha dar-lhe caldos e fazer meia junto do seu leito de proletaria. Havia dous annos. Mas não se davam muito; a Marcellina era mais das outras defronte, fallava com ellas de janella para janella, grossos risos e pesadas graças. E ratona então, como nunca se vira. O que sabia de frades, e do poeta Bocage!... Era arrebentar de riso, senhores. Além d’isso andava sempre occupada na vida, uma azafama, chale traçado e sapato d’ourelo, amassa dos seios papuda e mollemente batida por mais de meio seculo, arrotos estrondosos... Sahiam de casa d’ella pessoas lugubres. D’uma vez a policia fôra alli. Emfim, fallavam-se cousas, ella sabia de facadas, e Carolina ouvira dizer isto—arranja pequenas a velhos. E no fundo da sua alma branca e susceptivel experimentára horror. Na tarde anterior a filha do coveiro recolhera com ares de dia, a Marcellina estava á janella; fallaram-se, como estava como não estava, o pai como ia, e que ella ia vivendo com o seu padecimento de entranha, amargos de bocca, uma canceira, uma canceira; mesmo mortinha de todo! Tinha posto bismas de confortativo que era muito bom, andava agora tomandopózes, caros com’á fortuna, mas o fastio era grande, afflicções por dentro... O peor eram as noites, contava todas as horas. E depois as pulgas. Ai! dizia, quem tem mazella, tudo lhe dá n’ella. Que é feito, que é feito? Não havia olhos que a lograssem. De resto amava as creaturas serias como Carolina; nunca fôra de tricas, louvado Deus. E arrotava. Tinha almoçado uma açordinha, com seu ovo; tudo lhe fazia mal.—É caruncho, é caruncho, commentava. E convidára Carolina a entrar, descançar um pouco, tinha rosas no quintal, uma franga preta que já punha ovos, manto novo na Senhora das Dores—minha rica mãi do céo!

Carolina subiu, beijocaram-se, ricas filhas para um lado, abraço para outro. Carolina sentia-se contente, uma quietação plena, chocada pela sinceridadeda outra. A senhora Marcellina olhava para ella de face. E largou d’ahi a nada este dito:

—Ha-de ser um peixão!—E piscava o olho pardo com ares de entendedora. Andaram vendo o quintal; Marcellina fazia-lhe um ramilhete de rosas. D’alli a nada veio a mulata, encostada ás paredes, uma cuia enorme de postiços e fundas olheiras, olhos de carneiro morto, um cheiro a cigarro e a camphora.

Mas foi-se logo encostar. Com o tempo humido, tinha dôres do diabo nos ossos. Desejaria morrer já—raio de vida! Carolina dizia-lhe palavras commovidas; que aquillo não havia de ser nada, em o tempo limpando já a cousa era outra, que tivesse paciencia, coitadinha, que tivesse paciencia. E a mulata arrastava-se, com um sorriso em que havia alta percentagem de amargura, aspecto chato e esmagado, como sacco vazio, de roupa velha. E o seu craneo pequenino de estupida, de grande bestiaga, tinha a calva depressão idiota d’uma cabaça ôcca. Quando ficaram sós, a senhora Marcellina abaixando um pouco a voz, disse á filha do coveiro:

—Tenho uma coisita que lhe dizer, seu interesse.

—Sim? fez Carolina.

—Não é cousa nenhuma má, não senhor. O seu a seu dono!

—O que é então?

—Não se zanga, não?

—Porque havia zangar-me? Mas diga.

—Ha ahi um rapazola, que dá um cavacão pela menina. Um cavacão, c’os diabos; um cavacão!

Carolina teve um sobresalto. O coefficiente das suas orgulhosas alegrias traduziu-se n’um sorriso.

—Está a mangar, disse.

—Palavrinha, é cousa seria. Elle fallou-me n’isso.

—Para que? disse ella tremula, penetrada.

—Ora! Namoricos; não sabe como as cousas são? Rapaziadas. Todos nós temos d’isso. Emfim, fallar não offende.—Carolina estava pallida, sentia-se vagamente n’um deleite, curiosa e cheia de excitações. A senhora Marcellina, de olhos no chão, mordia o labio inferior, como quem reflecte.

—Com que então, disse Carolina, gosta?

—Hi!...

E passado um momento:

—Um rapaz como umas casas, forte, loiraço e bom trabalhador. Hein? sua sonsinha... hein?

E insinuando-se, velha toupeira:

—Tendo juizo, minha riquinha, é uma mina. Nada de cahir antes de tempo, percebes?

Carolina estava rubra, com palpitações doidas.

—E quem é? Como se chama?

—Isso queria vossê saber, isso queria vossê saber!

—Não, serio, diga.—E mais resoluta—ha-de dizer!

—Aqui defronte do becco, ha uma loja de marceneiro. Sabe. A do Ferreira, um de óculos.

—Ah! fez Carolina. Já sei.

—Ha um official, o João, bonitote, muito claro. É esse.

—É esse então? Pois senhores...

—Um bello moço, um bello moço! É vêl-o além na loja, a camisa arregaçada; que braços, hein!

Carolina adivinhava-o, sentindo-o na sua imaginação com um vigor de pintura.

—E depois? disse ella.

—E elle pediu-me que arranjasse a cousa, que lhe fallasse; tinha vergonha de vir elle mesmo... Ganha seis tostões, vive só; bom rapaz no fundo.

—E meu pai?

—Ora! Nem o adivinha. Vive sempre lá em cascos de rolhas. Quer lá saber... É vinho e deixa andar.

—Nem sei, nem sei...

—Isso, o resto arranja-se. Amanhã ha festa nos Prazeres, percebes? Elle vai por alli. Tu vaes commigo. Entendam-se lá como quizerem. Gostas d’elle?

—Sei lá, sei lá! Não é feio...

—Entendo. Amanhã vamos ao arraial. O dia deve estar bonito.

—Olhe, vou de manhã. Lá a espero de tarde.

—Vá feito. Valeu. Faço os meus arranjos e vou depois.

—Adeusinho, adeusinho.

Desceu a escada. No portal gritou para cima:

— E obrigada por tudo, obrigadinha por tudo.

Não dormiu toda a noite. Uma turbulencia de idéas desencontradas agitava-a. Havia dentro d’ella alguma cousa explosiva que rebentava, que se dilatava com um volume maior que o do seu cerebro e do seu coração.

Tinha projectos, predilecções, vaidades. Iria comer petisqueiras de truz na frescura dos retiros, sob parreiras verdes, em quanto na encosta, lavadeiras batem roupa. Teria vestidos azues, de merino, ricos lenços de sêda com ramos, uma sombrinha e anneis, alguma cousa como uma opulencia.

A tia Palma não a reconheceria tão liró, feita uma rainha de Nantes com botas de biqueira. E mirava-se no espelho embevecida, desvanecimento pelintra, a admiração de si mesma. Surprehendia-se a murmurar baixinho—O meu João. O meu João está na officina. O jantar do meu João. Em o meu João vindo. O meu João sahiu.—E orgulhava-se: ter um homem, ter um amigo...

Diriam d’ella as visinhas—a que está com o João da officina, uma ruiva.—Via-se aos domingos no passeio da Estrella com elle, em roda do coreto, fazendo volutas por entre os soldados de caçadores, vestido de merino azul, de folho, arregaçadoatraz, a saia branca, um lenço nas mãos suadas e gravatinha encarnada, de borlas. E d’alli a um anno quem sabe, broche de ouro, de moeda! Os pequenos é quehaviam sero diabo, ranhosos, cheios de birras, cuecas vestidas cuecas amarelladas, de rastos, fazendo gallos nas testas. Deixal-os. Tambem asoutrasse aguentavam: ora! Mas um loiro, um loiro; que bom! Sempre tinha dito—Deus não me mate sem um loiro. Ás vezes ao acordar, na molleza lassa do corpo tépido e aconchegado, espreguiçava-se pensando:

—Ai! um loiro...

E lembrava as primeiras linhas do pescoço do aprendiz, linhas fortes e firmemente contornadas, tons rosa no sanguineo da epiderme, pequeninas espiraes de cabellinhos louros, de um macio quente e provocante. E depois a sua imaginação, no delirio, na incoherencia, prolongava nitidamente essas linhas, harmonisando-as, moldando-as, curvas suaves e velludineas, cheias de saude, aquelles brancos braços herculeos e sem um pello que lhe via na officina, um peito amplo, cheio e poderoso, em que se sentissem vagas ondulações viris de seios, altas pernas nervosas, esculpturaes, direitas. E diante d’ella surgia aquelle corpo de luctador, de athleta, grandes traços magistraes e simples, de uma pureza de academia. E penetrava-se da côr da pelle, fresca e clara, sob que se sentiam correr impetos de sangue rico, joven, virginal, fremente. Tomal-o-hia pelos hombros, redondos como os d’umaestatua, e erguida nos bicos dos pés, como era baixa, dar-lhe-hia pequenos beijos furiosos na bocca, sorvendo o seu halito, estrangulando-lhe os arquejos, dominando-o e confundindo a sua na alma d’elle.

Seria assim eternamente, sem nunca se fatigar, e no alongamento as noites de inverno, como grandes corôas que se rezam, deixariam cahir as horas no silencio.

No turbilhão dos seus devaneios succediam-se rápidas as scenas, vibrantes comokolpodesque tumultuam na fermentação. Quereria a vida das visinhas, agitações constantes da negociação dos corpos, que transformam a vida em sonho ou chimera. Via saias de gomma arrastando, botinas vermelhas de roseta e tacão alto, os altos penteados caracteristicos. As caras angulosas, com manchas vinolentas sorriam para ella, deitando linguas negras de fóra.

E sem explicar porquê, como um rhythmo original, ouvia as pancadas d’uma enxada na terra do cemiterio. Gelava-se.—Era o pai que estava abrindo sepulturas! No fundo sentia-se infeliz e fluctuante n’uma grande incoherencia. Agitada como estava, o somno fugia-lhe, e as idéas desviando-se pouco a pouco do primeiro intuito, marchavam já, como raios que se refrangem, pelo vasto plaino das recordações. Pensava na vida do cemiterio, o amor medonho dos cadaveres, em cuja gelida intimidade vivera tanto, abrindo mortalhas eerguendo tampas de caixões. Na sua sinceridade confessava-se horrivel, cheia de affinidades com a hyena. Nunca mais iria exaltar-se perante homens sem vida. Que infamia! Agora tinha o seu João, carnes brancas, de semi-deus. Era feliz então sentindo na alma aquella irisação de paz que a perfumava toda, como n’um banho voluptuoso. Ser amada por aquelle forte, apertada e vencida nos seus braços esculpturaes, parecia-lhe uma ventura, um milagre, alguma cousa como um sonho febril. Dar-se-hia plenamente e sem reservas, com uma abundancia louca de contactos, phrenetica e possuida d’um alto desejo de o possuir. A sua vida condensava-se-lhe colorisada n’uma recordação deliciosa, sem comprehender no deleite a saciedade, a inanição, o desprezo de si mesma por fim. No fundo do espelhinho estanhado, a sua figura illuminada pela vela de sebo tinha uma curva nitida e delicada. Sorriu-se para mostrar os dentes, pequeninos e miudos, de gatasinha branca. E dilatou-se n’um vasto contentamento interior: era bella, de uma compleição tenuissima e nervosa, toda feita de anemias. Com a mão torceu de leve sobre a fronte, uns cabellinhos ruivos, foi desabotoando, pouco a pouco, o corpete... O seio era branco, assim descoberto, estreito e appetitoso como uma miniatura, mas incapaz de amamentar um filho. Todas as linhas harmoniosas do busto, de fragilidade suave, pareciam moldadas n’um espartilho e realisavam uma elegancia moderna, boa para ensaiar figurinos, nosateliersda Maria Cecilia. Ia desabotoando: uma saia cahiu, outra e outra, e a camisa envolveu-a, como uma tunica que se desaperta. Era magra e branca. Na harmonia dos quadris, na expansão geral das proeminencias, exhalava-se a idealidade das organisações virginaes. Trivial e pequena como era, excitava assim mesmo. E ella mesma se devorava com o olhar, examinando, ensaiando attitudes, cheia d’aquella forte figura do aprendiz de marceneiro. Na tarde do dia seguinte deviam encontrar-se á noitinha, quando os passaros se amam, no mysterio das ramarias; o que iria succeder? Sentiria a sua respiração ardente, com um cheiro a decilitros de Torres, queimar-lhe a face. Fallariam embevecidos e frementes, cheios da mesma idéa profana, olhando em torno, receosos de quem passasse. Elle piscar-lhe-hia o olho maganamente; entender-se-hiam. E como na membrana d’um phonographo, na sua alma vinham arfar todas as vibrações d’aquella loucura de prazer, em que palpitaria no dia seguinte. Que farta estava d’aquella pobreza, comer açordas com alho, andar feita chineleira, ahi como um diabo, com as saias todas rotas! Raio de vida! Ao menos em elle sendo o seu João, a cousa ia melhor. E depois... uma pessoa não sabe para o que está guardada n’este mundo. A tia Marcellina conhecia uma que fôra peixeira, pé descalço por essas ruas, a vender carapaus, um fedor a peixum de seiscentos diabos, e agora estava uma opiniosa com um fidalgo, n’um primeiro andar,ricas cortinas de renda nas janellas. Podia bem ser que nem sempre estivesse com o João—que elle era bom rapaz, coitado, mas diz que de sete em sete annos mudam as naturezas, salvo seja. A variedade attrahia-a. A Marcellina tinha-lhe fallado nos padres como bons patrões, unhas muito limpas, sua palma benta pelo domingo de Ramos, cotos de cera pelas Endoenças, bom lugar na capella-mór, onde se podia estar refastelada a ouvir a musica dolausperenne. E certos particulares, nos priores principalmente, um respeito, bellos lençoes de linho, almocinhos que era um regalo, nunca recolhiam tarde, muito limpos e pés lavados todos os dias. Divagava pelos braços dos desembargadores, dos soldados e dos marujos inglezes. Conhecia uma, da esquina, a Poloina, que até tinha inscripções; todos os seis mezes ia receber seumilho, que lhe pagava o governo, ou que raio era.

Outra, a Libania, um diabo bexigoso, tinha dinheiro a razão de juros, seu grilhão com medalha, annel deluzeiro. E fulana e sicrana, que tinham de seu, umas casitas, seu estanco, nunca tinham ido ao Desterro, viviam á barba longa e andavam gordas. Assim como assim, era boa vida; deixem lá fallar. Para pessoa pobre não havia outra. Que ser séria era bem bom fallado, mas o resto, tudo patacuada. Havia tolos que davam vestidos, ricos chales de cachemira, pagavam a cêa, sua noite ao Price,—os babosos! Depois não se cança a gente. Quem tinha juizo sempre ia bem. Havia tal que era mesmopelo beiço. E citava exemplos. A prostituição desenhava-se-lhe como a solução natural no problema da vida de uma rapariga pobre, que todas amam, umas mais, outras menos. E a sua ardencia, aligeirava-lhe as difficuldades. Pão, pão; queijo, queijo—que ella não era lá de meias medidas. E deixou cahir a camisa. Entrou a lavar-se com pequeninos estremecimentos de frio; os cabellos ruivos desnastravam-se-lhe pelas espádoas, embaraçando-a; chapinhava na agua com ruido, rapidos movimentos cheios de graça, como fremitos de diapasão.

Ouviu chorar de repente na calada nocturna, um sino, de uma tristeza de morte. E depois houve ruido na rua, os candieiros mostravam-se pelas janellas; um grupo de tochas, sinistro e lento, passou no meio de pessoas descobertas. Era Nosso Pai, a alguem que estava agonisando. Carolina viu.

E poz-se a recordar a vida do pai, pelo cemiterio áquella hora gelado no silencio noctambulo, em quanto os mochos deixam cahir notas agudas, sinistramente escarninhas. Elle estava talvez dormindo nos seus farrapos, no coração d’um velho tumulo profanado, entre caixões esquecidos. Ou perseguido pela insomnia—talvez não tivesse ido aoPescada—pensava n’ella por ventura, na sua solicitude de pai, porque tambem teem coração os coveiros, mercê de Deus! E ella, sua filha, pensava em abandonal-o, em fazer-se servir como uma isca de figado aos cocheiros e aos trabalhadores, com reducção de preços! Roçava então pela miseria docoveiro a sua piedade como uma aza de gaivota, e pensava:—Pobre velho!

Vinham-lhe subitaneas ternuras, vibrações de lagrimas intimas, uma desconsolação pathetica de tudo quanto a cercava. A idéa de morrer apparecia-lhe diffusamente, envolta n’uma photosphera de soffrimentos. Lembravam-lhe irmãs de caridade, jovens e pallidas, um rosario na cinta, o negror do habito amortalhando corpos de virgens maceradas. E longas penitencias no marmore das clausuras, entre açoutes de martyrio, ao rumor dosconfiteor. Ia arrepender-se, pedir perdão...

Mas o corpo do aprendiz apparecia-lhe de uma tentação hilariante, branco, moço, potente e triumphador! Esmaecia, como um vago luar que empallidecei.

A Marcellina appareceu á tarde, depois da procissão, afogueada, cheia de esfalfamentos; que arrebentava se a não deixassem sentar um bocadinho, e que ia muito mal; a noite passada não tinha podido pregar olho; tudo eram bonecages diante d’ella, uma confusão, uma algazarra de metter medo. E estava ainda com febre—dava o pulso—que vissem, que vissem... Nunca fôra esmorecida, louvado Deus, lá isso não; que até pela febre amarella... ai! nem se queria lembrar. Aguas passadas... Tinha ido ao banco do hospital, explicado o que sentia, e desconfiava que aquillo era cousa denórisma.

Um rapazote novo que parecia ainda estudante,torcera a venta, e ella bem vira... ai! tomára já morrer; que andar uma creatura a penar por esse mundo e depois marchar da mesma maneira... ora!... que lhe faltava! Antes ir d’uma vez. E que Deus lhe perdoasse, que Deus lhe perdoasse!...—Carolina sorria-se compassiva e cheia de interesse, tinha ternuras pelintras, roçava o seu rostinho branco pelo queixo barbado da inculcadeira, chamando-lheLi-Licom voz de criança amuada. Ia cahindo a tarde. O sol mergulhára no mar acharoando de tons metallicos e cupricos as nuvens do occidente, em gradações insensiveis, de uma grande riqueza de pinturas. Por entre tumulos, os cyprestes antigos erguiam-se como sentinellas immoveis, armadas de capacetes ponteagudos. Fóra as guitarras rumorejavam fadinhos tristes, do Calcinhas e do João Brandão; um trolha cantava rouquejando, com voz expectorada:


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