Chapter 3

Quando, ás duas horas da tarde do dia seguinte, Natividade se metteu no bonde, para ir a não sei que compras na rua do Ouvidor, levava a phrase comsigo. A vista da enseada não a distraiu, nem a gente que passava, nem os incidentes da rua, nada; a phrase ia diante e dentro della, com o seu aspecto e tom de ameaça. No Cattete, alguem entrou de salto, sem fazer parar o vehiculo. Adivinha que era o conselheiro; adivinha tambem que, posto o pé no estribo, e vendo logo adiante a nossa amiga, caminhou para lá rapido e acceitou a ponta do banco que ella lhe offereceu. Depois dos primeiros comprimentos:

—Pareceu-me vel-a olhar assustada, disse Ayres.

—Naturalmente, não imaginei que fosse capaz deste acto de gymnastica.

—Questão de costume. As pernas saltam por si mesmas. Um dia, deixam-me cair, as rodam passam por cima...

—Fosse como fosse, chegou a proposito.

—Chego sempre a proposito. Já lhe ouvi isso, uma vez, ha muitos annos, ou foi a sua irmã... Ora, espere, não me esqueceu o motivo; creio que falavam da cabocla do Castello. Não se lembra de uma tal ou qual cabocla que morava no Castello, e adivinhava a sorte da gente? Eu estava aqui de licença, e ouvi dizer cousas do arco da velha. Como sempre tive fé em Sybillas, acreditei na cabocla. Que fim levou ella?

Natividade olhou para elle, como receiando se teria adivinhado então a consulta que ella fez á cabocla. Pareceu-lhe que não, sorriu e chamou-lhe incredulo. Ayres negou que fosse incredulo; ao contrario, sendo tolerante, professava virtualmente todas as crenças deste mundo. E concluiu:

—Mas, emfim, porque é que chego a proposito?

Ou o passado, ou a pessoa, com as suas maneiras discretas e espirito repousado, ou tudo isso junto, dava a este homem, relativamente a esta senhora, uma confiança que ella não achava agora em ninguem, ou acharia em poucos. Falou-lhe de uma confidencia, um papel que não mostraria ao marido.

—Quero um conselho, conselheiro; e demais, para que incommodar a meu marido? Quando muito, contarei o negocio a mana Perpetua. Acho melhor não dizer nada a Agostinho.

Ayres concordou que não valia a pena aborrecel-o se era caso disso, e esperou. Natividade, sem falar da cabocla, contou primeiro a rivalidade dos filhos, já manifesta em politica, e tratando especialmente de Paulo, repetiu-lhe a phrase da carta e perguntou o que compria fazer mais util. Ayres entendeu que que eram ardores da mocidade. Que não teimasse; teimando, elle mudaria de palavras, mas não de sentimentos.

—Então crê que Paulo será sempre isto?

—Sempre, não digo; tambem não digo o contrario. Baroneza, a senhora exige respostas definitivas, mas diga-me o que é que ha definitivo neste mundo, a não ser o voltarete de seu marido? Esse mesmo falha. Ha quantos dias não sei o que é uma licença? É verdade que não tenho apparecido. E depois, o prazer da conversação paga bem o das cartas. Aposto que os homens casados que lá vão são de outro parecer?

—Talvez.

—Só os solteirões podem avaliar as ideias das mulheres. Um viuvo sem filhos, como eu, vale por um solteirão; minto, aos sessenta annos, como eu, vale por dous ou trez. Quanto ao joven Paulo, não pense mais no discurso. tambem eu discursei em rapaz.

—Já cuidei em casal-os.

—Casar é bom, assentiu Ayres.

—Não digo casar já, mas daqui a dous ou trez annos. Talvez faça antes uma viagem com elles. Que lhe parece? Vamos lá, não me responda repetindo o que eu digo. Quero o seu pensamento verdadeiro. Acha que uma viagem?...

—Acho que uma viagem...

—Acabe.

—As viagens fazem bem, mormente na edade delles. Formam-se para o anno, não é? Pois então! Antes de começar qualquer carreira, casados ou não, é util ver outras terras... Mas que necessidade tem a senhora de ir com elles?

—As mães...

—Mas eu tambem (desculpe interrompel-a) mas eu tambem sou seu filho. Não acha que o costume, o bom rosto, a graça, a affeição e todas as prendas grisalhas que a adornam compõem uma especie maternidade? Eu confesso-lhe que ficaria orphão.

—Pois venha comnosco.

—Ah! baroneza, para mim ja não ha mundo que valha um bilhete de passagem. Vi tudo por varias linguas. Agora o mundo começa aqui no caes da Gloria ou na rua do Ouvidor e acaba no cemiterio de S. João Baptista. Ouço que ha uns mares tenebrosos para os lados da Ponta do Cajú, mas eu sou um velho incredulo, como a senhora dizia ha pouco, e não acceito essas noticias sem prova cabal e visual, e para ir averigual-as, faltam-me pernas.

—Sempre gracioso! Não as vi treparem agora? Sua irmã disse-me outro dia que o senhor anda como aos trinta annos.

—Rita exagera. Mas, voltando á viagem, a senhora ainda não comprou os bilhetes?

—Não.

—Não os encommendou sequer?

—Tambem não.

—Então, pensemos em outra cousa. Cada dia traz a sua occupação, quanto mais as semanas e os mezes. Pensemos em outra cousa, e deixe lá o Paulo pedir a republica.

Natividade achou comsigo que elle tinha razão; depois, pensou em outra cousa, e esta foi a ideia do principio. Não disse logo o que era; preferiu conversar alguns minutos. Não era difficil com este sujeito. Uma das suas qualidades era falar com mulheres, sem descair na banalidade nem subir ás nuvens; tinha um modo particular, que não sei se estava na ideia, se no gesto, se na palavra. Não é que falasse mal de ninguem, e aliás seria uma distracção. Quero crêr que não dissesse mal por indifferença ou cautella; provisoriamente, ponhamos caridade.

—Mas, a senhora ainda me não disse o que queria de mim, além do conselho. Ou não quer mais nada?

—Custa-me pedir-lhe.

—Peça sempre.

—Sabe que os meus dous gemeos não combinam em nada, ou só em pouco, por mais esforços que eu tenha feito para os trazer a certa harmonia. Agostinho não me ajuda; tem outros cuidados. Eu mesma já não me sinto com forças, e então pensei que um amigo, um homem moderado, um homem de sociedade, habil, fino, cautelloso, intelligente, instruido...

—Eu, em summa?

—Adivinhou.

—Não adivinhei; é o meu retrato em pessoa. Mas então que lhe parece que possa fazer?

—Póde corrigil-os por boas maneiras, fazel-os unidos, ainda quando discordem, e que discordem pouco ou nada. Não imagina; parece até proposito. Não discordam da côr da lua, por exemplo, mas aos onze annos, Pedro descobriu que as sombras da lua eram nuvens, e Paulo que eram falhas da nossa vista, e atracaram-se; eu é que os separei. Imagine em politica...

—Imagine em amores, diga logo; mas não é propriamente para este caso...

—Oh! não!

—Para os outros é egualmente inutil, mas eu nasci para servir, ainda inutilmente. Baroneza, o seu pedido equivale a nomear-me aio ou preceptor... Não faça gestos; não me dou por diminuido. Comtanto que me pague os ordenados... E não se assuste; peço pouco, pague-me em palavras; as suas palavras são de ouro. Já lhe disse que toda a minha acção é inutil.

—Porque?

—É inutil.

—Uma pessoa de autoridade, como o senhor, póde muito, comtanto que os ame, por que elles são bons, creia. Conhece-os bem?

—Pouco.

—Conheça-os mais e verá.

Ayres concordou rindo. Para Natividade valia por uma tentativa nova. Confiava na acção do conselheiro, e para dizer tudo... Não sei se diga... Digo. Natividade contava com a antiga inclinação do velho diplomata. As cans não lhe tirariam o desejo de a servir. Não sei quem me lê nesta occasião. Se é homem, talvez não entenda logo, mas se é mulher creio que entenderá. Se ninguem entender, paciencia; baste saber que elle prometteu o que ella quiz, e tambem prometteu calar-se; foi a condição que a outra lhe poz. Tudo isso polido, sincero e incredulo.

Chegaram ao largo da Carioca, apearam-se e despediram-se; ella entrou pela rua Gonçalves Dias, elle enfiou pela da Carioca. No meio desta, Ayres encontrou um magote de gente parada, logo depois andando em direcção ao largo. Ayres quiz arrepiar caminho, não de medo, mas de horror. Tinha horror á multidão. Viu que a gente era pouca, cincoenta ou sessenta pessoas, e ouviu que bradava contra a prisão de um homem. Entrou n'um corredor, á espera que o magote passasse. Duas praças de policia traziam o preso pelo braço. De quando em quando, este resistia, e então era preciso arrastal-o ou forçal-o por outro methodo. Tratava-se, ao que parece, do furto de uma carteira.

—Não furtei nada! bradava o preso detendo o passo. É falso! Larguem-me! sou um cidadão livre! Protesto! protesto!

—Siga para a estação!

—Não sigo!

—Não siga! bradava a gente anonyma. Não siga! não siga!

Uma das praças quiz convencer a multidão que era verdade, que o sujeito furtara uma carteira, e o desassocego pareceu minorar um pouco; mas, indo a praça a andar com a outra e o preso,—cada uma pegando-lhe um dos braços, a multidão recomeçou a bradar contra a violencia. O preso sentiu-se animado, e ora lastimoso, ora aggressivo, convidava a defeza. Foi então que a outra praça desembainhou a espada para fazer um claro. A gente voou, não airosamente, como a andorinha ou a pomba, em busca do ninho ou do alimento, voou de atropello, pula aqui, pula alli, pula acolá, para todos os lados. A espada entrou na bainha, e o preso seguiu com as praças. Mas logo os peitos tomaram vingança das pernas, e um clamor ingente, largo, desaffrontado, encheu a rua e a alma do preso. A multidão fez-se outra vez compacta e caminhou para a estação policial. Ayres seguiu caminho.

A vozeria morreu pouco a pouco, e Ayres entrou na Secretaria do Imperio. Não achou o ministro, parece, ou a conferencia foi curta. Certo é que, saindo á praça, encontrou partes do magote que tornavam commentando a prisão e o ladrão. Não diziam ladrão, mas gatuno, fiando que era mais doce, e tanto bradavam ha pouco contra a acção das praças, como riam agora das lastimas do preso.

—Ora o sujeito!

Mas então?... perguntarás tu. Ayres não perguntou nada. Ao cabo, havia um fundo de justiça naquella manifestação dupla e contradictoria; foi o que elle pensou. Depois, imaginou que a grita da multidão protestante era filha de um velho instincto de resistencia á autoridade. Advertiu que o homem, uma vez creado, desobedeceu logo ao Creador, que aliás lhe dera um paraiso para viver; mas não ha paraiso que valha o gosto da opposição. Que o homem se acostume ás leis, vá; que incline o collo á força e ao bel-prazer, vá tambem; é o que se dá com a planta, quando sopra o vento. Mas que abençoe a força e cumpra as leis sempre, sempre, sempre, é violar a liberdade primitiva, a liberdade do velho Adão. Ia assim cogitando o conselheiro Ayres.

Não lhe attribuam todas essas ideias. Pensava assim, como se falasse alto, á mesa ou na sala de alguem. Era um processo de critica mansa e delicada, tão convencida em apparencia, que algum ouvinte, á cata de ideias, acabava por lhe apanhar uma ou duas...

Ia a descer pela rua Sete de Setembro, quando a lembrança da vozeria trouxe a de outra, maior e mais remota.

Essa outra vozeria maior e mais remota não caberia aqui, se não fosse a necessidade de explicar o gesto repentino com que Ayres parou na calçada. Parou, tornou a si e continuou a andar com os olhos no chão e a alma em Caracas. Foi em Caracas, onde elle servira na qualidade de addido de legação. Estava em casa, de palestra com uma actriz da moda, pessoa chistosa e garrida. De repente, ouviram um clamor grande, vozes tumultuosas, vibrantes, crescentes...

—Que rumor é este, Carmen? perguntou elle entre duas caricias.

—Não se assuste, amigo meu; é o governo que cae.

—Mas eu ouço acclamações...

—Então é o governo que sobe. Não se assuste. Amanhã é tempo de ir comprimental-o.

Ayres deixou-se ir rio abaixo daquella memoria velha, que lhe surdia agora do alarido de cincoenta ou sessenta pessoas. Essa especie de lembranças tinha mais effeito nelle que outras. Recompoz a hora, o logar e a pessoa da sevilhana. Carmen era de Sevilla. O ex-rapaz ainda agora recordava a cantiga popular que lhe ouvia, á despedida, depois de rectificar as ligas, compôr as saias, e cravar o pente no cabello,—no momento em que ia deitar a mantilha, meneando o corpo com graça:

Tienen las sevillanas,En la mantilla,Um letrero que dice:Viva Sevilla!

Não posso dar a toada, mas Ayres ainda a trazia de cór, e vinha a repetil-a comsigo, vagarosamente, como ia andando. Outrosim, meditava na ausencia de vocação diplomatica. A ascenção de um governo,—de um regimen que fosse,—com as suas ideias novas, os seus homens frescos, leis e acclamações, valia menos para elle que o riso da joven comediante. Onde iria ella? A sombra da moça varreu tudo o mais, a rua, a gente, o gatuno, para ficar só deante do velho Ayres, dando aos quadris e cantarolando a trova andaluza:

Tienen las sevillanasEn la mantilla...

Se Ayres obedecesse ao seu gosto, e eu a elle, nem elle continuaria a andar, nem eu começaria este capitulo; ficariamos no outro, sem nunca mais acabal-o. Mas não ha na memoria que dure, se outro negocio mais forte puxa pela attenção, e um simples burro fez desapparecer Carmen e a sua trova.

Foi o caso que uma carroça estava parada, ao pé da travessa de S. Francisco, sem deixar passar um carro, e o carroceiro dava muita pancada no burro da carroça. Vulgar embora, este espectaculo fez parar o nosso Ayres, não menos condoido do asno que do homem. A força despendida por este era grande, porque o asno ruminava se devia ou não sair do logar; mas, não obstante esta superioridade, apanhava que era o diabo. Já havia algumas pessoas paradas, mirando. Cinco ou seis minutos durou esta situação; finalmente o burro preferiu a marcha á pancada, tirou a carroça do logar e foi andando.

Nos olhos redondos do animal viu Ayres uma expressão profunda de ironia e paciencia. Pareceu-lhe o gesto largo de espjrito invencivel. Depois leu nelles este monologo: «Anda, patrão, atalha a carroça de carga para ganhar o capim de que me alimentas. Vive de pé no chão para comprar as minhas ferraduras. Nem por isso me impedirás que te chame um nome feio, mas eu não te chamo nada; ficas sendo sempre o meu querido patrão. Emquanto te esfalfas em ganhar a vida, eu vou pensando que o teu dominio não vale muito, uma vez que me não tiras a liberdade de teimar...

—Vê-se, quasi que se lhe ouve a reflexão, notou Ayres comsigo.

Depois ria de si para si, e foi andando. Inventára tanta cousa no serviço diplomatico, que talvez inventasse o monologo do burro. Assim foi; não lhe leu nada nos olhos, a não ser a ironia e a paciencia, mas não se pôde ter que lhes não désse uma forma de palavra, com as suas regras de syntaxe. A propria ironia estaria acaso na retina delle. O olho do homem serve de photographia ao invisivel, como o ouvido serve de eco ao silencio. Tudo é que o dono tenha um lampejo de imaginação para ajudar a memoria a esquecer Caracas e Carmen, os seus beijos e experiencia politica.

Visões e reminiscencias iam assim comendo o tempo e o espaço ao conselheiro, a ponto de lhe fazerem esquecer o pedido de Natividade; mas não o esqueceu de todo, e as palavras trocadas ha pouco surdiam-lhe das pedras da rua. Considerou que não perdia muito em estudar os rapazes. Chegou a apanhar uma hypothese, especie de andorinha, que avoaça entre arvores, abaixo e acima, pousa aqui, pousa alli, arranca de novo um surto e toda se despeja em movimentos. Tal foi a hypothese vaga e colorida, a saber, que se os gemeos tivessem nascido delle talvez não divergissem tanto nem nada, graças ao equilibrio do seu espirito. A alma do velho entrou a ramalhar não sei que desejos retrospectivos, e a rever essa hypothese, outra Caracas, outra Carmen, elle pae, estes meninos seus, toda a andorinha que se dispersava n'um farfalhar calado de gestos.

Natividade é que não teve distracções de especie alguma. Toda ella estava nos filhos, e agora especialmente na carta e no discurso. Começou por não dar resposta ás effusões politicas de Paulo; foi um dos conselhos do conselheiro. Quando o filho tornou pelas ferias tinha esquecido a carta que escrevêra. O discurso é que elle não esqueceu, mas quem é que esquece os discursos que faz? Se são bons, a memoria os grava em bronze; se ruins, deixam tal ou qual amargor que dura muito. O melhor dos remedios, no segundo caso, é suppol-os excellentes, e, se a razão não acceita esta imaginação, consultar pessoas que a acceitem, e crêr nellas. A opinião é um velho oleo incorruptivel.

Paulo tinha talento. O discurso daquelle dia podia peccar aqui ou alli por alguma emphasis, e uma ou outra ideia vulgar e exhausta. Tinha talento Paulo. Em summa, o discurso era bom. Santos achou-o excellente, leu-o aos amigos e resolveu transcrevel-o nos jornaes. Natividade não se oppoz, mas entendia que algumas palavras deviam ser cortadas.

—Cortadas, porque? perguntou Santos, e ficou esperando a resposta.

—Pois você não vê, Agostinho; estas palavras tem sentido republicano, explicou ella relendo a phrase que a affligira.

Santos ouviu-as ler, leu-as para si, e não deixou de lhe achar razão. Entretanto, não havia de as supprimir.

—Pois não se transcreve o discurso.

—Ah! isso não! O discurso é magnifico, e não ha de morrer em S. Paulo; é preciso que a Côrte o leia, e as provincias tambem, e até não se me daria fazel-o traduzir em francez. Em francez, póde ser que fique ainda melhor.

—Mas, Agostinho, isto póde fazer mal á carreira do rapaz; o imperador póde ser que não goste...

Pedro, que assistia desde alguns instantes ao debate, interveiu docemente para dizer que os receios da mãe não tinham base; era bom por a phrase toda, e, a rigor, não difteria muito do que os liberaes diziam em 1848.

—Um monarchista liberal póde muito bem assignar esse trecho, concluiu elle depois de reler as palavras do irmão.

—Justamente! assentiu o pae.

Natividade, que em tudo via a inimizade dos gemeos, suspeitou que o intuito de Pedro fosse justamente comprometter Paulo. Olhou para elle a ver se lhe descobria essa intenção torcida, mas a cara do filho tinha então o aspecto do enthusiasmo. Pedro lia trechos do discurso, accentuando as bellezas, repetindo as phrases mais novas, cantando as mais redondas, revolvendo-as na bôca, tudo com tão boa sombra que a mãe perdeu a suspeita, e a reimpressão do discurso foi resolvida. Tambem se tirou uma edição em folheto, e o pae mandou encadernar ricamente sete exemplares, que levou aos ministros, e um ainda mais rico para a Regente.

—Você diga-lhe, aconselhou Natividade, que o nosso Paulo é liberal ardente...

—Liberal de 1848, completou Santos lembrando as palavras de Pedro.

Santos cumpriu tudo á risca. A entrega se fez naturalmente, e, no palacio Isabel, a definição do «liberal de 1848» saiu mais viva que as outras palavras, ou para diminuir o cheiro revolucionario da phrase condemnada pela mulher, ou porque trazia valor historico. Quando elle voltou a casa, a primeira cousa que lhe disse foi que a Regente perguntara por ella, mas apesar de lisongeada com a lembrança, Natividade quiz saber da impressão que lhe fizera o discurso, se já o lêra.

—Parece que foi boa. Disse-me que já havia lido o discurso. Nem por isso deixei de lhe dizer que os sentimentos de Paulo eram bons; que, se lhes notavamos certo ardor, comprehendiamos sempre que elles eram os de um liberal de 1848...

—Papae disse isso? perguntou Pedro.

—Porque não, se é verdade? Paulo é o que se póde chamar um liberal de 1848, repetiu Santos querendo convencer o filho.

Pelas férias é que Paulo soube da interpretação que o pae dera á Regente daquelle trecho do discurso. Protestou contra ella, em casa; quiz fazel-o tambem em publico, mas Natividade interveiu a tempo. Ayres pôz agua na fervura, dizendo ao futuro bacharel:

—Não vale a pena, moço; o que importa é que cada um tenha a suas ideias e se bata por ellas, até que ellas vençam. Agora que outros as interpretem mal é cousa que não deve affligir o autor.

—Affligir, sim, senhor; pôde parecer que é assim mesmo... Vou escrever um artigo a proposito de qualquer cousa, e não deixarei duvidas...

—Para que? inquiriu Ayres.

—Não quero que supponham...

—Mas quem duvida dos seus sentimentos?

—Podem duvidar.

—Ora, qual! Em todo caso, vá primeiro almoçar commigo um dia destes... Olhe, vá domingo, e seu irmão Pedro tambem. Seremos trez á meza, um almoço de rapazes. Beberemos certo vinho que me deu o ministro da Allemanha...

No domingo fôram os dous ao Cattete, menos pelo almoço que pelo amphytrião. Ayres era amado dos dous; gostavam de ouvil-o, de interrogal-o, pediam-lhe anecdotas politicas de outro tempo, descripção de festas, noticias de sociedade.

—Vivam os meus dous jovens, disse o conselheiro, vivam os meus dous jovens que não esqueceram o amigo velho. Papae como está? E mamãe?

—Estão bons, disse Pedro.

Paulo accrescentou que ambos lhe mandavam lembranças.

—E tia Perpetua?

—Tambem está boa, disse Paulo.

—Sempre com a homoepathia e as suas historias do Paraguay, accrescentou Pedro.

Pedro estava alegre, Paulo preoccupado. Depois das primeiras saudações e noticias, Ayres notou essa differença, e achou que era bom para tirar a monotonia da semelhança; mas, emfim, não queria caras fechadas, e indagou do estudante de direito o que é que elle tinha.

—Nada.

—Não póde ser; acho-lhe um ar meio sorumbatico. Pois eu acordei disposto a rir, e desejo que ambos riam commigo.

Paulo rosnou uma palavra que nenhum delles entendeu e saccou do bolso um maço de folhas de de papel. Era um artigo...

—Um artigo?

—Um artigo em que tiro todas as duvidas a meu respeito, e peço ao senhor que me ouça, é pequeno. Escrevi-o a noite passada.

Ayres propoz ouvil-o depois do almoço, mas o rapaz pediu que fosse logo, e Pedro concordou com esto alvitre, allegando que, sobre o almoço, podia perturbar a digestão, como ruim droga que devia ser, naturalmente. Ayres metteu o caso á bulha e acceitou ouvir o artigo.

—É pequeno, sete tiras.

—Letra miuda?

—Não, senhor; assim, assim.

Paulo leu o artigo. Tinha por epigraphe isto de Amós: «Ouvi esta palavra, vaccas gordas que estaes no monte de Samaria...» As vaccas gordas eram o pessoal do regimen, explicou Paulo. Não atacava o imperador, por attenção á mãe, mas com o principio e o pessoal era violento e aspero. Ayres sentiu-lhe aquillo que, em tempo, se chamou «a bossa da combatividade». Quando Paulo acabou, Pedro disse em ar de mofa:

—Conheço tudo isso, são ideias paulistas.

—As tuas são ideias coloniaes, replicou Paulo.

Deste introito podiam nascer peores palavras, mas felizmente um criado chegou á porta annunciando que o almoço estava na mesa. Ayres ergueu-se e disse que á mesa daria a sua opinião.

—Primeiro o almoço, tanto mais que temos um salmão, cousa especial. Vamos a elle.

Ayres queria cumprir deveras o officio que acceitara de Natividade. Quem sabe se a ideia de pae espiritual dos gemeos, pae de desejo somente, pae que não foi, que teria sido, não lhe dava uma affeição particular e um dever mais alto que o de simples amigo? Nem é fóra de proposito que elle buscasse sómente materia nova para as paginas nuas de seuMemorial.

Ao almoço, ainda se falou do artigo, Paulo com amor, Pedro com desdem, Ayres sem uma nem outra cousa. O almoço ia fazendo o seu officio. Ayres estudava os dous rapazes e suas opiniões. Talvez estas não passassem de uma erupção de pelle da edade. E sorria, fazia-os comer e beber, chegou a falar de moças, mas aqui os rapazes, vexados e respeitosos, não acompanharam o ex-ministro. A politica veiu morrendo. Na verdade, Paulo ainda se declarou capaz de derribar a monarchia com dez homens, e Pedro de extirpar o germen republicano com um decreto. Mas o ex-ministro, sem mais decreto que uma caçarola, nem mais homens que o seu cozinheiro, envolveu os dous regimens no mesmo salmão delicioso.

No fim do almoço, Ayres deu-lhes uma citação de Homero, aliás duas, uma para cada um, dizendo-lhes que o velho poeta os cantara separadamente, Paulo no começo daIlliada:

—«Musa, canta a colera de Achilles, filho de Peleu, colera funesta aos gregos, que precipitou á estancia de Plutão tantas almas válidas de heroes, entregues os corpos ás aves e aos cães...»

Pedro estava no começo daOdyssea:

—«Musa, canta aquelle heroe astuto, que errou por tantos tempos, depois de destruida a santa Illion...»

Era um modo de definir o caracter de ambos, e nenhum delles levou a mal a applicação. Ao contrario, a citação poetica valia por um diploma particular. O facto é que ambos sorriram de fé, de acceitação, de agradecimento, sem que achassem uma palavra ou syllaba com que desmentissem o adequado dos versos. Que elle, o conselheiro, depois de os citar em prosa nossa, repetiu-os no proprio texto grego e os dous gemeos sentiram-se ainda mais épicos, tão certo é que traducções não valem originaes. O que elles fizeram foi dar um sentido deprimente ao que era applicavel ao irmão:

—Tem razão, Sr. conselheiro,—disse Paulo,—Pedro é um velhaco...

—E você é um furioso...

—Em grego, meninos, em grego e em verso, que é melhor que a nossa lingua e a prosa do nosso tempo.

Aquelles almoços repetiram-se, os mezes passaram, vieram férias, acabaram-se férias, e Ayres penetrava bem os gemeos. Escrevia-os noMemorial, onde se lê que a consulta ao velho Placido dizia respeito aos dous, e mais a ida á cabocla do Castello e a briga antes de nascer, casos velhos e obscuros que elle relembrou, ligou e decifrou.

Emquanto os mezes passam, faze de conta que estás no theatro, entre um acto e outro, conversando. Lá dentro preparam a scena, e os artistas mudam de roupa. Não vás lá; deixa que a dama, no camarim, ria com os seus amigos o que chorou cá fóra com os espectadores. Quanto ao jardim que se está fazendo, não te exponhas a vel-o pelas costas; é pura lona velha sem pintura, porque só a parte do espectador é que tem verdes e flores. Deixa-te estar cá fóra no camarote desta senhora. Examina-lhe os olhos; tem ainda as lagrimas que lhe arrancou a a dama da peça. Fala-lhe da peça e dos artistas. Que é obscura. Que não sabem os papeis. Ou então que que é tudo sublime. Depois percorre os camarotes com o binoculo, distribue justiça, chama bellas ás bellas e feias ás feias, e não te esqueças de contar anecdotas que desfeiem as bellas, e virtudes que componham as feias. As virtudes devem ser grandes e as anecdotas engraçadas. Tambem as ha banaes, mas a mesma banalidade na bôca de um bom narrador faz-se rara e preciosa. E verás como as lagrimas séccam inteiramente, e a realidade substitue a ficção. Falo por imagem; sabes que tudo aqui é verdade pura e sem choro.

Se ha muito riso quando um partido sobe, tambem ha muita lagrima do outro que desce, e do riso e da lagrima se faz o primeiro dia da situação, como no Genesis. Venhamos ao evangelista que serve de titulo ao capitulo. Os liberaes fôram chamados ao poder, que os conservadores tiveram de deixar. Não é mister dizer que o abatimento de Baptista foi enorme.

—Justamente agora que eu tinha esperanças, disse elle á mulher.

—De quê?

—Ora de quê! de uma presidencia. Não disse nada, porque podiam falhar, mas é quasi certo que não. Tive duas conferencias, não com ministros, mas com pessoa influente que sabia, e era negocio de esperar um mez ou dous...

—Presidencia boa?

—Boa.

—Se você tivesse trabalhado bem...

—Se tivesse trabalhado bem, podia estar já de posse, mas vinhamos agora a toque de caixa.

—Isso é verdade, concordou D. Claudia olhando para o futuro.

Baptista passeava, as mãos nas costas, os olhos no chão, suspirando, sem prever o tempo em que os conservadores tornariam ao poder. Os liberaes estavam fortes e resolutos. As mesmas ideias pairavam na cabeça de D. Claudia. Este casal só não era egual na vontade; as ideias eram muitas vezes taes que, se apparecessem cá fóra, ninguem diria quaes eram as delle, nem quaes as della, pareciam vir de um cerebro unico. Naquelle momento nenhum achava esperança immediata ou remota. Uma só ideia vaga... E foi aqui que a vontade de D. Claudia fincou os pés no chão e cresceu. Não falo só por imagem; D. Claudia levantou-se da cadeira, rapida, e disparou esta pergunta ao marido:

—Mas, Baptista, você o que é que espera mais dos conservadores?

Baptista parou com um ar digno e respondeu com simplicidade:

—Espero que subam.

—Que subam? Espera oito ou dez annos, o fim do seculo, não é? E nessa occasião você sabe se será aproveitado? Quem se lembrará de você?

—Posso fundar um jornal.

—Deixe-se de jornaes. E se morrer?

—Morro no meu posto de honra.

D. Claudia olhou fixa para elle. Os seus olhos miudos enterravam-se pelos delle abaixo, como duas verrumas pacientes. Subito, levantando as mãos abertas:

—Baptista, você nunca foi conservador!

O marido empallideceu e recuou, como se ouvira a propria ingratidão de um partido. Nunca fôra conservador? Mas que era elle então, que podia ser neste mundo? Que é que lhe dava a estima dos seus chefes? Não lhe faltava mais nada... D. Claudia não attendeu a explicações; repetiu-lhe as palavras, e accrescentou.

—Você estava com elles, Como a gente está n'um baile, onde não é preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha.

Baptista sorriu leve e rapido; amava as imagens graciosas e aquella pareceu-lhe graciosissima, tanto que concordou logo; mas a sua estrella inspirou-lhe uma refutação prompta.

—Sim, mas a gente não dança com ideias, dança com pernas.

—Dance com que fôr, a verdade é que todas as suas ideias iam para os liberaes; lembre-se que os dissidentes na provincia accusavam a você de apoiar os liberaes...

—Era falso; o governo é que me recommendava moderação. Posso mostrar cartas.

—Qual moderação! Você é liberal.

—Eu liberal?

—Um liberalão, nunca foi outra cousa.

—Pense no que diz, Claudia. Se alguem a ouvir é capaz de crêr, e dahi a espalhar...

—Que tem que espalhe? Espalha a verdade, espalha a justiça, porque os seus verdadeiros amigos não o hão de deixar na rua, agora que tudo se organisa. Você tem amigos pessoaes no ministerio; porque é que os não procura?

Baptista recuou com horror. Isto de subir as escadas do poder e dizer-lhe que estava ás ordens não era concebivel sequer. D. Claudia admittiu que não, mas um amigo faria tudo, um amigo intimo do governo que dissesse ao Ouro-Preto: «Visconde, você porque é que não convida o Baptista? Foi sempre liberal nas ideias. Dê-lhe uma presidencia, pequena que seja, e...»

Baptista fez um gesto de hombros, outro de mão que se calasse. A mulher não se calou; foi dizendo as mesmas cousas, agora mais graves pela insistencia e pelo tom. Na alma do marido a catastrophe era já tremenda. Pensando bem, não recusaria passar o Rubicon; só lhe faltava a força necessaria. Quizera querer. Quizera não ver nada, nem passado, nem presente, nem futuro, não saber de homens nem de cousas, e obedecer aos dados da sorte, mas não podia.

E façamos justiça ao homem. Quando elle pensava só na fidelidade aos amigos sentia-se melhor; a mesma fé existia, o mesmo costume, a mesma esperança. O mal vinha de olhar para o lado de lá; e era D. Claudia que lhe mostrava com o dedo a carreira, a alegria, a vida, a marcha certa e longa, a presidencia, o ministerio... Elle torcia os olhos e ficava.

A sós comsigo, Baptista pensou muita vez na situação pessoal e politica. Apalpava-se moralmente. Claudia podia ter razão. Que é que havia nelle propriamente conservador, a não ser esse instincto de toda creatura, que a ajuda a levar este mundo? Viu-se conservador em politica, porque o pae o era, o tio, os amigos da casa, o vigario da parochia, e elle começou na escola a execrar os liberaes. E depois não era propriamente conservador, massaquarema, como os liberaes eramluzias.Baptista agarrava-se agora a estas designações obsoletas e deprimentes que mudavam o estylo aos partidos; donde vinha que hoje não havia entre elles o grande abysmo de 1842 e 1848. E lembrava-se do visconde de Albuquerque ou de outro senador que dizia em discurso não haver nada mais parecido com um conservador que um liberal, e vice-versa. E evocava exemplos, o partido progressista, Olinda, Nabuco, Zacharias, que fôram elles senão conservadores que comprehenderam os tempos novos e tiraram ás ideias liberaes aquelle sangue das revoluções, para lhes pôr uma côr viva, sim, mas serena. Nem o mundo era dos emperrados... Neste ponto passou-lhe um frio pela espinha. Justamente nessa occasião appareceu Flora. O pae abraçou-a com amor, e perguntou-lhe se queria ir para alguma provincia, sendo elle presidente.

—Mas os conservadores não cairam?

—Cairam, sim, mas suppõe que...

—Ah! não, papae!

—Não, porquê?

—Não desejo sair do Rio de Janeiro.

Talvez o Rio de Janeiro para ella fosse Botafogo, e propriamente a casa de Natividade. O pae não apurou as causas da recusa; suppol-as politicas, e achou novas forças para resistir ás tentações de D. Claudia: «Vae-te, Satanaz; porque escripto está: Ao Senhor teu Deus adorarás, e a elle servirás.» E seguiu-se como na Escriptura: «Então o deixou o Diabo; e eis que chegaram os anjos e o serviram.» Os anjos fôram só um, que valia por muitos; e o pae lhe disse beijando-a carinhosamente:

—Muito bem, muito bem, minha filha.

—Não é, papae?

Não, não foi a filha que tolheu a deserção do pae. Ao contrario. Baptista, se tivesse de ceder, cederia á mulher ou ao Diabo, synonimos neste capitulo. Não cedeu de fraqueza. Não tinha a força precisa de trahir os amigos, por mais que estes parecessem havel-o abandonado. Ha dessas virtudes feitas de acanho e timidez, e nem por isso menos lucrativas, moralmente falando. Não valem só stoicos e martyres. Virtudes meninas tambem são virtudes. É certo, porém, que a linguagem delle, em relação aos liberaes, não era já de odio ou impaciencia; chegava á tolerancia, roçava pela justiça. Concordava que a alternação dos partidos era um principio de necessidade publica. O que fazia era animar os amigos. Tornariam cedo ao poder. Mas D. Claudia opinava o contrario; para ella, os liberaes iriam ao fim do seculo. Quando muito, admittiu que na primeira entrada não déssem logar a um converso da ultima hora; era preciso esperar um anno ou dous, uma vaga na camara, uma commissão, a vice-presidencia do Rio...

Nenhuma dessas cousas preoccupava Natividade. Mais depressa cuidaria do baile da ilha Fiscal, que se realisou em novembro para honrar os officiaes chilenos. Não é que ainda dançasse, mas sabia-lhe bem ver dançar os outros, e tinha agora a opinião de que a dança é um prazer dos olhos. Esta opinião é um dos effeitos daquelle mau costume de envelhecer. Não pegues tal costume, leitora. Ha outros tambem ruins, nenhum peor, este é o pessimo. Deixa lá dizerem philosophos que a velhice é um estado util pela experiencia e outras vantagens. Não envelheças, amiga minha, por mais que os annos te convidem a deixar a primavera; quando muito, acceita o estio. O estio é bom, callido, as noites são breves, é certo, mas as madrugadas não trazem neblina, e o céu apparece logo azul. Assim dançarás sempre.

Bem sei que ha gente para quem a dança é antes um prazer dos olhos. Nem as bailadeiras são outra cousa mais que mulheres de officio. Tambem eu, se é licito citar alguem a si mesmo, tambem eu acho que a dança é antes prazer dos olhos que dos pés, e a razão não é só dos annos longos e grisalhos, mas tambem outra que não digo, por não valer a pena. Ao cabo, não estou contando a minha vida, nem as minhas opiniões, nem nada que não seja das pessoas que entram no livro. Estas é que preciso pôr aqui integralmente com as suas virtudes e imperfeições, se as têm. Entende-se isto, sem ser preciso notal-o, mas não se perde nada em repetil-o.

Por exemplo, D. Claudia. tambem ella pensava no baile da ilha Fiscal, sem a menor ideia de dançar, nem a razão esthetica da outra. Para ella, o baile da ilha era um facto politico, era o baile do ministerio, uma festa liberal, que podia abrir ao marido as portas de alguma presidencia. Via-se já com a familia imperial. Ouvia a princeza:

—Como vae, D. Claudia?

—Perfeitamente bem, Serenissima senhora.

E Baptista conversaria com o imperador, a um canto, deante dos olhos invejosos que tentariam ouvir o dialogo, á força de os fitarem de longe. O marido é que... Não sei que diga do marido relativamente ao baile da ilha. Contava lá ir, mas não se acharia a gosto; póde ser que traduzissem esse acto por meia conversão. Não é que só fossem liberaes ao baile, tambem iriam conservadores, e aqui cabia bem o aphorismo de D. Claudia que não é preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha.

Santos é que não precisava de ideias para dançar. Não dançaria sequer. Em moço dançou muito, quadrilhas, polkas, valsas, a valsa arrastada e a valsa pulada, como diziam então, sem que eu possa definir melhor a differença; presumo que na primeira os pés não saiam de chão, e na segunda não caiam do ar. Tudo isso até os vinte e cinco annos. Então os negocios pegaram delle e o metteram naquella outra contradança, em que nem sempre se volta ao mesmo logar ou nunca se sáe delle. Santos saiu e já sabemos onde está. UItimamente teve a fantasia de ser deputado. Natividade abanou a cabeça, por mais que elle explicasse que não queria ser orador nem ministro, mas tão sómente fazer da camara um degrau para o senado, onde possuia amigos, pessoas de merecimento, e que era eterno.

—Eterno? interrompeu ella com um sorriso fino e descorado.

—Vitalicio, quero dizer.

Natividade teimou que não, que a posição delle era commercial e bancaria. Accrescentou que politica era uma cousa e industria outra. Santos replicou, citando o barão de Mauá, que as fundiu ambas. Então a mulher declarou por um modo secco e duro que aos sessenta annos ninguem começa a ser deputado.

—Mas é de passagem; os senadores são edosos.

—Não, Agostinho, concluiu a baroneza com um gesto definitivo.

Não conto Ayres, que provavelmente dançaria, a despeito dos annos; tambem não falo de D. Perpetua, que nem iria lá. Pedro iria, e é natural que dançasse, e muito, não obstante o afinco e paixão dos seus estudos. Vivia enfeitiçado pela medicina. No quarto de dormir, além do busto de Hyppocrates, tinha os retratos de algumas summidades medicas da Europa, muito esqueleto gravado, muita molestia pintada, peitos cortados verticalmente para se lhe verem os vasos, cerebros descobertos, um cancro de lingua, alguns aleijões, cousas todas que a mãe, por seu gosto mandaria deitar fóra, mas era a sciencia do filho, e bastava. Contentava-se de não olhar para os quadros.

Quanto a Flora, ainda verde para os meneios de Terpsichore, era acanhada ou arrepiada, como dizia a mãe. E isto era o menos; o mais era que com pouco se enfadaria, e, se não pudesse vir logo para casa, ficaria adoentada o resto do tempo. Note-se que, estando na ilha, teria o mar em volta, e o mar era um dos seus encantos; mas, se lhe lembrasse o mar, e se consolasse com a esperança de o mirar, advertiria tambem que a noite escura tolheria a consolação. Que multidão de dependencias na vida, leitor! Umas cousas nascem de outras, enroscam-se, desatam-se, confundem-se, perdem-se, e o tempo vai andando sem se perder a si.

Mas donde viria o tedio a Flora, se viesse? Com Pedro no baile, não; este era, como sabes, um dos dous que lhe queriam bem. Salvo se ella queria principalmente ao que estava em S. Paulo. Conclusão duvidosa, pois não é certo que preferisse um a outro. Se já a vimos falar a ambos com a mesma sympathia, o que fazia agora a Pedro na ausencia de Paulo, e faria a Paulo na ausencia de Pedro, não me faltará leitora que presuma um terceiro... Um terceiro explicaria tudo, um terceiro que não fosse ao baile, algum estudante pobre, sem outro amigo nem mais casaca que o coração verde e quente. Pois nem esse, leitora curiosa, nem terceiro, nem quarto, nem quinto, ninguem mais. Uma exquisitona, como lhe chamava a mãe.

Não importa; a exquisitona foi ao baile da ilha Fiscal com a mãe e o pae. Assim tambem Natividade, o marido e Pedro, assim Ayres, assim a demais gente convidada para a grande festa. Foi uma bella ideia do governo, leitor. Dentro e fóra, do mar e de terra, era como ura sonho veneziano; toda aquella sociedade viveu algumas horas sumptuosas, novas para uns, saudosas para outros, e de futuro para todos,—ou, quando menos, para a nossa amiga Natividade—e para o conservador Baptista.

Aquella considerava o destino dos filhos,—cousas futuras! Pedro bem podia inaugurar, como ministro, o século XX e o terceiro reinado. Natividade imaginava outro e maior baile naquella mesma ilha. Compunha a ornamentação, via as pessoas e as danças, toda uma festa magna que entraria na historia. Tambem ella alli estaria, sentada a um canto, sem se lhe dar do peso dos annos, uma vez que visse a grandeza e a prosperidade dos filhos. Era assim que enfiara os olhos pelo tempo adiante, descontando no presente a felicidade futura, caso viesse a morrer antes das prophecias, Tinha a mesma sensação que ora lhe dava aquella cesta de luzes no meio da escuridão tranquilla do mar.

A imaginação de Baptista era menos longa que a de Natividade. Quero dizer que ia antes do principio do seculo, Deus sabe se antes do fim do anno. Ao som da musica, á vista das galas, ouvia umas feiticeiras cariocas, que se pareciam com as escossezas; pelo menos, as palavras eram analogas ás que saudaram Macbeth:—«Salve, Baptista, ex-presidente de provincia!»—«Salve, Baptista, proximo presidente de provincia!»— «Salve, Baptista, tu serás ministro um dia!» A linguagem dessas prophecias era liberal, sem sombra de solecismo. Verdade é que elle se arrependia de as escutar, e forcejava por traduzil-as no velho idioma conservador, mas já lhe iam faltando diccionarios. A primeira palavra ainda trazia o sotaque antigo: «Salve, Baptista, ex-presidente de provincia!» mas a segunda e a ultima eram ambas daquella outra lingua liberal, que sempre lhe pareceu lingua de preto. Emfim, a mulher, como lady Macbeth, dizia nos olhos o que esta dizia pela bôca, isto é, que já sentia em si aquellas futurações. O mesmo lhe repetiu na manhã seguinte, em casa. Baptista, com um sorriso disfarçado, descria das feiticeiras, mas a memoria guardava as palavras da ilha: «Salve, Baptista, proximo presidente!» Ao que elle respondia com um suspiro: Não, não, filhas do Diabo...

Ao contrario do que ficou dito atraz, Flora não se aborreceu na ilha. Conjecturei mal, emendo-me a tempo. Podia aborrecer-se pelas razões que lá ficara, e ainda outras que poupei ao leitor apressado; mas, em verdade, passou bem a noite. A novidade da festa, a visinhança do mar, os navios perdidos na sombra, a cidade defronte com os seus lampiões de gaz, embaixo e em cima, na praia e nos outeiros, eis ahi aspectos novos que a encantaram durante aquellas horas rapidas.

Não lhe faltavam pares, nem conversação, nem alegria alheia e propria. Toda ella compartia da felicidade dos outros. Via, ouvia, corria, esquecia-se do resto para se metter comsigo. Tambem invejava a princeza imperial, que viria a ser imperatriz um dia, com o absoluto poder de despedir ministros e damas, visitas e requerentes, e ficar só, no mais recondito do paço, fartando-se de contemplação ou de musica. Era assim que Flora definia o officio de governar. Taes ideias passavam e tornavam. De uma vez alguem lhe disse, como para lhe dar força: «Toda alma livre é imperatriz!»

Não foi outra voz, semelhante á das feiticeiras do pae nem ás que falavam interiormente a Natividade, acerca dos filhos. Não; seria pôr aqui muitas vozes de mysterio, cousa que, além do fastio da repetição, mentiria á realidade dos factos. A voz que falou a Flora saiu da bôca do velho Ayres, que se fôra sentar ao pé d'ella e lhe perguntara:

—Em que é que está pensando?

—Em nada, respondeu Flora.

Ora, o conselheiro tinha visto no rosto da moça a expressão de alguma cousa e insistia por ella. Flora disse como pôde a inveja que lhe mettia a vista da princeza, não para brilhar um dia, mas para fugir ao brilho e ao mando, sempre que quizesse ficar subdita de si mesma. Foi então que elle lhe murmurou, como acima:

—Toda alma livre é imperatriz.

A phrase era boa, sonora, parecia conter a maior somma de verdade que ha na terra e nos planetas. Valia por uma pagina de Plutarcho. Se algum politico a ouvisse poderia guardal-a para os seus dias de opposição ao governo, quando viesse o terceiro reinado. Foi o que elle mesmo escreveu noMemorial.Com esta nota: «A meiga creatura agradeceu-me estas cinco palavras».

Toda a gente voltou da ilha com o baile na cabeça muita sonhou com elle, alguma dormiu mal ou nada. Ayres foi dos que acordaram tarde; eram onze horas. Ao meio dia almoçou; depois escreveu noMemorialas impressões da vespera, notou varias espaduas, fez reparos politicos e acabou com as palavras que lá ficam no cabo do outro capitulo. Fumou, leu, até que resolveu ir á rua do Ouvidor. Como chegasse á vidraça de uma das janellas da frente, viu á porta da confeitaria uma figura inesperada, o velho Custodio, cheio de melancolia. Era tão novo o espectaculo que alli se deixou estar por alguns instantes; foi então que o confeiteiro, levantando os olhos, deu com elle entre as cortinas, e emquanto Ayres voltava para dentro, Custodio atravessou a rua e entrou-lhe em casa.

—Que suba, disse o conselheiro ao criado.

Custodio foi recebido com a benevolencia de outros dias e um pouco mais de interesse. Ayres queria saber o que é que o entristecia.

—Vim para contal-o a V.-Ex.; é a taboleta.

—Que taboleta?

—Queira V.-Ex. ver por seus olhos, disse o confeiteiro, pedindo-lhe o favor de ir á janella.

—Não vejo nada.

—Justamente, é isso mesmo. Tanto me aconselharam que fizesse reformar a taboleta que afinal consenti, e fil-a tirar por dous empregados. A visinhança veiu para a rua assistir ao trabalho e parecia rir de mim. Já tinha falado a um pintor da rua da Assembléa; não ajustei o preço porque elle queria ver primeiro a obra. Hontem, á tarde, lá foi um caixeiro, e sabe V.-Ex. o que me mandou dizer o pintor? Que a taboa está velha, e precisa outra; a madeira não aguenta tinta. Lá fui ás carreiras. Não pude convencel-o de pintar na mesma madeira; mostrou-me que estava rachada e comida de bichos. Pois cá debaixo não se via. Teimei que pintasse assim mesmo; respondeu-me que era artista e não faria obra que se estragasse logo.

—Pois reforme tudo. Pintura nova em madeira velha não vale nada. Agora verá que dura pelo resto da nossa vida.

—A outra tambem durava; bastava só avivar as letras.

Era tarde, a ordem fora expedida, a madeira devia estar comprada, serrada e pregada, pintado o fundo para então se desenhar e pintar o titulo. Custodio não disse que o artista lhe perguntára pela côr das letras, se vermelha, se amarella, se verde em cima de branco ou vice-versa, e que elle, cautelosamente, indagára do preço de cada côr para escolher as mais baratas. Não interessa saber quaes fôram.

Quaesquer que fossem as côres, eram tintas novas, táboas novas, uma reforma que elle, mais por economia que por affeição, não quizera fazer; mas a affeição valia muito. Agora que ia trocar de taboleta sentia perder algo do corpo,—cousa que outros do mesmo ou diverso ramo de negocio não comprehenderiam, tal gosto acham em renovar as caras e fazer crescer com ellas a nomeada. São naturezas. Ayres ia pensando em escrever uma Philosophia das Taboletas, na qual poria taes e outras observações, mas nunca deu começo a obra.

—V.-Ex. hade-me perdoar o incommodo que lhe trouxe, vindo contar-lhe isto, mas V.-Ex. é sempre tão bom commigo, fala-me com tanta amizade, que eu me atrevi... Perdoa-me, sim?

—Sim, homem de Deus.

—Comquanto V.-Ex. approve a reforma da taboleta, sentirá commigo a separação da outra, a minha amiga velha, que nunca me deixou, que eu, nas noites de luminarias, por S. Sebastião e outras, fazia apparecer aos olhos da gente. V.-Ex., quando se aposentou, veiu achal-a no mesmo logar em que a deixou por occasião de ser nomeado. E tive alma para me separar della!

—Está bom, lá vae; agora é receber a nova, e verá como daqui a pouco são amigos.

Custodio saiu recuando, como era seu costume, e desceu tropego as escadas. Deante da confeitaria deteve-se um instante, para ver o logar onde estivera a taboleta velha. Deveras, tinha saudades.

—...Este caso prova que tudo se póde amar muito bem, ainda um pedaço de madeira velha. Creiam que não era só a despeza que elle naturalmente sentia, eram tambem saudades. Ninguem se despega assim de um objecto tão intimo, que faz parte integral da casa e da pelle, porque a taboleta não foi sequer arriada um dia. Custodio não teve occasião de ver se estava estragada. Vivia alli como as portadas e a parede.

Era ao jantar, em Botafogo. Só quatro pessoas, as duas irmãs, Santos e Ayres. Pedro fôra jantar a S. Clemente, com a familia Baptista.

D. Perpetua approvou os sentimentos do confeiteiro. Citou, a proposito, o tinteiro de Evaristo. A irmã sorriu para o marido, e este para a mulher, como se dissessem: «lá vem elle!» Era um tinteiro que servira ao famoso jornalista do primeiro reinado e da Regencia, obra simples, feita de barro, egual aos tinteiros que a gente chã comprava nas lojas de papel daquelle e deste tempo. O sogro de D. Perpetua, que lh'o dera em lembrança, tivera um da mesma edade, massa e feição.

—Veiu assim de mão em mão parar ás minhas. Não chega aos tinteiros do mano Agostinho nem de Natividade, que são luxuosos, mas tem grande valor para mim.

—Sem duvida, concordou Ayres, valor historico e politico.

—Meu sogro dizia que delle sairam os grandes artigos daAurora.A falar verdade, eu nunca li taes artigos, mas meu sogro era homem de verdade. Conhecia a vida de Evaristo, por ouvil-a a outros, e fazia-lhe louvores que não acabavam mais...

Natividade buscou desviar a conversação para o baile da vespera. Tinham já falado delle, mas não achou outro derivativo. Entretanto, o tinteiro ainda ficou algum tempo. Não era só uma das lembranças de D. Perpetua, reliquia de familia, era tambem uma de suas ideias. Prometteu mostral-o ao conselheiro. Elle prometteu vel-o com muito gosto. Confessou que tinha veneração aos objectos de uso dos grandes homens. Emfim, o jantar acabou, e elles passaram ao salão. Ayres, falando da enseada:

—Aqui está uma obra, que é mais velha que o tinteiro do Evaristo e a taboleta do Custodio, e, não obstante, parece mais moça, não é verdade, D. Perpetua? A noite é clara e quente; podia ser escura e fria, e o effeito seria o mesmo. A enseada não differe de si. Talvez os homens venham algum dia atulhal-a de terra e pedras para levantar casas em cima, um bairro novo, com um grande circo destinado a corrida de cavallos. Tudo é possível debaixo do sol e da lua. A nossa felicidade, barão, é que morreremos antes.

—Nao fale em morte, conselheiro.

—A morte é uma hypothese, redarguiu Ayres, talvez uma lenda. ninguem morre de uma boa digestão, e os seus charutos são deliciosos.

—Estes são novos. Perecem-lhe bons?

—Deliciosos.

Santos estimou ouvir este louvor; achava-lhe uma intenção directa á sua pessoa, aos seus meritos, ao seu nome, á posição que tinha na sociedade, á casa, á chacara, ao Banco, aos colletes. É talvez muito; seria um modo emphatico de explicar a força da ligação delle aos charutos. Valiam pela taboleta e pelo tinteiro, com a differença que estes significavam só affeicção e veneração, e aquelles, valendo pelo sabor e pelo preço, tinham a superioridade do milagre, pela reproducção de todos os dias.

Taes eram as suspeitas que vagavam no cerebro de Ayres, emquanto elle olhava mansamente para o amphytrião. Ayres não podia negar a si mesmo a aversão que este lhe inspirava. Não lhe queria mal, de certo; podia até querer-lhe bem, se houvesse um muro entre ambos. Era a pessoa, eram as sensações, os dizeres, os gestos, o riso, a alma toda que lhe fazia mal.

Perto das nove horas, ou logo depois, chegou Pedro com o casal Baptista e Flora.

—Vimos trazer o seu menino, disse Baptista a Natividade.

—Obrigado, doutor, acudiu Santos, mas elle je não está em edade de se perder por essas ruas, e, se se perder, acha-se logo, accrescentou sorrindo.

Natividade não gostou da graça, tratando-se do filho e ao pé della. Era talvez excesso de pudor. Ha muito excesso nesse sentido, e o acertado é perdoal-o. Ha tambem excessos contrarios, condescendencias faceis, pessoas que entram com prazer na troca de allusões picantes. tambem se devem perdoar. Em summa, o perdão chega ao céu. Perdoai-vos uns aos outros, é a lei do Evangelho.

Elle, o rapaz, é que não ouviu nada; interrompera a conversa que trazia com Flora, e trocadas algumas palavras, os dous fôram reatar o fio a um canto. Ayres reparou na attitude de ambos; ninguem mais lhes prestava attenção. Ao cabo, a conversa era em voz surda; não os poderiam ouvir. Ella escutava, elle falava; depois era o contrario, ella é que falava, elle é que ouvia, tão absortos que pareciam não attender a ninguem, mas attendiam. Possuiam o sexto sentido dos conspiradores e dos namorados. Que conversassem de amores, é possivel; mas que conspiravam, é certo. Quanto á materia da conspiração, podereis sabel-a depois, brevemente, daqui a um capitulo. O proprio Ayres não descobriu nada, por mais que quizesse fartar os olhos naquelle dialogo de mysterios. Persuadiu-se que não era grave, porque elles sorriam com frequencia; mas podia ser intimo, escondido, pessoal, e acaso extranho. Suppõe um fio de anecdotas ou uma historia comprida, cousa alheia; ainda assim podia ser delles sómente, porque ha estados da alma em que a materia da narração é nada, o gosto de a fazer e de a ouvir é que é tudo. Tambem podia ser isto.

Vêde, porém, como a natureza encaminha as cousas minimas ou maximas, mormente se a fortuna a ajuda. A conversação tão doce, ao que parecia, começou por um enfado. A causa foi uma carta de Paulo, escripta ao irmão, e que este se lembrou de mostrar a Flora, dizendo-lhe que tambem a mostrára á mãe, e a mãe se zangára muito.

—Com o senhor?

—Com Paulo.

—Mas que dizia a carta?

Pedro leu-lhe o ponto principal, que era quasi toda a carta; falava da questão militar. Já havia a «questão militar», um conflicto de generaes e ministros, e a linguagem de Paulo era contra os ministros.

—Mas porque é que o senhor foi mostrar essa carta a sua mãe?

—Mamãe quiz saber o que é que elle me dizia.

—E sua mãe zangou-se, ahi está; vae talvez reprehendel-o.

—Tanto melhor; Paulo precisa ser emendado; mas, diga-me, porque é que a senhora defende sempre a meu irmão?

—Para ter o direito de defender tambem ao senhor.

—Então elle já lhe tem falado mal de mim?

Flora quiz dizer que sim, depois que não, afinal calou. Desconversou, perguntando porque elles se davam mal. Pedro negou que se dessem mal. Ao contrario, viviam bem. Não teriam as mesmas opiniões, e tambem podia ser que tivessem o mesmo gosto... Daqui a dizer que ambos a amavam era uma virgula; Pedro pingou o ponto final. Esse astuto era tambem timido. Mais tarde, comprehendeu que, calando, andou melhor, e deu a si mesmo o applauso da escolha; mas era falso, não escolhera nada. Não digo isto para fazel-o desmerecer; sim, porque o medo acerta muitas vezes, e é mister deixar aqui esta reflexão.

Veiu a zanga. Flora não replicou mais nada, e, por seu gosto, não teria jantado, a tal ponto sentia piedade do outro. Felizmente, o outro era este mesmo, aqui presente, com os olhos presentes, as mãos presentes, as palavras presentes. Não tardou que a zanga fugisse deante da graça, da brandura e da adoração. Bem-aventurados os que ficam, porque elles serão compensados.

Eis agora a materia da conspiração. Na rua, ao virem de S. Clemente, foi que Pedro, gastado o melhor do tempo com a carta e o jantar, pôde revelar á moça um segredo:

—Titia disse lá em casa que D. Claudia lhe contára em segredo (não diga nada) que seu pae vae ser nomeado presidente de provincia.

—Não sei nada disso, mas não creio, porque papae é conservador.

—D. Claudia disse a titia que elle é liberal, quasi radical. Parece que a presidencia é certa; ella pediu segredo, e titia, quando nos contou, tambem pediu segredo. Eu tambem lhe peço que não diga nada, mas é verdade.

—Verdade como? Papae não vae com liberaes; o senhor não sabe como papae é conservador. Se elle defende os liberaes é porque é tolerante.

—Se a provincia fosse a do Rio de Janeiro, eu gostaria, porque não era preciso ir morar na Praia Grande, e se elle fosse, a viagem é só de meia hora, eu podia ir lá todos os dias.

—Era capaz?

—Apostemos.

Flora, depois de um instante:

—Para que, se não ha presidencia?

—Supponha que ha.

—É preciso suppôr muito,—que ha presidencia e que a provincia é a do Rio. Não, não ha nada.

—Então supponha só metade,—que ha presidencia e que é Matto-Grosso.

Flora teve um calefrio. Sem admittir a nomeação, tremeu ao nome da provincia. Pedro lembrou ainda o Amazonas, Pará, Piauhy... Era o infinito, mormente se o pae fizesse boa administração, porque não voltaria tão cedo. Já agora a moça resistia menos, achava possivel e abominavel, mas dizia isto para si, dentro do coração. De repente, Pedro, quasi estacando o passo:

—Se elle fôr, eu peço ao governo o logar de secretario e vou tambem.

A luz intermittente das lojas reflectindo no resto da moça, á medida que elles iam passando por ellas, ajudava a dos lampiões da rua, e mostrava a emoção daquella promessa. Sentia-se que o coração de Flora devia estar batendo muito. Em breve, porém, começou ella a pensar em outra cousa. Natividade não consentiria nunca; depois, um estudante... Não podia ser. Pensou em algum escandalo. Que elle fugisse, embarcasse, fosse atraz della...

Tudo isto era visto ou pensado em silencio. Flora não se admirava de pensar tanto e tão atrevidamente; era como o peso do corpo, que não sentia: andava, pensava, como transpirava. Não calculou sequer o tempo que ia gastando em imaginar e desfazer ideias. Que isto lhe désse mais prazer que desprazer, é certo. Ao pé della, Pedro ia naturalmente cuidando, com os olhos nos pés, e os pés nas nuvens. Não sabia que dissesse no meio de tão longo silencio. Entretanto, a solução parecia-lhe unica. Já não pensava na presidencia do Rio. Queria-se com ella, no ponto mais remoto do imperio, sem o irmão. A esperança de se desterrarem assim de Paulo verdejou na alma de Pedro. Sim, Paulo não iria tambem; a mãe não se deixaria ficar desamparada. Que perdesse um filho, vá; mas ambos...

A quem quer que este final do monologo pareça egoista, peço-lhe pelas almas dos seus parentes amigos, que estão no céu, peço-lhe que considere bem as causas. Considere o estado da alma do rapaz, a contiguidade da moça, as raizes e as flores da paixão, a propria edade de Pedro, o mal da terra, o bem da mesma terra. Considere mais a vontade do céu, que vela por todas as creaturas que se querem, salvo se uma só é que quer a outra, porque então o céu é um abysmo de iniquidades, e não lhe importe esta imagem. Considere tudo, amigo; deixe-me ir contando só e contando mal o que se passou naquelle curto transito entre as duas casas. Quando lá chegaram, falavam de bôca.

Em cima, como viste, continuaram a falar, até que o assumpto da presidencia voltou. Flora notou então a cautelosa insistencia com que Ayres olhava para elles, como se buscasse adivinhar a materia da conversação. Sentia que não estivesse alli tambem, ouvindo e falando, finalmente promettendo fazer alguma cousa por ella. Ayres podia, sim,—era seu amigo e todos o tinham em grande conta,—podia intervir e destruir o projecto da presidencia.

Sem querer nem saber, diria isto mesmo com os olhos ao velho diplomata. Retirava-os, mas elles iam de si mesmos repetir o monologo, e acaso perguntar alguma cousa que Ayres não percebia e devia ser interessante. Póde ser que reflectissem a angustia ou o que quer que era que lhe doia dentro. Póde ser; a verdade é que Ayres começou a ficar curioso, e tão depressa Pedro deixou o logar para acudir ao chamado da mãe, deixou elle Natividade para ir falar á moça.

Flora, já de pé, mal teve tempo de trocar duas palavras, dessas que se não podem interromper sem dôr ou prurido, ao menos. Ayres perguntava-lhe se nunca lhe dissera que sabia adivinhar.

—Não, senhor.

—Pois sei; adivinhei agora mesmo que me quer dizer um segredo.

Flora ficou espantada. Não querendo negar nem confessar, respondeu-lhe que só adivinhára metade.

—A outra é...?

—A outra é pedir-lhe um obsequio de amizade.

—Peça.

—Não, agora não, já nos vamos embora; mamãe e papae estão fazendo as despedidas. Só se fôr na rua. Quer vir comnosco a S. Clemente?

—Com o maior prazer.

Entenda-se que não. Não era com prazer maior nem menor. Era imposição de sociedade, desde que Flora o pedira, não sei se discretamente. Que a isto ligasse tal ou qual desejo de saber algum segredo, não serei eu que o negue, nem tu, nem elle mesmo. Ao cabo de alguns instantes, Ayres ia sentindo como esta pequena lhe acordava umas vozes mortas, falhadas ou não nascidas, vozes de pae. Os gemeos não lhe deram um dia a mesma sensação, senão porque eram filhos de Natividade. Aqui não era a mãe, era a mesma Flora, o seu gesto, a sua fala, e por ventura a sua fatalidade.

—Mas quer-me parecer que desta vez ella está presa; escolheu emfim, pensou Ayres.

Flora falou-lhe da presidencia, mas não lhe pediu segredo, como as outras pessoas; confessou-lhe que não queria ir daqui, fosse para onde fosse, e acabou dizendo que tudo estava nas mãos delle. Só elle podia despersuadir o pae de acceitar a presidencia. Ayres achou tão absurdo este pedido que esteve quasi a rir, mas susteve-se bem. A palavra de Flora era grave e triste. Ayres respondeu, com brandura, que não podia nada.

—Póde muito, todos attendem aos seus conselhos.

—Mas eu não dou conselhos a ninguem, acudiu Ayres. Conselheiro é um titulo que o imperador me conferiu, poi achar que o merecia, mas não obriga a dar conselhos; a elle mesmo só lh'os darei, se m'os pedir. Imagine agora se eu vou á casa de um homem ou mando chamal-o á minha para lhe dizer que não seja presidente de provincia. Que razão lhe daria?

Não tinha razões a moça; tinha necessidade. Appellou para os talentos do ex-ministro, que acharia uma razão boa. Nem se precisavam razões, bastava o falar delle, a arte que Deus lhe dera de agradar a toda a gente, de a arrastar, de influir, de obter o que quizesse. Ayres viu que ella exagerava para o attrair, e não lhe pareceu mal. Não obstante, contestou taes meritos e virtudes. Deus não lhe dera arte nenhuma, disse elle, mas a moça ia sempre affirmando, em tal maneira que Ayres suspendeu a contestação, e fez uma promessa.

—Vou pensar; amanhã ou depois, se achar algum recurso, tentarei o negocio.

Era um palliativo. Era tambem um modo de fazer cessar a conversação, estando a casa proxima. Não contava com o pae de Flora, que á fina força lhe quiz mostrar, áquella hora, uma novidade, aliás uma velharia, um documento de valor diplomatico. «Venha, suba, cinco minutos apenas, conselheiro.»

Ayres suspirou em segredo, e curvou a cabeça ao Destino. Não se luta contra elle, dirás tu; o melhor é deixar que pegue pelos cabellos e nos arraste até onde queira alçar-nos ou despenhar-nos. Baptista nem lhe deu tempo de reflectir; era todo desculpas.

—Cinco minutos e está livre de mim, mas verá que lhe pago o sacrificio.

O gabinete era pequeno; poucos livros e bons, os moveis graves, um retrato de Baptista com a farda de presidente, um almanaque sobre a mesa, um mappa na parede, algumas lembranças do governo da provincia. Emquanto Ayres circulava os olhos, Baptista foi buscar o documento. Abriu uma gaveta, tirou uma pasta, abriu a pasta, tirou o documento, que não estava só, mas com outros. Conhecia-se logo por ser um papel velho, amarello, em partes roido. Era uma carta do conde de Oeyras, escripta ao ministro de Portugal na Hollanda.

—É o dia das antiquidades, pensou Ayres; a taboleta, o tinteiro, este autographo...

—A carta é importante, mas longa, disse Baptista, não podemos lel-a agora. Quer leval-a?

Não lhe deu tempo de responder; pegou de uma sobrecarta grande e metteu dentro o manuscripto, com esta nota por fóra: «Ao meu excellentissimo amigo conselheiro Ayres.» Emquanto elle fazia isto, Ayres passava os olhos pela lombada de alguns livros. Entre elles havia dousRelatoriosda presidencia de Baptista, ricamente encadernados.


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