XIIO MOSTEIRO

Por quantas desventuras a patria dos Godos tem sido abalada: quão repetidos a pungem os golpes dos fugitivos e a nefanda suberba dos transfugas, quasi ninguem ignora.Codigo wisigothico II-1-7.A passagem de tão avultado numero de godos para os inimigos e o crepusculo que descia obrigaram Ruderico a fazer cessar o combate, emquanto a noite pousava tranquilla sobre aquella campina povoada de afflicções e dores. A aurora rompeu meiga e serena, como nos dias em que vinha trazer asalvoradas alegres ás malhadas dos pastores que, colmadas, amarelejavam outr'ora pelas margens relvosas do Chryssus, em vez das tendas de guerra que alli alvejavam agora com os primeiros resplendores da madrugada. O homem debatia-se ahi nas vascas da morte, e o sol passava envolto na sua gloria, indifferente ás angustias d'aquelles que, em seu ridiculo orgulho, se chamavam monarchas e conquistadores do mundo; passava, sem lh'importar se os vermes vestidos de ferro chamados guerreiros se despedaçavam uns aos outros, com o delirio insensato das viboras no momento dos seus amorosos ardores.Pelas trevas, um ruído sumido, mas incessante, de passadas d'homens e de tropeiar de cavallos soara horas inteiras em um e em outro campo. Era que em ambos elles surgira uma idéa unica. O rei godo havia resolvido formar um corpo só das reliquias da sua hoste e com elle acommetter a principal batalha dos inimigos, para a destruir rapidamente antes que as alas podessem soccorrê-la. O mesmo pensamento tivera Tarik. Semelhante á trovoada do estio, que se amontoa durante a noite em dous polos encontrados e ao alvorecer semeia de coriscos as solidões do céue povoa d'estampidos discordes os echos da terra, assim cada um dos campos se agglomerava em uma pinha gigante; convertia-se n'um homem só, para em duello de morte resolver com o seu contendor se os filhos das Hespanhas deviam acceitar a lei do koran ou continuar a abrigar-se á sombra da divina cruz.Tarik lançara na frente da hoste mosselemana os transfugas do inimigo. Sisebuto, Ebbas, o bispo d'Hispalis e o conde de Septum com os seus numerosos guerreiros constituiam a vanguarda. Seguia-se a cavallaria arabe: os bereberes cingiam este massiço de homens e ginetes, em parte cubertos de ferro, e os indisciplinados cavalleiros da Mauritania, dispersos como almogaures, deviam vagar soltos para fazer entradas nas alas inimigas e impedir assim que ellas podessem a tempo soccorrer o centro do exercito, que o general arabe esperava desbaratar no primeiro impeto.Ruderico, pela sua parte, tinha posto na vanguarda as tiuphadias victoriosas de Theodemiro, os cavalleiros da Cantabria guiados pelo moço Pelagio, filho de Favilla, que succedera a seu pae no governo daquella provincia, e, finalmente, os guerreiros escolhidos da Lusitania e da Gallecia, que elle propriocapitaneiava. Como Tarik, o rei godo collocara de um e de outro lado da hoste apinhada os frecheiros e fundibularios selvagens do Herminio e os montanhezes vasconios, antiga raça de celtas, irmãos em linhagem, em valor, em crueza, em armas e em costumes. Na retaguarda estavam os soldados da provincia Carthaginense que não tinham seguido o exemplo dos transfugas por andarem derramados em outros logares ou, talvez, porque, não corrompidos, guardavam ainda no coração vestigios d'amor da patria.Ao amanhecer, cada um dos capitães inimigos viu com assombro que a mesma traça de guerra de que pretendera valer-se para obter a victoria occorrera á mente do seu adversario. Era, porém, tarde para alterar a ordem da batalha. Ao mesmo tempo as trombetas godas e os anafis arabes deram o signal do combate, e o grito de—Christo e ávante!—confundiu-se em estampido medonho com o brado de—Allah-hu-Acbar—o brado de guerra dos pelejadores sarracenos.O chão pareceu affundir-se com o encontro daquellas duas mós enormes de homens armados, e o echo dos botes das lanças nos escudos convexos e nas armas sonoras dos cavalleiros repercutiu nas encostas fronteirase desvaneceu-se ao longe, murmurando entre as quebradas. Desde o primeiro embate, não mais fora possivel distinguir os exercitos, travados como dous luctadores furiosos. Eram um vulto só, indelineavel, monstruoso, immenso, cujo topo ondeiava, semelhante ao de cannaveal movido pelo vento, cujos contornos indecisos se agitavam, torciam, alargavam, diminuiam, oscillavam, como tapete de nenuphars sobre marnel revolto pelo despenhar das torrentes. Nuvens de settas sibillavam nos ares: as espadas sarracenas cruzavam-se com as espadas godas: a cateia teutonica ía, zumbindo, abrir fundos regos nas fileiras arabes, e os membros ossudos dos peões lusitanos e cantabros estouravamdebaixo das pancadas violentas dos mangoaesda peonagem mourisca. Muitos ginetes vagueiavam sem donos; muitos cavalleiros combatiam a pé. Desgraçado do que, ferido, cahia em terra; porque para elle não havia misericordia: o punhal acabava o que o frankisk ou a cimitarra começara. Dir-se-hia que os regatos de sangue, serpeiando por entre as duas hostes enredadas e salpicando as frontes e corpos, eram as veias descarnadas e rotas daquelle grande vulto, coleiando na derradeira agonia.O cavalleiro negro, ao cessar a batalha do dia antecedente, desapparecera do campo, sem que ninguem soubesse dizer como ou onde se escondera. Só Theodemiro parecia não o ignorar; porque, ao falarem do desconhecido e das suas quasi incriveis façanhas, os tiuphados e quingentarios que em volta delle esperavam o romper da manhan e o recomeçar da peleja, o duque de Corduba buscara sempre mudar de conversação ou respondera, carregando-se-lhe o semblante de tristeza:—«É, porventura, algum desgraçado que procura o repouso da morte, e para o homem que resolveu morrer, que feito de valor será impossivel? Se elle não quer deixar na terra nem o echo vão de um nome glorioso, respeitae-lhe os desejos, porque profundo deve ser o abysmo da sua desventura!»Ao som, porém, das trombetas que annunciavam o renovar do combate, o cavalleiro negro não tardara a apparecer onde mais accesa andava a briga. Via-se, comtudo, que era principalmente nas fileiras dos arabes, onde as púas agudas e cortadoras da sua temerosa borda ou maça d'armas faziam maiores estragos. Mas, quando algum dos godos transfugas ousava esperar-lhe os golpesou tentava ferí-lo, ouvia-se-lhe um rugido como o de maldicção preso na garganta por colera immensa, e o seu miseravel contrario não tardava a golfar o sangue na terra da patria que trahira e a entregar aos demonios a alma tisnada pela infamia da perfidia. Os arabes supersticiosos quasi criam ver nelle Iblis, o rei infernal do Gehenna, armado da espada percuciente, solto por Deus para os punir das offensas commettidas contra o divino koran. Diante delle recuavam os mais esforçados mosselemanos, e só de longe os frecheiros lhe disparavam alguns tiros, que se lhe empennavam no escudo ou, roçando por este, vinham bater-lhe na armadura, debaixo da qual manava já o sangue de algumas feridas, e os membros lassos começavam a desmentir a impetuosidade do espirito.Como na vespera, o sol inclinava-se das alturas do céu para o occaso, e ainda a batalha estava indecisa, se é que o terror que incutia o cavalleiro negro no logar onde pelejava não fazia pender um pouco a balança do lado dos godos. De repente, um grito agudo partiu do mais espesso revolver do combate; este grito gigante, indizivel, d'intima agonia, era o brado unisono de muitos homens; era o annuncio doloroso de um successotremendo. O cavalleiro negro, que, impellido pela ebriedade do sangue, e semelhante a rochedo que se despenha pelo pendor da montanha, ia derramando a morte através dos esquadrões do Islam, volveu os olhos para o logar onde soara o bramido retumbante da multidão. Era no centro do exercito godo. As tiuphadias vergavam em semicirculos para a banda do Chryssus, como o açude minado pela torrente, a ponto de desprender-se das margens, oscilla e se curva, bojando sobre a veia inferior das aguas. A muralha de ferro que, posta entre o Islamismo e a Europa, dizia á religião do propheta d'Yatrib—não passarás d'aqui—vacilla, como a quadrella da cidade fortificada batida muitos dias por vaivem d'inimigos. Por fim, aquelles vastos massiços d'homens ligados pela cadeia fortissima da disciplina, do pudor militar e do esforço, derivam rotos ante os turbilhões dos arabes, ondeiam e derramam-se na campina. Pelo boqueirão enorme aberto no centro da hoste goda precipitam-se as ondas dos cavalleiros mohametanos, e, após elles, a turba dos bereberes, com um bramido barbaro. Debalde as alas tentam ajunctar-se, travar-se uma com outra, soldar os membros despedaçados do leão iberico.Passa por lá a impetuosa corrente dos netos d'Agar, que envolve e arrasta os que pretendem vadeia-la. Deus contara os dias do imperio de Lewighild, e o sol do ultimo delles era o que descia já para o occidente!O cavalleiro negro vira a fuga das batalhas godas, advertido pelo clamor que a precedera. Voltando as rédeas do seu murzello, esporeiou-o para aquella parte. Levava lançado ás costas o escudo, onde os tiros dos archeiros africanos ciciavam, como a saraiva no inverno batendo nos troncos despidos do roble. Pendia-lhe da esquerda do arção a borda ensanguentada, da direita o frankisk. O ginete tresfolegava na furia da carreira, açoutando os ares com as crinas ondeiantes e atirando-se ao meio da especie de voragem aberta nas fileiras christans, a qual como que tragava uns após outros os esquadrões mosselemanos. Ao chegar á confluencia daquellas encontradas torrentes de homens armados, o guerreiro parou e, olhando em roda por um momento, ouviu-se-lhe um grande brado. Era a primeira vez que a sua voz soava no meio da batalha, e a unica palavra que lhe saíu da boca foi o nome de Theodemiro. Esse brado devia chegar longe, reboando como o trovão. Dir-se-hiaque o cavalleiro estava habituado á conversação do bramido dos mares revoltos e do rugir das ventanias pelas fragas das serras; porque naquelle grito, conjuncto inexplicavel de colera e de dor, havia uma semelhança, uma harmonia com o gemido immenso da natureza quando lucta comsigo mesma no passar da tempestade.Mas aos ouvidos de Theodemiro não podia chegar a voz do desconhecido. Arrastado pelos turbilhões de fugitivos, forcejando por obrigá-los a voltar o rosto contra os arabes, ora com palavras de amarga reprehensão, ora com o exemplo, o duque de Corduba combatia mui longe delle. Em vão o cavalleiro negro lhe repetia o nome: era inutil este chamar e, apenas, servia para attrahir os golpes dos agarenos victoriosos. As achas d'armas, as cimitarras, os dardos faziam centelhar a armadura e o escudo do desconhecido, que, tomado, ao que parecia, d'um pensamento doloroso, alongava os olhos por toda a parte em busca de Theodemiro. Com um gemido de desalento, o cavalleiro saíu, emfim, da especie de torpor que o tornava immovel ante o espectaculo de tanta desventura, e o seu despertar foi tremendo. Erguendo em alto a maça d'armas e vibrando-afuriosamente em volta de si, começou a partir espadas e a abolar armaduras. Em breve, ao redor delle, no meio dos mosselemanos vencedores, o terror invadia os animos, como na vespera, como nesse mesmo dia, se espalhara por toda a parte onde haviam reluzido as púas da sua ensanguentada borda ou o ferro do seu cortador frankisk.Apenas, á força de golpes, o cavalleiro negro abriu no meio dos mosselemanos vencedores uma larga clareira, esporeiando o ginete, lançou-se para o lado em que os godos desordenados se retrahiam ante as espadas do Islam. No espaço intermedio entre os fugitivos e os arabes fluctuava sem recuar o pendão do duque de Corduba. Em volta desse pendão tremolavam as signas das tiuphadias da Betica, que, cercadas por todos os lados, resistiam ainda ao embate dos sarracenos. No meio, porém, dos que abandonavam vilmente o campo de batalha nem uma unica bandeira se hasteiava; mas, pelo esplendido das armas, o guerreiro conheceu aquelles que não ousavam resgatar com a vida a deshonra da Hespanha. Eram os soldados escolhidos de Ruderico; era a brilhante cavallaria que elle proprio capitaneiava! A indignação trasbordou da alma do guerreiro:«Rei dos godos, rei dos godos!—exclamou elle—és covarde! Embora vás esconder a tua ignominia nos muros de Toletum. Ainda neste campo de batalha restam homens valentes: ainda Theodemiro combate, não por teu throno deshonrado, mas pela terra de nossos paes. Foge tu com os que não sabem morrer pela patria; que nas margens do Chryssus ficam os que hão-de perecer com ella! Maldicto o godo e christão que foge para ser servo!»E o cavalleiro apertou de novo as esporas ao possante murzello.Não tardou, porém, que o furor se lhe convertesse em tristeza, e que as lagrymas, rebentando-lhe dos olhos, lhe apagassem a maldicção que haviam murmurado os labios. O seu valente cavallo galgava na carreira por cima de cadaveres e de moribundos, de christãos e de infiéis, e a terra, convertida em bréjo de sangue, apenas soava debaixo dos pés do ligeiro animal. Passando por meio dos esquadrões sarracenos, podia-se dizer que o desconhecido se assemelhava ao anjo do Senhor, quando desce por entre os mundos onde habitam os demonios, solitario e temido no imperio dos filhos das trevas que o odeiam. A fama das suas façanhas tinha-o cercadod'uma auréola de terror supersticioso, e, quando passava, os guerreiros do deserto apontavam para elle e em voz sumida diziam uns aos outros—«Ei-lo que vem! ei-lo, o cavalleiro negro!»Mas, porque parou elle, soffreiando subitamente o ginete? Que ha ahi, nessa extensa seara ceifada de homens de guerra, que possa attrahir os olhos do mais incansavel dos segadores? No sitio em que parou estava, poucas horas antes, hasteiada a signa real: era o centro da hoste goda; mas dos que ahi pelejavam, uns lá vão ao longe precipitar-se no abysmo da ignominia; outros, os mais felizes, adormeceram do seu ultimo somno no regaço da patria. O guerreiro fitou os olhos no chão: a fouce da morte, passando por alli, cerceiara a derradeira esperança do imperio de Theoderik. O espectaculo que se lhe antolhava era a explicação do terror que se apossara de tantos homens valentes. Fugiam:Ruderico, porém, estava ahi! mas retalhado de golpes; mas sem vida! Já não sería debaixo de seus pés que o throno da Hespanha se desfaria aos golpes do machado dos arabes. Um sceptro sem dono em Toletum e mais um cadaver juncto ás margens do Chryssus, eis o que restava do ultimo rei dos godos!Com a sua morte fenecera ao redor delle a esperança, e com a esperança dera em terra o esforço dos animos mais robustos. As alas ignoravam este triste acontecimento e por isso pelejavam ainda.Mas pouco tardou a ser geral a róta; porque pouco tardou a espalhar-se aquella nova fatal. Um dia bastara para anniquilar o imperio que durante quatro seculos fora o mais poderoso e civilisado entre as nações germanicas estabelecidas nas diversas provincias romanas. A corrupção dos ultimos tempos concluira a sua obra, e o edificio da monarchia gothica, ainda rico de magestade exterior, mostrara, emfim, desconjunctando-se e desabando, o ferver dos vermes que interiormente o roíam. A cruz, derribada com elle, só devia tornar a hasteiar-se triumphante em todos os angulos da Hespanha depois do combater de oito seculos.Uma parte do exercito godo ainda podera salvar-se atravessando o rio; mas as pontes lançadas na vespera tinham por fim estalado, derivando pela corrente, debaixo do peso dos fugitivos, e as aguas devoravam muitos que o ferro havia poupado. Theodemiro, que não perdera o animo no meio daquella desventura, alcançara fazer passar á margem opposta asreliquias dos soldados da Betica e os restos de muitas tiuphadias de outras provincias. Nos arraiaes, os arabes, senhores do campo, saudavam a victoria com o som dos instrumentos barbaros e com clamores de alegria que íam sussurrar ao longe pelos valles e campos, desertos dos seus moradores. Um homem só combatia ainda daquelle lado á beira do rio. Era o cavalleiro negro. Cercavam-no muitos sarracenos, mas de longe, porque os que ousavam approximar-se delle cahiam a seus pés moribundos. Ás vezes, como que tentava romper por entre os inimigos, mas era tentar o impossivel. No volver dos olhos inquietos para um e para outro lado, parecia buscar descubrir alguma cousa naquelle vasto campo, onde só descortinava os cadaveres dos vencidos e os vultos ferozes dos vencedores. Por fim, voltando o rosto para a margem opposta, viu fluctuar sobre uma eminencia o pendão de Theodemiro. Uma expressão fugitiva de contentamento lhe assomou então ao gesto. Despedindo das mãos a borda ensanguentada, que sibilou por meio dos arabes apinhados em volta, o guerreiro arrojou-se á torrente. Á luz do sol que se punha, viu-se-lhe umas poucas de vezes reluzir o elmo, alongando-se pela superficie dasaguas e desapparecendo por largos espaços. As trevas, que já desciam densas, e a impetuosidade da corrente que o arrastava não permittiram prever-se qual sería a sua sorte. Eurico era a ultima e tenuissima esperança que bruxuleiava nos horisontes do imperio godo: como uma estrella cadente que se immerge nos mares, aquelle esforço brilhante se desvanecera na escuridão que tingia as aguas do Chryssus!XIIO MOSTEIROSe a todos se convertessem todos os membros em linguas, ainda assim não caberia nas forças humanas o narrar as ruinas d'Hespanha e os seus tão diversos e multiplicados males.Isidoro de Béja:Chronicon.O mosteiro da Virgem Dolorosa estava situado n'uma encosta, no topo da extrema ramificação oriental das que a dilatada cordilheira dos Nervasios estende para o lado dos Campos-gothicos. A pouca distancia do valle onde se viam as ruinas de Augustobriga, caminho de Legio, no meio de uma solidãoprofunda aquella silenciosa morada de virgens innocentes achava-se convertida em praça de guerra. Edificio sumptuoso, construido no tempo de Rekkáred, as suas grossas muralhas de marmore pareciam, na verdade, quadrellas de castello roqueiro; porque na architectura dos godos a elegancia romana era modificada pela solidez excessiva do edificar germanico ou saxonio, que os rudes wisigodos do tempo de Theoderik e de Ataulph haviam introduzido no meio-dia da Europa. Os restos dispersos das tiuphadias da Gallecia tinham-se encerrado em todas as povoações e logares fortificados ou por qualquer modo defensaveis, e os habitantes dos povoados, acolhendo-se ahi com elles, deixavam desertas as suas moradas, incertos do dia em que veriam reluzir ao longe as lanças dos agarenos, que já devastavam o norte da Lusitania e parecia encaminharem-se para o lado de Tude. Os muros fortissimos daquelle vasto edificio, as suas portas tecidas de ferro e carvalho, as estreitas frestas, que apenas lhe deixavam penetrar no interior uma luz duvidosa, os tectos ameiados e, finalmente, os fossos profundos que o circumdavam, tudo o tornava acommodado para larga defensão. Com algumas decanias de veteranosque no meio do terror podera ajunctar, o quingentario Atanagildo se havia acolhido ahi, e com elle um grande numero dos mais abastados habitantes d'aquelles contornos. Protegido pela vizinhança das serras das Asturias, ainda livres, Atanagildo cria que o mosteiro fortificado sería sempre inexpugnavel barreira contra a violencia e cubiça dos arabes. Entretidos em submetter e pôr a sacco as opulentas cidades do meio-dia, contentes com as veigas feracissimas da Betica, da Lusitania e da Carthaginense e com o sol quasi africano que as aquecia, que viriam elles buscar nas brenhas intractaveis e frias da Gallecia e da Cantabria? Sería, apenas, algum troço dos inquietos e selvagens bereberes, os que se derramavam por estas partes; mas, contra esses, eram de sobra os tiros de catapulta arrojados das torres do mosteiro e as cateias e frechas despedidas d'entre as ameias que lhe cingiam a fronte, como a coroa de um rei gigante, e que não podiam ser derribadas pelos mangoaes brutescos, unicas armas dos broncos e seminús montanheses do Atlas.No centro do immenso edificio erguia-se o templo monastico; peça quadrangular, construida de grossos cantos de marmore, arrancadodas pedreiras inexgotaveis que se estendem desde os Nervasios até as cercanias de Legio. No exterior do templo, do meio d'um vasto pateo que o rodeiava, viam-se negrejar na sua cincta de estreitas cellas as vestiduras severas das monjas, cuja oração contínua, quer em commum no sanctuario, quer na solidão das suas breves moradas, só era interrompida por somno curto, dormido sobre a dura enxerga da penitencia. Esta parte do mosteiro era a que ellas unicamente occupavam havia alguns dias. Os seus claustros pacificos e saudosos, onde nunca soara o ruido tormentoso da vida, onde nunca as dolorosas realidades do mundo haviam penetrado, salvo nos sonhos passageiros e dourados de algum coração mais ardente, restrugiam com o bater das armas, com o amontoar das provisões, com o carpir dos que abandonavam seus lares, com a violenta e brutal linguagem da soldadesca. No meio daquella vasta mole de marmore, em que os sons discordes reboavam, ecchoando soturnos nas arcadas e corredores profundos, o templo, aonde se acolhera a quietação monastica, era como um oasis frondoso e abrigado por seus palmares no meio do deserto que o sopro infernal do simûm revolve, fazendoredemoinhar nos ares aquelle oceano de areia fervente.Era ao anoitecer de um dia de novembro. Por entre o nevoeiro cerrado que, alevantando-se do valle vizinho, trepava pela encosta, deixando apenas livres as negras agulhas dos cerros, lá no viso da montanha, divisavam-se a custo as ameias e muralhas á luz baça do crepusculo, refrangido em céu pardo e humido. A brisa morna de oeste gemia nos troncos dos castanheiros nús, nas ramas esguias dos pinheiros bravos, e as passadas monotonas dos vigias ao longo dos adarves formavam um concerto accorde com o aspecto melancholico do céu e da terra.A esta hora duvidosa entre a claridade e as trevas, uma numerosa cavalgada atravessava o ribeiro no fundo do valle e encaminhava-se para o mosteiro da Virgem Dolorosa. Dez cavalleiros, cujas barbas alvas lhes cahiam sobre o peito, saíndo por baixo das redes de ferro que lhes serviam de gorjal, rodeiavam uma dama, cujo rosto occultava o comprido véu que, pendente do retíolo, lhe descia sobre o alvo amiculo, mas cujos meneios airosos e talhe esbelto revelavam nella o viço e as graças da idade juvenil. Seguiam-na alguns pagens desarmados, cujos rostosimberbes já o temor e o desalento que se pintavam em todos os semblantes nesta epocha desastrada haviam sulcado de rugas. Vadiado o rio, a cavalgada encaminhou-se por uma senda tortuosa que ía dar á entrada do mosteiro, aonde, ao que parecia, desejavam chegar antes que de todo se fechasse a noite. Ao approximar-se aquella comitiva, os vigias conheceram que eram godos—provavelmente alguns desgraçados que vinham buscar o abrigo dos seus muros fortificados—, e as grossas portas não tardaram a abrir-se para recolherem mais esses pobres fugitivos.Apenas os recem-chegados, atravessando o atrio do fundo portal, saíram á cerca interior, o que parecia mais auctorisado entre os velhos cavalleiros pediu para falar a sós com Atanagildo. Levado o ancião á torre onde o quingentario habitava, não tardou este em descer á cerca, no meio da qual, ainda a cavallo e sem erguer o véu, a dama desconhecida esperava rodeiada dos seus. Com todos os signaes de respeito, Atanagildo dirigiu-lhe algumas palavras em voz submissa e, tomando a redea do palafrem, guiou-o para uma porta contígua ao frontispicio da igreja. A um signal seu a porta abriu-se, e um vulto negro de monja appareceu no limiar della.O quingentario, tomando pela mão a desconhecida e apresentando-a á monja, disse-lhe:«Veneravel Chrimhilde, acolhei entre as puras virgens que vos obedecem uma das mais nobres donzellas d'Hespanha: é por uma noite, apenas, que ella vos pede abrigo: ámanhan ao romper d'alva partirá para Legio.»«Ámanhan ou depois, que importa?—replicou a monja, cujo semblante austero descubria não tanto a decadencia dos annos, como os vestigios da penitencia:—emquanto Chrimhilde reger o mosteiro da Virgem Dolorosa, nunca a hospitalidade será refusada nelle ao que a implorar. E quando a virtude de nobre donzella tiver um fiador tal como vós, esta achará sempre em mim o carinho de mãe e nas escolhidas do Senhor, que me alevantaram do meu nada ao tremendo ministerio de sua abbadessa, encontrará o amor e o gasalhado d'irmans para com irman querida.»Dizendo isto, a boa abbadessa tomou pela mão a desconhecida e, internando-se com ella pelas arcadas que diziam para o interior do edificio, allumiadas escaçamente pelas lampadas turvas que d'espaço a espaço pendiam das abobadas achatadas, desappareceu aos olhos de Atanagildo.A noite vai no seu fim: a campa do mosteiro dá o signal do terceiro nocturno. Subitamente, o sanctuario illumina-se, e os vidros multicores jorram nas trevas externas a claridade dos candelabros e tochas, como, de dia, deixam transudar a luz do sol no ambito interior da igreja; ésto perpetuo de resplendores, que ora descem do céu para a terra, ora tentam, subindo da terra para as alturas, desfazer o manto das trevas. N'uma extensa fileira, a cuja frente vem a veneravel Chrimhilde, as monjas entram no coro e, tomando para um e outro lado, param voltadas para o altar. Juncto da abbadessa uma donzella de trajos brancos sobresái entre as monjas vestidas de negro, não tanto pela alvura das roupas, como pela formosura: e todavia, são formosas muitas das virgens que a rodeiam, pela maior parte ainda no viço da vida. É a nobre dama recem-chegada, á qual nem o cansaço de trabalhosa jornada, nem o habito dos commodos do mundo poderam impedir acompanhasse na oração aquellas que o tracto de poucas horas já lhe fazia amar como irmans. Chrimhilde prostra-se com a face no chão: as monjas e a dama vestida de branco seguem o seu exemplo. Através desses labios innocentesque beijam o pavimento do templo murmuram durante alguns instantes as orações submissas. Depois, a abbadessa ergue-se, e pouco a pouco aquelles semblantes, que cobre uma pallidez d'ineffavel repouso e brandura, vão-se alevantando da terra, com os olhos voltados para o céu, semelhantes aos de anjos de marmore ajoelhados em roda de um tumulo, que surgissem pouco a pouco animados por vida repentina e, cheios de saudade da morada celeste, enviassem aos pés do Senhor o seu primeiro suspiro. Então a psalmista começa a entoar um dos hymnos sacros do Presbytero de Carteia que havia pouco se tinham introduzido no ritual gothico, e as demais monjas respondem em córos alternos. O hymno dizia assim:«As azas da tua providencia, oh Senhor, despregam-se por cima da terra, e o justo desgraçado acolhe-se debaixo dellas:»«Porque ahi moram os sanctos contentamentos; esquecem as dores da vida; vive-se á luz da esperança.»«Confiado em ti, o fraco affronta as tyrannias do forte; o humilde ri das suberbas do poderoso.»«Quem revelou aos pequeninos e oppressos esta divina guarida? Quem nos ensinoua esperar? Quem a ser felizes pela fé no meio das agonias?»«Foi Christo, o teu filho querido. A tua justiça condemnava á dor o genero-humano, ainda no berço: elle nos conquistou para a felicidade no meio dos tormentos da cruz.»«Nós tomaremos, tambem, esta em nossos hombros: ella é a guia da bemaventurança.»«O seu peso é suave; porque sob ella os espinhos da existencia que ensanguentam os membros do peregrino sem repouso, chamado o homem, convertem-se em prado macio de relva e boninas.»«Que reine para sempre a cruz!»«Erguei-a sobre todos os pincaros das serranias, gravae-a em todas as arvores dos bosques, hasteae-a sobre as rochas maritimas, estampae-a nas muralhas das cidades, na fronte dos edificios, apertae-a aocoração.»«E depois, que o genero-humano se prostre e adore nella a redempção que nos trouxe o Ungido de Deus.»«A cruz triumphará eterna!»Neste momento aquellas vozes harmoniosas cessaram, como se de subito nos labios de todas as monjas se houvesse posto o sello da morte. A porta do templo, aberta comviolento impulso, rangera nos gonzos, e um velho ostiario viera cahir de bruços sobre as lageas do pavimento, soltando o grito doloroso que por tantos milhares de bocas diariamente se repetia na Hespanha:—Os arabes!As vozes confusas dos vigias, misturadas com o tinir do ferro, responderam, como um uivar de feras, ás palavras do ostiario: as faces pallidas das virgens empallideceram ainda mais.A alvorada começava a repintar na terra a claridade do sol, escondido ainda no oriente. Os godos com as armas nas mãos coroavam as ameias. Do alto de uma das torres Atanagildo observava a campanha, e a fronte entenebrecia-se-lhe com um véu de tristeza.Naquella noitemuitos nobres senhores de terras tinham chegado ao mosteiro, vindos da banda de Legio. Um numeroso exercito d'arabes apparecera subitamente na vespera juncto aos muros da cidade, que logo fora acommettida pelos pagãos. Era o que sabiam. Fugitivos desde o apparecimento dos inimigos, ao anoitecer haviam enxergado para aquella parte um clarão grande e duradouro. Se eram as fogueiras dos arraiaes arabes, se o incendio de Legio, não o podiam resolver; só, sim, que sería impossivel resistirpor largo tempo cidade tão mal defendida a tamanha copia d'infiéis, que não tardariam a derramar-se para o lado do mosteiro, proseguindo nas suas devastadoras conquistas pela Gallecia e pela Tarraconense.Era esta negra prophecia dos fugitivos que se tinha verificado ao romper da manhan. Atanagildo, do alto da torre principal, vira ao longe um vulto negro que descia dos outeiros, onde já allumiava tudo a luz matutina. Esse vulto assemelhava-se a serpe monstruosa que, rolando-se do monte para a planicie em collos tortuosos, se lhe reflectissem nas duras conchas os raios solares; porque naquelle corpo gigante havia um contínuo e rapido scintillar. Atanagildo percebera o que era, e por isso a tristeza lhe obscurecia a fronte.Como a faisca electrica, o terror se espalhara no mosteiro apenas se dissera que os arabes se approximavam. Mais de um coração de guerreiro batia apressado, como o do pobre ostiario que buscara na piedade de Deus o amparo que mal podia esperar das muralhas do forte edificio; do pobre ostiario, que, sem o saber, fora desmentir o hymno triumphal da cruz, diariamente derribada dos altares nos templos profanados da Hespanha.Dentro em breve, o exercito do Islam se approximara a tão curta distancia que facilmente se distinguiam os esquadrões dos filhos do deserto e as turmas dos berebéres. Tambem os arabes tinham observado o reluzir das armas através das ameias do mosteiro. A hoste inteira parou no valle, e alguns cavalleiros encaminharam-se pela senda tortuosa que findava na ponte levadiça contigua ao grande portal, erguida desde que pelos fugitivos constara que os mosselemanos se avizinhavam.Quando o quingentario conheceu que os arabes paravam no fundo do valle, o seu coração generoso verteu sangue com a lembrança de que todo o esforço dos soldados que coroavam os adarves do mosteiro, por muito que houvera sido, não fora bastante para salvar os desgraçados que tinham buscado abrigo á sombra daquellas muralhas. Viu o desalento pintado nos semblantes dos mais valorosos, e a ultima esperança varreu-se-lhe da alma. Todavia, esperou com rosto seguro a chegada dos cavalleiros que subiam a encosta.Estes approximaram-se, emfim. Pelo seu aspecto e trajo via-se que na maior parte eram godos. Com as espadas nas bainhas,pareciam vir em som de paz: tambem, por isso, nem uma frecha só se disparou contra elles dos muros.Pouco antes de chegarem ao fosso profundo que circumdava o edificio, um cavalleiro que parecia o principal daquelle pequeno esquadrão, adiantando-se aos demais, veio topar com a entrada da ponte e, olhando para as muralhas, onde reluziam immoveis as lanças dos christãos, chamou:—«Atanagildo!»Ao ouvir aquella voz, o quingentario empallideceu: com visivel anciedade, voltou-se para um centenario que estava juncto delle e disse-lhe:«Mandae descer a ponte e dae passagem franca a esse cavalleiro que proferiu o meu nome: mas a elle, unicamente a elle!»O centenario obedeceu. D'ahi a pouco as armas do guerreiro tiniam pelas escadas da torre. Apenas subiu ao terrado, encaminhou-se para Atanagildo e, estendendo-lhe a dextra, exclamou:—«Meu irmão!»O quingentario, em cujas faces pallidas passara um relampago de vermelhidão, recuou e, com voz affogada, respondeu:«Atanagildo teve um irmão; mas esse morreu para elle: porque entre elle e Suintilaestá a cruz quebrada aos pés dos pagãos; está o céu e o inferno. A minha herança é a ignominia do vencimento, os ferros d'escravo e as promessas do Christo: a tua as riquezas, a victoria e a maldicção de Deus. Não tróco os nossos destinos, nem quero a amizade do precíto. Arrepende-te, abandona os infiéis, e então Atanagildo te apertará ao peito e te dará aquelle nome tão suave da nossa infancia, o sancto nome de irmão.»«Estás louco!—replicou Suintila—...Porém, não foi para disputar comtigo que vim aqui: vim para te salvar. Olha para o valle: áquella hoste numerosa que lá vês poucas horas poderão resistir estes muros mal guarnecidos, Abdulaziz, o invencivel filho do amir d'Africa, é quem a capitaneia: Legio cahiu hontem em nosso poder, e de parte nenhuma podes ser soccorrido. O bispo d'Hispalis e o conde de Septum, que vem comnosco, offerecem-te o mando de um dos seus esquadrões. Os arabes pedem aos godos que os seguem fidelidade ao estandarte do kalifa, não á crença do Islam: pódes guardar tua fé. Eis o que Suintila alcançou a teu favor. Estas velhas muralhas e as donzellas encerradas nestes claustros, que Abdulaziz soube serem pela maior parte formosas e que elle destina paraenviar a Kairwan, são o vil preço da tua salvação. Suintila aconselha-te que o entregues; porque, apesar das injurias, ainda se não esqueceu de que é irmão de Atanagildo. Resolve e responde: que devo dizer a Juliano e a Oppas, a quem suppliquei para ser mandado aqui?»«Dize-lhes—atalhou o quingentario, cujos olhos faiscavam d'indignação—que eu respeito a vida de um aráuto, ainda quando este é um miseravel renegado, como tu ou como elles, aliás não fora Suintila quem lhe levaria minha resposta. Dize-lhes que as suas infames offertas são para mim tão abominaveis como elles. Dize-lhes que, antes de um sacerdote sacrilego e de um conde traidor poderem estampar o ferrête da prostituição na fronte das innocentes virgens do Senhor, terão de passar por cima das ruinas destes muros e dos cadaveres dos seus e dos meus soldados. E tu, renegado, sae d'aqui! Possa eu nunca mais vêr-te o rosto e esquecer-me na hora de morrer de que nessas veias gyra o sangue de nossos nobres e generosos avós.»«Como te aprouver, meu irmão!»—replicou Suintila, e um sorriso lhe deslisou nos labios, descorados por mal disfarçada colera. Proferidas estas palavras, desceu as escadas da torre.A cavalgada, que lenta subira a encosta, descia-a rapidamente emquanto Atanagildo, visitando os muros, exhortava os guerreiros da cruz a pelejarem esforçadamente. Quando estes souberam quaes eram as intenções dos arabes ácerca das virgens do mosteiro, a atrocidade do sacrilegio affugentou-lhes dos corações a menor sombra d'hesitação. Sobre as espadas juraram todos combater e morrer como godos. Então o quingentario, a quem parecia animar sobrenatural ousadia, correu ao templo. Era necessario que as monjas soubessem qual futuro as aguardava. Resignado a acabar defendendo-as, Atanagildo nem por isso esperava salvá-las das mãos dos agarenos. Dolorosa era a nova; mas cumpria não lhes esconder o seu horrivel destino.As mulheres e os velhos que tinham vindo buscar asylo no mosteiro enchiam já o templo, em cujas abobadas murmuravam e repercutiam os gemidos e as preces. Rompendo pela multidão, o quingentario encaminhou-se para o coro e chamou por Chrimhilde, que com as monjas acompanhava o povo nas suas orações fervorosas. A abbadessa aproximou-se das reixas douradas que a separavam do guerreiro.«Chrimhilde,—disse Atanagildo em vozbaixa—é necessario valor! Dentro de poucas horas sobre os muros do mosteiro da Virgem Dolorosa estará hasteiado o pendão dos infiéis, e eu terei deixado d'existir, porque jurei sobre a cruz desta espada ficar sepultado debaixo das ruinas delle. O exercito dos arabes é irresistivel, e a unica esperança que me resta é que o Senhor acceitará o meu sangue, derramado em seu nome, como um testemunho da minha fé.»«Os infiéis—acudiu a abbadessa, procurando dar ás palavras que proferia um tom de firmeza que o tremulo da voz lhe desmentia—contentar-se-hão, talvez, com as riquezas aqui amontoadas imprudentemente e com a posse destes logares. Se é isto o que pretendem, saiamos e cedamos ao culto impio de Mohammed o templo do Deus vivo, já que para o salvar sería inutil todo o sangue que se vertesse. Com as virgens esposas do Senhor buscarei os ermos das serras do norte, e, como as monjas primitivas, ahi acharemos a paz e o repouso, emquanto o pae celestial nos não chama á nossa verdadeira patria.»«Prouvera a Deus, veneravel Chrimhilde—tornou o quingentario—que nos fosse licito desamparar estes muros: deixar só entreguesás profanações dos infiéis a pedra e o cimento! Mas uma atroz mensagem acaba de me ser mandada por quem, como eu, devia horrorisar-se della. Repelli-a, porque se me offereciam vida e honras a troco de perpetua infamia. Agora resta-me unicamente o morrer como godo e como soldado da cruz.»«E qual era essa mensagem?—perguntou a abbadessa anciosamente.—Em nome de quem vinha ella?»«Do bispo d'Hispalis e do conde de Septum; de um sacerdote e de um nobre. O preço da nossa liberdade era a prostituição das vossas filhas queridas, das monjas consagradas á Virgem Dolorosa, que esses malaventurados destinam para saciar as paixões brutas daquelles a quem venderam a terra d'Hespanha. Para o obter cumpre-lhes, porém, passar por cima dos membros despedaçados dos guerreiros que povoam estas muralhas. Pela cruz assim o jurámos todos. Havemos de cumpri-lo.»As palavras de Atanagildo vibraram no coração de Chrimhilde, como vibra o primeiro dobre pelo finado que ainda jaz em seu leito da derradeira agonia na alma do bom filho, que resa, chorando, ajoelhado ao pé delle. Recuou atterrada e, volvendo para o céu osolhos enxutos, porque a afflicção nelles estancara as lagrymas que despontavam, ficou por alguns momentos com as mãos erguidas, como implorando uma inspiração de cima. Pouco a pouco, porém, as suas faces tingiram-se da cor da vida, o sorriso da esperança rodeiou-lhe os labios, e as lagrymas, consolo supremo das maiores magoas e, tambem, expressão eloquente dos contentamentos mais intimos, lhe rebentaram com força e lhe orvalharam a negra estamenha do habito.«O martyrio! o martyrio!—murmurou a abbadessa.—Oh Christo! bemdicto seja o teu nome.»«O martyrio, sim:—interrompeu o quingentario—mas depois do sacrilegio; mas depois que as victimas da corrupção dos traidores tiverem sido arrastadas para longe da Hespanha e depois que nos harems do oriente houverem sido polluidas pela sensualidade brutal dos conquistadores. Eu, ao menos, não verei esta ultima offensa á crença sacrosancta de nossos paes...»«Ide:—proseguiu a abbadessa, que parecia não o haver escutado, embebida em meditação profunda:—Quando os infiéis se approximarem, enviae-lhes mensageiros de paz. Que vos deixem acolher ás montanhas comessa multidão d'infelizes que vieram buscar o abrigo destes muros. Não cureis das monjas da Virgem Dolorosa, nem receieis por ellas. Achei um meio para as salvar da sorte medonha que as ameaça. Desamparae-nos; porque o archanjo do esforço é o nosso defensor. O meu arbitrio será acceito pelas escolhidas do Christo; sê-lo-ha, porque o Senhor m'o inspirou. Nada mais é preciso dizer-vos.»E, de feito, o seu olhar e gesto eram de uma inspirada: mas nesse olhar e gesto havia o que quer que era de severa aspereza misturado com alegria suave, como em céu que varre o noroeste as nuvens tenebrosas remendam o azul purissimo do firmamento, d'onde, através dellas, jorram torrentes de luz.«Mas o juramento?—tornou tristemente o quingentario.—Devo respeitar o vosso segredo; todavia parece-me licito duvidar da efficacia dos meios que imaginaes para vos salvardes das mãos dos mosselemanos.»«O vosso juramento é inutil—acudiu Chrimhilde—e eu vos escuso delle. A resistencia só servirá para arrastardes comvosco á morte os velhos inermes e as criancinhas innocentes. Ide e abri pacificamente as portas aos pagãos. Se tanto é preciso, euvo-lo ordeno. Atanagildo, um dia nos veremos no céu.»Dictas estas palavras com toda a firmeza de uma resolução inabalavel, a abbadessa affastou-se da reixa e encaminhou-se para o meio das freiras, que, entretanto, haviam estado immoveis com os olhos cravados no pavimento. O quingentario ficou por alguns momentos pensativo: depois, agitado pela lucta cruel dos affectos e pensamentos oppostos que tumultuavam no seu coração, atravessou vagarosamente o templo e desappareceu.A um signal de Chrimhilde as monjas saíram do coro; a donzella vestida de branco, ao lado da veneravel abbadessa, apertava-lhe a mão entre as suas; mas os seus meneios eram firmes como os della e mais do que os della altivos. Desde que a ultima freira passou, as préces misturadas de soluços que sussurravam na egreja converteram-se n'um som unico de chôro perdido, como se a ultima esperança houvera desapparecido com ellas.A campa do mosteiro bateu tres pancadas com largos intervallos: é o signal que convoca as monjas a capitulo. Para lá se encaminham. A donzella que nessa noite chegara acompanha-as, tambem, ahi. Entraram. Aspesadas portas da casa capitular rangem nos gonzos cerrando-se, e o correr dos ferrolhos interiores reboa ao longe pelos corredores monasticos. Ao mesmo tempo a ponte levadiça cai sobre o fosso que rodeia as muralhas do vasto edificio; um cavalleiro se arroja sózinho ao meio dos esquadrões do Islam, que já subiram a encosta, e pede para falar com o conde de Septum em nome de Atanagildo. Dentro de poucos instantes ei-lo que volta, e os mosselemanos param a curta distancia. Então um grande numero de crianças, de velhos e de mulheres, saíndo, como torrente comprimida, do portal profundo do mosteiro, atravessam por meio de duas fileiras de soldados de Juliano e de guerreiros arabes que vieram collocar-se aos lados da ponte. Esta multidão desordenada ondeia, separa-se, apinha-se de novo, para tornar a espalhar-se, até que desapparece ao longe, caminho das montanhas. Após ella, cubertos dos seus saios de malha, mas sem armas, os soldados de Atanagildo seguem com rosto melancholico as mesmas trilhas por onde se vai escoando a turba, até que, tambem como esta, se derramam pelas selvas densas dos montes e pelos barrancos escarpados que, retalhando os Nervasios, dão passagem atravésdelles para as regiões septemtrionaes da Hespanha.Apenas o quingentario, que fora o derradeiro a atravessar a ponte levadiça, volvendo ainda os olhos arrasados de lagrymas para aquella sancta morada, desceu a encosta, as duas fileiras de soldados arremessaram-se ao fundo portal, cujas abobadas pela primeira vez reboaram com os gritos discordes de homens desenfreiados, e o edificio solitario respondeu-lhes com um silencio lugubre. Diante delles estavam patentes as vastas arcarias e escadas, os longos corredores, os pateos espaçosos. Lá, no centro, o templo solitario, com as portas abertas de par em par, amostra-lhes aos olhos ávidos as suas riquezas, ao passo que parece querer vedar ao sol, com as cores sombrias das vidraças das janellas, o espectaculo das profanações de que na sua existencia secular vai ser theatro e testemunha pela primeira vez.Como o tufão, rugindo, se abysma nas galerias tortuosas de mina extensa, assim os godos renegados e os mosselemanos, que os seguem de perto, se precipitam dentro do mosteiro. Pelas arcadas e corredores, pelas salas e aposentos ouve-se o rir e falar desentoado, o ruído de passadas rapidas, o tinirdas armas, o estourar das portas. Arabes, mouros, soldados godos da Tingitania misturam-se, disputam, ameaçam-se, dividindo o sacco.Os cheikse os capitães do conde de Septum vedam-lhes unicamente a entrada das habitações interiores, onde a riqueza do templo lhes promette á cobiça mais avultada presa. Elles sós se encaminham para essa parte e desapparecem nos claustros monasticos, onde não se ouve outro signal de vivos, senão o som de seus pés e, a espaços, o tinir das proprias armaduras, que roçam pelos pilares de marmore.Suintila, o deshonrado irmão do virtuoso Atanagildo, era do numero dos capitães que haviam primeiramente penetrado no claustro solitario. Tinha-se adiantado mais e descia por uma escadaria lobrega que terminava, segundo parecia, n'uma quadra allumiada por muitas tochas. Esta circumstancia, que lhe excitava viva curiosidade, o obrigou a apertar o passo. A meia descida parou. Crera ouvir um cantico entoado por muitas vozes accordes, que a espaços era interrompido por gemidos dolorosos. Escutou: não se enganava! Então o terror começou a apossar-se delle, e, porventura, teria retrocedido, se não sentira que alguem mais o seguia. Eram douscheiks arabes e um centenario do conde de Septum que o acaso guiara para aquella parte. Interposto entre o clarão avermelhado que saía do subterraneo e os tres que se approximavam, Suintila fez-lhes signal de silencio e continuou a descer mansamente, até chegar á porta que dava da escadaria para o aposento illuminado. Então conheceu onde estava. Era um desses logares mysteriosos e sanctos que a primitiva architectura religiosa construía debaixo dos templos—templos tambem, mas da morte; porque ahi, sobre os altares, repousavam as cinzas dos martyres, e aos pés delles os fiéis que obtinham para ultima jazida uma pouca de terra onde ainda fossem affagar-lhes as cinzas o sussurro longinquo das préces e o perfume dos sacrificios.—Suintila achava-se na crypta do mosteiro da Virgem Dolorosa. O clarão que vira era o de muitos lumes, accesos em lampadarios gigantes, e reverberando nas stalactites penduradas das juncturas do marmore: era o reflexo das tochas que ardiam diante dos crucifixos, unicas imagens que se viam sobre as aras núas. Em cada um dos tumulos das monjas antigas, enfileirados ao comprido dos muros, negrejavam apenas uma data e um nome. Era o que restava para memoria demuitas virtudes naquelles annaes do mosteiro, naquella chronologia de pedra. O sepulchro da viuva d'Hermeneghild, o desgraçado irmão de Rekkáred, elevado mais que os outros á entrada do templo subterraneo, semelhava um throno de rainha em palacio de sombras, porque o ambiente grosso e frio e o halito das sepulturas revelavam que ahi era o imperio da morte.As torrentes de luz que inundavam esta morada de terror não permittiram a Suintila enxergar no primeiro volver de olhos os objectos que estavam ante elle. Espantado, tentava descobrir no meio daquella resplandecente solidão algum vulto humano, quando os cantos e gemidos, suspensos momentaneamente, romperam de novo: primeiro as vozes harmoniosas; depois o gemido íntimo, doloroso, affogado; logo outra vez o silencio.Os dous cheiks e o centenario tinham chegado ao pé de Suintila. Animados uns pela presença dos outros, encaminham-se para o grande tumulo e d'alli olham para o logar d'onde haviam soado os canticos. Eis o temeroso espectaculo que têem diante de si:Grossos e altos cancellos de roble separam do resto do templo um extenso recincto semsepulchros, immediato ao altar principal: uma cruz agigantada se ergue no topo: por um e outro lado daquelle espaço além das grades negrejam duas fileiras de monjas: muitas estão de joelhos e debruçadas sobre o primeiro degrau do altar: em pé, entre as duas fileiras, uma dellas, cujos olhos desvairados reluzem á claridade das tochas e cujo aspecto severo infunde uma especie de terror, tem na mão um punhal, cujo ferro sem brilho parece tincto em sangue. Juncto da monja um vulto de mulher vestida de branco sobresáe no meio das virgens cubertas de lucto: unido ás grades que defendem a entrada daquelle recincto, um velho, cujas melenas e longa barba lhe alvejam sobre os hombros e peito, está de joelhos com os braços estendidos através da balaustrada: agita-o uma convulsão horrivel de pavor, que lh'embarga na garganta os sons articulados e só lhe consente murmurar um ruído confuso, semelhante ao respiro ancioso de agonisante. Um dos dous córos de freiras começa a entoar de novo os psalmos: a monja do punhal estende a mão, ordenando silencio. Vai falar. Suintila, a ponto de arremessar-se para aquelle lado, pára e escuta as suas palavras. São lentas e lugubres, como as de um espectro,que se alevantasse d'alguma das campas derramadas ao longo da crypta. Dirige-as ao vulto branco que está a seu lado:«Ainda uma vez, nobre dama, attendeiás supplicas do velho buccellarioque tenta salvar-vos. Para vós ha esperança na terra: a nossa mora no céu. Quando os infiéis souberem que ainda existe na Hespanha quem possa quebrar com ouro o vosso captiveiro ou vingar com ferro a vossa affronta, respeitarão a pureza de nobre virgem. A nós, que não temos ninguem no mundo, restava-nos unicamente o tremendo arbitrio que o Senhor nos inspirou. O martyrio não tardará a cingir-nos a fronte d'uma aureola de gloria: os anjos de Deus nos esperam.»«A minha ultima resolução, veneravel Chrimhilde, é acabar juncto de vós e de nossas irmans. O meu animo saírá, como o dellas, illeso da ultima prova que o Christo nos pede na vida. Como ellas, darei sem hesitar testemunho da cruz. O velho buccellario de meu pae mente á propria consciencia quando affirma que os infiéis respeitarão a pureza de uma donzella goda: a infamia tem sido escripta por elles na fronte das familias mais illustres da Hespanha: o cutello ou a prostituição é o que os arabes offerecem á innocencia.Eu escolho o cutello: a morte val mais que a deshonra. Porventura, para a evitar me guiou o Senhor ao mosteiro da Virgem Dolorosa.»Seja feita a vontade do Altissimo:—respondeu a abbadessa alevantando ao céu as mãos, entre as quaes apertava o punhal.Depois de um momento de silencio, Chrimhilde disse, voltando-se para o lado esquerdo: «Hermentruda, approximae-vos!»Uma das monjas saiu d'entre as outras e veio ajoelhar aos pés da abbadessa; as suas companheiras ajoelharam tambem voltadas para o altar; e o hymno que Suintila ouvira ao descer para a crypta murmurou de novo naquellas curvas abobadas.Como lá no horisonte o sol tremulo e sereno se reclina ao fim da tarde no seio tenebroso dos mares, assim o canto melancholico e melodioso das virgens foi pouco a pouco enfraquecendo até expirar no cicío de orações submissas. Apenas cessou de todo, um gemido de agonia agudo e rapido soou juncto da abbadessa. Aos olhos de Suintila figurou-se que o punhal de Chrimhilde descera duas vezes sobre a monja que estava a seus pés. Um brado de colera e horror, saíndo involuntariamente da bocca do godo, restrugiupelo templo. Crera o renegado que Hermentruda havia sido assassinada. Pareceu-lhe então claro o sentido das palavras mysteriosas que ouvira. As monjas fugiam ao captiveiro do harem pelo ádito do sepulchro. Elle assistia a uma scena horrenda de suicidio, e o braço mais robusto de Chrimhilde apenas era o instrumento cego movido por todas essas vontades, conformes para morrer.«Mulher ou demonio, detem-te!—bradou Suintila, correndo com os cheiks e o centenario para o recincto fechado e procurando abrir os fortes cancellos que lh'embargavam os passos.Embebidas no seu drama cruel, nem as monjas, nem Chrimhilde volvem sequer os olhos para os quatro guerreiros, cujas armas reluzem ao fulgor das tochas. Hermentruda não está morta. Ergueu-se. Tem a cabeça descuberta, os louros cabellos esparzidos, o collo nú. Bem como o aspecto do formoso archanjo de luz no dia em que, rebelde, a espada de fogo lhe estampou na fronte a condemnação eterna, o seio e o rosto da monja, suavemente pallidos, estão sulcados por betas escuras, que serpeiam por aquelle gesto, como as viboras estiradas ao sol sobre um busto grego tombado entre as ruinasde antigo templo pagão. É que, semelhantes ao nordeste frio e agudo, que, passando pela bonina viçosa, lhe desbarata os encantos, os fios do punhal de Chrimhilde correram por lá violentos e rapidos, e n'um momento anniquilaram a formosura da virgem.As grades, fechadas interiormente, balouçam aos empuxões de Suintila; mas não cedem. «Okba, diz o godo a um dos cheiks, correi! Chamae os mais robustos zenetas e os negros de Takrur armados dessas achas a cujo primeiro golpe nunca resistiu elmo de bronze. Prestes! chamae-os aqui. Abdulaziz deve ter chegado. Que venha! Mulher infernal lhe vai destruindo peça a peça os despojos mais ricos, os que elle destinava para si e para o khalifa. Que venha salvá-los! Que venha! Prestes, cheik de Hoara!»E, emquanto o cheik galga a extensa escadaria os tres tentam muitas vezes fazer estourar os grossos ferrolhos, que resistem ás suas diligencias. Arquejando, Suintila abandona a tentativa inutil. Ameaça Chrimhilde: as injurias acompanham as ameaças: seguem-nas as supplicas, as promessas e logo, de novo, as pragas e as affrontas. Baldado é tudo. Chrimhilde lançou ao renegado um olhar de compaixão e conservou-se em silencio.Mas os canticos cessaram de todo: as monjas saem successivamente de ambos os lados e vem ajoelhar aos pés da abbadessa: vem despir as galas da formosura e comprar á custa dellas a pureza da virgindade e a palma do martyrio. Cada vez mais rapido range o punhal nos collos purissimos das virgens do mosteiro. O gemido que expira, comprimido pela constancia, já se prende com o que a dor e a fraqueza mulheril arrancam do seio das victimas ao descer do primeiro golpe, e a fileira das que se vão debruçar sobre os degráus do altar cresce d'instante a instante, ao passo que rareiam as outras duas.A terrivel sacerdotisa parou. Está o seu braço cansado de tão largo sacrificio? Não! Braço e animo são robustos, porque os fortalece o espirito do Senhor. É que o momento supremo da morte se approxima. A mourisma jorra subitamente pelo portal estreito, como o rio caudal na caverna que se lhe estendia debaixo do leito e cuja abobada fendeu tremor de terra. Os guerreiros negros das tribus de Takrur, á voz de Abdulaziz que os precede, precipitam-se contra os solidos cancellos do logar vedado: vinte machados ferem a um tempo nas grades, que gemem sob a furia dos golpes e mal resistem áspancadas violentas dos negros possantes, aos quaes redobra os brios a presença do amir, cuja colera resfólega em maldicções e blasphemias.Entre as monjas e os arabes bem curta distancia medeia: e todavia, lá no mais pequeno recincto, onde soam os gemidos de dores atrozes, onde só ri uma esperança, a da morte, ha paz íntima, ha o céu: aqui, na vasta crypta, onde a ebriedade de facil triumpho, a riqueza dos despojos, o futuro de uma larga existencia de gloria e deleites sorriem na mente dos infiéis, está o furor insensato, está o inferno. O evangelho e o koran estão frente a frente no resultado das suas doutrinas. É sublime a victoria do livro do Nazareno!Os golpes de machado redobram: os troncos affeiçoados do roble começam a estourar nas suas juncturas. A ultima freira fora já curvar-se juncto aos degráus do altar: a donzella vestida de branco vai ajoelhar aos pés de Chrimhilde, exclamando:«Para mim tambem o martyrio! Salvae-me do opprobrio!»«A tua constancia, filha, na dura prova de agonia por que tens passado te purificou. Sê uma das monjas da Virgem Dolorosa evai com tuas irmans receber a coroa de martyr.»O ferro, porém, que descia sobre o collo da donzella foi cair com a mão de Chrimhilde aos pés da cruz gigante do altar. Um revés do alfange de Abdulaziz lh'a cerceiara: as solidas grades estavam despedaçadas.A abbadessa vacillou e, ao cair, só pôde murmurar:—Jesus, recebe a minha alma!Foram as suas palavras extremas: um segundo golpe lhe atalhou na garganta o derradeiro suspiro.As freiras ergueram-se e encaminharam-se para o logar em que jazia o cadaver destroncado da abbadessa. Ajoelharam juncto della, com a face voltada para a turba dos infiéis. Os seus rostos, inchados e manando sangue, eram disformes e horriveis.«Ao menos, tu serás minha!—exclamou o amir, lançando a mão ao braço da donzella vestida de branco, a quem o terror desta scena rapidissima tornara immovel, como uma dessas estatuas que parecem orar sobre os sepulchros nas cathedraes da idade-média.—Filhos valentes do Sudan, conduzí-a á minha tenda. As outras, que as azas do anjo Azrael se estendam sobre os seus cadaveres.»D'ahi a poucas horas a crypta estava em silencio. As monjas da Virgem Dolorosa jaziam degoladas em volta da veneravel Chrimhilde,e as suas almas puras abrigavam-se no seio immenso de Deus.XIIICOVADONGA

Por quantas desventuras a patria dos Godos tem sido abalada: quão repetidos a pungem os golpes dos fugitivos e a nefanda suberba dos transfugas, quasi ninguem ignora.Codigo wisigothico II-1-7.

Codigo wisigothico II-1-7.

Se a todos se convertessem todos os membros em linguas, ainda assim não caberia nas forças humanas o narrar as ruinas d'Hespanha e os seus tão diversos e multiplicados males.Isidoro de Béja:Chronicon.

Isidoro de Béja:Chronicon.


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