IXJUNCTO AO CHRYSSUS

Ao Gardingo Eurico, saude!Vives ainda Eurico! Perto de Corduba, onde existia o seu antigo irmão d'armas, o heroe da guerra cantabrica nunca teve um impulso de affecto que o levasse a revelar o mysterio do seu retiro, em que enviasse uma palavra de consolação para a saudade fraterna. Accusas de egoismo e fereza os filhos da Hespanha, e cahiste na mesma culpa: foste egoista e cruel. Não podias crer por certo que eu me houvesse esquecido de ti: larga experiencia te ensinou que as minhas affeições são duradouras e profundas. Mas aquelle que te amou tanto; aquelle que poria a vida para salvar a tua; que nunca teve contentamento ou magua que fosse para ti segredo, tractaste-o com o mesmo desprezo, com que, no teu nobre orgulho de desgraçado, tractaste o resto do mundo; e do limiar do templo disseste-lhe, talvez, o mesmo adeus de odio e despeito que disseste ao resto do genero humano.É nos dias em que se abre para a patria uma longa carreira de desventuras, que tusurges, gardingo, como a lembrança querida dos formosos dias da nossa mocidade; é na vespera de uma lucta em que se vai resolver se ha-de ser livre ou serva a terra dos godos; em que mil cogitações tristemente solemnes me assaltam o espirito e me obrigam a não me afastar de Corduba, onde incessantemente trabalho por ajunctar os valentes companheiros de nossas glorias de outr'ora; é quando a voz do dever me tem como captivo, que d'um angulo da Betica me dizes—eu vivo!—Embora! Já que não me é dado buscar-te, serás tu que virás lançar-te nos braços do teu amigo.Sim, gardingo!—Hoje que o imperio é abalado nos seus fundamentos; que os pagãos d'Africa ameaçam derribar a cruz erguida no cimo das nossas cathedraes; hoje, tu despirás a stringe sacerdotal e cingirás de novo a deposta e esquecida espada. Em Corduba, onde se ajunctam já as tiuphadias da Betica, Eurico achará bom numero dos seus antigos guerreiros, e os mais ousados mancebos, que ora encetam a vida dos combates em defesa da patria e da fé, acceitarão com jubilo para seu capitão o homem que deixou um nome que não morrerá emquanto durar a memoria do desbarato dosvasconios e francos. Na ebriedade da gloria que te espera, porventura, achará o teu pobre coração, despedaçado pelas paixões que ahi passaram, o allivio e conforto que vejo teres buscado debalde nos braços de uma piedade austera, de uma vida d'humildade e abnegação. Esta gloria será tanto maior, quanto é certo que nunca o imperio godo se viu tão perto da sua ultima ruina e que nunca foram postos a tão dura prova o esforço e a lealdade dos seus filhos.As novas que me dás da traição do bispo d'Hispalis são assás graves; mas são necessarias a circumspecção e a prudencia. Os teus ouvidos podem ter-te enganado. Se essa trama horrivel existisse, estender-se-hia por toda a Hespanha. Sabes que Oppas é tio dos moços Sisebuto e Ebbas, cujas pretensões á coroa são conhecidas, pretensões que os beneficios de Ruderico ainda, por certo, lhes não fizeram esquecer. Diz-se que o rei dos godos lhes confiará o mando de uma das alas do exercito com que se encaminha á Betica. Este procedimento generoso obstaria a que rebentasse a conjuração. Não se tracta agora de satisfazer odios de parcialidades civís: tracta-se de salvar o imperio. Fora mais que infamia; não tem nome, immolar a Hespanhano altar de ambiciosa vingança. Não! Embora estejamos corruptos: o exemplo do conde de Septum não será entre nós seguido.Vem, Eurico, para que reverdeçam os louros da tua gloria. Ouves a voz da patria? É ella que te brada:—Vem combater por salvar-me, tu, o mais valente dos meus filhos!DO PRESBYTERO AO DUQUE DE CORDUBA.Eurico a Theodemiro, saude!Não comprehendeste, duque de Corduba, quão fundo é o abysmo cavado neste coração pela desventura. Não me queixo de ti; porque nem a ti, nem a ninguem é dado comprehendê-lo. Medes o meu espirito pelos affectos humanos; mas é porque não sabes como elle saíu depurado do crisol de padecer infernal.Gloria! Que m'importa a mim a gloria? Que posso fazer dessa riqueza, inutil como as outras riquezas?Examina bem a consciencia e dize-me qual é para os corações puros e nobres o motivo immenso, irresistivel das ambições de poder, de opulencia, de renome? É um só—a mulher: é esse o termo final de todos os nossossonhos, de todas as nossas esperanças, de todos os nossos desejos. Para o que encontrou na terra aquella que deve amar para sempre, aquella que é a realidade do typo ideal que desde o berço trouxe estampado na alma, a mira das mais exaltadas paixões é a aureola celestial que cinge a fronte da virgem, idolo das suas adorações. Para o que anda, por assim dizer, perdido nas solidões do mundo, porque ainda não descubriu a estrella polar da sua existencia, o astro que ha-de illuminar-lhe a noite do coração, como o sol com os seus primeiros raios illumina as trevas de um templo, para esse a mulher é uma idéa vaga e confusa, mas formosa e querida. Não a conhece, não sabe onde esteja a imagem visivel da filha da sua imaginação, e, todavia, é para lhe pôr aos pés gloria, poderio, riqueza, que elle cubiça tudo isso. Tirae do mundo a mulher, e a ambição desapparecerá de todas as almas generosas. Realidade ou desejo incerto, o amor é o elemento primitivo da actividade interior; é a causa, o fim e o resumo de todos os affectos humanos.Theodemiro, eu amei como ninguem, talvez, ainda amara. Este amor foi desprezado e ludibriado e, depois, comprimido pelo desprezoe pelo ludibrio no fundo do coração do teu pobre amigo. Sabes o que faz um amor immenso assim recalcado?—Devora e consome o futuro e entenebrece para sempre o horisonte da vida. Nada ha, depois disso, que possa restaurar o que elle tragou: nada que possa rasgar as trevas que elle estendeu. No mesmo sepulchro não ha porvir d'esperança, nem, porventura, luz de consolação; porque ao passamento do corpo precedeu a morte do espirito.Não, eu não quero a gloria inutil e inintelligivel hoje para mim. Não, eu não quero o mando e o poderio, porque já não sei para o que elles prestam. Como o febricitante em dia ardente do estio, que aspira a brisa da tarde, a qual não póde sará-lo, mas que lhe refrigera por momentos o ardor do sangue, assim eu ainda me deixo affagar pela idéa de me atirar ao maior fervor das batalhas pelejadas em nome da patria: esse delirio dos perigos, essa loucura que o cheiro de sangue produz é um respiradouro por onde resfolegará a indignação e a colera enthesourada por annos neste coração. Tiuphado, seria constrangido a vigiar as acções dos outros, a usar do valor tranquillo que affronta immovel a morte; mas que é tal valorpara aquelle a quem a vida serve só de martyrio? Uma hypocrisia mais; mais um meio de enganar o mundo. E que tenho eu com o mundo para curar d'enganá-lo?Homem de paz—dir-me-has tu—pela profissão do sacerdocio; tendo buscado o repouso á sombra eterna da cruz, como é que desejas só o que nos combates ha mais brutal, ignobil e obscuro, o furor da matança, e recusas o que nelles ha mais nobre e puro, a intelligencia com que um unico individuo move milhares delles e lhes multiplica a força com a rapidez das idéas, com a sublimidade das concepções, com a robustez de uma vontade immutavel? Homem de paz, cingindo a espada do guerreiro, que outro mister deverá ser o teu?Busquei, é verdade, o repouso e a paz no sanctuario de Deus!—Dias e dias, passei-os orando com a fronte unida ás lageas do pavimento sagrado, esperando que da morada dos mortos surgisse para mim descanço e esquecimento; mas o sepulchro foi esteril. Noites e noites, vagueei-as pelas solidões: assentei-me ao luar sobre os penhascos dos promontorios, com os olhos cravados no céu ou errantes pela vastidão das aguas, e onde todos acham lagrymas de consolo ed'esperança eu não achei uma só, porque as minhas morriam apenas brotavam. O Senhor não me escutou as preces: não me acceitou a resignação. Este espirito, que tentava erguer-se nas asas da philosophia do Christo para as alturas, despenhava-se de novo para o pelago medonho das recordações amargas. Ainda os homens abençoavam o Presbytero, e já a consciencia lhe bradava, a todos os momentos:—condemnação para a tua alma!Quando o céu é um deserto para a esperança, onde a acharei na terra? Que póde hoje embriagar-me, senão uma festa de sangue?Já me teria assentado a esse phrenetico banquete nas guerras civís, se ainda não vivesse em mim o sentimento moral, ultimo que se desvanece naquelle que por largos annos viveu vida pura de crimes. Mas, sem crime, se póde assentar a elle um desgraçado como eu, ao chamar por nós todos, no meio de um grande perigo, a terra de que somos filhos.Theodemiro, breve virá, talvez, o dia em que vejas que o braço do gardingo não enfraqueceu debaixo das roupas do Presbytero; em que elle te prove que a mortiça côr de uma negra armadura póde ser tão bella ao sol das batalhas como as couraças e os elmosresplandecentes de nobres guerreiros: que o frankisk grosseiro de um obscuro soldado póde contribuir para a victoria como a pericia militar de capitão famoso. Oxalá que, entretanto, seja verdade o que dizes!—Oxalá que eu me enganasse, e que a traição não tenha tornado inuteis a intelligencia e o braço do homem para salvar as Hespanhas!IXJUNCTO AO CHRYSSUSCongregados todos os godos, oppôs-se á entrada dos arabes e valorosamente foi ao encontro da invasão.Rodrigo de Toledo:Das Cousas d'Hesp. L.3.ºPoucos dias haviam passado depois que o duque de Corduba recebera a ultima carta do infeliz Eurico. Á frente das suas tiuphadias, elle se encaminhara para Hispalis, seguindo as margens do Betis. Ao chegará antiga Romula, o bispo Oppas recebeu-o com demonstrações de alegria taes, que as suspeitasde Theodemiro, suscitadas, máu grado seu, pelas revelações do Presbytero, quasi se desvaneceram. Na linguagem do sacerdote parecia reverberar-se uma indignação profunda contra o conde de Septum e contra os demais godos que tentavam, unidos com os barbaros, assolar a terra natal. O metropolita, segundo os costumes daquella epocha, tinha deposto o baculo de pastor para cingir a espada do guerreiro, e aos paços episcopaes de Hispalis viam-se chegar todos os dias os parentes de Oppas e, por isso, de Witiza, cujo irmão este era. Os nobres que tinham seguido o bando dos mancebos Sisebuto e Ebbas e que, pela maior parte, viviam longe da corte ajunctavam os seus servos e clientes á hoste do bispo guerreiro, que promettia acompanhar o rei godo com um esquadrão mais lustroso que os de seus sobrinhos, a quem Ruderico dera de feito o mando supremo de uma das alas do exercito que congregara em Toletum.Em Hispalis, como por todos os angulos da Hespanha, os martellos dos fundidores e armeiros retumbavam nas bigornas com ruido incessante; açacalavam-se as armas, puliam-se e provavam-se as armaduras, e os corceis rapidos e robustos da Betica e da Lusitania,impacientes nas tendas alevantadas em roda dos muros da cidade, mordiam os freios brilhantes e pareciam adivinhar que estava proximo um dia de combate. Os servos e os libertos, em competencia com os homens livres e nobres, corriam a rodeiar os pendões da independencia da patria, e o sangue generoso dos godos como que se despertava mais ardente e cheio de vigor ao grito da guerra sancta, depois de uma somnolencia de seculos, em que a sua antiga ousadia só dera signaes de vida nas luctas sem gloria das dissenções intestinas.E toda esta energia, todo este recordar-se da rica herança d'esforço legado pelos conquistadores septemtrionaes a seus netos da Iberia, dir-se-hia que eram suscitados pela Providencia para salvar a monarchia gothica, porque de tudo isso ella carecia para resistir aos invasores. Desde que o exercito destes, semelhante a serpe monstruosa, tinha cingido estreitamente a montanha do Calpe, não se passara um unico dia em que não se fortalecesse e engrossasse. As encostas do Abyla e os despenhadeiros do Atlas, os valles da Mauritania e os areiaes de Sahara e de Barca de contínuo arrojam para a Europa, através do Estreito, os seus filhos tostadosao sol fervente d'Africa. Sem pericia militar, estes barbaros são todavia temerosos nas pelejas, porque os capitães experimentados da Arabia os dirigem e movem como lhes apraz, e porque, sectarios de uma religião nova, credulos martyres do inferno, buscam os embusteiros e torpes deleites que, além da morte, lhes prometteuo propheta de Yatrib, arremessando-se com um valor que se creria de desesperados diante do ferro dos seus contrarios e contentando-se de acabar, com tanto que sobre seus cadaveres se hasteie victorioso o estandarte do Islam.A esta gente bruta e indomavel, cujo esforço vem das crenças da outra vida, se ajunctam os esquadrões dos cavalleiros sarracenos que vagueiam pelas solidões da Arabia, pelas planicies do Egypto e pelos valles da Syria, e que, montados nas suas eguas ligeiras, podem rir-se do pesado frankisk dos godos, acommettendo e fugindo para acommetterem de novo, rapidos como o pensamento, volteiando ao redor dos seus inimigos, falsando-lhes as armas pelas juncturas das peças, cerceiando-lhes os membros desguarnecidos, quasi sem serem vistos, e, apesar da sua incrivel destreza, pelejando, quando cumpre, frente a frente, descarregando tremendosgolpes de espada, topando em cheio com a lança no riste, como os guerreiros da Europa, e assás robustos para, muitas vezes, os fazerem voar da sella nestes recontros violentos: homens, emfim, que, sem orgulho, se podem crer os primeiros do mundo n'um campo de batalha, pelo valor e pela sciencia da guerra. É esta cavallaria irresistivel que constitue o nervo da hoste dos mosselemanos e em que funda todas as suas esperanças o impetuoso Tarik.Pouco depois da chegada de Theodemiro a Hispalis, um dia ao romper do sol, viu-se ao longe para a banda das serranias ao norte do Betis resplandecerem as cumiadas das montanhas, como se um grande incendio devorasse as brenhas e os carvalhaes antigos que povoavam as quebradas das serras. Era a hoste do rei dos godos, que, saíndo de Oretum, se encaminhava por Ilipa e Italica, seguindo a margem direita do rio, para a antiga capital da Betica. D'aqui, engrossando com as tiuphadias de Theodemiro e com os que seguiam o pendão de Oppas, o exercito de Ruderico devia marchar para acommetter os arabes e entregar á sorte das batalhas os futuros destinos da Hespanha.Era já tempo. A torrente dos inimigosdescera, emfim, doCalpe ou Geb-al-Tarik, cujo nome de muitos seculos o capitão arabe tinha apagado, para escrever o proprio nome no collar servil de muralhas que lhe lançara. O estandarte do propheta de Mekka já fluctuava nos campos da Betica, e a sua passagem era assignalada com ruinas, sangue e incendios. Por onde quer que os mosselemanos tinham atravessado ficavam assentados o silencio do sepulchro e a assolação do anniquilamento. Tarik era o anjo exterminador mandado por Deus ás Hespanhas, e a sua espada o raio despedido do céu para fulminar o imperio dos godos.Saíndo do seu ninho d'aguia, construido no promontorio do Estreito, os invasores internavam-se no coração da provincia. Depois de haverem transposto as montanhas que se alteiam desde as ribas septemtrionaes do Belon até Lastigi, onde as serranias se enlaçam com as alturas de Nescania, tinham-se assenhoreado sem resistencia da cidade episcopal d'Asido, e, descendo d'alli para os valles que serpeiam de Gades a Segoncia, haviam assentado as tendas do Islam nas margens do Chryssus. Tarik esperava lá o recontro dos godos. Desde que partira do Calpe, todos os dias, quasi todas as horas,se viam chegar á hoste dos mosselemanos christãos vindos do lado d'Hispalis, conduzidos pelos caudilhos dos almogaures ou corredores africanos. Apenas estes homens desconhecidos eram levados ante o capitão arabe, elle enviava um dos seus cavalleiros ao logar onde tremolava o pendão de Juliano, e o conde de Septum não tardava a vir ajunctar-se com Tarik. Por vezes, á sombra de carvalho frondoso, no meio dos bosques cerrados das montanhas ou debaixo do pavilhão alevantado á hora da sésta em campina abrazada do sol, demoravam-se os dous, por largo espaço, a sós com esses homens, em cujo aspecto era facil ler estampada a traição e a vileza. Depois, os desconhecidos partiam, sem que ninguem ousasse atalhar-lhes os passos; e, quando Juliano voltava para a pequena ala dos soldados da provincia transfretana, via-se-lhe o rosto, não radiante do contentamento que ressumbra de um coração puro quando folga, mas como sulcado por um raio da alegria feroz do criminoso que vê chegar o momento do crime ha muito meditado e previsto.Havia dous dias que nenhum incognito atravessava o Chryssus para falar a sós com Juliano e Tarik. Estes passavam horas inteirasvagueiando nas alturas vizinhas do acampamento pelo lado do meio-dia e do oriente. D'alli olhavam para a montanha em cujo cimo campeiava a antiga povoação d'Asta, e, depois de a examinarem por largo espaço, voltavam ao campo ou corriam as atalaias, que se multiplicavam continuamente. Depois, tudo recahia no silencio e na escuridão; porque as almenaras ou fogueiras nocturnas, que eram d'uso entre os arabes, haviam inteiramente cessado desde a primeira noite em que estes assentaram as tendas perto da beira do rio.Ia em meio a terceira noite após aquella em queos crentes do Islamtinham parado nas faldas septemtrionaes das cordilheiras de Asido. Eram profundas as trevas que se dilatavam pela face da terra, mas os raios scintillantes das estrellas rareiavam o manto negro da atmosphera. Esta luz incerta reverberava tremula e fugitiva nas pontas das lanças dos atalaias, que, apinhados na coroa dos outeirinhos ou embrenhados entre as sebes dos vallados, observavam os picos agudos que, ao longe para o norte, negrejavam como recortados nas profundezas do céu. O Chryssus murmurava lá em baixo, e a esteira da corrente faiscava, tambem, com o reverberarda luz dos astros, emquanto o vento, passando pelas ramas de algumas arvores solitarias, respondia ao seu murmurar com o gemer da folhagem movediça.Subitamente, no meio deste silencio,alguns esculcase vigias lançados além do rio, na margem direita, creram perceber um ruído longinquo, que menos exercitados ouvidos não saberiam distinguir de remoto e quasi imperceptivel despenhar de torrente. Então elles se debruçaram no chão e, unindo a face á terra, escutaram por alguns momentos. Depois, erguendo-se a um tempo, ouviu-se entre elles uma voz sumida, que dizia—Os romanos!—e a turba repetiu:—Os romanos!E, unindo-se n'uma fileira, encurvaram os arcos e ficaram immoveis.Pouco a pouco aquelle ruído, mal sentido a principio, cresceu e tornou-se mais distincto. Brevemente, facil foi de perceber o tropeiar de milhares de cavallos e o bater confuso dos pés de milhares d'homens. Os esculcas arabes conservavam-se unidos e em silencio.De repente o grito de:—Allah!—retumbou d'além do Chryssus: seguiu-se um estridor de poucas frechas, e n'um instante os atalaias do campo viram alvejar fitas d'escuma,que se estendiam através do rio para a margem esquerda. Eram os esculcas que o cruzavam a nado, tendo empregado na dianteira dos godos os seus primeiros tiros.Uma nuvem de settas respondeu ao sibillar das dos esculcas arabes: algumas das fitas de escuma ondeiaram, derivaram pela corrente e desvaneceram-se no dorso escuro e scintillante das aguas. O Chryssus recolhia os primeiros despojos de um terrivel combate.Na principal atalaia dos mosselemanos soou então uma trombeta; centenares dellas responderam por todos os angulos do campo a este convocar para a morte. Os esquadrões uniam-se com a rapidez do relampago e, abandonando o recincto das tendas, arrojavam-se para a margem do rio.Os godos, porém, tinham a vantagem de caminharem ordenados e, por isso, haviam topado com a corrente, antes que os seus contrarios começassem a atravessar a planicie fronteira. As frechas cahiam sobre os arabes que se approximavam, como saraiva espessa: largas e solidas jangadas, trazidas em carros puxados pelas mulas possantes da Lusitania, baqueiavam sobre a agua e, desdobrando-se com engenhosa arte, cresciam até entestar com a margem opposta. Então, os melhorescavalleiros godos, curvando-se para diante, com o frankisk erguido, corriam para as pontes, vergadas debaixo do peso dos cavallos e dos homens cubertos de armaduras, e vinham bater em cheio nos corredores arabes, que, no meio das trevas, não podiam esquivar-se aos golpes do ferro inimigo. Já, nas bocas d'algumas dessas estradas movediças, os cadaveres amontoados começavam a embargar os passos dos vivos; mas por outras, onde os arabes ainda mal ordenados e menos numerosos não tinham podido resistir ao impeto dos godos, golfavam torrentes de guerreiros, que, marchando unidos para uma e outra parte, accommettiam de lado os arabes, os quaes, feridos pela frente e pelas costas, vacillavam e retrocediam. Debalde a voz retumbante de Tarik sobrelevava por cima dos gritos de furor e de agonia de mosselemanos e christãos. O numero dez vezes maior dos godos tornava impossivel a resistencia, e a passagem do exercito de Ruderico para a margem esquerda do Chryssus só Deus a poderia impedir.Era quasi manhan quando o capitão arabe se desenganou da inutilidade de se oppôr por mais tempo á passagem dos inimigos. As tiuphadias godas achavam-se pela maior partena campina onde se deviam resolver os destinos da Hespanha, e, bem que a este tempo todo o exercito do Islam estivesse já em ordem de pelejar, a noite dava grande vantagem aos godos, cuja cavallaria, cuberta de armas defensivas mais solidas que as dos arabes, resistia facilmente aos cavalleiros do deserto, para quem a maior ligeireza e o mais déstro modo de acommetter eram baldados no meio das trevas. A um signal das trombetas os esquadrões mosselemanos começaram a recuar e, alongando-se pela frente do acampamento, esperaram o romper do dia emquanto o exercito godo acabava de transpôr o rio e vibrava milhares de frechas perdidas para o lado onde os capilhares alvissimos dos arabes branquejavam á luz duvidosa do céu recamado d'estrellas.Quando o sol, rompendo detrás dos outeiros de Segoncia, veiu com o seu clarão avermelhado inundar as veigas do Chryssus o espectaculo que ellas offereciam era variado e sublime. De um lado as tendas dos arabes, derramadas pelas raizes dos montes e pelos cimos dos outeiros, podiam comparar-se ao acampamento das tribus do deserto, que, emprazadas á voz do propheta, se houvessem ajunctado n'um ponto unico dassolidões onde vagueiam. Diante desta cidade immensa e movediça, os esquadrões dos mosselemanos, divididos por familias e raças, estavam firmes e cerrados em frente de seus pendões, que os alféreces, montados em ginetes possantes, sustinham erguidos na rectaguarda de cada tribu. Os raios matutinos faziam alvejar os turbantes e scintillavam nos ferros das lanças que os cavalleiros tinham em punho, e os leves escudos orbiculares, que os compridos saios de malha pareciam tornar inuteis, embraçados já para o combate, brilhavam com as suas cores vivas e variadas á claridade serena do romper do dia.Os esquadrões arabes eram a flor do exercito de Tarik; mas a catadura selvagem dos africanos seus alliados, neophytos do Islamismo, produzia, porventura, mais temor do que o aspecto delles. Torvos e ferozes eram o gesto e os meneios destes homens sem disciplina, cujas paixões se lhes pintavam nos rostos tostados e rugosos, nos olhos banhados de fel e orlados de sangue, e de cuja bruteza e miseria davam testemunho os mangoaes que lhes serviam d'armas (armas terriveis, com que abolavam os elmos mais reforçados), e a hediondez dos seus albornozes pardos, immundos e despedaçados. Tudo, emfim,nelles contrastava com as armas brilhantes, com os ricos trajos e com os vultos magestosos dos cavalleiros do oriente, que, conservando-se em silencio e immoveis, pareciam desprezar as tribus bereberes de Zeneta, de Mazmuda, de Zanhaga, de Ketama e de Hoara, que formavam as alas e que, brandindo as rudes armas, com gritos medonhos se appellidavam para a batalha.Tal era o espectaculo que offerecia o exercito dos mosselemanos. Defronte delle, a hoste goda apresentava os massiços profundos dos seus soldados, cobrindo, como grossa muralha de metal reluzente, a margem esquerda do rio. Rodeiado dos mais illustres guerreiros, Ruderico estava no centro das tiuphadias formadas pelos espadaúdos soldados da Lusitania septemtrional e da Gallecia, em cujas feições se divisava ainda que descendiam dos indomaveis suevos. Unidos com elles sob os pendões reaes, estavam os guerreiros veteranos da Narbonense, habituados a cruzar diariamente as espadas com os orgulhosos frankos, que estanceiavam pelas Gallias, além das fronteiras do imperio. A ala direita, dividida em dous esquadrões capitaneiados pelos dous filhos de Witiza, Sisebuto e Ebbas, continha a flor dos cavalleirosda provincia Carthaginense. Com estes estava o corpo que o metropolitano de Hispalis ajunctara, composto em grande parte de nobres que haviam deposto a espada desde que Ruderico subira ao throno e que a cingiam de novo nesta guerra de independencia. A ala esquerda, mais pequena que as outras duas, não parecia por isso menos de temer para os arabes. O duque de Corduba, Theodemiro, era o capitão dessa ala, em que estavam todos os veteranos que o tinham ajudado a repellir as primeiras tentativas dos mohametanos e que já conheciam por experiencia o modo de pelejar delles. Estes velhos soldados deviam levar ao combate os mancebos que, á voz de Theodemiro, tinham corrido ás armas de todos os lados da Betica e em cujos corações o affamado guerreiro soubera despertar o sentimento da gloria e do amor da patria. Com elle militavam, emfim, as reliquias dos soldados tingitanos que não tinham querido associar-se á traição do conde de Septum.Como os arabes, os godos tinham no meio de si uma nuvem de peões armados, não menos barbaros e ferozes que os filhos da Mauritania. Os montanheses do Herminio na Lusitania, aborigenes, talvez, daquelle paiz,os quaes, na epocha das invasões germanicas, bem como já na da conquista romana, a custo haviam submettido o collo ao jugo de extranhos, e os vasconios, habitadores selvagens das cordilheiras dos Pyrenéus, constituiam com os servos um grosso de gente a que hoje chamariamos a infantaria do exercito. As suas armas offensivas eram a cateia teutonica, especie de dardo, a funda, a clava ferrada e o arco e a setta. Requeimados pelo sol ardente do estio ou pelo vento gelado dos invernos rigorosos das serranias, incapazes de conhecerem a vantagem da ordem e da disciplina, estes homens rudes combatiam meios nús e desprezavam todas as precauções da guerra. O seu grito de acommetter era um rugido de tigre. Vencidos, nunca se lhes ouvia pedir compaixão; porque, vencedores, não havia a esperar delles misericordia. Taes eram os soldados que a Hespanha oppunha á mourisma que circumdava os arabes.Por algum tempo os dous exercitos conservaram-se em distancia um do outro, como dous antigos gladiadores, observando-se mutuamente antes de começarem uma lucta que para algum delles tinha de ser, forçosamente, a ultima. A consciencia da terribilidade do drama que ía representar-se penetrou,por fim, até nos corações dos barbaros de um e d'outro campo: as vozerias que sussurravam ao longe foram pouco a pouco esmorecendo, até cahirem n'um silencio tremendo, só cortado pelo respirar comprimido de tantos homens ou pelo relinchar dos cavallos que, impacientes, escarvavam a terra.XTRAIÇÃOA transgressão dos juramentos tem crescido despeiadamente, e o costume de trahir os nossos principes cada vez é mais frequente.Concilio Toledano XVI c. 10.O sol ía já em alto quandoo grito d'Allah-hu-Acbar!soou no centro dos esquadrões do Islam. Era a voz sonora e retumbante de Tarik. Repetido por milhares de bocas, este grito restrugiu e ecchoou, como o estourar de uma trovoada distante, pelos pendores dasserras e murmurou e perdeu-se pelos desfiladeiros e valles. A cavallaria arabe, enristando as lanças, arremessou-se pela planicie e desappareceu n'um turbilhão de pó.«Christo, e avante!—bradaram os godos, e os esquadrões de Ruderico precipitaram-se ao encontro dos mosselemanos. São como dous bulcões ennovelados que, em vez de correrem pela atmosphera nas azas da procella, rolam na terra, que parece tremer e vergar debaixo do peso daquella tempestade d'homens. O ruído abafado e bem distincto do mover dos dous exercitos vai-se gradualmente confundindo n'um som unico ao passo que o chão intermedio se embebe debaixo dos pés dos cavallos. Essa distancia entre as duas muralhas de ferro estreita-se, estreita-se! É apenas uma faixa tortuosa lançada entre as duas nuvens de pó. Desappareceu! Como o estourar do rolo de mar encapellado, tombando de subito sobre os alcantis d'extensas ribas, as lanças cruzadas ferem quasi a um tempo nos escudos, nos arnezes, nos capacetes. Um longo gemido, assonancia horrenda de mil gemidos, sobreleva ao som cavo que tiram as armaduras batendo na terra. Baralham-se as extensas fileiras: cruzam-nas espantados os ginetessem donos, nitrindo de terror e de colera, com as crinas erriçadas e respirando um alento fumegante. Não se distingue naquelle oceano agitado mais que o afuzilar tremulo das espadas, o relampagueiar rapido dos frankisks, o scintillar passageiro dos elmos de bronze; não se ouve, senão o tinir do ferro no ferro e um concerto diabolico de blasfemias, de pragas, d'injurias em romano e em arabe, intelligiveis para aquelles a quem são dirigidas, não pelos sons articulados, mas pelos gestos de odio e desesperação dos que as proferem. De vez em quando, um brado retumba por cima do estrupido: são os capitães que buscam ordenar as batalhas. Debalde! As fileiras tem rareiado: o combate converteu-se n'um duello immenso ou, antes, em milhares de duellos. Cada cavalleiro arabe travou-se com um cavalleiro godo, e os dous contendores esquecem-se de tudo quanto os rodeia: são dous inimigos, cujo odio nasceu e encaneceu n'um momento, e n'um momento esse rancor é intenso quanto o fora, se por largos dias se accumulara sem poder resfolgar. Firmes, os guerreiros christãos vibram a pesada acha d'armas que tomaram dos frankos ou jogam a espada curta e larga dos antigos romanos; porque as lançasvoaram em rachas, tanto das mãos dos godos, como das dos arabes. Estes, curvados sobre os collos dos cavallos e cubertos com os leves escudos, volteiam em roda dos adversarios e, quasi ao mesmo tempo, os acommettem por um e por outro lado, tão rapido é o seu perpassar. Nesta lucta da força e da destreza, ora o duro neto dos wisigodos, deslumbrado pelo incessante dos golpes, esvaído pelas muitas feridas, suffocado pelo peso da armadura, vacilla e cai, como o pinheiro gigante; ora o ligeiro agareno vê coriscar em alto o frankisk e logo o sente, se ainda sente, embargar-lhe o ultimo grito na garganta, até onde rompeu, partindo-lhe o craneo e sulcando-lhe o rosto. Assim, os centros dos dous exercitos semelham o tigre e o leão no circo, abraçados, despedaçando-se, estorcendo-se ennovelados, sem que seja possivel prever o desfecho da lucta, mas tão sómente que, ao adejar a victoria sobre um dos campos, terá descido sobre o outro o silencio e o repouso do anniquilamento.Os soldados que seguiam a bandeira de Theodemiro tinham-se abalado para o combate apenas viram partir os esquadrões de Ruderico. A ala direita dos mohametanos era capitaneiada pelo amir da cavallaria africana,Mugueiz, a quem a sua origem christan fizera dar o nome de Al-Rumi. O amir era o mais valente e experimentado dos capitães de Tarik, e por isso este fiara do renegado o mando daquella ala, na qual tambem esvoaçava o pendão de Juliano, que, se não abandonara, como Al-Rumi, a crença do Calvario, tinha, comtudo, amaldicçoado tambem a sancta religião da patria. Estes dous guerreiros, ferozes ambos, um por indole e habito, outro por vingança e ambição, amavam-se mutuamente, porque os fizera irmãos uma palavra escripta em suas consciencias, a maxima affronta humana, o nome de renegados.O recontro dessa ala foi semelhante em tudo ao do grosso das suas hostes, salvo que ahi o frankisk encontrava no ar o frankisk, a injuria de godos respondia á injuria proferida por bocas de godos, e as imprecações do odio trocavam-se com maior violencia ainda. Theodemiro combatia á frente das suas tiuphadias onde mais acceso ía ser o travar da batalha, sem, todavia, esquecer o officio de capitão. Era isto; era o exemplo que tornava invenciveis os seus soldados. Guiando os cavalleiros tingitanos, Juliano tambem rompera primeiro adiante dos arabes.Os dous antigos companheiros de combates haviam topado em cheio, e as lanças voaram-lhes das mãos em rachas. Os cavalleiros passaram um pelo outro como relampagos, para logo tornarem a voltar, arrancando das espadas.«Circumcidado!—bradou Theodemiro, ao perpassar por Juliano na rapidez da carreira.«Escravo!—replicou o conde de Septum, rangendo os dentes.A injuria vibrada pelo duque de Corduba penetrara mui fundo. Semelhante a Judas, o conde da Tingitania trahira a patria pela cubiça e, defendendo o estandarte do propheta de Medina, fazia triumphar o koran. Duas vezes a sua alma era a d'um circumciso.Os dous cavalleiros godos acommetteram-se com toda a furia de rancor entranhavel: as espadas, encontrando-se no ar, faiscaram como o ferro abrazado na incude; mas a de Theodemiro fora vibrada por braço mais robusto e, postoque o golpe descesse amortecido, ainda entrou profundamente no escudo que o seu adversario levava erguido sobre a cabeça. Entretanto Juliano, revolvendo ligeiro a espada, rompeu a couraça do duque de Corduba e feriu-o levemente no lado.«Vencedor dos vasconios,—gritou, rindodiabolicamente, o conde de Septum—olha por ti! Nas margens do Chryssus não ha taças de vinho, como aquellas com que te embriagavas nos paços do teu senhor. Aqui o que corre é sangue!»Theodemiro tinha já desencravado a espada do escudo de Juliano, em que ficara embebida. Rapidamente ella descera de novo guiada pela raiva de que abafava o guerreiro. O golpe quebrou o escudo já falsado e bateu no elmo brilhante do conde, com tal furia, que este perdeu a luz dos olhos e, curvando-se para diante, se abraçou ao collo do cavallo, quasi sem sentidos. Outra vez que o duque de Corduba vibrasse o ferro, Juliano estava perdido: o caminho da morte lá lhe ficara indicado no elmo.«Que olhas para o chão, traidor?—disse Theodemiro, com voz tremula de colera e d'escarneo e segundando o golpe.—É a terra da patria, que vendeste aos infieis como tu!»O ferro, porém, não pôde chegar á cimeira do capacete do conde. Outro ferro, seguro por mão robusta, se metteu de permeio. Era a espada de Mugueiz, o qual, passando, vira o perigo imminente do seu amigo e correra para o salvar.Então Theodemiro voltou-se contra o renegado,e um violento combate se travou entre ambos. Mugueiz não era menos déstro que o principe da Betica. Mais membrudo e robusto que elle e, além disso, ainda não ferido, a vantagem era toda sua; mas o esforço de Theodemiro suppria essa inferioridade.Entretanto Juliano recobrara o alento: a vergonha, o despeito, a sede de vingança estorciam-lhe o coração. O nobre ginete em que cavalgava, sentindo seu senhor semi-morto, tinha corrido espantado até onde a multidão de christãos e arabes, travados em peleja sanguinolenta, lh'o consentia. O conde, cravando-lhe os acicates, com a espada erguida na mão, arremessou-o para o logar onde o duque de Corduba pelejava com Mugueiz. Era um feito covarde; mas que importava a Juliano a deshonra? Assignalado com o ferrete indelevel de traidor, havia-se habituado a viver para um sentimento unico—a vingança. E a vingança era quem o impellia.Neste momento, por uma das pontes já desertas lançadas na noite antecedente sobre o Chryssus, soava um correr de cavallo á rédea solta. Alguns soldados que andavam mais perto da margem volveram para lá os olhos. Um cavalleiro d'extranho aspecto erao que assim corria. Vinha todo cuberto de negro: negros o elmo, a couraça, e o saio; o proprio ginete murzello. Lança não a trazia. Pendia-lhe da direita da sella uma grossa maça ferrada de muitas púas, especie de clava conhecida pelo nome de borda, e da esquerda a arma predilecta dos godos, a bipenne dos frankos, o destruidor frankisk. Subiu rapido a encosta, d'onde Ruderico attendia aos successos da batalha. Parou um momento e, olhando para um e outro lado, endireitou a carreira para o logar em que fluctuavam os pendões das tiuphadias da Betica. Como um rochedo pendurado sobre as ribanceiras do mar, que, estalando, rola pelos despenhadeiros e, abrindo um abysmo, se atufa nas aguas, assim o cavalleiro desconhecido, rompendo por entre os godos, precipitou-se para onde mais cerrado em redor de Theodemiro e Mugueiz fervia o pelejar.Juliano tinha-se aproximado no emtanto do esforçado duque de Corduba, que, ferido e obrigado a combater com o déstro e feroz renegado, a custo se poderia defender dos golpes do conde, golpes que o odio e a colera dirigiam. Alguns cavalleiros da Betica voaram a soccorrer Theodemiro; mas os arabes com que andavam travados tinham-nosseguido de perto e, rodeiando Mugueiz, haviam tornado inutil o soccorro dos cavalleiros christãos. O apertado revolver das armas formava uma selva de ferros em volta dos dous capitães inimigos, através da qual debalde o conde de Septum buscara muitas vezes abrir caminho para ferir Theodemiro, até que, finalmente, galgando por cima de um arabe derribado, podera vibrar um golpe. O elmo do nobre godo restrugira, e o guerreiro vacillara. A ultima pagina da sua vida parecia estar escripta no livro dos destinos. Os dous adversarios do duque de Corduba íam tingir de negro as que ainda lhe restavam em branco.Mas o cavalleiro desconhecido havia passado através da hoste goda e chegara á dianteira dos arabes. Com a maça jogada ás mãos ambas abolava e rompia as armas mais bem temperadas, e as púas, entrando pelas carnes dos que se lhe punham diante, iam esmigalhar-lhes os ossos. Por onde elle atravessava nem as fileiras se uniam, nem os godos achavam adversarios. Como a charrúa tirada com violencia em chão batido de planicie deixa após si grossas glebas revolvidas, assim aquella arma irresistivel deixava, ao passar, uma larga cauda de cadaveres entretecidade moribundos debatendo-se em terra. Os godos, espantados, perguntavam uns aos outros quem sería aquelle temeroso guerreiro; mas entre elles ninguem havia que podesse dizê-lo. Se combatesse pelos mosselemanos, crêlo-hiam o demonio da assolação; mas, pelejando pela cruz, dir-se-hia que era o archanjo das batalhas mandado por Deus para salvar Theodemiro e, com elle, os esquadrões da Betica.No instante em que o cavalleiro negro chegou ao logar onde já o duque de Corduba só procurava amparar-se contra Mugueiz e Juliano, este, cego de furor, descia com segundo golpe: a espada, porém, voou-lhe das mãos em pedaços, batendo na maça do cavalleiro negro, que, deixando depois cahir a pesada bordaao longo da ephippia, ergueu o frankisk e, descarregando-o sobre o hombro do renegado, lhe fez uma ferida profunda. A dor arrancou um brado a Mugueiz, a cujo som o seu ginete amestrado o arrebatou para o meio dos arabes, e Juliano, vendo-se desarmado, fugiu após elle. Então o desconhecido disse a Theodemiro algumas palavras sumidas e, sem esperar resposta, internou-se outra vez no meio dos esquadrões agarenos.Desde este momento a ala direita dos mosselemanos começou de affrouxar, porque Mugueiz, mal ferido, se retrahira para o acampamento. Alguns cheiks illustres jaziam moribundos ou mortos ás mãos do cavalleiro negro, que parecia escolher as suas victimas entre os mais nobres guerreiros do Islam. Animados por elle, os godos, cobrando novos brios, procuravam imitá-lo e arremessavam-se destemidos através da hoste inimiga, que debalde procurava resistir á torrente. Os signaes da victoria dos godos eram já dolorosamente certos para os mosselemanos.Ruderico viu isto e exultou. O sol inclinava-se para o occaso, e o centro do exercito arabe, onde se achava Tarik, estava firme; mas os clamores do triumpho, que já soavam na ala esquerda dos christãos, começavam a espalhar a incerteza entre os soldados do propheta. Foi então que o rei dos godos ordenou á sua ala direita descesse contra os bereberes e, dispersando-os, acommettesse os esquadrões de Tarik, que pareciam haver lançado raizes no solo ensanguentado do campo da batalha.Um quingentario partiu á rédea solta para levar a ordem fatal aos filhos de Witiza. Á frente dos seus soldados os dous irmãosfalavam a sós com Oppas e contemplavam o combate. Apenas ouviram o que se lhes ordenava, Sisebuto e Ebbas, voltando-se para os esquadrões que lhes obedeciam, clamaram:—vingança!—Este brado foi repetido por Oppas e pelos nobres que o seguiam. Então, no meio daquella espessa selva de lanças repercutiu um grito que respondia ao dos capitães:—Gloria ao rei Sisebuto! Morte ao traidor Ruderico!E os filhos de Witiza e o hypocrita bispo d'Hispalis, com as lanças aprumadas e as espadas na bainha, lançaram-se pelo valle abaixo, e a mór parte dos esquadrões seguiram-nos. Apenas Pelagio, duque de Cantabria, ficou immovel á frente dos selvagens vasconios e d'algumas tiuphadias da Gallecia e da Narbonense que, alheias á traição daquelles mal-aventurados, recusaram segui-los.Ruderico viu ennovelarem-se nos ares os rolos de pó que se alevantavam sob os pés dos ginetes: Valentes mancebos—exclamou—hoje a Hespanha vai ser salva por vós! Vêde—accrescentava, sorrindo e falando com os guerreiros que o cercavam, muitos dos quaes haviam condemnado a sua arriscada confiança na generosidade dos filhos de Witiza:—vêde como elles voam contra os africanos!Quando um grande risco ameaça a patria não ha odios entre os godos; todos elles são irmãos, porque todos elles são filhos desta nobre terra d'Hespanha.E o quingentario que voltava gritou de longe:—Somos trahidos!Ruderico empallideceu. A certeza da victoria tinha-se desvanecido.XIDIES IRAE

Ao Gardingo Eurico, saude!

Eurico a Theodemiro, saude!

Congregados todos os godos, oppôs-se á entrada dos arabes e valorosamente foi ao encontro da invasão.Rodrigo de Toledo:Das Cousas d'Hesp. L.3.º

A transgressão dos juramentos tem crescido despeiadamente, e o costume de trahir os nossos principes cada vez é mais frequente.Concilio Toledano XVI c. 10.

Concilio Toledano XVI c. 10.


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