[4]Vida e Viagens de Fernão de Magalhãespor Diego de Barros Arana.[5]Navarrete publicou este processo a pag. 10 do tomoIVda suaColeccion.XFernão de Magalhães conseguira, emfim, restabelecer a ordem na sua esquadrilha; mas, se não receava novas sublevações que contrariassem o seu proposito, contrariava-o a invernia com todos os rigores de suas tormentas, que não o deixava avançar na viagem de exploração.A impaciencia principiava a apoderar-se do seu espirito, porque o tempo ia correndo sem resultado pratico que o animasse, tanto a elle como á sua gente.Chegou o fim de abril e os rigores do inverno pareciam ceder ás instancias da primavera risonha e boa.Tanto bastou para que Magalhães ordenasse um reconhecimento ao Sul da bahia de S. Julião, por onde julgava encontrar o almejado{68}estreito ou passagem para os mares da India.Encarregou João Serrão de ir, na caravellaSantiago, a mais pequena da esquadrilha, fazer esse reconhecimento, para o que deu ao ousado piloto as instrucções necessarias, recommendando-lhe que seguisse sempre para Sul e parallelo á costa, porque assim encontraria o estreito.Seguio João Serrão as instrucções de Magalhães, costeando cerca de vinte legoas, com tempo favoravel, e a 3 de maio encontrou-se na foz de um rio com mais de uma legoa de largura.Seria a entrada do procurado estreito?!É o que vamos vêr.Era e é o dia 3 de maio commemorado pela egreja, que celebra a festa da exaltação da Santa Cruz, e Serrão commemorando aquelle dia deu ao novo rio o nome de Santa Cruz, que ainda hoje tem.Abundava ali a pesca e os lobos marinhos e de tão grande tamanho como ainda não tinham sido vistos; dis Herrera que um d'aquelles animalejos despido da pelle, da cabeça e das gorduras, pesava desanove arrobas ou dosentos e oitenta e cinco kilos dos pesos actuaes.Fez Serrão um reconhecimento á costa, mas não encontrou signaes do estreito, pelo{69}que proseguio a viagem para Sul, continuando a seguir a costa. Um forte temporal, porem, surprehendeu os navegantes, a 22 de maio, transtornando-lhe o proseguimento da derrota.Os escriptores que se referem a este successo divergem emquanto a datas e a victimas do naufragio, Diego Arana, porém, segue a ordem chronologica dos factos e estabelece aquella data, assim como descreve o naufragio e as victimas.A tempestade foi tão violenta que rasgou todo o panno da caravella; a força do mar levou o leme e arrastou o navio á praia onde se fez em pedaços, mal dando tempo á tripulação se salvar, perecendo ainda assim afogado um preto escravo de Serrão.Depois das luctas com os homens principiavam as luctas com os elementos, para o que era impotente toda a energia de Magalhães.Dos homens triumphara elle até alli; da furia dos elementos era mais difficil e só uma vontade de ferro, disposta a vencer ou morrer, poderia alimentar a esperança de triumphar.Da caravellaSantiagoapenas restavam despojos que o mar ia trazendo á praia, onde os naufragos se encontravam á conta de Deus, sem guarida nem conforto algum que lhes alentasse{70}a vida! E comtudo grande distancia os separava dos companheiros, que esperavam o seu regresso, no porto de S. Julião.Os naufragos depois de terem caminhado umas seis legoas, para alcançarem as margens do rio Santa Cruz, seis legoas que levaram quatro dias a percorrer, tal era o cansaço e fraqueza em que estavam, e para mais carregados de madeira, destroços do navio naufragado, com que haviam de construir uma jangada para atravessar o rio, chegaram emfim ás margens do Santa Cruz, quasi mortos de fadiga e de fome, pois que para se alimentarem apenas tinham as ervas que encontravam pelo caminho e alguns mariscos.No rio Santa Cruz havia abundancia de peixe para se alimentarem, e construiram uma jangada com a madeira que traziam e assim, debaixo de grandes perigos atravessaram o rio dois marinheiros para irem participar o occorrido ao chefe da esquadrilha, que estava no porto de S. Julião.Segundo diz Diego Arana, onze dias gastaram os dois marinheiros para chegarem a S. Julião e tão penosa foi esta jornada, sem terem quasi que comer, que ao apresentarem-se a Magalhães, nem este nem os mais companheiros os reconheceram, tão desfigurados vinham.O tempo continuava tormentoso; as tempestades{71}succediam-se não permittindo qualquer tentativa de navegação. Entretanto Magalhães não lhe consentia o animo deixar sem prompto auxilio os pobres naufragos daSantiago, e assim ordenou que logo partissem por terra 24 homens carregados de comestiveis, em soccorro d'aquelles desgraçados, proporcionando-lhes os meios de virem reunir-se a seus companheiros.Não foi menos penosa a jornada d'estes 24 homens, sob os rigores do tempo e a selvageria dos caminhos. Para saciar a sêde tiveram que derreter gelo, pois não encontraram agua de beber, e apesar das difficuldades do caminho apressaram quanto poderam a marcha para mais breve soccorrerem os seus companheiros.Dois dias levaram a atravessar o rio na jangada que haviam armado, e mais refeitos pela alimentação que tomaram lá se pozeram todos em marcha a reunirem-se á esquadrilha, sem perda de um só.Este contratempo foi de bom aviso para Magalhães que reconheceu quanto era temerario o tentar proseguir em reconhecimentos da costa ou passar avante, emquanto não se acalmassem os rigores da estação.A fidelidade e energia de Serrão tornou-se notavel, e Magalhães não o desconheceu pois que nomeou o ousado piloto, capitão da{72}caravellaConceição, justo premio de quem tanto se tinha exposto e soffrido para bem cumprir as ordens do chefe.Emquanto, porém, a esquadrilha invernava no porto de S. Julião, Magalhães foi aproveitando o tempo em reparar as caravellas e para isso mandou fazer em terra uma casa para forjas onde os ferreiros exercessem o seu officio. O frio, porém, era tão intenso que os operarios mal podiam fazer uso das mãos, chegando alguns d'elles a perderem os dedos gangrenados pelo frio!Não podendo fazer reconhecimentos por mar, tentou Magalhães fazel-os por terra, e então mandou quatro homens armados para o interior a vêr se descobriam algumas povoações, onde se podesse fornecer de mantimentos; mas trabalho baldado porque a poucas legoas de caminho tiveram que retroceder por lhes faltar agua e comestiveis sem encontrarem viv'alma, o que lhes deu a convicção de que o paiz não era habitado.{73}XITinha decorrido mais de seis mezes que a esquadrilha estava no porto de S. Julião quando um dia appareceu na praia um homem de grande estatura, mal coberto com uma pelle de animal, cantando em desconcertada voz, pulando e lançando punhados de areia na cabeça, o que pareceu significar as suas intenções pacificas, porque, segundo diz o capitão Cook na suaVoyage dans l'hémisphère austral, os indios da ilha de Malicolo lançavam agua na cabeça em signal de paz.Extranha apparição esta que surprehendeu os navegantes já descoraçoados de encontrarem alma viva n'aquellas paragens.Os hespanhoes repetiram o mesmo signal que o selvagem fizera, de deitar areia na cabeça, para assim elle entender que estavam na mesma intenção.{74}De facto o selvagem acercou-se de um marinheiro que Magalhães mandou a terra e com elle veio á presença do chefe da esquadrilha.Pigafetta descrevendo este selvagem diz: «Era este homem tão alto que a sua cintura dava pela nossa cabeça. Bella estatura; rosto amplo e arroxeado, olheiras amarellas e como que marcando-lhe as faces duas manchas em fórma de coração. Os cabellos, muito curtos, pareciam embranquecidos com pós. Cobria o corpo, ainda que mal, com as pelles de um animal que abundava n'aquelle paiz. Este animal tem cabeça e orelhas de mula, corpo de camello, pernas de veado, cauda de cavallo e relincha como este.»Deve ser o guanaco.Parece que a surpreza fez augmentar aos olhos dos hespanhoes as proporções d'aquelle selvagem, pois que D'Orbigny na sua obraL'homme americainreferindo-se aos habitantes d'aquellas regiões diz: «Não podemos occultar que nos illudiu a apparencia d'estes homens. A largura das suas espaduas, cobertas desde a cabeça até os pés com capas de pelles de animaes selvagens, cosidas numa só peça, produziram em nós tal illusão, que primeiro de os medirmos nos pareceram de extraordinaria altura, emquanto que depois de bem observados e medidos directamente, ficaram reduzidos ás dimensões vulgares.»{75}Diz ainda Pigafetta: «Magalhães recebeu com muito agrado este selvagem. Ordenou que lhe dessem de comer e o levassem diante de um grande espelho, o que o surprehendeu extraordinariamente e encheu de admiração. O selvagem que não tinha a menor noção do que fosse um espelho, e que pela primeira vez via a sua propria figura, recuou cheio de espanto, deitando ao chão quatro homens que estavam atraz d'elle.»Aquelle primeiro selvagem foi mandado pôr em terra depois de Magalhães lhe ter dado alguns presentes, e elle tão contente se foi, que não tardou que outros se apresentassem com a mira nas mesmas dadivas.Eram todos da mesma corpolencia que o primeiro, e como aquelle tinham pés enormes, pelo que os navegantes os denominaram Patagões, nome porque ainda actualmente são designados os homens d'esta raça.A todos Magalhães mandou dar comida e presenteou com espelhinhos, missangas e outras bugiarias, com o que ficaram muito contentes. Um d'elles mais domestico demorou-se alguns dias a bordo daTrindade, sociando com os marinheiros, que lhe ensinaram algumas palavras castelhanas e o baptisaram com o nome de João.Este João comia os ratos que os marinheiros caçavam, e o fazia com muito gosto,{76}até que mostrando vontade de ir para terra o desembarcaram, sem que por muitos dias voltassem ás vistas dos navegantes outros selvagens.Eram tão extraordinarios os habitantes d'aquellas paragens, que Magalhães entendeu trazer dois d'elles ao rei de Castella, quando regressasse á Europa.Foi assim que a 28 de julho, voltando á praia quatro selvagens dos que já tinham estado a bordo, Magalhães os mandou buscar, retendo no navio dois d'elles e mandando para terra os outros.É curioso o que Pigafetta descreve a respeito da prisão d'estes dois patagões: «Foi preciso pôr-lhe grilhões aos pés, enganando-os, fazendo-lhes acreditar que os ferros eram presentes e lh'os punham nos pés para que os podessem levar para terra.»Não foi de bom aviso a detenção dos patagões a bordo, porque isto levou desconfiança aos que estavam em terra e que, mais numerosos, vieram juntar-se de noite, na praia onde accenderam fogueiras, coisa que até ali não fôra visto pelos navegantes.Este facto chamou a attenção de Magalhães, que na manhã seguinte mandou sete homens á descoberta para saber o que seria.Os exploradores, porém, encontraram a praia deserta e apenas vestigios das fogueiras,{77}assim como das pégadas dos indigenas impressas sobre a areia e na neve que cobria as extensas planicies. Os exploradores, apesar do seu limitado numero, não duvidaram de se enternarem em busca dos selvagens, mas passaram o dia n'esta diligencia sem encontrarem nenhum, resolvendo por fim retirarem-se ao approximar-se a noite.Foi n'essa occasião que os exploradores se viram acommettidos por um bando de patagões, completamente nús e armados de flechas e que, segundo parece, os andava seguindo a distancia, sem que até ali tivesse sido notado.Travou-se lucta desproporcionada, porque alem da desegualdade numerica, os exploradores apenas levavam um arcabuz, unica arma de fogo com que se encontravam, para fazer frente ao inimigo que os atacava.Diogo Barroza, soldado da guarnição daTrindade, caiu morto por uma flechada, e a lucta recresceu de intensidade e bravura. Os exploradores carregando sobre os selvagens com redobrado valor e luctando corpo a corpo, taes estragos lhes fizeram, que o inimigo recuou, fugiu e desappareceu para o interior deixando os exploradores senhores do campo.Só na manhã seguinte voltaram para bordo, depois de terem passado a noite á roda de uma fogueira para se aquecerem e na qual{78}assaram uma porção de carne, que os selvagens abandonaram na fuga, e que serviu aos exploradores de lauta ceia.Quando Fernão de Magalhães soube do occorrido, quiz vingar a morte do soldado daTrindadee mandou para terra vinte homens armados para bater os patagões; mas trabalho inutil foi este, porque os selvagens não appareceram por mais que os procurassem e os exploradores apenas poderam dar sepultura ao cadaver de Diogo Barroza, seu companheiro d'armas.{79}XIIA 24 de agosto largou a esquadrilha do porto de S. Julião, depois de quasi cinco mezes ali passados, com bem pouco resultado para os progressos da expedição.Durante esse tempo repararam-se os navios, não sem grandes difficuldades, como se sabe, e realisaram-se notaveis modificações nos commandos, em resultado da insurreição de Quezada e de Luiz de Mendonça.Alvaro de Mesquita commandava agora a caravellaSanto Antonioe João Serrão aConceição. Magalhães confiara o commando daVictoriaa seu cunhado Duarte Barbosa.Antes da partida todos da esquadrilha se prepararam espiritualmente com os soccorros da religião, confessando-se e commungando, como quem se dispunha para grande empreza, consoante o costume do tempo.{80}Entretanto deu-se a bordo uma scena tocante, que impressionou tristemente toda a companha e foi a despedida de João de Cartagena e do padre Pedro Sanches que tinham de ser abandonados em terra, conforme a sentença que a isso os condemnara.Era lastimoso o seu estado, com tudo o respeito que Magalhães soubera incutir á sua gente, fez com que ninguem se oppuzesse a semelhante barbaridade, e os condemnados lá ficaram á mercê, na praia, apenas com provisão de bolachas e vinho para alguns dias.Com que magua e, quem sabe arrependimento, viram os miseros levantar ferro os navios e largar as vellas ao vento até desaparecerem na distancia do extenso mar, indo-se-lhe n'elles a esperança de voltarem á patria, abandonados n'aquellas paragens até ali ignoradas para a navegação!E a frota de Magalhães foi singrando no mesmo rumo que Serrão já levara quando fôra explorar a costa d'aquelle mar.O tempo ia bonançoso, sem chuvas, nem vento rijo; mas já proximos do rio Santa Cruz principiou a desenvolver-se temporal e tão violento, que as caravellas estiveram a ponto de perder-se.Diz Barros que Deus e os Corpos dos Santos é que os salvaram, referindo-se á apparição dos fogos de Santelmo nos topes dos mastros.{81}Era crença dos marinheiros n'aquelles tempos, e por muitos annos o foi ainda, que quando appareciam aquelles fogos nos topes dos mastros—hoje conhecidos como resultantes da electricidade—era signal de estar passado o perigo.Aquelles temporaes detiveram a frota dois mezes no rio Santa Cruz, sem Magalhães poder proseguir na sua almejada descoberta.A 18 de outubro, porém, o tempo parecia ter abrandado mais duradouramente, e Magalhães resolveu ir ávante, mandando fazer rumo para S. O. sem se afastar da costa.Principiavam os navios, a entrar em mares até então desconhecidos, e o receio dos navegantes era cada vez maior. Vinha a memoria as historias phantasticas e horriveis que se contavam d'aquelles mares tenebrosos. A superstição invadia todos os espiritos e apavorava os mais ousados. Só havia ali um espirito forte que tinha que repartir-se por todos, incutindo-lhe animo e confiança: era o de Fernão de Magalhães, firme no seu proposito, crente na sua idéa. Com elle tinha que se impôr a todos os seus subordinados, fazendo-lhes saber, que haviam de ir até o fim, até encontrar a procurada passagem para o mar do Sul, ainda que tivessem de chegar a 75.° graus de latitude, ou os seus navios se afundassem no meio da porcella.{82}Não tardou que, de novo, a tempestade assaltasse as frageis caravellas, obrigando-as a estar á capa dois dias, mas abonançando ao terceiro, permittiu aos navegantes avançarem até 50.° de latitude, avistando a 21 de outubro, uma lingua de terra para S. O.Esta vista alegrou Magalhães, que mais se fortaleceu na sua idéa, prevendo que aquella lingua de terra devia de ser a embocadura do estreito ou passagem para o mar das Indias.Immediatamente tratou de mandar fazer um reconhecimento por Serrão e por Mesquita, que iam respectivamente nas caravellasConceiçãoeSantiago.Mal, porém, estes navios se tinham apartado da frota, quando pela noite sobreveio um forte temporal, que se estendeu por toda a costa, pondo em imminente perigo tanto as caravellas que tinham ido ao reconhecimento, como as que ficaram á espera de noticias.Parece que a Providencia se comprazia em contrariar tanta audacia e dar razão aos medrosos, que quasi tinham por louco o chefe da temeraria empreza.Foi uma noite e um dia de infinda tormenta. As caravellas que haviam ancorado, largaram as amarras e abandonaram-se á porcella; aConceiçãoe aSantiagocorreram ao vento sem governo, em perigo de a cada{83}momento vararem na costa. Diz Barros que os ventos dominantes, n'aquella quadra, eram do Sul, contrarios ao rumo dos navegantes. Tanto bastava para difficultar a viagem e augmentar os perigos em mares desconhecidos.Mas a mesma Providencia que assim experimentava os navegantes, tambem lhes accendeu a esperança no meio da tormenta, pois que as duas caravellas corridas do tempo, quando os navegantes se julgavam perdidos, devisaram estes uma aberturasinha ao longo da costa que lhes pareceu ser como que a entrada de alguma bahia.Manobrando com grande difficuldade, fizeram prôa para lá, e seguindo sempre avante transpozeram aquella entrada e encontraram-se n'uma bahia, e, como o tempo os não deixasse deter, foram correndo as caravellas até que entraram n'outra garganta de terra para além da qual se acharam em espaçosa bahia, como ainda não tinham encontrado.Ali serenou a tempestade, e os navegantes poderam reconhecer onde estavam, resolvendo Serrão e Mesquita voltarem a juntar-se a Magalhães a participar-lhe a boa nova.A abertura na costa, para que os navegantes aproaram as suas caravellas, foi, sem duvida, um raio de esperança que lhes sorriu{84}entre a porcella, e por isso a denominaram estreito de Nossa Senhora da Esperança. Á primeira bahia denominaram-n'a depois, de S. Gregorio, e ao segundo estreito, de S. Simão.{85}XIIIEmquanto Serrão e Mesquita, luctando com a furia dos elementos, conseguiam fazer o reconhecimento ordenado por Magalhães, o audacioso capitão mal se tinha podido haver com o resto da frota, que ficára á espera á entrada do cabo, a que Magalhães deu o nome de Cabo das Onze Mil Virgens, em memoria do dia em que o avistou ser dedicado pela egreja áquella festa.Pelo espirito de Magalhães mais de uma vez, n'aquellas longas horas, passou a funebre idéa de que Serrão e Mesquita teriam perecido e mais a sua gente, no meio de tão grande tormenta.O temporal continuava desabrido, e a gente de Magalhães mostrava-se cada vez mais apprehensiva, o que augmentava os receios do chefe pelo exito da empreza que{86}elle, com bem fundadas razões, via proximo a realisar.Para maior alarme, viram os navegantes elevarem-se rolos de fumo do lado da terra, o que fez suppor que eram fogueiras que os naufragos tivessem accendido para dar signal de onde estavam. Isto pareceu certo a Magalhães, que logo resolveu ir em soccorro dos naufragos, fosse qual fosse o perigo a que se ia expor e o resto da sua gente.«Quando estavamos, porém, n'esta anciedade, diz Pigaffeta, eis que apparecem duas embarcações, de panno largo e bandeiras desfraldadas ao vento, saltando por sobre as ondas e se dirigiam para nós. Ao approximarem-se dispararam tiros de bombarda, e a sua gente dava gritos de alegria, a que correspondemos do mesmo modo, e quando soubemos, por elles, que tinham visto a grande extensão da bahia ou do estreito, dispozemo-nos para continuar o nosso caminho.»Pelo que Serrão e Mesquita contou a Fernão de Magalhães, não restava duvida que se encontrára, emfim, a passagem procurada. Os exploradores haviam reconhecido golfos de mar entre alcantiladas rochas, diziam uns; outros julgavam ter achado o estreito, por onde haviam navegado tres dias sem lhe encontrar o fim, notando grandes correntes com pequenos minguantes, signal evidente{87}{88}{89}de que o estreito levava as suas aguas para o poente, ao oceano.Ilustração 1Tudo isto dava acerto ao juizo de Magalhães, o qual mandou dez homens em uma chalupa reconhecer a terra.Esses homens não encontraram gente, mas vestigios. Mais de duzentas sepulturas indicavam ter ali havido povoado; devia ser, porém, na estação do calor, em que os indios vem estabelecer-se á beira do mar, voltando para o interior na estação das chuvas, e era aquella em que os exploradores ali se encontravam. Mais viram muitos esqueletos e ossos soltos de baleias, espalhados pela praia, signal de grandes temporaes que ali arrojavam aquelles cetaceos.Herrera diz, que por ordem de Magalhães foi a caravellaSanto Antoniofazer novo reconhecimento no canal, mas sem resultado, porque tendo Mesquita avançado umas cincoenta leguas, não lhe achou o fim, pelo que resolveu voltar á frota a dar parte da sua viagem a Magalhães.Vinha talvez mais convencido de que o canal ou estreito só teria mais perigos para quem o quizesse devassar, do que levaria a bom termo de viagem. Magalhães, porém, não se desconcertou com o resultado do reconhecimento de Mesquita, e antes resolveu terminantemente seguir avante, convencido{90}de que passaria o estreito e encontraria, emfim, o mar da India ou do Sul.Não quiz, porém, levantar ferro, sem reunir naTrindade—navio almirante—o conselho dos capitães, para lhes communicar a sua resolução e saber ao certo dos mantimentos que havia, para que tempo chegariam.Reunido o conselho, os capitães declararam que havia comestiveis para tres mezes. Quanto á resolução que Magalhães lhes communicou todos se mostraram concordes, talvez mais por obediencia ao chefe, do que por convicção do bom exito do commettimento. Apenas o piloto Estevão Gomes, parente ainda de Magalhães, descordou dos seus companheiros, ponderando que corriam grande perigo em proseguirem, pois que os temporaes ou as calmarias que atrazassem a travessia, poderiam inutilisar tudo, perdendo os navios ou reduzindo todos á fome, de que morreriam. Magalhães combateu moderamente a opinião de Estevão Gomes, affirmando que o canal que encontraram era a passagem para o mar do Sul, e tinha a certeza do que dizia, porque, na thesouraria de Portugal vira uma carta de marear desenhada por Martim Behaim, em que estava traçada aquella passagem, de que não podia duvidar agora. O enthusiasmo de Magalhães{91}chegou a tal ponto que disse ao conselho: Ainda que para chegar ao fim tivesse que comer as pelles de vacca que forravam as antenas dos navios, não retrocederia sem cumprir o que havia tratado com Carlos V.Todos se submetteram á vontade do chefe, e no dia seguinte a frota soltou vellas e navegou pelo estreito fóra até á grande bahia de S. Bartholomeu, onde os navegantes depararam com um grupo de ilhas.A frota lançou ferro, e Magalhães mandou fazer um reconhecimento n'um canal ao sul, pelas caravellasConceiçãoeSanto Antonio.Ao sul ficava terra, a que Magalhães pôz o nome de Terra do Fogo, por ter observado, de noite, grandes fogueiras que lá ardiam. Aquellas terras ainda hoje conservam esse nome.Nada adiantou o reconhecimento que Magalhães mandou fazer, porque a caravellaConceiçãovoltou breve sem nada trazer de novo, e aSanto Antonio, debalde a esperaram, não a tornando mais a ver.Esta falta inquietou sobre modo a Magalhães, pelo receio de que se teria perdido o navio, e ainda empregou esforços para o procurar, mas tudo foi inutil, dando acerto ao parecer do piloto André de S. Martim, que disse a Magalhães que a caravella voltára{92}para Hespanha, como effectivamente voltou, tendo a companha sublevado-se contra Mesquita, ao qual prenderam, dando o commando do navio a Jeronymo Guerra, que ia a bordo como escrivão.{93}XIVPerdida a esperança de reunir á frota a caravellaSanto Antonio, continuou Magalhães a viagem pelo estreito descobrindo a sudueste o cabo, hoje denominado pelos inglezes cabo Froward, mas a que os hespanhoes chamaram de Santa Agueda. A latitude austral d'este cabo foi marcada pelos navegantes em 50° 40'. O capitão King marcou depois a latitude do mesmo cabo em 53° 43', pelo, que, como nota Diego Arana, é para admirar que, com os instrumentos bastante imperfeitos de que então dispunham os navegantes, podessem fixar com tão pequenas differenças a latitude dos logares em que se encontravam, em relação ao equinoxio.O estreito apresentava, principalmente{94}para o sul, grande quantidade de canaes e recifes, quasi impossivel de reconhecer, nas precarias condições em que os navegantes se encontravam, extenuados da longa viagem que traziam, abatidos pelas doenças e pelos trabalhos, desanimados, vivendo mais da esperança que animava o seu chefe que da propria convicção de chegarem a bom fim.Fernão de Magalhães conhecia perfeitamente este estado, e quanto tinha a recear de uma sublevação da sua gente se abertamente se negasse a acompanhal-o. O que acontecera com a caravellaSanto Antoniopodia estender-se ás outras e elle ser impotente para manter a disciplina. De quanta prudencia e tacto precisava para, quasi ao vêr coroados tantos trabalhos, não se frustrar a empreza!Quiz ainda mais uma vez consultar os capitães e pilotos da frota sobre o que se devia fazer, para, sabendo o que pensavam, lhe apresentar as razões que tinha para seguir ávante. Assim os poderia convencer melhor e desfazer os receios levantados no espirito da sua gente.Só é conhecida a resposta que o piloto daVictoria, André de S. Martin, deu a esta consulta, e essa não foi favoravel ao proseguimento da viagem. Este piloto, que era muito entendido em cosmographia, parece{95}que tinha seus aggravos de Magalhães, e, ou por este motivo, ou porque ia doente, e tanto que morreu depois na viagem, opinava pelo immediato regresso a Hespanha, visto que estava achado o estreito, e o proseguimento da viagem até encontrar o mar do Sul era muito arriscado, no estado em que os navios se achavam—e ainda peior a gente que os tripulava,—para resistir aos temporaes que podessem sobrevir, que decerto, atrazariam a viagem, correndo o risco de faltarem os mantimentos e todos morrerem á fome se escapassem das tormentas.Não obstante esta opinião, porventura muito sensata, Magalhães deu suas razões para continuar a viagem, e a frota seguiu avante, mau grado da maior parte da tripulação.A certa altura Magalhães mandou uma chalupa com gente explorar o estreito para o occidente. Não tinham ainda navegado muito, quando, approximando-se da Terra do Fogo, observaram que era cortada por grande numero de canaes, que separavam a terra formando pequenas ilhas. Seguindo por um d'esses canaes chegaram ao extremo de uma ponta de terra para além da qual se descobriu então aos olhos d'aquella gente um mar vastissimo, que devia ser, sem duvida, o mar do sul que procuravam.É facil calcular o alvoroto que aquella{96}descoberta produziu nos tripulantes da chalupa; voltaram presurosos a dar a nova a Magalhães, tendo gasto tres dias no reconhecimento.Pigafetta conta que todos choraram de alegria, e em verdade não era para menos tão feliz descoberta.Todos cobraram animo e a frota proseguindo na sua viagem chegou á tal ponta de terra, que os navegantes denominaram acertadamente Cabo Desejado.A caravellaVictoriaia na frente e, sahido o estreito, que Magalhães denominou de Todos os Santos, em razão do dia em que o tinha descoberto, destinguiu uma outra ponta de terra onde a costa se quebrava para norte e que donominaram Cabo Victoria, em honra do navio que primeiro o dobrava. Para além d'este cabo é que se estendia o grande mar do sul.{97}XVTransposto o estreito a que Magalhães chamou de Todos os Santos, como ficou dito, mas que um seculo depois era já conhecido por estreito de Magalhães[6]e entrada a frota no mar do Sul, estava ainda assim bem longe o termo da penosa viagem, pois que não lhe faltaram perigos e trabalhos que passar.{98}Não foram as tempestades que difficultaram a marcha, porque essas felizmente não assaltaram os navegantes n'aquelle mar, e tanto que estes lhe chamaram mar Pacifico, que ainda hoje conserva; mas a propria miseria em que se viam, faltos de saude e de alimentos, sem encontrarem comestiveis nem poderem fazer aguadas nas ilhas a que iam aportando, despovoadas e desprovidas das coisas necessarias á vida.D'esta miseria nos dá boa idéa Pigafetta quando descreve, como testemunha presencial, as necessidades e apuros em que se viram os navegantes:«Comiamos bolacha, diz Pigafetta, que estava feita em pó, cheio de gorgulhos, que lhe tinham absorvido a substancia alimentar, com um sabor acre detestavel da urina de ratos de que estava empregnado. A agua para beber era, por egual pôdre e amarga. Para não morrer de fome vimo-nos obrigados a roer o coiro que forrava a verga grande e que impedia que a madeira desgastasse os cabos; era, porém tão duro o coiro, exposto a agua, ao sol e aos ventos, que precisava estar de molho no mar quatro e cinco dias, para ficar um pouco mais macio, pondo-o depois ao lume, e assim o comiamos. Muitas vezes vimo-nos na necessidade de comermos serradura de madeira; e os ratos, tão repugnantes{99}ao homem, chegavam a ser o alimento mais apetitoso, pagando-se até por meio ducado cada um.»«Mas ainda não era tudo. Maior desgraça nos veio atacar, a de uma enfermidade que consistia em nos inchar as gengivas cobrindo completamente os dentes de ambas as mandibulas, a ponto de que os atacados d'aquella doença não podiam tomar nenhum alimento[7]. Além dos mortos, cahiram doentes vinte e cinco a trinta marinheiros, com dores nos braços, nas pernas e por outras partes do corpo, mas que emfim se curaram.«Pela minha parte não sei dar bastantes graças a Deus, por durante este tempo e entre tantos doentes não ter tido a menor doença.»Não bastavam, porém, tantas provações aos ousados navegadores, porque, quando pensavam encontrar os viveres e refrescos de que tanto careciam, vendo aproximarem-se de umas ilhas, em volta das quaes navegava grande quantidade de barquinhos tripulados, depararam com bandos de selvagens, que assaltando os navios, pretendiam roubar quanto podessem. Foi necessario repellil-os á viva força e disparar sobre os barcos tiros de artilheria. Só depois d'esta recepção{100}é que os navegantes poderam entrar com elles em commercio, trocando bagatellas que levavam por alguns poucos viveres.Depressa largou a frota d'aquellas ilhas e Magalhães as denominou ilhas dos Ladrões, com que ainda são conhecidas, chamando-se-lhe tambem ilhas Mariannas em razão das missões que n'ellas estabeleceu a rainha D. Maria Anna de Austria, mãe de Carlos II.D'estas missões trata largamente o padre Gobien na suaHistoire des Mariannes, impressa em Paris em 1701.{101}[6]Alguns escriptores tem dito que este nome foi posto pelo proprio Magalhães e ainda Buzeta e Bravo assim o dizem noDiccionario Geographico Historico de las Islas Filipinas, é, porém, fóra de duvida, que o estreito foi primeiro denominado de Todos os Santos, como vem na relação de Pigafetta e no Diario de Albo.Nas cartas geographicas e livros de geographia da segunda metade do seculoXVIjá o estreito vem indicado com o nome do seu descobridor, e apenas consta de um aucto lavrado por Pedro Sarmento de Gamboa, quando atravessou o estreito em perseguição do Corsario inglez Drack, elle denominou o estreito Mãe de Deus em razão dos grandes perigos que passou para o atravessar, e de que felizmente sahiu a salvo, pedindo a Filippe II de Castella que lhe conservasse aquelle nome em homenagem á Virgem que tão milagrosamente lhe acudira. Apesar d'isto Filippe II conservou ao estreito o nome do teu descobridor.[7]Esta doença é o escorbuto.XVIHavia mais de tres mezes que Magalhães tinha atravessado o estreito com a sua frota e não podera até ali reconhecer as ilhas que encontrara.Chegou o dia 16 de março de 1521, que era domingo de Lazaro, e com elle o descobrimento de um novo archipelago, que Magalhães denominou S. Lazaro, em razão do dia em que o descobrira.A primeira ilha d'este archipelago era a ilha Zamal, assim denominada pelos naturaes e que tambem se encontra nos mappas com o nome de Samar, e ainda noDiario de Albocom o nome de Suluan e Yunagan, como as primeiras ilhas reconhecidas pelos castelhanos.Foi n'este archipelago que Magalhães desembarcou com parte da sua gente, armando{102}duas tendas para os doentes, e descansando alguns dias em terra, da penosa e longa viagem que todos traziam.A ilha escolhida foi a Humunu a que os navegadores chamaram Aguada dos Bons Indios, por terem ali feito aguada e por seus habitantes serem doceis, quasi timoratos, pelo menos em presença dos visitantes. Com elles trocaram das bagatellas que levavam por viveres de que careciam.Boa gente eram os indigenas d'esta ilha onde os navegantes poderam descansar alguns dias; depois do que proseguiram viagem, avistando a 27 de março outras ilhas para O. e S. O. as quaes verificaram serem tambem habitadas.As novas ilhas denominavam-se Masavá ou Masaguá, Butuan e Calagan, comprehendidas no archipelago que Magalhães denominou de S. Lazaro e a que depois se chamaram Filippinas em homenagem ao filho de Carlos V[8].Não foi difficil aos navegantes entrarem em boas relações com os habitantes d'estas ilhas, os quaes vieram em barcos ao encontro{103}{104}{105}da frota e falaram com Magalhães por meio de um interprete, que os hespanhoes levavam e que falava o malayo.Um balangai das ilhas de S. Lazaro ou FilippinasUm balangai das ilhas de S. Lazaro ou FilippinasTão bem se entenderam, que o rei da ilha de Masavá veio a bordo fazer os seus comprimentos a Magalhães, trazendo-lhe presentes, que este não quiz acceitar, na primeira entrevista, para mostrar que não o movia a cobiça, e antes presenteou o rei com mercadorias que levava.O rei de Masavá mostrou-se muito reconhecido a Magalhães e tanto que, pedindo este para com elle trocar viveres por fazendas, o rei lhe mandou arroz e do mais que tinha recebendo tecidos de côres, que muito lhe agradaram.Na visita que o rei fez a bordo, Magalhães mostrou-lhe as armaduras d'aço dos seus soldados, que os tornava invulneraveis aos golpes ou aos tiros das armas de fogo; fez exposição das armas que levava, mandou disparar a artilheria, o que tudo causou espanto ao rei indigena.Isto deu motivo ao rei de Masavá para se considerar honrado com a amizade d'aquelles extrangeiros subditos de um rei christão poderoso, e por isso dispensou-lhe toda a boa hospitalidade de que dispunha, n'uma terra semi-selvagem.A convite do rei, foi a terra Pigaffeta e{106}outro companheiro para conhecerem do paiz em que estavam.Conta Pigaffeta que, quando desembarcou, o rei levantou as mãos ao ceu, e se virou para os visitantes que fizeram outro tanto.Era isto signal de boa paz e de que tinham os extrangeiros como enviados de Deus. Depois dirigiram-se para um alpendre feito de cannas, debaixo do qual estava umbalangai, embarcação de uns cincoenta pés de comprido, e se sentaram á poupa com o rei. Ali foi servida carne de porco e vinho e só Pigaffeta é que se atrevia a tocar na escodella do rei quando bebia. Os da comitiva do rei estavam de pé e armados de lanças e escudos.Apezar da falta de um interprete da lingua, intenderam-se por signaes e assim foi Pigaffeta tomando nota da significação de muitas palavras escrevendo-as no seu caderno, admirando-se todos muito de o verem escrever!Ao fim do dia tornaram a comer carne de porco guisada e arroz, servido em grandes pratos de porcellana, beberam mais vinho por escudellas e quando acabou esta refeição, foram para o palacio do rei, que era em forma de uma grande meda de feno, coberto de folhas de platano, e subiram para os{107}aposentos reaes por uma escada de mão.Meia hora depois de ali estarem foi servida nova refeição de peixe assado, gengibre e vinho. N'essa occasião viu Pigaffeta o filho mais velho do rei que veiu sentar-se ao seu lado.Esta refeição durou mais algum tempo, sendo servido mais peixe e arroz, e o companheiro de Pigaffeta bebeu tanto vinho que se embriagou.Foi um verdadeiro dia de festa depois de tantos mezes de privações.N'aquella noite Pigaffeta e o seu companheiro dormiram no palacio do rei ao lado do principe herdeiro, todos deitados em esteiras de cannas tendo por cabeceira almofadas de folhas d'arvores.Era o mais a que chegavam as commodidades da vida d'aquelle povo, apesar de no paiz abundar o ouro, que facilmente se encontrava misturado com a terra, em pedaços do tamanho de nozes e de ovos.No palacio do rei havia jarros e muitos outros objectos fabricados d'aquelle metal. O rei trazia brincos de ouro nas orelhas e os copos da sua espada tambem eram do precioso metal.No dia seguinte o rei convidou Pigaffeta e o seu companheiro para almoçarem, mas os dois retiraram para bordo, agradecendo{108}a boa hospitalidade, beijando n'essa occasião o rei as mãos dos visitantes ao que estes corresponderam beijando as mãos do rei.Assim entabolaram os navegantes relações com a gente da ilha de Masavá que tão bem os recebeu, que a frota ali se demorou até 4 de abril, em que de novo se fez ao mar no proseguimento da sua derrota.Durante o tempo, porem, que ali permaneceu passou o domingo de Paschoa e n'esse dia desembarcaram uns cincoenta homens meios armados com o respectivo commandante, e um padre para dizer missa em terra, n'um altar que se armou.Foi grande a admiração d'aquellas gentes quando isto viram e perguntados se não professavam nenhuma religião, responderam erguendo as mãos para o ceu, como que dando a entender que reconheciam um ente supremo a que chamavamAbba.Assistiram os reis á missa e, ao offertorio beijaram a cruz e adoraram a hostia consagrada, imitando tudo que viam fazer aos christãos.Quando terminou a ceremonia Magalhães apresentou uma cruz grande, diante da qual todos se ajoelharam incluindo os indios, e fez entender ao regulo que aquella cruz era o estandarte que o rei christão lhe havia confiado para implantar em toda a parte que{109}chegasse; que n'aquella terra a ia collocar no sitio mais elevado para que todo o mundo a visse e a todos desse signal de ali terem sido bem recebidos pelos naturaes, o que faria que outros que aportassem aquella ilha os tratassem bem. Que os seus habitantes deviam, todas as manhãs fazer adoração aquella cruz, por que ella era o symbolo da redempção.O rei prometteu a Magalhães fazer o que este lhe dizia e ordenar aos indios que assim o observassem.A docilidade d'aquella boa gente deixou captivados os navegantes e fortaleceu-lhes o animo para seguirem na sua empreza civilisadora, não concorrendo menos para augmentar a auctoridade moral de Magalhães sobre a sua gente.{110}{111}[8]Alguns escriptores, mesmo os hespanhoes tem confundido estas ilhas do archipelago de S. Lazaro com as ilhas dos Ladrões, que já citámos.A obra de MallotLes Philippines, publicada em Paris em 1846 não deixa duvidas a este respeito.XVIIÉ d'aqui em diante que se vai passar a tragedia mais horrivel, que enlutou a temeraria empreza de Magalhães.A 4 de abril de 1521 largou a frota do archipelago de S. Lazaro, depois denominado das Filippinas, como já ficou dito, e dirigiu o rumo para a ilha de Zebú, que o regulo de Masavá lhe indicara como um dos portos mais importantes e mais proximos, para entrar em commercio.Effectivamente, decorridos tres dias de viagem, avistaram uma ilha, e aproximando-se d'ella viram que era muito povoada de casas construidas sobre arvores collossaes.Era a ilha de Zebú.Magalhães entrou em commercio com o rei d'aquella ilha, não sem alguma difficuldade,{112}pois que o regulo queria que os hespanhoes lhe pagassem egual tributo ao que era imposto ás embarcações das ilhas visinhas que vinham áquelle porto.Custou a convencer o rei de que os hespanhoes não lhe pagariam tal tributo e, antes pelo contrario o exigiriam para si e lhe fariam guerra, se o rei presestisse n'essa imposição.Trocadas explicações de parte a parte, o rei de Zebú reconheceu a inconveniencia e entrou em boa amizade com Magalhães, annuindo a dar privilegio aos hespanhoes para estabelecerem commercio na ilha, unica exigencia que faziam e direito que se reservavam.Foram, porem, mais longe as boas relações que entabolaram com aquella gente. O rei de Zebú manifestou desejo de ser christão, depois de ouvir as façanhas praticadas por portuguezes e hespanhoes, animados da grande força moral que a religião do crucificado dava aos que observavam a sua lei.O baptismo do rei de Zebú celebrou-se com grande aparato, e não só este rei mas muitos outros regulos ou senhores d'aquella ilha, rainhas e boa parte da população receberam a agua do baptismo.Não se poderá affirmar que a convicção ou a fé os movesse a tão facilmente abraçarem{113}a religião de Jesus Christo, porque de certo o espirito d'aquella gente não poderia estar preparado para comprehender toda a sublimidade do christianismo; mas sim os attrahiu a curiosidade e ainda mais a idéa de que o baptismo lhes daria mais coragem e valor para vencerem seus inimigos nas guerras que traziam com os povos vizinhos.Sim, isto sobretudo é que os devia ter attrahido.Viam alli gente christã que os deslumbrava com o seu poder, que elles consideravam como sobrenatural, quando a artilharia disparava tiros retumbantes, e a mosquetaria fuzilava lume pelo ar; e sem poderem ainda apreciar a grande vantagem das armaduras, contra as quaes se embotariam as suas agudas settas, pois não haviam entrado em lucta, o fogo das armas lhes bastava para os maravilhar, apesar dos christãos só terem dado descargas de polvora secca.Dominados aquelles indigenas pelo prestigio dos christãos, foi relativamente facil a Magalhães obter d'elles quanto queria; e assim o rei de Zebú jurou solemnemente fidelidade a Carlos V, e com elle todos os senhores da ilha submissão ao imperador das Hespanhas.Não, obstante o reconhecimento da auctoridade de Carlos V e da submissão dos habitantes{114}da ilha de Zebú, o senhor ou rei de outra ilha proxima não approvou o procedimento dos seus vizinhos, e por isso, quando alli foram os hespanhoes, para entabolar relações, o rei negou-lhes obediencia.Isto deu logar a uma demonstração de força dos hespanhoes, que incendiaram uma aldeia da ilha, retirando-se depois nas chalupas.O regulo que não quizera reconhecer a auctoridade dos extrangeiros, chamava-se Silapulapú; mas outro regulo da mesma ilha, chamado Lula, mostrou-se mais docil, e tanto, que prometteu a Magalhães o mandar-lhe presentes em troca dos que d'elle recebera.Este Lula, consciente ou inconscientemente, foi a causa da desgraça do grande navegador. Elle incitou, por assim dizer, Magalhães a fazer a guerra a Silapulapú, e se o fez de boa fé, ou de plano concertado, para dar ruina aos christãos, é o que a historia não diz, mas se poderá inferir pelo modo como Lula procedeu.Na manhã de 26 de abril de 1521, enviou Lula um seu filho a Magalhães com duas cabras, dizendo-lhe que, se não mandava mais presentes, não era por sua culpa, mas porque Silapulapú a isso se havia opposto, persistindo em não reconhecer a auctoridade dos hespanhoes. Dizia mais o Lula{115}que, se Magalhães lhe mandasse alguns dos seus homens de guerra, elle promettia, com a sua gente, reduzir á obediencia o Silapulapú.Esta simples mensagem de Lula foi para Magalhães como que um repto á sua coragem e valentia.Não se diria nunca que Fernão de Magalhães hesitava um momento quando lhe reclamavam o esforço do seu braço, a bravura do seu animo. Elle, soldado ousado, que havia ferido guerras em Africa, e que ha tanto tempo conservava a espada na bainha, sem ter ensejo de retemperar o aço da sua lamina, rechassando o inimigo; elle, a quem a aventura attrahia e povoava a sua imaginação das mais seductoras façanhas, encontrava alfim novo ensejo para experimentar se o seu braço ainda era o mesmo e se a boa estrella, que tinha guiado sempre as suas armas, mais uma vez o conduziria á victoria.As circunstancias, porém, não se apresentavam muito favoraveis, e d'isso o quiz convencer João Serrão, homem experiente, que não se deixava fascinar pela gloria, mais que duvidosa, da temeridade d'aquelle feito.Era preciso attender a que a gente de Magalhães estava consideravelmente reduzida: uns, tinha-os a morte levado; outros, as doenças e trabalhos da viagem os haviam{116}impossibilitado. Os válidos eram poucos, e esses mesmos meio depauperados.Tudo isto ponderou Serrão a Magalhães. O rei de Zebú tambem se mostrou contrario á resolução do grande capitão, apesar de não poder calcular toda a força e valentia de que os christãos poderiam dispôr, na conta em que os tinha de homens extraordinarios, por assim dizer, sobrenaturaes. Entretanto sabia que o inimigo era assaz numeroso, e pelo sentimento nato de que, contra a força não ha resistencia, elle pensava, a despeito de todas as maravilhas creadas no seu espirito, quanto era arriscada e talvez fatal para os hespanhoes a lucta que ia travar-se.Magalhães não attendeu as razões nem os conselhos dos seus e do rei de Zebú. Costumado a mandar e a ser obedecido, tanto mais depois de ter subjugado os proprios elementos para chegar ao termo da sua empresa, nenhumas forças seriam capazes de o demover da resolução que tomára, de submetter pelas armas os habitantes da ilha de Mactan que se negavam a prestar obediencia.O numero dos seus soldados pouco lhe importava, como pouco lhe importava se o inimigo era assás numeroso. Estava elle com o seu braço e com a sua espada costumada á guerra contra infieis. Vencera em Africa{117}muitas vezes contra milhares de indigenas, e de que façanhas se poderia orgulhar se assim não fôra!A sua espada e a sua fé valiam por um exercito; sob o seu commando e ao seu lado cada soldado valia por mil. Eram assim as guerras d'aquelle tempo contra os povos d'alem mar, como o tinham sido na peninsula contra os mouros; a cruz levava de vencida o crescente por toda a parte; porque não havia de triumphar tambem alli?!Para quem com tanta firmeza e sacrificio tinha desvendado os mares procellosos, para dar a volta ao mundo, luctando tenazmente pela sua idéa, tantas vezes contrariada pelos elementos e pelos homens, que valia agora a resistencia de uns selvagens?Muito maiores obstaculos tinha elle destruido no seu caminho, sobrando-lhe sempre animo para proseguir avante, e não podia comprehender que homens como aquelles que o acompanhavam na temeraria empresa que se propôs, que com elle tinham compartilhado dos perigos para alli chegarem, se arreceassem agora de entrar em guerra com um bando de selvagens, e medissem primeiro cautelosamente as forças para se lançarem na lucta, quando nem sabiam ao certo o numero dos inimigos nem as armas de que elles dispunham.{118}O rei de Zebú era suspeito para informar da quantidade e qualidade do inimigo. Quem podia affirmar o contrario?O triumpho das armas christãs importaria a submissão completa e incondicional de todos aquelles povos, e o grande capitão não só teria coroado a sua empresa de encontrar o mar do sul, mas traria á Hespanha tributarios os povos d'aquellas regiões, fascinados e submettidos pelo prestigio das suas armas.Era de tentar a cartada! Quem lhe poderia resistir?!{119}
[4]Vida e Viagens de Fernão de Magalhãespor Diego de Barros Arana.[5]Navarrete publicou este processo a pag. 10 do tomoIVda suaColeccion.
[4]Vida e Viagens de Fernão de Magalhãespor Diego de Barros Arana.
[5]Navarrete publicou este processo a pag. 10 do tomoIVda suaColeccion.
Fernão de Magalhães conseguira, emfim, restabelecer a ordem na sua esquadrilha; mas, se não receava novas sublevações que contrariassem o seu proposito, contrariava-o a invernia com todos os rigores de suas tormentas, que não o deixava avançar na viagem de exploração.
A impaciencia principiava a apoderar-se do seu espirito, porque o tempo ia correndo sem resultado pratico que o animasse, tanto a elle como á sua gente.
Chegou o fim de abril e os rigores do inverno pareciam ceder ás instancias da primavera risonha e boa.
Tanto bastou para que Magalhães ordenasse um reconhecimento ao Sul da bahia de S. Julião, por onde julgava encontrar o almejado{68}estreito ou passagem para os mares da India.
Encarregou João Serrão de ir, na caravellaSantiago, a mais pequena da esquadrilha, fazer esse reconhecimento, para o que deu ao ousado piloto as instrucções necessarias, recommendando-lhe que seguisse sempre para Sul e parallelo á costa, porque assim encontraria o estreito.
Seguio João Serrão as instrucções de Magalhães, costeando cerca de vinte legoas, com tempo favoravel, e a 3 de maio encontrou-se na foz de um rio com mais de uma legoa de largura.
Seria a entrada do procurado estreito?!
É o que vamos vêr.
Era e é o dia 3 de maio commemorado pela egreja, que celebra a festa da exaltação da Santa Cruz, e Serrão commemorando aquelle dia deu ao novo rio o nome de Santa Cruz, que ainda hoje tem.
Abundava ali a pesca e os lobos marinhos e de tão grande tamanho como ainda não tinham sido vistos; dis Herrera que um d'aquelles animalejos despido da pelle, da cabeça e das gorduras, pesava desanove arrobas ou dosentos e oitenta e cinco kilos dos pesos actuaes.
Fez Serrão um reconhecimento á costa, mas não encontrou signaes do estreito, pelo{69}que proseguio a viagem para Sul, continuando a seguir a costa. Um forte temporal, porem, surprehendeu os navegantes, a 22 de maio, transtornando-lhe o proseguimento da derrota.
Os escriptores que se referem a este successo divergem emquanto a datas e a victimas do naufragio, Diego Arana, porém, segue a ordem chronologica dos factos e estabelece aquella data, assim como descreve o naufragio e as victimas.
A tempestade foi tão violenta que rasgou todo o panno da caravella; a força do mar levou o leme e arrastou o navio á praia onde se fez em pedaços, mal dando tempo á tripulação se salvar, perecendo ainda assim afogado um preto escravo de Serrão.
Depois das luctas com os homens principiavam as luctas com os elementos, para o que era impotente toda a energia de Magalhães.
Dos homens triumphara elle até alli; da furia dos elementos era mais difficil e só uma vontade de ferro, disposta a vencer ou morrer, poderia alimentar a esperança de triumphar.
Da caravellaSantiagoapenas restavam despojos que o mar ia trazendo á praia, onde os naufragos se encontravam á conta de Deus, sem guarida nem conforto algum que lhes alentasse{70}a vida! E comtudo grande distancia os separava dos companheiros, que esperavam o seu regresso, no porto de S. Julião.
Os naufragos depois de terem caminhado umas seis legoas, para alcançarem as margens do rio Santa Cruz, seis legoas que levaram quatro dias a percorrer, tal era o cansaço e fraqueza em que estavam, e para mais carregados de madeira, destroços do navio naufragado, com que haviam de construir uma jangada para atravessar o rio, chegaram emfim ás margens do Santa Cruz, quasi mortos de fadiga e de fome, pois que para se alimentarem apenas tinham as ervas que encontravam pelo caminho e alguns mariscos.
No rio Santa Cruz havia abundancia de peixe para se alimentarem, e construiram uma jangada com a madeira que traziam e assim, debaixo de grandes perigos atravessaram o rio dois marinheiros para irem participar o occorrido ao chefe da esquadrilha, que estava no porto de S. Julião.
Segundo diz Diego Arana, onze dias gastaram os dois marinheiros para chegarem a S. Julião e tão penosa foi esta jornada, sem terem quasi que comer, que ao apresentarem-se a Magalhães, nem este nem os mais companheiros os reconheceram, tão desfigurados vinham.
O tempo continuava tormentoso; as tempestades{71}succediam-se não permittindo qualquer tentativa de navegação. Entretanto Magalhães não lhe consentia o animo deixar sem prompto auxilio os pobres naufragos daSantiago, e assim ordenou que logo partissem por terra 24 homens carregados de comestiveis, em soccorro d'aquelles desgraçados, proporcionando-lhes os meios de virem reunir-se a seus companheiros.
Não foi menos penosa a jornada d'estes 24 homens, sob os rigores do tempo e a selvageria dos caminhos. Para saciar a sêde tiveram que derreter gelo, pois não encontraram agua de beber, e apesar das difficuldades do caminho apressaram quanto poderam a marcha para mais breve soccorrerem os seus companheiros.
Dois dias levaram a atravessar o rio na jangada que haviam armado, e mais refeitos pela alimentação que tomaram lá se pozeram todos em marcha a reunirem-se á esquadrilha, sem perda de um só.
Este contratempo foi de bom aviso para Magalhães que reconheceu quanto era temerario o tentar proseguir em reconhecimentos da costa ou passar avante, emquanto não se acalmassem os rigores da estação.
A fidelidade e energia de Serrão tornou-se notavel, e Magalhães não o desconheceu pois que nomeou o ousado piloto, capitão da{72}caravellaConceição, justo premio de quem tanto se tinha exposto e soffrido para bem cumprir as ordens do chefe.
Emquanto, porém, a esquadrilha invernava no porto de S. Julião, Magalhães foi aproveitando o tempo em reparar as caravellas e para isso mandou fazer em terra uma casa para forjas onde os ferreiros exercessem o seu officio. O frio, porém, era tão intenso que os operarios mal podiam fazer uso das mãos, chegando alguns d'elles a perderem os dedos gangrenados pelo frio!
Não podendo fazer reconhecimentos por mar, tentou Magalhães fazel-os por terra, e então mandou quatro homens armados para o interior a vêr se descobriam algumas povoações, onde se podesse fornecer de mantimentos; mas trabalho baldado porque a poucas legoas de caminho tiveram que retroceder por lhes faltar agua e comestiveis sem encontrarem viv'alma, o que lhes deu a convicção de que o paiz não era habitado.{73}
Tinha decorrido mais de seis mezes que a esquadrilha estava no porto de S. Julião quando um dia appareceu na praia um homem de grande estatura, mal coberto com uma pelle de animal, cantando em desconcertada voz, pulando e lançando punhados de areia na cabeça, o que pareceu significar as suas intenções pacificas, porque, segundo diz o capitão Cook na suaVoyage dans l'hémisphère austral, os indios da ilha de Malicolo lançavam agua na cabeça em signal de paz.
Extranha apparição esta que surprehendeu os navegantes já descoraçoados de encontrarem alma viva n'aquellas paragens.
Os hespanhoes repetiram o mesmo signal que o selvagem fizera, de deitar areia na cabeça, para assim elle entender que estavam na mesma intenção.{74}
De facto o selvagem acercou-se de um marinheiro que Magalhães mandou a terra e com elle veio á presença do chefe da esquadrilha.
Pigafetta descrevendo este selvagem diz: «Era este homem tão alto que a sua cintura dava pela nossa cabeça. Bella estatura; rosto amplo e arroxeado, olheiras amarellas e como que marcando-lhe as faces duas manchas em fórma de coração. Os cabellos, muito curtos, pareciam embranquecidos com pós. Cobria o corpo, ainda que mal, com as pelles de um animal que abundava n'aquelle paiz. Este animal tem cabeça e orelhas de mula, corpo de camello, pernas de veado, cauda de cavallo e relincha como este.»
Deve ser o guanaco.
Parece que a surpreza fez augmentar aos olhos dos hespanhoes as proporções d'aquelle selvagem, pois que D'Orbigny na sua obraL'homme americainreferindo-se aos habitantes d'aquellas regiões diz: «Não podemos occultar que nos illudiu a apparencia d'estes homens. A largura das suas espaduas, cobertas desde a cabeça até os pés com capas de pelles de animaes selvagens, cosidas numa só peça, produziram em nós tal illusão, que primeiro de os medirmos nos pareceram de extraordinaria altura, emquanto que depois de bem observados e medidos directamente, ficaram reduzidos ás dimensões vulgares.»{75}
Diz ainda Pigafetta: «Magalhães recebeu com muito agrado este selvagem. Ordenou que lhe dessem de comer e o levassem diante de um grande espelho, o que o surprehendeu extraordinariamente e encheu de admiração. O selvagem que não tinha a menor noção do que fosse um espelho, e que pela primeira vez via a sua propria figura, recuou cheio de espanto, deitando ao chão quatro homens que estavam atraz d'elle.»
Aquelle primeiro selvagem foi mandado pôr em terra depois de Magalhães lhe ter dado alguns presentes, e elle tão contente se foi, que não tardou que outros se apresentassem com a mira nas mesmas dadivas.
Eram todos da mesma corpolencia que o primeiro, e como aquelle tinham pés enormes, pelo que os navegantes os denominaram Patagões, nome porque ainda actualmente são designados os homens d'esta raça.
A todos Magalhães mandou dar comida e presenteou com espelhinhos, missangas e outras bugiarias, com o que ficaram muito contentes. Um d'elles mais domestico demorou-se alguns dias a bordo daTrindade, sociando com os marinheiros, que lhe ensinaram algumas palavras castelhanas e o baptisaram com o nome de João.
Este João comia os ratos que os marinheiros caçavam, e o fazia com muito gosto,{76}até que mostrando vontade de ir para terra o desembarcaram, sem que por muitos dias voltassem ás vistas dos navegantes outros selvagens.
Eram tão extraordinarios os habitantes d'aquellas paragens, que Magalhães entendeu trazer dois d'elles ao rei de Castella, quando regressasse á Europa.
Foi assim que a 28 de julho, voltando á praia quatro selvagens dos que já tinham estado a bordo, Magalhães os mandou buscar, retendo no navio dois d'elles e mandando para terra os outros.
É curioso o que Pigafetta descreve a respeito da prisão d'estes dois patagões: «Foi preciso pôr-lhe grilhões aos pés, enganando-os, fazendo-lhes acreditar que os ferros eram presentes e lh'os punham nos pés para que os podessem levar para terra.»
Não foi de bom aviso a detenção dos patagões a bordo, porque isto levou desconfiança aos que estavam em terra e que, mais numerosos, vieram juntar-se de noite, na praia onde accenderam fogueiras, coisa que até ali não fôra visto pelos navegantes.
Este facto chamou a attenção de Magalhães, que na manhã seguinte mandou sete homens á descoberta para saber o que seria.
Os exploradores, porém, encontraram a praia deserta e apenas vestigios das fogueiras,{77}assim como das pégadas dos indigenas impressas sobre a areia e na neve que cobria as extensas planicies. Os exploradores, apesar do seu limitado numero, não duvidaram de se enternarem em busca dos selvagens, mas passaram o dia n'esta diligencia sem encontrarem nenhum, resolvendo por fim retirarem-se ao approximar-se a noite.
Foi n'essa occasião que os exploradores se viram acommettidos por um bando de patagões, completamente nús e armados de flechas e que, segundo parece, os andava seguindo a distancia, sem que até ali tivesse sido notado.
Travou-se lucta desproporcionada, porque alem da desegualdade numerica, os exploradores apenas levavam um arcabuz, unica arma de fogo com que se encontravam, para fazer frente ao inimigo que os atacava.
Diogo Barroza, soldado da guarnição daTrindade, caiu morto por uma flechada, e a lucta recresceu de intensidade e bravura. Os exploradores carregando sobre os selvagens com redobrado valor e luctando corpo a corpo, taes estragos lhes fizeram, que o inimigo recuou, fugiu e desappareceu para o interior deixando os exploradores senhores do campo.
Só na manhã seguinte voltaram para bordo, depois de terem passado a noite á roda de uma fogueira para se aquecerem e na qual{78}assaram uma porção de carne, que os selvagens abandonaram na fuga, e que serviu aos exploradores de lauta ceia.
Quando Fernão de Magalhães soube do occorrido, quiz vingar a morte do soldado daTrindadee mandou para terra vinte homens armados para bater os patagões; mas trabalho inutil foi este, porque os selvagens não appareceram por mais que os procurassem e os exploradores apenas poderam dar sepultura ao cadaver de Diogo Barroza, seu companheiro d'armas.{79}
A 24 de agosto largou a esquadrilha do porto de S. Julião, depois de quasi cinco mezes ali passados, com bem pouco resultado para os progressos da expedição.
Durante esse tempo repararam-se os navios, não sem grandes difficuldades, como se sabe, e realisaram-se notaveis modificações nos commandos, em resultado da insurreição de Quezada e de Luiz de Mendonça.
Alvaro de Mesquita commandava agora a caravellaSanto Antonioe João Serrão aConceição. Magalhães confiara o commando daVictoriaa seu cunhado Duarte Barbosa.
Antes da partida todos da esquadrilha se prepararam espiritualmente com os soccorros da religião, confessando-se e commungando, como quem se dispunha para grande empreza, consoante o costume do tempo.{80}
Entretanto deu-se a bordo uma scena tocante, que impressionou tristemente toda a companha e foi a despedida de João de Cartagena e do padre Pedro Sanches que tinham de ser abandonados em terra, conforme a sentença que a isso os condemnara.
Era lastimoso o seu estado, com tudo o respeito que Magalhães soubera incutir á sua gente, fez com que ninguem se oppuzesse a semelhante barbaridade, e os condemnados lá ficaram á mercê, na praia, apenas com provisão de bolachas e vinho para alguns dias.
Com que magua e, quem sabe arrependimento, viram os miseros levantar ferro os navios e largar as vellas ao vento até desaparecerem na distancia do extenso mar, indo-se-lhe n'elles a esperança de voltarem á patria, abandonados n'aquellas paragens até ali ignoradas para a navegação!
E a frota de Magalhães foi singrando no mesmo rumo que Serrão já levara quando fôra explorar a costa d'aquelle mar.
O tempo ia bonançoso, sem chuvas, nem vento rijo; mas já proximos do rio Santa Cruz principiou a desenvolver-se temporal e tão violento, que as caravellas estiveram a ponto de perder-se.
Diz Barros que Deus e os Corpos dos Santos é que os salvaram, referindo-se á apparição dos fogos de Santelmo nos topes dos mastros.{81}
Era crença dos marinheiros n'aquelles tempos, e por muitos annos o foi ainda, que quando appareciam aquelles fogos nos topes dos mastros—hoje conhecidos como resultantes da electricidade—era signal de estar passado o perigo.
Aquelles temporaes detiveram a frota dois mezes no rio Santa Cruz, sem Magalhães poder proseguir na sua almejada descoberta.
A 18 de outubro, porém, o tempo parecia ter abrandado mais duradouramente, e Magalhães resolveu ir ávante, mandando fazer rumo para S. O. sem se afastar da costa.
Principiavam os navios, a entrar em mares até então desconhecidos, e o receio dos navegantes era cada vez maior. Vinha a memoria as historias phantasticas e horriveis que se contavam d'aquelles mares tenebrosos. A superstição invadia todos os espiritos e apavorava os mais ousados. Só havia ali um espirito forte que tinha que repartir-se por todos, incutindo-lhe animo e confiança: era o de Fernão de Magalhães, firme no seu proposito, crente na sua idéa. Com elle tinha que se impôr a todos os seus subordinados, fazendo-lhes saber, que haviam de ir até o fim, até encontrar a procurada passagem para o mar do Sul, ainda que tivessem de chegar a 75.° graus de latitude, ou os seus navios se afundassem no meio da porcella.{82}
Não tardou que, de novo, a tempestade assaltasse as frageis caravellas, obrigando-as a estar á capa dois dias, mas abonançando ao terceiro, permittiu aos navegantes avançarem até 50.° de latitude, avistando a 21 de outubro, uma lingua de terra para S. O.
Esta vista alegrou Magalhães, que mais se fortaleceu na sua idéa, prevendo que aquella lingua de terra devia de ser a embocadura do estreito ou passagem para o mar das Indias.
Immediatamente tratou de mandar fazer um reconhecimento por Serrão e por Mesquita, que iam respectivamente nas caravellasConceiçãoeSantiago.
Mal, porém, estes navios se tinham apartado da frota, quando pela noite sobreveio um forte temporal, que se estendeu por toda a costa, pondo em imminente perigo tanto as caravellas que tinham ido ao reconhecimento, como as que ficaram á espera de noticias.
Parece que a Providencia se comprazia em contrariar tanta audacia e dar razão aos medrosos, que quasi tinham por louco o chefe da temeraria empreza.
Foi uma noite e um dia de infinda tormenta. As caravellas que haviam ancorado, largaram as amarras e abandonaram-se á porcella; aConceiçãoe aSantiagocorreram ao vento sem governo, em perigo de a cada{83}momento vararem na costa. Diz Barros que os ventos dominantes, n'aquella quadra, eram do Sul, contrarios ao rumo dos navegantes. Tanto bastava para difficultar a viagem e augmentar os perigos em mares desconhecidos.
Mas a mesma Providencia que assim experimentava os navegantes, tambem lhes accendeu a esperança no meio da tormenta, pois que as duas caravellas corridas do tempo, quando os navegantes se julgavam perdidos, devisaram estes uma aberturasinha ao longo da costa que lhes pareceu ser como que a entrada de alguma bahia.
Manobrando com grande difficuldade, fizeram prôa para lá, e seguindo sempre avante transpozeram aquella entrada e encontraram-se n'uma bahia, e, como o tempo os não deixasse deter, foram correndo as caravellas até que entraram n'outra garganta de terra para além da qual se acharam em espaçosa bahia, como ainda não tinham encontrado.
Ali serenou a tempestade, e os navegantes poderam reconhecer onde estavam, resolvendo Serrão e Mesquita voltarem a juntar-se a Magalhães a participar-lhe a boa nova.
A abertura na costa, para que os navegantes aproaram as suas caravellas, foi, sem duvida, um raio de esperança que lhes sorriu{84}entre a porcella, e por isso a denominaram estreito de Nossa Senhora da Esperança. Á primeira bahia denominaram-n'a depois, de S. Gregorio, e ao segundo estreito, de S. Simão.{85}
Emquanto Serrão e Mesquita, luctando com a furia dos elementos, conseguiam fazer o reconhecimento ordenado por Magalhães, o audacioso capitão mal se tinha podido haver com o resto da frota, que ficára á espera á entrada do cabo, a que Magalhães deu o nome de Cabo das Onze Mil Virgens, em memoria do dia em que o avistou ser dedicado pela egreja áquella festa.
Pelo espirito de Magalhães mais de uma vez, n'aquellas longas horas, passou a funebre idéa de que Serrão e Mesquita teriam perecido e mais a sua gente, no meio de tão grande tormenta.
O temporal continuava desabrido, e a gente de Magalhães mostrava-se cada vez mais apprehensiva, o que augmentava os receios do chefe pelo exito da empreza que{86}elle, com bem fundadas razões, via proximo a realisar.
Para maior alarme, viram os navegantes elevarem-se rolos de fumo do lado da terra, o que fez suppor que eram fogueiras que os naufragos tivessem accendido para dar signal de onde estavam. Isto pareceu certo a Magalhães, que logo resolveu ir em soccorro dos naufragos, fosse qual fosse o perigo a que se ia expor e o resto da sua gente.
«Quando estavamos, porém, n'esta anciedade, diz Pigaffeta, eis que apparecem duas embarcações, de panno largo e bandeiras desfraldadas ao vento, saltando por sobre as ondas e se dirigiam para nós. Ao approximarem-se dispararam tiros de bombarda, e a sua gente dava gritos de alegria, a que correspondemos do mesmo modo, e quando soubemos, por elles, que tinham visto a grande extensão da bahia ou do estreito, dispozemo-nos para continuar o nosso caminho.»
Pelo que Serrão e Mesquita contou a Fernão de Magalhães, não restava duvida que se encontrára, emfim, a passagem procurada. Os exploradores haviam reconhecido golfos de mar entre alcantiladas rochas, diziam uns; outros julgavam ter achado o estreito, por onde haviam navegado tres dias sem lhe encontrar o fim, notando grandes correntes com pequenos minguantes, signal evidente{87}{88}{89}de que o estreito levava as suas aguas para o poente, ao oceano.
Ilustração 1
Tudo isto dava acerto ao juizo de Magalhães, o qual mandou dez homens em uma chalupa reconhecer a terra.
Esses homens não encontraram gente, mas vestigios. Mais de duzentas sepulturas indicavam ter ali havido povoado; devia ser, porém, na estação do calor, em que os indios vem estabelecer-se á beira do mar, voltando para o interior na estação das chuvas, e era aquella em que os exploradores ali se encontravam. Mais viram muitos esqueletos e ossos soltos de baleias, espalhados pela praia, signal de grandes temporaes que ali arrojavam aquelles cetaceos.
Herrera diz, que por ordem de Magalhães foi a caravellaSanto Antoniofazer novo reconhecimento no canal, mas sem resultado, porque tendo Mesquita avançado umas cincoenta leguas, não lhe achou o fim, pelo que resolveu voltar á frota a dar parte da sua viagem a Magalhães.
Vinha talvez mais convencido de que o canal ou estreito só teria mais perigos para quem o quizesse devassar, do que levaria a bom termo de viagem. Magalhães, porém, não se desconcertou com o resultado do reconhecimento de Mesquita, e antes resolveu terminantemente seguir avante, convencido{90}de que passaria o estreito e encontraria, emfim, o mar da India ou do Sul.
Não quiz, porém, levantar ferro, sem reunir naTrindade—navio almirante—o conselho dos capitães, para lhes communicar a sua resolução e saber ao certo dos mantimentos que havia, para que tempo chegariam.
Reunido o conselho, os capitães declararam que havia comestiveis para tres mezes. Quanto á resolução que Magalhães lhes communicou todos se mostraram concordes, talvez mais por obediencia ao chefe, do que por convicção do bom exito do commettimento. Apenas o piloto Estevão Gomes, parente ainda de Magalhães, descordou dos seus companheiros, ponderando que corriam grande perigo em proseguirem, pois que os temporaes ou as calmarias que atrazassem a travessia, poderiam inutilisar tudo, perdendo os navios ou reduzindo todos á fome, de que morreriam. Magalhães combateu moderamente a opinião de Estevão Gomes, affirmando que o canal que encontraram era a passagem para o mar do Sul, e tinha a certeza do que dizia, porque, na thesouraria de Portugal vira uma carta de marear desenhada por Martim Behaim, em que estava traçada aquella passagem, de que não podia duvidar agora. O enthusiasmo de Magalhães{91}chegou a tal ponto que disse ao conselho: Ainda que para chegar ao fim tivesse que comer as pelles de vacca que forravam as antenas dos navios, não retrocederia sem cumprir o que havia tratado com Carlos V.
Todos se submetteram á vontade do chefe, e no dia seguinte a frota soltou vellas e navegou pelo estreito fóra até á grande bahia de S. Bartholomeu, onde os navegantes depararam com um grupo de ilhas.
A frota lançou ferro, e Magalhães mandou fazer um reconhecimento n'um canal ao sul, pelas caravellasConceiçãoeSanto Antonio.
Ao sul ficava terra, a que Magalhães pôz o nome de Terra do Fogo, por ter observado, de noite, grandes fogueiras que lá ardiam. Aquellas terras ainda hoje conservam esse nome.
Nada adiantou o reconhecimento que Magalhães mandou fazer, porque a caravellaConceiçãovoltou breve sem nada trazer de novo, e aSanto Antonio, debalde a esperaram, não a tornando mais a ver.
Esta falta inquietou sobre modo a Magalhães, pelo receio de que se teria perdido o navio, e ainda empregou esforços para o procurar, mas tudo foi inutil, dando acerto ao parecer do piloto André de S. Martim, que disse a Magalhães que a caravella voltára{92}para Hespanha, como effectivamente voltou, tendo a companha sublevado-se contra Mesquita, ao qual prenderam, dando o commando do navio a Jeronymo Guerra, que ia a bordo como escrivão.{93}
Perdida a esperança de reunir á frota a caravellaSanto Antonio, continuou Magalhães a viagem pelo estreito descobrindo a sudueste o cabo, hoje denominado pelos inglezes cabo Froward, mas a que os hespanhoes chamaram de Santa Agueda. A latitude austral d'este cabo foi marcada pelos navegantes em 50° 40'. O capitão King marcou depois a latitude do mesmo cabo em 53° 43', pelo, que, como nota Diego Arana, é para admirar que, com os instrumentos bastante imperfeitos de que então dispunham os navegantes, podessem fixar com tão pequenas differenças a latitude dos logares em que se encontravam, em relação ao equinoxio.
O estreito apresentava, principalmente{94}para o sul, grande quantidade de canaes e recifes, quasi impossivel de reconhecer, nas precarias condições em que os navegantes se encontravam, extenuados da longa viagem que traziam, abatidos pelas doenças e pelos trabalhos, desanimados, vivendo mais da esperança que animava o seu chefe que da propria convicção de chegarem a bom fim.
Fernão de Magalhães conhecia perfeitamente este estado, e quanto tinha a recear de uma sublevação da sua gente se abertamente se negasse a acompanhal-o. O que acontecera com a caravellaSanto Antoniopodia estender-se ás outras e elle ser impotente para manter a disciplina. De quanta prudencia e tacto precisava para, quasi ao vêr coroados tantos trabalhos, não se frustrar a empreza!
Quiz ainda mais uma vez consultar os capitães e pilotos da frota sobre o que se devia fazer, para, sabendo o que pensavam, lhe apresentar as razões que tinha para seguir ávante. Assim os poderia convencer melhor e desfazer os receios levantados no espirito da sua gente.
Só é conhecida a resposta que o piloto daVictoria, André de S. Martin, deu a esta consulta, e essa não foi favoravel ao proseguimento da viagem. Este piloto, que era muito entendido em cosmographia, parece{95}que tinha seus aggravos de Magalhães, e, ou por este motivo, ou porque ia doente, e tanto que morreu depois na viagem, opinava pelo immediato regresso a Hespanha, visto que estava achado o estreito, e o proseguimento da viagem até encontrar o mar do Sul era muito arriscado, no estado em que os navios se achavam—e ainda peior a gente que os tripulava,—para resistir aos temporaes que podessem sobrevir, que decerto, atrazariam a viagem, correndo o risco de faltarem os mantimentos e todos morrerem á fome se escapassem das tormentas.
Não obstante esta opinião, porventura muito sensata, Magalhães deu suas razões para continuar a viagem, e a frota seguiu avante, mau grado da maior parte da tripulação.
A certa altura Magalhães mandou uma chalupa com gente explorar o estreito para o occidente. Não tinham ainda navegado muito, quando, approximando-se da Terra do Fogo, observaram que era cortada por grande numero de canaes, que separavam a terra formando pequenas ilhas. Seguindo por um d'esses canaes chegaram ao extremo de uma ponta de terra para além da qual se descobriu então aos olhos d'aquella gente um mar vastissimo, que devia ser, sem duvida, o mar do sul que procuravam.
É facil calcular o alvoroto que aquella{96}descoberta produziu nos tripulantes da chalupa; voltaram presurosos a dar a nova a Magalhães, tendo gasto tres dias no reconhecimento.
Pigafetta conta que todos choraram de alegria, e em verdade não era para menos tão feliz descoberta.
Todos cobraram animo e a frota proseguindo na sua viagem chegou á tal ponta de terra, que os navegantes denominaram acertadamente Cabo Desejado.
A caravellaVictoriaia na frente e, sahido o estreito, que Magalhães denominou de Todos os Santos, em razão do dia em que o tinha descoberto, destinguiu uma outra ponta de terra onde a costa se quebrava para norte e que donominaram Cabo Victoria, em honra do navio que primeiro o dobrava. Para além d'este cabo é que se estendia o grande mar do sul.{97}
Transposto o estreito a que Magalhães chamou de Todos os Santos, como ficou dito, mas que um seculo depois era já conhecido por estreito de Magalhães[6]e entrada a frota no mar do Sul, estava ainda assim bem longe o termo da penosa viagem, pois que não lhe faltaram perigos e trabalhos que passar.{98}
Não foram as tempestades que difficultaram a marcha, porque essas felizmente não assaltaram os navegantes n'aquelle mar, e tanto que estes lhe chamaram mar Pacifico, que ainda hoje conserva; mas a propria miseria em que se viam, faltos de saude e de alimentos, sem encontrarem comestiveis nem poderem fazer aguadas nas ilhas a que iam aportando, despovoadas e desprovidas das coisas necessarias á vida.
D'esta miseria nos dá boa idéa Pigafetta quando descreve, como testemunha presencial, as necessidades e apuros em que se viram os navegantes:
«Comiamos bolacha, diz Pigafetta, que estava feita em pó, cheio de gorgulhos, que lhe tinham absorvido a substancia alimentar, com um sabor acre detestavel da urina de ratos de que estava empregnado. A agua para beber era, por egual pôdre e amarga. Para não morrer de fome vimo-nos obrigados a roer o coiro que forrava a verga grande e que impedia que a madeira desgastasse os cabos; era, porém tão duro o coiro, exposto a agua, ao sol e aos ventos, que precisava estar de molho no mar quatro e cinco dias, para ficar um pouco mais macio, pondo-o depois ao lume, e assim o comiamos. Muitas vezes vimo-nos na necessidade de comermos serradura de madeira; e os ratos, tão repugnantes{99}ao homem, chegavam a ser o alimento mais apetitoso, pagando-se até por meio ducado cada um.»
«Mas ainda não era tudo. Maior desgraça nos veio atacar, a de uma enfermidade que consistia em nos inchar as gengivas cobrindo completamente os dentes de ambas as mandibulas, a ponto de que os atacados d'aquella doença não podiam tomar nenhum alimento[7]. Além dos mortos, cahiram doentes vinte e cinco a trinta marinheiros, com dores nos braços, nas pernas e por outras partes do corpo, mas que emfim se curaram.
«Pela minha parte não sei dar bastantes graças a Deus, por durante este tempo e entre tantos doentes não ter tido a menor doença.»
Não bastavam, porém, tantas provações aos ousados navegadores, porque, quando pensavam encontrar os viveres e refrescos de que tanto careciam, vendo aproximarem-se de umas ilhas, em volta das quaes navegava grande quantidade de barquinhos tripulados, depararam com bandos de selvagens, que assaltando os navios, pretendiam roubar quanto podessem. Foi necessario repellil-os á viva força e disparar sobre os barcos tiros de artilheria. Só depois d'esta recepção{100}é que os navegantes poderam entrar com elles em commercio, trocando bagatellas que levavam por alguns poucos viveres.
Depressa largou a frota d'aquellas ilhas e Magalhães as denominou ilhas dos Ladrões, com que ainda são conhecidas, chamando-se-lhe tambem ilhas Mariannas em razão das missões que n'ellas estabeleceu a rainha D. Maria Anna de Austria, mãe de Carlos II.
D'estas missões trata largamente o padre Gobien na suaHistoire des Mariannes, impressa em Paris em 1701.{101}
[6]Alguns escriptores tem dito que este nome foi posto pelo proprio Magalhães e ainda Buzeta e Bravo assim o dizem noDiccionario Geographico Historico de las Islas Filipinas, é, porém, fóra de duvida, que o estreito foi primeiro denominado de Todos os Santos, como vem na relação de Pigafetta e no Diario de Albo.Nas cartas geographicas e livros de geographia da segunda metade do seculoXVIjá o estreito vem indicado com o nome do seu descobridor, e apenas consta de um aucto lavrado por Pedro Sarmento de Gamboa, quando atravessou o estreito em perseguição do Corsario inglez Drack, elle denominou o estreito Mãe de Deus em razão dos grandes perigos que passou para o atravessar, e de que felizmente sahiu a salvo, pedindo a Filippe II de Castella que lhe conservasse aquelle nome em homenagem á Virgem que tão milagrosamente lhe acudira. Apesar d'isto Filippe II conservou ao estreito o nome do teu descobridor.[7]Esta doença é o escorbuto.
[6]Alguns escriptores tem dito que este nome foi posto pelo proprio Magalhães e ainda Buzeta e Bravo assim o dizem noDiccionario Geographico Historico de las Islas Filipinas, é, porém, fóra de duvida, que o estreito foi primeiro denominado de Todos os Santos, como vem na relação de Pigafetta e no Diario de Albo.
Nas cartas geographicas e livros de geographia da segunda metade do seculoXVIjá o estreito vem indicado com o nome do seu descobridor, e apenas consta de um aucto lavrado por Pedro Sarmento de Gamboa, quando atravessou o estreito em perseguição do Corsario inglez Drack, elle denominou o estreito Mãe de Deus em razão dos grandes perigos que passou para o atravessar, e de que felizmente sahiu a salvo, pedindo a Filippe II de Castella que lhe conservasse aquelle nome em homenagem á Virgem que tão milagrosamente lhe acudira. Apesar d'isto Filippe II conservou ao estreito o nome do teu descobridor.
[7]Esta doença é o escorbuto.
Havia mais de tres mezes que Magalhães tinha atravessado o estreito com a sua frota e não podera até ali reconhecer as ilhas que encontrara.
Chegou o dia 16 de março de 1521, que era domingo de Lazaro, e com elle o descobrimento de um novo archipelago, que Magalhães denominou S. Lazaro, em razão do dia em que o descobrira.
A primeira ilha d'este archipelago era a ilha Zamal, assim denominada pelos naturaes e que tambem se encontra nos mappas com o nome de Samar, e ainda noDiario de Albocom o nome de Suluan e Yunagan, como as primeiras ilhas reconhecidas pelos castelhanos.
Foi n'este archipelago que Magalhães desembarcou com parte da sua gente, armando{102}duas tendas para os doentes, e descansando alguns dias em terra, da penosa e longa viagem que todos traziam.
A ilha escolhida foi a Humunu a que os navegadores chamaram Aguada dos Bons Indios, por terem ali feito aguada e por seus habitantes serem doceis, quasi timoratos, pelo menos em presença dos visitantes. Com elles trocaram das bagatellas que levavam por viveres de que careciam.
Boa gente eram os indigenas d'esta ilha onde os navegantes poderam descansar alguns dias; depois do que proseguiram viagem, avistando a 27 de março outras ilhas para O. e S. O. as quaes verificaram serem tambem habitadas.
As novas ilhas denominavam-se Masavá ou Masaguá, Butuan e Calagan, comprehendidas no archipelago que Magalhães denominou de S. Lazaro e a que depois se chamaram Filippinas em homenagem ao filho de Carlos V[8].
Não foi difficil aos navegantes entrarem em boas relações com os habitantes d'estas ilhas, os quaes vieram em barcos ao encontro{103}{104}{105}da frota e falaram com Magalhães por meio de um interprete, que os hespanhoes levavam e que falava o malayo.
Um balangai das ilhas de S. Lazaro ou FilippinasUm balangai das ilhas de S. Lazaro ou Filippinas
Tão bem se entenderam, que o rei da ilha de Masavá veio a bordo fazer os seus comprimentos a Magalhães, trazendo-lhe presentes, que este não quiz acceitar, na primeira entrevista, para mostrar que não o movia a cobiça, e antes presenteou o rei com mercadorias que levava.
O rei de Masavá mostrou-se muito reconhecido a Magalhães e tanto que, pedindo este para com elle trocar viveres por fazendas, o rei lhe mandou arroz e do mais que tinha recebendo tecidos de côres, que muito lhe agradaram.
Na visita que o rei fez a bordo, Magalhães mostrou-lhe as armaduras d'aço dos seus soldados, que os tornava invulneraveis aos golpes ou aos tiros das armas de fogo; fez exposição das armas que levava, mandou disparar a artilheria, o que tudo causou espanto ao rei indigena.
Isto deu motivo ao rei de Masavá para se considerar honrado com a amizade d'aquelles extrangeiros subditos de um rei christão poderoso, e por isso dispensou-lhe toda a boa hospitalidade de que dispunha, n'uma terra semi-selvagem.
A convite do rei, foi a terra Pigaffeta e{106}outro companheiro para conhecerem do paiz em que estavam.
Conta Pigaffeta que, quando desembarcou, o rei levantou as mãos ao ceu, e se virou para os visitantes que fizeram outro tanto.
Era isto signal de boa paz e de que tinham os extrangeiros como enviados de Deus. Depois dirigiram-se para um alpendre feito de cannas, debaixo do qual estava umbalangai, embarcação de uns cincoenta pés de comprido, e se sentaram á poupa com o rei. Ali foi servida carne de porco e vinho e só Pigaffeta é que se atrevia a tocar na escodella do rei quando bebia. Os da comitiva do rei estavam de pé e armados de lanças e escudos.
Apezar da falta de um interprete da lingua, intenderam-se por signaes e assim foi Pigaffeta tomando nota da significação de muitas palavras escrevendo-as no seu caderno, admirando-se todos muito de o verem escrever!
Ao fim do dia tornaram a comer carne de porco guisada e arroz, servido em grandes pratos de porcellana, beberam mais vinho por escudellas e quando acabou esta refeição, foram para o palacio do rei, que era em forma de uma grande meda de feno, coberto de folhas de platano, e subiram para os{107}aposentos reaes por uma escada de mão.
Meia hora depois de ali estarem foi servida nova refeição de peixe assado, gengibre e vinho. N'essa occasião viu Pigaffeta o filho mais velho do rei que veiu sentar-se ao seu lado.
Esta refeição durou mais algum tempo, sendo servido mais peixe e arroz, e o companheiro de Pigaffeta bebeu tanto vinho que se embriagou.
Foi um verdadeiro dia de festa depois de tantos mezes de privações.
N'aquella noite Pigaffeta e o seu companheiro dormiram no palacio do rei ao lado do principe herdeiro, todos deitados em esteiras de cannas tendo por cabeceira almofadas de folhas d'arvores.
Era o mais a que chegavam as commodidades da vida d'aquelle povo, apesar de no paiz abundar o ouro, que facilmente se encontrava misturado com a terra, em pedaços do tamanho de nozes e de ovos.
No palacio do rei havia jarros e muitos outros objectos fabricados d'aquelle metal. O rei trazia brincos de ouro nas orelhas e os copos da sua espada tambem eram do precioso metal.
No dia seguinte o rei convidou Pigaffeta e o seu companheiro para almoçarem, mas os dois retiraram para bordo, agradecendo{108}a boa hospitalidade, beijando n'essa occasião o rei as mãos dos visitantes ao que estes corresponderam beijando as mãos do rei.
Assim entabolaram os navegantes relações com a gente da ilha de Masavá que tão bem os recebeu, que a frota ali se demorou até 4 de abril, em que de novo se fez ao mar no proseguimento da sua derrota.
Durante o tempo, porem, que ali permaneceu passou o domingo de Paschoa e n'esse dia desembarcaram uns cincoenta homens meios armados com o respectivo commandante, e um padre para dizer missa em terra, n'um altar que se armou.
Foi grande a admiração d'aquellas gentes quando isto viram e perguntados se não professavam nenhuma religião, responderam erguendo as mãos para o ceu, como que dando a entender que reconheciam um ente supremo a que chamavamAbba.
Assistiram os reis á missa e, ao offertorio beijaram a cruz e adoraram a hostia consagrada, imitando tudo que viam fazer aos christãos.
Quando terminou a ceremonia Magalhães apresentou uma cruz grande, diante da qual todos se ajoelharam incluindo os indios, e fez entender ao regulo que aquella cruz era o estandarte que o rei christão lhe havia confiado para implantar em toda a parte que{109}chegasse; que n'aquella terra a ia collocar no sitio mais elevado para que todo o mundo a visse e a todos desse signal de ali terem sido bem recebidos pelos naturaes, o que faria que outros que aportassem aquella ilha os tratassem bem. Que os seus habitantes deviam, todas as manhãs fazer adoração aquella cruz, por que ella era o symbolo da redempção.
O rei prometteu a Magalhães fazer o que este lhe dizia e ordenar aos indios que assim o observassem.
A docilidade d'aquella boa gente deixou captivados os navegantes e fortaleceu-lhes o animo para seguirem na sua empreza civilisadora, não concorrendo menos para augmentar a auctoridade moral de Magalhães sobre a sua gente.{110}{111}
[8]Alguns escriptores, mesmo os hespanhoes tem confundido estas ilhas do archipelago de S. Lazaro com as ilhas dos Ladrões, que já citámos.A obra de MallotLes Philippines, publicada em Paris em 1846 não deixa duvidas a este respeito.
[8]Alguns escriptores, mesmo os hespanhoes tem confundido estas ilhas do archipelago de S. Lazaro com as ilhas dos Ladrões, que já citámos.
A obra de MallotLes Philippines, publicada em Paris em 1846 não deixa duvidas a este respeito.
É d'aqui em diante que se vai passar a tragedia mais horrivel, que enlutou a temeraria empreza de Magalhães.
A 4 de abril de 1521 largou a frota do archipelago de S. Lazaro, depois denominado das Filippinas, como já ficou dito, e dirigiu o rumo para a ilha de Zebú, que o regulo de Masavá lhe indicara como um dos portos mais importantes e mais proximos, para entrar em commercio.
Effectivamente, decorridos tres dias de viagem, avistaram uma ilha, e aproximando-se d'ella viram que era muito povoada de casas construidas sobre arvores collossaes.
Era a ilha de Zebú.
Magalhães entrou em commercio com o rei d'aquella ilha, não sem alguma difficuldade,{112}pois que o regulo queria que os hespanhoes lhe pagassem egual tributo ao que era imposto ás embarcações das ilhas visinhas que vinham áquelle porto.
Custou a convencer o rei de que os hespanhoes não lhe pagariam tal tributo e, antes pelo contrario o exigiriam para si e lhe fariam guerra, se o rei presestisse n'essa imposição.
Trocadas explicações de parte a parte, o rei de Zebú reconheceu a inconveniencia e entrou em boa amizade com Magalhães, annuindo a dar privilegio aos hespanhoes para estabelecerem commercio na ilha, unica exigencia que faziam e direito que se reservavam.
Foram, porem, mais longe as boas relações que entabolaram com aquella gente. O rei de Zebú manifestou desejo de ser christão, depois de ouvir as façanhas praticadas por portuguezes e hespanhoes, animados da grande força moral que a religião do crucificado dava aos que observavam a sua lei.
O baptismo do rei de Zebú celebrou-se com grande aparato, e não só este rei mas muitos outros regulos ou senhores d'aquella ilha, rainhas e boa parte da população receberam a agua do baptismo.
Não se poderá affirmar que a convicção ou a fé os movesse a tão facilmente abraçarem{113}a religião de Jesus Christo, porque de certo o espirito d'aquella gente não poderia estar preparado para comprehender toda a sublimidade do christianismo; mas sim os attrahiu a curiosidade e ainda mais a idéa de que o baptismo lhes daria mais coragem e valor para vencerem seus inimigos nas guerras que traziam com os povos vizinhos.
Sim, isto sobretudo é que os devia ter attrahido.
Viam alli gente christã que os deslumbrava com o seu poder, que elles consideravam como sobrenatural, quando a artilharia disparava tiros retumbantes, e a mosquetaria fuzilava lume pelo ar; e sem poderem ainda apreciar a grande vantagem das armaduras, contra as quaes se embotariam as suas agudas settas, pois não haviam entrado em lucta, o fogo das armas lhes bastava para os maravilhar, apesar dos christãos só terem dado descargas de polvora secca.
Dominados aquelles indigenas pelo prestigio dos christãos, foi relativamente facil a Magalhães obter d'elles quanto queria; e assim o rei de Zebú jurou solemnemente fidelidade a Carlos V, e com elle todos os senhores da ilha submissão ao imperador das Hespanhas.
Não, obstante o reconhecimento da auctoridade de Carlos V e da submissão dos habitantes{114}da ilha de Zebú, o senhor ou rei de outra ilha proxima não approvou o procedimento dos seus vizinhos, e por isso, quando alli foram os hespanhoes, para entabolar relações, o rei negou-lhes obediencia.
Isto deu logar a uma demonstração de força dos hespanhoes, que incendiaram uma aldeia da ilha, retirando-se depois nas chalupas.
O regulo que não quizera reconhecer a auctoridade dos extrangeiros, chamava-se Silapulapú; mas outro regulo da mesma ilha, chamado Lula, mostrou-se mais docil, e tanto, que prometteu a Magalhães o mandar-lhe presentes em troca dos que d'elle recebera.
Este Lula, consciente ou inconscientemente, foi a causa da desgraça do grande navegador. Elle incitou, por assim dizer, Magalhães a fazer a guerra a Silapulapú, e se o fez de boa fé, ou de plano concertado, para dar ruina aos christãos, é o que a historia não diz, mas se poderá inferir pelo modo como Lula procedeu.
Na manhã de 26 de abril de 1521, enviou Lula um seu filho a Magalhães com duas cabras, dizendo-lhe que, se não mandava mais presentes, não era por sua culpa, mas porque Silapulapú a isso se havia opposto, persistindo em não reconhecer a auctoridade dos hespanhoes. Dizia mais o Lula{115}que, se Magalhães lhe mandasse alguns dos seus homens de guerra, elle promettia, com a sua gente, reduzir á obediencia o Silapulapú.
Esta simples mensagem de Lula foi para Magalhães como que um repto á sua coragem e valentia.
Não se diria nunca que Fernão de Magalhães hesitava um momento quando lhe reclamavam o esforço do seu braço, a bravura do seu animo. Elle, soldado ousado, que havia ferido guerras em Africa, e que ha tanto tempo conservava a espada na bainha, sem ter ensejo de retemperar o aço da sua lamina, rechassando o inimigo; elle, a quem a aventura attrahia e povoava a sua imaginação das mais seductoras façanhas, encontrava alfim novo ensejo para experimentar se o seu braço ainda era o mesmo e se a boa estrella, que tinha guiado sempre as suas armas, mais uma vez o conduziria á victoria.
As circunstancias, porém, não se apresentavam muito favoraveis, e d'isso o quiz convencer João Serrão, homem experiente, que não se deixava fascinar pela gloria, mais que duvidosa, da temeridade d'aquelle feito.
Era preciso attender a que a gente de Magalhães estava consideravelmente reduzida: uns, tinha-os a morte levado; outros, as doenças e trabalhos da viagem os haviam{116}impossibilitado. Os válidos eram poucos, e esses mesmos meio depauperados.
Tudo isto ponderou Serrão a Magalhães. O rei de Zebú tambem se mostrou contrario á resolução do grande capitão, apesar de não poder calcular toda a força e valentia de que os christãos poderiam dispôr, na conta em que os tinha de homens extraordinarios, por assim dizer, sobrenaturaes. Entretanto sabia que o inimigo era assaz numeroso, e pelo sentimento nato de que, contra a força não ha resistencia, elle pensava, a despeito de todas as maravilhas creadas no seu espirito, quanto era arriscada e talvez fatal para os hespanhoes a lucta que ia travar-se.
Magalhães não attendeu as razões nem os conselhos dos seus e do rei de Zebú. Costumado a mandar e a ser obedecido, tanto mais depois de ter subjugado os proprios elementos para chegar ao termo da sua empresa, nenhumas forças seriam capazes de o demover da resolução que tomára, de submetter pelas armas os habitantes da ilha de Mactan que se negavam a prestar obediencia.
O numero dos seus soldados pouco lhe importava, como pouco lhe importava se o inimigo era assás numeroso. Estava elle com o seu braço e com a sua espada costumada á guerra contra infieis. Vencera em Africa{117}muitas vezes contra milhares de indigenas, e de que façanhas se poderia orgulhar se assim não fôra!
A sua espada e a sua fé valiam por um exercito; sob o seu commando e ao seu lado cada soldado valia por mil. Eram assim as guerras d'aquelle tempo contra os povos d'alem mar, como o tinham sido na peninsula contra os mouros; a cruz levava de vencida o crescente por toda a parte; porque não havia de triumphar tambem alli?!
Para quem com tanta firmeza e sacrificio tinha desvendado os mares procellosos, para dar a volta ao mundo, luctando tenazmente pela sua idéa, tantas vezes contrariada pelos elementos e pelos homens, que valia agora a resistencia de uns selvagens?
Muito maiores obstaculos tinha elle destruido no seu caminho, sobrando-lhe sempre animo para proseguir avante, e não podia comprehender que homens como aquelles que o acompanhavam na temeraria empresa que se propôs, que com elle tinham compartilhado dos perigos para alli chegarem, se arreceassem agora de entrar em guerra com um bando de selvagens, e medissem primeiro cautelosamente as forças para se lançarem na lucta, quando nem sabiam ao certo o numero dos inimigos nem as armas de que elles dispunham.{118}
O rei de Zebú era suspeito para informar da quantidade e qualidade do inimigo. Quem podia affirmar o contrario?
O triumpho das armas christãs importaria a submissão completa e incondicional de todos aquelles povos, e o grande capitão não só teria coroado a sua empresa de encontrar o mar do sul, mas traria á Hespanha tributarios os povos d'aquellas regiões, fascinados e submettidos pelo prestigio das suas armas.
Era de tentar a cartada! Quem lhe poderia resistir?!{119}