—Não, Capitú; você não está brincando; nesta occasião, nenhum de nós tom vontade de brincar.
—Tem razão, foi só maluquice; até logo.
—Como até logo?
—Está-me voltando a dôr do cabeça; vou botar uma rodella de limão nas fontes.
Fez o que disse, e atou o lenço outra vez na testa. Em seguida, acompanhou-me ao quintal para se despedir de mim; mas, ainda ahi nos detivemos por alguns minutos, sentados sobre a borda do poço. Ventava, o ceu estava coberto. Capitú falou novamente da nossa separação, como de um facto certo e definitivo, por mais que eu, receioso disso mesmo, buscasse agora razões para animal-a. Capitú, quando não falava, riscava no chão, com um pedaço de taquara, narizes e perfis. Desde que se mettera a desenhar, era uma das suas diversões; tudo lhe servia de papel e lapis. Como me lembrassem os nossos nomes abertos por ella no muro, quiz fazer o mesmo no chão, e pedi-lhe a taquara. Não me ouviu ou não me attendeu.
—Dê cá, deixe escrever uma cousa.
Capitú olhou para mim, mas de um modo que me fez lembrar a definição de José Dias, obliquo e dissimulado; levantou o olhar, sem levantar os olhos. A voz, um tanto sumida, perguntou-me:
—Diga-me uma cousa, mas fale verdade, não quero disfarce; ha de responder com o coração na mão.
—Que é? Diga.
—Se você tivesse de escolher entre mim e sua mãe, a quem é que escolhia?
—Eu?
Fez-me signal que sim.
—Eu escolhia... mas para que escolher? Mamãe não é capaz de me perguntar isso.
—Pois, sim, mas eu pergunto. Supponha você que está no seminario e recebe a noticia de que eu vou morrer...
—Não diga isso!
—... Ou que me mato de saudades, se você não vier logo, e sua mãe não quizer que você venha, diga-me, você vem?
—Venho.
—Contra a ordem de sua mãe?
—Contra a ordem de mamãe.
—Você deixa seminario, deixa sua mãe, deixa tudo, para me ver morrer?
—Não fale em morrer, Capitú!
Capitú teve um risinho descorado e incredulo, e com a taquara escreveu uma palavra no chão; inclinei-me e li:mentiroso.
Era tão extranho tudo aquillo, que não achei resposta. Não atinava com a razão do escripto, como não atinava com a do falado. Se me acudisse alli uma injuria grande ou pequena, é possivel que a escrevesse tambem, com a mesma taquara, mas não me lembrava nada. Tinha a cabeça vazia. Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que alguem nos pudesse ouvir ou ler. Quem, se eramos sós? D. Fortunata chegara uma vez á porta da casa, mas entrou logo depois. A solidão era completa. Lembra-me que umas andorinhas passaram por cima do quintal e foram para os lados do morro de Santa Theresa; ninguem mais. Ao longe, vozes vagas e confusas, na rua um tropel de bestas, do lado da casa o chilrear dos passarinhos do Padua. Nada mais, ou sómente este phenomeno curioso, que o nome escripto por ella, não só me espiava do chão com gesto escarninho, mas até me pareceu que repercutia no ar. Tive então uma ideia ruim; disse-lhe que, afinal de contas, a vida de padre não era má, e eu podia acceital-a sem grande pena. Como desforço, era pueril; mas eu sentia a secreta esperança de vel-a atirar-se a mim lavada em lagrimas. Capitú limitou-se a arregalar muito os olhos, e acabou por dizer:
—Padre é bom, não ha duvida; melhor que padre só conego, por causa das meias roxas. O roxo é côr muito bonita. Pensando bem, é melhor conego.
—Mas não se póde ser conego sem ser primeiramente padre, disse-lhe eu mordendo os beiços.
—Bem; comece pelas meias pretas, depois virão as roxas. O que eu não quero perder é a sua missa nova; avise-me a tempo para fazer um vestido á moda, saia balão e babados grandes... Mas talvez nesse tempo a moda seja outra. A egreja ha de ser grande, Carmo ou S. Francisco.
—Ou Candelaria.
—Candelaria tambem. Qualquer sorve, comtanto que eu ouça a missa nova. Hei de fazer um figurão. Muita gente ha de perguntar: «Quem é aquella moça faceira que alli está com um vestido tão bonito?»--«Aquella é D. Capitolina, uma moça que morou na rua de Matacavallos...»
—Que morou? Você vae mudar-se?
—Quem sabe onde é que ha do morar amanhã? disse ella com um tom leve de melancolia; mas tornando logo ao sarcasmo: E você no altar, mettido na alva, com a capa de ouro por cima, cantando...Pater noster...
Ah! como eu sinto não ser um poeta romantico para dizer que isto era um duello de ironias! Contaria os meus botes e os della, a graça de um e a promptidão de outro, e o sangue correndo, e o furor na alma, até ao meu golpe final que foi este:
—Pois, sim, Capitú, você ouvirá a minha missa nova, mas com uma condição.
Ao que ella respondeu:
—Vossa Reverendíssima póde falar.
—Promette uma cousa?
—Que é?
—Diga se promette.
—Não sabendo o que é, não prometto.
—A falar verdade são duas cousas, continuei eu, por haver-me acudido outra ideia.
—Duas? Diga quaes são.
—A primeira é que só se ha de confessar commigo, para eu lhe dar a penitencia e a absolvição. A segunda é que...
—A primeira está promettida, disse ella vendo-me hesitar, e accrescentou que esperava a segunda.
Palavra que me custou, e antes não me chegasse a sair da boca; não ouviria o que ouvi, o não escreveria aqui uma cousa que vae talvez achar incredulos.
—A segunda... sim... é que... Promette-me que seja eu o padre que case você?
Que me case? disso ella um tanto commovida.
Logo depois fez descair os labios, e abanou a cabeça.
—Não, Bentinho, disse, seria esperar muito tempo; você não vae ser padre já amanhã, leva muitos annos... Olhe, prometto outra cousa; prometto que ha de baptisar o meu primeiro filho.
Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fóra este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes; tudo é possivel. Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma pagina, sem crer por isso na veracidade do autor. Todavia, não ha nada mais exacto. Foi assim mesmo que Capitú falou, com taes palavras e maneiras. Falou do primeiro filho, como se fosse a primeira boneca.
Quanto ao meu espanto, se tambem foi grande, veiu de mistura com uma sensação exquisita. Percorreu-me um fluido. Aquella ameaça de um primeiro filho, o primeiro filho de Capitú, o casamento della com outro, portanto, a separação absoluta, a perda, a anniquilação, tudo isso produzia um tal effeito, que não achei palavra nem gesto; fiquei estupido. Capitú sorria; eu via o primeiro filho brincando no chão...
As pazes fizeram-se como a guerra, depressa. Buscasse eu neste livro a minha gloria, e diria que as negociações partiram de mim; mas não, foi ella que as iniciou. Alguns instantes depois, como eu estivesse cabisbaixo, ella abaixou tambem a cabeça, mas voltando os olhos para cima afim de ver os meus. Fiz-me de rogado; depois quiz levantar-me para ir embora, mas nem me levantei, nem sei se iria. Capitú fitou-me uns olhos tao ternos, e a posição os fazia tão supplices, que me deixei ficar, passei-lhe o braço pela cintura, ella pegou-me na ponta dos dedos, e...
Outra vez D. Fortunata appareceu á porta da casa; não sei para quê, se nem me deixou tempo de puxar o braço; desappareceu logo. Podia ser um simples descargo de consciencia, uma cerimonia, como as rezas de obrigação, sem devoção, que se dizem de tropel; a não ser que fosse para certificar aos proprios olhos a realidade que o coração lhe dizia...
Fosse o que fosse, o meu braço continuou a apertar a cintura da filha, e foi assim que nos pacificámos. O bonito é que cada um de nós queria agora as culpas para si, e pediamos reciprocamente perdão. Capitú allegava a insomnia, a dôr de cabeça, o abatimento do espirito, e finalmente «os seus calundús.» Eu, que era muito chorão por esse tempo, sentia os olhos molhados... Era amor puro, era effeito dos padecimentos da amiguinha, era a ternura da reconciliação.
—Está bom, acabou, disso eu finalmente; mas, explique-me só uma cousa, porque é que você me perguntou se eu tinha medo de apanhar?
—Não foi por nada, respondeu Capitú, depois de alguma hesitação... Para que bolir nisso?
—Diga sempre. Foi por causa do seminario?
—Foi; ouvi dizer que lá dão pancada... Não? Eu tambem não creio.
A explicação agradou-me; não tinha outra. Se, como penso, Capitú não disse a verdade, força é reconhecer que não podia dizel-a, e a mentira é dessas creadas que se dão pressa em responder ás visitas que «a senhora saiu», quando a senhora não quer falar a ninguem. Ha nessa cumplicidade um gosto particular; o peccado em commum eguala por instantes a condição das pessoas, não contando o prazer que dá a cara das visitas enganadas, e as costas com que ellas descem... A verdade não saiu, ficou em casa, no coração de Capitú, cochilando o seu arrependimento. E eu não desci triste nem zangado; achei a creada galante, appetecivel, melhor que a ama.
As andorinhas vinham agora em sentido contrario, ou não seriam as mesmas. Nós é que eramos os mesmos; alli ficámos sommando as nossas illusões, os nossos temores, começando já a sommar as nossas saudades.
—Não! exclamei de repente.
—Não quê?
Tinha havido alguns minutos de silencio, durante os quaes reflecti muito e acabei por uma ideia; o tom da exclamação, porém, foi tão alto que espantou a minha visinha.
—Não ha de ser assim, continuei. Dizem que não estamos em edade de casar, que somos creanças, creançolas,—já ouvi dizer creançolas. Bem; mas dous ou tres annos passam depressa. Você jura uma cousa? Jura que só ha de casar commigo?
Capitú não hesitou em jurar, e até lhe vi as faces vermelhas de prazer. Jurou duas vezes e uma terceira:
—Ainda que você case com outra, cumprirei o meu juramento, não casando nunca.
—Que eu case com outra?
—Tudo póde ser, Bentinho. Você póde achar outra moça que lhe queira, apaixonar-se por ella e casar. Quem sou eu para você lembrar-se de mim nessa occasião?
—Mas eu tambem juro! Juro, Capitú, juro por Deus Nosso Senhor que só me casarei com você. Basta isto?
—Devia bastar, disse ella; eu não me atrevo a pedir mais. Sim, você jura... Mas juremos por outro modo; juremos que nos havemos de casar um com outro, haja o que houver.
Comprehendeis a differença; era mais que a eleição do conjuge, era a affirmação do matrimonio. A cabeça da minha amiga sabia pensar claro e depressa. Realmente, a formula anterior era limitada, apenas exclusiva. Podiamos acabar solteirões, como o sol e a lua, sem mentir ao juramento do poço. Esta formula era melhor, e tinha a vantagem de me fortalecer o coração contra a investidura ecclesiastica. Jurámos pela segunda formula, e ficámos tão felizes que todo receio de perigo desappareceu. Eramos religiosos, tínhamos o ceu por testemunha. Eu nem já temia o seminario.
—Se teimarem muito, irei; mas faço de conta que é um collegio qualquer; não tomo ordens.
Capitú temia a nossa separação, mas acabou acceitando este alvitre, que era o melhor. Não affligiamos minha mãe, e o tempo correria até o ponto em que o casamento pudesse fazer-se. Ao contrario, qualquer resistencia ao seminario confirmaria a denuncia de José Dias. Esta reflexão não foi minha, mas della.
Eis aqui como, após tantas canceiras, tocavamos o porto a que nos deviamos ter abrigado logo. Não nos censures, piloto de má sorte, não se navegam corações como os outros mares deste mundo. Estavamos contentes, entramos a falar do futuro. Eu promettia a minha esposa uma vida socegada e bella, na roça ou fóra da cidade. Viriamos aqui uma vez por anno. Se fosse em arrabalde, seria longe, onde ninguem nos fosse aborrecer. A casa, na minha opinião, não devia ser grande nem pequena, um meio termo; plantei-lhe flôres, escolhi moveis, uma sege e um oratorio. Sim, haviamos de ter um oratorio bonito, alto, de jacarandá, com a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Demorei-me mais nisto que no resto, em parte porque eramos religiosos, em parte para compensar a batina que eu ia deitar as ortigas: mas ainda restava uma parte que attribuo ao intuito secreto e inconsciente de captara protecção do ceu. Haviamos de accender uma vela aos sabbabos...
Mezes depois fui para o seminario de S. José. Se eu pudesse contar as lagrimas que chorei na vespera e na manhã, sommaria mais que todas as vertidas desde Adão e Eva. Ha nisto alguma exageração; mas é bom ser emphatico, uma ou outra vez, para compensar este escrupulo de exactidão que me afflige. Entretanto, se eu me ativer só á lembrança da sensação, não fico longe da verdade; aos quinze annos, tudo é infinito. Realmente, por mais preparado que estivesse, padeci muito. Minha mãe tambem padeceu, mas soffria com alma e coração; demais, o padre Cabral achára um meio termo, experimentar-me a vocação; se no fim de dous annos, eu não revelasse vocação ecclesiastica, seguiria outra carreira.
—As promessas devem ser cumpridas conforme Deus quer. Supponha que Nosso Senhor nega disposição a seu filho, e que o costume do seminario não lhe dá o gosto que me concedeu a mim, é que a vontade divina é outra. A senhora não podia pôr em seu filho, antes de nascido, uma vocação que Nosso Senhor lhe recusou...
Era uma concessão do padre. Dava a minha mãe um perdão antecipado, fazendo vir do credor a relevação da divida. Os olhos della brilharam, mas a bocca disse que não. José Dias, não tendo alcançado ir commigo para a Europa, agarrou-se ao mais proximo, e apoiou o «alvitre do Sr. protonotario»; só lhe parecia que um anno era bastante.
—Estou certo, disse elle, piscando-me o olho, que dentro de um anno a vocação ecclesiastica do nosso Bentinho se manifesta clara e decisiva. Ha de dar um padre de mão cheia. Tambem se não vier em um anno...
E a mim, mais tarde, em particular:
—Vá por um anno; um anno passa depressa. Se não sentir gosto nenhum, é que Deus não quer, como diz o padre, e nesse caso, meu amiguinho, o melhor remedio é a Europa.
Capitú deu-me egual conselho, quando minha mãe lhe annunciou a minha ida definitiva para o seminario:
—Minha filha, você vae perder o seu companheiro de creança...
Fez-lhe tão bem este tratamento defilha(era a primeira vez que minha mãe lh'o dava), que nem teve tempo de ficar triste; beijou-lhe a mão, e disse-lhe que já sabia disso por mim mesmo. Em particular animou-me a supportar tudo com paciencia; no fim de um anno as cousas estariam mudadas, e um anno andava depressa. Não foi ainda a nossa despedida; esta fez-se na vespera, por um modo que pede capitulo especial. O que unicamente digo aqui é que, ao passo que nos prendiamos um ao outro, ella ia prendendo minha mãe, fez-se mais assidua e terna, vivia ao pé della, com os olhos nella. Minha mãe era de natural sympathico, e egualmente sensivel; tanto se doía como se aprazia de qualquer cousa. Entrou a achar em Capitú uma porção de graças novas, de dotes finos e raros; deu-lhe um anel dos seus e algumas galanterias. Não consentiu em photographar-se, como a pequena lhe pedia, para lhe dar um retrato; mas tinha uma miniatura, feita aos vinte e cinco annos, e, depois de algumas hesitações, resolveu dar-lh'a. Os olhos de Capitú, quando recebeu o mimo, não se descrevem; não eram obliquos, nem de ressaca, eram direitos, claros, lucidos. Beijou o retrato com paixão, minha mãe fez-lhe a mesma cousa a ella. Tudo isto me lembra a nossa despedida.
Entre luz e fusco, tudo ha de ser breve como esse instante. Nem durou muito a nossa despedida, foi o mais que pôde, em casa della, na sala de visitas, antes do accender das velas; ahi é que nos despedimos de uma vez. Jurámos novamente que haviamos de casar um com outro, e não foi só o aperto de mão que sellou o contracto, como no quintal, foi a conjuncção das nossas boccas amorosas... Talvez risque isto na impressão, se até lá não pensar de outra maneira; se pensar, fica. E desde já fica, porque, em verdade, é a nossa defesa. O que o mandamento divino quer é que não juremosem vãopelo santo nome de Deus. Eu não ia mentir ao seminario, uma vez que levava um contracto feito no proprio cartorio do ceu. Quanto ao sello, Deus, como fez os mãos limpas, assim fez os labios limpos, e a malicia está antes na tua cabeça perversa que na daquelle casal de adolescentes... Oh! minha doce companheira da meninice, eu era puro, e puro fiquei, e puro entrei na aula de S. José, a buscar de apparencia a investidura sacerdotal, e antes della a vocação. Mas a vocação eras tu, a investidura eras tu.
Ja agora conto tambem os adeuses do velho Padua. Logo cedo veiu á nossa casa. Minha mãe disse-lhe que fosse falar-me ao quarto.
—Dá licença? perguntou mettendo a cabeça pela porta.
Fui apertar-lhe a mão; elle abraçou-me com ternura.
—Seja feliz! disse-me. A mim e a toda a minha gente creia que ficam muitas saudades. Todos nós estimamos muito o senhor, como merece. Se lhe disserem outra cousa, não acredite. São intrigas. Tambem eu, quando me casei, fui victima de intrigas; desfizeram-se. Deus é grande e descobre a verdade. Se algum dia perder sua mãe e seu tio,—cousa que eu, por esta luz que me allumia, não desejo, porque são boas pessoas, excedentes pessoas, e eu sou grato ás finezas recebidas... Não, eu não sou como outros, certos parasitas, vindos de fóra para desunião das familias, aduladores baixos, não; eu sou de outra especie; não vivo papando os jantares nem morando em casa alheia... Emfim, são os mais felizes!
—Porque falará assim? pensei. Naturalmente sabe que José Dias diz mal delle.
—Mas, como ia dizendo, se algum dia perder os seus parentes, póde contar com a nossa companhia. Não é sufficiente em importancia, mas a affeição é immensa, creia. Padre que seja, a nossa casa está ás suas ordens. Quero só que me não esqueça; não esqueça o velho Padua...
Suspirou e continuou:
—Não esqueça o seu velho Padua, e, se tem algum trapinho que me deixe em lembrança, um caderno latino, qualquer cousa, um botão de collete, cousa que já lhe não preste para nada. O valer é a lembrança.
Tive um sobresalto. Havia embrulhado em um papel um cacho dos meus cabellos, tão grandes e tão bonitos, cortados na vespera. A intenção era leval-os a Capitú, ao sair; mas tive ideia de dal-o ao pae, a filha saberia lomal-o e guardal-o. Peguei do embrulho e dei-lh'o.
—Aqui está, guarde.
—Um cachinho dos seus cabellos! exclamou Padua abrindo e fechando o embrulho. Oh! obrigado! obrigado por mim e pela minha gente! Vou dai-o á velha, para guardal-o, ou á pequena, que é mais cuidadosa que a mãe. Que lindos que são! Como é que se corta uma belleza destas? Dê cá um abraço! outro! mais outro! adeus!
Tinha os olhos humidos devéras; levava a cara dos desenganados, como quem empregou em um só bilhete todas as suas economias de esperanças, e vê sair branco o maldito numero,—um numero tão bonito!
Fui para o seminario. Poupa-me as outras despedidas. Minha mãe apertava-me ao peito. Prima Justina suspirava. Talvez chorasse mal ou nada. Ha pessoas a quem as lagrimas não acodem logo nem nunca; diz-se que padecem mais que as outras. Prima Justina disfarçava naturalmente os seus padecimentos intimos, emendando os descuidos de minha mãe, fazendo-me recommendações, dando ordens. Tio Cosme, quando eu lhe beijei a mão em despedida, disse-me rindo:
—Anda lá, rapaz, volta-me papa!
José Dias, composto e grave, não dizia nada a principio; tinhamos falado na vespera, no quarto delle, onde fui ver se era ainda possivel evitar o seminario. Já não era, mas deu-me esperanças e principalmente animou-me muito. Antes de um anno estariamos a bordo. Como eu achasse muito breve, explicou-se.
—Dizem que não é bom tempo de atravessar o Atlantico, vou indagar; se não fôr, iremos em Março ou Abril.
—Posso estudar medicina aqui mesmo.
José Dias correu os dedos pelos suspensorios com um gesto de impaciencia, apertou os beiços, até que formalmente rejeitou o alvitre.
—Não duvidaria approvar a ideia, disse elle, se na Escola de Medicina não ensinassem, exclusivamente, a podridão allopatha. A allopathia é o erro dos seculos, e vae morrer; é o assassinato, é a mentira, é a illusão. Se lhe disserem que póde apprender na Escola de Medicina aquella parte da sciencia commum a todos os systemas, é verdade; a allopathia é erro na therapeutica. Physiologia, anatomia, pathologia, não são allopathicas nem homeopathicas, mas é melhor apprender logo tudo de uma vez, por livros e por lingua de homens cultores da verdade...
Assim falára na vespera e no quarto. Agora não dizia nada, ou proferia algum aphorismo sobre a religião e a familia; lembro-me deste: «Dividil-o com Deus é ainda possuil-o.» Quando minha mãe me deu o ultimo beijo: «Quadro amantissimo!» suspirou elle. Era manhã de um lindo dia. Os moleques cochichavam; as escravas tomavam a benção: «Benção, nhõ Bentinho! não se esqueça de sua Joanna! Sua Miquelina fica rezando por vosmecê!» Na rua José Dias insistiu nas esperanças:
—Aguente um anno; até lá tudo estará arranjado.
No seminario... Ah! não vou contar o seminario, nem me bastaria a isso um capitulo. Não, senhor meu amigo; algum dia, sim, é possivel que componha um abreviado do que alli vi e vivi, das pessoas que tratei, dos costumes, de todo o resto. Esta sarna de escrever, quando pega aos cincoenta annos, não despega mais. Na mocidade é possivel curar-se um homem della; e, sem ir mais longe, aqui mesmo no seminario tive um companheiro que compoz versos, a maneira dos de Junqueira Freire, cujo livro de frade poeta era recente. Ordenou-se: annos depois encontrei-o no còro de S. Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos novos.
—Que versos? perguntou meio espantado.
—Os seus. Pois não se lembra que no seminario...
—Ah! sorriu elle.
Sorriu, e continuando a procurar n'um livro aberto a hora em que tinha do cantar no dia seguinte, confessou-me que não fizera mais versos depois de ordenado. Foram cocegas da mocidade; coçou-se, passou, estava bom. E falou-me em prosa de uma infinidade de cousas do dia, a vida cara, um sermão do padre X... uma vigairaria mineira...
Contrario a isso foi um seminarista que não seguiu a carreira. Chamava-se... Não é preciso dizer o nome; baste o caso. Tinha composto umPanegyrico de Santa Monica, elogiado por algumas pessoas e então lido entre os seminaristas. Alcançou licença de imprimil-o, o dedicou-o a Santo Agostinho. Tudo isso é historia velha; o que é mais moço é que um dia, em 1882, indo ver certo negocio em repartição de marinha, alli dei com este meu collega, feito chefe de uma secção administrativa. Deixára seminario, deixára lettras, casára e esquecera tudo, menos oPanegyrico de Santa Monica, umas vinte e nove paginas, que veiu distribuindo pela vida fóra. Como eu precisasse de algumas informações, fui pedir-lh'as, e seria impossivel achar melhor nem mais prompta vontade; deu-me tudo, claro, certo, copioso. Naturalmente conversamos do passado, memorias pessoaes, casos de estudo, incidentes de nada, um livro, um verbo, um mote, toda a velha palhada saiu cá fóra, e rimos juntos, e suspiramos de companhia. Vivemos algum tempo do nosso velho seminario. Ou porque eram delle, ou porque eramos então moços, as recordações traziam tal poder de felicidade que, se alguma sombra contraria houve então, não appareceu agora. Elle confessou-me que perdera de vista todos os companheiros do seminario.
—Tambem eu, quasi todos; uma vez ordenados, voltaram naturalmente ás suas provincias, e os daqui tomaram vigairarias fóra.
—Bom tempo! suspirou elle.
E, após alguma reflexão, fitando em mim uns olhos murchos e teimosos, perguntou-me:
—Conservou o meuPanegyrico?
Não achei que dizer; tentei mover os beiços, mas não tinha palavra; afinal, perguntei:
—Panegyrico? Que panegyrico?
—O meuPanegyrico de Santa Monica.
Não me lembrou logo, mas a explicação devia bastar; e depois de alguns instantes de pesquiza mental, respondi que por muito tempo o conservára, mas as mudanças, as viagens...
—Hei de levar-lhe um exemplar.
Antes de vinte e quatro horas estava em minha casa, com o folheto, um velho folheto de vinte e seis annos, encardido, manchado do tempo, mas sem lacuna, e com uma dedicatoria manuscripta e respeitosa.
—E o penultimo exemplar, disse-me; agora só me resta um, que não posso dar a ninguem.
E como me visse folhear o opusculo:
—Veja se lhe lembra algum pedaço, disse-me.
Vinte e seis annos de intervallo fazem morrer amizades mais estreitas e assiduas, mas era cortezia, era quasi caridade recordar alguma lauda; li uma dellas, accentuando certas phrases para lhe dar a impressão de que achavam echo em minha memoria. Concordou que fossem bellas, mas preferia outras, e apontou-as.
—Recorda-se bem?
—Perfeitamente.Panegyrico de Santa Monica!Como isto me faz remontar os annos da minha mocidade! Nunca me esqueceu o seminario, creia. Os annos passam, os acontecimentos vêm uns sobre outros, e as sensações tambem, e vieram amizades novas, que tambem se foram depois, como é lei da vida... Pois, meu caro collega, nada fez apagar aquelle tempo da nossa convivencia, os padres, as licções, os recreios... os nossos recreios, lembra-se? o padre Lopes, oh! o padre Lopes...
Elle, com os olhos no ar, devia estar ouvindo, e naturalmente ouvia, mas só me disse uma palavra, e ainda assim depois de algum tempo de silencio, recolhendo os olhos e um suspiro!
—Tem agradado muito este meuPanegyrico!
Dita a palavra, apertou-me as mãos com as forças todas de um vasto agradecimento, despediu-se e saiu. Fiquei só com oPanegyrico, e o que as folhas delle me lembraram foi tal que merece um capitulo ou mais. Antes, porém, e porque tambem eu tive o meuPanegyrico, contarei a historia de um soneto que nunca fiz; era no tempo do seminario, e o primeiro verso é o que ides ler:
Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!
Como e porque me saiu este verso da cabeça, não sei; saiu assim, estando eu na cama, como uma exclamação solta, e, ao notar que tinha a medida de verso, pensei em compòr com elle alguma cousa, um soneto. A insonmia, musa de olhos arregalados, não me deixou dormir uma longa hora ou duas; as cocegas pediam-me unhas, e eu coçava-me com alma. Não escolhi logo, logo o soneto; a principio cuidei de outra fórma, e tanto de rima como de verso solto, mas afinal ative-me ao soneto. Era um poema breve e prestadio. Quanto á ideia, o primeiro verso não era ainda uma ideia, era uma exclamação; a ideia viria depois. Assim na cama, envolvido no lençol, tratei de poetar. Tinha o alvoroço da mãe que sente o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia competir com aquelle monge da Bahia, pouco antes revelado, e então na moda; eu, seminarista, diria em verso as minhas tristezas, como elle dissera as suas no claustro. Decorei bem o verso, e repetia-o em voz baixa, aos lençóes; francamente, achava-o bonito, e ainda agora não me parece máu:
Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!
Quem era a flòr? Capitú, naturalmente; mas podia ser a virtude, a poesia, a religião, qualquer outro conceito a que coubesse a metaphora da flòr, e flòr do ceu. Aguardei o resto, recitando sempre o verso, e deitado ora sobre o lado direito, ora sobre o esquerdo; atinai deixei-me estar de costas, com os olhos no tecto, mas nem assim vinha mais nada. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluiam com chave de ouro, isto é, um desses versos capitaes no sentido e na fórma. Pensei em forjar uma de taes chaves, considerando que o verso final, saindo chronologicamente dos treze anteriores, com difficuldade traria a perfeição louvada; imaginei que taes chaves eram fundidas antes da fechadura. Assim foi que me determinei a compôr o ultimo verso do soneto, e, depois de muito suar, saiu este:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
Sem vaidade, e falando como se fosse de outro, era um verso magnifico. Sonoro, não ha duvida. E tinha um pensamento, a victoria ganha á custa da propria vida, pensamento alevantado e nobre. Que não fosse novidade, é possivel, mas tambem não era vulgar; e ainda agora não explico por que via mysteriosa entrou n'uma cabeça de tão poucos annos. Naquella occasião achei-o sublime. Recitei uma e muitas vezes a chave de ouro; depois repeti os dous versos seguidamente, e dispuz-me a ligal-os pelos doze centraes. A ideia agora, á vista do ultimo verso, pareceu-me melhor não ser Capitú; seria a justiça. Era mais proprio dizer que, na pugna pela justiça, perder-se-hia acaso a vida, mas a batalha ficava ganha. Tambem me occorreu acceitar a batalha, no sentido natural, e fazer della a lula pela patria, por exemplo; nesse caso a flor do ceu seria a liberdade. Esta accepção, porém, sendo o poeta um seminarista, podia não caber tanto como a primeira, e gastei alguns minutos em escolher uma ou outra. Achei melhor a justiça, mas afinal acceitei definitivamente uma ideia nova, a caridade, e recitei os dous versos, cada um a sou modo, um languidamente:
Oh! flòr do ceu! oh! flòr candida e pura!
e o outro com grande brio:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. Começar bem e acabar bem não era pouco. Para me dar um banho de inspiração, evoquei alguns sonetos celebres, e notei que os mais delles eram facilimos; os versos saíam uns dos outros, com a ideia em si, tão naturalmente, que se não acabava de crer se ella é que os fizera, se elles é que a suscitavam. Então tornava ao meu soneto, e novamente repetia o primeiro verso e esperava o segundo; o segundo não vinha, nem terceiro, nem quarto; não vinha nenhum. Tive alguns impetos de raiva, e mais de uma vez pensei em sair da cama e ir ver tinta e papel; póde ser que, escrevendo, os versos acudissem, mas...
Cançado de esperar, lembrou-me alterar o sentido do ultimo verso, com a simples transposição do duas palavras, assim:
Ganha-se a vida, perde-se a batalha!
O sentido vinha a ser justamente o contrario, mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. Neste caso, era uma ironia: não exercendo a caridade, póde-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do ceu. Criei forças novas o esperei. Não tinha janella; se tivesse, é possivel que fosse pedir uma ideia á noite. E quem sabe se os vagalumes, luzindo cá em baixo, não seriam para mim como rimas das estrellas, e esta viva metaphora não me daria os versos esquivos, com os seus consoantes e sentidos proprios?
Trabalhei em vão, busquei, catei, esperei, não vieram os versos. Pelo tempo adeante escrevi algumas paginas em prosa, e agora estou compondo esta narração, não achando maior difficuldade que escrever, bem ou mal. Pois, senhores, nada me consola daquelle soneto que não fiz. Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metaphysica, dou esses dous versos ao primeiro desoccupado que os quizer. Ao domingo, ou se estiver chovendo, ou na roça, em qualquer occasião de lazer, póde tentar ver se o soneto sae. Tudo é dar-lhe uma ideia e encher o centro que falta.
Tudo me ia repetindo o diabo do opusculo, com as suas lettras velhas e citações latinas. Vi sair daquellas folhas muitos perfis de seminaristas, os irmãos Albuquerques, por exemplo, um dos quaes é conego na Bahia, emquanto o outro seguiu medicina e dizem haver descoberto um especifico contra a febre amarella. Vi o Bastos, um magricella, que está de vigario em Meia-Ponte, se não morreu já; Luiz Borges, apesar de padre, fez-se politico, e acabou senador do imperio... Quantas outras caras me fitavam das paginas frias doPanegyrico!Não, não eram frias; traziam o calor da juventude nascente, o calor do passado, o meu proprio calor. Queria lel-as outra vez, e lograva entender algum texto, tão recente como no primeiro dia, ainda que mais breve. Era um encanto ir por elle; ás vezes, inconscientemente, dobrava a folha como se estivesse lendo de verdade; creio que era quando os olhos me caíam na palavra do fim da pagina, e a mão, acostumada a ajudal-os, faziam o seu officio...
Eis aqui outro seminarista. Chamava-se Ezequiel de Souza Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo. Quem não estivesse acostumado com elle podia acaso sentir-se mal, não sabendo por onde lhe pegasse. Não fitava de rosto, não falava claro nem seguido; as mãos não apertavam as outras, nem se deixavam apertar dellas, porque os dedos, sendo delgados e curtos, quando a gente cuidava tel-os entre os seus, já não tinha nada. O mesmo digo dos pés, que tão depressa estavam aqui como lá. Esta difficuldade em pousar foi o maior obstaculo que achou para tomar os costumes do seminario. O sorriso era instantaneo, mas tambem ria folgado e largo. Uma cousa não seria tão fugitiva, como o resto, a reflexão; iamos dar com elle, muita vez, olhos enfiados em si, cogitando. Respondia-nus sempre que meditava algum ponto espiritual, ou então que recordava a licção da vespera. Quando elle entrou na minha intimidade pedia-me frequentemente explicações e repetições miudas, e tinha memoria para guardal-as todas, até as palavras. Talvez esta faculdade prejudicasse alguma outra.
Era mais velho que eu trez annos, filho de um advogado de Corityba, aparentado com um commerciante do Rio de Janeiro, que servia de correspondente ao pae. Este era homem de fortes sentimentos catholicos. Escobar tinha uma irmã, que era um anjo, dizia elle.
—Não é só na belleza que é um anjo, mas tambem na bondade. Não imagina que boa creatura que ella é. Escreve-me muita vez, hei de mostrar-lhe as cartas della.
De facto, eram simples e affectuosas, cheias de caricias e conselhos. Escobar contava-me historias della, interessantes, todas as quaes vinham a dar na bondade e no espirito daquella creatura; taes eram que me fariam capaz de acabar casando com ella, se não fosse Capitú. Morreu pouco depois. Eu, seduzido pelas palavras delle, estive quasi a contar-lhe logo, logo, a minha historia. A principio fui timido, mas elle fez-se entrado na minha confiança. Aquelles modos fugitivos cessavam quando elle queria, e o meio e o tempo os fizeram mais pousados. Escobar veiu abrindo a alma toda, desde a porta da rua até ao fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, e uma casa assim disposta, não raro com janellas para todos os lados, muita luz e ar puro. Tambem as ha fechadas e escuras, sem janellas, ou com poucas e gradeadas, á semelhança de conventos o prisões. Outrosim, capellas e bazares, simples alpendres ou paços sumptuosos.
Não sei o que era a minha. Eu não era ainda casmurro, nem dom casmurro; o receio é que me tolhia a franqueza, mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurral-as, e Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou, até que...
Ah! mas não eram só os seminaristas que me iam saindo daquellas folhas velhas doPanegyrico.Ellas me trouxeram tambem sensações passadas, taes e tantas que eu não poderia dizel-as todas, sem tirar espaço ao resto. Uma dessas, e das primeiras, quizera contal'a aqui eu latim. Não é que a materia não ache termos honestos em nossa lingua, que é casta para os castos, como póde ser torpe para os torpes. Sim, leitora castissima, como diria o meu finado José Dias, podeis ler o capitulo até ao fim, sem susto nem vexame.
Já agora metto a historia em outro capitulo. Por mais composto que este me saia, ha sempre no assumpto alguma cousa menos austera, que pede umas linhas de repouso e preparação. Sirva este de preparação. E isto é muito, leitor meu amigo; o coração, quando examina a possibilidade do que ha de vir. as proporções dos acontecimentos e a copia delles, fica robusto e disposto, e o mal é menor mal. Tambem, se não fica então, não fica nunca. E aqui verás tal ou qual esperteza minha; porquanto, ao ler o que vás ler, é provavel que o aches menos cru do que esperavas.
Foi o caso que, uma segunda-feira, voltando eu para o seminario, vi cair na rua uma senhora. O meu primeiro gesto, em tal caso, devia ser de pena ou de riso; não foi uma nem outra cousa, porquanto (e é isto que eu quizera dizer em latim) porquanto, a senhora tinha as meias mui lavadas, e não as sujou, levava ligas de seda, e não as perdeu. Varias pessoas acudiram, mas não tiveram tempo de a levantar; ella ergueu-se muito vexada, sacudiu-se, agradeceu, e enfiou pela rua proxima.
—Este gosto de imitar as francezas da rua do Ouvidor, dizia-me José Dias andando e commentando a queda, é evidentemente um erro. As nossas moças devem andar como sempre andaram, com sou vagar e paciencia, e não este tique-tique afrancezado...
Eu mal podia ouvil-o. As meias e as ligas da senhora branqueavam e enroscavam-se deante de mim, e andavam, caíam, erguiam-se e iam-se embora. Quando chegámos á esquina, olhei para a outra rua, e vi, a distancia, a nossa desastrada, que ia no mesmo passo, tique-tique, tique-tique...
—Parece que não se machucou, disse eu.
—Tanto melhor para ella, mas é impossivel que não tenha arranhado os joelhos; aquella presteza é manha...
Creio que foi «manha» que elle disse; eu fiquei «nos joelhos arranhados». Dalli em deante, até o seminario, não vi mulher na rua, a quem não desejasse uma quéda; a algumas adivinhei que trazia as meias esticadas e as ligas, justas... Tal haveria que nem levasse meias... Mas eu as via com ellas... Ou então... Tambem é possivel...
Vou esgarçando isto com reticencias, para dar uma ideia das minhas ideias, que eram assim diffusas e confusas; com certeza não dou nada. A cabeça ia-me quente, e o andar não era seguro. No seminario, a primeira hora foi insupportavel. As batinas traziam ar de saias, e lembravam-me a quéda da senhora. Já não era uma só que eu via cair; todas as que eu encontrara na rua, mostravam-me agora de relance as ligas azues; eram azues. De noite, sonhei com ellas. Uma multidão de abominaveis creaturas veiu andar á roda de mim, tique-tique... Eram bellas, umas finas, outras grossas, todas ageis como o diabo. Accordei, busquei afugental-as com esconjuros e outros methodos, mas tão depressa dormi como tornaram, e, com as mãos presas em volta de mim, faziam um vasto circulo de saias, ou, trepadas no ar, choviam pés e pernas sobre a minha cabeça. Assim fui até madrugada. Não dormi mais; rezei padre-nossos, ave-marias, e credos, e sendo este livro a verdade pura, é força confessar que tive de interromper mais de uma vez as minhas orações para acompanhar no escuro uma figura ao longe, tique-tique, tique-tique... Pegava depressa na oração, sempre no meio para concertal-a bem, como se não tivesse havido interrupção, mas certamente não unia a phrase nova á antiga.
Vindo o mal pela manha adeante, tentei vencel-o, mas por um modo que o não perdesse de todo. Sabios da escriptura, adivinhai o que podia ser. Foi isto. Não podendo rejeitar de mim aquelles quadros, recorri a um tratado entre a minha consciencia e a minha imaginação. As visões feminis seriam de ora avante consideradas como simples encarnações dos vicios, e por isso mesmo contemplaveis, como o melhor modo de temperar o caracter e aguerril-o para os combates asperos da vida. Não formulei isto por palavras, nem fui preciso; o contracto fez-se tacitamente, com alguma repugnancia, mas fez-se. E por alguns dias, era eu mesmo que evocava as visões para fortalecer-me, e não as rejeitava, senão quando ellas mesmas, de cançadas, se iam embora.
Ha dessas reminiscencias que não descançam antes que a penna ou a lingua as publique. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memoria. A vida é cheia de taes convivas, e eu sou acaso um delles, comquanto a prova de ter a memoria fraca seja exactamente não me acudir agora o nome de tal antigo; mas era um antigo, e basta.
Não, não, a minha memoria não é boa. Ao contrario, é comparavel a alguem que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar dellas nem caras nem nomes, e sómente raras circumstancias. A quem passe a vida na mesma casa de familia, com os seus eternos moveis e costumes, pessoas e affeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. Como eu invejo os que não esqueceram a còr das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei hontem. Juro só que não eram amarellas porque execro essa côr; mas isso mesmo póde ser olvido e confusão.
E antes seja olvido que confusão; explico-me. Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se póde metter nos livros omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me afflijo nunca. O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as cousas que não achei nelle. Quantas ideias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios, as montanhas, as egrejas que não vi nas folhas lidas, todos me apparecem agora com as suas aguas, as suas arvores, os seus altares, e os generaes sacam das espadas que tinham ficado na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma imprevista.
É que tudo se acha fóra de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim pódes tambem preencher as minhas.
Assim fiz eu aoPanegyrico de Santa Monica, e fiz mais: puz-lhe não só o que faltava da santa, mas ainda cousas que não eram della. Viste o soneto, as meias, as ligas, o seminarista Escobar e varios outros. Vás agora ver o mais que naquelle dia me foi saindo das paginas amarellas do opusculo.
Querido opusculo, tu não prestavas para nada, mas que mais presta um velho par de chinellas? Entretanto, ha muita vez no casal de chinellas um como aroma e calor de dous pés. Gastas e rotas, não deixam de lembrar que uma pessoa as calçava de manhã, ao erguer da cama, ou as descalçava á noite, ao entrar nella. E se a comparação não vale, porque as chinellas são ainda uma parte da pessoa e tiveram o contacto dos pés, aqui estão outras lembranças, como a pedra da rua, a porta da casa, um assobio particular, um prégão de quitanda, como aquelle das cocadas que contei no cap. XVIII. Justamente, quando contei o prégão das cocadas, fiquei tão curtido de saudades que me lembrou fazel-o escrever por um amigo, mestre de musica, e grudal-o ás pernas do capitulo. Se depois jarretei o capitulo, foi porque outro musico, a quem o mostrei, me confessou ingenuamente não achar no trecho escripto nada que lhe accordasse saudades. Para que não aconteça o mesmo aos outros profissionaes que por ventura me lerem, melhor é poupar ao editor do livro o trabalho e a despeza da gravura. Vès que não puz nada, nem ponho. Já agora creio que não basta que os pregões de rua, como os opusculos de seminario, encerrem casos, pessoas e sensações; é preciso que a gente os tenha conhecido e padecido no tempo, sem o que tudo é calado e incolor.
Mas, vamos ao mais que me foi saindo das paginas amarellas.
O mais foi muito. Vi sairem os primeiros dias da separação, duros e opacos, sem embargo das palavras de conforto que me deram os padres e os seminaristas, e as de minha mãe e tio Cosme, trazidas por José Dias ao seminario.
—Todos estão saudosos, disse-me este, mas a maior saudade está naturalmente no maior dos corações; e qual é elle? perguntou escrevendo a resposta nos olhos.
—Mamãe, acudi eu.
José Dias apertou-me as mãos com alvoroço, e logo pintou a tristeza de minha mãe, que falava de mim todos os dias, quasi a todas as horas. Como a approvasse sempre, e accrescentasse alguma palavra relativamente aos dotes que Deus me dera, o desvanecimento de minha mãe nessas occasiões era indescriptivel; e contava-me tudo isso cheio de uma admiração lacrimosa. Tio Cosme tambem se enternecia muito.
—Hontem até se deu um caso interessante. Tendo eu dito á Excellentissima que Deus lhe dera, não um filho, mas um anjo do ceu, o doutor ficou tão commovido que não achou outro modo de vencer o choro senão fazendo-me um daquelles elogios de galhofa que só elle sabe. Não é preciso dizer que D. Gloria enxugou furtivamente uma lagrima. Ou ella não fosse mãe! Que coração amantissimo!
—Mas, Sr. José Dias, e a minha saida daqui?
—Isso é negocio meu. A viagem á Europa é o que é preciso, mas póde fazer-se daqui a um ou dous annos, em 1859 ou 1860...
—Tão tarde!
—Era melhor que fosse este mesmo anno, mas demos tempo ao tempo. Tenha paciencia, vá estudando, não se perde nada em ir sabendo já daqui alguma cousa; e, demais, ainda não acabando padre, a vida do seminario é util, e vale sempre entrar no mundo ungido com os santos oleos da theologia...
Neste ponto,—lembra-me como se fosse hoje,—os olhos de José Dias fulguraram tão intensamente que me encheram de espanto. As palpebras cairam depois, e assim ficaram por alguns instantes, até que novamente se ergueram, e os olhos fixaram-se na parede do palco, como que embebidos em alguma cousa, se não era em si mesmos; depois despegaram-se da parede e entraram a vagar pelo pateo todo. Podia comparal-o aqui á vacca de Homero; andava e gemia em volta da cria que acabava de parir. Não lhe perguntei o que é que tinha, já por acanhamento, já porque dous lentes, um delles de theologia, vinham caminhando na nossa direcção. Ao passarem por nós, o aggregado, que os conhecia, cortejou-os com as deferencias devidas, e pediu-lhes noticias minhas.
—Por ora nada se póde affiançar, disse um delles, mas parece que dará conta da mão.
—É o que eu lhe dizia agora mesmo, acudiu José Dias. Conto ouvir-lhe a missa nova; mas ainda que não chegue a ordenar-se, não póde ter melhores estudos que os que fizer aqui. Para a viagem da existencia, concluiu demorando mais as palavras, irá ungido com os santos oleos da theologia...
Desta vez a fulguração dos olhos foi menor, as palpebras não lhe cairam nem as pupillas fizeram os movimentos anteriores. Ao contrario, todo elle era attenção e interrogação; quando muito, um sorriso claro e amigo lhe errava nos labios. O lente de theologia gostou da metaphora, e disse-lh'o; elle agradeceu, explicando que eram ideias que lhe escapavam no correr da conversação; não escrevia nem orava. Eu é que não gostei nada; e logo que os lentes se foram, sacudi a cabeça:
—Não quero saber dos santos oleos da theologia; desejo sair daqui o mais cedo que puder, ou já...
—Já, meu anjo, não póde ser; mas póde succeder que muito antes do que imaginamos. Quem sabe se este mesmo anno de 58? Tenho um plano feito, e penso já nas palavras com que hei de expôl-o a D. Gloria; estou certo que ella cederá e irá comnosco.
—Duvido que mamãe embarque.
—Veremos. Mãe é capaz de tudo; mas, com ella ou sem ella, tenho por certa a nossa ida, e não haverá esforço que eu não empregue, deixe estar. Paciencia é que é preciso. E não faça aqui nada que dê logar a censuras ou queixas; muita docilidade e toda a apparente satisfação. Não ouviu o elogio do lente? E que você tem-se portado bem. Pois continue.
—Mas, 1859 ou 1860 é muito tarde.
—Será este anno, replicou José Dias.
—Daqui a tres mezes?
—Ou seis.
—Não; tres mezes.
—Pois sim. Tenho agora um plano, que me parece melhor que outro qualquer. É combinar a ausencia de vocação ecclesiastica e a necessidade de mudar de ares. Você porque não tosse?
—Por que não tusso?
—Já, já, não, mas eu hei de avisar você para tossir, quando fôr preciso, aos poucos, uma tossesinha secca, e algum fastio; eu irei preparando a Excellentissima... Oh! tudo isto é em beneficio della. Uma vez que o filho não póde servir a egreja, como deve ser servida, o melhor modo de cumprir a vontade de Deus é dedical-o a outra cousa. O mundo tambem é egreja para os bons...
Pareceu-me outra vez a vacca de Homero, como se este «mundo tambem é egreja para os bons», fosse outro bezerro, irmão dos «santos oleos da theologia.» Mas não dei tempo á ternura materna, e repliquei:
—Ah! entendo! mostrar que estou doente para embarcar, não é?
José Dias hesitou um pouco, depois explicou-se:
—Mostrar a verdade, porque, francamente, Bentinho, eu ha mezes que desconfio do seu peito. Você não anda bom do peito. Em pequeno, teve umas febres e uma ronqueira... Passou tudo, mas ha dias em que está mais descorado. Não digo que já seja o mal, mas o mal póde vir depressa. N'uma hora cae a casa. Por isso, se aquella santa senhora não quizer ir comnosco,—ou para que vá mais depressa, acho que uma boa tosse... Se a tosse ha de vir de verdade, melhor é apressal-a... Deixe estar, eu aviso...
—Bem, mas em saindo daqui não ha de ser para embarcar logo; saio primeiro, depois cuidaremos do embarque; o embarque é que póde ficar para o anno. Não dizem que o melhor tempo é abril ou maio? Pois seja maio. Primeiro deixo o seminario, daqui a dous mezes...
E porque a palavra me estivesse a pigarrear na garganta, dei uma volta rapida, e perguntei-lhe á queima-roupa:
—Capitú como vae?
A pergunta era imprudente, na occasião em que eu cuidava de transferir o embarque. Equivalia a confessar que o motivo principal ou unico da minha repulsa ao seminario era Capitú, e fazer crer improvavel a viagem. Comprehendi isto depois que falei; quiz emendar-me, mas nem soube como, nem elle me deu tempo.
—Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquillo emquanto não pegar algum peralta da visinhança, que case com ella...
Estou que empallideci; pelo menos, senti correr um frio pelo corpo todo. A noticia de que ella vivia alegre, quando eu chorava todas as noites, produziu-me aquelle effeito, acompanhado de um bater de coração, tão violento, que ainda agora cuido ouvil-o. Ha alguma exageração nisto; mas o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se entendermos que a audiencia aqui não é das orelhas, senão da memoria, chegaremos á exacta verdade. A minha memoria ouve ainda agora as pancadas do coração naquelle instante. Não esqueças que era a emoção do primeiro amor. Estive quasi a perguntar a José Dias que me explicasse a alegria de Capitú, o que é que ella fazia, se vivia rindo, cantando ou pulando, mas retive-me a tempo, e depois outra ideia...
Outra ideia, não,—um sentimento cruel e desconhecido, o puro ciume, leitor das minhas entranhas. Tal foi o que me mordeu, ao repetir commigo as palavras de José Dias: « Algum peralta da visinhança.» Em verdade, nunca pensara em tal desastre. Vivia tão nella, della e para ella, que a intervenção de um peralta era como uma noção sem realidade; nunca me acudiu que havia peraltas na visinhança, vária idade e feitio, grandes passeadores das tardes. Agora lembrava-me que alguns olhavam para Capitú,—e tão senhor me sentia della que era como se olhassem para mim, um simples dever de admiração e de inveja. Separados um do outro pelo espaço e pelo destino, o mal apparecia-me agora, não só possivel, mas certo. E a alegria de Capitú confirmava a suspeita; se ella vivia alegre é que já namorava a outro, acompanhal-o-hia com os olhos na rua, falar-lhe-hia á janella, ás ave-marias, trocariam flores e...
E... que? Sabes o que é que trocariam mais; se o não achas por ti mesmo, escusado é ler o resto do capitulo e do livro, não acharás mais nada, ainda que eu o diga com todas as lettras da etymologia. Mas se o achaste, comprehenderás que eu, depois de estremecer, tivesse um impeto de atirar-me pelo portão fora, descer o resto da ladeira, correr, chegar a casa do Padua, agarrar Capitú e intimar-lhe que me confessasse quantos, quantos, quantos já lhe dera o peralta da visinhança. Não fiz nada. Os mesmos sonhos que ora conto não tiveram, naquelles tres ou quatro minutos, esta logica de movimentos e pensamentos. Eram soltos, emendados e mal emendados, com o desenho truncado e torto, uma confusão, um turbilhão, que me cegava e ensurdecia. Quando tornei a mim, José Dias concluía uma phrase, cujo principio não ouvi, e o mesmo fim era vago: «A conta que dará de si.» Que conta e quem? Cuidei naturalmente que falava ainda de Capitú, e quiz perguntar-lh'o, mas a vontade morreu ao nascer, como tantas outras gerações dellas. Limitei-me a inquirir do aggregado quando é que iria a casa ver minha mãe.
—Estou com saudades de mamãe. Posso ir já esta semana?
—Vae sabbado.
—Sabbado? Ah! sim! sim! Peça a mamãe que me mande buscar sabbado! Sabbado! Este sabbado, não? Que me mande buscar, sem falta.
Fiquei ancioso pelo sabbado. Até lá os sonhos perseguiam-me, ainda accordado, e não os digo aqui para não alongar esta parte do livro. Um só ponho, e no menor numero de palavras, ou antes porei dous, porque um nasceu de outro, a não ser que ambos formem duas metades de um só. Tudo isto é obscuro, dona leitora, mas a culpa é do vosso sexo, que perturbava assim a adolescencia de um pobre seminarista. Não fosse elle, e este livro seria talvez uma simples pratica parochial, se eu fosse padre, ou uma pastoral, se bispo, ou uma encyclica, se papa, como me recommendára tio Cosme: «Anda lá, meu rapaz, volta-me papa!» Ah! porque não cumpri esse desejo? Depois de Napoleão, tenente e imperador, todos os destinos estão neste seculo.
Quanto ao sonho foi isto. Como estivesse a espiar os peraltas da visinhança, vi um destes que conversava com a minha amiga ao pé da janella. Corri ao logar, elle fugiu; avancei para Capitú, mas não estava só, tinha o pae ao pé de si, enxugando os olhos e mirando um triste bilhete de loteria. Não me parecendo isto claro, ia pedir a explicação, quando elle de si mesmo a deu; o peralta fôra levar-lhe a lista dos premios da loteria, e o bilhete saira branco. Tinha o numero 4004. Disse-me que esta symetria de algarismos era mysteriosa e bella, e provavelmente a roda andára mal; era impossivel que não devesse ter a sorte grande. Emquanto elle falava, Capitú dava-me com os olhos todas as sortes grandes e pequenas. A maior destas devia ser dada com a bocca. E aqui entra a segunda parte do sonho. Padua desappareceu, como as suas esperanças do bilhete. Capitú inclinou-se para fóra, eu relancei do olhos pela rua, estava deserta. Peguei-lhe nas mãos, resmunguei não sei que palavras, e accordei sósinho no dormitorio.
O interesse do que acabas de ler não está na materia do sonho, mas nos esforços que fiz para ver se dormia novamente e pegava nelle outra vez. Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação que empreguei em fechar os olhos, apertal-os bem, esquecer tudo para dormir, mas não dormia. Esse mesmo trabalho fez-me perder o somno até á madrugada. Sobre a madrugada, consegui concilial-o, mas então nem peraltas, nem bilhetes de loteria, nem sortes grandes ou pequenas,--nada dos nadas veiu ter commigo. Não sonhei mais aquella noite, e dei mal as licções daquelle dia.
Relendo o capitulo passado, acóde-me uma ideia e um escrupulo. O escrupulo é justamente de escrever a ideia, não a havendo mais banal na terra, posto que daquella banalidade do sol e da lua, que o ceu nos dá todos os dias e todos os mezes. Deixei o manuscripto, e olhei para as paredes. Sabes que esta casa do Engenho Novo, nas dimensões, disposições e pinturas, é reproducção da minha antiga casa de Matacavallos. Outrosim, como te disse no capitulo II, o meu fim em imitar a outra foi ligar as duas pontas da vida, o que aliás não alcancei. Pois o mesmo succedeu áquelle sonho do seminario, por mais que tentasse dormir e dormisse. Donde concluo que um dos officios do homem é fechar e apertar muito os olhos, a ver se continua pela noite velha o sonho truncado da noite moça. Tal é a ideia banal e nova que eu não quizera pôr aqui, e só provisoriamente a escrevo.
Antes de concluir este capitulo, fui á janella indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tenues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo, e não continuam mais. A noite não me respondeu logo. Estava deliciosamente bella, os morros pallejavam de luar e o espaço morria de silencio. Como eu insistisse, declarou-me que os sonhos já não pertencem á sua jurisdicção. Quando elles moravam na ilha que Luciano lhes deu, onde ella tinha o seu palacio, e donde os fazia sair com as suas caras de varia feição, dar-me-hia explicações possiveis. Mas os tempos mudaram tudo. Os sonhos antigos foram aposentados, e os modernos moram no cerebro da pessoa. Estes, ainda que quizessem imitar os outros, não poderiam fazel-o; a ilha dos sonhos, como a dos amores, como todas as ilhas de todos os mares, são agora objecto da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados-Unidos.
Era uma allusão ás Fillipinas. Pois que não amo a politica, e ainda menos a politica internacional, fechei a janella e vim acabar este capitulo para ir dormir. Não peço agora os sonhos de Luciano, nem outros, filhos da memoria ou da digestão; basta-me um somno quieto e apagado. De manhã, com a fresca, irei dizendo o mais da minha historia e suas pessoas.
Chegou o sabbado, chegaram outros sabbados, e eu acabei affeiçoando-me á vida nova. Ia alternando a casa e o seminario. Os padres gostavam de mim, os rapazes tambem, e Escobar mais que os rapazes e os padres. No fim de cinco semanas estive quasi a contar a este as minhas penas e esperanças; Capitú refreou-me.
—Escobar é muito meu amigo, Capitú!
—Mas não é meu amigo.
—Póde vir a ser; elle já me disse que ha de vir cá para conhecer mamãe.
—Não importa; você não tem direito de contar um segredo que não é só seu, mas tambem meu, e eu não lhe dou licença de dizer nada a pessoa nenhuma.
Era justo, calei-me e obedeci. Outra cousa em que obedeci ás suas reflexões foi, logo no primeiro sabbado, quando eu fui á casa della, e, após alguns minutos de conversa, me aconselhou a ir embora.
—Hoje não fique aqui mais tempo; vá para casa, que eu lá vou logo. É natural que D. Gloria queira estar com você muito tempo, ou todo, se puder.
Em tudo isso mostrava a minha amiga tanta lucidez que eu bem podia deixar de citar um terceiro exemplo, mas os exemplos não se fizeram senão para ser citados, e este é tão bom que a omissão seria um crime. Foi á minha terceira ou quarta vinda á casa. Minha mãe depois que lhe respondi ás mil perguntas que me fez sobre o tratamento que me davam, os estudos, as relações, a disciplina, e se me doia alguma cousa, e se dormia bem, tudo o que a ternura das mães inventa para cançar a paciencia de um filho, concluiu voltando-se para José Dias:
—Sr. José Dias, ainda duvida que saia daqui um bom padre?
—Excellentissima...
—E você, Capitú, interrompeu minha mãe voltando-se para a filha do Padua que estava na sala, com ella,—você não acha que o nosso Bentinho dará um bom padre?
—Acho que sim, senhora, respondeu Capitú cheia de convicção.
Não gostei da convicção. Assim lh'o disse, na manhã seguinte, na quintal della, recordando as palavras da vespera, e lançando-lho em rosto, pela primeira vez, a alegria que ella mostrára desde a minha entrada no seminario, quando eu vivia curtido de saudades. Capitú fez-se muito séria, e perguntou-me como é que queria que se portasse, uma vez que suspeitavam de nós; tambem tivera noites desconsoladas, e os dias, em casa della, foram tão tristes como os meus; podia indagal-o do pae e da mãe. A mãe chegou a dizer-lhe, por palavras encobertas, que não pensasse mais em mim.
—Com D. Gloria e D. Justina mostro-me naturalmente alegre, para que não pareça que a denuncia de José Dias é verdadeira. Se parecesse, ellas tratariam de separar-nos mais, e talvez acabassem não me recebendo... Para mim, basta o nosso juramento de que nos havemos de casar um com outro.
Era isto mesmo; deviamos dissimular para matar qualquer suspeita, e ao mesmo tempo gosar toda a liberdade anterior, e construir tranquillos o nosso futuro. Mas o exemplo completa-se com o que ouvi no dia seguinte, ao almoço; minha mãe, dizendo tio Cosme que ainda queria ver com que mão havia en de abençoar o povo á missa, contou que, dias antes, estando a falar de moças que se casam cedo, Capitú lhe dissera: «Pois a mim quem me ha de casar ha de ser o padre Bentinho; eu espero que elle se ordene!» Tio Cosme riu da graça, José Dias não dessorriu, só prima Justina é que franziu a testa, e olhou para mim interrogativamente. Eu, que havia olhado para todos, não pude resistir ao gesto da prima, e tratei de comer. Mas comi mal; estava tão contente com aquella grande dissimulação de Capitú que não vi mais nada, e, logo que almocei, corri a referir-lhe a conversa e a louvar-lhe a astucia. Capitú sorriu de agradecida.
—Você tem razão, Capitú, concluí eu; vamos enganar toda esta gente.
—Não é? disse ella com ingenuidade.
Capitú ia agora entrando na alma de minha mãe. Viviam o mais do tempo juntas, falando de mim, a proposito do sol e da chuva, ou de nada; Capitú ia lá coser, ás manhãs; alguma vez ficava para jantar.
Prima Justina não acompanhava a parenta naquellas finezas, mas não tratava de todo mal a minha amiga. Era assaz sincera para dizer o mal que sentia de alguem, e não sentia bem de pessoa alguma. Talvez do marido, mas o marido era morto; em todo caso, não existira homem capaz de competir com elle na affeição, no trabalho e na honestidade, nas maneiras e na agudeza de espirito. Esta opinião, segundo tio Cosme, era posthuma, pois em vida andavam ás brigas, e os ultimos seis mezes acabaram separados. Tanto melhor para a justiça della; o louvor dos mortos é um modo de orar por elles. Tambem gostaria de minha mãe, ou se algum mal pensou della foi entre si e o travesseiro. Comprehende-se que, de apparencia, lhe désse a estima devida. Não penso que ella aspirasse a algum legado; as pessoas assim dispostas excedem os serviços naturaes, fazem-se mais risonhas, mais assiduas, multiplicam os cuidados, precedem os famulos. Tudo isso era contrario á natureza de prima Justina, feita de azedume e de implicancia. Como vivesse de favor na casa, explica-se que não desestimasse a dona e calasse os seus resentimentos, ou só dissesse mal della a Deus e ao diabo.
Caso tivesse resentimentos de minha mãe, não era uma razão mais para detestar Capitú, nem ella precisava de razões supplementares. Comtudo, a intimidade de Capitú fel-o mais aborrecivel á minha parenta. Se a principio não a tratava mal, com o tempo trocou de maneiras e acabou fugindo-lhe. Capitú, attenta, desde que a não via, indagava della e ia procural-a. Prima Justina tolerava esses cuidados. A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de os infringir deslavadamente. Demais, Capitú usava certa magia que captiva; prima Justina acabava sorrindo, ainda que azedo, mas a sós com minha mãe achava alguma palavra ruim que dizer da menina.
Como minha mãe adoecesse de uma febre, que a pòz ás portas da morte, quiz que Capitú lhe servisse de enfermeira. Prima Justina, posto que isto a aliviasse de cuidados penosos, não perdoou á minha amiga a intervenção. Um dia, perguntou-lhe se não tinha que fazer em casa; outro dia, rindo, soltou-lhe este epigramma: «Não precisa correr tanto; o que tiver de ser seu ás mãos lhe ha de ir.»
Já agora não tiro a doente da cama sem contar o que se deu commigo. Ao cabo de cinco dias, minha mãe amanheceu tão transtornada que ordenou me mandassem buscar ao seminario. Em vão tio Cosme:
—Mana Gloria, você assusta-se sem motivo, a febre passa...
—Não! não! mandem buscal-o! Posso morrer, e a minha alma não se salva, se Bentinho não estiver ao pé de mim.
—Vamos assustal-o.
—Pois não lhe digam nada, mas vão buscal-o, já, já, não se demorem.
Cuidaram fosse delirio; mas, não custando nada trazer-me, José Dias foi incumbido do recado. Entrou tão atordoado que me assustou. Contou particularmente ao reitor o que havia, e recebi licença para ir a casa. Na rua, iamos calados, elle não alterando o passo do costume,—a premissa antes da consequencia, a consequencia antes do conclusão,—mas cabisbaixo e suspirando, eu temendo ler no rosto delle alguma noticia dura e definitiva. Só me falára na doença, como negocio simples; mas o chamado, o silencio, os suspiros podiam dizer alguma cousa mais. O coração batia-me com força, as pernas bambeavam-me, mais de uma vez cuidei cair...
O anceio de escutar a verdade complicava-se em mim com o temor de a saber. Era a primeira vez que a morte me apparecia assim perto, me envolvia, me encarava com os olhos furados e escuros. Quanto mais andava aquella rua dos Barbonos, mais me aterrava a ideia de chegar a casa, de entrar, de ouvir os prantos, de ver um corpo defuncto... Oh! eu não poderia nunca expòr aqui tudo o que senti naquelles terriveis minutos. A rua, por mais que José Dias andasse superlativamente devagar, parecia fugir-me debaixo dos pés, as casas voavam de um e outro lado, e uma corneta que nessa occasião tocava no quartel dos Municipaes Permanentes resoava aos meus ouvidos como a trombeta do juizo final.
Fui, cheguei aos Arcos, entrei na rua de Matacavallos. A casa não era logo alli, mas muito além da dos Invalidos, perto da do Senado. Trez ou quatro vezes, quizera interrogar o meu companheiro, sem ousar abrir a bocca; mas agora, já nem tinha tal desejo. Ia só andando, acceitando o peor, como um gesto do destino, como uma necessidade da obra humana, e foi então que a Esperança, para combater o Terror, me segredou ao coração, não estas palavras, pois nada articulou parecido com palavras, mas uma ideia que poderia ser traduzida por ellas: «Mamãe defuncta, acaba o seminario.»
Leitor, foi um relampago. Tão depressa alumiou a noite, como se esvaiu, e a escuridão fez-se mais cerrada, pelo effeito do remorso que me ficou. Foi uma suggestão da luxuria e do egoismo. A piedade filial desmaiou um instante, com a perspectiva da liberdade certa, pelo desapparecimento da divida e do devedor; foi um instante, menos que um instante, o centesimo de um instante, ainda assim o sufficiente para complicar a minha afflicção com um remorso.