Chapter 2

{3}A ex.masr.ª D. Josephina Pinto Carneiro Perestrello vae lançar-se na turbulenta atmosphera da litteratura. S. ex.ª não se estreia com assumptos banaes. O seu livro é fructo de profundos e aprimorados estudos. Seduziu-a o grande vulto da actualidade: e s. ex.ª não se contentou com a apotheose do marquez de Pombal... foi buscar a justificação dos seus actos nas leis primitivas da monarchia; no assentimento successivo das testas coroadas; e acompanha o illustre ministro até ao momento em que, desprendido dos enormes cuidados da sua vida laboriosissima adormece no duro leito da sepultura; e entra nos dominios da inexoravel posteridade.Que os anjos protectores das damas honestas e corajosas cubram com as suas azas de ouro a intrepida escriptora é o que muito lhe deseja a sua admiradora e amigaLisboa, 1 de maio de 1882.Maria José da Silva Canuto.{4}{5}Não é meu intento, nem teria forças para tão levantados vôos, escrever a historia circunstanciada do grande vulto que se chamou Sebastião José de Carvalho e Mello depois Conde de Oeiras e mais tarde Marquez de Pombal; pretendo apenas com os elementos que nos legaram historiadores e collectores de memorias da epocha, reduzir a breve transunto os traços principaes da sua, notavel administração, concorrendo assim com uma pequenina parte, porque pouco posso e sei, para remunerar, por occasião do seu centenario, factos que teem em si ensinamento, e que podem servir de estimolo e exemplo.Procurarei esboçar o perfil d'esse personagem, que dentro em pouco se tornará quasi legendario, pelo muito que valia, pelo muito que conseguiu fazer, e porque n'um só homem se reuniu saber, energia, genio, capacidade, e outros dons que dariam para muitos, mas que reunidas n'elle foram um conjuncto benefico da prodigalidade divina, pois só um tal colosso poderia arcar com todos os obstaculos que se lhe oppunham; com todos os odios, todas as intrigas, todas as calamidades e catastrophes. Só a energia inquebrantavel de um tal reformador poderia levar a cabo a grande obra de regeneração, e progresso de que Portugal foi theatro.A Providencia amerceando-se d'este paiz que já tivera importancia, insuflou-lhe no espirito todas as qualidades que fizeram d'elle um estadista admirado, não só dos seus, mas ainda mais pelos estrangeiros.Direi pois como diz mr. John Smith nas suas memorias do{6}Marquez de Pombal d'onde traduzirei e colherei muitos dos traços, com que aqui procurarei dar ideia do seu caracter e feitos:—[1]Such men are rised to station and commandWhen Providence means mercy to a land,He speaks, and they appear: to Him they oweSkill to direct, and strengh to strike the blow,To manage with address to seize with power,The crisis of a dark decisive hour.Ainda referindo-se a elle diz o mesmo auctor a Sir Robert Peel—: Refiro-me á coincidencia que se dá entre a vossa elevada posição, n'este paiz (Inglaterra) e a que outr'ora occupou o grande ministro em Portugal.Ambos foram em tempos criticos escolhidos para sustentar a honra e a força de grandes nações; e de ambos se exigia o delicado discernimento e a firmeza, que distinguiram o dito Marquez,—qualidades estas que lhe grangearam a admiração e inteira confiança do seu paiz, etc.Diz ainda o mesmo com referencia á expulsão dos jesuitas:—Se fosse possivel anticipar aqui os promenores dasMemoriasque se seguem, no meio de todos os successos agitadores do ministerio d'aquelle estadista, seria custoso descobrir uma medida que na sua concepção exigisse mais coragem, ou que em seus resultados tivesse mais duravel importancia do que a expulsão d'aquella seita de Portugal. Este primeiro passo a principio causou admiração, mas depois foi successivamente imitado pelos soberanos catholicos de toda a Europa.»—Portugal enfraquecido pelas muitas guerras que havia sustentado dentro e fóra do paiz, não promettia vir a ostentar mais a grandeza e prosperidade que fruira na epocha em que os seus filhos sulcavam os—mares nunca d'antes navegados—epocha em que floresceram os seus mais illustres navegadores, guerreiros, valentes, insignes escriptores como o nosso immortal cantor dosLusiadas, poema epico, que alem do seu grande valor real, tem ainda o merito da prioridade, pois foi o primeiro poema epico que se escreveu depois do seculo de Augusto. N'essa epocha a que se chamou aedade de ouro—, os portuguezes levavam a cabo emprezas como a de Vasco da Gama; plantavam o pendão das quinas na Africa, na India, conseguiam estabelecer-se na China, iam á Ethiopia, estendiam o dominio portuguez na Asia desde Ormuz até Malaca{7}etc. Não se satisfizeram porem com os descobrimentos no Oriente e voltaram as suas vistas para o Occidente, devassa Magalhães o estreito que ainda conserva o seu nome, porem morre antes de terminar a empresa que se havia proposto. Foi de então para cá que datam os descobrimentos na America e que Portugal se assenhorea de vastos dominios n'esse continente, e assim se foi desenvolvendo e accrescentando a prosperidade e engrandecimento da nação. Uma e outra haviam sido preparadas e tido principio no reinado de D. JoãoImestre de Aviz, rei illustradissimo e que deu á patria os mais brilhantes principes.Em 1415 é tomada Ceuta á força de armas; em 1418 descobre Gonçalves Zarco a ilha de Porto Santo e no anno seguinte a Madeira, já sob os auspicios do infante D. Henrique, em 1433 morreu D. João mas deixou em seu filho D. Duarte digno sucessor.Em 1444 é descoberto o archipelago dos Açores, e no anno immediato o de Cabo Verde. Reinando já D. AffonsoV, tomou este aos Mouros, Alcacer Seguer, em 1458, treze annos depois, foram tomadas Arzila e Tanger. Seguia-se o reinado de D. JoãoIIprincipe que alcançou o ser applidado oPerfeito. Era illustrado, com a sua habil, ainda que por vezes tenebrosa politica, soube abater todos os poderes que o offuscavam conservando firme e superior a authoridade real.Collisões terriveis obrigaram-n'o por vezes a lançar mão de meios extremos, não vacilando em empregar o punhal para fazer justiça por suas mãos. Foi no seu reinado que em 1482 Diogo d'Azambuja fundou o Castello de S. Jorge de Mina na Guiné, e dois annos depois descobria Diogo Cão o Congo e perto de trezentas leguas de costa. Em 1497 reinando já D. Manuel, primo e herdeiro de D. JoãoII, partia Vasco da Gama a procurar a India Oriental chegando a Calecut com dez mezes de viagem. Em 1500, descobre Alvares Cabral o Brazil.Foi n'este reinado que o Ceu parecia derramar venturas sobre Portugal, mas foi tambem n'essa epocha que se principiou a elaborar a decadencia que se lhe seguiu.A emigração para o Brazil tirava á mãe patria os seus filhos mais uteis, e mais tarde a ambição do ouro fazia correr para as terras de Santa Cruz todos que pela industria poderiam colaborar aqui no augmento e conservação da prosperidade nacional. Alli um clima tão diverso do nosso, muitas vezes a miseria, a fome, a nudez, consequencias de uma guerra quasi continua com os indigenas e depois com as hordas de holandezes, de piratas, de inglezes, de francezes, etc., que quizeram successivamente despojar-nos, fez do Brazil um sorvedouro onde se afundavam todos, ou quasi todos{8}os portuguezes que abandonavam a patria por esseEl-doradoque se lhe volvia em sudario. Todos esses braços não bastavam para lá, que pela falta de exercitos, estavam esses poucos sendo alvo de ataques e represalias, em que secumbiram, muitos milhares e faziam falta na metropole.Á agricultura faltavam braços para se desenvolver; a industria morria de innanição.Veio o reinado de D. JoãoIII, principe pussilanime enervado pelo fanatismo e incapaz de corresponder ás exigencias, que aquella conjunctura impunha ao inoperante.Este monarcha arrastou o paiz á decadencia e ao abysmo.Em vez de conquistas, estabeleceu aSanta Inquisiçãocom todos os seus horrores. Seguia-se-lhe D. Sebastião que mal saía da infancia. Saturado tambem de edeias falsas, guiado pelo debil braço de sua avó, era quasi sempre surdo aos conselhos do seu aio e mestre D. Aleixo de Menezes, que o desviava de entregar todos os poderes em mãos sagradas. Não soube utilisar em proveito proprio, e no da patria, que n'elle fundava todas as suas esperanças, as bellas e nobres aspirações que lhe ferviam na mente. Foi impellido pelo enthusiasmo e pelo seu genio cavalleiroso para as terras de Africa, com o nobre pensamento, de socorrer um rei desthronado: mas a fatalidade que viera substituir as nossas passadas venturas perseguiu o mallogrado mancebo e desditoso monarcha, que derrotado na refrega de Alcacer Quibir, pereceu com a flor da nobresa de Portugal e o seu exercito de desesseis mil homens, foi destruido e desbaratado, deixando nas areas d'Africa o cadaver do rei, que não poderam reconhecer. Esta calamidade trouxe a Portugal as maiores complicações. Não havia herdeiro immediato e sete pretendentes se desputaram a corôa portugueza, e depois de mil intrigas e confusões o reino caiu em poder de FilippeII, que appoiava as sus pretenções com um exercito de 36 mil homens. Invadiu Portugal, fazendo assim, ou por falta de recursos, para se lhe opporem, ou por desanimo, com que os rivaes se auzentassem, e o deixassem na posse da sua usurpação.Ficou pois Portugal anexo á Hespanha, em 1580. Ainda assim esse tyrano que foi appellidado—O demonio do meio dia—só logrou subjugar este povo á custa de milhares de vidas.—A mortandade e a carnificina foram horriveis. Diz o Conde da Ericeira no seuPortugal Restauradoe accrescenta «que o mar não querendo occultar tanto delicto, trazia os corpos ás redes dos pescadores, e retiravam-se d'ellas os peixes offendidos do insulto, recusando ser alimento de homens que mudando as disposições de Deus, lhes queriam dar homens por alimento.»{9}Esta indignação dos peixes durou tanto tempo, que, segundo diz o mesmo historiador, «foi necessario ir a rogos dos pescadores, o Arcebispo de Lisboa, em procissão benzer o mar profanado por tantos sacrilegios, para que elle (como succedeu) tornasse a dar o seu tributo.»A grande importancia a que Portugal se elevara entre as nações da Europa, não tardou em diminuir. O seu brilho declinou, em consequencia de torpe governo de Madrid, mas nem só a sua influencia e riqueza, mas o seu poder maritimo e colonial, porque as nossas esquadras se perderam nas costas d'inglaterra, fazendo parte da invensivel armada, e as melhores das nossas colonias foram atacadas e tomadas pela mesma Inglaterra e pela Holanda com quem a Hespanha estava em guerra.O imperio que os portuguezes haviam adquirido na Asia, desapparecia. A perneciosa influencia de Castella sobre o nosso paiz, n'esses desgraçados sessenta annos, ainda hoje se sente, e veio cimentar entre os povos nascidos para serem irmãos, odios que uma desconfiança constante não deixa apagar. Desconfiança justificada pelo desejo dos hespanhoes de conseguirem a anexação! esperança que é n'elles uma utopia inveterada. A fusão das duas nações é repugnante. Opõe-se a ella o amor inabalavel, que os portuguezes, teem pela sua liberdade e a memoria, que nunca se apagará das atrocidades soffridas, n'esses terriveis annos de escravidão; e mais ainda o caracter e indole dos dois povos, que são completamente oppostas, e que só podem amar-se em quanto durar o respeito pelos direitos de cada um. Muito se amam entre si, os bons irmãos; mas cada um governa em sua casa, e ai do amor, se um d'elles, se lembra de querer governar a do outro.Era então n'essa epocha em a nossa capital que se concentrava o monopolio de todo o commercio do Oriente. Aqui se reunia gente de toda a parte do mundo para o trafico dos productos da Asia. A posição geographica de Lisboa tornava-a por assim dizer o logar derendez-vousde todos os estrangeiros curiosos ou commerciantes. Rebentou a guerra da Hespanha com Hollanda e em consequencia d'ella os hespanhoes expulsaram d'aqui os hollandezes que em represalia se assenhorearam de algumas das mais bellas joias da corôa portugueza, avultando entre ellas Ceylão e Malaca que nunca nos foram restituidas.A Hespanha principiou então a colher os fructos que semeára. A medida impolitica e barbara da expulsão dos moiros da Hespanha, condescendencia do duque de Lerma com os padres, e do rei com o seu ministro omnipotente, foi-lhe tão fatal como a de D. Manoel de Portugal com a expulsão dos judeus, mas bem mais tragica.{10}Esse erro politico cavou-lhe a ruina e preparou-lhe a decadencia, fazendo desconhecer a Hespanha a quem a comparasse á do tempo de Carlos V. Como nós a Hespanha tivera tambem um passado gloriosissimo.N'esses tempos seus filhos pensavam mais no engrandecimento e prestigio do seu nome, do que em subjugar um povo que pelo seu valor e energia, pelo muito que tinha feito conquistára o direito de ser respeitado e de conservar a independencia que sempre soubéra manter.Como nós, que possuimos Alvares Cabral, Gama e outros, a Hespanha tivera um Colombo, Cortez e tantos mais. Como nós tivera no Cid Campeador o seu D. Nuno Alvares Pereira.Em ambas as nações houve illustres navegadores, valentes guerreiros, habeis politicos, poetas sublimes, prosadores e dramaturgos universalmente conhecidos. No seculoXVeram consagrados os nomes de F. del Pulgar, e Juan de Mena, nós vimos florescer Gil Vicente que morreu no seculo seguinte no qual avultaram os nomes de Lucena, Bernardes, Camões, Osorio, Damião de Goes, João de Barros, Sá de Miranda e Bernardino Ribeiro; a Hespanha não teve que invejar-nos porque viu brilhar os de Carcilaso, Luiz de Leon, Luiz de Granada, Marianna, Santa Thereza, Cervantes, Gongora, Juan de la Cruz, Lope de Vega e Quevedo. No seculoXVIItiveram Calderon de la Barca, Moncada e Solis, e nós vimos surgir os brilhantes talentos de Fr. Luiz de Sousa, Padre Antonio Vieira, Sousa de Macedo, Freire de Andrade, Manuel de Mello e varios. São pois irmãos os dois povos da Peninsula, a Hespanha deve ser a nossa alliada natural, mas é mister que se conserve intacta a individualidade nacional de ambas as nações.O affecto fraternal que deve unir os dois povos, só pode ser verdadeiro e duradoiro em quanto durar o respeito reciproco pelos direitos de cada um. Dotados ambos de grandes qualidades a indole dos hespanhoes é inteiramente diversa da dos portuguezes. As suas tendencias, gostos, habitos, etc., são outros e por conseguinte impossivel a sonhada e appetecida união. D. Filippe porém, aproveitando a decadencia a que tantas catastrophes haviam levado o reino, accentuou o seu direito por meio da força e de atrocidade em atrocidade elle, e depois os seus successores opprimiram este pobre povo, até que ao fim de sessenta annos um punhado de heroes, sem effusão de sangue, sem ferir batalha fez baquear o odioso dominio de Castella libertando a patria tanto tempo agrilhoada. Os nomes de Pinto Ribeiro, Castros, Mellos, Almeidas Athaydes, Telles, Almadas Cunhas, Silvas e outros serão sempre de gloriosa recordação, e de salutar exemplo.{11}Parecia que devia renascer com a acclamação de D. João IV a grandeza e prosperidade da nação, mas foi fogo fatuo que breve se extinguiu. O rei tornou-se timorato e a rainha pouco podia, apesar da sua energica vontade. Além d'isso o Conde-duque de Olivares combateu por espaço de vinte e quatro annos propugnando os portuguezes com heroismo para manter a sua independencia nas fronteiras e para neutralisar as insidias de Hespanha junto do rei. Por varias vezes habeis conspirações estiveram a ponto de inutilisar a prodigiosa victoria dos quarenta bravos conjurados que appoiados no patriotismo do povo haviam conseguido sacudir o jugo castelhano.Muitas tentativas contra a vida do rei foram descobertas. Isto tornava o rei cada vez mais fraco de animo, e entregou-se inteiramente aos conselheiros que nem sempre foram o que deviam á patria, ao rei e a si proprios.Em 1643 romperam-se definitivamente as hostilidades, que só terminaram em 1665.Mathias de Albuquerque desbaratou o exercito sob o commando do barão de Malingen, general da Estremadura hespanhola; todavia as campanhas que asseguraram e firmaram a independencia do reino, foram já dadas no reinado de D. Affonso VI. A batalha das linhas d'Elvas foi ganha pelo conde de Cantanhede em 1659. O conde de Villa Flor desbaratou no Ameixial o Archiduque d'Austria, o famigerado D. João d'Austria em 1663.Em Castello Rodrigo venceu Pedro Jacques de Magalhães em 1664. No anno seguinte é refreiada totalmente a ardente furia dos hespanhoes, na batalha de Montes-Claros, ficando prisioneiros do Marquez de Marialva seis mil hespanhoes. De então para cá, a posse de Portugal tem sido apenas o sonho de todo o utopista hespanhol, porem a gente de bom senso reconhece o absurdo da ideia, e pensa com rasão que se n'essa epocha lhe foi impossivel sustentarem o seu dominio estando Portugal inteiramente falto de recursos, sangrado pelas continuas guerras tanto aqui como no Brazil, hoje que dispõe de mais braços e mais elementos de resistencia, não seria empresa facil. Essa regeneração teve principio nas medidas do Marquez de Pombal.Pela morte de D. João IV, Portugal não mudára muito. D. Affonso VI foi desthronado e morreu preso no Paço de Cintra e sua mulher foi authorisada a casar com seu cunhado D. Pedro II pelo clero que foi chamado a representar n'esta escandalosa intriga, que só por si dá a medida do grau de desmoralisação a que havia chegado tudo n'este malfadado paiz.Reuniram-se cortes para legalisar este attentado e fecharam-se para não tornarem a abrir-se.{12}O reinado de D. Pedro foi curto e triste. Seguiu-se o reinado faustoso de D. João V, e este poz cumulo á depravação dos costumes e vicios dos grandes, cavando assim a decadencia do reino.O povo soffria toda a sorte de vexames dos nobres que praticavam toda a casta de violencia e infamia acobertadas pela impunidade que lhe era concedida.O rei, ou fosse em espiação de suas culpas ou porque o seu genio gastador a isso o impedia, D. João V, querendo imitar Luiz XIV gastou rios de dinheiro na edificação do Convento de Mafra, na Capella de S. João Baptista e em muitas restaurações de templos; a creação de uma patriarchal com os seus conegos beneficiados e principaes imitando o sacro collegio, levou para Roma muitos milhões. N'estas grandezas e esbanjamentos se sotterraram os productos das uberrimas minas que o Brazil continha no seu seio e que a industria mineira e o suor do escravo traziam á superficie da terra. Penalisa ver que tanto dinheiro, tanto trabalho, e tanta magnificencia não fossem empregadas em coisas de maior utilidade para o paiz. Ao passo que nos faltavam vias de communicação para o commercio interior, que não tinhamos fabricas, nem marinha, de guerra ou mercante, nem exercitos, gastavam-se sommas fabulosas em edificar um convento pelo theor da basilica de S. Pedro em Roma, n'uma mesquinha povoação!... Se terminada a obra, vinha d'ella proveito para a nação, foi coisa que parece não ter preoccupado o monarcha. Bastava-lhe que fosse lisongeado pelos seus aduladores, que lhe encareciam a sua piedade. O edificio tem alem do convento e egreja um palacio soberbo. Tudo foi feito com magnificencia regia; a arte revela-se em alto grau, e por todos os lados ha que admirar a cooperação dos melhores artistas que se mandaram vir da Italia.É grande, é imponente, é sumptuoso e magnifico, mas é triste, sombrio e pezado. Fui lá uma vez, admirei-o muito, mas quando sahi respirei de alivio por que me parecia que toda aquella mole de pedra me cahia em cima e me esmagava com toda a sua grandeza. Impressionou-me bastante, e vel-o-ia ainda com gosto, se bem que estou certa que me faria a mesma impressão que me produziu ha vinte annos, apezar de já não ser a creança que era então. O outro monumento da sua prodigalidade, a capella de S. João Baptista na egreja de S. Roque, é uma verdadeira joia que não tem rival no genero, attendendo ao seu tamanho. Tem uns desesete palmos de comprido por doze de largo; é toda feita delapis-lazull, porphyro, agatha, amethystas, alabastro, crysolithas, prata e ouro. Diz m. John Smith que custou 225:000 libras, mas, já tenho visto, não sei onde, estimar a sua importancia em bem mais elevados algarismos.A concessão da Curia romana para empregar os thesouros do{13}paiz como o julgasse conveniente, custou tambem grossas quantias. Seguia-se a creação de uma dignidade ecclesiastica com o titulo de Patriarcha da qual depende o collegio sacro formado de vinte e quatro prelados. Para tornar mais notavel a similhança d'esta corporação com a de Roma, os paramentos do Patriarcha em dias festivos eram eguaes aos do Papa, e as dos prelados como as dos Cardeaes. As festas e cerimonias religiosas, não eram eguaes, mas sim superiores ás de Roma. «Mais de cem clerigos, diz m. Smith, subsidiarios a quem com profusão se davam honras e dignidades occupavam logares subordinados a esta nova instituição. Uma escala infinita de logares inferiores augmentou o pessoal do Patriarchado a ponto de ser impossivel dizer-se qual a condicção em que se sumia o ultimo d'esta legião clerical! Esta louca vaidade custou mais de oitenta mil libras afóra as pasmosas quantias que se despenderam antes de conseguirem a licença para a incorporação do estabelecimento. Foi desde então que D. João V alcançou para os reis de Portugal o titulo deFidelissimo.»Uma obra porém de grande merito, de reconhecida utilidade, e de grandeza sem igual foi a que se principiou e concluiu n'este mesmo reinado de esbanjamentos e desperdicios; só ella confere um titulo de gloria ao rei que a ordenou e fez levar a cabo. Refiro-me ao aqueducto das aguas livres de Lisboa, que percorre duas leguas ora subterraneo, ora elevando-se sobre arcos. Por cima do valle de Alcantara corre sobre trinta e cinco arcos, sendo a altura do maior 264 pés, e a sua largura na base de 280. Dois canaes trazem a agua das nascentes, deixando entre ambos espaço e altura para caminhar de pé. D. João V não morreu sem que expiasse por espaço de nove annos n'um triste estado de imbecilidade os passados extravios, e deixou a nação sobrecarregada com uma divida de mais de tres milhões de libras e o thesouro completamente exaurido. Seu filho D. José vivera sempre muito arredado dos actos do governo; contava então 37 annos, e muita gente o retracta de acanhada intelligencia, irresoluto, timido, fraco e cruel. Nada o comprova, antes maravilha a firmesa com que sustentou no poder o seu ministro, a despeito da sua mesma familia, de toda a nobresa e de um clero opulento e dominador, unico homem capaz de dominar a triste situação em que tantos desvarios nos lançaram.Por morte de D. João V não ficara a Portugal nenhum elemento de que se julgasse dever sair a sua regeneração. Tudo parecia impellir o reino a uma aniquilação inevitavel, mas foi n'essa occasião que surgiu um regenerador, um genio benefico, forte, energico, e sabio, que levara os primeiros annos da sua vida estudando os males e as causas d'elles e procurando os remedios na sua fecunda{14}imaginação. Foi elle que com poder quasi sobrehumano veio, inspirado e inviado da Providencia para desmascarar hypocrisias, para salvar mesmo a religião de todas as atrocidades que em nome de um Deus todo bondade e misericordia se praticava impunemente, para destruir esse poder execrando do horrivel tribunal da Inquisição, do chamadoSanto Officio, que sequestrava á sociedade milhares de victimas innocentes, ou culpadas de um crime que a sã rasão mostra não o ser.Esse homem a quem tanto se deve, foi quem veio restabelecer a verdadeira religião, porque é a de Christo, a religião de perdão, caridade, amor e fraternidade, purgando-a quanto possivel dos abusos que em seu nome se praticavam; foi elle quem veio introduzir no paiz novos estudos, quem estendeu o pão do espirito a todas as classes da sociedade creando escolas, quem promoveu as industrias, sciencias, litteratura, quem veio animar e desenvolver o commercio e as artes, revindicar o respeito e o renome ao seu paiz; reanimar o genio, acabar com os abusos dos nobres dando mesmo terriveis mas salutares exemplos na nobreza, castigando o crime onde era praticado, fosse plebeu ou nobre, como o fizera tambem Richelieu, seu modelo, nas pessoas de Marillac e Montmarency, foi emfim elle que, ora com benevolencia, ora com severidade, ergueu a patria do abysmo onde filhos degenerados a haviam lançado.Sebastião José de Carvalho e Mello nascera na capital aos 13 maio de 1699; filho de Manuel de Carvalho e Athayde e de sua mulher D. Thereza de Mendonça. Seu pae era um cavalleiro de pequinissima fortuna, mas que vivia independente e pertencia á cathegoria distincta pelo titulo de fidalgo da provincia. Esta qualidade dava-lhe direito a muitos privilegios da nobreza, ainda que não considerado grande do reino ao que só dava direito os titulos de conde, marquez ou duque. Sebastião José de Carvalho juntou o appelido de Mello; que lhe vinha de seu avô materno, João de Almeida e Mello; costume muito seguido então, principalmente quando, como este, vinham de illustre ascendencia. Tinha mais dois irmãos; Francisco Xavier de Mendonça e Paulo de Carvalho e Mendonça. Sebastião José de Carvalho entrou na universidade de Coimbra, mas aquelle regimen pouco lhe agradou; e menos a forma porque alli se ministrava então o ensino sobre modo differente para uma intelligencia previligiada como a sua. Descontente deixou os bancos da Universidade para assentar praça em cadete, a que lhe dava direito a sua nobreza, e pouco depois fizeram-n'o cabo. Não passou d'esse posto; e elle desgostoso deixou a cazerna como deixára Coimbra. Viu-se outra vez sem occupação, o seu genio activo e investigador lançou-o em estudos sobre economia politica, historia{15}universal, legislação e todos os ramos em que mais tarde o seu genio sublime devia manifestar-se. Veio então a Lisboa, chamado por um tio que muito o recommendava ao Cardeal da Motta, ministro omnipotente n'essa epocha. O Cardeal, homem esclarecido, viu logo o partido que se podia tirar de tão notavel aptidão e apresentou-o ao rei, que o tratou como a quem vinha tão bem recommendado. O rei admirou o talento e variada illustração que em tão verdes annos se manifestava no mancebo, e pouco depois em 1733 nomeou-o membro da Academia Real de Historia com a mira em que elle lhe escrevesse a historia de varios monarchas, cujos reinados fossem mais dignos de tão habil historiador. Negocios porem importantes e que reclamavam immediato desempenho, não permittiram que satisfizesse o encargo com que o rei o distinguira; as vistas da côrte estavam fixas n'elle, o rei distinguia-o e protegia-o e conseguio attrahir a attenção de uma joven viuva D. Thereza de Noronha senhora de muitas virtudes e de illustre nascimento que era sobrinha do Conde dos Arcos. Parece porem que este enlace foi combatido, e que a despeito de seus merecimentos e da protecção regia, não foi sem custo que logrou fazer emmudecer os que desaprovavam a desejada alliança, sob pretexto de quem não tivera nos seus ascendentes grandes do reino, embora fosse de illustre nascimento. Já então deveu á sua energia o conseguir a realisação dos mais ardentes votos do seu coração. Depois as suas ambições voltaram-se para alcançar emprego em que bem servindo a patria conseguisse posição brilhante, e na qual utilizasse as suas faculdades e aptidões. O acaso serviu-o a seu contento com a necessidade que obrigou o rei a mandal-o a Londres como embaixador. Foi então que se principiou a manifestar a todos a vastidão dos seus recursos intelectuaes e o muito que havia a esperar de tão acrisolado amor da patria e de tão grande genio. Todo o tempo que desempenhou em Londres o cargo de representante de Portugal não cessou de velar pelos interesses que lhe estavam confiados, alcançando muitos privilegios para os portuguezes alli residentes, fazendo desapparecer todos os vexames que antes soffriam, conseguiu para o seu governo o direito de prender e castigar os delinquentes inglezes em territorio portuguez, tendo elles de subjeitar-se ás nossas leis. Quando um seu medico foi preso por um collector, apesar do Acto do Parlamento de 1709, que prohibia o prender-se nenhum embaixador ou pessoa ao seu serviço, fez com que lhe fosse dada satisfação d'um insulto feito a um seu empregado, affirmando assim os direitos que os outros pretendiam desconhecer, e fazendo respeitar a nação que representava e definindo os previlegios dos ministros estrangeiros.{16}Conseguiu para os portuguezes residentes em Londres a reciprocidade na isenção de impostos.Em 1739 reclamou queixando-se da penhora feita em generos que pertenciam a Bento de Magalhães, negociante portuguez, como violação dos tractados existentes entre as duas nações, tractados que davam tambem aos inglezes aqui residentes as mesmas regallias. O duque de Newcastle em 20 de novembro respondeu o que se segue: Sua Magestade Britanica sendo informado de que os vassallos de S. M. Fidelissima que residem em Inglaterra teem sido sobrecarregados e obrigados ao pagamento de impostos publicos e parochiaes, que foram lançados por Acto do Parlamento a todos os habitantes indistinctamente; ordenou-me que vos participasse, ainda que em virtude da natureza e forma do nosso governo, não cabe na alçada do rei isentar ninguem em particular do pagamento dos impostos lançados por Acto Parlamentar, não só seria nova, mas sujeita a grande debate e inconveniencia: comtudo, para dar a S. M. Fidellissima uma prova da amizade e consideração em que a tem S. M. Britanica, e para que os subditos de Portugal que residem em Inglaterra fiquem descançados de que não serão incommodados por causa de quasquer impostos parrochiaes ou outros que, em virtude de Acto Parlamentar, sejam pagos pelos habitantes em geral, faz saber que todos esses impostos lhes ficarão descarregados, sem que por causa d'elles soffram multas ou penas algumas. Mais tarde por occasião de ser queimada nas aguas do Algarve pelos inglezes uma esquadra franceza, escreve elle a lord Chatam pedindo-lhe satisfação, as seguintes cartas:«Eu sei que o vosso Gabinete tem tomado um imperio immenso sobre o nosso: mas tambem sei que é tempo de acabar com elle. Se meus predecessores tiveram a fraqueza de vos conceder tudo que quizestes, eu nunca vos concederei senão o que vos devo. É esta a minha ultima resolução: regulae-vos por ella.»Conde de Oeiras.A segunda é como se segue:«Eu rogo a V. Ex.ª que me não faça lembrar das condescendencias que o governo Portuguez ha tido com o governo Britanico, ellas são taes, que não sei que potencia alguma as haja tido similhantes com outra. Era justo que essa authoridade acabasse alguma vez, e que se fizesse saber á Europa que tinhamos sacudido um jugo estrangeiro. Não o podemos melhor provar do que pedindo ao vosso governo uma satisfação que por nenhum direito nos deve negar. A{17}França nos consideraria no estado de maior fraqueza se lhe não dessemos alguma razão do estrago que soffreu a sua esquadra em as nossas costas maritimas, onde por todos os principios se devia julgar em segurança.»Conde de Oeiras.A terceira carta é tão longa que me não resolvo a copial-a toda, basta dizer que em resultado de todas as rasões e justas arguições que terminam assim:«A satisfação que vos peço é conforme com o direito das gentes. Succede todos os dias que os officiaes de mar, e terra façam por zelo ou por ignorancia o que não deviam fazer, é portanto a nós que nos pertence o puni-los, e fazer emendar e remediar os damnos que elles teem causado. Nem se deve julgar que estas reparações fiquem mal ao estado que as faz: ao contrario, sempre é bem mais estimada aquella nação que de boamente se presta a fazer o que é justo.«Da bôa opinião dependeu sempre a força das Nações.»Conde de Oeiras.O rei de Inglaterra mandou um Embaixador extraordinario a Lisboa dar as satisfações pedidas.Foi tambem Pombal que alcançou pela sua habil diplomacia que os ministros estrangeiros em Londres podessem importar todos os moveis, roupas, vinhos etc. sem pagamento de direitos. Durante a sua estada em Londres estudou constantemente e foi alli que bebeu a longos tragos, essa sciencia que devia fazer d'elle um modelo. Sully, Colbert e Richelieu foram as suas fontes e com elles se identificou sendo Sully o principal objecto, segundo diz mr. Smith, da sua veneração e estudo, podendo os maiores enthusiastas d'esse grande vulto comparal-o sem receio ao seu prototypo. Em 1745 voltou Pombal á patria, parece que a seu pedido, em consequencia do edito promulgado contra os papistas. Voltando a Portugal não teve logo em que occupar a sua actividade e voltou as suas vistas pava os abusos que via praticar por toda a parte; estudou-lhe as causas e foi amadurecendo os seus projectos de futuro, para destruir o mal que reinava em todos os ramos de administração publica. Comprehendeu que só medidas sabia e prudentemente empregadas poderiam levantar a nação da decadencia em que caira; que a falta não vinha dos povos mas do governo, que só instruindo e não corrompendo, ensinando e não conservando na inercia e derigindo o povo para a regeneração pela instrucção e pelo trabalho,{18}poderia conseguir erguer o reino á grandesa que ambicionava. Era pois myster dar trabalho a todas as classes, occupar os braços e o espirito do povo, dando a cada um a protecção a que tinha direito dando assim ao governo cidadãos uteis.O paiz estava devastado pelos ladrões, as leis eram lettra morta, a prepotencia espalhada por toda a parte, o povo desmoralisado, o commercio e a industria aniquilados.Quando estava absorvido por todas estas idéas, suscitou-se entre Benedicto XIV e a imperatriz Maria Thereza, senhora tão celebre pelas suas virtudes como pela variedade da instrucção que lhe adornava o espirito, uma desintelligencia a respeito da extincção do patriarchado da Aquileia, desintelligencia que promettia serias consequencias como quasi todas as que tem havido com a Santa Sé, por tenderem quasi sempre, não só a separarem-se da egreja, mas ao aniquilamento da fé catholica. A imperatriz confiava na capacidade de Pombal, e só da sua probidade, são juizo e penetração, esperava uma solução digna, equitativa e justa.Conhecida a sua competencia e provavelmente a pedido da imperatriz que conhecia a sua capacidade, foi Pombal enviado a Vienna como embaixador, onde conseguiu arranjar tudo a contento de todos, firmando-se na justiça, equidade e justos direitos de cada um.Uma carta encontrada em Paris, no archivo da secretaria dos negocios estrangeiros, dá a medida do apreço em que eram tidas pelos diplomatas estranhos as eminentes qualidades do illustre estadista; apreciação que não póde deixar de ser imparcial e justa por que a elevada posição official do Embaixador em Vienna lhe dava mil occasiões de estar em contacto com o Marquez de Pombal; transcrevo pois na integra o alludido documento alli encontrado com o titulo de:Correspondencias d'Austria, n.º 244 despacho de M. Blondel, ministro de França em Vienna, dirigido ao governo austriaco e datado de 10 de janeiro de 1750.—«M. Carvalho foi por muito tempo Embaixador de Portugal em Londres, d'onde o rei seu amo o fez sair para o collocar aqui, no intento de que empregasse a sua influencia para restabelecer a harmonia entre esta côrte e a de Roma. O ministro foi egualmente encarregado de fazer readquirir ao eleitor de Mayence as boas graças e a affeição do Papa.«N'estes dois negocios deu elle provas da sua habilidade, da sua sabedoria, integridade, moderação e sobretudo de muita paciencia, e alcançou não só a benevolencia de todos os interessados, mas tambem a de todos os ministros estrangeiros, e das pessoas de consideração de Vienna.«M. Carvalho é nobre em tudo, sem ostestação, cordato e prudente; replecto de principios e sentimentos de honra, não visa{19}senão ao bem geral; e eu sei que não foi por culpa d'elle que a imperatriz não chegou mais cedo a sentimentos pacificos. É tão bom cidadão como homem probo, e a sua partida foi sentida tanto pela côrte como pela cidade. Tem approximadamente de cincoenta a cincoenta e cinco annos e casou em Vienna com a filha do General Daun.» Esta é a traducção do despacho francez, documento insuspeito de parcialidade, por isso que os francezes não são prodigos de louvores para os estranhos.Veio pois em 1750 para Lisboa, pouco antes da morte de D. João V. Logo que subiu ao throno D. José I, Pombal tomou posse da pasta que já lhe fôra destinada, principiando então a tomar parte no governo com o saber e energia que só um athleta privilegiado poderia desinvolver. A restricção dos poderes da Inquisição, o desapparecimento dos ladrões que infestavam as ruas da capital, a organização interna do servico do paço, que era uma especie de pinhal D'Azambuja, onde todos roubavam, reduzindo os empregados de oitenta a vinte, fiscalisando os gastos da ucharia, descendo a todas as minucias e occupando-se de tudo com egual proficiencia.Desde que conseguiu organisar a administração interna do reino voltou as suas vistas para as possessões de Além-mar, onde tudo chegára á ultima miseria.Para ligar os interesses dos colonos aos dos indigenas, prohibiu a vinda das donzellas ricas do Brazil, que para aqui vinham encerrar-se nos conventos, prejudicando assim o augmento da população; e promoveu cazamentos com os mancebos do paiz, por meio de dotes e augmento de interesses de varias especies; promoveu o commercio com a Asia e particularmente com a China, e aconselhou ao rei a humanitaria medida da emancipação dos indios das provincias do Pará e Maranhão, tornando-os livres, subtrahindo-os á exploração dos colonos europeus, e buscando os meios de os civilisar. Os negros de Africa não obtiveram o mesmo beneficio, pelo seu abatimento e conveniencias politicas que por então o impediram. Como já disse, aos portuguezes que casavam com donzellas indigenas eram concedidas certas franquias. Em seguida ao decreto que emancipava os indios, assignou o rei outro, fundindo as duas companhias Maranhão e Grão Pará. Esta medida veio dar novo incremento á classe do commercio entre Portugal e as colonias da America, tomando estas um novo aspecto.A aristocracia tremia de raiva vendo coartarem-lhe a preponderancia de donatarios: o os jezuitas previam que os seus excessos tinham encontrado um moderador que lhe refreiasse as demasias. Colligavam-se e conspiravam com a nobreza vendo n'isto o unico meio de combater o seu commum inimigo; mas Sebastião José de{20}Carvalho formára os seus projectos que seguiu sempre com tenacidade indomavel e soube de tal modo captar a confiança de D. José, que este surdo a todas as insinuações disfarçadas e a todas as invectivas francas, continuou a sustentar e seu ministro que em breve tinha de prestar-lhe ainda maiores serviços. No primeiro de novembro de 1755 soffreu Lisboa o horrivel cataclismo do terramoto. A capital ficou quasi destruida e, a sua população, parte ficou morta, outra ferida, e a restante aterrada pela espantosa catastrophe. O mal, já de si grande, não veio só. Seguiu-o o triste cortejo das suas inevitaveis consequencias; no meio, porém, de tão grandes horrores, o Marquez de Pombal impassivel e inalteravel, multiplicava-se, por assim dizer, apparecendo em toda a parte onde a sua presença fosse necessaria, soccorrendo por todos os meios possiveis as victimas e prestando auxilio com disvellada sollicitude. Os decretos, as ordens e as providencias succediam-se sem interrupção, e todas patenteavam exuberantemente a aptidão d'esse homem a quem nenhuma desgraça conseguia aterrar, a quem, por maior que fosse o mal, não faltava a lucidez do espirito para lhe encontrar o remedio. A catastrophe teve logar ás 9 horas e alguns minutos da manhã: o dia apparecera risonho e sereno; nunca o ceu se mostrara tão limpo de nuvens, nunca o Tejo ostentára mais transparentes as suas aguas que nem uma leve aragem o agitava; a natureza parecia repousar; tudo respirava socego e confiança; tudo parecia prometter segurança e tranquilidade. Bastaram porém alguns minutos para transformar em desesperação, horror, miseria e espanto esse risonho quadro! Parecia que todas as furias do inferno haviam conseguido escapar-se e se tinham espalhado sobre a terra pouco antes tão mimosa, e caído raivosas sobre a desditosa Lisboa, trazendo após si o terramoto, o roubo, o assassinio, o incendio e toda a sorte de calamidades. Era dia de Todos os Santos, o povo da capital corria para as egrejas para ouvir missa. Os templos estavam brilhantemente illuminados e mal poderia suppôr-se que essa cidade tão casquilha e tão vaidosa da sua belleza, seria dentro em pouco um montão de ruinas e de cadaveres. O primeiro abalo foi precedido por um ruido subterraneo por toda a cidade: a principio debilmente, depois cada vez mais forte e com uma continuidade medonha. A terra gemia surdamente, e todos escutavam tranzidos do susto esse desconhecido rumor. De repente, o solo abriu-se, as casas desappareceram, uma nuvem de pó ergueu-se ao ceu, e um concerto de gritos e lamentos fez-se ouvir de todos os lados! A dôr e o desespero foram indiscriptiveis. O Tejo revolto, medonho, crescendo e saindo do seu leito, parecia ameaçar engulir o que o fogo poupára. De um lado a destruição pelo incendio, do outro um inimigo não menos terrivel ameaçando com{21}o diluvio; por toda a parte um espectaculo nunca visto; horrivel tragedia composta de milhões de tragedias! Diz algures um escriptor que: «Parecia que Deus quizera vingar n'um só dia os crimes de muitos seculos.» Por toda a parte se via o restante da população da capital com lagrimas nos olhos e physionomias onde se pintava o mais cruel desespero, gritos agudos, de mulheres, de creanças e dos moribundos, extorcendo-se nas chammas ou sob as minas. Era espantoso! A tantos males succedeu-se outro, que veio completar a destruição: os que não tinham ficado sepultados gritavam, impelliam-se, imploravam a misericordia do ceu recitando orações que novo desabamento vinha cortar, ou novas fendas abertas sob seus passos faziam calar ingulindo-os. Os que fugiam para as margens do, antes tão formoso Tejo, esperando achar alli abrigo, deparavam com um quadro tão medonho como aquelle a que se esquivavam. Em consequencia dos grandes abalos de terra o rio estava terrivel, bramindo revolto em violenta agitação; em alguns minutos tornara-se n'uma corrente furiosa, que subira desmedidamente, e que arrastava depois comsigo quanto se lhe deparava. Os navios, mesmo os de grande lotação, submergiam-se; outros, não podendo resistir ao impeto das vagas alterosas que lhe despedaçavam as amarras, iam desapparecer em vertiginoso redopio nos medonhos sorvedouros, ou eram arremessados uns contra os outros pelas iradas ondas e se despedaçavam! Para completar este quadro estupendo em que todos haviam tido farto quinhão de desventura e em que se não sabia quem mais se lastimasse, se os que haviam perdido a vida, se os que tinham perdido quanto lh'a fazia amar. Começou a apparecer fogo em differentes sitios da cidade e que lavrando com incrivel rapidez veio completar a obra de destruição. Quantos horrores aguardavam os que sobreviveram! quantas dôres! quantas mães loucas sem saber que fôra feito dos filhos que estremeciam! quantos filhos procuravam anciosos os paes, quantos maridos e esposas procurando os consortes, quantos pezares, quantos corações despedaçados, quanto desespero! Entre os magnificos edificios destruidos, conta-se a magnifica Patriarchal de D. João V, o Paço real, a egreja de Santo Antonio, os palacios dos tribunaes, ministerios, arsenal, casa da India, alfandega, a vedoria, a Opera e os palacios de Lafões, Aveiro, Cadaval, Marialva, Tavora, Fronteira, Valença e Louriçal, as bibliothecas real e a de Lafões, a do convento de S. Domingos, a do Marquez de Louriçal, a de Monseigneur Magalhães, e a do Inquisidor Simão José. Não se poude saber ao certo o numero de mortos, mas foi avaliado em mais de dez mil. Todavia alli onde tudo tremia e vacilava, via-se um só homem impassivel e forte, era o Marquez de Pombal.{22}No meio d'estes horrores as prisões abertas deram saida aos malfeitores que recuperando a perdida liberdade se lançaram como lobos famintos sobre a desditosa cidade, levando comsigo a violencia, o roubo, a embriaguez, cevando emfim a completa satisfação de todos os appetites brutaes. Diz o sr. Smith no seu livro d'onde tenho extrahido grande parte do que escrevo:—«Para corroborar os factos de que trato, fiz o extracto de varias correspondencias do ministro inglez em Lisboa, que não deixarão de interessar o leitor não só pela incontestavel authenticidade, mas tambem porque n'elles se encontram circunstancias que nunca foram publicadas. O seguinte é d'uma correspondencia de 6 de novembro de 1755, onde se acha uma descripção viva e graphica d'aquelle infausto successo.—«A perda do meu bom e digno amigo o embaixador hespanhol, que ficou esmagado á porta de sua casa, quando tentava escapar-se para a rua, junta á dôr que ha cinco dias me causam as tristes noticias, que a cada passo nos trazem relativamente á sorte de uma ou de outra pessoa do nosso conhecimento pertencente á nobreza, a qual, pela maior parte, se acha inteiramente arruinada, tem-me seriamente sensibilisado; mas o que sobre tudo me afflige é a sorte dos desgraçados subditos de S. M. Britannica, da classe inferior, que de todos os lados affluem a minha casa pedindo-me pão, e andam espalhados por todo o meu jardim com mulheres e filhos; até agora não tenho deixado de soccorrer a todos, e continual-o-hei a fazer em quanto me não faltarem os meios, o que espero não succederá, attendendo ás convenientes medidas que o sr. Carvalho para isso tem tomado. Tem-se dado as melhores providencias possiveis para impedir o roubo e o assassinato de que ha tres dias tem havido frequentes casos, vagueando pela cidade turbas de desertores hespanhoes que se valem da occasião para commetterem taes delictos. Tendo-me sido confiadas consideraveis quantias que alguns inglezes que tiveram a felicidade de salvar parte de seus bens, depositaram em minha casa, pelo que tive em toda a noite a casa cercada de ladrões, escrevi esta manhã ao sr. Carvalho pedindo-lhe uma guarda, o que espero me será concedido.»Uma outra do mesmo ministro, de 15 do mesmo mez, refere as seguintes particularidades:—«O primeiro abalo começou pelas dez horas menos um quarto da manhã, e, tanto quanto pude julgar, durou seis ou sete minutos; depois succedeu-se um intervallo de cerca de cinco minutos antes do segundo, que durou uns tres minutos, pouco mais ou menos; de sorte que n'um quarto de hora foi esta grande cidade convertida em ruinas. Em seguida rebentaram muitos incendios, que no espaço de cinco ou seis dias consumiram todos os generos e outras cousas. Parece que a força do{23}terremoto teve a sua séde mesmo no centro de Lisboa, por que os prejuizos não são tão consideraveis para qualquer dos lados. Julga-se que partiu do caes que se estende da alfandega até ao Paço, que desabou, e se sumiu completamente, submergindo-se alguns barcos tambem ao mesmo tempo. As aguas subiram de vinte a trinta pés, e desceram outro tanto com intervallos, segundo me contaram.» (Isto parece dar rasão a crer-se que no leito do rio se fizeram as mesmas fendas e abysmos, o que explica as alternativas da agua subindo e baixando repentinamente). «Não foi só Lisboa que soffreu os estragos do terremoto, por que se estenderam a outras terras do reino (e tambem da Europa) principalmente a Setubal e ao Algarve, onde foram bem sensiveis. Calcula-se que só em Lisboa foram victimas d'aquella calamidade trinta mil pessoas, que pereceram umas queimadas, outras afogadas, ou sepultadas nas ruinas.»Em outra carta datada de 19 do mesmo mez mr. Castres diz para o seu governo que D. José tinha ido com toda a sua côrte habitar em barracas de lona n'uma quinta, e que a malfadada nação estivera em eminente perigo de ser presa da peste e da fome, e conclue louvando o zeloso procedimento de Pombal, que de dia e de noute se mostrava infatigavel em empregar todos os remedios que a miseria geral pedia. Transcrevemos ainda a seguinte passagem por me parecer de maior interesse:—«Como os abalos não cessaram inteiramente desde o primeiro dia da nossa desventura, a côrte com pouco mais de dois terços da sua população continua ainda a acampar nos campos e quintas d'estas paragens. Os predios que ainda se vêem de pé, na cidade e na extensão de algumas leguas nas suas visinhanças, estão realmente, pela sua maior parte, n'um estado tão deploravel, que será custoso encontrar um entre cincoenta, que possa resistir ao inverno, ainda que sustentado por espeques.» Facilmente se deprehende qual seria a continua perplexidade que a todos dominava, pelo que ainda em 13 de dezembro em outra correspondencia diz mr. Castres:—«Já lá vão quarenta dias desde que sobreveio o grande terremoto, e com tudo raro tem sido o dia que se tenha passado sem se renovarem os nossos sustos, sendo os repetidos tremores quasi sempre acompanhados de tão fortes abalos de vez em quando, e com especialidade na noute passada, que obrigaram a fugir, quasi nús, para o descampado, com grande perigo de vida, n'uma estação tão rigorosa como esta, não só os que haviam começado a habitar os aposentos inferiores dos predios, que ainda se achavam de pé, mas aquella gente mesmo que se abrigára em barracas. Entretanto o sr. Carvalho, que parece possuir a confiança absoluta do rei seu amo, não descança um{24}instante em dar todas as providencias para que n'esta cidade de ruinas não escasseem os mantimentos; para obrigar toda a classe de operarios que affluiram das terras mais remotas do reino, a voltar ás differentes occupações, e para pôr cobro aos muitos roubos, que inevitavelmente succedem em epochas de tanta desordem como esta, principalmente em logar tão exposto como este.»—Por muito tempo o susto e o terror se conservaram na desditosa cidade, onde ainda em 16 de janeiro seguinte se sentiu um violento abalo.A desgraça que ferira Portugal inspirou o mais vivo e caritativo interesse a toda a Europa, e todos os governos nos mandaram offerecer os seus bons auxilios. De Inglaterra mandou Jorge II 97:200 libras entre generos e dinheiro. S. M. Catholica e S. M. Christianissima offereceram soccorros de toda a especie que o ministro dispensou. O rei de Hespanha que perdera no terremoto o seu embaixador, não desprezou meio algum para fazer acceitar o seu auxilio ao governo portuguez, e para isso ordenou á alfandega de Badajoz, que deixasse passar livre de direitos todos os generos exportados para Portugal.Luiz XV tambem foi em extremo delicado comnosco; e não quiz que o conde de Bachiseu, embaixador em Lisboa, saisse d'aqui em crise tão dolorosa e na qual, dizia o ministro Rouillé, era necessario patentear a S. M. Fidelissima por meio da assiduidade e auxilios a parte que o rei de França tomava nas desgraças que opprimiam Portugal. O rei D. José foi bastante sensivel a todas estas provas de affeição dos seus alliados, mas não acceitou as suas offertas. Quando Luiz XV ouviu dizer que se acceitára o soccorro de Inglaterra encarregou o Embaixador de saber a verdade, e eis a carta que este diplomata escreveu a Carvalho e Mello:«Ce n'est pas le dépit, dit-il, qui me fait demander s'il est vrai que S. M. Très-Fidèle ait accepté les offres de S. M. Britannique mais l'esperance que conserve S. M. Très-Christiènne que ses offres pourront egalement être acceptées.»Carvalho respondeu que:—«O rei seu amo teria acceitado reconhecido os offerecimentos generosos dos seus alliados, se tivesse sido necessario, que as perdas que Portugal acabava de experimentar eram grandes, mas que em geral só atacavam o luxo. Que no futuro haveria em Lisboa menos palacios, menos quadros, menos moveis ricos e que isso seria o meio de fazer voltar a nação á sua antiga simplicidade. Que as terras seriam agora mais bem agricultadas pelos fidalgos, que Deus seria adorado com mais fervor nos seus templos despojados das pompas, e que a riqueza publica se augmentaria, e as finanças melhorariam de situação.» Esta resposta pareceria um pouco grosseira e vaidosa se nos não lembrassemos{25}de que a França tinha em vista alcançar em troca dos seus beneficios a cessão do commercio do Brazil que receiava ver em poder da Inglaterra. O ministro dos Negocios Estrangeiros em França, mr. Rouillé, achou esta resposta digna de um philosopho e de um estadista abalisado, ainda que convencido, dizia elle, de que os factos nunca realisariam os desejos e previsões de Carvalho.Se os auxilios de JorgeIIforam acceites é porque a Inglaterra em vez de fazer polidos offerecimentos, votou por unanimidade uma verba de cem mil libras destinadas a trazer soccorros a Portugal, e em vez de lh'os oferecerem, mandou-os directamente ao ministro.Os serviços pois d'este ministro e grande estadista, iam já de foz-em-fora.O facto é que os prejuisos eram enormes e diz-se que superiores a 7 milhões de libras, apezar de que muita cousa se foi desenterrando e encontrando graças ás sabias e previdentes medidas tomadas por Pombal. Das grandes riquezas suterradas na Patriarchal, foi achada a cruz de prata, estimada em 30:000 libras. D'essas e de outras ruinas desenterraram-se pelo tempo adiante, 1:500 arrobas de prata. O rei e sua familia, estava no Paço de Belem, na occasião do terremoto, e felizmente nada soffreram alem do grande susto, e a dôr de presensiar tanta desgraça. Quando chegou o ministro para offerecer ao rei, as consolações e serviços que pedia a situação, achou todos em lagrimas, e o rei derigindo-se-lhe perguntou-lhe que julgava elle a proposito fazer-se para minorar e attenuar tanta desventura?—«Meu Senhor, enterrar os mortos, e cuidar dos vivos.» Foi a resposta concisa, que com toda a serenidade deu o Marquez de Pombal, resposta que elle mostrou não ser uma bravata oca, e que executou com extraordinaria energia. Desde então, D. José que sempre tivera pelo seu ministro sympathia e consideração, reconheceu n'elle um espirito previlegiado, e superior, e cencedeu-lhe sempre inalteravel affecto, e até respeito. O ministro saiu de Belem, correu a Lisboa e aqui partilhando todos os perigos e dando remedio a tudo que o tinha, não se apeiava da sua sege, dia e noute, apparecia em toda a parte, e a sua serenidade e coragem, a sua figura nobre e a sua tranquilidade no meio de tanta tribulação, impunham o respeito e a admiração, e incutiam animo aos que o observavam. Aonde fosse necessaria a sua presença, lá estava; mesmo dentro da sua sege, expedia correios com ordens para toda a parte, em menos tempo do que se emprega, em elaborar um só decreto, lavrou elle mais de duzentas providencias, umas para conservação da ordem, outras para a distribuição dos mantimentos, para enterrar os mortos, para dar casa aos que vagueavam sem tecto, outras para remover e tratar dos feridos e doentes, outras finalmente{26}para evitar a saida dos roubos para fóra da cidade onde seria mais facil rehavelos, prohibindo a saida de qualquer que não fosse portador de salvo-conducto. Eis as medidas mais notaveis e que na conjunctura promulgou: A D. Rodrigo Antonio de Noronha.«Sua Magestade é servido ordenar que V. S.ª mande armar as lanchas, barcos ou escaleres, que parecerem necessarios, para rondar o rio de Lisboa, visitando n'elles, todos quantos botes, lanchas, ou barcos, sairem dos navios estrangeiros, ou para elles forem, por constar que levam os impios e sacrilegos roubos, que se teem comettido em casas e Igrejas: e como para ellas pode faltar gente militar, se pode V. S.ª valer das Ordenanças, e Auxiliares; e da Tenencia que se acha aberta, poderão ser vistidos com uniformes, e armados as que se embarcarem para as ditas rondas. E para tudo o que a V. S.ª for preciso a este respeito, tem ordem do mesmoSenhor, o Ill.moe Ex.moSr. Marquez, Estribeiro-mór. Aos commandantes das sobreditas rondas determinará V. S.ª que embarguem todas quantas embarcações, encontrarem de noite no rio, sem distinção, até amanhecer.«Deus Guarde a V. S.ª Paço de Belem aos 4 de novembro de 1755.—Sebastião José de Carvalho e Mello.«P. S. A referida visita se estenderá tambem aos navios Portuguezes que não forem de pessoas conhecidas e livres, de suspeitas.»Outra para o Corregedor da comarca de Coimbra:«Sendo presente a S. Magestade, que todos os creados de escada a baixo, gallegos, e homens de trabalho, que serviam na côrte, e suas visinhanças, tem desertado em tumulto, pela preoccupação, de que não haverá dinheiro para se lhe pagar, e outros para transportarem os muitos roubos, que teem feito com impiedade deshumana, abusando da calamidade que tem ferido a capital do Reino. É servido o mesmo sr. ordenar, que V. M.cerequerendo por este a todos os Ministros da Justica, e officiaes dos Auxiliares, e Ordenanças, e communicando-lhe irrimissivel perda dos seus postos, faça guardar as estradas, e barcas de passagem, de tal sorte, que nenhuma pessoa de qualquer qualidade e condição que seja, possa avançar o seu caminho e menos sair do reino, ou ainda d'entro d'elle, passar de uma a outra provincia, sem levarPasse. E sendo pessoa das profissões acima referidas, serão logo reconduzidas em levas á sua propria custa, de Villa em Villa, até que sejam entregues n'esta Côrte á ordem do Duque Regedor das Justiças. O que tudo V. M.ceexecutará continua, e successivamente, até que eu o avise{27}de que S. Magestade revogou esta ordem.—5 de novembro, de 1755. Deus Guarde etc.»N'esta conformidade se escreveram circulares a todos os Corregedores das comarcas do reino.—Para o Marquez d'Abrantes:«—Sua Magestade é servido que V. Ex.ª mande á ordem de D. Rodrigo A. de Noronha as embarcações que elle pedir, e couberem no aperto do tempo, para as visitas e transportes dos mantimentos que se acham a bordo dos navios ancorados n'este Porto; cujas deligencias o mesmoSenhortem encarregado ao cuidado do mesmo D. Rodrigo de Noronha.—aos 4 de novembro de 1755—Deus Guarde a V. Ex.ª etc.—Sebastião José de Carvalho e Mello.»Dirigidas a D. Rodrigo ha muitos, uns, para lhe ordenar que vá a bordo dos navios surtos no Tejo e apartar de todos os mantimentos encontrados a bordo, os indespensaveis para as equipagens,e fazer transportar e pôr em arrecadação as restantes com as avaliações dos preços communs, e ordinarios, que até então valiam. Outros, para que desse livre entrada ás pescarias, aviso ao Marquez de Alegrete para exercer toda a vigilancia e mandar fixar editaes para que os padeiros, tendeiros, artifices e todos os homens de ganhar não podessem vender os seus generos ou exigir preços superiores aos do mez de outubro antecedente, isto sob penas gravissimas caso infringissem a lei de 4 de novembro; aviso ao Duque Regedor ordenando-lhe que os ministros encarregados das inspecções dos Bairros mandem ao Presidente do Senado da Camara, as relações de todos os mantimentos, que descobrissem fosse onde fosse; 6 de novembro. Aviso ao Marquez Estribeiro-mór para pôr guardas aos Erarios Reaes; 2 de novembro. Aviso ao Marquez de Tancos com ordem de fazer passar á côrte, algumas tropas do Reino, para manter a ordem e socego publico.—3 de novembro.Aviso ao Marquez de Alegrete,para fazer com que os ministros encarregados da inspeção dos bairros mandassem as relações dos mantimentos para as participar aos ministros encarregados de, no Terreiro do Paço e na Ribeira as distribuir ao povo;—12 de novembro.Aviso ao Duquesobre o parecer de recolher os doentes no Hospital Real:—6 de novembro.Aviso ao Estribeiro-mór,para fazer tirar das minas o corpo do Embaixador de Hespanha;—7 de novembro.Ordem ao Duque Regedor,para chamar á sua presença os ministros da inspeção dos bairros, ordenando-lhe a prisão dos authores das suggestões, com apparencia de profecias, espalhadas por alguns malfeitores para aproveitarem o terror e cometterem livremente{27}roubos e crimes atrozes vendo a cidade desamparada de seus moradores;—Não tem data. Outra ordenando ao mesmo Duqueque empregue nas obras da cidade os ciganos que a inquietavam. Officio ao Patriarchapedindo-lhe a necessaria authorisação para que os cadaveres fossem, com todos os ritos da Igreja, levados em navios até fóra da Barra e alli deitados ao mar com pesos, a fim de evitar pela decomposição dos mortos uma ipedemia. Mandoutirar uma relação minuciosa dos officios e rendimentos de toda a gente, empregando-se no desentulho e obras, todos os que eram vagabundos ou vadios, dando-lhe salario e comer. Estas não são nem a decima parte das providencias tomadas pelo illustre ministro, mas são as que dos tres volumes que aqui tenho, e que contem todas me pareceram de maior interesse e menos longos. Parece impossivel como um só homem poude pensar em tanta cousa. Todavia apesar d'estas e todas as outras providencias com que o ministro procurou atacar e evitar os males e as suas consequencias, o arrojo era tanto que os malfeitores com licenciosidade inaudita não recuavam praticando á luz do dia toda a casta de infamias e levando o roubo, a violação e o assassinio a toda a parte onde podiam entrar, sendo necessario pôr guardas em todas as casas que pela sua abastança, e importancia lhe podia servir de alvo. Foi em consequencia d'este estado de cousas que o ministro fez proclamar a lei de Lynch. Todo o delinquente apanhado em flagrante era preso, processado e sentenciado no logar do crime e alli mesmo ficava enforcado para servir de lição a quem quizesse imital-os. Esta medida energica e indespensavel no calamitoso estado a que chegára a capital, pôz côbro nos attentados e os moradores da cidade poderam então dormir socegados confiando no vigilante cuidado de Carvalho e Mello.Não eram só estes os negocios que absorviam a fecunda imaginação do ministro de D. José; tinha que defender-se dos inimigos que tudo aproveitavam para o atacar; tinha que defender as costas de Portugal, dos corsarios argelinos, que pretendiam approveitar do terror e da desordem que uma tal catastrophe espalhára e que não desperdiçavam, todas as occasiões para desembarcar, espalhando tambem o roubo e o terror. Em alguns dias, o ministro enterrara mortos, desenterrara vivos; fizera encher os fossos abertos pelo tremor, enterrando n'elles muitos cadaveres; mandára transportar os feridos e moribundos, para hospitaes que fizera preparar em varios sitios da cidade; nada faltava n'estes hospitaes provisorios; os medicos, os enfermeiros os remedios appareciam como por encanto ao contacto da varinha magica da sua energia sublime. No Paço, as princezas e suas criadas não descançavam em preparar ataduras e fios.{29}Onde a caridade tanto tinha que fazer, nem todos os padres ficaram inactivos; muitos d'elles puseram-se ao trabalho com um zelo verdadeiramente evangelico; levavam aos hombros os mortos para os cimiterios; conduziam nos braços os feridos para os hospitaes, encommendavam uns, consolavam outros, e animavam os moribundos com caridade christã. Foi assim que essa caridade se ligou ao zelo do ministro activo e resoluto para attenuar tanta miseria. Mas infelizmente tambem houve alguns que em vez de seguirem o salutar exemplo de seus irmãos exercendo a sua nobre e caritativa missão, calcaram aos pés deveres, verdade, humanidade, e fraternidade, e lembraram-se de subir ao pulpito, a essa cadeira que só deve servir para prégar o amor e caridade, e atacar o rei e o seu ministro accusando-os a ambos de impiedade e incutindo no povo a persuasão de «que os peccados do rei e a heresia do ministro, eram a causa do tremendo castigo que Deus justamente irado fizera cair sobre o reino; que as desgraças de toda a sorte não cessariam de sobrevir sobre seus desgraçados povos, em quanto o rei não fizesse penitencia publica por seus muitos peccados.» A estes, alcançou-os a justiça: foram perseguidos e severamente castigados pelo intuito barbaro de quererem augmentar a má ventura da nação com dissensões intestinas, assim como os outros haviam sido louvados e premiados. Quanto mais o ministro redobrava de zelo e de actividade, tantos mais males appareciam reclamando a sua intervenção. Conseguira por meio de acertadissimas medidas evitar a peste; combateu a fome e venceu esse inimigo esqualido e medonho; conseguiu libertar a cidade dos ladrões que a infestavam todavia com quanto tivesse feito muito lhe faltava ainda que fazer para terminar a sua obra, Lisboa desapparecera, era necessario fazel-a renascer, como a phenix, das proprias cinzas. Foi para este lado que se voltaram todas as faculdades da sua provada intelligencia: fez lavrar um plano sob as suas idéas, corregiu-o, animou as construcções que principiaram logo, facilitou essas edificações por todos os meios; fixava prasos para se fazerem sob penna de expropriação: deixou livre a importação de todos os materiaes necessarios; auxiliou essas construcções por muitas consessões, garantias e privilegios, etc., que instigavam os constructures e capitalistas a empregarem o seu dinheiro, e assim procurou auxiliar e conseguiu a reedificação da desmantelada Lisboa.O ministro de França em despacho, respondendo a pedido de informações para o seu governo, com respeito ao terramoto e suas consequencias, dizia: «que apesar de toda a boa vontade e grandes deligencias empregadas por M. Carvalho, reputava impossivel a ressurreição de Lisboa».{30}Tinham de levar um solemne desmentido, felizmente, as previsões do Embaixador francez e Lisboa não só se ergueu do seu abatimento, mas ainda ao erguer-se se apresentou muito melhor do que era antes, surgindo mais formosa do que nunca fôra. Parecia que as chamas do incendio, e as lagrimas de seus filhos a tinham purificado, embellezado e fecundado o seu solo.Para reedificar a capital eram indispensaveis sommas enormes; o ministro não tardou em encontrar os meios de as obter; fez brotar nos negociantes de Lisboa o pensamento de offerecer ao rei 4% sobre todas as mercadorias, offerta que elle tratou de fazer acceitar ao monarcha, lavrando logo o decreto de 2 de janeiro de 1756. Os consumidores é que soffreram com este imposto muito mais que os negociantes; isto era um verdadeiro imposto de consumo sobre os generos de primeira necessidade mas sem que a maior parte désse por isso elle adquiriu os meios para reidificar a cidade, infatigavel no seu zelo, e desejo de engrandecer a nação que lhe fôra berço, Sebastião José de Carvalho depois de neutralisar e remediar os males devidos ao tremor de terra, procurou desenvolver os recursos que se podiam tirar do paiz; riquezas não exploradas, e fontes de rendimento que até então tinham jazido na inercia.A industria era tão nulla em Portugal como a agricultura, e todo o empenho do grande ministro era erguel-as do seu abatimento. Seguiu para a industria o exemplo do que fizera pela agricultura: o monopolio, privilegios e favores de toda a casta foram os seus agentes. Estabeleceu grande numero de fabricas ás quaes dispensou toda a sua protecção.Promovendo a industria julgava poder conservar o ouro que nos vinha das colonias e obrigar os inglezes a comprarem a dinheiro os nossos vinhos que então eram trocados pelos seus artefactos. Nada deve admirar que o ministro illudido pelas ideias geralmente seguidas n'essa epocha em que se julgava que só o ouro era riqueza, procurasse conservar no paiz a maior porção possivel d'esse metal. Elle não tinha á sua disposição outros meios para conseguir desenvolver a industria, e se o decorrer dos annos tem ensinado outros, n'aquelle tempo não lembraram nem eram conhecidos, e o conde de Oeiras via-se a braços com mil difficuldades que elle, só, tinha de applanar, com mil urgencias a que só o seu genio poderoso podia obviar, e não podia por isso entregar-se a um estudo unico aturado que o fizesse encontrar a solução de problemas que só muito mais tarde se foram resolvendo. Muitas das industrias por elle patrocinadas nem mesmo eram conhecidas no paiz; a educação industrial não existia, e foi-lhe mister fazer vir alguns estrangeiros, para aqui estabelecerem fabricas, que seriam uma escola para o povo que ellas{31}empregassem; e para attrahir aqui, abandonando os seus lares, esses industriaes, era indispensavel offerecer-lhes interesses e protecção que os animasse ao sacrificio. Fabricas de sedas, de vidros, de botões, chapelarias, relojoarias, pannos, estamparias, serralharias, fundições, varias tecelagens, etc., receberam concessões e subvenções, para se desenvolverem e aclimatarem no paiz, foi tudo fructo da sua iniciativa e patriotismo. Imitador de Colbert chegou a ultrapassar o seu modello, e ninguem com justiça pode accusal-o, como o fazem alguns historiadores de proteger o monopolio, por isso que lhe não sobravam meios para, sem elle, conseguir o seu nobre empenho.O desleixo dos governos occasionou a decadencia da industria, agricultura e artes a que tinha chegado o paiz.Muitos accusam os tractados estabelecidos entre a Inglaterra e Portugal de ter causado essa decadencia, mas mudar-se-ha de opinião logo que se analyse os resultados que d'esses tractados colheu a agricultura, principalmente a dos vinhos, que deve aos contractos celebrados pelo conde d'Oeiras com a Inglaterra, e á creação da Companhia do Alto Douro, o seu progressivo desenvolvimento. Ha quem ataque rudemente essa medida do previdente ministro, mas a meu vêr difficil seria na occasião lançar mão do meio que desse tão proficuos resultados, e se a Inglaterra lucrou muito com isso não fez mais do que approveitar a inepcia dos nossos governos, o que poderia ter feito outra qualquer nação e em condições talvez mais onerosas para nós, e não se obrigando, como elles, a receberem os nossos productos e a comprarem-nos ou trocarem pelos nossos vinhos, com exclusão dos de outra qualquer nação, os seus generos e manufacturas. Apesar da rudeza e altivez com que o sabio ministro respondeu por vezes ás exigencias do gabinete Britanico, quando sentia da sua parte a rasão e a justiça nem por isso deixou de empregar todos os esforços para conservar inalteraveis as relações affectuosas entre os dois gabinetes. A verdadeira causa depois da decadencia do reino foi a sua riqueza colonial, a imigração, a sêde do ouro, a falta de braços e a inacção dos governos e não a Inglaterra em absoluto. Vejamos o que a esse respeito diz o proprio Marquez:—«As minas de ouro. Vêde qual é, ha sessenta annos a unica fonte das riquezas de Portugal. Não é necessario ser politico, basta valer-se da arithmetica, para mostrar, que um Estado, que inclina toda a sua administração para as minas deve perecer necessariamente.»—«Ouro e prata, são uma riqueza de ficção[2].» Já se vê que a opinião{32}do ministro de D. José baseada na sua muita sabedoria e aturado estudo se inclinava a ver tambem n'essa grandeza o germen da nossa decadencia, ainda que tambem fazia aos inglezes sérias e asperas arguições.O estabelecimento dos jesuitas no reino e no Brasil foi, segundo o modo de vêr do Conde de Oeiras, muito pernecioso á nação, e n'essa conformidade procurou o meio de os arredar do seu caminho. Os filhos de Layola tinham por meio do confessionario e do ensino adquirido uma preponderancia grave e quasi absoluta, e o ministro não poupou diligencia e habilidade para conseguir annullar esse poder. Os jesuitas que tinham alistados nas suas bandeiras homens de grande intelligencia defenderam-se com vehemencia, vigor e finura. Esta guerra foi bem prejudicial, pois já custava a Portugal tres milhões de libras; os negocios caminhavam vagarosamente e a morosidade não se cuadunava com a força intelleclual e temperamento energico de Pombal, que, impaciente pela reluctancia dos jesuitas resolveu tomar medidas positivas e indeclinaveis. Não era empresa facil: os padres tinham á sua disposição poder e influencia, não lhe faltavam armas para combater. Eram jesuitas os directores espirituaes de toda a familia real. Moreira era o confessor de El-Rei, e estes eram outros tantos instrumentos que era necessario frustrar. O ministro não desanimou. O rei estava ao facto das intrigas em que andavam envolvidos os padres da Companhia, e comprehendeu que só tinha dois caminhos a seguir: se não sustentava o ministro seria elle proprio derrubado pelos seus poderosos inimigos, que lhe não perdoariam, e perdia o ensejo de regenerar a nação como tanto ambicionava; não vacilou e a 19 de setembro de 1757 demittiu o seu confessor e os de sua familia prohibindo-lhe até a entrada no Paço sem expressa licença sua. Este golpe foi decisivo, e o ministro não perdeu tempo, e escreveu logo a Francisco de Almada ministro portuguez em Roma para que «pedindo e obtendo do Santissimo Padre uma audiencia particular e secretissima» lhe referisse tudo o que havia com relação aos jesuitas e que elle lhe dizia n'essas instrucções ás quaes diz o ministro: «Se omittiam n'ellas muitos e mui aggravantes escandalos, que se não podiam referir sem maior indecencia, e pejo de quem as escrevesse e ouvisse.» Ordena-lhe que faça saber ao Papa: «que os jesuitas haviam sacrificado todas as obrigações christãs, religiosas, naturaes e politicas a uma cega, insolita e interminavel ambição de governos politicos e temporaes; de acquisições e conquistas de fazendas alheias, e até de usurpações de Estados, e dizia mais, que toda a demora que houvesse em obviar a tão grandes desordens, teria a consequencia de as fazer irremediaveis; accrescentava que El-Rei mandára recolher ás{33}respectivas casas e suas filiações todos os confessores da familia real, que eram jesuitas; e que Sua Magestade supplicava ao mesmo tempo a Sua Santidade, que se servisse de dar sobre esta importante materia tão efficazes providencias, que os abusos, excessos e transgressões dos jesuitas cessassem por uma vez, esperando o mesmo Senhor que á paternal, e apostolica providencia de Sua Santidade não faltasse a menor parte do que se fazia preciso em tão notorias urgencias, para que uma religião, que havia feito tantos serviços á Igreja de Deus, não cabe n'estes reinos e seus dominios, pela corrupção dos costumes de seus religiosos, e pelo geral escandalo que tinham causado com tão successivos e extranhos abusos.» Queixava-se mais ainda de «que os padres, mesmo depois de serem despedidos do Paço, ahi levavam a desordem e a intriga, que buscando por todos os modos impedir a fundação da Companhia dos vinhos do Porto, dos aggravos que faziam procurando oppôr-se á organização da Companhia do Grão Pará, dizendo até o padre Ballestes do pulpito, que quem entrasse n'essa Companhia não entraria na de Jesus Christo.»

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A ex.masr.ª D. Josephina Pinto Carneiro Perestrello vae lançar-se na turbulenta atmosphera da litteratura. S. ex.ª não se estreia com assumptos banaes. O seu livro é fructo de profundos e aprimorados estudos. Seduziu-a o grande vulto da actualidade: e s. ex.ª não se contentou com a apotheose do marquez de Pombal... foi buscar a justificação dos seus actos nas leis primitivas da monarchia; no assentimento successivo das testas coroadas; e acompanha o illustre ministro até ao momento em que, desprendido dos enormes cuidados da sua vida laboriosissima adormece no duro leito da sepultura; e entra nos dominios da inexoravel posteridade.

Que os anjos protectores das damas honestas e corajosas cubram com as suas azas de ouro a intrepida escriptora é o que muito lhe deseja a sua admiradora e amiga

Lisboa, 1 de maio de 1882.

Maria José da Silva Canuto.

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Não é meu intento, nem teria forças para tão levantados vôos, escrever a historia circunstanciada do grande vulto que se chamou Sebastião José de Carvalho e Mello depois Conde de Oeiras e mais tarde Marquez de Pombal; pretendo apenas com os elementos que nos legaram historiadores e collectores de memorias da epocha, reduzir a breve transunto os traços principaes da sua, notavel administração, concorrendo assim com uma pequenina parte, porque pouco posso e sei, para remunerar, por occasião do seu centenario, factos que teem em si ensinamento, e que podem servir de estimolo e exemplo.

Procurarei esboçar o perfil d'esse personagem, que dentro em pouco se tornará quasi legendario, pelo muito que valia, pelo muito que conseguiu fazer, e porque n'um só homem se reuniu saber, energia, genio, capacidade, e outros dons que dariam para muitos, mas que reunidas n'elle foram um conjuncto benefico da prodigalidade divina, pois só um tal colosso poderia arcar com todos os obstaculos que se lhe oppunham; com todos os odios, todas as intrigas, todas as calamidades e catastrophes. Só a energia inquebrantavel de um tal reformador poderia levar a cabo a grande obra de regeneração, e progresso de que Portugal foi theatro.

A Providencia amerceando-se d'este paiz que já tivera importancia, insuflou-lhe no espirito todas as qualidades que fizeram d'elle um estadista admirado, não só dos seus, mas ainda mais pelos estrangeiros.

Direi pois como diz mr. John Smith nas suas memorias do{6}Marquez de Pombal d'onde traduzirei e colherei muitos dos traços, com que aqui procurarei dar ideia do seu caracter e feitos:—

[1]Such men are rised to station and commandWhen Providence means mercy to a land,He speaks, and they appear: to Him they oweSkill to direct, and strengh to strike the blow,To manage with address to seize with power,The crisis of a dark decisive hour.

Ainda referindo-se a elle diz o mesmo auctor a Sir Robert Peel—: Refiro-me á coincidencia que se dá entre a vossa elevada posição, n'este paiz (Inglaterra) e a que outr'ora occupou o grande ministro em Portugal.

Ambos foram em tempos criticos escolhidos para sustentar a honra e a força de grandes nações; e de ambos se exigia o delicado discernimento e a firmeza, que distinguiram o dito Marquez,—qualidades estas que lhe grangearam a admiração e inteira confiança do seu paiz, etc.

Diz ainda o mesmo com referencia á expulsão dos jesuitas:—Se fosse possivel anticipar aqui os promenores dasMemoriasque se seguem, no meio de todos os successos agitadores do ministerio d'aquelle estadista, seria custoso descobrir uma medida que na sua concepção exigisse mais coragem, ou que em seus resultados tivesse mais duravel importancia do que a expulsão d'aquella seita de Portugal. Este primeiro passo a principio causou admiração, mas depois foi successivamente imitado pelos soberanos catholicos de toda a Europa.»—Portugal enfraquecido pelas muitas guerras que havia sustentado dentro e fóra do paiz, não promettia vir a ostentar mais a grandeza e prosperidade que fruira na epocha em que os seus filhos sulcavam os—mares nunca d'antes navegados—epocha em que floresceram os seus mais illustres navegadores, guerreiros, valentes, insignes escriptores como o nosso immortal cantor dosLusiadas, poema epico, que alem do seu grande valor real, tem ainda o merito da prioridade, pois foi o primeiro poema epico que se escreveu depois do seculo de Augusto. N'essa epocha a que se chamou aedade de ouro—, os portuguezes levavam a cabo emprezas como a de Vasco da Gama; plantavam o pendão das quinas na Africa, na India, conseguiam estabelecer-se na China, iam á Ethiopia, estendiam o dominio portuguez na Asia desde Ormuz até Malaca{7}etc. Não se satisfizeram porem com os descobrimentos no Oriente e voltaram as suas vistas para o Occidente, devassa Magalhães o estreito que ainda conserva o seu nome, porem morre antes de terminar a empresa que se havia proposto. Foi de então para cá que datam os descobrimentos na America e que Portugal se assenhorea de vastos dominios n'esse continente, e assim se foi desenvolvendo e accrescentando a prosperidade e engrandecimento da nação. Uma e outra haviam sido preparadas e tido principio no reinado de D. JoãoImestre de Aviz, rei illustradissimo e que deu á patria os mais brilhantes principes.

Em 1415 é tomada Ceuta á força de armas; em 1418 descobre Gonçalves Zarco a ilha de Porto Santo e no anno seguinte a Madeira, já sob os auspicios do infante D. Henrique, em 1433 morreu D. João mas deixou em seu filho D. Duarte digno sucessor.

Em 1444 é descoberto o archipelago dos Açores, e no anno immediato o de Cabo Verde. Reinando já D. AffonsoV, tomou este aos Mouros, Alcacer Seguer, em 1458, treze annos depois, foram tomadas Arzila e Tanger. Seguia-se o reinado de D. JoãoIIprincipe que alcançou o ser applidado oPerfeito. Era illustrado, com a sua habil, ainda que por vezes tenebrosa politica, soube abater todos os poderes que o offuscavam conservando firme e superior a authoridade real.

Collisões terriveis obrigaram-n'o por vezes a lançar mão de meios extremos, não vacilando em empregar o punhal para fazer justiça por suas mãos. Foi no seu reinado que em 1482 Diogo d'Azambuja fundou o Castello de S. Jorge de Mina na Guiné, e dois annos depois descobria Diogo Cão o Congo e perto de trezentas leguas de costa. Em 1497 reinando já D. Manuel, primo e herdeiro de D. JoãoII, partia Vasco da Gama a procurar a India Oriental chegando a Calecut com dez mezes de viagem. Em 1500, descobre Alvares Cabral o Brazil.

Foi n'este reinado que o Ceu parecia derramar venturas sobre Portugal, mas foi tambem n'essa epocha que se principiou a elaborar a decadencia que se lhe seguiu.

A emigração para o Brazil tirava á mãe patria os seus filhos mais uteis, e mais tarde a ambição do ouro fazia correr para as terras de Santa Cruz todos que pela industria poderiam colaborar aqui no augmento e conservação da prosperidade nacional. Alli um clima tão diverso do nosso, muitas vezes a miseria, a fome, a nudez, consequencias de uma guerra quasi continua com os indigenas e depois com as hordas de holandezes, de piratas, de inglezes, de francezes, etc., que quizeram successivamente despojar-nos, fez do Brazil um sorvedouro onde se afundavam todos, ou quasi todos{8}os portuguezes que abandonavam a patria por esseEl-doradoque se lhe volvia em sudario. Todos esses braços não bastavam para lá, que pela falta de exercitos, estavam esses poucos sendo alvo de ataques e represalias, em que secumbiram, muitos milhares e faziam falta na metropole.

Á agricultura faltavam braços para se desenvolver; a industria morria de innanição.

Veio o reinado de D. JoãoIII, principe pussilanime enervado pelo fanatismo e incapaz de corresponder ás exigencias, que aquella conjunctura impunha ao inoperante.

Este monarcha arrastou o paiz á decadencia e ao abysmo.

Em vez de conquistas, estabeleceu aSanta Inquisiçãocom todos os seus horrores. Seguia-se-lhe D. Sebastião que mal saía da infancia. Saturado tambem de edeias falsas, guiado pelo debil braço de sua avó, era quasi sempre surdo aos conselhos do seu aio e mestre D. Aleixo de Menezes, que o desviava de entregar todos os poderes em mãos sagradas. Não soube utilisar em proveito proprio, e no da patria, que n'elle fundava todas as suas esperanças, as bellas e nobres aspirações que lhe ferviam na mente. Foi impellido pelo enthusiasmo e pelo seu genio cavalleiroso para as terras de Africa, com o nobre pensamento, de socorrer um rei desthronado: mas a fatalidade que viera substituir as nossas passadas venturas perseguiu o mallogrado mancebo e desditoso monarcha, que derrotado na refrega de Alcacer Quibir, pereceu com a flor da nobresa de Portugal e o seu exercito de desesseis mil homens, foi destruido e desbaratado, deixando nas areas d'Africa o cadaver do rei, que não poderam reconhecer. Esta calamidade trouxe a Portugal as maiores complicações. Não havia herdeiro immediato e sete pretendentes se desputaram a corôa portugueza, e depois de mil intrigas e confusões o reino caiu em poder de FilippeII, que appoiava as sus pretenções com um exercito de 36 mil homens. Invadiu Portugal, fazendo assim, ou por falta de recursos, para se lhe opporem, ou por desanimo, com que os rivaes se auzentassem, e o deixassem na posse da sua usurpação.

Ficou pois Portugal anexo á Hespanha, em 1580. Ainda assim esse tyrano que foi appellidado—O demonio do meio dia—só logrou subjugar este povo á custa de milhares de vidas.—A mortandade e a carnificina foram horriveis. Diz o Conde da Ericeira no seuPortugal Restauradoe accrescenta «que o mar não querendo occultar tanto delicto, trazia os corpos ás redes dos pescadores, e retiravam-se d'ellas os peixes offendidos do insulto, recusando ser alimento de homens que mudando as disposições de Deus, lhes queriam dar homens por alimento.»{9}

Esta indignação dos peixes durou tanto tempo, que, segundo diz o mesmo historiador, «foi necessario ir a rogos dos pescadores, o Arcebispo de Lisboa, em procissão benzer o mar profanado por tantos sacrilegios, para que elle (como succedeu) tornasse a dar o seu tributo.»

A grande importancia a que Portugal se elevara entre as nações da Europa, não tardou em diminuir. O seu brilho declinou, em consequencia de torpe governo de Madrid, mas nem só a sua influencia e riqueza, mas o seu poder maritimo e colonial, porque as nossas esquadras se perderam nas costas d'inglaterra, fazendo parte da invensivel armada, e as melhores das nossas colonias foram atacadas e tomadas pela mesma Inglaterra e pela Holanda com quem a Hespanha estava em guerra.

O imperio que os portuguezes haviam adquirido na Asia, desapparecia. A perneciosa influencia de Castella sobre o nosso paiz, n'esses desgraçados sessenta annos, ainda hoje se sente, e veio cimentar entre os povos nascidos para serem irmãos, odios que uma desconfiança constante não deixa apagar. Desconfiança justificada pelo desejo dos hespanhoes de conseguirem a anexação! esperança que é n'elles uma utopia inveterada. A fusão das duas nações é repugnante. Opõe-se a ella o amor inabalavel, que os portuguezes, teem pela sua liberdade e a memoria, que nunca se apagará das atrocidades soffridas, n'esses terriveis annos de escravidão; e mais ainda o caracter e indole dos dois povos, que são completamente oppostas, e que só podem amar-se em quanto durar o respeito pelos direitos de cada um. Muito se amam entre si, os bons irmãos; mas cada um governa em sua casa, e ai do amor, se um d'elles, se lembra de querer governar a do outro.

Era então n'essa epocha em a nossa capital que se concentrava o monopolio de todo o commercio do Oriente. Aqui se reunia gente de toda a parte do mundo para o trafico dos productos da Asia. A posição geographica de Lisboa tornava-a por assim dizer o logar derendez-vousde todos os estrangeiros curiosos ou commerciantes. Rebentou a guerra da Hespanha com Hollanda e em consequencia d'ella os hespanhoes expulsaram d'aqui os hollandezes que em represalia se assenhorearam de algumas das mais bellas joias da corôa portugueza, avultando entre ellas Ceylão e Malaca que nunca nos foram restituidas.

A Hespanha principiou então a colher os fructos que semeára. A medida impolitica e barbara da expulsão dos moiros da Hespanha, condescendencia do duque de Lerma com os padres, e do rei com o seu ministro omnipotente, foi-lhe tão fatal como a de D. Manoel de Portugal com a expulsão dos judeus, mas bem mais tragica.{10}Esse erro politico cavou-lhe a ruina e preparou-lhe a decadencia, fazendo desconhecer a Hespanha a quem a comparasse á do tempo de Carlos V. Como nós a Hespanha tivera tambem um passado gloriosissimo.

N'esses tempos seus filhos pensavam mais no engrandecimento e prestigio do seu nome, do que em subjugar um povo que pelo seu valor e energia, pelo muito que tinha feito conquistára o direito de ser respeitado e de conservar a independencia que sempre soubéra manter.

Como nós, que possuimos Alvares Cabral, Gama e outros, a Hespanha tivera um Colombo, Cortez e tantos mais. Como nós tivera no Cid Campeador o seu D. Nuno Alvares Pereira.

Em ambas as nações houve illustres navegadores, valentes guerreiros, habeis politicos, poetas sublimes, prosadores e dramaturgos universalmente conhecidos. No seculoXVeram consagrados os nomes de F. del Pulgar, e Juan de Mena, nós vimos florescer Gil Vicente que morreu no seculo seguinte no qual avultaram os nomes de Lucena, Bernardes, Camões, Osorio, Damião de Goes, João de Barros, Sá de Miranda e Bernardino Ribeiro; a Hespanha não teve que invejar-nos porque viu brilhar os de Carcilaso, Luiz de Leon, Luiz de Granada, Marianna, Santa Thereza, Cervantes, Gongora, Juan de la Cruz, Lope de Vega e Quevedo. No seculoXVIItiveram Calderon de la Barca, Moncada e Solis, e nós vimos surgir os brilhantes talentos de Fr. Luiz de Sousa, Padre Antonio Vieira, Sousa de Macedo, Freire de Andrade, Manuel de Mello e varios. São pois irmãos os dois povos da Peninsula, a Hespanha deve ser a nossa alliada natural, mas é mister que se conserve intacta a individualidade nacional de ambas as nações.

O affecto fraternal que deve unir os dois povos, só pode ser verdadeiro e duradoiro em quanto durar o respeito reciproco pelos direitos de cada um. Dotados ambos de grandes qualidades a indole dos hespanhoes é inteiramente diversa da dos portuguezes. As suas tendencias, gostos, habitos, etc., são outros e por conseguinte impossivel a sonhada e appetecida união. D. Filippe porém, aproveitando a decadencia a que tantas catastrophes haviam levado o reino, accentuou o seu direito por meio da força e de atrocidade em atrocidade elle, e depois os seus successores opprimiram este pobre povo, até que ao fim de sessenta annos um punhado de heroes, sem effusão de sangue, sem ferir batalha fez baquear o odioso dominio de Castella libertando a patria tanto tempo agrilhoada. Os nomes de Pinto Ribeiro, Castros, Mellos, Almeidas Athaydes, Telles, Almadas Cunhas, Silvas e outros serão sempre de gloriosa recordação, e de salutar exemplo.{11}

Parecia que devia renascer com a acclamação de D. João IV a grandeza e prosperidade da nação, mas foi fogo fatuo que breve se extinguiu. O rei tornou-se timorato e a rainha pouco podia, apesar da sua energica vontade. Além d'isso o Conde-duque de Olivares combateu por espaço de vinte e quatro annos propugnando os portuguezes com heroismo para manter a sua independencia nas fronteiras e para neutralisar as insidias de Hespanha junto do rei. Por varias vezes habeis conspirações estiveram a ponto de inutilisar a prodigiosa victoria dos quarenta bravos conjurados que appoiados no patriotismo do povo haviam conseguido sacudir o jugo castelhano.

Muitas tentativas contra a vida do rei foram descobertas. Isto tornava o rei cada vez mais fraco de animo, e entregou-se inteiramente aos conselheiros que nem sempre foram o que deviam á patria, ao rei e a si proprios.

Em 1643 romperam-se definitivamente as hostilidades, que só terminaram em 1665.

Mathias de Albuquerque desbaratou o exercito sob o commando do barão de Malingen, general da Estremadura hespanhola; todavia as campanhas que asseguraram e firmaram a independencia do reino, foram já dadas no reinado de D. Affonso VI. A batalha das linhas d'Elvas foi ganha pelo conde de Cantanhede em 1659. O conde de Villa Flor desbaratou no Ameixial o Archiduque d'Austria, o famigerado D. João d'Austria em 1663.

Em Castello Rodrigo venceu Pedro Jacques de Magalhães em 1664. No anno seguinte é refreiada totalmente a ardente furia dos hespanhoes, na batalha de Montes-Claros, ficando prisioneiros do Marquez de Marialva seis mil hespanhoes. De então para cá, a posse de Portugal tem sido apenas o sonho de todo o utopista hespanhol, porem a gente de bom senso reconhece o absurdo da ideia, e pensa com rasão que se n'essa epocha lhe foi impossivel sustentarem o seu dominio estando Portugal inteiramente falto de recursos, sangrado pelas continuas guerras tanto aqui como no Brazil, hoje que dispõe de mais braços e mais elementos de resistencia, não seria empresa facil. Essa regeneração teve principio nas medidas do Marquez de Pombal.

Pela morte de D. João IV, Portugal não mudára muito. D. Affonso VI foi desthronado e morreu preso no Paço de Cintra e sua mulher foi authorisada a casar com seu cunhado D. Pedro II pelo clero que foi chamado a representar n'esta escandalosa intriga, que só por si dá a medida do grau de desmoralisação a que havia chegado tudo n'este malfadado paiz.

Reuniram-se cortes para legalisar este attentado e fecharam-se para não tornarem a abrir-se.{12}

O reinado de D. Pedro foi curto e triste. Seguiu-se o reinado faustoso de D. João V, e este poz cumulo á depravação dos costumes e vicios dos grandes, cavando assim a decadencia do reino.

O povo soffria toda a sorte de vexames dos nobres que praticavam toda a casta de violencia e infamia acobertadas pela impunidade que lhe era concedida.

O rei, ou fosse em espiação de suas culpas ou porque o seu genio gastador a isso o impedia, D. João V, querendo imitar Luiz XIV gastou rios de dinheiro na edificação do Convento de Mafra, na Capella de S. João Baptista e em muitas restaurações de templos; a creação de uma patriarchal com os seus conegos beneficiados e principaes imitando o sacro collegio, levou para Roma muitos milhões. N'estas grandezas e esbanjamentos se sotterraram os productos das uberrimas minas que o Brazil continha no seu seio e que a industria mineira e o suor do escravo traziam á superficie da terra. Penalisa ver que tanto dinheiro, tanto trabalho, e tanta magnificencia não fossem empregadas em coisas de maior utilidade para o paiz. Ao passo que nos faltavam vias de communicação para o commercio interior, que não tinhamos fabricas, nem marinha, de guerra ou mercante, nem exercitos, gastavam-se sommas fabulosas em edificar um convento pelo theor da basilica de S. Pedro em Roma, n'uma mesquinha povoação!... Se terminada a obra, vinha d'ella proveito para a nação, foi coisa que parece não ter preoccupado o monarcha. Bastava-lhe que fosse lisongeado pelos seus aduladores, que lhe encareciam a sua piedade. O edificio tem alem do convento e egreja um palacio soberbo. Tudo foi feito com magnificencia regia; a arte revela-se em alto grau, e por todos os lados ha que admirar a cooperação dos melhores artistas que se mandaram vir da Italia.

É grande, é imponente, é sumptuoso e magnifico, mas é triste, sombrio e pezado. Fui lá uma vez, admirei-o muito, mas quando sahi respirei de alivio por que me parecia que toda aquella mole de pedra me cahia em cima e me esmagava com toda a sua grandeza. Impressionou-me bastante, e vel-o-ia ainda com gosto, se bem que estou certa que me faria a mesma impressão que me produziu ha vinte annos, apezar de já não ser a creança que era então. O outro monumento da sua prodigalidade, a capella de S. João Baptista na egreja de S. Roque, é uma verdadeira joia que não tem rival no genero, attendendo ao seu tamanho. Tem uns desesete palmos de comprido por doze de largo; é toda feita delapis-lazull, porphyro, agatha, amethystas, alabastro, crysolithas, prata e ouro. Diz m. John Smith que custou 225:000 libras, mas, já tenho visto, não sei onde, estimar a sua importancia em bem mais elevados algarismos.

A concessão da Curia romana para empregar os thesouros do{13}paiz como o julgasse conveniente, custou tambem grossas quantias. Seguia-se a creação de uma dignidade ecclesiastica com o titulo de Patriarcha da qual depende o collegio sacro formado de vinte e quatro prelados. Para tornar mais notavel a similhança d'esta corporação com a de Roma, os paramentos do Patriarcha em dias festivos eram eguaes aos do Papa, e as dos prelados como as dos Cardeaes. As festas e cerimonias religiosas, não eram eguaes, mas sim superiores ás de Roma. «Mais de cem clerigos, diz m. Smith, subsidiarios a quem com profusão se davam honras e dignidades occupavam logares subordinados a esta nova instituição. Uma escala infinita de logares inferiores augmentou o pessoal do Patriarchado a ponto de ser impossivel dizer-se qual a condicção em que se sumia o ultimo d'esta legião clerical! Esta louca vaidade custou mais de oitenta mil libras afóra as pasmosas quantias que se despenderam antes de conseguirem a licença para a incorporação do estabelecimento. Foi desde então que D. João V alcançou para os reis de Portugal o titulo deFidelissimo.»

Uma obra porém de grande merito, de reconhecida utilidade, e de grandeza sem igual foi a que se principiou e concluiu n'este mesmo reinado de esbanjamentos e desperdicios; só ella confere um titulo de gloria ao rei que a ordenou e fez levar a cabo. Refiro-me ao aqueducto das aguas livres de Lisboa, que percorre duas leguas ora subterraneo, ora elevando-se sobre arcos. Por cima do valle de Alcantara corre sobre trinta e cinco arcos, sendo a altura do maior 264 pés, e a sua largura na base de 280. Dois canaes trazem a agua das nascentes, deixando entre ambos espaço e altura para caminhar de pé. D. João V não morreu sem que expiasse por espaço de nove annos n'um triste estado de imbecilidade os passados extravios, e deixou a nação sobrecarregada com uma divida de mais de tres milhões de libras e o thesouro completamente exaurido. Seu filho D. José vivera sempre muito arredado dos actos do governo; contava então 37 annos, e muita gente o retracta de acanhada intelligencia, irresoluto, timido, fraco e cruel. Nada o comprova, antes maravilha a firmesa com que sustentou no poder o seu ministro, a despeito da sua mesma familia, de toda a nobresa e de um clero opulento e dominador, unico homem capaz de dominar a triste situação em que tantos desvarios nos lançaram.

Por morte de D. João V não ficara a Portugal nenhum elemento de que se julgasse dever sair a sua regeneração. Tudo parecia impellir o reino a uma aniquilação inevitavel, mas foi n'essa occasião que surgiu um regenerador, um genio benefico, forte, energico, e sabio, que levara os primeiros annos da sua vida estudando os males e as causas d'elles e procurando os remedios na sua fecunda{14}imaginação. Foi elle que com poder quasi sobrehumano veio, inspirado e inviado da Providencia para desmascarar hypocrisias, para salvar mesmo a religião de todas as atrocidades que em nome de um Deus todo bondade e misericordia se praticava impunemente, para destruir esse poder execrando do horrivel tribunal da Inquisição, do chamadoSanto Officio, que sequestrava á sociedade milhares de victimas innocentes, ou culpadas de um crime que a sã rasão mostra não o ser.

Esse homem a quem tanto se deve, foi quem veio restabelecer a verdadeira religião, porque é a de Christo, a religião de perdão, caridade, amor e fraternidade, purgando-a quanto possivel dos abusos que em seu nome se praticavam; foi elle quem veio introduzir no paiz novos estudos, quem estendeu o pão do espirito a todas as classes da sociedade creando escolas, quem promoveu as industrias, sciencias, litteratura, quem veio animar e desenvolver o commercio e as artes, revindicar o respeito e o renome ao seu paiz; reanimar o genio, acabar com os abusos dos nobres dando mesmo terriveis mas salutares exemplos na nobreza, castigando o crime onde era praticado, fosse plebeu ou nobre, como o fizera tambem Richelieu, seu modelo, nas pessoas de Marillac e Montmarency, foi emfim elle que, ora com benevolencia, ora com severidade, ergueu a patria do abysmo onde filhos degenerados a haviam lançado.

Sebastião José de Carvalho e Mello nascera na capital aos 13 maio de 1699; filho de Manuel de Carvalho e Athayde e de sua mulher D. Thereza de Mendonça. Seu pae era um cavalleiro de pequinissima fortuna, mas que vivia independente e pertencia á cathegoria distincta pelo titulo de fidalgo da provincia. Esta qualidade dava-lhe direito a muitos privilegios da nobreza, ainda que não considerado grande do reino ao que só dava direito os titulos de conde, marquez ou duque. Sebastião José de Carvalho juntou o appelido de Mello; que lhe vinha de seu avô materno, João de Almeida e Mello; costume muito seguido então, principalmente quando, como este, vinham de illustre ascendencia. Tinha mais dois irmãos; Francisco Xavier de Mendonça e Paulo de Carvalho e Mendonça. Sebastião José de Carvalho entrou na universidade de Coimbra, mas aquelle regimen pouco lhe agradou; e menos a forma porque alli se ministrava então o ensino sobre modo differente para uma intelligencia previligiada como a sua. Descontente deixou os bancos da Universidade para assentar praça em cadete, a que lhe dava direito a sua nobreza, e pouco depois fizeram-n'o cabo. Não passou d'esse posto; e elle desgostoso deixou a cazerna como deixára Coimbra. Viu-se outra vez sem occupação, o seu genio activo e investigador lançou-o em estudos sobre economia politica, historia{15}universal, legislação e todos os ramos em que mais tarde o seu genio sublime devia manifestar-se. Veio então a Lisboa, chamado por um tio que muito o recommendava ao Cardeal da Motta, ministro omnipotente n'essa epocha. O Cardeal, homem esclarecido, viu logo o partido que se podia tirar de tão notavel aptidão e apresentou-o ao rei, que o tratou como a quem vinha tão bem recommendado. O rei admirou o talento e variada illustração que em tão verdes annos se manifestava no mancebo, e pouco depois em 1733 nomeou-o membro da Academia Real de Historia com a mira em que elle lhe escrevesse a historia de varios monarchas, cujos reinados fossem mais dignos de tão habil historiador. Negocios porem importantes e que reclamavam immediato desempenho, não permittiram que satisfizesse o encargo com que o rei o distinguira; as vistas da côrte estavam fixas n'elle, o rei distinguia-o e protegia-o e conseguio attrahir a attenção de uma joven viuva D. Thereza de Noronha senhora de muitas virtudes e de illustre nascimento que era sobrinha do Conde dos Arcos. Parece porem que este enlace foi combatido, e que a despeito de seus merecimentos e da protecção regia, não foi sem custo que logrou fazer emmudecer os que desaprovavam a desejada alliança, sob pretexto de quem não tivera nos seus ascendentes grandes do reino, embora fosse de illustre nascimento. Já então deveu á sua energia o conseguir a realisação dos mais ardentes votos do seu coração. Depois as suas ambições voltaram-se para alcançar emprego em que bem servindo a patria conseguisse posição brilhante, e na qual utilizasse as suas faculdades e aptidões. O acaso serviu-o a seu contento com a necessidade que obrigou o rei a mandal-o a Londres como embaixador. Foi então que se principiou a manifestar a todos a vastidão dos seus recursos intelectuaes e o muito que havia a esperar de tão acrisolado amor da patria e de tão grande genio. Todo o tempo que desempenhou em Londres o cargo de representante de Portugal não cessou de velar pelos interesses que lhe estavam confiados, alcançando muitos privilegios para os portuguezes alli residentes, fazendo desapparecer todos os vexames que antes soffriam, conseguiu para o seu governo o direito de prender e castigar os delinquentes inglezes em territorio portuguez, tendo elles de subjeitar-se ás nossas leis. Quando um seu medico foi preso por um collector, apesar do Acto do Parlamento de 1709, que prohibia o prender-se nenhum embaixador ou pessoa ao seu serviço, fez com que lhe fosse dada satisfação d'um insulto feito a um seu empregado, affirmando assim os direitos que os outros pretendiam desconhecer, e fazendo respeitar a nação que representava e definindo os previlegios dos ministros estrangeiros.{16}

Conseguiu para os portuguezes residentes em Londres a reciprocidade na isenção de impostos.

Em 1739 reclamou queixando-se da penhora feita em generos que pertenciam a Bento de Magalhães, negociante portuguez, como violação dos tractados existentes entre as duas nações, tractados que davam tambem aos inglezes aqui residentes as mesmas regallias. O duque de Newcastle em 20 de novembro respondeu o que se segue: Sua Magestade Britanica sendo informado de que os vassallos de S. M. Fidelissima que residem em Inglaterra teem sido sobrecarregados e obrigados ao pagamento de impostos publicos e parochiaes, que foram lançados por Acto do Parlamento a todos os habitantes indistinctamente; ordenou-me que vos participasse, ainda que em virtude da natureza e forma do nosso governo, não cabe na alçada do rei isentar ninguem em particular do pagamento dos impostos lançados por Acto Parlamentar, não só seria nova, mas sujeita a grande debate e inconveniencia: comtudo, para dar a S. M. Fidellissima uma prova da amizade e consideração em que a tem S. M. Britanica, e para que os subditos de Portugal que residem em Inglaterra fiquem descançados de que não serão incommodados por causa de quasquer impostos parrochiaes ou outros que, em virtude de Acto Parlamentar, sejam pagos pelos habitantes em geral, faz saber que todos esses impostos lhes ficarão descarregados, sem que por causa d'elles soffram multas ou penas algumas. Mais tarde por occasião de ser queimada nas aguas do Algarve pelos inglezes uma esquadra franceza, escreve elle a lord Chatam pedindo-lhe satisfação, as seguintes cartas:

«Eu sei que o vosso Gabinete tem tomado um imperio immenso sobre o nosso: mas tambem sei que é tempo de acabar com elle. Se meus predecessores tiveram a fraqueza de vos conceder tudo que quizestes, eu nunca vos concederei senão o que vos devo. É esta a minha ultima resolução: regulae-vos por ella.»

Conde de Oeiras.

A segunda é como se segue:

«Eu rogo a V. Ex.ª que me não faça lembrar das condescendencias que o governo Portuguez ha tido com o governo Britanico, ellas são taes, que não sei que potencia alguma as haja tido similhantes com outra. Era justo que essa authoridade acabasse alguma vez, e que se fizesse saber á Europa que tinhamos sacudido um jugo estrangeiro. Não o podemos melhor provar do que pedindo ao vosso governo uma satisfação que por nenhum direito nos deve negar. A{17}França nos consideraria no estado de maior fraqueza se lhe não dessemos alguma razão do estrago que soffreu a sua esquadra em as nossas costas maritimas, onde por todos os principios se devia julgar em segurança.»

Conde de Oeiras.

A terceira carta é tão longa que me não resolvo a copial-a toda, basta dizer que em resultado de todas as rasões e justas arguições que terminam assim:

«A satisfação que vos peço é conforme com o direito das gentes. Succede todos os dias que os officiaes de mar, e terra façam por zelo ou por ignorancia o que não deviam fazer, é portanto a nós que nos pertence o puni-los, e fazer emendar e remediar os damnos que elles teem causado. Nem se deve julgar que estas reparações fiquem mal ao estado que as faz: ao contrario, sempre é bem mais estimada aquella nação que de boamente se presta a fazer o que é justo.

«Da bôa opinião dependeu sempre a força das Nações.»

Conde de Oeiras.

O rei de Inglaterra mandou um Embaixador extraordinario a Lisboa dar as satisfações pedidas.

Foi tambem Pombal que alcançou pela sua habil diplomacia que os ministros estrangeiros em Londres podessem importar todos os moveis, roupas, vinhos etc. sem pagamento de direitos. Durante a sua estada em Londres estudou constantemente e foi alli que bebeu a longos tragos, essa sciencia que devia fazer d'elle um modelo. Sully, Colbert e Richelieu foram as suas fontes e com elles se identificou sendo Sully o principal objecto, segundo diz mr. Smith, da sua veneração e estudo, podendo os maiores enthusiastas d'esse grande vulto comparal-o sem receio ao seu prototypo. Em 1745 voltou Pombal á patria, parece que a seu pedido, em consequencia do edito promulgado contra os papistas. Voltando a Portugal não teve logo em que occupar a sua actividade e voltou as suas vistas pava os abusos que via praticar por toda a parte; estudou-lhe as causas e foi amadurecendo os seus projectos de futuro, para destruir o mal que reinava em todos os ramos de administração publica. Comprehendeu que só medidas sabia e prudentemente empregadas poderiam levantar a nação da decadencia em que caira; que a falta não vinha dos povos mas do governo, que só instruindo e não corrompendo, ensinando e não conservando na inercia e derigindo o povo para a regeneração pela instrucção e pelo trabalho,{18}poderia conseguir erguer o reino á grandesa que ambicionava. Era pois myster dar trabalho a todas as classes, occupar os braços e o espirito do povo, dando a cada um a protecção a que tinha direito dando assim ao governo cidadãos uteis.

O paiz estava devastado pelos ladrões, as leis eram lettra morta, a prepotencia espalhada por toda a parte, o povo desmoralisado, o commercio e a industria aniquilados.

Quando estava absorvido por todas estas idéas, suscitou-se entre Benedicto XIV e a imperatriz Maria Thereza, senhora tão celebre pelas suas virtudes como pela variedade da instrucção que lhe adornava o espirito, uma desintelligencia a respeito da extincção do patriarchado da Aquileia, desintelligencia que promettia serias consequencias como quasi todas as que tem havido com a Santa Sé, por tenderem quasi sempre, não só a separarem-se da egreja, mas ao aniquilamento da fé catholica. A imperatriz confiava na capacidade de Pombal, e só da sua probidade, são juizo e penetração, esperava uma solução digna, equitativa e justa.

Conhecida a sua competencia e provavelmente a pedido da imperatriz que conhecia a sua capacidade, foi Pombal enviado a Vienna como embaixador, onde conseguiu arranjar tudo a contento de todos, firmando-se na justiça, equidade e justos direitos de cada um.

Uma carta encontrada em Paris, no archivo da secretaria dos negocios estrangeiros, dá a medida do apreço em que eram tidas pelos diplomatas estranhos as eminentes qualidades do illustre estadista; apreciação que não póde deixar de ser imparcial e justa por que a elevada posição official do Embaixador em Vienna lhe dava mil occasiões de estar em contacto com o Marquez de Pombal; transcrevo pois na integra o alludido documento alli encontrado com o titulo de:Correspondencias d'Austria, n.º 244 despacho de M. Blondel, ministro de França em Vienna, dirigido ao governo austriaco e datado de 10 de janeiro de 1750.—«M. Carvalho foi por muito tempo Embaixador de Portugal em Londres, d'onde o rei seu amo o fez sair para o collocar aqui, no intento de que empregasse a sua influencia para restabelecer a harmonia entre esta côrte e a de Roma. O ministro foi egualmente encarregado de fazer readquirir ao eleitor de Mayence as boas graças e a affeição do Papa.

«N'estes dois negocios deu elle provas da sua habilidade, da sua sabedoria, integridade, moderação e sobretudo de muita paciencia, e alcançou não só a benevolencia de todos os interessados, mas tambem a de todos os ministros estrangeiros, e das pessoas de consideração de Vienna.

«M. Carvalho é nobre em tudo, sem ostestação, cordato e prudente; replecto de principios e sentimentos de honra, não visa{19}senão ao bem geral; e eu sei que não foi por culpa d'elle que a imperatriz não chegou mais cedo a sentimentos pacificos. É tão bom cidadão como homem probo, e a sua partida foi sentida tanto pela côrte como pela cidade. Tem approximadamente de cincoenta a cincoenta e cinco annos e casou em Vienna com a filha do General Daun.» Esta é a traducção do despacho francez, documento insuspeito de parcialidade, por isso que os francezes não são prodigos de louvores para os estranhos.

Veio pois em 1750 para Lisboa, pouco antes da morte de D. João V. Logo que subiu ao throno D. José I, Pombal tomou posse da pasta que já lhe fôra destinada, principiando então a tomar parte no governo com o saber e energia que só um athleta privilegiado poderia desinvolver. A restricção dos poderes da Inquisição, o desapparecimento dos ladrões que infestavam as ruas da capital, a organização interna do servico do paço, que era uma especie de pinhal D'Azambuja, onde todos roubavam, reduzindo os empregados de oitenta a vinte, fiscalisando os gastos da ucharia, descendo a todas as minucias e occupando-se de tudo com egual proficiencia.

Desde que conseguiu organisar a administração interna do reino voltou as suas vistas para as possessões de Além-mar, onde tudo chegára á ultima miseria.

Para ligar os interesses dos colonos aos dos indigenas, prohibiu a vinda das donzellas ricas do Brazil, que para aqui vinham encerrar-se nos conventos, prejudicando assim o augmento da população; e promoveu cazamentos com os mancebos do paiz, por meio de dotes e augmento de interesses de varias especies; promoveu o commercio com a Asia e particularmente com a China, e aconselhou ao rei a humanitaria medida da emancipação dos indios das provincias do Pará e Maranhão, tornando-os livres, subtrahindo-os á exploração dos colonos europeus, e buscando os meios de os civilisar. Os negros de Africa não obtiveram o mesmo beneficio, pelo seu abatimento e conveniencias politicas que por então o impediram. Como já disse, aos portuguezes que casavam com donzellas indigenas eram concedidas certas franquias. Em seguida ao decreto que emancipava os indios, assignou o rei outro, fundindo as duas companhias Maranhão e Grão Pará. Esta medida veio dar novo incremento á classe do commercio entre Portugal e as colonias da America, tomando estas um novo aspecto.

A aristocracia tremia de raiva vendo coartarem-lhe a preponderancia de donatarios: o os jezuitas previam que os seus excessos tinham encontrado um moderador que lhe refreiasse as demasias. Colligavam-se e conspiravam com a nobreza vendo n'isto o unico meio de combater o seu commum inimigo; mas Sebastião José de{20}Carvalho formára os seus projectos que seguiu sempre com tenacidade indomavel e soube de tal modo captar a confiança de D. José, que este surdo a todas as insinuações disfarçadas e a todas as invectivas francas, continuou a sustentar e seu ministro que em breve tinha de prestar-lhe ainda maiores serviços. No primeiro de novembro de 1755 soffreu Lisboa o horrivel cataclismo do terramoto. A capital ficou quasi destruida e, a sua população, parte ficou morta, outra ferida, e a restante aterrada pela espantosa catastrophe. O mal, já de si grande, não veio só. Seguiu-o o triste cortejo das suas inevitaveis consequencias; no meio, porém, de tão grandes horrores, o Marquez de Pombal impassivel e inalteravel, multiplicava-se, por assim dizer, apparecendo em toda a parte onde a sua presença fosse necessaria, soccorrendo por todos os meios possiveis as victimas e prestando auxilio com disvellada sollicitude. Os decretos, as ordens e as providencias succediam-se sem interrupção, e todas patenteavam exuberantemente a aptidão d'esse homem a quem nenhuma desgraça conseguia aterrar, a quem, por maior que fosse o mal, não faltava a lucidez do espirito para lhe encontrar o remedio. A catastrophe teve logar ás 9 horas e alguns minutos da manhã: o dia apparecera risonho e sereno; nunca o ceu se mostrara tão limpo de nuvens, nunca o Tejo ostentára mais transparentes as suas aguas que nem uma leve aragem o agitava; a natureza parecia repousar; tudo respirava socego e confiança; tudo parecia prometter segurança e tranquilidade. Bastaram porém alguns minutos para transformar em desesperação, horror, miseria e espanto esse risonho quadro! Parecia que todas as furias do inferno haviam conseguido escapar-se e se tinham espalhado sobre a terra pouco antes tão mimosa, e caído raivosas sobre a desditosa Lisboa, trazendo após si o terramoto, o roubo, o assassinio, o incendio e toda a sorte de calamidades. Era dia de Todos os Santos, o povo da capital corria para as egrejas para ouvir missa. Os templos estavam brilhantemente illuminados e mal poderia suppôr-se que essa cidade tão casquilha e tão vaidosa da sua belleza, seria dentro em pouco um montão de ruinas e de cadaveres. O primeiro abalo foi precedido por um ruido subterraneo por toda a cidade: a principio debilmente, depois cada vez mais forte e com uma continuidade medonha. A terra gemia surdamente, e todos escutavam tranzidos do susto esse desconhecido rumor. De repente, o solo abriu-se, as casas desappareceram, uma nuvem de pó ergueu-se ao ceu, e um concerto de gritos e lamentos fez-se ouvir de todos os lados! A dôr e o desespero foram indiscriptiveis. O Tejo revolto, medonho, crescendo e saindo do seu leito, parecia ameaçar engulir o que o fogo poupára. De um lado a destruição pelo incendio, do outro um inimigo não menos terrivel ameaçando com{21}o diluvio; por toda a parte um espectaculo nunca visto; horrivel tragedia composta de milhões de tragedias! Diz algures um escriptor que: «Parecia que Deus quizera vingar n'um só dia os crimes de muitos seculos.» Por toda a parte se via o restante da população da capital com lagrimas nos olhos e physionomias onde se pintava o mais cruel desespero, gritos agudos, de mulheres, de creanças e dos moribundos, extorcendo-se nas chammas ou sob as minas. Era espantoso! A tantos males succedeu-se outro, que veio completar a destruição: os que não tinham ficado sepultados gritavam, impelliam-se, imploravam a misericordia do ceu recitando orações que novo desabamento vinha cortar, ou novas fendas abertas sob seus passos faziam calar ingulindo-os. Os que fugiam para as margens do, antes tão formoso Tejo, esperando achar alli abrigo, deparavam com um quadro tão medonho como aquelle a que se esquivavam. Em consequencia dos grandes abalos de terra o rio estava terrivel, bramindo revolto em violenta agitação; em alguns minutos tornara-se n'uma corrente furiosa, que subira desmedidamente, e que arrastava depois comsigo quanto se lhe deparava. Os navios, mesmo os de grande lotação, submergiam-se; outros, não podendo resistir ao impeto das vagas alterosas que lhe despedaçavam as amarras, iam desapparecer em vertiginoso redopio nos medonhos sorvedouros, ou eram arremessados uns contra os outros pelas iradas ondas e se despedaçavam! Para completar este quadro estupendo em que todos haviam tido farto quinhão de desventura e em que se não sabia quem mais se lastimasse, se os que haviam perdido a vida, se os que tinham perdido quanto lh'a fazia amar. Começou a apparecer fogo em differentes sitios da cidade e que lavrando com incrivel rapidez veio completar a obra de destruição. Quantos horrores aguardavam os que sobreviveram! quantas dôres! quantas mães loucas sem saber que fôra feito dos filhos que estremeciam! quantos filhos procuravam anciosos os paes, quantos maridos e esposas procurando os consortes, quantos pezares, quantos corações despedaçados, quanto desespero! Entre os magnificos edificios destruidos, conta-se a magnifica Patriarchal de D. João V, o Paço real, a egreja de Santo Antonio, os palacios dos tribunaes, ministerios, arsenal, casa da India, alfandega, a vedoria, a Opera e os palacios de Lafões, Aveiro, Cadaval, Marialva, Tavora, Fronteira, Valença e Louriçal, as bibliothecas real e a de Lafões, a do convento de S. Domingos, a do Marquez de Louriçal, a de Monseigneur Magalhães, e a do Inquisidor Simão José. Não se poude saber ao certo o numero de mortos, mas foi avaliado em mais de dez mil. Todavia alli onde tudo tremia e vacilava, via-se um só homem impassivel e forte, era o Marquez de Pombal.{22}

No meio d'estes horrores as prisões abertas deram saida aos malfeitores que recuperando a perdida liberdade se lançaram como lobos famintos sobre a desditosa cidade, levando comsigo a violencia, o roubo, a embriaguez, cevando emfim a completa satisfação de todos os appetites brutaes. Diz o sr. Smith no seu livro d'onde tenho extrahido grande parte do que escrevo:—«Para corroborar os factos de que trato, fiz o extracto de varias correspondencias do ministro inglez em Lisboa, que não deixarão de interessar o leitor não só pela incontestavel authenticidade, mas tambem porque n'elles se encontram circunstancias que nunca foram publicadas. O seguinte é d'uma correspondencia de 6 de novembro de 1755, onde se acha uma descripção viva e graphica d'aquelle infausto successo.—«A perda do meu bom e digno amigo o embaixador hespanhol, que ficou esmagado á porta de sua casa, quando tentava escapar-se para a rua, junta á dôr que ha cinco dias me causam as tristes noticias, que a cada passo nos trazem relativamente á sorte de uma ou de outra pessoa do nosso conhecimento pertencente á nobreza, a qual, pela maior parte, se acha inteiramente arruinada, tem-me seriamente sensibilisado; mas o que sobre tudo me afflige é a sorte dos desgraçados subditos de S. M. Britannica, da classe inferior, que de todos os lados affluem a minha casa pedindo-me pão, e andam espalhados por todo o meu jardim com mulheres e filhos; até agora não tenho deixado de soccorrer a todos, e continual-o-hei a fazer em quanto me não faltarem os meios, o que espero não succederá, attendendo ás convenientes medidas que o sr. Carvalho para isso tem tomado. Tem-se dado as melhores providencias possiveis para impedir o roubo e o assassinato de que ha tres dias tem havido frequentes casos, vagueando pela cidade turbas de desertores hespanhoes que se valem da occasião para commetterem taes delictos. Tendo-me sido confiadas consideraveis quantias que alguns inglezes que tiveram a felicidade de salvar parte de seus bens, depositaram em minha casa, pelo que tive em toda a noite a casa cercada de ladrões, escrevi esta manhã ao sr. Carvalho pedindo-lhe uma guarda, o que espero me será concedido.»

Uma outra do mesmo ministro, de 15 do mesmo mez, refere as seguintes particularidades:—«O primeiro abalo começou pelas dez horas menos um quarto da manhã, e, tanto quanto pude julgar, durou seis ou sete minutos; depois succedeu-se um intervallo de cerca de cinco minutos antes do segundo, que durou uns tres minutos, pouco mais ou menos; de sorte que n'um quarto de hora foi esta grande cidade convertida em ruinas. Em seguida rebentaram muitos incendios, que no espaço de cinco ou seis dias consumiram todos os generos e outras cousas. Parece que a força do{23}terremoto teve a sua séde mesmo no centro de Lisboa, por que os prejuizos não são tão consideraveis para qualquer dos lados. Julga-se que partiu do caes que se estende da alfandega até ao Paço, que desabou, e se sumiu completamente, submergindo-se alguns barcos tambem ao mesmo tempo. As aguas subiram de vinte a trinta pés, e desceram outro tanto com intervallos, segundo me contaram.» (Isto parece dar rasão a crer-se que no leito do rio se fizeram as mesmas fendas e abysmos, o que explica as alternativas da agua subindo e baixando repentinamente). «Não foi só Lisboa que soffreu os estragos do terremoto, por que se estenderam a outras terras do reino (e tambem da Europa) principalmente a Setubal e ao Algarve, onde foram bem sensiveis. Calcula-se que só em Lisboa foram victimas d'aquella calamidade trinta mil pessoas, que pereceram umas queimadas, outras afogadas, ou sepultadas nas ruinas.»

Em outra carta datada de 19 do mesmo mez mr. Castres diz para o seu governo que D. José tinha ido com toda a sua côrte habitar em barracas de lona n'uma quinta, e que a malfadada nação estivera em eminente perigo de ser presa da peste e da fome, e conclue louvando o zeloso procedimento de Pombal, que de dia e de noute se mostrava infatigavel em empregar todos os remedios que a miseria geral pedia. Transcrevemos ainda a seguinte passagem por me parecer de maior interesse:—«Como os abalos não cessaram inteiramente desde o primeiro dia da nossa desventura, a côrte com pouco mais de dois terços da sua população continua ainda a acampar nos campos e quintas d'estas paragens. Os predios que ainda se vêem de pé, na cidade e na extensão de algumas leguas nas suas visinhanças, estão realmente, pela sua maior parte, n'um estado tão deploravel, que será custoso encontrar um entre cincoenta, que possa resistir ao inverno, ainda que sustentado por espeques.» Facilmente se deprehende qual seria a continua perplexidade que a todos dominava, pelo que ainda em 13 de dezembro em outra correspondencia diz mr. Castres:—«Já lá vão quarenta dias desde que sobreveio o grande terremoto, e com tudo raro tem sido o dia que se tenha passado sem se renovarem os nossos sustos, sendo os repetidos tremores quasi sempre acompanhados de tão fortes abalos de vez em quando, e com especialidade na noute passada, que obrigaram a fugir, quasi nús, para o descampado, com grande perigo de vida, n'uma estação tão rigorosa como esta, não só os que haviam começado a habitar os aposentos inferiores dos predios, que ainda se achavam de pé, mas aquella gente mesmo que se abrigára em barracas. Entretanto o sr. Carvalho, que parece possuir a confiança absoluta do rei seu amo, não descança um{24}instante em dar todas as providencias para que n'esta cidade de ruinas não escasseem os mantimentos; para obrigar toda a classe de operarios que affluiram das terras mais remotas do reino, a voltar ás differentes occupações, e para pôr cobro aos muitos roubos, que inevitavelmente succedem em epochas de tanta desordem como esta, principalmente em logar tão exposto como este.»—Por muito tempo o susto e o terror se conservaram na desditosa cidade, onde ainda em 16 de janeiro seguinte se sentiu um violento abalo.

A desgraça que ferira Portugal inspirou o mais vivo e caritativo interesse a toda a Europa, e todos os governos nos mandaram offerecer os seus bons auxilios. De Inglaterra mandou Jorge II 97:200 libras entre generos e dinheiro. S. M. Catholica e S. M. Christianissima offereceram soccorros de toda a especie que o ministro dispensou. O rei de Hespanha que perdera no terremoto o seu embaixador, não desprezou meio algum para fazer acceitar o seu auxilio ao governo portuguez, e para isso ordenou á alfandega de Badajoz, que deixasse passar livre de direitos todos os generos exportados para Portugal.

Luiz XV tambem foi em extremo delicado comnosco; e não quiz que o conde de Bachiseu, embaixador em Lisboa, saisse d'aqui em crise tão dolorosa e na qual, dizia o ministro Rouillé, era necessario patentear a S. M. Fidelissima por meio da assiduidade e auxilios a parte que o rei de França tomava nas desgraças que opprimiam Portugal. O rei D. José foi bastante sensivel a todas estas provas de affeição dos seus alliados, mas não acceitou as suas offertas. Quando Luiz XV ouviu dizer que se acceitára o soccorro de Inglaterra encarregou o Embaixador de saber a verdade, e eis a carta que este diplomata escreveu a Carvalho e Mello:

«Ce n'est pas le dépit, dit-il, qui me fait demander s'il est vrai que S. M. Très-Fidèle ait accepté les offres de S. M. Britannique mais l'esperance que conserve S. M. Très-Christiènne que ses offres pourront egalement être acceptées.»

Carvalho respondeu que:—«O rei seu amo teria acceitado reconhecido os offerecimentos generosos dos seus alliados, se tivesse sido necessario, que as perdas que Portugal acabava de experimentar eram grandes, mas que em geral só atacavam o luxo. Que no futuro haveria em Lisboa menos palacios, menos quadros, menos moveis ricos e que isso seria o meio de fazer voltar a nação á sua antiga simplicidade. Que as terras seriam agora mais bem agricultadas pelos fidalgos, que Deus seria adorado com mais fervor nos seus templos despojados das pompas, e que a riqueza publica se augmentaria, e as finanças melhorariam de situação.» Esta resposta pareceria um pouco grosseira e vaidosa se nos não lembrassemos{25}de que a França tinha em vista alcançar em troca dos seus beneficios a cessão do commercio do Brazil que receiava ver em poder da Inglaterra. O ministro dos Negocios Estrangeiros em França, mr. Rouillé, achou esta resposta digna de um philosopho e de um estadista abalisado, ainda que convencido, dizia elle, de que os factos nunca realisariam os desejos e previsões de Carvalho.

Se os auxilios de JorgeIIforam acceites é porque a Inglaterra em vez de fazer polidos offerecimentos, votou por unanimidade uma verba de cem mil libras destinadas a trazer soccorros a Portugal, e em vez de lh'os oferecerem, mandou-os directamente ao ministro.

Os serviços pois d'este ministro e grande estadista, iam já de foz-em-fora.

O facto é que os prejuisos eram enormes e diz-se que superiores a 7 milhões de libras, apezar de que muita cousa se foi desenterrando e encontrando graças ás sabias e previdentes medidas tomadas por Pombal. Das grandes riquezas suterradas na Patriarchal, foi achada a cruz de prata, estimada em 30:000 libras. D'essas e de outras ruinas desenterraram-se pelo tempo adiante, 1:500 arrobas de prata. O rei e sua familia, estava no Paço de Belem, na occasião do terremoto, e felizmente nada soffreram alem do grande susto, e a dôr de presensiar tanta desgraça. Quando chegou o ministro para offerecer ao rei, as consolações e serviços que pedia a situação, achou todos em lagrimas, e o rei derigindo-se-lhe perguntou-lhe que julgava elle a proposito fazer-se para minorar e attenuar tanta desventura?—«Meu Senhor, enterrar os mortos, e cuidar dos vivos.» Foi a resposta concisa, que com toda a serenidade deu o Marquez de Pombal, resposta que elle mostrou não ser uma bravata oca, e que executou com extraordinaria energia. Desde então, D. José que sempre tivera pelo seu ministro sympathia e consideração, reconheceu n'elle um espirito previlegiado, e superior, e cencedeu-lhe sempre inalteravel affecto, e até respeito. O ministro saiu de Belem, correu a Lisboa e aqui partilhando todos os perigos e dando remedio a tudo que o tinha, não se apeiava da sua sege, dia e noute, apparecia em toda a parte, e a sua serenidade e coragem, a sua figura nobre e a sua tranquilidade no meio de tanta tribulação, impunham o respeito e a admiração, e incutiam animo aos que o observavam. Aonde fosse necessaria a sua presença, lá estava; mesmo dentro da sua sege, expedia correios com ordens para toda a parte, em menos tempo do que se emprega, em elaborar um só decreto, lavrou elle mais de duzentas providencias, umas para conservação da ordem, outras para a distribuição dos mantimentos, para enterrar os mortos, para dar casa aos que vagueavam sem tecto, outras para remover e tratar dos feridos e doentes, outras finalmente{26}para evitar a saida dos roubos para fóra da cidade onde seria mais facil rehavelos, prohibindo a saida de qualquer que não fosse portador de salvo-conducto. Eis as medidas mais notaveis e que na conjunctura promulgou: A D. Rodrigo Antonio de Noronha.

«Sua Magestade é servido ordenar que V. S.ª mande armar as lanchas, barcos ou escaleres, que parecerem necessarios, para rondar o rio de Lisboa, visitando n'elles, todos quantos botes, lanchas, ou barcos, sairem dos navios estrangeiros, ou para elles forem, por constar que levam os impios e sacrilegos roubos, que se teem comettido em casas e Igrejas: e como para ellas pode faltar gente militar, se pode V. S.ª valer das Ordenanças, e Auxiliares; e da Tenencia que se acha aberta, poderão ser vistidos com uniformes, e armados as que se embarcarem para as ditas rondas. E para tudo o que a V. S.ª for preciso a este respeito, tem ordem do mesmoSenhor, o Ill.moe Ex.moSr. Marquez, Estribeiro-mór. Aos commandantes das sobreditas rondas determinará V. S.ª que embarguem todas quantas embarcações, encontrarem de noite no rio, sem distinção, até amanhecer.

«Deus Guarde a V. S.ª Paço de Belem aos 4 de novembro de 1755.—Sebastião José de Carvalho e Mello.

«P. S. A referida visita se estenderá tambem aos navios Portuguezes que não forem de pessoas conhecidas e livres, de suspeitas.»

Outra para o Corregedor da comarca de Coimbra:

«Sendo presente a S. Magestade, que todos os creados de escada a baixo, gallegos, e homens de trabalho, que serviam na côrte, e suas visinhanças, tem desertado em tumulto, pela preoccupação, de que não haverá dinheiro para se lhe pagar, e outros para transportarem os muitos roubos, que teem feito com impiedade deshumana, abusando da calamidade que tem ferido a capital do Reino. É servido o mesmo sr. ordenar, que V. M.cerequerendo por este a todos os Ministros da Justica, e officiaes dos Auxiliares, e Ordenanças, e communicando-lhe irrimissivel perda dos seus postos, faça guardar as estradas, e barcas de passagem, de tal sorte, que nenhuma pessoa de qualquer qualidade e condição que seja, possa avançar o seu caminho e menos sair do reino, ou ainda d'entro d'elle, passar de uma a outra provincia, sem levarPasse. E sendo pessoa das profissões acima referidas, serão logo reconduzidas em levas á sua propria custa, de Villa em Villa, até que sejam entregues n'esta Côrte á ordem do Duque Regedor das Justiças. O que tudo V. M.ceexecutará continua, e successivamente, até que eu o avise{27}de que S. Magestade revogou esta ordem.—5 de novembro, de 1755. Deus Guarde etc.»

N'esta conformidade se escreveram circulares a todos os Corregedores das comarcas do reino.—Para o Marquez d'Abrantes:

«—Sua Magestade é servido que V. Ex.ª mande á ordem de D. Rodrigo A. de Noronha as embarcações que elle pedir, e couberem no aperto do tempo, para as visitas e transportes dos mantimentos que se acham a bordo dos navios ancorados n'este Porto; cujas deligencias o mesmoSenhortem encarregado ao cuidado do mesmo D. Rodrigo de Noronha.—aos 4 de novembro de 1755—Deus Guarde a V. Ex.ª etc.—Sebastião José de Carvalho e Mello.»

Dirigidas a D. Rodrigo ha muitos, uns, para lhe ordenar que vá a bordo dos navios surtos no Tejo e apartar de todos os mantimentos encontrados a bordo, os indespensaveis para as equipagens,e fazer transportar e pôr em arrecadação as restantes com as avaliações dos preços communs, e ordinarios, que até então valiam. Outros, para que desse livre entrada ás pescarias, aviso ao Marquez de Alegrete para exercer toda a vigilancia e mandar fixar editaes para que os padeiros, tendeiros, artifices e todos os homens de ganhar não podessem vender os seus generos ou exigir preços superiores aos do mez de outubro antecedente, isto sob penas gravissimas caso infringissem a lei de 4 de novembro; aviso ao Duque Regedor ordenando-lhe que os ministros encarregados das inspecções dos Bairros mandem ao Presidente do Senado da Camara, as relações de todos os mantimentos, que descobrissem fosse onde fosse; 6 de novembro. Aviso ao Marquez Estribeiro-mór para pôr guardas aos Erarios Reaes; 2 de novembro. Aviso ao Marquez de Tancos com ordem de fazer passar á côrte, algumas tropas do Reino, para manter a ordem e socego publico.—3 de novembro.

Aviso ao Marquez de Alegrete,para fazer com que os ministros encarregados da inspeção dos bairros mandassem as relações dos mantimentos para as participar aos ministros encarregados de, no Terreiro do Paço e na Ribeira as distribuir ao povo;—12 de novembro.

Aviso ao Duquesobre o parecer de recolher os doentes no Hospital Real:—6 de novembro.

Aviso ao Estribeiro-mór,para fazer tirar das minas o corpo do Embaixador de Hespanha;—7 de novembro.

Ordem ao Duque Regedor,para chamar á sua presença os ministros da inspeção dos bairros, ordenando-lhe a prisão dos authores das suggestões, com apparencia de profecias, espalhadas por alguns malfeitores para aproveitarem o terror e cometterem livremente{27}roubos e crimes atrozes vendo a cidade desamparada de seus moradores;—Não tem data. Outra ordenando ao mesmo Duqueque empregue nas obras da cidade os ciganos que a inquietavam. Officio ao Patriarchapedindo-lhe a necessaria authorisação para que os cadaveres fossem, com todos os ritos da Igreja, levados em navios até fóra da Barra e alli deitados ao mar com pesos, a fim de evitar pela decomposição dos mortos uma ipedemia. Mandoutirar uma relação minuciosa dos officios e rendimentos de toda a gente, empregando-se no desentulho e obras, todos os que eram vagabundos ou vadios, dando-lhe salario e comer. Estas não são nem a decima parte das providencias tomadas pelo illustre ministro, mas são as que dos tres volumes que aqui tenho, e que contem todas me pareceram de maior interesse e menos longos. Parece impossivel como um só homem poude pensar em tanta cousa. Todavia apesar d'estas e todas as outras providencias com que o ministro procurou atacar e evitar os males e as suas consequencias, o arrojo era tanto que os malfeitores com licenciosidade inaudita não recuavam praticando á luz do dia toda a casta de infamias e levando o roubo, a violação e o assassinio a toda a parte onde podiam entrar, sendo necessario pôr guardas em todas as casas que pela sua abastança, e importancia lhe podia servir de alvo. Foi em consequencia d'este estado de cousas que o ministro fez proclamar a lei de Lynch. Todo o delinquente apanhado em flagrante era preso, processado e sentenciado no logar do crime e alli mesmo ficava enforcado para servir de lição a quem quizesse imital-os. Esta medida energica e indespensavel no calamitoso estado a que chegára a capital, pôz côbro nos attentados e os moradores da cidade poderam então dormir socegados confiando no vigilante cuidado de Carvalho e Mello.

Não eram só estes os negocios que absorviam a fecunda imaginação do ministro de D. José; tinha que defender-se dos inimigos que tudo aproveitavam para o atacar; tinha que defender as costas de Portugal, dos corsarios argelinos, que pretendiam approveitar do terror e da desordem que uma tal catastrophe espalhára e que não desperdiçavam, todas as occasiões para desembarcar, espalhando tambem o roubo e o terror. Em alguns dias, o ministro enterrara mortos, desenterrara vivos; fizera encher os fossos abertos pelo tremor, enterrando n'elles muitos cadaveres; mandára transportar os feridos e moribundos, para hospitaes que fizera preparar em varios sitios da cidade; nada faltava n'estes hospitaes provisorios; os medicos, os enfermeiros os remedios appareciam como por encanto ao contacto da varinha magica da sua energia sublime. No Paço, as princezas e suas criadas não descançavam em preparar ataduras e fios.{29}

Onde a caridade tanto tinha que fazer, nem todos os padres ficaram inactivos; muitos d'elles puseram-se ao trabalho com um zelo verdadeiramente evangelico; levavam aos hombros os mortos para os cimiterios; conduziam nos braços os feridos para os hospitaes, encommendavam uns, consolavam outros, e animavam os moribundos com caridade christã. Foi assim que essa caridade se ligou ao zelo do ministro activo e resoluto para attenuar tanta miseria. Mas infelizmente tambem houve alguns que em vez de seguirem o salutar exemplo de seus irmãos exercendo a sua nobre e caritativa missão, calcaram aos pés deveres, verdade, humanidade, e fraternidade, e lembraram-se de subir ao pulpito, a essa cadeira que só deve servir para prégar o amor e caridade, e atacar o rei e o seu ministro accusando-os a ambos de impiedade e incutindo no povo a persuasão de «que os peccados do rei e a heresia do ministro, eram a causa do tremendo castigo que Deus justamente irado fizera cair sobre o reino; que as desgraças de toda a sorte não cessariam de sobrevir sobre seus desgraçados povos, em quanto o rei não fizesse penitencia publica por seus muitos peccados.» A estes, alcançou-os a justiça: foram perseguidos e severamente castigados pelo intuito barbaro de quererem augmentar a má ventura da nação com dissensões intestinas, assim como os outros haviam sido louvados e premiados. Quanto mais o ministro redobrava de zelo e de actividade, tantos mais males appareciam reclamando a sua intervenção. Conseguira por meio de acertadissimas medidas evitar a peste; combateu a fome e venceu esse inimigo esqualido e medonho; conseguiu libertar a cidade dos ladrões que a infestavam todavia com quanto tivesse feito muito lhe faltava ainda que fazer para terminar a sua obra, Lisboa desapparecera, era necessario fazel-a renascer, como a phenix, das proprias cinzas. Foi para este lado que se voltaram todas as faculdades da sua provada intelligencia: fez lavrar um plano sob as suas idéas, corregiu-o, animou as construcções que principiaram logo, facilitou essas edificações por todos os meios; fixava prasos para se fazerem sob penna de expropriação: deixou livre a importação de todos os materiaes necessarios; auxiliou essas construcções por muitas consessões, garantias e privilegios, etc., que instigavam os constructures e capitalistas a empregarem o seu dinheiro, e assim procurou auxiliar e conseguiu a reedificação da desmantelada Lisboa.

O ministro de França em despacho, respondendo a pedido de informações para o seu governo, com respeito ao terramoto e suas consequencias, dizia: «que apesar de toda a boa vontade e grandes deligencias empregadas por M. Carvalho, reputava impossivel a ressurreição de Lisboa».{30}

Tinham de levar um solemne desmentido, felizmente, as previsões do Embaixador francez e Lisboa não só se ergueu do seu abatimento, mas ainda ao erguer-se se apresentou muito melhor do que era antes, surgindo mais formosa do que nunca fôra. Parecia que as chamas do incendio, e as lagrimas de seus filhos a tinham purificado, embellezado e fecundado o seu solo.

Para reedificar a capital eram indispensaveis sommas enormes; o ministro não tardou em encontrar os meios de as obter; fez brotar nos negociantes de Lisboa o pensamento de offerecer ao rei 4% sobre todas as mercadorias, offerta que elle tratou de fazer acceitar ao monarcha, lavrando logo o decreto de 2 de janeiro de 1756. Os consumidores é que soffreram com este imposto muito mais que os negociantes; isto era um verdadeiro imposto de consumo sobre os generos de primeira necessidade mas sem que a maior parte désse por isso elle adquiriu os meios para reidificar a cidade, infatigavel no seu zelo, e desejo de engrandecer a nação que lhe fôra berço, Sebastião José de Carvalho depois de neutralisar e remediar os males devidos ao tremor de terra, procurou desenvolver os recursos que se podiam tirar do paiz; riquezas não exploradas, e fontes de rendimento que até então tinham jazido na inercia.

A industria era tão nulla em Portugal como a agricultura, e todo o empenho do grande ministro era erguel-as do seu abatimento. Seguiu para a industria o exemplo do que fizera pela agricultura: o monopolio, privilegios e favores de toda a casta foram os seus agentes. Estabeleceu grande numero de fabricas ás quaes dispensou toda a sua protecção.

Promovendo a industria julgava poder conservar o ouro que nos vinha das colonias e obrigar os inglezes a comprarem a dinheiro os nossos vinhos que então eram trocados pelos seus artefactos. Nada deve admirar que o ministro illudido pelas ideias geralmente seguidas n'essa epocha em que se julgava que só o ouro era riqueza, procurasse conservar no paiz a maior porção possivel d'esse metal. Elle não tinha á sua disposição outros meios para conseguir desenvolver a industria, e se o decorrer dos annos tem ensinado outros, n'aquelle tempo não lembraram nem eram conhecidos, e o conde de Oeiras via-se a braços com mil difficuldades que elle, só, tinha de applanar, com mil urgencias a que só o seu genio poderoso podia obviar, e não podia por isso entregar-se a um estudo unico aturado que o fizesse encontrar a solução de problemas que só muito mais tarde se foram resolvendo. Muitas das industrias por elle patrocinadas nem mesmo eram conhecidas no paiz; a educação industrial não existia, e foi-lhe mister fazer vir alguns estrangeiros, para aqui estabelecerem fabricas, que seriam uma escola para o povo que ellas{31}empregassem; e para attrahir aqui, abandonando os seus lares, esses industriaes, era indispensavel offerecer-lhes interesses e protecção que os animasse ao sacrificio. Fabricas de sedas, de vidros, de botões, chapelarias, relojoarias, pannos, estamparias, serralharias, fundições, varias tecelagens, etc., receberam concessões e subvenções, para se desenvolverem e aclimatarem no paiz, foi tudo fructo da sua iniciativa e patriotismo. Imitador de Colbert chegou a ultrapassar o seu modello, e ninguem com justiça pode accusal-o, como o fazem alguns historiadores de proteger o monopolio, por isso que lhe não sobravam meios para, sem elle, conseguir o seu nobre empenho.

O desleixo dos governos occasionou a decadencia da industria, agricultura e artes a que tinha chegado o paiz.

Muitos accusam os tractados estabelecidos entre a Inglaterra e Portugal de ter causado essa decadencia, mas mudar-se-ha de opinião logo que se analyse os resultados que d'esses tractados colheu a agricultura, principalmente a dos vinhos, que deve aos contractos celebrados pelo conde d'Oeiras com a Inglaterra, e á creação da Companhia do Alto Douro, o seu progressivo desenvolvimento. Ha quem ataque rudemente essa medida do previdente ministro, mas a meu vêr difficil seria na occasião lançar mão do meio que desse tão proficuos resultados, e se a Inglaterra lucrou muito com isso não fez mais do que approveitar a inepcia dos nossos governos, o que poderia ter feito outra qualquer nação e em condições talvez mais onerosas para nós, e não se obrigando, como elles, a receberem os nossos productos e a comprarem-nos ou trocarem pelos nossos vinhos, com exclusão dos de outra qualquer nação, os seus generos e manufacturas. Apesar da rudeza e altivez com que o sabio ministro respondeu por vezes ás exigencias do gabinete Britanico, quando sentia da sua parte a rasão e a justiça nem por isso deixou de empregar todos os esforços para conservar inalteraveis as relações affectuosas entre os dois gabinetes. A verdadeira causa depois da decadencia do reino foi a sua riqueza colonial, a imigração, a sêde do ouro, a falta de braços e a inacção dos governos e não a Inglaterra em absoluto. Vejamos o que a esse respeito diz o proprio Marquez:

—«As minas de ouro. Vêde qual é, ha sessenta annos a unica fonte das riquezas de Portugal. Não é necessario ser politico, basta valer-se da arithmetica, para mostrar, que um Estado, que inclina toda a sua administração para as minas deve perecer necessariamente.»

—«Ouro e prata, são uma riqueza de ficção[2].» Já se vê que a opinião{32}do ministro de D. José baseada na sua muita sabedoria e aturado estudo se inclinava a ver tambem n'essa grandeza o germen da nossa decadencia, ainda que tambem fazia aos inglezes sérias e asperas arguições.

O estabelecimento dos jesuitas no reino e no Brasil foi, segundo o modo de vêr do Conde de Oeiras, muito pernecioso á nação, e n'essa conformidade procurou o meio de os arredar do seu caminho. Os filhos de Layola tinham por meio do confessionario e do ensino adquirido uma preponderancia grave e quasi absoluta, e o ministro não poupou diligencia e habilidade para conseguir annullar esse poder. Os jesuitas que tinham alistados nas suas bandeiras homens de grande intelligencia defenderam-se com vehemencia, vigor e finura. Esta guerra foi bem prejudicial, pois já custava a Portugal tres milhões de libras; os negocios caminhavam vagarosamente e a morosidade não se cuadunava com a força intelleclual e temperamento energico de Pombal, que, impaciente pela reluctancia dos jesuitas resolveu tomar medidas positivas e indeclinaveis. Não era empresa facil: os padres tinham á sua disposição poder e influencia, não lhe faltavam armas para combater. Eram jesuitas os directores espirituaes de toda a familia real. Moreira era o confessor de El-Rei, e estes eram outros tantos instrumentos que era necessario frustrar. O ministro não desanimou. O rei estava ao facto das intrigas em que andavam envolvidos os padres da Companhia, e comprehendeu que só tinha dois caminhos a seguir: se não sustentava o ministro seria elle proprio derrubado pelos seus poderosos inimigos, que lhe não perdoariam, e perdia o ensejo de regenerar a nação como tanto ambicionava; não vacilou e a 19 de setembro de 1757 demittiu o seu confessor e os de sua familia prohibindo-lhe até a entrada no Paço sem expressa licença sua. Este golpe foi decisivo, e o ministro não perdeu tempo, e escreveu logo a Francisco de Almada ministro portuguez em Roma para que «pedindo e obtendo do Santissimo Padre uma audiencia particular e secretissima» lhe referisse tudo o que havia com relação aos jesuitas e que elle lhe dizia n'essas instrucções ás quaes diz o ministro: «Se omittiam n'ellas muitos e mui aggravantes escandalos, que se não podiam referir sem maior indecencia, e pejo de quem as escrevesse e ouvisse.» Ordena-lhe que faça saber ao Papa: «que os jesuitas haviam sacrificado todas as obrigações christãs, religiosas, naturaes e politicas a uma cega, insolita e interminavel ambição de governos politicos e temporaes; de acquisições e conquistas de fazendas alheias, e até de usurpações de Estados, e dizia mais, que toda a demora que houvesse em obviar a tão grandes desordens, teria a consequencia de as fazer irremediaveis; accrescentava que El-Rei mandára recolher ás{33}respectivas casas e suas filiações todos os confessores da familia real, que eram jesuitas; e que Sua Magestade supplicava ao mesmo tempo a Sua Santidade, que se servisse de dar sobre esta importante materia tão efficazes providencias, que os abusos, excessos e transgressões dos jesuitas cessassem por uma vez, esperando o mesmo Senhor que á paternal, e apostolica providencia de Sua Santidade não faltasse a menor parte do que se fazia preciso em tão notorias urgencias, para que uma religião, que havia feito tantos serviços á Igreja de Deus, não cabe n'estes reinos e seus dominios, pela corrupção dos costumes de seus religiosos, e pelo geral escandalo que tinham causado com tão successivos e extranhos abusos.» Queixava-se mais ainda de «que os padres, mesmo depois de serem despedidos do Paço, ahi levavam a desordem e a intriga, que buscando por todos os modos impedir a fundação da Companhia dos vinhos do Porto, dos aggravos que faziam procurando oppôr-se á organização da Companhia do Grão Pará, dizendo até o padre Ballestes do pulpito, que quem entrasse n'essa Companhia não entraria na de Jesus Christo.»


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