Então os godos cahirão na guerra;Então fero inimigo ha-de opprimi-losCom ruinas sem conto, e o susto e a fome.Hymno deS. IsidoroemLucas de Tui. Chronicon liv. 3.ºNo templo—Ao romper d'alva—Dia de Natal da era de 748.1Mais de sete seculos são passados depois que tu, oh Christo, vieste visitar a terra.E as tuas palavras foram escutadas pelos indomaveis filhos da Gothia, e elles ajoelharam aos pés da cruz.Era que nessas palavras divinas havia uma poesia celeste, a qual as almas rudes masvirgens do septemtrião sentiam casar-se com as suas primitivas virtudes.Tu evangelisavas a liberdade e condemnavas todo o genero de tyrannia: tu restituias ao valor a sua generosidade, á generosidade a sua modestia; tu revelavas inauditos mysterios no esforço do morrer: a constancia dos teus martyres escurecia a dos nossos guerreiros quando, debaixo do punhal de inimigo victorioso, recusavam confessar-se vencidos.Tu convertias o amor, esse sentimento delicioso, até então limitado ao goso material da mulher, em um grande e sublime affecto: alargavas o ambito do coração por toda a terra, por tudo quanto nella vive e respira, e davas-lhe para conquistar todas as existencias dos céus.A generosidade, o esforço e o amor, ensinaste-os tu em toda a sua sublimidade: só nas almas dos barbaros estavam elles em germen. Não para os romanos corrompidos, mas para nós, os selvagens septemtrionaes, era o christianismo. Para estes o evangelho assemelhava-se ao sol que rompe d'além das serras e que illumina, aquece e alegra; para os escravos abjectos dos cesares assemelhava-se ao sol mergulhando-se no mar, que sódeixa nos campos escuridão, frialdade e tristeza.Por isso, emquanto elles voltavam as costas á tua cruz ou a lançavam d'envolta com os idolos nos seus mesquinhos lararios, nós quebravamos no fundo das selvas ou no topo das montanhas as imagens d'Odin, de Thor e de Freda e corriamos a abraçarmo-nos com ella.Tem compaixão de nós, oh Christo: lembra-te de que os ossos dos que assim o fizeram ainda não são inteiramente cinzas debaixo das lousas; porque só quatro seculos tem passado por cima delles.2Quem é hoje christão e godo nesta nossa terra d'Hespanha?Uma geração degenerada pisa os restos d'heroes: homens sem crença, blasphemos ou hypocritas, succederam aos que criam na grandeza moral do genero-humano e na providencia de Deus.D'antes, os principes do povo eram os capitães das hostes: a espada dos reis a primeira que se tingia no sangue dos inimigos da patria.D'antes, o sacerdote era o anjo da terra: os que passavam curvavam-se para beijar a fimbria da sua stringe; porque a paz e a esperança entravam em todas as moradas sobre que desciam as bençams delle.D'antes, o juiz era o pae do opprimido, o tribunal o abrigo do innocente, a justiça o nervo do imperio gothico.D'antes, nos concelhos dos prelados, dos nobres, dos homens livres as leis íam buscar a sancção da sabedoria e afferir-se pela utilidade commum. Lá, o rei sabía que o poder lhe vinha de Deus e da vontade dos godos, que o sceptro era cajado de pastor, não cutello d'algoz, e a coroa uma carga pesada, não uma aureola de vangloria.Hoje, nos paços de Toletum só retumba o ruido das festas, os frankos e os vasconios talam as provincias do norte, e a espada dos guerreiros só reluz nas luctas civís.Hoje, os principes na embriaguez dos banquetes esqueceram-se das tradições d'avós; esqueceram-se de que era aos capitães das hostes da Germania que os romanos imbelles davam o nome de reis.Hoje, a prostituição entrou no templo do Crucificado: os claustros das cathedraes velam com o seu manto de pedra as abominaçõesda torpeza, e as mãos do sacerdote deixam muitas vezes humedecida a tela que veste os altares com vestigios do sangue derramado covarde e vilmente.Hoje, a cubiça assentou-se no logar da equidade: o juiz vende a consciencia no mercado dos poderosos, como as mulheres de Babylonia vendiam a pudicicia nas praças publicas aos que passavam, diante da luz do dia.Hoje, a espada substituiu o conselho dos prelados, dos nobres e dos homens livres: a coroa é uma conquista, a lei uma vontade do deshonrado vencedor de pelejas domesticas, a liberdade uma palavra mentida.Imperio d'Hespanha, imperio d'Hespanha! porque foram os teus dias contados?3O sol oriental que ora bate ridente no pavimento da igreja afflige a minha alma, porque me parece que, alumiando esta terra condemnada, se assemelha a homem cruel que viesse dar uma risada juncto ao leito do moribundo.Porque te havia eu de amar, oh sol, se tu és o inimigo dos sonhos do imaginar; setu nos chamas á realidade, e a realidade é tão triste?Pela escuridão da noite, nos logares ermos e ás horas mortas do alto silencio a phantasia do homem é mais ardente e robusta.É então que elle dá movimento e vida aos penhascos, voz e entendimento ás selvas que se meneiam e gemem á mercê da brisa nocturna.É então que elle collige as suas recordações; une, parte, transmuda as imagens das existencias que viu passar ante si e estampa nas sombras que o rodeiam um universo transitorio, mas para elle real.E é bello esse mundo de phantasmas aereos, por entre cujos labios descorados não transpiram nem perjurio nem dobrez e a cujos olhos sem brilho não assoma o reflexo de animos pervertidos.Ahi ha o repouso, a paz e a esperança que desappareceram da terra; porque o mundo das visões cria-o a mente pura do poeta: ella dá corpo e vulto ao que já só é ideal, e o passado, deixando cahir o seu immenso sudario, ergue-se em pé e, pondo-se diante do que medita, diz-lhe:—aqui estou eu!E este o compara com o presente e recúa d'involuntario terror:Porque o cadaver que se alevanta do pó é formoso e sancto, e o presente que vive e passa e sorri é horrendo e maldicto.E o poeta atira-se chorando ao seio do cadaver e responde-lhe:—esconde-me tu!É lá que esta alma, arida como a urze, sente, quando ahi se abriga, refrescá-la um como orvalho do céu.VISAUDADEChristo!—dá-me o perdão; dá-me remedio;Que entre tão vario mal fraqueia a mente!Eugenio Toledano:Opusculos—XI.Na Ilha-verde. Ao pôr do sol daskalendas de abril da era de 749.1O mar estava tranquillo, e o ar puro e diaphano. As costas d'Africa fronteiras, lá na extremidade do horisonte, pareciam uma orla escura bordada no manto azul do firmamento.A aragem do norte encrespava suavemente a superficie das aguas: as ondas vinham espraiar-se preguiçosas no areial da bahia.O barqueiro Ranimiro dormia na sua barca amarrada na foz do Palmonio. Uma saudade indizivel attrahia-me para o mar.Saltei na barca; o ruido que fiz despertou Ranimiro.—«Ao largo»—disse-lhe eu. Empunhou os remos, e partimos.«Para onde, Presbytero?»—perguntou o barqueiro, depois de vogar alguns momentos em silencio.«Quero respirar o ar puro e fresco da tarde; mais nada:—repliquei.—Leva-me para onde te approuver.»—Se vos parece—tornou Ranimiro—rodeiaremos a Ilha Verde, entraremos no canal, e saltareis na margem. Pelo tempo que vai, ella estará agora esmaltada de verdura e boninas.»Calei-me: o barqueiro tomou por approvação o meu silencio. Voltando a proa para poente, corremos ao largo da ilha e, rodeiando a sua margem occidental, abicámos em terra pelo lado da enseada que a separa do continente.Ranimiro não se enganara: como uma tapeçaria riquissima lançada ao som das aguas, a superficie da ilha agitava-se trémula com a aragem da terra, que curvava brandamente as flores e as folhinhas lanceoladas da relva.Assentado á sombra de uma rocha que formava um promontoriosinho do lado do sul, lancei os olhos em volta até onde se descubria o horisonte. Lá, no extremo do Estreito para a banda do mar interior, viam-se na ponta da Africa os cimos das torres de Septum fronteiras aos cerros escalvados do Calpe. De Septum para o occidente as costas africanas contrastavam nas suas ondulações suaves com a penedia aspera das ribas hispanicas, e, confrangido entre os dous continentes, o mar balouçava-se resplandecente com os raios já inclinados do sol.De roda de mim a atmosphera estava impregnada de um halito perfumado: era a natureza que sorria affagada pela primavera. As aves aquaticas redemoinhavam nos ares ou pousavam sobre as aguas e pareciam, nos seus vôos incertos, ora vagarosos, ora rapidos, folgarem com os primeiros dias da estação dos amores.Uma melancholia suave se me erguia lentamente no coração, debaixo daquelle céu puro, n'aquella atmosphera balsamica, ante aquelles horisontes saudosos. As lagrymas rebentaram-me involuntariamente dos olhos.Era feliz neste momento, porque repousava d'amarguras. Olhei para a barca: Ranimiroadormecera de novo á proa. Repousavam bem perto um do outro a materia e o espirito.Bemaventurado, pensei eu comigo, aquelle em quem os affagos de uma tarde serena de primavera no silencio da solidão produzem o torpor dos membros; porque nessa alma dormem profundamente as dores no meio do ruido da vida!E este pensamento trouxe-me pouco e pouco á memoria as tempestades do passado. Ai de mim! Logo se me enchugaram as lagrymas, porque eram de consolação, e essa lembrança as estancou!2Porque não adormeço eu, como o rude barqueiro, ao murmurio das vagas somnolentas, ao sussurro da brisa do norte?Porque mulher barbara não entendeu o que valia o amor d'Eurico; porque velho orgulhoso e avaro sabía mais um nome de avós do que eu, e porque nos seus cofres havia mais alguns punhados d'ouro do que nos meus.As mãos imbelles de uma donzella e de um velho esmagaram e despedaçaram o coraçãode um homem, como os caçadores covardes assassinam no fojo o leão indomavel e generoso.E, todavia, este coração sentia a voz da consciencia pregoar-lhe largos destinos! Porque não emmudeceu essa voz quando do portico do templo lancei ao mundo a maldicção da despedida?Porque me lembra com saudade, aqui, a estas horas, o tempo das minhas esperanças?É porque o viver é o éculeo do espirito: a alma estorce-se como agonisante no meio dos mais incomportaveis tormentos, sem nunca poder expirar, e os seus affectos profundos são com ella; não lhes é dado o morrer.Paz e esquecimento, oh meu Deus!3Os raios derradeiros do sol desappareceram: o clarão avermelhado da tarde vai quasi vencido pelo grande vulto da noite, que se alevanta do lado de Septum. Nesse chão tenebroso do oriente a tua imagem serena e luminosa surge a meus olhos, oh Hermengarda, semelhante á apparição do anjo da esperança nas trevas do condemnado.E essa imagem é pura e sorri; orna-lhea frente a coroa das virgens; sobe-lhe ao rosto a vermelhidão do pudor;o amiculo alvissimoda innocencia, fluctuando-lhe em volta dos membros, esconde-lhes as fórmas divinas, fazendo-as, porventura, suspeitar menos bellas que a realidade.É assim que eu te vejo em meus sonhos de noites de atroz saudade: mas, em sonhos ou desenhada no vapor do crepusculo, tu não és para mim mais do que uma imagem celestial; uma recordação indecifravel; um consolo e ao mesmo tempo um martyrio.Não eras tu emanação e reflexo do céu? Porque não ousaste, pois, volver os olhos para o fundo abysmo do meu amor? Verias que esse amor do poeta é maior que o de nenhum homem; porque é immenso, como o ideal, que elle comprehende; eterno, como o seu nome, que nunca perece.Hermengarda, Hermengarda, eu amava-te muito! adorava-te só no sanctuario do meu coração, emquanto precisava de ajoelhar ante os altares para orar ao Senhor. Qual era o melhor dos dous templos?Foi depois que o teu desabou, que eu me acolhi ao outro para sempre.Porque vens, pois, pedir-me adorações quando entre mim e ti está a cruz ensanguentadado Calvario; quando a mão inexoravel do sacerdocio soldou a cadeia da minha vida ás lageas frias da igreja; quando o primeiro passo alèm do limiar desta será a perdição eterna?Mas, ai de mim! essa imagem que parece sorrir-me nas solidões do espaço está estampada unicamente em minha alma e reflecte-se no céu do oriente através destes olhos perturbados pela febre da loucura, que lhes queimou as lagrymas.Tu, Hermengarda, recordares-te?! Mentira!... Crês que morri, ou, porventura, nem isso crês; porque para creres era preciso lembrares-te, e nem uma só vez te lembrarás de mim!Lá, no tumulto dos cortezãos, onde o amor é calculo ou sentimento grosseiro, terás achado quem te chame sua, quem te aperte entre os braços, quem tivesse para dar a teu pae o preço do teu corpo e te comprasse como alfaia preciosa para serviço domestico. O velho estará contente, porque trocou sua filha por ouro.A isto chama prudencia o mundo estupido e ambicioso; a isto, que não é mais do que uma prostituição abençoada sacrilegamente perante as aras sacrosanctas.Oh, quantas vezes esse pensamento repugnante me tem feito vagueiar louco pelas montanhas, uivando como o lobo esfaimado e tentando despedaçar os rochedos com as mãos, d'onde me goteja o sangue!E tu folgas e ris! Oxalá nunca saibas quão intenso e atroz é o meu tormento, que devo velar diante dos homens debaixo de aspecto tranquillo, como se, em vez de martyrio, elle fosse um abominavel crime.4E quem te disse, Presbytero, que o teu amor não era um crime?Tens razão, consciencia! Quando aos pés do veneravel Siseberto o gardingo Eurico jurou que abandonava o mundo devia despir as paixões que do mundo trouxera.A luz brilhante d'affeições e esperanças a que vivia e que me povoava o coração de felicidade devia apagar-se então, como a lampada do templo ao amanhecer; porque eu voltava-me para o céu, buscando a luz do Senhor.Mas o sol, apenas nasceu para mim, logo desappareceu no occaso, e os que me creem alumiado mal pensam que vivo em trevas!As minhas paixões não podiam morrer, porque eram immensas, e o que é immenso é eterno.E assim, nem ouso pedir a paz do sepulchro; porque para mim não haveria paz, senão no anniquilamento!O anniquilamento! Que mal te fiz eu, oh meu Deus, para me não deixares cá dentro mais que uma idéa risonha, mais que um desejo capaz de encher o abysmo da minha desventura? Que mal te fiz eu para que esse desejo, essa idéa seja a que unicamente resta ao precíto que se revolve em perpetuas angustias?Mas para mim, como para elle, tal pensamento é vão e mentido! Eternidade, eternidade, a alma do homem está encerrada e captiva no illimitado do teu imperio!VIIA VisãoNo espelho da visão está a segurança da verdade.Codigo wisigothico—I-1-2.Presbyterio. Antemanhan. Oito dos idos d'abril da era de 749.1O somno ou a vigilia, que me importa esta ou aquelle? As horas da minha vida são quasi todas dolorosas; porque a imaginação do homem não póde dormir.Para o povo, ignorante e impiamente credulo, a noite é cheia de terrores; em cada folha que range na selva elle ouve um gemido de alma que vagueia na terra; emcada sombra de arvore solitaria que se balouça com a aragem sente o mover de um phantasma; as exhalações dos bréjos são para elle luz de demonios, alumiando folgares de feiticeiras.Mas, quando jaz no leito do repouso, o seu dormir é tranquillo. Ao cruzar os umbraes domesticos esses terrores sumiram-se com os objectos que os geraram. A sua alma parece despir-se da phantasia grosseira, como o corpo se despe da stringe aspera que lhe resguarda os membros.Não assim eu. Quando as palpebras, cerrando-se, m'escondem o mundo das realidades, os olhos do espirito volvem-se para o mundo das existencias ideaes. Ás vezes, a felicidade e a esperança vem consolar-me então; muitas mais, porém, os sonhos maus me perseguem; e por bem alto preço me saem os instantes de ventura transitoria trazidos por visões consoladoras.Esta foi para mim uma noite cruel. Ainda o suor frio que me corria da fronte se não seccou; ainda o coração parece mal caber no peito, e o pulso bate desordenado e violento.Terribilissimos foram os sonhos que Deus mandou ao Presbytero; mas, porventura, mais terrivel é a sua significação.Diz-me voz intima que esse doloroso espectaculo a que assistiu a minha alma é, oh Hespanha, o mysterio dos teus destinos.E esta foi a visão:2Eram as horas das trevas profundas. Sem saber como, achava-me no viso mais alto do Calpe: traspassava-me a medúla dos ossos o vento frio da noite, e parecia-me que os membros hirtos se me haviam pregado no topo da penedia.Olhava fito ante mim, e os meus olhos rompiam a escuridão do horisonte, como se a luz do sol o illuminasse.O espectaculo maravilhoso que se passava nesse espaço insondavel fazia-me erriçar os cabellos, que o norte me açoutava com o sopro gelado.Eis o que eu vi nessa hora de agonia, depois de estar alli alguns não sei se instantes ou seculos.O mar cessou de agitar-se e rugir, semelhante ao metal fervente destinado para a feitura d'estatua colossal que resfriasse de subito em vasta caldeira.E era horribilissimo ver convertido emcadaver, de todo immovel e mudo, o oceano; aquelle oceano que ha mais de quarenta seculos nem um só dia deixou de revolver-se e bramir em torno dos continentes, como o tigre ao redor da rez que jaz morta.O sibillar das rajadas tambem cessou completamente. Parado sobre a face da terra, o ar era semelhante ao lençol do finado a quem recalcaram a gleba que o cobre, frio, humido, pesado, sem ranger, sem movimento, cosido sobre o peito, onde acabou o bater do coração e o arfar compassado dos pulmões.Então, muito ao longe, uma vermelhidão tenuissima foi avultando pouco a pouco, derramando-se pelo horisonte e repintando a abobada immensa dos céus.Depois, esse clarão sinistro reverberou na terra: as cimas agudas, dentadas, tortuosas, alvacentas das fragas marinhas tinham-se abatido e livelado, como os cerros informes de neve amontoada, que, derretidos nos primeiros dias do estio, vão, despenhando-se, formar um lago chão e morto na caldeira mais funda do valle fechado.Tudo a meus pés era um plano uniforme, ermo, affogueiado, como a atmospheraque pesava em cima delle: e, além, jazia o cadaver do mar.Eu, o Silencio e a Solidão eramos quem estava ahi.3Subitamente, naquelle vasto horisonte, até então puro na sua luz horrenda, dous castellos de nuvens cerradas e negras começaram a alevantar-se, um da banda da Europa, outro do lado d'Africa.Os bulcões conglobados corriam um para o outro e multiplicavam-se, vomitando novos castellos de nuvens, que se diffundiam, fluctuando ennoveladas com fórmas incertas.E aquellas montanhas vaporosas e negras rasgaram-se d'alto a baixo em fendas semelhantes a algares profundos, e os seus fragmentos informes e cambiantes vacillavam tremulos em ascensão diagonal para as alturas do céu.Ao approximarem-se, os dous exercitos de nuvens prolongaram-se em frente um do outro e toparam em cheio. Era uma verdadeira batalha.Como duas vagas encontradas, no meio de grande procella, que, tombando uma sobre a outra, se quebram em cachões que espadanamlençoes de escuma para ambos os lados, antes que a menos violenta se incorpore na mais possante, assim aquellas nuvens tenebrosas se despedaçavam, derramando-se pela immensidão da abobada affogueiada.Então, pareceu-me ouvir muito ao longe um choro sentido misturado com gritos agudos, como os do que morre violentamente, e um tinir de ferro, como o de milhares de espadas, batendo nas cimeiras de milhares de elmos.Mas este ruido foi-se alongando e cessou: os bulcões alevantados da banda d'Africa tinham embebido em si os que subiam da Europa, e desciam rapidamentepara o lado dos campos gothicos.Depois, sentí lá embaixo, na raiz da montanha, um rir diabolico. Olhei: o Calpe esboroava-se ao redor de mim, e os rochedos sobre que eu estava assentado vacillavam nos seus fundamentos.Despertei. Tinha os cabellos hirtos, e o suor frio manava-me da fronte aquecida por febre ardente.Senhor, Senhor! foste tu que déste a ler á minha alma a ultima pagina do livro eterno em que a providencia escreveu a historia do imperio godo?Contam-se cousas incriveis desses povos que assolam a Africa, chamados os arabes, e que, em nome de uma crença nova, pretendem apagar na terra os vestigios da cruz. Quem sabe se aos arabes foi confiado o castigo desta nação corrupta?Já as nossas praias foram visitadas por elles, e para os repellir cumpriu que desembainhasse a espada o illustre Theodemiro, o ultimo guerreiro, talvez, que mereça o nome de neto dos godos.Terra em que nasci, se o teu dia de morrer é chegado, eu morrerei comtigo. Na procella que se alevanta d'Africa deixarei submergir o meu debil esquife, sem que a esses gemidos que ouvi se vão ajunctar os meus. Que m'importa a vida ou a morte, se o padecer é eterno?VIIIO DESEMBARQUEE eu estava em um angulo, observando com temor.Paulo Diacono:Vidas dos PP. Emeritenses.DO PRESBYTERO DE CARTEIA AO DUQUE DE CORDUBAAo Duque Theodemiro, saude!Quando Witiza reinava, na corte esplendida de Toletum, havia dois tiuphados que a todos serviam d'exemplo d'intima e sincera amizade. Opiniões e intentos, alegrias e tristezas eram communs para ambos. Chamava-se Theodemiro o mais velho, Eurico o mais moço. Nas suas esperanças de mancebos,as Hespanhas foram-lhes, muitas vezes, limitado theatro para illusões de ambição. A gloria era o seu perpetuo sonho, e as recordações das façanhas dos antigos godos embriagavam-lhes os animos ao lembrarem-se de que as armas dos seus avós da Germania tinham brilhado victoriosas sempre sobre os membros despedaçados do imperio romano. Quando o grito da revolta soou na Cantabria as tiuphadias dos dous mais irmãos que amigos acompanhavam Witiza na expedição contra os montanhezes rebeldes e contra os frankos seus alliados. Então, n'essa guerra d'exterminio, os dous mancebos viram saciada sua sede de renome. Como os macissos de neve que se despenham das montanhas escarpadas da Vasconia, as duas tiuphadias de Theodemiro e de Eurico appareciam, ás vezes, subitamente, nos visos das serras e, apenas os primeiros raios do sol faziam reluzir as armas, semelhantes no brilho tremulo ao alvejar da geada, ei-las que pareciam rolar-se pela encosta, e, dentro de pouco, os acampamentos dos frankos e cantabros ficavam esmagados debaixo do impeto irresistivel dessas pinhas de soldados que eram arremessados sobre os inimigos por duas vontades emulas de gloria. Expulsos os estrangeirose submettidos os rebellados, a hoste real entrou victoriosa em Tárraco. O duque Favilla recebeu em triumpho os pacificadores de Cantabria, e Theodemiro e Eurico obtiveram a recompensa do que combateu pela patria, a gratidão dos seus naturaes.Foi ahi que o destino preparou a separação dos dous guerreiros que parecia só a morte poder dividir. Favilla tinha dous filhos, Hermengarda e Pelagio. Pelagio saía apenas da infancia, mas para Hermengarda despontavam já então os risonhos dias da juventude. A sua formosura era celestial: Eurico viu-a e amou-a. Quando as tiuphadias foram chamadas a Toletum, Eurico voltou triste á terra da sua infancia. Dir-se-hia que eram os contentamentos da patria que elle trocava pelas tristezas do desterro. Debalde buscou Theodemiro apagar aquella paixão violenta no coração do seu amigo, lançando-se com elle nas festas ruidosas de uma corte dissoluta. A embriaguez dos banquetes era para Eurico tristonha; as caricias feminís, facilmente compradas e profundamente mentidas, atrás das quaes correra loucamente outr'ora, tinham-se-lhe tornado odiosas; porque o amor, com toda a sua virgindade sublime, lhe convertera em podridão asquerosaos deleites grosseiros que o mundo offerece á sensualidade do homem. Theodemiro acreditara na efficacia da bruteza para matar o mais formoso dos affectos humanos; mas o amor devorou na mente de Eurico todos os outros sentimentos, como a lava candente devora tudo o que encontra, quando o vulcão a vomita, alagando a superficie da terra.Favila veio á corte: Hermengarda acompanhava-o. Theodemiro recordar-se-ha ainda de qual foi o desfecho do amor de Eurico, que ousou dizer ao velho procer: «Dá-me por mulher tua filha.» A amizade de Theodemiro salvou então o desprezado gardingo da morte do corpo, mas não pôde salva-lo da morte da alma. Razões, rogos, lagrymas; quanto a eloquencia de affeição mais que fraterna tem de vehemencia; quantas cordas do coração sabe fazer vibrar a mão de um amigo, tudo elle tentou debalde! Não ha palavras que possam erguer um espirito que deu em terra; mão nenhuma tira sons de cordas que estalaram. Eurico ou, antes, a sua sombra, fugiu do lado de Theodemiro, e da porta do sanctuario disse-lhe um adeus eterno, como ao resto do mundo.Mal sabía o desgraçado que n'esse adeus a sua consciencia mentia a si propria! Theodemiro,tu hoje és duque de Corduba: entre os povos sujeitos ao teu imperio; entre os que abençoam a tua justiça e bondade, n'um angulo da vasta provincia da Betica, em Carteia, vive um pobre presbytero que para ti pede ao Senhor tanto o renome e o poderio quanto para si deseja a obscuridade e o esquecimento. Este presbytero é quem te escreve; quem limitou a bem poucos annos a eternidade do adeus que te dissera; é aquelle que se chamava no mundo o gardingo Eurico, aquelle de quem foste amigo, e que foi teu rival de gloria.Duque de Corduba, não creias que o meu espirito se volte hoje para as miserias da terra, impellido por uma tardia saudade. Não! De que me serviriam o ouro, o poder e a grandeza? Para tomar um punhado desse lodo não se curvaria o Presbytero. O unico affecto eterno que, talvez, resta a este coração depurado pelo fogo ardente da desdita, o amor da patria, sentimento confuso e indefinido, mas indelevel, é quem obriga Eurico a dizer-te o logar em que veio coar gota a gota as horas aborridas da sua tormentosa existencia.Theodemiro! Theodemiro! Um dia tremendo se approxima em que a Hespanhadeve ser o tumulo da raça goda. Em sonhos antevi esse dia, e, após dos sonhos, a medonha realidade ahi se me alevanta diante dos olhos. Carteia está deserta, como as demais povoações vizinhas. Apenas eu ouso demorar-me nas immediações do Calpe; porque sei, passo a passo, todas as veredas que guiam ao topo dos desfiladeiros, tendo-as regado muitas vezes com lagrymas, tendo-lhes muitas mais confiado a historia das minhas agonias. As cidades despovoam-se, e, como ellas, os campos convertem-se em ermos. Embora ainda sorriam no vecejar das searas, no florescer dos pomares, no murmurar das fontes: semelhante sorrir consterna; porque o homem desappareceu do meio desta scena formosa, e o ruido da vida converteu-se em silencio de morte.—Os arabes!—eis o unico grito que o interrompe; e esta palavra maldicta é como a peste quando passa: seguem-na o susto e o desacordo. A vileza do coração humano surge após ella em toda a hediondez do seu aspecto. O terror acabou com os mais sanctos affectos e, até, com o amor filial e paterno. Cada qual busca salvar-se a si proprio. Os netos dos nobres godos converteram-se n'um bando desprezivel de covardes egoistas.Ha tres dias, ao romper da manhan, um grande numero de velas branquejava sobre as aguas do Estreito; vinham do lado de Septum. Corremos á praia. Dentro de poucas horas entraram na bahia de Carteia, e algumas entestaram com a Ilha-Verde. Via-se distinctamente o reluzir das armas, e varios soldados que tinham ajudado a repellir os primeiros saltos dos africanos nas costas d'Hespanha reconheceram logo os trajos e as armas dos arabes. Entre estes, porém, divisavam-se muitos godos, pelas armaduras pesadas, pelos largos ferros dos frankisks e pelas stringes mais curtas que as amplas vestiduras dos filhos do Oriente. D'ahi a pouco toda a frota velejou para o lado do Calpe, e, quando anoiteceu, as faldas da montanha appareceram alumiadas por muitos fachos. Os arabes tinham desembarcado.A anciedade era indizivel. Demudadas as faces, olhavamos uns para os outros. Elles tremiam por si: eu pela sorte da Hespanha. Mas porque entre esses que pareciam inimigos se achava tão avultado numero de godos? Esta pergunta significava a nossa derradeira esperança.Ao entenebrecer, alguns barqueiros saíram ao largo e, vogando surdamente, foram espiara frota. Tomando os atalhos mais curtos, eu encaminhei-me sósinho para o Calpe, cujo vulto gigante, rodeiado de fachos ao sopé, negrejava no topo sobre o fundo alvacento do céu limpo de nuvens, onde a lua passava tranquilla, embargando com o seu clarão pallido o scintillar das estrellas.Era alta noite quando cheguei á montanha. Subindo pelas quebradas, salvando precipicios, cozendo-me com as fragas tortuosas, descendo pelos leitos das torrentes, cheguei a um rochedo contiguo á planicie que das raizes da serrania vai morrer no rolo do mar, na costa oriental da bahia. Era ahi que os arabes, desamparando a frota, se haviam acampado. Comprimindo o alento, approximei-me insensivelmente de uma tenda mais vasta, alevantada juncto do penhasco a que eu chegara sem ser percebido. Por uma fenda que deixavam as telas mal unidas do pavilhão descortinei o que se passava no interior á luz das tochas que tinham nas mãos dous ethiopes, cujos rostos negros contrastavam com a brancura das suas roupas. Assentado no chão, com os braços cruzados, um arabe mancebo parecia escutar attentamente um guerreiro godo que, em pé no meio de outros dous, tinha as costas voltadas paramim. Com espanto e ao mesmo tempo com alegria, percebi que se exprimia em romano rustico, o qual, d'ahi a pouco, vi que o moço arabe falava como se fosse a propria linguagem. Comecei então a escutar attentamente.«Tarik—dizia o godo—ámanhan ao romper d'alva é necessario que todos estes penhascos empinados sobre nossas cabeças se coroem de teus soldados e que não tardes em fortificar essa estreita passagem que une o promontorio do Calpe com o resto do continente. É aqui, nestas serras inaccessiveis, que deves esperar o resto dos libertadores da Hespanha: é d'aqui que deves saír com os teus irmãos do deserto para quebrar o sceptro do tyranno Ruderico. Se a sorte das armas nos for contraria, esperaremos neste logar novos soccorros d'Africa. Septum nos fica fronteiro, e Septum entreguei-t'o eu...»Tarik não o deixou continuar. Como o leão, pulando subitamente dos juncaes da Mauritania, o moço arabe pôs-se em pé, com o gesto colerico, e exclamou:«Wali dos christãos! quem te fez crer que Tarik podia ser vencido? Vi em sonhos o propheta de Deus que me disse:—a Hespanha curvar-se-ha ao koran:—e Mohammed nãomente! Ainda sem ti, eu me teria arrojado sobre o imperio godo, e a minha lança o faria cahir a meus pés moribundo, quando Sebta me tivesse fechado as portas; quando todos vós os godos estivesseis unidos contra mim. Deus é grande, e Mohammed o seu propheta!»As palavras violentas do arabe revelaram-me quem era o guerreiro godo. Juliano capitaneiou, como nós, uma tiuphadia na guerra cantabrica e foi valente soldado. Sabía que elle fora elevado á dignidade de conde de Septum e que ahi se cubrira de gloria, repellindo os inimigos do imperio, que já tinham tentado conquistar aquella provincia. Como e porque atraiçoou a terra natal? Odios civís o levaram a tanta infamia, segundo entendi das suas palavras. Parricida e fratricida a um tempo, busca vingar-se, talvez de bem poucos de seus irmãos, esmagando-os debaixo das ruinas da patria. A memoria deste malaventurado será reproba e maldicta das gerações remotas!Juliano parecia querer responder ao mancebo, quando um soldado entrou com um rolo de pergaminho na mão e, entregando-o a Tarik, proferiu algumas palavras em arabe. Tarik olhou então para Juliano com umsorriso e, estendendo-lhe a dextra, disse-lhe em voz baixa:«Wali de Sebta! perdoa-me este impeto, como me tens perdoado tantos outros. Bem sei que não podes comprehender o que é a fé viva de um mosselemano na protecção de Deus: mas eu sería réu do inferno, se duvidasse um instante das promessas do Propheta. O judeu Zabulon acaba de chegar com essa carta do que vós chamaes bispo de Hispalis. Lê-a e dize-me que novas ha de Ruderico.»Juliano desdeu o nó da carta e leu. Batia-me o coração de furor; mas procurei tranquillisar-me. Importava-me assás conhecer o que ella continha para dever prestar toda a attenção possivel ás palavras do conde Juliano.«Ruderico—disse este, acabando de correr com os olhos o rolo de pergaminho—entregue aos banquetes e festas, não acredita que o dia da vingança amanhecesse para a Hespanha: todavia, logo que a noticia indubitavel da nossa vinda retumbar sob os tectos dourados dos paços de Toletum, elle convocará os seus numerosos soldados, as suas tiuphadias veteranas, e arremessar-se-ha contra nós; porque Ruderico é dissoluto e perverso, mas nunca foi covarde. O prudenteOppas pensa, como eu, que importa fortificar-nos no Calpe. Aconselha-o a sciencia da guerra, e, se, como crente, confias no teu propheta para contar com a victoria, como capitão deves seguir os conselhos da prudencia humana. Tambem eu espero no Deus das batalhas—proseguiu o conde em tom de mofa, batendo no punho da espada;—tambem eu tenho a minha providencia; mas a aguia, quando se arroja sobre a prêa, tem já construido o seu ninho no penhasco da montanha, e as penedias do Calpe devem ser o ninho das aguias que pairam sobre o throno de Ruderico.»Tarik ficou por alguns momentos calado e pensativo:«Seja como te aprouver:—disse por fim.—Busca no exercito os melhores artifices arabes e com elles e com os teus godos alevanta esses vallos em que põe sua confiança o teu coração descrido.»«Houve um tempo em que não o foi:—replicou Juliano com o accento da colera misturada de indignação e tristeza:—mas Witiza dorme debaixo d'uma lousa o somno da eternidade, e o seu assassino chama-se o rei dos godos. Elle folga e ri assentado no throno que lhe deu a traição e o perjurio. Tarik,o teu propheta inspira-te em sonhos; mas a vingança é mais segura inspiração, porque é o sonho perenne do homem desperto, quando vê, assim, falhar a justiça do céu, se é que nelle ha justiça.»Proferindo estas palavras blasphemas, Juliano saíu da tenda. Tarik bateu as palmas, e um guerreiro ethiope, cujos olhos lhe reluziam sanguineos na pretidão do rosto, entrou com os braços cruzados e ficou immovel e curvado diante de Tarik. Pareceu-me que este lhe ordenava o que quer que fosse; mas falava na sua linguagem barbara, e não o pude entender.Sabía assás qual era a situação e quaes os accidentes do solo de todos os desvios do Calpe para perceber que a minha demora naquelles sitios podia tornar-me impossivel a saída. A defensa do promontorio consistia unicamente em cortar com vallos e cavas o isthmo que o liga ao continente. Juliano começaria, talvez, a alevantar as tranqueiras nessa mesma noite; era, portanto, necessario partir.Quando atravessei a serra pelos trilhos mais curtos e escusos, conheci que o meu receio fora bem fundado. Parando no topo de uma penedia, donde se divisava ao redor quasi toda a montanha, vi centenares de fachosque vacillavam, correndo tortuosamente pelas ladeiras, sumindo-se, tornando a apparecer, retrocedendo. O todo daquella illuminação terrivel estendia-se em volta da montanha, formando uma extensa meia lua, cujas pontas cresciam para o isthmo, ao passo que se approximavam uma da outra, estreitando o cume da serrania. Era visivel que alguem practico nas apertadas gargantas, nas sendas intrincadas do promontorio, guiava os barbaros. Convinha fugir, não porque m'importasse o morrer, mas porque, talvez, a Providencia me guiara á tenda de Tarik para que as Hespanhas fossem salvas, se é que ella não escreveu irrevogavelmente a sua condemnação no livro dos eternos designios.Theodemiro, vê que a traição, semelhante ao veneno recentemente bebido, que gyra nas veias e ainda não apparece no aspecto, está por toda a parte e, até, penetra no sanctuario. É necessario esforço e vigilancia, já que as dissenções civís quizeram queos golpes do frankisk godohajam de se vibrar sobre a fronte de godos que combatem ao lado do estrangeiro infiel; já que a perfidia póde abrir as portas das nossas cidades aos africanos, sem que estes tenham de passar por cima dos cadaveres de seus irmãos, para se assenhoreiaremdellas. Cumpre que avises Ruderico. Em Hispalis está Oppas, e Oppas tem comsigo numerosos clientes, que, porventura, entregarão aos invasores a mais formosa e opulenta entre as povoações da Betica. Não tardará que os arabes desçam do Calpe e se derramem pelas provincias da Hespanha. Ha dous dias, em que vagueio, quasi só, nas immediações de Carteia, não se passa uma hora, sem que os navios d'Africa venham vomitar na bahia novos esquadrões de soldados. Semelhante aos éstos do mar, é rapido o seu ir e voltar. Dentro d'oito dias, bem custoso sería resistir a Tarik com todo o poder do imperio, quanto mais divididos os godos em dous bandos, um dos quaes pelejará ao lado dos inimigos.Dir-to-hei, Duque de Corduba: tambem eu não amo Ruderico; porque a memoria de Witiza nunca morrerá no coração do seu antigo gardingo. Sei por quaes meios Ruderico subiu ao throno, que não obteria pela eleição dos godos. Mas não é a sua coroa que os filhos das Hespanhas tem hoje que defender; é a liberdade da patria; é a nossa crença; é o cemiterio em que jazem os ossos dos nossos paes; é o templo e a cruz, o lar domestico, os filhos e as mulheres, os camposque nos sustentam e as arvores que nós plantámos. Para mim, de todos estes incentivos, apenas restam dous; o amor da terra natal e a crença do evangelho. No dia do combate, Eurico despirá a stringe innocente do sacerdocio e vestirá as armas para defender estes objectos queridos dos seus derradeiros affectos. Que, tambem, esses que ainda se enlaçam ás illusões e esperanças, como a hera ás ruinas, se ergam para pelejarem batalhas tremendas, porque o serão, por certo, as que nos aguardam; e oxalá que os meus tristes sonhos sejam desmentidos pelo esforço dos guerreiros godos; oxalá que não esteja para bater a derradeira hora do dominio da cruz nesta terra do occidente, regada pelo sangue de tantos martyres!De Mellaria, aonde me acolhi com grande numero dos moradores de Carteia e dos seus arredores, continuarei as minhas correrias nocturnas para as bandas do Calpe, com os homens mais ousados que quizerem acompanhar-me, até que os arabes desçam da sua guarida, e seja inutil o vigiá-los; até que chegue o dia em que os desgraçados, como eu, achem na morte honrada das pelejas o repouso das amarguras da vida, se é que além do morrer ha o repouso do espirito.DO DUQUE DE CORDUBA AO PRESBYTERO.
Então os godos cahirão na guerra;Então fero inimigo ha-de opprimi-losCom ruinas sem conto, e o susto e a fome.Hymno deS. IsidoroemLucas de Tui. Chronicon liv. 3.ºNo templo—Ao romper d'alva—Dia de Natal da era de 748.
No templo—Ao romper d'alva—Dia de Natal da era de 748.
Christo!—dá-me o perdão; dá-me remedio;Que entre tão vario mal fraqueia a mente!Eugenio Toledano:Opusculos—XI.Na Ilha-verde. Ao pôr do sol daskalendas de abril da era de 749.
Na Ilha-verde. Ao pôr do sol daskalendas de abril da era de 749.
No espelho da visão está a segurança da verdade.Codigo wisigothico—I-1-2.Presbyterio. Antemanhan. Oito dos idos d'abril da era de 749.
Codigo wisigothico—I-1-2.
E eu estava em um angulo, observando com temor.Paulo Diacono:Vidas dos PP. Emeritenses.
Paulo Diacono:Vidas dos PP. Emeritenses.
Ao Duque Theodemiro, saude!