O CASTELLO DE ALMOUROL[1]CONTO DO SECULO XVIII—Ai, Virgem Santissima! Não ganha a gente para sustos! Não bastava esta praga dos castelhanos, que vem ahi, dizem, um poder do mundo d'elles pelo Alemtejo abaixo?! Ó sr. Romão Pires, d'onde elles estão aqui á nossa quinta é muito longe?—Não é nada perto, não, sr.ª Brizida de Sousa! Mas lá diz o adagio: aos que muito correm quebram-se-lhes{52}as pernas... Socegue. O sr. conde de Villa Flôr anda com elles a contas e não é para graças.—O sr. conde é muito bom senhor, bem sei, e de grande fama sempre ouvi dizer... Mas se elle ficasse mal agora?—Ficavamos nós peior, isso é verdade... Melhor o hade fazer Deus. Oh, se meu senhor e amo fosse vivo!... Não estava eu aqui posto ao canto como um estafermo!...—Ora não diga isso por quem é. O sr. Romão já andou demais por essas guerras e tragou bem maus bocados. Descanse, descanse, que o merece... O que seria de mim sósinha n'estes palacios confusos, sem pregar olho ha umas poucas de noites com medo... E que medo! Fantasmas e almas do outro mundo! Ó sr. Romão Pires, diga-me: o demonio—salva tal logar—terá poder de subverter comsigo no inferno corpo e alma uma creatura baptisada e remida nas santas aguas?...—Conforme! Se não estiver em estado de graça!...—Credo! S. Braz e S. João! Meus ricos santos da minha alma, valei-me! Subvertida em corpo e alma?! Deus de misericordia!... Sabe que mais? Quero que me escreva já e já á sr.ª D. Magdalena, contando-lhe tudo isto. Ella não póde consentir que a sua criada velha uma noite d'estas desappareça nas garras{53}do inimigo tentador do genero humano. Jesus!... Diga-lhe que nos venha livrar d'este inferno, senão... eu cá por mim fujo! Primeiro a salvação da minha alma...—Tambem eu não gosto nada d'isto, sr.ª Brizida. Mas animo forte e coração á larga. O demonio parece que entrou de semana comnosco, e, pelo que vejo, não leva geito de nos querer largar. Desde que viemos para esta quinta...—Desde que viemos... diz muito bem! Olhe, Brizida de Sousa me não chamasse eu, se depois da primeira noite não mettesse um bom par de legoas entre o demonio e quem se présa de christã baptisada na freguezia de Santa Catharina de Lisboa, nascida de paes catholicos, tementes a Deus, e sem eiva, nem leiva de mau sangue!... Mas o amor, que tenho á minha menina, coitadinha, tudo me faz supportar com paciencia... Espere! Não ouviu bulha? Assim a modo de ferros arrastados pelo sobrado?—Nada. Foi cadeira, ou banco deitado no chão lá em cima. De dia não é que elles fazem das suas...—É verdade. Guardam-se para a noite. Que noites, que eternidade de noites, Senhor Deus de misericordia! Parece que nunca a gente lhes vê o fim. E que me diz então a estas despedidas de maio e entradas de junho?!...—Não são de convidar, sr.ª Brizida! Velho sou,{54}mas não me lembro de anno mais carrancudo. Chuvas, relampagos, trovões e ventanias que levam tudo pelos ares! Safa!—E nós, coitados, n'este ermo, n'este desterro! Ai minha Senhora Santa Barbara! se a tua serva e devota não deixa aqui os ossos, grande milagre será. Escute!... Agora não foi engano!... Não ouviu risadas lá em cima no vão das casas?—Não é nada. São os rapazes do feitor jogando as escondidas.—Pois, sr. Romão Pires, affirmo-lhe por minha alma, que em Lisboa, quando minha senhora D. Magdalena me chamou e me disse: «Brizida, a sua menina anda fraquinha e enfezada, e o irmão tambem, os phisicos não acertam com o remedio, e fr. João entende que estas tosses do peito, assim teimosas, não se despegam senão com mudança de ares. Bem sabe, não posso sair da cidade por estes dias mais chegados—e é assim, coitada, por causa da sua demanda—acompanhe-me os meninos, e conte que fico tão socegada como se eu mesma fosse...» Quando me disse isto, e eu lhe beijei as mãos pela mercê, se podesse adivinhar o que nos esperava aqui, asseguro-lhe que me encolhia como a tartaruga na concha; e viesse quem quizesse... Isto não é palacio, nem quinta, é um verdadeiro inferno! Deus salve a minha alma!—A sr.ª Brizida não diz o que sente. Vindo a{55}sr.ª D. Maria e o sr. D. Pedro, ninguem a arrancava de ao pé d'elles.—Tem razão. Ninguem! A ella creei-a, mamou o meu leite, e sua mãe não lhe quer mais, não, deixe-me ter esta presumpção... A elle vi-o nascer, e os primeiros braços, que o embalaram, foram estes que hade comer a terra. Tão pequeninos os conheci, e tão formosos e crescidos os vejo agora, que não me posso costumar a crer, que um dia hei de ter o gosto de os abraçar homens!... Quando me ponho a olhar para elles, parece-me ás vezes que não póde ser, e que tudo isto é sonho...—Então!? Elles fazem-se homens, e nós fazemo-nos velhos. Não ha remedio. O mundo vae assim.—Bem sei. Mas, não os acha muito delgados, muito afinadinhos? Dizem que é da edade e do muito crescer, e que hão de encorpar depois. Deus queira! São os negregados estudos, que me ralam o corpo e a alegria dos meus meninos. A sr.ª D. Maria manhãs e tardes inteiras á almofada, bordando de branco, de matiz, e a ouro. E com que perfeição!... Que dedinhos de fada aquelles! E o sr. D. Pedro? É mesmo uma dôr de alma vel-o dia e noite amarrado á banca dos livros, e que livros! Latins, gregos, e não sei que outras trapalhadas deretroricas... Quem tem a culpa de tudo, o culpado de tudo o que póde acontecer, é o teimoso do sr. fr. João, que á fina força{56}quer o sobrinho sabio. Depois que falleceu o pae, (Deus o tenha em gloria!) não se nos tira de casa, e tanto ha de quebrar-me a cabeça ao meu menino, que um dia treslê. Pois olhe, sr. Romão Pires, vá com o que lhe diz uma ruim cabeça: mais vale asno vivo, que doutor morto.—O sr. fr. João, atalhou Romão Pires, aproveitando uma pausa da sr.ª Brizida, é muito bom tio, e desde que morreu meu senhor e amo tem sido um segundo pae para os meninos. Quer os sobrinhos prendados e de grandes merecimentos. Não lh'o levemos a mal. Sangue illustre e bens da fortuna possuem elles...—Por isso mesmo! Não precisava atanazarmos tanto! Não m'os deixa respirar. Mestres d'isto, mestres d'aquillo, musica para aqui, dansa para acolá... latins,pholosophias, ai, que barafunda! Nem eu sei como as pobres creanças não teem endoudecido. Cá por mim já o miolo ha muito tempo me tinha dado volta, tão certo como chamar-me eu Brizida de Sousa.—Ninguem aprende sem trabalho. O sr. fr. João não é nenhum nescio...—Nem eu lh'o chamo. Deus me livre. Nescio?... No convento e na côrte dizem que não ha outro doutor como elle.—Pois então deixe-o, que bem sabe o que faz. Estes sobrinhos são a luz dos seus olhos, e depois tão meigos, tão applicados...{57}—De mais, de mais, para a edade, sr. Romão Pires. Assustam-me. Não parecem d'este mundo, nem d'este seculo. O sr. fr. João é muito extremoso, e o que faz é por desejar o seu bem d'elles, mas, graças a Deus, a casa é rica e não era preciso amofinar-me tanto os meus meninos...O dialogo de que acabamos de ser fieis e escrupulosos expositores, era travado em uma antiga sala, vasta e pouco allumiada por estreitas janellas, cujas vidraças de postigo mal deixavam coar o dia. Das paredes em reboco pendiam farrapos soltos dos pannos, que as tinham forrado. Em outras partes as colgaduras adheriam ainda aos filetes, e representavam em suas pinturas desvanecidas figuras descommunaes, debaixo de arvores anãs, e no meio de arbustos e flores monstruosas. Os tectos, cujas vigas lavradas inculcavam a paciencia de um artifice do XV seculo, subiam a grande altura, enegrecidos pelo fumo da immensa chaminé de pedra, ornada de leões de marmore nas bases, e rematada com um brazão de relevo alto, orlado de ramos de silvas e amoras.O sr. Romão Pires, escudeiro de quasi setenta annos de edade, enxuto de carnes, e amarello como uma cidra, erguia-se direito e aprumado como uma das faias mais direitas da quinta. Nascêra e fôra creado desde a infancia n'aquella casa, e não conhecera nunca outros amos senão D. Vasco, e D.{58}Magdalena. Acompanhára seu senhor, assim lhe chamou sempre, em todas as campanhas da guerra da restauração, pelejando esforçadamente ao lado d'elle, e assistindo aos cercos e batalhas mais notaveis desde 1642. A historia dos perigos, em que se tinha achado, e a narração das proezas de seu amo, enfeitada de episodios e commentarios, serviam de saboroso pasto aos serões da familia, obrigada a engulir como artigos de fé todas as aventuras da nova «Tavola Redonda,» que a imaginação do escudeiro entretecia na tela interminavel de sua cansativa Illiada.A sr.ª Brizida de Sousa, que tão avexada ouvimos queixar-se das apparições, era matrona de mais de cincoenta annos. Baixa, roliça e risonha, suas faces lisas, cheias e coradas ainda tinham a frescura de duas maçans rainetas. As feições, pouco accentuadas, e quasi infantis, sumiam-se entre as roscas das nedias bochechas, e os seus ares beatos brigavam na candura affectada com uma larga experiencia da vida. Toda aquella pequena e buliçosa matrona respirava aceio, cuidado, devoção, e azafama. Collaça de D. Magdalena, e casada com um dos caseiros mais abastados do morgado, depois ama de leite da filha primogenita da casa, enviuvára sem filhos, nem saudades do estado, resumindo todos os affectos nos seus extremos pela fidalga, e na idolatria das duas creanças, que trazia sempre na boca e no coração.{59}Trajava por costume roupas escuras. As toucas alvissimas, caidas talvez de mais para a testa, e o córte dos vestidos á beguina, affirmavam o programma da sua virtude inaccessivel. Supersticiosa, e com a memoria recheada de orações, de visões, e de devotas crendices, o seu defeito capital era occupar-se muito com as vidas alheias, enfiando um rosario de conselhos a proposito de tudo, e mexericando, por indiscreta, amos, criados, e hospedes, mas sem intenção ruim. Todos se encobriam d'ella, quanto podiam, porém ninguem a aborrecia. Temiam-se da intemperança de suas confidencias, mas confessavam a bondade do seu caracter, que era na verdade excellente.Romão Pires, tirando a estafada repetição de suas campanhas, representava em tudo o opposto d'ella. Sério, como um santão, embizourado, e quasi sempre com a aguda barba escondida na gargantilha, se levantasse a vista e a curiosidade para os negocios dos outros, cuidaria faltar a Deus, a si, e ao mundo. Sua boca era sagrada, e segredo que lhe caisse no peito ficava sepultado n'elle profundamente.Apesar d'estas qualidades contrarias e talvez mesmo pelas possuir, era o conselheiro nato da sr.ª Brizida em todos os casos intrincados, e o defensor convicto dos seus mêdos e indiscrições.—«Boa alma! Boa alma! respondia aos que a censuravam.{60}Tem o defeito de fallar de mais, mas é uma santa pessoa.»—Brizida pagava-lh'o. Para escutar a milessima edição das guerreiras epopeias do escudeiro, até fazia o sacrificio de suspender a loquacidade propria!...O sr. Romão Pires, amortalhado na eterna roupeta e n'umas calças côr de pulga, esguio, comprido, e hirto, com um par de oculos de azelha montado no cavallete do interminavel nariz, não desabotoava a seriedade do rosto, nem dava ferias ao enfado chronico senão para sorrir á sua comadre Brizida. Aquelles olhos verdes desbotados não se animavam senão para festejar algum bom dito da matrona, cujas fallas assucaradas contrastavam com a voz rouca e soturna do antigo campeão da independencia portugueza. A predilecção honesta, mas decidida dos dois um pelo outro, não escapára aos criados, e todos acreditavam que, cedo ou tarde, o vinculo matrimonial ainda viria apertar mais estreitamente a união de duas almas já tão intimas.A quinta, em que residiam havia duas semanas, situada na margem direita do Tejo, estendia as matas e charnecas até á ribeira, que separa Paio Pelle da villa de Tancos, da qual a casa, construida sobre uma colina, distaria pouco mais de dois ou tres tiros de espingarda. Era palacio antigo, talvez fundado por meiados do seculo XIV, accrescentado, e reparado pelos fins do XVI. As ameias, já derrubadas{61}em muitos lanços de muro, proclamavam a sua velha e legitima nobreza. Duas alas terminadas por torres fortificadas em tempos mais remotos, saindo fóra do corpo principal do edificio, formavam os lados do espaçoso terreiro, rasgado diante da fachada, cujas doze janellas de architectura irregular olhavam para elle. No terreiro se tinham jogado cannas e corrido touros nos anniversarios festivos dos senhores.A casa era antiga, como dissemos, e estava muito velha. Nas juntas e articulações das pedras carcomidas cresciam tufos de viçosas parietarias. Uma arcada sombria, sustida por grossas pilastras, resguardava as entradas das duas escadas, que subiam em volta de caracol até ao primeiro andar. Outra porta, por baixo do centro da arcada, dava serventia por uma rampa para os subterraneos allumiados ao rez do chão por agulheiros. No piso nobre corria uma fileira de salas nuas, frias e tristes, lageadas de ladrilho. Sobre os corredores por onde o ar e uma luz escassa a custo circulavam, abriam as alcovas suas portas envidraçadas. Seguiam-se muitos aposentos, mais ou menos escuros, crusados de passagens, de escadas furtadas, e de portas falsas, compondo desde o andar terreo até aos vãos debaixo dos telhados, uma rêde inextricavel, um verdadeiro labyrintho. A casa de jantar, forrada de carvalho em molduras, prolongava-se á maneira de refeitorio{62}entre dois extensos corredores. Na extremidade de um d'elles baixava uma escada para o jardim, na outra empinavam-se os degraus da escada, que ia para os vãos, os quaes por cima corriam em largura e comprimento da casa. As torres communicavam-se com o corpo do edificio por duas portas esguias e abobadadas, aferrolhadas havia longos annos. Os eirados, meio abatidos, vertiam-lhes dentro em torrentes as chuvas caudaes do inverno.O jardim, ornado de canteiros e de poiaes azulejados, com um tanque de pedra no meio, e um satyro hediondo entornando a urna desforme, creava algumas roseiras e craveiros degenerados entre urtigas, papoulas, e malmequeres bravos. As hortas mais cuidadas pegavam com as terras de pão, cingidas de vallados altos, defendidos com pitteiras. O aspecto do palacio era carregado de melancholia. Rodeado de solidão justificava em sua tristeza as queixas, que ouvimos á sr.ª Brizida. Porque escolhera, porém, D. Magdalena aquelle êrmo para abrigo dos filhos e dos criados, quando tinha tantas propriedades mais alegres e reparadas aonde podessem respirar, longe do bulicio da côrte o ar do campo?D. Magdalena descendia da familia illustre dos Coutinhos Noronhas, de que fôra tronco e progenitor o marechal Gonçalo Vaz Coutinho, senhor do couto de Leonil, e meirinho-mór por el-rei D. Fernando na comarca da Beira. Formosa, discreta e recatada,{63}perdera seu marido, D. Vasco Mascarenhas, mestre de campo dos exercitos de D. João IV e D. Affonso VI, havia tres annos, e ainda não enxugára as lagrimas da viuvez. Em edade de merecer e de acceitar requebros, tinha-se recolhido na sua casa de Lisboa, aonde não recebia senão as visitas de alguns amigos antigos da familia, guiando-se em tudo pelos conselhos de fr. João Coutinho, seu irmão, grande sabio, e doutor em canones e theologia, o qual se encarregára de dirigir a educação litteraria dos sobrinhos.D. Vasco Mascarenhas, tão distincto pelo nascimento, como pelas qualidades do caracter e do espirito, unira ás propriedades de sua casa, já mui rica, o senhorio da villa de Paio Pelle e do castello de Almourol, que sua mulher lhe trouxera em dote, mas quasi sempre occupado na côrte com os negocios politicos e no serviço activo das armas, só duas vezes visitára de fugida aquelle solar desamparado, que principiava a cair em ruinas, entregando o grangeio das terras e a cobrança dos direitos do donatario, com excessiva confiança, diziam os murmuradores, á probidade equivoca do feitor Paulo Rodrigues, camponez avido e ladino, que mais as disfructava como usurario, do que as geria como administrador. Avisada de que o palacio e as fazendas se arruinavam n'aquellas mãos viscosas, D. Magdalena resolvera ver por seus olhos o verdadeiro estado{64}das cousas, na companhia de seu irmão, fr. João Coutinho, ficando para depois decidirem ambos o que julgassem mais conveniente.Outra razão serviu de estimulo para a partida dos filhos da casa, dissimulada com o pretexto da necessidade da mudança de ares. Antigas relações de parentesco ligavam a familia dos Mascarenhas com o segundo ramo dos Noronhas, cujo opulento morgado possuia grandes bens na mesma comarca, aonde existia o solar dos Coutinhos. O logar do Arripiado, que tão viçoso beija as aguas do Tejo, defronte de Tancos, com dilatados campos e charnecas, pertencia ao velho D. Nuno, cujo filho unico, D. Affonso de Noronha, saira da côrte para o exercito do Alemtejo. D. Affonso, illustre pelo berço, e já illustre pelo valor, vira crescer em belleza, primeiro com assombro, depois com paixão ardente, sua prima D. Maria de Mascarenhas, e não encobrira de seu pae o amor, que ella lhe inspirava. D. Nuno confiou este segredo á ditosa mãe, e ella, não podendo desejar casamento mais vantajoso, nem mais da sua escolha, antes de dar o sim, quizera, comtudo, sondar disfarçadamente as inclinações da donzella. Conheceu com alegria, que D. Affonso começára a apoderar-se d'aquelle coração, que em sua innocencia principiava a balbuciar apenas as primeiras e vagas aspirações de um sentimento, que não sabia definir ainda.{65}Corria o anno de 1663. D. João de Austria, á frente das armas castelhanas, tentára o derradeiro esforço, invadindo Portugal com dezeseis mil soldados, e os nossos generaes, juntando as forças, mal conseguiram oppor-lhe cinco ou seis mil. A cidade de Evora, que devia ser um dos baluartes da resistencia, accommettida no dia 14 de maio, capitulára, depois de pouco honrada defeza. Este revez aggravou os receios, e as partidas de cavallaria inimiga chegaram a insultar Alcacer. D. Sancho Manuel convocára immediatamente os officiaes a conselho, e só um voto, o d'elle, approvára a conveniencia de ferir a batalha, que as ordens do governo prescreviam como remedio extremo. A pericia de Schomberg, temendo como inevitavel o desastre, viu n'elle o ultimo precipicio da independencia; mas a feliz temeridade do conde de Villa Flor, fechando os olhos á prudencia, applaudia o encontro decisivo dos dois exercitos, como o unico meio, embora desesperado, de salvar a provincia e o reino da sujeição estrangeira.O povo de Lisboa, assustado, furioso, e alvorotado nas praças, assaltára as casas de Sebastião Cesar, do marquez de Marialva, e de Luiz Mendes de Elvas. A todas as horas se aguardavam noticias da marcha das tropas, e todos tremiam. Um lance repentino podia sepultar para sempre as esperanças de Portugal!{66}A filha de D. Magdalena, D. Maria de Mascarenhas, mais velha desoito mezes do que D. Pedro, seu irmão, contava n'esta epocha dezesete annos, e sem vaidade merecia ser admirada como uma formosura completa. Talvez que o unico senão de tanta belleza fosse a sua mesma perfeição irreprehensivel. No rosto, graciosamente emoldurado pelas luxuosas tranças, confundiam-se os lirios e as rozas na mais mimosa frescura. A bocca, fina e espirituosa, córada como um botão nacarado, breve como um suspiro, quando o sorriso a animava, tinha uma expressão adoravel. Nos olhos pretos, que as assedadas pestanas cobriam ás vezes de uma sombra de enlevada melancolia, a luz serena raramente se inflammava, mas sua tranquillidade languida deixava adivinhar, que se a paixão dormia ainda, facil lhe seria, despertando, illuminar de subito e vivo fulgor aquellas pupilas descuidadas. A mão parecia formada pelo modelo de uma estatua primorosa. O pé estreito e arqueado pousava-se tão leve e elegante, que a vista como que involuntariamente se alçava a buscar nos hombros as azas da Silphide. A voz tinha condão seductor. A estatura, um pouco acima de ordinaria, e flexivel como a hastea de uma flor, tambem se dobrava como ella, parecendo que o esbelto corpo de melindroso não podia com o doce peso da fronte, em que as mil graças da primeira enamorada primavera competiam umas com as outras sem se vencerem.{67}As posições e os gestos em sua desafectada singeleza respiravam a attracção, que o calculo debalde se esforça por imitar. Tudo desmentia o arteficio. O requebro das maneiras, o imperio irresistivel da vista e do sorriso, e a magia arrebatadora das fallas e do semblante, nasciam espontaneos, prendendo os sentidos e a admiração. A formosura da alma ainda era maior, se é possivel. O coração retratava-se na fronte limpida, e os infinitos thesouros de ternura e de abnegação, que por ora concentrava nos extremos de filha e de irmã, quando se abrissem a affectos mais vehementes, promettiam todas as venturas ao amor ditoso. A pureza mais casta, a da ignorancia sublime da infancia, vestia-lhe de candura todos os pensamentos. O pejo era n'ella tão sensivel, que affrontado não só faria corar o rosto, mas o corpo. Compassiva e caridosa sabia conciliar a altivez do sexo com a brandura da indole a firmesa da vontade. Os dotes do espirito esmaltavam as qualidades moraes.Talvez não houvesse na corte dama ou donzella tão instruida na lição das boas letras. Os melhores livros de prosa e as obras mais acceitas e castigadas dos poetas portuguezes, hespanhoes e italianos, escolhidos por Fr. João, eram a sua companhia certa nas horas de repouso.D. Maria presava em D. Affonso de Noronha todas as distincções, que o exaltavam. Valia menos, porem, a seus olhos a illustração do berço, do que a elevação{68}do caracter e a fidalguia das acções, que em edade tão verde quasi o haviam tornado um paladino. Não seria mulher, comtudo, senão a confirmassem n'este juizo a presença insinuante do mancebo, a gentileza do seu porte e a nobre expressão da sua phisionomia. Os olhos da donzella, sempre pensativos, encontrando os olhos vivos e rasgados do primo, aonde riam as illusões da vida e da juventude, nunca fugiam d'elles, senão a furto, e as rosas mais accezas das faces confessavam o que tentaria encobrir em vão se acaso soubesse dissimular. Nunca os labios dos dois tinham soltado uma palavra, que revelasse o que sentiam. Amavam-se. A alma de um trazia sempre gravada a alma do outro, mas só a eloquencia da vista, indiscreta ás vezes, traira o segredo. D. Affonso, não podendo por mais tempo calar a chamma, que o abrazava, tinha declarado ao pae, momentos antes de metter o pé no estribo e de partir para a campanha, que este amor encerrava todo o futuro de suas esperanças, entregando-lhe a sorte d'elle. Sabemos que D. Nuno não perdera a occasião, e que D. Magdalena applaudia o enlace proposto.A chegada repentina dos filhos de D. Magdalena, da aya e do escudeiro, com alguns criados velhos, colheu de sobresalto o feitor Paulo Rodrigues. Tomado de subito o manhoso camponez, soubera disfarçar o embaraço e as apprehensões, mas custara-lhe a conformar-se com a presença dos amos na casa, que{69}havia tantos annos estava costumado a olhar mais como sua do que d'elles. Mandou varrer e aceiar á pressa duas salas e algumas alcovas do andar nobre, para os hospedar, recolheu a mulher e os filhos nos vãos do palacio, e ainda se lhe carregou mais a viseira quando soube que a senhora e Fr. João Coutinho poucos dias se demorariam atraz da familia.No primeiro dia reinou profundo socego, mas na segunda noute, mal a ultima pancada do sino batera as doze horas, romperam as diabruras nos quartos da aya e de Romão Pires. Apagaram-se todas as luzes de repente por si mesmas. Estalaram nos corredores risadas infernaes. Soaram ruidos de ferros e cadeias arrastadas. Só ao alvorecer é que tudo desappareceu.O escudeiro, lembrado dos antigos feitos, apesar do tremor, que lhe sacudia os membros, quiz fazer e fez cara feia ao demonio. Na terceira noute levantou-se da cama, engrolando Padres Nossos e Ave Marias, petiscou lume, accendeu uma vela, abriu a porta de manso e saiu ao corredor, quasi em vestido de banho, mas com a comprida espada nua debaixo do braço. Depressa se arrependeu. Aos primeiros passos um sopro forte apagou-lhe a luz, bramidos roucos e proximos gelaram-lhe o sangue, e um clarão momentaneo e sulphurio mostrou-lhe, envolto no sudario, um spectro descummunal e ameaçador.{70}Esta horrenda visão deu-lhe com os brios em terra; e, virando costas ao inimigo, logrou refugiar-se no seu catre com a cabeça debaixo das roupas, acto de valor, em que a sr.ª Brizida de Sousa o acompanhava conscienciosamente havia muitas horas. Pela manhã os dous velhos pareciam desenterrados.O aposento aonde D. Maria de Mascarenhas dormia e uma criada, não foi mais respeitado, e a donzella, transida de susto, contou em vigilia continuada as longas horas, que medeiaram até ao amanhecer. D. Pedro ainda padeceu mais. Acordando sobresaltado ao impulso de mãos brutaes e no meio de escuridão profunda, sentiu-se arrancar do leito e balouçar dentro das cobertas entre uivos e rizadas.Paulo Rodrigues, pelas oito horas veio saber da saude dos amos, e, ouvindo da sua bocca a lastimosa historia dos tormentos e perplexidades nocturnas, contentou-se com encolher os hombros, e observou serenamente, que em vida de seu pae, já tinham muito má fama as casas do andar nobre.As noutes seguintes não foram mais tranquillas. Os espectros e duendes tinham de certo reservado aquellas espaçosas salas, e os corredores, para theatro de suas diabruras. Dir-se-hia até que o tempo conspirado com elles os ajudava a augmentar o pavor dos hospedes. Rebentaram as trovoadas de maio tão carrancudas e violentas, que os ceus se abriam em relampagos, e a terra tremia com o rebombo dos trovões.{71}As chuvas caiam tão impetuosas que as estradas ficaram convertidas em leitos de torrentes e as terras baixas em lagoas. O Tejo, cheio e empolado, alagava as margens, e suas aguas batiam enfurecidas contra os penedos sobre que se ergue o castello de Almourol, salvando por cima do caes em cachões de espuma. Ao oitavo dia acalmaram-se as tempestades, mas redobraram de força os maleficios nocturnos, com terror, e espanto summo dos recem-chegados.Avexados, tremulos e fóra de si, reuniram-se todos e determinaram mudar a residencia para os aposentos do castello, que não tinham desabado ainda minados pelos seculos e pela indifferença; mas o feitor, que estabelecera n'elles uma filha casada, dissuadiu-os do proposito, ponderando que as salas e os quartos do velho edificio dos Templarios, alem de frios e de mais nus, que os do palacio, não eram menos perseguidos de visões. Por horas mortas, exclamou elle, as almas dos cavalleiros tornavam aos sitios, aonde tantos annos os corpos tinham vivido. Nas guaritas de pedra, pelo adarve das muralhas, e nas salas de abobada, espectros cobertos com o manto branco, ornado da cruz vermelha da famosa milicia religiosa, appareciam repentinamente, e no silencio da noute sentia-se o tinir das grevas e sapatos de ferro sobre as lageas e ouvia-se a voz das sentinellas. Até raiar a aurora não se calavam na sala de{72}armas as vozes, as rizadas, e as blasfemias. Escutando esta descripção horrifica, Brizida de Sousa e Romão Pires olharam consternados um para o outro, e depois de se persignarem devotamente, não querendo precipitar-se de Scylla em Carybdes, preferiram supportar as travessuras menos estrondosas dos duendes da quinta. Escreveram entretanto a D. Magdalena, pedindo-lhe que os tirasse d'aquelle purgatorio o mais cedo possivel, ou que viesse sem demora em companhia do Sr. Fr. João desalojar os espiritos diabolicos, cuja audacia zombava da agua benta e exorcismos do Vigario de Tancos. Os dous honrados servos confiavam que a grande sciencia do frade doutor e as virtudes do habito de S. Domingos sairiam victoriosas com certeza da rebeldia de Satanaz e da maldade dos seus accessores.{73}IIEm 1663 campearam ainda intactas as muralhas, as torres, e a cêrca exterior da fortaleza reconstruida no anno de 1170 por D. Gualdim Paes, defronte de Tancos.[2]Cinco seculos, passando por cima d'ellas, não haviam desconjuntado as quadrellas gigantes, nem alluido o cimento indestructivel, que mesmo ainda agora parecem desafiar a acção do tempo e o braço infatigavel dos demolidores. A ordem do Templo, transferida de Castro Marim para Thomar,{74}a séde da sua victoriosa milicia, estendera rapidamente pela Estremadura os membros robustos. Affonso I, liberalisando-lhe doações e privilegios, e enriquecendo com largos senhorios os monges soldados, confiára quasi exclusivamente ao seu valor a guarda e defeza dos territorios conquistados n'ella. Ega e Soure, Pombal e a Redinha hasteavam as cores do Templo. A Cardiga, Ceras, e outras povoações, cobriam-se tambem com as dobras do famoso estandarte bipartido[3]. As chaves das duas entradas da provincia estavam nas mãos dos cavalleiros. Defronte da moderna Constança, na confluencia dos dois rios, o castello do Zezere cortava o passo aos agarenos da Beira Baixa, em quanto, surgindo do meio das aguas, o castello de Almourol fechava o caminho aos walis do Alemtejo e da Andaluzia.As ruinas, que vemos hoje debruçadas sobre o rio, contam aos que sabem interrogal-as mais de uma pagina da epopeia portugueza. Assentada sobre um ilheo quasi oval de rochedos sobrepostos, amontoados talvez ali caprichosamente pelo impeto de violenta irrupção vulcanica, as elevadas torres do velho castello, que as voltas do Tejo ora encobrem, ora deixam descortinar de longe, erguem-se mutiladas e enegrecidas pelo halito mirrador dos seculos. Grinaldas de heras penduram-se em festões das{75}ameias desmoronadas, ou se arraigam em tufos virentes nos intersticios dos pannos rotos das muralhas. O arrojo d'aquelles penedos, tão arremessados que o dedo de uma creança parece sufficiente para os fazer escorregar com o muro que os corôa, para o leito do rio, espanta os olhos sobresaltados d'aquelle equilibrio ousado e quasi milagroso. Areias accumuladas, e alguma terra de alluvião formam o solo, aonde cravam as raizes os choupos, os salgueiros e os chorões, cujos troncos torcidos se penduram de cima das fragas até roçarem as aguas com as ramas descabelladas. Piteiras enormes orlam em algumas partes os penhascos aprumados, ou rebentam das fendas das rochas meio precipitadas. Uma vegetação activa e luxuosa veste de verdura aquelle cahos de moles immensas sustidas ha seculos no meio da ameaça constante de uma quéda instantanea.No anno em que passaram os successos, que refere esta veridica historia, o aspecto do sitio era sim bronco e alpestre, como a natureza o formou, mas a assolação não o havia visitado ainda, agravando-lhe a melancolia. Do lado do occidente quatro torres circulares, levantadas como sentinellas de granito a egual distancia umas das outras, alçavam as frontes torvas e já tostadas do tempo. Entre a segunda e a terceira rasgava-se a porta actualmente intransitavel do castello, com a sua volta de ogiva e grossos batentes de castanho chapeado. No meio do{76}guerreiro edificio avultava a torre de menagem, e logo adiante, em curto intervallo, outra quadrada tambem, com os eirados cingidos de ameias. Uma janella ornada de lavores em ramos, aberta a dois terços da altura, esclarecia os aposentos do segundo piso, em quanto da parte oriental duas frestas do mesmo estyllo davam claridade á sala de armas. Cinco torres guarneciam o lado do nascente. Ahi a muralha subia a grande altura, acompanhando as sinuosidades do terreno. O caes ficava ao sul, e o fosso natural, que rodeava os muros, agora cego de entulho, corria profundo e despenhado. No interior da fortaleza, aonde tudo hoje são ruinas e pedras soltas, enroscadas de ervas e de silvas, e aonde os cactus silvestres brotam gigantescos, era o pateo espaçoso por onde se entrava para os andares. Raras e esguias frestas allumiavam aquelles aposentos, pouco espaçosos, mas enfeitados de altas e ricas laçarias. Em 1663 a obra da destruição principiava a annunciar-se apenas. Apesar de nuas, as salas ainda conservavam sua bellesa severa, e nos eirados e adarves, se não alvejava havia mais de tresentos annos o manto branco dos templarios, se algumas heras, trepando, se balouçavam á mercê do vento, e se as torres e muralhas mostravam já a côr adusta, que é para os monumentos o que são as cãs nos velhos, um testemunho irrecusavel de que viram e viveram muito, não se tinham esmorecido,{77}comtudo, nem apagado ainda nenhuns dos vestigios dos grandes dias de lucta. Almourol no meio do Tejo, similhante a um titão com metade do corpo fóra das aguas, ainda podia ameaçar forte e intacto, os que ousassem arriscar-se ao alcance de seus tiros. Firme e inexpugnavel cuidava no vigor de sua robusta velhice zombar dos seculos, como as creanças zombam dos annos, bem alheio de suppor, que na transição da edade grave para a decrepidez sua decadencia seria rapida, e que, espectro de granito, suas ruinas diriam ás gerações indifferentes da nossa época, que eterno e grande só é Deus!Em uma das salas baixas da velha torre de menagem, toda de abobada, e ornada de mobilia rustica, estavam assentados, um defronte do outro, os dois ricassos da terra, ligados pelos vinculos do parentesco, e mais ainda pelas raizes de interesses reciprocos. O feitor Antonio Rodrigues ajudava piedosamente seu genro e consocio Pedro Lavareda a ingorgitar copiosas libações de um vinho, que escaldaria outras goelas menos estanhadas. Sobre a grande mesa de pau santo e pés torneados, que servia de altar aos dois zelosos sacerdotes do Bacho d'aquelles contornos, avultava um alentado cangirão de barro, bojudo, e cheio até á boca. Principiára a anoutecer, e uma candeia enorme de tres bicos, similhante a monstruoso aranhiço, allumiava a casa{78}escassamente. Duas espingardas, carregadas e engatilhadas, jaziam ao canto, promptas para servir á primeira voz.Antonio Rodrigues era corpulento, espadaúdo, e reforçado. Faces largas e cheias, bastante roliças, pescoço curto e taurino, cabeça enterrada entre os hombros, peito amplo e bombeado, e pernas grossas e firmes denunciavam n'elle o vigor de um atheleta unido a uma saude inexpugnavel. Inculcava apenas sessenta annos, mas os visinhos do seu tempo punham-lhe mais dez sem receio de erro, e acertavam. Mas era uma velhice verde e jovial, que não se inclinava ao peso dos annos, que o trabalho não desfallecia, antes reanimava, e que promettia, assim viçosa e robusta, chegar a um seculo completo, rindo-se dos catharros, dos rheumatismos, e ainda mais da apoplexia fulminante prognosticada pelo douto Esculapio, o licenceado de Tancos, seriamente amuado por nunca ter de receitar nem um xarope áquelle cliente invulneravel ás chuvas, aos frios, e a todas as temeridades, a que um mancebo se não atreveria impunemente!Antonio Rodrigues trajava á camponesa, com aceio, mas sem basofia. Gibão e calças de baeta escura, carapuça de lã, e o inseparavel varapau ferrado na ponta constituiam o uniforme do activo Triptolemo. Uma grenha de cabellos grisalhos, crespos e bastos, descia a affrontar-lhe a testa, pouco sulcada de rugas.{79}O sorriso enroscava-se perenne nos beiços grossos e córados. Conservava intactos ainda, e brancos de jaspe, como os de um tubarão, todos os dentes. A barba baixava em andares sobre o peito, e os olhos castanhos, pequenos, e maliciosos, afogados em gordura, dir-se-hiam que espreitavam tudo, meio encobertos. A voz aflautada causava espanto saindo d'aquelle corpo. Finalmente, o nariz grosso e cravejado de botões vinosos, rubros como rubins, assumia dimensões quasi phenomenaes. A expressão da phisionomia era dubia. O observador no primeiro relancear apenas notaria a beatitude do comilão repleto e do bebedor insaciavel. Attentando melhor, e, comparando o olhar, o gesto, e o riso mudaria porem logo de conceito, divisando debaixo d'aquella mascara de Sileno herculeo as feições moraes significativas da astucia, do egoismo brutal e desentranhado, e de uma cubiça incapaz pela avidez de transigir com a honra, com a consciencia e com o dever.Pedro Lavareda representava o antipoda de seu digno sogro e tio quanto aos dotes physicos. Um hellenista contemplando-os, tomaria um pelo alpha, e o outro pelo omega. O genro, magrissimo, quasi esqueleto, assustava os que o viam com o receio de que um dia lhe saltassem os ossos das tibias e dos femurs soltos das ligaduras. Braços de polipo, terminados por mãos e dedos eternos, hombros agudos{80}sobre os quaes o fato dansava como posto em cima de um cabide, rosto comprido, escaveirado, e macilento, acompanhado das melenas esguias de um cabello ruivo e aguado, testa núa que chega quasi á nuca, peito e ventre espalmados, olhos vesgos, tortos, encovados, mas vivos ou surrateiros, boca rasgada quasi até ás orelhas, e beiços finos e desbotados, compunham a lugubre, carrancuda, e exotica pessoa do lavrador mais atilado, avarento e sem escrupulos d'aquellas immediações. Parecia fraco e a desfazer-se; mas as pernas delgadas, como fusos, podiam andar legoas, os braços escamados encobriam uma força alem do commum, e os olhos vesgos só viam torto para os negocios alheios.Retrato vivo do aspecto mortificado de um franciscano penitente, o velhaco ria-se tanto para dentro como o feitor Antonio Rodrigues se ria para fóra. Uzurario de nascença, hypocrita por indole e verdadeira voragem de liquidos e solidos, digeria como um abestruz e bebia como um areal. Quando conversava, sempre em fallas manças, sabia chamar a tempo uns frouxos de tosse e umas lagrimas de defluxo, que o ajudavam muito a engulir metade, e ás vezes duas terças-partes das palavras, e é inutil accrescentar, que as palavras engulidas eram sempre as que o podiam comprometter ou aproveitar aos outros. Quando o caso o requeria, Pedro Lavareda, o valetudinario sadio, convertia-se n'uma cascata de prantos.{81}Tinha as glandulas lacrimaes devassas e chorava como um crocodilo. Ai dos innocentes que se deixavam orvalhar e amolecer por elle!... Ficavam quasi sempre sem camisa. No meio d'aquelle rosto afiado erguia-se um promontorio immenso. Era o nariz adunco e aguçado na ponta, que descia quasi a beijar o labio superior. Este nariz, delgado e membranoso, rematava a semelhança que tinha aquella cara com o focinho da fuinha. Esquecia notarmos que Antonio Rodrigues exercia com applauso geral as funcções de procurador de dous conventos de freiras, de quatro irmandades, e que seu genro accumulava com outros arrendamentos lucrativos a arrematação dos dizimos e premicias da comarca.—Os de Payo Pelle pagaram por fim? perguntou o feitor ao genro pousando o caneco despejado em cima da mesa.—Com lingua de palmo. Elles conhecem-me, sr. tio! respondeu Pedro Lavareda com um sorriso avinagrado.—Bem bom!... Sabes o que me dá cuidado agora, homem? É esta gente aqui mettida. Tomara vel-os pelas costas.—Pois acabe de os empurrar para a rua, que não deixam cá saudades! redarguia o outro com meio sorriso acido.—Isso é facil de dizer, mas... Ao cabo de tudo, Pedro, bem vês, os donos da casa são elles!...{82}—Que vão comendo as rendas e que nos deixem. Tão más são ellas!...—Hum! Podiam ser melhores... Esse é o meu receio. Trazemos isto muito de rastos, Pedro, e alguma lingua ruim lh'o disse já ou lh'o ha de dizer.—Invejas! fallatorios!... acudiu o genro entre dous frouxos de tosse.—Pois sim!... Olha, não seria melhor offerecermos um nadinha mais pelas terras e ficarmos com ellas de pedra e cal, do que arrebentar-nos a castanha na boca uma d'estas manhãs?!—Nanja eu, tio! Sangue ninguem m'o tira á boa feição, e o dinheiro é sangue...—Mas homem!?...—Deixe lá, sr. sogro, não se metta a abelhudo aonde o não chamam, e deixe ir a agua ao moinho. Já alguem fallou em lhe levantar a renda da alcaidasia?...—Não.—Pois não faça andar o carro adiante dos bois, e coração á larga. O que for soará.Houve um minuto de pausa. Antonio Rodrigues coçava a nuca com o indicador e o dedo médio da mão direita por baixo da carapuça, e rufava sobre a taboa da meza com todos os dedos da mão esquerda. As roscas da barba sumiam-se-lhe na golla alta do gibão, e os olhinhos, homisiados entre as palpebras{83}meio cerradas, luziam vivos e scintilantes como os do gato matreiro que espreita a presa. Pedro Lavareda, menos apprehensivo na apparencia, limpava os olhos chorosos com um quadrado de panno de linho, em quanto a unha tigrina de um dos dedos da outra mão raspava uma nodoa conhecida e teimosa do calção sobre o joelho. Ambos meditavam e se entendiam sem fallar. O feitor de repente levantou meio corpo de cima do mocho de pinho em que se assentava, colheu o cangirão pelas azas, sopesou-o por um instante, e emborcando-o, encheu os dous canecos de louça. Levou depois o seu á boca, encurvando lentamente o braço, e despejou-o em poucos sorvos, emquanto o sobrinho, coleando primeiro a lingua pelos beiços, libou com mais vagar e com gestos de amador consumado o nectar, que espumava na grosseira taça.—Rapaz, isto não vai bom!... tornou Antonio Rodrigues com um suspiro. Anda mouro na costa, que eu bem o sinto e cá sei os botões com que me abotou-o. Esta gente de Lisboa aqui não gosto nada d'ella.—Ora, tio deixe-se de scismas!... De que tem medo? A aya é uma tonta, uma pêga douda. O escudeiro não passa de um espantalho de pardaes, e os meninos.... leram tanto que tresleram. Mostre-lhes um campo de cevada nascida de oito dias e verá se não lhe dizem que é trigo.{84}—Mas atraz da pêga e do espantalho tenho muito medo que venha o milhafre!...—Qual milhafre?!...—O frade!... murmurou o feitor em voz abafada e com signaes de verdadeiro susto.—E então se vier?!... Lê no seu breviario! O Sr. Fr. João Coutinho sabe muito de leis e de casos, mas de lavouras não creio...—Nisso te enganas. É capaz de dar sota e az ao mais pintado!. Creou-se no campo e administrou muito tempo os bens do convento.—Ah! Ah!...—E tenho meus longes de que, mais dia menos dia, ahi o temos pela prôa com a Sr. D. Magdalena.—Mau será!... rosnou entre dentes o sobrinho declarando com a unha do polegar crua guerra a uma verruga, que lhe ornava a ponta do nariz. Máu será, tio!.... Mas não havemos de perder o somno por isso. Dizia no mosteiro, aonde me ensinaram, o padre mestre Fr. Hilario, que para todo o genero de peccado deixou Deus remedio na sua egreja...Houve nova pausa. Os dous olhavam um para o outro calados mas pouco satisfeitos.—Então que dizes, homem?!..—Se o frade vier.... é pôl-o ao fresco, em vinte e quatro horas.—Estás mangando, sobrinho?!.. Pôl-o ao fresco? O irmão da senhora, o tio dos meninos?!...{85}—Tal e qual. Nem mais, nem menos!! Sacudil-o e depressa.—Ora! Bugalhos, sr. meu genro!... Sacudil-o?!. Como?...—Mettendo-lhe medo.—Ao sr. Fr. João, que é rijo como ferro e valente como as armas?!.. Vai dormir, Pedro, isso é somno.—Sim sr., metter-lhe medo, porque não?...—Com as almas do outro mundo, aposto, como tens feito á lambareira da aya e ao nescio do escudeiro? atalhou Antonio Rodrigues com uma rizada de escarneo.—Com as almas do outro mundo, sim senhor!... Cuida que o frade não foge?... Hade vel-o em camisa no pateo, mais branco do que os lençoes da cama.—Deixa-te de historias, Pedro!... As visões com o frade não pegam. O que apanhas é algum tiro.... e olha que é caçador que não erra.—Pois deixe-o ser. Fico por mim. Entregue-me o negocio, e verá....—Emfim, lá sabes as linhas com que te coses... Mas toma sentido comtigo! O frade é ladino, sei que vem desconfiado de nós, e tenho muito amor á pelle.—Socegue. Eu tambem não tenho odio á minha. Diga-me: se Fr. João vier, aonde o mette?—Aonde o metto?!.. Porquê?{86}—Preciso saber.—No quarto verde talvez...—Nada! Dê-lhe o quarto dos armarios.—Mas!...Houve outra pausa. O feitor olhava suspenso coçando sempre a nuca. O genro ria-se para dentro, raspando a nodoa do calção.—Tu não me dirás o que intentas fazer, Pedro? Tenho medo de ti e do teu risinho.—Pois não tenha. Hade tudo correr como um brinco, louvado Deus e sua mãe Maria Santissima.—Mau!... Se me resmungas nomes de santos temos maroteira e grande!... Pedro!... Toma cuidado! Nem uma beliscadura, nem uma picada de agulha no sr. Fr. João.... Não é por elle, é por mim. Nada de graças pesadas! Não me quero ver na cadeia comido de pés e mãos. Leve antes a bréca as terras.—Ai, tio!.. Não se faça teimoso, e não esteja calumniando as minhas intenções.. Valha-me a Senhora Sant'Anna.—Mau! Tornas aos santos!... Que é isto?...—São passos.—E vozes... Chega á fresta e vê!Pedro Lavareda obedeceu.Um vento rijo e chuveirões puxados com força bateram-lhe na cara, apenas abriu o pesado caixilho, e arriscou a cabeça para espreitar o que se passava{87}no rio. O devoto personagem recolheu á pressa o interminavel e esganado pescoço, rosnou duas interjeições apimentadas, e, enrolando um lenço por cima da gola do gibão, tornou a affrontar, porem mais abrigado d'esta vez da furia do aguaceiro. Decorridos instantes de attenta observação, metteu-se para dentro, cerrou o caixilho, e veiu sentar-se defronte do tio, com os sobr'olhos e a bocca franzidos. Trazia estampada no afunilado rosto uma verdadeira elegia.—Então?!... disse o feitor já sobresaltado com a mimica tetrica do sobrinho.—Fallai no mau, apparelhai o pau!... É o frade!..—Hein!? bradou Antonio Rodrigues, pondo-se de pé de um pulo e enterrando a carapuça até aos hombros. O frade?!.—Em corpo e alma! Escripto e pintado!... Tem razão, tio. Anda mouro na costa.—Vem a Senhora D. Magdalena?...—Não. Vem elle só. Isto leva agua no bico, sr. meu sogro.—Não te dizia eu, Pedro?... E agora?...—O dito, dito. Contas com Jorge e Jorge na rua.—Sabes que mais, homem? Vai-me cheirando tudo isto muito a chamusco. Não gosto nada da vinda do sr. Fr. João assim com este segredo.... Receio....{88}—Valaverunt galhetas, sr. meu tio! como nós diziamos no convento!... O caso está feio, e d'esta vez a raposa bem podia ficar sem rabo!.. melhor, porém, o ha de fazer Deus e sua Mãe Maria Santissima, minha madrinha!... Primeiro do que tudo enxuguemos outro caneco. Este bom vinho alegra a vida e faz crear alma nova. Bom! Agora, a pé! Vá receber o sr. Fr. João, que ha de vir cansado e aborrecido da jornada.—E tu?...—Eu... Fico para pôr em ordem umas cousitas. Escute, meu tio! Dê ao sr. Fr. João o quarto dos armarios. É essencial.—Porquê?...—Pela bocca morre o peixe!... Depois verá. Adeus! Não faça esperar sua reverendissima e encommende-me nas suas orações á minha devota Senhora Santa Anna...—Mau!... Ahi tornas tu com a ladainha dos santos!... Pedro!... Olha lá?.. Cuidado com a pelle do sr. Fr. João!—Vá descansado, tio, não hade haver novidade. Vem ceiar?—Venho.—Até logo.E os dous consocios e parentes separaram-se.{89}III—Com que então solto anda o demonio por estes palacios confusos, e afllictos nos vemos com as suas diabruras, Brizida de Souza!?.. Muito me contam! Mau é isso!... E vossê que diz, Romão Pires? Parece ainda mais pasmado do que esta boa velha!... Vamos lá, sr. Antonio Rodrigues, diga-me: aonde é o quartel general de Belzebut? Ha de saber de certo. É de casa!—Eu, sr. fr. João!... Sei só que não se póde parar aqui da meia noite em diante!..—Ah! sabe isso!?... Ja não é pouco! Pois eu lhe digo: cuidei que sabia mais. Acho-o tão roliço e anafado, que vejo que engorda com os sustos.{90}—O sr. Fr. João gosta de brincar, mas em passando uma noite aqui!...—Ai, meu Jesus da minha alma! Anjo bento de Nossa Senhora Apparecida!... É da gente botar a fugir, ou de perder o juizo! exclamou a sr.ª Brizida, pondo as mãos.—Então o sr. Antonio Rodrigues crê que esta noite haverá ensaio geral de Satanaz e da sua côrte, para festejarem a minha chegada?... Muito bem! Cá estamos.Cor contrictum et humiliatum deus nom despiciet!Pelejaremos com as armas espirituaes, que são as melhores, e com as temporaes, que tambem servem em certas occasiões! Mas como vamos de ceia?.. No barco o mau tempo fez-nos jejuar, e sinto-me capaz de tragar um carneiro assado! E o vinho, aquelle bom vinho de 1655, ainda haverá por cá uma gota d'elle? Ha de haver. O sr. Antonio Rodrigues, o melhor copo de Tancos e seus arredores, aposto que não está desprovido de munições de guerra?Antonio sorriu e coçou a nuca.—A ceia está ao lume, e não se demora tres credos. Quanto ao vinho.... esteja vossa reverendissima descansado.—Sempre estive. Diga-me, Brizida, achei muito pallida a sr.ª D. Maria. Ella tem passado peior?...—Não, sr.! Peior não. Mas, com o susto d'estas noites sem somno, a minha rica menina tem perdido{91}as côres. Ella é tão delicadinha, tão fraca!.. Ó sr. fr. João, a menina não podia ler um nadinha menos, mais o sr. D. Pedro, e respirar mais algum ar em Lisboa?—Não pode, não senhor!... acudiu o frade em voz de trovão. Meus sobrinhos não se educam para espantalhos de sala!... E vossê é muito atrevida em se metter a dar conselhos aonde a não chamam!...—Ai doce Jesus do meu coração! Que disse eu para ouvir uma repostada assim?!.. Sabe que mais, sr. fr. João? Não sou moura, nem perra, nem captiva. Pão em toda a parte se come; e se não fosse o amor dos meus meninos, por esta (e beijou os polegares em cruz) que não aturava uma hora mais n'esta casa!—Está bom, Brizida de Souza, está bom! Não se inflamme. Sabe que a estimo, que todos em casa lhe queremos muito.... mas não me toque n'essa córda. Sei que me acusam de apoquentar os pequenos com os estudos, e que elles não teem uma tosse, uma febrita, de que se não torne logo a culpa aos meus livros!...—«Vale mais asno vivo, do que doutor morto!» resmungou a velha ainda irada e incorregivel.—Mas eu é que não quero na minha familia asnos.... vivos, ou mortos, mulher!—bradou o frade fazendo-se côr de purpura e sorvendo duas pitadas com o ruido de um furacão..—Safa! Vossê é capaz{92}de fazer perder a paciencia ao proprio Job!... Bem! Não fallemos mais n'isto, e não faça caso dos meus repentes.... Sabe que não sou tão mau como pareço e que trago sempre no coração os meus dois rapazes...—Sei! Sei! Por isso digo a todos: o sr. fr. João berra, esbraceja, é um destemperado, mas passa-lhe logo. Cão que ladra não morde. Livre-nos Deus de uns sonsinhos que não quebram um prato, mas que ferram o dente calados....—Obrigado pelo elogio!... ou antes pela boa intenção. Chame os pequenos. A ceia ha de estar na mesa; e protesto que me atiro a ella como Santiago aos mouros!.. Vamos.A ceia correu farta e alegre, e Antonio Rodrigues foi homem de palavra, regalando o hospede com algumas garrafas de vinho maduro, que F. João proclamou rival do melhor que se podesse beber á meza de el-rei. As proezas gastronomicas do erudito dominicano tinham assombrado o proprio feitor, cujo estomago insondavel sepultava sem incommodo alimentos de todas as qualidades, e se carregava de quantidades que eram o espanto e maravilha dos que assistiam ás suas repetidas campanhas pantagruelicas. D'esta reputação merecida Antonio Rodrigues viu-se obrigado a arrear bandeiras. O padre mestre não comia, devorava, não bebia, absorvia! Regando de copiosas libações cada iguaria rustica, absolvendo as{93}indigestas com um exorcismo culinario, fazendo desaparecer do prato as menos pesadas com milagrosa rapidez, dir-se-hia que a fome iberica e peninsular, a fome de dentes caninos e apetite insaciavel, tomára a figura corpulenta d'aquelle frade, para realisar em Tancos uma verdadeira razzia. Tudo tem de acabar, porém, e Fr. João, exalando um suspiro, e cruzando as mãos sobre o volumoso ventre, deu a empreza por concluida, murmurando com os olhos meio fechados, e a voz ainda suffocada do esforço:Deus nobis hæc otia fecit!O reverendo, na meia somnolencia em que se deixou ficar, recostado no espaldar de couro da vasta poltrona, com as faces afogueadas, e o barretinho de seda preta derrubado sobre a orelha esquerda, não offerecia de certo a imagem dos piedosos e extenuados monges, que em epochas de mais fé edificavam os fieis com o exemplo de sua vida frugal e contricta. Parecia mais um hippopotamo encalhado, do que um devoto filho de S. Domingos. Os instinctos animaes prevaleciam, e a fadiga de uma digestão laboriosa fazia arfar aquella machina de mastigação continua. D. Pedro e D. Maria contemplavam o tio com a admiração sincera de creaturas delicadas, que semelhantes excessos não só confundem, mas atterram. Brizida persignava-se e enfiava os burgalhos do seu rozario em oração atribulada, esperando ver desabar de um momento para outro o padre{94}coloçal fulminado por um ataque apopletico. Romão Pires ainda não podera articular palavra, embuxado com a vista da voracidade incrivel do irmão do seu amo. Antonio Rodrigues, cujos olhinhos matreiros semelhavam no brilho duas scentelhas, desfazia a nuca raspando-a desesperadamente com a unha, e dizia comsigo, que o frade, medindo as forças pela alimentação, devia prostrar um touro com um murro, e abrir um tigre em dous, como o faria qualquer mastim faminto ao gato descuidado, que lhe caisse debaixo das prezas.—Deus nobis hæc otia fecit!tornou a repetir Fr. João depois de uma pausa de alguns minutos, recuperando a costumada viveza e agilidade.—Podemos dizer com verdade que ceiamos como uns padres!.. Minha sobrinha! Não gostei de a ver tão triste. Que nuvem pesa sobre esse coração? São receios, ou saudades?!.. Socegue que o hade ver são e escorreito....—Quem, meu tio? atalhou a donzella distrahida.—Pois quem hade ser senão aquelle cavalleiro andante que se despedio de nós e que hade voltar um dia d'estes coberto de louros.... Entendeu-me agora?—Oh, meu tio!... acudio ella fazendo-se vermelha como uma roza.—Está bom! Está bom! Não digo mais nada.... Romão Pires sabe que os castelhanos tomaram Evora,{95}e que a estas horas hão de estar as mãos com o nosso exercito?.. O que diz vossa sapiencia?.. Quem vence?!..—Essa é boa, sr. padre mestre! Quem deve vencer! O sr. conde de Villa Flor.—Deus o ouça! Bom é ter fé!.. Mas!—E a larga fronte do frade enrrugou-se aprehensiva, em quanto os sobrolhos descahiram a ponto de lhe cobrirem quasi as palpebras superiores—Deus super omnia! murmurou.Seguiram-se alguns instantes de silencio. De repente a porta abriu-se com estrondo, e a longa, a defecada pessoa de Pedro Lavareda entrou impetuosamente pelo aposento, com os olhos espantados, as faces contraidas, e os cabellos ruivos espetados, representando a imagem viva do terror e da consternação.—Os castelhanos!... Os castelhanos!... Elles ahi vem!...A esta voz de pavor, e de immenso pavor, todos se acharam de pé, não menos assombrados do que parecia estar o nuncio da nova atterradora.—Os castelhanos!?.. gritou Fr. João, saltando da cadeira e empunhando machinalmente um bastão enorme, especie de clava, que o acaso lhe mostrou encostado a um canto.—Os cas... te... lha... nos! gemeu Brizida, faltando-lhe os joelhos e erguendo as mãos.{96}—Os castelhanos?! exclamou Antonio Rodrigues, arrancando da cinta a longa navalha de ponta e de mola e floreando-a como uma espada, em quanto Romão Pires sacudia da bainha a durindana decrepita e preguiçosa.D. Maria, branca de cêra e silenciosa, encostou-se á mesa para não cair. D. Pedro, pelo contrario, com o rosto mais animado, os olhos reluzentes, e a fronte levantada, apertou o punho da pequena espada de côrte, e deu alguns passos como se quizesse sair ao encontro do perigo.—Os castelhanos?! tornou a bradar Fr. João. Ás armas! sr. Antonio Rodrigues chame os criados!... Façamos de Tancos e de Almourol uma segunda Aljubarrota!...Dizendo isto limpava a testa inundada de suor, e fulo de raiva e de impaciencia batia o pé como o corsel insofrido escarva o chão desejoso de soltar a carreira.—Mas não seria bom, meu tio, sabermos primeiro o que ha, quem deu a noticia, e aonde estão os inimigos? observou D. Pedro em voz mansa e com extrema serenidade.—Do manus!Rem acu tetegiste, puer![4]gritou o frade sentando-se commovido e ainda tremulo. Façâmos conselho! Sr. Antonio Rodrigues, em primeiro{97}logar: quem é e como se chama este correio de más novas?..—É meu genro e meu sobrinho. Chama-se Pedro Lavareda.—Ah! Ah!. Pedro Lavareda!?. Nome incendiario e perigoso em pessoa mais secca do que um cavaco!.. Mas vamos ao que importa. Chegue á falla o sr. Pedro.... Lavareda! Quem lhe deu a má noticia que nos trouxe?...—Um almocreve do Crato, que saiu de lá a bom fugir!...—E que disse o almocreve?...—Que os nossos foram derrotados, que ficaram todos ou quasi todos no campo, e que as guardas avançadas de D. João de Austria estavam a entrar no Crato!...—Ah! Parece-me carnificina de mais!.. E aonde se deu a batalha?—Não m'o soube dizer.—Hum! E o seu almocreve aonde está?...—Partiu, caminho de Lisboa.—Oh! E não sabe mais nada?—Mais nada, sr. padre mestre.—Pois sr. Pedro.... Lavareda, o seu nome queima!.. Quer um conselho de amigo?...—Se vossa reverendissima tiver a caridade de m'o dar!..—Tenho sim, senhor. Mande passear o seu almocreve,{98}durma sobre o caso, como nós vamos dormir, e creia que amanhã acorda convencido de que engulio uma peta mais comprida do que a sua pessoa, o que já não é pouco.Os olhos felinos de Pedro, se fossem punhaes, teriam varado o frade, mas como o não eram, contentaram-se com a expressão humilde e hypocrita de uma annuencia servil, ao passo que os labios franzidos arremedavam soffrivelmente um sorriso boçal.—Macte puer!gritou Fr. João, batendo no hombro de D. Pedro. Tiveste mais juizo tu só, do que nós todos!... Isto é mentira e mentira mal armada. Os hespanhoes no Crato!... Uma batalha sem logar sabido!... Um almocreve invisivel!... Meninos, soceguem! Tia Brizida, alma até Almeida! Romão Pires, enfie-me na baínha esse eterno chifarote, espanto e censura viva das espadas de hoje!...—Então vossa reverendissima já não quer que ponha de aviso os criados? disse Antonio Rodrigues, que tivera tempo de trocar algumas palavras com o genro, colloquio, que apesar de curto, não escapara a Fr. João.—Não, senhor. Deixe-os descansados! Bem bastam logo as almas do outro mundo!... Sabe que mais? Sinto-me moido, e uma boa cama depois de uma boa ceia é o melhor remedio para estas molestias. Aonde é o meu quarto?O feitor esgueirou um volver de olhos interrogador{99}ao sobrinho, que lhe respondeu com um aceno quasi imperceptivel de cabeça, e, pegando em um maciço castiçal de prata denegrido, precedeu a especie de procissão de toda a familia até ao aposento, aonde o douto dominicano havia de passar a noute. A porta abria-se no topo do comprido corredor do centro; a camara de D. Pedro ficava-lhe á esquerda, e o pequeno camarim de Romão Pires á direita. Mettiam-se de permeio dous quartos fechados, e seguia-se a sala aonde D. Maria dormia, tendo ao pé o leito de Brizida de Sousa. O aposento, aonde Antonio Rodrigues conduzia Fr. João, nada inculcava de notavel. Era uma casa vasta, de tres janellas, duas de peitos e uma sacada, cujas paredes abertas em partes conservavam ainda a par de largos pedaços das colgaduras de couro, que em melhores dias as tinham ornado, altos e grandes armarios de pau santo. Os tectos altos e enegrecidos e o pavimento carunchoso, gemendo e estalando com o peso dos passos, atestavam a velhice e o desamparo. Um leito antigo, enorme, com sobreceu e cortinas out'rora verdes, um velador de pau santo arruinado, e um contador, ainda mais antigo, completavam com tres, ou quatro cadeiras coxas dos pés, ou mutiladas dos braços, a mobilia nada commoda, nem opulenta. Cousa singular! N'este quarto, em que a destruição minava, e esfarelava tudo, as unicas cousas intactas e bem conservadas eram alguns{100}paineis grandes, retratos de corpo inteiro de guerreiros, damas, e monges, pintados a oleo, e mettidos em soberbas molduras de carvalho, lavradas de talha alta.O padre mestre rodeou com os olhos toda a casa, e perguntou, sorrindo-se, ao feitor, se ella passava por ser tambem vexada pelas almas do outro mundo. Antonio Rodrigues abaixou a sua immensa e redonda cabeça, e Brizida benzeu-se devotamente.—Bem!... N'esse caso é preciso estar armado e vigilante para a batalha! Se escaparmos aos castelhanos do Crato, não quero que acabemos nas garras dos trasgos e diabretes de Tancos. Sr. Antonio Rodrigues, faz favor! Mande trazer para aqui o meu alforge, que ficou na sala de entrada. Sr. Pedro Lavareda (exquisito nome (!)) é bom caçador por certo, e hade ter uma espingarda de mais. Eu tambem gosto de dar o meu tiro de manhã cedo ás perdizes e ás calhandras por essa charneca. Conto levantar-me com o sol, e dar um passeio pelas fazendas, para tornar a ver estas terras em que não ponho os olhos ha um bom par de annos. Para não ir com as mãos abanando levarei a sua espingarda... Não a heide tratar mal, descanse!..—Essa é boa, sr. Fr. João! A espingarda, eu, e tudo o que mandar estão ás ordens de vossa reverendissima....{101}—Muito obrigado!... Olhe não se esqueça de me trazer um frasquinho de polvora.O tio e o sobrinho sairam, e o frade, chamando de parte a D. Pedro e a Romão Pires, e pondo as mãos no hombro de cada um d'elles, disse-lhes em voz baixa:—Latet anguis!Anda aqui novello! Este sr. Lavareda, com aquella face compungida de Longuinhos, parece-me fino como um alambre... Os dous, elle e Antonio Rodrigues, o tio e o sobrinho, estão conjurados contra nós... Porquê e para quê? O tempo o dirá. Olho vivo, pois, Romão Pires! Se lhe apparecer visão, ou espectro, receba-m'o ás cutiladas. Eu cá espero a pé firme os que vierem visitar-me, e a agua benta, que lhes deitar, hade chamuscal-os de véras.... Muito bem!.. Ahi vem os dous velhacos.De feito o sogro e o genro chegavam, um com o alforge, e o outro com a espingarda e o frasco. Fr. João fallou um pedaço com elles, sempre com a boca cheia de riso, pedio uma candeia grande para se allumiar até pela manhã, e despediu-se de todos, sem dar mostras da menor desconfiança.—O padre prega-t'a na menina do olho, sobrinho! Toma conta! disse Antonio Rodrigues com o rosto carregado.—Veremos, sr. meu tio.—Guarda-te de elle te pôr as mãos. É capaz de estourar um boi.{102}—Melhor o fará Deus!—Boas noutes.—Santa Anna e minha madrinha Nossa Senhora o levem na sua Santa guarda.—Sentido! Nem uma beliscadura!Em quanto os dous honrados camponezes conversavam em voz baixa no fim do corredor, Fr. João Coutinho passava revista minuciosa ao quarto e parecia ficar inteirado de que as paredes e os armarios não encobriam portas falsas, nem os sobrados alçapões. Abrindo o alforge depois, tirou de dentro um par de pistolas. Verificou a carga de ambas, renovou as escorvas, e passando á espingarda, carregou-a com todo o cuidado, metteu-lhe uma bala, e pousou-a engatilhada á cabeceira da cama. Feito isto foi á porta pé ante pé, descerrou-a de manso, e em passo subtil encaminhou-se ao camarim de Romão Pires, aonde se demorou. Á volta—davam onze horas—achou tudo como o deixara, rezou pelo seu breviario, e despindo só o habito, abafou-se, conchegou as colchas, recostou a cabeça, e, decorridos instantes, os roncos assobiados de um somno profundo annunciavam que tinha esquecido os castelhanos do Crato, as almas penadas, e os virtuosos manigrepos ruraes, cuja lealdade não julgára de bons quilates.Teria repousado duas horas, quando despertou sobresaltado. O leito, pesado e maciço, arfava, balouçado{103}como um barco sobre vagas inquietas. O frade entre-abriu os olhos. A vela do castiçal estava em um terço, e a luz da candeia brilhava esperta. O quarto continuava deserto e silencioso. Entretanto o leito não parára de dansar, e, facto mais singular ainda! a roupa da cama fugia de vagar, sem apparecer mão, ou braço que lhe tocasse. Fr. João deixou-se ficar, tomando sómente uma posição que lhe consentisse saltar ao chão de um pulo para travar a lucta com os duendes e spectros. Tinha as duas pistolas sobre o velador á cabeceira, e a espingarda ao pé. Entretanto, apesar de animoso e resoluto, o suor principiava a borbolhar-lhe na testa, e um calefrio suspeito a correr-lhe a espinha dorsal.—Isto não vae bem! Queria antes ruido, grilhões arrastados.... a scena do costume. Esta calada e estes empuchões invisiveis.... sinceramente sería de fazer tremer as carnes, se eu não soubesse!... Credo!.. Lá se foi a roupa até aos pés da cama.... Não gosto da graça! Que é aquillo? As pinturas andam!?.. Oh!...Aqui poz termo ao soliloquio, e sentando-se na cama, com os poucos cabellos, que lhe restavam, erriçados em volta da calva, com as feições contrahidas e a boca pasmada, cravou as pupilas cinzentas e dilatadas no painel, que lhe ficava fronteiro e que representava um cavalleiro da edade média coberto de toda a armadura, mas com o rosto sem viseira e{104}os olhos ameaçadores. Aquella figura severa, como que destacada da moldura, parecia mover-se por si lenta e lugubremente. Fr. João quiz duvidar do testemunho dos sentidos, e convencer-se de que era victima de uma illusão. Esfregou as palpebras, beliscou os braços para despertar a sensibilidade, mas o retrato continuava a adiantar-se, e um sorriso tetrico como que lhe franzia os beiços. Ao mesmo tempo os ouvidos afiados do dominicano colheram, não sem grande pavor, o som amortecido de ferros que rangiam, e um gemido longo e soturno, semelhante ao gemido doloroso de afflictivo estertor.—Vade retro, Satanaz!murmurou saindo da cama cheio de terror.Ne nos inducas in tentatione!Apenas soltára a meia voz estas palavras, um sopro, semelhante a furacão medonho, engolphou-se pelo quarto, e apagou de golpe as duas luzes.Fr. João recuou até ás cortinas do leito, e sentiu vergarem-lhe os joelhos, e fugir-lhe o animo. Estendendo a mão nas trevas machinalmente, encontrou uma das pistolas pousadas sobre o velador, e os dedos apertaram tambem machinalmente a coronha.De repente um clarão sulcou a escuridade, enchendo o aposento de luz sulphurea, e no meio de chammas lividas, surgiu e cresceu uma forma gigantesca envolta nas dobras de sudario branco e fluctuante. Esta figura descommunal, cuja cabeça era uma caveira, lançava chispas pelas cavidades dos olhos, e acenava{105}com os longos ossos de esqueleto. O frade tremeu, e acudiram-lhe aos labios descorados as preces e os exorcismos recommendados pela igreja contra os maleficios infernaes. Mas as armas espirituaes não produziram effeito, e, apesar da perturbação momentanea, tornou a tomar corpo no seu espirito a ideia de que podia ser aquelle espectaculo uma visualidade, ensaiada para zombar da sua boa fé. Revestindo-se, pois, de valor e decisão, apontou rapidamente ao vulto, que tinha diante, a pistola, que não largara da mão, e disparou-a. Observando que o tiro não causára abalo no phantasma, pegou depois na outra pistola, e com pontaria mais segura desfechou o gatilho. Uma risada estridente respondeu ao estrondo da explosão, e o spectro, mostrando as duas balas, arremessou-as ao chão, aonde o padre mestre as ouviu rolar. Logo em seguida o clarão sumiu-se de subito, espessas trevas envolveram o quarto. Fr. João, quasi desmaiado, caiu em uma das cadeiras proximas do leito, tolhido por um tremor geral em todos os membros, e paralisado na falla e nos movimentos pelo mais profundo terror.Ao mesmo tempo as hostilidades diabolicas não eram menos activas e violentas nas camaras dos outros hospedes. Romão Pires, apenas se deitára, e escondera a cabeça debaixo da roupa, com premeditação pouco em harmonia com os brios de suas falladas campanhas, sentio apagar-se-lhe a luz, e puxarem-lhe{106}pelos pés o magro e aprumado corpo até o estatelarem de pancada e sem dó nas taboas do sobrado. O grito de mêdo e de dor, que soltára estremunhado, teve em resposta um côro de risadas em falsete. Brizida de Souza acordou espavorida ao frio gelado de um verdadeiro regador de agua que lhe entornavam sobre a cabeça, e saltando por a casa em roupas menores, e com a boca escancarada, para bradar, era comida no ar por mãos pouco caridosas e nada leves, que de empurrão em empurrão a levaram aos tombos até ao corredor, aonde veiu encontrar em anagua o honrado escudeiro, tiritando de susto e com uma das mãos em cada face esbofeteada pelos duendes, com vigor que bem accusava uma força sobrenatural. D. Maria, encolhida e semi-morta de pavor, não padecera senão o terror de ouvir estalar ao pé do leito gargalhadas dissonantes, e arrastar ferros.No quarto de D. Pedro, os trasgos haviam sido menos felizes, porque tinham chegado mais atrazados. Dotado de animo varonil e reflectido, sereno em presença do perigo, e pouco disposto a acreditar na intervenção dos poderes infernaes, o mancebo, resolvera velar a noute sem se despir, e com a espada nua ao lado, tinha-se entregado á leitura de um livro novo, que em breve lhe absorveu a attenção. Feriu-lhe de repente o ouvido a matinada das investidas no corredor e nos aposentos proximos. Apagando{107}a luz, e empunhando a espada, aguardou silencioso.
—Ai, Virgem Santissima! Não ganha a gente para sustos! Não bastava esta praga dos castelhanos, que vem ahi, dizem, um poder do mundo d'elles pelo Alemtejo abaixo?! Ó sr. Romão Pires, d'onde elles estão aqui á nossa quinta é muito longe?
—Não é nada perto, não, sr.ª Brizida de Sousa! Mas lá diz o adagio: aos que muito correm quebram-se-lhes{52}as pernas... Socegue. O sr. conde de Villa Flôr anda com elles a contas e não é para graças.
—O sr. conde é muito bom senhor, bem sei, e de grande fama sempre ouvi dizer... Mas se elle ficasse mal agora?
—Ficavamos nós peior, isso é verdade... Melhor o hade fazer Deus. Oh, se meu senhor e amo fosse vivo!... Não estava eu aqui posto ao canto como um estafermo!...
—Ora não diga isso por quem é. O sr. Romão já andou demais por essas guerras e tragou bem maus bocados. Descanse, descanse, que o merece... O que seria de mim sósinha n'estes palacios confusos, sem pregar olho ha umas poucas de noites com medo... E que medo! Fantasmas e almas do outro mundo! Ó sr. Romão Pires, diga-me: o demonio—salva tal logar—terá poder de subverter comsigo no inferno corpo e alma uma creatura baptisada e remida nas santas aguas?...
—Conforme! Se não estiver em estado de graça!...
—Credo! S. Braz e S. João! Meus ricos santos da minha alma, valei-me! Subvertida em corpo e alma?! Deus de misericordia!... Sabe que mais? Quero que me escreva já e já á sr.ª D. Magdalena, contando-lhe tudo isto. Ella não póde consentir que a sua criada velha uma noite d'estas desappareça nas garras{53}do inimigo tentador do genero humano. Jesus!... Diga-lhe que nos venha livrar d'este inferno, senão... eu cá por mim fujo! Primeiro a salvação da minha alma...
—Tambem eu não gosto nada d'isto, sr.ª Brizida. Mas animo forte e coração á larga. O demonio parece que entrou de semana comnosco, e, pelo que vejo, não leva geito de nos querer largar. Desde que viemos para esta quinta...
—Desde que viemos... diz muito bem! Olhe, Brizida de Sousa me não chamasse eu, se depois da primeira noite não mettesse um bom par de legoas entre o demonio e quem se présa de christã baptisada na freguezia de Santa Catharina de Lisboa, nascida de paes catholicos, tementes a Deus, e sem eiva, nem leiva de mau sangue!... Mas o amor, que tenho á minha menina, coitadinha, tudo me faz supportar com paciencia... Espere! Não ouviu bulha? Assim a modo de ferros arrastados pelo sobrado?
—Nada. Foi cadeira, ou banco deitado no chão lá em cima. De dia não é que elles fazem das suas...
—É verdade. Guardam-se para a noite. Que noites, que eternidade de noites, Senhor Deus de misericordia! Parece que nunca a gente lhes vê o fim. E que me diz então a estas despedidas de maio e entradas de junho?!...
—Não são de convidar, sr.ª Brizida! Velho sou,{54}mas não me lembro de anno mais carrancudo. Chuvas, relampagos, trovões e ventanias que levam tudo pelos ares! Safa!
—E nós, coitados, n'este ermo, n'este desterro! Ai minha Senhora Santa Barbara! se a tua serva e devota não deixa aqui os ossos, grande milagre será. Escute!... Agora não foi engano!... Não ouviu risadas lá em cima no vão das casas?
—Não é nada. São os rapazes do feitor jogando as escondidas.
—Pois, sr. Romão Pires, affirmo-lhe por minha alma, que em Lisboa, quando minha senhora D. Magdalena me chamou e me disse: «Brizida, a sua menina anda fraquinha e enfezada, e o irmão tambem, os phisicos não acertam com o remedio, e fr. João entende que estas tosses do peito, assim teimosas, não se despegam senão com mudança de ares. Bem sabe, não posso sair da cidade por estes dias mais chegados—e é assim, coitada, por causa da sua demanda—acompanhe-me os meninos, e conte que fico tão socegada como se eu mesma fosse...» Quando me disse isto, e eu lhe beijei as mãos pela mercê, se podesse adivinhar o que nos esperava aqui, asseguro-lhe que me encolhia como a tartaruga na concha; e viesse quem quizesse... Isto não é palacio, nem quinta, é um verdadeiro inferno! Deus salve a minha alma!
—A sr.ª Brizida não diz o que sente. Vindo a{55}sr.ª D. Maria e o sr. D. Pedro, ninguem a arrancava de ao pé d'elles.
—Tem razão. Ninguem! A ella creei-a, mamou o meu leite, e sua mãe não lhe quer mais, não, deixe-me ter esta presumpção... A elle vi-o nascer, e os primeiros braços, que o embalaram, foram estes que hade comer a terra. Tão pequeninos os conheci, e tão formosos e crescidos os vejo agora, que não me posso costumar a crer, que um dia hei de ter o gosto de os abraçar homens!... Quando me ponho a olhar para elles, parece-me ás vezes que não póde ser, e que tudo isto é sonho...
—Então!? Elles fazem-se homens, e nós fazemo-nos velhos. Não ha remedio. O mundo vae assim.
—Bem sei. Mas, não os acha muito delgados, muito afinadinhos? Dizem que é da edade e do muito crescer, e que hão de encorpar depois. Deus queira! São os negregados estudos, que me ralam o corpo e a alegria dos meus meninos. A sr.ª D. Maria manhãs e tardes inteiras á almofada, bordando de branco, de matiz, e a ouro. E com que perfeição!... Que dedinhos de fada aquelles! E o sr. D. Pedro? É mesmo uma dôr de alma vel-o dia e noite amarrado á banca dos livros, e que livros! Latins, gregos, e não sei que outras trapalhadas deretroricas... Quem tem a culpa de tudo, o culpado de tudo o que póde acontecer, é o teimoso do sr. fr. João, que á fina força{56}quer o sobrinho sabio. Depois que falleceu o pae, (Deus o tenha em gloria!) não se nos tira de casa, e tanto ha de quebrar-me a cabeça ao meu menino, que um dia treslê. Pois olhe, sr. Romão Pires, vá com o que lhe diz uma ruim cabeça: mais vale asno vivo, que doutor morto.
—O sr. fr. João, atalhou Romão Pires, aproveitando uma pausa da sr.ª Brizida, é muito bom tio, e desde que morreu meu senhor e amo tem sido um segundo pae para os meninos. Quer os sobrinhos prendados e de grandes merecimentos. Não lh'o levemos a mal. Sangue illustre e bens da fortuna possuem elles...
—Por isso mesmo! Não precisava atanazarmos tanto! Não m'os deixa respirar. Mestres d'isto, mestres d'aquillo, musica para aqui, dansa para acolá... latins,pholosophias, ai, que barafunda! Nem eu sei como as pobres creanças não teem endoudecido. Cá por mim já o miolo ha muito tempo me tinha dado volta, tão certo como chamar-me eu Brizida de Sousa.
—Ninguem aprende sem trabalho. O sr. fr. João não é nenhum nescio...
—Nem eu lh'o chamo. Deus me livre. Nescio?... No convento e na côrte dizem que não ha outro doutor como elle.
—Pois então deixe-o, que bem sabe o que faz. Estes sobrinhos são a luz dos seus olhos, e depois tão meigos, tão applicados...{57}
—De mais, de mais, para a edade, sr. Romão Pires. Assustam-me. Não parecem d'este mundo, nem d'este seculo. O sr. fr. João é muito extremoso, e o que faz é por desejar o seu bem d'elles, mas, graças a Deus, a casa é rica e não era preciso amofinar-me tanto os meus meninos...
O dialogo de que acabamos de ser fieis e escrupulosos expositores, era travado em uma antiga sala, vasta e pouco allumiada por estreitas janellas, cujas vidraças de postigo mal deixavam coar o dia. Das paredes em reboco pendiam farrapos soltos dos pannos, que as tinham forrado. Em outras partes as colgaduras adheriam ainda aos filetes, e representavam em suas pinturas desvanecidas figuras descommunaes, debaixo de arvores anãs, e no meio de arbustos e flores monstruosas. Os tectos, cujas vigas lavradas inculcavam a paciencia de um artifice do XV seculo, subiam a grande altura, enegrecidos pelo fumo da immensa chaminé de pedra, ornada de leões de marmore nas bases, e rematada com um brazão de relevo alto, orlado de ramos de silvas e amoras.
O sr. Romão Pires, escudeiro de quasi setenta annos de edade, enxuto de carnes, e amarello como uma cidra, erguia-se direito e aprumado como uma das faias mais direitas da quinta. Nascêra e fôra creado desde a infancia n'aquella casa, e não conhecera nunca outros amos senão D. Vasco, e D.{58}Magdalena. Acompanhára seu senhor, assim lhe chamou sempre, em todas as campanhas da guerra da restauração, pelejando esforçadamente ao lado d'elle, e assistindo aos cercos e batalhas mais notaveis desde 1642. A historia dos perigos, em que se tinha achado, e a narração das proezas de seu amo, enfeitada de episodios e commentarios, serviam de saboroso pasto aos serões da familia, obrigada a engulir como artigos de fé todas as aventuras da nova «Tavola Redonda,» que a imaginação do escudeiro entretecia na tela interminavel de sua cansativa Illiada.
A sr.ª Brizida de Sousa, que tão avexada ouvimos queixar-se das apparições, era matrona de mais de cincoenta annos. Baixa, roliça e risonha, suas faces lisas, cheias e coradas ainda tinham a frescura de duas maçans rainetas. As feições, pouco accentuadas, e quasi infantis, sumiam-se entre as roscas das nedias bochechas, e os seus ares beatos brigavam na candura affectada com uma larga experiencia da vida. Toda aquella pequena e buliçosa matrona respirava aceio, cuidado, devoção, e azafama. Collaça de D. Magdalena, e casada com um dos caseiros mais abastados do morgado, depois ama de leite da filha primogenita da casa, enviuvára sem filhos, nem saudades do estado, resumindo todos os affectos nos seus extremos pela fidalga, e na idolatria das duas creanças, que trazia sempre na boca e no coração.{59}
Trajava por costume roupas escuras. As toucas alvissimas, caidas talvez de mais para a testa, e o córte dos vestidos á beguina, affirmavam o programma da sua virtude inaccessivel. Supersticiosa, e com a memoria recheada de orações, de visões, e de devotas crendices, o seu defeito capital era occupar-se muito com as vidas alheias, enfiando um rosario de conselhos a proposito de tudo, e mexericando, por indiscreta, amos, criados, e hospedes, mas sem intenção ruim. Todos se encobriam d'ella, quanto podiam, porém ninguem a aborrecia. Temiam-se da intemperança de suas confidencias, mas confessavam a bondade do seu caracter, que era na verdade excellente.
Romão Pires, tirando a estafada repetição de suas campanhas, representava em tudo o opposto d'ella. Sério, como um santão, embizourado, e quasi sempre com a aguda barba escondida na gargantilha, se levantasse a vista e a curiosidade para os negocios dos outros, cuidaria faltar a Deus, a si, e ao mundo. Sua boca era sagrada, e segredo que lhe caisse no peito ficava sepultado n'elle profundamente.
Apesar d'estas qualidades contrarias e talvez mesmo pelas possuir, era o conselheiro nato da sr.ª Brizida em todos os casos intrincados, e o defensor convicto dos seus mêdos e indiscrições.—«Boa alma! Boa alma! respondia aos que a censuravam.{60}Tem o defeito de fallar de mais, mas é uma santa pessoa.»—Brizida pagava-lh'o. Para escutar a milessima edição das guerreiras epopeias do escudeiro, até fazia o sacrificio de suspender a loquacidade propria!...
O sr. Romão Pires, amortalhado na eterna roupeta e n'umas calças côr de pulga, esguio, comprido, e hirto, com um par de oculos de azelha montado no cavallete do interminavel nariz, não desabotoava a seriedade do rosto, nem dava ferias ao enfado chronico senão para sorrir á sua comadre Brizida. Aquelles olhos verdes desbotados não se animavam senão para festejar algum bom dito da matrona, cujas fallas assucaradas contrastavam com a voz rouca e soturna do antigo campeão da independencia portugueza. A predilecção honesta, mas decidida dos dois um pelo outro, não escapára aos criados, e todos acreditavam que, cedo ou tarde, o vinculo matrimonial ainda viria apertar mais estreitamente a união de duas almas já tão intimas.
A quinta, em que residiam havia duas semanas, situada na margem direita do Tejo, estendia as matas e charnecas até á ribeira, que separa Paio Pelle da villa de Tancos, da qual a casa, construida sobre uma colina, distaria pouco mais de dois ou tres tiros de espingarda. Era palacio antigo, talvez fundado por meiados do seculo XIV, accrescentado, e reparado pelos fins do XVI. As ameias, já derrubadas{61}em muitos lanços de muro, proclamavam a sua velha e legitima nobreza. Duas alas terminadas por torres fortificadas em tempos mais remotos, saindo fóra do corpo principal do edificio, formavam os lados do espaçoso terreiro, rasgado diante da fachada, cujas doze janellas de architectura irregular olhavam para elle. No terreiro se tinham jogado cannas e corrido touros nos anniversarios festivos dos senhores.
A casa era antiga, como dissemos, e estava muito velha. Nas juntas e articulações das pedras carcomidas cresciam tufos de viçosas parietarias. Uma arcada sombria, sustida por grossas pilastras, resguardava as entradas das duas escadas, que subiam em volta de caracol até ao primeiro andar. Outra porta, por baixo do centro da arcada, dava serventia por uma rampa para os subterraneos allumiados ao rez do chão por agulheiros. No piso nobre corria uma fileira de salas nuas, frias e tristes, lageadas de ladrilho. Sobre os corredores por onde o ar e uma luz escassa a custo circulavam, abriam as alcovas suas portas envidraçadas. Seguiam-se muitos aposentos, mais ou menos escuros, crusados de passagens, de escadas furtadas, e de portas falsas, compondo desde o andar terreo até aos vãos debaixo dos telhados, uma rêde inextricavel, um verdadeiro labyrintho. A casa de jantar, forrada de carvalho em molduras, prolongava-se á maneira de refeitorio{62}entre dois extensos corredores. Na extremidade de um d'elles baixava uma escada para o jardim, na outra empinavam-se os degraus da escada, que ia para os vãos, os quaes por cima corriam em largura e comprimento da casa. As torres communicavam-se com o corpo do edificio por duas portas esguias e abobadadas, aferrolhadas havia longos annos. Os eirados, meio abatidos, vertiam-lhes dentro em torrentes as chuvas caudaes do inverno.
O jardim, ornado de canteiros e de poiaes azulejados, com um tanque de pedra no meio, e um satyro hediondo entornando a urna desforme, creava algumas roseiras e craveiros degenerados entre urtigas, papoulas, e malmequeres bravos. As hortas mais cuidadas pegavam com as terras de pão, cingidas de vallados altos, defendidos com pitteiras. O aspecto do palacio era carregado de melancholia. Rodeado de solidão justificava em sua tristeza as queixas, que ouvimos á sr.ª Brizida. Porque escolhera, porém, D. Magdalena aquelle êrmo para abrigo dos filhos e dos criados, quando tinha tantas propriedades mais alegres e reparadas aonde podessem respirar, longe do bulicio da côrte o ar do campo?
D. Magdalena descendia da familia illustre dos Coutinhos Noronhas, de que fôra tronco e progenitor o marechal Gonçalo Vaz Coutinho, senhor do couto de Leonil, e meirinho-mór por el-rei D. Fernando na comarca da Beira. Formosa, discreta e recatada,{63}perdera seu marido, D. Vasco Mascarenhas, mestre de campo dos exercitos de D. João IV e D. Affonso VI, havia tres annos, e ainda não enxugára as lagrimas da viuvez. Em edade de merecer e de acceitar requebros, tinha-se recolhido na sua casa de Lisboa, aonde não recebia senão as visitas de alguns amigos antigos da familia, guiando-se em tudo pelos conselhos de fr. João Coutinho, seu irmão, grande sabio, e doutor em canones e theologia, o qual se encarregára de dirigir a educação litteraria dos sobrinhos.
D. Vasco Mascarenhas, tão distincto pelo nascimento, como pelas qualidades do caracter e do espirito, unira ás propriedades de sua casa, já mui rica, o senhorio da villa de Paio Pelle e do castello de Almourol, que sua mulher lhe trouxera em dote, mas quasi sempre occupado na côrte com os negocios politicos e no serviço activo das armas, só duas vezes visitára de fugida aquelle solar desamparado, que principiava a cair em ruinas, entregando o grangeio das terras e a cobrança dos direitos do donatario, com excessiva confiança, diziam os murmuradores, á probidade equivoca do feitor Paulo Rodrigues, camponez avido e ladino, que mais as disfructava como usurario, do que as geria como administrador. Avisada de que o palacio e as fazendas se arruinavam n'aquellas mãos viscosas, D. Magdalena resolvera ver por seus olhos o verdadeiro estado{64}das cousas, na companhia de seu irmão, fr. João Coutinho, ficando para depois decidirem ambos o que julgassem mais conveniente.
Outra razão serviu de estimulo para a partida dos filhos da casa, dissimulada com o pretexto da necessidade da mudança de ares. Antigas relações de parentesco ligavam a familia dos Mascarenhas com o segundo ramo dos Noronhas, cujo opulento morgado possuia grandes bens na mesma comarca, aonde existia o solar dos Coutinhos. O logar do Arripiado, que tão viçoso beija as aguas do Tejo, defronte de Tancos, com dilatados campos e charnecas, pertencia ao velho D. Nuno, cujo filho unico, D. Affonso de Noronha, saira da côrte para o exercito do Alemtejo. D. Affonso, illustre pelo berço, e já illustre pelo valor, vira crescer em belleza, primeiro com assombro, depois com paixão ardente, sua prima D. Maria de Mascarenhas, e não encobrira de seu pae o amor, que ella lhe inspirava. D. Nuno confiou este segredo á ditosa mãe, e ella, não podendo desejar casamento mais vantajoso, nem mais da sua escolha, antes de dar o sim, quizera, comtudo, sondar disfarçadamente as inclinações da donzella. Conheceu com alegria, que D. Affonso começára a apoderar-se d'aquelle coração, que em sua innocencia principiava a balbuciar apenas as primeiras e vagas aspirações de um sentimento, que não sabia definir ainda.{65}
Corria o anno de 1663. D. João de Austria, á frente das armas castelhanas, tentára o derradeiro esforço, invadindo Portugal com dezeseis mil soldados, e os nossos generaes, juntando as forças, mal conseguiram oppor-lhe cinco ou seis mil. A cidade de Evora, que devia ser um dos baluartes da resistencia, accommettida no dia 14 de maio, capitulára, depois de pouco honrada defeza. Este revez aggravou os receios, e as partidas de cavallaria inimiga chegaram a insultar Alcacer. D. Sancho Manuel convocára immediatamente os officiaes a conselho, e só um voto, o d'elle, approvára a conveniencia de ferir a batalha, que as ordens do governo prescreviam como remedio extremo. A pericia de Schomberg, temendo como inevitavel o desastre, viu n'elle o ultimo precipicio da independencia; mas a feliz temeridade do conde de Villa Flor, fechando os olhos á prudencia, applaudia o encontro decisivo dos dois exercitos, como o unico meio, embora desesperado, de salvar a provincia e o reino da sujeição estrangeira.
O povo de Lisboa, assustado, furioso, e alvorotado nas praças, assaltára as casas de Sebastião Cesar, do marquez de Marialva, e de Luiz Mendes de Elvas. A todas as horas se aguardavam noticias da marcha das tropas, e todos tremiam. Um lance repentino podia sepultar para sempre as esperanças de Portugal!{66}
A filha de D. Magdalena, D. Maria de Mascarenhas, mais velha desoito mezes do que D. Pedro, seu irmão, contava n'esta epocha dezesete annos, e sem vaidade merecia ser admirada como uma formosura completa. Talvez que o unico senão de tanta belleza fosse a sua mesma perfeição irreprehensivel. No rosto, graciosamente emoldurado pelas luxuosas tranças, confundiam-se os lirios e as rozas na mais mimosa frescura. A bocca, fina e espirituosa, córada como um botão nacarado, breve como um suspiro, quando o sorriso a animava, tinha uma expressão adoravel. Nos olhos pretos, que as assedadas pestanas cobriam ás vezes de uma sombra de enlevada melancolia, a luz serena raramente se inflammava, mas sua tranquillidade languida deixava adivinhar, que se a paixão dormia ainda, facil lhe seria, despertando, illuminar de subito e vivo fulgor aquellas pupilas descuidadas. A mão parecia formada pelo modelo de uma estatua primorosa. O pé estreito e arqueado pousava-se tão leve e elegante, que a vista como que involuntariamente se alçava a buscar nos hombros as azas da Silphide. A voz tinha condão seductor. A estatura, um pouco acima de ordinaria, e flexivel como a hastea de uma flor, tambem se dobrava como ella, parecendo que o esbelto corpo de melindroso não podia com o doce peso da fronte, em que as mil graças da primeira enamorada primavera competiam umas com as outras sem se vencerem.{67}
As posições e os gestos em sua desafectada singeleza respiravam a attracção, que o calculo debalde se esforça por imitar. Tudo desmentia o arteficio. O requebro das maneiras, o imperio irresistivel da vista e do sorriso, e a magia arrebatadora das fallas e do semblante, nasciam espontaneos, prendendo os sentidos e a admiração. A formosura da alma ainda era maior, se é possivel. O coração retratava-se na fronte limpida, e os infinitos thesouros de ternura e de abnegação, que por ora concentrava nos extremos de filha e de irmã, quando se abrissem a affectos mais vehementes, promettiam todas as venturas ao amor ditoso. A pureza mais casta, a da ignorancia sublime da infancia, vestia-lhe de candura todos os pensamentos. O pejo era n'ella tão sensivel, que affrontado não só faria corar o rosto, mas o corpo. Compassiva e caridosa sabia conciliar a altivez do sexo com a brandura da indole a firmesa da vontade. Os dotes do espirito esmaltavam as qualidades moraes.
Talvez não houvesse na corte dama ou donzella tão instruida na lição das boas letras. Os melhores livros de prosa e as obras mais acceitas e castigadas dos poetas portuguezes, hespanhoes e italianos, escolhidos por Fr. João, eram a sua companhia certa nas horas de repouso.
D. Maria presava em D. Affonso de Noronha todas as distincções, que o exaltavam. Valia menos, porem, a seus olhos a illustração do berço, do que a elevação{68}do caracter e a fidalguia das acções, que em edade tão verde quasi o haviam tornado um paladino. Não seria mulher, comtudo, senão a confirmassem n'este juizo a presença insinuante do mancebo, a gentileza do seu porte e a nobre expressão da sua phisionomia. Os olhos da donzella, sempre pensativos, encontrando os olhos vivos e rasgados do primo, aonde riam as illusões da vida e da juventude, nunca fugiam d'elles, senão a furto, e as rosas mais accezas das faces confessavam o que tentaria encobrir em vão se acaso soubesse dissimular. Nunca os labios dos dois tinham soltado uma palavra, que revelasse o que sentiam. Amavam-se. A alma de um trazia sempre gravada a alma do outro, mas só a eloquencia da vista, indiscreta ás vezes, traira o segredo. D. Affonso, não podendo por mais tempo calar a chamma, que o abrazava, tinha declarado ao pae, momentos antes de metter o pé no estribo e de partir para a campanha, que este amor encerrava todo o futuro de suas esperanças, entregando-lhe a sorte d'elle. Sabemos que D. Nuno não perdera a occasião, e que D. Magdalena applaudia o enlace proposto.
A chegada repentina dos filhos de D. Magdalena, da aya e do escudeiro, com alguns criados velhos, colheu de sobresalto o feitor Paulo Rodrigues. Tomado de subito o manhoso camponez, soubera disfarçar o embaraço e as apprehensões, mas custara-lhe a conformar-se com a presença dos amos na casa, que{69}havia tantos annos estava costumado a olhar mais como sua do que d'elles. Mandou varrer e aceiar á pressa duas salas e algumas alcovas do andar nobre, para os hospedar, recolheu a mulher e os filhos nos vãos do palacio, e ainda se lhe carregou mais a viseira quando soube que a senhora e Fr. João Coutinho poucos dias se demorariam atraz da familia.
No primeiro dia reinou profundo socego, mas na segunda noute, mal a ultima pancada do sino batera as doze horas, romperam as diabruras nos quartos da aya e de Romão Pires. Apagaram-se todas as luzes de repente por si mesmas. Estalaram nos corredores risadas infernaes. Soaram ruidos de ferros e cadeias arrastadas. Só ao alvorecer é que tudo desappareceu.
O escudeiro, lembrado dos antigos feitos, apesar do tremor, que lhe sacudia os membros, quiz fazer e fez cara feia ao demonio. Na terceira noute levantou-se da cama, engrolando Padres Nossos e Ave Marias, petiscou lume, accendeu uma vela, abriu a porta de manso e saiu ao corredor, quasi em vestido de banho, mas com a comprida espada nua debaixo do braço. Depressa se arrependeu. Aos primeiros passos um sopro forte apagou-lhe a luz, bramidos roucos e proximos gelaram-lhe o sangue, e um clarão momentaneo e sulphurio mostrou-lhe, envolto no sudario, um spectro descummunal e ameaçador.{70}
Esta horrenda visão deu-lhe com os brios em terra; e, virando costas ao inimigo, logrou refugiar-se no seu catre com a cabeça debaixo das roupas, acto de valor, em que a sr.ª Brizida de Sousa o acompanhava conscienciosamente havia muitas horas. Pela manhã os dous velhos pareciam desenterrados.
O aposento aonde D. Maria de Mascarenhas dormia e uma criada, não foi mais respeitado, e a donzella, transida de susto, contou em vigilia continuada as longas horas, que medeiaram até ao amanhecer. D. Pedro ainda padeceu mais. Acordando sobresaltado ao impulso de mãos brutaes e no meio de escuridão profunda, sentiu-se arrancar do leito e balouçar dentro das cobertas entre uivos e rizadas.
Paulo Rodrigues, pelas oito horas veio saber da saude dos amos, e, ouvindo da sua bocca a lastimosa historia dos tormentos e perplexidades nocturnas, contentou-se com encolher os hombros, e observou serenamente, que em vida de seu pae, já tinham muito má fama as casas do andar nobre.
As noutes seguintes não foram mais tranquillas. Os espectros e duendes tinham de certo reservado aquellas espaçosas salas, e os corredores, para theatro de suas diabruras. Dir-se-hia até que o tempo conspirado com elles os ajudava a augmentar o pavor dos hospedes. Rebentaram as trovoadas de maio tão carrancudas e violentas, que os ceus se abriam em relampagos, e a terra tremia com o rebombo dos trovões.{71}As chuvas caiam tão impetuosas que as estradas ficaram convertidas em leitos de torrentes e as terras baixas em lagoas. O Tejo, cheio e empolado, alagava as margens, e suas aguas batiam enfurecidas contra os penedos sobre que se ergue o castello de Almourol, salvando por cima do caes em cachões de espuma. Ao oitavo dia acalmaram-se as tempestades, mas redobraram de força os maleficios nocturnos, com terror, e espanto summo dos recem-chegados.
Avexados, tremulos e fóra de si, reuniram-se todos e determinaram mudar a residencia para os aposentos do castello, que não tinham desabado ainda minados pelos seculos e pela indifferença; mas o feitor, que estabelecera n'elles uma filha casada, dissuadiu-os do proposito, ponderando que as salas e os quartos do velho edificio dos Templarios, alem de frios e de mais nus, que os do palacio, não eram menos perseguidos de visões. Por horas mortas, exclamou elle, as almas dos cavalleiros tornavam aos sitios, aonde tantos annos os corpos tinham vivido. Nas guaritas de pedra, pelo adarve das muralhas, e nas salas de abobada, espectros cobertos com o manto branco, ornado da cruz vermelha da famosa milicia religiosa, appareciam repentinamente, e no silencio da noute sentia-se o tinir das grevas e sapatos de ferro sobre as lageas e ouvia-se a voz das sentinellas. Até raiar a aurora não se calavam na sala de{72}armas as vozes, as rizadas, e as blasfemias. Escutando esta descripção horrifica, Brizida de Sousa e Romão Pires olharam consternados um para o outro, e depois de se persignarem devotamente, não querendo precipitar-se de Scylla em Carybdes, preferiram supportar as travessuras menos estrondosas dos duendes da quinta. Escreveram entretanto a D. Magdalena, pedindo-lhe que os tirasse d'aquelle purgatorio o mais cedo possivel, ou que viesse sem demora em companhia do Sr. Fr. João desalojar os espiritos diabolicos, cuja audacia zombava da agua benta e exorcismos do Vigario de Tancos. Os dous honrados servos confiavam que a grande sciencia do frade doutor e as virtudes do habito de S. Domingos sairiam victoriosas com certeza da rebeldia de Satanaz e da maldade dos seus accessores.{73}
Em 1663 campearam ainda intactas as muralhas, as torres, e a cêrca exterior da fortaleza reconstruida no anno de 1170 por D. Gualdim Paes, defronte de Tancos.[2]Cinco seculos, passando por cima d'ellas, não haviam desconjuntado as quadrellas gigantes, nem alluido o cimento indestructivel, que mesmo ainda agora parecem desafiar a acção do tempo e o braço infatigavel dos demolidores. A ordem do Templo, transferida de Castro Marim para Thomar,{74}a séde da sua victoriosa milicia, estendera rapidamente pela Estremadura os membros robustos. Affonso I, liberalisando-lhe doações e privilegios, e enriquecendo com largos senhorios os monges soldados, confiára quasi exclusivamente ao seu valor a guarda e defeza dos territorios conquistados n'ella. Ega e Soure, Pombal e a Redinha hasteavam as cores do Templo. A Cardiga, Ceras, e outras povoações, cobriam-se tambem com as dobras do famoso estandarte bipartido[3]. As chaves das duas entradas da provincia estavam nas mãos dos cavalleiros. Defronte da moderna Constança, na confluencia dos dois rios, o castello do Zezere cortava o passo aos agarenos da Beira Baixa, em quanto, surgindo do meio das aguas, o castello de Almourol fechava o caminho aos walis do Alemtejo e da Andaluzia.
As ruinas, que vemos hoje debruçadas sobre o rio, contam aos que sabem interrogal-as mais de uma pagina da epopeia portugueza. Assentada sobre um ilheo quasi oval de rochedos sobrepostos, amontoados talvez ali caprichosamente pelo impeto de violenta irrupção vulcanica, as elevadas torres do velho castello, que as voltas do Tejo ora encobrem, ora deixam descortinar de longe, erguem-se mutiladas e enegrecidas pelo halito mirrador dos seculos. Grinaldas de heras penduram-se em festões das{75}ameias desmoronadas, ou se arraigam em tufos virentes nos intersticios dos pannos rotos das muralhas. O arrojo d'aquelles penedos, tão arremessados que o dedo de uma creança parece sufficiente para os fazer escorregar com o muro que os corôa, para o leito do rio, espanta os olhos sobresaltados d'aquelle equilibrio ousado e quasi milagroso. Areias accumuladas, e alguma terra de alluvião formam o solo, aonde cravam as raizes os choupos, os salgueiros e os chorões, cujos troncos torcidos se penduram de cima das fragas até roçarem as aguas com as ramas descabelladas. Piteiras enormes orlam em algumas partes os penhascos aprumados, ou rebentam das fendas das rochas meio precipitadas. Uma vegetação activa e luxuosa veste de verdura aquelle cahos de moles immensas sustidas ha seculos no meio da ameaça constante de uma quéda instantanea.
No anno em que passaram os successos, que refere esta veridica historia, o aspecto do sitio era sim bronco e alpestre, como a natureza o formou, mas a assolação não o havia visitado ainda, agravando-lhe a melancolia. Do lado do occidente quatro torres circulares, levantadas como sentinellas de granito a egual distancia umas das outras, alçavam as frontes torvas e já tostadas do tempo. Entre a segunda e a terceira rasgava-se a porta actualmente intransitavel do castello, com a sua volta de ogiva e grossos batentes de castanho chapeado. No meio do{76}guerreiro edificio avultava a torre de menagem, e logo adiante, em curto intervallo, outra quadrada tambem, com os eirados cingidos de ameias. Uma janella ornada de lavores em ramos, aberta a dois terços da altura, esclarecia os aposentos do segundo piso, em quanto da parte oriental duas frestas do mesmo estyllo davam claridade á sala de armas. Cinco torres guarneciam o lado do nascente. Ahi a muralha subia a grande altura, acompanhando as sinuosidades do terreno. O caes ficava ao sul, e o fosso natural, que rodeava os muros, agora cego de entulho, corria profundo e despenhado. No interior da fortaleza, aonde tudo hoje são ruinas e pedras soltas, enroscadas de ervas e de silvas, e aonde os cactus silvestres brotam gigantescos, era o pateo espaçoso por onde se entrava para os andares. Raras e esguias frestas allumiavam aquelles aposentos, pouco espaçosos, mas enfeitados de altas e ricas laçarias. Em 1663 a obra da destruição principiava a annunciar-se apenas. Apesar de nuas, as salas ainda conservavam sua bellesa severa, e nos eirados e adarves, se não alvejava havia mais de tresentos annos o manto branco dos templarios, se algumas heras, trepando, se balouçavam á mercê do vento, e se as torres e muralhas mostravam já a côr adusta, que é para os monumentos o que são as cãs nos velhos, um testemunho irrecusavel de que viram e viveram muito, não se tinham esmorecido,{77}comtudo, nem apagado ainda nenhuns dos vestigios dos grandes dias de lucta. Almourol no meio do Tejo, similhante a um titão com metade do corpo fóra das aguas, ainda podia ameaçar forte e intacto, os que ousassem arriscar-se ao alcance de seus tiros. Firme e inexpugnavel cuidava no vigor de sua robusta velhice zombar dos seculos, como as creanças zombam dos annos, bem alheio de suppor, que na transição da edade grave para a decrepidez sua decadencia seria rapida, e que, espectro de granito, suas ruinas diriam ás gerações indifferentes da nossa época, que eterno e grande só é Deus!
Em uma das salas baixas da velha torre de menagem, toda de abobada, e ornada de mobilia rustica, estavam assentados, um defronte do outro, os dois ricassos da terra, ligados pelos vinculos do parentesco, e mais ainda pelas raizes de interesses reciprocos. O feitor Antonio Rodrigues ajudava piedosamente seu genro e consocio Pedro Lavareda a ingorgitar copiosas libações de um vinho, que escaldaria outras goelas menos estanhadas. Sobre a grande mesa de pau santo e pés torneados, que servia de altar aos dois zelosos sacerdotes do Bacho d'aquelles contornos, avultava um alentado cangirão de barro, bojudo, e cheio até á boca. Principiára a anoutecer, e uma candeia enorme de tres bicos, similhante a monstruoso aranhiço, allumiava a casa{78}escassamente. Duas espingardas, carregadas e engatilhadas, jaziam ao canto, promptas para servir á primeira voz.
Antonio Rodrigues era corpulento, espadaúdo, e reforçado. Faces largas e cheias, bastante roliças, pescoço curto e taurino, cabeça enterrada entre os hombros, peito amplo e bombeado, e pernas grossas e firmes denunciavam n'elle o vigor de um atheleta unido a uma saude inexpugnavel. Inculcava apenas sessenta annos, mas os visinhos do seu tempo punham-lhe mais dez sem receio de erro, e acertavam. Mas era uma velhice verde e jovial, que não se inclinava ao peso dos annos, que o trabalho não desfallecia, antes reanimava, e que promettia, assim viçosa e robusta, chegar a um seculo completo, rindo-se dos catharros, dos rheumatismos, e ainda mais da apoplexia fulminante prognosticada pelo douto Esculapio, o licenceado de Tancos, seriamente amuado por nunca ter de receitar nem um xarope áquelle cliente invulneravel ás chuvas, aos frios, e a todas as temeridades, a que um mancebo se não atreveria impunemente!
Antonio Rodrigues trajava á camponesa, com aceio, mas sem basofia. Gibão e calças de baeta escura, carapuça de lã, e o inseparavel varapau ferrado na ponta constituiam o uniforme do activo Triptolemo. Uma grenha de cabellos grisalhos, crespos e bastos, descia a affrontar-lhe a testa, pouco sulcada de rugas.{79}O sorriso enroscava-se perenne nos beiços grossos e córados. Conservava intactos ainda, e brancos de jaspe, como os de um tubarão, todos os dentes. A barba baixava em andares sobre o peito, e os olhos castanhos, pequenos, e maliciosos, afogados em gordura, dir-se-hiam que espreitavam tudo, meio encobertos. A voz aflautada causava espanto saindo d'aquelle corpo. Finalmente, o nariz grosso e cravejado de botões vinosos, rubros como rubins, assumia dimensões quasi phenomenaes. A expressão da phisionomia era dubia. O observador no primeiro relancear apenas notaria a beatitude do comilão repleto e do bebedor insaciavel. Attentando melhor, e, comparando o olhar, o gesto, e o riso mudaria porem logo de conceito, divisando debaixo d'aquella mascara de Sileno herculeo as feições moraes significativas da astucia, do egoismo brutal e desentranhado, e de uma cubiça incapaz pela avidez de transigir com a honra, com a consciencia e com o dever.
Pedro Lavareda representava o antipoda de seu digno sogro e tio quanto aos dotes physicos. Um hellenista contemplando-os, tomaria um pelo alpha, e o outro pelo omega. O genro, magrissimo, quasi esqueleto, assustava os que o viam com o receio de que um dia lhe saltassem os ossos das tibias e dos femurs soltos das ligaduras. Braços de polipo, terminados por mãos e dedos eternos, hombros agudos{80}sobre os quaes o fato dansava como posto em cima de um cabide, rosto comprido, escaveirado, e macilento, acompanhado das melenas esguias de um cabello ruivo e aguado, testa núa que chega quasi á nuca, peito e ventre espalmados, olhos vesgos, tortos, encovados, mas vivos ou surrateiros, boca rasgada quasi até ás orelhas, e beiços finos e desbotados, compunham a lugubre, carrancuda, e exotica pessoa do lavrador mais atilado, avarento e sem escrupulos d'aquellas immediações. Parecia fraco e a desfazer-se; mas as pernas delgadas, como fusos, podiam andar legoas, os braços escamados encobriam uma força alem do commum, e os olhos vesgos só viam torto para os negocios alheios.
Retrato vivo do aspecto mortificado de um franciscano penitente, o velhaco ria-se tanto para dentro como o feitor Antonio Rodrigues se ria para fóra. Uzurario de nascença, hypocrita por indole e verdadeira voragem de liquidos e solidos, digeria como um abestruz e bebia como um areal. Quando conversava, sempre em fallas manças, sabia chamar a tempo uns frouxos de tosse e umas lagrimas de defluxo, que o ajudavam muito a engulir metade, e ás vezes duas terças-partes das palavras, e é inutil accrescentar, que as palavras engulidas eram sempre as que o podiam comprometter ou aproveitar aos outros. Quando o caso o requeria, Pedro Lavareda, o valetudinario sadio, convertia-se n'uma cascata de prantos.{81}Tinha as glandulas lacrimaes devassas e chorava como um crocodilo. Ai dos innocentes que se deixavam orvalhar e amolecer por elle!... Ficavam quasi sempre sem camisa. No meio d'aquelle rosto afiado erguia-se um promontorio immenso. Era o nariz adunco e aguçado na ponta, que descia quasi a beijar o labio superior. Este nariz, delgado e membranoso, rematava a semelhança que tinha aquella cara com o focinho da fuinha. Esquecia notarmos que Antonio Rodrigues exercia com applauso geral as funcções de procurador de dous conventos de freiras, de quatro irmandades, e que seu genro accumulava com outros arrendamentos lucrativos a arrematação dos dizimos e premicias da comarca.
—Os de Payo Pelle pagaram por fim? perguntou o feitor ao genro pousando o caneco despejado em cima da mesa.
—Com lingua de palmo. Elles conhecem-me, sr. tio! respondeu Pedro Lavareda com um sorriso avinagrado.
—Bem bom!... Sabes o que me dá cuidado agora, homem? É esta gente aqui mettida. Tomara vel-os pelas costas.
—Pois acabe de os empurrar para a rua, que não deixam cá saudades! redarguia o outro com meio sorriso acido.
—Isso é facil de dizer, mas... Ao cabo de tudo, Pedro, bem vês, os donos da casa são elles!...{82}
—Que vão comendo as rendas e que nos deixem. Tão más são ellas!...
—Hum! Podiam ser melhores... Esse é o meu receio. Trazemos isto muito de rastos, Pedro, e alguma lingua ruim lh'o disse já ou lh'o ha de dizer.
—Invejas! fallatorios!... acudiu o genro entre dous frouxos de tosse.
—Pois sim!... Olha, não seria melhor offerecermos um nadinha mais pelas terras e ficarmos com ellas de pedra e cal, do que arrebentar-nos a castanha na boca uma d'estas manhãs?!
—Nanja eu, tio! Sangue ninguem m'o tira á boa feição, e o dinheiro é sangue...
—Mas homem!?...
—Deixe lá, sr. sogro, não se metta a abelhudo aonde o não chamam, e deixe ir a agua ao moinho. Já alguem fallou em lhe levantar a renda da alcaidasia?...
—Não.
—Pois não faça andar o carro adiante dos bois, e coração á larga. O que for soará.
Houve um minuto de pausa. Antonio Rodrigues coçava a nuca com o indicador e o dedo médio da mão direita por baixo da carapuça, e rufava sobre a taboa da meza com todos os dedos da mão esquerda. As roscas da barba sumiam-se-lhe na golla alta do gibão, e os olhinhos, homisiados entre as palpebras{83}meio cerradas, luziam vivos e scintilantes como os do gato matreiro que espreita a presa. Pedro Lavareda, menos apprehensivo na apparencia, limpava os olhos chorosos com um quadrado de panno de linho, em quanto a unha tigrina de um dos dedos da outra mão raspava uma nodoa conhecida e teimosa do calção sobre o joelho. Ambos meditavam e se entendiam sem fallar. O feitor de repente levantou meio corpo de cima do mocho de pinho em que se assentava, colheu o cangirão pelas azas, sopesou-o por um instante, e emborcando-o, encheu os dous canecos de louça. Levou depois o seu á boca, encurvando lentamente o braço, e despejou-o em poucos sorvos, emquanto o sobrinho, coleando primeiro a lingua pelos beiços, libou com mais vagar e com gestos de amador consumado o nectar, que espumava na grosseira taça.
—Rapaz, isto não vai bom!... tornou Antonio Rodrigues com um suspiro. Anda mouro na costa, que eu bem o sinto e cá sei os botões com que me abotou-o. Esta gente de Lisboa aqui não gosto nada d'ella.
—Ora, tio deixe-se de scismas!... De que tem medo? A aya é uma tonta, uma pêga douda. O escudeiro não passa de um espantalho de pardaes, e os meninos.... leram tanto que tresleram. Mostre-lhes um campo de cevada nascida de oito dias e verá se não lhe dizem que é trigo.{84}
—Mas atraz da pêga e do espantalho tenho muito medo que venha o milhafre!...
—Qual milhafre?!...
—O frade!... murmurou o feitor em voz abafada e com signaes de verdadeiro susto.
—E então se vier?!... Lê no seu breviario! O Sr. Fr. João Coutinho sabe muito de leis e de casos, mas de lavouras não creio...
—Nisso te enganas. É capaz de dar sota e az ao mais pintado!. Creou-se no campo e administrou muito tempo os bens do convento.
—Ah! Ah!...
—E tenho meus longes de que, mais dia menos dia, ahi o temos pela prôa com a Sr. D. Magdalena.
—Mau será!... rosnou entre dentes o sobrinho declarando com a unha do polegar crua guerra a uma verruga, que lhe ornava a ponta do nariz. Máu será, tio!.... Mas não havemos de perder o somno por isso. Dizia no mosteiro, aonde me ensinaram, o padre mestre Fr. Hilario, que para todo o genero de peccado deixou Deus remedio na sua egreja...
Houve nova pausa. Os dous olhavam um para o outro calados mas pouco satisfeitos.
—Então que dizes, homem?!..
—Se o frade vier.... é pôl-o ao fresco, em vinte e quatro horas.
—Estás mangando, sobrinho?!.. Pôl-o ao fresco? O irmão da senhora, o tio dos meninos?!...{85}
—Tal e qual. Nem mais, nem menos!! Sacudil-o e depressa.
—Ora! Bugalhos, sr. meu genro!... Sacudil-o?!. Como?...
—Mettendo-lhe medo.
—Ao sr. Fr. João, que é rijo como ferro e valente como as armas?!.. Vai dormir, Pedro, isso é somno.
—Sim sr., metter-lhe medo, porque não?...
—Com as almas do outro mundo, aposto, como tens feito á lambareira da aya e ao nescio do escudeiro? atalhou Antonio Rodrigues com uma rizada de escarneo.
—Com as almas do outro mundo, sim senhor!... Cuida que o frade não foge?... Hade vel-o em camisa no pateo, mais branco do que os lençoes da cama.
—Deixa-te de historias, Pedro!... As visões com o frade não pegam. O que apanhas é algum tiro.... e olha que é caçador que não erra.
—Pois deixe-o ser. Fico por mim. Entregue-me o negocio, e verá....
—Emfim, lá sabes as linhas com que te coses... Mas toma sentido comtigo! O frade é ladino, sei que vem desconfiado de nós, e tenho muito amor á pelle.
—Socegue. Eu tambem não tenho odio á minha. Diga-me: se Fr. João vier, aonde o mette?
—Aonde o metto?!.. Porquê?{86}
—Preciso saber.
—No quarto verde talvez...
—Nada! Dê-lhe o quarto dos armarios.
—Mas!...
Houve outra pausa. O feitor olhava suspenso coçando sempre a nuca. O genro ria-se para dentro, raspando a nodoa do calção.
—Tu não me dirás o que intentas fazer, Pedro? Tenho medo de ti e do teu risinho.
—Pois não tenha. Hade tudo correr como um brinco, louvado Deus e sua mãe Maria Santissima.
—Mau!... Se me resmungas nomes de santos temos maroteira e grande!... Pedro!... Toma cuidado! Nem uma beliscadura, nem uma picada de agulha no sr. Fr. João.... Não é por elle, é por mim. Nada de graças pesadas! Não me quero ver na cadeia comido de pés e mãos. Leve antes a bréca as terras.
—Ai, tio!.. Não se faça teimoso, e não esteja calumniando as minhas intenções.. Valha-me a Senhora Sant'Anna.
—Mau! Tornas aos santos!... Que é isto?...
—São passos.
—E vozes... Chega á fresta e vê!
Pedro Lavareda obedeceu.
Um vento rijo e chuveirões puxados com força bateram-lhe na cara, apenas abriu o pesado caixilho, e arriscou a cabeça para espreitar o que se passava{87}no rio. O devoto personagem recolheu á pressa o interminavel e esganado pescoço, rosnou duas interjeições apimentadas, e, enrolando um lenço por cima da gola do gibão, tornou a affrontar, porem mais abrigado d'esta vez da furia do aguaceiro. Decorridos instantes de attenta observação, metteu-se para dentro, cerrou o caixilho, e veiu sentar-se defronte do tio, com os sobr'olhos e a bocca franzidos. Trazia estampada no afunilado rosto uma verdadeira elegia.
—Então?!... disse o feitor já sobresaltado com a mimica tetrica do sobrinho.
—Fallai no mau, apparelhai o pau!... É o frade!..
—Hein!? bradou Antonio Rodrigues, pondo-se de pé de um pulo e enterrando a carapuça até aos hombros. O frade?!.
—Em corpo e alma! Escripto e pintado!... Tem razão, tio. Anda mouro na costa.
—Vem a Senhora D. Magdalena?...
—Não. Vem elle só. Isto leva agua no bico, sr. meu sogro.
—Não te dizia eu, Pedro?... E agora?...
—O dito, dito. Contas com Jorge e Jorge na rua.
—Sabes que mais, homem? Vai-me cheirando tudo isto muito a chamusco. Não gosto nada da vinda do sr. Fr. João assim com este segredo.... Receio....{88}
—Valaverunt galhetas, sr. meu tio! como nós diziamos no convento!... O caso está feio, e d'esta vez a raposa bem podia ficar sem rabo!.. melhor, porém, o ha de fazer Deus e sua Mãe Maria Santissima, minha madrinha!... Primeiro do que tudo enxuguemos outro caneco. Este bom vinho alegra a vida e faz crear alma nova. Bom! Agora, a pé! Vá receber o sr. Fr. João, que ha de vir cansado e aborrecido da jornada.
—E tu?...
—Eu... Fico para pôr em ordem umas cousitas. Escute, meu tio! Dê ao sr. Fr. João o quarto dos armarios. É essencial.
—Porquê?...
—Pela bocca morre o peixe!... Depois verá. Adeus! Não faça esperar sua reverendissima e encommende-me nas suas orações á minha devota Senhora Santa Anna...
—Mau!... Ahi tornas tu com a ladainha dos santos!... Pedro!... Olha lá?.. Cuidado com a pelle do sr. Fr. João!
—Vá descansado, tio, não hade haver novidade. Vem ceiar?
—Venho.
—Até logo.
E os dous consocios e parentes separaram-se.{89}
—Com que então solto anda o demonio por estes palacios confusos, e afllictos nos vemos com as suas diabruras, Brizida de Souza!?.. Muito me contam! Mau é isso!... E vossê que diz, Romão Pires? Parece ainda mais pasmado do que esta boa velha!... Vamos lá, sr. Antonio Rodrigues, diga-me: aonde é o quartel general de Belzebut? Ha de saber de certo. É de casa!
—Eu, sr. fr. João!... Sei só que não se póde parar aqui da meia noite em diante!..
—Ah! sabe isso!?... Ja não é pouco! Pois eu lhe digo: cuidei que sabia mais. Acho-o tão roliço e anafado, que vejo que engorda com os sustos.{90}
—O sr. Fr. João gosta de brincar, mas em passando uma noite aqui!...
—Ai, meu Jesus da minha alma! Anjo bento de Nossa Senhora Apparecida!... É da gente botar a fugir, ou de perder o juizo! exclamou a sr.ª Brizida, pondo as mãos.
—Então o sr. Antonio Rodrigues crê que esta noite haverá ensaio geral de Satanaz e da sua côrte, para festejarem a minha chegada?... Muito bem! Cá estamos.Cor contrictum et humiliatum deus nom despiciet!Pelejaremos com as armas espirituaes, que são as melhores, e com as temporaes, que tambem servem em certas occasiões! Mas como vamos de ceia?.. No barco o mau tempo fez-nos jejuar, e sinto-me capaz de tragar um carneiro assado! E o vinho, aquelle bom vinho de 1655, ainda haverá por cá uma gota d'elle? Ha de haver. O sr. Antonio Rodrigues, o melhor copo de Tancos e seus arredores, aposto que não está desprovido de munições de guerra?
Antonio sorriu e coçou a nuca.
—A ceia está ao lume, e não se demora tres credos. Quanto ao vinho.... esteja vossa reverendissima descansado.
—Sempre estive. Diga-me, Brizida, achei muito pallida a sr.ª D. Maria. Ella tem passado peior?...
—Não, sr.! Peior não. Mas, com o susto d'estas noites sem somno, a minha rica menina tem perdido{91}as côres. Ella é tão delicadinha, tão fraca!.. Ó sr. fr. João, a menina não podia ler um nadinha menos, mais o sr. D. Pedro, e respirar mais algum ar em Lisboa?
—Não pode, não senhor!... acudiu o frade em voz de trovão. Meus sobrinhos não se educam para espantalhos de sala!... E vossê é muito atrevida em se metter a dar conselhos aonde a não chamam!...
—Ai doce Jesus do meu coração! Que disse eu para ouvir uma repostada assim?!.. Sabe que mais, sr. fr. João? Não sou moura, nem perra, nem captiva. Pão em toda a parte se come; e se não fosse o amor dos meus meninos, por esta (e beijou os polegares em cruz) que não aturava uma hora mais n'esta casa!
—Está bom, Brizida de Souza, está bom! Não se inflamme. Sabe que a estimo, que todos em casa lhe queremos muito.... mas não me toque n'essa córda. Sei que me acusam de apoquentar os pequenos com os estudos, e que elles não teem uma tosse, uma febrita, de que se não torne logo a culpa aos meus livros!...
—«Vale mais asno vivo, do que doutor morto!» resmungou a velha ainda irada e incorregivel.
—Mas eu é que não quero na minha familia asnos.... vivos, ou mortos, mulher!—bradou o frade fazendo-se côr de purpura e sorvendo duas pitadas com o ruido de um furacão..—Safa! Vossê é capaz{92}de fazer perder a paciencia ao proprio Job!... Bem! Não fallemos mais n'isto, e não faça caso dos meus repentes.... Sabe que não sou tão mau como pareço e que trago sempre no coração os meus dois rapazes...
—Sei! Sei! Por isso digo a todos: o sr. fr. João berra, esbraceja, é um destemperado, mas passa-lhe logo. Cão que ladra não morde. Livre-nos Deus de uns sonsinhos que não quebram um prato, mas que ferram o dente calados....
—Obrigado pelo elogio!... ou antes pela boa intenção. Chame os pequenos. A ceia ha de estar na mesa; e protesto que me atiro a ella como Santiago aos mouros!.. Vamos.
A ceia correu farta e alegre, e Antonio Rodrigues foi homem de palavra, regalando o hospede com algumas garrafas de vinho maduro, que F. João proclamou rival do melhor que se podesse beber á meza de el-rei. As proezas gastronomicas do erudito dominicano tinham assombrado o proprio feitor, cujo estomago insondavel sepultava sem incommodo alimentos de todas as qualidades, e se carregava de quantidades que eram o espanto e maravilha dos que assistiam ás suas repetidas campanhas pantagruelicas. D'esta reputação merecida Antonio Rodrigues viu-se obrigado a arrear bandeiras. O padre mestre não comia, devorava, não bebia, absorvia! Regando de copiosas libações cada iguaria rustica, absolvendo as{93}indigestas com um exorcismo culinario, fazendo desaparecer do prato as menos pesadas com milagrosa rapidez, dir-se-hia que a fome iberica e peninsular, a fome de dentes caninos e apetite insaciavel, tomára a figura corpulenta d'aquelle frade, para realisar em Tancos uma verdadeira razzia. Tudo tem de acabar, porém, e Fr. João, exalando um suspiro, e cruzando as mãos sobre o volumoso ventre, deu a empreza por concluida, murmurando com os olhos meio fechados, e a voz ainda suffocada do esforço:Deus nobis hæc otia fecit!
O reverendo, na meia somnolencia em que se deixou ficar, recostado no espaldar de couro da vasta poltrona, com as faces afogueadas, e o barretinho de seda preta derrubado sobre a orelha esquerda, não offerecia de certo a imagem dos piedosos e extenuados monges, que em epochas de mais fé edificavam os fieis com o exemplo de sua vida frugal e contricta. Parecia mais um hippopotamo encalhado, do que um devoto filho de S. Domingos. Os instinctos animaes prevaleciam, e a fadiga de uma digestão laboriosa fazia arfar aquella machina de mastigação continua. D. Pedro e D. Maria contemplavam o tio com a admiração sincera de creaturas delicadas, que semelhantes excessos não só confundem, mas atterram. Brizida persignava-se e enfiava os burgalhos do seu rozario em oração atribulada, esperando ver desabar de um momento para outro o padre{94}coloçal fulminado por um ataque apopletico. Romão Pires ainda não podera articular palavra, embuxado com a vista da voracidade incrivel do irmão do seu amo. Antonio Rodrigues, cujos olhinhos matreiros semelhavam no brilho duas scentelhas, desfazia a nuca raspando-a desesperadamente com a unha, e dizia comsigo, que o frade, medindo as forças pela alimentação, devia prostrar um touro com um murro, e abrir um tigre em dous, como o faria qualquer mastim faminto ao gato descuidado, que lhe caisse debaixo das prezas.
—Deus nobis hæc otia fecit!tornou a repetir Fr. João depois de uma pausa de alguns minutos, recuperando a costumada viveza e agilidade.—Podemos dizer com verdade que ceiamos como uns padres!.. Minha sobrinha! Não gostei de a ver tão triste. Que nuvem pesa sobre esse coração? São receios, ou saudades?!.. Socegue que o hade ver são e escorreito....
—Quem, meu tio? atalhou a donzella distrahida.
—Pois quem hade ser senão aquelle cavalleiro andante que se despedio de nós e que hade voltar um dia d'estes coberto de louros.... Entendeu-me agora?
—Oh, meu tio!... acudio ella fazendo-se vermelha como uma roza.
—Está bom! Está bom! Não digo mais nada.... Romão Pires sabe que os castelhanos tomaram Evora,{95}e que a estas horas hão de estar as mãos com o nosso exercito?.. O que diz vossa sapiencia?.. Quem vence?!..
—Essa é boa, sr. padre mestre! Quem deve vencer! O sr. conde de Villa Flor.
—Deus o ouça! Bom é ter fé!.. Mas!—E a larga fronte do frade enrrugou-se aprehensiva, em quanto os sobrolhos descahiram a ponto de lhe cobrirem quasi as palpebras superiores—Deus super omnia! murmurou.
Seguiram-se alguns instantes de silencio. De repente a porta abriu-se com estrondo, e a longa, a defecada pessoa de Pedro Lavareda entrou impetuosamente pelo aposento, com os olhos espantados, as faces contraidas, e os cabellos ruivos espetados, representando a imagem viva do terror e da consternação.
—Os castelhanos!... Os castelhanos!... Elles ahi vem!...
A esta voz de pavor, e de immenso pavor, todos se acharam de pé, não menos assombrados do que parecia estar o nuncio da nova atterradora.
—Os castelhanos!?.. gritou Fr. João, saltando da cadeira e empunhando machinalmente um bastão enorme, especie de clava, que o acaso lhe mostrou encostado a um canto.
—Os cas... te... lha... nos! gemeu Brizida, faltando-lhe os joelhos e erguendo as mãos.{96}
—Os castelhanos?! exclamou Antonio Rodrigues, arrancando da cinta a longa navalha de ponta e de mola e floreando-a como uma espada, em quanto Romão Pires sacudia da bainha a durindana decrepita e preguiçosa.
D. Maria, branca de cêra e silenciosa, encostou-se á mesa para não cair. D. Pedro, pelo contrario, com o rosto mais animado, os olhos reluzentes, e a fronte levantada, apertou o punho da pequena espada de côrte, e deu alguns passos como se quizesse sair ao encontro do perigo.
—Os castelhanos?! tornou a bradar Fr. João. Ás armas! sr. Antonio Rodrigues chame os criados!... Façamos de Tancos e de Almourol uma segunda Aljubarrota!...
Dizendo isto limpava a testa inundada de suor, e fulo de raiva e de impaciencia batia o pé como o corsel insofrido escarva o chão desejoso de soltar a carreira.
—Mas não seria bom, meu tio, sabermos primeiro o que ha, quem deu a noticia, e aonde estão os inimigos? observou D. Pedro em voz mansa e com extrema serenidade.
—Do manus!Rem acu tetegiste, puer![4]gritou o frade sentando-se commovido e ainda tremulo. Façâmos conselho! Sr. Antonio Rodrigues, em primeiro{97}logar: quem é e como se chama este correio de más novas?..
—É meu genro e meu sobrinho. Chama-se Pedro Lavareda.
—Ah! Ah!. Pedro Lavareda!?. Nome incendiario e perigoso em pessoa mais secca do que um cavaco!.. Mas vamos ao que importa. Chegue á falla o sr. Pedro.... Lavareda! Quem lhe deu a má noticia que nos trouxe?...
—Um almocreve do Crato, que saiu de lá a bom fugir!...
—E que disse o almocreve?...
—Que os nossos foram derrotados, que ficaram todos ou quasi todos no campo, e que as guardas avançadas de D. João de Austria estavam a entrar no Crato!...
—Ah! Parece-me carnificina de mais!.. E aonde se deu a batalha?
—Não m'o soube dizer.
—Hum! E o seu almocreve aonde está?...
—Partiu, caminho de Lisboa.
—Oh! E não sabe mais nada?
—Mais nada, sr. padre mestre.
—Pois sr. Pedro.... Lavareda, o seu nome queima!.. Quer um conselho de amigo?...
—Se vossa reverendissima tiver a caridade de m'o dar!..
—Tenho sim, senhor. Mande passear o seu almocreve,{98}durma sobre o caso, como nós vamos dormir, e creia que amanhã acorda convencido de que engulio uma peta mais comprida do que a sua pessoa, o que já não é pouco.
Os olhos felinos de Pedro, se fossem punhaes, teriam varado o frade, mas como o não eram, contentaram-se com a expressão humilde e hypocrita de uma annuencia servil, ao passo que os labios franzidos arremedavam soffrivelmente um sorriso boçal.
—Macte puer!gritou Fr. João, batendo no hombro de D. Pedro. Tiveste mais juizo tu só, do que nós todos!... Isto é mentira e mentira mal armada. Os hespanhoes no Crato!... Uma batalha sem logar sabido!... Um almocreve invisivel!... Meninos, soceguem! Tia Brizida, alma até Almeida! Romão Pires, enfie-me na baínha esse eterno chifarote, espanto e censura viva das espadas de hoje!...
—Então vossa reverendissima já não quer que ponha de aviso os criados? disse Antonio Rodrigues, que tivera tempo de trocar algumas palavras com o genro, colloquio, que apesar de curto, não escapara a Fr. João.
—Não, senhor. Deixe-os descansados! Bem bastam logo as almas do outro mundo!... Sabe que mais? Sinto-me moido, e uma boa cama depois de uma boa ceia é o melhor remedio para estas molestias. Aonde é o meu quarto?
O feitor esgueirou um volver de olhos interrogador{99}ao sobrinho, que lhe respondeu com um aceno quasi imperceptivel de cabeça, e, pegando em um maciço castiçal de prata denegrido, precedeu a especie de procissão de toda a familia até ao aposento, aonde o douto dominicano havia de passar a noute. A porta abria-se no topo do comprido corredor do centro; a camara de D. Pedro ficava-lhe á esquerda, e o pequeno camarim de Romão Pires á direita. Mettiam-se de permeio dous quartos fechados, e seguia-se a sala aonde D. Maria dormia, tendo ao pé o leito de Brizida de Sousa. O aposento, aonde Antonio Rodrigues conduzia Fr. João, nada inculcava de notavel. Era uma casa vasta, de tres janellas, duas de peitos e uma sacada, cujas paredes abertas em partes conservavam ainda a par de largos pedaços das colgaduras de couro, que em melhores dias as tinham ornado, altos e grandes armarios de pau santo. Os tectos altos e enegrecidos e o pavimento carunchoso, gemendo e estalando com o peso dos passos, atestavam a velhice e o desamparo. Um leito antigo, enorme, com sobreceu e cortinas out'rora verdes, um velador de pau santo arruinado, e um contador, ainda mais antigo, completavam com tres, ou quatro cadeiras coxas dos pés, ou mutiladas dos braços, a mobilia nada commoda, nem opulenta. Cousa singular! N'este quarto, em que a destruição minava, e esfarelava tudo, as unicas cousas intactas e bem conservadas eram alguns{100}paineis grandes, retratos de corpo inteiro de guerreiros, damas, e monges, pintados a oleo, e mettidos em soberbas molduras de carvalho, lavradas de talha alta.
O padre mestre rodeou com os olhos toda a casa, e perguntou, sorrindo-se, ao feitor, se ella passava por ser tambem vexada pelas almas do outro mundo. Antonio Rodrigues abaixou a sua immensa e redonda cabeça, e Brizida benzeu-se devotamente.
—Bem!... N'esse caso é preciso estar armado e vigilante para a batalha! Se escaparmos aos castelhanos do Crato, não quero que acabemos nas garras dos trasgos e diabretes de Tancos. Sr. Antonio Rodrigues, faz favor! Mande trazer para aqui o meu alforge, que ficou na sala de entrada. Sr. Pedro Lavareda (exquisito nome (!)) é bom caçador por certo, e hade ter uma espingarda de mais. Eu tambem gosto de dar o meu tiro de manhã cedo ás perdizes e ás calhandras por essa charneca. Conto levantar-me com o sol, e dar um passeio pelas fazendas, para tornar a ver estas terras em que não ponho os olhos ha um bom par de annos. Para não ir com as mãos abanando levarei a sua espingarda... Não a heide tratar mal, descanse!..
—Essa é boa, sr. Fr. João! A espingarda, eu, e tudo o que mandar estão ás ordens de vossa reverendissima....{101}
—Muito obrigado!... Olhe não se esqueça de me trazer um frasquinho de polvora.
O tio e o sobrinho sairam, e o frade, chamando de parte a D. Pedro e a Romão Pires, e pondo as mãos no hombro de cada um d'elles, disse-lhes em voz baixa:
—Latet anguis!Anda aqui novello! Este sr. Lavareda, com aquella face compungida de Longuinhos, parece-me fino como um alambre... Os dous, elle e Antonio Rodrigues, o tio e o sobrinho, estão conjurados contra nós... Porquê e para quê? O tempo o dirá. Olho vivo, pois, Romão Pires! Se lhe apparecer visão, ou espectro, receba-m'o ás cutiladas. Eu cá espero a pé firme os que vierem visitar-me, e a agua benta, que lhes deitar, hade chamuscal-os de véras.... Muito bem!.. Ahi vem os dous velhacos.
De feito o sogro e o genro chegavam, um com o alforge, e o outro com a espingarda e o frasco. Fr. João fallou um pedaço com elles, sempre com a boca cheia de riso, pedio uma candeia grande para se allumiar até pela manhã, e despediu-se de todos, sem dar mostras da menor desconfiança.
—O padre prega-t'a na menina do olho, sobrinho! Toma conta! disse Antonio Rodrigues com o rosto carregado.
—Veremos, sr. meu tio.
—Guarda-te de elle te pôr as mãos. É capaz de estourar um boi.{102}
—Melhor o fará Deus!
—Boas noutes.
—Santa Anna e minha madrinha Nossa Senhora o levem na sua Santa guarda.
—Sentido! Nem uma beliscadura!
Em quanto os dous honrados camponezes conversavam em voz baixa no fim do corredor, Fr. João Coutinho passava revista minuciosa ao quarto e parecia ficar inteirado de que as paredes e os armarios não encobriam portas falsas, nem os sobrados alçapões. Abrindo o alforge depois, tirou de dentro um par de pistolas. Verificou a carga de ambas, renovou as escorvas, e passando á espingarda, carregou-a com todo o cuidado, metteu-lhe uma bala, e pousou-a engatilhada á cabeceira da cama. Feito isto foi á porta pé ante pé, descerrou-a de manso, e em passo subtil encaminhou-se ao camarim de Romão Pires, aonde se demorou. Á volta—davam onze horas—achou tudo como o deixara, rezou pelo seu breviario, e despindo só o habito, abafou-se, conchegou as colchas, recostou a cabeça, e, decorridos instantes, os roncos assobiados de um somno profundo annunciavam que tinha esquecido os castelhanos do Crato, as almas penadas, e os virtuosos manigrepos ruraes, cuja lealdade não julgára de bons quilates.
Teria repousado duas horas, quando despertou sobresaltado. O leito, pesado e maciço, arfava, balouçado{103}como um barco sobre vagas inquietas. O frade entre-abriu os olhos. A vela do castiçal estava em um terço, e a luz da candeia brilhava esperta. O quarto continuava deserto e silencioso. Entretanto o leito não parára de dansar, e, facto mais singular ainda! a roupa da cama fugia de vagar, sem apparecer mão, ou braço que lhe tocasse. Fr. João deixou-se ficar, tomando sómente uma posição que lhe consentisse saltar ao chão de um pulo para travar a lucta com os duendes e spectros. Tinha as duas pistolas sobre o velador á cabeceira, e a espingarda ao pé. Entretanto, apesar de animoso e resoluto, o suor principiava a borbolhar-lhe na testa, e um calefrio suspeito a correr-lhe a espinha dorsal.
—Isto não vae bem! Queria antes ruido, grilhões arrastados.... a scena do costume. Esta calada e estes empuchões invisiveis.... sinceramente sería de fazer tremer as carnes, se eu não soubesse!... Credo!.. Lá se foi a roupa até aos pés da cama.... Não gosto da graça! Que é aquillo? As pinturas andam!?.. Oh!...
Aqui poz termo ao soliloquio, e sentando-se na cama, com os poucos cabellos, que lhe restavam, erriçados em volta da calva, com as feições contrahidas e a boca pasmada, cravou as pupilas cinzentas e dilatadas no painel, que lhe ficava fronteiro e que representava um cavalleiro da edade média coberto de toda a armadura, mas com o rosto sem viseira e{104}os olhos ameaçadores. Aquella figura severa, como que destacada da moldura, parecia mover-se por si lenta e lugubremente. Fr. João quiz duvidar do testemunho dos sentidos, e convencer-se de que era victima de uma illusão. Esfregou as palpebras, beliscou os braços para despertar a sensibilidade, mas o retrato continuava a adiantar-se, e um sorriso tetrico como que lhe franzia os beiços. Ao mesmo tempo os ouvidos afiados do dominicano colheram, não sem grande pavor, o som amortecido de ferros que rangiam, e um gemido longo e soturno, semelhante ao gemido doloroso de afflictivo estertor.
—Vade retro, Satanaz!murmurou saindo da cama cheio de terror.Ne nos inducas in tentatione!
Apenas soltára a meia voz estas palavras, um sopro, semelhante a furacão medonho, engolphou-se pelo quarto, e apagou de golpe as duas luzes.
Fr. João recuou até ás cortinas do leito, e sentiu vergarem-lhe os joelhos, e fugir-lhe o animo. Estendendo a mão nas trevas machinalmente, encontrou uma das pistolas pousadas sobre o velador, e os dedos apertaram tambem machinalmente a coronha.
De repente um clarão sulcou a escuridade, enchendo o aposento de luz sulphurea, e no meio de chammas lividas, surgiu e cresceu uma forma gigantesca envolta nas dobras de sudario branco e fluctuante. Esta figura descommunal, cuja cabeça era uma caveira, lançava chispas pelas cavidades dos olhos, e acenava{105}com os longos ossos de esqueleto. O frade tremeu, e acudiram-lhe aos labios descorados as preces e os exorcismos recommendados pela igreja contra os maleficios infernaes. Mas as armas espirituaes não produziram effeito, e, apesar da perturbação momentanea, tornou a tomar corpo no seu espirito a ideia de que podia ser aquelle espectaculo uma visualidade, ensaiada para zombar da sua boa fé. Revestindo-se, pois, de valor e decisão, apontou rapidamente ao vulto, que tinha diante, a pistola, que não largara da mão, e disparou-a. Observando que o tiro não causára abalo no phantasma, pegou depois na outra pistola, e com pontaria mais segura desfechou o gatilho. Uma risada estridente respondeu ao estrondo da explosão, e o spectro, mostrando as duas balas, arremessou-as ao chão, aonde o padre mestre as ouviu rolar. Logo em seguida o clarão sumiu-se de subito, espessas trevas envolveram o quarto. Fr. João, quasi desmaiado, caiu em uma das cadeiras proximas do leito, tolhido por um tremor geral em todos os membros, e paralisado na falla e nos movimentos pelo mais profundo terror.
Ao mesmo tempo as hostilidades diabolicas não eram menos activas e violentas nas camaras dos outros hospedes. Romão Pires, apenas se deitára, e escondera a cabeça debaixo da roupa, com premeditação pouco em harmonia com os brios de suas falladas campanhas, sentio apagar-se-lhe a luz, e puxarem-lhe{106}pelos pés o magro e aprumado corpo até o estatelarem de pancada e sem dó nas taboas do sobrado. O grito de mêdo e de dor, que soltára estremunhado, teve em resposta um côro de risadas em falsete. Brizida de Souza acordou espavorida ao frio gelado de um verdadeiro regador de agua que lhe entornavam sobre a cabeça, e saltando por a casa em roupas menores, e com a boca escancarada, para bradar, era comida no ar por mãos pouco caridosas e nada leves, que de empurrão em empurrão a levaram aos tombos até ao corredor, aonde veiu encontrar em anagua o honrado escudeiro, tiritando de susto e com uma das mãos em cada face esbofeteada pelos duendes, com vigor que bem accusava uma força sobrenatural. D. Maria, encolhida e semi-morta de pavor, não padecera senão o terror de ouvir estalar ao pé do leito gargalhadas dissonantes, e arrastar ferros.
No quarto de D. Pedro, os trasgos haviam sido menos felizes, porque tinham chegado mais atrazados. Dotado de animo varonil e reflectido, sereno em presença do perigo, e pouco disposto a acreditar na intervenção dos poderes infernaes, o mancebo, resolvera velar a noute sem se despir, e com a espada nua ao lado, tinha-se entregado á leitura de um livro novo, que em breve lhe absorveu a attenção. Feriu-lhe de repente o ouvido a matinada das investidas no corredor e nos aposentos proximos. Apagando{107}a luz, e empunhando a espada, aguardou silencioso.