III

Quando, pois, as carruagens dos fidalgos subiam a encosta de Gaya, descia a trote Filippe Osorio. De longe, conheceu que a primeira carruagem era de Malafaya, por ser das mais luxuosas que se ostentavam em Lisboa. Conheceu-lhe os creados da libré, tudo reconheceu, porque em tudo se atavam recordações de Maria Henriqueta. Desviou-se da estrada larga para uma travessa marginal, e deixou passar o prestito. Desempedida a estrada, ganhou o Porto em poucos minutos, apeou, e subiu a procurar o palacio de Malafaya. Parou diante do portão indicado, e ousou entra'-lo, e perguntar ao guarda, revestido de rica libré, se podia falar a uma mulher chamada Eugenia.Eugenia era a ama de Maria Henriqueta. Nenhuma duvida lhe estorvou falar com a creada no seu proprio aposento, que distava muito das camaras das senhoras. A ama fez apavoradas visagens de espanto; mas ouviu-o. Urgia elle, lançando-lhe dinheiro em ouro ao regaço, que Maria alli viesse. Da negativa passou Eugenia á hesitação e d'ahi, movida pela angustia do moço—angustia com liga de ouro—foi disfarçadamente procurar a menina.E a menina entrou no quarto da ama, e a ama com ella.{112}{113}IIIMaria Henriqueta ouvira a confidencia sobresaltada de sua ama, e ficou como estupida de alegria. Eugenia, temendo que D. Maria das Dôres a encontrasse n'aquelle extranho transporte, accelerou a ida, recommendando-lhe curta demora.Á entrada do quarto, a menina, encarando em Filippe, soltou um grito, como se fosse inadvertida, e por surpresa, a apparição. O melhor recosto para um vágado era certamente o dos braços, que se abriram a recebe'-la: mas o accidente foi instantaneo: o coração predominou o espasmo nervoso.Estava Eugenia, a um lado, contemplando com aguados olhos a scena pathetica; porém, o medo tinha-a tolhida. Apenas o prefacio de suspiros e lagrimas iria em meio, quando a ama acudiu pedindo que dissessem depressa o que tinham a dizer, antes que a senhora perguntasse pela menina.—Não tenhas medo, disse Maria Henriqueta, que a mãe está dirigindo o arranjo dos aposentos do conde—E,{114}voltando-se a Filippe, continuou:—Já podes imaginar quem é este infernal conde, que se espera...Em breves termos contou o tenente as passagens que o leitor já teve a complacencia de ouvir; mas eu contei-lh'as a sorrir, e elle disse-as com tormenta desfeita de lagrimas a Maria Henriqueta.Respondeu ella, relatando a lucta, que tivera com o pae, suavisada por ter captado em seu favor a mãe, cuja vontade era mais efficaz e prestante que a d'elle.Passaram a combinações de futuro, prevendo hypotheses desgraçadas, como violencias de convento, maus tratos, divorcio de familia, que tudo era de antever, arvoradas as bandeiras hostis na casa.Disse Maria que fiava muito de sua mãe, mas muito mais de si propria.«Se a perseguição fôr tal, que me não deixem respirar—disse a menina—em tal extremo, fujo para ti, e depois... Deus se compadeça de nós, e da grandeza do nosso amor. Iremos ajoelhar a um padre para que abençoe a nossa eterna união, e assim unidos, sem vergonha do mundo, arrostaremos com todos os revéses.»Filippe ouviu de joelhos esta celestial musica dos labios de Maria, e julgou-se superior a homem na felicidade que o embriagava. Para cumular o contentamento do coração da amada, contou-lhe que seu pae o protegia declaradamente com todo o dinheiro preciso para affectuar o seu casamento; e ajuntou que, sendo mister fugirem para o estrangeiro, em toda a parte encontrariam a abundancia para que a sua ventura fosse perfeita.{115}Maria Henriqueta deu insignificante valor a esta ninharia da abundancia no extrangeiro. Amor, amor, é que ella anhelava, como as aves do céo que avoejavam de horisonte a horisonte, e dobram as serras, e cortam a cupula dos mares, sem cuidarem de pedir á terra ou ás aguas um poucochinho de alimento.Estas cousas, de si tão simples, ditas por amantes, embeberam duas rapidas horas, que pareceram annos á timorata Eugenia. Já D. Maria procurava a filha, quando Filippe Osorio descia ao pateo, seguido da ama, que lhe chamou sobrinho, ao despedir-se, na presença do guarda-portão.Reparou a mãe no rubor febril da menina, e inquietou-se na supposição de que ella adoecesse, por effeito do susto em que a deixára o pae.—Maria Henriqueta—disse D. Maria das Dôres—eu quero-te mais animada. Já te disse que á força não te casa teu pae. Conta commigo, e verás que tudo ha de ir por onde deve ir. Com isto não te quero dizer que cases com o militar; mas, mal por mal, antes d'elle que de um marido detestado.Maria abraçou a mãe com tanta effusão de reconhecimento, que, para assim dizer, foi esta a primeira vez que Maria das Dôres sentiu arfar o coração de sua filha, e tão estranha e dôce lhe fôra a sensação, que poude n'esse instante ajuizar da ternura maternal.Noite fechada, ouviu-se o estrepito das carruagens, passando sob o arco de Nossa Senhora de Vandoma. Maria tremeu e fugiu para o seu quarto, pedindo á{116}mãe que a desculpasse de ir á sala por estar doente.—Quero que vás á sala;—disse Maria das Dôres—Escusam-se fingimentos, quando as contas estão lançadas, eu sou por ti com a minha vontade de ferro.Gonçalo Malafaya entrára carrancudo. Já elle presumia que o tenente de cavallos estivesse no Porto, ouvindo a relação que o pasmado conde fizera do militar, que o deixára a dormir em Albergaria despedindo-se em latim. Instou Malafaya em meudas averiguações, ás quaes o conde respondera sinceramente, dizendo mesmo as duvidas, que elle puzera, no tocante ao amor de Maria Henriqueta.Isto bastou á desconfiança e penetração de um pae precavido.O conde foi apresentado a D. Maria das Dôres, e teve o infortunio de acarear desde logo a mais formal das antipathias. A fidalga tinha odio a homens ruivos e baixos: e o conde era baixo e ruivo. Não detestava menos os pés grandes e o simonte; e o conde, sobre ter pés grandes, aspirava com desgraciosa pretenção o aroma do simonte de uma caixa de ouro com um relevo de cupido, a desfechar dardos, de dentro de uma mouta de flôres, sobre umas pastorinhas que teciam grinaldas de rosas. Foi a caixa muito admirada da numerosa turba dos convidados, e passou ás mãos de D. Maria.—Essa caixa, minha senhora—disse o conde—esteve já nas mãos mais lindas de França.Madame la duchesse de Choiseulhonrou-me muitas vezes tomando pitadas da minha caixa.{117}—Quem?—disse D. Maria.—A senhora duqueza de Choiseul.—Tem as mãos muitos lindas?—replicou a fidalga.—Lindissimas, minha senhora.—Mas o nariz, se toma tabaco, não póde ser muito lindo... Aqui tem a sua caixinha, com o seu Cupido e as suas pastorinhas, sr. conde. É um traste muito bonito; mas o tabaco dá-lhe ares de um deposito de immundicie com paredes de ouro.—Que grosseria!—murmurou Gonçalo ao ouvido da senhora.D. Maria das Dôres olhou de través o marido e disse:—Temos historia....Gonçalo, inimigo das historias de sua mulher, voltou-lhe as costas, e prendeu a attenção ás variadas conversações dos fidalgos. D. Maria pediu licença, saíu da sala, e foi ajudar a vestir a filha com o mais roçagante e pomposo vestido de veludo escarlate, que trouxera de Lisboa.—Quero que te admirem!—dizia ella pregando-lhe as suas melhores joias, e estrellando-lhe o toucado de pedras, e coalhando-lhe o seio de scintillantes colares.Fez-se um silencio de egreja em festa de paixão, quando Henriqueta assomou ao limiar da sala. Era da etiqueta que os cavalheiros se adiantassem, em meia-lua, a recebe'-la ao centro do recinto; mas o espasmo collára aos tapetes os velhos e os novos fidalgos. O conde, a quem maior obrigação de cumprimento impunha o seu especial logar entre todos, deu alguns passos, como quem rompe um minuete, e acurvou-se com o braço direito{118}afastado do tronco e a mão esquerda sobre o coração, que lhe dava corcovos no peito. Maria baixou ao chão os olhos, inclinou-se um pouco, e esperou que seu pae a conduzisse aos coxins do canapé. A garbosidade com que ella sacudiu a cauda para sentar-se de golpe, fez que muitos velhos puzessem os olhos no céo e os mancebos relanceassem olhares rancorosos sobre o conde. Offereceu Gonçalo ao hospede a cadeira mais nobre das quatro que ladeavam o canapé, e o fidalgo, que tratára duquezas de mano a mano, viu-se em apertos de acanhamento, antes de sentar-se milagrosamente no rebordo, da cadeira baixa, em que a seda do calção, que vestira nos Carvalhos, parecia rebentar pelas costuras repuxadas.—Tive dois dias de boa jornada, minha senhora,—disse o conde gaguejando.—Sim?—respondeu Maria—muito estimo que não tivesse incommodo.—E falei muito a respeito de v. ex.ª com um companheiro de jornada...—A meu respeito?... Agradecida ao sr. conde por se lembrar de uma pessoa que não conhecia.—Ora se conhecia!—A mim? Pensei que nunca me vira...—Mas vi o retrato que é o mesmo; só não é tão lindo.Ficou satisfeito de si: cuidou que nos salões de Versailles nunca se dissera fineza mais acrisolada no bom gosto.{119}—O meu retrato!—redarguiu Maria—Não cuidei que lhe fosse conhecido...—Aqui o tenho sobre o coração em caixilho de ouro e perolas. Foi seu excellentissimo pae que m'o deu, e não podia dar-me melhor cousa senão o objecto amado de que me deu a copia.Outra fineza subtil que o poz em admiração de si proprio! No semblante de Maria relampagueou um rubor de ira, que passou, deixando, como vestigio, uma visagem de tedio, que não mais se desfez nas tres horas que durou seu supplicio.Da sala passaram á casa da ceia.Maria das Dôres que, por acinte, se assentára ao pé da filha, durante o colloquio da sala, ouviu o conde e condoeu-se entranhadamente d'ella, protestando resgata'-la da continuação do seu inferno n'aquella noite. Estavam os cavalheiros em pé ao redor da mesa, esperando que as senhoras viessem tomar logar, quando D. Maria das Dôres entrou, dizendo que sua filha, além de estar habituada a não cear, sentia um leve incommodo que a privava de vir á mesa, e fazia por isso os seus cumprimentos respeitosos ao sr. conde e mais cavalheiros, recolhendo-se á sua camara.Gonçalo reclinou a vista á esposa, como quem diz:—Bem vos percebo, a ti e mais a ella... Quem diria?O conde de Monção não provou bocado. Vinham-lhe á garganta uns suspiros tão dos seios d'alma, que, reduzidos a verso endecassyllabo, dariam mais sonetos que{120}os de Petrarcha. Desvelava-se em servi'-lo Gonçalo Malafaya, e nem com a mais loura aza de perdiz lhe aguçou o appetite! Os brindes eram todos em honra d'elle, e elle agradecia humedecendo os labios no rebordo do calix, e suspirando como quem dá o que póde na muda eloquencia do coração.E Maria das Dôres levava o lenço branco aos labios para sorrir; e o padre capellão benzia-se da abstinencia do conde, e benzia-se tambem mentalmente da gulodice de alguns commensaes.Entrou o conde no seu aposento, e passou a noite em claro, em mudas exclamações ao retrato de Maria. Ergueu-se ao romper d'alva, e correu uma de suas janellas, que se abriam de face com o ridentissimo panorama de Gaya, S. Christovão e Candal, posto que o templo da Sé lhe cortasse um retalho das bellezas. Estava elle de pouco encostado ao peitoril da janella, quando viu assomar na extrema da rua um sujeito de mui boa presença, e logo reconheceu n'elle o companheiro de meia jornada. Esperou que se avisinhasse para lhe falar; mas o tenente que, de longe o vira, cortou para a primeira travessa, contente de a ter topado na má conjunctura de ser conhecido.Visitou Gonçalo Malafaya o conde na ante-camara, e este, trocadas as saudações do estylo, disse:—Ora, dou-lhe parte que vi o sujeito, que me deixou em Albergaria!—Viu?! Está bem certo d'isso? Onde o viu?—Vinha na direitura d'esta casa; mas metteu alli{121}por outra rua, e não me deu tempo de perguntar-lhe por que diabo me deixou. Em quanto a mim o homem ia para o quartel!—Aqui, atraz da Sé, não ha quarteis...—disse Gonçalo com meditativa anciedade.—Em que está v. ex.ª a cogitar? Parece que ficou assim a modo de pensativo!—Não, sr. conde. Eu tenho estes modos distraídos; mas nada significam.—Vamos a falar—tornou o conde—a respeito do casamento. Pela minha parte, meu prezado amigo, está o negocio feito. Veja v. ex.ª se quer que eu trate d'isso, para se abreviar, quanto antes. Sua filha é uma deusa. Acredite que ella ha de ser feliz a não poder ser mais. Hei de adora'-la toda a minha vida, e morrer por ella, sendo necessario. O grande caso é saber se ella gosta de mim; mas achei-a que me ouvia com muito agradaveis olhos, e que estava contente ao pé de mim. Depois lá me affligiu que ella não fosse á ceia! Olhe que tinha aqui na garganta um talo, sr. Malafaya! Bem viu que estive sempre a pensar n'ella!Era sincero o conde. Por onde quer que andou, as mulheres que viu, e a quem deu horas de folgada farça, nenhuma o impressionou. A sua primeira paixão era Maria Henriqueta, paixão que rompeu violenta e inopinada como as irrupções das crateras, como o corisco das calmas de agosto. Desde que a vira, perdeu a consciencia de seus meritos, o que elle denominava o seu besouro diabolico para fascinar mulheres. O suspirar á{122}ceia, e o velar no leito era a duvida, a excruciante duvida, unico besouro infernal e roedor, que se apascenta em coração humano, semelhante ao ciume na peçonha. Tinha trinta e cinco annos o conde de Monção, edade critica, em que os fructos do amor ou vingam, ou apodrecem. Se vingam, a vida futura do homem está definida para sempre; se apodrecem, as particulas corrompidas giram no sangue, gangrenam o coração, segregam rios de lagrimas, e ahi é então o morrerem afogadas todas as esperanças, e o caminhar do homem ao seu fim com o peso, o enormissimo peso de um cadaver moral. E as compleições sem o sexto sentido do ideal, desmelindradas, rusticas, e avessas a toda a poesia, são por igual sujeitas á lei commum do amor, que levanta á gloria, e engolfa nos tremedaes do crime. Terrivel é esta raia que nivella o talento com a estolidez! Parece que está na materia a faisca universal, que pega os grandes incendios: e os poetas—bem hajam elles!—tão aporfiados andam em nos persuadirem da espiritualidade do amor! Deus sabe o que é. O conde de Monsão é que não sabia dizer ao certo que tenazes candentes lhe apertavam no seio os pulmões suspirosos e que unhas de abutre lhe arregaçaram as palpebras veladoras! Então lhe acudiu á memoria, para flagela'-lo, o dialogo com o militar; e vieram apprehensões, e os retraços dos menores gestos do companheiro, e a significação mysteriosa de palavras, então ouvidas desattentamente. Estas combinações cresceram de ponto, quando viu no rosto de Gonçalo signaes de assustadora suspeita, com referencia{123}á apparição do militar. Recolhido em si, engrandeceu o vulto das desconfianças, e enterrando no seio o estilete das peores conjecturas achou lá o pensamento sanguinario de matar seu rival, fosse elle quem fosse.Quando os nossos rivaes acham isto no peito, é prudente teme'-los.{124}{125}IVGonçalo disse a Maria das Dôres:—Tenho quasi a certeza de que está no Porto o tal bigorrilhas de Mirandella.—Deixá-lo estar. Cada qual póde estar onde quizer.—Assim é; mas eu receio que elle viesse chamado por Maria Henriqueta. Acompanhou até meio caminho o conde, e já hoje esteve perto d'esta casa.—Póde muito bem ser. E d'ahi? que queres tu que se lhe faça?—Quero que se realise com a maior brevidade o casamento de Maria com o conde.—Pergunta-lh'o a ella, e vamos a isso. Casar é muito simples. Temos aqui o abbade á porta, e a egreja defronte.—Isso não é responder. Tu já sabes que Maria não quer o conde.—Pois se o não quer, tambem eu não. Diz ao conde que trate de sua vida.—Mas a minha palavra está dada.{126}—Déste o que não podias. Deixa-me a mim o encargo de responder pela tua palavra. Eu falarei com elle.—É melhor que fales com tua filha, e a convenças.—Deus me livre d'isso... Eu é que estou convencida de que minha filha iria ser desgraçadissima com o conde, a mais embirrenta creatura que eu tenho visto! Como descobriste tu aquelle palerma? Tens dedo, realmente! Faz vontade de lhe offerecer a cabeça de um macho para enfeitar a corôa de conde!... Cousa assim!... E, sobre tudo, ruivo, pés grandes, anão dos assobios, e tabaqueiro! Deus me defenda de tal genro!—Tenho entendido...—disse Gonçalo com resignada amargura—Estragaste-me Maria Henriqueta!—Estraguei-t'a?... Estragado tens tu o juizo!... Eu logo vi que os frades e as freirinhas te davam cabo da razão! Se fosses rapaz, e visses um homem da laia do conde, escarnecia'-lo; como estás a envelhecer, entendes que está alli um marido pintado para a tua filha!... Deixa a menina, deixa-a viver, não lhe tolhas o seu futuro com os teus calculos de a engrandeceres! Dá-lhe alegria, não lhe dês titulos... N'uma palavra, diz tu, ou deixa-me dizer ao homem que Maria Henriqueta não o ama.—Diz muito embora; mas fica sabendo que ha de entrar n'um convento tua filha.—Pois sim; o que tu quizeres, que ella tudo acceita menos semelhante marido. Irá para um convento, e póde ser que eu vá com ella. Vês-te assim livre de ambas: e{127}depois vae para as grades entreter-te com as delambidas santinhas, que nós havemos de louvar a Deus o favor de uma cella onde não chegam figurões da laia do teu conde.E terminou, por esta vez, o ternissimo colloquio.Maria Henriqueta faltou ao almoço, e foi desculpada por sua mãe, sendo por falta de saude que faltava. O conde, industriado pelo coração, que é um grande mestre de cerimonias, pediu a Gonçalo Malafaya licença para mandar saber directamente da menina, pela creada grave d'ella. Tomou o comprimento D. Maria das Dôres, e voltou, em nome de sua filha, muito penhorada das attenções do illustre hospede. Tinham que vêr e de que rir estas etiquetas pausadas, pautadas e mesuradas como um ritual de officio de defuntos.Em quanto D. Maria das Dôres, depois do almoço, ficou á mesa conversando com o conde, Gonçalo aproveitou o azo de entrar ao quarto da filha, que por um cabello não foi surprehendida a escrever a oitava pagina de uma carta a Filippe Osorio. Compuzera-se o pae de boa sombra, e proposito de melhores palavras. Simulou acreditar nas queixas que a privaram de ir á mesa, e d'ahi derivou a mostrar que as inquietações do espirito eram muito nas molestias do corpo. Fez o elogio da paz, e da voluntaria deixação das velleidades do animo as quaes vinham a ser liberalmente compensadas com os doces cuidados domesticos, sob os olhos carinhosos de um marido, que, ao mesmo tempo, abrange a ternura de pae, e a profunda estima de irmão. D'aqui saltou,{128}pouco methodico, para os gabos enthusiastas, que o bondoso conde lhe estivera fazendo da formosura d'ella. Deteve-se n'este assumpto, sem adivinhar a duplicante nausea com que a filha o estava ouvindo. Era logico o repisar de novo na materia odiosa do casamento. Vestiu com quantos enfeites soube de sentenças e moralidades as suas intenções. Realçou os brilhos de uma alta posição na sociedade, e de uma corôa de condessa. Matizou-lhe as delicias da côrte, para onde o conde resolvia mudar sua residencia, e assumir no paço as brilhantes occupações de seu pae e avós, podendo sua esposa considerar-se desde logo primeira dama da rainha, afóra a vantagem e gloria de educar e elevar seus filhos á sombra de reaes telhas.Ouviu Maria a estirada parlenda em silencio, silencio agro de represadas lagrimas, ancias de lançar-se de joelhos aos pés do pae e abrir-lhe a alma, e deixar lá ver a imagem do homem, que para todo sempre a maniatara ao seu destino.—Que respondes, Maria Henriqueta? Não conseguiu teu pae mover-te? Resistes aos rogos que te faz o teu bom e sempre extremoso amigo?Maria respirou em pranto, e exclamou quanto os soluços lhe permittiam:—Não posso, meu pae, não posso... Deus sabe que eu lhe tenho pedido desde hontem a morte!...—Basta;—disse severamente o pae. Sabes o teu destino? Sabes que has de entrar no mosteiro de Arouca?{129}—Entrarei, meu pae.—E que has de lá estar emquanto eu for vivo?—Estou prompta, se é sua vontade que eu vá.—Não é vontade: é violencia que fazes ao meu coração. Pensas que eu poderia ver em redor de minha casa o homem de Mirandella? Cuidas que o rosto de um pae é insensivel ás ignominias do coração de sua filha? Não coras de tal namoro; mas coro eu por ti, coram em ti meus avós, uma série de senhoras soberbas de seu nascimento, que casaram com eguaes por não poderem elevar-se mais alto. Sei que está no Porto esse aventureiro. Toda a minha prudencia será necessaria para o não mandar chibatar pelos meus creados. Não o farei, porque eu arrisco muito no escandalo, arrisco a tua dignidade, que é a minha.E, baixando a voz, continuou com resguardo:—Contas com a protecção de tua mãe? Estás bem aviada! Verás por que estradas ella te conduz á desgraça. Ia a aborrecer-te, com pejo o digo, e fugiste d'ella para o meu coração, que te acceitou. Agora foges de mim para ella. Deixa-te ir. Cavae ambas o abysmo da minha vida e da tua felicidade.Saindo em direitura á sala do almoço, onde a fidalga ficára conversando com o hospede, parou Gonçalo para ouvir o que diziam, temendo que sua mulher estivesse aniquilando as esperanças do noivo. Desconfiou com acerto. Eis aqui a parte do dialogo que elle ouviu:—São cousas muito melindrosas, sr. conde—Dizia D. Maria das Dôres respondendo ao titular.—O amor não{130}vem depois, se não tem já vindo antes do casamento. Está v. ex.ª enganado pela inexperiencia. Os experimentados é que sabem o que é casar na esperança de alcançarem do tempo o milagre, que não fez o coração. Tão infeliz seria v. ex.ª como a minha filha. O desagrado de uma situação contra vontade, é que faz as impaciencias do genio, as irritações que são o fel de quem o dá aos outros. Meu marido casou violentado comigo; e eu fui violentada a casar com elle. O resultado poderia elle dizer-lh'o, sr. conde, se não houvessem uns certos infortunios, que os maridos se pejam de confessar, ao mesmo tempo que se mostram de todo despreoccupados de outros infortunios, que são as verdadeiras vergonhas. Se sou infeliz porque fui casada á força, ou por obediencia, que culpa tenho eu de o ser? Porque não hei de eu dizer bem alto que o sou, a fim de ser exemplo aos paes, e torna'-los brandos, se as filhas, n'este ponto do casamento, lhes não obedecerem cegamente? A desgraça ha de ser util a alguem, penso eu, sr. conde; e por isso bom é que a minha desgraça seja util a minha filha, e a v. ex.ª. Renuncie á idéa de casar com Maria Henriqueta. O conde de Monção ha de achar uma digna mulher onde a desejar, formosa, rica, e nobilissima.Esteve o conde pensativo alguns segundos, e respondeu desempenadamente:—Não póde ser.—Não póde ser o quê?!—redarguiu D. Maria, com a fronte avincada.{131}—Hei de casar com a menina, porque a vontade do sr. Gonçalo Malafaya é que ella case comigo.Era muito affrontosa para Maria das Dôres esta brutal saída. Levantou-se ella de um salto e exclamou:—Não casará, sr. conde, porque é vontade minha que Maria Henriqueta faça a sua vontade.—V. ex.ª tem um genio dos meus peccados!—atalhou o conde com um comedimento que, em outro individuo, parecera zombaria.—Ora queira sentar-se, minha senhora... Isto não vae a ralhar.—Sr. conde, eu tenho ordens a dar no governo da minha casa. Vou mandar-lhe meu marido, e peço desculpa.Gonçalo estava como a querer esconder-se de si proprio, no escuro de um corredor, onde as palavras sonoras da prima lhe iam apertar a alma. O homem tinha pejo de mostrar-se ao conde, e repugnancia em confirmar o que sua prima tinha asseverado. Era, porém, improrogavel a demora, desde que o hospede ficou sósinho, sentado á mesa, a contar os palitos de rama, que crivavam um javali de prata, imagem do coração d'elle, na analogia dos espinhos, e talvez na brava natureza da alimaria.Entrou Gonçalo com aspecto de réo, se não era antes o exterior de grande amargura.—Pelo que vejo—disse o conde—sua senhora oppõe-se ao casamento! V. ex.ª fez mal em m'o propôr antes de saber, se era vontade...—Minha prima—respondeu urbanamente o fidalgo—verdadeiramente{132}não se oppõe; é que sentiu, melhor que eu, a indisposição de Maria Henriqueta para o casamento, e...—Então é a menina que me rejeita?—Não o rejeita, sr. conde; recusa casar por emquanto.—E v. ex.ª porque m'o não disse ha mais tempo?! Eu fui chamado para isso; e só agora é que sua filha acha cedo para casar?! Entre homens da nossa qualidade, estas cousas tratam-se mais pontualmente.—Recebo com humildade as censuras, que v. ex.ª me fez—tornou Gonçalo, ferido nos seus brios; mas soffrendo a offensa, em castigo da leveza com que decidira do destino da filha—Pensei que Maria Henriqueta via o mundo pelos meus olhos e sentia pelo meu coração. Enganou-me o amor de pae, e o desejo de lhe dar esposo superior aos seus merecimentos d'ella. Minha filha vae entrar n'um mosteiro; é a satisfação que eu posso unicamente dar a v. ex.ª.—Deixe-se d'isso!—atalhou o conde—Nada de mosteiros! Se a duvida do casamento está na vontade da menina, deixe-a ao tempo, que ella mudará de idéas a meu respeito. Ponto é que fale com ella, e lhe vá ganhando o coração pouco e pouco. Pois se a menina só me viu uma vez, hontem á noite, como ha-de ella já gostar de mim?! Deixe-me conversar com sua filha mais algumas vezes, sr. Malafaya, e o resto cá fica por minha conta.—Da melhor vontade, sr. conde. Agora mesmo eu{133}dou ordem a minha filha para ir á sala. Queira v. ex.ª vir lá espera'-la.Quando Gonçalo voltava de acompanhar o conde á sala, saíu-lhe a esposa ao encontro, e disse-lhe:—És tolo, meu querido primo! Desconheço o teu antigo entendimento e desembaraço!—Que queres dizer n'isso?—Quero dizer que reduzes tua filha a achar-se a si mesma ridicula! Que vae ella a fazer á sala? Que tem ella que dizer a esse homem, que eu não lhe dissesse já?—Que o despersuada ella mesma.—Se ella o não persuadiu de cousa nenhuma, com que razão a forças a ir despersuadil'-o? Tu desces da tua posição, e obrigas a descer tua filha!...Gonçalo sacudia vertiginosamente os braços, de enraivecido contra si proprio, e de angustiado na cinta de ferro, que lhe tolhia todos os expedientes.Maria das Dôres condoeu-se do marido, e ajuntou:—Maria irá á sala, se assim o queres; mas hei de eu ordenar-lhe que vá, e tu has de confirmar o que ella disser com o teu silencio. D'esta irrisoria situação só a franqueza nos póde salvar depressa.Annuiu Gonçalo, indo para o seu quarto, e fechando-se para poder chorar sem testemunhas.Foi Maria das Dôres ao quarto da filha, onde se deteve alguns minutos. O conde acabava de encanellar os bofes do peitilho ao alteroso espelho do tremó dourado, quando Maria Henriqueta entrou de rosto alto e o afogueamento de uma colera expansiva no rosto.{134}Sentou-se, e esperou que falasse o conde.—Está melhor, minha querida senhora?—disse elle titubiando.—Estou boa, sr. conde, e v. ex.ª parece-me excelentemente saudavel.—Não dormi cinco minutos, com o cuidado que me deu o seu incommodo de hontem á noite.—Mal empregado cuidado!... mas muito mais por isso lhe agradeço a prova de estima.—E de amor apaixonado, minha senhora.—Esse sentimento é que eu de todo desmereço, por que não lh'o posso retribuir. Devo dizer a v. ex.ª que vou entrar n'um mosteiro, em satisfação á vontade de meu pae. É aprazivel para mim satisfaze'-lo de um modo, quando me é de todo impossivel satisfaze'-lo por outro. Meu pae deve merecer a benevolencia do sr. conde pelos esforços que empregou em convencer-me a ser esposa de v. ex.ª. Resisti, por que não posso. A dignidade de meu pae está salva; e eu salva me considero da responsabilidade de fazer desgraçado o sr. conde, por condescendencia com a vontade de meu pae.—Ahi ha outra cousa, minha senhora...—atalhou o fidalgo.—Que póde haver?—V. ex.ª ama outro homem.—Amo.—Ah!... diga-me isso... Provavelmente é mais rico e mais fidalgo que eu?—É um homem. Que lucra v. ex.ª em saber-lhe as{135}qualidades, que o meu coração não discute? É um homem, que eu amo, ha cinco annos, e que amarei até á morte.—Isso ha-de passar com a reflexão, minha senhora. Póde ser que elle não seja tão digno de v. ex.ª como eu, nem a ame com tanto fogo.—Será minha a infelicidade; basta-me, porém, ser amada como sou.—Pois eu queria ter o gosto de conhecer o meu ditoso rival...—Com que fim?—Queria ver-lhe a cara... Desconfio que elle seja um militar que...—Que o acompanhou algumas leguas? É esse de certo.—Está bom; fico sciente... Escolheu bem, a senhora, não tem duvida... É um homem sem nascimento, um militar de fortuna pelos modos...—É um militar que começou por onde começam os generaes mais nobres. Quando eu o conheci e amei era cadete; e os cadetes teem nascimento; não o pódem ser sem justificarem a nobreza de quatro avós. E de mais, sr. conde, são cousas escusadas estas. Eu retiro-me agradecida ao sentimento que lhe causou a minha pouca valia, e desejo que v. ex.ª encontre n'outra esposa a fortuna que eu de certo não posso dar-lhe.Levantou-se, fez uma mesura de espavento, como era estylo, e saíu magestosa, afastando a cauda com garbosa arrogancia, cujas tradições ainda se vislumbram{136}nas grandes tragicas sobre o tablado, em que a vida, e a mulher, e os ademanes se conservam nos sublimes moldes dos antigos tempos.Vae agora o mundo tão deslavado e peco, a dignidade senhoril está pautada por esquadria tão arrazada, que, em caso identico, a menina mandada a uma sala entender-se com um conde ácerca da impossibilidade de ser d'elle, ou não ia lá, ou era necessario ir lá busca'-la desmaiada n'um insulto flatulento.{137}VN'essa mesma hora, o conde de Monção, digno de si e de seus avoengos, mandou fechar as malas, e carregar a bagagem; vestiu-se apressadamente de jornada e saíu da camara á sala para despedir-se de Gonçalo Malafaya, e das duas senhoras. Soube o fidalgo, ainda encerrado no quarto, os aprestos de partida do hospede, e nem animo teve de lh'os estorvar: tamanha era sua vergonha que já o consolava a saída do conde, vexado por elle. Tanto, porém, crescia o sentimento do seu despundonor, quanto, augmentava o da aversão á mãe e á filha.Chamado segunda vez, foi Gonçalo receber as despedidas do hospede de vinte e quatro horas incompletas. Já encontrou na sala a prima, com prazenteiro sorriso, e a filha de tranquilla apparencia, recebendo os agradecimentos do infeliz fidalgo, que movia mais á piedade que á irrisão.Á piedade!... Quereria o conde, por ventura, a piedade de alguem? Os amores desditosos só acareiam dó{138}para as victimas resignadas. Umas ha que de antemão se desopprimem em traças de vingança, e essas mais são para incutir malquerença que pena.O adeus de Gonçalo Malafaya foi um aperto de mão convulso. O conde, para mostrar-lhe intelligencia de muda expressão, disse com sombra de riso:—Não tem duvida, sr. Malafaya... O mundo dá suas voltas; veremos onde isto pára!...Teria o repudiado noivo caminhado uma legua na direcção do seu solar no Alto-Minho, quando o coração lhe transmittiu ao pulso esquerdo raivoso impeto de sustar as redeas, e revirar a cabeça do cavallo para o Porto. Os dois mochilas deram praça ao galope desapoderado do ginete, e seguiram, notando mais uma das extravagancias do amo.Foi o conde apear n'uma estalagem, e d'alli avisou um fidalgo, seu primo, que lhe preparasse aposentadoria em sua casa. Este successo, na pequena roda dos fidalgos do pequeno Porto de então, fez grande ruido, e chegou aos ouvidos de Malafaya como se por elles entrasse um dardo a ferí-lo em seu pundonor. Inexgotavel calix o do atormentado fidalgo! Nem esposa, nem filha, nem a sociedade! Todos e tudo conjurado a levá-lo ao apuro da desesperação!Ao outro dia, contavam umas ás outras as familias nobres que os Malafayas tinham vexado o conde de Monção, despedindo-o na ante-vespera do seu projectado e decidido casamento com Maria Henriqueta. Vingou a geral opinião de que o conde fôra indignamente ultrajado,{139}e Gonçalo um baixo offensor para tão alto personagem. Ninguem inquiria, nem queria saber se Maria Henriqueta rejeitára o marido. Era pormenor, que humilhava e desauctorava os paes diante de suas filhas, uma semelhante causa. Buscaram-se, inventaram-se outras, todas falsas, e em menoscabo de Gonçalo e de D. Maria das Dôres.Resolveu o fidalgo saír do Porto com sua familia a residir temporariamente em uma quinta do Douro, e de lá enviar a filha ao convento de Arouca.Empeceu Maria das Dôres o plano, contradizendo-o com a precisão de mostrar aos seus detractores que alli estavam a pé quedo recebendo os tiros da calumnia; ajuntava ella que o mundo, vendo-os fugir, diria que elles tinham ido esconder a sua indignidade na provincia. E rematou d'este theor:—Se te julgas bem condemnado pela opinião dos nossosamigos e parentes, vae tu para o Douro. Eu e Maria Henriqueta não damos o campo á inveja diffamadora. Ficaremos; e quando elles se calarem, iremos para onde quizeres. Em quanto á ida de tua filha para Arouca, esse é o desejo d'ella; mas é preciso que penses se a honra de Maria Henriqueta será mordida na sombra por estes rafeiros e rafeiras, dando tu a isso occasião, com encerrá-la por castigo n'um convento. Castigá-la, porquê? perguntará o mundo; e, se tu disseres que a encarceras por rejeitar a mão do conde, o mundo fará os seus commentarios de modo que o tal desdouro caia sobre ella como sobre ti. Pensa, Gonçalo, e não precipites{140}uma resolução, em que temos muito a perder; e a ganhar não sei o quê. Um convento é uma casa com umas portas muito grossas; mas as portas abrem-se de par em par quando as pessoas, que não fizeram votos de lá estar, querem sair.A força moral de Gonçalo estava exhaurida. O homem, desvirtuado ante si mesmo, deixava-se já ir no pendor da fatalidade. Não contrariou a mulher: não quiz mesmo ser ouvido em nada; prohibiu até que ao seu quarto entrasse o som dos boatos affrontosos, que avultava de dia para dia.O conde de Monção não voltára ao Porto para deshonrar Gonçalo nem assoalhar o seu desdouro.Procurou de saber em que quartel ou casa encontraria um tenente de cavallos, vindo de Lisboa tres dias antes. As pessoas, empenhadas n'esta averiguação, disseram-lhe que, no troço de cavallaria 6, destacado no Porto, entrára um tenente transferido de Lisboa, moço nobre de Traz-os-Montes. Deram-lhe o nome, a residencia e as miudezas desnecessarias.Filippe Osorio descia as escadas do seu quartel, e viu o conde em attitude de entrar no pateo.—O sr. conde!—disse Filippe com amigo sorriso.—É verdade, meu caro sr. tenente; sou eu mesmo em pessoa que venho contar-lhe o resto da historia, se é que a não sabe.Peço ao leitor que marque á margem do livro, com uma cruz, este dizer do conde, porque não acha outro, que valha a nota.{141}—O resto da historia?!... Refere-se v. ex.ª áquelle casamento, que fez favor de me contar ha dias?—Pois então!—Ah! agradeço extremamente a confidencia. Queira subir.—Não subo.—Como lhe aprouver, meu caro sr. conde de Monção. Não teimo, porque a minha casa é uma barraca de campanha, e tenho cadeira e meia como ornato. Se o não molesta a minha companhia, vamos andando e conversando até ao quartel, que tenho obrigações a cumprir.O conde encarou-o com arremesso e disse:—O senhor está certo de eu lhe dizer, quando o senhor me falou n'um amante da filha de Gonçalo Malafaya,que ou eu ou elle?—Lembra-me d'isso, nem era possivel esquecer-me cousa de tanto porte, dita por v. ex.ª.—Não esteja a brincar comigo, sr. tenente! Parece-me que zomba!—Eu!... O sr. conde é exquisito! Zombar eu de cousa que não merece a zombaria!—O senhor é o homem que D. Maria Henriqueta ama. Não o negue, que, m'o disse ella.—Mesmo sem lh'o ella dizer, eu não o negaria. Adiante.—Adiante o que?—Vamos ao fim da historia, que eu tenho urgencia do tempo.{142}A historia acabou-se. Agora venho dizer-lhe que não será minha nem sua Maria Henriqueta. Juro-lh'o pelo meu sangue e pelo meu nome. Um de nós ha-de morrer.—E o que viver póde casar com ella, não é assim? Eu cuidei que v. ex.ª tratava de a matar a ella, o que seria muito mais feio e triste. Em quanto a mim, sr. conde, posto que me sinta um pouco amante da vida, se fôr sua vontade arrisca'-la-hei contra a sua espada, por lhe dar gosto. V. ex.ª já fez favor de me dizer que teve em França muitos duellos, e eu sinceramente lhe digo que não tive ainda nenhum. Todas as vantagens são do meu contedor. Estou ás ordens, depois de cumpridas as do meu regimento. Está satisfeito?—Os seus fóros?—Os meus fóros de fidalgo, pergunta?—Sim.—Quer v. ex.ª saber se me ha de matar como fidalgo ou como peão?—Não me meço com peões.—Isso agora é uma impertinencia, sr. conde! Afflige-me esse seu zelo de gentil-homem, e por lhe conhecer a boa vontade que me tem, usarei a immodestia de lhe dizer que v. ex.ª sabe quem eu sou, nem eu creio que denegue fé á dama, que lhe disse meu nascimento e educação. Agora é minha vez de lhe perguntar pelos seus fóros, sr. conde de Monsão.—Os meus... fóros? pergunta-me o senhor a mim...—Pelos seus fóros de honra, os fóros da sua dignidade,{143}os fóros da sua vergonha. Pergunto a um homem vil com que direito me vem pedir contas a mim do desprezo com que foi recebido por Maria Henriqueta. Pergunto ao desprezivel conde de Monção, se é mais estupido que abjecto, vindo provocar a duello um homem, que mal conhece, por que me vê entre si e uma senhora, que lhe repelle a philaucia e as grosseiras tentativas de a fazer perjura. A tal provocador é natural que eu pergunte pelos seus fóros de honra, de dignidade, e de vergonha. Se me elle responder com o espadim, hei de sacudir-lh'o das mãos e deshonrar-lh'o debaixo dos pés. Sr. conde, um miseravel da sua qualidade não péde contas a homens de bem; mata-se, e vae da'-las a Deus, quando a ignominia do mundo lhe pesa no vacuo da cabeça. Agora, meu fidalgo, deixe-me ir trabalhar no meu cargo, porque eu sirvo o rei, sirvo a patria, e poderei dar ámanhã o sangue por ella, em quanto v. ex.ª, cevando na inercia os seus estupidos orgulhos, quer desenfadar-se brincando com o credito e com o socego de uma senhora, que eu prezo como irmã, e v. ex.ª deseja como mulher, para desempenhar a sua casa destruida em dissipações. Nem este supremo desaire lhe falta! Até á vista!O conde de Monção estava pertencendo ao dominio da farça. Olhos arregalados e queixo pendido é a maxima expressão do espanto. No conde era pavor a ridiculissima compostura ou descompostura de feições. A cada palavra da crescente apostrophe, os brios de duellista europeu derretiam-se em frigido sangue que lhe arripiava{144}as arterias. Tinha razão o homem, que os olhos de Filippe Osorio afuzilavam raios, e os labios tremiam em crispações, que pareciam ascuas de lume. O conde ignorava que as idéas se podessem expressar d'aquelle modo, em bocca de um simples tenente. Ante si nunca elle vira um inimigo, jogando contra elle as armas do escarneo, e amostrando ao mesmo tempo outras, capazes de servirem á ferocidade. «Isto é um assassino!» dizia no fôro da sua consciencia o conde para cohonestar a cobardia do silencio. Cobardia não é o termo proprio. Cobardes são aquelles que sossobram na defeza de sua justiça. Outros, que atacam direitos d'outrem, e fogem aos aggredidos, que lhes fazem rosto, esses são apenas infames na aggressão; e, quando fogem, prestam involuntaria homenagem á justiça. Pode-se jurar que o conde de Monção não meditava n'estas distincções, ao retirar-se do local em que o deixára petrificado Filippe Osorio. Circumvagou os olhos, como a certificar-se de que ninguem presenceára o insulto, e foi seu caminho murmurando por entre os dentes cerrados:—Tu m'as pagarás, ou eu não seja quem sou!{145}VICorrespondiam-se, diariamente Maria Henriqueta e Filippe. Bafejava-os a fortuna na pessoa de Eugenia, que a certa hora da noite dava e recebia as cartas pelo muro do jardim. Eram felizes porque amavam, esperavam, e confiavam nos milagres da sua constancia.O pae de Filippe era pessoa de grandes relações com a fidalguia transmontana. Os mais superciliosos cavalheiros prezavam-se de o chamarem primo. Todos se lhe prestavam a cooperar para persuadir a Gonçalo Malafaya o acerto do casamento com um moço tão bem prosperado em sua carreira militar, e de nascimento assaz illustre para emparelhar, sem desaire, com os mais qualificados no reino.A fidalguia empenhada acertou de chamar a si os parentes de D. Maria das Dôres, que eram tambem os de Gonçalo; mas preponderavam n'ella mais. Confluiram á mãe de Henriqueta cartas de muitas senhoras suas amigas da mocidade, e das suas mais intimas no mosteiro de Arouca. Uma açafata de D. Carlota Joaquina escreveu-lhe{146}em nome de sua ama. É onde podia chegar a influencia do fidalgo de Mirandella, mais por amor do filho que da riqueza da noiva.Maria das Dôres inclinou-se a favor de Filippe, e mostrou ao marido a petição da açafata. Gonçalo Malafaya, quando tal viu, soffreu um accesso de vertigem furiosa, e rasgou a carta entre os dentes. D. Maria teve medo dos arremessos do marido, e deixou-o bravejar e urrar contra a conjuração dos seus matadores.Maria Henriqueta, amoravel com seu pae por que tinha a trasbordar o amor do peito, affrontou-se com o medo, e foi supplicante aquietar-lhe os impetos. O velho repelliu-a com arrebatada virulencia.Velho lhe chamei eu pela primeira vez: estava-o deveras; sem um cabello negro, e não tinha ainda quarenta e oito annos! Fibra no rosto uma só não tinha lisa do arar do fogo interior. Abaixo do rebordo das orbitas parece que o absyntho das lagrimas lhe calcinára a pelle. Inclinava-se já para o chão, como a pedir á terra que o acolhesse e escondesse do seu mau anjo! Nas horas de solidão, poderiam ouvi'-lo exclamar muitas vezes: «Ó Beatriz de Noronha! tira-me este calix dos labios, ou verte-m'o de uma vez no coração, para que eu morra de uma só agonia!»Que flagello de vida no seio da riqueza! que inferno n'aquelle palacio, arreado de sedas, de librés, de equipagens, de tudo que morde a inveja, e conjura a pobreza contra a caprichosa partilha de Deus!Ergueu-se um dia Gonçalo Malafaya, ao cabo de uma{147}noite infinita de calculos dilacerantes. Alumiava-lhe o rosto o clarão sinistro da demencia. Viram-n'o esposa e filha, e gelaram de medo. Era a horas de almoço, ao qual desde muito o fidalgo não assistia. Entrou inesperado, cruzou os braços, e exclamou com energica vehemencia:—É ámanhã!—Ámanhã o quê, primo Gonçalo?—Que a má filha ha de entrar no convento de Arouca, senão hei de dar-te um punhal para que m'o enterres no peito.—Irei, meu pae, irei hoje mesmo, se v. ex.ª o determina.—É ámanhã—bradou elle.—Eu morrerei depois de ámanhã. Quando eu estiver sobre terra, sáe do convento, cospe na minha cara, e levanta-te com a herança da casa de teus avós e com a minha maldição.Maria Henriqueta encostou o peito ao bordo da mesa, e cobriu o rosto com as mãos. Chorava; e o pae sentiu-se mais desopprimido com as lagrimas da filha. Deu alguns passos até defrontar com ella, e disse:—Essas são as menos amargas que tu choras. Outras virão... tenho aqui na alma o presagio de outras, que has de verter sobre o cadaver do homem que me aponta ao peito o ferro, com o braço guiado pela mão de minha mulher.—Penso que enlouqueceste, primo!—disse Maria das Dôres.—Emmudece, serpente!—exclamou em furia o transfigurado{148}velho.—Enroscaste-te á minha mocidade, mataste aquella creatura divina, mataste a minha alegria, empeçonhaste o coração de tua filha, e estás agora minando-me a sepultura para esconderes de ti este phantasma de remorsos!...A syncope, em que desfechou a desarrazoada apostrophe, delatava que os receios da loucura não eram de todo panicos. N'aquellas accusações era manifesta a injustiça.Bem viram que Maria das Dôres foi de todo alheia ás desventuras de Beatriz de Noronha, sobre ser obrigada a acceitar o marido, proposto desde a sua infancia. O leitor póde negar sua sympathia ao caracter de Maria das Dôres; mas, se a punir com o seu odio, é injusto. Pender, em bem da filha, contra a imposição do casamento, é virtude para muitos louvores. Se o fez por animo contradictorio, feliz culpa a sua; se por experiencia de sua desgraça, abençoada defesa da pobre menina, e abençoada sempre, embora estes infelizes todos se venham a abismar guiados por suas estrellas funestas.—Vae para o convento, Maria—disse a fidalga á filha.—Fia de mim que pouco tempo lá estarás. Eu hei de vencer teu pae, com habilidade e paciencia. Vou fazer, por teu amor, o sacrificio da humildade. Mas agora é preciso que vás. Se teu pae morre, tens de soffrer remorsos, e remorsos que hão de assaltar-te os dias todos da vida, embora os goses com o homem que amas. Com tempo, serás esposa d'elle; mas faz muito pelo seres com a consciencia tranquilla.{149}Maria Henriqueta rompeu em choro nos braços de sua mãe, e foi d'alli escrever a Filippe, contando-lhe o seu destino, e as promessas da mãe. O tão apaixonado como generoso moço incitou-lhe a coragem do sacrificio, pedindo-lhe que o offerecesse a Deus como merecimento para ambos lhe merecerem mais tarde a sua benção.Ao outro día, Maria entrou n'uma liteira com sua mãe, seguidas do simples prestito do capellão, a ama, creadas e lacaios.Maria das Dôres, a antiga aia da Santa rainha Mafalda, entrou no seu quarto de infancia, e no de suas defuntas tias; e os dias de então, e só esses do seu passado, lhe vieram á memoria e amolleceram o coração até ás lagrimas.A reclusa menina, ao ver-se alli, no calado dos claustros, debaixo dos profundos firmamentos, n'um dia em que os sinos dobravam á agonia de uma religiosa, e quando outra recebia as ultimas honras da sepultura, Maria Henriqueta pensou que ia morrer, e assim o disse na primeira carta, enviada a Filippe.Demorou-se a mãe alguns dias no mosteiro, e apressou a saída, quando receou pelos dias de Maria Henriqueta. Foi o seu proposito, ao retirar-se, mover o pae a consentir no casamento, ou romper abertamente com elle e com o mundo, protegendo a fuga da filha, se outro expediente não viesse em redempção d'ella.Ausente a mãe, augmentaram os terrores de Maria, e as lastimas nas cartas escriptas a Filippe. Em algumas,{150}pedia-lhe ella que a salvasse, pelo muito que ella o amára, e pelas muitas dôres com que quizera merecel'-o. Salval'-a era arrebata'-la do convento, fugir com ella, cumprir o juramento que lhe tinha feito, quando a chamou ao quarto da ama. Ao mesmo tempo, contava-lhe as nenhumas esperanças que a mãe lhe dava, e as diligencias que o pae fazia, para o remover para o ultramar, e tirar-lhes a possibilidade de se cartearem. D'isto lhe déra aviso a mãe, assegurando-lhe que as cartas de Filippe, apesar do suborno tentado no correio, haviam de chegar-lhe sempre á mão.Enganára-se Maria das Dôres com as promessas do empregado na transmissão das cartas. Maria Henriqueta, ao fim de tres afflictivas semanas, enviou um proprio a Filippe, perguntando-lhe a razão porque a desamparára.O tenente de cavallaria tinha de marchar n'aquelle dia com o regimento para Lisboa, onde se estava resenhando o exercito para começar a lucta com a França, cujos generaes se avisinhavam das fronteiras.Pediu licença o tenente por dois dias: foi-lhe negada. Empenhou por si os seus amigos, senhores do segredo da sua vida; baldaram-se as solicitações. Filippe Osorio, á ultima hora, quando os clarins já tocavam a reunir á porta do quartel, viu a imagem de Maria Henriqueta, e ouviu um como gemido de moribunda, e um falar assim de quem se despede: «Vae, e volta alguma vez á minha sepultura!»O tenente tomou as redeas do cavallo que o auxiliar{151}lhe offerecia, passou por diante dos clarins que o chamavam, viu ao longe, no occidente das esperanças da gloria, sumir-se a sua estrella, e fitou os olhos n'outra, que o chamava sobre um leito de agonia.Desertou.A mancha era negra; mas o disco resplendoroso, que lhe alumiava o coração e o ar em que ia aspirando a liberdade louca de amante, não lhe deixava ver a negridão da deshonra militar.Na primeira terra em que pôde escrever liberalisou estipendio a um portador que levasse uma carta a Mirandella. Era um aviso a seu pae. Noticiava-lhe a deserção e o intento de roubar Maria ao convento e á morte. Pedia-lhe que estivesse um clerigo prestes a recebe'-los, logo que alli chegassem, e o dinheiro necessario para se refugiarem em Hespanha ás penas militares, e á perseguição de Gonçalo Malafaya.Apeou em Arouca, e procurou Maria. Nenhum impedimento lhe estorvou falar-lhe. Acolheram-no na aposentadoria monacal, como primo da fidalga, que as religiosas amavam pelo muito que a viam padecer. Deu ella o plano da fuga, não facil, nem talvez exequivel. Maria devia transpor um muro, que seria morte certa, se o pé lhe resvalasse de um galho de arvore, em que fiava o apoio para segundo salto á estrada. Impugnou-lhe o plano o susto de Filippe; e ella, para aquieta'-lo, prometteu pensar em menos perigosa evasiva; mas pediu-lhe que tivesse os cavallos arreados na seguinte noite.A lua banhava de livido alvor as paredes do templo.{152}O derradeiro nocturno tinha soado no campanario, alteroso vigia, como posto alli em guarda das esposas do Senhor. As paixões e as virtudes dormiam ou pareciam dormir lá dentro do mesmo somno. Cá fóra ramalhavam os arvoredos, e o norte assobiava nos agulheiros das torres.Maria Henriqueta occupava um quarto sem rexas nem rotulos, logar privilegiado das reclusas, que inspiravam á prelada inteira confiança. O salto á cerca era facil e seguro, com o poderoso auxilio de um telhado de ermida contigua á parede. D'este ao jardim, só mulher que não amasse acharia perigoso o descer. Maria nem de leve sentiu o baque. Ficou sentada na relva, e ergueu-se logo, correndo para o muro, e procurando, entre as gabellas de varas podadas das videiras, uma escada de mão, que encostou á parede. Escalando o muro, tremeu da altura exterior, e viu que se enganára na distancia da arvore, que devia ajuda'-la na descida. Fincou os joelhos ao cume da parede, e foi-se arrastando até ao ponto da arvore, que o vento sacudia. Este inesperado incidente desalentou-a; só estando queda a arvore ella poderia aferrar-se aos ramos mais robustos, e verga'-los até tomar pé no galho chapotado. Estava ella assim aterrada e immovel com a vista desarmada a um e outro lado, quando, d'entre as arvores da outra orla do caminho, surgiu um vulto, que a gelára de medo, se a voz o não denunciasse ao mesmo tempo.—Eu esperava isto...—disse Filippe.—Já tenho animo!—exclamou ella.{153}—Espera!Filippe, tirando o manto e a farda, que lhe empeciam os movimentos, marinhou pelo tronco da arvore até fincar o pé no rebento que dava sobejo e seguro apoio a maior peso. Depois cingiu com o braço esquerdo o tronco, e disse a Maria que se pendurasse no ramo mais forte, e eminente á cabeça d'elle. Maria correu as mãos mimosas por sobre as asperezas da ramagem, e recurvou os dedos no mais afastado e grosso ramo que poude. Deixou o corpo ao seu natural pendor, impellindo-se com o pé fóra do muro. O despenho seria infallivel, se Filippe a não repuxasse a si, apertando-a ao peito com o braço direito.Maria Henriqueta ria n'esta situação, e dizia:—E se caímos abraçados?!—Firma-te!—disse serenamente Filippe.—Apega-te ao tronco da arvore, que eu vou descer. Passa os teus pés devagar para o logar dos meus... Assim... Agora, larga-me, e segura-te... Bem... espera um pouco.Disse, e saltou ao caminho; mas não se susteve em pé porque era grande o salto. Maria sobresaltou-se, e quiz resvalar agarrada ao tronco; mas Filippe já estava erguido, rindo da sua queda para serenar Maria.Encostou-se á arvore, e disse:—Desce, até encontrares os meus hombros com os pés. Depois, sem largar o tronco, deixa-te descer conforme eu me fôr abaixando, e salta quando eu te disser.A execução da facil manobra foi feliz. Elles ahi vão,{154}embrulhados no mesmo manto. Maria está vestida de branco, e Filippe receia que o ar picante da noite a moleste. Coração em labaredas levam elles; mas o fogo intimo não basta a retemperar a temperatura da atmosphera. Os catarrhos são pensão de amadores nocturnos.Estão os cavallos arreados na aldeia proxima, á mão do velho e leal creado de Filippe. Maria vê o velho, e chora pela sua ama, a quem não deu o ultimo abraço para a não ver morrer. Filippe quer consola'-la, mas não sabe. O creado velho sabe a razão das lagrimas, e diz:—Quando chegarmos a terra segura, eu volto a buscar a velha. Arranja-se tudo; a morte é que não tem remedio.Maria consolou-se.Cavalgaram, e partiram. Ao dobrarem o primeiro outeirinho, Maria apontou para a torre do mosteiro, e disse:—Que medo me faz aquillo! parece um phantasma! Que horriveis horas aquelle sino marcou na minha vida, ó Filippe!—Deixa-o agora marcar annos de felicidade, minha esposa.—Quantos marcará, ó Filippe?!!...Soaram tres badaladas.—Só?!—exclamou ella com supersticioso terror.—Não sejas creança, Maria! disse Filippe.—Aquillo quer dizer que são tres horas.Caminharam.{155}O frio da manhã golpeava o rosto de Maria, e as redeas caíam-lhe dos dedos entrezilhados.Filippe sentou-a sobre as capas dos coldres, apertou-a ao seio, e aqueceu-lhe as mãos no acolchoado da farda. E assim caminharam, até que o sol dourou o melhor dia d'aquellas duas existencias.{156}{157}VIIEntraram ao romper d'alva em Mirandella, a hora em que os irmãos de Filippe, desconfiados da demora do irmão, saíam a procura'-lo no caminho de Arouca. Ás dez horas da manhã d'esse dia, celebrou-se o casamento na capella da casa, por ministerio de um abbade parente do noivo, homem que não lera no Evangelho o preceito do consentimento paterno para a validade do sacramento. Foram testemunhas os irmãos do esposado, e padrinhos os paes.Ao outro dia chegou a Mirandella a ditosa Eugenia, que o fiel creado fôra buscar, deixando em Amarante os amos. Contou ella que na tarde d'aquelle dia da fuga chegaram a Arouca alguns soldados de cavallaria, com um commandante, pedindo novas de um tenente, que desertára; e que n'essa mesma tarde tinham saído para outros sitios.Comprehendeu Filippe o perigo da sua situação, e quiz fugir, antes que a Bragança, quartel do seu regimento, chegassem ordens para a sua captura. A parentella{158}votou unanime pela resistencia, confiada no poderio que exercia sobre o povo. Filippe combateu o denodo inopportuno, por amor de sua esposa, a quem tristes festas de nupcias seria uma briga sanguinaria do povo com a tropa.Muniu-se o desertor de basto dinheiro para dois annos de desterro, e internou-se em Hespanha, com os dois velhos creados, que entre si se queriam por terem sido, em seis annos, os confidentes dos infelizes amores de seus amos, já agora unidos sagradamente para sempre.Deixemo'-los em Hespanha procurar o remançoso eden de seus anhelos. Irão a Sevilha? a Granada? a Cordova? Irão a toda a parte, hão de encontrar as delicias reflectidas do céo que levam na alma.Deixa'-los, que é delicadeza não irmos de pós elles. A suprema felicidade de dois noivos tem o seu pudor, que se quer resguardado de olhos alheios.Vamos ao Porto, e entremos em casa de Gonçalo Malafaya.Ao amanhecer do dia immediato ao da fuga, chegou de Arouca o enviado da má nova. O fidalgo, que já sabia da deserção do tenente, e incitára a saída do destacamento para captura'-lo em Arouca, nem por isso ficou menos surprehendido. Correu ao quarto de Maria das Dôres, e exclamou:—Maria Henriqueta fugiu do convento!—Estás a sonhar, ou sou eu que sonho?!—disse a esposa.—Alli está o portador de Arouca! Fugiu sua filha,{159}senhora! Ahi tem a sua obra! Faltava-me esta deshonra: devo-lh'a, senhora, devo-lh'a, como ultimo golpe, que me ha de matar!Disse, e refugiu para o seu quarto, tropeçando nos corredores, não aclarados ainda pela luz da manhã. Pouco depois, voltou á camara da esposa, e bradou:—A senhora está na cama?! Levante-se que é preciso protestar contra a ignominia que pesa sobre nós! Levante-se, que d'aqui a pouco seremos insultados pela canalha! Vista-se de lucto, e quero que todos os meus brazões de armas, em todas as minhas casas e quintas, sejam cobertos de negro! Maldita seja a mãe que perdeu sua filha!D. Maria agitou com força a campainha, e disse ao marido:—Queira retirar-se, que vem as creadas vestir-me.Entraram as creadas de baldão, quantas havia na casa, e a senhora disse a uma d'ellas:—Vae dizer ao capellão que procure os primos Mellos e os primos Peixotos, e lhes diga que venham cá ter mão no sr. Gonçalo que foi atacado de um accesso de demencia.Foi a creada dar o recado. O capellão ouviu-o, e benzeu-se com a mão direita; saíu do quarto e benzeu-se com a esquerda; e ao transmittir a infausta noticia a Mellos e Peixotos, benzia-se com ambas as mãos.Acudiram os primos e Gonçalo recusou-se a recebe'-los, cuidando que vinham ao cêvo do escandalo para ultraja'-lo com fingidas caramunhas. Ouviram a prima{160}Maria, e convieram em que a fuga de Maria Henriqueta para casar com Filippe Osorio Vaz Guedes da Fonseca, tão fidalgo como ella, não merecia tamanhos alvorotos, nem a loucura do primo Gonçalo, por tal motivo, captivaria a compaixão publica.Repellidos do quarto do velho, segunda e terceira vez, os fidalgos saíram a divulgar o caso sem o classificarem de deshonra, imputando, porém, a culpa d'ella, se culpa havia, ao pyrronismo de Gonçalo Malafaya, que sonhava com enxertar um conde na familia, ainda que o conde fosse um tolo e um perdulario.Ao meio dia estava Gonçalo vestido de rigoroso lucto, e os lacaios de lucto tambem.D. Maria das Dôres vestia de azul claro e ordenava ás suas creadas que se escusassem de completar a irrisão da casa.Entrou o fidalgo na sua carruagem, e foi a casa de todos os magistrados do crime pedir justiça. Acolheram-n'o com respeitosa compaixão, e prometteram precatorias para os fugitivos serem presos, onde quer que a policia os descobrisse. Gonçalo a todos disse que dava os seus haveres pela captura de Filippe, e a si proprio se venderia para pagar os ultimos ceitis aos esbirros.As cartas precatorias saíram desde logo para differentes pontos do reino, e algumas para Hespanha. E, ao mesmo tempo, as justiças militares tiravam summario despacho para a captura do desertor.Maria das Dôres, sciente dos mandados judiciarios, enviou pessoa de sua confiança a Mirandella, avisando{161}o pae de Filippe Osorio, e escrevendo a sua filha uma carta mais de indulgencia que de recriminação. «O mal está feito,—dizia-lhe ella—mas em parte considero-o sanado pelo casamento. Escondei-vos cautellosamente, em quanto a tempestade ameaça fulminar-vos com a vergonha de uma prisão. Não entreis em Portugal sem que eu vo'-lo diga; nem vos mostreis em Hespanha, porque as ordens hão de lá chegar, em mãos de quem primeiro as encheu de ouro nos cofres de teu pae, etc.»A carta foi dar ás mãos de Maria Henriqueta, que a essa hora trajava de homem, e se chamava em Hespanha D. Luiz de Castro, irmão de D. Pedro de Castro, nomes inscriptos no passaporte de Filippe Osorio.Estavam então em Sevilha, e tão descuidados, tão ebrios de seu amor, que nem a carta os alvoroçou. «N'esse tempo (dizem os apontamentos que tenho á vista) figurando ella de lindissimo moço, deu-lhe que fazer o amor das hespanholas, que morriam por elle; eD. Luiz de Castrosustentava os namoros, para rir com o marido, mas sem saber que saída a final lhes daria.»Pernoitavam os ditosos esposos em Segovia, onde os anteciparam cartas da capital da provincia, recommendando os doisCastros, cavalheiros portuguezes. Convidou-os o alcaide para uma tertulia, e banqueteou-os no dia seguinte, a pedido das filhas, que eram duas, e cada qual se apaixonára do seu Castro. Praticaram-se cousas de Portugal, e caíu a proposito perguntar o alcaide aos{162}seus hospedes se conheciam um Filippe Osorio Vaz Guedes da Fonseca, desertor de cavallaria 6, que havia roubado de um mosteiro a filha de umfidalgode linhagem, solarengo no Porto.DisseD. Pedro de Castroque sobejamente conhecia o desertor. Contou miudamente a historia triste dos seus amores com a filha do fidalgo, e tão a enternecer o disse que as sensiveis hespanholas choraram de ouvi'-la, e o alcaide jurou que rasgaria a ordem, que tinha, de prende'-los se alguma vez reconhecesse os sympathicos fugitivos no seu districto. A intimidade cresceu tanto entre a auctoridade e os hospedes, que, decorridos alguns dias, Luiz de Castro appareceu vestido de Maria Henriqueta ao alcaide e ás filhas, que ouviram d'ella a historia, repetida com mais graça e affectuosa tristeza, dos seus amores com Filippe Osorio.Desde essa hora, o magistrado hespanhol não velaria com mais zelo a segurança de seus filhos. Onde quer que iam, lá os antecipava a influencia do alcaide, de modo que se viam em toda a parte festejados os dois cavalheiros portuguezes, e requestados de quantas damas os abrasavam com os olhos e com o chocolate.Segovia era o logar onde iam a desfadigar-se das excursões ás provincias, e onde as cartas do reino iam dar com elles.Na casa do alcaide deu á luz Maria Henriqueta uma menina, findo o primeiro anno de casada. E então acabaram as excursões, e retiraram-se a uma quinta dos arrabaldes para, a salvo de suspeitas, se despirem das{163}ficções, e viverem em toda a ingenuidade de esposos e paes. Lá lhes eram assidua companhia as duas filhas do generoso hespanhol, proprietario da quinta. Alli vieram os irmãos de Mirandella visitar o irmão, e dar-lhe a boa nova de quasi esquecimento em que estava sua deserção. N'este ensejo foram elles portadores de carta de D. Maria das Dôres, que, em resumo, dizia: estarem mais benignos os ares; mais brando o coração do pae, tendo já dito que antes queria ver a filha e perdoar-lhe, que receber a noticia da morte d'ella. Accrescentava que este dizer não a auctorisava a chamar a filha; porque o pae tinha intercadencias de prostração, quando perdoava, e de cólera quando pedia vingança aos céos, e insultava os magistrados como inertes. Terminava, recommendando-lhe que se tivesse sempre em guarda, e se fiasse só de sua mãe, quando a chamasse.Decorreram seis mezes. Sempre o céo claro sem nevoa; sempre a ventura candida e pura como o sorriso da creancinha, que dissereis vinda do céo a completar o grupo da suprema bemaventurança na terra. Para cumulo de felicidade, chegou a Segovia uma carta de D. Maria das Dôres, dizendo á filha:«Vem, agora sem receio. Venci teu pae, com as armas da humildade. Só por amor de ti as empregaria. Perdoa-te, recebe-vos, quer-vos para filhos. Sabe que tem uma neta. Disse-lh'o eu, quando o vi tão bom! Perguntou-me estupefacto como eu o sabia. Occultei-lhe os promenores; disse-lhe em suma, que eu fôra sempre mãe. Fitou-me de um certo modo, que me incutiu{164}receios de me ter enganado: mas, em seguida, voltou á sua segunda natureza compadecida. O peor, filha, será o crime de teu marido, que o força a livrar-se, e agora as leis militares inglezas creio que são severas para desertores. Se vês que teu marido tem grandes trabalhos a vencer, antes o desterro com a liberdade; e mais ao diante valeremos mais com as leis se teu pae quizer protege'-lo etc.»Ao mesmo tempo, o fidalgo de Mirandella dizia a seu filho que andava dispondo as cousas para elle ser julgado e absolvido. Que alcançára promessas favoraveis, e esperava em breve manda'-lo recolher á patria, com a certeza da absolvição.Que luz tão formosa as estrellas funestas irradiam ás vezes! Como a desgraça negaceia com as suas victimas dilectas! Que pena me faz ir d'aqui através cincoenta annos, e por entre o pó de uma geração dispersa no ar, áquella quinta suburbana de Segovia, e contemplar aquelles dois esposos com a filhinha entre os peitos de ambos, arrobados de alegria, dando-se os parabens da sua final victoria, e saudando as alegrias da patria, só inferiores ás alegrias de dois corações triumphantes sem infamia, felizes sem remorsos! Com que vontade eu quebraria aqui a penna, se tenho de tirar d'ella paginas negras da vida dos dois tão dignos, tão abençoados, tão bemquistos da leitora que amou ou ama, do pae que perdoou ou tem de perdoar um dia, do mundo que sentenceia, ou já sentenciou paixões, que exorbitam do estadio commum! Ai! eu antes queria inventar, antes{165}mentir, antes lançar de mim com asco estes apontamentos!Eu sei como a vida podia ter lances de contentar a phantasia. Quantas vezes, em historias imaginadas, eu levo posto o fito n'uma caverna onde os meus personagens vão caír; e já perto, já com elles á borda do despenhadeiro, sustenho-me, chamo-os, acaricio-os, salvo-os, e dou-lhes a gloria, em vez do inferno que lhes fôra talhado! Como eu fico então contente de mim, e o leitor contente d'elles! Só n'estes conflictos é que eu avalio os thesouros da imaginação, e o segundofiatde mundos moraes que a magnanimidade divina concede aos romancistas.N'esta historia queria, e não posso. Estou coacto e maniatado ás gramalheiras da noticia, que me foi ministrada por pessoa, que me obrigou o juramento de não falsear a verdade.

Quando, pois, as carruagens dos fidalgos subiam a encosta de Gaya, descia a trote Filippe Osorio. De longe, conheceu que a primeira carruagem era de Malafaya, por ser das mais luxuosas que se ostentavam em Lisboa. Conheceu-lhe os creados da libré, tudo reconheceu, porque em tudo se atavam recordações de Maria Henriqueta. Desviou-se da estrada larga para uma travessa marginal, e deixou passar o prestito. Desempedida a estrada, ganhou o Porto em poucos minutos, apeou, e subiu a procurar o palacio de Malafaya. Parou diante do portão indicado, e ousou entra'-lo, e perguntar ao guarda, revestido de rica libré, se podia falar a uma mulher chamada Eugenia.

Eugenia era a ama de Maria Henriqueta. Nenhuma duvida lhe estorvou falar com a creada no seu proprio aposento, que distava muito das camaras das senhoras. A ama fez apavoradas visagens de espanto; mas ouviu-o. Urgia elle, lançando-lhe dinheiro em ouro ao regaço, que Maria alli viesse. Da negativa passou Eugenia á hesitação e d'ahi, movida pela angustia do moço—angustia com liga de ouro—foi disfarçadamente procurar a menina.

E a menina entrou no quarto da ama, e a ama com ella.{112}

{113}

Maria Henriqueta ouvira a confidencia sobresaltada de sua ama, e ficou como estupida de alegria. Eugenia, temendo que D. Maria das Dôres a encontrasse n'aquelle extranho transporte, accelerou a ida, recommendando-lhe curta demora.

Á entrada do quarto, a menina, encarando em Filippe, soltou um grito, como se fosse inadvertida, e por surpresa, a apparição. O melhor recosto para um vágado era certamente o dos braços, que se abriram a recebe'-la: mas o accidente foi instantaneo: o coração predominou o espasmo nervoso.

Estava Eugenia, a um lado, contemplando com aguados olhos a scena pathetica; porém, o medo tinha-a tolhida. Apenas o prefacio de suspiros e lagrimas iria em meio, quando a ama acudiu pedindo que dissessem depressa o que tinham a dizer, antes que a senhora perguntasse pela menina.

—Não tenhas medo, disse Maria Henriqueta, que a mãe está dirigindo o arranjo dos aposentos do conde—E,{114}voltando-se a Filippe, continuou:—Já podes imaginar quem é este infernal conde, que se espera...

Em breves termos contou o tenente as passagens que o leitor já teve a complacencia de ouvir; mas eu contei-lh'as a sorrir, e elle disse-as com tormenta desfeita de lagrimas a Maria Henriqueta.

Respondeu ella, relatando a lucta, que tivera com o pae, suavisada por ter captado em seu favor a mãe, cuja vontade era mais efficaz e prestante que a d'elle.

Passaram a combinações de futuro, prevendo hypotheses desgraçadas, como violencias de convento, maus tratos, divorcio de familia, que tudo era de antever, arvoradas as bandeiras hostis na casa.

Disse Maria que fiava muito de sua mãe, mas muito mais de si propria.

«Se a perseguição fôr tal, que me não deixem respirar—disse a menina—em tal extremo, fujo para ti, e depois... Deus se compadeça de nós, e da grandeza do nosso amor. Iremos ajoelhar a um padre para que abençoe a nossa eterna união, e assim unidos, sem vergonha do mundo, arrostaremos com todos os revéses.»

Filippe ouviu de joelhos esta celestial musica dos labios de Maria, e julgou-se superior a homem na felicidade que o embriagava. Para cumular o contentamento do coração da amada, contou-lhe que seu pae o protegia declaradamente com todo o dinheiro preciso para affectuar o seu casamento; e ajuntou que, sendo mister fugirem para o estrangeiro, em toda a parte encontrariam a abundancia para que a sua ventura fosse perfeita.{115}

Maria Henriqueta deu insignificante valor a esta ninharia da abundancia no extrangeiro. Amor, amor, é que ella anhelava, como as aves do céo que avoejavam de horisonte a horisonte, e dobram as serras, e cortam a cupula dos mares, sem cuidarem de pedir á terra ou ás aguas um poucochinho de alimento.

Estas cousas, de si tão simples, ditas por amantes, embeberam duas rapidas horas, que pareceram annos á timorata Eugenia. Já D. Maria procurava a filha, quando Filippe Osorio descia ao pateo, seguido da ama, que lhe chamou sobrinho, ao despedir-se, na presença do guarda-portão.

Reparou a mãe no rubor febril da menina, e inquietou-se na supposição de que ella adoecesse, por effeito do susto em que a deixára o pae.

—Maria Henriqueta—disse D. Maria das Dôres—eu quero-te mais animada. Já te disse que á força não te casa teu pae. Conta commigo, e verás que tudo ha de ir por onde deve ir. Com isto não te quero dizer que cases com o militar; mas, mal por mal, antes d'elle que de um marido detestado.

Maria abraçou a mãe com tanta effusão de reconhecimento, que, para assim dizer, foi esta a primeira vez que Maria das Dôres sentiu arfar o coração de sua filha, e tão estranha e dôce lhe fôra a sensação, que poude n'esse instante ajuizar da ternura maternal.

Noite fechada, ouviu-se o estrepito das carruagens, passando sob o arco de Nossa Senhora de Vandoma. Maria tremeu e fugiu para o seu quarto, pedindo á{116}mãe que a desculpasse de ir á sala por estar doente.

—Quero que vás á sala;—disse Maria das Dôres—Escusam-se fingimentos, quando as contas estão lançadas, eu sou por ti com a minha vontade de ferro.

Gonçalo Malafaya entrára carrancudo. Já elle presumia que o tenente de cavallos estivesse no Porto, ouvindo a relação que o pasmado conde fizera do militar, que o deixára a dormir em Albergaria despedindo-se em latim. Instou Malafaya em meudas averiguações, ás quaes o conde respondera sinceramente, dizendo mesmo as duvidas, que elle puzera, no tocante ao amor de Maria Henriqueta.

Isto bastou á desconfiança e penetração de um pae precavido.

O conde foi apresentado a D. Maria das Dôres, e teve o infortunio de acarear desde logo a mais formal das antipathias. A fidalga tinha odio a homens ruivos e baixos: e o conde era baixo e ruivo. Não detestava menos os pés grandes e o simonte; e o conde, sobre ter pés grandes, aspirava com desgraciosa pretenção o aroma do simonte de uma caixa de ouro com um relevo de cupido, a desfechar dardos, de dentro de uma mouta de flôres, sobre umas pastorinhas que teciam grinaldas de rosas. Foi a caixa muito admirada da numerosa turba dos convidados, e passou ás mãos de D. Maria.

—Essa caixa, minha senhora—disse o conde—esteve já nas mãos mais lindas de França.Madame la duchesse de Choiseulhonrou-me muitas vezes tomando pitadas da minha caixa.{117}

—Quem?—disse D. Maria.

—A senhora duqueza de Choiseul.

—Tem as mãos muitos lindas?—replicou a fidalga.

—Lindissimas, minha senhora.

—Mas o nariz, se toma tabaco, não póde ser muito lindo... Aqui tem a sua caixinha, com o seu Cupido e as suas pastorinhas, sr. conde. É um traste muito bonito; mas o tabaco dá-lhe ares de um deposito de immundicie com paredes de ouro.

—Que grosseria!—murmurou Gonçalo ao ouvido da senhora.

D. Maria das Dôres olhou de través o marido e disse:

—Temos historia....

Gonçalo, inimigo das historias de sua mulher, voltou-lhe as costas, e prendeu a attenção ás variadas conversações dos fidalgos. D. Maria pediu licença, saíu da sala, e foi ajudar a vestir a filha com o mais roçagante e pomposo vestido de veludo escarlate, que trouxera de Lisboa.

—Quero que te admirem!—dizia ella pregando-lhe as suas melhores joias, e estrellando-lhe o toucado de pedras, e coalhando-lhe o seio de scintillantes colares.

Fez-se um silencio de egreja em festa de paixão, quando Henriqueta assomou ao limiar da sala. Era da etiqueta que os cavalheiros se adiantassem, em meia-lua, a recebe'-la ao centro do recinto; mas o espasmo collára aos tapetes os velhos e os novos fidalgos. O conde, a quem maior obrigação de cumprimento impunha o seu especial logar entre todos, deu alguns passos, como quem rompe um minuete, e acurvou-se com o braço direito{118}afastado do tronco e a mão esquerda sobre o coração, que lhe dava corcovos no peito. Maria baixou ao chão os olhos, inclinou-se um pouco, e esperou que seu pae a conduzisse aos coxins do canapé. A garbosidade com que ella sacudiu a cauda para sentar-se de golpe, fez que muitos velhos puzessem os olhos no céo e os mancebos relanceassem olhares rancorosos sobre o conde. Offereceu Gonçalo ao hospede a cadeira mais nobre das quatro que ladeavam o canapé, e o fidalgo, que tratára duquezas de mano a mano, viu-se em apertos de acanhamento, antes de sentar-se milagrosamente no rebordo, da cadeira baixa, em que a seda do calção, que vestira nos Carvalhos, parecia rebentar pelas costuras repuxadas.

—Tive dois dias de boa jornada, minha senhora,—disse o conde gaguejando.

—Sim?—respondeu Maria—muito estimo que não tivesse incommodo.

—E falei muito a respeito de v. ex.ª com um companheiro de jornada...

—A meu respeito?... Agradecida ao sr. conde por se lembrar de uma pessoa que não conhecia.

—Ora se conhecia!

—A mim? Pensei que nunca me vira...

—Mas vi o retrato que é o mesmo; só não é tão lindo.

Ficou satisfeito de si: cuidou que nos salões de Versailles nunca se dissera fineza mais acrisolada no bom gosto.{119}

—O meu retrato!—redarguiu Maria—Não cuidei que lhe fosse conhecido...

—Aqui o tenho sobre o coração em caixilho de ouro e perolas. Foi seu excellentissimo pae que m'o deu, e não podia dar-me melhor cousa senão o objecto amado de que me deu a copia.

Outra fineza subtil que o poz em admiração de si proprio! No semblante de Maria relampagueou um rubor de ira, que passou, deixando, como vestigio, uma visagem de tedio, que não mais se desfez nas tres horas que durou seu supplicio.

Da sala passaram á casa da ceia.

Maria das Dôres que, por acinte, se assentára ao pé da filha, durante o colloquio da sala, ouviu o conde e condoeu-se entranhadamente d'ella, protestando resgata'-la da continuação do seu inferno n'aquella noite. Estavam os cavalheiros em pé ao redor da mesa, esperando que as senhoras viessem tomar logar, quando D. Maria das Dôres entrou, dizendo que sua filha, além de estar habituada a não cear, sentia um leve incommodo que a privava de vir á mesa, e fazia por isso os seus cumprimentos respeitosos ao sr. conde e mais cavalheiros, recolhendo-se á sua camara.

Gonçalo reclinou a vista á esposa, como quem diz:

—Bem vos percebo, a ti e mais a ella... Quem diria?

O conde de Monção não provou bocado. Vinham-lhe á garganta uns suspiros tão dos seios d'alma, que, reduzidos a verso endecassyllabo, dariam mais sonetos que{120}os de Petrarcha. Desvelava-se em servi'-lo Gonçalo Malafaya, e nem com a mais loura aza de perdiz lhe aguçou o appetite! Os brindes eram todos em honra d'elle, e elle agradecia humedecendo os labios no rebordo do calix, e suspirando como quem dá o que póde na muda eloquencia do coração.

E Maria das Dôres levava o lenço branco aos labios para sorrir; e o padre capellão benzia-se da abstinencia do conde, e benzia-se tambem mentalmente da gulodice de alguns commensaes.

Entrou o conde no seu aposento, e passou a noite em claro, em mudas exclamações ao retrato de Maria. Ergueu-se ao romper d'alva, e correu uma de suas janellas, que se abriam de face com o ridentissimo panorama de Gaya, S. Christovão e Candal, posto que o templo da Sé lhe cortasse um retalho das bellezas. Estava elle de pouco encostado ao peitoril da janella, quando viu assomar na extrema da rua um sujeito de mui boa presença, e logo reconheceu n'elle o companheiro de meia jornada. Esperou que se avisinhasse para lhe falar; mas o tenente que, de longe o vira, cortou para a primeira travessa, contente de a ter topado na má conjunctura de ser conhecido.

Visitou Gonçalo Malafaya o conde na ante-camara, e este, trocadas as saudações do estylo, disse:

—Ora, dou-lhe parte que vi o sujeito, que me deixou em Albergaria!

—Viu?! Está bem certo d'isso? Onde o viu?

—Vinha na direitura d'esta casa; mas metteu alli{121}por outra rua, e não me deu tempo de perguntar-lhe por que diabo me deixou. Em quanto a mim o homem ia para o quartel!

—Aqui, atraz da Sé, não ha quarteis...—disse Gonçalo com meditativa anciedade.

—Em que está v. ex.ª a cogitar? Parece que ficou assim a modo de pensativo!

—Não, sr. conde. Eu tenho estes modos distraídos; mas nada significam.

—Vamos a falar—tornou o conde—a respeito do casamento. Pela minha parte, meu prezado amigo, está o negocio feito. Veja v. ex.ª se quer que eu trate d'isso, para se abreviar, quanto antes. Sua filha é uma deusa. Acredite que ella ha de ser feliz a não poder ser mais. Hei de adora'-la toda a minha vida, e morrer por ella, sendo necessario. O grande caso é saber se ella gosta de mim; mas achei-a que me ouvia com muito agradaveis olhos, e que estava contente ao pé de mim. Depois lá me affligiu que ella não fosse á ceia! Olhe que tinha aqui na garganta um talo, sr. Malafaya! Bem viu que estive sempre a pensar n'ella!

Era sincero o conde. Por onde quer que andou, as mulheres que viu, e a quem deu horas de folgada farça, nenhuma o impressionou. A sua primeira paixão era Maria Henriqueta, paixão que rompeu violenta e inopinada como as irrupções das crateras, como o corisco das calmas de agosto. Desde que a vira, perdeu a consciencia de seus meritos, o que elle denominava o seu besouro diabolico para fascinar mulheres. O suspirar á{122}ceia, e o velar no leito era a duvida, a excruciante duvida, unico besouro infernal e roedor, que se apascenta em coração humano, semelhante ao ciume na peçonha. Tinha trinta e cinco annos o conde de Monção, edade critica, em que os fructos do amor ou vingam, ou apodrecem. Se vingam, a vida futura do homem está definida para sempre; se apodrecem, as particulas corrompidas giram no sangue, gangrenam o coração, segregam rios de lagrimas, e ahi é então o morrerem afogadas todas as esperanças, e o caminhar do homem ao seu fim com o peso, o enormissimo peso de um cadaver moral. E as compleições sem o sexto sentido do ideal, desmelindradas, rusticas, e avessas a toda a poesia, são por igual sujeitas á lei commum do amor, que levanta á gloria, e engolfa nos tremedaes do crime. Terrivel é esta raia que nivella o talento com a estolidez! Parece que está na materia a faisca universal, que pega os grandes incendios: e os poetas—bem hajam elles!—tão aporfiados andam em nos persuadirem da espiritualidade do amor! Deus sabe o que é. O conde de Monsão é que não sabia dizer ao certo que tenazes candentes lhe apertavam no seio os pulmões suspirosos e que unhas de abutre lhe arregaçaram as palpebras veladoras! Então lhe acudiu á memoria, para flagela'-lo, o dialogo com o militar; e vieram apprehensões, e os retraços dos menores gestos do companheiro, e a significação mysteriosa de palavras, então ouvidas desattentamente. Estas combinações cresceram de ponto, quando viu no rosto de Gonçalo signaes de assustadora suspeita, com referencia{123}á apparição do militar. Recolhido em si, engrandeceu o vulto das desconfianças, e enterrando no seio o estilete das peores conjecturas achou lá o pensamento sanguinario de matar seu rival, fosse elle quem fosse.

Quando os nossos rivaes acham isto no peito, é prudente teme'-los.{124}

{125}

Gonçalo disse a Maria das Dôres:

—Tenho quasi a certeza de que está no Porto o tal bigorrilhas de Mirandella.

—Deixá-lo estar. Cada qual póde estar onde quizer.

—Assim é; mas eu receio que elle viesse chamado por Maria Henriqueta. Acompanhou até meio caminho o conde, e já hoje esteve perto d'esta casa.

—Póde muito bem ser. E d'ahi? que queres tu que se lhe faça?

—Quero que se realise com a maior brevidade o casamento de Maria com o conde.

—Pergunta-lh'o a ella, e vamos a isso. Casar é muito simples. Temos aqui o abbade á porta, e a egreja defronte.

—Isso não é responder. Tu já sabes que Maria não quer o conde.

—Pois se o não quer, tambem eu não. Diz ao conde que trate de sua vida.

—Mas a minha palavra está dada.{126}

—Déste o que não podias. Deixa-me a mim o encargo de responder pela tua palavra. Eu falarei com elle.

—É melhor que fales com tua filha, e a convenças.

—Deus me livre d'isso... Eu é que estou convencida de que minha filha iria ser desgraçadissima com o conde, a mais embirrenta creatura que eu tenho visto! Como descobriste tu aquelle palerma? Tens dedo, realmente! Faz vontade de lhe offerecer a cabeça de um macho para enfeitar a corôa de conde!... Cousa assim!... E, sobre tudo, ruivo, pés grandes, anão dos assobios, e tabaqueiro! Deus me defenda de tal genro!

—Tenho entendido...—disse Gonçalo com resignada amargura—Estragaste-me Maria Henriqueta!

—Estraguei-t'a?... Estragado tens tu o juizo!... Eu logo vi que os frades e as freirinhas te davam cabo da razão! Se fosses rapaz, e visses um homem da laia do conde, escarnecia'-lo; como estás a envelhecer, entendes que está alli um marido pintado para a tua filha!... Deixa a menina, deixa-a viver, não lhe tolhas o seu futuro com os teus calculos de a engrandeceres! Dá-lhe alegria, não lhe dês titulos... N'uma palavra, diz tu, ou deixa-me dizer ao homem que Maria Henriqueta não o ama.

—Diz muito embora; mas fica sabendo que ha de entrar n'um convento tua filha.

—Pois sim; o que tu quizeres, que ella tudo acceita menos semelhante marido. Irá para um convento, e póde ser que eu vá com ella. Vês-te assim livre de ambas: e{127}depois vae para as grades entreter-te com as delambidas santinhas, que nós havemos de louvar a Deus o favor de uma cella onde não chegam figurões da laia do teu conde.

E terminou, por esta vez, o ternissimo colloquio.

Maria Henriqueta faltou ao almoço, e foi desculpada por sua mãe, sendo por falta de saude que faltava. O conde, industriado pelo coração, que é um grande mestre de cerimonias, pediu a Gonçalo Malafaya licença para mandar saber directamente da menina, pela creada grave d'ella. Tomou o comprimento D. Maria das Dôres, e voltou, em nome de sua filha, muito penhorada das attenções do illustre hospede. Tinham que vêr e de que rir estas etiquetas pausadas, pautadas e mesuradas como um ritual de officio de defuntos.

Em quanto D. Maria das Dôres, depois do almoço, ficou á mesa conversando com o conde, Gonçalo aproveitou o azo de entrar ao quarto da filha, que por um cabello não foi surprehendida a escrever a oitava pagina de uma carta a Filippe Osorio. Compuzera-se o pae de boa sombra, e proposito de melhores palavras. Simulou acreditar nas queixas que a privaram de ir á mesa, e d'ahi derivou a mostrar que as inquietações do espirito eram muito nas molestias do corpo. Fez o elogio da paz, e da voluntaria deixação das velleidades do animo as quaes vinham a ser liberalmente compensadas com os doces cuidados domesticos, sob os olhos carinhosos de um marido, que, ao mesmo tempo, abrange a ternura de pae, e a profunda estima de irmão. D'aqui saltou,{128}pouco methodico, para os gabos enthusiastas, que o bondoso conde lhe estivera fazendo da formosura d'ella. Deteve-se n'este assumpto, sem adivinhar a duplicante nausea com que a filha o estava ouvindo. Era logico o repisar de novo na materia odiosa do casamento. Vestiu com quantos enfeites soube de sentenças e moralidades as suas intenções. Realçou os brilhos de uma alta posição na sociedade, e de uma corôa de condessa. Matizou-lhe as delicias da côrte, para onde o conde resolvia mudar sua residencia, e assumir no paço as brilhantes occupações de seu pae e avós, podendo sua esposa considerar-se desde logo primeira dama da rainha, afóra a vantagem e gloria de educar e elevar seus filhos á sombra de reaes telhas.

Ouviu Maria a estirada parlenda em silencio, silencio agro de represadas lagrimas, ancias de lançar-se de joelhos aos pés do pae e abrir-lhe a alma, e deixar lá ver a imagem do homem, que para todo sempre a maniatara ao seu destino.

—Que respondes, Maria Henriqueta? Não conseguiu teu pae mover-te? Resistes aos rogos que te faz o teu bom e sempre extremoso amigo?

Maria respirou em pranto, e exclamou quanto os soluços lhe permittiam:

—Não posso, meu pae, não posso... Deus sabe que eu lhe tenho pedido desde hontem a morte!...

—Basta;—disse severamente o pae. Sabes o teu destino? Sabes que has de entrar no mosteiro de Arouca?{129}

—Entrarei, meu pae.

—E que has de lá estar emquanto eu for vivo?

—Estou prompta, se é sua vontade que eu vá.

—Não é vontade: é violencia que fazes ao meu coração. Pensas que eu poderia ver em redor de minha casa o homem de Mirandella? Cuidas que o rosto de um pae é insensivel ás ignominias do coração de sua filha? Não coras de tal namoro; mas coro eu por ti, coram em ti meus avós, uma série de senhoras soberbas de seu nascimento, que casaram com eguaes por não poderem elevar-se mais alto. Sei que está no Porto esse aventureiro. Toda a minha prudencia será necessaria para o não mandar chibatar pelos meus creados. Não o farei, porque eu arrisco muito no escandalo, arrisco a tua dignidade, que é a minha.

E, baixando a voz, continuou com resguardo:

—Contas com a protecção de tua mãe? Estás bem aviada! Verás por que estradas ella te conduz á desgraça. Ia a aborrecer-te, com pejo o digo, e fugiste d'ella para o meu coração, que te acceitou. Agora foges de mim para ella. Deixa-te ir. Cavae ambas o abysmo da minha vida e da tua felicidade.

Saindo em direitura á sala do almoço, onde a fidalga ficára conversando com o hospede, parou Gonçalo para ouvir o que diziam, temendo que sua mulher estivesse aniquilando as esperanças do noivo. Desconfiou com acerto. Eis aqui a parte do dialogo que elle ouviu:

—São cousas muito melindrosas, sr. conde—Dizia D. Maria das Dôres respondendo ao titular.—O amor não{130}vem depois, se não tem já vindo antes do casamento. Está v. ex.ª enganado pela inexperiencia. Os experimentados é que sabem o que é casar na esperança de alcançarem do tempo o milagre, que não fez o coração. Tão infeliz seria v. ex.ª como a minha filha. O desagrado de uma situação contra vontade, é que faz as impaciencias do genio, as irritações que são o fel de quem o dá aos outros. Meu marido casou violentado comigo; e eu fui violentada a casar com elle. O resultado poderia elle dizer-lh'o, sr. conde, se não houvessem uns certos infortunios, que os maridos se pejam de confessar, ao mesmo tempo que se mostram de todo despreoccupados de outros infortunios, que são as verdadeiras vergonhas. Se sou infeliz porque fui casada á força, ou por obediencia, que culpa tenho eu de o ser? Porque não hei de eu dizer bem alto que o sou, a fim de ser exemplo aos paes, e torna'-los brandos, se as filhas, n'este ponto do casamento, lhes não obedecerem cegamente? A desgraça ha de ser util a alguem, penso eu, sr. conde; e por isso bom é que a minha desgraça seja util a minha filha, e a v. ex.ª. Renuncie á idéa de casar com Maria Henriqueta. O conde de Monção ha de achar uma digna mulher onde a desejar, formosa, rica, e nobilissima.

Esteve o conde pensativo alguns segundos, e respondeu desempenadamente:

—Não póde ser.

—Não póde ser o quê?!—redarguiu D. Maria, com a fronte avincada.{131}

—Hei de casar com a menina, porque a vontade do sr. Gonçalo Malafaya é que ella case comigo.

Era muito affrontosa para Maria das Dôres esta brutal saída. Levantou-se ella de um salto e exclamou:

—Não casará, sr. conde, porque é vontade minha que Maria Henriqueta faça a sua vontade.

—V. ex.ª tem um genio dos meus peccados!—atalhou o conde com um comedimento que, em outro individuo, parecera zombaria.—Ora queira sentar-se, minha senhora... Isto não vae a ralhar.

—Sr. conde, eu tenho ordens a dar no governo da minha casa. Vou mandar-lhe meu marido, e peço desculpa.

Gonçalo estava como a querer esconder-se de si proprio, no escuro de um corredor, onde as palavras sonoras da prima lhe iam apertar a alma. O homem tinha pejo de mostrar-se ao conde, e repugnancia em confirmar o que sua prima tinha asseverado. Era, porém, improrogavel a demora, desde que o hospede ficou sósinho, sentado á mesa, a contar os palitos de rama, que crivavam um javali de prata, imagem do coração d'elle, na analogia dos espinhos, e talvez na brava natureza da alimaria.

Entrou Gonçalo com aspecto de réo, se não era antes o exterior de grande amargura.

—Pelo que vejo—disse o conde—sua senhora oppõe-se ao casamento! V. ex.ª fez mal em m'o propôr antes de saber, se era vontade...

—Minha prima—respondeu urbanamente o fidalgo—verdadeiramente{132}não se oppõe; é que sentiu, melhor que eu, a indisposição de Maria Henriqueta para o casamento, e...

—Então é a menina que me rejeita?

—Não o rejeita, sr. conde; recusa casar por emquanto.

—E v. ex.ª porque m'o não disse ha mais tempo?! Eu fui chamado para isso; e só agora é que sua filha acha cedo para casar?! Entre homens da nossa qualidade, estas cousas tratam-se mais pontualmente.

—Recebo com humildade as censuras, que v. ex.ª me fez—tornou Gonçalo, ferido nos seus brios; mas soffrendo a offensa, em castigo da leveza com que decidira do destino da filha—Pensei que Maria Henriqueta via o mundo pelos meus olhos e sentia pelo meu coração. Enganou-me o amor de pae, e o desejo de lhe dar esposo superior aos seus merecimentos d'ella. Minha filha vae entrar n'um mosteiro; é a satisfação que eu posso unicamente dar a v. ex.ª.

—Deixe-se d'isso!—atalhou o conde—Nada de mosteiros! Se a duvida do casamento está na vontade da menina, deixe-a ao tempo, que ella mudará de idéas a meu respeito. Ponto é que fale com ella, e lhe vá ganhando o coração pouco e pouco. Pois se a menina só me viu uma vez, hontem á noite, como ha-de ella já gostar de mim?! Deixe-me conversar com sua filha mais algumas vezes, sr. Malafaya, e o resto cá fica por minha conta.

—Da melhor vontade, sr. conde. Agora mesmo eu{133}dou ordem a minha filha para ir á sala. Queira v. ex.ª vir lá espera'-la.

Quando Gonçalo voltava de acompanhar o conde á sala, saíu-lhe a esposa ao encontro, e disse-lhe:

—És tolo, meu querido primo! Desconheço o teu antigo entendimento e desembaraço!

—Que queres dizer n'isso?

—Quero dizer que reduzes tua filha a achar-se a si mesma ridicula! Que vae ella a fazer á sala? Que tem ella que dizer a esse homem, que eu não lhe dissesse já?

—Que o despersuada ella mesma.

—Se ella o não persuadiu de cousa nenhuma, com que razão a forças a ir despersuadil'-o? Tu desces da tua posição, e obrigas a descer tua filha!...

Gonçalo sacudia vertiginosamente os braços, de enraivecido contra si proprio, e de angustiado na cinta de ferro, que lhe tolhia todos os expedientes.

Maria das Dôres condoeu-se do marido, e ajuntou:

—Maria irá á sala, se assim o queres; mas hei de eu ordenar-lhe que vá, e tu has de confirmar o que ella disser com o teu silencio. D'esta irrisoria situação só a franqueza nos póde salvar depressa.

Annuiu Gonçalo, indo para o seu quarto, e fechando-se para poder chorar sem testemunhas.

Foi Maria das Dôres ao quarto da filha, onde se deteve alguns minutos. O conde acabava de encanellar os bofes do peitilho ao alteroso espelho do tremó dourado, quando Maria Henriqueta entrou de rosto alto e o afogueamento de uma colera expansiva no rosto.{134}

Sentou-se, e esperou que falasse o conde.

—Está melhor, minha querida senhora?—disse elle titubiando.

—Estou boa, sr. conde, e v. ex.ª parece-me excelentemente saudavel.

—Não dormi cinco minutos, com o cuidado que me deu o seu incommodo de hontem á noite.

—Mal empregado cuidado!... mas muito mais por isso lhe agradeço a prova de estima.

—E de amor apaixonado, minha senhora.

—Esse sentimento é que eu de todo desmereço, por que não lh'o posso retribuir. Devo dizer a v. ex.ª que vou entrar n'um mosteiro, em satisfação á vontade de meu pae. É aprazivel para mim satisfaze'-lo de um modo, quando me é de todo impossivel satisfaze'-lo por outro. Meu pae deve merecer a benevolencia do sr. conde pelos esforços que empregou em convencer-me a ser esposa de v. ex.ª. Resisti, por que não posso. A dignidade de meu pae está salva; e eu salva me considero da responsabilidade de fazer desgraçado o sr. conde, por condescendencia com a vontade de meu pae.

—Ahi ha outra cousa, minha senhora...—atalhou o fidalgo.

—Que póde haver?

—V. ex.ª ama outro homem.

—Amo.

—Ah!... diga-me isso... Provavelmente é mais rico e mais fidalgo que eu?

—É um homem. Que lucra v. ex.ª em saber-lhe as{135}qualidades, que o meu coração não discute? É um homem, que eu amo, ha cinco annos, e que amarei até á morte.

—Isso ha-de passar com a reflexão, minha senhora. Póde ser que elle não seja tão digno de v. ex.ª como eu, nem a ame com tanto fogo.

—Será minha a infelicidade; basta-me, porém, ser amada como sou.

—Pois eu queria ter o gosto de conhecer o meu ditoso rival...

—Com que fim?

—Queria ver-lhe a cara... Desconfio que elle seja um militar que...

—Que o acompanhou algumas leguas? É esse de certo.

—Está bom; fico sciente... Escolheu bem, a senhora, não tem duvida... É um homem sem nascimento, um militar de fortuna pelos modos...

—É um militar que começou por onde começam os generaes mais nobres. Quando eu o conheci e amei era cadete; e os cadetes teem nascimento; não o pódem ser sem justificarem a nobreza de quatro avós. E de mais, sr. conde, são cousas escusadas estas. Eu retiro-me agradecida ao sentimento que lhe causou a minha pouca valia, e desejo que v. ex.ª encontre n'outra esposa a fortuna que eu de certo não posso dar-lhe.

Levantou-se, fez uma mesura de espavento, como era estylo, e saíu magestosa, afastando a cauda com garbosa arrogancia, cujas tradições ainda se vislumbram{136}nas grandes tragicas sobre o tablado, em que a vida, e a mulher, e os ademanes se conservam nos sublimes moldes dos antigos tempos.

Vae agora o mundo tão deslavado e peco, a dignidade senhoril está pautada por esquadria tão arrazada, que, em caso identico, a menina mandada a uma sala entender-se com um conde ácerca da impossibilidade de ser d'elle, ou não ia lá, ou era necessario ir lá busca'-la desmaiada n'um insulto flatulento.{137}

N'essa mesma hora, o conde de Monção, digno de si e de seus avoengos, mandou fechar as malas, e carregar a bagagem; vestiu-se apressadamente de jornada e saíu da camara á sala para despedir-se de Gonçalo Malafaya, e das duas senhoras. Soube o fidalgo, ainda encerrado no quarto, os aprestos de partida do hospede, e nem animo teve de lh'os estorvar: tamanha era sua vergonha que já o consolava a saída do conde, vexado por elle. Tanto, porém, crescia o sentimento do seu despundonor, quanto, augmentava o da aversão á mãe e á filha.

Chamado segunda vez, foi Gonçalo receber as despedidas do hospede de vinte e quatro horas incompletas. Já encontrou na sala a prima, com prazenteiro sorriso, e a filha de tranquilla apparencia, recebendo os agradecimentos do infeliz fidalgo, que movia mais á piedade que á irrisão.

Á piedade!... Quereria o conde, por ventura, a piedade de alguem? Os amores desditosos só acareiam dó{138}para as victimas resignadas. Umas ha que de antemão se desopprimem em traças de vingança, e essas mais são para incutir malquerença que pena.

O adeus de Gonçalo Malafaya foi um aperto de mão convulso. O conde, para mostrar-lhe intelligencia de muda expressão, disse com sombra de riso:

—Não tem duvida, sr. Malafaya... O mundo dá suas voltas; veremos onde isto pára!...

Teria o repudiado noivo caminhado uma legua na direcção do seu solar no Alto-Minho, quando o coração lhe transmittiu ao pulso esquerdo raivoso impeto de sustar as redeas, e revirar a cabeça do cavallo para o Porto. Os dois mochilas deram praça ao galope desapoderado do ginete, e seguiram, notando mais uma das extravagancias do amo.

Foi o conde apear n'uma estalagem, e d'alli avisou um fidalgo, seu primo, que lhe preparasse aposentadoria em sua casa. Este successo, na pequena roda dos fidalgos do pequeno Porto de então, fez grande ruido, e chegou aos ouvidos de Malafaya como se por elles entrasse um dardo a ferí-lo em seu pundonor. Inexgotavel calix o do atormentado fidalgo! Nem esposa, nem filha, nem a sociedade! Todos e tudo conjurado a levá-lo ao apuro da desesperação!

Ao outro dia, contavam umas ás outras as familias nobres que os Malafayas tinham vexado o conde de Monção, despedindo-o na ante-vespera do seu projectado e decidido casamento com Maria Henriqueta. Vingou a geral opinião de que o conde fôra indignamente ultrajado,{139}e Gonçalo um baixo offensor para tão alto personagem. Ninguem inquiria, nem queria saber se Maria Henriqueta rejeitára o marido. Era pormenor, que humilhava e desauctorava os paes diante de suas filhas, uma semelhante causa. Buscaram-se, inventaram-se outras, todas falsas, e em menoscabo de Gonçalo e de D. Maria das Dôres.

Resolveu o fidalgo saír do Porto com sua familia a residir temporariamente em uma quinta do Douro, e de lá enviar a filha ao convento de Arouca.

Empeceu Maria das Dôres o plano, contradizendo-o com a precisão de mostrar aos seus detractores que alli estavam a pé quedo recebendo os tiros da calumnia; ajuntava ella que o mundo, vendo-os fugir, diria que elles tinham ido esconder a sua indignidade na provincia. E rematou d'este theor:

—Se te julgas bem condemnado pela opinião dos nossosamigos e parentes, vae tu para o Douro. Eu e Maria Henriqueta não damos o campo á inveja diffamadora. Ficaremos; e quando elles se calarem, iremos para onde quizeres. Em quanto á ida de tua filha para Arouca, esse é o desejo d'ella; mas é preciso que penses se a honra de Maria Henriqueta será mordida na sombra por estes rafeiros e rafeiras, dando tu a isso occasião, com encerrá-la por castigo n'um convento. Castigá-la, porquê? perguntará o mundo; e, se tu disseres que a encarceras por rejeitar a mão do conde, o mundo fará os seus commentarios de modo que o tal desdouro caia sobre ella como sobre ti. Pensa, Gonçalo, e não precipites{140}uma resolução, em que temos muito a perder; e a ganhar não sei o quê. Um convento é uma casa com umas portas muito grossas; mas as portas abrem-se de par em par quando as pessoas, que não fizeram votos de lá estar, querem sair.

A força moral de Gonçalo estava exhaurida. O homem, desvirtuado ante si mesmo, deixava-se já ir no pendor da fatalidade. Não contrariou a mulher: não quiz mesmo ser ouvido em nada; prohibiu até que ao seu quarto entrasse o som dos boatos affrontosos, que avultava de dia para dia.

O conde de Monção não voltára ao Porto para deshonrar Gonçalo nem assoalhar o seu desdouro.

Procurou de saber em que quartel ou casa encontraria um tenente de cavallos, vindo de Lisboa tres dias antes. As pessoas, empenhadas n'esta averiguação, disseram-lhe que, no troço de cavallaria 6, destacado no Porto, entrára um tenente transferido de Lisboa, moço nobre de Traz-os-Montes. Deram-lhe o nome, a residencia e as miudezas desnecessarias.

Filippe Osorio descia as escadas do seu quartel, e viu o conde em attitude de entrar no pateo.

—O sr. conde!—disse Filippe com amigo sorriso.

—É verdade, meu caro sr. tenente; sou eu mesmo em pessoa que venho contar-lhe o resto da historia, se é que a não sabe.

Peço ao leitor que marque á margem do livro, com uma cruz, este dizer do conde, porque não acha outro, que valha a nota.{141}

—O resto da historia?!... Refere-se v. ex.ª áquelle casamento, que fez favor de me contar ha dias?

—Pois então!

—Ah! agradeço extremamente a confidencia. Queira subir.

—Não subo.

—Como lhe aprouver, meu caro sr. conde de Monção. Não teimo, porque a minha casa é uma barraca de campanha, e tenho cadeira e meia como ornato. Se o não molesta a minha companhia, vamos andando e conversando até ao quartel, que tenho obrigações a cumprir.

O conde encarou-o com arremesso e disse:

—O senhor está certo de eu lhe dizer, quando o senhor me falou n'um amante da filha de Gonçalo Malafaya,que ou eu ou elle?

—Lembra-me d'isso, nem era possivel esquecer-me cousa de tanto porte, dita por v. ex.ª.

—Não esteja a brincar comigo, sr. tenente! Parece-me que zomba!

—Eu!... O sr. conde é exquisito! Zombar eu de cousa que não merece a zombaria!

—O senhor é o homem que D. Maria Henriqueta ama. Não o negue, que, m'o disse ella.

—Mesmo sem lh'o ella dizer, eu não o negaria. Adiante.

—Adiante o que?

—Vamos ao fim da historia, que eu tenho urgencia do tempo.{142}

A historia acabou-se. Agora venho dizer-lhe que não será minha nem sua Maria Henriqueta. Juro-lh'o pelo meu sangue e pelo meu nome. Um de nós ha-de morrer.

—E o que viver póde casar com ella, não é assim? Eu cuidei que v. ex.ª tratava de a matar a ella, o que seria muito mais feio e triste. Em quanto a mim, sr. conde, posto que me sinta um pouco amante da vida, se fôr sua vontade arrisca'-la-hei contra a sua espada, por lhe dar gosto. V. ex.ª já fez favor de me dizer que teve em França muitos duellos, e eu sinceramente lhe digo que não tive ainda nenhum. Todas as vantagens são do meu contedor. Estou ás ordens, depois de cumpridas as do meu regimento. Está satisfeito?

—Os seus fóros?

—Os meus fóros de fidalgo, pergunta?

—Sim.

—Quer v. ex.ª saber se me ha de matar como fidalgo ou como peão?

—Não me meço com peões.

—Isso agora é uma impertinencia, sr. conde! Afflige-me esse seu zelo de gentil-homem, e por lhe conhecer a boa vontade que me tem, usarei a immodestia de lhe dizer que v. ex.ª sabe quem eu sou, nem eu creio que denegue fé á dama, que lhe disse meu nascimento e educação. Agora é minha vez de lhe perguntar pelos seus fóros, sr. conde de Monsão.

—Os meus... fóros? pergunta-me o senhor a mim...

—Pelos seus fóros de honra, os fóros da sua dignidade,{143}os fóros da sua vergonha. Pergunto a um homem vil com que direito me vem pedir contas a mim do desprezo com que foi recebido por Maria Henriqueta. Pergunto ao desprezivel conde de Monção, se é mais estupido que abjecto, vindo provocar a duello um homem, que mal conhece, por que me vê entre si e uma senhora, que lhe repelle a philaucia e as grosseiras tentativas de a fazer perjura. A tal provocador é natural que eu pergunte pelos seus fóros de honra, de dignidade, e de vergonha. Se me elle responder com o espadim, hei de sacudir-lh'o das mãos e deshonrar-lh'o debaixo dos pés. Sr. conde, um miseravel da sua qualidade não péde contas a homens de bem; mata-se, e vae da'-las a Deus, quando a ignominia do mundo lhe pesa no vacuo da cabeça. Agora, meu fidalgo, deixe-me ir trabalhar no meu cargo, porque eu sirvo o rei, sirvo a patria, e poderei dar ámanhã o sangue por ella, em quanto v. ex.ª, cevando na inercia os seus estupidos orgulhos, quer desenfadar-se brincando com o credito e com o socego de uma senhora, que eu prezo como irmã, e v. ex.ª deseja como mulher, para desempenhar a sua casa destruida em dissipações. Nem este supremo desaire lhe falta! Até á vista!

O conde de Monção estava pertencendo ao dominio da farça. Olhos arregalados e queixo pendido é a maxima expressão do espanto. No conde era pavor a ridiculissima compostura ou descompostura de feições. A cada palavra da crescente apostrophe, os brios de duellista europeu derretiam-se em frigido sangue que lhe arripiava{144}as arterias. Tinha razão o homem, que os olhos de Filippe Osorio afuzilavam raios, e os labios tremiam em crispações, que pareciam ascuas de lume. O conde ignorava que as idéas se podessem expressar d'aquelle modo, em bocca de um simples tenente. Ante si nunca elle vira um inimigo, jogando contra elle as armas do escarneo, e amostrando ao mesmo tempo outras, capazes de servirem á ferocidade. «Isto é um assassino!» dizia no fôro da sua consciencia o conde para cohonestar a cobardia do silencio. Cobardia não é o termo proprio. Cobardes são aquelles que sossobram na defeza de sua justiça. Outros, que atacam direitos d'outrem, e fogem aos aggredidos, que lhes fazem rosto, esses são apenas infames na aggressão; e, quando fogem, prestam involuntaria homenagem á justiça. Pode-se jurar que o conde de Monção não meditava n'estas distincções, ao retirar-se do local em que o deixára petrificado Filippe Osorio. Circumvagou os olhos, como a certificar-se de que ninguem presenceára o insulto, e foi seu caminho murmurando por entre os dentes cerrados:

—Tu m'as pagarás, ou eu não seja quem sou!{145}

Correspondiam-se, diariamente Maria Henriqueta e Filippe. Bafejava-os a fortuna na pessoa de Eugenia, que a certa hora da noite dava e recebia as cartas pelo muro do jardim. Eram felizes porque amavam, esperavam, e confiavam nos milagres da sua constancia.

O pae de Filippe era pessoa de grandes relações com a fidalguia transmontana. Os mais superciliosos cavalheiros prezavam-se de o chamarem primo. Todos se lhe prestavam a cooperar para persuadir a Gonçalo Malafaya o acerto do casamento com um moço tão bem prosperado em sua carreira militar, e de nascimento assaz illustre para emparelhar, sem desaire, com os mais qualificados no reino.

A fidalguia empenhada acertou de chamar a si os parentes de D. Maria das Dôres, que eram tambem os de Gonçalo; mas preponderavam n'ella mais. Confluiram á mãe de Henriqueta cartas de muitas senhoras suas amigas da mocidade, e das suas mais intimas no mosteiro de Arouca. Uma açafata de D. Carlota Joaquina escreveu-lhe{146}em nome de sua ama. É onde podia chegar a influencia do fidalgo de Mirandella, mais por amor do filho que da riqueza da noiva.

Maria das Dôres inclinou-se a favor de Filippe, e mostrou ao marido a petição da açafata. Gonçalo Malafaya, quando tal viu, soffreu um accesso de vertigem furiosa, e rasgou a carta entre os dentes. D. Maria teve medo dos arremessos do marido, e deixou-o bravejar e urrar contra a conjuração dos seus matadores.

Maria Henriqueta, amoravel com seu pae por que tinha a trasbordar o amor do peito, affrontou-se com o medo, e foi supplicante aquietar-lhe os impetos. O velho repelliu-a com arrebatada virulencia.

Velho lhe chamei eu pela primeira vez: estava-o deveras; sem um cabello negro, e não tinha ainda quarenta e oito annos! Fibra no rosto uma só não tinha lisa do arar do fogo interior. Abaixo do rebordo das orbitas parece que o absyntho das lagrimas lhe calcinára a pelle. Inclinava-se já para o chão, como a pedir á terra que o acolhesse e escondesse do seu mau anjo! Nas horas de solidão, poderiam ouvi'-lo exclamar muitas vezes: «Ó Beatriz de Noronha! tira-me este calix dos labios, ou verte-m'o de uma vez no coração, para que eu morra de uma só agonia!»

Que flagello de vida no seio da riqueza! que inferno n'aquelle palacio, arreado de sedas, de librés, de equipagens, de tudo que morde a inveja, e conjura a pobreza contra a caprichosa partilha de Deus!

Ergueu-se um dia Gonçalo Malafaya, ao cabo de uma{147}noite infinita de calculos dilacerantes. Alumiava-lhe o rosto o clarão sinistro da demencia. Viram-n'o esposa e filha, e gelaram de medo. Era a horas de almoço, ao qual desde muito o fidalgo não assistia. Entrou inesperado, cruzou os braços, e exclamou com energica vehemencia:

—É ámanhã!

—Ámanhã o quê, primo Gonçalo?

—Que a má filha ha de entrar no convento de Arouca, senão hei de dar-te um punhal para que m'o enterres no peito.

—Irei, meu pae, irei hoje mesmo, se v. ex.ª o determina.

—É ámanhã—bradou elle.—Eu morrerei depois de ámanhã. Quando eu estiver sobre terra, sáe do convento, cospe na minha cara, e levanta-te com a herança da casa de teus avós e com a minha maldição.

Maria Henriqueta encostou o peito ao bordo da mesa, e cobriu o rosto com as mãos. Chorava; e o pae sentiu-se mais desopprimido com as lagrimas da filha. Deu alguns passos até defrontar com ella, e disse:

—Essas são as menos amargas que tu choras. Outras virão... tenho aqui na alma o presagio de outras, que has de verter sobre o cadaver do homem que me aponta ao peito o ferro, com o braço guiado pela mão de minha mulher.

—Penso que enlouqueceste, primo!—disse Maria das Dôres.

—Emmudece, serpente!—exclamou em furia o transfigurado{148}velho.—Enroscaste-te á minha mocidade, mataste aquella creatura divina, mataste a minha alegria, empeçonhaste o coração de tua filha, e estás agora minando-me a sepultura para esconderes de ti este phantasma de remorsos!...

A syncope, em que desfechou a desarrazoada apostrophe, delatava que os receios da loucura não eram de todo panicos. N'aquellas accusações era manifesta a injustiça.

Bem viram que Maria das Dôres foi de todo alheia ás desventuras de Beatriz de Noronha, sobre ser obrigada a acceitar o marido, proposto desde a sua infancia. O leitor póde negar sua sympathia ao caracter de Maria das Dôres; mas, se a punir com o seu odio, é injusto. Pender, em bem da filha, contra a imposição do casamento, é virtude para muitos louvores. Se o fez por animo contradictorio, feliz culpa a sua; se por experiencia de sua desgraça, abençoada defesa da pobre menina, e abençoada sempre, embora estes infelizes todos se venham a abismar guiados por suas estrellas funestas.

—Vae para o convento, Maria—disse a fidalga á filha.—Fia de mim que pouco tempo lá estarás. Eu hei de vencer teu pae, com habilidade e paciencia. Vou fazer, por teu amor, o sacrificio da humildade. Mas agora é preciso que vás. Se teu pae morre, tens de soffrer remorsos, e remorsos que hão de assaltar-te os dias todos da vida, embora os goses com o homem que amas. Com tempo, serás esposa d'elle; mas faz muito pelo seres com a consciencia tranquilla.{149}

Maria Henriqueta rompeu em choro nos braços de sua mãe, e foi d'alli escrever a Filippe, contando-lhe o seu destino, e as promessas da mãe. O tão apaixonado como generoso moço incitou-lhe a coragem do sacrificio, pedindo-lhe que o offerecesse a Deus como merecimento para ambos lhe merecerem mais tarde a sua benção.

Ao outro día, Maria entrou n'uma liteira com sua mãe, seguidas do simples prestito do capellão, a ama, creadas e lacaios.

Maria das Dôres, a antiga aia da Santa rainha Mafalda, entrou no seu quarto de infancia, e no de suas defuntas tias; e os dias de então, e só esses do seu passado, lhe vieram á memoria e amolleceram o coração até ás lagrimas.

A reclusa menina, ao ver-se alli, no calado dos claustros, debaixo dos profundos firmamentos, n'um dia em que os sinos dobravam á agonia de uma religiosa, e quando outra recebia as ultimas honras da sepultura, Maria Henriqueta pensou que ia morrer, e assim o disse na primeira carta, enviada a Filippe.

Demorou-se a mãe alguns dias no mosteiro, e apressou a saída, quando receou pelos dias de Maria Henriqueta. Foi o seu proposito, ao retirar-se, mover o pae a consentir no casamento, ou romper abertamente com elle e com o mundo, protegendo a fuga da filha, se outro expediente não viesse em redempção d'ella.

Ausente a mãe, augmentaram os terrores de Maria, e as lastimas nas cartas escriptas a Filippe. Em algumas,{150}pedia-lhe ella que a salvasse, pelo muito que ella o amára, e pelas muitas dôres com que quizera merecel'-o. Salval'-a era arrebata'-la do convento, fugir com ella, cumprir o juramento que lhe tinha feito, quando a chamou ao quarto da ama. Ao mesmo tempo, contava-lhe as nenhumas esperanças que a mãe lhe dava, e as diligencias que o pae fazia, para o remover para o ultramar, e tirar-lhes a possibilidade de se cartearem. D'isto lhe déra aviso a mãe, assegurando-lhe que as cartas de Filippe, apesar do suborno tentado no correio, haviam de chegar-lhe sempre á mão.

Enganára-se Maria das Dôres com as promessas do empregado na transmissão das cartas. Maria Henriqueta, ao fim de tres afflictivas semanas, enviou um proprio a Filippe, perguntando-lhe a razão porque a desamparára.

O tenente de cavallaria tinha de marchar n'aquelle dia com o regimento para Lisboa, onde se estava resenhando o exercito para começar a lucta com a França, cujos generaes se avisinhavam das fronteiras.

Pediu licença o tenente por dois dias: foi-lhe negada. Empenhou por si os seus amigos, senhores do segredo da sua vida; baldaram-se as solicitações. Filippe Osorio, á ultima hora, quando os clarins já tocavam a reunir á porta do quartel, viu a imagem de Maria Henriqueta, e ouviu um como gemido de moribunda, e um falar assim de quem se despede: «Vae, e volta alguma vez á minha sepultura!»

O tenente tomou as redeas do cavallo que o auxiliar{151}lhe offerecia, passou por diante dos clarins que o chamavam, viu ao longe, no occidente das esperanças da gloria, sumir-se a sua estrella, e fitou os olhos n'outra, que o chamava sobre um leito de agonia.

Desertou.

A mancha era negra; mas o disco resplendoroso, que lhe alumiava o coração e o ar em que ia aspirando a liberdade louca de amante, não lhe deixava ver a negridão da deshonra militar.

Na primeira terra em que pôde escrever liberalisou estipendio a um portador que levasse uma carta a Mirandella. Era um aviso a seu pae. Noticiava-lhe a deserção e o intento de roubar Maria ao convento e á morte. Pedia-lhe que estivesse um clerigo prestes a recebe'-los, logo que alli chegassem, e o dinheiro necessario para se refugiarem em Hespanha ás penas militares, e á perseguição de Gonçalo Malafaya.

Apeou em Arouca, e procurou Maria. Nenhum impedimento lhe estorvou falar-lhe. Acolheram-no na aposentadoria monacal, como primo da fidalga, que as religiosas amavam pelo muito que a viam padecer. Deu ella o plano da fuga, não facil, nem talvez exequivel. Maria devia transpor um muro, que seria morte certa, se o pé lhe resvalasse de um galho de arvore, em que fiava o apoio para segundo salto á estrada. Impugnou-lhe o plano o susto de Filippe; e ella, para aquieta'-lo, prometteu pensar em menos perigosa evasiva; mas pediu-lhe que tivesse os cavallos arreados na seguinte noite.

A lua banhava de livido alvor as paredes do templo.{152}O derradeiro nocturno tinha soado no campanario, alteroso vigia, como posto alli em guarda das esposas do Senhor. As paixões e as virtudes dormiam ou pareciam dormir lá dentro do mesmo somno. Cá fóra ramalhavam os arvoredos, e o norte assobiava nos agulheiros das torres.

Maria Henriqueta occupava um quarto sem rexas nem rotulos, logar privilegiado das reclusas, que inspiravam á prelada inteira confiança. O salto á cerca era facil e seguro, com o poderoso auxilio de um telhado de ermida contigua á parede. D'este ao jardim, só mulher que não amasse acharia perigoso o descer. Maria nem de leve sentiu o baque. Ficou sentada na relva, e ergueu-se logo, correndo para o muro, e procurando, entre as gabellas de varas podadas das videiras, uma escada de mão, que encostou á parede. Escalando o muro, tremeu da altura exterior, e viu que se enganára na distancia da arvore, que devia ajuda'-la na descida. Fincou os joelhos ao cume da parede, e foi-se arrastando até ao ponto da arvore, que o vento sacudia. Este inesperado incidente desalentou-a; só estando queda a arvore ella poderia aferrar-se aos ramos mais robustos, e verga'-los até tomar pé no galho chapotado. Estava ella assim aterrada e immovel com a vista desarmada a um e outro lado, quando, d'entre as arvores da outra orla do caminho, surgiu um vulto, que a gelára de medo, se a voz o não denunciasse ao mesmo tempo.

—Eu esperava isto...—disse Filippe.

—Já tenho animo!—exclamou ella.{153}

—Espera!

Filippe, tirando o manto e a farda, que lhe empeciam os movimentos, marinhou pelo tronco da arvore até fincar o pé no rebento que dava sobejo e seguro apoio a maior peso. Depois cingiu com o braço esquerdo o tronco, e disse a Maria que se pendurasse no ramo mais forte, e eminente á cabeça d'elle. Maria correu as mãos mimosas por sobre as asperezas da ramagem, e recurvou os dedos no mais afastado e grosso ramo que poude. Deixou o corpo ao seu natural pendor, impellindo-se com o pé fóra do muro. O despenho seria infallivel, se Filippe a não repuxasse a si, apertando-a ao peito com o braço direito.

Maria Henriqueta ria n'esta situação, e dizia:

—E se caímos abraçados?!

—Firma-te!—disse serenamente Filippe.—Apega-te ao tronco da arvore, que eu vou descer. Passa os teus pés devagar para o logar dos meus... Assim... Agora, larga-me, e segura-te... Bem... espera um pouco.

Disse, e saltou ao caminho; mas não se susteve em pé porque era grande o salto. Maria sobresaltou-se, e quiz resvalar agarrada ao tronco; mas Filippe já estava erguido, rindo da sua queda para serenar Maria.

Encostou-se á arvore, e disse:

—Desce, até encontrares os meus hombros com os pés. Depois, sem largar o tronco, deixa-te descer conforme eu me fôr abaixando, e salta quando eu te disser.

A execução da facil manobra foi feliz. Elles ahi vão,{154}embrulhados no mesmo manto. Maria está vestida de branco, e Filippe receia que o ar picante da noite a moleste. Coração em labaredas levam elles; mas o fogo intimo não basta a retemperar a temperatura da atmosphera. Os catarrhos são pensão de amadores nocturnos.

Estão os cavallos arreados na aldeia proxima, á mão do velho e leal creado de Filippe. Maria vê o velho, e chora pela sua ama, a quem não deu o ultimo abraço para a não ver morrer. Filippe quer consola'-la, mas não sabe. O creado velho sabe a razão das lagrimas, e diz:

—Quando chegarmos a terra segura, eu volto a buscar a velha. Arranja-se tudo; a morte é que não tem remedio.

Maria consolou-se.

Cavalgaram, e partiram. Ao dobrarem o primeiro outeirinho, Maria apontou para a torre do mosteiro, e disse:

—Que medo me faz aquillo! parece um phantasma! Que horriveis horas aquelle sino marcou na minha vida, ó Filippe!

—Deixa-o agora marcar annos de felicidade, minha esposa.

—Quantos marcará, ó Filippe?!!...

Soaram tres badaladas.

—Só?!—exclamou ella com supersticioso terror.

—Não sejas creança, Maria! disse Filippe.—Aquillo quer dizer que são tres horas.

Caminharam.{155}

O frio da manhã golpeava o rosto de Maria, e as redeas caíam-lhe dos dedos entrezilhados.

Filippe sentou-a sobre as capas dos coldres, apertou-a ao seio, e aqueceu-lhe as mãos no acolchoado da farda. E assim caminharam, até que o sol dourou o melhor dia d'aquellas duas existencias.{156}

{157}

Entraram ao romper d'alva em Mirandella, a hora em que os irmãos de Filippe, desconfiados da demora do irmão, saíam a procura'-lo no caminho de Arouca. Ás dez horas da manhã d'esse dia, celebrou-se o casamento na capella da casa, por ministerio de um abbade parente do noivo, homem que não lera no Evangelho o preceito do consentimento paterno para a validade do sacramento. Foram testemunhas os irmãos do esposado, e padrinhos os paes.

Ao outro dia chegou a Mirandella a ditosa Eugenia, que o fiel creado fôra buscar, deixando em Amarante os amos. Contou ella que na tarde d'aquelle dia da fuga chegaram a Arouca alguns soldados de cavallaria, com um commandante, pedindo novas de um tenente, que desertára; e que n'essa mesma tarde tinham saído para outros sitios.

Comprehendeu Filippe o perigo da sua situação, e quiz fugir, antes que a Bragança, quartel do seu regimento, chegassem ordens para a sua captura. A parentella{158}votou unanime pela resistencia, confiada no poderio que exercia sobre o povo. Filippe combateu o denodo inopportuno, por amor de sua esposa, a quem tristes festas de nupcias seria uma briga sanguinaria do povo com a tropa.

Muniu-se o desertor de basto dinheiro para dois annos de desterro, e internou-se em Hespanha, com os dois velhos creados, que entre si se queriam por terem sido, em seis annos, os confidentes dos infelizes amores de seus amos, já agora unidos sagradamente para sempre.

Deixemo'-los em Hespanha procurar o remançoso eden de seus anhelos. Irão a Sevilha? a Granada? a Cordova? Irão a toda a parte, hão de encontrar as delicias reflectidas do céo que levam na alma.

Deixa'-los, que é delicadeza não irmos de pós elles. A suprema felicidade de dois noivos tem o seu pudor, que se quer resguardado de olhos alheios.

Vamos ao Porto, e entremos em casa de Gonçalo Malafaya.

Ao amanhecer do dia immediato ao da fuga, chegou de Arouca o enviado da má nova. O fidalgo, que já sabia da deserção do tenente, e incitára a saída do destacamento para captura'-lo em Arouca, nem por isso ficou menos surprehendido. Correu ao quarto de Maria das Dôres, e exclamou:

—Maria Henriqueta fugiu do convento!

—Estás a sonhar, ou sou eu que sonho?!—disse a esposa.

—Alli está o portador de Arouca! Fugiu sua filha,{159}senhora! Ahi tem a sua obra! Faltava-me esta deshonra: devo-lh'a, senhora, devo-lh'a, como ultimo golpe, que me ha de matar!

Disse, e refugiu para o seu quarto, tropeçando nos corredores, não aclarados ainda pela luz da manhã. Pouco depois, voltou á camara da esposa, e bradou:

—A senhora está na cama?! Levante-se que é preciso protestar contra a ignominia que pesa sobre nós! Levante-se, que d'aqui a pouco seremos insultados pela canalha! Vista-se de lucto, e quero que todos os meus brazões de armas, em todas as minhas casas e quintas, sejam cobertos de negro! Maldita seja a mãe que perdeu sua filha!

D. Maria agitou com força a campainha, e disse ao marido:

—Queira retirar-se, que vem as creadas vestir-me.

Entraram as creadas de baldão, quantas havia na casa, e a senhora disse a uma d'ellas:

—Vae dizer ao capellão que procure os primos Mellos e os primos Peixotos, e lhes diga que venham cá ter mão no sr. Gonçalo que foi atacado de um accesso de demencia.

Foi a creada dar o recado. O capellão ouviu-o, e benzeu-se com a mão direita; saíu do quarto e benzeu-se com a esquerda; e ao transmittir a infausta noticia a Mellos e Peixotos, benzia-se com ambas as mãos.

Acudiram os primos e Gonçalo recusou-se a recebe'-los, cuidando que vinham ao cêvo do escandalo para ultraja'-lo com fingidas caramunhas. Ouviram a prima{160}Maria, e convieram em que a fuga de Maria Henriqueta para casar com Filippe Osorio Vaz Guedes da Fonseca, tão fidalgo como ella, não merecia tamanhos alvorotos, nem a loucura do primo Gonçalo, por tal motivo, captivaria a compaixão publica.

Repellidos do quarto do velho, segunda e terceira vez, os fidalgos saíram a divulgar o caso sem o classificarem de deshonra, imputando, porém, a culpa d'ella, se culpa havia, ao pyrronismo de Gonçalo Malafaya, que sonhava com enxertar um conde na familia, ainda que o conde fosse um tolo e um perdulario.

Ao meio dia estava Gonçalo vestido de rigoroso lucto, e os lacaios de lucto tambem.

D. Maria das Dôres vestia de azul claro e ordenava ás suas creadas que se escusassem de completar a irrisão da casa.

Entrou o fidalgo na sua carruagem, e foi a casa de todos os magistrados do crime pedir justiça. Acolheram-n'o com respeitosa compaixão, e prometteram precatorias para os fugitivos serem presos, onde quer que a policia os descobrisse. Gonçalo a todos disse que dava os seus haveres pela captura de Filippe, e a si proprio se venderia para pagar os ultimos ceitis aos esbirros.

As cartas precatorias saíram desde logo para differentes pontos do reino, e algumas para Hespanha. E, ao mesmo tempo, as justiças militares tiravam summario despacho para a captura do desertor.

Maria das Dôres, sciente dos mandados judiciarios, enviou pessoa de sua confiança a Mirandella, avisando{161}o pae de Filippe Osorio, e escrevendo a sua filha uma carta mais de indulgencia que de recriminação. «O mal está feito,—dizia-lhe ella—mas em parte considero-o sanado pelo casamento. Escondei-vos cautellosamente, em quanto a tempestade ameaça fulminar-vos com a vergonha de uma prisão. Não entreis em Portugal sem que eu vo'-lo diga; nem vos mostreis em Hespanha, porque as ordens hão de lá chegar, em mãos de quem primeiro as encheu de ouro nos cofres de teu pae, etc.»

A carta foi dar ás mãos de Maria Henriqueta, que a essa hora trajava de homem, e se chamava em Hespanha D. Luiz de Castro, irmão de D. Pedro de Castro, nomes inscriptos no passaporte de Filippe Osorio.

Estavam então em Sevilha, e tão descuidados, tão ebrios de seu amor, que nem a carta os alvoroçou. «N'esse tempo (dizem os apontamentos que tenho á vista) figurando ella de lindissimo moço, deu-lhe que fazer o amor das hespanholas, que morriam por elle; eD. Luiz de Castrosustentava os namoros, para rir com o marido, mas sem saber que saída a final lhes daria.»

Pernoitavam os ditosos esposos em Segovia, onde os anteciparam cartas da capital da provincia, recommendando os doisCastros, cavalheiros portuguezes. Convidou-os o alcaide para uma tertulia, e banqueteou-os no dia seguinte, a pedido das filhas, que eram duas, e cada qual se apaixonára do seu Castro. Praticaram-se cousas de Portugal, e caíu a proposito perguntar o alcaide aos{162}seus hospedes se conheciam um Filippe Osorio Vaz Guedes da Fonseca, desertor de cavallaria 6, que havia roubado de um mosteiro a filha de umfidalgode linhagem, solarengo no Porto.

DisseD. Pedro de Castroque sobejamente conhecia o desertor. Contou miudamente a historia triste dos seus amores com a filha do fidalgo, e tão a enternecer o disse que as sensiveis hespanholas choraram de ouvi'-la, e o alcaide jurou que rasgaria a ordem, que tinha, de prende'-los se alguma vez reconhecesse os sympathicos fugitivos no seu districto. A intimidade cresceu tanto entre a auctoridade e os hospedes, que, decorridos alguns dias, Luiz de Castro appareceu vestido de Maria Henriqueta ao alcaide e ás filhas, que ouviram d'ella a historia, repetida com mais graça e affectuosa tristeza, dos seus amores com Filippe Osorio.

Desde essa hora, o magistrado hespanhol não velaria com mais zelo a segurança de seus filhos. Onde quer que iam, lá os antecipava a influencia do alcaide, de modo que se viam em toda a parte festejados os dois cavalheiros portuguezes, e requestados de quantas damas os abrasavam com os olhos e com o chocolate.

Segovia era o logar onde iam a desfadigar-se das excursões ás provincias, e onde as cartas do reino iam dar com elles.

Na casa do alcaide deu á luz Maria Henriqueta uma menina, findo o primeiro anno de casada. E então acabaram as excursões, e retiraram-se a uma quinta dos arrabaldes para, a salvo de suspeitas, se despirem das{163}ficções, e viverem em toda a ingenuidade de esposos e paes. Lá lhes eram assidua companhia as duas filhas do generoso hespanhol, proprietario da quinta. Alli vieram os irmãos de Mirandella visitar o irmão, e dar-lhe a boa nova de quasi esquecimento em que estava sua deserção. N'este ensejo foram elles portadores de carta de D. Maria das Dôres, que, em resumo, dizia: estarem mais benignos os ares; mais brando o coração do pae, tendo já dito que antes queria ver a filha e perdoar-lhe, que receber a noticia da morte d'ella. Accrescentava que este dizer não a auctorisava a chamar a filha; porque o pae tinha intercadencias de prostração, quando perdoava, e de cólera quando pedia vingança aos céos, e insultava os magistrados como inertes. Terminava, recommendando-lhe que se tivesse sempre em guarda, e se fiasse só de sua mãe, quando a chamasse.

Decorreram seis mezes. Sempre o céo claro sem nevoa; sempre a ventura candida e pura como o sorriso da creancinha, que dissereis vinda do céo a completar o grupo da suprema bemaventurança na terra. Para cumulo de felicidade, chegou a Segovia uma carta de D. Maria das Dôres, dizendo á filha:

«Vem, agora sem receio. Venci teu pae, com as armas da humildade. Só por amor de ti as empregaria. Perdoa-te, recebe-vos, quer-vos para filhos. Sabe que tem uma neta. Disse-lh'o eu, quando o vi tão bom! Perguntou-me estupefacto como eu o sabia. Occultei-lhe os promenores; disse-lhe em suma, que eu fôra sempre mãe. Fitou-me de um certo modo, que me incutiu{164}receios de me ter enganado: mas, em seguida, voltou á sua segunda natureza compadecida. O peor, filha, será o crime de teu marido, que o força a livrar-se, e agora as leis militares inglezas creio que são severas para desertores. Se vês que teu marido tem grandes trabalhos a vencer, antes o desterro com a liberdade; e mais ao diante valeremos mais com as leis se teu pae quizer protege'-lo etc.»

Ao mesmo tempo, o fidalgo de Mirandella dizia a seu filho que andava dispondo as cousas para elle ser julgado e absolvido. Que alcançára promessas favoraveis, e esperava em breve manda'-lo recolher á patria, com a certeza da absolvição.

Que luz tão formosa as estrellas funestas irradiam ás vezes! Como a desgraça negaceia com as suas victimas dilectas! Que pena me faz ir d'aqui através cincoenta annos, e por entre o pó de uma geração dispersa no ar, áquella quinta suburbana de Segovia, e contemplar aquelles dois esposos com a filhinha entre os peitos de ambos, arrobados de alegria, dando-se os parabens da sua final victoria, e saudando as alegrias da patria, só inferiores ás alegrias de dois corações triumphantes sem infamia, felizes sem remorsos! Com que vontade eu quebraria aqui a penna, se tenho de tirar d'ella paginas negras da vida dos dois tão dignos, tão abençoados, tão bemquistos da leitora que amou ou ama, do pae que perdoou ou tem de perdoar um dia, do mundo que sentenceia, ou já sentenciou paixões, que exorbitam do estadio commum! Ai! eu antes queria inventar, antes{165}mentir, antes lançar de mim com asco estes apontamentos!

Eu sei como a vida podia ter lances de contentar a phantasia. Quantas vezes, em historias imaginadas, eu levo posto o fito n'uma caverna onde os meus personagens vão caír; e já perto, já com elles á borda do despenhadeiro, sustenho-me, chamo-os, acaricio-os, salvo-os, e dou-lhes a gloria, em vez do inferno que lhes fôra talhado! Como eu fico então contente de mim, e o leitor contente d'elles! Só n'estes conflictos é que eu avalio os thesouros da imaginação, e o segundofiatde mundos moraes que a magnanimidade divina concede aos romancistas.

N'esta historia queria, e não posso. Estou coacto e maniatado ás gramalheiras da noticia, que me foi ministrada por pessoa, que me obrigou o juramento de não falsear a verdade.


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