Chapter 4

—Não me attribua esse luxo, acudiu o ex-presidente; foi um mimo da secretaria do Governo que nunca fez isto ninguem. Era um pessoal muito distincto.

E foi á estante e tirou um dos relatorios para ser melhor visto. Aberto, mostrou a impressão e as vinhetas; lido, podia mostrar o estylo por um lado, e, por outro, a prosperidade das finanças. Baptista limitou-se aos algarismos totaes: despeza, mil duzentos e noventa e quatro contos, setecentos e noventa mil reis; receita, mil, quinhentos quarenta e quatro contos duzentos e nove mil reis; saldo, duzentos e quarenta e nove contos, quatrocentos e dezenove mil reis. Verbalmente, explicou o saldo, que alcançou pela modificação de alguns serviços, e por um pequeno augmento de impostos. Reduziu a divida provincial, que achou em trezentos e oitenta e quatro contos, e deixou em trezentos e cincoenta contos. Fez obras novas e concertos importantes; iniciou uma ponte...

—A encadernação corresponde á materia, disse Ayres para concluir a visita.

Baptista fechou o livro, e redarguiu que já agora não iria sem lhe resolver uma consulta.

—Tudo ás avessas, concluiu; eu de manhã resolvo consultas, agora á noite sou eu que as faço.

Tal foi o introito, mas do introito ao Credo ha sempre um passo estirado, e o principal da missa para elle estava no Credo. Não achando o texto do missal, explicou-lhe um sinete, uma penna de ouro, um exemplar do Codigo Criminal. O Codigo, posto que velho, valia por trinta novos, não que tivesse melhor rosto, se não que trazia annotações manuscriptas de um grande jurista, Fulano. Tendo passado longa parte da vida no exterior, o conselheiro mal conhecera o autor das notas, mas desde que ouviu chamar-lhe grande, assumiu a expressão adequada. Pegou do codigo com cuidado, leu algumas das notas com veneração.

Durante esse tempo, Baptista ia criando folego. Compoz uma phrase para iniciar a consulta, e só esperava que Ayres fechasse o livro para soltal-a; mas o outro ia demorando o exame do Codigo. Podia ser uma pontinha de malignidade, mas não era. Os olhos de Ayres tinham uma faculdade particular, menos particular do que parece, porque outros a possuirão calados. Vinha a ser que elles não saíam da pagina, mas em verdade já lhe prestava menos attenção; o tempo, a gente, a vida, cousas passadas, surdiam a espial-o por detraz do livro com que tinham vivido, e Ayres ia tornando a ver um Rio de Janeiro que não era este, ou apenas o fazia lembrado. Nem cuides que eram só reos e juizes, era o passeio, a rua, a festa, velhos patuscos e mortos, rapazes frescos e agora enferrujados como elle. Baptista tossiu. Ayres voltou a si e leu alguma das notas que o outro devia trazer de cór, mas eram tão profundas! Emfim, mirou a encadernação, achou o livro bem conservado, fechou-o e restituiu-o á bibliotheca.

Baptista não perdeu um instante, correu inmediato ao assumpto, com medo de o ver pegar em outro livro.

—Confesso-lhe que tenho o temperamento conservador.

—Tambem eu guardo presentes antigos.

—Não é isso: refiro-me ao temperamento politico. Verdadeiramente ha opiniões e temperamentos. Um homem póde muito bem ter o temperamento opposto ás suas ideias. As minhas ideias, se as cotejarmos com os programmas politicos do mundo, são antes liberaes e algumas liberrimas O suffragio universal por exemplo, é para mim a pedra augular de um bom regimen representativo. Ao contrario, os liberaes pediram e fizeram o voto censitario. Hoje estou mais adiantado que elles; acceito o que está, por ora. mas antes do fim do seculo é preciso rever alguns artigos da Constituição, dous ou trez.

Ayres escondia o espanto... Convidado assim áquella hora... Uma profissão de fé politica... Baptista insistia na distincção do temperamento e das ideias. Alguns amigos velhos, que conheciam esta dualidade moral e mental, é que teimavam em querer que elle acceitasse uma presidencia; elle não queria. Francamente, que lhe parecia ao conselheiro?

—Francamente, acho que não tem razão.

—Que não tenho razão em quê?

—Em recusar.

—Propriamente, não recusei nada; ha um grande trabalho neste sentido, e o meu desejo, —accrescentou com mais clareza,—é que os bons amigos sagazes me digam se tal cousa é acertada; não me parece que seja...

—Eu penso que é.

—De maneira que, se o caso fosse com o senhor...

—Commigo não podia ser. Sabe que eu já não sou deste mundo, e politicamente nunca figurei em nada. A diplomacia tem este effeito que separa o funccionario dos partidos e o deixa tão alheio a elles, que fica impossivel de opinar com verdade, ou, quando menos, com certeza.

—Mas não me disse que acha...

—Acho.

—... Que posso acceitar uma presidencia, se me offerecerem?

—Póde; uma presidencia acceita-se.

—Pois então saiba tudo; é a unica pessoa de sociedade com quem me abro assim francamente. A presidencia foi-me offerecida.

—Acceite, acceite.

—Está acceita.

—Já?

—O decreto assigna-se sabbado.

—Então acceite tambem os meus parabens.

—Propriamente, a lembrança não foi do ministerio; ao contrario, o ministerio não se resolveu antes de saber se effectivamente fiz uma eleição contra os liberaes, ha annos; mas logo que soube que por não os perseguir é que fui demittido, acceitou a indicação de chefes politicos, e recebi pouco depois este bilhete.

O bilhete estava no bolso, dentro da carteira. Qualquer outro, alvoroçado com a nomeação proxima, levaria tempo a achar o bilhete no meio dos papeis; mas Baptista possuia o tacto dos textos. Tirou a carteira, abriu-a descançado e com os dedos saccou o bilhete do ministro convidando-o a uma conversação. Na conversação ficou tudo assentado.

Emfim, só! Quando Ayres se achou na rua, só, livre, solto, entregue a si mesmo, sem grilhões nem considerações, respirou largo. Fez um monologo, que d'ahi a pouco interrompeu por se lembrar de Flora. Tudo o que ella não quizera ia acontecer; lá ia o pae a uma presidencia, e ella com elle, e a recente inclinação ao joven Pedro vinha parar a meio caminho. Entretanto, não se arrependia do que dissera e ainda menos do que não dissera. Os dados estavam lançados. Agora era cuidar de outra cousa.

Ao despedir-se, fez Ayres uma reflexão, que ponho aqui, para o caso de que algum leitor a tenha feito tambem. A reflexão foi obra de espanto, e o espanto nasceu de ver como um homem tão difficil em ceder ás instigações da esposa (Vae-te, Satanaz, etc.; capitulo XLVII) deitou tão facilmente o habito ás ortigas. Não achou explicação, nem a acharia, se não soubesse o que lhe disseram mais tarde, que os primeiros passos da conversão do homem fôram dados pela mulher. «A mulher é a desolação do homem», dizia não sei que philosopho socialista, creio que Proudhon. Foi ella, a viuva da presidencia, que por meios varios e secretos, tramou passar a segundas nupcias. Quando elle soube do namoro, já os banhos estavam corridos; não havia mais que consentir e casar tambem.

Ainda assim, custou-lhe muito. O clamor dos seus aturdia-lhe de antemão os ouvidos, a alma ia cega, tonta, mas a esposa servia-lhe de guia e amparo, e, com poucas horas, Baptista viu claro e ficou firme.

—Estamos á porta do terceiro reinado, ponderou D. Claudia, e certamente o partido liberal não deixa tão cedo o poder. Os seus homens são válidos, a inclinação dos tempos é para o liberalismo, e você mesmo...

—Sim, eu... suspirou Baptista.

D. Claudia não suspirou, cantou victoria; a reticencia do marido era a primeira figura de acquiescencia. Não lhe disse isto assim, nu e cru; tambem não revelou alegria descomposta; falou sempre a linguagem da razão fria e da vontade certa. Baptista, sentindo-se apoiado, caminhou para o abysmo e deu o salto nas trevas. Não o fez sem graça, nem com ella. Posto que a vontade que trazia fosse de emprestimo, não lhe faltava desejo a que a vontade da esposa deu vida e alma. Dahi a autoria de que se investiu e acabou confessando.

Tal foi a conclusão de Ayres, segundo se lê noMemorial.Tal será a do leitor, se gosta de concluir. Note que aqui lhe poupei o trabalho de Ayres; não o obriguei a achar por si o que, de outras vezes, é obrigado a fazer. O leitor attento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estomagos no cerebro, e por elles faz passar e repassar os actos e os factos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida.

O dia seguinte trouxe á menina Flora a grande novidade. Sabbado seria assignado o decreto; a presidencia era no norte. D. Claudia não lhe viu a pallidez, nem sentiu as mãos frias, continuou a falar do caso e do futuro, até que Flora, querendo sentar-se, quasi caiu. A mãe acudiu-lhe:

—Que é? Que tens?

—Nada, mamãe não é nada.

A mãe fel-a sentar-se.

—Foi uma tonteira, passou.

D. Claudia deu-lhe a cheirar um pouco de vinagre, esfregou-lhe os pulsos; Flora sorriu.

—Este sabbado? perguntou.

—O decreto? Sim, este sabbado. Mas não digas por ora a ninguem; são segredos de gabinete. É cousa certa; emfim, alguem nos fez justiça; provavelmente o imperador. Amanhã irás commigo a algumas encommendas. Faze uma lista do que precisas.

Flora precisava não ir e só pensava nisso. Uma vez que o decreto estava prestes a ser assignado, não havia já desaconselhar a nomeação; restava-lhe a ella ficar. Mas como? Todos os sonhos são proprios ao somno de uma creança. Não era facil, mas não seria impossivel. Flora cria tudo; não tirava o pensamento de Ayres, e já agora de Natividade tambem. Os dous podiam fazel-o, ou antes os trez, se contardes tambem o barão, e se vier a cunhada deste, quatro. Juntai aos quatro as cinco estrellas do Cruzeiro, as nove musas, anjos e archanjos, virgens e martyres... Juntai-os todos, e todos poderiam fazer esta simples acção de impedir que Flora fosse para a provincia. Taes eram as esperanças vagas, rapidas, que corriam a substituir as tristezas do rosto da moça, emquanto a mãe, attribuindo o effeito ao vinagre, ajustava a rolha de vidro ao frasco, e restituía o frasco ao toucador.

—Faze uma lista do que precisas, repetiu á filha.

—Não, mamãe, eu não preciso nada.

—Precisas, sim, eu sei o que precisas.

Não escreveria este capitulo, se elle fosse propriamente das encommendas, mas não é. Tudo são instrumentos nas mãos da Vida. As duas sairam de casa, urna lepida, a outra melancolica, e lá fôram a escolher uma quantidade de objectos de viagem e de uso pessoal. D. Claudia pensava nos vestidos da primeira recepção e de visitas; tambem ideou o do desembarque. Tinha ordem do marido para comprar algumas gravatas. Os chapeos, entretanto, fôram o principal artigo da lista. Ao parecer de D. Claudia, o chapeo da mulher é que dava a nota verdadeira do gosto, das maneiras e da cultura de uma sociedade. Não valia a pena acceitar uma presidencia para levar chapeos sem graça, dizia ella sem convicção, porque intimamente pensava que a presidencia dá graça a tudo.

Estavam justamente na loja de chapeos, rua do Ouvidor, sentadas, os olhos fóra e longe, quando a verdadeira materia deste capitulo appareceu. Era o gemeo Paulo, que chegara pelo trem nocturno, e sabendo que ellas andavam a compras, viera procural-as.

—O senhor! exclamaram.

—Cheguei esta manhã.

Flora tinha-se levantado, com o alvoroço que lhe deu a vista inesperada de Paulo. Elle correu a ellas, apertou-lhes as mãos, indagou da saúde, e reconheceu que pareciam vender saúde e alegria. A impressão era exacta; Flora tinha agora uma agitação, que contrastava cora o abatimento daquella triste manhã, e um riso que a fazia alegre.

—Tive sempre noticias das senhoras, que mamãe me dava, e Pedro tambem, ás vezes. Da senhora, continuou elle falando a D. Claudia, recebi duas cartas. Como vae o doutor?

—Bem.

—Ora, em fim, cá estou!

E Paulo dividia os olhos com as duas, mas a melhor parte ia natural mente para a filha. Pouco depois era todo e pouco para esta. D. Claudia voltára á escolha dos chapeos, e Flora, que até então opinava de cabeça, perdeu este ultimo gesto. Paulo sentou-se na cadeira que um empregado lhe trouxe, e ficou a olhar para a moça; falavam de cousas minimas, alheias ou proprias, tudo o que bastasse para os reter disfarçadamente na contemplação um do outro. Paulo viera o mesmo que fôra, o mesmo que Pedro, sempre com alguma nota particular, que ella não podia achar claramente, menos ainda definir. Era um mysterio; Pedro teria o seu.

D. Claudia interrompia-os, de vez em quando, a proposito da escolha; mas, tudo acaba, até a escolha de chapeos. Foram d'alli aos vestidos. Paulo, não sabendo da presidencia, estimou esta casualidade para as acompanhar de loja em loja. Contava anecdotas de S. Paulo, sem grande interesse para Flora; as noticias que ella lhe dava acerca das amigas, eram mais ou menos dispensaveis. Tudo valia pelos dous interlocutores. A rua ajudava aquella absorpção reciproca; as pessoas que iam ou vinham, damas ou cavalheiros, parassem ou não, serviam de ponto de partida a alguma digressão. As digressões entraram a dar as mãos ao silencio, e os dous seguiam com os olhos espraiados e a cabeça alta, elle mais que ella, porque uma pontinha de melancolia começava a espancar do rosto da moça a alegria da hora recente.

Na rua Gonçalves Dias, indo para o largo da Carioca, Paulo viu dous ou trez politicos de S. Paulo, republicanos, parece que fazendeiros. Havendo-os deixado lá, admirou-se de os ver aqui, sem advertir que a ultima vez que os vira ia já a alguma distancia.

—Conhecem? perguntou ás duas.

Não, não os conheciam. Paulo disse-lhes os nomes. A mãe talvez fizesse alguma pergunta politica, mas deu por falta de um objecto, advertiu que o não comprára, e propoz voltarem atraz. Tudo era acceito por ambos, com docilidade, apesar do veu de tristeza, que se ia cerrando mais no rosto da moça. Aquellas encommendas tinham já um ar de bilhetes de passagem, não tardava o paquete, iam correr ás malas, aos arranjos, ás despedidas, ao camarote de bordo, ao enjôo de mar, e áquelle outro de mar e terra, que a mataria, com certeza, cuidava Flora. Dahi o silencio crescente, que Paulo mal podia vencer, de quando em quando; e comtudo ella estava bem com elle, gostava de lhe ouvir dizer cousas soltas, algumas novas, outras velhas, recordações anteriores á partida daqui para S. Paulo.

Assim se deixaram ir, guiados por D. Claudia, quasi esquecida delles. No meio daquella conversação truncada, mais entretida por elle que por ella, Paulo sentia impetos de lhe perguntar, ao ouvido, na rua, se pensára nelle, ou, ao menos, sonhára com elle algumas noites. Ouvindo que não, daria espansão á colera, dizendo-lhe os ultimos improperios; se ella corresse, correria tambem, até pegal-a pelas fitas do chapeo ou pela manga do vestido, e, em vez de a esganar, dançaria com ella uma valsa de Strauss ou uma polka de ***. Logo depois, ria destes delirios, porque, a despeito da melancolia da moça, os olhos que ella erguia para elle eram de quem sonhou e pensou muito na pessoa, e agora cuida de descobrir se é a mesma do sonho e do pensamento. Assim lhe parecia ao estudante de direito; pelo que, quando elle desviava o rosto, era para repetir a experiencia e tornar a ver-lhe os olhos aguçados do mesmo espirito critico e de livre exame. Quanto ao tempo que os trez gastaram nessa agitação de compras e escolhas, visões e comparações, não ha memoria delle, nem necessidade. Tempo é propriamente officio de relogio, e nenhum delles consultou o relogio que trazia.

Ora bem, acabas de ver como Flora recebeu o irmão de Pedro; tal qual recebia o irmão de Paulo. Ambos eram apostolos. Paulo achava-a agora mais bonita que alguns mezes antes, e disse-lh'o n'essa mesma tarde em S. Clemente, com esta palavra familiar e cordial:

—A senhora enfeitou muito.

Flora julgava a mesma cousa, relativamente ao estudante de direito; calou a impressão. Ou a tristeza que trazia, ou qualquer outra sensação particular, fel-a acanhada, a principio. Não tardou, porém, que achasse outra vez o gemeo no gemeo, e que elle e ella matassem saudades.

Como é que se matam saudades não é cousa que se explique de um modo claro. Elle não ha ferro nem fogo, corda nem veneno, e todavia as saudades expiram, para a resurreição, alguma vez antes do terceiro dia. Ha quem creia que, ainda mortas, são doces, mais que doces. Esse ponto, no nosso caso, não póde ser ventilado, nem eu quero desenvolvel-o, como aliás cumpria.

As saudades morreram, não todas, nem logo, logo, mas em parte e tão vagarosamente que Paulo acceitou o convite de lá jantar. Era o dia da chegada; Natividade quizera tel-o comsigo á mesa, ao pé de Pedro, para cimentar a pacificação começada pela distancia. Paulo nem se deu ao trabalho de lá mandar; deixou-se estar com a bella creatura, entre o pae e a mãe que pensavam em outra cousa, proxima no tempo e remota no espaço. Sabendo o que era, Flora passava do prazer ao tedio, e Paulo não entendia essa alternação de sentimentos. De quando em quando, vendo a mãe agitada e preoccupada, mas com outra expressão, Paulo interrogava a filha. Em vez de dar uma explicação qualquer, Flora passou uma vez a mão pelos olhos e ficou alguns instantes sem os descobrir. A acção do estudante de direito, devia ser arredar-lhe a mão, encaral-a de perto, mais perto, totalmente perto, e repetir a pergunta por um modo em que a eloquencia do gesto dispensasse a fala. Se tal ideia teve, não saiu cá fóra. Nem ella lhe consentiu mais tempo que o da pergunta:

—Que é que tem?

—Nada, respondeu Flora.

—Tem alguma cousa, insistiu elle querendo pegar-lhe na mão.

Não acabou o gesto, não o começou sequer; abriu e fechou os dedos apenas, emquanto sorria para sacudir tristezas, e deixou-se estar a matar saudades.

Tudo se explicou à noite, em casa da familia Santos. O ex-presidente de provincia confessou as esperanças de uma investidura nova; a esposa affirmou a eminencia do ato. Dahi a publicidade da noticia, que pouco antes D. Claudia só dizia em segredo. Já não havia segredos que calar.

Paulo soube então tudo, e Pedro, que conhecia alguns preliminares, acabou sabendo o resto. Ambos naturalmente sentiram a separação proxima. A dôr os fez amigos por instantes; é uma das vantagens dessa grande e nobre sensação. Já me não lembra quem affirmava, ao contrario, que um odio commum é o que mais liga duas pessoas. Creio que sim, mas não descreio do meu postulado, por esta razão que uma coisa não tolhe a outra, e ambas podem ser verdadeiras.

Demais, a dôr não era ainda o desespero. Havia até uma consolação para os dous gemeos; é que a moça ficaria longe de ambos. Nenhum delles teria o gozo exclusivo ao pé da porta. Não há mal que não traga um pouco de bem, e por isso é que o mal é util, muita vez indispensavel, alguma vez delicioso. Os dous quizeram falar á amiguinha, em particular, para sondal-a ácerca daquella separação, já agora certa, mas nenhum conseguiu este desejo. Vigiavam-se, isso sim. Quando lhe falavam, era sempre juntos, e de cousas familiares e ordinarias. O gesto de Flora não traduzia o estado da alma; este podia ser lepido, melancolico, ou indifferente, não vinha cá fóra. Em verdade, ella falava pouco. Os olhos tambem não diziam muito. Mais de uma vez, Pedro deu com ella fitando Paulo, e gemeu com a preferencia, mas tambem elle era preferido depois, e achava compensação; Paulo então é que rangia os dentes, figuradamente. Natividade, toda entregue á sua recepção, que era a ultima do anno, não acompanhou de perto as agitações moraes daquelle trio. Quando deu por ellas, chegou a sentil-as tambem.

Pouco a pouco, a gente se foi dispersando. Não era muita, e dominava a nota intima. Quando a maioria saiu, ficou só a porção mais intima, trez ou quatro homens a um canto da sala, falando e rindo de ditos e anecdotas. Não conversavam de politica, e aliás não faltaria materia. As moças, pela segunda ou terceira vez, trocavam as impressões do grande baile recente. Tambem falavam de musicas e theatros, das festas proximas de Petropolis, da gente que ia naquelle anno, e da que só iria em Janeiro. Natividade dividia-se com todos, até que, podendo ficar alguns instantes com Ayres, confiara-lhe o seu receio ácerca do amor dos filhos, e ao mesmo tempo o prazer que lhe trazia a esperança de uma longa separação de Flora. O conselheiro não desdizia do receio, nem da esperança.

—É uma felicidade que o Baptista seja nomeado e leve a filha daqui, disse ella.

—Certamente, mas...

—Mas quê?

—Certamente a levará, mas a senhora póde não conhecer bem aquella menina.

—Penso que é boa.

—Tambem eu penso assim. A bondade, porém, não tem nada com o resto da pessoa. Flora é, como já lhe disse ha tempos, uma inexplicavel. Agora é tarde para lhe expor os fundamentos da minha impressão; depois lhe direi. Note que gósto muito della; acho-lhe um sabor particular naquelle contraste de uma pessoa assim, tão humana e tão fóra do mundo, tão etherea e tão ambiciosa, ao mesmo tempo, de uma ambição recondita... Vá perdoando estas palavras mal embrulhadas, e até amanhã, concluiu elle, estendendo-lhe a mão. Amanhã virei explical-as.

—Explique-as agora, emquanto os outros parecem rir de algum dito engraçado.

Effectivamente, os homens riam de algum dito ou trocadilho; Ayres quiz falar, mas reteve a lingua, e desculpou-se. A explicação era longa e dificil, e não era urgente, disse elle.

—Eu mesmo não sei se me entendo, baroneza, nem se penso a verdade; póde ser. Em todo caso, minha boa amiga, até amanhã ou até Petropolis. Quando espera subir?

—Lá para o fim do anno.

—Então ainda nos veremos algumas vezes.

—Sim, e, se me não vir a mim, quero que veja os meus rapazes, que os receba e estime. Elles o têm em grande conta; não lhe fazem senão justiça. Pedro acha que o senhor é o espirito mais fino, e Paulo o mais rijo da nossa terra...

—Veja como a senhora os educa, ensinando-lhes a pensar errado, disse Ayres sorrindo e fazendo um gesto de agradecimento. Eu rijo?

—O mais rijo e o mais fino.

Os ultimos habituados da casa vieram dar boa noite á dona. Dez minutos depois, Ayres despedia-se do casal Santos.

A noite era clara e tranquilla. Ayres recompoz uma parte do serão para escrevel-a noMemorial.Poucas linhas, mas interessantes, nas quaes Flora era a principal figura: «Que o Diabo a entenda, se puder; eu, que sou menos que elle, não acerto de a entender nunca. Hontem parecia querer a um, hoje quiz ao outro; pouco antes das despedidas, queria a ambos. Encontrei outr'ora desses sentimentos alternos e simultaneos; eu mesmo fui uma e outra cousa, e sempre me entendi a mim. Mas aquella menina e moça... A condição dos gemeos explicará esta inclinação dupla; póde ser tambem que alguma qualidade falte a um que sóbre a outro, e vice-versa, e ella, pelo gosto de ambas, não acaba de escolher de vez. É phantastico, sei; menos phantastico é se elles, destinados á inimizade, acharem nesta mesma creatura um campo estreito de odio, mas isto os explicaria a elles, não a ella... Seja o que fôr, a nossa organisação politica é util; a presidencia de provincia, arredando Flora daqui, por algum tempo, tira esta moça da situação em que se acha, como a asna de Buridan. Quando voltar, a agua estará bebida e a cevada comida. Um decreto ajudará a natureza.»

Isto feito, Ayres metteu-se na cama, rezou uma ode do seu Horacio e fechou os olhos. Nem por isso dormiu. Tentou então uma pagina do seu Cervantes, outra do seu Erasmo, fechou novamente os olhos, até que dormiu. Pouco foi; ás cinco horas e quarenta minutos estava de pé. Era novembro, sabes que é dia.

Quando lhe acontecia o que ficou contado, era costume de Ayres sair cedo, a espairecer. Nem sempre acertava. Desta vez foi ao Passeio Publico. Chegou ás sete horas e meia, entrou, subiu ao terraço e olhou para o mar. O mar estava crespo. Ayres começou a passear ao longo do terraço, ouvindo as ondas, e chegando-se á borda, de quando em quando, para vel-as bater e recuar. Gostava dellas assim; achava-lhes uma especie de alma forte, que as movia para metter medo á terra. A agua, enroscando-se em si mesma, dava-lhe uma sensação, mais que de vida, de pessoa tambem, a que não faltavam nervos nem musculos, nem a voz que bradava as suas coleras.

Emfim, cançou e desceu, foi-se ao lago, ao arvoredo e passeou á toa, revivendo homens e cousas, até que se sentou em um banco. Notou que a pouca gente que havia alli não estava sentada, como de costume, olhando á toa, lendo gazetas ou cochilando a vigilia de uma noite sem cama. Estava de pé, falando entre si, e a outra que entrava ia pegando na conversação sem conhecer os interlocutores; assim lhe pareceu, ao menos. Ouviu umas palavras soltas,Deodoro, batalhões, campo, ministerio, etc. Algumas, ditas em tom alto, vinham acaso para elle, a ver se lhe espertavam a curiosidade, e se obtinham mais uma orelha ás noticias. Não juro que assim fosse, porque o dia vae longe, e as pessoas não eram conhecidas. O proprio Ayres, se tal cousa suspeitou, não a disse a ninguem; tambem não afiou o ouvido para alcançar o resto. Ao contrario, lembrando-lhe algo particular, escreveu a lapis uma nota na carteira. Tanto bastou para que os curiosos se dispersassem, não sem algum epitheto de louvor, uns ao governo, outros ao exercito: podia ser amigo de um ou de outro.

Quando Ayres saiu do Passeio Publico, suspeitava alguma cousa, e seguiu até o largo da Carioca. Poucas palavras e sumidas, gente parada, caras espantadas, vultos que arrepiavam caminho, mas nenhuma noticia clara nem completa. Na rua do Ouvidor, soube que os militares tinham feito uma revolução, ouviu descripções da marcha e das pessoas, e noticias desencontradas. Voltou ao largo, onde trez tilburys o disputaram; elle entrou no que lhe ficou mais á mão, e mandou tocar para o Cattete. Não perguntou nada ao cocheiro; este é que lhe disse tudo e o resto. Falou de uma revolução, de dous ministros mortos, um fugido, os demais presos. O imperador, capturado em Petropolis, vinha descendo a serra.

Ayres olhava para o cocheiro, cuja palavra saía deliciosa de novidade. Não lhe era desconhecida esta creatura. Já a vira, sem o tilbury, na rua ou na sala, á missa ou a bordo, nem sempre homem, alguma vez mulher, vestida de seda ou do chita. Quiz saber mais, mostrou-se interessado e curioso, e acabou perguntando se realmente houvera o que dizia. O cocheiro contou que ouvira tudo a um homem que trouxera da rua dos Invalidos e levára ao largo da Gloria, por signal que estava assombrado, não podia falar, pedia-lhe que corresse, que lhe pagaria o dobro; e pagou.

—Talvez fosse algum implicado no barulho, suggeriu Ayres.

—Tambem póde ser, porque elle levava o chapéo derrubado, e a principio pensei que tinha sangue nos dedos, mas reparei e vi que era barro; com certeza, vinha de descer algum muro. Mas, pensando bem, creio que era sangue; barro não tem aquella côr. A verdade é que elle pagou o dobro da viagem, e com razão, porque a cidade não está segura, e a gente corre grande risco levando pessoas de um lado para outro...

Chegavam justamente á porta de Ayres; este mandou parar o vehiculo, pagou pela tabella e desceu. Subindo a escada, ia naturalmente pensando nos acontecimentos possiveis. No alto achou o criado que sabia tudo, e lhe perguntou se era certo...

—O que é que não é certo, José? É mais que certo.

—Que matáram trez ministros?

—Não; ha só um ferido.

—Eu ouvi que mais gente tambem, falaram em dez mortos...

—A morte é um phenomeno egual á vida; talvez os mortos vivam. Em todo caso, não lhes rezes por alma, porque não és bom catholico, José.

Como é que, tendo ouvido falar da morte de dous e trez ministros, Ayres affirmou apenas o ferimento de um, ao rectificar a noticia do criado? Só se póde explicar de dous modos,—ou por um nobre sentimento de piedade, ou pela opinião de que toda a noticia publica cresce de dous terços, ao menos. Qualquer que fosse a causa, a versão do ferimento era a unica verdadeira. Pouco depois passava pela rua do Cattete a padiola que levava um ministro, ferido. Sabendo que os outros estavam vivos e sãos e o imperador era esperado de Petropolis, não acreditou na mudança de regimen que ouvira ao cocheiro de tilbury e ao criado José. Reduziu tudo a um movimento que ia acabar com a simples mudança de pessoal.

—Temos gabinete novo, disse comsigo.

Almoçou tranquillo, lendo Xenophonte: «Considerava eu um dia quantas republicas tem sido derribadas por cidadãos que desejam outra especie de governo, e quantas monarchias e olygarchias são destruidas pela sublevação dos povos; e de quantos sobem ao poder, uns são depressa derribados, outros, se duram, são admirados por habeis e felizes...» Sabes a conclusão do autor, em prol da these de que o homem é difficil de governar; mas logo depois a pessoa de Cyro destróe aquella conclusão, mostrando um só homem que regeu milhões de outros, os quaes não só o temiam, mas ainda lutavam por lhe fazer as vontades. Tudo isto em grego, e com tal pausa que elle chegou ao fim do almoço, sem chegar ao fim do primeiro capitulo.

—Mas, S. Ex. está almoçando, dizia o criado no patamar da escada a alguem que pedia para falar ao conselheiro.

Era falso, Ayres acabava justamente de almoçar; mas o criado sabia que o amo gostava de saborear o charuto depois do almoço, sem interrupção. Agora estava no canapé e ouviu o dialogo do patamar. A pessoa insistia em dizer uma palavrinha.

—Não póde ser.

—Bem, eu espero; logo que S. Ex. acabe...

—O melhor é voltar depois; não mora alli defronte? Pois volte daqui a uma hora ou duas...

A pessoa era o Custodio e foi para casa, mas o velho diplomata, sabendo quem era, não esperou que acabasse o charuto; mandou-lhe dizer que viesse. Custodio saiu, correu, subiu e entrou assombrado.

—Que é isso, Sr. Custodio? disse-lhe Ayres. O senhor anda a fazer revoluções?

—Eu, senhor? Ah! senhor! Se V. Ex. soubesse...

—Se soubesse o quê?

Custodio explicou-se. Vá, resumamos a explicação.

Na vespera, tendo de ir abaixo, Custodio foi á rua da Assembléa, onde se pintava a taboleta. Era já tarde; o pintor suspendera o trabalho. Só algumas das letras ficaram pintadas,—a palavraConfeitariae a letrad.A letraoe a palavraimperioestavam só debuxadas a giz. Gostou da tinta e da côr, reconciliou-se com a fórma, e apenas perdoou a despeza. Recommendou pressa. Queria inaugurar a taboleta no domingo.

Ao acordar de manhã não soube logo do que houvera na cidade, mas pouco a pouco vieram vindo as noticias, viu passar um batalhão, e creu que lhe diziam a verdade os que affirmavam a revolução e vagamente a republica. A principio, no meio do espanto, esqueceu-lhe a taboleta. Quando se lembrou della, viu que era preciso sustar a pintura. Escreveu ás pressas um bilhete e mandou um caixeiro ao pintor. O bilhete dizia só isto: «Pare noD.» Com effeito, não era preciso pintar o resto, que seria perdido, nem perder o principio, que podia valer. Sempre haveria palavra que occupasse o logar das letras restantes. «Pare no D.»

Quando o portador voltou trouxe a noticia de que a taboleta estava prompta.

—Você viu-a prompta?

—Vi, patrão.

—Tinha escripto o nome antigo?

—Tinha, sim, senhor: «Confeitaria do imperio.»

Custodio enfiou um casaco de alpaca e voou á rua da Assembléa. Lá estava a taboleta, por signal que coberta com um pedaço de chita; alguns rapazes que a tinham visto, ao passar na rua, quizeram rasgal-a; o pintor, depois de a defender com boas palavras, achou mais efficaz cobril-a. Levantada a cortina, Custodio leu: «Confeitaria do imperio.» Era o nome antigo, o proprio, o celebre, mas era a destruição agora; não podia conservar um dia a taboleta, ainda que fosse em becco escuro, quanto mais na rua do Cattete...

—O senhor vae despintar tudo isto, disse elle.

—Não entendo. Quer dizer que o senhor paga primeiro a despeza. Depois, pinto outra cousa.

—Mas que perde o senhor em substituir a ultima palavra por outra? A primeira póde ficar, e mesmo od...Não leu o meu bilhete?

—Chegou tarde.

—E porque pintou, depois de tão graves acontecimentos?

—O senhor tinha pressa, e eu accordei ás cinco e meia para servil-o. Quando me deram as noticias, a taboleta estava prompta. Não me disse que queria pendural-a domingo? Tive de pôr muito seccante na tinta, e, além da tinta, gastei tempo e trabalho.

Custodio quiz repudiar a obra, mas o pintor ameaçou de pôr o numero da confeitaria e o nome do dono na taboleta, e expol-a assim, para que os revolucionarios lhe fossem quebrar as vidraças do Cattete. Não teve remedio se não capitular. Que esperasse; ia pensar na substituição; em todo caso, pedia algum abate no preço. Alcançou a promessa do abate e voltou a casa. Em caminho, pensou no que perdia mudando de titulo,—uma casa tão conhecida, desde annos e annos! Diabos levassem a revolução! Que nome lhe poria agora? Nisso lembrou-lhe o visinho Ayres e correu a ouvil-o.

Referido o que lá fica atraz, Custodio confessou tudo o que perdia no titulo e na despeza, o mal que lhe trazia a conservação do nome da casa, a impossibilidade de achar outro, um abysmo, em summa. Não sabia que buscasse; faltava-lhe invenção e paz de espirito. Se pudesse, liquidava a confeitaria. E afinal que tinha elle com politica? Era um simples fabricante e vendedor de doces, estimado, afreguezado, respeitado, e principalmente respeitador da ordem publica...

—Mas o que é que ha? perguntou Ayres.

—A republica está proclamada.

—Já ha governo?

—Penso que já; mas diga-me V. Ex. ouviu alguem accusar-me jamais de attacar o governo? Ninguem. Entretanto... Uma fatalidade! Venha em meu soccorro, Excellentissimo. Ajude-me a sair deste embaraço. A taboleta está prompta, o nome todo pintado.—«Confeitaria do Imperio», a tinta é viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o trabalho, para então fazer outro. Eu, se a obra não estivesse acabada, mudava de titulo, por mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei? V. Ex. crê que, se ficar «Imperio,» venham quebrar-me as as vidraças?

—Isso não sei.

—Realmente, não ha motivo: é o nome da casa, nome de trinta annos. ninguem a conhece de outro modo...

—Mas póde pôr «Confeitaria da Republica...»

—Lembrou-me isso, em caminho, mas tambem me lembrou que, se daqui a um ou dous mezes, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou hoje, e perco outra vez o dinheiro.

—Tem razão... Sente-se.

—Estou bem.

—Sente-se e fume um charuto.

Custudio recusou o charuto, não fumava. Acceitou a cadeira. Estava no gabinete de trabalho, em que algumas curiosidades lhe chamariam a attenção, se não fosse o atordoamento do espirito. Continuou a implorar o soccorro do visinho. S. Ex., com a grande intelligencia que Deus lhe dera, podia salval-o. Ayres propoz-lhe um meio termo, um titulo que iria com ambas as hypotheses,—«Confeitaria do governo».

—Tanto serve para um regimen como para outro.

—Não digo que não, e, a não ser a despeza perdida... Ha, porém, uma razão contra. V. Ex. sabe que nenhum governo deixa de ter opposição. As opposições, quando descerem á rua, podem implicar commigo, imaginar que as desafio, e quebrarem-me a taboleta; entretanto, o que eu procuro é o respeito de todos.

Ayres comprehendeu bem que o terror ia com a avareza. Certo, o visinho não queria barulhos á porta, nem malquerenças gratuitas, nem odios de quem quer que fosse; mas, não o affligia menos a despeza que teria de fazer de quando em quando, se não achasse titulo definitivo, popular e imparcial. Perdendo o que tinha, já perdia a celebridade, além de perder a pintura e pagar mais dinheiro. Ninguem lhe compraria uma taboleta condemnada. Já era muito ter o nome e o titulo noAlmanackde Laemmert, onde podia lel-o algum abelhudo e ir com outros, punil-o do que estava impresso desde o principio do anno...

—Isso não, interrompeu Ayres; o senhor não ha de recolher a edição de um almanaque.

E depois de alguns instantes:

—Olhe, dou-lhe uma ideia, que póde ser aproveitada, e, se não a achar boa, tenho outra á mão, e será a ultima. Mas eu creio que qualquer dellas serve. Deixe a taboleta pintada como está, e á direita, na ponta, por baixo do titulo, mande escrever estas palayras que explicam o titulo: «Fundada em 1860.» Não foi em 1860 que abriu a casa?

—Foi, respondeu Custodio.

—Pois...

Custodio reflectia. Não se lhe podia lersimnemnão; attonito, a bôca entre-aberta, não olhava para o diplomata, nem para o chão, nem para as paredes ou moveis, mas para o ar. Como Ayres insistisse, elle acordou e confessou que a ideia era boa. Realmente, mantinha o titulo e tirava-lhe o sedicioso, que crescia com o fresco da pintura. Entretanto, a outra ideia podia ser egual ou melhor, e quizera comparar as duas.

—A outra ideia não tem a vantagem de pôr a data á fundação da casa, tem só a de definir o titulo, que fica sendo o mesmo, de uma maneira alheia ao regimen. Deixe-lhe estar a palavraimperioe accrescente-lhe em baixo, ao centro, estas duas, que não precisam ser graúdas:das leis.Olhe, assim, concluiu Ayres sentando-se á secretaria, e escrevendo em uma tira de papel o que dizia.

Custodio leu, releu e achou que a ideia era util; sim, não lhe parecia má. Só lhe viu um defeito; sendo as letras de baixo menores, podiam não ser lidas tão depressa e claramente, com as de cima, e estas é que se metteriam pelos olhos ao que passasse. Dahi a que algum politico ou sequer inimigo pessoal não entendesse logo e... A primeira ideia, bem considerada, tinha o mesmo mal, e ainda este outro: pareceria que o confeiteiro, marcando a data da fundação, fazia timbre em ser antigo. Quem sabe se não era peor que nada?

—Tudo é peor que nada.

—Procuremos.

Ayres achou outro titulo, o nome da rua, «Confeitaria do Cattete», sem advertir que, havendo outra confeitaria na mesma rua, era attribuir exclusivamente á do Custodio a designação local. Quando o visinho lhe fez tal ponderação, Ayres achou-a justa, e gostou de ver a delicadeza de sentimentos do homem; mas logo depois descubriu que o que fez falar o Custodio foi a ideia de que esse titulo ficava commum ás duas casas. Muita gente não atinaria com o titulo escripto, e compraria na primeira que lhe ficassse á mão, de maneira que só elle faria as despezas da pintura, e ainda por cima perdia a freguezia. Ao perceber isto, Ayres não admirou menos a sagacidade de um homem que em meio de tantas tribulações, contava os maus fructos de um equivoco. Disse-lhe então que o melhor seria pagar a despeza feita e não pôr nada, a não ser que preferisse o seu proprio nome: «Confeitaria do Custodio.» Muita gente certamente lhe não conhecia a casa por outra designação. Um nome, o proprio nome do dono, não tinha significação politica ou figuração historica, odio nem amor, nada que chamasse a attenção dos dous regimens, e conseguintemente que puzesse em perigo os seus pasteis de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietario e dos empregados. Porque é que não adoptava esse alvitre? Gastava alguma cousa com a troca de uma palavra por outra,Custodioem vez deImperio, mas as revoluções trazem sempre despezas.

—Sim, vou pensar, Excellentissimo. Talvez convenha esperar um ou dous dias, a ver em que param as modas, disse Custodio agradecendo.

Curvou-se, recuou e saiu. Ayres foi á janella para vel-o atravessar a rua. Imaginou que elle levaria da casa do ministro aposentado um lustre particular que faria esquecer por instantes a crise da taboleta. Nem tudo são despezas na vida, e a gloria das relações podia amaciar as agruras deste mundo. Não acertou desta vez. Custodio atravessou a rua, sem parar nem olhar para traz, e enfiou pela confeitaria dentro com todo o seu desespero.

Que, em meio de tão graves successos, Ayres tivesse bastante pausa e claridade para imaginar tal descoberta no visinho, só se póde explicar pela incredulidade com que recebera as noticias. A propria afflicção de Custodio não lhe dera fé. Vira nascer e morrer muito boato falso. Uma de suas maximas é que o homem vive para espalhar a primeira invenção de rua, e que tudo se fará crêr a cem pessoas juntas ou separadas. Só ás duas horas da tarde, quando Santos lhe entrou em casa, acreditou na queda do imperio.

—É verdade, conselheiro, vi descer as tropas pela rua do Ouvidor, ouvi as acclamações á republica. As lojas estão fechadas, os bancos tambem, e o peor é se se não abrem mais, se vamos cair na desordem publica; é uma calamidade.

Ayres quiz aquietar-lhe o coração. Nada se mudaria; o regimen, sim, era possivel, mas tambem se muda de roupa sem trocar de pelle. Commercio é preciso. Os bancos são indispensaveis. No sabbado, ou quando muito na segunda feira, tudo voltaria ao que era na vespera, menos a constituição.

—Não sei, tenho medo, conselheiro.

—Não tenha medo. A baroneza já sabe o que ha?

—Quando eu sai de casa, não sabia, mas agora é provavel.

—Pois vá tranquillisal-a; naturalmente está afflicta.

Santos receiava os fuzilamentos; por exemplo, se fuzilassem o imperador, e com elle as pessoas de sociedade? Recordou que o Terror... Ayres tirou-lhe o Terror da cabeça. As occasiões fazem as revoluções, disse elle, sem intenção de rimar, mas gostou que rimasse, para dar fórma fixa á ideia. Depois lembrou a indole branda do povo. O povo mudaria de governo, sem tocar nas pessoas. Haveria lances de generosidade. Para provar o que dizia referiu um caso que lhe contara um velho amigo, o marechal Beaurepaire Rohan. Era no tempo da Regencia. O imperador fôra ao theatro de S. Pedro de Alcantara. No fim do espectaculo, o amigo, então moço, ouviu grande rumor do lado da egreja de S. Francisco, e correu a saber o que era. Falou a um homem, que bradava indignado, e soube delle que o cocheiro do imperador não tirara o chapeo no momento em que este chegára á porta para entrar no coche; o homem accrescentou: «Eu souré...» Naquelle tempo os republicanos por brevidade eram assim chamados. «Eu souré, mas não consinto que faltem ao respeito a este menino!»

Nenhuma feição de Santos mostrou apreciar ou entender aquelle rasgo anonymo. Ao contrario, todo elle parecia entregue ao presente, ao momento, ao commercio fechado, aos bancos sem operações, ao receio de uma suspensão total de negocios, durante prazo indeterminado. Cruzava e descruzava as pernas. Afinal ergueu-se e suspirou.

—Então, parece-lhe...?

—Que descance.

Santos acceitou o conselho, mas vae muito do acceitar ao cumprir, e a apparencia era mui diversa do coração. O coração batia-lhe. A cabeça via esboroar-se tudo. Quiz despedir-se, mas fez duas ou trez investidas antes de pousar o pé fora do gabinete e caminhar para a escada. Instava pela certeza. Com quanto tivesse visto e ouvido a republica, podia ser... Em todo caso, a paz é que era necessaria, e haveria paz? Ayres inclinava-se a crêr que sim, e novamente o convidou a descançar.

—Até logo, concluiu.

—Porque não vae lá jantar comnosco?

—Tenho de jantar com um amigo, no Hotel dos Estrangeiros. Depois, talvez, ou amanhã. Vá, vá tranquillisar a baroneza, e os rapazes. Os rapazes estarão em paz? Esses brigam, com certeza; vá pol-os em ordem.

—O senhor podia ajudar-me nisso. Vá lá de noite.

—Póde ser; se puder, vou. Amanhã com certeza.

Santos saiu; tinha o carro á espera, entrou e seguiu para Botafogo. Não levava a paz comsigo, não a poderia dar á mulher, nem á cunhada, nem aos filhos. Quizera chegar a casa, por medo da rua, mas quizera tambem ficar na rua, por não saber que palavras nem que conselhos daria aos seus.

O espaço do carro era pequeno e bastante para um homem; mas, emfim, não viviria alli a tarde inteira. Ao demais, a rua estava quieta. Via gente á porta das lojas. No largo do Machado viu outra que ria, alguma calada, havia espanto, mas não havia propriamente susto.

Quando Santos chegou a casa, Natividade estava inquieta, sem noticia exacta e definitiva dos acontecimentos. Não sabia da republica. Não sabia do marido nem dos filhos. Aquelle saira antes dos primeiros rumores, estes iam fazer a mesma cousa, logo que os boatos chegaram. O primeiro gesto da mãe foi para impedir que os filhos saissem, mas não pôde, era tarde. Não os podendo reter, pegou-se com a Virgem Maria, afim de que os poupasse, e esperou. A irmã fez o mesmo. Era perto de meio dia; foi então que os minutos entraram a parecer seculos.

A ancia da mãe era naturalmente maior que a da tia. Natividade via andar o tempo com ferros aos pés. Não havia alvoroço que atasse um par de azas áquellas horas longas do relogio da casa, nem aos do cinto, o della e o da irmã; todos elles coxeavam de ambos os ponteiros. Emfim, ouviu na areia do jardim as rodas de um carro; era Santos.

Natividade acudiu ao patamar da escada. Santos subiu, e as mãos de ambos estenderam-se e agarraram-se. Longa vida conjunta acaba por fazer da ternura uma coisa grave e espiritual. Entretanto, parece que o gesto do marido não foi original, mas secundario, filho ou imitativo do da mulher. Póde ser que a corda da sensibilidade fosse menos vibrante na lira dele que na della, posto que muitos anos atraz, aquele outro gesto nocoupé, quando voltavam da missa de S. Domingos, lembras-te?... Sobre isto escrevi agora algumas linhas, que não ficariam mal, se as acabasse, mas recuo a tempo, e risco-as. Não vale a pena ir à cata das palavras riscadas. Menos vale supri-las.

Que nos bastam as quatro mãos apertadas. Natividade perguntou pelos filhos. Santos opinou que não tivesse medo. Não havia nada; tudo parecia estar como no dia anterior, as ruas socegadas, as caras mudas. Não correria sangue, o commercio ia continuar. Toda a animação de Ayres tinha agora brotado nele, com a mesma verdura e o mesmo estylo.

Os filhos chegaram tarde, cada um por sua vez, e Pedro mais cedo que Paulo. A melancolia de um ia com a alma da casa, a alegria de outro destoava desta, mas tais eram uma e outra que, apesar da expansão da segunda, não houve repressão nem briga. Ao jantar, falaram pouco. Paulo referia os sucessos amorosamente. Conversara com alguns co-religionarios e soube do que se passára á noite e de manhã, a marcha e a reunião dos batalhões no campo, as palavras de Ouro Preto ao marechal Floriano, a resposta deste, a aclamação da Republica. A familia ouvia e perguntava, não discutia, e esta moderação contrastava com a gloria de Paulo. O silencio de Pedro principalmente era como um desafio. Não sabia Paulo que a propria mãe é que o pedira ao irmão com muitos beijos, motivo que em tal momento, ia com o aperto do coração do rapaz.

O coração de Paulo, ao contrario, era livre, deixava circular o sangue, como a felicidade. Os sentimentos republicanos, em que os principios se incrustavam viviam alli tão fortes e quentes, que mal deixavam ver o abatimento de Pedro e o acanhamento da outra gente sua. Ao fim do jantar, bebeu á Republica, mas calado, sem ostentação, apenas olhando paaa o tecto, e levantando o copo um tantinho mais que de costume. Ninguem replicou por outro gesto ou palavra.

Certamente, o moço Pedro quiz dizer alguma phrase de piedade relativamente ao regimen imperial e ás pessoas de Bragança, mas a mãe quasi que não tirava os olhos delle, como impondo ou pedindo silencio. De mais, elle não cria nada mudado; a despeito de decretos e proclamações, Pedro imaginava que tudo podia ficar como d'antes, alterado apenas o pessoal do governo. Custa pouco, dizia elle baixinho á mãe, ao deixarem a mesa; é só o imperador falar ao Deodoro.

Paulo saiu, logo depois do jantar, promettendo vir cedo. A mãe, receiosa de o ver mettido em barulhos, não queria que elle saisse; mas outro receio fel-a consentir, e este era que os dous irmãos brigassem finalmente. Assim um medo vence a outro, e a gente acaba por dar o que negou. Não é menos certo que ella raciocinou alguns minutos antes de resolver, do mesmo modo que eu escrevi uma pagina antes da que vou escrever agora; mas ambos nós, Natividade e eu, acabamos por deixar que os actos se praticassem, sem opposição della, nem commentario meu.

Vieram amigos da casa, trazendo noticias e boatos. Variavam pouco e geralmente não havia opinião segura acerca do resultado. Ninguem sabia se a victoria do movimento era um bem, se um mal, apenas sabiam que era um facto. Dalli a ingenuidade com que alguem propoz o voltarete do costume, e a boa vontade de outros em acceital-o. Santos, embora declarase que não jogava, mandou pôr as cartas e os tentos, mas os outros opinaram que sempre faltava um parceiro, e sem elle, não havia graça. Quiz resistir; não era bonito que no proprio dia em que o regimen caira ou ia cair, entregasse o espirito a recreações de sociedade... Não pensou isto em voz alta nem baixa, mas comsigo, e talvez o leu no rosto da mulher. Acharia um pretexto para resistir, se buscasse algum, mas amigos e cartas não deixavam buscar nada. Santos acabou acceitando. Provalmente era essa mesma a inclinação intima. Muitas ha que precisam ser attrahidas cá fora, como um favor ou concessão da pessoa. Emfim, o basto e a espadilha fizeram naquella noite o seu officio, como as mariposas e as ratos, os ventos e as ondas, o lume das estrellas e o somno dos cidadãos.

Saindo de casa, Paulo foi á de um amigo, e os dous entraram a buscar outros da mesma edade e egual intimidade. Fôram aos jornaes, ao quartel do Campo, e passaram algum tempo deante da casa de Deodoro. Gostavam de ver os soldados, a pé ou a cavallo, pediam licença, falavam-lhes, offereciam cigarros. Era a unica concessão destes; nenhum lhes contou o que se passara, nem todos saberiam nada.

Não importa, iam cheios de si. Paulo era o mais enthusiasta e convicto. Aos outros valia só a mocidade, que é utn programma, mas o filho de Santos tinha frescas todas as ideias do novo regimen, e possuia ainda outras que não via acceitar; bater-se-ia por ellas. Trazia até a desejo de achar alguem na rua, que soltasse um grito, já agora sedicioso, para íhe quebrar a cabeça com a bengala. Note-se que esquecera ou perdera a bengala. Não deu por falta della; se désse, bastavam-lhe os braços e as mãos.

Propoz cantarem aMarselheza; os outros não quizeram ir tão longe, não por medo, senão de cançados. Paulo, que resistia mais que elles á fadiga, lembrou-lhes esperar a aurora.

—Vamos esperal-a do alto de um morro, ou da praia do Flamengo; teremos tempo de dormir amanhã.

—Eu não posso, disse um.

Os outros repetiram a recusa, e assentaram de ir para suas casas. Era perto de duas horas. Paulo acompanhou-os a todos, e só depois de ver o ultimo recolhido foi sósinho para Botafogo.

Quando entrou, deu com a mãe que esperava por elle, inquieta e arrependida de o haver deixado sair. Paulo não achou desculpa e censurou a mãe por não dormir, á espera delle. Natividade confessou que não teria somno, antes de o saber em casa são e salvo. Falavam baixo e pouco; tendo-se beijado antes, beijaram-se depois e despediram-se.

—Olha, disse Natividade, se achares Pedro acordado não lhe contes nem lhe perguntes nada; dorme, e amanhã saberemos tudo e o mais que se passar esta noite.

Paulo entrou no quarto pé ante pé. Era ainda aquelle vasto quarto em que os dous gemeos brigaram por causa de duas velhas gravuras, Robespierre e Luiz XVI. Agora, havia mais que os retratos, uma revolução de poucas horas e um governo fresco. Obedecendo ao conselho da mãe, Paulo não quiz saber se Pedro dormia, posto desconfiasse que não. Effectivamente, não. Pedro viu as cautellas de Paulo, e cumpriu tambem os conselhos da mãe; fingiu que não via nada. Até ahi os conselhos; mas um pouco de gloria fez com que Paulo cantarolasse entre os dentes, baixinho, para si, a primeira estrophe daMarselhezaque os amigos tinham recusado fóra:

Allons, enfants de la patrie,Le jour de gloire est arrivé!

Pedro percebeu antes pela toada que pela letra, e concluiu que a intenção do outro era affligil-o. Não era, mas podia ser. Vacillou entre a réplica e o silencio, até que uma ideia fantastica lhe atravessou o cerebro, cantarolar, tambem baixinho, a segunda parte da estrophe: «Entendez-vous dans vos campagnes...», que allude ás tropas estrangeiras, mas desviada do natural sentido historico, para restringil-a ás tropas nacionaes. Era um desforço vago, a ideia passou depressa. Pedro contentou-se de simular a indifferença suprema do somno. Paulo não acabou a estrophe; despiu-se agitado, sem tirar o pensamento da victoria dos seus sonhos politicos. Não se metteu logo na cama; foi primeiro á do irmão, a ver se dormia. Pedro respirava tão naturalmente, como se não perdera nada. Teve impeto de acordal-o, bradar-lhe que perdera tudo, se alguma cousa era a instituição derribada. Recuou a tempo e foi metter-se entre os lençóes.

Nenhum dormia. Emquanto o somno não chegava, iam pensando nos acontecimentos do dia, ambos espantados de como fôram faceis e rapidos. Depois cogitavam no dia seguinte e nos effeitos ulteriores. Não admira que não chegassem á mesma conclusão.

—Como diabo é que elles fizeram isto, sem que ninguem désse pela cousa? reflectia Paulo. Podia ter sido mais turbulento. Conspiração houve, de certo, mas uma barricada não faria mal. Seja como fôr, venceu-se a campanha. O que é preciso é não deixar esfriar o ferro, batel-o sempre, e renoval-o. Deodoro é uma bella figura. Dizem que a entrada do marechal no quartel, e a saida, puxando os batalhões, fôram esplendidas. Talvez faceis de mais; é que o regimen estava pôdre e caiu por si...

Emquanto a cabeça de Paulo ia formulando essas ideias, a de Pedro ia pensando o contrario; chamava ao movimento um crime.

—Um crime e um disparate, além de ingratidão; o imperador devia ter pegado os principaes cabeças e mandal-os executar. Infelizmente, as tropas iam com elles. Mas nem tudo acabou. Isto é fogo de palha; daqui a pouco está apagado, e o que antes era torna a ser. Eu acharei duzentos rapazes bons e promptos, e desfaremos esta caranquejola. A apparencia é que dá um ar de solidez, mas isto é nada. Hão de ver que o imperador não sae daqui, e, ainda que não queira, ha de governar; ou governará a filha, e, na falta della, o neto. Tambem elle ficou menino e governou. Amanhã é tempo; por ora tudo são flores. Ha ainda um punhado de homens...

A reticencia final dos discursos de ambos quer dizer que as ideias se iam tornando esgarçadas, nevoentas e repetidas, até que se perderam e elles dormiram. Durante o somno, cessou a rovolução e a contra-revolução, não houve monarchia nem republica, D. Pedro II nem marechal Deodoro, nada que cheirasse a politica. Um e outro sonharam com a bella enseada de Botafogo, um céu claro, uma tarde clara e uma só pessoa: Flora.

Flora abriu os olhos de ambos, e esvaiu-se tão depressa que elles mal puderam ver a harpa do vestido e ouvir uma palavrinha meiga e remota. Olharam um para o outro, sem rancor apparente. O receio de um e a esperança de outro deram tregoas. Correram aos jornaes. Paulo, meio tonto, temia alguma traição sobre a madrugada. Pedro tinha uma ideia vaga de restauração, e contava ler nas folhas um decreto imperial da amnistia. Nem traição nem decreto, A esperança e o receio fugiram deste mundo.

Emquanto elles sonhavam com Flora, esta não sonhou com a republica. Teve uma daquellas noites em que a imaginação dorme tambem, sem olhos nem ouvjdos, ou, quando muito, a retina não deixa ver claro, e as orelhas confundem o som de um rio com o latir de um cão remoto. Não posso dar melhor definição, nem ella é precisa; cada um de nós terá tido dessas noites mudas e apagadas.

Não sonhou sequer com musica; e, aliás tocára antes algumas das suas paginas queridas. Não as tocou somente por gostar dellas, senão por fugir á consternação dos paes, que era grande. Nenhum d'estes podia crêr que as instituições tivessem caido, outras nascido, tudo mudado. D. Claudia ainda appellava para o dia seguinte e perguntava ao marido se vira bem, e o que é que vira; elle mordia os beições, batia na perna, erguia-se, dava alguns passos, e tornava a narrar os acontecimentos, as noticias colladas ás portas dos jornaes, a prisão dos ministros, a situação, tudo extincto, extincto, extincto...

Flora não era avessa á piedade, nem á esperança, como sabeis; mas não ia com a agitação dos paes, e metteu-se com o seu piano e as suas musicas. Escolheu não sei que sonata. Tanto bastou para lhe tirar o presente. A musica tinha para ella a vantagem de não ser presente, passado ou futuro; era uma cousa fóra do tempo e do espaço, uma idealidade pura. Quando parava, succedia-lhe ouvir alguma phrase solta do pae ou da mãe: «...Mas como foi que...?»—«Tudo ás escondidas...»—«Ha sangue?» Às vezes um delles fazia algum gesto, e ella não via o gesto. O pae, com a alma tropega, falava muito e incoherente. A mãe trazia outro vigor. Já lhe succedia calar por instantes, como se pensasse, ao contrario do marido que, em se calando, coçava a cabeça, apertava as mãos ou suspirava, quando não ameaçava o tecto com o punho.

—Lá, lá, dó, ré, sol, ré, ré, lá, ia dizendo o piano da filha, por essas ou por outras notas, mas eram notas que vibravam para fugir aos homens e suas dissensões.

Tambem se póde achar na sonata de Flora uma especie de accordo com a hora presente. Não havia governo definitivo. A alma da moça ia com esse primeiro albor do dia, ou com esse derradeiro crepusculo da tarde,—como queiras,—em que nada é tão claro ou tão escuro que convide a deixar a cama ou accender velas. Quando muito, ia haver um governo provisorio. Flora não entendia de fórmas nem de nomes. A sonata trazia a sensação da falta absoluta de governo, a anarchia da innocencia primitiva naquelle recanto do Paraiso que o homem perdeu por desobediente, e um dia ganhará, quando a perfeição trouxer a ordem eterna e unica. Não haverá então progresso nem regresso, mas estabilidade. O seio de Abrahão agazalhará todas as cousas e pessoas, e a vida será um céu aberto. Era o que as teclas lhe diziam sem palavras,ré, ré, lá, sol, lá, lá, dó...

Os successos vieram vindo, á medida que as flores iam nascendo. Destas houve que serviram ao ultimo baile do anno. Outras morreram na vespera. Poetas de um e outro regimen tiraram imagem do facto para cantarem a alegria e a melancolia do mundo. A differença é que a segunda abafava os seus suspiros, em quanto a primeira levava longe os seus tripudios. O metal das trompas dava outro som que o das harpas. As flores é que continuavam a nascer e morrer, egual e regularmente.

D. Claudia colheu as rosas do ultimo baile do anno, primeiro da Republica, e adornou a filha com ellas. Flora obedeceu e acceitou-as. Pae de familia antes de tudo, Baptista acompanhou a esposa e a filha ao baile. Tambem lá foi Paulo, pela moça e pelo regimen. Se, em conversa com o ex-presidente de provincia, disse todo o bem que pensava do Governo Provisorio, não lhe ouviu palavras de accordo nem de contestação. Não entrou mais fundo na confissão do homem, porque a moça o attraia, e elle gostava mais della que do pae.

Flora viu uma semelhança entre o baile da ilha Fiscal e este, apesar de particular e modesto. Este era dado por pessoa que vinha dos tempos da propaganda e um dos ministros lá esteve, ainda que só meia hora. Dahi a ausencia de Pedro, apesar de convidado. Flora sentiu a falta de Pedro, como sentira a de Paulo na ilha; tal era a semelhança das duas festas. Ambas traziam a ausencia de um gemeo.

—Porque é que seu irmão não veiu? perguntou ella.

Paulo enfiou; depois de alguns instantes:

—Pedro é teimoso, disse. Teimou em recusar o convite. Crê naturalmente que a monarchia levou a arte de dançar. Não faça caso; é um lunatico.

—Não diga isso.

—Acha tambem que a dança se foi com o imperio?

—Não, a prova é que estamos dançando. Não; digo que lhe não chame nomes feios.

—Parece-lhe então que Pedro é um rapaz de juizo?

—Certamente, como o senhor.

—Mas...

Paulo ia a perguntar-lhe qual d'elles, tendo ella de jurar por um ou por outro, lhe mereceria o juramento; mas recuou a tempo. Então ella falou do calor, e elle achou que sim, que estava quente. Acharia que estava frio, se ella se queixasse de frio. Flora, se só cedesse á vista, era tambem capaz de acceitar todas as opiniões de Paulo, para ir com elle. Em verdade, Paulo tinha agora um ar brilhante e petulante, olhava por cima, firme em que os seus escriptos de um anno é que haviam feito a Republica, posto que incompleta, sem certas ideias que expozera e defendera, e teriam de vir um dia, breve. Tal ia dizendo á moça, e ella escutava com prazer, sem opinião; era só o gosto de o escutar. Quando a lembrança de Pedro surgia na cabeça da moça, a tristeza empanava a alegria, mas a alegria vencia depressa a outra, e assim acabou o baile. Então as duas, tristeza e alegria, agazalharam-se no coração de Flora, como as suas gemeas que eram.

O baile acabou. O capitulo é que não acaba sem que deixe um pouco de espaço a quem quizer pensar naquella creatura. Pae nem mãe podiam entendel-a, os rapazes tambem não, e provavelmente Santos e Natividade menos que ninguem. Tu, mestra de amores ou alumna delles, tu que escutas a diversos, conclues que ella era... Custa pôr o nome do officio. Se não fosse a obrigação de contar a historia com as proprias palavras, preferia calal-o, mas tu sabes qual é elle, e aqui fica. Conclues que Flora era namoradeira, e conclues mal.

Leitora, é melhor negar já isto que esperar pelo tempo. Flora não conhecia as doçuras do namoro, e menos ainda se podia dizer namoradeira de officio. A namoradeira de officio é a planta das esperanças, e alguma vez das realidades, se a vocação o impõe e a occasião o permitte. Tambem é preciso ter em lembrança aquillo de um publicista, filho de Minas e do outro seculo, que acabou senador, e escrevia contra os ministros adversarios: «Pitangueira não dá manga.» Não, Flora não dava para namorados.

A prova disto é que no Estado em que viveu alguns mezes de 1801, com o pae e a mãe, para o fim que direi adiante, ninguem alcançou o menor dos seus olhares amigos ou sequer complacentes. Mais de um rapaz consumiu o tempo em se fazer visto e attrahido della. Mais de uma gravata, mais de uma bengala, mais de uma luneta levaram-lhe as côres, os gestos e os vidros, sem obter outra cousa que a attenção cortez e acaso uma palavra sem valor.

Flora só se lembrava dos gemeos. Se nenhum delles a esqueceu, ella não os perdeu de memoria, Ao contrario, escrevia por todos os correios a Natividade para se fazer lembrada de ambos. As cartas falavam pouco da terra ou da gente, e não diziam mal nem bem. Usavam muito a palavra saudades, que cada um dos dous gemeos lia para si. Tambem elles a escreviam nas cartas que mandavam a D. Claudia e a Baptista, com a mesma intenção duplicada e e mysteriosa, que ella entendia muito bem.

Taes eram de longe, ella e elles. A rixa velha, que os desunia na vida, continuava a desunil-os no amor. Podiam amar cada um a sua moça, casar com ella e ter os seus filhos, mas preferiam amar a mesma, e não ver o mundo por outros olhos, nem ouvir melhor verbo, nem diversa musica, antes, durante e depois da commissão do Baptista.

Lá me escapou a palavra. Sim, foi uma commissão dada ao pae, e da qual não sei nada, nem ella. Negocio reservado. Flora chamava-lhe commissão do inferno. O pae, sem ir tão fundo, concordava mentalmente com ella; verbalmente, desmentia a definição.

—Não digas isso, Flora; é commissão de confiança para fins nobremente politicos.

Creio que sim, mas dahi a saber o objecto especial e real, ia largo espaço. Tambem não se sabe como foi parar ás mãos de Baptista aquelle recado do governo. Sabe-se que elle não desprezou a escolha, quando um amigo intimo correu a chamal-o ao palacio do generalissimo. Viu que era reconhecer nelle muita finura e capacidade de trabalho. Não é menos certo, porém, que a commissão entrava a aborrecel-o, posto que na correspondencia official dissesse exactamente o contrario. Se taes papeis mostrassem sempre o coração da gente, Baptista, cujas instrucções eram, aliás, de concordia, parecia querer levar a concordia a ferro e fogo; mas o estylo não é o homem. O coração de Baptista fechava-se, quando elle escrevia, e deixava ir a mão adiante, com a chave do coração apertada... «Já é tempo, suspirava o musculo, já é tempo de um logar de governador.»

Quanto a D. Claudia, nao queria ver acabada a commissão, que restituia ao esposo a acção politica; faltava-lhe sómente uma cousa, opposição. Nenhum jornal dizia mal delle. Aquelle prazer de ler todas as manhãs as descomposturas dos adversarios, lel-as e relel-as com os seus nomes feios, como lategos de muitas pontas, que lhe rascavam as carnes e a excitavam ao mesmo tempo, esse prazer não lhe dava a commissão reservada. Ao contrario, havia uma especie de aposta em achar o commissario justo, equitativo e conciliador, digno de admiração, typo civico, caracter sem macula. Tudo isto ella conheceu outr'ora, mas para lhe achar sabor foi sempre preciso que viesse entremeado de ralhos e calumnias. Sem elles, era agua ensossa. Tambem não tinha aquella parte de ceremonias a que obrigava o summo cargo, mas não lhe faltavam attenções, e era alguma cousa.

Quando o marechal Deodoro dissolveu o congresso nacional, em 3 de novembro, Baptista recordou o tempo dos manifestos liberaes, e quiz fazer um. Chegou a principial-o, em segredo, empregando as belIas phrases que trazia de cór, citações latinas, duas ou trez apostrophes. D. Claudia reteve-o á beira do abysmo, com razões claras e robustas. Antes de tudo, o golpe de Estado podia ser um beneficio. Serve-se muita vez a liberdade parecendo suffocal-a. Depois, era o mesmo homem que a havia proclamado que convidava agora a nação a dizer o que queria, e a emendar a constituição, salvo nas partes essenciaes. A palavra do generalissimo, como a sua espada, bastava a defender e consummar a obra principiada. D. Claudia não tinha estylo proprio, mas sabia communicar o calor do discurso ao coração de um homem de boa vontade. Baptista, depois de a escutar e pensar, bateu-lhe no hombro imperativamente.

—Tens razão, filha.

Não rasgou o papel escripto; queria guardal-o como simples lembrança, e a prova é que ia escrever uma carta ao presidente. D. Claudia tambem lhe tirou esta ideia da cabeça. Não havia necessidade de lhe mandar o seu suffragio; bastava conservar-se na commissão.


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