[3]Entrada para a Escóla medica, cozinhas, lavanderia, amphitheatro e mais dependencias hospitalares.
[3]Entrada para a Escóla medica, cozinhas, lavanderia, amphitheatro e mais dependencias hospitalares.
Um arame escuro, de algum timbre distante, riscava a brancura do tecto e unia outros arames convergidos de cada compartimento, como uma espinha de peixe. Oxydada e velha uma lampada de latão cahia de cima com a sua luz inutil na claridade diurna. Tudo aquillo era de um aspecto lugubre e frio através de que se sonhavam infortunios e allucinamentos. O João esteve a mirar tudo: estaria alli a mãi? Era o hospital—devia estar. E via o velho ensopar em café grandes pedaços de pão; olhava...
—Aqui está o jornal, disse. E ficou-se. Tinha ganas de perguntar pela mãi; acanhava-se. Ao fundo, a lampada pendia, como n’um nicho. O altar negro e frisado de ouro lembrava uma capella de jazigo. Tirou o barrete, reverente:
—Ó meu senhor...
—Que é? fez o velho. E tasquinhando—é oNoticias, hein? Aposto que traz o caso da sopeira dos Calafates!
—Ó meu senhor, isto aqui é igreja?
—É hospital: tu não vês?
—É hospital...
E a medo, uma anciedade intima:
—A minha mãi está ahi, está, meu senhor?
Tremiam-lhe os labios, e conhecia-se a dolorida expansão d’um amor de ave, implume e dôce, que descobriu amparo. O velho olhou-o com ironia, depois teve dó, um dó alarve, quasi insolente.
—Procura-a se queres, respondeu.
E o seu dedo escuro e cheio de nós apontava os oculos dos pequenos cubiculos, abertos sobre o corredor. O garoto entrou a medo, como n’uma igreja: como era baixo, não chegava aos vidros. Havia um banco: agarrou n’elle, assentou-o junto da primeira porta, subiu corajosamente com a pasta debaixo do braço. Esteve a olhar, a olhar.
—É um homem, disse elle. O guarda parára de comer; na dilatação da sua pupilla poder-se-hia adivinhar a alegria surpreza de quem vai pregar uma boa peça.
—É um homem, é, concordou.
—Dorme, coitadinho:—e penalisado—tão magro!... Tem filhos, meu senhor, tem?
O velho não respondeu. A esse tempo, já o pequeno tinha o banco ao pé da segunda porta e subia.
—É uma velha, notou elle. Olhe meu senhor, está-se a rir. Cada olho!
—Ri-se de ti talvez, commentou o guarda. E para o afastar do oculo:—Está doida; sahe d’ahi.
O João detinha-se muito pallido e nervoso, presentindo alguma cousa horrivel. E não podia descer.
—Mas ella não mexe!—Tremia de medo.
—Meu senhor!
—O que é?...
—Aqui é o hospital?... Diga, é o hospital?
—Pois o que ha-de ser? Não vês as camas, os doentes?
O João hesitava, agitado.
Não disse nada, desceu devagar com a cabeça pendida n’uma absorpção angustiosa. Poz o banco ao pé do terceiro oculo; subiu.
—É a mãi!—Tinha os ultimos alentos na voz; uma revolta de amores, desconfianças e luto, impulsionára agora de subito n’essa organisação inerme uma desusada actividade, quasi uma audacia. Saltou para o chão, arremessando o banco. Ia abrir a porta. O guarda correu para elle, deu-lhe um encontrão brutal:—Eh rapaz!... Diabo!—Segurava o fecho, olhando.
—Pelo amor de Deus, pelo amor de Deus! implorava o pequeno—É a mãi, é a minha. Deixe-me ir fallar-lhe, deixe meu senhor!
E de mãos postas:
—Pela sua saude, por alma dos seus defuntos!—E com um desespero explosivo:—Ora isto! ora isto!—Levava os punhos cerrados aos olhos; um choro dilacerante abalava-o. Tomou as mãos do guarda:—Só pedir-lhe a benção, meu senhor; vou-melogo embora, vou-me logo embora!—Essa alma dura do velho, verteu compaixão.
—Mas não pódes, não tenho ordem, percebes?—E dava razões:—ella estava com causticos, com una emplastos na espinha; tinha acabado de tomar o remedio; era um banho forte, que fazia dormir. E que bem tinha visto pelo oculo, pois não era verdade? Não lhe tinha visto os olhos fechados? era somno, está claro! E que se queria vêl-a boa, não a fosse agora acordar, a pobre velhota. Percebes?
—Ámanhã vens tu aqui, entendes?—de manhãzinha cedo, e talvez já ella esteja capaz de te vêr; entendes? Pois isto é que é.—Elle de cabeça baixa, reflectia.
—Vossemecê não me engana, não? Sou um pobre de Christo, vivo dos jornaes; não vê?—E apresentava a pasta. O guarda compadecia-se.
—Não engano, homem: para que te havia de enganar? É boa!—Armava no rosto uma sinceridade benevola e rudemente ingenua. O João sahia vagaroso.
—Então ámanhã, meu senhor. Adeus. Seja por alma de quem lá tem.—Ao fundo dos degraus deteve-se para voltar a cabeça. E ficou-se a murmurar pensativo:
—Mas quando uma pessoa está doente, não apanha ar. Alli teem as janellas escancaradas.—Ia devagar, embebido, com os jornaes na pasta.
—Elles sempre são cirurgiões, disse, entendem mais queumqualquer.—E a espaços:
—Então ámanhã. Hei-de-lhe contar que estou muito obrigado á visinha; nem que fosse minha mãi.—E chegou á rua, ergueu o pregão. Todo o mundo era feliz e sorria. Ninguem reparava n’elle.
Disseram-lhe depois que a mãi morrera, e a sua vida mudou. Nunca mais foi visto no sitio nem tornou a levar ao velho oNoticias, todas as manhãs. Dormia nas escadas, de manhã vendia os jornaes, o resto do dia passava-o nas ruas, sentado pelos bancos das praças, dormitando canalhamente ao sol. E a suavidade de genio, a doçura implume dos seus olhos derivaram n’uma rispidez, n’uma malicia de garoto.
Entre os da sua idade começou a ter predominio; era o das partidas subtis, o que commandava as troças que o bando fazia aos velhos, o que ia gritar nas escadas, o que armava intrigas, desenvolvia contendas, e nos magotes repartia sôccos e pontapés, no meio da grita e das risadas dos taberneiros. Durante dois annos viveu esta bohemia das ruas, tripudiando no meio infimo a sua turbulencia e a sua alegria. Ás vezes tinha fome: ia pedir nas ruas escuras, com o barrete na mão, a quem passava. E o seu coração soffria todos os maus modos e todas as humilhações, sem rebeldia. N’esta senda privou com os incorrigiveis, conheceu os mendigos, os gatunos e as velhas de capoteverde, sem meias, que esmolam nos adros das igrejas, em lamentações dolorosas. Uma vez a policia entrou n’umacasa de malta, na vespera de uma parada, e varreu quanto lá achou para a prisão. Os pequenos foram mettidos naCasa da correcçãoe os gatunos no Limoeiro, por contas antigas. Sentiu duramente o carcere, e sinceramente chorou a vadiagem dos antigos dias, em que o seu pé vivo, forte e agil, pisára livremente as ruas em corridas ruidosas, em pandegas de boa marca. Na reclusão, os seus dias medidos por occupações sujeitas a uma tabella e a um horario, foram enlutados no tedio e no sentimento da propria inutilidade: levantava-se antes de nascer o sol com os demais companheiros estremunhados, tiritando do frio que ao longo dos corredores se esfusiava cantando; um sino batia horas acima das abobadas, e o echo ondulava de cella em cella, como o soluço de uma alma penitente, a quem não perdoam; pelas profundas janellas do antigo convento, pedaços de céo faziam manchas lucidas, de espiritualisação ineffavel, em que o olhar dos pupillos se dilatava com grandes tristezas de opprimidos. Caminhavam formados dois a dois para a capella, á oração da manhã. Depois cada um ia para a sua officina, ou para a aula de estudo. Os rudes prefeitos passavam lugubres, lividos e cheios de consumpção, e os seus olhos ferozes corriam sobre as cabeças humildes dos rapazes, curvadas sobre os livros ou sobre os trabalhos de officina. Aos domingos ouviam missa; uma charangatocava no pateo e os jornaes convidavam o publico a ir vêr o collegio, louvando os desvelos do director e proclamando os resultados da instituição beneficente. Alli tomou elle proposito, aprendendo a ter aceio, correcção e aprumo; aos dezoito annos o Ferreira tomou-o para aprendiz: era já uma pessoa cheia de si propria, estatura avantajada, completamente formada, que passara incorruptivel no meio viciado do hospicio, resistindo aos vicios morbidos e fataes da caserna, e salvo n’uma palavra, da ociodade e do desprezo de si mesmo.
Resolveram encontrar-se, o João e Carolina, todas as noites, á hora em que fechava a officina: iriam passear, fallando dos seus negocios sem temer ditinhos da visinhança. Elle instára vivamente para que se ligassem; era assim melhor, não soffriam tanto as saudades da ausencia e estariam á vontade; e se acoisatinha de ser, que fosse quanto antes. Carolina lutava um pouco; todos os seus cuidados eram o pai; quando elle chegasse a casa e os visse, que diria? E supplicante, uma meiguice infantil, obrigava o João a ceder, com pequeninas caricias voluptuosas e finas. As noites eram frias e escuras, orvalhadas no alto de scintillações de estrellas, archipelagos de luz n’um Pacifico lobrego e sem fim. Reuniam-se a uma certa hora no largo da Estrella, e de braço dado, estreitamenteunidos, com declarações pelintras empoladas de palanfrorio sem nexo, diziam um ao outro o seu amor eterno, citando cantigas, pequenos versos de manjarico, procurando a sombra, desviando-se das zonas claras projectadas pelos lampeões, como proscriptos cônscios da sua culpa. De ordinario vinham por S. Pedro d’Alcantara, S. Roque, até ao Chiado. Áquella hora as ruas atulhavam-se de gente abafada em capotes felpudos, carruagens cheias de mulheres melancolicas; um largo ruido emergia da luz, da vida e da enorme respiração da cidade, espapando-se nos ares n’um tom indistincto e abafado. Á porta da Havaneza um forte grupo enchia o asphalto; caras em sombra sahiam das golas altas; de todos os lados partiam rumores de palestras que apanhadas de relance, davam a diversidade mais curiosa e frisante;marialvaspallidos e bonitos, altas pernas apertadas em calças prenhes de joelheiras, chupavam cigarros em grupo, provocando as costureiras que recolhiam dos armazens; militares seccos, sonoros de esporas, uma curva de espinha, discutiam ás esquinas. Á porta da casaSinger, destacando em sombra na crua luz irradiante do lustre, um conego forte e barbeado, envolvia-se na sua capa, baixo perfil de javardo estupidamente grave. D’um lado e outro, a fileira de transeuntes seguia, gente de todas as castas, mulheres embuçadas em mantas, rapazes debeis e palreiros, velhosdilettantida opera que faziam a digestão com charutos fortes; aotrote de grandes parelhas, as familias iam para S. Carlos, recostadas nos cochins doscoupés; e Carolina invejosa da vida que não vivia e da opulencia que a deslumbrava, ia picando as scenas de commentarios amargos, um vago rancor de proletaria. O João murmurava de quando em quando:
—Isto é o tom, isto é o tom!—Gente pasmada parava diante dasvitrinesdo Seixas, admirando oleographias, porcelanas, pequenas esculpturas suissas. Defronte quasi, noElie Bernard, as amas de toucas de renda apartavam polichinellos, pequenas arcas de Noé, para frescas crianças de banqueiros, aconchegadas de arminhos e louramente ideaes. NoLeonel, as senhoras de caudaprincesse, perfis orgulhosos de marquezas, pallidamente altivas, viam setins da estação, fortes velludos de pregas electricas, opulencia cara. Sentia-se apregoar oJornal da Noite. Divas de mantilha marmoreas de riz, elegancias de figurino, vendiam-se a quem passava, com pequenas tosses epsts! Elles atravessavam a multidão, isolados no ruido como estrangeiros. Arua Nova do Carmotinha menos gente, menos luz. No fundo doMargotteau, uma luz soturna agonisava sobre estofos amontoados, pilhas de cochins, bancas de jogo marchetadas, e brilhos de lustres, pendentes do tecto. Sobre o Rocio cahia a cupula tenebrosa da noite, como um assombro legendario; em D. Maria, acima da arcada, pontinhos de gaz escreviamespectaculo; em torno da praça rolavam os trens; soldados risonhossaracoteavam-se na penumbra entre os grupos de velhos celibatarios; o Martinho estava cheio de estudantes e de litteratos; e contractadores de senhas, cauteleiros e americanos em marcha faziam um ruido infernal e continuo, otohu-bohudas capitaes exaltadas pela nevrose da noite. Elles iam seguindo vagarosamente. Fechavam as lojas. Chegavam de ordinario a casa muito tarde. A visinhança dormia. No relogio da Estrella badalavam quartos, som lugubre. Passavam a noite amando-se, jurando a si mesmos fidelidades eternas e amores phenomenaes, em quanto a vela de sebo posta a um canto, deitava clarões amarellos e um cheiro suffocante de morrão.
Afinal o João fez conduzir para casa da rapariga o seu bahú, os seus arranjos. A visinhança fallou do escandalo, nunca se vira uma pouca vergonha assim, o mundo estava perdido.
Muitas diziam:
—Já a comadre bebe! Mas deixa que o pai saberá...
Só a Marcellina achou natural.
—Cada qual governa-se, sentenceava ella.
Os primeiros dias correram-lhes distrahidamente, nas espiras d’um amor canino e deshonesto.
O João apparecia tarde na officina, cheio de somno e de fadiga. E soffria as meias palavras do Ferreira, a sua grosseira rabugice de velho rigorista, via-o atirar as cousas com mau modo, girar nervosamente por entre os bancos de trabalho como olhar relampejante através dos oculos. Para o aprendiz, o melhor tempo era o recolher do trabalho, ao cahir da noite: ia quasi a correr para casa, subia a escada a quatro e quatro; Carolina estava de ordinario costurando, com um casibeque de lã, lenço na cabeça, a face de uma pallidez transparente e dôce. Elle tomava-lhe delicadamente a cabeça, com as duas mãos; beijavam-se com uma sofreguidão provocante, e toda ella vergava languidamente no peito do aprendiz, sonhando as divagações mais sublimes. Nunca sahiam, senão noite feita. Diante d’uma mulher, o João experimentava um aconchego tepido, delicioso: com ella, a sua força, a sua fórma vigorosa e superior, acobardava-se, quebrantava-se, cahia: era então dos sentidos. Não se lembrava de olhar em torno de si, no desleixo da casa nua, repartida em compartimentos baixos e rectangulares, sem luz e esfolados nas hombreiras, com laivos d’oca barbarescos no rodapé. Pelas paredes encostavam-se moveis antigos e côxos; leitos de ferro de varaes tortos, tinham colchões extirpados e cobertores de uma farrapice sordida; em volta nem um objecto limpo e cuidado, nem uma côr alegre e rutilante, em que a vista pascesse uma satisfação honesta; todas as fórmas duras e cruas das cousas tinham um desleixo antigo, de annos, e desmantelavam-se como bem lhes parecia. Pelos aspectos, via-se a historia de Carolina, a sua orphandade, as ausencias do coveiro na desolação das covas, como um desterrado. Nacozinha, a chaminé derruia lambida da fumarada, cheia de terra e tijolos partidos, abrindo como uma guela calcinada e pulverulenta. Têas d’aranha, espessas e papudas, faziam prateleiras aos cantos. N’um poial humido e cheio de covas, rimas de pratos sujos, de almoços antigos, estavam para alli de semanas; sobre o peito da janella, uma palmatoria de barro tinha um coto de sebo; a miseria enrodilhava-se pelas cousas, n’uma frialdade canalha e vilissima, em que se accusava uma existencia sem destino, sem direcção, sem o exemplo d’outra. Nenhum movel no seu lugar, o lavatorio vazio, uma bacia n’uma cadeira, saias enxovalhadas nos ferros dos leitos e o gato lambendo-se sobre um chale. E á medida que passava o tempo e os dois conviviam, Carolina que no começo por pudôr, fôra um pouco cuidadosa, entrou a entregar tudo ao acaso, para alli, aodeixa-te estar que estás bem. Em quanto só, era ella quem lavava a sua roupa, de mez a mez. Quando o João se ligou com ella, foi impossivel continuar aquillo. Eram precisas camisas engommadas, roupas, lenços brancos, quem costurasse, quem cuidasse com amor, sem fadiga, sem mau estar, todos os pormenores do lar e todas as pequenas necessidades do trajo. Carolina nunca engommára. Foi perguntar á Marcellina como era. A velha deu explicações: que se molhava primeiro a roupa em gomma fervida, com um trapinho, e depois se punha a enxugar muito bem, a enxugar... Carolina lavou corajosamente as camisas do aprendiz,mas não ficaram brancas—que birra!... E resignada aqueceu o ferro, pôz em pratica quanto ouvira da velha; mas o ferro tostou-lhe o pano deixando uma nodoa escura e fumegante; ella ficou toda desconsolada, lacrimosa, temendo ralhos, quando o João viesse. Fazia um mez que se tinham visto no arraial. E Carolina reflectindo, comparava os dias á medida que elles se distanciavam do primeiro: as cousas não são algumas vezes o que parecem; nem tudo o que luz é ouro—lá diz o rifão. Era verdade! E entristecia-se. O jantar foi menos animado que os anteriores. O João não tinha vontade, era sempre a mesma cousa... E em conversa disse os seus pratos mais predilectos, em que havia mexilhão, cabeça de porco, refogados. Ella estranhou a palavra.
—Refogado! disse sem perceber bem. Olhava o tecto—Refogado!
—Sim, não sabes? fez elle admirado d’aquella ignorancia. E pôz-se a dar explicações, a dizer como era. E d’alli a pouco:
—Em cousas de cozinha,a modosque sei mais que tu.—E sem mudar de tom:—Diabo! Que te ensinaram então?—Carolina resentiu-se um pouco. Estiveram distrahidos n’essa noite; queriam ambos disfarçar, ter excessos, exuberancias, brincadeiras, pequenas ternuras piegas, mas de repente esqueciam-se, e paravam sem saber porque, absorvidos. Elle perguntava-lhe:
—Em que estás pensando?—Carolina encolhiaimperceptivelmente os hombros, um meio sorriso sem expressão.
—Nada.—E ao acaso:—em meu pai. Porque perguntas?—Estiveram assim. Viam-se os seus esforços para entabolarem palestra e parecer como nos outros dias, mas um tedio e uma contemplação intimas dominava-os, atraiçoando-os.
—Ámanhã é domingo, observou Carolina. E com admiração:—Já ámanhã é domingo, hein?
—É verdade, perguntou elle, tenho roupa?
Carolina sentiu-se empallidecer. Balbuciou:
—Tens.—O seu desejo seria aventurar uma explicação, dizer o que succedera, afiançar a sua boa vontade, pedir perdão da sua simpleza selvagem; mas que vergonha!... Qualquer rapariga engommava, varria, sabia cozinhar, manter limpas as cousas, brancas as hombreiras, sadias de traça as roupas guardadas nas gavetas e nos bahús: e só ella, a burra nada sabia, aquelle grande cavallão! Tomou coragem:
—Olha, disse, e ficou-se; sentia-se palpitar.
—Que é?—Na calada a asthma do gato resfolegava.
—É que eu...—curvára a cabeça com a vista obscurecida de lagrimas. O João ergueu-lhe a cabeça com a mão, tomando-a pelo queixo, com carinho quasi.
—Que diabo tens tu, filha? Então! Que diabo quer dizer essa aquella?—E sem obter resposta:
—Se tens alguma cousa, Carolina...—e commovido,admirado:—mas offendeste-te do que eu disse ha pouco? Nem reparei, foi sem tenção de te magoar.—Beijava-a repetidamente, procurando chamal-a a uma tranquillidade conciliadora e a uma justa apreciação de palavras.
—Não vês que te amo tanto, hein? não vês? Uma pessoa, ás vezes, nem repara nas cousas que diz; vês tu?
Ella abafava soluços, com o lenço.
—Não é nada, não é nada: isto é do meu genioa modostristonho, dizia ella; que eu bem sei que não sirvo para nada, bem me conheço. Para que serve um diabo assim?... Nada sei fazer, nunca tive quem me ensinasse, por minha desgraça! Até nem roupa...
O João acudiu logo:
—Se não está arranjada é o mesmo; lá isso não tem duvida; não nos havemos de ralar por tão pouco. Ora! Manda-se á engommadeira; alguma vez aprenderás.—E enxugava-lhe as lagrimas.
—Sua tola! Agora a choramingar.—E dava-lhe pequeninos beijos, abraços amigos, dispensando-lhe solicitudes paternaes.
—Vale lá a pena! resumia. Não sabes, acabou-se. Ninguem nasce sabendo, isso é velho. Ninguem te ensinou... não tens culpa; é boa!...
Mas no seu animo encrespára-se um mau humor que o ralava, e uma irritação sem alvo fazia-o passear com rapidez, accentuando as passadas no sólo. Não sahiu no domingo, ficou á janella fumando.Via passar na rua, grupos todos aceados, mulheres vermelhas e fortes, cheias de saude e de alegria. E sem querer punha-se a comparal-as com Carolina, tão lymphatica, tão desleixada e tão pouco limpa. Homens iam de charuto, fumegando com pompa, bengala, suas botas engraxadas, camisa muito branca.
E elle não tivera camisa lavada, nem gosto para dar o seu giro ás hortas ou ao passeio.
E molestado, roído, retirou-se para dentro, foi estender-se ao comprido na cama.
—Ai! suspirou. A gente sempre faz cada uma!—E ficou-se immovel, reflectindo, com saudades dos tempos em que era livre e tinha camisas lustrosas, todas brancas, cheirando frescamente a sabão.
Pouco a pouco o aprendiz pôz-se a reparar em tudo, na casa, nos objectos d’uso, na cozinha, nas lavagens. Carolina não tinha nenhum d’esses instinctos delicados e espontaneamente artisticos, que são a revelação da mulher; nos seus menores labores era de uma incorrecção tosca e de uma rotinice escura. Não varria a casa, ou varria-a mal; nenhum methodo, nenhuma paciencia, nenhum amor em conservar as cousas. O João mandára para casa uma commoda, cadeiras, um pequeno espelho, duas jarras de louça azul, e elle mesmo tinha dispostotudo, esfregado o sólo, as portas, concertado as bancas e o leito, nas horas vagas. Mas dias depois o pó cobria tudo, havia signaes das mãos gordurentas de Carolina nos puxadores das gavetas; a cama estava sempre desmanchada, com o signal dos corpos. Elle perguntou-lhe uma vez:
—Que fazes tu, quando eu vou para a officina?
—Costuro alguma coisa, durmo. É tão triste!...
—Mas filha, deves arranjar a casa... aventurou elle.
Carolina ficou-se. A sua natureza preguiçosa, habituada aos ocios, quebrava-se de fraquezas, bocejos e espreguiçamentos, só de lembrar-se do trabalho que tinha a fazer. Ás vezes luctava, fazia uma grande actividade, mexendo por um canto e por outro, mas vinha a fadiga, o aborrecimento: atirava-se para cima dos colchões.
—Se eu não posso!...
O aprendiz dera-lhe vestidos novos, uma pequena capa de xadrez, mantas, roupas de patente com abertos. E tudo andava pendurado pelas portas, á poeira e aos encontrões, desmazeladamente. Passava horas penteando os seus cabellos ruivos, annelados e finos, de lustro macio e espessura abundante, phantasiando penteados, ensaiando laços, cuias arrebitadas, vaidadesinhas de criança. Outras vezes amanhecia preoccupada, taciturna, nervosa, salivando pelos cantos; fazia o almoçomuito cedo. O João ainda ficava ás vezes na cama: ella ia devagarinho olhal-o; aproximava-se curiosa, absorta no vulto do aprendiz que arfava sob as roupas mornas. E cheia de vertigens, de subitaneas paixões que rebentavam do seu temperamento em espiraes de desejos, lançava-se a elle, abraçando-o como doida, fazendo as protestações mais vivas e os amuos mais dôces, tentando vender-se sob uma face nova, inventando mesmo ardores, manias e excentricos phrenesis inexplicaveis. No meio de tudo isto, e afóra estes arrulhos, o seu desarranjo era o mesmo; não lhe passava pela cabeça que captivaria o seu homem, tornando-lhe o lar alegre, limpo, fresco, fazendo luzir a boa ordem, a boa administração e o decoro nos mais simples pormenores da residencia. Fóra do peccado mortal, não tinha prestimo, nem imaginação, nem proposito.
E n’este meio o seu corpo desenvolvera-se um pouco; os seios ampliaram-se n’uma curva graciosa, de contorno quasi casto; e esmaltado de pallidez morbida, lasciva e um pouco scismadora, o seu rosto era dôce, de uma harmonia dolente, como certas pinturas de virgens martyres que oram em attitudes pias, no fundo das capellas da arte gothica.
Um dia o João achou-a fetida, cheirando a saias velhas; nunca mais lhe sahiu esta idéa da mente; entrou a achal-a esqueletica e cançada; ao deitar-se fazia um esforço para não parecer saciado, mas os seus beijos eram frios, convencionaes, espaçados. Ella reclamava, cobrindo-o da sua paixão como deum caustico, querendo reapoderar-se d’um amor que lhe sentia fugir e padecendo em balde, ciumes de todo o mundo. E começou a desconfiar, a seguir o João á officina, a furtar-lhe as voltas. Nas menores palavras que elle dizia encontrava dois sentidos, o apparente, e o occulto que parecia envolver sempre um sarcasmo, uma ameaça, um insulto. Foi uma lucta tremenda; a sós fallava alto, altercava comsigo mesma, dizia pragas, architectando projectos de vingança e planos de seducção.
Havia horas em que a sua vontade era morrer, tomar qualquer corrosivo, precipitar-se da muralha de S. Pedro de Alcantara; outras vezes estalava de afflicçoes, contorcia-se em desvairamentos supremos, querendo chorar, soluçar, pôr em evidencia a sua sorte. Quando elle vinha, affectava rosto sereno, uma certa despreoccupação feliz: mas a sua gana era apertar-lhe as guelas, para que outra o não gozasse. Em quanto o João comia, ella encostada á porta da cozinha punha-se a fital-o do fundo da sua paixão damnada, cheia de idéas tragicas. Uma noite agarrou-o pela cintura, os olhos envidraçados:
—Tinha mesmo vontade de te matar! disse sofrega. O João riu-se, olhando-a; mas ficou logo todo serio, abrazado n’aquella ancia, e uma corrente galvanica percorria-o, nascida no olhar d’ella, sequioso e feroz, cheio de gula e de fel.
Vieram então as pequenas especulações, as pequenas ciladas sujeitas todas a um plano geral demá indole, de reserva e de ciume—da parte de Carolina. Umas vezes, era o jantar que não estava prompto a horas, outras reclamava bugigangas de adorno, fitinhas, meias de riscas escarlates.
O João satisfazia tudo, ouvia tudo, mas era-lhe indifferente esta ou aquella deliberação; tudo achava capaz, assisado, justo.
Já não era o mesmo. Emmagrecera nas faces e andava pallido, com os olhos fundos de cansaço. Tinha agora para mirar as mulheres uma attenção persistente, uma fixidez de olhar que as percorria todas, desde os cabellos até aos pés. E muitas vezes na rua voltava-se para traz, seguindo as que lhe passavam perto. As suas predilecções eram todas para as roliças, e sentia furores pelas trigueiras, em cujo labio superior via ensombrar-se a penugemzinha de um buço, denotativo de vivacidades de temperamento e escandecencias de sangue.
—Mulher que se sinta nas mãos! notava elle rudemente.
Esta transição demarcava o homem feito e precocemente liberto das ultimas infantilidades, homem com caracteristicos de appetite, phrenesis e vacillações de caracter.
A cara emborbulhára-se-lhe de barba, tinha-lhe engrossado a voz e accentuava-se um cunho imperioso no seu modo de dizer.
Na officina, quando de manhã apparecia em algum d’aquelles desalentos profundos, nascidos da desordem das noites, os collegas riam-se cobrindo-ode chufas e apoquentando-o com perguntinhas velhacas. Do seu banco, o Ferreira não dava palavra, mas de quando em quando sahia-lhe um canto nasal, espaçado por grandes silencios, que era a sua fórmula de raiva brusca, recalcada por sessenta annos de prudencia. Os intimos porém queriam da bocca do João saber por força como tinha sido, se adormecera tarde e se a lua de mel continuava. Entre risadas apupavam-no dos bancos de trabalho:
—É o mez dos gatos, não admira, diziam.
Elle dava cavaco em ouvindo estes dichotes. Ficára mal com os dois ou tres mais atrevidos, jurando que faria alguma ainda. O seu genio concentrava-se n’um silencio reflexivo, quasi triste. Era muito exacto ás horas do trabalho, pacientissimo aos ralhos da rapariga, vivia pouco em casa, recolhia tarde. Ella uma vez observou-lhe:
—Tu já não és o mesmo rapaz, João!
—Ahi vens com tolices, tornou elle.
Carolina invadia-se de um terror desconhecido, toda entregue a uma desconsolação.
Uma tarde a Marcellina appareceu:
—Adeus, filha, adeus.—E notando a commoda, as cadeiras:—Viva! Isto é que é! isto é que é!... Viu-se tafularia maior?—E mirando Carolina:
—Que senhoraça, que senhoraça! Toda no chefe. Sua espiguilha no casibeque, sua cruz ao pescoço... Ai! quem tem homem não sabe o que tem.Vejam como tudo está mudado.—E baixo:—Quanto custou cada metro?—Apalpava a fazenda do vestido, esfregando-a, estudando a espessura. E expluiu logo em narrativas, que a mulata tornára para o hospital, e morrera! Minhas ricas quatro moedas, que fiquei a vêr navios. E azorragando os caloteiros abria a caixa de tartaruga, tomava rapé com os dedos em leque, sorvendo com grande delicia, o olhar piedoso.
—Como te vaes dando com elle? inquiriu, passado tempo.
—Bem; então como? É muito bom rapaz, lá isso sempre o direi.
—Bom genio, hein?
—Bom genio...—E vencendo uma repugnancia, affectando grande franqueza para com a velhona:—Olhe, todos nós temos as nossas cousas, percebe?
—Está visto, está visto. Que bom, só Deus.—Fizeram um silencio beato. A Marcellina desconfiava já que tinha havidomócada. Interrogou cheia de curiosidade:
—Mas houve alguma cousa?
—Não. O que havia de haver? Hoje em dia, uma mulher precisa saber de tudo. Eu confesso a verdade: de engommados não sei. Quem é pobre não usa certas cousas.
—N’isso fui eu sempre, com’a primeira. Não é por me gabar. Que engommo encanudados ainda hoje, como poucas—e explicita:—e que é umadas cousas mais custosas de fazer bem, o engommado!... só o polimento!...
—É verdade, é verdade, dizia Carolina.
—Mas o que? Elle disse algumapiadapor isso?
—Estranhou. Elle nunca se zanga.—Armava no rosto uma soberania indomavel.—Zangar-se? Oh!... tenho-o aqui fechado—e estendia o punho—mas...
—Ora dize a verdade: tu queres contar-me alguma. Co’os diabos! Bem sabes como eu sou. Falla á vontade. Se eu te puder valer... p’r’ás amigas estou ásordes.
—Olhe, é verdade. O João nos primeiros dias, eram excessos que nem eu sei. Andavamos sempre aos abraços, ás festinhas, nunca nos separavamos. Mas ha uns dias que o vejo apoquentado, mettido comsigo; come e vai-se com Deus; hoje não gostou do jantar; passa as noites fóra, recolhe-se altas horas; a minha desgraça!—A velha pasmava.
—Pois olha, fartou-se cedo, o melro! Então será de má bocca? Mas não desconfias de nada? Não lhe déste tu motivo?
—Que eu saiba, não. Talvez se aborreça por eu não saber bem governar a casa. Sempre disse: nunca Deus me dará fortuna em cousa nenhuma!—A Marcellina reflectia. E d’alli a pouco:
—Queres tu experimentar as cartas? A vêr o que dizem.—Carolina estremeceu.
—Credo! Tenho medo.—E mais baixo:—Dizem que apparece o diabo!...
Ficaram caladas. E depois:
—A mim, ninguem me tira da cabeça que o João anda deolhocom algumagaja.
Puzeram-se a fallar no tempo. Marcellina ergueu-se para sahir.
—Se elle te não quizer, filha, não morrerás de fome por isso. Graças a Deus, em quanto houver homens, qualquer mulher se governa. Tive muito d’isso, tive. Ai!... Tomára-me n’esse tempo!—Desceu a escada. Á porta observou, piscando maganamente o olho:
—Não fui das que gozei menos, não. Que até condes beijaram este palminho de cara. Ai! Bom tempo!—E serviçal:—Eu indagarei, eu indagarei a cousa.
A rapariga não dormiu n’essa noite. Ergueu-se inda lusco-fusco, cabeça pesada, uma fadiga enorme nos membros. Sentia que a sua vida oscillava na noticia que a Marcellina trouxesse, como n’um fulcro de aço uma agulha magnetica. Ao meio dia de feito, a velha voltou, olho arregalado, agilidade de alcoviteira no andar, rebolando-se, co’as barbicas assanhadas.
—Sabes tu, sabes tu? Vai todas as noites ao Moinho de Vento palestrar com uma sirigaita do primeiro andar, mesmo á esquina do pateo, por cima da loja de louça. Está alli horas ao relento, atomar argarejos: só com uma carga de pau!
—Por isso elle vem tarde!...
—Vejam as habilidades do Santo Antoninho de quinta, hein? Ahi está para que elle se empenhou tanto commigo, para chegar á tua falla; vês tu?—Atafulhava as ventas de simonte. Carolina ficára morta de surpreza, de terrores, e desesperação.
—A minha desgraça! repetia. A minha desgraça!...
—Quem me contou tudo foi a Mathildes, uma que engomma para fóra; eu estava mesmo parvinha de todo, nem o queria crêr, vê tu lá. A gente vê caras não vê corações: é certo. E para mais é todo amigalhaço do irmãoda dita pessoa; andam sempre de sucia, grandes chalaças, sim senhor; franquezas de tabaco; para onde quer que vão, vá de vinhaça,comes e bebes, com toda a grandeza! Ai! hojepresentemente, minha rica, nem uma creatura sabe para o que está guardada. Algum dia em acontecendo uma d’estas, parece que atéia tudo raso. Havia justiças, muita obediencia; então com quem brincavam elles? Hoje... Eu até fiquei sem vontade de comer: t’arrenego! e depois veio-me a dôr.—Dava um estalo com a lingua.—Mas deixa estar, que t’o cantarei.—Carolina nem ouvia.
—E agora? disse ella com um gemido, atirando-se com uma grande angustia sobre os colchões, miseravel na sua decepção.
A Marcellina tentava fazel-a sentar, compondo um rosto compungido. E dizia a espaços:
—Ó filha, pelo amor de Deus! Isso não éagora morte de homem. Ha muitos modos de governo. Estavamos servidas se fossemos agora a morrer por todos os malandros que seraspam, em nos apanhando.
E como achando o modo de tudo solver, em quanto a outra chorava:
—Olha, pódes-te empregar na fabrica, dois tostões por dia; leva-selunch.—E muito baixo:—para quem querreinar, nada melhor.—Piscava o olho:—percebes, percebes?—E desenvolvia projectos, propunha expedientes.
Encontras logo arranjo; nas fabricas então écomo passastes. Conheço lá muitas que andam alli mais estimadas, que eu sei; ellas bem vestidas, bemdoiradas, arranjo de seu, alli o jantarinho de carne todos os dias...
—Gente sem vergonha! commentou Carolina, com voz cantada pelo pranto.
—Ora historias, filha, historias!—E sentenciosa:—Que n’isto de vergonha cada qual toma da que gosta. Em se evitando fallas do povo, deixa andar. Dois dias que a gente anda por cá...—E generalisando a doutrina que prégára:—se vamos assim, então não ha ninguem de vergonha no mundo.—Carolina abanava a cabeça. A velha com ademanes de mestra, cuspia-lhe no animo a sua piedade de estafermo.
—Ainda estás muito verde, minha rica! dizia.
Cahiram em silencio. Ás vezes soluços fundos, estrangulavam a garganta da rapariga.
—E eu que cri em tudo! lamentava ella.
—E não queres vêr? Eu iria pôr a mão nos livros sagrados. Não me salve, se julguei que succederia isto.—E com voz cantada:—vamos nós agora a vêr o fio da meada. Como diabo sahirá elle d’esta?
—Como sahirá? casando com a outra. Vejam como. Lá tem o irmão que a defenda. Só eu não tive quem me aconselhasse.—E desfazia-se n’um choro intimo, dizendo a sua infelicidade.—Morre quem faz falta, só Deus me não chama p’ra si...
Havia tempo que homens altercavam na rua, entre sons de guitarras. De repente, uma voz avinhada disse umfadochoroso, em que se despediam almas e se davam facadas, em verso. Rameiras de grandes caudas de gomma riam com estrepito, dizendo doçuras roucas, de uma vadiagem canalha. Carolina gemera:
—Ai vida, vida! Só aquellas nunca estão tristes!
A velha tinha-se erguido, interessada na algazarra da rua, curiosa de espreitar a pandega como um antigo commensal expulso. A voz dizia:
Pobres donzellas honradas,Quanto de vós tenho dó!.............................
Pobres donzellas honradas,Quanto de vós tenho dó!.............................
Pobres donzellas honradas,Quanto de vós tenho dó!.............................
Pobres donzellas honradas,
Quanto de vós tenho dó!...
..........................
Carolina de cabeça um pouco erguida, tinha ficado a escutar; toda a gente ria quando ella chorava!...Em que coração acharia interesse?—E via de pé a sua desdita envolta em fumos negros, olhal-a cheia de rancor inquebrantavel. Queria recordar-se da sua meninice, como quem se refugia, mas diante d’ella desfilavam recordações lugubres, surgiam grupos de mortos, filas de cyprestes, um coveiro encanecido que erguia a enxada, cantando.
Não tinha a menor idéa do que fosse ter mãi ou ter amigas. No seu contacto com a gente, entrevira apenas o tenebroso fundo de bestialidade que referve em cada homem, com um fragor de luxuria cruel. Vivera sempre em si propria, sem a reminiscencia de um carinho que alma piedosa lhe houvesse prodigalisado. Quantos beijos deixára roubar aos moços do cemiterio e quantas palavras tinha merecido aos gatos pingados, todas vinham hervadas da mesma idéa e do mesmo intento. E assim crescera n’aquella incultura de espirito sem guia, sentindo dentro avigorentar-se-lhe apenas uma tendencia—a da cadella fertil, que vai entregar-se. Através da sensação rudemente nascida olhára o mundo, esfaimada e torpe como se fôra um verme descommunal das sepulturas, incapaz pelos desolados scenarios que tinha contemplado nos seus dias de criança, de dar accesso na sua alma ás multiplices emoções e susceptibilidades hystericas, que fazem da mulher o precioso receptor das cousas mais subtis, que a lingua não exprime e os olhos mal sabem formular.
Tinha-se dado ao primeiro que chegára, sem condições e sem receios de pudor. Fôra a Marcellina a causa de tudo. Para que lhe viera contar de padres babosos e varinas amancebadas?
E detida, conscia de um desalento mortal, sentia na penumbra os olhos de Marcellina, cahidos sobre a sua cabeça com um brilho fatidico. Fóra, riam com estrepito no meio de disputas sordidas. A velha tomou-lhe a mão, aproximaram-se ambas da janella.
—Queres um conselho mesmo cá de dentro, queres?
—Que é? fez a rapariga.
A outra estendeu o braço na direcção das janellas de taboinhas, e o seu dedo engelhado apontou as cabeças de altos penteados, que destacavam com relevo negro no tom vermelho dos quartos alumiados da casa fronteira.
—Olha, disse ella. E com gesto de quem se impõe, de quem se mette por uma pessoa dentro:—Lembra-te do que te digo hoje.—A sua voz insistia, escolhendo os tons persuasivos, dôces, sinceros, e ao mesmo tempo as suas palavras discretas, ditas no fundo d’um segredo, vinham com uma intenção perfida, cheia de depravação. Carolina ficou hirta perante aquellas insinuações, olhando com os seus olhos cheios de febre, a cara franzida, esperta, d’essa megera que dominára o seu destino impellindo-a na perdição e apontando-lh’a como um fim logico, consequente e feliz. Grandesdesvairamentos pulavam-lhe no craneo, exagerando-lhe os sons, tornando-lhe as figuras sarcasticas e as sombras lugubres. E as fontes pulavam-lhe, como molas premidas que reagem; e o seu espirito dilacerado de afflicções saturava-se de alguma coisa estranha, como o indifferentismo ou a idiotice.
N’essa noite o João entrou a deshoras; cambaleava de bebedo, cantarolando todo cheio de terra, como quem tivesse cahido pelas ruas, á porta das tabernas. Ella viu-o chegar sem se mostrar surpreza, como quem esperava mais. Mas disse ao metter-se na cama, estas palavras sem nexo:
—A fabrica...
E com um movimento imperceptivel de labios:
—O collegio...
E ficou a pensar, immovel, com os olhos fitos na luz.
Estas duas palavras representaram d’alli em diante o seu destino, guiaram-na por um caminho espinhoso que sonhara ridente, em horas de contemplação e plenitude.
Ao João era manifesto o tedio d’aquella vida e o mau estar d’aquella união. Pouco a pouco, com transições insensiveis, as palavras d’elle adquiriam notas asperas, grandes phrenesis inesperados, uma taciturnidade crescente, moedora e constante. Ellaexperimentava por seu turno uma altivez ferida e rebelde de mulher espesinhada e esquecida por outra; em certos dias estrangulava de raivas surdas em que resfolegava a espaços, a ancia de humilhar, infamar, perder alguem; fazia arias estrondosas pelas casas fóra, garganteando pelintramente como no theatro; mas a noite vinha gradual; ficava logo invadida mortalmente de uma grande tristeza, de uma inexplicavel passibilidade indifferente ao estimulo, dominada de presentimentos e architectando toda tremula futuros famintos, esfarrapados e enfermos. Não passava uma tarde sem vêr a Marcellina; juntas, parolavam durante horas, desenrolando planos mysteriosos e discutindo futuros. A velha revelava pormenores de officio, as subtilezas de que lançam mão certas mulheres, o segredo de provocar, chamar, sorrir, andar na rua, mostrar as riquezas do busto, conservar a face rosada, mesmo depois de uma noite de orgia. Carolina reagia com monosyllabos apenas, a esta insinuação torpe; mas abandonada pelo João, a fallar a verdade, que faria? Foi assim que ella determinou entrar na fabrica, em Alcantara. O João não oppôz resistencia; via o meio de afastar aquella rapariga importuna que o estorvava nos seus projectos, nos seus namoros. Ia todas as manhãs muito cedo, com o seu passo miudo e rapido, saracoteada e risonha, com a sua manta de borlas, uma capa de escocez verde, saia de folhos, olunchn’um cabazinho da Ilha. No caminho encontrava as companheiras, moças alegrese desembaraçadas, cheias de risos, largando chalaças de mordacidade equivoca. E iam todas por alli fóra. Os merceeiros dirigiam-lhes afagos perfidos, apupavam-nas os gallegos sujos, os estudantes e os soldados. Que pandega! Respondiam a tudo com grandes risadas bebedas. Uma então, a Jeronyma, trigueira, a face picada de bexigas, até dava encontrões nos policias, piscando os olhos: e todas se divertiam a valer. Á entrada da fabrica, os operarios davam-lhes abraços, com grande intimidade; tratavam-se todos por tu, com uma algazarra incorrigivel, até que o fiscal, de barba branca, o seu casacão amarello, um cachimbo preto de nogueira, abria as portas da officina. No corredor, os operarios dividiam-se em turmas; uns iam para o empapelamento dos cigarros; outros iam picar o tabaco; alguns cortavam rotulos para as caixas de charutos. Se o borborinho crescia em torno das longas mesas de trabalho, o fiscal erguia a voz:
—Nada de algazarra! Parece que estamos n’alguma feira!—E todos fallavam baixo, contando historias pagãs de gente sem vergonha, de uma sordidez de viella. Sem grande esforço Carolina aceitou estes habitos que se lhe afiguravam de uma naturalidade legitima, tão sincera e tão commoda. Affeiçoára-se á Jeronyma, participando das suas opiniões, dos seus ditos, da sua fama. Ao escurecer o fiscal dizia, dando uma grande palmada na mesa:
—Seja louvado Nosso Senhor Jesus Christo!—E todos largavam o trabalho, tomavam os seus chapéos, os seus chales, os seus capotes; na escuridão do corredor estalavam beijos, pares canalhas escorregavam nas escadas, havia gritos, e a chusma em tumulto, n’uma desordem vadia, atulhava rapidamente o pateo, combinando cêas, encontros, relações impuras. Foi a vida melhor que Carolina viveu. Aquella grande liberdade, infiltrára-lhe uma alegria espontanea, uma grande destreza, um vigor manifesto. Ganhava dinheiro além d’isso; cabida nas graças do fiscal, obtinha sempre uma feria bem favorecida, sua gorgeta para alfinetes. Teve a partir d’aqui, pelo menos, uma duzia de amantes, amantes de uma semana, de um dia, preferidos á noite, esquecidos no dia seguinte, e concorrendo todos para a sustentação d’um luxo que pouco a pouco se ia manifestando em Carolina. Um domingo appareceu em casa da alcoviteira, toda penteada á moda, com um chapelinho de fitas verdes, um casaco bordado de contas, meia de riscas, leque. A velha discutia com duas raparigas o preço de um vestido de fazenda, que mostrava com largos elogios.
—É um ovo por um real, minha rica, dizia.—Um vestido como novo!
—Mas seis mil reis é muito bom dinheiro, santinha!
—Pois olhem que da peça é o triplo do custo.Agora façam lá o que quizerem.—E voltada para Carolina:
—Viv’ó luxo! Viv’ó luxo! Vaesóservandoque eu tinha razão no que dizia.—E com insistencia:—tendo tino não ha cousa melhor, meu anjo.—E baixo, tomando-a de parte:—E elle?
Carolina encolheu os hombros desdenhosa, um ar de desprezo. A velha disse-lhe ao ouvido:
—Quem paga a renda da casa?
—Meu pai. Ha dois mezes que o não vejo, por tal signal.
—Pois filha, se o João não te serve para nada que se ponha ao fresco, quanto antes. Primeiro, o teu governo.
—Sim, sim, disse ella pensativa.
E dirigida pela alcoviteira, começou a viver só.
Desde esse dia, as aventuras vieram-lhe por centenas. Conheceu todas as especies de homens a quem se impingia ás horas, por baixo preço. As gengivas tinham-se-lhe descarnado, pintava os beiços com carmim e para o giro da noite cobria-se toda de pó d’arroz. Forçava-a a profissão a pequenos sacrificios, no intento de agradar aos que a buscavam. Comprimia os pés em sapatinhos altos, golpeados no peito para deixar vêr a meia de côres.
Apertava a cintura e os flancos com espartilhos que a estrangulavam em duas metades, deixando-lhe o thorax afunilado e hirto, o figado oppresso ea respiração entrecortada. Á hora dos theatros, quando nas ruas da cidade baixa fervilha inquieta a multidão dos que digerem, e giram buscando par os velhos viciosos e os rapazes definhados, ella descia do seu bairro obreiro mais a Jeronyma, paramentadas ambas de arrebiques pelintras—á pingadeira, como lhe chamavam. Tinham horror á policia, procuravam as sombras da rua chegadas uma á outra, e olhando quem ia com o riso postiço das rameiras de profissão. A espaços, automaticamente quasi, segredavam aos homens amabilidades sordidas, desenrolando toda a giria do officio.
E ao pararem para apertar as mãos dos cocheiros e dos trolhas circumvagavam a vista de um modo inquieto a vêr se—andava algum.
As noites assim passeadas até deshoras fatigavam-nas de morte. De manhã nem se podiam mexer, uma paralysia de musculos, as articulações endurecidas, um travor na bocca saburrosa, das más digestões desordenadas. Succedia por vezes amanhecer-lhes pelas escadas, no outro extremo da cidade, ou nas hospedarias de má nota onde vão anichar-se as ultimas excoriações da torpeza. Expulsavam-nas então com o nojo que nasce da saciedade, escada abaixo, sem lhes pagarem muitas vezes.
Se retrucavam, era sempre a mesma ameaça que as ia fazer calar—a policia e o livrete. Aquellas duas palavras punham-lhes baques nas fontes, suores de rins e um calafrio mortal pelo dorso.
Na rua, os dichotes dos vendilhões e dos gallegos cuspiam-lhes na face obscenidades de tremer. Riam-se, retrucando algumas vezes. Mas a humilhação era frisante e seguiam sempre sob o terror da chacota ou da prisão. A indolencia de Carolina era agora mais refinada que nunca, deixou de ir á fabrica, passava os dias na enxerga da pocilga, dormitando.
E d’uma vez teve fome, sabbado por signal. Contrahira já os ultimos vicios supplementares da devassidão, fumava, bebia, e nas tabernas em estando bebeda punha-se a dizer com voz rouca fados ignobeis, no meio dos cocheiros excitados e ao som dorido da guitarra.
Os velhos appeteciam-na de preferencia, pelo seu ar moço e pelos seus cabellos ruivos. Havia um coronel reformado que lhe dava dinheiro para sapatos catitas. Era um velho gordo, de oculos, todo grave na sua sobrecasaca preta. Gostava d’ellas bem calçadinhas, meia esticada, e começava sempre pelo pé, acariciando-o de diminutivos ternos.
Era o seu melhor amigo, aquelle senhor tolerante, e d’uma vez desapparecera. Vieram os maus dias então, a policia vigiava as casas de má nota, e prendera a Jeronyma uma noite...
Carolina lembrou-se de voltar á fabrica. Sentia-se doente, fatigada d’aquella vida de acaso que lhe não tinha dado senão fomes, maus tratos e terrores. Mas encontrou já occupado o lugar, quedeixára na officina. Quando descia ao pateo, deu com o fiscal que se pôz a olhar para ella muito tempo. E d’alli a nada lhe disse, voltando a cabeça:
—Como vossê anda já...
Aquella commiseração affligiu-a cruelmente, e chorou todo o dia mirando no espelho a cara chupada e amarella, onde entre circulos rôxos luziam dois olhos febris. Dias depois, a policia que a espreitava conseguiu surprehendel-a em flagrante, e d’alli a nada era inscripta no livro de cinco mil nomes, uma das glorias já hoje, d’esta florescente cidade que passa os seus dias enchendo de moeda falsa os Brazis, e servindo oleo de bacalhau ao melhor de cem mil tuberculosos.
Datam d’aqui todos os episodios da existencia que teve o seu epilogo ha tres dias, n’uma das camas da enfermaria de Sant’Anna, no Desterro. Foi otio Farruscoquem cobriu de terra, sem commoção nem saudade, o corpo espedaçado pelo meu escalpello, da rapariga corroida de podridões sinistras, abandonada do berço ao tumulo, e pasto unicamente de desejos infames e de desvairamentos vis. Tenho sobre a minha banca n’este momento, a sua caveira fria, limpa de pelliculas e cartilagens, branca e escarninha, cujas maxillas escancaram diante de mim n’uma careta tragica, a suaconcavidade cheia de sombra. Este despojo inerte, rendilhado e esponjoso pelos estragos do hydrargyrio, embalde interroga a meditação que me abysma, sobre as causas provaveis da grande desmoralisação actual.
1878.