Chapter 7

Habitantes d’este lugarSe m’alegra ócuração...

Habitantes d’este lugarSe m’alegra ócuração...

Habitantes d’este lugarSe m’alegra ócuração...

Habitantes d’este lugar

Se m’alegra ócuração...

E vozes de garotos apregoavam—vai agua ou não vai agua!—no meio do vasto rumor de quem sahia.

—Sabes, segredou a Marcellina ao ouvido da pequena, que elle vem ao anoitecer? Teve hoje de trabalhar na officina; sempre são seis tostões... Está mesmo parvo, pelo beiço. Demais uma criancinha—dezoito annos ainda a fazer pela SantaMaria! Pódes fazer d’elle gato-sapato.—E depois de um silencio:

—O que aquillo quer é roupa branca, jantarinho ás horas, festinhas e deixa andar. Vossês não sabem do mundo; ainda hontem largaram os cueiros. O primeiro que nos regala, é o unico aceado e de quem toda a vida se tem saudades. Que os mais—tudogajõesque a pregam na menina do olho!... E que visse, que estudasse a cousa: quando se tem na mão o passaro, é que se não deve deixal-o fugir. E rindo, dilatada n’uma hilaridade de velhaca, de rameira bebeda, mãos nos quadris, roncava affectando lubricidades:—Ai!... Tivesse ella os seus vinte, e quem o lograva era ella. Só aquellas carnes, em que se podia lamber mel.—E sordidamente mordida de appetites, agarrava-se a Carolina, fazia-lhe cocegas dizendo muitas vezes:

—Ricas filhas, ricas filhas!—E rolavam ambas pelos sepulchros rasos rindo soltamente, com um prazer de barregãs.

D’alli a pouco chegou o João. Trazia a blusa de riscado vestida debaixo do jaquetão, e os cabellos crescidos e encarriçados, cheios de aparas de casquinha. Era quasi imberbe ainda, branco e sanguineo, de uma compleição herculea em que se adivinhava a seiva fertil e jámais esbanjada, dos corpos encouraçados na propria virilidade, e no trabalho absorvidos até á idade dos loucos amores de bordel. O seu typo era de criança e presentia-se o fadista mais tarde, ámanhã mesmo.

—Ora graças, começou a Marcellina, graças que nos apparece! Uma cousa assim! Fazer esperar esta menina!—E recriminava-o, enchia-o de censuras: que para o futuro queriamos homem mais aquelle; que quem esperava desesperava; era uma verdade! Mas nada d’aquillo era morte de homem, louvado Deus!—E fazia as apresentações.—Carolina, não t’o dizia eu? Um rapagão, capaz de arrombar o Castello; e que lindo, mesmo de regalo!—Mencionava pormenores, nunca tinha tido uma doença, benza-o Deus, nunca tomára remedios de botica, nem sequer uma purga. E que mãos de prata! Fazia cadeiras de polimento como o primeiro; um armario que acabára pelo S. Pedro, tinha sido vendido a um homem de fora—tinha aquella de francez, uma falla a modosesquesita——por bellosmelreis. E mais cousas ainda que se não diziam.

O João, inchado, meio confuso sorria, dizendo com inflexões variadas:—Hom’essa!Hom’essa!... E aquecido, trescalando a carrascão, a perna bem desenhada na calça de bocca de sino, cambada um pouco para dentro e afeita ásescovinhas, chapéo arremessado com um piparote para a nuca, fitava Carolina, mordendo-a com os olhos e resmungando:

—Deixe fallar, deixe fallar, que isto sabe-a toda.

A Marcellina declarou que estava com atelha, uma alegria mesmo lá de dentro, e dizia:—Viva a borga! em estrepito. E tomando Carolina pela cinturae agarrando o braço do aprendiz para aproximal-os:

—E quecantavossê cá da pequena, seu petiz? olhe que nem mandada vir de encommenda. E então esta carinha, que parece de seda... Maganão! Bem sabia que a não merecia, um chichisbeco d’aquelles! ai! Mas queria ser generosa... E que tratasse de a estimar, melhor que o pai a tinha estimado; que a queria vêr uma senhorita toda de fitas a voar e casibeques de pano fino, pelo inverno; conhecia casadinhos que era mesmo uma gracinha, mais unidinhos e mais guapos que era uma providencia. E que fossem assim toda a sua vida. Ambos elles sorriam, córados.

Nos seus olhos humidos, em cujas iris de inquietas fibrilhas havia um contrahir de commoções refreadas, luzia a caustica lasciva do desejo incendido.

Carolina sentia um quebramento fundil-a toda; era do calor, da fadiga da tarde, talvez da contemplação do sitio. E a sua alma perdia-se em grandes esquecimentos; alongava o olhar de encontro ás vastidões do céo e da paizagem, como se toda ella se expandisse n’aquella área sem termo, alada no vago do uma impressão que até alli não soubera formular. Viu-o preguiçosamente estendido na pedra branca de um tumulo. Era n’uma das ruas afastadas. N’aquella posição de madraço, a vigorosa expansão do seu corpo resaltava em linhas magnificas, de animal contente e são, que descança.Tinha-lhe cahido o chapéo, e deitada para traz nas duas mãos sobrepostas, a cabeça parecia-lhe esbatida no fulvo dos cabellos, que á luz poente faziam um desenho de juba. Via-se-lhe o tronco oscillando, a camisa tufada por baixo do collete, uma das pernas flectida sobre a coxa e a outra estiraçada com bestial franqueza, para diante. Carolina devorava-o: era assim que ella sonhára ooutro, nos seus delirios hystericos de virgem reclamando direitos de mulher fecunda, em noites de entrecortada allucinação. E via-o deslocar-se aos circulos por diante dos olhos, sentindo um tremor de mãos e frialdade mortal nas pontas dos dedos. Por seu lado, o João fitava-a com furias de novilho que desperta.

E velhacamente, um riso nervoso nos cantos da bocca, piscava-lhe os olhos, desafiando.

A noite tombára das encostas, pelo céo, e uma sineta batida pelo guarda do cemiterio, mandava sahir. Barras de nuvens tranquillas, estendiam-se ao oriente, aspectos esbatidos, de vaga melancolia contemplativa. A lua de um branco baço fluctuava como uma boia de cristofle, e tristes raios chimericos mal podiam coar-se pelos galhos corpulentos dos cyprestes antigos.

Via-se pouco pelas ruas do cemiterio; na ventana da capella um mocho narrava sarcastico em notas vibrantes, legendarios terrores; um vento passava vagaroso, como vigia de arraial adormecido, varrendo o pó das brancas sepulturas glaciaes. AMarcellina ergueu-se para pôr o chale rico e ia andando.

Carolina ergueu-se para seguil-a. Mas o João agarrou-a pela cinta e com voz alterada, quasi guttural, dizia-lhe attrahindo-a a si, corpo a corpo:

—Olha lá, espera, olha lá.

Erguera um pouco o busto, e com inabalavel teimosia puxava as saias da rapariga.

—Esteja quieto, podem vêr. Mau!

Elle porém não a escutava.

—Não te vaes d’aqui, não te has-de ir d’aqui, murmurava-lhe ao ouvido. Todo o seu esforço era para apanhar-lhe a cara; tinha a respiração sifflante, e um tumulto de sangue turgecera-lhe as cordovêas do pescoço.

—E o beijo que me deves, o beijo que me deves? Dá-m’o!

Tinha-a agarrado pelas costas, mettendo-lhe as mãos por debaixo dos braços, e com uma força cruel conservava-a apertada sobre o peito, em quanto lhe premia os seios crespos e redondos, de mulher inviolada. Carolina tentava em balde arrancar-se ao amplexo. Conservava os olhos cerrados, um bater de narinas, a bocca escarlate como a ferida de um fructo torrido, palpitações. E dizia:

—Mau! Olhe que eu chamo, olhe que grito!

E n’um tom choroso:

—Ora isto, ora isto!

Elle não dizia palavra; apertava-a na cinta uivandocom fome, e beliscando-a na redondeza dos quadris e na curva marmorea das espádoas. A sua exaltação crescia, e luctava a serio, com arrancos de besta na quadra fatal do cio. E erguendo de repente o braço forçou-a a voltar a cabeça para traz, despenteando-a um pouco na frente.

—Mau! dizia ella. Rasgar não vale! Olhava-o com os seus olhos velados que tinham uma condensação de amor voluptuoso, essa expressão parada e lubrica que nasce dos espasmos profundos e desolantes.

O João dobrou-a vigorosamente, como se quizera partir-lhe os ossos.

—Cala-te, cala-te! dizia-lhe.

Os seus olhos resaltavam, havia um arripio de fibrilhas nos angulos das orbitas e sentia-se o estertor da sua respiração estrangulada. Então curvando-se sobre ella, com os seus labios ardentes sorveu-lhe a bocca palpitante, e furioso tirou-lhe o lenço para metter-lhe as mãos no seio. Ao contacto das epidermes a descarga dos fluidos deu um fremito de corpos, e Carolina esticando os braços atirou-lhe as duas mãos aos hombros, murmurando:

—Oh! matas-me...

E como na corrente murmura de um rio que vai fugindo, entregou-se-lhe toda, sonhando com essesfiordsserenos e brancos, das regiões onde os extasis, como as noites duram mezes, sempre illuminados por um iris de aurora polar.

João agarrou na rapariga ao collo, como a uma criança, foi pela rua adiante ao encontro de Marcellina, que não estranhou se houvessem demorado. O João dava-lhe quatro pintos de commissão; era para comprar aviamentos para um vestido de fazenda, azuloio, que tinha ganho quando fôra do alferes Sarmento. Andava precisada de botinas; as dos domingos, de polimento, tinham uma fendasinha no joanete e via-se a meia. Não podia ir a parte nenhuma que se não envergonhasse. Fallára n’isso ao João, mas elle enfadava-se. Já lhe tinha dado para umas camisas e para a ajuda d’uma medalha, e certas miudezas, lenços de sêda, um casaco de pano bordado a trancinha, que tinha comprado á Francisca adela, com geito no olho, um pouco gaga. Fora a sua tagarellice, mal apanhou quem a escutasse, entrou a estafar a paciencia alheia, de commentarios nunca levados ao fim, historietas afogadas no prologo e logo preferidas a outras não menos interessantes.

—Ai filhos que se vai fazendo noite, negro tudo como breu.—A mulata devia estar em cuidado já. E não comprára os carapaus para o bichaninho, oPimpão, eram mais de sete horas! Não tinha sustancia no estomago, mas havia sua vontadinha de comer. Tivera fressura para o jantar, umas ervilhasinhas com presunto que as podiam comer os anjos. Mas a fructa cara; a hortaliça estava para a gente rica. E então as mulheres da venda pelas portas; uma pouca vergonha! Quarteirão de laranjas,dous tostões! Nunca se vira tal n’esse mundo de Christo. É com a guerra, dizia, é com a guerra. E que andavam os papeis cheios d’essas cousas, mais de duas mil pessoas mortas cada dia na Estranja, a tiro. E que Deus nos livrasse, que Deus nos livrasse, cá de levantamentos. Quando fôra pelarevolta do quatro, ainda os dois não eram nascidos, tinham corrido rios de sangue, gente fugida por esses campos, até os santos andaram n’uma alhada. Nosso Senhor nos perdôe pelas suas cinco chagas! E persignava-se dando beijos na unha do pollegar, com ruido. Sahiram do cemiterio. Carolina não dizia nada, apertava o braço do aprendiz. A velha estava mesmo a cahir, e queixava-se. Estavam-lhe lá por dentro a resmoer, a resmoer; a modos que cousa assim de bicha. Tinha tomado as pevides de abobora—nada de resultado! Ai, mas ia mesmo mortinha; e que fossem enxugar uma pinga, com uma iscasinhasemelas... Já não estava em idade de folias, bem lh’o estava dizendo aquelle esfalfamento. E os seus intestinos roncavam ameaçadores. Tinha sina de morrer cedo; então!... Toda a sua gentemarcháraainda nova. Seu pai, um homemzarrão com’a um raio, tinha sahido bom, com uma capa de briche novinha, para casa do regedor, e á noitinha dá-lhe a febre amarella, e agora o vereis a vomitar... mandaram chamar o medico Cançado—parecia-lhe que o estava a vêr—luvas de casimira, um caixa-d’oculos corcovado, barbicas loiras, arrastando d’uma perna...—Receitou paraalli umas berundangas, ella foi á botica, noite fechada. Enterros por cada canto, padres a cantarem responsos. Nem ella sabia dizer bem. Quando chegou a casa, a mãi estava n’um berreiro:—Ai meuhomeda minh’alma! Ai meu rico amor do meu coração!... E escarapellava-se pelos cantos em saias de estamenha, sapateando as grossas solas cardadas pelo sobrado. Sua mãi fôra lavadeira da infanta, muito estimada das açafatas e aias; levava e trazia segredinhos, bilhetinhos, do Ramalhão para a Bemposta e da Bemposta para o Ramalhão. Chamavam-lhe aAngelca; um cabo da guarda apaixonára-se pelos seus bellos olhos e cantava-lhe modinhas. Mas ella, esperta que tinha raio!—moita carrasco! D’uma vez n’uma deveza, dois ganhões atiram-se a ella. Maséna pai!... se vossês querem vêr o que era dar lambada, com os ceirões; andava tudo n’uma dobadoura, quando veio gente que apaziguou a faina. Quando não, era mulher capaz de dar cabo d’elles. E havia de se ralar muito. Emfim, filhos, emfim era de faca na perna, resumia com pompa, cheia de vaidade.

—Manda Nosso Senhor os bons á sua santa vista, que dos maus nem quer saber o diabo. Uma tarde minha mãi appareceu com tosse, tossinha de gato engasgado, dôres pela espinhela, calafrios... veio-lhe uma pulmonia da fortuna... pulmonia foi ella que a raspou até hoje. Foi em quinta-feira de Corpo de Deus, moravam ahi para as bandas da Sé, n’uma barraquinha velha; todo o dia a musicaa tocar; tropa para cá e para lá; a pretalhadatá—ti—ti—tá:tá—ti—ti—tá:tá—tá—taratá!Gentalha de pagode, o rei, os ministros, a procissão, o S. Jorge; e a mãi para alli amortalhada em chita velha, á espera do padre, para ir para debaixo da terra. Nem um coto de cera, nem uma fita, nem um véo de escumilha. As bilhardeiras das fidalgonas, em quanto aAngelcapôde servir-lhes de alcoviteira, fizeram-lhe festa, sim senhor. Mas quando fechou o olho—diabo que te carregue! São uma cousa que eu cá sei, aquellas peças. Não é lá dizermos, andam naberzundellaum dia ou outro, mas sempre, sem nunca parar.—E cheia de reticencias procurava incitar o interesse. Baixava a voz, com uma confidencia obscena em que figuravam infantas de capote e lenço, passeando pelo Campo de Sant’Anna com o Chico Bellas, charuto na bocca, uma gazua no cinto do vestido e viva areinação!... E fulana e fulana que ahi estão casadas com sicrano e sicrano, sonsinhas d’uma figa, já se não lembravam de quando escreviam cartas a este e aquelle, para que viessem ás tantas horas... sempre se viam cousas n’este mundo! Uma lastima, filhos, uma lastima! E que havia secia que era mesmo para alli, para quem queria vêr, na cocheira com os trintanarios. Conhecia boa meia duzia d’essastypas; algumas eram damas do paço. E que o mundo era todo assim. Mas o que a raivava era quererem ser grandes santarronas, que nem quebram um prato, e no cabo deitavam abaixoa cantareira! Iam passando diante doPescada. A casa estava cheia de gente; rumores de guitarras bordavam finos arabescos sonoros, de fados corridos; vinha lá de dentro um borborinho de gente avinhada; o fumo dos cachimbos azulava o ambiente, empestando, e grossos risos estalavam brutaes entre historias alegres do arraial, e largas digestões de mexilhão e pimentos. Via-se a tia Lauriana, papuda e quente, encostada ao balcão, entre bojos de garrafas pretas e taboleiros de queijos frescos. Um aguadeiro deitava ao longe o pregão monotono; para o interior da cidade, rumores de carruagens amorteciam gradualmente, na morna somnolencia quebrada da hora. O João lembrou que fossem comer alguma cousa. E mais aberto com as mulheres contava os seus appetites e as suas valentias; d’uma vez tinha tosado umgajo, na Perna de Pau; já aquillochuchou cascudos!... E vai quando mal se descuida, o outro tinhapassado as palhetas.

Era agora d’uma sociedadeEsperança e Harmonia; tinham alugado casa na rua do Quelhas e tratavam de arranjar philarmonica; elle tocava pratos. Havia um barbeiro na rua das Trinas, o Lopes, que fazia comedias, gallegos que namoravam as sopeiras e cantavam versos da sua terra: era reinadio! E elle fazia de policia, tinha comprado uns bigodes de crepe... E dizia as suas boas intenções—em que se havia uma pessoa de entreter; andar para ahi perdido de bebedo? Assim sempre era mais decente. E que ella Carolina, havia de ir áscomedias; não era verdade? Para o verão queriam dar bailes campestres n’uma horta, com balões de côres. Iam entrar noPescada, mas Carolina puxou a manga do aprendiz, pediu que não fossem para alli; tinha lá o pai, se elle visse, santo Deus, era capaz de fazer alguma.—Aquillo, juntava Marcellina, em estando pingado, era o diabo mais ruim da christandade. E prudente aconselhava o Manel do Altinho; ia alli gente mais pacata, havia quartos particulares, seus reposteiros de chita, um rico cozinheiro, e em quanto aosumo, era por conta do lavrador, sem confeição. Uva e mais nada! resumia.

Carolina sorria benevolente, sem dizer nada. Entraram no Manel do Altinho, para um quarto. O João bateu com ostentação de ricaço, na mesa, perguntou ás mulheres o que queriam; a Marcellina appetecera um bifesinho, Carolina não tinha vontade e o João quiz salada de camarões. E rindo todo córado, olhava para a pequena, abanando a cabeça, e dizia vagamente para achar palestra:

—Com que sim senhor, com que sim senhor! E confidencialmente, inclinado para Carolina:

—Não come mesmo nada, mesmo nada?

—Mesmo nada, dizia ella sorrindo, embebecida n’elle.

—Nem tanto como isto? e mostrava a ponteira da bengala.—Hom’essa!Olhe que entisica.

Piscava o olho. Riam baixo.

—Velhaco! segredava ella vermelha, tocando-lhe a face.

—Pois ha-de comer, ha-de comer por força!

E lentamente:

—E camarões, para abrir o appetite.—O olhar do aprendiz penetrava n’ella como um estylete. Miravam-se com curiosidade petulante, adivinhando-se. O olhar d’ella afogava-se n’um langor amoroso e humido, de uma sympathia impura. O João chegou-se mais e com voz quasi imperceptivel:

—Hoje, lá para tarde, vou, sim? disse elle.

—Hoje não, disse ella.

—Porque? Que tem?

—A visinhança deita-se altas horas. É gente má, percebe? Podia fallar-se, meu pai sabia... Hoje não. Depois.

—Mas se eu não posso, vê? supplicou o João, com voz piegas de criança.—Então?...—E timido, uma doçura insistente na bocca:

—Vou sim? Não póde recusar. É má!

Carolina deixava-se penetrar d’aquella imploração toda incendida de amor deshonesto. E sem resolução:

—Pois sim, pois sim, disse ella, mas ás duas horas, ouça bem, ás duas horas, quando não houver luz nas janellas, das taes.

A Marcellina um pouco afastada, tinha adormecido.

O rapaz chegou com a cêa. Carolina gostavamesmo muito dos camarões. E bebia, toda palreira já.

Ao outro dia o aprendiz appareceu mais tarde na loja, tresnoitado e cheio de fadiga. Era a primeira vez que elle faltava aos seus deveres e o patrão, o Ferreira, velho direito e tostado, physionomia vulgarmente honesta, nada lhe disse. O João era d’estes filhos que os paes, viciosos e desleixados, abandonam pequenos, a uma vadiagem perigosa. Aos dez annos metteram-lhe umas cautelas na mão. De manhã cêdo, ainda escuro, ia descalço e cheio de lama ás redacções, comprar os jornaes do dia, n’uma pasta sebenta, que encontrára n’uma escada. E caminho dos bairros distantes e ainda adormecidos sob a luz vacillante dos lampeões, lá ia apregoando oDiario de Noticiase oPopular que sahiu agora a dez reis. Gastava assim a manhã. Algumas vezes, pequenino e todo roto, a carne suja transida de frio, deixava-se dormir nas escadas, com a pasta por travesseiro. E esquecia-se no somno, da venda dosPopulares. Recolhia a casa carregado, com os jornaes intactos; davam-lhe tareias monumentaes, com uma corda molhada, nos rins. D’uma occasião perdeu as cautelas, pôz-se a chorar na rua, cheio de medo. Quem passava queria saber o que era; elle, soluçante, dizia a sua desgraça, estorcendo as mãos. Alguns davam dez reis. Mulheres de ricos vestidosde cauda, compadeciam-se:—Coitadinho, coitadinho...—As crianças olhavam-o commovidas, esmolando-o. Um velho alto, barba toda, de bengalão, ao passar disse azedamente:

—Parece impossivel que a policia consinta este desaforo, n’uma cidade civilisada!—E elle envenenava o seu animo n’uma afflicção profunda, expressa em lagrimas sem remedio. Ninguem tinha achado as cautelas; ia passando cada vez menos gente, menos gente; perguntava a todos; uns riam-se, outros diziam que não, alguns nem respondiam: todos iam andando! As lojas fechavam: uma tristeza parda fazia-se na rua, obscura e fria. Os pianos choravam, nas salas mediocres dos terceiros andares, velhasromanzasde Bellini e Weber, em desafinação sentimental, e através das janellas unidas, vozes de meninas lyricas diziam em italiano barbaresco, affectos candentes de heroinas tisicas, com gestos cavos e ballatas entorpecedoras, cheias de peccado e offensas á moral publica. Elle sentia no meio da felicidade dos outros, pesar-lhe a sua miseria, como um globo de chumbo dopesa-mundos.

Era bonito e loiro; os cabellos crescidos, annelados, revoltos e cheios de terra, davam-lhe uma doçura tranquilla e casta, cheia de encanto e innocencia, o ar d’um leãosinho amamentado n’um viveiro. Tinha nos olhos um azul escuro de saphira, de uma profundeza de Bambino, no fundo dos quaes se sentia dormir a sua almasinha angelica, soffredora e crystallisada, como uma fina joia, desconhecidae brilhante. Não conseguira fazer com as esmolas nem metade do custo das cautelas; todo o mundo era feliz e sorria; muitos gastavam em ninharias, em bonecos e em fitas, um dinheiro louco. Só elle não tinha ninguem que lhe désse o quartinho dos seus bilhetes perdidos. Mas um homem vinha envolto no seu casaco de inverno; elle chorava! Encheu-se de valentia e chegou-se ao transeunte:

—Meu rico senhor, começou, eu tinha umas cautelas, que meu pai me tinha dado para vender. E vai, alli na calçada dos Caldas, perdi-as, meu rico senhor. Se eu não levar o quartinho, meu pai é capaz de me enforcar, meu rico senhor. Tenha compaixão...

—Passa fóra, gatuno! O que tu querias n’esse espinhaço bem sei eu.—Elle recuou aterrado, convulso.

E varado por aquella violencia ficou soluçando no meio da rua solitaria.

Se fosse para casa, o pai, um pedreiro incorregivel e bebedo, tinha-lhe preparada a corda, n’um alguidar cheio de agua. Lembrava-se que a mãi, triste creatura amarella, resignada, loira e cheia de privações, era meiga para elle e clemente, occultando-lhe as faltas, vestindo-lhe a nudez com os seus trapos, contemplando-o em certas noites com um amor, uma tristeza e uma suavidade, toda feita de sacrificios, de dôres e apprehensões. Essa pobre mulher imploraria de joelhos o seu perdão, quebrandonas suas costellas, as pancadas que o pedreiro atirasse ao filho, calada e paciente, de uma humildade evangelica e de uma vileza sublime! E uma idéa cortava-lhe de repente este referver de recordações, de vacillações, de receios—se elle não fosse para casa? A tunda adiar-se-hia para o dia seguinte com accumulação de juros; a mãi, tão mesquinha e tão boa pagaria por elle, levando puxões de cabellos, picadas com alfinetes, sôcos pelo vazio e pimenta pela bocca, que o pedreiro, em estandocom ella, era um dragão em casa. A visinhança ás vezes apitava; elle quebrava vidros, dizia improperios, atirava-se á patrulha, á dentada, como um damnado. Era no inverno, altas horas. Começou a chover, a chover. O vento encanado pelas ruas, ao longo das altas casas, agitava os lampeões com estralidos seccos. Dois ou trescoupéspassaram a toda a força. Um d’elles levava crianças e era tirado a quatro. Era o rei que voltava de S. Carlos, com a familia. João ficou parado a seguir aquelles trens opulentos, de gente que podia perder cautelas sem levar tareias, e sem passar noites fóra de casa, com medo das cordas molhadas. Ser rei era para elle muito mais que ser Deus; e phantasiava uma existencia inaudita e phenomenal, se fosse rei. Teria camisas de chita, de quadradinhos, camisolinhas de flanella, boas botas de inverno, um relogio, cadêa com pingentes, mais cara ainda que a do visinho Mauricio—o da tenda de S. João da Praça. E dir-lhe-hiam:

—Vossa real magestade senhor rei, vossa real magestade... E elle daria a mão a beijar, com um grande annel, melhor que o do senhor Parreira, o commissario de policia do seu bairro. E ajoelhariam diante d’elle repetindo:

—Vossa real magestade, vossa real magestade...

E marcharia á frente dos esquadrões de lanceiros cheio de medalhas, uma banda, de bigodes retorcidos e tirando o chapéo armado ao povo, no meio dos hymnos das bandas marciaes. Ou então na procissão de S. Jorge, de manto e debaixo do pallio, iria descoberto, acertando o passo, com ares magestaticos. As beiras dos telhados deixavam cahir as suas lagrimas monotonas com um ruido methodico e gelado. No céo escuro e forrado por igual, nuvens brancas, como de algodão fofo, esbarravam, acossadas pela nortada. Os passeios desertos, nús de transeuntes, offereciam á claridade triste do gaz o seu esguio e pallido espinhaço, que recordava o d’um peixe antigo, dos que se fazem admirar em esqueleto, fossilisados, nos museus. Recortavam vagamente no ar os tectos negros a sua dentadura de pentes partidos; nas fachadas imbecis que os reflexos mosqueavam de um livor doentio, cortadas por filas escuras de janellas toscas, as taboletas faziam nodoas de luto, ensanguentadas por letreiros vermelhos, de modistas e de armazens de fazendas. Ao fundo da rua, n’um terceiro andar, uma parteira tinha uma lanterna rubra, d’aviso. Dois gatosseguiam ao longo das paredes, miando a sua paixão nervosa e excentrica. E por sobre a cidade os aguaceiros esfarrapavam-se lentamente na sua caminhada fatal, fazendo nos confins dos edificios afastados, longes indecisos e lugubres, linhas frias de mausoléos—um abandono de campo santo, desconsolado e fatidico. João poz-se a andar vagarosamente, cabeça baixa, as mãos remexendo o forro das algibeiras, transido do ar da madrugada. Não tinha senão um pensamento—não ir para casa. O mais que lhe importava? Mas sentia-se cançado e triste, como quem vai partir para um paiz ignorado, dos Brazis. Sentiu uma cousa dura no bolso das calças; não se lembrava do que seria. Tirou para fóra: era um vidro cheio de facetas, uma rolha de garrafa que encontrára na rua. Com a curiosidade natural de criança, applicou o olho a uma das faces e poz-se a mirar a luz d’um candieiro, através do polyedro. Experimentou deslumbramentos.

A luz multiplicava-se no seio do crystal em centos de imagens fulgentes e irisadas, vívidas n’uma saturação de amarello pallido. E o crystal dilatava-se como uma arcaria phantastica em mil sentidos oppostos, onde scintillas cruzavam as suas linhas coriscantes, com uma abundancia embriagadora. João nunca olhára cousa assim: era como um mundo de diamante e de luz, salas desertas e immensas, illuminadas como para um sarau. A sua alma como uma borboleta fascinada, ia, em lufadas de gozo, penetrar essa vasta habitação principescae oriental, feita do que ha mais puro e mais commovente: a luz, a alegria, a gloria... Novamente appeteceu ser rei e viver n’aquelle palacio, n’um throno. Tinha fome, desde pela manhã não comia, as pernas vergavam-lhe.

Encostou-se ao umbral de uma porta, olhando sempre os seus salões magicos vestidos de tapeçarias iriantes, em que a luz incidia polvilhada em atomos de gloria. Mas a fadiga opprimia-o. Curvou os joelhos na pedra humida de chuva, absorto na luz. Os olhos carregados de chumbo, cerravam-se. Mas abria-os devagarinho, para mirar. E sem sentir, uma tranquillidade emolliente nos membros, adormeceu.

De manhã acordou, admirado de haver dormido fóra de casa e surprezo mesmo da proeza heroica, que o expunha ás cóleras do pai intractavel. Corria um arzinho cortante que esburacava a nevoa do rio e dava commoções phantasticas ás nuvens humidas do ar. Uma parte da cidade envolvia-se em grandes vapores translucidos, em que se perdiam as torres das freguezias. No mac-adam gasto e revolvido, rugosidades de lama cinzenta faziam hieroglyphicos interminaveis, gastos por vezes na profundeza dos sulcos dos carros e no remoinho de pégadas dos vendilhões descalços. Começavam a passar carroças de hortaliças, para o mercado. Jumentos tristes e felpudos, de uma resignação christã, seguiam lentamente carregados de roupa. Umaleiteira forte vestida de azul, grossas botas de cano, conduzia as suas vaccas meigas e emmagrecidas, todas malhadas de branco, com velhos cobertores no dorso, e as grandes tetas pendentes e cheias, batendo as pernas. Defronte no chafariz, os aguadeiros enfileiravam os barris vermelhos, cintados de negro, afazer carreira; e todos sujos, aparvoados, de uma ingenuidade sordida, chalravam a sua gallegagem brutesca. No emtanto as janellas fechadas dos predios, tinham uma passibilidade somnolenta e morna; as aguas-furtadas agudas e revestidas de telhas escarlates, recortavam acima das platibandas pardas, vagas triangulações idiotas. Nas altas varandas corridas dos quartos andares, arbustos rachiticos e estiolados pela estreiteza dos vasos e pela humidade sulphydrica da atmosphera debruçavam pelos buracos da gradaria, para a rua, tristes flôres esmaiadas, velhas corollas de uma sentimentalidade doente; pelas janellas, trepadeiras resequidas enroscavam-se em caniçados, bordando jardins suspensos de amanuenses mediocres. O dia aclarava-se no concavo da abobada. A espaços, no bocejo das vaporisações longinquas acossadas do vento, esmaltava-se o azul lavado e fino, de uma grande paz commovente. E sentia-se despertar a população. Os moços de padeiro enfarinhados e tiritando de frio, passavam com os cestos, a correr; um sino afastado dava matinas n’uma toada cheia de melancolia. João ergueu-se,com espreguiçamentos, quebrado da friagem da escada. O que se teria passado; para onde iria agora; o que seria d’elle, sósinho, por ahi?...

A verdade é que não estava para aturar o bebedo do pai: isto é que era! Com a venda dos jornaes e das cautelas sempre ganharia para comer. Podia dormir nas escadas. Ás vezes tinha venda de ganhar dois tostões; havia dias de menos tambem: eraconforme calhava. E contando pelos dedos punha-se a calcular:—um pão, um pataco e chega para todo o dia; dez reis de caldo; um vintem de sardinhas; dois decilitros... ao todo gastava seu tostão. O mais era para fato e extravaganciascá da pessoa. Afinal era uma bella vida. Melhor que um padre de missa! affirmava. E seria livre, costado sem pancadaria, indo ás hortas quando tivesse na vontade—queuma pessoanão póde andar sempre no trabalho; lá chega um dia... E repetindo phrases que ouvia ao pai, para a si mesmo parecer homem, lembrava-se irritado das brutalidades do pedreiro. Bem sabia que elle era seu pai e lhe podia bater por ser mais velho; mas as suas costellas não eram nenhum folle de ferreiro. Alto lá! Era de mais, tambem! E que elle era muito bom sim senhor, mas em lhe fazendo chegar a mostarda ao nariz—está quieto! Mas sua mãi, aquella pobre mulher pallidamente martyr, tão soffredora e tão resignada, que seria d’ella, sem o filho? Como poderia a pobre creatura, deuma fragilidade triste, supportar as brutalidades do marido? E lembrava o seu perfil engelhado e secco de privações, os seus olhos amortecidos de dôres antigas e o seu peito esphacelado de tosses, concavo e velho, de que elle pendera pequenino, guloso da mama e envolto em mantilhas frescas. Quantas lancinações rasgavam, havia tantos annos, a alma d’essa obscura macilenta, d’essa trémula escrava de um canalha convicto?... E como uma chamma cantante, palpitava-lhe dentro aquelle amor honesto e cheio de castidade infantil, côr de rosa. D’uma vez estivera doente com sinapismos nas pernas, um febrão desabalado; e em delirio descobria-se no leito, cheio de agonias, vendo dançar no tecto osPopularese os garotos do seu conhecimento. E em torno da enxerga, na penumbra do quarto abafadiço, de cada vez que lhe vinham momentos lucidos, descobria o rosto anciado da mãi, batido de vigilias e escavado de lagrimas, d’uma expressão que fazia dó. Todas essas lembranças atiravam a sua pequena alma a uma tristeza em que o seu coração se sentia boiar, como n’um lago acido e corrosivo. Deixar a mãi, apparecia-lhe como um peccado funesto e impenitente, dos que fazem bailar Satanaz.—Nem os brutinhos, dizia, nem os brutinhos fazem tal. E sem resolução, ruminando a sua incoherencia estupida, com as mãos nos bolsos das calças em frangalhos, foi comprar os jornaes do dia. A luz alastrava-se pelo céo, e no oriente lavadode nuvens agora, os feixes do morno sol, riscavam nas fachadas, polyedros amarellos e emollientes, de um agasalho caridoso e bom.

N’esse dia, acabada a venda, foi a casa. Encontrou a janella fechada e a porta unida; uma grande quietidão fluctuava nos quartos. Entrou de manso: o gato dormia sobre a commoda, ao lado do oratorio; em torno quebravam-se na meia luz do recinto, fórmas hirtas de velhos moveis mutilados, cadeiras sem palhinha, mesas sem gavetas, esqueletos de bahús escancarados e vazios, com o forro em tiras. Viu a mãi cahida sobre um colchão, respirando alto. Na chaminé não havia lume, nem louça; o cesto vazio de pão, abandonava-se sobre o poial de tijolos. O João percorreu devagarinho os quartos. No saguão e sobre o peito da janella, um vaso de salsa esverdeava; mais alto, n’uma cana, uma camisa velha estava a enxugar com as mangas pendentes como n’um desalento miseravel; um chinelo humido e proscripto, sorria como um queixo sem dentes, á borda da sargeta, e tudo aquillo soluçava um desconforto triste, como a nudez d’uma tumba. O pedreiro não estava em casa—ainda bem! O João chegou-se á mãi.

—Mãi!—Ella gemeu alguma cousa confusa, mas a sua cabeça cahiu outra vez, n’uma prostração desolante. Enrolava a cabeça n’um chale; um sulco negro descia-lhe da testa á face, inflammada e ardente. O labio escorria sangue, rasgado por alguma pancada. O João descobriu docemente a cabeçada pobre mulher, procurava com beijos dizer a sua pena. E em supplicas balbuciadas, de afflicção sincera, dizia que lhe perdoasse, contava as asperidões da noite anterior, as suas miserias, a perda das cautelas, entre gente indifferente e cynica, que lhe chamava vadio.

—Triste de quem é pobre, lamentava elle, triste de quem é pobre! Com as mangas dablusalimpava as lagrimas, e vibrante n’uma solicitude amoravel e leal, toda feita de grandes dedicações, inquiria a historia dos golpes que rasgavam a cara da mãi. Ella mal podia fallar. Tinha esperado pelo filho até fóra de horas: quando o pedreiro recolheu, não havia cêa—pão e agua! E entrou logo a barafustar, a dizer insolencias; que andava a trabalhar como um mouro para aquella grande bebeda, que havia de fazer um diaalgumade rachar pedras. De resto tanto se lhe dava ir para a costa d’Africa, como ficar noLimoeiro Novo; em todaa parte se ganha pão, com seiscentos diabos! Ella queria convencel-o, prestava-lhe contas da semana; pouco recebera da feria, elle bem o sabia; como era possivel tornar o pouco em muito? E esboçava roes: tanto de pão, tanto de arroz, panno para uns remendos, concerto das botas... O marido nem deu palavra; cambaleante, tocado de vinho, sahiu. Ella quiz retel-o, que se fosse deitar, que não fizesse disturbios, pelo amor de Deus, por tudo quanto tinha de mais sagrado!... Mas cortou-lhe a palavra uma bofetada crua que a derribou, com um gemido.Atravessou a rua, desceu á taberna. Das bancas gordurosas saudavam-no, como a uma pessoa intima e querida. Ella, coitadinha, chorava atraz da janella, em quanto na parede do fundo, a lamparina do oratorio, posta atraz d’uma cesta, enchia de sombra o papel desbotado, cheio de manchas escuras e fatidicas.

Á uma hora viu entrar o marido, chapéo á banda, a tosca physionomia viciosa, com angulos de vertices sinistros, sombriamente cortados em sombra, os olhos absortos, fixos n’um pasmo selvagem, feramente imbecil—como a incarnação do crime! Ella cosia-se com a sombra, sustendo a respiração. A rua estava dormente, a visinhança recolhida; viam-se passar os gatos de escada para escada, n’um silencio lugubre e frio. O pedreiro agarrou n’uma cadeira e esmigalhou-a com estrepito, no meio de pragas. E não tendo resposta, agarrou no oratorio. Os martyres mutilados e cheios de fitas, os seus rostos de pau pintado cheios de inchações vermelhas, cahiam com uma resignação biblica no meio da casa. Ella então sahiu da sua sombra discreta e disse-lhe com os dentes estralejando de medo:

—Manoel, anda deitar-te, homem. Tem hoje paciencia, ámanhã se fará o que queiras.

O pedreiro cresceu contra a pobre, com um pé da cadeira quebrada na mão; agarrou-a pelas guelas com uma força de salteador, e torcendo-a, rangendo a queixada, ebrio na sua ferocidade surda,descarregou-lhe pancadas furibundas nas costas, na cabeça, contra o peito. E ergueu-a inerte, como morta, para a lançar no chão moida de pancadaria. No emtanto a visinhança acordava pelo reboliço; apitos soaram na rua; duas mulheres em saias brancas gritaram—ó da guarda!—e policias arquejantes da corrida, enfiaram pela casa com os chanfalhos em riste. O pedreiro queria luctar, esbracejava furiosamente entre os pulsos cabelludos dos agentes, blasphemando. Pelos grupos, uma velha suja, olho de coruja, andava tomando informações, de uns para outros, com lamentos de uma piedade desenxabida. Tinha-se alastrado na rua o borborinho. Alguem trazia arnica para as contusões daprove. Uma rapariga aconselhava cerveja preta, cousa de quatro dedos, que não havia nada melhor para maçadas de arrocho. E varios narravam casos do pancadaria com pessoas tesas, que desarmavam a patrulha, com tres tabéfes. O pedreiro amarrado, entre dous policias, passou entre as mulheres curiosas, no meio de pragas. E explicavam-se as feridas damártyle; havia uma na cara com’a dois dedos, e já aquillo vertia sangue!... Uma rapariga trigueira, de uma prenhez disforme, tinha suas desconfianças que havia costella partida. Outros gesticulavam, tentando elucidar com figuras e arremedos, a narração que iam fazendo decomo a gente era cá por dentro. Mas ouviu-se a voz da patrulha que descia a rua.

—Nada de ajuntamentos aqui! Nada de ajuntamentosaqui!—E cada um foi para a sua banda, dando boas noites. A triste espancada nem dava accordo de si. Corridas as primeiras curas das feridas, cada um foi dormir descançadamente e ninguem se lembrou de chamar o medico.

Sem o filho, sem uma pessoa que velasse por ella, a triste mulher revolvia-se nas enxergas ás escuras, em gemidos de dôr e desvairamentos de febre.

E como de costume a manhã rompeu d’alli a cinco horas, annunciando uma terça-feira de inverno.

O dia correu em meio de tristezas carregadas. A casa emergia n’um torpor abafado. Na rua dois ou tres pequenitos brincavam semi-nús, com lama. O João andava d’uma banda para a outra, sem poder socegar. Desde as onze horas que a mãi perdera o tino e mergulhara no delirio. Sentia-se sepultar n’um horror sem limites, como se fôra um ponto suspenso no centro d’uma grande esphera vazia, inerte, sem fim, em que eternamente se gira e embalde se chora, sem echo. Fôra de mansinho e descalço, cheio de uma ternura lacrimosa, chamar por ella, dar-lhe agua: a sua pelle sêcca, de um contacto aspero, ardia de febre intensa. Os olhos, de um azul apagado, escancaravam-se n’um pasmo doloroso; um sulco parvo distendia-lhe a bocca, sêcca efetida; a respiração cortada, longa, lenta e difficil, soava por toda a casa, com um ruido de serra. O João parava então em frente da cama, absorto e diluido em presentimentos tragicos. A alcova era estreita e núa, de tecto muito baixo, toda pespontada das moscas. Uma cruz negra pendia á cabeceira, com uma palma sêcca, ao través. N’um canto, um caixote cheio de ferramentas manchava cruamente as faces rectangulares do recinto. Umas saias esfiadas pendiam n’um cabide, com um capote verde, e em torno, moscas aos magotes, zumbiam famintas, como quem se aborrece da ociosidade. D’alli a nada entrou a senhora Joaquina, a visinha do lugar. Trazia um caldo, duas maçãs, cobertas com um guardanapo. E curvada para a doente perguntava como tinha passado a noite, mas calou-se logo empallidecendo, com a chicara na mão.

O olhar do João collava-se n’ella como um borracho sob a aza da mãi, um terror ullulante penetrava-o, com profundeza gelida e cheia de allucinação. A senhora Joaquina olhou para o pequeno e disse isto:

—A cousa está mal!—E sem uma palavra ergueu-se e sahiu. Elle ficou pregado na parede, sem resolução: ouvia os baques do coração convulso, mas não pensava nada, não se lembrava de nada; ficára para alli, como se o atirassem. E media as palavras no ouvido:

—A cousa... está... mal! O que seria?—Tentava fazer um supremo esforço, queria por forçavoltar á sua disposição habitual, respirar livre, mover-se elasticamente, marchar firme, com os seus rijos pés plebeus, mas experimentava uma cousa, inexplicavel talvez: era como se o seu corpo se alongasse muito n’uma facha elastica, e lhe tivessem esmagado a cabeça entre laminas de ferro, depois de o haverem adormecido com chloral, em grande dóse. E no fundo do seu peito dobravam como n’um enterro, aquellas quatro palavras lugubres:

—A cousa está mal!—Os seus olhos erravam pelo tecto, pelo cabide de que pendia o capote em contornos de mortalha, amplas dobras de um funerario abandono. E casualmente, desceram contra as roupas da doente, que arfavam ao tic-tac da respiração. O dia estava triste e forrado de burel; ouvia-se cahir a chuva nas telhas, com um compasso monotono e fino. Á alcova mal chegavam franjas pardas e mal definidas de luz, que não conseguiam contornar as cousas e em triangulos colossaes, amontoavam penumbras ondulantes, de um pavor febril. No animo do João tambem, enormes scenarios de trevas desciam, e obelisco de bronze, o infortunio como o aniquilava sem appello. A sua imaginação viva e de uma excitabilidade supersticiosa e audaz, fazia surgir como no alvo de um phantascopio, grupos nubivagos de defuntos e velhas historias diabolicas de enforcados que ouvira ás visinhas: e tudo eram olhos pela parede, pelas enxergas e pelo chão, na sombra, na treva, na incertaclaridade da porta, que o fitavam escancarados, com uma teimosia agoureira e uma surpreza cubiçosa. E parecia-lhe que alguem o ia a tomar pelo gasnete, que velhas sardonicas, cheias de feitiços, afiavam estyletes para o rasgarem, e um papão de grandes barbas revoltas, capuz profundo de asceta, levantava sobre elle os braços prenhes de maldições e castigos. Os seus ouvidos resoavam interiormente, n’uma vibração confusa de archeus; sentia as fontes baterem com uma onda de sangue convulsionado, e todo o seu desejo era fugir d’alli e correr para fóra; mas tinha medo de voltar-se; o silencio gelava-o, como de crypta secular, em que se tropeça em ossadas de cavalleiros, e se abrem caixões de velludo preto, ao gemer estranho do orgão. Pela tarde adiante a visinha chegou, com uma garrafa, mostarda, lençoes lavados. E poz-se a fazer sinapismos, esfregações, toda repartida em desvelos amigos. Ao lado, o João immovel abria os seus ingenuos olhos azues, uma admiração tosca e vagamente reconhecida. A Joaquina ageitava as roupas, desembaraçada, mangas de lã vermelha e um lenço de ramos sobre os seios murchos, como fructos sorvidos. E dizia:

—Isto é lá cama nem minha avó!

E alto:

—Vossês não teem um quarto com janella? Mudava-se para lá a cama, sempre ha mais ar.

—Ha, ao pé da cozinha. É o meu.

Foram ambos vêr. Era um casinholo arruido.Quasi no tecto uma fresta pyramidal e profunda, sem vidros, dava uma claridade amarella: ouviam-se ratazanas roer no forro, familiarmente.

A vizinha resmungou:

—Peor a emenda que o soneto!—E com um ar distrahido:—Doenças d’estas, ou bem tratadas ou então...

As ultimas palavras fizeram calefrios na espinha do rapaz. A Joaquina corria-lhe a mão pelos cabellos, com ternura de mãi. E olhava-o esquecida, uma tristeza contemplativa cheia de presentimentos e emoções. Uma lagrima cahiu na mão do rapaz. Elle então quiz olhar firme, com a coragem de um homem, mas alguma cousa estrangulou-o, e deixou escapar um soluço...

Quando acabou de chorar, a Joaquina tinha-o no collo, dava-lhe beijos, dizendo-lhe consolações banaes e cheias de mimo. E d’alli a nada:

—Olha, filho, se ella pudesse tratar-se no hospital...

Elle ficou afflicto, todo desconsolado:

—Mas ficava aqui só. Não a via nunca, objectou.

—Qual! Aos domingos dão licença para visitar as enfermarias, lá isso dão.—E explicava: havia muita caridade, boas roupas, tudo de linho, e quanto a medicos... a mestrança... upa!

O João com as pernas apoiadas na parede, a cabeça no avental da visinha, resistia tremendo. Cortava-lhea resolução, como uma lamina frígida, esta idéa excentrica e rubra:

—Se ella morresse...

Tinha os olhos cheios de lagrimas limpidamente angelicas e uma pallidez definhada, retocava de um mimo casto a graça correcta do seu rostinho ingenuo. Por mais esforços que fizesse deixava-se ir vencendo por um quebramento pesado de fatalidades lividas. A Joaquina fazia tambem grande esforço querendo parecer forte, exteriormente alegre, e a cada passo o seu ar tranquillo e descuidoso, obscurecia-se de angustias, que o seu coração de burgueza bolsava em golfadas. E dizia como para si:

—Mandei chamar o medico para vêr a minha visinha. Se elle fôr de parecer que vá para o hospital, agarramos n’ella e toca! O meu homem é muito dos enfermeiros. Um d’elles, o Bento, é afilhado; o Zeferino é até compadre de aguas bentas. Ia bem recommendada, não tem duvida. Lá isso... tratada que nem uma princeza, ólá!—E circumvagando a vista pelos andrajos dos quartos:—que n’esta possilga, meu rico, até morrem os que tem saude. Nem sei como vossês aqui viviam e lidavam.—Cuspia de nojo, e resentida:

—Ai! Tudo por causa d’aquelle negro d’aquelle bebedo, Deus me não castigue pela sua misericordia!

Ao anoitecer, a doente empacotada n’uma maca,foi aos hombros de quatro gallegos para o hospital. Era um cortejo doloroso. As mulheres chegavam ás portas, arregaçadas, no meio de filhos descalços. Algumas diziam—coitadinha!... D’uma janella, a costureira explicava o caso para o segundo andar, e duas ou tres tinham lagrimas e torciam os aventaes, lamentando as cousas d’este mundo. A maca era velha e rangente; o vento da noite erguia a espaços o oleado carcomido e apparecia então na caixa do leito o corpo immovel e morto da velha, coberta com o capote, indecisamente esboçado. Ia atraz o João, descoberto e afflicto, triste na sua pobreza descalça e orphã, como um cão fiel que esqueceram. A Joaquina parada á porta, chorava. Uma ovarina passou, inquiriu do pranto. A outra mostrou-lhe com o dedo a maca, que desapparecia no cotovelo da rua, e disse:

—Aquella já cá não volta.—Escurecera de todo. Um homem de blusa accendia os lampeões.

No hospital, a maca pousou. Dois moços vieram para expulsar o pequeno, que queria ficar com a mãi. Sósinho, abandonado e partido de soluços, foi-se acocorar n’uma porta: ficava diante, com uma grandeza sepulchral, a parede branca do edificio, glacial e esburacada de janellas, onde uma luz vaga, mortiça, esmorecia. Junto da porta a sentinellagirava, e no pateo através das grades, figuras de apostolos, enfileiravam a sua magestade de pedra junto da parede, em pedestaes geometricos e frios. Alli estava a mãi! O que iriam fazer d’ella? Nunca entrára na enfermaria: como seria? E figurava camas de palha cheias de podridão, em que se estorcem corpos de gallegos e mulheres tisicas, n’uma promiscuidade canalha. Sentia suffocações no peito: nem podia chorar! E a rua no entanto, sonora de passadas de transeuntes, operarios que recolhiam, garotos felizes que vadiavam gritando, offerecia aspectos alegres e scenas de vidas bem alimentadas, no quente aconchego dos ménages probos e robustos de labor. Uma saudade lacerante entrou no coração do garoto; e como nunca, encarou a sua vida miseravel. Quando entrou em casa teve medo: uma solidão mortal na cozinha, as ratazanas tripudiando no saguão; abandono, pobreza em tudo. E seria assim sempre! O pai na prisão. A velha no hospital. Que desgraça, que desgraça a sua!...

No dia seguinte era preciso comer. Por conselho da visinha foi vender os jornaes, para não perder os freguezes. Ao meio dia foi saber da mãi. Expulsaram-no de novo, com uma vara. Perdeu a vontade de comer, voltou para casa aniquilado, amarello e vazio.

—Se ella morreu! dizia. E pavores immensos, soturnos phantasmas de uma transparencia madida, surgiam-lhe de noite aos portaes, gemendoCredosde monges, e mostrando dentuças formidolosas. Uma tarde estava no lugar da Joaquina, com os pequenos. Entravam uns e outros a beber vinho: ao balcão um grupo conversava, entre a fumarada dos cachimbos. A voz da visinha gritou:

—João!

Elle foi. A Joaquina disse:

—D’ámanhã em diante, has-de levar oNoticiasa este senhor.—Apontava um velho secco, olho morto, ar veterano, de blusa azul.

O João olhou timidamente.

—Pois sim, meu senhor, pois sim, disse elle. Seja pelo amor de Deus. Em que rua é, meu senhor?

—Não é rua, fez o homem. Tu entras pelaporta do carro, percebes? É no hospital de S. José. Vaes por alli dentro, percebes? Tudo por alli fóra. Ha umas grades, entendes? Vaes por alli adiante e vês uma casa baixa, entendes? Tem uns degraus: é ahi. A porta está aberta para quem quer. Renda barata, entendes?—Ria-se, um riso enorme, adunco, de carnivoro.

Os mais tinham gestos comprovativos. Um até disse isto:

—Livra-te de lá morares, rapaz.

O João não percebia nada. Como era no hospital, observou:

—É onde está a mãi?

O velho tossiu cavamente.

—Talvez já fosse minha inquilina, percebes? Mas entram e sahem muitas, nem reparo.

—Sim, sim, fez o outro.

O homem juntou:

—Lá, os semestres teem vinte e quatro horas, entendes? Tornaram a rir-se. O que era velho tinha dentes aguçados e negros de carie: quando ria, esgares de grotesco barbaro repuxavam-lhe as maçãs do rosto tostado, de idolo. Os annos tinham-lhe polvilhado os cabellos, hirsutos como juncos seccos. No outro dia mal amanheceu, o pequeno entrou aporta do carro[3], subiu a rampa, encostado á Escóla. No terreiro parou para orientar-se. Á porta parava um estranho carro negro, linhas de cofre, todo crivado de buracos, lugubre e frio como um caixão. Sobre a tampa havia uma urna esculpida, meio coberta com um pano e toscamente executada. Um homem sentava-se na almofada; tinha o seu capote azul, o seu chapéo de oleado e a cara vulgar dos caleceiros nem maus nem bons, imbecilmente honrados. Outros dois, em mangas de camisa, traziam fardos de dentro, feitos de serapilheiras esburacadas, mendigas. O João mal reparou n’aquillo: tinha visto a casa baixa ao fundo da rampa gradeada: era alli que lhe mandavam deixar oNoticias. Foi lá. O velho estava em mangas de camisa almoçando café, á entrada.Era um corredor estreito para onde abriam oculos de vidro de pequenos compartimentos claros e cheios d’ar; a luz crua da manhã cahia do alto, pelas vidraças abertas. Ao fim do corredor, um altar negro frisado de douraduras, sahia da parede, e em cima um Christo de pau, entre velas intactas e cheias de moscas mortas, estendia os braços cylindricos, dourados a casquinha.


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