Imagem decorativaO Milagre do Convento
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Ficavao convento a meio das vinhas, n’uma larga planicie florente e verde, em que as oliveiras punham a tristeza biblica das suas comas cinzentas, como de zinco oxydado.
A léste corria o enorme espinhaço da cordilheira, alteroso e pavido, cuja nudez aggresiva de linhas se coloria de manchas plumbeas e vermelhentas, de que os penedos destacavam selvaticos, lembrando ruinas de monumentos celtas. N’um campo de visão esplendoroso e infinito, alargava-se para o sul o horisonte azulado na massa d’ar, semi-circulos de planicies que mais e mais se iam perdendo no esfumado das exhalações longinquas.
Do campanario da igreja, o olhar que se alongasse, transpunha d’aquella banda livremente, a fronteira de Hespanha, no seu vôo silencioso de andorinha inquieta.
Em torno ao velho casarão, a ruina dos muros da cerca, uma alta cruz truncada, e dois ou tres arcos d’um antigo aqueducto de abastecimento, assignalavam a expulsão violenta dos pobres capuchos, primeiros senhores da casa até ás luctas da ultima guerra civil. O edificio e a cerca, vendidos a um fidalgarrão da Vidigueira, derruiam vagarosamente, á mingoa de reparos. O fidalgo arrendára tudo, abandonando a provincia onde só voltava de anno a anno para vender herdades ou hypothecar pastagens e azinhaes. Na cerca, os amplos tanques de pedra estavam desconjuntados e seccos, cobertos de cicutas viridentes; a canalisação atulhava-se de raizes e moitões de lôdo das ultimas enxurradas; cahira o aqueducto; e á bôcca lobrega das cisternas, as figueiras bravas irrompiam alongando os troncos brancos, em que rebrilhava o verde de largas folhas de recortes duros, como antigas faiences de Coblentz. Debaixo das nogueiras, cujo aroma rescendia morno a cada respiração da aragem, torciam-se as heras nos bancos de granito, estendendo tentaculos no seu deboche de vegetação verde-bronze, e subindo como um desejo, pelas fibras das arvores colossaes. Uma estatua de apostolo martyr cahira de encontro a um castanheiro enorme, cujas palmas faziam cupula sobre essa cabeça vergada,de granito. Ao longo da ribeira, os platanos e as faias postavam-se como avançadas, n’um surdo murmurio intimo de seiva. E para além o laranjal espesso, vergado até abaixo, alargava-se embalsamando o ar, onde as pombas fugiam no azul pallido, como almas, que purificadas penetram os hombraes serenos da bemaventurança. O convento, de paredes cinzentas, telhados cobertos de herva e janellinhas de cellas, desamparadas como orbitas sem olho, pesava na paizagem viva, com um ar de mendigo que esmola, á beira dos caminhos. Acima da grande massa oblonga de muros, fortalecidos a gigantes de cantaria, as duas torres sem cupula, encimadas de pequenos obeliscos de alvenaria musguenta, de cujas cristas o furacão cuspira os cataventos, erguiam-se tristemente, com um desenho tosco e primitivo. Nos claustros, o feitor da propriedade estabelecera tulhas do lagar de azeite, cobrindo de taipa uma das faces do quadrado de arcarias, rasgadas sobre o pateo central—onde os limoeiros vinham espalmar toda uma tapeçaria de folhas curvas e espinhosos troncos, salpicada pelo oiro baço dos fructos, ovalares e rescendentes. Uma legião de passaros vivia n’esse pateo, na ebriedade festiva dos aromas; ao centro o poço de pedra, de relevos brutos, especava no ar a roldana negra que tinha, ao anoitecer, um perfil de forca viuva. No tempo dos frades, as festas cheias de rumores do velho orgão, de incensos e flôres, chamavam dos arredores as aldêas e farta colheitade esmolas. Agora a devoção por essa velha igreja em ruinas, de altares carunchentos e abobada fendida, esmorecia lentamente. Fallavam demedoserrantes pelos claustros, soluços pelas escadas de pedra, e vozes que vinham gargalhar blasphemias á bocca do poço quadrado do pateo. Apparecera mãi uma filha do eremitão. E os santos, toscamente esculpidos e miseraveis nos seus farrapos de tunicas, não inspiravam respeito. O Senhor dos Passos, com uma enorme cabeça de marfim, estava alliviado a um canto, do peso da cruz, que o sacrista bebedo partira uma noite, depois da procissão. Andavam aos pontapés pelo craneiro, amolgadas e sujas, as lampadas de latão, verdentas de azevre; os castiçaes coxeavam cobertos de cera pingada e moscas mortas. E por um buraco do côro, alta noite, piando escarninhamente, as corujas entravam para os ninhos da capella-mór, famintas do azeite das lamparinas. Duas vezes por semana, domingos e quintas, Manoel do Cabo sacrista mais o padre Miguel de Deus sahiam da aldêa, para celebrarem missa no convento, a que só assistiam o eremitão e a filha, os moços da horta mais o feitor, gente sombria com o ar estupido dos ignorantes maus.
Uma noite, padre Miguel de Deus appareceu morto na cama e ficou vago o lugar de capellão do convento. Só depois de instancias repetidas é que padre Nazareth aceitou o cargo. E torcendo o focinho bilioso de egoista, dizia para Manoel do Cabo, uma quinta-feira, apontando a igreja:
—Isto não deixa nada, mas com reformas...
Manoel do Cabo que era lido em autos, historias de Carlos Magno e princezas Magalonas, não deixou sem commentarios a sentença do snr. padre Nazareth—um finorio, como se dizia na loja do Burjaca.Mas com reformas... meditava elle á lareira, em quanto a filha Escholastica, junto da candêa fazia renda, pensando em ganhões de braços robustos. Que diabo de reformas seriam? A igreja não tinha rendas, nem alfaias, nem concerto sequer. A miseria ia, esfrangalhada e immunda, das toalhas dos altares aos doceis desbotados da capella-mór. Começava a estalar a carnação dos martyres; nosso padre mestre S. Domingos perdera pouco a pouco as orelhas; havia um S. Luiz carunchoso em cujo ventre os ratos faziam residencia segura, por todo o anno. E fallar o padre Nazareth em reformas!...
Chegou o verão d’aquelle anno, tempo das romarias.
Cada domingo era consagrado a sua ermida—á Senhora de Guadelupe, a Santo Antonio, a Santa Clara, a S. Pedro das Cabeças, a S. Thiago, á Senhora das Reliquias... E as aldêas vestidas de galas, raparigas de chales escarlates e tranças postiças, cavadores de calças curtas, enormes pés e grosseiros chapéos de borla nas nucas, velhos ecrianças nos seus burros, nos seus machitos e nos seus carros de mato, iam em chusma depois do jantar e meio dia batido nos sinos da parochia, estrada fóra, através as searas maduras, e das vinhas verdes opulentas de cachos, trepando collinas e chapadas de olival, em direitura ás igrejinhas brancas, abertas com um encanto de fé ingénua nas alturas, e em contemplação perpetua de horisontes sem termo. Cada uma d’aquellas imagens de bemaventurados, toscamente esculpidas e de uma pintura barbara, possuia para a raça crente dos campos, a especialidade de um prodigio, um ramo de milagre original.
Santo Antonio, por exemplo, de tres palmos de alto e o rostinho garoto de um alumno desinquieto, adorado n’um cerro enorme de montado, e visinho de um moleiro borrachão, protegia os namoros. Era o mais querido dos arredores. Nas tardes bonitas de primavera o nos domingos abafadiços de verão, a gente moça vinha bailar-lhe e cantar-lhe no adro, com um desejo de nupcias traduzido em clarões de olhar. Uma a uma, as raparigas iam cozer-lhe no manto surrateiramente, pequenos bilhetes escaldando de fé e de peccado tambem, em que se supplicava a intervenção da bemdita imagem no bom exito de uns amores que qualquer dia rebentavam em escandalo grosso—não tinha duvida nenhuma!
S. Pedro abria as portas do céo, e o seu cortejo compunha-se de velhas beatas supersticiosas e antigasfandangueiras alegres, cuja fé lhes chegára com rugas e cabellos brancos, após annos e annos de rasgada pandega. E todos esses solitarios, invocados a proposito de sêccas insistentes, colheitas ruinosas, implacaveis invernos, doenças, sezões, maus olhados, bruxedos e raios, gozavam no verão da sua festa, com musica e fogo de vistas, sermão, tourada e procissões garridas á roda da igreja, ou as mais das vezes até ao povoado e ao som d’uma foguetaria atroadora. Os santos do convento, nada!Mas com reformas, dizia padre Nazareth. Qual reformas, nem qual diabo! acabava Manoel do Cabo por acrescentar.
Um dia, descendo da torre onde fôra descobrir um rico ninho de pombos bravos, reparou n’um cubiculo do côro, a um canto, n’uns alfarrabios esquecidos, poentos e rendilhados pelas arganassas. Curioso como era, nunca para tal olhára. Agarrou n’um dos cartapacios e veio para baixo. Torceu primeiro o gasnete aos borrachos do ninho e á pomba mãi que surprehendera.
Que rica fritada não faria a Escholastica d’aquellagentinhatoda, hein? Um almoço de rei! dizia Manoel do Cabo, sacudindo a poeira do livro com as fraldas de uma cruz partida a um canto, e n’outro tempo alçada á frente da communidade dos capuchos, pelos campos fóra, em dias de festa.
Abriu a grossa capa de pergaminho e leu:Chronica dos Capuchos, em largas letras vermelhas.
—Escuso de lêr, ponderava o desdenhoso Manoel do Cabo; amigos de raparigas, de vinho e rapozeiras ao sol, de pansa para o ar. Medo aos tiros, latim por qualquer coisa, e umacantarolaçãodo inferno nas missas. Malta! Conheci o guardião:—que grandessissimo bebedo!
Como entardecia, fechou a porta da igreja, metteu o livro no alforge mais as alvas sujas de padre Nazareth, e montado noGinaia, jumentinho podre e pelludo, desceu para a villa. Era pelas eiras; a perder de vista, de ambos os lados da estrada, alongavam-se sinuosamente pelas collinas, as courellas ceifadas, cujos torrões, seccos dos calores tropicaes, esboroavam ao menor attrito. Os rebanhos percorriam, de banda a banda, os largos trechos de campo, fazendo um concerto de chocalhos e uma floresta de chifres.
No horisonte formidavel, murchavam dôcemente as ultimas efflorescencias da luz. De todos os lados as arvores, com os seus braços de cyclopes negros, pareciam curvar-se n’uma saudação benevola, que os melros, os melharucos, os papa-figos, as calhandras e os verdelhões repetiam ampliando, vocalisando, n’um côro estrondoso, sonoro, harmonico e incomparavel. As vinhas forravam de espessos tapizes a terra calcinada, de que se erguiam as figueiras de largas folhas e troncos brancos, n’um espreguiçamento de sésta. Desenhavam-se para o longe em curvas francas, os pendores das serranias agras, afogados na exhalação serenada tarde; de todas as veredas sahiam para as eiras récuas de possantes machos carregados de espigas, e pelas clareiras estalava em notas vivas o rumor das cantigas imaginosas. Manoel do Cabo ia dando boas tardes, aos ranchos de ceifeiras que encontrava. Á entrada da villa, encontrou padre Nazareth chupando um cigarro, em quanto no calçadouro da eira os moços retraçavam as espigas, a malho. E á noite, depois da cêa e acceso o cachimbo, lembrou-se de folhear o alfarrabio, a passar um bocado de tempo. Leu n’um cabeçalho de capitulo:
«De como Jesú Nosso Senhor se mostra prodigiosamente aos seus humildes servos capuchos, e da narração dos milagres succedidos no convento de Santo Antonio de Villa Alva».
—Pois sim, sim! disse Manoel do Cabo, com desdem. Mas leu sempre.
—«E além dos muitos prodigios em que a misericordia divina se patenteou aos nossos irmãos, sarando grande copia de leprosos, curando enfermos e fazendo sahir o Inimigo do corpo de varias mulheres, a supplica do nosso padre-mestre, fr. Antonio de Nossa Senhora, se relata um assombroso milagre que deixou prostrados em fé quantos tiveram a gloria de o presencear. Não poupa Deus os peccadores do mundo, nem retira aos que se arrependem e conquistam a graça, suas mercês e favores, que unicos são verdadeiros n’este viver de desenganos...»
—Tá! tá! fazia Manoel do Cabo, como quem conhece o terreno que pisa. Malandrice no caso!
—«Em o anno de mil quinhentos e setenta, por uma noite de janeiro, estando no convento de Santo Antonio de Villa Alva todos os nossos irmãos recolhidos em suas cellas e entregues á guarda de Deus, pois como disse o bemaventurado S. Francisco de Salles...»
—Pr’ó diabo, mais elle! commentou Manoel do Cabo, voltando a folha sem olhar a citação.
—«Se ouviu grande grita na igreja e a modos rugidos de besta féra, no meio de copiosos prantos. E despertada a communidade, se ouviu uma voz que dizia:—Ide-vos, tentador! E todos se prostraram em oração, para que Deus Nosso Senhor não desamparasse seus humildes servos em tamanha agonia e perigo, a fim que suas almas podessem desfrutar a bemaventurança, que gozam no seu reino tantos santos e patriarchas, pois como disse...»
—Esta cambada mettia tanto latinorio nos livros, como vinho no bucho. Ora a sucia, senhores!...
—«Mas o guardião fr. Antonio de Nossa Senhora, de virtuosa pratica e varão inspirado do céo, veio a elles para que cobrassem animo, e encaminhando-se todos para a igreja viram um grande cão preto, lançando fogo pelos olhos e bocca, que fazia pavor, tão furibundo estava de vêr. E no altar da milagrosa imagem do Senhor dos Passos, um leigo notou os castiçaes derribados, o frontal desfeito ecoberto de babas malignas. E vindo todos, foi visto agarrado á cruz do Redemptor um noviço entrado de pouco, por nome Seraphim, que prostrado em extasi dava graças a Deus por se haver escapo das garras de Satanaz, que outro não era o tinhoso cão negro, que fôra visto em fuga.
«E todos em joelhos deram graças por tamanho prodigio. Aproximando então uma lampada da veronica da sacratissima imagem do Senhor dos Passos, notou fr. Antonio que esta chorava um choro de sangue de agonia milagrosa. E erguendo a voz ordenou a todos os irmãos que alli estavam, se prostrassem de novo, e fizessem por observar em tudo, quanto recommendam os sabios doutores da Igreja, cultivando a fé e espalhando a virtude quotidianamente...»
—N’aquelle tempo chorava, ia dizendo velhacamente o sacristão. Hoje, qual!... Partem-lhe a cruz e não abre bico; rasgam-lhe a tunica, e moita! Como diabo fariam elles a choradeira?...
N’isto bateram, e entrou padre Nazareth. Deu logo com os olhos no livro, e foi observar o trecho.
—Então vossê agora dá-se á leitura de coisas antigas, hein? Chronicas de frades, etc...
—Hum! Pouco. Era p’ra chamar o somno.
Padre Nazareth poz o dedo no capitulo do milagre, e olhando de esguelha o sacrista, disse vagarosamente:
—Quanto lhe devem a vossê do convento?
—Seis mezes certinhos—faz hoje. Nove mil reis! Se os apanho, nem acredito! Chiam-me no papo.
—O mesmo cá por casa. Leu isto?
—Não tinha outra coisa...
—E que diz, que diz?
—Eu? e vossemecê, padre Nazareth?
Olharam-se. Manoel do Cabo ria com a sua finura podenga de camponio, olhinhos de malicia precavida, um tamborilar de dedos na tampa da arca.
—Que grande milagre! fez com emphase untuosa o padre Nazareth.
—Que grandessissimo! juntou Manoel do Cabo, não se sabendo se fallava do prodigio, se do capellão.
—Como já se não fazem hoje, echoou saudoso padre Nazareth repotreando-se, com os bogalhos dos olhos nos seios da Escholastica, toda entretida a esburgar ervilhas seccas.
—Pouca virtude hoje! disse o sacristão. Os tratantes são como agua de pedra... E com profundeza convencida, dando uma risada bronca:
—Mas n’aquelle tempo eram maiores, vá com Deus!
—Hum! opinou padre Nazareth. Puzeram-se a fallar no enterro d’aquelle dia, da velha D. Isaura, uma ricaça da terra. A Escholastica quiz saber se tinham distribuido esmolas e de quanto.
—Tostão!
—Não se alargaram muito, a bem dizer.
—Vamos com Deus, não foram más. Quando foi do doutor Bentes, nem cheta appareceu.
—Esse sim! Tomára a mulher mais p’r’ós amigos. E desdenhosa:—que segundo me contaram...
—Não diga asneiras, sua tola, não diga asneiras clamou azedamente Manoel do Cabo, que amava a discrição e a harmonia reciprocas.—Vossê viu?
Deram nove horas, no relogio da torre. E o sino da camara correu, segundo a velha usança.
Padre Nazareth levou o sacrista para a porta da rua e disse em voz cautelosa, aproximando muito a cara da orelha do outro:
—E se o Senhor dos Passos chorasse ainda?
—Está lá p’ra isso! Nem á pancada, esteja certo.
—Homem, ás vezes...
—E então? fez Manoel do Cabo, á espera que elle dissesse tudo.
Padre Nazareth descreveu então n’uma linguagem arrastada e molle a rodilhagem em que se via o convento e os objectos do culto.
—Vossê bem sabe, homem. Não ha frontaes, nem banquetas, nem toalhas, nem alvas, nem vestimentas para os santos. É uma vergonha! accentuava com força. Tudo que mette nojo! Aquellas galhetas, aquella patena, as duas sobrepellizes, as alvas, tudo aquillo, senhores, tudo aquillo! Além d’isso, não sei se vossê tem reparado. Uma inverniatesa, temos a abobada em terra. Sabido! Vossê conhece-me. Sabe que cousa a meu cargo, tem de andar limpinha, arrajadinha. Senão passe muito bem...
Ora se o Senhor dos Passos... vossê entende?
—Tinha hoje pensado n’isso mesmo, observou Manoel do Cabo, que medira o alcance da patifaria proposta.
—Ah, tinha? Entendido! E n’uma expansão:—Assim muda tudo, vossê entende. Quando correr que o Senhor dos Passos chora, não faltará cão nem gato que não queira vêr; calcule as esmolas e prendas a seguir. Vossê entende... São velas, azeite, tunicas, castiçaes, dinheiro, legados por testamento, o arraialito todos os annos, missas aos centos e gorgetas de estalo. Concerta-se a igreja, aceia-se, pinta-se, caia-se, vossê entende. No verão, bailarosca na cerca, fogo de vistas, gente assim...
E com os dedos em pinha, fazia movimentos de agglomeração opprimida.
—Sim senhor, sim senhor, resmungava Manoel do Cabo.
—Ahi pela quaresma, faz-se procissão até á villa, missa cantada, o costume, sermão... E vossê verá, que se despovôam ahi as aldêas todas para a romaria. Selmes não falta.
—Olha quem, Selmes! Aquillo são brutos como jumentos.
—A Vidigueira, a Cuba, Villa de Frades... Vossê entende.
—Essas não comem, parece me cá.
—Qual! Qual! O povo é crente, o povo tem muita religião ainda. Veja vossê, quando levam a Senhora das Reliquias, pelas seccas, alli na Vidigueira. Veja! É um choro, que nem que as moessem de pancadaria. Que nome tem aquillo senão fé? E aprumando a estatura desgeitosa, de uma obesidade glutona, invectivava:
—Sim, que nome tem? E não é tudo. Vossê verá, que as mais romarias hão-de morrer por causa da nossa. Homem, sempre é um choro de Senhor dos Passos. E depois, os sermões. O que se póde dizer da imagem—vossê entende. E o dinheirão nas festas... Vendem-se estampas, bentinhos, medidas—um chuveiro! Isso fica pr’ós alfinetes da Escholastica. E as fogaças, e tudo!...
—É uma rica idéa. Mas se entram a fallar, se o vigario percebe...
—Ora, deixe! A elles tambem lhes faz conta. Em Beja fazem o mesmo, os taes letrados.
—Bem. Eu cá, prompto! Póde chorar em querendo.
—E aproveita-se uma bella occasião agora. Vossê sabe que a mãi do fidalgo vem passar um mez para a horta. Grande devota, segundo me contaram. Em Lisboa, diz que leva a vida pelas igrejas a commungar, a confessar-se, a encommendar reliquias e bentinhos. Excellente senhora, e para mais, oitenta annos! Veja vossê...
—Está na conta.
—Como anda adoentada, vem a mudar d’ares. O sitio é bello, um arna propia, verdura... Faz-se o milagre: se melhora, corre logo uma fama de seiscentos demonios.
—Não melhorando... tumba!
—É capaz de legar rendas para o culto. E vossê entende.
—Entendo. Em ambos os casos, lucro. E quando chega?
—Mesmo depois d’ámanhã.
—É preciso então mandar acear a igreja, que parece um chiqueiro, não offendendo quem está.
—Claro que é preciso! Amanhã trata-se d’isso.
No dia seguinte ia grande faina no convento.
O hortelão varria do laranjal as folhas cahidas, os moços aparavam o buxo das estreitas ruas do jardim, as mulheres caiavam os muros da cêrca. Ao mesmo tempo, Manoel do Cabo mais a filha, empoleirados pelos altares da igreja destruiam com os varejões enormes, que serviam pela azeitona, as pontes suspensas e negras que alguns milhares de aranhas haviam fabricado, em pelo menos vinte annos de secreção. Os santos tinham sido apeados dos nichos e cuidadosamente lavados n’umas poucas de aguas. A cada passo, a Escholastica passando o rodilhão molhado pelas barbaças de um martyr, dizia compungida:
—O santo me perdôe, mas estava que mettia nojo!—E em cóleras de christã fervorosa:
—Estas bilhardeiras da horta nem ao menos agua teem, p’ra lavar os santinhos! Velhacas!...
—Oh rapariga!... dizia o sacristão reprehensivo. Foi impossivel arrancar ao seu nicho, o Senhor dos Passos. Era uma imagem maciça e tosca, talhada quasi a machado, a quem faltavam dois dedos. Tinha a cabeça quadrada de um idolo pelasgico, marfim amarello salpicado de feridas negras, cabelleira comida de traça e encimada de um resplendor de lata, dentado e torto. A tunica cahia pedaços, n’uma miseria mendiga, d’onde sahiam tornozêlos gigantescos e pés formidolosos.
—Mette respeito! dizia a Escholastica molhando o esfregão no alguidar.
Os cuidados de Manoel do Cabo convergiam especialmente sobre a capella do Senhor, soturna e alta, com columnellos de talha e esculpturas selvagens representando seraphins e emblemas da Paixão. Do fecho do arco, cahia uma lampada de chumbo por tres cadêas de ferro; o pulpito ficava defronte com balaustrada negra e azulejos no portal; e traçando caminho de capella para capella, uma linha de sepulturas razas arremendava de pedras alvacentas e tortuosos epitaphios, o ladrilho esboroado do pavimento.
Era espaçoso o camarim da imagem, posta ao través para ser vista em toda a sua dimensão. A parede do fundo, pintada de judeus colossaes ornadosde chifres e dentes de javali que os maraus arreganhavam por modo insolito, ensombrava-se de manchas limosas fazendo claros na quadrilha de algozes do nazareno.
—Eh malditos do diabo! fazia a Escholastica esgrimindo figas sobre a cafila, em quanto gravemente o sacrista dava reviravoltas á cabeçorra do idolo, a vêr se a desaparafusava do tronco. E quando viu a filha descer para renovar a agua das lavagens, Manoel do Cabo destroncando a cabeça santa, poz-se-lhe a estudar cuidadosamente a anatomia. Terminava ella n’uma especie de parafuso tubular, tapado por uma rolha. Manoel do Cabo puxou a rolha para si e deu com uma concavidade que se escavava na cabeça, fazendo n’ella como um escondrijo.
—Cá está a marosca! resmungou, torcendo a venta de um modo pujante.
Deitou agua no bojo e vascolejou. A agua tingiu-se de vermelho.
—Percebo! disse elle. Não precisa mais. Tornou a metter a rolha no tubo de parafuso, lavou a fronte do santo, e cuidadosamente restituiu a cabeça cheia de agua ao seu lugar. Alcançára de velhas devotas uma tunica de paninho rôxo, e com esmolas fizera concertar a enorme cruz de pinho que de longos annos cahia a um canto, alliviando o semita do seu peso infamante. Quando a Escholastica voltou, já o Senhor dos Passos estava vestido e paramentado de novo, cruz ás costas, a disforme cabeçalivida pendente sobre os seios, cabelleira esguedelhada nos hombros e o resplendor por cima, como se fôra uma mão fatidica impondo condemnações. Com ramos de cypreste juncaram o chão da capella. Através das ramarias esbugalhavam-se os olhos dos phariseus, com um ar de troça que incendia as iras da Escholastica, vindo porém a achar echo no coração do sacrista. Emfim, a mulher do hortelão trouxe flôres e verduras, que foram postas em symetria no altar, dentro de canecas de barro e bilhas vermelhas, de Extremoz. Accendeu-se a lampada da capella, e diante da gente da horta que viera recolhidamente vêr os preparos da igreja, a Escholastica leu em voz alta no seu livro de missa, a ladainha—que era muito bom para ganhar indulgencias.
Ao cahir da noite os preparativos de recepção da senhora fidalga estavam feitos; a residencia esfregada e as louças brilhando nos grandes armarios do refeitorio; enormes camas de pau santo cobertas de colchas de damascos crespos, rescendendo á alfazema das gavetas e ao linho de Guimarães; paineis de santas risonhas com mantos côr de laranja e maxillas de carnivoro; os tamboretes em linha mostrando a pregaria luzente; e um velho sophá de medalhões de coiro ao fundo da sala, de cujas paredes pendiam em molduras castanhas, lithographias representando a vida de Dona Ignez. Na horta o mesmo aspecto cuidado e festivo—moitas de hortensia á entrada, ruas de loureiros e chorões, caracoleirose heras vestindo os muros, os tanques limpos, aparada a relva do laranjal, dhalias escarlates resahindo dos tufos verdes da contramina, aboboras e melões de guarda em linha no telhado do chiqueiro, espantalhos novos pelas figueiras...
—Tudo que nem um brinco! dizia a Escholastica á visinhança, descrevendo as canceiras que tivera.
Á noitinha appareceu padre Nazareth, chapéo para a nuca, todo encalmado de subir as escadas do balcão. Vinha mal do estomago, cheio de seccuras, a face macilenta, ventre alto, os intestinos trovejando.
—É dos pimentos, dizia, é dos pimentos de conserva.
Tinha levado o dia mettido em casa, em mangas de camisa e chinelos, com calma. Fizera suão; com as queimadas os ares andavam turvos e as bestas sem força para o trabalho.
Demais um desavergonhado de Selmes recusava-se a pagar a meia moeda que lhe pedira ahi pela esborralha. Corja de ladrões!
Manoel do Cabo philosophou então:
—Que hoje em dia, o mundo ia cada vez peor. Todos cuidando de atafulhar o bandulho, e o diabo que levasse o nosso amigo e compadre.
Deleitava-se intimamente o sacrista, em sabendo que alguem caloteava padre Nazareth, um fona incapaz de deitar osso a um cão.
O padre passeava d’uma banda para outramãos atraz das costas, um livôr bilioso na pelle. E disse sem levantar a cabeça:
—Sabe que a velha chega ámanhã?
—Assim ouvi dizer.
—Fez aquillo?
—Todo o santo dia andei mal-a rapariga a tirar estrume da igreja. Aquillo não é dizermos que estava porca, senhores, mas tenho já visto malhadas de cabras mais limpas. Têas d’aranha então, capazes de cobrir o mar. Em fim, ao menos aceada, ficou. Tudo varrido, muita flôr nos altares, azeite nas alampadas, tunica nova no Senhor dos Passos. É imagem p’ra metter um bocado de respeito. Sempre lhe digo que Padre Eterno era homem tamanho da torre de Beja, se tinha parecenças com o senhor seu filho. Alentado, palavra.
—Mais respeito com essas coisas, senhor Manoel do Cabo, mais respeito com essas coisas, advertiu padre Nazareth que tinha lobrigado a Escholastica entre portas, á escuta.
E com um formidavel arroto abriu a velha homilia sobre o temor de Deus e os mysterios da Trindade—Padre, Filho e Espirito Santo.
—Malditos pimentos, dizia, malditos pimentos! Deus era o espirito creador, dotado de todas as virtudes e omnipotencias. Era o infinitamente bom, o infinitamente grande e o infinitamente piedoso. Para impôr-se á limitada comprehensão humana, fizera-se homem em seu filho, que padeceu e morreu...
—Tudo para nos remir e salvar! ajudou de dentro a Escholastica, que sabia as prosas doNovo Catecismo de Doutrina.
—É tal e qual, fez padre Nazareth. E vendo a rapariga de braços arregaçados pediu agua, para lh’os vêr de perto. Quando a Escholastica se afastou para encher o copo, o padre voltando-se, disse em voz baixa:
—É preciso dar exemplos, homem!
—Pois que duvida que é, objectou o outro com recolhimento cynico, puxando fogo ao cachimbo.
Os olhares dos dois encontraram-se luzindo com a mesma expressão de patifaria.
Traduzindo então os pensamentos do padre, Manoel do Cabo ia dizendo a meia voz:
—A fidalga chega á tardinha ao convento, com as criadas. Traz homens?
—Não traz.
—Melhor. Chega e janta. Depois visita a casa, os lagares, um bocado da cerca. E salta na igreja, já sol posto. Escuridão no altar-mór, nas capellas lateraes, lampadas accesas, um socego de morte... Faz a sua oração ao Senhor dos Passos, hein? E um de nós então, repara que...
Padre Nazareth tossiu, para abafar as palavras que ia a vomitar o sacrista. E Manoel do Cabo desatou a rir. Com um geito brusco o padre estendeu-lhe a mão.
—Até ámanhã. Vou-me deitar, que me estou a sentir peor.
Desceu as escadas do balcão, em quanto de pé no portal o sacrista ficava olhando com o seu risinho de marau intelligente.
Ao entardecer do outro dia, a caleça entrou com grande estrepito na portada da cerca. De chapéo na mão, os moços da lavoura, o hortelão, padre Nazareth mais o sacrista, adiantaram-se para comprimentar a velha dama recem-chegada. Esta desceu amparada ao braço do padre, e sem baixar a cabeça a ninguem. Era quasi octogenaria e devia ter sido alta. E toda corcovada, com um vestido de velludo preto e um capote debruado de pelles, subiu a escada que levava ao andar de cima.
—Isto aqui é triste, pois não é, senhor padre?
—Não, minha rica senhora, não é. Em campo é do melhor que tenho visto. Muita verdura, boas aguas, rica vista, emfim um regalo de propriedade. E depois, a visinhança da casa do Senhor...
—Sim, sim, disse a fidalga. E com inflexão piedosa:
—É o que mais me consola.
A mesa estava posta. Pelas janellas abertas do refeitorio, via-se morrer a tarde e esmaecerem nas cristas as ultimas tintas ineffaveis do dia. Ao lado, as noras chiavam fazendo descer e subir sobre a agua das nascentes, a trança dos alcatruzes de barro.Sob cupulas verdes de nogueiras, amoreiras brancas e platanos, a agua jorrava nos tanques quadrados; os moços da horta faziam a rega do laranjal, leiras de pimento e carrapatos; no extenso pomar os pecegos, as maçãs e as romeiras rubras picavam a verdura de pontos vividos, de um tom sadio. O ar crystallisava n’uma serenidade contemplativa e corriam brizas impregnadas do cheiro dos fenos.
A senhora fidalga tinha-se sentado á mesa, mais a governante e padre Nazareth, que a instancias consentira tomar um caldo.
—E tem rendas, a igreja?
—Não, minha rica senhora, não tem. Os fóros de trigo apenas dão para as despezas do culto; e inda por cima mal pagos... Os paramentos são uma miseria e o templo faz-se ruinas. Uma desgraça, minha rica senhora! Desejando estavamos todos que vossa excellencia chegasse. Temente a Deus e boa christã como é, a senhora fidalga póde bem acudir com esmolas á pobreza dos santos e ao desmantelamento da igreja. Podia-se até fazer uma festa, a modos um arraial, todos os annos. Sempre concorria povo com fogaças e promessas. Mas eram precisos certos arranjos que traziam despeza. Ora não havendo fundos... vossa excellencia entende.
—Far-se-ha o que fôr da vontade de Deus, disse a velha abrindo o seu grande leque da China, preto, com lentejoulas e passaros exoticos. Tinhatirado o chapéo, bandós postiços desciam aos lados da marrafa, tapando-lhe as orelhas. Um pente de tartaruga posto ao alto dava-lhe á cabeça um ar ridiculo. A testa abaúlada e saliente, punha como umabat-journos seus olhos profundos, mortiços no fundo das orbitas. Recordava-se pouco do convento, da disposição dos altares e do numero de imagens. Se havia throno?
—Um pequenino e dourado, todo velho.
—E santos, senhor padre, e santinhos?
—Isso muitos, minha rica senhora, muitos. Santa Rita, logo á entrada; S. Bento, á esquerda; a Senhora do Rosario...
—Minha madrinha... fez notar a governante, dona papuda, de bigode. Padre Nazareth comprimentou, e foi continuando a enumerar:
—O Senhor dos Passos, imagem de muita virtude e milagres; Santa Isabel, rainha...
A velha espirrou, e todos correram a fechar as janellas, temendo constipações. Veio a pêllo fallar-se de doenças produzidas por simples golpes de ar. Na opinião da governante, toda a enfermidade nascia d’uma constipação. Quando tivera o anthraz...
—Vossa excellencia é que me dizem de saude muito delicada, disse o padre para a fidalga, offerecendo-lhe um pecego descascado.
Ella contou então os seus achaques, consultára tudo, a homœopathia, a allopathia, os seus directores espirituaes—que, juntou, sendo os medicos doespirito podem tambem ser os medicos do corpo, como emissarios de Deus—que são.
—Muito bem, disse unctuosamente padre Nazareth, muitissimo bem.
—Mas poucos allivios, infelizmente. Tinha feito a peregrinação a Lourdes no verão passado, por conselho do padre Grainha. Muito bonito tudo, as aguas de muita virtude, a Senhora rodeada de offrendas dos romeiros, e algumas ricas... Citava os presentes da princeza Amelia de Brandemburgo, tocheiras de oiro maciço, corôas de rubis, calices esmaltados e custodias gothicas—tudo valendo milhões, não faz idéa. Em certos dias da semana, Nossa Senhora apparecia aos enfermos na gruta, puxando-se um cordelinho... Mesmo assim passava mais alliviada de verão; mas pouco! Tinham-lhe aconselhado a estação no convento, e viera. Ai! Que Deus lhe perdoasse tão grande offensa—mas tinha pouca fé. A idade era já grande obstaculo a uma cura completa.
—Todavia, acudiu servilmente a governante, sendo da vontade do Senhor... Ella bem lhe pedia!
—E todos do coração imploramos, disse com austeridade o padre, enchendo o calix de Porto.—E levantando-se dava boas esperanças, dizendo a sua grande fé nos ares, nas aguas, que as havia ferreas, muito perto. Sempre era outra coisa, a vida no campo, outros habitos, muito socego...
—Assim, concluiu elle com um sorriso, passandoo guardanapo pela bocca oleosa dos molhos, permitta v. exc.ª que eu beba antecipadamente a um proximo e jucundo restabelecimento.
—Muito agradecida, senhor padre, muito agradecida e que Deus o oiça, dizia a velha, molhando os beiços nos dois dedoslacrima Christi, que a governante lhe lançára no cópo. E mostrou desejos de conhecer as terras proximas—a aldêa, como ella dizia. Se havia fé, gente de certa ordem, fortunas... Padre Nazareth dava pormenores. Nos campos a fé não abundava já, como no tempo dos frades. Tudo se ia infeccionando da lepra das cidades, não havendo barbeirola que não lêsse os jornaes e não prégasse heresias por essas vendas. Jogo, má vontade ao trabalho além d’isso. Não compareciam á confissão, não iam á missa...—E fazendo um gesto beato:
—Pervertidos, dizia, pervertidos!
Nas mulheres mesmo assim, não era tanto. O coração da mulher é mais entranhavel á religião e á fé. De resto, nas escólas não ensinavam orações. Conhecia rapazes que nem o Padre-Nosso diziam de cór.
—Santo nome de Jesus! clamava a governante, com um fervor intenso nos olhos—vinho do Porto e devoção. A senhora fidalga lembrou predicas aos domingos, depois da missa, sabbatinas de doutrina para os rapazes, com um fato novo por mez ao que melhor soubesse as rezas.
Punha as mãos engelhadas como implorandoclemencia, e de olhos em alvo ia resmungando:
—Não sei onde isto ha-de chegar, meu Deus, não sei onde isto ha-de chegar!
A governante attribuia as seccas, as guerras, as fomes e as epidemias, ao estado impiedoso das almas. Que isto de não commungar era medonho... Diz que appareciam as alminhas negras, com chavelhos, aos berros.
—Credo, mulher, que até faz arripiar! increpava a fidalgona, fazendo a cruz nos seios chuchados.
E ergueu-se, tomando o braço do padre Nazareth.
—Dê-se ao incommodo de me mostrar a cerca, senhor padre. Vagarosamente desceram a escadaria de pedra toda coberta de caracoleiros e heras, que vinha abrir em leque ao alto de uma rua de loureiros e eloendros.
Manoel do Cabo albardava oGinaia, depois de jantar brutalmente na cozinha, mais o hortelão. Quando o padre passou rente, o sacrista perguntou-lhe:
—Então?
—Dentro de um mez está pago em dia, tornou o outro, e foi andando.
A velha sympathisára de vez com o padre Nazareth, achando-lhe a compostura grave e a palavrachristã. Sómente lhe via um defeito—era talvez um pouco camponio, mãos grossas e sem anneis, uma rugosidade de pelle que dava contactos irritantes.
—Emfim, dizia a governante, na falta de outro...
Padre Nazareth, por seu turno, andava regalado e contente. Vinha almoçar e jantar todos os dias, grandes cuidados com as camisas, e barbeava-se a miudo. Nos primeiros dias tivera contrariedades. Aos seus instinctos de agricultor brutal repugnavam as branduras da catechese, os mellifluos conselhos ditos entre citações de Santo Agostinho, João Chrysostomo, Carlos Borromeu e Basilio, authores por que, valha a verdade, passára a correr, havia bons annos, no seminario. Afizera-se desde que residia na villa, a uma vida de episodios rudes, vindimas, ceifas e agiotagem systematica. O seu genio violento dava-lhe intermittencias de cólera biliosa, durante as quaes rogava pragas e dizia obscenidades. Sabia o valor do dinheiro, e conforme usava dizer—poucos o enganavam. Adorava o dôce. Em pandegas de amigos porém, gozava fama de gracioso e sabia beber. Como prégador era fallado nas terras proximas—boa voz, fazendo chorar naPaixão, gesto dramatico e uma emphase pouco seguida em geral nos pulpitos da provincia.
Chico Praça, poeta da villa e o que mandava correspondencias aoBejense, costumava dizer na lojado Burjaca, aos proprietarios que alli iam palestrar, ás noites:
—Para côro o padre José Pereira, mas no pulpito o Nazareth.
E todos:
—É pena que se não dedique!
Eram succulentos e escolhidos os almoços e jantares da senhora fidalga, vinhos de feição, boas loiças, um ar de festa, natas e doçarias de Lisboa. Padre Nazareth gostava, e vinha dizer para a loja, aos proprietarios:
—Bella pastelaria hoje!...
Ou então, arrotando com pompa:
—Diabo! Pois fizeram-me mal as perdizes trufadas. Aquellas basofias excitaram ciumes na terra; muitos diziam com um riso perfido:
—O mariola achou ama a seu gosto!
E alguns cuspindo:
—Ora o estupor!...
Pouco a pouco, padre Nazareth foi-se afazendo ao novo estado, lia oFlos Sanctorumem casa para alardear de instruido, limava as unhas e andava gordo. Na feira de Evora, trocou a mula por uma egua castanha, comprou arreios vistosos e estribos de ferro. Ia todas as manhãs dizer missa ao convento e ouvir a velha de confissão. Á medida que ascendia no espirito da fidalga, tratava de complicar os regulamentos da devoção, difficultando a entrada no reino dos céos e pintando Deus como um rabula exigente, que embirra com as comidas dosseus fieis, e com as palavras e vestidos das mulheres. Segundo elle tudo era peccado; Deus vigiava das nuvens a humanidade; a vida era simplesmente a ante-camara do grande reino da luz, onde cada mortal mal tinha tempo para se lavar das pustulas malignas originadas da carne, e transmittidas de Adão. E recommendava á velha as asperas penitencias que alquebram, horas e horas de joelhos ante os altares, desfiando rosarios bentos e lendo com voz lamentosa as biographias dos martyres e doutores da Igreja.
Este regimen alterou a saude da velha, e ligou-a pelo terror cada vez mais ao padre.
—Só me sinto bem, ouvindo aquelle santo! dizia ella com um escarro na guela.—E com inflexão de grande medo:
—Oh não me desampare com os seus conselhos, não me desampare com os seus conselhos!
De quando em quando, Manoel do Cabo interrogava padre Nazareth:
—Então o homem chora ou não chora?
—Mais tarde. Vossê entende.
—Pois até hoje, meu rico, nem lagrima.
—Com agua quente, é que é. Vossê entende.
—Só se fôr isso. A fria não dá resultado.
Depois, com ares profundos:
—Que as lagrimas são mornas. Sendo suor, já era outra cousa. Ha suores frios! Andava mais alegre, recebera tres mezes de ordenado e um presente de pecegos, dos melhores. E ao entrar na villa,sobre oGinaia, cantarolava brejeiramente lançando chufas ás lavadeiras—suas maganas, com quem tinham dormido a noite passada? Que lavassem as pernas, grandessissimas porcas!
As noites eram abrazadas e eternas. Não bolia folha na horta, os moços do campo dormiam ao relento sobre as mantas, e tendo por travesseiro as albardas dos jumentos. Nos aposentos da fidalga sómente, as janellas permaneciam fechadas, não apanhasse sua excellencia alguma constipação. As casas de cima, de baixos tectos abobadados e sobrados carunchentos, antigas cellas de frades modificadas para residencia profana, constituiam verdadeiras estufas no verão.
Nos corredores circulava um bafo morno, impregnado de bafio, alfazema velha e incenso—o que recrudescia de um modo terrivel a asthma da beata. Toda a noite a governante levava a abanal-a com ventarolas do tamanho de sombrinhas e a enrolar-lhe em papeis de sêda, enormes cigarros de figueira do inferno, ao som de interminaveis rezas e custosas promessas ao Senhor dos Passos. Porque era agora cega a fé da velhona, nasacrosanta imagem do Redemptor. Contára-lhe o padre a historia do convento, sua antiguidade e virtudes. Em tempos antigos, os frades vendiam uma especie de licôr, que curava da peste e punha saradas as ulceras mais damninhas. Rezavam as chronicas do convento de um almirantedo mar das Indias, da casa dos senhores da Vidigueira, que voltando de longinquospaizes coberto de um vergonhoso mal, se curára de prompto tomando o benefico elixir. E junto ao tanque de pedra tinha apparecido ao veneravel padre frei Vicente das Sagradas Angustias, ancião que rasgava suas carnes a golpes de azorrague—a figura de Jesus Christo, feito homem e cheio do Espirito Santo, vertendo sacratissimo sangue de suas feridas, coroado de espinhos e clamando:
—Faze penitencia, Vicente, faze penitencia que serás commigo no reino dos céos...
Ainda agora se mostrava na terceira lagea do tanque, ao pé do cypreste, o vestigio da pégada do Salvador do Mundo.
A velha derretia-se em prantos ouvindo taes prodigios, batia nos peitos cheia de uma convicção fanatica, e bradando em guinchos de possessa:
—Oh misericordioso Jesú que eu não sou digna! Oh misericordioso Jesú que eu não sou digna!—em quanto pelos escondrijos a governante manducava sofregamente, aos ladrilhos, covilhetes e covilhetes de marmelada. O episodio do choro de sangue deu como nenhum outro, insomnias e deliquios á pobre mulher.
—Ha coisas, aventurou ella de olhos baixos, quando certa manhã ouviu narrar o milagre, ha coisas que só vistas.
Padre Nazareth não deu resposta, mas á tarde trouxe nos alforges aChronica dos Capuchos, com um signal na passagem lida pelo sacristão.
—Eu não duvidei, senhor padre, dizia a velha.Ora Deus nos perdôe! Assim minh’alma se salve, em como em...
E no dia seguinte, a titulo de remissão dos seus peccados, entregou quatro libras a padre Nazareth, para esmolas e missas. Em setembro os males da velha aggravaram-se mais, os ataques d’asthma repetiam-se, a tosse era profunda e entrecortada de pieira estridulosa, que lhe resfolegava nas cavernas dos pulmões. Uma noite vieram chamar o padre á villa a toda a pressa. A velha estava a peor, lançára cóleras, fallava em confessar-se...
Padre Nazareth mandou acordar o sacristão e disse-lhe:
—Venha commigo.
Cavalgaram as alimarias caminho do convento, e ao verem branquejar á lua as paredes da cêrca, pelos claros da folhagem, o confessor da senhora fidalga disse ao seu acolytho estas cinco palavras:
—Agua-quente para esta noite.
Era um ataque dos maiores, com silvos e espasmos prolongados. No quarto abafava-se, na exhalação da mostarda e do stramonio.
Em saia branca e chinelos, a governante fazia cigarros e preparava banhos.
E ante cada retabulo de santa ou asceta ardiam velas e lamparinas. Padre Nazareth conhecia um pouco a molestia; tivera uma irmã que soffrerad’ella longos annos. O seu primeiro cuidado foi mandar abrir as janellas, para restabelecer a corrente d’ar. A velha jazia n’uma poltrona ao pé da cama, o escarrador ao lado, tronco um pouco inclinado para a frente, o hausto arquejante.
—Então como se acha a nossa doente? perguntou carinhosamente o padre, curvando-se para ella.
A velha mal podia fallar, e fez um gesto vago.
—Ouça, disse o padre á governante, deite-lhe sinapismos no peito e nas costas.
—Já lá os tem, disse a outra, fazendo-se doutora.
—Bem. Um vomitorio então. Agua morna aos copos; façam-lhe depois cocegas com uma penna, nas campainhas.
E em voz alta, para que a fidalga ouvisse:
—Mandaram accender a lampada do Senhor dos Passos?
—Ha que tempos! tornou a governante.
A esse tempo aquecia Manoel do Cabo à cafeteirinha d’agua na cozinha, disfarçadamente. E quando a viu ferver em cachões, desceu á igreja, pela escada do côro. Havia um silencio lugubre, trevas densissimas no santuario e piar de corujas nas ventanas da torre. Junto d’uma fresta gradeada, á esquerda, abrindo para a horta, a folhagem de um chorão gigantesco fazia marulhos confusos, de maré que sobe. Fóra, nos platanos da ribeira, os rouxinoes conspiravam, e resteas de lua, brancas e vagas,entravam pelas janellas do côro, pondo luzernas no lagedo das sepulturas razas.
Manoel do Cabo desceu de mansinho a escada de tijolo carcomido, que caracolando vinha abrir-se, por baixo do pulpito. Os arcos das capellas cortavam nos muros alvacentos da igreja, enormes boccas escancaradas, em cuja guela, as linhas das imagens se esboçavam, sem relevo. Ouvia-se o roer das ratazanas nos madeiramentos carunchosos, e o rumorejo do chorão nas gradarias da fresta. Manoel do Cabo parou diante da capella do Senhor dos Passos, á escuta. N’algum corredor distante, batia uma porta. Havia conversinhas aos cantos, que ora se afastavam, ora renasciam. Á bocca do camarim enramado de cypreste, o clarão noctambulo da lampada deixava vêr um pedaço de cruz negra, e mais na penumbra a livida cabeça desgrenhada, que pendia no peito com um desalento de morte. Tudo o mais era confuso, accumulado e movediço, apparecendo nas trevas com projecções colossaes, cheias de pavor. O vento vinha a espaços, como se fôra um halito, fazer bruxolear a luz—e despregavam-se então dos angulos formidaveis, desde a abobada até ao pavimento, massas de espectros, que ante o sacrario deserto vinham dançar sabbats allucinados.
Para fallar franco, Manoel do Cabo não estava muito á sua vontade, não. Medo não era bem, realmente. E relanceando a vista, com a cafeteira a escaldar-lhe nas mãos, disse para dentro de si:
—Olhem que bello sitio para a gente apanhar um tiro...
Veio-lhe á lembrança oEstragado, que por duas vezes, contra elle puzera á cara a espingarda, e lhe promettera muito cedo noticias frescas... E o Chico da Aroeira, que andava fugido de soldado e lhe provára do cacete, d’uma vez em que fôra apanhado mais a Escholastica, no palheiro.
—Além d’isso, pensava elle, isto cheira a patifaria que tresanda.
Olhou á roda, esteve quasi a voltar para traz. Mas que diabo!... Era uma vez. Se a coisa pegasse, ninguem perdia com isso, augmentava-se a fé no povo—que era pouca como seiscentos diabos. Não pegando, era como se nada tivesse havido. E os proventos a gozar, o aceio da igreja, as procissões... Até era bom para a religião, bem pensado. Andaria pago á hora, boas gorgetas, alli estimado como um rei. E tudo por uma gotinha d’agua quente. Ora adeus!
Subiu as escadas de mansinho, com a cafeteira. Logo á entrada do camarim, deu de cara com um vulto. OEstragado. Santo Deus! Entornou a agua a ferver pelas mãos. O vulto olhava-o, immovel, todo barbado. Era um judeu da quadrilha, pintado na parede. Manoel do Cabo resfolegou com força, e foi sempre apalpando—um judeu, não havia duvida. Diabo da peça! A gente ás vezes até está parvo, senhores. E entrou a desaparafusar a cabeça do santo. O sino deu tres horas—ás tres emeia, no verão, é quasi dia. Nas lageas, a luzerna do luar ia-se pouco a pouco apagando. Os cães da horta soltavam uivos.
—Cheira a defuntos que tem diabo! resmungou Manoel do Cabo. E na escavação interior da cabeçorra chagada, ia deitando agua quente.
—Assim tambem eu faço milagres, senhor padre! trauteava o mariola, já tranquillo.
Ás quatro horas, padre Nazareth veio ter com elle.
—Já?
—Poucochinho, mas promette.
—Bem. Vamos dizer missa, mesmo no quarto da velha.
—Então o estafermo morre ou não morre?
—Mais respeito, homem! Podem ouvir.
—Vamos a saber?
—Está mais alliviada. Dormita.
—Temos dinheiro por um sarilho, compadre.
—Venha d’ahi.
Sentindo-se mal, a fidalga quizera confessar-se—resolução que em coisa alguma transtornava os planos de padre Nazareth. Umas poucas de vezes, a governante afflicta pelo caracter grave que a coisa parecia ir tomando, chamára o confessor de parte.
—Que se havia perigo, seria bom chamar o medico, mandar um telegramma para Lisboa ao menino Tristão, fallar á senhora em testamento. Ella tinha um medo... não queria responsabilidades;era uma serva antiga, mais de trinta annos de casa, quasi uma pessoa da familia. E com insistencia voltava ao tabellião, dizendo casos de pessoas que se tinham ido sem testamento, a D. Monica, tia dos Palhas, havia de conhecer; o doutor Mendonça, dosProprios Nacionaes, sem herdeiros e podre de rico, que ella servira dez annos ficando por fim a chuchar no dedo... Que não dizia aquillo por interesse, mas emfim, era um descargo de consciencia. Na penumbra do corredor, os seus olhos luziam cubiçosos e a sua voz sahia baixa, breve, quasi sibilante.
—Havia muita prata, roupas, tres bahús de loiças do Japão. Casa antiga. Lembrava-se de tres governadores da India, e uma quantidade de arcebispos na familia. Ah, lá isso... Nobreza da melhor. E pondo a mão febril no braço do padre, voltava á carga:
—Se havia perigo... Nada, nada de responsabilidades!
Por seu lado, padre Nazareth certificava que não havia motivos para espalhafato. Um ataque mais cruel, eis tudo. Que elle sabia proceder como homem e como sacerdote. E punha a mão aberta no peito, na attitude austera de um illuminado.
—Como homem e como sacerdote, D. Dorothêa! dizia com força, espaçando as palavras. Passára muito na vida, para estar precavido contra eventualidades de qualquer ordem. De resto, affirmava com intenção, não lhe tinha vindo a idéa dotestamento, servia as pessoas desinteressadamente, como lh’o dictava o seu coração, porque sabia ser amigo.
E emphatico:
—Amicus certus in re incerta... D. Dorothêa!
—Ah, em desinteresse não está o senhor padre mais rico do que eu, ha-de perdoar. Credo! Os modos de dizer as coisas! É perguntar á senhora fidalga, ao menino Tristão e a todos de casa, quem eu sou e de quanto por esta gente tenho sido capaz. Olhe que conheço a familia ha muitos annos. Não é o senhor que me dá lições a mim.
E n’uma vertigem de narrativas para que não tinha loquela avondo, punha em relevo a sua dedicação, o que aturava pelas doenças dos senhores, o que merecera de confiança e estima em toda uma vida de serviços sem preço, o seu amor pelas cousas de casa, e o trabalhão com os gatos e cães da senhora fidalga—que lá por animaesinhos era cega, não faz idéa!
E protestando, contando, tentando fazer-se valer, andava á roda febrilmente, com uma gula planturosa de avara, as mãos espalmadas á altura dos olhos, onde luziam anneis chinfrins de meia libra.
Padre Nazareth nem escutava, mas dizia de quando em quando, para acalmal-a:
—Eu bem conheço isso, D. Dorothêa, bem conheço isso! De resto, a senhora fidalga fizera-osciente de tudo. Quantas vezes lhe tinha ouvido—que a Dorothêa com ser sua governante não perdia os fóros de boa amiga! Ah, era tida em alta conta, creia isto. E por toda a gente, palavra de honra!—que o não dizia por ella estar presente.
—Demais, acrescentava embaindo-a com a voz ejaculada e surda, de uma discrição culposa, com que no confessionario arrancava revelações picantes ás boas moças do campo apavoradas do inferno—demais, quem lhe diz á senhora que no testamento da fidalga não ha um legadosito...
E vendo-a suspensa, o riso parvo de quem apanhou a sorte, sublinhava umas poucas de vezes o alvitre proposto, repetindo:
—Sim, quem lhe diz á senhora?...
—Que? disse a Dorothêa quasi a abraçal-o, com um bocado de rolo a despregar-se-lhe da cuia. O senhor padre sabe?
—Perdão, atalhou logo padre Nazareth, eu não disse...
E em quanto a outra ficava no corredor deslumbrada, entrou no quarto da velha com ares de levita vergado á imposição de um juramento, hombros altos, um geito vago de mãos e dizendo com um riso ambiguo:
—Segredos da confissão, D. Dorothêa, segredos da confissão!
Ficára satisfeito com o manejo politico que tinha posto em pratica. Apre! que estivera quasi a acarretar o odio da governante—uma zorra que asabia toda! E devia ter sido bem boa! Mas estava velha, quando não... E mais tranquillo, dizia para comsigo:
—Deixal-a do nosso lado. Não se perde nada.
Tinham já acabado de armar o quarto da velha para a ceremonia da communhão. Defronte do leito e na mesa improvisada em altar, um crucifixo enorme, velho marfim de lividez polida, enchia a parede do fundo, que uma colcha de damasco azul, grandes relevos fulvos, vestia de tons dôces, ouro e céo, á luz de castiçaes e entre tufos de renda, dos grandes cortinados pendentes. Á cabeceira da cama e n’uma baixa poltrona, ampla como um divan, arquejava a doente, entre almofadas de todos os tamanhos, o escapulario branco de Santa Clara na cabeça, destacando n’um fundo de estampas devotas e rosarios tocados em mantos de varias authoridades celestes.
Quando o padre entrou, a velha tinha os olhos fechados e as mãos errantes nos braços da poltrona. O escavado da face denotava intensa fadiga, e exhaustos fundos, arrastados, difficeis e terminando em silvo, davam-lhe um jogo angustiado ao cavername do peito oppresso. Elle andava nos bicos dos pés para não fazer ruido; mesmo assim porém as suas botas novas rangiam, com ruidos impertinentes de janotinha de provincia. E sentando-se manso junto da grande poltrona da velha, tocou-lhe na mão com os seus dois dedos suados. Cortára o cabellode fresco, á escovinha, e aos cantos da testa alongavam-se para traz, lustrosos de excreção gordurenta e destacando no negro luzidio dos cabellos, dois crescentes de calva precoce, onde resaltavam relevos complicados de veias. Visto de perfil era um pouco adunco, sobrancelha cerrada e tons azues de barba espessa pondo-lhe no focinho como que as linhas de um açaimo. Tinha os olhos grandes e bem fendidos, globo um pouco injectado, estourando para diante, e um raio sagaz de pupilla que se lubrificava todo, ante as nudezes trigueiras e turgidas das raparigas da monda. Procurando fazer adocicada a rude voz de que dispunha, disse para a fidalga, de olhos baixos:
—E agora? Melhorzinha?
A velha ergueu a mão para fazer um gesto. E quasi em segredo disse:
—Assim...
—Pois visto que se sente mais alliviada vamos á confissão, para rezarmos depois a oração do Cyreneu que é infallivel, infallivel!
Dava explicações sobre a oração do Cyreneu. Tinha lido naChronica dos Capuchos, de curas miraculosas obtidas pela reza em triplicado, de certa oração mandada ao convento por S. Simão Cyreneu residente não se sabia em que parte, e a instancias de nosso veneravel prior frei Antonio de Nossa Senhora,para uso de grande cópia de enfermos dos arredores. Para que da recitação da prece podessem tirar-se seguros resultados, urgia fazel-arecitar em voz alta e ainda de manhã, por tres pessoas ao mesmo tempo, sendo duas femeas e um macho, todas de crucifixo alçado e prostradas em joelhos ante a hostia consagrada.
A doente por cuja intenção se fizesse a reza, seguraria o sudario, em quanto a espaços, um padre lhe iria chegando aos labios a esponja embebida em vinagre, arremedo do que fôra praticado com Jesus Christo, durante a agonia.
Ouvindo a ultima palavra, a velha tremia sem responder. Mesmo assim macerada de rezas e praticas devotas, sentia no intimo o terror invencivel da morte.
Era verdade que as almas, escapando-se dos corpos como perfumes de amphoras, em ondulações suaves iam subindo aos dominios da luz, a crystallisarem-se na eterna graça, sob a unção dos threnos e no reverbero da immortal pureza. Mas o corpo que ella podia palpar e sentir, o que tinha dôres, anceios, cansaços, appetites e suores fetidos, esse que ella facultára nos seus tempos de dama do paço ás excitações de recua, do senhor D. Miguel e seus companheiros, e nos minuetes langorosos se tinha requebrado com meneios de affectada galanteria, na tenebrosa algidez do sepulcro buliria todo negro, n’essa viscosidade da podridão sinistra, que é a ultima infamia da carne!
Vendo-a inerte e muda, padre Nazareth tratava de aclarear-lhe bem as origens da oração proposta, no intento de lhe extinguir os terrores e assombras funestas. Simão Cyreneu fôra o fiel amigo que nas ruas da amargura consentira tomar sobre os seus hombros robustos a cruz, sob que o Christo vergava, no trajecto para o supplicio. Elle conhecera passo a passo os transes da Paixão, tinha fallado com o Salvador, participado da sua angustia e chorado das suas lagrimas. Era o grande confidente do Filho de Deus, e tinha sido elle o author da benefica oração, que até grandes já tinha resuscitado. Era forçoso pois experimentar, para bem cumprir os preceitos do Senhor.
—Pois sim, sim, dizia a velha a final.
E pondo as mãos, balbuciava a confissão.
Havia já sol quando a oração do Cyreneu acabou. Fatigada por toda uma noite de soffrimentos, e sob o predominio moral da complicada reza, a velha tinha conseguido repousar um pouco. Abafára-se-lhe mais a pieira, e a respiração readquiria-lhe um rhythmo placido. A Escholastica, avisada por Manoel do Cabo, tinha vindo logo de manhã com o seu chale de ramos e lenço de sêda escarlate, o livro de missa na algibeira da saia. Em acção de graças pelas melhoras da senhora, padre Nazareth celebrou a missa d’esse dia, na capella do Senhor dos Passos, a que vieram assistir todos os homens e mulheres do convento.
Terminado o sacrificio, em quanto Manoel do Cabo ia buscar a um canto o apagador, o padre erguendo a voz pediu umaEstaçãopelo inteiro restabelecimento da fidalga, de quem fez o panegyricoem grandilocas palavras—mãi de raras virtudes, boa protectora dos interesses de Deus e benemerita da graça divina.
E todos rezaram a meia voz aEstaçãopedida, em quanto abrazada em fervores mysticos, a governante unia a face ás lageas da capella, desatando em prantos e suspiros, toda de preto e mordeduras de pulgas no pescoço tisico.
Aquella exaltação commovera a Escholastica, que disse para a mulher do caseiro:
—Se não ha-de ter amor á fidalga, vivendo ha uma quantia d’annos na sua companha!
E a outra, arrebentando nas unhas um piolho que lobrigára na trunfa do filho, durante a reza:
—Com uma certeza, apoiava, com uma certeza!
Mal o padre sahiu da igreja, a Escholastica ergueu-se para ir fazer oração ao camarim do Senhor dos Passos, a depôr-lhe no sacratissimo pé o beijo convencional.
Subiu a escada com o livro de missa nas mãos, de olhos baixos, as mulheres da horta atraz de si. E ajoelhando todas á roda da imagem, entoaram a ladainha, por que a Escholastica tinha grande paixão.
Era a filha do sacrista quem entoava os louvores ou vozes; todas as outras mulheres respondiam atabalhoadamente:
—Ora, ápornobis!
E aoAgnus Dei, como as burras se enganassem,a Escholastica reprehendeu-as com a sua voz birrenta de sabichona. Então o filho do caseiro que andava á roda bulindo, erguendo a tunica da imagem e dando-lhe puxões na guedelha, gritou de repente com o dedo estendido para a face do idolo:
—Mãi, sangue!
A caseira, que estava de lado, alongou um pouco a cabeça na direcção em que o rapaz apontava, e pôde vêr uma lagrimasinha vermelha, que cahida da palpebra do Senhor, vinha pela face livida fazendo um traço de sangue miraculoso.
A pobre mulher nem pôde dar palavra, levou as mãos á barriga abaúlada por uma prenhez medonha, revirou os olhos e cahiu para traz barafustando. Ao mesmo tempo, a Escholastica que da palpebra do seu lado vira cahir tambem a sua gotinha de sangue, abalou pelas escadas, largando o livro e fazendo cahir a rapariga do caseiro. E possessa, berrava igreja abaixo em direitura á horta—que acudissem, aqui d’el-rei, não era cousa boa, ia acabar-se o mundo!
Foi o sacrista quem primeiro acudiu á berraria, e picando o charuto para a cigarrada de ripanço:
—Qual acabar-se o mundo, nem qual diabo! O mundo não dá fim, em quanto houver santos que façam milagres e desavergonhadas que creiam n’elles.
E n’uma expansão de riso cruel, tomando assento na borda do tanque:
—Malandros e bebedas! É o que ha.
Ao meio dia divulgava-se em Villa Alva o milagre, e a população em chusma, n’um borborinho de cortiço, abandonava a terreola caminho do convento, toda inflammada em fanatismos e psalmejando orações e ladainhas. Á medida que se adiantavam na estrada, os magotes reproduziam-se e augmentavam, pelo concurso da gente que iam encontrando a trabalhar nas fazendas. As beatas ricas tinham aproveitado a occasião para fazer toldar os seus carros alemtejanos, puxados a mulas e cobertos de um toldo primitivo, de lona e caniçados. Algumas em jumentos, de cadeirinha, chouteavam adornadas de cordões de oiro, mitenes de retroz nas mãos osseas, e leques hereditarios pintados de escudeiros e reis. As do Silva, um ricaço da terra, levavam mantas de lã azul, de borlinhas, pregadas em escapulario, com ganchos representando malmequeres. E semelhante luxo fazia sensação na romaria.
Chico Praça com risos scepticos de homem que lê, fôra tambem no machinho do pai, inspirar-se e mangar um bocadod’aquella saloiadaignorante. E espetado n’um charuto de vinte e cinco, fumo de merino enorme no côco dos domingos, manta verde com perinhas bordadas, calça curta arregaçandosobre os elasticos das botorras e o atilho da ceroula á mostra, comprimentava fidalgamente os ranchos procurando informar-se do modo de vêr geral ácerca do prodigio. As raparigas voltavam-lhe a cara ouvindo-o escarnecer dos santos.
—Judeu! diziam. E umas para as outras, como se fallassem de uma universidade:
—É o que elles vão aprender a Beja!
Atraz da chusma arrastava-se cacarejando a gente pobre, mendigas velhas e descalças, physionomias de cera abrazadas por esses olhos chammejantes do meio-dia, em que se repinta em clarões a effervescencia das indoles calidas e insoffridas; velhos pastores invalidos, cobertos de pelles safadas, polainas de feltro, cajados nodosos, e um anguloso secco de mumias, e rapariguitas rotas, vivendo do rolão corneo das esmolas e que a lama cobria de crostas pardacentas. E todos n’uma passividade receosa, eternos vergados á penuria que envilece, lá iam custosamente, parando nos cotovêlos da estrada para detalharem os commentarios suggeridos pelo caso, ou recomeçar com voz quebrada o terço lugubre da penitencia. Muitas mulheres levavam azeite para as lampadas do convento, offertas de pão cozido, fogaças de gallinhas e borregos novos. E corria em segredo que as Silvas tencionavam offerecer ramos de pennas comprados em Setubal, nos banhos do anno passado.
Porque no grosso beaterio da villa, a surpreza do milagre vinha de feição, com os seus embevecimentosmysticos e esse brumoso de legenda que dá, febre ás imaginações sobre-excitadas. Havia duas semanas que escaceava thema para as parlendas de soalheiro. O ultimo caso de aborto tivera lugar havia já um mez—velharia em que mal se faltava já. E em casa das Silvas e na loja do Burjaca, ás noites, arrotando sob a azia doensopadodas cêas, a boa gente lamentava n’um fundo de saudade e desespero:
—Maldita terra! Nem ha em que se converse... O mulherio acreditava fanaticamente no sangue do Senhor do convento, uma lição a esses herejes que vinham do estudo fallando mal dos santos e rindo da confissão e da missa. Deus não era pois uma palavra vã! Vivia, amando sempre a humanidade e chorando pelas suas loucuras e crimes, no fundo melancolico de um templo, que a guerra civil profanára e derruira, nas suas contorsões de bacchante. Iam começar os bons tempos de fé absorvente e sincera, em que as almas vestem a gaze da innocencia para os esponsaes da bemaventurança. Então, por esses campos verdejantes, no fundo d’esses olivaes contemplativos ou sobre as collinas e charnecas em que ora esbravejavam selvaticos, piorneiros e tojaes, erguer-se-hiam de novo os eremiterios alvinitentes, cruz erguida nas fachadas, um cordão de tilias no adro e a porta aberta como refugio aos vergastados pela miseria, ou pelo desalento. Viria o bom tempo das procissões do campo e das festas a orgão, em que as vozes dos fradesentoariam a missa n’um extasi seraphico, do fundo dos seus capuzes bemditos. E essa azinhaga lugubre que conduzia ás ruinas, o claustro transfeito em lagar de azeite e as cellas aproveitadas para residencia de gente mundana, regorgitariam novamente de fradinhos gordos, olho dôce e dentes gulosos, que em tardes de primavera, das grades do côro, lançassem cantigas bréjeiras ás roliças lavradoras engorgitadas de desejo e devoção erotica—como n’outro tempo. Muitas velhas ainda, eram do tempo dos frades; algumas mesmo tinham dado guarida a guardiões varrascos, por noites chuvosas, em quanto os maridos na adega resonavam espapaçados no vinho d’essas bebedeiras do Alemtejo, que chegam a durar semanas. E voltadas para o passado em que se reviam frescalhonas e vivas, as pobres davam suspiros de mágoa, lamentando a falta de crenças de hoje, e batendo com as cabeças nos toldos do carroção, a cada solavanco do eixo. Nos homens era menos sincera a crença no milagre. Iam poucos na romaria, e esses mesmos seguiam o femeaço para namoriscarem a torto e a direito.