The Project Gutenberg eBook ofEsau e Jacob

The Project Gutenberg eBook ofEsau e JacobThis ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.Title: Esau e JacobAuthor: Machado de AssisRelease date: March 14, 2018 [eBook #56737]Language: PortugueseCredits: Produced by Laura Natal Rodrigues & Marc D'Hooghe at Free Literature*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK ESAU E JACOB ***

This ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.

Title: Esau e JacobAuthor: Machado de AssisRelease date: March 14, 2018 [eBook #56737]Language: PortugueseCredits: Produced by Laura Natal Rodrigues & Marc D'Hooghe at Free Literature

Title: Esau e Jacob

Author: Machado de Assis

Author: Machado de Assis

Release date: March 14, 2018 [eBook #56737]

Language: Portuguese

Credits: Produced by Laura Natal Rodrigues & Marc D'Hooghe at Free Literature

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Indice

Quando o conselheiro Ayres falleceu, acharam-se lhe na secretaria sete cadernos manuscriptos, rijamente encapados em papelão. Cada um dos primeiros seis tinha o seu numero de ordem, por algarismos romanos, I, II, III, IV, V, VI, escriptos a tinta encarnada. O setimo trazia este titulo:Ultimo.

A razão desta designação especial não se comprehendeu então nem depois. Sim, era o ultimo dos sete cadernos, com a particularidade de ser o mais grosso, mas não fazia parte doMemorial, diario de lembranças que o conselheiro escrevia desde muitos annos e era a materia dos seis. Não trazia a mesma ordem de datas, com indicação da hora e do minuto, como usava nelles. Era uma narrativa; e, posto figure aqui o proprio Ayres, com o seu nome e titulo de conselho, e, por allusão, algumas aventuras, nem assim deixava de ser a narrativa extranha á materia dos seis cadernos.Ultimoporquê?

A hypothese de que o desejo do finado fosse imprimir este caderno em seguida aos outros, não é natural, salvo se queria obrigar a leitura dos seis, em que tratava de si, antes que lhe conhecessem esta outra historia, escripta com um pensamento interior e unico, atravez das paginas diversas. Nesse caso, era a vaidade do homem que falava, mas a vaidade não fazia parte dos seus defeitos. Quando fizesse, valia a pena satisfazel-a? Elle não representou papel eminente neste mundo; percorreu a carreira diplomatica, e aposentou-se. Nos lazeres do officio, escreveu oMemorial, que, aparado das paginas mortas ou escuras, apenas daria (e talvez dê) para matar o tempo da barça de Petropolis.

Tal foi a razão de se publicar sómente a narrativa. Quanto ao titulo, fôram lembrados varios, em que o assumpto se pudesse resumir,Ab ovo, por exemplo, apesar do latim; venceu, porém, a ideia de lhe dar estes dous nomes que o proprio Ayres citou uma vez:

ESAÚ E JACOB

Dico, che quando l'anima mal nata...

DANTE.

Era a primeira vez que as duas iam ao morro do Castello. Começaram de subir pelo lado da rua do Carmo. Muita gente ha no Rio de Janeiro que nunca lá foi, muita haverá morrido, muita mais nascerá e morrerá sem lá pôr os pés. Nem todos podem dizer que conhecem uma cidade inteira. Um velho inglez, que aliás andára terras e terras, confiava-me ha muitos annos em Londres que de Londres só conhecia bem o seu club, e era o que lhe bastava da metropole e do mundo.

Natividade e Perpetua conheciam outras partes, além de Botafogo, mas o morro do Castello, por mais que ouvissem falar delle e da cabocla que lá reinava em 1811, era-lhes tão extranho e remoto como o club. O ingreme, o desegual, o mal calçado da ladeira mortificavam os pés ás duas pobres donas. Não obstante, continuavam a subir, como se fosse penitencia, devagarinho, cara no chão, veu para baixo. A manhã trazia certo movimento; mulheres, homens, creanças que desciam ou subiam, lavadeiras e soldados, algum empregado, algum logista, algum padre, todos olhavam espantados para ellas, que aliás vestiam com grande simplicidade; mas lia um donaire que se não perde, e não era vulgar naquellas alturas. A mesma lentidão do andar, comparada á rapidez das outras pessoas, fazia desconfiar que era a primeira vez que alli iam. Uma creoula perguntou a um sargento: «Você quer vêr que ellas vão á cabocla?» E ambos pararam a distancia, tomados daquelle invencivel desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade humana.

Com effeito, as duas senhoras buscavam disfarçadamente o numero da casa da cabocla, até que deram com elle. A casa era como as outras, trepada no morro. Subia-se por uma escadinha, estreita, sombria, adequada á aventura. Quizeram entrar depressa, mas esbarraram com dous sujeitos que vinham saindo, e coseram-se ao portal. Um delles perguntou-lhes familiarmente se iam consultar a adivinha.

—Perdem o seu tempo, concluiu furioso, e hão de ouvir muito disparate...

—É mentira delle, emendou o outro rindo; a cabocla sabe muito bem onde tem o nariz.

Hesitaram um pouco; mas, logo depois advertiram que as palavras do primeiro eram signal certo da videncia e da franqueza da adivinha; nem todos teriam a mesma sorte alegre. A dos meninos de Natividade podia ser miseravel, e então... Em quanto cogitavam passou fóra um carteiro, que as fez subir mais depressa, para escapar a outros olhos. Tinham fé, mas tinham tambem vexame da opinião, como um devoto que se benzesse ás escondidas.

Velho caboclo, pae da adivinha, conduziu as senhoras á sala. Esta era simples, as paredes nuas, nada que lembrasse mysterio ou incutisse pavor, nenhum petrecho symbolico, nenhum bicho empalhado, esqueleto ou desenho de aleijões. Quando muito um registo da Conceição collado á parede podia lembrar um mysterio, apesar de encardido e roido, mas não mettia medo. Sobre uma cadeira, uma viola.

—Minha filha já vem, disse o velho. As senhoras como se chamam?

Natividade deu o nome de baptismo sómente, Maria, como um veu mais espesso que o que trazia no rosto, e recebeu um cartão,—porque a consulta era só de uma,—com o numero 1,012. Não ha que pasmar do algarismo; a freguezia era numerosa, e vinha de muitos mezes. Tambem não ha que dizer do costume, que é velho e velhissimo. Relê Eschylo, meu amigo, relê asEumenides, lá verás a Pythia, chamando os que iam á consulta: «Se ha aqui Hellenos, venham, approximem-se, segundo o uso,na ordem marcada pela sorte...» A sorte outr'ora, a numeração agora, tudo é que a verdade se ajuste á prioridade, e ninguem perca a sua vez de audiencia. Natividade guardou o bilhete, e ambas fôram á janella.

A falar verdade, temiam o seu tanto, Perpetua menos que Natividade. A aventura parecia audaz, e algum perigo possivel. Não ponho aqui os seus gestos; imaginae que eram inquietos e desconcertados. Nenhuma dizia nada. Natividade confessou depois que tinha um nó na garganta. Felizmente, a cabocla não se demorou muito; ao cabo de trez ou quatro minutos, o pae a trouxe pela mão, erguendo a cortina do fundo.

—Entra, Barbara.

Barbara entrou, emquanto o pae pegou da viola e passou ao patamar de pedra, á porta da esquerda. Era uma creaturinha leve e breve, saia bordada, chinelinha no pé. Não se lhe podia negar um corpo airoso. Os cabellos, apanhados no alto da cabeça por um pedaço de fita enxovalhada, faziam-lhe um solideu natural, cuja borla era supprida por um raminho de arruda. Já vae nisto um pouco de sacerdotiza. O mysterio estava nos olhos. Estes eram opacos, não sempre nem tanto que não fossem tambem lucidos e agudos, e neste ultimo estado eram egualmente compridos; tão compridos e tão agudos que entravam pela gente abaixo, revolviam o coração e tornavam cá fóra, promptos para nova entrada e outro revolvimento. Não te minto dizendo que as duas sentiram tal ou qual fascinação. Barbara interrogou-as; Natividade disse ao que vinha e entregou-lhe os retratos dos filhos e os cabellos cortados, por lhe haverem dito que bastava.

—Basta, confirmou Barbara. Os meninos são seu filhos?

—São.

—Cara de um é cara de outro.

—São gemeos; nasceram ha pouco mais de um anno.

—As senhoras podem sentar-se.

Natividade disse baixinho á outra que «a cabocla era sympathica», não tão baixo que esta não pudesse ouvir tambem; e dahi pôde ser que ella, receiosa da predicção, quizesse aquillo mesmo para obter um bom destino aos filhos. A cabocla foi sentar-se á mesa redonda que estava no centro da sala, virada para as duas. Poz os cabellos e os retratos defronte de si. Olhou alternadamente para elles e para a mãe, fez algumas perguntas a esta, e ficou a mirar os retratos e os cabellos, bôca aberta, sobrancelhas cerradas. Custa-me dizer que accendeu um cigarro, mas digo, porque é verdade, e o fumo concorda com o officio. Fóra, o pae roçava os dedos na viola, murmurando uma cantiga do sertão do norte:

Menina da saia branca,Saltadeira de riacho...

Emquanto o fumo do cigarro ia subindo, a cara da adivinha mudava de expressão, radiante ou sombria, ora interrogativa, ora explicativa. Barbara inclinava-se aos retratos, apertava uma madeixa de cabellos em cada mão, e fitava-as, e cheirava-as, e escutava-as, sem a affectação que por ventura aches nesta linha. Taes gestos não se poderiam contar naturalmente. Natividade não tirava os olhos della, como se quizesse lel-a por dentro. E não foi sem grande espanto que lhe ouviu perguntar se os meninos tinham brigado antes de nascer.

—Brigado?

—Brigado, sim, senhora.

—Antes de nascer?

—Sim, senhora, pergunto se não teriam brigado no ventre de sua mãe; não se lembra?

Natividade, que não tivera a gestação socegada, respondeu que effectivamente sentira movimentos extraordinarios, repetidos, e dôres, e insomnias... Mas então que era? Brigariam porquê? A cabocla não respondeu. Ergueu-se pouco depois, e andou á volta da mesa, lenta, como somnambula, os olhos abertos e fixos; depois entrou a dividil-os novamente entre a mãe e os retratos. Agitava-se agora mais, respirando grosso. Toda ella, cara e braços, hombros e pernas, toda era pouca para arrancar a palavra ao Destino. Emfim, parou, sentou-se exhausta, até que se ergueu de salto e foi ter com as duas, tão radiante, os olhos tão vivos e callidos, que a mãe ficou pendente delles, e não se poude ter que lhe não pegasse das mãos e lhe perguntasse anciosa:

—Então? Diga, posso ouvir tudo.

Barbara, cheia de alma e riso, deu um respiro de gosto. A primeira palavra parece que lhe chegou á bôca, mas recolheu-se ao coração, virgem dos labios della e de alheios ouvidos. Natividade instou pela resposta, que lhe dissesse tudo, sem falta...

—Cousas futuras! murmurou finalmente a cabocla.

—Mas, cousas feias?

—Oh! não! não! Cousas bonitas, cousas futuras!

—Mas isso não basta; diga-me o resto. Esta senhora é minha irmã e de segredo, mas se é preciso sair, ella sae; eu fico, diga-me a mim só... Serão felizes?

—Sim.

—Serão grandes?

—Serão grandes, oh! grandes! Deus ha de dar-lhes muitos beneficios. Elles hão de subir, subir, subir... Brigaram no ventre de sua mãe, que tem? Cá fóra tambem se briga. Seus filhos serão gloriosos. É só o que lhe digo. Quanto á qualidade da gloria, cousas futuras!

Lá dentro, a voz do caboclo velho ainda uma vez continuava a cantiga do sertão:

Trepa-me neste coqueiro.Bota-me os cocos abaixo.

E a filha, não tendo mais que dizer, ou não sabendo que explicar, dava aos quadris o gesto da toada, que o velho repetia lá dentro:

Menina da saia branca,Saltadeira de riacho,Trepa-me neste coqueiro,Bota-me os cocos abaixo.Quebra coco, sinhá,Lá no cocá,Se te dá na cabeça,Hade rachá;Muito heide me ri,Muito heide gostá,Lelê, coco, nayá.

Todos os oraculos tem o falar dobrado, mas entendem-se. Natividade acabou entendendo a cabocla, apesar de lhe não ouvir mais nada; bastou saber que as cousas futuras seriam bonitas, e os filhos grandes e gloriosos para ficar alegre e tirar da bolsa uma nota de cincoenta mil reis. Era cinco vezes o preço do costume, e valia tanto ou mais que as ricas dadivas de Créso á Pythia. Arrecadou os retratos e os cabellos, e as duas sairam, em quanto a cabocla ia para os fundos, á espera de outros. Já havia alguns freguezes á porta, com os numeros de ordem, e ellas desceram rapidamente, escondendo a cara.

Perpetua compartia as alegrias da irmã, as pedras tambem, o muro do lado do mar, as camisas penduradas ás janellas, as cascas de banana no chão. Os mesmos sapatos de umirmão das almas, que ia a dobrar a esquina da rua da Misericordia para a de S. José, pareciam rir de alegria, quando realmente gemiam de cançasso. Natividade estava tão fóra de si que, ao ouvir-lhe pedir: «Para a missa das almas!» tirou da bolsa uma nota de dous mil reis, nova era folha, e deitou-a á bacia. A irmã chamou-lhe a attenção para o engano, mas não era engano, era para as almas do purgatorio.

E seguiram lepidas para ocoupé, que as esperava no espaço que fica entre a egreja de S. José e a camara dos deputados. Não tinham querido que o carro as levasse até ao principio da ladeira, para que o cocheiro e o lacaio não desconfiassem da consulta. Toda a gente falava então da cabocla do Castello, era o assumpto da cidade; attribuiam-lhe um poder infinito, uma serie de milagres, sortes, achados, casamentos. Se as descobrissem, estavam perdidas, embora muita gente boa lá fosse. Ao vel-as dando a esmola ao irmão das almas, o lacaio trepou á almofada e o cocheiro tocou os cavallos, a carruagem veiu buscal-as, e guiou para Botafogo.

—Deus lhe accrescente, minha senhora devota! exclamou o irmão das almas ao ver a nota cair em cima de dous nickeis de tostão e alguns vintens antigos. Deus lhe dê todas as felicidades do céu e da terra, e as almas do purgatorio peçam a Maria Santissima que recommende a senhora dona a seu bemdito filho!

Quando a sorte ri, toda a natureza ri tambem, e o coração ri como tudo o mais. Tal foi a explicação que, por outras palavras menos especulativas, deu o irmão das almas aos dous mil reis. A suspeita de ser a nota falsa não chegou a tomar pé no cerebro deste: foi allucinação rapida. Comprehendeu que as damas eram felizes, e, tendo o uso de pensar alto, disse piscando o olho, emquanto ellas entravam no carro:

—Aquellas duas viram passarinho verde, com certeza.

Sem rodeios, suppoz que as duas senhoras vinham de alguma aventura amorosa, e deduziu isto de trez factos, que sou obrigado a enfileirar aqui para não deixar este homem sob a suspeita de calumniador gratuito. O primeiro foi a alegria dellas, o segundo o valor da esmola, o terceiro o carro que as esperava a um canto, como se ellas quizessem esconder do cocheiro o ponto dos namorados. Não concluas tu que elle tivesse sido cocheiro algum dia, e andasse a conduzir moças antes de servir ás almas. Tambem não creias que fosse outr'ora rico e adultero, aberto de mãos, quando vinha de dizer adeus ás suas amigas.Ni cet excès d'honneur, ni cette indignité.Era um pobre diabo sem mais officio que a devoção. Demais, não teria tido tempo; contava apenas vinte e sete annos.

Comprimentou as senhoras, quando o carro passou. Depois ficou a olhar para a nota tão fresca, tão valiosa, nota que almas nunca viram sair das mãos delle. Foi subindo a rua de S. José. Já não tinna animo de pedir; a nota fazia-se ouro, e a ideia de ser falsa voltou-lhe ao cerebro, e agora mais frequente, até que se lhe pegou por alguns instantes. Se fosse falsa... «Para a missa das almas!» gemeu á porta de uma quitanda, e deram-lhe um vintem,—um vintem sujo e triste, ao pé da nota tão novinha que parecia sair do prelo. Seguia-se um corredor de sobrado. Entrou, subiu, pediu, deram-lhedous vintens,—o dobro da outra moeda no valor e no azinhavre.

E a nota sempre limpa, uns dous mil reis que pareciam vinte. Não, não era falsa. No corredor pegou della, mirou-a bem; era verdadeira. De repente, ouviu abrir a cancella em cima, e uns passos rapidos. Elle, mais rapido, amarrotou a nota e metteu-a na algibeira das calças; ficaram só os vintens azinhavrados e tristes, o obolo da viuva. Saiu, foi á primeira officina, á primeira loja, ao primeiro corredor, pedindo longa e lastimosamente:

—Para a missa das almas!

Na egreja, ao tirar a opa, depois de entregar a bacia ao sacristão, ouviu uma voz debil como de almas remotas que lhe perguntavam se os dous mil reis... Os dous mil reis, dizia outra voz menos debil, eram naturalmente delle, que, em primeiro logar, tambem tinha alma, e, em segundo logar, não recebera nunca tão grande esmola. Quem quer dar tanto vae á egreja ou compra uma vela, não põe assim uma nota na bacia das esmolas pequenas.

Se minto, não é de intenção. Em verdade, as palavras não sairam assim articuladas e claras, nem as debeis, nem as menos debeis; todas faziam uma zoeira aos ouvidos da consciencia. Traduzi-as em lingua falada, afim de ser entendido das pessoas que me lêem; não sei como se poderia transcrever para o papel um rumor surdo e outro menos surdo, um atraz de outro e todos confusos para o fim, até que o segundo ficou só: «não tirou a nota a ninguem... a dona é que a poz na bacia por sua mão... tambem elle era alma...» À porta da sacristia que dava para a rua, ao deixar cair o reposteiro azul escuro debruado de amarello, não ouviu mais nada. Viu um mendigo que lhe estendia o chapeo roto e sebento; metteu vagarosamente a mão no bolso do collete, tambem roto, e aventou uma moedinha de cobre que deitou ao chapeo do mendigo, rapido, ás escondidas, como quer o Evangelho. Eram dous vintens; ficavam-lhe mil novecentos e noventa e oito reis. E o mendigo, como elle saisse depressa, mandou-lhe atraz estas palavras de agradecimento, parecidas com as suas:

—Deus lhe accrescente, meu senhor, e lhe dê...

Natividade ia pensando na cabocla do Castello, na predicção da grandeza e na noticia da briga. Tornava a lembrar-se que, de facto, a gestação não fôra socegada; mas só lhe ficava a sorte da gloria e da grandeza. A briga lá ia, se a houve; o futuro, sim, esse é que era o principal ou tudo. Não deu pela praia de Santa Luzia. No largo da Lapa interrogou a irmã sobre o que pensava da adivinha. Perpetua respondeu que bem, que acreditava, e ambas concordaram que ella parecia falar dos proprios filhos, tal era o enthusiasmo. Perpetua ainda a reprehendeu pelos cincoenta mil reis dados em paga; bastavam vinte.

—Não faz mal. Cousas futuras!

—Que cousas serão?

—Não sei; futuras.

Mergulharam,outra vez no silencio. Ao entrar no Cattete, Natividade recordou a manhã em que alli passou, naquelle mesmocoupé, e confiou ao marido o estado de gravidez. Voltavam de uma missa de defunto, na egreja de S. Domingos...

«Na egreja de S. Domingos diz-se hoje uma missa por alma de João de Mello, fallecido em Maricá.» Tal foi o annuncio que ainda agora pódes ler em algumas folhas de 1869. Não me ficou o dia, o mez foi agosto. O annuncio está certo, foi aquillo mesmo, sem mais nada, nem o nome da pessoa ou pessoas que mandaram dizer a missa, nem hora, nem convite. Não se disse sequer que o defunto era escrivão, officio que só perdeu com a morte. Emfim, parece que até lhe tiraram um nome; elle era, se estou bem informado, João de Mello e Barros.

Não se sabendo quem mandava dizer a missa, ninguem lá foi. A egreja escolhida deu ainda menos relevo ao acto; não era vistosa, nem buscada, mas velhota, sem galas nem gente, mettida ao canto de um pequeno largo, adequada á missa recondita e anonyma.

Às oito horas parou umcoupéá porta; o lacaio desceu, abriu a portinhola, desbarretou-se e perfilou-se. Saiu um senhor e deu a mão a uma senhora, a senhora saiu e tomou o braço ao senhor, atravessaram o pedacinho de largo e entraram na egreja. Na sacristia era tudo espanto. A alma que a taes sitios attrahira um carro de luxo, cavallos de raça, e duas pessoas tão finas não seria como as outras almas alli suffragadas. A missa foi ouvida sem pesames nem lagrimas. Quando acabou, o senhor foi á sacristia dar as esportulas. O sacristão, agasalhando na algibeira a nota de dez mil reis que recebeu, achou que ella provava a sublimidade do defunto; mas que defunto era esse? O mesmo pensaria a caixa das almas, se pensasse, quando a luva da senhora deixou cair dentro uma pratinha de cinco tostões. Já então havia na egreja meia duzia de creanças maltrapilhas, e, fóra, alguma gente ás portas e no largo, esperando. O senhor, chegando á porta, relanceou os olhos, ainda que vagamente, e viu que era objecto de curiosidade. A senhora trazia os seus no chão. E os dous entraram no carro, com o mesmo gesto, o lacaio bateu a portinhola e partiram.

A gente local não falou de outra cousa naquelle e nos dias seguintes. Sacristão e visinhos relembravam ocoupé, com orgulho. Era a missa docoupé.As outras missas vieram vindo, todas a pé, algumas de sapato roto, não raras descalças, capinhas velhas, morins estragados, missas de chita, ao domingo, missas de tamancos. Tudo voltou ao costume, mas a missa docoupéviveu na memoria por muitos mezes. Afinal não se falou mais nella; esqueceu como um baile.

Pois ocoupéera este mesmo. A missa foi mandada dizer por aquelle senhor, cujo nome é Santos, e o defunto era seu parente, ainda que pobre. Tambem elle foi pobre; tambem elle nasceu em Maricá. Vindo para o Rio de Janeiro, por occasião dafebre das acções(1855), dizem que revellou grandes qualidades para ganhar dinheiro depressa. Ganhou logo muito, e fel-o perder a outros. Casou em 1859 com esta Natividade, que ia então nos vinte annos e não tinha dinheiro, mas era bella e amava apaixonadamente. A Fortuna os abençoou com a riqueza. Annos depois tinham elles uma casa nobre, carruagem, cavallos e relações novas e distinctas. Dos dous parentes pobres de Natividade morreu o pae em 1866; restava-lhe uma irmã. Santos tinha alguns em Maricá, a quem nunca mandou dinheiro, fosse mesquinhez, fosse habilidade. Mesquinhez não creio; elle gastava largo e dava muitas esmolas. Habilidade seria; tirava-lhes o gosto de vir cá pedir-lhe mais.

Não lhe valeu isto com João de Mello, que um dia appareceu aqui, a pedir-lhe emprego. Queria ser, como elle, director de banco. Santos arranjou-lhe depressa um logar de escrivão do civel em Maricá, e despachou-o com os melhores conselhos deste mundo.

João de Mello retirou-se com a escrevania, e dizem que uma grande paixão tambem. Natividade era a mais bella mulher daquelle tempo. No fim, com os seus cabellos quasi sexagenarios, fazia crêr na tradicção. João de Mello ficou allucinado quando a viu; ella conheceu isso, e portou-se bem. Não lhe fechou o rosto, é verdade, e era mais bella assim que zangada; tambem não lhe fechou os olhos, que eram negros e callidos. Só lhe fechou o coração, um coração que devia amar como nenhum outro, foi a conclusão de João de Mello uma noite em que a viu ir decotada a um baile. Teve impeto de pegar della, descer, voar, perderem-se...

Em vez disso, uma escrevania e Maricá; era um abysmo. Caiu nelle; trez dias depois saiu do Rio de Janeiro para não voltar. A principio escreveu muitas cartas ao parente, com a esperança de que ella as lesse tambem, e comprehendesse que algumas palavras eram para si. Mas Santos não lhe deu resposta, e o tempo e a ausencia acabaram por fazer de João de Mello um excellente escrivão. Morreu de uma pneumonia.

Que o motivo da pratinha de Natividade deitada á caixa das almas fosse pagar a adoração do defunto não digo que sim, nem que não; faltam-me pormenores. Mas póde ser que sim, porque esta senhora era não menos grata que honesta. Quanto ás larguezas do marido, não esqueças que o parente era defunto, e o defunto um parente menos.

Não me peças a causa de tanto encolhimento no annuncio e na missa, e tanta publicidade na carruagem, lacaio e libré. Ha contradicções explicaveis. Um bom autor, que inventasse a sua historia, ou prezasse a logica apparente dos acontecimentos, levaria o casal Santos a pé ou em caleça de praça ou de aluguel; mas eu, amigo, eu sei como as cousas se passaram, e refiro-as taes quaes. Quando muito, explico-as, com a condição de que tal costume não pegue. Explicações comem tempo e papel, demoram a acção e acabam por enfadar. O melhor é ler com attenção.

Quanto á contradicção de que se trata aqui, é de ver que naquelle recanto de um larguinho modesto, nenhum conhecido daria com elles, ao passo que elles gozariam o assombro local; tal foi a reflexão de Santos, se se póde dar semelhante nome a um movimento interior que leva a gente a fazer antes uma cousa que outra. Resta a missa; a missa em si mesma bastava que fosse sabida no céu e em Maricá. Propriamente vestiram-se para o céu. O luxo do casal temperava a pobreza da oração; era uma especie de homenagem ao finado. Se a alma de João de Mello os visse de cima, alegrar-se-hia do apuro em que elles fôram rezar por um pobre escrivão. Não sou eu que o digo; Santos é que o pensou.

A principio, vieram calados. Quando muito, Natividade queixou-se da egreja, que lhe sujára o vestido.

—Venho cheia de pulgas, continuou ella: porque não fômos a S. Francisco de Paula ou á Gloria, que estão mais perto, e são limpas?

Santos trocou as mãos á conversa, e falou das ruas mal calçadas, que faziam dar solavancos ao carro. Com certeza, quebravam-lhe as molas.

Natividade não replicou, mergulhou no silencio, como naquelle outro capitulo, vinte mezes depois, quando tornava do Castello com a irmã. Os olhos não tinham a nota de deslumbramento que trariam então; iam parados e sombrios, como de manhã e na vespera. Santos, que já reparára nisso, perguntou-lhe o que é que tinha; ella não sei se lhe respondeu de palavra; se alguma disse, foi tão breve e surda que inteiramente se perdeu. Talvez não passasse de um simples gesto de olhos, um suspiro, ou cousa assim. Fosse o que fosse, quando ocoupéchegou ao meio do Cattete, os dous levavam as mãos presas, e a expressão do rosto era de abençoados. Não davam sequer pela gente das ruas; não davam talvez por si mesmos.

Leitor, não é muito que percebas a causa daquella expressão e desses dedos abotoados. Já lá ficou dita atraz, quando era melhor deixar que a adivinhasses; mas provavelmente não a adivinharias, não que tenhas o entendimento curto ou escuro, mas porque o homem varia do homem, e tu talvez ficasses com egual expressão, simplesmente por saber que ias dançar sabbado. Santos não dançava; preferia o voltarete, como distracção. A causa era virtuosa, como sabes; Natividade estava gravida, acabava de o dizer ao marido.

Aos trinta annos não era cedo nem tarde; era imprevisto. Santos sentiu mais que ella o prazer da vida nova. Eis ahi vinha a realidade do sonho de dez annos, uma creatura tirada da coxa de Abrahão, como diziam aquelles bons judeus, que a gente queimou mais tarde, e agora empresta generosamente o seu dinheiro ás companhias e ás nações. Levam juro por elle; mas os hebraismos são dados de graça. Aquelle é desses. Santos, que só conhecia a parte do emprestimo, sentia inconscientemente a do hebraismo, e deleitava-se com elle. A emoção atava-lhe a lingua; os olhos que estendia á esposa e a cobriam eram de patriarcha; o sorriso parecia chover luz sobre a pessoa amada, abençoada e formosa entre as formosas.

Natividade não foi logo, logo, assim; a pouco e pouco é que veiu sendo vencida e tinha já a expressão da esperança e da maternidade. Nos primeiros dias, os symptomas desconcertaram a nossa amiga. É duro dizel-o, mas é verdade. Lá se iam bailes e festas, lá ia a liberdade e a folga. Natividade andava já na alta roda do tempo; acabou de entrar por ella, com tal arte que parecia haver alli nascido. Carteava-se com grandes damas, era familiar de muitas, tuteava algumas. Nem tinha só esta casa de Botafogo, mas tambem outra em Petropolis; nem só carro, mas tambem camarote no Theatro-Lyrico, não contando os bailes do Cassino Fluminense, os das amigas e os seus; todo o repertorio, em summa, da vida elegante. Era nomeada nas gazetas, pertencia áquella duzia de nomes planetarios que figuram no meio da plebe de estrellas. O marido era capitalista e director de um banco.

No meio disso, a que vinha agora uma creança deformal-a por mezes, obrigal-a a recolher-se, pedir-lhe as noites, adoecer dos dentes e o resto? Tal foi a primeira sensação da mãe, e o primeiro impeto foi esmagar o germen. Criou raiva ao marido. A segunda sensação foi melhor. A maternidade, chegando ao meio dia, era como uma aurora nova e fresca. Natividade viu a figura do filho ou filha brincando na relva da chacara ou no regaço da aia, com trez annos de edade, e este quadro daria aos trinta e quatro annos que teria então um aspecto de vinte e poucos...

Foi o que a reconciliou com o marido. Não exagero; tambem não quero mal a esta senhora. Algumas teriam medo, a maior parte amor. A conclusão é que, por uma ou por outra porta, amor ou vaidade, o que o embryão quer é entrar na vida. Cesar ou João Fernandes, tudo é viver, assegurar a dynastia e sair do mundo o mais tarde que puder.

O casal ia calado. Ao desembocar na praia de Botafogo, a enseada trouxe o gosto de costume. A casa descobria-se a distancia, magnifica; Santos deleitou-se de a ver, mirou-se nella, cresceu com ella, subiu por ella. A estatueta de Narciso no meio do jardim, sorriu á entrada delles, a areia fez-se relva, duas andorinhas cruzaram por cima do repuxo, figurando no ar a alegria de ambos. A mesma ceremonia á descida. Santos ainda parou alguns instantes para ver ocoupédar a volta, sair e tornar á cocheira; depois seguiu a mulher que entrava no saguão.

Em cima, esperava por elles Perpetua, aquella irmã de Natividade, que a acompanhou ao Castello, e lá ficou no carro, onde as deixei para narrar os antecedentes dos meninos.

—Então? Houve muita gente?

—Não, ninguem; pulgas.

Perpetua tambem não entendera a escolha da egreja. Quanto á concurrencia, sempre lhe pareceu que seria pouca ou nenhuma; mas o cunhado vinha entrando, e ella calou o resto. Era pessoa circumspecta, que não se perdia por um dito ou gesto descuidado. Entretanto, foi-lhe impossivel calar o espanto, quando viu o cunhado entrar e dar á mulher um abraço longo e terno, abrochado por um beijo.

—Que é isso? exclamou espantada.

Sem reparar no vexame da mulher, Santos deu um abraço á cunhada, e ia a dar-lhe um beijo tambem, se ella não recuasse a tempo e com força.

—Mas que é isso? Você tirou a sorte grande de Hespanha?

—Não, cousa melhor, gente nova.

Santos conservára alguns gestos e modos de dizer dos primeiros annos, taes que o leitor não chamará propriamente familiares; tambem não é preciso chamar-lhes nada. Perpetua, affeita a elles, acabou sorrindo e dando-lhe parabens. Já então Natividade os deixára para se ir despir. Santos, meio arrependido da expansão, fez-se serio e conversou da missa e da egreja. Concordou que esta era decrepita e mettida a um canto, mas allegou razões espirituaes. Que a oração era sempre oração, onde quer que a alma falasse a Deus. Que a missa, a rigor, não precisava estrictamente de altar; o rito e o padre bastavam ao sacrificio. Talvez essas razões não fossem propriamente delle, mas ouvidas a alguem, decoradas sem esforço e repetidas com convicção. A cunhada opinou de cabeça que sim. Depois falaram do parente morto e concordaram piamente que era um asno;—não disseram este nome, mas a totalidade das apreciações vinha a dar nelle, accrescentado de honesto e honestissimo.

—Era uma perola, concluiu Santos.

Foi a ultima palavra da necrologia; paz aos mortos. Dalli em deante, vingou a soberania da creança que alvorecia. Não alteraram os habitos, nos primeiros tempos, e as visitas e os bailes continuaram como d'antes, até que pouco a pouco, Natividade se fechou totalmente em casa. As amigas iam vel-a. Os amigos iam visital-os ou jogar cartas com o marido.

Natividade queria um filho, Santos uma filha, e cada um pleiteava a sua escolha com tão boas razões, que acabavam trocando de parecer. Então ella ficava com a filha, e vestia-lhe as melhores rendas e cambraias, emquanto elle enfiava uma beca no joven advogado, dava-lhe um logar no parlamento, outro no ministerio. tambem lhe ensinava a enriquecer depressa; e ajudal-o-hia começando por uma caderneta na Caixa Economica, desde o dia em que nascesse até os vinte e um annos. Alguma vez, ás noites, se estavam sós, Santos pegava de um lapis e desenhava a figura do filho, com bigodes,—ou então riscava uma menina vaporosa.

—Deixa, Agostinho, disse-lhe a mulher uma noite; você sempre ha de ser creança.

E pouco depois, deu por si a desenhar de palavra a figura do filho ou filha, e ambos escolhiam a côr dos olhos, os cabellos, a tez, a estatura. Vês que tambem ella era creança. A maternidade tem dessas incoherencias, a felicidade tambem, e porfim a esperança, que é a meninice do mundo.

A perfeição seria nascer um casal. Assim os desejos do pae e da mãe ficariam satisfeitos. Santos pensou em fazer sobre isso uma consulta spirita. Começava a ser iniciado nessa religião, e tinha a fé noviça e firme. Mas a mulher oppoz-se; a consultar alguem, antes a cabocla do Castello, a adivinha celebre do tempo, que descobria as cousas perdidas e predizia as futuras. Entretanto, recusava tambem, por desnecessario. A que vinha consultar sobre uma duvida, que dalli a mezes estaria esclarecida? Santos achou, em relação á cabocla, que seria imitar as crendices da gente réles; mas a cunhada acudiu que não, e citou um caso recente de pessoa distincta, um juiz municipal, cuja nomeação foi annunciada pela cabocla.

—Talvez o ministro da justiça goste da cabocla, explicou Santos.

As duas riram da graça, e assim se fechou uma vez o capitulo da adivinha, pura se abrir muis tarde. Por agora é deixar que o feto se desenvolva, a creança se agite e se atire, como impaciente de nascer. Em verdade, a mãe padeceu muito durante a gestação, e principalmente nas ultimas semanas. Cuidava trazer um general que iniciava a campanha da vida, a não ser um casal que aprendia a desamar de vespera.

Nem casal, nem general. No dia sete de abril de 1870 veiu á luz um par de varões tão eguaes, que antes pareciam a sombra um do outro, se não era simplesmente a impressão do olho, que via dobrado.

Tudo esperavam, menos os dous gemeos, e nem por ser o espanto grande, foi menor o amor. Entende-se isto sem ser preciso insistir, assim como se entende que a mãe désse aos dous filhos aquelle pão inteiro e dividido do poeta; eu accrescento que o pae fazia a mesma cousa. Viveu os primeiros tempos a contemplar os meninos, a comparal-os, a medil-os, a pesal-os. Tinham o mesmo peso e cresciam por egual medida. A mudança ia-se fazendo por um só teor. O rosto comprido, cabellos castanhos, dedos finos e taes que, cruzados os da mão direita de um com os da esquerda de outro, não se podia saber que eram de duas pessoas. Viriam a ter genio differente, mas por ora eram os mesmos extranhões. Começaram a sorrir no mesmo dia. O mesmo dia os viu baptizar.

Antes do parto, tinham combinado em dar o nome do pae ou da mãe, segundo fosse o sexo da creança. Sendo um par de rapazes, e não havendo a fórma masculina do nome materno, não quiz o pae que figurasse só o delle, e metteram-se a catar outros. A mãe propunha francezes ou inglezes, conforme os romances que lia. Algumas novellas russas em moda suggeriram nomes slavos. O pae acceitava uns e outros, mas consultava a terceiros, e não acertava com opinião definitiva. Geralmente, os consultados trariam outro nome, que não era acceito em casa. Tambem veiu a antiga onomastica luzitana, mas sem melhor fortuna. Um dia, estando Perpetua á missa, rezou oCredo, advertiu nas palavras: «....os santos apostolos S. Pedro e S. Paulo», e mal pôde acabar a oração. Tinha descoberto os nomes; eram simples e gemeos. Os paes concordaram com ella e a pendencia acabou.

A alegria de Perpetua foi quasi tamanha como a do pae e da mãe, se não maior. Maior não foi, nem tão profunda, mas foi grande, ainda que rapida. O achado dos nomes valia quasi que pela feitura das creanças. Viuva, sem filhos, não se julgava incapaz de os ter, e era alguma cousa nomeal-os. Contava mais cinco ou seis annos que a irmã. Casara com um tenente de artilharia que morreu capitão na guerra do Paraguay. Era mais baixa que alta, e era gorda, ao contrario de Natividade que, sem ser magra, não tinha as mesmas carnes, e era alta e recta. Ambas vendiam saúde.

—Pedro e Paulo, disse Perpetua á irmã e ao cunhado, quando rezei estes dous nomes senti uma cousa no coração...

—Você será madrinha de um, disse a irmã.

Os pequenos, que se distinguiam por uma fita de côr, passaram a receber medalhas de ouro, uma com a imagem de S. Pedro, outra com a de S. Paulo. A confusão não cedeu logo, mas tarde, lento e pouco, ficando tal semelhança que os advertidos se enganavam muita vez ou sempre. A mãe é que não precisou de grandes signaes externos para saber quem eram aquelles dous pedaços de si mesma. As amas, apesar de os distinguirem entre si, não deixavam de querer mal uma á outra, pelo motivo da semelhança dos «seus filhos de criação». Cada uma affirmava que o seu era mais bonito. Natividade concordava com ambas.

Pedro seria medico, Paulo advogado; tal foi a primeira escolha das profissões. Mas logo depois trocaram de carreira. Tambem pensaram em dar um delles á engenharia. A marinha sorria á mãe, pela distincção particular da escola. Tinha só o inconveniente da primeira viagem remota; mas Natividade pensou em metter empenhos com o ministro. Santos falava em fazer um delles banqueiro, ou ambos. Assim passavam as horas vadias. Intimos da casa entravam nos calculos. Houve quem os fizesse ministros, dezembargadores, bispos, cardeaes...

—Não peço tanto, dizia o pae.

Natividade não dizia nada ao pé de extranhos, apenas sorria, como se tratasse de folguedo de São João, um lançar de dados e ler no livro de sortes a quadra correspondente ao numero. Não importa; lá dentro de si cobiçava algum brilhante destino aos filhos. Cria deveras, esperava, rezava ás noites, pedia ao céu que os fizesse grandes homens.

Uma das amas, parece que a de Pedro, sabendo daquellas ancias e conversas, perguntou a Natividade por que é que não ia consultar a cabocla do Castello. Affirmou que ella adivinhava tudo, o que era e o que viria a ser; conhecia o numero da sorte grande, não dizia qual era nem comprava bilhete para não roubar os escolhidos de Nosso Senhor. Parece que era mandada de Deus.

A outra ama confirmou as noticias e accrescentou novas. Conhecia pessoas que tinham perdido e achado joias e escravos. A policia mesma, quando não acabava de apanhar um criminoso, ia ao Castello falar á cabocla e descia sabendo; por isso é que não a botava para fóra, como os invejosos andavam a pedir. Muita gente não embarcava sem subir primeiro ao morro. A cabocla explicava sonhos e pensamentos, curava de quebranto...

Ao jantar, Natividade repetiu ao marido a lembrança das amas. Santos encolheu os hombros. Depois examinou rindo a sabedoria da cabocla; principalmente a sorte grande era incrivel que, conhecendo o numero, não comprasse bilhete. Natividade achou que era o mais difficil de explicar, mas podia ser invenção do povo.On ne prête qu'aux riches, accrescentou rindo. O marido, que estivera na vespera com um dezembargador, repetiu as palavras delle que «emquanto a policia não puzesse côbro ao escandalo...» O dezembargador não concluira. Santos concluiu com um gesto vago.

—Mas você é spirita, ponderou a mulher.

—Perdão, não confundamos, replicou elle com gravidade.

Sim, podia consentir n'uma consulta spirita; já pensara nella. Algum espirito podia dizer-lhe a verdade em vez de uma adivinha de farça... Natividade defendeu a cabocla. Pessoas da sociedade falavam della a serio. Não queria confessar ainda que tinha fé, mas tinha. Recusando ir outr'ora, foi naturalmente a insufficiencia do motivo que lhe deu a força negativa. Que importava saber o sexo do filho? Conhecer o destino dos dous era mais imperioso e util. Velhas ideias que lhe incutiram em creança vinham agora emergindo do cerebro e descendo ao coração. Imaginava ir com os pequenos ao morro do Castello, a titulo de passeio... Para que? Para confirmal-a na esperança de que seriam grandes homens. Não lhe passara pela cabeça a predicção contraria. Talvez a leitora, no mesmo caso, ficasse aguardando o destino; mas a leitora, além de não crêr (nem todos crêem) póde ser que não conte mais de vinte a vinte e dous annos de edade, e terá a paciencia de esperar. Natividade, de si para si, confessava os trinta e um, e temia não ver a grandeza dos filhos. Podia ser que a visse, pois tambem se morre velha, e alguma vez de velhice, mas acaso teria o mesmo gosto?

Ao serão, a materia da palestra foi a cabocla do Castello, por iniciativa de Santos, que repetia as opiniões da vespera e do jantar. Das visitas algumas contavam o que ouviam della. Natividade não dormiu aquella noite sem obter do marido que a deixasse ir com a irmã á cabocla. Não se perdia nada; bastava levar os retratos dos meninos e um pouco dos cabellos. As amas não saberiam nada da aventura.

No dia aprazado metteram-se as duas no carro, entre sete e oito horas com pretexto de passeio, e lá se fôram para a rua da Misericordia. Sabes já que alli se apearam, entre a egreja de S. José e a Camara dos deputados, e subiram aquella até á rua do Carmo, onde esta pega com a ladeira do Castello. Indo a subir, hesitaram, mas a mãe era mãe, e já agora faltava pouco para ouvir o destino. Viste que subiram, que desceram, deram os dous mil reis ás almas, entraram no carro e voltaram para Botafogo.

No Cattete, ocoupée uma victoria cruzaram-se e pararam a um tempo. Um homem saltou da victoria e caminhou para ocoupé.Era o marido de Natividade, que ia agora para o escriptorio, um pouco mais tarde que de costume, por haver esperado a volta da mulher. Ia pensando nella e nos negocios da praça, nos meninos e na lei Rio Branco, então discutida na Camara dos deputados; o banco era credor da lavoura. Tambem pensava na cabocla do Castello e no que teria dito á mulher...

Ao passar pelo palacio Nova-Friburgo, levantou os olhos para elle com o desejo do costume, uma cobiça de possuil-o, sem prever os altos destinos que o palacio viria a ter na Republica; mas quem então previa nada? Quem prevê cousa nenhuma? Para Santos a questão era só possuil-o, dar alli grandes festas unicas, celebradas nas gazetas, narradas na cidade entre amigos e inimigos, cheios de admiração, de rancor ou de inveja. Não pensava nas saudades que as matronas futura contariam ás suas netas, menos ainda nos livros de chronicas, escriptos e impressos neste outro seculo. Santos não tinha a imaginação da posteridade. Via o presente e suas maravilhas.

Já lhe não bastava o que era. A casa de Botafogo, posto que bella, não era um palacio, e depois, não estava tão exposta como aqui no Cattete, passagem obrigada de toda a gente, que olharia para as grandes janellas, as grandes portas, as grandes aguias no alto, de azas abertas. Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do palacio, os jardins e os lagos... Oh! goso infinito! Santos imaginava os bronzes, marmores, luzes, flores, danças, carruagens, musicas, ceias... Tudo isso foi pensado depressa, porque a victoria, embora não corresse (os cavallos tinham ordem de moderar a andadura), todavia, não atrazava as rodas para que os sonhos de Santos acabassem. Assim foi que, antes de chegar á praça da Gloria, a victoria avistou ocoupéda familia, e as duas carragens pararam, a curta distancia uma da outra, como ficou dito.

Tambem ficou dito que o marido saiu da victoria e caminhou para ocoupé, onde a mulher e a cunhada, adivinhando que elle vinha ter com ellas, sorriam de ante-mão.

—Não lhe digas nada, aconselhou Perpetua.

A cabeça de Santos appareceu logo, com as suissas curtas, o cabello rente, o bigode rapado. Era homem sympathico. Quieto, não ficava mal. A agitação com que chegou, parou e falou tirou-lhe a gravidade com que ia no carro, as mãos postas sobre o castão de ouro da bengala, e a bengala entre os joelhos.

—Então? então? perguntou.

—Logo digo.

—Mas que foi?

—Logo.

—Bem ou mal? Dize só se bem.

—Bem. Cousas futuras.

—É pessoa séria?

—Séria, sim; até logo, repetiu Natividade estendendo-lhe os dedos.

Mas o marido não podia despegar-se docoupé; queria saber alli mesmo tudo, as perguntas e as respostas, a gente que lá estava á espera, e se era o mesmo destino para os dous, ou se cada um tinha o seu. Nada disso foi escripto como aqui vae, devagar, para que a ruim letra do autor não faça mal á sua prosa. Não, senhor; as palavras de Santos sairam de atropello, umas sobre outras, embrulhadas, sem principio ou sem fim. A bella esposa tinha já as orelhas tão affeitas ao falar do marido, mórmente em lances de emoção ou curiosidade, que entendia tudo, e ia dizendo que não. A cabeça e o dedo sublinhavam a negativa. Santos não teve remedio e despediu-se.

Em caminho, advertiu que, não crendo na cabocla, era ocioso instar pela predicção. Era mais; era dar razão á mulher. Prometteu não indagar nada quando voltasse. Não prometteu esquecer, e dahi a teima com que pensou muitas vezes no oraculo. De resto, ellas lhe diriam tudo sem que elle perguntasse nada, e esta certeza trouxe a paz do dia.

Não concluas daqui que os freguezes do banco padecessem alguma desattenção aos seus negocios. Tudo correu bem, como se elle não tivesse mulher nem filhos ou não houvesse Castello nem cabocla. Não era só a mão que fazia o seu officio, assignando; a bôca ia falando, mandando, chamando e rindo, se era preciso. Não obstante, a ancia existia e as figuras passavam e repassavam deante delle; no intervallo de duas letras, Santos resolvia uma cousa ou outra, se não eram ambas a um tempo. Entrando no carro, á tarde, agarrou-se inteiramente ao oraculo. Trazia as mãos sobre o castão, a bengala entre os joelhos, como de manhã, mas vinha pensando os destino dos filhos.

Quando chegou a casa, viu Natividade a contemplar os meninos, ambos nos berços, as amas ao pé, um pouco admiradas da insistencia com que ella os procurava desde manhã. Não era só fital-os, ou perder os olhos no espaço e no tempo; era beijal-os tambem e apertal-os ao coração. Esqueceu-me dizer que, de manhã, Perpetua mudou primeiro de roupa que a irmã e foi achal-a deante dos berços, vestida como viera do Castello.

—Logo vi que você estava com os grandes homens, disse ella.

—Estou, mas não sei em que é que elles serão grandes.

—Seja em que fôr, vamos almoçar.

Ao almoço e durante o dia, falaram muita vez da cabocla e da predicção. Agora, ao ver entrar o marido, Natividade leu-lhe a dissimulação nos olhos. Quiz calar e esperar, mas estava tão anciosa de lhe dizer tudo, e era tão boa, que resolveu o contrario. Unicamente não teve o tempo de cumpril-o; antes mesmo de começar, já elle acabava de perguntar o que era. Natividade referiu a subida, a consulta, a resposta e o resto; descreveu a cabocla e o pae.

—Mas então grandes destinos?

—Cousas futuras, repetiu ella.

—Seguramente futuras. Só a pergunta da briga é que não entendo. Brigar porquê? E brigar como? E teriam deveras brigado?

Natividade recordou os seus padecimentos do tempo da gestação, confessando que não falou mais delles para o não affligir; naturalmente é o que a outra adivinhou que fosse briga.

—Mas briga porquê?

—Isso não sei, nem creio que fosse nada mau.

—Vou consultar...

—Consultar a quem?

—Uma pessoa.

—Já sei, o seu amigo Placido.

—Se fosse só amigo não consultava, mas elle é o meu chefe e mestre, tem uma vista clara e comprida, dada pelo céu... Consulto só por hypothese, não digo os nossos nomes...

—Não! não! não!

—Só por hypothese.

—Não, Agostinho, não fale disto. Não interrogue ninguem a meu respeito, ouviu? Ande, prometta que não falará disto a ninguem, spiritas nem amigos. O melhor é calar. Basta saber que terão sorte feliz. Grandes homens, cousas futuras... Jure, Agostinho.

—Mas você não foi em pessoa á cabocla?

—Não me conhece, nem de nome; viu-me uma vez, não me tornará a ver. Ande, jure!

—Você é exquisita. Vá lá, prometto. Que tem que falasse, assim, por acaso?

—Não quero. Jure!

—Pois isto é cousa de juramento?

—Sem isso, não confio, disse ella sorrindo.

—Juro.

—Jure por Deus Nosso Senhor!

—Juro por Deus Nosso Senhor.

Santos cria na santidade do juramento; por isso, resistiu, mas emfim cedeu e jurou. Entretanto, o pensamento não lhe saiu mais da briga uterina dos filhos. Quiz esquecel-a. Jogou essa noite, como de costume; na seguinte, foi ao theatro; na outra a uma visita; e tornou ao voltarete do costume, e a briga sempre com elle. Era um mysterio. Talvez fosse um caso unico... Unico! Um caso unico! A singularidade do caso fel-o aggarrar-se mais á ideia, ou a ideia a elle; não posso explicar melhor este phenomeno intimo, passado lá onde não entra olho de homem, nem bastam reflexões ou conjecturas. Nem por isso durou muito tempo. No primeiro domingo, Santos pegou em si, e foi á casa do doutor Placido, rua do Senador Vergueiro, uma casa baixa, de trez janellas, com muito terreno para o lado do mar. Creio que já não existe: datava do tempo em que a rua era o Caminho Velho, para differençar do Caminho Novo.

Perdoa estas minucias. A acção podia ir sem ellas, mas eu quero que saibas que casa era, e que rua, e mais digo que alli havia uma especie de club, templo ou o que quer que era spirita. Placido fazia de sacerdote e presidente a um tempo. Era um velho de grandes barbas, olho azul e brilhante, enfiado em larga camisola de seda. Põe-lhe uma vara na mão, e fica um magico, mas, em verdade, as barbas e a camisola não as trazia por lhe darem tal aspecto. Ao contrario de Santos, que teria trocado dez vezes a cara, se não fôra a opposição da mulher, Placido usava as barbas inteiras desde moço e a camisola ha dez annos.

—Venha, venha, disse elle, ande ajudar-me a converter o nosso amigo Ayres; ha meia hora que procuro incutir-lhe as verdades eternas, mas elle resiste.

—Não, não, não resisto, acudiu um homem de cerca de quarenta annos, estendendo a mão ao recem-chegado.

Esse Ayres que ahi apparece conserva ainda agora algumas das virtudes d'aquelle tempo, e quasi nenhum vicio. Não attribuas tal estado a qualquer proposito. Nem creias que vae nisto um pouco de homenagem á modestia da pessoa. Não, senhor, é verdade pura e natural effeito. Apesar dos quarenta annos, ou quarenta e dous, e talvez por isso mesmo, era um bello typo de homem. Diplomata de carreira, chegára dias antes do Pacifico, com uma licença de seis mezes.

Não me demoro em descrevel-o. Imagina só que trazia o callo do officio, o sorriso approvador, a fala branda e cautelosa, o ar da occasião, a expressão adequada, tudo tão bem distribuido que era um gosto ouvil-o e vel-o. Talvez a pelle da cara rapada estivesse prestes a mostrar os primeiros signaes do tempo. Ainda assim o bigode, que era moço na côr e no apuro com que acabava em ponta fina e rija, daria um ar de frescura ao rosto, quando o meio seculo chegasse. O mesmo faria o cabello, vagamente grisalho, apartado ao centro. No alto da cabeça havia um inicio de calva. Na botoeira uma flor eterna.

Tempo houve,—foi por occasião da anterior licença, sendo elle apenas secretario de legação,—tempo houve em que tambem elle gostou de Nativividade. Não foi propriamente paixão; não era homem disso. Gostou della, como de outras joias e raridades, mas tão depressa viu que não era acceito, trocou de conversação. Não era frouxidão ou frieza. Gostava assaz de mulheres e ainda mais se eram bonitas. A questão para elle é que nem as queria á força, nem curava de as persuadir. Não era general para escala á vista, nem para assedios demorados; contentava-se de simples passeios militares,—longos ou breves, conforme o tempo fosse claro ou turvo. Em summa, extremamente cordato.

Coincidencia interessante; foi por esse tempo que Santos pensou em casal-o com a cunhada, recentemente viuva. Esta parece que queria. Natividade oppoz se, nunca se soube porquê. Não eram ciumes; invejas não creio que fossem. O simples desejo de o não ver entrar na familia pela porta lateral é apenas uma figura, que vale qualquer das primeiras hypotheses negadas. O desgosto de cedel-o a outra, ou tel-os felizes ao pé de si, não podia ser, posto que o coração seja o abysmo dos abysmos. Supponhamos que era com o fim de o punir por havel-a amado.

Póde ser; em todo caso, o maior obstaculo viria delle mesmo. Posto que viuvo, Ayres não foi propriamente casado. Não amava o casamento. Casou por necessidade do officio; cuidou que era melhor ser diplomata casado que solteiro, e pediu a primeira moça que lhe pareceu adequada ao seu destino. Enganou-se: a differença de temperamento e de espirito era tal que elle, ainda vivendo com a mulher, era como se vivesse só. Não se affligiu com a perda; tinha o feitio do solteirão.

Era cordato, repito, embora esta palavra não exprima exactamente o que quero dizer. Tinha o coração disposto a acceitar tudo, não por inclinação á harmonia, senão por tedio á controversia. Para conhecer esta aversão, bastava tel-o visto entrar, antes, em visita ao casal Santos. Pessoas de fóra e da familia conversavam da cabocla do Castello.

—Chega a proposito, conselheiro, disse Perpetua. Que pensa o senhor da cabocla do Castello?

Ayres não pensava nada, mas percebeu que os outros pensavam alguma cousa, e fez um gesto de dous sexos. Como insistissem, não escolheu nenhuma das duas opiniões, achou outra, media, que contentou a ambos os lados, cousa rara em opiniões medias. Sabes que o destino dellas é serem desdenhadas. Mas este Ayres,—José da Costa Marcondes Ayres,—tinha que nas controversias uma opinião dubia ou media póde trazer a opportunidade de uma pilula, e compunha as suas de tal geito, que o enfermo, se não sarava, não morria, e é o mais que fazem pilulas. Não lhe queiras mal por isso; a droga amarga engole-se com assucar. Ayres opinou com pausa, delicadeza, circumloquios, limpando o monoculo ao lenço de seda, pingando as palavras graves e obscuras, fitando os olhos no ar, como quem busca uma lembrança, e achava a lembrança, e arredondava com ella o parecer. Um dos ouvintes acceitou-o logo, outro divergiu um pouco e acabou de accordo, assim terceiro, e quarto, e a sala toda.

Não cuides que não era sincero, era-o. Quando não acertava de ter a mesma opinião, e valia a pena escrever a sua, escrevia-a. Usava tambem guardar por escripto as descobertas, observações, reflexões, criticas e anecdotas, tendo para isso uma serie de cadernos, a que dava o nome deMemorial.Naquella noite escreveu estas linhas:

«Noite em casa da familia Santos, sem voltarete. Falou-se na cabocla do Castello. Desconfio que Natividade ou a irmã quer consultal-a; não será de certo a meu respeito.

«Natividade e um padre Guedes que lá estava, gordo e maduro, eram as unicas pessoas interessantes da noite. O resto insipido, mas insipido por necessidade, não podendo ser outra cousa mais que insipido. Quando o padre e Natividade me deixavam entregue a insipidez dos outros, eu tentava fugir-lhe pela memoria, recordando sensações, revivendo quadros, viagens, pessoas. Foi assim que pensei na Capponi, a quem vi hoje pelas costas, na rua da Quitanda. Conheci-a aqui no finado Hotel de D. Pedro, lá vão annos. Era dançarina; eu mesmo já a tinha visto dançar em Veneza. Pobre Capponi! Andando, o pé esquerdo saia-lhe do sapato e mostrava no calcanhar da meia um buraquinho de saudade.

«Afinal tornei á eterna insipidez dos outros. Não acabo de crêr como é que esta senhora, aliás tão fina, pôde organisar noites como a de hoje. Não é que os outros não buscassem ser interessantes, e, se intenções valessem, nenhum livro os valeria; mas não o eram, por mais que tentassem. Emfim, lá vão; esperemos outras noites que tragam melhores sujeitos sem esforço algum. O que o berço dá só a cova o tira, diz um velho adagio nosso. Eu posso, truncando um verso ao meu Dante, escrever de taes insipidos:

Dico, che quando l'anima mal nata...

Ora, alli está justamente a epigraphe do livro, se eu lhe quizesse pôr alguma, e não me occorresse outra. Não é sómente um meio de completar as pessoas da narração com as ideias que deixarem, mas ainda um par de lunetas para que o leitor do livro penetre o que fôr menos claro ou totalmente escuro.

Por outro lado, ha proveito em irem as pessoas da minha historia collaborando nella, ajudando o autor, por uma lei de solidariedade, especie de troca de serviços, entre o enxadrista e os seus trebelhos.

Se acceitas a comparação, distinguirás o rei e a dama, o bispo e o cavallo, sem que o cavallo possa fazer de torre, nem a torre de pião. Ha ainda a differença da côr, branca e preta, mas esta não tira o poder da marcha de cada peça, e afinal umas e outras podem ganhar a partida, e assim vae o mundo. Talvez conviesse pôr aqui, de quando em quando, como nas publicações do jogo, um diagramma das posições bellas ou difficeis. Não havendo taboleiro, é um grande auxilio este processo para acompanhar os lances, mas tambem póde ser que tenhas visão bastante para reproduzir na memoria as situações diversas. Creio que sim. Fóra com diagrammas! Tudo irá como se realmente visses jogar a partida entre pessoa e pessoa, ou mais claramente, entre Deus e o Diabo.

—Fique, fique, conselheiro, disse Santos apertando a mão ao diplomata. Aprenda as verdades eternas.

—Verdades eternas pedem horas eternas, ponderou este, consultando o relogio.

Um tal Ayres não era facil de convencer. Placido falou-lhe de leis scientificas para excluir qualquer macula de seita, e Santos foi com elle. Toda a terminologia spirita saiu fóra, e mais os casos, phenomenos, mysterios, testemunhos, attestados verbaes e escriptos... Santos acudiu com um exemplo: dous espiritos podiam tornar juntos a este mundo; e, se brigassem antes de nascer?

—Antes de nascer, creanças não brigam, replicou Ayres, temperando o sentido affirmativo com a intonação dubitativa.

—Então nega que dous espiritos...? Essa cá me fica, conselheiro! Pois que impede que dous espiritos?...

Ayres viu o abysmo da controversia, e forrou- se á vertigem por uma concessão, dizendo:

—Esaú e Jacob brigaram no seio materno, isso é verdade. Conhece-se a causa do conflicto. Quanto a outros, dado que briguem tambem, tudo está em saber a causa do conflicto, e não a sabendo, porque a Providencia a esconde da noticia humana... Se fosse uma causa espiritual, por exemplo...

—Por exemplo?

—Por exemplo, se as duas creanças quizerem ajoelhar-se ao mesmo tempo para adorar o Creador. Ahi está um caso de conflicto, mas de conflicto espiritual, cujos processos escapam á sagacidade humana. Tambem poderia ser um motivo temporal. Supponhamos a necessidade de se acotovellarem para ficar melhor accommodados; é uma hypothese que a sciencia acceitaria; isto é, não sei... Ha ainda o caso de quererem ambos a primogenitura.

—Para que? perguntou Placido.

—Com quanto este privilegio esteja hoje limitado ás familias regias, á camara dos Iords e não sei se mais, tem todavia um valor symbolico. O simples gosto de nascer primeiro, sem outra vantagem social ou politica, póde dar-se por instincto, principalmente se as creanças se destinarem a galgar os altos deste mundo.

Santos afiou o ouvido neste ponto, lembrando-se das «cousas futuras». Ayres disse ainda algumas palavras bonitas, e accrescentou outras feias, admittindo que a briga podia ser prenuncio de graves conflictos na terra; mas logo temperou esse conceito com este outro:

—Não importa; não esqueçamos o que dizia um antigo, que «a guerra é a mãe de todas as cousas». Nia minha opinião, Empedocles, referindo-se á guerra, não o fez só no sentido technico. O amor, que é a primeira das artes da paz, póde-se dizer que é um duello, não de morte, mas de vida,—concluiu Ayres sorrindo leve, como falava baixo, e despediu-se.

—E então? disse Santos. Não é que o conselheiro, em vez de aprender, ensina-nos? Eu acho que elle deu algumas razões boas.

—Quando menos, plausiveis, completou mestre Placido.

—Foi pena que se despedisse, continuou Santos, mas felizmente o meu caso é com o senhor. Venho consultal-o, e as suas luzes são as verdadeiras do mundo.

Placido agradeceu sorrindo. Não era novo o elogio, ao contrario; mas elle estava tão acostumado a ouvil-o que o sorriso era já agora um sestro. Não podia deixar de pagar com essa moeda aos seus discipulos.

—Trata-se...

—Trata-se disto. Aquella hypothese que eu formulei é um facto real; succedeu com os meus filhos...

—Como?

—É o que me parece, e vim justamente para que me explique. Nunca lhe falei por temer que achasse absurdo, mas tenho pensado, e suspeito que tal briga se deu, e que é um caso extraordinario.

Santos expoz então a consulta, gravemente, com um gesto particular que tinha de arregalar os olhos para arregalar a novidade. Não esqueceu nem escondeu nada; contou a propria ida da mulher ao Castello, com desdem, é verdade, mas ponto por ponto. Placido ouvia attento, perguntando, voltando atraz, e acabou por meditar alguns minutos. Emfim, declarou que o phenomeno, caso se houvesse dado, era raro, se não unico, mas possivel. Já o facto de se chamarem Pedro e Paulo indicava alguma rivalidade, porque esses dous apostolos brigaram tambem.

—Perdão, mas o baptismo...

—Foi posterior, sei, mas os nomes podem ter sido predestinados, tanto mais que a escolha dos nomes veiu, como o senhor me disse, por inspiração á tia dos meninos.

—Justamente.

—D. Perpetua é muito devota.

—Muito.

—Creio que os proprios espiritos de S. Pedro e S. Paulo houvessem escolhido aquella senhora para inspirar os nomes que estão no Credo; advirta que ella reza muitas vezes o Credo, mas foi naquella occasião que se lembrou delles.

—Exacto, exacto!

O doutor foi á estante e tirou uma Biblia, encadernada em couro, com grandes fechos de metal. Abriu a Epistola de S. Pauloaos Galatas, e leu a passagem do capitulo II, versículo 11, em que o apostolo conta que, indo a Antiochia, onde estava S. Pedro, «resistiu-lhe na cara».

Santos leu e teve uma ideia. As ideias querem-se festejadas, quando são bellas, e examinadas, quando novas; a delle era a um tempo nova e bella. Deslumbrado, ergueu a mão e deu uma palmada na folha, bradando:

—Sem contar que este numeroonzedo versiculo, composto de dous algarismos eguaes, 1 e 1, é um numero gemeo, não lhe parece?

—Justamente. E mais: o capitulo é o segundo, isto é, dous, que é o proprio numero dos irmãos gemeos.

Mysterio engendra mysterio. Havia mais de um elo intimo, substancial, escondido, que ligava tudo. Briga, Pedro e Paulo, irmãos gemeos, numeros gemeos, tudo eram aguas de mysterio que elles agora rasgavam, nadando e bracejando com força. Santos foi mais ao fundo; não seriam os dous meninos os proprios espiritos de S. Pedro e de S. Paulo, que renasciam agora, e elle, pae dos dous apostolos?... A fé transfigura; Santos tinha um ar quasi divino, trepou em si mesmo, e os olhos ordinariamente sem expressão, pareciam entornar a chamma da vida. Pae de apostolos! e que apostolos! Placido esteve quasi, quasi a crêr tambem, achava-se dentro de um mar torvo, soturno, onde as vozes do infinito se perdiam, mas logo lhe acudia que os espiritos de S. Pedro e S. Paulo tinham chegado á perfeição; não tornariam cá. Não importa; seriam outros, grandes e nobres. Os seus destinos podiam ser brilhantes; tinha razão a cabocla, sem saber o que dizia.

—Deixe ás senhoras as suas crenças da meninice, concluiu; se ellas tem fé na tal mulher do Castello, e acham que é um vehiculo de verdade, não as desminta por ora. Diga-lhes que eu estou de accordo com o seu oraculo.Teste David cum Sibylla.

—Digo, digo! escreva a phrase.

Placido foi á secretaria, escreveu o verso, e deu-lhe o papel, mas já então Santos advertira que mostral-o á mulher era confessar a consulta spirita, e naturalmente o perjurio. Referiu ao amigo os escrupulos de Natividade e pediu que calassem tudo.

—Estando com ella, não lhe diga o que se passou entre nós.

Saiu logo depois, arrependido da indiscrição, mas deslumbrado da revelação. Ia cheio de numeros da Escriptura, de Pedro e Paulo, de Esaú e Jacob. O ar da rua não espanou a poeira do mysterio; ao contrario, o céu azul, a praia socegada, os montes verdes como que o cercavam e cobriam de um veu mais transparente e infinito. A rixa dos meninos, facto raro ou unico, era uma distincção divina. Contrariamente á esposa, que cuidava sómente da grandeza futura dos filhos, Santos pensava no conflicto passado.

Entrou em casa, correu aos pequenos, e acarinhou-os com tão estranha expressão, que a mãe desconfiou alguma cousa, e quiz saber o que era.

—Não é nada, respondeu elle rindo.

—É alguma cousa, anda, acaba.

—Que ha de ser?

—Seja o que fôr, Agostinho, acaba.

Santos pediu-lhe que se não zangasse, e contou tudo, a sorte, a rixa, a Escriptura, os apostolos, o symbolo, tudo tão espalhadamente, que ella mal pôde entender, mas entendeu ao final, e replicou com os dentes cerrados:

—Ah! você! você!

—Perdoa, amiguinha; estava tão ancioso de saber a verdade... E nota que eu creio na cabocla, e o doutor tambem; elle até me escreveu isto em latim, concluiu tirando e lendo o papelinho:Teste David cum Sibylla.


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