Chapter 2

D'ahi a pouco, Santos pegou na mão da mulher, que a deixou ir á toa, sem apertar a delle; ambos fitavam os meninos, tendo esquecido a zanga para só ficarem paes.

Já não era spiritismo, nem outra religião nova; era a mais velha de todas, fundada por Adão e Eva, á qual chama, se queres, paternalismo. Rezavam sem palavras, persignavam-se sem dedos, uma especie de ceremonia quieta e muda, que abrangia o passado e o futuro. Qual delles era o padre, qual o sacristão, não sei, nem é preciso. A missa é que era a mesma, e o evangelho começava como o de S. João (emendado): «No principio era o amor, e o amor se fez carne». Mas venhamos aos nossos gemeos.

Os gemeos, não tendo que fazer, iam mamando. Nesse officio portavam-se sem rivalidade, a não ser quando as amas estavam ás boas, e elles mamavam ao pé um do outro; cada qual então parecia querer mostrar que mamava mais e melhor, passeando os dedos pelo seio amigo, e chupando com alma. Ellas, á sua parte tinham gloria dos peitos e os comparavam entre si; os pequenos, fartos, soltavam afinal os bicos e riam para ellas.

Se não fosse a necessidade de pôr os meninos em pé, crescidos e homens, espraiava este capitulo. Realmente, o espectaculo, posto que commum, era bello. Os peraltas nutriam-se ao contrario dos paes, sem as artes do cozinheiro, nem a vista das comidas e bebidas, todas postas em crystaes e porcelanas para emendar ou colorir a dura necessidade de comer. A elles nem se lhes via a comida; a boca ligada ao peito não deixava apparecer o leite. A natureza mostrava-se satisfeita pelo riso ou pelo somno. Quando era o somno, cada uma levava o seu menino ao berço, e ia cuidar de outra cousa. Este cotejo dar-me-ia trez ou quatro paginas solidas.

Uma pagina bastava para os chocalhos que embellezavam os pequenos, como se fosse a propria musica do céu. Elles sorriam, estendiam as mãos, alguma vez zangavam-se com as negaças, mas tanto que lh'os davam, calavam-se, e se não podiam tocar não se zangavam por isso. A proposito de chocalhos, diria que esses instrumentos não deixam memoria de si; alguem que os veja em mãos de creanças, se parecer que lhe lembram os seus, cae logo no engano, e adverte que a recordação ha de ser mais recente, alguma arenga do anno passado, se não foi a vacca de leite da vespera.

A operação de desmamar podia fazer-se em meia linha, mas as lástimas das amas, as despedidas, as bichas de ouro que a mãe deu a cada uma dellas, como um presente final, tudo isso exigia uma boa pagina ou mais. Poucas linhas bastariam para as amas seccas, porquanto não diria se eram altas nem baixas, feias ou bonitas. Eram mansas, zelosas do officio, amigas dos pequenos, e logo uma da outra. Cavallinhos de pau, bandeirolas, theatros de bonecos, barretinas e tambores, toda a quinquilharia da infancia occuparia muito mais que o logar de seus nomes.

Tudo isso restrinjo só para não enfadar a leitora curiosa de ver os meus meninos homens e acabados. Vamos vel-os, querida. Com pouco, estão crescidos e fortes. Depois, entrego-os a si mesmos; elles que abram a ferro ou lingua, ou simples cotovellos, o caminho da vida e do mundo.

Eil -os que vem crescendo. A semelhança, sem os confundir já, continuava a ser grande. Os mesmos olhos claros e attentos, a mesma bôca cheia de graça, as mãos finas, e uma côr viva nas faces que as fazia crêr pintadas de sangue. Eram sadios; exceptuada a crise dos dentes, não tiveram molestia alguma, porque eu não conto uma ou outra indigestão de doces, que os paes lhes davam, ou elles tiravam ás escondidas. Eram ambos gulosos, Pedro mais que Paulo, e Paulo mais que ninguem.

Aos sete annos eram duas obras-primas, ou antes uma só em dous volumes, como quizeres. Em verdade, não havia por toda aquella praia, nem por Flamengos ou Glorias, Cajus e outras redondezas, não havia uma, quanto mais duas creanças tão graciosas. Nota que eram tambem robustos. Pedro com um murro derrubava Paulo; em compensação, Paulo com um ponta-pé deitava Pedro ao chão. Corriam muito na chacara por aposta. Alguma vez quizeram trepar ás arvores, mas a mãe não consentia; não era bonito. Contentavam-se de espiar cá de baixo a fructa.

Paulo era mais aggressivo, Pedro mais dissimulado, e, como ambos acabavam por comer a fructa das arvores, era um moleque que a ia buscar acima, fosse a cascudo de um ou com promessa de outro. A promessa não se cumpria nunca; o cascudo, por ser antecipado, cumpria-se sempre, e ás vezes com repetição depois do serviço. Não digo com isto que um e outro dos gemeos não soubessem aggredir e dissimular; a differença é que cada um sabia melhor o seu gosto, cousa tão obvia que custa escrever.

Obedeciam aos paes sem grande esforço, posto fossem teimosos. Nem mentiam mais que outros meninos da cidade. Ao cabo, a mentira é alguma vez meia virtude. Assim é que, quando elles disseram não ter visto furtar um relogio da mãe, presente do pae, quando eram noivos, mentiram conscientemente, porque a criada que o tirou foi apanhada por elles em plena acção de furto. Mas era tão amiga delles! e com taes lagrimas lhes pediu que não dissessem a ninguem, que os gemeos negaram absolutamente ter visto nada. Contavam sete annos. Aos nove, quando já a moça ia longe, é que descobriram, não sei a que proposito, o caso escondido. A mãe quiz saber porque é que elles calaram outrora; não souberam explicar-se, mas é claro que o silencio de 1878 foi obra da affeição e da piedade, e dahi a meia-virtude, porque é alguma cousa pagar amor com amor. Quanto á revelação de 1880 só se póde explicar pela distancia do tempo. Já não estava presente a boa Miquelina; talvez ja estivesse morta. Demais, veiu tão naturalmente a referencia...

—Mas, porque é que vocês até agora não me disseram? teimava a mãe.

Não sabendo mais que razão déssem, um delles, creio que Pedro, resolveu accusar o irmão:

—Foi elle, mamãe!

—Eu? redarguiu Paulo. Foi elle, mamãe, elle é que não disse nada.

—Foi você!

—Foi você! não minta!

—Mentiroso é elle!

Cresceram um para o outro. Natividade acudiu prestemente, não tanto que impedisse a troca dos primeiros murros. Segurou-lhes os braços a tempo de evitar outros, e, em vez de os castigar ou ameaçar, beijou-os com tamanha ternura que elles não acharam melhor occasião de lhe pedir doce. Tiveram doce; tiveram tambem um passeio, á tarde, no carrinho do pae.

Na volta estavam amigos ou reconciliados. Contaram á mãe o passeio, a gente da rua, as outras creanças que olhavam para elles com inveja, uma que mettia o dedo na bôca, outro no nariz, e as moças que estavam ás janellas, algumas que os acharam bonitos. Neste ultimo ponto divergiam, porque cada um delles tomava para si só as admirações; mas a mãe interveiu:

—Foi para ambos. Vocês são tão parecidos, que não podia ser senão para ambos. E sabem porque é que as moças elogiaram vocês? Foi por ver que iam amigos, chegadinhos um ao outro. Meninos bonitos não brigam, ainda menos sendo irmãos. Quero vel-os quietos e amigos, brincando juntos sem rusga nem nada. Estão entendendo?

Pedro respondeu que sim; Paulo esperou que a mãe repetisse a pergunta, e deu egual resposta. Emfim, porque esta mandasse, abraçaram-se, mas foi um abraçar sem gosto, sem força, quasi sem braços; encostaram-se um ao outro, estenderam as mãos ás costas do irmão, e deixaram-n'as cair.

De noite, na alcova, cada um delles concluiu para si que devia os obsequios daquella tarde, o doce, os beijos e o carro, á briga que tiveram, e que outra briga podia render tanto ou mais. Sem palavras, como um romance ao piano, resolveram ir á cara um do outro, na primeira occasião. Isto que devia ser um laço armado á ternura da mãe, trouxe ao coração de ambos uma sensação particular, que não era só consolo e desforra do socco recebido naquelle dia, mas tambem satisfação de um desejo intimo, profundo, necessario. Sem odio, disseram ainda algumas palavras de cama a cama, riram de uma ou outra lembrança da rua, ate que o somno entrou com os seus pés de lã e bico calado, e tomou conta da alcova inteira.

Um dos meus proposrtos neste livro é não lhe pôr lagrimas. Entretanto, não posso calar as duas que rebentaram certa vez dos olhos de Natividade, depois de uma rixa dos pequenos. Apenas duas, e fôram morrer-lhe aos cantos da bôca. Tão depressa as verteu como as engoliu, renovando ás avessas e por palavras mudas o fecho daquellas historias de creanças: «entrou por uma porta, saiu pela outra, manda el-rei nosso senhor que nos conte outra.» E a segunda creança contava segunda historia, a terceira terceira, a quarta quarta, até que vinha o fastio ou o somno. Pessoas que datam do tempo em que se contavam taes historias affirmam que creanças não punham naquella formula nenhuma monarchica, fosse absoluta, fosse constitucional; era um modo de ligar o seuDecamerondellas, herdado do velho reino portuguez, quando os reis mandavam o que queriam, e a nação dizia que era muito bem.

Engolidas as duas lagrimas, Natividade riu da propria fraqueza. Não se chamou tola, porque esses desabafos raramente se usam, ainda em particular; mas no secreto do coração, lá muito ao fundo, onde não penetra olho de homem, creio que sentiu alguma cousa parecida com isso. Não tendo prova clara, limito-me a defender a nossa dona.

Em verdade, qualquer outra viveria a tremer pela sorte dos filhos, uma vez que houvera a rixa anterior e interior. Agora as lutas eram mais frequentes, as mãos cada vez mais aptas, e tudo fazia receiar que elles acabassem estripando-se um ao outro... Mas aqui surgia a ideia da grandeza e da prosperidade,—cousas futuras!—e esta esperança era como um lenço que enxugasse os olhos da bella senhora. As Sibyllas não terão dito só do mal, nem os Prophetas, mas ainda do bem, e principalmente delle.

Com esse lenço verde enxugou ella os olhos, e teria outros lenços, se aquelle ficasse roto ou enxovalhado; um, por exemplo, não verde como a esperança, mas azul, como a alma della. Ainda lhes não disse que a alma de Natividade era azul. Ahi fica. Um azul celeste, claro e transparente, que alguma vez se embruscava, raro tempestuava, e nunca a noite escurecia.

Não, leitor, não me esqueceu a edade da nossa amiga; lembra-me como se fosse hoje. Chegou assim aos quarenta annos. Não importa; o céu é mais velho e não trocou de côr. Uma vez que lhe não attribuas ao azul da alma nenhuma significação romantica, estás na conta. Quando muito, no dia em que perfez aquella edade, a nossa dona sentiu um calefrio. Que passára? Nada, um dia mais que na vespera, algumas horas apenas. Toda uma questão de numero, menos que numero, o nome do numero, esta palavraquarenta, eis o mal unico. Dahi a melancolia com que ella disse ao marido, agradecendo o mimo do anniversario: «Estou velha, Agostinho!» Santos quiz esganal-a brincando.

Pois faria mal se a esganasse. Natividade ainda tinha as fôrmas do tempo anterior á concepção, a mesma flexibilidade, a mesma graça miuda e viva. Conservava o donaire dos trinta. A costureira punha em relevo todos os pensamentos restantes da figura, e ainda lhe emprestava alguns do seu bolsinho. A cintura teimava em não querer engrossar, e os quadris e o collo eram do mesmo estofador antigo.

Ha dessas regiões em que o verão se confunde com o outono, como se dá na nossa terra, onde as duas estações só differem pela temperatura. Nella nem pela temperatura. Maio tinha o calor de janeiro. Ella, aos quarenta annos, era a mesma senhora verde, com a mesmissima alma azul.

Esta côr vinha-lhe do pae e do avô, mas o pae morreu cedo, antes do avô, que chegara aos oitenta e quatro. Nessa edade cria sinceramente que todas as delicias deste mundo, desde o café de manhã até os somnos socegados haviam sido inventados sómente para elle. O melhor cozinheiro da terra nascera na China, para o unico fim de deixar familia, patria, lingua, religião, tudo, e vir assar-lhe as costelletas e fazer-lhe o chá. As estrellas davam ássuasnoites una aspecto esplendido, o luar tambem, e a chuva, se chovia, era para que elle descançasse do sol. Lá está agora no cemiterio de S. Francisco Xavier; se alguem pudesse ouvir a voz dos mortos, dentro das sepulturas, ouviria a delle, bradando que é tempo de fechar a porta ao cemiterio e não deixar entrar ninguem, uma vez que elle já lá descança para todo sempre. Morreu azul; se chegasse aos cem annos, nao teria outra côr.

Ora, se a natureza queria poupar esta senhora, a riqueza dava a mão á natureza, e de uma e de outra saía a mais bella côr que alma de gente póde ter. Tudo concorria assim para lhe seccarem os olhos depressa, como vimos atraz. Se ella bebeu aquellas duas lagrimas solitarias, pudera ter bebido outras pela edade adeante, e isto é ainda uma prova daquelle matiz espiritual; mostrará assim que as tem poucas, e engole-as para poupal-as.

Mas ha ainda uma terceira causa que dava a esta senhora o sentimento da côr azul, causa tão particular que merecia ir em capitulo seu, mas não vae, por economia. Era a isenção, era o ter atravessado a vida intacta e pura. O cabo das Tormentas converteu-se em cabo da Boa Esperança, e ella venceu a primeira e a segunda mocidade, sem que os ventos lhe derribassem a nau, nem as ondas a engolissem. Não negaria que alguma lufada mais rija pudera levar-lhe a vela do traquete, como no caso de João de Mello, ou ainda peor, no de Ayres, mas fôram bocejos de Adamastor. Concertou a vela depressa e o gigante ficou atraz cercado de Thetis, emquanto ella seguiu o caminho da India. Agora lembrava-se da viagem prospera. Honrava-se dos ventos inuteis e perdidos. A memoria trazia-lhe o sabor do perigo passado. Eis aqui a terra encoberta, os dous filhos nados, criados e amados da fortuna.

Os quarenta e um annos não lhe trouxeram arrepio. Já estava acostumada á casa dos quarenta. Sentiu sim, um grande espanto; acordou e não viu o presente do costume, a «sorpreza» do marido ao pé da cama. Não a achou no toucador; abriu gavetas, espiou, nada. Creu que o marido esquecera a data e ficou triste; era a primeira vez! Desceu olhando; nada. No gabinete estava o marido, calado, mettido comsigo, a ler jornaes, mal lhe estendeu a mão. Os rapazes, apesar de ser domingo, estudavam a um canto; vieram dar-lhe o beijo do costume e tornaram aos livros. A mãe ainda relanceou os olhos pelo gabinete, a ver se achava algum mimo, um painel, um vestido, foi tudo vão. Embaixo de uma das folhas do dia que estava na cadeira fronteira á do marido podia ser que... Nada. Então sentou-se, e, abrindo a folha, ia dizendo comsigo: «Será possivel que não se lembre do dia de hoje? Será possivel?» Os olhos entraram a ler á toa, saltando as noticias, tornando atraz...

Defronte o marido espreitava a mulher, sem absolutamente importar-lhe o que parecia ler. Assim se passaram alguns minutos. De repente, Santos viu uma expressão nova no rosto de Natividade; os olhos della pareciam crescer, a bôca entre-abriu-se, a cabeça ergueu-se, a delle tambem, ambos deixaram a cadeira, deram dous passos e cairam nos braços um do outro, como dous namorados desesperados de amor. Um, dous, trez, muitos beijos. Pedro e Paulo, espantados, estavam ao canto, de pé. O pae, quando pôde falar, disse-lhes:

—Venham beijar a mão da senhora baroneza de Santos.

Não entenderam logo. Natividade não sabia que fizesse; dava a mão aos filhos, ao marido, e tornava ao jornal para ler e reler que no despacho imperial da vespera o Sr. Agostinho José dos Santos fôra agraciado com o titulo de Barão de Santos. Comprehendeu tudo. O presente do dia era aquelle; o ourives desta vez foi o imperador.

—Vão, vão, agora podem ir brincar, disse o pae aos filhos.

E os rapazes sairam a espalhar a noticia pela casa. Os criados ficaram felizes com a mudança dos amos. Os proprios escravos pareciam receber uma parcella de liberdade e condecoravam-se com ella: «Nhã Baroneza!» exclamavam saltando. E João puxava Maria, batendo castanholas com os dedos: «Gente, quem é esta creoula? Sou escrava de Nhã Baroneza!»

Mas o imperador não foi o unico ourives. Santos tirou do bolso uma caixinha, com um broche em que a corôa nova rutilava de brilhantes. Natividade agradeceu-lhe a joia e consentiu em pol-a, para que o marido a visse. Santos sentia-se autor da joia, inventor da fórma e das pedras; mas deixou logo que ella a tirasse e guardasse, e pegou das gazetas, para lhe mostrar que em todas vinha a noticia, algumas com adjectivo,conceituadoaqui, allidistincto, etc.

Quando Perpetua entrou no gabinete, achou-os andando de um lado para outro, com os braços passados pela cintura, conversando, calando, mirando os pés. Tambem ella deu e recebeu abraços.

Toda a casa estava alegre. Na chacara as arvores pareciam mais verdes que nunca, os botões do jardim explicavam as folhas, e o sol cobria a terra de uma claridade infinita. O céu, para collaborar com o resto, ficou azul o dia inteiro. Logo cedo entraram a vir cartões e cartas de parabens. Mais tarde visitas. Homens do foro, homens do commercio, homens de sociedade, muitas senhoras, algumas titulares tambem, vieram ou mandaram. Devedores de Santos acudiram depressa, outros preferiram continuar o esquecimento. Nomes houve que elles só puderam reconhecer á força de grande pesquiza e muito almanaque.

Sei que ha um ponto escuro no capitulo que passou; escrevo este para esclarecel-o.

Quando a esposa inquiriu dos antecendentes e circumstancias do despacho, Santos deu as explicações pedidas. Nem todas seriam estrictamente exactas; o tempo é um rato roedor das cousas, que as diminue ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto. Demais, a materia era tão propicia ao alvoroço que facilmente traria confusão á memoria. Ha, nos mais graves acontecimentos, muitos pormenores que se perdem, outros que a imaginação inventa para supprir os perdidos, e nem por isso a historia morre.

Resta saber (é o ponto escuro) como é que Santos pôde calar por longos dias um negocio tão importante para elle e para a esposa. Em verdade, esteve mais de uma vez a dizer por palavra ou por gesto, se achasse algum, aquelle segredo de poucos; mas, sempre havia uma força maior que lhe tapava a bôca. Ao que parece, foi a expectação de uma alegria nova e inesperada que lhe deu a alma de pacientar.

Naquella scena do gabinete tudo foi composto de antemão, o silencio, a indifferença, os filhos que elle poz alli, estudando ao domingo, só para o effeito daquella phrase: «Venham beijar a mão da senhora baroneza de Santos!»

Que os dous gemeos participassem da lua de mel nobiliaria dos paes não é cousa que se precise escrever. O amor que lhes tinham bastava a explical-o, mas accresce que, havendo o titulo produzido em outros meninos dous sentimentos oppostos, um de estima, outro de inveja, Pedro e Paulo concluiram ter recebido com elle um merito especial. Quando, mais tarde, Paulo adoptou a opinião republicana nunca envolveu aquella distincção da familia na condemnação das instituições. Os estados de alma que daqui nasceram davam materia a um capitulo especial, se eu não preferisse agora um salto, e ir a 1886. O salto é grande, mas o tempo é um tecido invisivel em que se póde bordar tudo, uma flor, um passaro, uma dama, um castello, um tumulo. Tambem se póde bordar nada. Nada em cima de invisivel é a mais subtil obra deste mundo, e acaso do outro.

Naquelle anno, uma noite de agosto, como estivessem algumas pessoas na casa de Botafogo, succedeu que uma dellas, não sei se homem ou mulher, perguntou aos dous irmãos que edade tinham.

Paulo respondeu:

—Nasci no anniversario do dia em que Pedro I caiu do throno.

E Pedro:

—Nasci no anniversario do dia em que Sua Majestade subiu ao throno.

As respostas foram simultaneas, não successivas, tanto que a pessoa pediu-lhes que falasse cada um por sua vez. A mãe explicou:

—Nasceram no dia 7 de Abril de 1870.

Pedro repetiu vagarosamente:

—Nasci no dia em que Sua Majestade subiu ao throno.

E Paulo, em seguida:

—Nasci no dia em que Pedro I caiu do throno.

Natividade reprehendeu a Paulo a sua resposta subversiva. Paulo explicou-se, Pedro contestou a explicação e deu outra, e a sala viraria club, se a mãe não os accommodasse por esta maneira:

—Isto hão de ser grupos de collegio; vocês não estão em edade de falar em politica. Quando tiverem barbas.

As barbas não queriam vir, por mais que elles chamassem o buço com os dedos, mas as opiniões politicas e outras vinham e cresciam. Não eram propriamente opiniões, não tinham raizes grandes nem pequenas. Eram (mal comparando) gravatas de côr particular, que elles atavam ao pescoço, á espera que a côr cançasse e viesse outra. Naturalmente cada um tinha a sua. Tambem se póde crêr que a de cada um era, mais ou menos, adequada á pessoa. Como recebiam as mesmas approvações e distincções nos exames, faltava-lhes materia a invejas; e, se a ambição os dividisse algum dia, não era por ora aguia nem condor, ou sequer filhote; quando muito, um ovo. No collegio de Pedro II todos lhes queriam bem.

As barbas é que não queriam vir. Que é que se lhes ha de fazer quando as barbas não querem vir? Esperar que venham por seu pé, que appareçam, que cresçam, que embranqueçam, como é seu costume dellas, salvo as que não embranquecem nunca, ou só em parte e temporariamente. Tudo isto é sabido e banal, mas dá ensejo a dizer de duas barbas do ultimo genero, celebres naquelle tempo, e ora totalmente esquecidas. Não tendo outro logar em que fale dellas, aproveito este capitulo, e o leitor que volte a pagina, se prefere ir atraz da historia. Eu ficarei durante algumas linhas, recordando as duas barbas mortas, sem as entender agora, como não as entendemos então, as mais inexplicaveis barbas do mundo.

A primeira daquellas barbas era de um amigo de Pedro, um capucho, um italiano, frei ***. Podia escrever-lhe o nome,—ninguem mais o conheceria,—mas prefiro esse signal trino, numero de mysterio, expresso por estrellas, que são os olhos do céu. Trata-se de um frade. Pedro não lhe conheceu a barba preta, mas já grisalha, longa e basta, adornando uma cabeça mascula e formosa. A bôca era risonha, os olhos rutilos. Ria por ella e por elles, tão docemente que mettia a gente no coração. Tinha o peito largo, as espaduas fortes. O pé nú, atado á sandalia, mostrava aguentar um corpo de Hercules. Tudo isso meigo e espiritual, como uma pagina evangelica. A fé era viva, a affeição segura, a paciencia infinita.

Frei *** despediu-se um dia de Pedro. Ia ao interior, Minas, Rio Janeiro, S. Paulo,—creio que ao Paraná tambem,—viagem espiritual, como a de outros confrades, e lá ficou por um semestre ou mais. Quando voltou trouxe-nos a todos grande alegria e maior espanto. A barba estava negra, não sei se tanto ou mais que d'antes, mas negrissima e brilhantissima. Não explicou a mudança, nem ninguem lhe perguntou por ella; podia ser milagre ou capricho da natureza; tambem podia ser correcção de homem, posto que o ultimo caso fosse mais difficil de crêr que o primeiro. Durou nove mezes esta côr; feita outra viagem por trinta dias, a barba appareceu de prata ou de neve, como vos parecer mais branca.

Quanto á segunda de taes barbas, foi ainda mais espantosa. Não era de frade, mas de maltrapilho, um sujeito que vivia de dividas, e na mocidade corrigira um velho rifão da nossa lingua por esta maneira: «Paga o que deves, vê o que tenãofica.»

Chegou aos cincoenta annos sem dinheiro, sem emprego, sem amigos. A roupa teria a mesma edade, os sapatos não menor que ella. A barba é que não chegou aos cincoenta; elle pintava-a de negro e mal, provavelmente por não ser a tinta de primeira qualidade e não possuir espelho. Andava só, descia ou subia muita vez a mesma rua. Um dia dobrou a esquina da Vida e caiu na praça da Morte, com as barbas enxovalhadas, por não haver quem lh'as pintasse na Santa Casa.

Or, benè, para falar como o meu capucho, porque é que este e o maltrapilho voltaram do grisalho ao negro? A leitora que adivinhe, se póde: dou-lhe vinte capitulos para alcançal-o. Talvez eu, por essas alturas, lobrigue alguma explicação, mas por ora não sei nem aventuro nada. Vá que malignos attribuam a frei *** alguma paixão profana; ainda assim não se comprehende que elle se descobrisse por aquelle modo. Quanto ao maltrapilho, a que damas queria elle agradar, a ponto de trocar alguma vez o pão pela tinta? Que um e outro cedessem ao desejo de prender a mocidade fugitiva, póde ser. O frade, lido na Escriptura, sabendo que Israel chorou pelas cebolas do Egypto, teria tambem chorado, e as suas lagrimas cairam negras. Póde ser, repito. Este desejo de capturar o tempo é uma necessidade da alma e dos queixos; mas ao tempo dá Deushabeas-corpus.

Tanto cresceram as opiniões de Pedro e Paulo que, um dia, chegaram a incorporar-se em alguma cousa. Iam descendo pela rua da Carioca. Havia alli uma loja de vidraceiro, com espelhos de vario tamanho, e, mais que espelhos, tambem tinha retratos velhos e gravuras baratas, com e sem caixilho. Pararam alguns instantes, olhando á toa. Logo depois, Pedro viu pendurado um retrato de Luiz XVI, entrou e comprou-o por oitocentos reis; era uma simples gravura atada ao mostrador por um barbante. Paulo quiz ter egual fortuna, adequada ás suas opiniões, e descobriu um Robespierre. Como o logista pedisse por este mil e duzentos, Pedro exaltou-se um pouco.

—Então o senhor vende mais barato um rei, e um rei martyr?

—Ha de perdoar, mas é que esta outra gravura custou-me mais caro, redarguiu o velho logista. Nós vendemos conforme o preço da compra. Veja; está mais nova.

—Lá isso, não, acudiu Paulo. São do mesmo tempo; mas é que este vale mais que aquelle.

—Ouvi dizer que tambem era rei...

—Qual, rei! responderam os dous.

—Ou quiz sel-o, não sei bem... Que eu de historias, apenas conheço a dos mouros que aprendi na minha terra com a avó, alguns bocados em verso. E elle ainda ha mouras lindas; por exemplo, esta; apesar do nome, creio que era moura, ou ainda é, se vive... Mal lhe saiba ao marido!

Foi a um canto e trouxe um retrato de Madame de Stael, com o famoso turbante na cabeça. Ó effeito da belleza! Os rapazes esqueceram por um instante as opiniões politicas e ficaram a olhar longamente a figura de Corinna. O logista, apesar dos seus setenta annos, tinha os olhos babados. Cuidou de sublinhar as formas, a cabeça, a bôca um tanto grossa, mas expressiva, e dizia que não era caro. Como nenhum quizesse compral-a, talvez por ser só uma, disse-lhes que ainda tinha outro, mas esse era «uma pouca vergonha,» phrase que os deuses lhe perdoariam, quando soubessem que elle não quiz mais que abrir o appetite aos freguezes. E foi a um armario, tirou de lá, e trouxe uma Diana, núa como vivia cá em baixo, outr'ora, nos mattos. Nem por isso a vendeu. Teve de contentar-se com os retratos politicos.

Quiz ainda ver se colhia algum dinheiro, vendendo-lhes um retrato de Pedro I, encaixilhado, que pendia da parede; mas, Pedro recusou por não ter dinheiro disponivel, e Paulo disse que não daria um vintem pela «cara de traidores». Antes não dissesse nada! O logista, tão depressa lhe ouviu a resposta como despiu as fôrmas obsequiosas, vestiu outras indignadas, e bradou que sim, senhor, que o moço tinha razão.

—Tem muita razão. Foi um traidor, mau filho. mau irmão, mau tudo. Fez todo o mal que pôde a este mundo; e no inferno, onde está, se a religião não mente, deve ainda fazer mal ao Diabo. Este moço falou ha pouco em rei martyr,—continuou mostrando-lhes um retrato de D. Miguel de Bragança, meio perfil, sobrecasaca, mão ao peito,—este é que foi um verdadeiro martyr daquelle, que lhe roubou o throno, que não era seu, para dal-o a quem não pertencia; e foi morrer á mingua o meu pobre rei e senhor, dizem que na Allemanha, ou não sei onde. Ah!malhados!Ah! filhos do Diabo! Os senhores não podem imaginar o que era aquella canalha de liberaes. Liberaes! Liberaes do alheio!

—É tudo a mesma farinha, reflexionou Paulo.

—Eu não sei se elles eram de farinha, sei que levaram muita pancada. Venceram, mas apanharam deveras. Meu pobre rei!

Pedro quiz responder ao remoque do irmão, e propoz comprar o retrato de Pedro I. Quando o logista tornou a si, começou a negociar a venda, mas não poderam entender-se no preço; Pedro dava os mesmos oitocentos reis do outro, o logista pedia dous mil reis. Notava-lhe que estava encaixilhado, e Luiz XVI não; além disso, era mais novo. E vinha á porta, a buscar melhor luz, chamava-lhe a attenção para o rosto, os olhos principalmente, que bella expressão que tinham! E o manto imperial...

—Que lhe custa dar dous mil reis?

—Dou-lhe dez tostões; serve?

—Não serve. Mais que isso me custou elle.

—Pois então...

—Veja sempre. Pois isto não vale até trez mil reis? 0 papel não está encardido; a gravura é fina.

—Dez tostões, já disse.

—Não, senhor. Olhe, por dez tostões leve este de D. Miguel; o papel está bem conservado, e, com pouco dinheiro, manda lhe pôr um caixilho. Vá; dez tostões.

—Se eu já estou arrependido... Dez tostões pelo imperador.

—Ah! isso não! Custou-me mil e setecentos, ha trez semanas; ganho uns trezentos reis, quasi nada. Ganho menos com o senhor D. Miguel, mas tambem concordo que é menos procurado. Este de D. Pedro I, se passar amanhã, talvez já o não ache. Vá, sim?

—Eu passo depois.

Paulo já ia andando e mirando Robespierre; Pedro alcançou-o.

—Olhe, leve por sete tostões o senhor D. Miguel!

Pedro abanou a cabeça.

—Seis tostões serve?

Pedro, ao lado do irmão, desenrolára a sua gravura. O velho logista quiz ainda bradar: «Cinco tostões!» mas iam já longe, e ficava mal negociar assim.

—Assim como assim, ficou pensando o velho, não ha de ser enrolado e guardado que o hei de vender; vou mandal-o encaixilhar; põem-se-lhe aqui umas taboinhas velhas...

D. Miguel voltou para elle os olhos turvos de tristeza e reproche; assim lhe pareceu ao vidraceiro, mas podia ter sido illusão. Em todo caso, pareceu tambem que os olhos tornavam ao seu logar, fitando á direita, ao longe... Para onde? Para onde ha justiça eterna, cuidou naturalmente o dono. Como estivesse a contemplal-o, á porta, parou um homem, entrou, e olhou com interesse para o retrato. O logista reparou na expressão; podia ser algum miguelista, mas tambem podia ser um colleccionador...

—Quanto pede o senhor por isto?

—Isto? Ha de perdoar; quer saber quanto peço pelo meu rico senhor D. Miguel? Não peço muito, está um tanto encardido, mas ainda se lhe aprecia bem a figura. Que soberba que ella é! Não é caro; dou-lhe pelo custo; se estivesse encaixilhado, valeria uns quatro mil reis. Leve-o por trez.

O freguez tirou tranquillamente o dinheiro do bolso, emquanto o velho enrolava o retrato, e, trocados um por outro, despediram-se cortezes e satisfeitos; o logista, depois de ir até a porta, tornou á cadeira do costume. Talvez pensasse no mal a que escapára, se vendesse o retrato por dez tostões. Em todo caso, ficou a olhar para fóra, para longe, para onde ha justiça eterna... Trez mil reis!

Quasi que não é preciso dizer o destino dos retratos do rei e do convencional. Cada um dos pequenos pregou o seu á cabeceira da cama. Pouco durou esta situação, porque ambos faziam pirraças ás pobres gravuras, que não tinham culpa de nada. Eram orelhas de burro, nomes feios, desenhos de animaes, até que um dia Paulo rasgou a de Pedro, e Pedro a de Paulo. Naturalmente, vingaram-se a murro; a mãe ouviu rumor e subiu apressada. Conteve os filhos, mas já os achou arranhados e recolheu-se triste. Nunca mais acabaria aquella maldição de rivalidade? Fez esta pergunta calada, atirada á cama, a cara mettida no travesseiro, que desta vez ficou secco, mas a alma chorou.

Natividade confiava na educação, mas a educação, por mais que ella a apurasse, apenas quebrava as arestas ao caracter dos pequenos, o essencial ficava; as paixões embryonarias trabalhavam por viver, crescer, romper, taes quaes ella sentira os dous no proprio seio, durante a gestação... E recordava a crise de então, acabando por maldizer da cabocla do Castello. Realmente, a cabocla devia ter calado; o mal calado não se muda, mas não se sabe. Agora, póde ser que isto de não calar confirme a opinião de que a cabocla era mandada por Deus para dizer a verdade aos homens. E afinal o que é que ella disse a Natividade? Não fez mais que uma pergunta mysteriosa; a predicção é que foi luminosa e clara... E outra vez as palavras do Castello resoaram aos ouvidos da mãe, e a imaginação fez o resto. Cousas futuras! Eil-os grandes e sublimes. Algumas brigas em pequenos, que importa? Natividade sorriu, ergueu-se, foi á porta, deu com o filho Pedro, que vinha explicar-se.

—Mamãe, Paulo é mau. Se mamãe ouvisse os horrores que elle solta pela bôca fóra, mamãe morria de medo. Custa-me muito não ir á cara delle; ainda lhe não tirei um olho...

—Meu filho, não fales assim, é teu irmão.

—Pois que não se metta commigo, não me aborreça. Que blasphemias que elle dizia! Como eu rezava por alma de Luiz XVI, elle, para machucar-me bem, rezava a Robespierre; compoz uma ladainha chamando santo ao outro e cantarolava baixinho para que papae nem mamãe ouvissem. Eu sempre lhe dei alguns cascudos...

—Ahi está!

—Mas é que elle é que me dava primeiro, porque eu punha orelhas de burro em Robespierre... Então, eu havia de apanhar calado?

—Nem calado, nem falando.

—Então, como? Apanhar sempre, não é?

—Não, senhor; não quero pancadas; o melhor é que esqueçam tudo e se queiram bem. Você não vê como seus paes se querem? As brigas acabaram de todo. Não quero ouvir rusgas nem queixas. Afinal que tem vocês com um sujeito mau que morreu ha tantos annos?

—É o que eu digo, mas elle não se emenda.

—Ha de emendar-se; os estudos fazem esquecer creancices. Você tambem quando fôr medico tem muito que brigar com as molestias e a morte; é melhor que andar dando pancada em seu irmão... Que é lá isso? Não quero arremeços, Pedro! Socegue, ouça-me.

—Mamãe é sempre contra mim.

—Não sou contra nenhum, sou por ambos, ambos são meus filhos. E demais gemeos. Anda cá, Pedro. Não penses que eu desapprovo as tuas opiniões politicas. Até gósto; são as minhas, são as nossas. Paulo ha de tel-as tambem. Na edade delle acceita-se quanta tolice ha, mas o tempo corrige. Olha, Pedro, a minha esperança é que vocês sejam grandes homens, mas com a condição de serem tambem grandes amigos.

—Eu estou prompto a ser grande homem, assentiu Pedro com ingenuidade, quasi com resignação.

—E grande amigo tambem.

—Se elle fôr, serei.

—Grandes homens! exclamou Natividade, dando-lhe dous abraços, um para elle, outro para o irmão quando viesse.

Mas Paulo veiu logo, e recebeu o abraço inteiro e de verdade. Vinha tambem queixar-se, e sempre resmungou alguma cousa, mas a mãe não quiz ouvil-o, e falou outra vez a linguagem das grandezas. Paulo consentiu tambem em ser grande.

—Você será medico, disse Natividade a Pedro, e você advogado. Quero ver quem faz as melhores curas, e ganha as peiores demandas.

—Eu, disseram ambos a um tempo.

—Patetas! Cada um terá a sua carreira especial, a sua sciencia differente. Já estão curados do nariz? Já; não ha mais sangue. Agora o primeiro que ferir seu irmão será degradado.

Foi um recurso habil separal-os; um ficava no Rio, estudando medicina, outro ia para S. Paulo, estudar direito. O tempo faria o resto, não contando que cada um casava e iria com a mulher para o seu lado. Era a paz perpetua; mais tarde viria a perpetua amizade.

Eis aqui entra uma reflexão da leitora: «Mas se duas velhas gravuras os levam a murro e sangue, contentar-se-hão elles com a sua esposa? Não quererão a mesma e unica mulher?»

O que a senhora deseja, amiga minha, é chegar já ao capitulo do amor ou dos amores, que é o seu interesse particular nos livros. Dahi a habilidade da pergunta, como se dissesse: «Olhe que o senhor ainda nos não mostrou a dama ou damas que têm de ser amadas ou pleiteadas por estes dous jovens inimigos. Já estou cançada de saber que os rapazes não se dão ou se dão mal; é a segunda ou terceira vez que assisto ás blandicias da mãe ou aos seus ralhos amigos. Vamos depressa ao amor, ás duas, se não é uma só a pessoa...»

Francamente, eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escripto com methodo. A insistencia da leitora em falar de uma só mulher chega a ser impertinente. Supponha que elles devéras gostem de uma só pessoa; não parecerá que eu conto o que a leitora me lembrou, quando a verdade é que eu apenas escrevo o que succedeu e póde ser confirmado por dezenas de testemunhas? Não, senhora minha, não puz a penna na mão, á espreita do que me viessem suggerindo. Se quer compôr o livro, aqui tem a penna, aqui tem papel, aqui tem um admirador; mas, se quer ler sómente, deixe-se estar quieta, vá de linha em linha; dou-lhe que boceje entre dous capitulos, mas espere o resto, tenha confiança no relator destas aventuras.

Sim, houve uma pessoa, mais moça que elles, um a dous annos, que os agrilhoou, á força de costume ou de natureza, se não foi de ambas as cousas. Antes d'essa, póde ser que houvesse outras e mais velhas que elles, mas de taes não rezam as notas que servem a este livro. Se brigaram por ellas, não ficou memoria disso, mas é possivel, dado que tivessem tido as mesmas preferencias; no caso contrario tambem, como succedia aos cavalleiros que defendiam a sua dama.

Conjecturas tudo. Era natural que, assim bonitos, eguaes, elegantes, dados á vida e ao passeio, á conversação e á dança, finalmente herdeiros, era natural que mais de uma menina gostasse delles. As que os viam passar a cavallo, praia fóra ou rua acima, ficavam namoradas daquella ordem perfeita de aspecto e de movimento. Os proprios cavallos eram eguaesinhos, quasi gemeos, e batiam as patas com o mesmo rythmo, a mesma força e a mesma graça. Não creias que o gesto da cauda e das crinas fosse simultaneo nos dous animaes; não é verdade e póde fazer duvidar do resto. Pois o resto é certo.

A pessoa mais moça não entra já neste capitulo por uma razão valiosa, que é a conveniencia de apresentar primeiro os paes. Não é que se não possa vel-a bem sem elles; póde-se, os trez são diversos, acaso contrarios, e, por mais especial que a acheis, não é preciso que os paes estejam presentes. Nem sempre os filhos reproduzem os paes. Camões affirmou que de certo pae só se podia esperar tal filho, e a sciencia confirma esta regra poetica. Pela minha parte creio na sciencia como na poesia, mas ha excepções, amigo. Succede, ás vezes, que a natureza faz outra cousa, e nem por isso as plantas deixam de crescer e as estrellas de luzir. O que se deve crêr sem erro é que Deus é Deus; e, se alguma rapariga arabe me estiver lendo, ponha-lhe Allah. Todas as linguas vão dar ao céu.

A gente Baptista conheceu a gente Santos em não sei que fazenda da provincia do Rio. Não foi Maricá, embora alli tivesse nascido o pae dos gemeos; seria em qualquer outro municipio. Fosse qual fosse, alli é que se conheceram as duas familias, e como morassem proximas em Botafogo, a assiduidade e a sympathia vieram ajudando o caso fortuito.

Baptista, o pae da donzella, era homem de quarenta e tantos annos, advogado do civel, ex-presidente de provincia e membro do partido conservador. A ida á fazenda tivera por objecto exactamente uma conferencia politica para fins eleitoraes, mas tão esteril que elle tornou de lá sem, ao menos, um ramo de esperança. Apesar de ter amigos no governo, não alcançára nada, nem deputação, nem presidencia. Interrompêra a carreira desde que foi exonerado daquelle cargo «a pedido», disse o decreto, mas as queixas do exonerado fariam crêr outra cousa. De facto, perdera as eleições, e attribuia a esse desastre politico a demissão do cargo.

—Não sei o que é que elle queria que eu fizesse mais, dizia Baptista falando do ministro. Cerquei egrejas; nenhum amigo pediu policia que eu não mandasse; processei talvez umas vinte pessoas, outras foram para a cadeia sem processo. Havia de enforcar gente? Ainda assim houve duas mortes no Ribeirão das Moças.

O final era excessivo, porque as mortes não fôram obra delle; quando muito, elle mandou abafar o inquerito, si se póde chamar inquerito a uma simples conversação sobre a ferocidade dos dous defuntos. Em summa, as eleições fôram incruentas.

Baptista dizia que por causa das eleições perdera a presidencia, mas corria outra versão, um negocio de aguas, concessão feita a um hespanhol, a pedido do irmão da esposa do presidente. O pedido era verdadeiro, a imputação de socio é que era falsa. Não importa; tanto bastou para que a folha da opposição dissesse que houve naquillo um bom «arranjo de familia», accrescentando que, como era de aguas, devia ser negocio limpo. A folha da administração retorquiu que, se aguas havia, não eram bastantes para lavar o sujo do carvão deixado pela ultima presidencia liberal, um fornecimento de palacio. Não era exacto; a folha da opposição reviveu o processo antigo e mostrou que a defeza fôra cabal. Podia parar aqui, mas continuou que, «como agora estavamos em Hespanha», o presidente emendou o poeta hespanhol, autor daquelle epitaphio:

Cuñados y juntos:Es cierto que estan difuntos;

e emendou-o por não ser obrigado a matar ninguem, antes deu vida a si e aos seus, dizendo pela nossa lingua:

Cunhados e cunhadissimos;É certo que são vivissimos!

Baptista acudiu depressa ao mal, declarando sem effeito a concessão, mas isso mesmo serviu á opposição para novos arremeços: «Temos a confissão do reu!» foi o titulo do primeiro artigo que rendeu á folha da opposição o acto do presidente. Os correspondentes tinham já escripto para o Rio de Janeiro falando da concessão, e o governo acabou por demittir o seu delegado. Em verdade, só os politicos cuidaram do negocio. D. Claudia apenas alludia á campanha da imprensa, que foi violentissima.

—Não valia a pena sair daqui, disse Natividade.

—Lá isso não, baroneza!

E D. Claudia affirmou que valia. Soffre-se, mas paciencia. Era tão bom chegar á provincia! Tudo annunciado, as visitas a bordo, o desembarque, a posse, os comprimentos... Ver a magistratura, o funcionalismo, a officialidade, muita calva, muito cabello branco, a flor da terra, emfim, com as suas cortezias longas e demoradas, todas em angulo ou em curva, e os louvores impressos. As mesmas descomposturas da opposição eram agradaveis. Ouvir chamar tyranno ao marido, que ella sabia ter um coração de pomba, ia bem á alma della. A sêde de sangue que se lhe attribuia, elle que nem bebia vinho, o guante de ferro de um homem que era uma luva de pellica, a immoralidade, a desfaçatez, a falta de brio, todos os nomes injustos, mas fortes, que ella gostava de ler, como verdades eternas, onde iam elles agora? A folha da opposição era a primeira que D. Claudia lia em palacio. Sentia-se vergastada tambem e tinha nisso uma grande volupia, como si fosse na propria pelle; almoçava melhor. Onde iam os lategos daquelle tempo? Agora mal podia ler o nome delle impresso no fim de algumas razões do foro, ou então na lista das pessoas que iam visitar o imperador.

—Nem sempre, explicou D. Claudia; Baptista é muito acanhado; vae de longe em longe a S. Christovão, para não parecer que se faz lembrado, como se isto fosse crime; ao contrario, não ir nunca é que póde parecer arrufo. Note que o imperador nunca deixou de recebel-o com muita benevolencia, e a mim tambem. Nunca esqueceu o meu nome. Já deixei de lá ir dous annos, e quando appareci, perguntou-me logo: «Como vae, D. Claudia?»

Afóra essas saudades do poder, D. Claudia era uma creatura feliz. A viveza das palavras e das maneiras, os olhos que pareciam não ver nada á força de não pararem nunca, e o sorriso benevolo, e a admiração constante, tudo nella era ajustado a curar as melancolias alheias. Quando beijava ou mirava as amigas era como se as quizesse comer vivas, comer de amor, não de odio, mettel-as em si, muito em si, no mais fundo de si.

Baptista não tinha as mesmas expansões. Era alto e o ar socegado dava um bom aspecto de governo. Só lhe faltava acção, mas a mullher podia inspirar-lh'a; nunca deixou de consultal-a nas crises da presidencia. Agora mesmo, se lhe désse ouvidos, já teria ido pedir alguma cousa ao governo, mas neste ponto era firme, de uma firmeza que nascia da fraqueza: «Hão de chamar-me, deixa estar,» dizia elle a D. Claudia, quando apparecia alguma vaga de governo provincial. Certo é que elle sentia a necessidade de tornar á vida activa. Nelle a politica era menos uma opinião que uma sarna; precisava coçar-se a miudo e com força.

Tal era aquelle casal de politicos. Um filho, se elles tivessem um filho varão, podia ser a fusão das suas qualidades oppostas, e talvez um homem de Estado. Mas o céu negou-lhes essa consolação dynastica.

Tinham uma filha unica, que era tudo o contrario d'elles. Nem a paixão de D. Claudia, nem o aspecto governamental de Baptista distinguia a alma ou a figura da joven Flora. Quem a conhecesse por esses dias, poderia comparal-a a um vaso quebradiço ou á flor de uma só manhã, e teria materia para uma doce elegia. Já então possuia os olhos grandes e claros, menos sabedores, mas dotados de um mover particular, que não era o espalhado da mãe, nem o apagado do pae, antes mavioso e pensativo, tão cheio de graça que faria amavel a cara de um avarento. Põe-lhe o nariz aquilino, rasga-lhe a bôca meio risonha, formando tudo um rosto comprido, alisa-lhe os cabellos ruivos, e ahi tens a moça Flora.

Nasceu em agosto de 1871. A mãe, que datava por ministerios, nunca negou a edade da filha:

—Flora nasceu no ministerio Rio-Branco, e foi sempre tão facil de aprender, que já no ministerio Sinimbú sabia ler escrever correntemente.

Era retrahida e modesta, avêssa a festas publicas, e difficilmente consentiu em aprender a dançar. Gostava de musica, e mais do piano que do canto. Ao piano, entregue a si mesma, era capaz de não comer um dia inteiro. Ha ahi o seu tanto de exagerado, mas a hyperbole é deste mundo, e as orelhas da gente andam já tão entupidas que só á força de muita rhetorica se póde metter por ellas um sopro de verdade.

Até aqui nada ha que extraordinariamente distinga esta moça das outras, suas contemporaneas, desde que a modestia vae com a graça, e em certa edade é tão natural o devaneio como a travessura. Flora, aos quinze annos, dava-lhe para se metter comsigo. Ayres, que a conheceu por esse tempo, em casa de Natividade, acreditava que a moça viria a ser uma inexplicavel.

—Como diz? inquiriu a mãe.

—Verdadeiramente, não digo nada, emendou Ayres; mas, se me permitte dizer alguma cousa, direi que esta moça resume as raras prendas de sua mãe.

—Mas eu não sou inexplicavel, replicou D. Claudia sorrindo.

—Ao contrario, minha senhora. Tudo está, porem, na definição que dermos a esta palavra. Talvez não haja nenhuma certa. Supponhamos uma creatura para quem não exista perfeição na terra, e julgue que a mais bella alma não passa de um ponto de vista; se tudo muda com o o ponto de vista, a perfeição...

—A perfeição é copas, insinuou Santos.

Era um convite ao voltarete. Ayres não teve animo de acceitar, tão inquieta lhe pareceu Flora, com os olhos nelle, interrogativos, curiosos de saber porque é que ella era ou viria a ser inexplicavel. Além disso, preferia a conversação das mulheres. É delle esta phrase doMemorial:«Na mulher, o sexo corrige a banalidade; no homem, aggrava.»

Não foi preciso acceitar nem recusar o convite de Santos; chegaram dous habituados do jogo, e com elles Baptista, que estava na saleta proxima, Santos foi ao recreio de todas as noites. Um daquelles era o velho Placido, doutor em spiritismo; o segundo era um corretor da praça, chamado Lopes, que amava as cartas pelas cartas, e sentia menos perder dinheiro que partidas. Lá se fôram ao voltarete, emquanto Ayres ficava no salão, a ouvir a um canto as damas, sem que os olhos de Flora se despegassem d'elle.

Já então este ex-ministro estava aposentado. Regressou ao Rio de Janeiro, depois de um ultimo olhar ás cousas vistas, para aqui viver o resto dos seus dias. Podia fazel-o em qualquer cidade, era homem de todos os climas, mas tinha particular amor á sua terra, e por ventura estava cançado de outras. Não attribuia a esta tantas calamidades. A febre amarella, por exemplo, á força de a desmentir lá fóra, perdeu-lhe a fé, e cá dentro, quando via publicados alguns casos, estava já corrompido por aquelle credo que attribue todas as molestias a uma variedade de nomes. Talvez porque era homem sadio.

Não mudára inteiramente; era o mesmo ou quasi. Encalveceu mais, é certo, terá menos carnes, algumas rugas; ao cabo, uma velhice rija de sessenta annos. Os bigodes continuam a trazer as pontas finas e agudas. O passo é firme, o gesto grave, com aquelle toque de galanteria, que nunca perdeu. Na botoeira, a mesma flor eterna.

Tambem a cidade não lhe pareceu que houvesse mudado muito. Achou algum movimento mais, alguma opera menos, cabeças brancas, pessoas defuntas; mas a velha cidade era a mesma. A propria casa delle no Cattete estava bem conservada. Ayres despediu o inquilino, tão polidamente como se recebesse o ministro dos negocios estrangeiros, e metteu-se nella a si e a um criado, por mais que a irmã teimasse em leval-o para Andarahy.

—Não, mana Rita, deixe-me ficar no meu canto.

—Mas eu sou a sua ultima parenta, disse ella.

—De sangue e de coração, isso é, concordou elle; póde accrescentar que a melhor de todas e a mais pia. Onde estão aquelles cabellos...? Não precisa baixar os olhos. Você os cortou para metter no caixão de seu finado marido. Os que ahi estão embranqueceram; mas os que lá ficaram eram pretos, e mais de uma viuva os teria guardado todos para as segundas nupcias.

Rita gostou de ouvir aquella referencia. Outr'ora, não; pouco depois de viuva, tinha vexame de um acto tão sincero; achava-se quasi ridicula. Que valia cortar os cabellos por haver perdido o melhor dos maridos? Mas, andando o tempo, entrou a ver que fizera bem, a approvar que lh'o dissessem, e, na intimidade, a lembral-o. Agora serviu a allusão para replicar:

—Pois se eu sou isso, porque é que você prefere viver com extranhos?

—Que extranhos? Não vou viver com ninguem. Viverei com o Cattete, o largo do Machado, a praia de Botafogo e a do Flamengo, não falo das pessoas que lá moram, mas das ruas, das casas, dos chafarizes e das lojas. Ha lá cousas exquisitas, mas sei eu se venho achar em Andarahy uma casa de pernas para o ar, por exemplo? Contentemo-nos do que sabemos. Lá os meus pés andam por si. Ha alli cousas petrificadas e pessoas immortaes, como aquelle Custodio da confeitaria, lembra-se?

—Lembra-me, aConfeitaria do Imperio.

—Ha quarenta annos que a estabeleceu; era ainda no tempo em que os carros pagavam imposto de passagem. Pois o diabo está velho, mas não acaba; ainda me ha de enterrar. Parece rapaz; apparece-me lá todas as semanas.

—Você tambem parece rapaz.

—Não brinque, mana; eu estou acabado. Sou um velho gamenho, pôde ser; mas não é por agradar a moças, é porque me ficou este geito... E a proposito, porque não vae você morar commigo?

—Ah! é para saber que tambem eu gosto de estar commigo. Irei lá de vez em quando, mas já não saio d'aqui, se não para o cemiterio.

Ajustaram visitar um ao outro; Ayres viria jantar ás quinta-feiras. D. Rita ainda lhe falou dos casos de molestia d'elle, ao que Ayres replicou que não adoecia nunca, mas se adoecesse viria para Andarahy; o coração della era o melhor dos hospitaes. Talvez que em todas essas recusas houvesse tambem a necessidade de fugir á contradicção, porque a irmã sabia inventar occasiões de dissidencia. Naquelle mesmo dia (era ao almoço) elle achou o café delicioso, mas a irmã disse que era ruim, obrigando-o a um grande esforço para tornar atraz e achal-o detestavel.

A principio, Ayres cumpriu a solidão, separou-se da sociedade, metteu-se em casa, não apparecia a ninguem ou a raros e de longe em longe. Em verdade estava cançado de homens e de mulheres, de festas e de vigilias. Fez um programma. Como era dado a letras classicas, achou no padre Bernardes esta traducção daquelle psalmo: «Alonguei-me fugindo e morei na soedade.» Foi a sua divisa. Santos, se lh'a dessem, fal-a-hia esculpir, á entrada do salão, para regalo dos seus numerosos amigos. Ayres deixou-a estar em si. Alguma vez gostava de a recitar calado, parte pelo sentido, parte pela linguagem velha: «Alonguei-me fugindo e morei na soedade.»

Assim foi a principio, Às quinta-feiras ia jantar com a irmã. Às noites passeava pelas praias, ou pelas ruas do bairro. O mais do tempo era gasto em ler e reler, compôr oMemorialou rever o composto, para relembrar as cousas passadas. Estas eram muitas e de feição diversa, desde a alegria até a melancolia, enterramentos e recepções diplomaticas, uma braçada de folhas seccas, que lhe pareciam verdes agora. Alguma vez as pessoas eram designadas por um X ou ***, e elle não acertava logo quem fossem, mas era um recreio procural-as, achal-as e completal-as.

Mandou fazer um armario envidraçado, onde metteu as reliquias da vida, retratos velhos, mimos de governos e de particulares, um leque, uma luva, uma fita e outras memorias femininas, medalhas e medalhões, camafeus, pedaços de ruinas gregas e romanas, uma infinidade de cousas que não nomeio, para não encher papel. As cartas não estavam lá, viviam dentro de uma mala, catalogadas por letras, por cidades, por linguas, por sexos. Quinze ou vinte davam para outros tantos capitulos e seriam lidas com interesse e curiosidade. Um bilhete, por exemplo, um bilhete encardido e sem data, moço como os bilhetes velhos, assignado por iniciaes, um M e um P, que elle traduzia com saudades. Não vale a pena dizer o nome.

Mas tudo cança, até a solidão. Ayres entrou a sentir uma ponta de aborrecimento; bocejava, cochilava, tinha sede de gente viva, extranha, qualquer que fosse, alegre ou triste. Mettia-se por bairros excentricos, trepava aos morros, ia ás egrejas velhas, ás ruas novas, á Copacabana e á Tijuca. O mar alli, aqui o matto e a vista acordavam nelle uma infinidade de ecos, que pareciam as proprias vozes antigas. Tudo isso escrevia, ás noites, para se fortalecer no proposito da vida solitaria. Mas não ha proposito contra a necessidade.

A gente extranha tinha a vantagem de lhe tirar a solidão, sem lhe dar a conversação. As visitas de rigor que elle fazia eram poucas, breves e apenas faladas. E tudo isso fôram os primeiros passos. A pouco e pouco sentiu o sabor dos costumes velhos, a nostalgia das salas, a saudade do riso, e não tardou que o aposentado da diplomacia fosse reintegrado no emprego da recreação. A solidão, tanto no texto biblico, como na traducção do padre, era archaica. Ayres trocou-lhe uma palavra e o sentido; «Alonguei-me fugindo, e morei entre a gente.»

Assim se foi o programma da vida nova. Não é que elle já a não entendesse nem amasse, ou que a não praticasse ainda alguma vez, a espaços, como se faz uso de um remedio que obriga a ficar na cama ou na alcova; mas, sarava depressa e tornava ao ar livre. Queria ver a outra gente, ouvil-a, cheiral-a, gostal-a, apalpal-a, applicar todos os sentidos a um mundo que podia matar o tempo, o immortal tempo.

Assim o deixámos, ha apenas dous capitulos, a um canto da sala da gente Santos, em conversação com as senhoras. Has de lembrar-te que Flora não despegava os olhos delle, anciosa de saber porque é que a achava inexplicavel. A palavra rasgava-lhe o cerebro, ferindo sem penetrar. Inexplicavel que era? Que se não explica, sabia; mas que se não explica porquê?

Quiz perguntal-o ao conselheiro, mas não achou occasião, e elle saiu cedo. A primeira vez, porém, que Ayres foi a S. Clemente, Flora pediu-lhe familiarmente o obsequio de uma definição mais desenvolvida. Ayres sorriu e pegou na mão da mocinha, que estava de pé. Foi só o tempo de inventar esta resposta:

—Inexplicavel é o nome que podemos dar aos artistas que pintam sem acabar de pintar. Botam tinta, mais tinta, outra tinta, muita tinta, pouca tinta, nova tinta, e nunca lhes parece que a arvore é arvore, nem a choupana choupana. Se se trata então de gente, adeus. Por mais que os olhos da figura falem, sempre esses pintores cuidam que elles não dizem nada. E retocam com tanta paciencia, que alguns morrem entre dous olhos, outros matam-se de desespero.

Flora achou a explicação obscura; e tu, amiga minha leitora, se acaso és mais velha e mais fina que ella, póde ser que a não aches mais clara. Elle é que não accrescentou nada, para não ficar incluido entre os artistas daquella especie. Bateu paternalmente na palma da mão de Flora, e perguntou pelos estudos. Os estudos iam bem; como é que não iriam bem os estudos? E sentando-se ao pé delle, a mocinha confessou que tinha ideia justamente de aprender desenho e pintura, mas se havia de pôr tinta de mais ou de menos, e acabar não pintando nada, melhor seria ficar só na musica. A musica ia bem com ella, o francez tambem, e o inglez.

—Pois só a musica, o inglez e o francez, concordou Ayres.

—Mas o senhor promette que não me achará inexplicavel? pergunta ella com doçura.

Antes que elle respondesse, entrarám na sala os dous gemeos. Flora esqueceu um assumpto por outro, e o velho pelos rapazes. Ayres não se demorou mais que o tempo de a ver rir com elles, e sentir em si alguma cousa parecida com remorsos. Remorsos de envelhecer, creio.

Já então os dous gemeos cursavam, um a Faculdade de Direito, em S. Paulo; outro a Escola de Medicina, no Rio. Não tardaria muito que saissem formados e promptos, um para defender o direito e o torto da gente, outro para ajudal-a a viver e a morrer. Todos os contrastes estão no homem.

Não era tanta a politica que os fizesse esquecer Flora, nem tanta Flora que os fizesse esquecer a politica. Tambem não eram taes as duas que prejudicassem estudos e recreios. Estavam na edade em que tudo se combina sem quebra de essencia de cada cousa. Lá que viessem a amar a pequena com egual força é o que se podia admittir desde já, sem ser preciso que ella os attrahisse de vontade. Ao contrario, Flora ria com ambos, sem rejeitar nem acceitar especialmente nenhum; póde ser até que nem percebesse nada. Paulo vivia mais tempo ausente. Quando tornava pelas férias, como que a achava mais cheia de graça. Era então que Pedro multiplicava as suas finezas para se não deixar vencer do irmão, que vinha prodigo dellas. E Flora recebia-as todas com o mesmo rosto amigo.

Note-se—e este ponto deve ser tirado á luz, —note-se que os dous gemeos continuavam a ser parecidos e eram cada vez mais esbeltos. Talvez perdessem estando juntos, porque a semelhança diminuia em cada um delles a feição pessoal. Demais, Flora simulava ás vezes confundil-os, para rir com ambos. E dizia a Pedro:

—Dr. Paulo!

E dizia a Paulo:

—Dr. Pedro!

Em vão elles mudávam da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Flora mudava os nomes tambem, e os trez acabávam rindo. A familiaridade desculpava a acção e crescia com ella. Paulo gostava mais de conversa que de piano; Flora conversava. Pedro ia mais com o piano que com a conversa; Flora tocava. Ou então fazia ambas as cousas, e tocava falando, soltava a rédea aos dedos e á lingua.

Taes artes, postas ao serviço de taes graças, eram realmente de accender os gemeos, e foi o que succedeu pouco a pouco. A mãe della cuido que percebeu alguma cousa; mas a principio não lhe deu grande cuidado. Tambem ella foi menina e moça, tambem se dividiu a si sem se dar nada a ninguem. Póde ser até que, a seu parecer, fosse um exercicio necessario aos olhos do espirito e da cara. A questão é que estes se não corrompessem, nem se deixassem ir atraz de cantigas, como diz o povo, que assim exprime os feitiços de Orpheu. Ao contrario, Flora é que fazia de Orpheu, ella é que era a cantiga. Opportunamente, escolheria a um delles, pensava a mãe.

A intimidade tinha intervallos grandes, além das ausencias obrigadas de Paulo. Apesar de não sair, Pedro não a buscava sempre, nem ella ia muita vez á casa da praia. Não se viam dias e dias. Que pensassem um no outro, é possivel; mas não possuo o menor documento disto. A verdade é que Pedro tinha os seus companheiros de escola, os namoros de rua e de aventura, os partidos de theatro, os passeios á Tijuca e outros arrabaldes. Ao demais, os dous gemeos estavam ainda no ponto de falar della nas cartas, louval-a, descrevel-a, dizer mil cousas doces, sem ciume.

A discordia não é tão feia como se pinta, meu amigo. Nem feia, nem esteril. Conta só os livros que tem produzido, desde Homero até cá, sem excluir... Sem excluir qual? Ia dizer que este, mas a Modestia acena-me de longe que pare aqui. Paro aqui; e viva a Modestia, que mal supporta a letra capital que lhe ponho, a letra e os vivas, mas ha de ir com ella e com elles. Viva a Modestia, e excluamos este livro; fiquem só os grandes livros epicos e tragicos, a que a Discordia deu vida, e digam-me se tamanhos effeitos não provam a grandeza da causa. Não, a discordia não é tão feia como se pinta.

Teimo nisto para que as almas sensiveis não comecem de tremer pela moça ou pelos rapazes. Não ha mister tremer, tanto mais que a discordia dos dous começou por um simples accordo, naquella noite. Costeavam a praia, calados, pensando só, até que ambos, como se falassem para si, soltaram esta phrase unica:

—Está ficando bem bonita.

E voltando-se um para outro:

—Quem?

Ambos sorriram; acharam pico ao simultaneo da reflexão e da pergunta. Sei que este phenomeno é tal qual o do capitulo XXV, quando elles disseram da edade, mas não me culpem a mim; eram gemeos, podiam ter o falar gemeo. O principal é que não se amofináram; não era ainda amor o que sentiam. Cada um expoz a sua opinião ácerca das graças da pequena, o gesto, a voz, os olhos e as mãos, tudo com tão boa sombra, que excluia a ideia de rivalidade. Quando muito, divergiam na escolha da melhor prenda, que para Pedro eram os olhos, e para Paulo a figura; mas como acabavam achando um total harmonico, era visto que não brigavam por isso. Nenhum delles attribuia ao outro a cousa vaga ou o qur quer que era que principiavam a sentir, e mais pareciam esthetas que enamorados. Aliás, a mesma politica os deixou em paz essa noite: não brigaram por ella. Não é que não sentissem alguma cousa opposta, á vista da praia e do céu, que estavam deliciosos. Lua cheia, agua quieta, vozes confusas e esparsas, algum tilbury a passo ou a trote, segundo ia vasio ou com gente. Tal ou qual brisa fresca.

A imaginação os levou então ao futuro, a um futuro brilhante, como elle é em tal edade. Botafogo teria um papel historico, uma enseada imperial para Pedro, uma Veneza republicana para Paulo, sem doge, nem conselho dos dez, ou então um doge com outro titulo, um simples presidente, que se casaria em nome do povo com este pequenino Adriatico. Talvez o doge fosse elle mesmo. Esta possibilidade, apesar dos annos verdes, enfunou a alma do moço. Paulo viu-se á testa de uma republica, em que o antigo e o moderno, o futuro e o passado se mesclassem, uma Roma nova, uma Convenção Nacional, a Republica Franceza e os Estados-Unidos da America.

Pedro, á sua parte, construia a meio caminho como um palacio para a representação nacional, outro para o imperador, e via-se a si mesmo ministro e presidente do conselho. Falava, dominava o tumulto e as opiniões, arrancava um voto á Camara dos deputados ou então expedia um decreto de dissolução. É uma minucia, mas merece inseril-a aqui: Pedro, sonhando com o governo, pensava especialmente nos decretos de dissolução. Via-se em casa, com o acto assignado, referendado, copiado, mandado aos jornaes e ás Camaras, lido pelos secretarios, archivado na secretaria, e os deputados saindo cabisbaixos, alguns resmungando, outros irados. Só elle estava tranquillo, no gabinete, recebendo os amigos que iam comprimental-o e pedir os recados para a provincia.

Taes eram as grandes pinceladas da imaginação dos dous. As estrellas recebiam no céu todos os pensamentos dos rapazes, a lua seguia quieta e a vaga da praia estirava-se com a preguiça do costume. Voltaram a si ao pé de casa. Tal ou qual impulso quiz leval-os a discutir ácerca do tempo e da noite, da temperatura e da enseada. Algum murmurio vago póde ser que lhes fizesse mover os beiços e começar a quebrar o silencio, mas o silencio era tão augusto que concordáram em respeital-o. E logo acháram de si para si, que a lua era esplendida, a enseada bella e a temperatura divina.

Não esqueça dizer que, em 1888, uma questão grave e gravissima os fez concordar tambem, ainda que por diversa razão. A data explica o facto: foi a emancipação dos escravos. Estavam então longe um do outro, mas a opinião uniu-os.

A differença unica entre elles dizia respeito á significação da reforma, que para Pedro era um acto de justiça, e para Paulo era o inicio da revolução. Elle mesmo o disse, concluindo um discurso em S. Paulo, no dia 20 de maio: «A abolição é a aurora da liberdade; esperemos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco.»

Natividade ficou attonita quando leu isto; pegou da penna e escreveu uma carta longa e maternal. Paulo respondeu com trinta mil expressões de ternura, declarando no fim que tudo lhe poderia sacrificar, inclusive a vida e até a honra; as opiniões é que não. «Não, mamãe; as opiniões é que não.»

—As opiniões é que não, repetiu Natividade acabando de ler a carta.

Natividade não acabava de entender os sentimentos do filho, ella que sacrificára as opiniões aos principios, como no caso de Ayres, e continuou a viver sem macula. Como então não sacrificar...? Não achava explicação. Relia a phrase da carta e a do discurso; tinha medo de o ver perder a carreira politica, se era a politica que o faria grande homem. «Emancipado o preto, resta emancipar o branco», era uma ameaça ao imperador e ao imperio.

Não atinou... Nem sempre as mães atinam. Não atinou que a phrase do discurso não era propriamente do filho; não era de ninguem. alguem a proferiu um dia, em discurso ou conversa, em gazeta ou em viagem de terra ou de mar. Outrem a repetiu, até que muita gente a fez sua. Era nova, era energica, era expressiva, ficou sendo patrimonio commum.

Ha phrases assim felizes. Nascem modestamente, como a gente pobre; quando menos pensam, estão governando o mundo, á semelhança das ideias. As proprias ideias nem sempre conservam o nome do pae; muitas apparecem orphãs, nascidas de nada e de ninguem. Cada um pega dellas, verte-as como póde, e vae leval-as á feira, onde todos as têm por suas.


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