Chapter 5

—O governo não está satisfeito com você?

—Está.

—Vendo que você se conserva, conclue que approva tudo, e basta.

—Sim, Claudia, concordou elle após alguns instantes. Ao contrario, qualquer cousa que escrevesse contra a assembléa sediciosa que o presidente acaba de dissolver, pareceria falta de piedade. Paz aos mortos! Tens razão, filha.

Conservou-se calado, operando, fiel ás instrucções recebidas. Vinte dias depois, o marechal Deodoro passava o governo ás mãos do marechal Floriano, o congresso era restabelecido e todos os decretos do dia 3 annullados.

Ao saber de taes factos, Baptista pensou morrer. Ficou sem fala por alguns instantes, e D. Claudia não achou a menor parcella de animo que lhe désse. Nenhum contára com a marcha rapida dos acontecimentos, uns sobre outros, com tal atropello que parecia um bando de gente que fugia. Vinte dias apenas; vinte dias de força e socego, esperanças e grande futuro. Um dia mais e tudo ruiu como casa velha.

Agora é que Baptista comprehendeu o erro de haver dado ouvidos á esposa. Se tem acabado e publicado o manifesto no dia 4 ou 5, estaria com um documento de resistencia na mão para reivindicar um posto de honra qualquer,—ou só estima que fosse. Releu o manifesto; chegou a pensar em imprimil-o, embora incompleto. Tinha conceitos bons, como este; «O dia da oppressão é a vespera da liberdade.» Citava a bella Roland caminhando para a guilhotina; «Ó liberdade, quantos crimes em teu nome!» D. Claudia fez-lhe ver que era tarde, e elle concordou.

—Sim, é tarde. Naquelle dia é que não era tarde, vinha á hora propria, para o effeito certo.

Baptista amarrotou o papel distrahidaraente; depois alisou-o e guardou-o. Em seguida, fez um exame de consciencia, profundo e sincero. Não devia ter cedido; a resistencia era o melhor; se tem resistido ás palavras da mulher, a situação seria outra. Apalpou-se, achou que sim, que podia muito bem haver-lhe trancado os ouvidos e passado adiante. Insistiu muito neste ponto. Se pudesse, faria voltar atraz o tempo, e mostraria como é que a alma escolhe de si mesma o melhor dos partidos. Não era preciso saber nada do que anteriormente succedeu; a consciencia dizia-lhe que, era situação identica á do dia 3, faria outra cousa... Oh! com certeza! faria cousa muito diversa, e mudaria o seu destino.

Um officio ou telegrarama veiu arrancar Baptista á commissão politica e reservada, A volta para o Rio de Janeiro foi breve e triste, sem os epithetos que o haviam regalado por alguns mezes, nem acompanhamento de amigos. Só uma pessoa vinha alegre, a filha, que rezara todas as noites pela terminação daquelle exilio.

—Parece que estás contente com o desastre de teu pae, disse-lhe a mãe já a bordo.

—Não, mamãe; alegro-me de ver que acabou esta canceira. Papae póde muito bem fazer politica no Rio de Janeiro, onde é muito apreciado, A senhora verá. Eu, se fosse papae, apenas desembarcasse, ia logo ao marechal explicar tudo, mostrar as instrucções e dizer o que tinha feito; dizia mais que a dispensa veiu muito a proposito, afim de não parecer que ficara amofinado. Depois pedia-lhe para trabalhar lá mesmo...

D. Claudia, a despeito do amargor dos tempos, gostou de ver que a filha pensava e dava conselhos em politica. Não advertiu, como fez o leitor, que a alma do discurso da moça era não sair da capital, fazer aqui mesmo o seu congresso, que em breve seria uma só assembléa legislativa, como no Rio Grande do Sul; mas a qual das cantaras, Pedro ou Paulo, caberia esse unico poder politico? Eis o que ella mesma não sabia.

Ambos se lhe apresentaram a bordo, logo que o paquete entrou no porto do Rio de Janeiro. Não fôram em duas lanchas, fôram na mesmo, e saltaram com tal presteza para a escada, que escaparam de cair ao mar. Talvez fosse o melhor desfecho do livro. Ainda assim não acaba mal o capitulo, porque a razão da presteza com que elles saltaram para a escada foi a ambição de ser o primeiro que comprimentasse a moça; aposta de amor, que ainda uma vez os egualou na alma della. Emfim chegaram, e não consta qual effectivamente a cumprimentou primeiro; póde ser que ambos.

No caes Pharoux esperavam por elles trez carruagens,—douscoupése umlandau, com trez bellas parelhas de cavallos. A gente Baptista ficou lisonjeada com a fineza da gente Santos, e entrou nolandau.Os gemeos foram cada um no seucoupé.A primeira carruagem tinha o seu cocheiro e o seu lacaio, fardados de castanho, botões de metal branco, em que se podiam ver as armas da casa. Cada uma das outras tinha apenas o cocheiro, com egual libré. E todas trez se puzeram a andar, estas atraz daquella, os animaes batendo rijo e compassado, a golpes certos, como se houvessem ensaiado, por longos dias, aquella recepção. De quando em quando, encontravam outros trens, outras librés, outras parelhas, a mesma belleza e o mesmo luxo.

A capital offerecia ainda aos recem-chegados um espectaculo magnifico. Vivia-se dos restos daquelle deslumbramento e agitação, epopeia de ouro da cidade e do mundo, porque a impressão total é que o mundo inteiro era assim mesmo. Certo, não lhe esqueceste o nome, encilhamento, a grande quadra das emprezas e companhias de toda especie. Quem não viu aquillo não viu nada. Cascatas de ideias, de invenções, de concessões rolavam todos os dias, sonoras e vistosas para se fazerem contos de reis, centenas de contos, milhares, milhares de milhares, milhares de milhares de milhares de contos de reis. Todos os papeis, aliás acções, saíam frescos e eternos do prelo. Eram estradas de ferro, bancos, fabricas, minas, estaleiros, navegação, edificação, exportação, importação, ensaques, emprestimos, todas as uniões, todas as regiões, tudo o que esses nomes comportam e mais o que esqueceram. Tudo andava nas ruas e praças, com estatutos, organisadores e listas. Letras grandes enchiam as folhas publicas, os titulos succediam-se, sem que se repetissem, raro morria, e só morria o que era frouxo, mas a principio nada era frouxo. Cada acção trazia a vida intensa e liberal, alguma vez immortal, que se multiplicava daquella outra vida com que a alma acolhe as religiões novas. Nasciam as acções a preço alto, mais numerosas que as antigas crias da escravidão, e com dividendos infinitos.

Pessoas do tempo, querendo exagerar a riqueza, dizem que o dinheiro brotava do chão, mas não é verdade. Quando muito, caia do céu. Candido e Cacambo... Ai, pobre Cacambo nosso! Sabes que é o nome daquelle indio que Basilio da Gama cantou noUruguay.Voltaire pegou delle para o metter no seu livro, e a ironia do philosopho venceu a doçura do poeta. Pobre José Basilio! tinhas contra ti o assumpto estreito e a lingua escusa. O grande homem não te arrebatou Lindoya, felizmente, mas Cacambo é delle, mais delle que teu, patricio da minha alma.

Candido e Cacambo, ia eu dizendo, ao entrarem no El-Dorado, conta Voltaire que viram creanças brincando na rua com rodelas de ouro, esmeralda e rubi; apanharam algumas, e na primeira hospedaria em que comeram quizeram pagar o jantar com duas dellas. Sabes que o dono da casa riu ás bandeiras despregadas, já por quererem pagar-lhe com pedras do calçamento, já porque alli ninguem pagava o que comia; era o governo que pagava tudo. Foi essa hilaridade do hospedeiro, com a liberalidade attribuida ao Estado, que fez crêr eguaes phenomenos entre nós, mas é tudo mentira.

O que parece ser verdade é que as nossas carruagens brotavam do chão. Ás tardes, quando uma centena dellas se ia enfileirar no largo de S. Francisco de Paula, á espera das pessoas, era um gosto subir a rua do Ouvidor, parar e contemplal-as. As parelhas arrancavam os olhos á gente; todas pareciam descer das rhapsodias de Homero, posto fossem corceis de paz. As carruagens tambem. Juno certamente as apparelhára com suas correias de ouro, freios de ouro, redeas de ouro, tudo de ouro incorruptivel. Mas nem ella nem Minerva entravam nos vehiculos de ouro para os fins da guerra contra Illion. Tudo alli respirava a paz. Cocheiros e lacaios, barbeados e graves, esperando tezos e compostos, davam uma bella ideia do officio. Nenhum aguardava o patrão, deitado no interior dos carros, com as pernas de fóra. A impressão que davam era de uma disciplina rigida e elegante, aprendida em alta escola e conservada pela dignidade do individuo.

«Casos ha,—escrevia o nosso Ayres—em que a impassibilidade do cocheiro na boléa contrasta com a agitação do dono no interior da carruagem, fazendo crêr que é o patrão que, por desfastio, trepou á boléa e leva o cocheiro a passear.»

Antes de continuar, é preciso dizer que o nosso Ayres não se referia vagamente ou de modo generico a algumas pessoas, mas a uma só pessoa particular. Chamava-se então Nobrega; outr'ora não se chamava nada, era aquelle simples andador das almas que encontrou Natividade e Perpetua na rua de S. José, esquina da da Misericordia. Não esqueceste que a recente mãe deitou uma nota de dous mil reis á bacia do andador. A nota era nova e bella; passou da bacia á algibeira, no fundo de um corredor, não sem algum combate.

Poucos mezes depois, Nobrega abandonou as almas a si mesmas, e foi a outros purgatorios, para os quaes achou outras opas, outras bacias e finalmente outras notas, esmolas de piedade feliz. Quero dizer que foi a outras carreiras. Com pouco deixou a cidade, e não se sabe se tambem o paiz. Quando tornou, trazia alguns pares de contos de reis, que a fortuna dobrou, redobrou e tresdobrou. Emfim, alvoreceu a famosa quadra do «encilhamento». Esta foi a grande opa, a grande bacia, a grande esmola, o grande purgatorio. Quem já sabia do andador das almas? A antiga roda perdera-se na obscuridade e na morte. Elle era outro; as feições não eram as mesmas, senão as que o tempo lhe veiu compondo e melhorando.

Se a grande bacia, ou qualqer das outras recebeu notas que tivessem o destino da primeira, é o que se não sabe, mas é possivel. Foi por esse tempo que Ayres o viu de carro, quasi a sair pela portinhola fóra, comprimentando muito, espiando tudo. Como o cocheiro e o lacaio (creio que eram escossezes) salvassem a dignidade pessoal da casa, Ayres fez a observação do fim do outro capitulo, sem nenhuma intenção geral.

Posto não achasse já nenhum conhecido antigo, Nobrega tinha medo de tornar ao bairro, onde andára a pedir para as primeiras almas. Um dia, porém, taes fôram as saudades delle que pensou em affrontar o perigo e lá foi. Tinha cocegas de mirar as ruas e as pessoas, recordava as casas e as lojas, um barbeiro, os sobrados de grade de pau, onde appareciam taes e taes moças... Quando ia a ceder, teve outra vez medo e enfiou por outra parte. Só passava de carro; depois quiz ver tudo a pé, devagar, parando, se fosse possivel, e revivendo o extincto.

Lá se foi a pé; desceu pela rua de S. José, dobrou a da Misericordia, foi parar á praia de Santa Luzia, tornou pela rua de D. Manuel, enfiou de becco em becco. A principio olhava de esguelha, rapido, os olhos no chão. Aqui via a loja de barbeiro, e o barbeiro era outro. Dos sobrados de grade de pau debruçaram-se ainda moças, velhas e meninas e nenhuma era a mesma. Nobrega foi-se animando e. encarando. Talvez esta velha fosse moça, ha vinte annos; a moça talvez mamasse, e dá agora de mamar a outra creança. Nobrega acabou parando e andando de vagar.

Voltou mais vezes. Só as casas, que eram as mesmas, pareciam reconhecel-o, e algumas quasi que lhe falavam. Não é poesia. O ex-andador sentia necessidade de ser conhecido das pedras, ouvir-se admirar dellas, contar-lhes a vida, obrigal-as a comparar o modesto de outr'ora com o garrido de hoje, e escutar-lhes as palavras mudas: «Vejam, manas, é elle mesmo.» Passava por,ellas, fitava-as, interrogava-as, quasi ria, quasi as tocava para sacudil-as com força: «Falem, diabos, falem!»

Não confiaria de homem aquelle passado, mas ás paredes mudas, ás grades velhas, ás portas gretadas, aos lampiões antigos, se os havia ainda, tudo o que fosse discreto, a tudo quizera dar olhos, ouvidos e bôca, uma bôca que só elle escutasse, e que proclamasse a prosperidade daquelle velho andador.

Uma vez, viu a matriz de S. José aberta e entrou. A egreja era a mesma; aqui estão os altares, aqui está a solidão, aqui está o silencio. Persignou-se, mas não orou; olhava só a um lado e outro, andando na direcção do altar-mór. Tinha receio de ver apparecer o sacristão, podia ser o mesmo, e conhecel-o. Ouviu passos, recuou depressa e saiu.

Ao subir pela rua de S. José, encostou-se á parede, para deixar passar uma carroça. A carroça subiu a calçada, elle refugiou-se n'um corredor. O corredor podia ser qualquer; aquelle era o proprio em que elle fez a operação da nota de dous mil reis de Natividade. Olhou bem, era o mesmo. Ao fundo estavam os trez ou quatro degráos da primeira escada que dobrava á esquerda e pegava com a grande. Sorriu do acaso, reviu por um instante aquella manhã, viu no ar a nota de dous mil reis. Outras lhe teriam vindo ás mãos por maneiras assim faceis, mas nunca lhe esqueceu aquella graciosa folha gravada com tantos symbolos, numeros, datas e promessas, entregue por uma senhora desconhecida, sabe Deus se a propria Santa Rita de Cassia. Era a sua particular devoção. Sem duvida, trocou a nota e gastou-a, mas as partes dispersas não fôram senão levar a outras notas um convite para a algibeira do dono, e todas acudiram a mancheias, obedientes e caladas, para que não as ouvissem crescer.

Por mais que elle olhasse pela vida dentro, não achava egual obsequio do céu, ou sequer do inferno. Mais tarde, se alguma joia lhe levou os olhos, não lhe levou as mãos. Tinha aprendido a respeitar o alheio, ou ganhára com que o comprar. A nota de dous mil reis... Um dia, ousando mais, chamou-lhe presente de Nosso Senhor.

Não, leitor, não me apanhas em contradicção. Eu bem sei que a principio o andador das almas attribuiu a nota ao prazer que a dama traria de alguma aventura. Ainda me lembram as palavras delle: «Aquellas duas viram passarinho verde!» Mas se agora attribuia a nota á protecção da santa, não mentia então nem agora. Era difficil atinar com a verdade. A unica verdade certa eram os dous mil reis. Nem se póde dizer que era a mesma em ambos os tempos. Então, a nota de dous mil reis equivalia, pelo menos, a vinte (lembra-te dos sapatos velhos do homem); agora não subia de uma gorgeta de cocheiro.

Tambem não ha contradicção em pôr a santa agora e a namorada outr'ora. Era mais natural o contrario, quando era maior a intimidade delle com egreja. Mas, leitor dos meus peccados, amava-se muito em 1871, como já se amava em 1861, 1851 e 1841, não menos que em 1881, 1891 e 1901. O seculo dirá o resto. E depois, é preciso não esquecer que a opinião do andador das almas ácerca de Natividade foi anterior ao gesto do corredor, quando elle agazalhou a nota na algibeira. É duvidoso que, depois do gesto, a opinião fosse a mesma.

Pessoa a quem li confidencialmente o capitulo passado, escreve-me dizendo que a causa de tudo foi a cabocla do Castello. Sem as suas predicções grandiosas, a esmola de Natividade seria minima ou nenhuma, e o gesto do corredor não se daria por falta de nota. «A occasião faz o ladrão», conclue o meu correspondente.

Não conclue mal. Ha todavia alguma injustiça ou esquecimento porque as razões do gesto do corredor fôram todas pias. Além disso, o proverbio póde estar errado. Uma das affirmações de Ayres, que tambem gostava de estudar adagios, é que esse não estava certo.

—Não é a occasião que faz o ladrão, dizia elle a alguem; o proverbio está errado. A fórma exacta deve ser esta: «A occasião faz o furto; o ladrão nasce feito.»

Nobrega saiu emfim do corredor, mas foi obrigado a deter-se, porque uma mulher lhe estendia a mão:

—Meu senhor, uma esmolinha por amor de Deus!

Nobrega metteu a mão no bolso do collete e pegou um nickel, entre dous que lá havia, um de tostão, outro de dous. Pegou o primeiro, mas indo a darlh'o, mudou de ideia; não deu o nickel; disse á velha que esperasse, e entrou mais fundo no corredor. De costas para a rua, introduziu a mão na algibeira das calças e saccou um maço de dinheiro; procurou e achou uma nota de dous mil reis, não nova, antes velha, tão velha como a mendiga que a recebeu espantada, mas tu sabes que o dinheiro não perde com a velhice.

—Tome lá, murmurou elle.

Quando a mendiga voltou do espanto, Nobrega acabava de restituir o maço á algibeira e ia a querer sair. O que a mendiga então disse veiu entremeado de lagrimas:

—Meu senhor! Obrigada, meu senhor! Deus lhe pague! A Virgem Santissima...

E beijava a nota, e queria beijar a mão que lhe dera a esmola, mas elle a escondeu, como no Evangelho, murmurando que não, que se fosse embora. Em verdade, a palavra da mendiga tinha um som quasi mystico, uma especie de melodia do céu, um côro de anjos, e fazia bem fitar-lhe os olhos encarquilhados, a mão tremula, segurando a nota. Nobrega não esperou que ella se fosse, saiu, desceu a rua, com as bençãos da mulher atraz de si; dobrou a esquina, a passo rapido, e ahi foi pensando não se sabe em quê.

Atravessou a praça, passou a cathedral e a egreja do Carmo, e chegou ao Carceller, onde entregou as botas a um italiano para que lh'as engraxasse. Mentalmente, olhava para cima ou para baixo, para a direita ou para esquerda,—em todo caso para longe,—e acabou murmurando esta phrase, que tanto podia referir-se á nota. como á mendiga, mas provavelmente era á nota:

—Talvez fosse a mesma!

Nenhum obsequio, por infimo que seja, esquece ao beneficiado. Ha excepções. tambem ha casos em que a memoria dos obsequios afflige, persegue e morde, como os mosquitos; mas não é regra. A regra é guardal-os na memoria, como as joias nos seus escrinios; comparação justa, porque o obsequio é muita vez alguma joia, que o obsequiado esqueceu de restituir.

A família Baptista foi aposentada em casa de Santos. Natividade não pôde ir a bordo, e o marido estava occupado em «lançar uma companhia»; mandaram recado pelos filhos que a casa de Botafogo tinha já os quartos preparados. Desde que o carro se poz a andar, Baptista confessou que ia ficar constrangido por alguns dias.

—N'uma casa de pensão era melhor, até que nos despejassem a de S. Clemente.

—Que queria você? Não havia remedio senão acceitar, ponderou a mulher.

Flora não disse nada, mas sentia o contrario do pae e da mãe. Pensar não pensou; ia tão atordoada com a vista dos rapazes que as ideias não se enfileiraram naquella forma logica do pensamento. A propria sensação não era nitida. Era uma mistura de oppressivo e delicioso, de turvo e claro, uma felicidade truncada, uma afflicção consoladora, e o mais que puderes achar no capitulo das contradicções. Eu nada mais lhe ponho. Nem ella saberia dizer o que sentia. Teve allucinações extraordinarias.

Agora o que é mister dizer é que a ideia da hospedagem cabe toda aos dous jovens doutores. Que elles eram já doutores, posto não houvessem ainda encetado a carreira de advogado nem de medico. Viviam do amor da mãe e da bolsa do pae, inexgotaveis ambos. O pae abanou as orelhas á lembrança, mas os gemeos insistiram pelo obsequio, a tal ponto que a mãe, contente de os ver de accordo, saiu do silencio e concordou com elles. A ideia de ter a pequena ao pé de si, por alguns dias, e discernir qual era o melhor acceito, e o que devéras a amava, póde ser que tambem influisse na adopção do voto, mas não affirmo nada a tal respeito. Tambem não asseguro que tivesse grande gosto em agazalhar a mãe e o pae de Flora. Não obstante, o encontro foi cordial de parte a parte. Foi um abraçar, um beijar, um perguntar, um trocar de mimos que não acabava mais. Todos estavam mais gordos, outra côr, outro ar. Flora era um encanto para Natividade e Perpetua; nenhuma destas sabia aonde iria parar aquella moça tão senhoril, tão esbelta, tão...

—Não digam o resto, interrompeu a moça sorrindo; eu tenho a mesma opinião.

Santos recebeu-os, á tarde, com a mesma cordialidade,—talvez menos apparente, mas tudo se desculpa a quem anda com grandes negocios.

—Uma ideia sublime, disse elle ao pae de Flora; a que lancei hoje foi das melhores, e as acções valem já ouro. Trata-se de lã de carneiro, e começa pela criação deste mammifero nos campos do Paraná. Em cinco annos poderemos vestir a America e a Europa. Viu o programma nos jornaes?

—Não, não leio jornaes daquir desde que embarquei.

—Pois verá!

No dia seguinte, antes de almoçar, mostrou ao hospede o programma e os estatutos. As acções eram maços e maços, e Santos ia dizendo o valor de cada um. Baptista sommava mal, em regra; daquella vez, peor. Mas os algarismos cresciam á vista, trepavam uns nos outros, enchiam o espaço, desde o chão até ás janellas, e precipitavam-se por ellas abaixo, com um rumor de ouro que ensurdecia. Baptista saiu d'alli fascinado, e foi repetir tudo á mulher.

D. Claudia, quando elle acabou, perguntou-lhe com simplicidade:

—Você vae hoje ao marechal?

Baptista, caindo em si:

—Naturalmente.

Tinham ajustado que elle iria ter com o presidente da Republica explicar-lhe a commissão que exercera, toda reservada, e, sem embargo, imparcial. Diria o espirito de concordia com que andou e a estima que adquiriu. Em seguida, falaria da conveniencia de um governo que, pela fortaleza e pela liberdade, excedesse o do generalissimo; e uma phrase final bem estudada.

—Isso na occasião, disse Baptista.

—Não, é melhor leval-a feita. Eu lembrei-me desta: «Creia V. Ex. que Deus está com os fortes e os bons.»

—Sim, não é má.

—Você póde accrescentar um gesto que indique céu.

—Isso é que não. Você sabe que eu não dou para gestos, não sou actor. Eu, sem mexer um pé, inspiro respeito.

D. Claudia dispensou o gesto; não era essencial. Quiz que elle escrevesse a phrase, mas já estava de cór. Baptista tinha boa memoria.

Naquelle mesmo dia, Baptista foi ao marechal Floriano. Não disse nada ás pessoas da casa; contaria tudo na volta. D. Claudia tambem calou, era por pouco tempo; ficou esperando anciosa. Esperou duas mortaes horas, chegou a imaginar que lhe tivessem encarcerado o esposo, por intrigas. Não era devota, mas o medo inspira devoção, e ella rezou comsigo. Emfim, chegou Baptista. Ella correu a recebel-o, alvoroçada, pegou-lhe na mão e recolheram-se ao quarto. Perpetua (vêde o que são testemunhos pessoaes na historia!) exclamou enternecida:

—Parecem dous pombinhos!

Baptista contou que a recepção foi melhor do que esperava, comquanto o marechal não lhe dissesse nada, mas escutou-o com interesse. A phrase? A phrase saiu bem, apenas com uma emenda. Não estando certo se elle preferiabons a fortes, ou sefortes a bons...

—Deviam ser as duas palavras, interrompeu a mulher.

—Sim, mas lembrou-me empregar uma terceira: «Creia V. Ex. que Deus está com os dignos!»

Com effeito, a ultima palavra podia abranger as duas, e trazia esta vantagem de dar á phrase um arranjo pessoal delle.

—Mas o marechal que disse?

—Não disse nada; ouviu-me com attenção obsequiosa e chegou a sorrir,—um sorriso leve, um sorriso de accordo...

—Ou seria... Quem sabe... Você não andou bem, de certo. Commigo elle diria alguma cousa. Você expoz tudo, conforme tinhamos combinado?

—Tudo.

—Expoz as razões da commissão, o desempenho, a nossa moderação...?

—Tudo, Claudia.

—E o aperto de mão do marechal?

—Não estendeu a mão, a principio; fez um gesto de cabeça; eu é que estendi a minha, dizendo: Sempre ás ordens de V. Ex.

—E elle?

—Elle apertou-me a mão.

—Apertou bem?

—Você sabe, não podia ser um apertão de amigo, mas deve ter sido cordial.

—E nenhuma palavra? Umpasse bem, ao menos?

—Não, nem era preciso. Cortejei-o e saí.

D. Claudia deixou-se estar pensando. A recepção não lhe pareceu que fosse má, mas podia ser melhor. Com ella, seria muito melhor.

Atraz falei das allucinações de Flora. Realmente, eram extraordinarias.

Em caminho, depois do desembarque, não obstante virem os gemeos separados e sós, cada um no seucoupé, scismou que os ouvia falar; primeira parte da allucinação. Segunda parte: as duas vozes confundiam-se, de tão eguaes que eram, e acabaram sendo uma só. Afinal, a imaginação fez dos dous moços uma pessoa unica.

Este phenomeno não creio que possa ser commum. Ao contrario, não faltará quem absolutamente me não creia, e supponha invenção pura o que é verdade purissima. Ora, é de saber que, durante a commissão do pae, Flora ouviu mais de uma vez as duas vozes que se fundiam na mesma voz e mesma creatura. E agora, na casa de Botafogo, repetia-se o phenomeno. Quando ouvia os dous, sem os ver, a imaginação acabava a fusão do ouvido pela da vista, e um só homem lhe dizia palavras extraordinarias.

Tudo isto não é menos extraordinario, concordo. Se eu consultasse o meu gosto, nem os dous rapazes fariam um só mancebo, nem a moça seria uma só donzella. Corrigiria a natureza desdobrando Flora. Não podendo ser assim, consinto na unificação de Pedro e Paulo. Porquanto, esse effeito de visão repetia-se ao pé delles, tal qual na ausencia, quando ella se deixava esquecer do logar, e soltava a redea a si mesma. Ao piano, á palestra, ao passeio na chacara, á mesa de jantar, tinha dessas visões repentinas e breves, e das quaes ella mesma sorria, a principio.

Se alguem quizer explicar este phenomeno pela lei da hereditariedade, suppondo que elle era a forma affectiva da variação politica da mãe de Flora, não achará apoio em mim, e creio que em ninguem. São cousas diversas. Conheceis os motivos de D. Claudia; a filha teria outros que ella propria não sabia. O unico ponto de semelhança é que, tanto na mãe como na filha, o phenomeno era agora mais frequente, mas em relação á primeira vinha do atropello dos acontecimentos exteriores. Nenhuma revolução se faz como a simples passagem de uma sala a outra; as mesmas revoluções chamadas de palacio trazem alguma agitação que fica por certo prazo, até que a agua volte ao nivel. D. Claudia cedia á inquietação dos tempos.

A filha obedeceria a outra causa qualquer, que se não podia descobrir logo, nem sequer entender. Era um espectaculo mysterioso, vago, obscuro, em que ás figuras visiveis se faziam impalpaveis, o dobrado ficava unico, o unico desdobrado, uma fusão, uma confusão, uma diffusão...

Uma transfusão, tudo o que puder definir melhor, pela repetição e graduação das fórmas e dos estados, aquelle particular phenomeno, pódes empregal-o no outro e neste capitulo.

Dito o phenomeno, é preciso dizer tambem que Flora, a principio, achava-lhe graça. Minto; nos primeiros tempos, como estava longe, não lhe achou nada; depois, sentiu uma especie de susto ou vertigem, mas logo que se acostumou a passar de dous a um e de um a dous, pareceu-lhe graciosa a alternação, e chegava a evocal-a com o proposito de divertir a vista. Afinal nem isto era preciso, a alternação fazia-se de si mesma. Umas vezes era mais lenta que outras, alguma instantanea. Não eram tão frequentes que confinassem com o delirio. Emfim, ella se foi acostumando e deleitando.

Uma ou outra vez, na cama, antes de dormir, repetia-se o phenomeno, depois de muita resistencia da parte della, que não queria perder o somno. Mas o somno vinha, e o sonho completava a vigilia. Flora passeava então pelo braço do mesmo garção amado, Paulo se não Pedro, e ambos iam admirar estrellas e montanhas, ou então o mar, que suspirava ou tempestuava, e as flores e as ruinas. Não era raro ficarem os dous a sós, deante de uma nesga de céu, claro de luar, ou todo repregado de estrellas como um panno azul escuro. Era á janella, suppõe; vinha de fóra a cantiga dos ventos mansos, um espelho grande, pendente da parede, reproduzia as figuras della e delle, confirmando a imaginação della. Como era sonho, a imaginação trazia espectaculos desconhecidos, taes e tantos que mal se podia crêr bastasse o espaço de uma noite. E bastava. E sobrava. Succedia que Flora acordava de repente, perdia o quadro e o vulto, e persuadia-se que era tudo illusão, e raro então dormia. Se era cedo, erguia-se, andava, cançava-se, até adormecer novamente e sonhar outra cousa.

Outras vezes, a visão ficava sem o sonho, e diante della uma só figura esbelta, com a mesma voz namorada, o mesmo gesto supplice. Uma noite, indo a deitar-lhe os braços sobre os hombros com o fim inconsciente de cruzar os dedos atraz do pescoço, a realidade, posto que ausente, clamou pelos seus fóros, e o unico moço se desdobrou na duas pessoas semelhantes.

A differença deu ás duas visões de acordada um tal cunho de fantasmagoria que Flora teve medo e pensou no Diabo.

Anda, Flora, ajuda-me, citando alguma cousa, verso ou prosa, que exprima a tua situação. Cita Goethe, amiga minha, cita um verso do Fausto, adequado:

Ai, duas almas no meu seio moram!

A mãe dos gemeos, a bella Natividade podia havel-o citado tambem, antes delles nascerem, quando ella os sentia lutando dentro em si mesma:

Ai, duas almas no meu seio moram!

Nisto as duas se parecem,—uma os concebeu, outra os recolheu. Agora, como é que se dá ou se dará a escolha de Flora, nem o proprio Mephistopheles nol-o explicaria de modo claro e certo. O verso basta:

Ai, duas almas no meu seio moram!

Talvez aquelle velho Placido, que lá deixamos nas primeiras paginas, chegasse a deslindar estas outras. Doutor em materias escuras e complicadas, sabia muito bem o valor dos numeros, a significação dos gestos não só visiveis como invisiveis, a estatistica da eternidade, a divisibilidade do infinito. Era já morto deste alguns annos. Has de lembrar-te que elle, consultado pelo pae de Pedro e Paulo, acerca da hostilidade original dos gemeos, explicou-a promptamente. Morreu no seu officio; expunha a trez discipulos novos a correspondencia das letras vogaes com os sentidos do homem, quando caiu de bruços e expirou.

Já então os adversarios de Placido,—que os tinha na propria seita,—affirmavam haver elle aberrado da doutrina, e, por natural effeito, enlouquecido. Santos nunca se deixou ir com esses divergentes da casa commum, que acabaram formando outra egrejinha em outro bairro, onde pregavam que a correspondencia exacta não era entre as vogaes e os sentidos, mas entre os sentidos e as vogaes. Esta outra formula, parecendo mais clara, fez com que muitos discipulos da primeira hora acompanhassem os da ultima, e proclamem agora, como conclusão final, que o homem é um alphabeto de sensações.

Venceram estes, ficando mui poucos fieis á doutrina do velho Placido. Evocado algum tempo depois de morto, confessou elle ainda uma vez a sua formula, como a unica das unicas, e excommungou a quantos prégassem o contrario. Aliás, os dissidentes já o haviam excommungado tambem, declarando abominavel a sua memoria, com aquelle odio rijo, que fortalece alguma vez o homem contra a frouxidão da piedade.

Talvez o velho Placido deslindasse o problema em cinco minutos. Mas para isso era preciso evocal-o, e o discipulo Santos cuidava agora de umas liquidações ultimas e lucrativas. Não só de fé vive o homem, mas tambem de pão e seus compostos e similares.

Ao cabo de poucas semanas, a familia Baptista saiu da casa Santos, e tornou á rua de S. Clemente. A despedida foi terna, as saudades começaram antes da separação, mas a affeição, o costume, a estima,—a necessidade, em summa, de se verem a miudo compensaram a melancolia, e a gente Baptista levou promessa de que a gente Santos iria vel-a dahi a poucos dias.

Os gemeos cumpriram cedo a promessa. Um delles, parece que Paulo, foi lá nessa mesma noite com recado da mãe para saber se tinham chegado bem. Disseram-lhe que sim, accrescentando Baptista, para abreviar a visita, que estavam bastante cançados. Os olhos de Flora desmentiram esta affirmação; mas dentro em pouco achavam-se não menos tristes que alegres. A alegria vinha da promptidão de Paulo, a tristeza da ausencia de Pedro. Quizera-os ambos naturalmente; mas, como é que as duas sensações se mostravam a um tempo, eis o que não entenderás bem nem mal. Certamente, os olhos iam diversas vezes para a porta, e uma vez pareceu á moça ouvir rumor na escada; tudo illusão. Mas estes gestos, que Paulo não viu, tão contente estava de se haver adiantado ao irmão, não eram taes que a fizessem esquecer o irmão presente.

Paulo saiu tarde, não só para o fim de aproveitar a ausencia de Pedro, mas ainda porque Flora o fazia demorar, com o intuito de ver se o outro chegava. Assim que, a mesma dualidade de sensação enchia os olhos da moça, até á hora da despedida, em que a parte triste foi maior que a alegre, pois que eram duas ausencias, em vez de uma. Conclue o que quizeres, minha dona; ella recolheu-se para dormir, e reconheceu que, se se não dorme com uma tristeza na alma, muito menos com duas.

Ha muito remedio contra a insomnia. O mais vulgar é contar de um até mil, dous mil, trez mil ou mais, se a insomnia não ceder logo. É remedio que ainda não fez dormir ninguem, ao que parece, mas não importa. Até agora, todas as applicações efficazes contra a tisica vão de par com a noção de que a tisica é incuravel. Convem que os homens affirmem o que não sabem, e, por officio, o contrario do que sabem; assim se fórma esta outra incuravel, a Esperança.

Flora, incuravel tambem, se não preferes a definição de inexplicavel, que lhe deu Ayres, a graciosa Flora teve naquella noite a sua insomnia. Mas foi um tanto culpa sua. Em vez de se deitar quietinha e dormir com os anjos, achou melhor velar com um ou dous delles, e gastar uma parte da noite, á janella ou sentada, a recordar e a pensar, a cotejar e a completar, mettida no roupão de linho, com os cabellos atados para dormir.

A principio pensou no que lá estivera, e evocou todas as suas graças, realçadas pela virtude particular de a ter ido ver á noite, sem embargo de se terem visto de manhã. Sentia-se grata. Toda a conversação foi alli repetida na solidão da alcova, com as intonações diversas, o vario assumpto, e as interrupções frequentes, ora dos outros, ora della mesma. Ella, em verdade, só interrompia, para pensar no ausente,—e portanto não fazia mais que converter o dialogo em monologo, o qual por sua vez acabava em silencio e contemplação.

Agora, pensando em Paulo, queria saber porque é que o não escolhia para noivo. Tinha uma qualidade a mais, a nota aventurosa do caracter, e esta feição não lhe desprazia. Inexplicavel ou não, deixava-se levar pelos impotos do rapaz, que queria trocar o mundo e o tempo por outros mais puros e felizes. Aquella cabeça, apenas masculina, era destinada a mudar a marcha do sol, que andava errado. A lua tambem. A lua pedia um contacto mais frequente com os homens, menos quartos, não descendo o minguante do metade. Visivel todas as noites, sem que isso acarretasse a decadencia das estrellas, continuaria modestamente o officio do sol, e faria sonhar os olhos insomnes ou só cançados de dormir. Tudo isso cumpriria a alma de Paulo, faminta de perfeição. Era um bom marido, em summa. Flora cerrou as palpebras, para vel-o melhor, o achou-o a seus pés, com as mãos della entre as suas, risonho e extatico.

—Paulo! meu querido Paulo!

Inclinou-se, para vel-o de mais perto, e não perdeu o tempo nem a intenção. Visto assim, era mais bello que simplesmente couversando das cousas vulgares e passageiras. Enfiou os olhos nos olhos, e achou-se dentro da alma do rapaz. O que lá viu não soube dizel-o bem; foi tudo tão novo e radiante que a pobre retina de moça não podia fitar nada com segurança nem continuidade. As ideias faiscavam como saindo de um fogareiro á força de abano, as sensações batiam-se em duelo, as reminiscencias subiam frescas, algumas saudades, e ambições principalmente, umas ambições de azas largas, que faziam vento só com agital-as. Sobre toda essa mescla e confusão chovia ternura, muita ternura...

Flora recolheu os olhos, Paulo estava na mesma postura; mas do lado da porta, mettido na penumbra, a figura de Pedro apparecia, não menos bella, mas um tanto triste. Flora sentiu-se tocada daquella tristeza. Parece que, se amasse exclusivamente o primeiro, o segundo podia chorar lagrimas de sangue, sem lhe merecer a menor sympathia. Que o amor, conforme as nymphas antigas e modernas, não tem piedade. Quando ha piedade para outro, dizem ellas, é que o amor ainda não nasceu de verdade, ou já morreu de todo, e assim o coração não lhe importa vestir essa primeira camisa do affecto. Perdoa a figura; não é nobre, nem clara, mas a situação não me dá tempo de ir á cata de outra.

Pedro approximou-se, a passo lento, ajoelhou-se tambem e tomou-lhe as mãos que Paulo apertava entre as suas. Paulo ergueu-se e sumiu-se pela outra porta. O quarto tinha duas. A cama ficava entre ellas. Talvez Paulo fosse bramindo de colera; ella é que não ouviu nada, tão docemente vivo era o gesto de Pedro, já agora sem melancolia, e os olhos tão extaticos como os do irmão. Não eram taes que saissem, como os deste, ás aventuras. Tinham a quietação de quem não queria mais sol nem lua que esses que andam ahi, que se contenta de ambos, e, se os acha divinos, não cuida de os trocar por novos. Era a ordem, se queres, a estabilidade, o accordo entre si e as cousas, não menos sympathicos ao coração da moça, ou por trazerem a ideia de perpetua ventura, ou por darem a sensação de uma alma capaz de resistir.

Nem por isso os olhos de Flora deixaram de penetrar os de Pedro, até chegar á alma do rapaz. O motivo secreto desta outra entrada podia ser o escrupulo de cotejar as duas para julgal-as, se não era sómente o desejo de não parecer menos curiosa de uma que de outra. Ambas as razões são boas, mas talvez nenhuma fosse verdadeira. O gosto de fitar os olhos de Pedro era tão natural que não exigia intenção particular nenhuma, e bastava fital-os para escorregar e cair dentro da alma namorada. Era gemea da outra; não lhe viu mais nem menos que nesta.

Unicamente,—e aqui toco o ponto escabroso do capitulo,—achou cá alguma cousa indefinivel que não sentira lá; em compensação sentiu lá outra que não se lhe deparou cá. Indefinivel, não esqueças. E escabroso porque nada ha peor que falar de sensações sem nome. Crêde-me, amigo meu, e tu, não menos amiga minha, crêde-me que eu preferia contar as rendas do roupão da moça, os cabellos apanhados atraz, os fios do tapete, as taboas do tecto e porfim os estalinhos da lamparina que vae morrendo... Seria enfadonho, mas entendia-se.

Sim, a lamparina ia morrendo, mas ainda podia dar luz ao regresso de Paulo. Quando Flora o viu entrar e ajoelhar-se outra vez, ao pé do irmão, e ambos dividirem entre si as mãos della, mansos e cordatos, ficou longa mente attonita. Obra de um credo, como diziam os nossos antigos, quando havia mais religião que relogios. Voltando a si, puxou as mãos, estendeu-as depois sobre a cabeça delles, como se lhes apalpasse a differença, oquid, o algo, o indefinivel. A lamparina ia morrendo... Pedro e Paulo falavam-lhe por exclamações, por exhortações, por supplicas, a que ella respondia mal e tortamente, não que os não entendesse, mas por não os aggravar, ou acaso por não saber a qual delles diria melhor. A ultima hypothese tem ar de ser a mais provavel. Em todo caso, é o prologo do que succedeu, quando a lamparina chegou aos ultimos arrancos.

Tudo se mistura, á meia claridade; tal seria a causa da fusão dos vultos, que de dous que eram, ficaram sendo um só. Flora, não tendo visto sair nenhum dos gemeos, mal podia crêr que formassem agora uma só pessoa, mas acabou crêndo, mormente depois que esta unica pessoa solitaria parecia completal-a interiormente, melhor que nenhuma das outras em separado. Era muito fazer e desfazer, mudar e transmudar. Pensou enganar-se, mas não; era uma só pessoa, feita das duas e de si mesma, que sentia bater nella o coração. Estava tão cançada de emoções que tentou erguer-se e ir fóra, mas não pôde; as pernas pareciam de chumbo e colladas ao solo. Assim esteve, até que a lamparina, ao canto, morreu de todo. Flora teve um sobresalto na poltrona, e ergueu-se:

—Que é isto?

A lamparina apagou-se. Foi accendel-a. Viu então que estava sem um nem outro, sem dous nem um só fundido de ambos. Toda a fantasmagoria se desfizera. A lamparina (agora nova) alumiava o seu quarto de dormir, e á imaginação creára tudo. Foi o que ella suppoz, e o leitor sabe. Flora comprehendeu que era tarde, e um gallo confirmou essa opinião, cantando; outros gallos fizeram a mesma cousa.

—Ora, meus Deus! exclamou a filha de Baptista.

Metteu-se na cama, e, se não dormiu logo, tambem não se demorou muito; não tardou a estar com os anjos. Sonhou com o canto dos gallos, uma carroça, um lago, uma scena de viagem do mar, um discurso e um artigo. O artigo era de verdade. A mãe veiu acordal-a, ás dez horas da manhã, chamando-lhe dorminhoca, e alli mesmo, na cama, lhe leu uma folha da manhã que recommendava o marido ao governo. Flora ouviu satisfeita; acabara a grande noite.

Natividade dormiu tranquilla, em Botafogo, mas acordou pensando nos filhos e na moça de S. Clemente. Viera reparando nos trez. Parecera-lhe antes que Flora não acceitava um nem outro, logo depois que os acceitava a ambos, e mais tarde um e outro alternadamente. Concluiu que ainda não sentiria nada particular e decisivo; naturalmente iria com os tempos, a ver qual destes a merecia deveras. Elles é que pareciam sentir egual inclinação e egual ciume. Dahi alguma possivel catastrophe. A separação não supprimiria tudo; mas, além de que, separadas as familias, nem tudo seria presente a seus olhos, as visitas podiam ser menos frequentes e até raras. Tinha assim o que quizera.

Ao demais, ia chegando o tempo de ir para Petropolis; propriamente, chegára. Natividade cuidava de subir com os filhos. Sempre haveria lá no alto damas elegantes, diversões, alegria. Podia ser até que elles achassem noivas, e bastava uma para um. O que ficasse sem ella teria a liberdade de desposar Flora. Calculos de mãe; vieram outros que os modificaram, e outros que os restauraram. Quem fôr mãe que lhe atire a primeira pedra.

Nenhuma outra mãe atirou a primeira pedra á nossa amiga. Quero crêr que a razão disto não foi senão a propria discrição de Natividade. Suspeitas e calculos iam ficando no coração della. Calou tudo e esperou.

Ao cabo, Flora cada vez gostava mais de Natividade. Queria-lhe como se ella fosse sua mãe, duplamente mãe, uma vez que não escolhera ainda nenhum dos filhos. A causa podia ser que as duas indoles se ajustassem melhor que entre Flora e D. Claudia. A principio, sentiu não sei que inveja amiga, antes desejo, quando via que as fórmas da outra, embora arruinadas pelo tempo, ainda conservavam alguma linha da esculptura antiga. Pouco a pouco, foi descobrindo em si mesma o introito de uma belleza, que devia ser longa e fina, e de uma vida, que podia ser grande...

Flora conhecia a predicção da cabocla do Castello, relativamente aos dous gemeos. A predicção não era já segredo para ninguem. Santos falara della em tempo, apenas occultando a subida de Natividade ao Castello; emendou a verdade, dizendo que a cabocla é que viera a Botafogo. O resto foi revelado em confiança, como ao finado Placido, e ainda depois de alguma luta. Trez ou quatro vezes investiu e recuou. Um dia, a lingua deu sete voltas na bôca, e o segredo saiu medroso e sussurrado, mas perdeu o medo pelo gosto de mostrar que os rapazes seriam grandes. Emfim, o segredo foi esquecendo. Mas Perpetua, por isto ou aquillo, contou-o agora á moça Baptista, que a ouviu incredula. Que podia saber a cabocla do futuro?

—Sabia, e a prova é que adivinhou outras cousas, que não posso contar e eram verdadeiras. Você não imagina como o diacho da cabocla via longe. E tinha uns olhos de espetar o coração.

—Não acredito, D. Perpetua. Pois agora o futuro da gente... E grandes como?

—Isso não disse por mais que Natividade lhe perguntasse; disse só que seriam grandes e subiriam muito. Talvez venham a ser ministros de Estado.

Perpetua parecia haver comprado os olhos á cabocla. Enfiava-os pela amiga abaixo, até o coração, que aliás não batia com força nem apressado, mas tão regular como de costume. Entretanto, não sendo impossivel que os dous rapazes chegassem aos altos deste mundo, Flora deixou de objectar e acceitou a predicção, sem outra palavra mais que um gesto, —sabes, creio,—um gesto de boca, fazendo descair os cantos della, levantando os hombros levemente, e espalmando as mãos, como se dissesse: Emfim, póde ser.

Perpetua accresceptou que, mudado o regimen, era natural que Paulo chegasse primeiro á grandeza, —e aqui espetou bem os olhos. Era um modo de de apanhar os sentimentos de Flora, acenando-lhe com a elevação de Paulo, pois bem podia ser que viesse a amar antes o destino que a pessoa. Não achou nada. Flora continuou a não se deixar ler. Não lhe attribuas isto a calculo, não era calculo. Seriamente, não pensava em nada acima de si.

—Você crê deveras que venhamos a ser grandes homens? perguntára Pedro a Paulo, antes da queda do imperio.

—Não sei; você pode vir a ser, quando menos, primeiro ministro.

Depois de 15 de novembro, Paulo retorquiu a pergunta, e Pedro respondeu como o irmão, emendando o resto:

—Não sei; você póde vir a ser presidente da republica.

Já lá iam dous annos. Agora pensavam mais em Flora que na subida. A boa moral pede que ponhamos a cousa publica acima das pessoaes, mas os moços nisto se parecem com velhos e varões de outra edade, que muita vez pensam mais em si que em todos. Ha excepções, nobres algumas, outras nobilissimas. A historia guarda muitas dellas, e os poetas, epicos e tragicos, estão cheios de casos e modelos de abnegação.

Praticamente, seria exigir muito de Pedro e Paulo que cuidassem mais da constituição de 24 de fevereiro que da moça Baptista. Pensavam em ambas, é verdade, e a primeira já dera logar a alguma troca de palavras acerbas. A constituição, se fosse gente viva, e estivesse ao pé delles, ouviria os ditos mais contrarios deste mundo, porque Pedro ia ao ponto de a achar um poço de iniquidades, e Paulo a propria Minerva nascida da cabeça de Jove. Falo por metaphora para não descair do estylo. Em verdade, elles empregavam palavras menos nobres e mais emphaticas, e acabavam trocando as primeiras entre si. Na rua, onde o encontro de manifestações politicas era commum, e as noticias á porta dos jornaes frequente, tudo era occasião de debate.

Quando, porém, a imagem de Flora apparecia entre elles por imaginação, o debate esmorecia, mas as injurias continuavam e até cresciam, sem confissão do novo motivo, que era ainda maior que o primeiro. Effectivamente, elles iam chegando ao ponto em que dariam as duas constituições, a republicana e a imperial, pelo amor exclusivo da moça, se tanto fosse exigido. Cada um faria com ella a sua constituição, melhor que outra qualquer deste mundo.

Uma cousa é preciso dizer antes que me esqueça. Sabes que os dous gemeos eram bellos e continuavam parecidos; por esse lado não suppunham ter motivo de inveja entre si. Ao contrario, um e outro achavam em si qualquer cousa que accentuava, senão melhorava, as graças communs. Não era verdade, mas não é a verdade que vence, é a convicção. Convence-te de uma ideia, e morrerás por ella, escreveu Ayres por esse tempo noMemorial, e accrescentou: «nem é outra a grandeza dos sacrificios, mas se a verdade acerta com a convicção, então nasce o sublime, e atraz delle o util...» Não acabou ou não explicou esta phrase.

Aquella citação do velho Ayres faz-me lembrar um ponto em que elle e a moça Flora divergiam ainda mais que na edade. Já contei que ella, antes da commissão do pae, defendia Pedro e Paulo, conforme estes diziam mal um do outro, Naturalmente fazia agora a mesma cousa, mas a mudança do regimen trouxe occasião de defender tambem monarchistas e republicanos, segundo ouvia as opiniões de Paulo ou de Pedro. Espirito de conciliação ou de justiça, applacava a ira ou o desdem do interlocutor: «Não diga isso... São patriotas tambem... Convem desculpar algum excesso...» Eram só phrases, sem impeto de paixão nem estimulo de principios; e o interlocutor concluia sempre:

—A senhora é boa.

Ora, o costume de Ayres era o opposto dessa contradicção benigna. Has-de lembrar-te que elle usava sempre concordar com o interlocutor, não por desdem da pessoa, mas para não dissentir nem brigar. Tinha observado que as convicções, quando contrariadas, descompõem o rosto á gente, e não queria ver a cara dos outros assim, nem dar á sua um aspecto abominavel. Se lucrasse alguma cousa, vá; mas, não lucrando nada, preferia ficar em paz com Deus e os homens. Dahi a arranjo de gestos e phrases affirmativas que deixavam os partidos quietos, e mais quieto a si mesmo.

Um dia, como ella estivesse com Flora, falou daquelle costume della, dizendo-lhe que parecia estudado. Flora negou que o fosse; era inclinação natural defender os ausentes, que não podiam responder por nada; demais, applacava assim um dos gemeos com quem falasse, e depois o outro.

—Tambem concordo.

—E porque ha de o senhor concordar sempre? perguntou ella sorrindo.

—Posso concordar com a senhora, porque é uma delicia ir com as suas opiniões, e seria mau gosto rebatel-as, mas, em verdade, não ha calculo. Com os mais, se concordo, é porque elles só dizem o que eu penso.

—Ja o tenho achado em contradicção.

—Póde ser. A vida e o mundo não são outra cousa. A senhora não saberá isto bem, porque é moça e ingenua, mas creia que a vantagem é toda sua. A ingenuidade é o melhor livro e a mocidade a melhor escola. Vá desculpando esta minha pedanteria; alguma vez é um mal necessario.

—Não se accuse, conselheiro. O senhor sabe que eu não creio nada contra a sua palavra, nem contra a sua pessoa; a propria contradicção que lhe acho é agradavel.

—Tambem concordo.

—Concorda com tudo.

—Olha aqui, Flora; dá licença, conselheiro?

Esqueceu-me dizer que esta conversação era á porta de uma loja de fazendas e modas, rua do Ouvidor. Ayres ia na direcção do largo de S. Francisco de Paula e viu a mãe e a filha dentro, sentadas, a escolher um tecido. Entrou, comprimentou-as, e veiu á porta com a filha. O chamado de D. Claudia interrompeu a conversação por alguns instantes. Ayres ficou a olhar para a rua, onde subiam e desciam mulheres de todas as classes, homens de todos os officios, sem contar as pessoas paradas de ambos os lados e no centro. Não havia borborinho grande, nem socego puro, um meio termo.

Talvez algumas pessoas fossem conhecidas de Ayres e o comprimentassem; mas este tinha a alma tão mettida em si mesma que, se falou a uma ou duas, foi o mais. De quando em quando, voltava a cabeça para dentro, onde Flora e a mãe faziam a sua consulta. Ouvia as palavras trocadas ainda agora. Sentia-se curioso de saber se finalmente a moça escolhia a um dos gemeos, e qual destes. Vá tudo; tinha já pezar que não fosse algum, posto não lhe importasse saber se Pedro ou Paulo. Quizera vel-a feliz, se a felicidade era o casamento, e feliz o marido, sem embargo da exclusão; o excluido seria consolado. Agora, se era por amor delles, se della, é o que propriamente se não póde dizer com verdade. Quando muito, para levantar a ponta do veu, seria preciso entrar na alma delle, ainda mais fundo que elle mesmo. Lá se descobriria acaso, entre as ruinas de meio celibato, uma flôr descorada e tardia de paternidade, ou, mais propriamente, de saudade della...

Flora trouxe novamente a rosa fresca e rubra da primeira hora. Não falaram mais de contradicção, mas da rua, da gente e do dia. Nenhuma palavra ácerca de Pedro ou Paulo.

Elles, onde quer que estivessem naquelle momento, podiam falar ou não. A verdade é que, se nenhum consentia em deixar a moça, tambem nenhum contava obtel-a, por mais que a achassem inclinada. Tinham já combinado que o rejeitado acceitaria a sorte, e deixaria o campo ao vencedor. Não chegando a victoria, não sabiam como resolver a batalha. Esperar, seria o mais facil, se a paixão não crescesse, mas a paixão crescia.

Talvez não fosse exactamente paixão, se dermos a esta palavra o sentido de violencia; mas, se lhe reconhecermos uma forte inclinação de amor, um amor adolescente ou pouco mais, era o caso. Pedro e Paulo cederiam a mão da pequena, se houvessem de consultar só a razão, e mais de uma vez estiveram a pique de o fazer; raro lampejo, que para logo desapparecia. A ausencia era já insoffrivel, a presença necessaria. Se não fôra o que aconteceu e se contará por essas paginas adiante, haveria materia para não acabar mais o livro; era só dizer que sim e que não, e o que estes pensaram e sentiram, e o que ella sentia e pensou, até que o editor dissesse: basta! Seria um livro de moral e de verdade, mas a historia começada ficaria sem fim. Não, não, não... Força é continual-a e acabal-a. Comecemos por dizer o que os dous gemeos ajustaram entre si, poucos dias depois daquelle sonho ou delirio da moça Flora, á noite, no quarto.

Vejamos o que é que estes ajustaram. Vinham de estar com Ayres no theatro, uma noite, matando o tempo. Conheceis este dragão; toda a gente lhe tem dado os mais fundos golpes que póde, elle esperneia, expira e renasce. Assim se fez naquella noite. Não sei que theatro foi, nem que peça, nem que genero; fosse o que fosse, a questão era matar o tempo, e os trez o deixaram estirado no chão.

Fôram dallí a umrestaurant.Ayres disse-lhes que, antigamente, em rapaz, acabava a noite com amigos da mesma edade. Era o tempo de Offenbach e dá opereta. Contou anecdotas, disse as peças, descreveu as damas e os partidos, quasi deu por si repetindo um trecho, musica e palavras. Pedro e Paulo ouviam com attenção, mas não sentiam nada do que espertava os écos da alma do diplomata. Ao contrario, tinham vontade de rir. Que lhes importava a noticia da um velho café da rua Uruguayana, trocado depois em theatro, agora em nada, uma gente que viveu e brilhou, passou e acabou antes que elles viessem ao mundo? O mundo começou vinte annos antes daquella noite, e não acabaria mais, como um viveiro de moços eternos que era.

Ayres sorriu, porquanto elle tambem assim cuidou, aos vinte e dous annos de edade, e ainda se lembrava do sorriso do pae, já velho, quando lhe disse algo parecido com isso. Mais tarde, tendo adquerido do tempo a noção idealista que ora possuia, comprehendeu que tal dragão era juntamente vivo e defunto, e tanto valia matal-o como nutril-o. Não obstante, as recordações eram doces, e muitas dellas viviam ainda frescas, como se viessem da vespera.

A differença da edade era grande, não podia entrar em pormenores com elles. Ficou só em lembranças, e cuidou de outra cousa. Pedro e Paulo, entretanto, receiosos de que elle os adivinhasse e comprehendesse o desprezo que lhes inspiravam as saudades de tempos remotos e extranhos, pediram-lhe informações, e elle deu as que podia, sem intimidade.

Ao cabo, a conversação valeu mais que este resumo, e a separação não custou pouco. Paulo ainda lhe pediu Offenbach, Pedro uma descripção das paradas de 7 de setembro e 2 de dezembro; mas o diplomata achou meio de saltar ao presente e particularmente a Flora, que louvou como uma bella creatura. Os olhos de ambos concordaram que era bellissima. Tambem louvou as qualidades moraes, a finura do espirito, taes dotes que Pedro e Paulo reconheceram tambem, e dahi a conversação, e porfim o ajuste a que me referi no começo deste capitulo e pede outro.

—Quanto a mim, um de vocês gosta della, senão ambos, disse Ayres.

Pedro mordeu os beiços, Paulo consultou o relogio; iam já na rua. Ayres concluiu o que sabia, que sim, que ambos, e não trepidou em dizel-o, accrescentando que a moça não era como a Republica, que um podia defender e outro atacar; cumpria ganhal-a ou perdel-a de vez. Que fariam elles, dada a escolha? Ou já estava feita a escolha, e o preterido teimava em a torcer para si?

Nenhum, falou logo, posto que ambos sentissem necessidade de explicar alguma cousa. Tinham que a escolha não era clara ou decisiva. Outrosim, que lhes cabia o direito de esperar a preferencia, e fariam o diabo para alcançal-a. Taes e outras ideias vagavam silenciosamente nelles, sem sair cá fóra. A razão percebe-se, e devia ser mais de uma,—primeiro, a materia da conversação,—depois, a gravidade do interlocutor. Por mais que Ayres abrisse as portas á franqueza dos rapazes, estes eram rapazes e elle velho. Mas o assumpto em si era tão seductor, o coração, apesar de tudo, tão indiscreto, que não houve remedio se não falar, mas falar negando.

—Não me neguem, interrompeu Ayres; a gente madura sabe as manhas da gente nova, e adivinha com facilidade o que ella faz. Nem é preciso adivinhar; basta ver e ouvir. Vocês gostam della.

Elles sorriam, mas já agora com tal amargor e acanhamento que mostravam o desgosto da rivalidade, aliás sabida delles. Tal rivalidade era tambem sabida de outros, devia sel-o de Flora, e a situação lhes parecia agora mais complicada e fechada que d'antes.

Tinham chegado ao largo da Carioca, era uma hora da noite. Uma victoria da Santos esperava alli os rapazes, a conselho e por ordem da mãe, que buscava todas as occasiões e meios de os fazer andar juntos e familiares. Teimava em emendara natureza. Levava-os muita vez a passeio, ao theatro, a visitas. Naquella noite, como soubesse que iam ao theatro, mandou aprestar a victoria que os conduziu para a cidade, e ficou á espera delles.

—Entre, conselheiro, disse Pedro, o carro dá para, trez: eu vou no banquinho da frente.

Entraram e partiram.

—Bem, continuou Ayres, é certo que vocês gostam della, e egualmente certo que ella ainda não escolheu entre os dous. Provavelmente, não sabe que faça. Um terceiro resolveria a crise porque vocês se consolariam depressa; tambem eu me consolei em rapaz. Não havendo terceiro, e não se podendo prolongar a situação, porque é que vocês não combinam alguma cousa?

—Combinar quê? perguntou Pedro sorrindo.

—Qualquer cousa. Combinem um modo de cortar este nó gordio. Cada um que siga a sua vocação. Você Pedro, tentará primeiro desatal-o; se elle não puder, Paulo, você pegue da espada de Alexandre, e dê-lhe o golpe. Fica tudo feito e acabado. Então o destino, que os espera, com duas bellas creaturas, virá trazel-as pela mão a um e a outro, e tudo se compõe na terra como no céu.

Ayres disse mais cousas antes de se apear á porta da casa. Apeado, ainda lhes perguntou:

—Estamos de accordo?

Os dous responderam de cabeça affirmativamente, e, ficando sós, não disseram nada. Que fossem pensando, é natural, e porventura o tempo lhes pareceu curto entre o Cattete e Botafogo. Chegaram á casa, subiram a escada do jardim, falaram da temperatura, que Pedro achava deliciosa e Paulo abominavel, mas não disseram assim para não irritar um ao outro. A esperança do ajuste é que os levava á moderação relativa e passageira. Vivam os fructos pendentes do dia seguinte!

Cá estava o quarto á espera delles, um brinco de arranjo e graça, de commodidade e repouso. Era a mãe que dava os últimos retoques todos os dias; ella cuidava das flôres que seriam postas nos vasinhos de porcellana, e ella mesma as ia tirar á noite e pôr fóra das janellas para que elles não as respirassem dormindo. Cá estavam as velas ao pé das duas camas, mettidas nos seus castiçaes de prata, um com o nome de Pedro, outro com o de Paulo, gravados. Tapetinhos de suas mãos, laços dados por ella nos cortinados, finalmente o retrato della e o do marido pendurados á parede, entre as duas camas, naquelle mesmo logar em que estiveram os de Luiz XVI e Robespierre, comprados na rua da Carioca.

Ao pé de cada um dos castiçaes acharam um biIhetinho de Natividade. Aqui está o que ella dizia: «Algum de vocês quer ir commigo á missa, amanhã? Faz annos que seu avô morreu, e Perpetua está adoentada.» Natividade esquecera de lhes falar antes, e, aliás, andava bem sem elles, mormente de carruagem; mas gostava de os ter comsigo.

Pedro e Paulo riram do convite e da fórma, e um delles propoz que, para agradar á mãe, fossem ambos á missa. A acceitação da proposta veiu prompta; já não era harmonia, era uma especie de dialogo na mesma pessoa. O céu parecia escrever o tratado de paz que ambos teriam de assignar; ou, se preferes, a natureza corrigia as indoles, e os dous rixosos começavam a ajustar o ser e o parecer. Tambem não juro isto, digo o que se póde crêr só pelo aspecto das cousas.

—Vamos á missa, repetiram.

Seguiu-se um grande silencio. Cada um ruminava o ajuste e o modo de o propor. Emfim, de cama a cama, disseram o que lhes parecia melhor, propuzeram, discutiram, emendaram e concluiram sem escriptura de tabellião, apenas por acceitação de palavra. Poucas clausulas. Confessando que não podiam assegurar a escolha de Flora, concordaram em esperar por ella durante um prazo curto; trez mezes. Dada a escolha, o rejeitado obrigava-se a não tentar mais nada. Como tivessem a certeza final da escolha, o accordo era facil; cada um não faria mais que excluir o outro. Não obstante, se ao fim do prazo, nenhuma escolha houvesse, cumpria adoptar uma clausula ultima. A primeira que acudiu foi deixarem ambos o campo, mas não os seduziu. Lembrou-lhes recorrer á sorte, e aquelle que fosse designado por ella, deixaria o campo ao rival. Assim passou uma hora de conversação, após a qual, cuidaram de dormir.

Às nove horas da manhã seguinte, Natividade estava prompta para ir á missa que mandava dizer na matriz da Gloria; nenhum dos filhos se lhe apresentou.

—Parece que dormem.

E duas, trez, quatro, cinco vezes, foi até á porta do quarto a ver se ouvia rumor, como resposta ao bilhete que deixara. Nada. Concluiu que teriam entrado tarde. Só não atinou que dormissem sobre o ajuste, nem que ajuste era. Uma vez que o fizessem em cama fôfa, tudo ia bem. Emfim, acabou de calçar as luvas, desceu, entrou no carro e foi para a egreja.

A missa era anniversaria, como dizia o bilhete. Uso velho; o pae tinha a sua missa, a mãe outra, os irmãos e parentes outras. Não lhe esqueciam datas obituarias, como não lhe esqueciam natalicias, quaesquer que fossem, amigas ou parentas; trazia-as todas de cór. Doce memoria! Ha pessoas a quem não ajudas, e chegam a brigar comsigo e com outros por abandono teu. Felizes os que tu proteges; esses sabem o que é 24 de março, 10 de agosto, 2 de abril, 7 e 31 de outubro, 10 de novembro, o anno todo, suas tristezas e alegrias particulares.

Voltando á casa, viu Natividade os dous filhos no jardim, á espera della. Elles correram a abrir-lhe a portinhola do carro, e depois de a apearem e lhe beijarem a mão, explicaram a falta. Tinham resolvido ir ambos, mas o somno...

—O somno e a preguiça, concluiu a mãe rindo.

—Foi só o somno, disse Pedro.

—Accordamos agora mesmo, acabou Paulo.

Disputaram dar-lhe o braço; Natividade os satisfez dando um braço a cada um. Em casa, ao mudar de roupa, Natividade reflectiu que, se Flora lhes tivesse feito algum pedido, elles accordariam cedo, por mais tarde que se deitassem; a memoria serviria de despertador. Passou-lhe uma sombra rapida, mas depressa se reconciliou com a differença. Assim que, não foi por ciume, mas para os trazer a outras seducções e separal-os da guerra ante a bella Flora, que a mãe teimou em levar os filhos para Petropolis. Subiriam na primeira semana de janeiro. A estação seria excellente; annunciou festas, citou nomes, notou-lhes que Petropolis era a cidade da paz. O governo póde mudar cá embaixo e nas provincias...

—Que provincias, mamãe? atalhou Paulo.

Natividade sorriu e emendou.

—Nos Estados. Vae desculpando os descuidos de tua mãe. Bem sei que são Estados; não são como as provindas antigas, não esperam que o presidente lhes vá aqui da Côrte...

—Que Côrte, baroneza?

Agora os dous riram, mãe e filho. Passado o riso, Natividade continuou:

— Petropolis é a cidade da paz; é, como dizia outro dia o conselheiro Ayres, é a cidade neutra, é a cidade das nações. Se a capital do Estado fosse alli, não haveria deposição de governo. Petropolis,—vejam vocês que o nome, apesar da origem, ficou e ficará,—é de todos. A estação dizem que vae ser encantadora...

—Eu não sei se posso ir já, disse Paulo.

—Nem eu, acudiu Pedro.

Ainda uma vez estavam de accordo, mas aqui o accordo trazia provavelmente o divorcio, reflectiu a mãe, e o prazer que lhe deram aquellas duas palavras morreu depressa. Perguntou-lhes que razão tinham para ficar e até quando. Se estivessem estabelecidos com o seu consultorio medico e a sua banca de advogado, era bem; mas, se nenhum delles começara ainda a carreira, que fariam cá embaixo, quando ella e o marido...

—Justamente; eu tenho que fazer uns estudos de clinica na Santa Casa, respondeu Pedro.

Paulo explicou-se. Não ia praticar a advocacia, mas precisava de consultar certos documentos do século XVII na Bibliotheca Nacional; ia escrever uma historia das terras possuidas.

Nada era verdade, mas nem só a verdade se deve dizer ás mães. Natividade ponderou que elles podiam fazer tudo entre as duas barças de Petropolis; desciam, almoçavam, trabalhavam, e ás quatro horas subiriam, como a demais gente. Em cima achariam visitas, musica, bailes, mil cousas bellas, sem contar as manhãs, a temperatura e os domingos. Elles defenderam o estudo, como sendo melhor por muitas horas seguidas.

Natividade não teimou. Mais depressa ficaria esperando que os filhos acabassem os documentos da Bibliotheca e a clinica da Santa Casa. Esta ideia fel-a attentar para a necessidade de ver estabelecidos o joven medico e o joven advogado. Trabalhariam com outros profissionaes de reputação e iriam adiante e acima. Talvez a carreira scientifica lhes désse a grandeza annunciada pela cabocla do Castello, e não a politica ou outra. Em tudo se podia resplandecer e subir. Aqui fez a critica de si mesma, quando imaginou que Baptista abriria a carreira politica de algum delles, sem advertir que o pae de Flora mal continuaria a propria carreira, aliás obscura. Mas a ideia do mando tornava a óccupar a cabeça da mãe, e cheios della os olhos fitavam ora Pedro, ora Paulo.

Chegaram a accordo. Elles subiriam aos sabbados e desceriam ás segundas; o mesmo por occasião de dias santos e festas de gala. Natividade contava com o costume e as attracções.

Na barca e em Petropolis era objecto de conversação a differença entre os filhos, que só iam lá uma vez por semana, e o pae, que trazia tantos negocios ás costas, e subia todas as tardes. Que fariam elles cá em baixo, quando alguns olhos podiam attrail-os e agarral-os lá em cima? Natividade defendia os gemeos, dizendo que um ia á Santa Casa e outro á Bibliotheca Nacional, e estudavam muito, ás noites. A explicação era acceitavel, mas, além de fazer perder um assumpto aos bonitos dentes do verão, podia ser invenção dos rapazes; naturalmente, iriam ás moças.

A verdade é que elles faziam rumor em Petropolis, durante as poucas horas que lá passavam. Além do mais, tinham a semelhança e a graça. As mães diziam bonitas cousas á mãe delles, e indagavam da razão verdadeira que os prendia á capital, não assim como eu digo, nu e cru, mas com arte fina e insidiosa, arte perdida, porque a mãe insistia na Bibliotheca e na Santa Casa. Deste geito, a mentira, já servida em primeira mão, era servida em segunda, e nem por isso melhor acceita.


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