LIParece que, ao jantar, em poucas palavras annunciara elle os seus projectos a Fanny. Mostrara-se tranquillo, meditativo, quasi affectuoso. Gracejou com Fanny sobre o seu ar melancolico, motivado pela vida absurda do campo. Brincou com os filhos. Foi polido, como sempre, com os creados que o serviam. Ao pospasto, levantou-se, pedio um charuto, accendeu-o, e dirigiu-se ao pavilhão, com Fanny sobraçada, dizendo-lhe frioleiras com geito amavel. Como os filhos os seguissem, brincando na relva, foi ter com elles, abraçou-os, despediu-os, e pediu-lhes affectuosamente que fossem brincar mais longe. Depois, assentou-se no divan do pavilhão, cuja porta estava aberta, fumando o charuto, e bebendo, o seu café aos golinhos. Ao cerrar da noite, veio o escudeiro com a luz. Pediu-lhe que mandasse pôr os cavallos á carruagem. Até ahi dissera sómente frivolidades com ar festivo; mas, retirado o escudeiro, ergueu-se a fechar a porta, tirou tranquillamente do bolso um papel sellado, e disse a sua mulher:{103}«Minha querida, escreve a tua assignatura ao lado da minha no fundo d'esta folha de papel.Fanny pegou da penna que elle lhe offerecia, mas, antes de escrever, disse-lhe:—Que são estes engrimanços que eu assigno?«Não é mais que um instrumento de doação reciproca de todos os nossos bens.Fanny depoz a penna sobre a meza, e perguntou-lhe mansamente algumas explicações sobre o uso que elle ia fazer d'aquillo. O homem avincou a testa, e annunciou-lhe que, por algum tempo, ia «reassumir o negocio, e carecia de muito dinheiro.»—Não somos nós já bastante ricos?—disse Fanny.«Não.—Então vai ser exposto o meu dote?A esta pergunta, encarou-a carrancudo, e respondeu provocante e glacialmente:«Sim.—Então não assigno—disse ella como atterrada da sua coragem—porque não quero expor os bens de nossos filhos.Foi então que estalou a borrasca. Foi curta, mas pavorosa. Vendo-se contrariado por uma impossibilidade, o déspota rugiu de furor. Pela primeira vez em a sua vida, travou do braço da esposa, apertando-lho para obrigal-a a assignar, e pizou-lh'o. Fanny supportou, não respondeu, nem chorou. Cumularam-se sobre ella desprezos, incriminações, injurias, todos os insultos e vilanias compendiadas pela recordação das passadas. Veio tambem a affronta suprema, a palavra fatal, estalar na lingua do insultador.{104}Ahi é que Fanny chorou, soluçou e decidiu-se a assignar. Serenou logo o marido: agradeceu, e quiz beijar-lhe a mão; ella, porém, mostrando-lhe o braço contuzo, disse:—Não é por isto, Deus me é testemunha, que eu o desprezo; é pela covardia do insulto. Dito isto, elle pediu perdão por de mais, chamou-lhe creança e má cabeça, abraçou-a por força, chamou o cocheiro e partiu.LIILogo que Fanny, cedendo ás minhas instancias, me contou aquelles extraordinarios successos,—não ordenados como os eu repito, mas em fragmentos incoherentes, misturados de raptos de rancor;—logo que eu nada tive que indagar, e que ella immudeceu por não ter nada que contasse, ficamos algum tempo a contemplar-nos silenciosos, á luz tibia das estrellas, com spasmo temeroso. Alguma coisa formidavel se estava erguendo entre nós modificando estranhamente a nossa situação.Eu não pude, ainda assim, entrar logo na averiguação dos factos que, forçosamente, deviam derivar d'aquella surprehendente confissão. Eu, vendo Fanny ainda pallida, descompostos os cabellos, e tremula, só pensava na sua humilhação.—É pois{105}desgraçada!—disse eu no intimo da minha alma. Tirei-a a mim suavemente pelo colo, busquei-lhe os labios, e abriguei-a nos meus braços com o ardor da esperança e da piedade.Oh! como foi longo, estreito e desesperado aquelle abraço! Com elle se esposaram nossas almas, e ali sentimos o que ha de piedade na mudez d'aquelle apertar, de consolações nos suspiros, e que sympathia reflorece da mixtão das lagrimas! Éramos sósinhos, silenciosos, n'uma vaga escuridão, adornada pelo tibio alumiar de noite de estio. O desalinho dos vestidos de Fanny, o cansaço de chorar que a retinha deitada nos meus braços, o pejo d'uma confissão, que, posto que lhe desse alivio á alma, lhe opprimia o orgulho pela primeira vez; a felicidade de nos revermos mais amantes, mais alliançados que nunca, após uma scena terrivel que devia desligar-nos: isso tudo insinuava-nos não sei que desaffôgo de expansão reciproca, mesclada de amargura e dulcificação. Emquanto meus labios lhe rossavam de leve os longos cabellos desannelados, surprehendia-lhe no coração a velocidade de movimentos que se me figuravam surdas expressões de cólera. O arrepender-se de ter defendido por tanto tempo e nobremente, contra os meus ataques, aquelle que lhe era um jugo na vida, arrancava-lhe gritos de uma ironia implacavel. A irritação do insulto, e a indignação do aviltamento immerecido, apertava-lhe os braços em volta do meu pescoço mais energicamente do que nunca o fizera o amor. Ao mesmo tempo, o pesar de ter flagellado o amante, cuja só presença lhe estava sendo a mais terna das{106}consolações, como a mais rapida e segura das vinganças, inspirava-lhe a submissão e a supplica. A lembrança do meu rival, presente a nós, ajuntava uma acrimonia angustiosa aos beijos d'ella, e uma dôr infinita ás minhas caricias; e n'aquelle instante ao menos, em que, sem fallar, trocamos tantas sensações e idéas bem comprehensiveis, Fanny, estava emfim, na minha idealidade, absolutamente, e para sempre, tão ligada a mim quanto apartada d'elle.LIIIQuando recobramos a palavra, o furor, reconcentrado em mim, fez subita explosão.Fanny ficou estupefacta. Pronunciei, como um demente, palavras ardentes, sem nexo. Uma especie de loucura acerava, como laminas de um punhal, cada uma das minhas phrazes, e a raiva hervava-as de peçonha a mais corrosiva.O sentimento da impotencia da vingança, a certeza de que os males d'aquella mulher deviam renovar-se infinitamente, e os meus ciumes passados, e mais que tudo, a memoria das nossas deploraveis questões, causadas por aquelle indigno homem, faziam-me offegar de colera como homem que acaba de levar uma bofetada, e não pode despedaçar entre as mãos aquelle que lhe gravou o ferrete{107}deshonroso... Na minha demencia, parecia-me que o amor de Fanny, perdia tanto do seu valor, quanto mais desgraçada ella era; e, envergonhado d'esta atroz idéa, meditava em matar, e dar por ella a minha vida. Fanny, porém, ainda abatida, mais queria ser consolada que vingada.Abraçou-me, e, coisa estranha! foi ella que me affagou para me pacificar.LIVPassei o dia seguinte a recordar tudo o que tinha sabido. Havia muito que eu não sentira, como então, o espirito desoprimido de duvida.Um feliz provir se descortinava ante os meus olhos, depois de tão tormentoso passado, como serenos valles e descampados aos olhos do viajante que desce a ladeira escarpada de perigosas serranias. A esperança d'uma existencia quieta refrigera a alma como a briza da tarde que succede aos ardores do dia, e agora tudo me convidava a repousar-me á borda da senda facil, que docemente se aplanava debaixo de meus pés contusos. A serenidade dos dias, a auzencia das inquietações, eram a minha prespectiva. Pensava n'isto sempre, e minha alma enlevada derramava-se em effluvios de reconhecimento ao acaso que se cansara, emfim, de me transviar.{108}Entrava n'este sonho necessariamente a imagem de Fanny. Era a companheira que me seguira através dos abysmos da paixão. Soffrera irmamente commigo a longura das caminhadas, a incerteza do fim, os espinhos occultos sobre os quaes, juntos, laceravamos os pés. A mesma dôr nos arraiara de sangue os olhos, e abrazára os nossos halitos. A ancia do repouso sentiramol-a ambos ao mesmo tempo. E, como se fosse preciso que o mais debil dos dois soffresse mais, Fanny dava-me alentos para a resignação, e com as mãos trementes enxugava-me da fronte o suor do desespero, e ao mesmo tempo escondia-me dôres e trances particulares que ella suportava heroicamente para me não angustiar.Mas agora esses desgostos que eu surprehendera, estavam sanados. Renascer não poderiam mais. Ambos livres do phantasma que tão cruelmente nos perseguira, podiamos, em fim, senhores de nossas acções, compensarmo-nos amplamente do supplicio e dos terrores. Á maneira de dois fugitivos, que não deixaram pégadas, e vão ás bordas das fontes, e á sombra dos bosques silenciosos, sacudir o pó das sandalias, nós nos íamos, emfim, vingar da sorte estupida, esquecendo os tormentos que nos infligiramos.D'est'arte sonhava eu, a sós commigo, contemplando a imagem querida de Fanny que me sorria entre as mãos, cingida em moldura de ouro, como d'uma aureola. Assim me comprazia dispondo ante nós as paragens do nosso futuro.Nunca eu afagara mais cruel illusão!{109}LVO dia em que tornei a vêr Fanny, era um dia explendido!Veio a minha casa, de manhã, deliciosamente vestida, como para celebrar dignamente as nupcias da nossa felicidade. O seu vestido côr de malva, que tão gentilmente condizia com a frescura da sua pelle, resplendia sobre as fórmas esbeltas e finas, e caia-lhe em reverberos, sobre os pés. Os braços meio nús, sobresahiam das rendas das mangas, com reflexos baços como os de marfim não lustrado ainda. Do corpete chanfrado sobre o seio elevava-se, um pouco inclinado, o colo alvissimo. Por de sobre as faces ondulavam-lhe os cabellos.Nenhum ruido nos perturbava, a não ser a campainha do relogio que não ouviamos, e, de longe em longe, o rodar precipitado e passageiro das carruagens, estremecendo a calçada. Conversamos, mais uma vez, sós por sós. Fanny comeu pouco, sorrindo, como a pedir perdão. Eu ergui-me para servil-a, e abraçava-a na passagem. Ella ministrava-me o vinho, com graça, vertendo-o d'alto, e eu todo me enlevava na formosura d'aquelle braço que se inquadrava no vacuo sombrio da sua larga manga. Nunca o nosso quarto nos parecera tão bonito! Queriamos d'alli não sahir mais!{110}Ergueu-se Fanny, e foi sentar-se no diwan. Colloquei-me a seus pés sobre uma almofada, com o cotovello sobre o joelho d'ella, e longo tempo estivemos assim mudos a contemplar-nos. Com uma de suas mãos, intromettidas nos seus cabellos, levantava-os aos tufos, e devidia-os. E eu beijava-lhe a outra mão, travada na minha.—Oh Fanny! se tu não fosses casada!...—dizia-lhe eu com paixão. E ella respondia:—Oh Roger! se tu não fosses cioso!...Não sei como se passou o dia; mas mui rapido passou! Em mutuos olhares de extasis, em abraços doidos de ternura, em ir e vir d'uma para outra camara, que horas tão instantaneas correram! Quiz saber a historia da minha vida. Contei-lh'a: era simplissima. Chorou ouvindo a narrativa da morte de minha mãe.Muito havia que não estiveramos tão intimos, serenos, e felizes. O rancor atroz do ciume não nos separava. Expandimo-nos sem reverva: por isso mesmo foi completo o socêgo de nossas almas. Havia ali felicidade que bastaria á boa fortuna de dez amantes.Cotejando em meu espirito aquelle dia singular com todos os precedentes, lembrou-me de repente a causa que, por mais d'um anno, nos fizera tão desgraçados. Rompeu de minha boca uma exclamação furiosa, e, por piedade das angustias de Fanny, tanto tempo escondidas, não pude conter-me que não exprobrasse o oppressor.Fiquei como empedrado quando vi Fanny franzir então a testa, e morder os labios. Relanceou-lhe{111}rapida na face uma sensação, como o relampago silencioso que fende uma nuvem. Depois sorriu, e acalmou como o céo d'uma tarde estiva. Eu, porém, curei de indagar a causa d'aquella sensação dolorosa, e tornei-me pensativo e triste, por não sei que confusa remeniscencia.LVIFanny retirou-se sem parecer notar em mim turvação alguma. Depois que sahiu, mil recordações uma apoz outras, como vagas d'um mar silencioso cumulavam-me o espirito. O porte de Fanny pareceu-me agora mais que nunca incomprehensivel.—Esta mulher é a mais extraordinaria ou a mais vil das mulheres!—Disse, e repassei na memoria quanto sabia d'ella. Mas, outra vez ainda, tudo me pareceu contradictorio em sua indole.—Por que defendia o meu rival quando eu ignorava as suas violencias? Por que o accusou depois? Por que impallidece agora se me ouve reprovar as acções do homem que a ultraja? Oh! é possivel supporte tamanhos despresos, vexações tão aviltantes, e conserve a minima affeição a um homem que a tortura e humilha!! Indecifravel enigma. Ama-me ella? Ama o marido? Que ha ahi de commum entre essa mistura de seres, de sentimentos, de calculos, de{112}transações, e o amor, esta paixão absoluta, intolerante, e exclusiva? Deste modo ajuntava, separava, e confundia todos os factos da nossa existencia commum sem poder desinredar o inextricavel fio da meada. Cada facto, por seu turno, vibrava-me no ouvido, como um som agudo; e, á maneira d'um clamor synistro, estrondeando por sobre tudo, rugia incessante aquella palavra da consciencia de Fanny, proferida, um dia, para meu supplicio:—Eu mentiria se dissesse que o não estimo.LVIIDesde então, illaqueado mais estreitamente que nunca na rede das incertezas, um só desejo me dominava—tirar de Fanny a explicação do seu caracter, não interrogando-a, mas compelindo-a a extremos indicativos.Aggredi acintemente o marido deante de Fanny: difficil fôra o defendel-o, por que o ataque era dirigido ás violencias que lhe eram a ella feitas. Limitou-se, primeiro, ao silencio, erguendo ao céo os olhos, por que eu a estava pranteando; depois, mostrou-se descontente da asperesa das minhas palavras. Repentinamente lhe assomou á face o sangue, os labios cerraram-se, as palpebras descahiram, isto a tempo que eu lhe estava exaltando a{113}resignação para melhor accusar os caprichos do marido. Obedeceu, por fim, á sua eterna preoccupação, e disse-me:—Não fallemos mais de tal: tudo isso é triste; mas eu sou obrigada a submetter-me. Ao cabo de tudo, sempre é meu marido!LVIIIEstas palavras nem me espantaram nem indignaram. Esperava-as. Sorri com amargura, ouvindo-as dos labios da mulher estremecida. Eu passeava d'um para o outro lado no meu quarto, e ella seguia-me com a vista.—É a derradeira illusão que morre!—exclamei eu.Fanny pediu-me a significação d'estas palavras, e eu recusei dar-lh'a, e disse:—Já são que farte as questões que temos ha um anno; por minha vez, te rogo que não te importe saber o que se passa em mim. Amemo-n'os taes quaes somos. Por mais que desesperemos e resistamos nunca se mudará a nossa indole.{114}LIXDurante a ausencia do marido, que foi de mais de seis mezes, houveram grandes alterações na nossa vida. Eu via Fanny quasi todos os dias. Ambos abusavamos da liberdade d'ella! Vinha passar commigo todo o tempo disponivel. Frequentes vezes jantavamos juntos. Encontravamo-nos nos passeios e no theatro, e nas lojas. Aqui, sem nos mostrarmos conhecidos, trocavamos olhares furtivos, e, perpassando ao longo dos balcões, sentiamos as delicias instantaneas do contacto. Escreviamos, além d'isso tudo, cartas infinitas, e trocavamos flôres.Fanny esmerava-se em attenções, para compensar-me do mal que me fazia. Liberalisava-me aquelles delicados disvellos que as mulheres aguardam dos homens, e dos quaes disvellos são tão economicas, quando se dignam conceder-lh'os. Beijava-me a mão, chamava-me seu querido filho, mostrava-se submissa, e esmerava-se por que não houvesse coisa que turvasse a serenidade da minha vida. Nunca, porém, tratando-me como dominador, se rebaixava. Ajoelhada deante de mim, tinha a inteira dignidade d'uma rainha.Ás vezes, quando as bellas noites do outono eram mais balsamicas e suaves que as do estio, fugiamos{115}da cidade, como aves cansadas do calôr do dia. Hombro com hombro, recostados ao respaldo d'uma carruagem fechada, com as mãos inlaçadas silenciosos, iamos ao bosque buscar um pouco de ar, de silencio, e de solidão. Rentes comnosco passavam fogosas parelhas tirando por grandes calexes descobertos, cheios de mulheres risonhas cujos véos fluctuavam ao vento. Ouviamos o fremito das rodas na areia, o resfolgar dos cavallos, e o estalido dos chicotes. Viamos agitarem-se entre as arvores as luzes das lanternas, e mirarem-se na agua morta dos lagos as sombras espessas dos bosquesinhos de pinheiros. A lua, ás vezes tão melancolicamente ingastada no céo como nodoa de prata, alumiava grandes moutas de espinheiros, donde subiam, razando as hervas, nuvens alvas de vapor. Ebrios do aroma das carvalheiras, e da mollidão dos nevoeiros luminosos, apeavamos no angulo d'algum caminho estreito, e nos intranhavamos por debaixo da arcaria de immoveis arvores, passeando vagarosamente, mais perdidos em nosso scismar do que o estava a verde folhagem á sombra da noite linda. Era delicioso aquelle momento em que Fanny, infadada, se me pendia do braço, e justapunha a sua espadua á minha! Não fallavamos, sentia-se ali o viver, ouviamos as nossas respirações; e, assim unidos, achavamos doçura estranha n'aquelle nosso silencio e na incerteza de nossos passos.Algumas vezes, com tudo, suscitavam-se ligeiras discussões, remeniscencias attenuadas de antigas discordias. Fanny, porém, tomando-me, a rir, pelo que eu era, uma creança, ou fazia que me não intendia,{116}ou, sacudindo-me o braço em ar de gracejo, dizia:—Ora vamos, não se falla aqui do que já lá vae.Todos os lados accessiveis da minha vida ia-os ella penetrando cada vez mais. Como queria tudo saber, imperiosamente se senhoreava de tudo, passado, presente, e dispunha de tudo, a bel-prazer do futuro. Eu pensava em tudo como ella. Se me dava conselhos eu seguia-os como ordens. Em minha casa era ella que dirigia tudo. Os moveis como que se moviam espontaneamente para se collocarem nos logares designados por ella; os quadros entravam n'outras molduras; os espelhos inclinavam-se á vontade d'ella para lhe espelharem por toda a parte a imagem. Era-me prazer grande o vêl-a assim dispôr do que era meu. A minha casa, tornada sua, parecia afeminada. Já lá se não viam por sobre as mezas esporas, chicotes, caixas de charutos; nem junto das paredes tropheus de armas quarteadas; mas, em logar d'isto, estavam bocetas de flôres, alvissimas caças rojando sobre os tapetes, mobilia colorida a lacca e incrustações de Boule, e caixas de perfumarias. Levantavam-se do tapete agulhas e fios de seda e lã: no rebordo da chaminé brilhavam o dedal e as thesouras.Foram, no drama da nossa vida, esses seis mezes uma especie de entre-acto. Nada nos faltava para a felicidade, excepto a confiança. Fanny estava sempre sobre-rolda receando ataque improviso, e eu conservava no coração um certo azedume. Não havia consolar-me de não ter podido vencer os escrupulos da mulher que eu tanto amava.{117}Cheguei á fraqueza piegas de pedir-lhe conselhos para a direcção dos meus bens. Fanny não entendia nada de negocios, mas dava aproveitaveis pareceres, porque eram sempre dictados por um espirito de desconfiança feminil. Pois não a consultava eu até em compras de cavallos? No tocante ao vestir era ella quem decidia soberanamente dos feitios e das côres. Arranjava a minha roupa branca, a rir, erguida em pontas dos pés para chegar aos lotes dos armarios, e intromettia-lhe bolsinhas odoriferas que trazia comsigo, e nunca pude encontrar n'outra parte. Todos os instantes dos meus dias estavam, em fim, contados. Não dava um passo sem sua approvação; não comprava luvas ou gravatas que ella não elegesse. O numero dos meus amigos fixou-o ella. Desprezei tres, porque tinham nomes que não agradavam a Fanny. Tudo isto me parecia delicioso. Viver sem ella é que eu não podia por mais que fizesse. Estava enfeitiçado.LXMas o meu ciume, esse não estava morto, nem se quer entorpecido: apenas tinha variado um pouco de objecto. Desde que o marido estava auzente, já não podia soffrer por causa de uma partilha que não existia; mas os menores sentimentos que Fanny{118}me deixava adivinhar, inquietavam-me. Afóra os filhos, e a mãe que ella via ás escondidas, eu não lhe consentia amar ninguem. Fanny sorria, encolhendo os hombros. D'este modo nos tyrannisavamos mutuamente.Um dia, quando eu lhe tirava o «corpete», uma carta grande e quadrada—lhe fôra entregue quando saía de sua casa—escorregou-lhe do peito e caiu aos meus pés. Levantei-a. Tinha o sêllo de Londres. Encarei Fanny, que, pallida, estendia a mão tremula a tomal-a.«Teu marido escreve-te?» disse-lhe eu, entregando-lh'a.—Que pergunta!—disse ella.—Escreve-te regularmente?—ajuntei eu, depois d'um momento de silencio, durante o qual eu sentia as garras do meu antigo furor atassalhar-me o espirito.—Pois então!... disse ella—todas as semanas.«Porque te escreve elle?... Separados por tão violenta discussão, parecia que os corações deviam separar-se para sempre.Fanny olhou-me com espanto e ficou pensativa. Mas, como eu esperasse resposta, replicou:—Espantam-te sempre as mais singelas coisas. Não é natural que meu marido me diga dos seus negocios, e me falle dos seus filhos?«É justo... Eu não tinha pensado n'isso—murmurei.Fallou-se de muitas coisas; mas, a sós commigo, reflexionei immenso.«Respondes ás cartas de teu marido?{119}Fanny fez-se livida, hesitou, e deu signaes de impaciencia. Depois simulou um ar de indifferença, respondendo:—Escrevo-lhe raras vezes;—Sim? e, diz-me cá, que lhe escreves?—Não sei. Escrevo-lhe friamente. Falla-se de negocios. Isto não te interessa nada.Fiquei um tanto inleado; mas não pude reprimir-me.—Como é que nunca tiveste a idéa de mostrar-me as cartas de teu marido?Roger! Roger!—exclamou sorrindo contrafeita—eu creio que estás louco! Uma mulher póde por ventura confiar a alguem, principalmente áquelle que ama, o segredo dos negocios de seu marido?—Tambem é verdade—murmurei eu.Fanny quiz logo aproveitar a vantagem que obtivera.—Feliz seria eu, disse ella, podendo mostrar-te essas cartas que te dão tanto que pensar. Provar-te-iam que é uma sem-razão recear alguma coisa. Sabe, pois, espirito desconfiado, que não se póde viver em menos união do que eu vivo com meu marido.—De certo!—Como podes suspeitar o contrario depois que te confiei as minhas amarguras?—D'antes, tambem me confiavas o segredo dos negocios domesticos: não esqueças isto, Fanny.—Oh! hoje é muito differente.—Porque?—Porque... cá me entendo.{120}Isto fez-me reflectir novamente. Fanny levou as mãos ao céo com piedosa expressão; eu estava como involto nas sombras da morte. E assim nos contemplavamos. Era-me impossivel a quietação. Agitava-me d'um para outro lado.—Se dizes a verdade, Fanny, por que me não mostras as cartas que lhe mandas?—Não é possivel. Quem lêsse uma, comprehenderia as outras.—Não obstante, eu bem quizera conhecer o tom das tuas cartas. Porque lhe não escreves agora, mesmo aqui? Falla-lhe de tudo menos do que não quizeres que eu comprehenda. Eu mesmo levo a carta ao correio. Supplico-te, Fanny... Se nada temes de ti, dá-me esta prova de confiança, para me tranquillisar que eu soffro muito.—Não é possivel—redarguiu ella, com signaes de offendida.A raiva que me devorava o coração estalou desassombrada:—Que lhe escreves tu que não queres que eu saiba? Juraste matar-me? Falla, se tens na alma sombra de piedade! Torturas-me barbaramente como um algoz!Fanny ergueu-se, pegou-me da mão e disse brandamente:—Roger, eu não queria magoar-te.—Pois que! que mais querias tu fazer-me? Vae! Tu és mulher de duas caras; eu nunca fui amado por ti!A esta phrase injusta, lançou-se-me ao pescoço, abafando-me com beijos as palavras. Eu continuei:{121}«Como podiam magoar-me as tuas cartas, se, depois d'essa horrivel contestação, ficaste despeitada com teu marido?—Sê rasoavel: uma mulher póde ficar despeitada com seu marido?«Pois que?—exclamei furtando-me aos braços d'ella—tu perdoaste-lhe?—Rigorosamente não—disse ella, sentando-se quebrantada—mas foi-me preciso acceitar as suas desculpas. D'esta vez, ainda assim, está tu certo que não esquecerei mais os ultrages passados.«Perdoaste-lhe! perdoaste-lhe, Fanny!—Bradei, de pé em frente della, que olhava para mim assombrada—Não tens, pois, dignidade alguma? Não te sentes das injurias? És assim vil? Amal-o? Mentiste-me, pois, a mim? Ah! isto é que eu não acreditaria nunca!Fanny continuava a ouvir-me silenciosa.«Diz-me cá: por que me occultaste tanto tempo que elle te insultava?—Não queria deshonral-o. Se tivesses mais alguma experiencia, não te espantarias do que succede. Em summa, eu não quero fallar mais n'isto. Seja-te bastante saber que se me elle restringe a liberdade, ou diz arrebatado coisas indignas, tem pesar do que faz e diz, passada a colera. Affirmo-te que o julgas mal. É possivel que eu exaggerasse os factos no primeiro momento da indignação.. mas.«Calla-te!—bradei eu—se tens pudôr, calla-te! Ha uma coisa que parece passar-te desapercebida, e é que, á proporção que vaes fallando, não sei que idéa peçonhenta lucta, em mim, com o meu amor.{122}Não accrescentes uma só palavra. Acceito ainda isso, por que sou vil, por que sou um fraco, por que te amo muito, por que não posso dissuadir-me de te amar; mas sabe tu que maior mal não m'o podias fazer. Supplico-t'o—não digas mais nada.E lançando-me a seus pés, exclamei:«O despresares-te a ti propria, seria, sobre tudo, cruelissimo!LXISempre que tivessemos algumas dessas deploraveis luctas o apartamento era frio, e eu ficava dias inteiros a reluctar com a memoria d'ella. Mentalmente eu reproduzia os ataques e os argumentos, e inutilmente sondava a causa misteriosa do seu proceder. Eu era muito moço e inexperiente: avaliava-a mal. Aquella natureza complexa, que resumia no seu caracter muitos caractéres diversos, queria eu que visse as coisas absolutamente como eu as via. Eu, o que então sabia, era que as palavras: sentimento, amor, delicadeza, ciume, e outras assim, representavam para Fanny umas idéas, e para mim outras. Ignorava que o custoso para mim não o era para ella, e que lhe bastava sempre a boa intenção para indulgencial-a d'um facto, qualquer que fosse. Em mim, não descontava nada á sua fraqueza. Depois é que apprendi a conhecêl-a.{123}Quantos maiores esforços eu fazia para desligar Fanny de seu marido, mais eu estreitava os vinculos relaxados por quinze annos de existencia commum. Fanny lastimava-me interiormente, mas eu devia ser-lhe pesado. Bem sentia eu que a importunava, mas não estava em mim deixar de a repellir de cada trincheira em que ella esperava o combate. Não me passava pela mente que o unico recurso para conseguir o meu fim, era mudar de tactica. Ninguem me havia dito que eu devia esconder o meu ciume, como principal causa da nossa separação. Que candura! Eu via nas manifestações do meu ciume provas de um amor que devia abalal-a. E, com tudo, tão facil me seria serenar-lhe a vida a ponto de a forçar a comparações, com vantagens minhas, entre os dois homens de quem ella dependia. Mas mais simples que tudo seria não amal-a!...Ama ella o marido? Não acredito, nunca o acreditei. Um sentimento banal, resultante do costume e agradavel ás almas pacificas, porque naturalmente continúa as coisas, e não cansa o espirito em mudanças, esse devia tel-o. E o vêr o despota humanisado diante d'ella, commovia-a; e o receber caricias da mesma mão que a castigava rudemente, dava-lhe uma especie de satisfação. Não era isto fraqueza nem ingenita baixeza de animo; era uma certa indifferença de genio, explicavel na idade d'ella Fanny, em fim, certo, não tinha uma alma varonil, nem mesmo uma alma muito nobre, por que antes queria astuciar que combater, e antepunha o aviltar-se, repartindo-se, que transtornar o seu viver;{124}era, porém dotada de alma recta. Cuidava, certamente, que se resgatava, em sua consciencia, da perfidia conjugal com uma submissão completa. Até certo ponto, era indemnisar o marido, o tolerar-lhe os caprichos do genio. Em que restingas, em que abysmos, em que cahos de coisas sem nome, a probidade, esta rara perola, se esconde?LXIIEra urgente que eu accedesse á nova concessão do aproximarem-se os esposos. Mas de concessão em concessão lá se ia, desfeita em lagrimas, a minha estima. Eu humilhava-me como o escravo que não póde resistir, com gritos de raiva surda, e desejos immensos de vingança. Ah! se Fanny soubesse que ella devia accusar-se só a si da minha abominavel vingança!LXIIIInraivecido por não poder vencer a pertinacia do caracter de Fanny, trahi-a. Amor e ciume, quiz{125}tentar matal-os na devassidão. Conspurquei-me voluntariamente, e acintamente, ao contacto de labios impuros da luxuria estupida. Cada noite, de proposito, como ladrão que se embusca no angulo d'uma rua, entrava rindo sarcasticamente de mim mesmo, no infame prostibulo onde eu contava apagar a sêde de vingança. Sorria amargamente ainda, como traidor que pensa na confiança dos ludibriados, eu arrastava commigo, aos braços da mulher querida, a torpe recordação das creaturas degradadas, cujas caricias não tinha podido sevar-me o rancor; e deste modo eu achava um meio de identificar Fanny commigo, sem o ella saber, e ingolphal-a commigo nas mesmas execraveis immundices.Mas era-me maior a vergonha na sahida que a cegueira do furor na entrada. Estorcia-me os pulsos na rua, e arrancava os cabellos desesperado. Mais ciumento, mais aferrado, mal vingado, castigado por minhas proprias mãos, martyrisava-me com o profundo pensamento da inutilidade dos meus esforços. Não sei que desgosto corporal me subia aos labios. Era um horror de mim mesmo. Vagava, de ventura, toda a noite, como miseravel sem abrigo, esperando vencer com a fadiga do corpo os tormentos do cerebro. Debruçado sobre o parapeito das pontes via redemoinhar a onda negra do Sena, menos sombria e mais lodacenta que os pensamentos, irriquietos do meu espirito attribulado. Eu chafurdava nos lamaçaes, como para destruir sobre immundices impalpaveis, a impalpavel, mas real immundice que imporcalhava o meu amor. E sempre diante de mim, perpassando como phantasma nas{126}sombras que se tiravam ao longo das ruas, via a imagem de Fanny, com o seu ar tranquillo, fronte serena, olhar sombrio, como que a visitar-me, mas forçando-me a pensar n'ella quando eu ia cuidando em matar-me para esquecêl-a. Oh! que terrivel estado aquelle, sem repouso nem treguas ás minhas angustias! que me exacerbava e prostrava! que incharcando no nôjo a minha desesperação, infamava o meu ciume sem applacal-o!LXIVSustentava-me, comtudo ainda, um resto de coragem, essencial na minha indole. Estas pelejas intimas davam-me alento. Resolvera buscar o remedio até encontral-o, e, não o tendo, emprehender algum arrojo de desesperado, para arrebatar Fanny, a pezar d'ella. Ninguem sabe os estragos que uma idéa fixa póde fazer d'uma alma. Incrivelmente vos vos roja até vêr o bem nas coisas repugnantes ás menos temerosas consciencias.Após maduro reflectir, decidi-me ao penoso sacrificio da ultima concessão. Estava eu como um doente, que desenganado da cura, pactua com o mal, e dispõe-se de modo que seja menos o soffrimento no restante de seus dias.«Tudo te perdôo!—disse eu a Fanny.»—nunca mais te fallarei dos nossos eternos motivos de discordia.{127}Não examinarei o teu proceder; não te sondarei os sentimentos; tudo te concêdo, tudo acceito, excepto a abominavel partilha que tanto me fez soffrer, e tão demorada tem sido. Não posso mais... antes quero vêr-te desgraçada; antes morta; quero morrer eu. Sê-me leal, supplico-t'o—accrescentei com tristeza—porque me faz um mal horrivel duvidar de ti.—Pois bem, não haverá mais partilha—respondeu Fanny, com um aperto de mão—não te inquietes, não soffras mais. Quando meu marido voltar, approveito-me do pretexto dos ultimos insultos para impor-lhe condições. Viverei completamente separada d'elle em sua caza. E isto, por toda a vida Roger, socega, sê emfim feliz. Não dependia de mim o seres feliz ha mais tempo.«Restitues-me a vida!—exclamei, lançando-me aos pés d'ella, e abraçando-os.—Querido filho!—Liguemo-nos por um juramento.A isto sorriu-se ella, mas jurou solemnemente, dadas as mãos, e fixados mutuamente os olhos.«E agora—disse eu—se por qualquer motivo, uma vez só, resolveres faltar á palavra, juras que me avisarás, para que não haja entre nós traição.—Por que queres tu que eu jure.«Pela minha vida.Fanny sorriu outra vez, mas jurou solemnemente.Depois d'isto fiquei totalmente tranquillo. Picou-me n'alma o ciume como a recordação de um sonho que de tempo a tempo, nos sobresalta. Reapreceu-me a vida bella e ampla. Confiava.{128}LXVE por isso a chegada do marido apenas me incommodou pela impossibilidade de me avistar tantas vezes com Fanny. Chegara o estio. Fanny habitava outra vez a sua casa campestre, e eu ia vêl-a algumas vezes, por noite, no caramanchão da tapada, e mais vezes vinha ella a Pariz, quando engenhava pretexto para passar fóra um dia. Mostrava-se mais livre que d'antes, pelo menos as visitas eram mais delongadas; mas, mais que d'antes, me pareceu pensativa e preoccupada. Attribui este enleio aos infadamentos procedidos da palavra que me dera. Entendo que novos debates, novos tormentos a faziam desgraçada; e, lastimando-a de todo o meu coração, animei-a á resistencia, e consolei-a quanto em mim cabia. Fanny, porém, denotava constrangimento, suspirava, e acolhia os meus beijos á flôr dos labios, como se tivesse esfriado em seu amor.Estava escripto que tudo, na nossa historia, fosse extraordinario, e que eu não intendesse nunca o procedimento d'esta mulher. Logo que me eu persuadia de ter-lhe penetrado a nova tristeza—imputando-a a discordia que o respeito do seu juramento devia acarear—soube um facto que me atirou, mais que nunca, a um mar de incertezas.{129}Recobrando o repouso do animo, dei-me a um viver menos solitario. Meus amigos procuravam-me, por que os eu procurara. Interessou-me, de novo, a sociedade. Um dia, com grande espanto, soube que, a respeito do marido de Fanny, vogavam boatos escandalosos. Dizia-se que, durante a sua ultima viagem a Inglaterra, se tinha elle namorado de uma irlandeza que se estreara no theatro da Rainha; que a tirara da scena; que a chamara para França, havia um mez. Diziam-se maravilhas da magnificencia em que elle a tinha. Era lindissima, alta e esbelta como Fanny, mas morena como as filhas do Norte, com bellas côres rosadas, e finos cabellos sedados que se desenrolavam languidamente em longos anneis até ao peito.Jubiloso de nova tal, fiz tenção de lhanamente contal-a a Fanny, a fim de fortalecêl-a na resistencia, e ministrar-lhe um terrivel argumento contra o nosso inimigo, se elle se obstinasse em tormental-a. Nova surpreza me esperava, que devia sobrelevar todas as mais a prodigiosa altura.Fanny, como tantas outras mulheres, atraiçoando seu marido, não queria que elle a atraiçoasse. Irritada pelo meu ar de triumpho, nem deu credito á realidade da historia, nem á sinceridade da justificação.—Ou mangaram comsigo, ou o snr. forjou uma historia desinfadadamente, para me atormentar. O que me diz aborrece-me. A grosseria desses sentimentos enoja-me tanto que não posso perdoar-lhe, faça o que fizer. Saiba que meu marido ama-me sempre. A tristeza que soffre, de mais o demonstra.{130}O juramento que o snr. me arrancou, lealmente o tenho sustentado. Incumbe-lhe respeitar a minha sensibilidade, cessando de calumniar um homem que, por causa do snr., é desgraçado.Foi tamanha a minha estupefacção, que nem me occorreu a idéa de censurar aquellas estranhas palavras. Fanny mortificava-me cruelmente fallando-me da «sua susceptibilidade, do seu juramento arrancado, da minha supposta calumnia» a proposito da infidelidade exactissima, do homem que eu detestava. Cuidava eu que Fanny se daria por feliz sabendo que, emfim, espontaneamente, o marido se afastava d'ella, como ella, desde muito, se afastara d'elle. Esperava eu acções da graça, e sahiu-me cólera, orgulho offendido, retaliações, que, a meu vêr, tinham as apparencias todas do ciume. Isto era para indoudecer!LXVIIncutiram-se-me suspeitas novas, e estas, mais crueis mil vezes que quantas me haviam suppliciado. Desta vez, porém, o acceital-as docilmente, não me foi facil. Intranhara-se-me a desconfiança como vibora no coração, e o germen da peçonha, que ella ahi revessara, circulava-me nas veias.O ciume resurgiu mais abrasado. A só escusa,{131}que podia mitigal-o, era imposssivel. Não era já da partilha que eu accusava Fanny; mas sim da mais rasteira traição. Resolvi esclarecer a incerteza, por todo o preço. Nada disse a Fanny, fingi-me longe de suspeitas. Menti no rosto como nas palavras. Affectei consummado comico, a maior liberdade de espirito, quando me estava a morte no coração.Pela primeira vez na minha vida, fui homem. Por mim, e só commigo, fiz quanto cumpria para descobrir a verdade. Comprei, com um pseudonimo, a casa contigua á de Fanny. Instalei-me secretamente lá. Todo o dia, cosido com as portadas das janellas, escutava os menores rumores da casa visinha, e via tudo que lá entrava, como se estivesse á espera de vêr algum estranho entrar ahi a roubar-me a mulher que me era a vida. De noite, escoava-me através da sebe de arbustos que separavam os nossos quintaes, e andava debaixo das janellas de Fanny, como ladrão que estuda o edificio que quer assaltar. Assim apprendi os costumes da familia que eu espionava. O erguer, o comer, o deitar, sabia tudo. Via de manhã os creados abrirem portas e janellas, e ouvia o roedôr dos moveis, deslocados na limpeza dos quartos e da sala. Ás oito horas, o dono da casa descia ao jardim, onde encontrava os filhos. Ás nove apparecia Fanny em desalinho campestre. Dava com elle alguns passeios. Ás onze horas chamava a campainha ao almoço. Ao meio dia, esperava ocoupéá porta. O marido sahia, e só voltava ás sete horas para jantar. Muitas vezes, depois do meio dia, vi Fanny assentada na raiz d'uma arvore enorme, que assombrava largo{132}ambito, conversar com os filhos, lêr, ou occupada em algum trabalho de agulha. As visitas eram numerosas. Das tres ás seis horas, quando estava bonito o tempo, circuitava o grande taboleiro de relva, longa fileira de trens, cujos cavallos escarvavam na areia, á sombra das arvores, sacudindo os freios, a tempo que os bandos de senhoras e cavalheiros, assentados em cadeiras de bambu, riam, e bebiam gelados. Ao intardecer sahiam todos, e os homens faziam caracolar os cavallos á portinhola das carruagens, ou reunidos atraz dos trens, caminhavam lentamente fumando os seus charutos. Fanny recebia-as com uma graça incantadora: variava muito de vestidos, e da minha janella via eu que as mulheres examinavam detidamente os seus deliciosos enfeites, ao passo que ella, parecia descuriosa de si, como se sempre estivesse adornada, sem o saber. Raro sahia de noite, se o calôr não era ardente. O marido passeava então com ella; mas ordinariamente tornava para Pariz ás oito horas, e quando tornava, era por alta noite.Nos dias em que nos uniamos em Pariz, Fanny entrava nocoupécom o marido.—Qual de nós é o enganado?—dizia eu commigo. Eu montava, e por travessas, e a galope, chegava a minha casa primeiro, e ahi era tão pouco preguntador quanto ella era meditativa. Era-o em toda a parte, em sua casa como na minha. Ao mesmo tempo, os passos do marido, mandava-os eu espiar. Nunca ia senão ao club, e a casa da amante. Aqui pernoitava algumas vezes. Fallava n'isso francamente aos seus amigos, e continuava a mostrar-se prodigo com ella em demasia.{133}Era um homem prefeitamente feliz. Não o attribulavam suspeitas nem inquietações: rico, pae de galantes filhos, uma mulher adoravel. Que lhe faltava? Eu invejava-o.Mas não me bastava assistir á vida exterior da familia, cujos segredos eu queria conhecer. Ao cabo de quinze dias, vendo esteril a minha espionagem, cancei-me da futilidade d'ella. Obtivera apenas o direito de suppor que Fanny cumpria a palavra, por que o marido, passeando com ella, parecia exclusivamente entretido com os filhos. Além disso, a frequencia das visitas que ella recebia, estorvava-me de vêl-a concentrada em si, tanto quanto eu queria. Resolvi introduzir-me em sua casa, sem o ella saber. A frieza, com que me estava tractando, era assustadora. Distrahida sempre. Muitas vezes, com terrivel commoção, de longe a via, quando se julgava sósinha, cahir sobre um banco, e esconder n'um lenço, o rosto lavado de lagrimas. Em oito dias, centuplicaram as minhas suspeitas.LXVIIPor uma bella noite de agosto é que eu executei o horrivel designio, cujo exito devia decidir do meu destino. Não sei que hora era; mas, havia muito que as estrellas radiavam na face do céo a{134}sua suave claridade. Abri a ultima janella do primeiro andar da minha casa contigua á de Fanny, fixei a persiana contra a parede, e resvallei pela rampa; pendurei-me do varão sutoposto á baranda da casa visinha; fixei um pé na goteira da sacada, depois o outro pé, e saltei. Estava em casa d'elles.Fiquei immovel a escutar o silencio, interrompido apenas pelas precipitadas pulsações do coração. Perto de mim, uma janella alumiada como um grande quadrado de luz, branqueava de clarão baço, a parede innegrecida da casa. Baixando-me sobre os joelhos, enxerguei que esta janella não estava de toda fechada. As beiras das portadas tocavam-se, mas deixavam coar uma resteasinha de luz. Duas cortinas de cassa branca, pendentes diante das vidraças, deixavam-me vêr todo o quarto através d'um alvadio de leite que esfumava um pouco os objectos.Lembra-me tudo isto. No fundo do quarto havia um grande leito, e sobre este, uma corôa de ebano lavrado donde pendiam cortinas de estofo escuro que contrastavam com a brancura dos lençoes. Á esquerda da cama, um tapete estreito, á direita, uma commoda; ao pé da chaminé uma poltrona de espaldar muito alto. Que sei eu? Creio que outros moveis estavam lá, mas eu não reparei. Ao principio, não vi ninguem no quarto, alumiado desigualmente, por um grande candieiro de cobre, coberto de quebra-luz, que dardejava sobre o pavimento os raios, deixando o tecto escuro. O leito ficava assim cortado longitudinalmente pela zona luminosa. Como{135}quer que eu me chegasse á vidraça para examinar se elle estava occupado, uma sombra passou lenta entre o candieiro e a janella, desenhando-se nas cortinas brancas. Pulsou-me o coração mais rijo. Agachei-me rente com a sala, recuando um pouco.Reconhecio-o. Era elle. Ainda o vejo. A viração tepida da noite de agosto, suspirava á volta de mim na folhagem; cantava um passaro entre os arbustos; a terra vaporava odores balsamicos; mas eu não via, não sentia, não investigava senão elle. Alongando o pescoço para ajustar os olhos á entre-aberta da janella, vi-o, com espasmo mudo, como se fosse para mim coisa extraordinaria vêl-o de pé n'um quarto de sua casa. Tinha os pés nus em amplas moiras de marroquim amarello; afivellava nos encontros uma larga calça branca de flanella. Despeitorado, arregaçado o colleirinho, arremangada a camiza, ia e vinha pelo quarto, fumando um charuto, dando corda ao relogio, mirando-se ao espelho, e esticando os braços. Assentou-se depois na grande cadeira encoirada, cruzou uma perna sobre o joelho da outra, e bamboando-a deixou cahir a chinela. D'onde eu estava, via-lhe perfeitamente a sola do pé nú levantada ao nivel dos meus olhos, e o braço carnudo descançado sobre o encosto da cadeira. O outro braço subia e baixava do joelho para o rosto, quando levava aos beiços o charuto, cujo fumo odorifero se exhalava até mim.De repente, voltou a cara para uma porta que eu não tinha devisado, collocada ao pé do leito. Esta porta estava aberta, e no inquadramento obscuro que ella cortava no fundo do quarto, vi, duvidoso{136}da minha razão, uma fórma vaga alumiada em rosto por um castiçal que ella trazia.Potestades do céo! Era ella! Oh Deus! por que me não fulminaste n'aquelle momento!Entrou vagarosamente, depoz o castiçal sobre a commoda, e, atravessando longitudinalmente o recinto, foi direita a elle, que a observava tranquillo, e sem levantar-se.Fanny estava meio vestida com aquelle desleixado traje que eu lhe vira algumas vezes pelas manhãs, quando, ao sahir da cama, passeava no jardim com os filhos. Era um chambrão muito farto de cachemira azul aberta no peito, entre flocos de cambraia, deixando vêr o começo dos seios. Sahiam-lhe das largas mangas os braços nús. Trazia desmanchados negligentemente os cabellos, apanhados sobre as faces lizas, e apertados por grossos tufos sobre a nuca. Aquelle eterno porte de placido pudor, lá o apparentava no semblante.Mas que vinha ella fazer alli a tal hora? quem lhe pedira isso? Não póde a recordação do amante retêl-a no limiar d'aquella porta? Dir-se-hia que ella nem se quer se lembrava de ter jurado, nem lhe passava pela mente a existencia d'algum homem para ella, senão aquelle que alli estava sentado, encarando-a, sereno como ella.Fuzilou-me na alma um relampago de esperança, mas foi relampago. Abaixado sobre os joelhos e as mãos, embaciado o vidro pelo meu bafo, senti oscillar-me os braços como se o balcão estremecesse debaixo de mim. Suor de agonia, acre e frio, me banhava a face e os membros; rangiam-me os{137}dentes, cahi, desfallecido, como arvore tombada ao ultimo golpe do machado. Mas ouvi palavras; e, repuchando quantas forças tinha, ergui-me sobre os joelhos e punhos.Via-a andar mansamente d'um para o outro lado do quarto. Tocava, vagamente, e como em distracção nos objectos de sobre os moveis, tal qual costumava fazer em minha casa. E o marido tendo-a sempre d'olho. Fallavam; mas a minha commoção só me deixava ouvir um murmurinho. Rodeava-o ella, socegada e perfida, com os seus azues e suaves olhos, e apparencias de simpleza vaga. A instantes, sorria um sorriso melancolico. Quiz vêr n'esse rir, que lhe dilatava os labios sem illuminar-lhe o olhar, alguma coisa forçada. Não se mostrava pensativa, nem contemplativa, nem commovida. Estava perfeitamente á sua vontade, natural e tranquilla. Bem sabia ella que a sua grande magia era a irritadora tranquillidade.O marido riu tambem, por sua vez. Vi-lhe o brilho dos seus alvos dentes. Dava mostras de defender-se ingenuamente d'uma accusação que ella fazia, sem cólera, mas como uma malignidade gracejadora, que não era isempta de desdem e altivez. Discutiam tão pacificamente que pareciam nenhum acreditar na realidade da sua disputa familiar. A final, debaixo da testa quadrada do marido, brilharam mortiços os olhos; e, quando ella perpassava diante d'elle, rossando-lhe com o vestido o pé, a decisão foi prompta; calçou a moira; e tirando brandamente pela cintura da mulher, sem resistencia, fêl-a assentar no seu joelho.{138}Saltaram-me as lagrimas então, lagrimas ardentes, que as palpebras não podiam reprezar, e desceram silenciosas pelas faces até aos labios. Emfim, comprehendia tudo; via a profanação, posto que a não quizesse vêr; affirmava que não era sonho aquillo, e queria duvidar. Não posso exprimir o que então se apartava de mim, o melhor de minha essencia, e o mal que me fazia vêr aquella mulher, que eu adorava, nos braços d'outro.Fanny continuava sentada com as mãos cruzadas sobre os joelhos, e com os olhos no marido, conversava serenamente. Nada ha ahi mais casto que a simplicidade da sua attitude, a pureza do seu perfil, e aquella expressão dos olhos azues. No entanto elle, comprimindo-a cingida pela cinta, amimava-lhe a face com a mão livre. A final, Fanny lançou-lhe por sobre o hombro o braço esquerdo, e pendeu para elle langorosamente. Vi-lhe então as costas, cobertas de tranças dos cabellos, e o vestido fazia roda por largo espaço com impudor esplendido. Oh! como a abominavel creatura cheia de graça e lascivia se aconchegava d'aquella espadua robusta!—É impossivel aquillo!—gritei eu em minha consciencia.—Não ha-de ser assim!—Mas elle abraçou-a, collando a boca espessa ás puras faces d'ella, e não sei o que lhe disse a meia voz. Fanny fez um gesto negativo com a cabeça, muitas vezes, sem córar. Elle, por cortezia, insistiu sorrindo, e ella, resistindo, pouco e pouco se rendia! Mulher scelerada! como ella prolongava o meu supplicio! O debate mudo, durou algum tempo. Não sei como foi{139}que o sinto se lhe despregou, e rolou nas dobras do vestido. E eu chorava sempre. Levantou-se ella em fim, aquella mulher de resplendores e flôres, e, por um só movimento de braços e hombros, fez escorregar o chambre até aos pés. Eu cahi de joelhos, e ergui as mãos, como a exorar piedade. Ella tirou com afan, os pés do monte de estofos, e, um tanto pallida, mas em silencio, caminhou para o leito, achegando ao peito as ultimas coberturas. Quantas vezes a vira eu assim impallidecer! Cravei as unhas no rosto. O marido ia depós ella, vagarosamente.E eu sem uma arma! Eu queria immediatamente estrangulal-a, espedaçal-a, ingolphar meus braços nas entranhas d'aquella mulher estupida. Com todo o sangue d'ella, não se apagaria o ardôr da minha tortura. Arquejante como o tigre, que vê a garra do leão cravada na sua preza, ergui-me a prumo, ferrei as unhas contra os dentes, escorria-me o suor da face, soluçava, como em arrancos de morte, estrebuchava, e via os horrores d'aquelle quarto.—Piedade! piedade!—foi o meu grito! E furioso, e perdido, avançara um passo! mas os cabellos heriçaram-se-me, e os olhos saltavam-me das orbitas, e a minha vista acerada entrou como um punhal nos cortinados sombrios, e vi... vi tudo! Quiz ir ávante, e não pude. A punição pregava-me os pés á balaustrada, e de minha bôca sahiam gargalhadas de demonio. Que horror! Eu testemunha d'aquelle espectaculo, a rir, como um doudo, a comprazer-me d'um jubilo que não tem nome nas linguas humanas! Tentei de novo avançar, por que ouvira{140}suspiros, e queria saber qual das duas bôcas os exhalavam. Por um esforço prodigioso dos meus musculos todos, cheguei a despregar o hombro da parede, e dei ainda um passo; mas por que ao coração intumecido me refluira todo o sangue, perdi o equilibrio, e cahi como um pezo inerte sobre o balcão.LXVIIIQuando cobrei o alento, estava a janella fechada e apagada a luz. Corri as mãos sobre os vidros impenetraveis. Corri a baranda em toda a sua extenção; tudo apagado, tudo fechado, dormia tudo. Dominava-me uma raiva glacial. Á custa de tudo, eu queria remirar esta mulher que eu detestava com o coração, com a alma, com os sentidos, com todo o meu ser. Mas ir até ella, como? Pendurei-me na rampa, e deixei-me cahir ao jardim. Rodiei vinte vezes a casa, empurrando todas as portas; mas a minha fraqueza não podia com ellas. Finalmente, atirei-me ao chão, e ahi, com o rosto entre as mãos, desafoguei-me em soluços.—Trahido! trahido!—bramia eu, com monotonia desesperadora.—E o céo impassivel!—De subito ergui-me, e, sem idéa fixa, atravessei as trévas, rapido como se me viessem perseguindo assassinos.{141}Precorri a tapada; saltei o muro, atravessei a estrada, entrei nos campos, e a correr sempre, com a cabeça nua, chorando e fallando sósinho, atirei-me como um attribulado gamo, que foge com os dentes de matilha feroz incravados nos flancos.Onde ia eu? não sabia. Fugia áquelle espectaculo. Salvava-me a todo o correr, para o mais longe possivel, para não vêr a imagem horrenda que me ficara nos olhos. Trahido! Trahido! era o grito que me esporeava, e excitava a fuga. Despenhei-me em barrancos. Levantava-me ferido, coberto de suor e lama, e corria de novo, sem destino, por escuridade pavorosa. Lancei-me desamparadamente em cancellos insilveirados; deixava-lhes os meus vestidos a pedaços, e caminhava. Esgalhos de arvores batiam-me no peito, raspavam-me a face e os hombros os tojos lacerantes; parava a chorar e depois caminhava. Atravessei as ruas dezertas das aldeias, que resoavam sob os meus passos; campos cultivados, cujas searas me ondulavam nas pernas como vagas; collinas, bosques, regatos, atalhos, estradas que desfilavam á roda de mim, como se o solo fosse arrastado commigo no arremeço d'um sorvedouro immenso. Faltava-me a respiração, e eu corria ainda, chorando, chorando sempre.—Ó minha mãe!—bradei eu.—Se soubesses quanto eu soffro!De repente, achei-me com os pés em agua. Ante mim, distendia-se um vasto espaço negro, uniforme, entranhado nas trevas, d'um lado e d'outro, com grandes e mysteriosos zunidos. A lua dardejando de viez o seu reflexo argentino, sobre esta superficie{142}luzente, parecia serpente enorme assanhada contra mim, para engulir-me. Involvia-me o nevoeiro. Avancei tropeçando nas pedras, mas os jactos d'agua da torrente rapida, embargavam-me o passo. Horrida tentação me assaltou. Contemplei o céo sereno, onde brilhava, entre nuvens immoveis, o dôce astro dos amantes; puz a mão sobre o coração, e caminhei. Dava-me a agua pelos joelhos, mas sentia sempre o chão lodento em redor dos meus pés que escorregavam. Não podia mais. Vergado á fadiga e á commoção, soluçando como as mulheres, cahi, e fui arrastado na torrente que marulhava em sua marcha obscura.LXIXO que decorreu depois d'isto, não sei.Atrophiara-me um frio horrivel. Era nos ouvidos o sibilar lacerante. Sentia abafar. Muitas vezes cheguei a ajoelhar, impellido sempre pelo peso das aguas. Por fim, esqueci tudo; entendi que morria.Quando me senti viver, estava na minha cama, com a cabeça em fogo. Abri os olhos esgazeados. Tremia em todas as fibras. Sacudia-me o corpo, desde a cabeça aos pés, uma horrivel febre. Ao meu lado, estavam dois amigos observando-me. Fallei, e elles abanaram a cabeça. Veio um homem, e tomou-me{143}o pulso: encolheu os hombros, e partiu. Continuei a tremer. Isto durou muitos dias.Depois soube que uns pescadores me tinham, de madrugada, encontrado sem sentidos, nas margens do Sena, com a cabeça envazada no lôdo. Buscaram-me as algibeiras, e acharam na minha carteira uma carta, e, guiados por ella, me trouxeram a minha casa. Delirei no caminho, e tiveram-me em conta de doido. Estava-o, realmente.Fanny, porém, ignorante de tudo, admirada de me não vêr, veio uma manhã; mas o meu creado, a chorar, impediu-lhe a entrada no quarto, e contou-lhe o que sabia. «Quiz afogar-se—disse elle—e agora está doido»—Ella, porém, não quiz crêr no suicidio, e supplicou a entrada. N'esse dia, um abatimento sem nome, semelhante ao dos cadaveres prostrados em seus sepulchros, me tinha como pregado pelas costas ao leito, com os braços alquebrados e os olhos abertos. De repente, devisei na porta, que se abriu ao pé do meu leito, uma fórma humana, de pé e quieta.Não atinei logo com quem fosse aquella mulher que me vinha vêr moribundo, adornada de trajos de estio tão elegantes e frescos, com braceletes nos braços e flôres no chapéo: tambem não entendi por que chegava com ambas as mãos o seu véo branco ao rosto. Os meus amigos tinham-se retirado para o fundo do quarto, afim de respeitar, quanto fosse possivel, um segredo que não queria ser penetrado. A mulher adiantou-se até á minha cama, e eu ouvi-lhe o fremito do vestido. Curvou-se-me sobre o leito, e levantou o véo. Como que senti refrigerar-se-me{144}a alma, de vêr sobre o meu rosto aquella face viçosa cheia de graça, e como perfumada de saude.Fanny! exclamei subitamente, erguendo os braços. Fanny abaixou-se a soluçar sobre o meu peito. Mas a memoria restaurara-se com o conhecêl-a; levei-lhe á face os punhos fechados, e repelli-a de mim, gritando furioso «sai d'aqui!» Ella acreditou que eu estava doido, e arredou-se chorando; mas com um resto de força que a raiva me déra, bati-lhe no hombro, e, ao lançar-me fora da cama, cahi por terra aos pés d'ella.LXXQuando sahi do lethargo, suppliquei, de mãos postas, aos meus enfermeiros, que não deixassem entrar em minha casa aquella mulher.Ella, porém, que não podia suspeitar o succedido, e continuava a crêr na minha demencia, vinha todos os dias—disseram-m'o depois, e todos os dias com gestos afflictivos, sollicitava vêr-me.—O medico não consente—respondia inflexivel o meu creado. Fanny offerecia dinheiro e prendas; mas comprehendendo a final que a sua presença podia matar-me, retirou-se, pedindo a Deus a minha cura, e offerecendo-lhe, em troca da minha, a sua vida.{145}D'isto não sabia eu nada então. Decorriam os dias, e, por desgraça minha, graças aos disvellos que me rodeavam, a vida pouco a pouco affluiu apagando a febre.LXXIAo cabo de seis semanas entrei em plena convalescença. Já os amigos me tinham deixado. Perguntou-me, muitas vezes, o creado, se eu queria receber aquella pessoa que tanto parecia amar-me, e cuja presença tão mal me fizera uma vez. Sempre com repellão lhe disse que o expulsava se a deixasse entrar. O desejo, porém, de a vêr, entrou commigo, e tornou-se emfim n'uma irresistivel necessidade. Fiz fallar o creado sobresaltado, que não intendia a minha frieza. Contou-me tudo que eu não sabia; que ella vinha diariamente, e elle já não sabia que dizer-lhe, para estorvar-lhe a entrada. Se ella vier hoje,—murmurei eu impetuosamente, corrido de vergonha,—recebo-a.Sentia-me eu abalado como se alguma funesta esperança tentasse renascer em mim. Com o abatimento da molestia, quasi que a cólera se desvanecera; mas ganhara-me uma dôr intensa, e eu assentava—tamanho desgosto era o meu por tudo—que não podia viver. Aquella noite terrivel da traição,{146}lembrava-me como um sonho máo. A um tempo, amava e desprezava a mulher graciosa e perfida, cuja imagem era commigo sempre. O que eu esperava para acabar com tudo, era alguma cousa indelineavel.Estava eu sentado n'uma poltrona, ao pé da minha janella, com os olhos fechados, repassando no animo o que eu diria á prejura, quando senti apertarem-me a mão, e misturarem-se n'ella os beijos com as lagrimas. Abri os olhos. A meus pés, de joelhos, livida, mas formosa ainda, formosissima, estava Fanny, olhando-me com eloquente ternura. Senti o perfume d'ella. Nada diziamos. Eu sei que chorava.Fanny ergueu-se, abraçou-me maternalmente a fronte e os cabellos, com os seus dois braços nús. Não resisti, porque me era aprazivel receber aquellas caricias, a que eu tinha direito, em quanto não fallasse. E por isso mesmo é que não fallava. Finalmente, como eu chorava sempre e a não abraçava, Fanny disse:—Foi-se o teu amor, Roger?—Ainda não—respondi, tapando o rosto com as mãos. Ella não intendeu, e deteve-se em pé e agitada defronte de mim.—Fanny, diz-me que é um sonho, ou que estou doido. Diz-me que não devo odiar-te, porque este odio dilacera-me.Não córou. Não impallideceu. Pura como a chamma, e crendo-se talvez ella mesmo pura, amimou-me internecida, com apparencias de admirada.Foi então que eu, reunindo as minhas forças todas,{147}a tomei pela cintura gentil em meus braços, e a fiz sentar defronte de mim. E disse-lhe:—Sei tudo.«O que? tu que sabes?—Vi tudo.«Mas que?—Porque me trahiste? Tu não cedeste, porque foste tu quem o procurou, não foi elle a ti. Foste tu, que trocando despejadamente o papel, o seduziste a elle.Fanny não perdeu ainda a côr, e quiz fallar. Eu, porém, com os olhos cravados n'ella, sem cólera, e frio como o aço, continuei:—É necessario dizer-te tudo? Não merecias confiança. Comprei a caza vizinha da tua, em Chaville...Aqui, impallideceu, e disse:«E depois?—Uma noite, horrivel noite!... depois de te espiar em vão quinze dias, arriscando a minha vida, consegui introduzir-me sobre o balcão da tua casa. Não sei que hora era. Ajoelhado por traz da vidraça do quarto de teu marido, pude vêl-o. Como te vejo agora, tudo vi. Estava elle só. Entraste...«Isso é falso!» exclamou Fanny, mais horrivelmente pallida. Semelhava um cadaver sentado n'uma cadeira defronte de mim.—Será preciso dizer mais?—accrescentei.—Vestias um chambre de cachemira azul. Trazias os cabellos em desalinho, e o peito nú. Calçavas chinellas de setim. Nús, trazias os braços. Serena como sempre, no momento mesmo em que prejuravas,{148}não amaldiçoaste aquelle que vinhas saciar, por que ha em ti dois corações, para amar dois homens, Fanny, a elle, e a mim.Fanny sacudiu rapidamente a cabeça, e disse com voz abafada:«É falso! é falso! tu não me conheces!—Será preciso dizer mais?... Exprobraste-lhe a traição, que é certissima. Defendeu-se elle, a sorrir. Tu, cem vezes, passaste diante de teu marido, por que querias fascinal-o, sem lh'o dar a intender, com os teus exteriores pudibundos. Sahiu-te tudo ao pintar, por que elle puchou-te para sobre o coração, e tu deixaste-te sentar sobre os joelhos, e nem de mim te lembravas, de mim, a agonisar, com aquelle espectaculo diante...«Basta!»—exclamou Fanny, e ficou a olhar para mim. Parecia soffrer horrorosamente; mas não chorava. Dilatavam-se-lhe as pupilas, e crispavam os labios resequidos. Com pena d'ella, baixei os olhos, mas accrescentei:—Sabe que eu estive ali, eu, que te adorava, e é de crêr que a vergonha e a dôr não matem, por que eu vi tudo, e não morri.Como duas estatuas fronteiras, nas bordas d'um jazigo, assim ficamos em contemplação, e immoveis. Por fim, disse ella:«Eu devo fazer-te horror!—Fazes.Ergueu-se, levantou as mãos ao céo, lançou-se a mim, como sobre uma preza, apertou-me entre os braços, sentou-se-me nos joelhos, peito a peito, e a buscar-me os labios, com estas exclamações:{149}—Não importa! eu adoro-te sempre.Mas eu, levantando-me, sacudi-a, e atirei-a ao chão, e ella ahi ficou. Abismada a meus pés, como a Magdalena, soltas as tranças, nodados os braços aos meus joelhos, desfeita em pranto, exclamava:«Perdão! piedade! Eu tinha perdido o juizo! estava doida! mas amo-te sempre! Tem compaixão de mim.E prometteu submetter-se a tudo que eu exigisse d'ella. Propôz-me a fuga, bradando:«Mata-me, e não me repulses! Esmaga-me aos teus pés. Sou culpada, mas não me abandones. Amo-te. Rasga-me o coração...Fiz que se erguesse e sentasse. Estava corada, e escondia o rosto; mas eu sentia-me impiedoso. Recrudescera o meu furor com a narração do meu supplicio. Voltei as costas áquella mulher, cuja soberba, por tanto tempo me mentira. Ainda assim queria ella violentar-me, estendendo para mim os braços; mas fiz-lh'os recuar á face, com um gesto.—Sabe que te detesto e adoro—disse-lhe eu—É isto o meu castigo, por que eu fiz minha, a mulher d'outro, e devo ser castigado. Tu, para mim, és uma deshonra, e mais nada. És um idolo attascado em lama. Vi-te, em attitude pudica, com o rosto angelical, e olhar infantil; vi-te grotesca e disforme, raivar e uivar, como a loba mordida pelos cães. Cala-te! tu fizeste peor que as creaturas com quem esse homem hediondo te compara: essas, ao menos, não mentem.«Mas elle é meu marido!—disse Fanny.—Não tens consciencia? Diz-me com franqueza{150}se é certo seres tu um ser intelligente, e se uma idéa dirigiu a tua acção funesta. Quem te obrigava a ir procural-o?Fanny, com grande esforço, respondeu:«Eu via que elle se desprendia de mim. Não o amo, por que te amo, mas dependendo d'elle. Não é natural? Repartida entre o desejo de conservar sua affeição, e o receio de ser forçada a mostrar-lhe uma affeição semelhante, quiz segural-o quando me fugia, e, quando se approxima, é escusado tentar eu fugir-lhe. Cedi ao dever. Reciei que me deixasse. O temor de me vêr abandonada com os meus filhos, inlouqueceu-me. Perdoa-me. A mulher, que elle conheceu em Londres, é a causa de tudo. Eu preciso de paz, socega-me tu. Fiz mal, por que te amo; mas sou mulher, e tu não conheces as mulheres. Não calculas quanta honestidade pode haver nas traições d'ellas.—E o teu juramento?—exclamei. Fanny contorcia as mãos afflictivamente. Eu prosegui:—Mentes, quando dizes que cedeste ao dever. Não cedeste senão ao orgulho. Intristecia-te o ser abandonada por esse homem que não amas, e te não ama, e te opprime, e te despreza e insulta. Não cedeste tambem á sêde d'um prazer abominavel? Repito-te que ouvi tudo.Neste conflicto, encontraram-se os nossos olhos. Fanny fez-se escarlate, quiz fugir, tornou para mim, e cahiu de joelhos, exclamando:«Se soubesses quanto eu me abomino! Eu queria arrancar o coração deste corpo. O meu coração está puro. Vêr-te, ouvir-te, sentir-te ao meu{151}lado, bastára-me sempre. Por isso mesmo que te amo, é que tu és o unico ente, mais que homem para mim. Tu és neste mundo o meu amor unico. És a minha vida.—Amas-me!—bradei eu com raiva.—Mas de que modo me amas? Acima de mim, em teu coração tão puro, estão vãs considerações do mundo, razões de sociedade, costumeiras mesquinhas, está teu marido. Não me falles de teus filhos. Que amor é aquelle que não conhece a virtude dos sacrificios? que recua diante de qualquer respeito? que é limitado? que soffre prescripções? que não é uma abnegação absoluta do individuo, de todos os seus pensamentos, e affectos, e deveres e virtudes? Quem se perde pelo ente que ama, e destroe a honra e segurança do seu futuro, e chega, por amor delle, até ao crime, e se tortura a inventar maiores provas ainda, não dá o mais radioso testemunho da paixão exclusiva, intolerante, e soberba. Tu nunca soubeste que o amor não vive senão de si, e nada reserva fóra de si. Renegado sublime, piza os mais santos objectos, forte da felicidade que inventa, e que lhe justifica a impassibilidade. Porém, tu! mulher das dedicações mesquinhas, das virtudes pequenas, dos deveres timidos, chamas loucura a tudo isto. É alto de mais para ti! a tua vista não alcança tanto. O que tens, superior a ti, é a tua casa, é o teu bem-estar, é o luxo que te cerca, é a falsa estima do mundo que tanto se dá de ti como das outras, são as relações banaes, é um complexo de coisas miseraveis. E dizes que me amas! Supportarias tu o abandono da sociedade?{152}Offereci-te tudo que tinha; dar-t'o era a minha felicidade; para ti roubaria eu os indigentes. Ainda assim, aceitarias tu o menor incommodo como preço da minha felicidade? Não ultrajes, pois, o amor, a paixão soberanna, que não quer ouvir em redor do seu throno, uma voz que não seja a sua. Crês que amas por te haveres entregado? Vai, já te disse que vi tudo. Estavas com elle como commigo. Custou-te tanto a passar dos meus braços para os delle como d'um vestido para outro.Fanny, ergueu-se desesperada, e quiz partir; mas eu retive-a, atirei-a para o fundo da alcova, e collocando-me diante da porta, com os braços cruzados, exclamei:—Hasde ouvir tudo!Faltou-me a expressão. Arquejava de anciedade. As minhas palavras eram gritos. Cerrei os punhos em postura ameaçadora; Fanny olhava-me de revéz com inexpremivel terror. As palavras vieram, depois, impetuosas:—Eu nunca tive crença em ti. Tanta certeza eu tinha de que me atraiçoavas, que, por minha desgraça, quiz conspurcar o nosso amor. Sabe-o, se nunca o supposeste; sabe que eu, teu adorador, atraiçoei-te com as mais rasteiras mulheres.Fanny não me acreditava. Attribuia á impotencia do furor o que eu dissera, e fez um gesto de denegação soberba. Máo grado meu, repassado de angustia, fallei n'um tom de voz supplicante, e branda. Toda a minha cólera cahiu sob o pezo da piedade.—Sabe, pois, murmurei eu com as mãos erguidas,{153}que eu te amava ao mesmo tempo com amor de mãe, de mulher, de creança. Quanta piedade, respeito, e ternura que podem resumir-se em amor no coração, quantas delicias, tocam a divinisação pela maviosidade, todas senti por ti, desde o primeiro dia em que te vi passar com tuas graças, com a tua serena suavidade, com a tua formosura. Sabe que te adorei piedosamente; que só em ti pensava; que eras a minha segunda alma; que me doiam mais teus males que os meus; que, por desvanecer-te do animo uma incerteza, teria dado, risonho, a vida, que eu só amava por que te era aprazivel. Vê que choro. Tudo que era teu, amei: teus filhos, tua mãe, tua casa, teus creados; as irregularidades irritaveis do teu caracter, os teus vestidos, e as tuas rendas. Creio até que o amava a elle, por que, em meu espirito, a tua imagem andava associada á d'elle. Nem minha mãe amei como a ti. Por ti, têl-a-hia abandonado, com tudo que venero. Eras o meu eterno espirito, o meu bem mais caro, a imagem perfeita das coisas puras.
Parece que, ao jantar, em poucas palavras annunciara elle os seus projectos a Fanny. Mostrara-se tranquillo, meditativo, quasi affectuoso. Gracejou com Fanny sobre o seu ar melancolico, motivado pela vida absurda do campo. Brincou com os filhos. Foi polido, como sempre, com os creados que o serviam. Ao pospasto, levantou-se, pedio um charuto, accendeu-o, e dirigiu-se ao pavilhão, com Fanny sobraçada, dizendo-lhe frioleiras com geito amavel. Como os filhos os seguissem, brincando na relva, foi ter com elles, abraçou-os, despediu-os, e pediu-lhes affectuosamente que fossem brincar mais longe. Depois, assentou-se no divan do pavilhão, cuja porta estava aberta, fumando o charuto, e bebendo, o seu café aos golinhos. Ao cerrar da noite, veio o escudeiro com a luz. Pediu-lhe que mandasse pôr os cavallos á carruagem. Até ahi dissera sómente frivolidades com ar festivo; mas, retirado o escudeiro, ergueu-se a fechar a porta, tirou tranquillamente do bolso um papel sellado, e disse a sua mulher:{103}
«Minha querida, escreve a tua assignatura ao lado da minha no fundo d'esta folha de papel.
Fanny pegou da penna que elle lhe offerecia, mas, antes de escrever, disse-lhe:
—Que são estes engrimanços que eu assigno?
«Não é mais que um instrumento de doação reciproca de todos os nossos bens.
Fanny depoz a penna sobre a meza, e perguntou-lhe mansamente algumas explicações sobre o uso que elle ia fazer d'aquillo. O homem avincou a testa, e annunciou-lhe que, por algum tempo, ia «reassumir o negocio, e carecia de muito dinheiro.»
—Não somos nós já bastante ricos?—disse Fanny.
«Não.
—Então vai ser exposto o meu dote?
A esta pergunta, encarou-a carrancudo, e respondeu provocante e glacialmente:
«Sim.
—Então não assigno—disse ella como atterrada da sua coragem—porque não quero expor os bens de nossos filhos.
Foi então que estalou a borrasca. Foi curta, mas pavorosa. Vendo-se contrariado por uma impossibilidade, o déspota rugiu de furor. Pela primeira vez em a sua vida, travou do braço da esposa, apertando-lho para obrigal-a a assignar, e pizou-lh'o. Fanny supportou, não respondeu, nem chorou. Cumularam-se sobre ella desprezos, incriminações, injurias, todos os insultos e vilanias compendiadas pela recordação das passadas. Veio tambem a affronta suprema, a palavra fatal, estalar na lingua do insultador.{104}Ahi é que Fanny chorou, soluçou e decidiu-se a assignar. Serenou logo o marido: agradeceu, e quiz beijar-lhe a mão; ella, porém, mostrando-lhe o braço contuzo, disse:
—Não é por isto, Deus me é testemunha, que eu o desprezo; é pela covardia do insulto. Dito isto, elle pediu perdão por de mais, chamou-lhe creança e má cabeça, abraçou-a por força, chamou o cocheiro e partiu.
Logo que Fanny, cedendo ás minhas instancias, me contou aquelles extraordinarios successos,—não ordenados como os eu repito, mas em fragmentos incoherentes, misturados de raptos de rancor;—logo que eu nada tive que indagar, e que ella immudeceu por não ter nada que contasse, ficamos algum tempo a contemplar-nos silenciosos, á luz tibia das estrellas, com spasmo temeroso. Alguma coisa formidavel se estava erguendo entre nós modificando estranhamente a nossa situação.
Eu não pude, ainda assim, entrar logo na averiguação dos factos que, forçosamente, deviam derivar d'aquella surprehendente confissão. Eu, vendo Fanny ainda pallida, descompostos os cabellos, e tremula, só pensava na sua humilhação.—É pois{105}desgraçada!—disse eu no intimo da minha alma. Tirei-a a mim suavemente pelo colo, busquei-lhe os labios, e abriguei-a nos meus braços com o ardor da esperança e da piedade.
Oh! como foi longo, estreito e desesperado aquelle abraço! Com elle se esposaram nossas almas, e ali sentimos o que ha de piedade na mudez d'aquelle apertar, de consolações nos suspiros, e que sympathia reflorece da mixtão das lagrimas! Éramos sósinhos, silenciosos, n'uma vaga escuridão, adornada pelo tibio alumiar de noite de estio. O desalinho dos vestidos de Fanny, o cansaço de chorar que a retinha deitada nos meus braços, o pejo d'uma confissão, que, posto que lhe desse alivio á alma, lhe opprimia o orgulho pela primeira vez; a felicidade de nos revermos mais amantes, mais alliançados que nunca, após uma scena terrivel que devia desligar-nos: isso tudo insinuava-nos não sei que desaffôgo de expansão reciproca, mesclada de amargura e dulcificação. Emquanto meus labios lhe rossavam de leve os longos cabellos desannelados, surprehendia-lhe no coração a velocidade de movimentos que se me figuravam surdas expressões de cólera. O arrepender-se de ter defendido por tanto tempo e nobremente, contra os meus ataques, aquelle que lhe era um jugo na vida, arrancava-lhe gritos de uma ironia implacavel. A irritação do insulto, e a indignação do aviltamento immerecido, apertava-lhe os braços em volta do meu pescoço mais energicamente do que nunca o fizera o amor. Ao mesmo tempo, o pesar de ter flagellado o amante, cuja só presença lhe estava sendo a mais terna das{106}consolações, como a mais rapida e segura das vinganças, inspirava-lhe a submissão e a supplica. A lembrança do meu rival, presente a nós, ajuntava uma acrimonia angustiosa aos beijos d'ella, e uma dôr infinita ás minhas caricias; e n'aquelle instante ao menos, em que, sem fallar, trocamos tantas sensações e idéas bem comprehensiveis, Fanny, estava emfim, na minha idealidade, absolutamente, e para sempre, tão ligada a mim quanto apartada d'elle.
Quando recobramos a palavra, o furor, reconcentrado em mim, fez subita explosão.
Fanny ficou estupefacta. Pronunciei, como um demente, palavras ardentes, sem nexo. Uma especie de loucura acerava, como laminas de um punhal, cada uma das minhas phrazes, e a raiva hervava-as de peçonha a mais corrosiva.
O sentimento da impotencia da vingança, a certeza de que os males d'aquella mulher deviam renovar-se infinitamente, e os meus ciumes passados, e mais que tudo, a memoria das nossas deploraveis questões, causadas por aquelle indigno homem, faziam-me offegar de colera como homem que acaba de levar uma bofetada, e não pode despedaçar entre as mãos aquelle que lhe gravou o ferrete{107}deshonroso... Na minha demencia, parecia-me que o amor de Fanny, perdia tanto do seu valor, quanto mais desgraçada ella era; e, envergonhado d'esta atroz idéa, meditava em matar, e dar por ella a minha vida. Fanny, porém, ainda abatida, mais queria ser consolada que vingada.
Abraçou-me, e, coisa estranha! foi ella que me affagou para me pacificar.
Passei o dia seguinte a recordar tudo o que tinha sabido. Havia muito que eu não sentira, como então, o espirito desoprimido de duvida.
Um feliz provir se descortinava ante os meus olhos, depois de tão tormentoso passado, como serenos valles e descampados aos olhos do viajante que desce a ladeira escarpada de perigosas serranias. A esperança d'uma existencia quieta refrigera a alma como a briza da tarde que succede aos ardores do dia, e agora tudo me convidava a repousar-me á borda da senda facil, que docemente se aplanava debaixo de meus pés contusos. A serenidade dos dias, a auzencia das inquietações, eram a minha prespectiva. Pensava n'isto sempre, e minha alma enlevada derramava-se em effluvios de reconhecimento ao acaso que se cansara, emfim, de me transviar.{108}
Entrava n'este sonho necessariamente a imagem de Fanny. Era a companheira que me seguira através dos abysmos da paixão. Soffrera irmamente commigo a longura das caminhadas, a incerteza do fim, os espinhos occultos sobre os quaes, juntos, laceravamos os pés. A mesma dôr nos arraiara de sangue os olhos, e abrazára os nossos halitos. A ancia do repouso sentiramol-a ambos ao mesmo tempo. E, como se fosse preciso que o mais debil dos dois soffresse mais, Fanny dava-me alentos para a resignação, e com as mãos trementes enxugava-me da fronte o suor do desespero, e ao mesmo tempo escondia-me dôres e trances particulares que ella suportava heroicamente para me não angustiar.
Mas agora esses desgostos que eu surprehendera, estavam sanados. Renascer não poderiam mais. Ambos livres do phantasma que tão cruelmente nos perseguira, podiamos, em fim, senhores de nossas acções, compensarmo-nos amplamente do supplicio e dos terrores. Á maneira de dois fugitivos, que não deixaram pégadas, e vão ás bordas das fontes, e á sombra dos bosques silenciosos, sacudir o pó das sandalias, nós nos íamos, emfim, vingar da sorte estupida, esquecendo os tormentos que nos infligiramos.
D'est'arte sonhava eu, a sós commigo, contemplando a imagem querida de Fanny que me sorria entre as mãos, cingida em moldura de ouro, como d'uma aureola. Assim me comprazia dispondo ante nós as paragens do nosso futuro.
Nunca eu afagara mais cruel illusão!{109}
O dia em que tornei a vêr Fanny, era um dia explendido!
Veio a minha casa, de manhã, deliciosamente vestida, como para celebrar dignamente as nupcias da nossa felicidade. O seu vestido côr de malva, que tão gentilmente condizia com a frescura da sua pelle, resplendia sobre as fórmas esbeltas e finas, e caia-lhe em reverberos, sobre os pés. Os braços meio nús, sobresahiam das rendas das mangas, com reflexos baços como os de marfim não lustrado ainda. Do corpete chanfrado sobre o seio elevava-se, um pouco inclinado, o colo alvissimo. Por de sobre as faces ondulavam-lhe os cabellos.
Nenhum ruido nos perturbava, a não ser a campainha do relogio que não ouviamos, e, de longe em longe, o rodar precipitado e passageiro das carruagens, estremecendo a calçada. Conversamos, mais uma vez, sós por sós. Fanny comeu pouco, sorrindo, como a pedir perdão. Eu ergui-me para servil-a, e abraçava-a na passagem. Ella ministrava-me o vinho, com graça, vertendo-o d'alto, e eu todo me enlevava na formosura d'aquelle braço que se inquadrava no vacuo sombrio da sua larga manga. Nunca o nosso quarto nos parecera tão bonito! Queriamos d'alli não sahir mais!{110}
Ergueu-se Fanny, e foi sentar-se no diwan. Colloquei-me a seus pés sobre uma almofada, com o cotovello sobre o joelho d'ella, e longo tempo estivemos assim mudos a contemplar-nos. Com uma de suas mãos, intromettidas nos seus cabellos, levantava-os aos tufos, e devidia-os. E eu beijava-lhe a outra mão, travada na minha.
—Oh Fanny! se tu não fosses casada!...—dizia-lhe eu com paixão. E ella respondia:
—Oh Roger! se tu não fosses cioso!...
Não sei como se passou o dia; mas mui rapido passou! Em mutuos olhares de extasis, em abraços doidos de ternura, em ir e vir d'uma para outra camara, que horas tão instantaneas correram! Quiz saber a historia da minha vida. Contei-lh'a: era simplissima. Chorou ouvindo a narrativa da morte de minha mãe.
Muito havia que não estiveramos tão intimos, serenos, e felizes. O rancor atroz do ciume não nos separava. Expandimo-nos sem reverva: por isso mesmo foi completo o socêgo de nossas almas. Havia ali felicidade que bastaria á boa fortuna de dez amantes.
Cotejando em meu espirito aquelle dia singular com todos os precedentes, lembrou-me de repente a causa que, por mais d'um anno, nos fizera tão desgraçados. Rompeu de minha boca uma exclamação furiosa, e, por piedade das angustias de Fanny, tanto tempo escondidas, não pude conter-me que não exprobrasse o oppressor.
Fiquei como empedrado quando vi Fanny franzir então a testa, e morder os labios. Relanceou-lhe{111}rapida na face uma sensação, como o relampago silencioso que fende uma nuvem. Depois sorriu, e acalmou como o céo d'uma tarde estiva. Eu, porém, curei de indagar a causa d'aquella sensação dolorosa, e tornei-me pensativo e triste, por não sei que confusa remeniscencia.
Fanny retirou-se sem parecer notar em mim turvação alguma. Depois que sahiu, mil recordações uma apoz outras, como vagas d'um mar silencioso cumulavam-me o espirito. O porte de Fanny pareceu-me agora mais que nunca incomprehensivel.
—Esta mulher é a mais extraordinaria ou a mais vil das mulheres!—Disse, e repassei na memoria quanto sabia d'ella. Mas, outra vez ainda, tudo me pareceu contradictorio em sua indole.—Por que defendia o meu rival quando eu ignorava as suas violencias? Por que o accusou depois? Por que impallidece agora se me ouve reprovar as acções do homem que a ultraja? Oh! é possivel supporte tamanhos despresos, vexações tão aviltantes, e conserve a minima affeição a um homem que a tortura e humilha!! Indecifravel enigma. Ama-me ella? Ama o marido? Que ha ahi de commum entre essa mistura de seres, de sentimentos, de calculos, de{112}transações, e o amor, esta paixão absoluta, intolerante, e exclusiva? Deste modo ajuntava, separava, e confundia todos os factos da nossa existencia commum sem poder desinredar o inextricavel fio da meada. Cada facto, por seu turno, vibrava-me no ouvido, como um som agudo; e, á maneira d'um clamor synistro, estrondeando por sobre tudo, rugia incessante aquella palavra da consciencia de Fanny, proferida, um dia, para meu supplicio:
—Eu mentiria se dissesse que o não estimo.
Desde então, illaqueado mais estreitamente que nunca na rede das incertezas, um só desejo me dominava—tirar de Fanny a explicação do seu caracter, não interrogando-a, mas compelindo-a a extremos indicativos.
Aggredi acintemente o marido deante de Fanny: difficil fôra o defendel-o, por que o ataque era dirigido ás violencias que lhe eram a ella feitas. Limitou-se, primeiro, ao silencio, erguendo ao céo os olhos, por que eu a estava pranteando; depois, mostrou-se descontente da asperesa das minhas palavras. Repentinamente lhe assomou á face o sangue, os labios cerraram-se, as palpebras descahiram, isto a tempo que eu lhe estava exaltando a{113}resignação para melhor accusar os caprichos do marido. Obedeceu, por fim, á sua eterna preoccupação, e disse-me:
—Não fallemos mais de tal: tudo isso é triste; mas eu sou obrigada a submetter-me. Ao cabo de tudo, sempre é meu marido!
Estas palavras nem me espantaram nem indignaram. Esperava-as. Sorri com amargura, ouvindo-as dos labios da mulher estremecida. Eu passeava d'um para o outro lado no meu quarto, e ella seguia-me com a vista.
—É a derradeira illusão que morre!—exclamei eu.
Fanny pediu-me a significação d'estas palavras, e eu recusei dar-lh'a, e disse:
—Já são que farte as questões que temos ha um anno; por minha vez, te rogo que não te importe saber o que se passa em mim. Amemo-n'os taes quaes somos. Por mais que desesperemos e resistamos nunca se mudará a nossa indole.{114}
Durante a ausencia do marido, que foi de mais de seis mezes, houveram grandes alterações na nossa vida. Eu via Fanny quasi todos os dias. Ambos abusavamos da liberdade d'ella! Vinha passar commigo todo o tempo disponivel. Frequentes vezes jantavamos juntos. Encontravamo-nos nos passeios e no theatro, e nas lojas. Aqui, sem nos mostrarmos conhecidos, trocavamos olhares furtivos, e, perpassando ao longo dos balcões, sentiamos as delicias instantaneas do contacto. Escreviamos, além d'isso tudo, cartas infinitas, e trocavamos flôres.
Fanny esmerava-se em attenções, para compensar-me do mal que me fazia. Liberalisava-me aquelles delicados disvellos que as mulheres aguardam dos homens, e dos quaes disvellos são tão economicas, quando se dignam conceder-lh'os. Beijava-me a mão, chamava-me seu querido filho, mostrava-se submissa, e esmerava-se por que não houvesse coisa que turvasse a serenidade da minha vida. Nunca, porém, tratando-me como dominador, se rebaixava. Ajoelhada deante de mim, tinha a inteira dignidade d'uma rainha.
Ás vezes, quando as bellas noites do outono eram mais balsamicas e suaves que as do estio, fugiamos{115}da cidade, como aves cansadas do calôr do dia. Hombro com hombro, recostados ao respaldo d'uma carruagem fechada, com as mãos inlaçadas silenciosos, iamos ao bosque buscar um pouco de ar, de silencio, e de solidão. Rentes comnosco passavam fogosas parelhas tirando por grandes calexes descobertos, cheios de mulheres risonhas cujos véos fluctuavam ao vento. Ouviamos o fremito das rodas na areia, o resfolgar dos cavallos, e o estalido dos chicotes. Viamos agitarem-se entre as arvores as luzes das lanternas, e mirarem-se na agua morta dos lagos as sombras espessas dos bosquesinhos de pinheiros. A lua, ás vezes tão melancolicamente ingastada no céo como nodoa de prata, alumiava grandes moutas de espinheiros, donde subiam, razando as hervas, nuvens alvas de vapor. Ebrios do aroma das carvalheiras, e da mollidão dos nevoeiros luminosos, apeavamos no angulo d'algum caminho estreito, e nos intranhavamos por debaixo da arcaria de immoveis arvores, passeando vagarosamente, mais perdidos em nosso scismar do que o estava a verde folhagem á sombra da noite linda. Era delicioso aquelle momento em que Fanny, infadada, se me pendia do braço, e justapunha a sua espadua á minha! Não fallavamos, sentia-se ali o viver, ouviamos as nossas respirações; e, assim unidos, achavamos doçura estranha n'aquelle nosso silencio e na incerteza de nossos passos.
Algumas vezes, com tudo, suscitavam-se ligeiras discussões, remeniscencias attenuadas de antigas discordias. Fanny, porém, tomando-me, a rir, pelo que eu era, uma creança, ou fazia que me não intendia,{116}ou, sacudindo-me o braço em ar de gracejo, dizia:
—Ora vamos, não se falla aqui do que já lá vae.
Todos os lados accessiveis da minha vida ia-os ella penetrando cada vez mais. Como queria tudo saber, imperiosamente se senhoreava de tudo, passado, presente, e dispunha de tudo, a bel-prazer do futuro. Eu pensava em tudo como ella. Se me dava conselhos eu seguia-os como ordens. Em minha casa era ella que dirigia tudo. Os moveis como que se moviam espontaneamente para se collocarem nos logares designados por ella; os quadros entravam n'outras molduras; os espelhos inclinavam-se á vontade d'ella para lhe espelharem por toda a parte a imagem. Era-me prazer grande o vêl-a assim dispôr do que era meu. A minha casa, tornada sua, parecia afeminada. Já lá se não viam por sobre as mezas esporas, chicotes, caixas de charutos; nem junto das paredes tropheus de armas quarteadas; mas, em logar d'isto, estavam bocetas de flôres, alvissimas caças rojando sobre os tapetes, mobilia colorida a lacca e incrustações de Boule, e caixas de perfumarias. Levantavam-se do tapete agulhas e fios de seda e lã: no rebordo da chaminé brilhavam o dedal e as thesouras.
Foram, no drama da nossa vida, esses seis mezes uma especie de entre-acto. Nada nos faltava para a felicidade, excepto a confiança. Fanny estava sempre sobre-rolda receando ataque improviso, e eu conservava no coração um certo azedume. Não havia consolar-me de não ter podido vencer os escrupulos da mulher que eu tanto amava.{117}
Cheguei á fraqueza piegas de pedir-lhe conselhos para a direcção dos meus bens. Fanny não entendia nada de negocios, mas dava aproveitaveis pareceres, porque eram sempre dictados por um espirito de desconfiança feminil. Pois não a consultava eu até em compras de cavallos? No tocante ao vestir era ella quem decidia soberanamente dos feitios e das côres. Arranjava a minha roupa branca, a rir, erguida em pontas dos pés para chegar aos lotes dos armarios, e intromettia-lhe bolsinhas odoriferas que trazia comsigo, e nunca pude encontrar n'outra parte. Todos os instantes dos meus dias estavam, em fim, contados. Não dava um passo sem sua approvação; não comprava luvas ou gravatas que ella não elegesse. O numero dos meus amigos fixou-o ella. Desprezei tres, porque tinham nomes que não agradavam a Fanny. Tudo isto me parecia delicioso. Viver sem ella é que eu não podia por mais que fizesse. Estava enfeitiçado.
Mas o meu ciume, esse não estava morto, nem se quer entorpecido: apenas tinha variado um pouco de objecto. Desde que o marido estava auzente, já não podia soffrer por causa de uma partilha que não existia; mas os menores sentimentos que Fanny{118}me deixava adivinhar, inquietavam-me. Afóra os filhos, e a mãe que ella via ás escondidas, eu não lhe consentia amar ninguem. Fanny sorria, encolhendo os hombros. D'este modo nos tyrannisavamos mutuamente.
Um dia, quando eu lhe tirava o «corpete», uma carta grande e quadrada—lhe fôra entregue quando saía de sua casa—escorregou-lhe do peito e caiu aos meus pés. Levantei-a. Tinha o sêllo de Londres. Encarei Fanny, que, pallida, estendia a mão tremula a tomal-a.
«Teu marido escreve-te?» disse-lhe eu, entregando-lh'a.
—Que pergunta!—disse ella.
—Escreve-te regularmente?—ajuntei eu, depois d'um momento de silencio, durante o qual eu sentia as garras do meu antigo furor atassalhar-me o espirito.
—Pois então!... disse ella—todas as semanas.
«Porque te escreve elle?... Separados por tão violenta discussão, parecia que os corações deviam separar-se para sempre.
Fanny olhou-me com espanto e ficou pensativa. Mas, como eu esperasse resposta, replicou:
—Espantam-te sempre as mais singelas coisas. Não é natural que meu marido me diga dos seus negocios, e me falle dos seus filhos?
«É justo... Eu não tinha pensado n'isso—murmurei.
Fallou-se de muitas coisas; mas, a sós commigo, reflexionei immenso.
«Respondes ás cartas de teu marido?{119}
Fanny fez-se livida, hesitou, e deu signaes de impaciencia. Depois simulou um ar de indifferença, respondendo:
—Escrevo-lhe raras vezes;
—Sim? e, diz-me cá, que lhe escreves?
—Não sei. Escrevo-lhe friamente. Falla-se de negocios. Isto não te interessa nada.
Fiquei um tanto inleado; mas não pude reprimir-me.
—Como é que nunca tiveste a idéa de mostrar-me as cartas de teu marido?
Roger! Roger!—exclamou sorrindo contrafeita—eu creio que estás louco! Uma mulher póde por ventura confiar a alguem, principalmente áquelle que ama, o segredo dos negocios de seu marido?
—Tambem é verdade—murmurei eu.
Fanny quiz logo aproveitar a vantagem que obtivera.
—Feliz seria eu, disse ella, podendo mostrar-te essas cartas que te dão tanto que pensar. Provar-te-iam que é uma sem-razão recear alguma coisa. Sabe, pois, espirito desconfiado, que não se póde viver em menos união do que eu vivo com meu marido.
—De certo!
—Como podes suspeitar o contrario depois que te confiei as minhas amarguras?
—D'antes, tambem me confiavas o segredo dos negocios domesticos: não esqueças isto, Fanny.
—Oh! hoje é muito differente.
—Porque?
—Porque... cá me entendo.{120}
Isto fez-me reflectir novamente. Fanny levou as mãos ao céo com piedosa expressão; eu estava como involto nas sombras da morte. E assim nos contemplavamos. Era-me impossivel a quietação. Agitava-me d'um para outro lado.
—Se dizes a verdade, Fanny, por que me não mostras as cartas que lhe mandas?
—Não é possivel. Quem lêsse uma, comprehenderia as outras.
—Não obstante, eu bem quizera conhecer o tom das tuas cartas. Porque lhe não escreves agora, mesmo aqui? Falla-lhe de tudo menos do que não quizeres que eu comprehenda. Eu mesmo levo a carta ao correio. Supplico-te, Fanny... Se nada temes de ti, dá-me esta prova de confiança, para me tranquillisar que eu soffro muito.
—Não é possivel—redarguiu ella, com signaes de offendida.
A raiva que me devorava o coração estalou desassombrada:
—Que lhe escreves tu que não queres que eu saiba? Juraste matar-me? Falla, se tens na alma sombra de piedade! Torturas-me barbaramente como um algoz!
Fanny ergueu-se, pegou-me da mão e disse brandamente:
—Roger, eu não queria magoar-te.
—Pois que! que mais querias tu fazer-me? Vae! Tu és mulher de duas caras; eu nunca fui amado por ti!
A esta phrase injusta, lançou-se-me ao pescoço, abafando-me com beijos as palavras. Eu continuei:{121}
«Como podiam magoar-me as tuas cartas, se, depois d'essa horrivel contestação, ficaste despeitada com teu marido?
—Sê rasoavel: uma mulher póde ficar despeitada com seu marido?
«Pois que?—exclamei furtando-me aos braços d'ella—tu perdoaste-lhe?
—Rigorosamente não—disse ella, sentando-se quebrantada—mas foi-me preciso acceitar as suas desculpas. D'esta vez, ainda assim, está tu certo que não esquecerei mais os ultrages passados.
«Perdoaste-lhe! perdoaste-lhe, Fanny!—Bradei, de pé em frente della, que olhava para mim assombrada—Não tens, pois, dignidade alguma? Não te sentes das injurias? És assim vil? Amal-o? Mentiste-me, pois, a mim? Ah! isto é que eu não acreditaria nunca!
Fanny continuava a ouvir-me silenciosa.
«Diz-me cá: por que me occultaste tanto tempo que elle te insultava?
—Não queria deshonral-o. Se tivesses mais alguma experiencia, não te espantarias do que succede. Em summa, eu não quero fallar mais n'isto. Seja-te bastante saber que se me elle restringe a liberdade, ou diz arrebatado coisas indignas, tem pesar do que faz e diz, passada a colera. Affirmo-te que o julgas mal. É possivel que eu exaggerasse os factos no primeiro momento da indignação.. mas.
«Calla-te!—bradei eu—se tens pudôr, calla-te! Ha uma coisa que parece passar-te desapercebida, e é que, á proporção que vaes fallando, não sei que idéa peçonhenta lucta, em mim, com o meu amor.{122}Não accrescentes uma só palavra. Acceito ainda isso, por que sou vil, por que sou um fraco, por que te amo muito, por que não posso dissuadir-me de te amar; mas sabe tu que maior mal não m'o podias fazer. Supplico-t'o—não digas mais nada.
E lançando-me a seus pés, exclamei:
«O despresares-te a ti propria, seria, sobre tudo, cruelissimo!
Sempre que tivessemos algumas dessas deploraveis luctas o apartamento era frio, e eu ficava dias inteiros a reluctar com a memoria d'ella. Mentalmente eu reproduzia os ataques e os argumentos, e inutilmente sondava a causa misteriosa do seu proceder. Eu era muito moço e inexperiente: avaliava-a mal. Aquella natureza complexa, que resumia no seu caracter muitos caractéres diversos, queria eu que visse as coisas absolutamente como eu as via. Eu, o que então sabia, era que as palavras: sentimento, amor, delicadeza, ciume, e outras assim, representavam para Fanny umas idéas, e para mim outras. Ignorava que o custoso para mim não o era para ella, e que lhe bastava sempre a boa intenção para indulgencial-a d'um facto, qualquer que fosse. Em mim, não descontava nada á sua fraqueza. Depois é que apprendi a conhecêl-a.{123}
Quantos maiores esforços eu fazia para desligar Fanny de seu marido, mais eu estreitava os vinculos relaxados por quinze annos de existencia commum. Fanny lastimava-me interiormente, mas eu devia ser-lhe pesado. Bem sentia eu que a importunava, mas não estava em mim deixar de a repellir de cada trincheira em que ella esperava o combate. Não me passava pela mente que o unico recurso para conseguir o meu fim, era mudar de tactica. Ninguem me havia dito que eu devia esconder o meu ciume, como principal causa da nossa separação. Que candura! Eu via nas manifestações do meu ciume provas de um amor que devia abalal-a. E, com tudo, tão facil me seria serenar-lhe a vida a ponto de a forçar a comparações, com vantagens minhas, entre os dois homens de quem ella dependia. Mas mais simples que tudo seria não amal-a!...
Ama ella o marido? Não acredito, nunca o acreditei. Um sentimento banal, resultante do costume e agradavel ás almas pacificas, porque naturalmente continúa as coisas, e não cansa o espirito em mudanças, esse devia tel-o. E o vêr o despota humanisado diante d'ella, commovia-a; e o receber caricias da mesma mão que a castigava rudemente, dava-lhe uma especie de satisfação. Não era isto fraqueza nem ingenita baixeza de animo; era uma certa indifferença de genio, explicavel na idade d'ella Fanny, em fim, certo, não tinha uma alma varonil, nem mesmo uma alma muito nobre, por que antes queria astuciar que combater, e antepunha o aviltar-se, repartindo-se, que transtornar o seu viver;{124}era, porém dotada de alma recta. Cuidava, certamente, que se resgatava, em sua consciencia, da perfidia conjugal com uma submissão completa. Até certo ponto, era indemnisar o marido, o tolerar-lhe os caprichos do genio. Em que restingas, em que abysmos, em que cahos de coisas sem nome, a probidade, esta rara perola, se esconde?
Era urgente que eu accedesse á nova concessão do aproximarem-se os esposos. Mas de concessão em concessão lá se ia, desfeita em lagrimas, a minha estima. Eu humilhava-me como o escravo que não póde resistir, com gritos de raiva surda, e desejos immensos de vingança. Ah! se Fanny soubesse que ella devia accusar-se só a si da minha abominavel vingança!
Inraivecido por não poder vencer a pertinacia do caracter de Fanny, trahi-a. Amor e ciume, quiz{125}tentar matal-os na devassidão. Conspurquei-me voluntariamente, e acintamente, ao contacto de labios impuros da luxuria estupida. Cada noite, de proposito, como ladrão que se embusca no angulo d'uma rua, entrava rindo sarcasticamente de mim mesmo, no infame prostibulo onde eu contava apagar a sêde de vingança. Sorria amargamente ainda, como traidor que pensa na confiança dos ludibriados, eu arrastava commigo, aos braços da mulher querida, a torpe recordação das creaturas degradadas, cujas caricias não tinha podido sevar-me o rancor; e deste modo eu achava um meio de identificar Fanny commigo, sem o ella saber, e ingolphal-a commigo nas mesmas execraveis immundices.
Mas era-me maior a vergonha na sahida que a cegueira do furor na entrada. Estorcia-me os pulsos na rua, e arrancava os cabellos desesperado. Mais ciumento, mais aferrado, mal vingado, castigado por minhas proprias mãos, martyrisava-me com o profundo pensamento da inutilidade dos meus esforços. Não sei que desgosto corporal me subia aos labios. Era um horror de mim mesmo. Vagava, de ventura, toda a noite, como miseravel sem abrigo, esperando vencer com a fadiga do corpo os tormentos do cerebro. Debruçado sobre o parapeito das pontes via redemoinhar a onda negra do Sena, menos sombria e mais lodacenta que os pensamentos, irriquietos do meu espirito attribulado. Eu chafurdava nos lamaçaes, como para destruir sobre immundices impalpaveis, a impalpavel, mas real immundice que imporcalhava o meu amor. E sempre diante de mim, perpassando como phantasma nas{126}sombras que se tiravam ao longo das ruas, via a imagem de Fanny, com o seu ar tranquillo, fronte serena, olhar sombrio, como que a visitar-me, mas forçando-me a pensar n'ella quando eu ia cuidando em matar-me para esquecêl-a. Oh! que terrivel estado aquelle, sem repouso nem treguas ás minhas angustias! que me exacerbava e prostrava! que incharcando no nôjo a minha desesperação, infamava o meu ciume sem applacal-o!
Sustentava-me, comtudo ainda, um resto de coragem, essencial na minha indole. Estas pelejas intimas davam-me alento. Resolvera buscar o remedio até encontral-o, e, não o tendo, emprehender algum arrojo de desesperado, para arrebatar Fanny, a pezar d'ella. Ninguem sabe os estragos que uma idéa fixa póde fazer d'uma alma. Incrivelmente vos vos roja até vêr o bem nas coisas repugnantes ás menos temerosas consciencias.
Após maduro reflectir, decidi-me ao penoso sacrificio da ultima concessão. Estava eu como um doente, que desenganado da cura, pactua com o mal, e dispõe-se de modo que seja menos o soffrimento no restante de seus dias.
«Tudo te perdôo!—disse eu a Fanny.»—nunca mais te fallarei dos nossos eternos motivos de discordia.{127}Não examinarei o teu proceder; não te sondarei os sentimentos; tudo te concêdo, tudo acceito, excepto a abominavel partilha que tanto me fez soffrer, e tão demorada tem sido. Não posso mais... antes quero vêr-te desgraçada; antes morta; quero morrer eu. Sê-me leal, supplico-t'o—accrescentei com tristeza—porque me faz um mal horrivel duvidar de ti.
—Pois bem, não haverá mais partilha—respondeu Fanny, com um aperto de mão—não te inquietes, não soffras mais. Quando meu marido voltar, approveito-me do pretexto dos ultimos insultos para impor-lhe condições. Viverei completamente separada d'elle em sua caza. E isto, por toda a vida Roger, socega, sê emfim feliz. Não dependia de mim o seres feliz ha mais tempo.
«Restitues-me a vida!—exclamei, lançando-me aos pés d'ella, e abraçando-os.
—Querido filho!
—Liguemo-nos por um juramento.
A isto sorriu-se ella, mas jurou solemnemente, dadas as mãos, e fixados mutuamente os olhos.
«E agora—disse eu—se por qualquer motivo, uma vez só, resolveres faltar á palavra, juras que me avisarás, para que não haja entre nós traição.
—Por que queres tu que eu jure.
«Pela minha vida.
Fanny sorriu outra vez, mas jurou solemnemente.
Depois d'isto fiquei totalmente tranquillo. Picou-me n'alma o ciume como a recordação de um sonho que de tempo a tempo, nos sobresalta. Reapreceu-me a vida bella e ampla. Confiava.{128}
E por isso a chegada do marido apenas me incommodou pela impossibilidade de me avistar tantas vezes com Fanny. Chegara o estio. Fanny habitava outra vez a sua casa campestre, e eu ia vêl-a algumas vezes, por noite, no caramanchão da tapada, e mais vezes vinha ella a Pariz, quando engenhava pretexto para passar fóra um dia. Mostrava-se mais livre que d'antes, pelo menos as visitas eram mais delongadas; mas, mais que d'antes, me pareceu pensativa e preoccupada. Attribui este enleio aos infadamentos procedidos da palavra que me dera. Entendo que novos debates, novos tormentos a faziam desgraçada; e, lastimando-a de todo o meu coração, animei-a á resistencia, e consolei-a quanto em mim cabia. Fanny, porém, denotava constrangimento, suspirava, e acolhia os meus beijos á flôr dos labios, como se tivesse esfriado em seu amor.
Estava escripto que tudo, na nossa historia, fosse extraordinario, e que eu não intendesse nunca o procedimento d'esta mulher. Logo que me eu persuadia de ter-lhe penetrado a nova tristeza—imputando-a a discordia que o respeito do seu juramento devia acarear—soube um facto que me atirou, mais que nunca, a um mar de incertezas.{129}
Recobrando o repouso do animo, dei-me a um viver menos solitario. Meus amigos procuravam-me, por que os eu procurara. Interessou-me, de novo, a sociedade. Um dia, com grande espanto, soube que, a respeito do marido de Fanny, vogavam boatos escandalosos. Dizia-se que, durante a sua ultima viagem a Inglaterra, se tinha elle namorado de uma irlandeza que se estreara no theatro da Rainha; que a tirara da scena; que a chamara para França, havia um mez. Diziam-se maravilhas da magnificencia em que elle a tinha. Era lindissima, alta e esbelta como Fanny, mas morena como as filhas do Norte, com bellas côres rosadas, e finos cabellos sedados que se desenrolavam languidamente em longos anneis até ao peito.
Jubiloso de nova tal, fiz tenção de lhanamente contal-a a Fanny, a fim de fortalecêl-a na resistencia, e ministrar-lhe um terrivel argumento contra o nosso inimigo, se elle se obstinasse em tormental-a. Nova surpreza me esperava, que devia sobrelevar todas as mais a prodigiosa altura.
Fanny, como tantas outras mulheres, atraiçoando seu marido, não queria que elle a atraiçoasse. Irritada pelo meu ar de triumpho, nem deu credito á realidade da historia, nem á sinceridade da justificação.
—Ou mangaram comsigo, ou o snr. forjou uma historia desinfadadamente, para me atormentar. O que me diz aborrece-me. A grosseria desses sentimentos enoja-me tanto que não posso perdoar-lhe, faça o que fizer. Saiba que meu marido ama-me sempre. A tristeza que soffre, de mais o demonstra.{130}O juramento que o snr. me arrancou, lealmente o tenho sustentado. Incumbe-lhe respeitar a minha sensibilidade, cessando de calumniar um homem que, por causa do snr., é desgraçado.
Foi tamanha a minha estupefacção, que nem me occorreu a idéa de censurar aquellas estranhas palavras. Fanny mortificava-me cruelmente fallando-me da «sua susceptibilidade, do seu juramento arrancado, da minha supposta calumnia» a proposito da infidelidade exactissima, do homem que eu detestava. Cuidava eu que Fanny se daria por feliz sabendo que, emfim, espontaneamente, o marido se afastava d'ella, como ella, desde muito, se afastara d'elle. Esperava eu acções da graça, e sahiu-me cólera, orgulho offendido, retaliações, que, a meu vêr, tinham as apparencias todas do ciume. Isto era para indoudecer!
Incutiram-se-me suspeitas novas, e estas, mais crueis mil vezes que quantas me haviam suppliciado. Desta vez, porém, o acceital-as docilmente, não me foi facil. Intranhara-se-me a desconfiança como vibora no coração, e o germen da peçonha, que ella ahi revessara, circulava-me nas veias.
O ciume resurgiu mais abrasado. A só escusa,{131}que podia mitigal-o, era imposssivel. Não era já da partilha que eu accusava Fanny; mas sim da mais rasteira traição. Resolvi esclarecer a incerteza, por todo o preço. Nada disse a Fanny, fingi-me longe de suspeitas. Menti no rosto como nas palavras. Affectei consummado comico, a maior liberdade de espirito, quando me estava a morte no coração.
Pela primeira vez na minha vida, fui homem. Por mim, e só commigo, fiz quanto cumpria para descobrir a verdade. Comprei, com um pseudonimo, a casa contigua á de Fanny. Instalei-me secretamente lá. Todo o dia, cosido com as portadas das janellas, escutava os menores rumores da casa visinha, e via tudo que lá entrava, como se estivesse á espera de vêr algum estranho entrar ahi a roubar-me a mulher que me era a vida. De noite, escoava-me através da sebe de arbustos que separavam os nossos quintaes, e andava debaixo das janellas de Fanny, como ladrão que estuda o edificio que quer assaltar. Assim apprendi os costumes da familia que eu espionava. O erguer, o comer, o deitar, sabia tudo. Via de manhã os creados abrirem portas e janellas, e ouvia o roedôr dos moveis, deslocados na limpeza dos quartos e da sala. Ás oito horas, o dono da casa descia ao jardim, onde encontrava os filhos. Ás nove apparecia Fanny em desalinho campestre. Dava com elle alguns passeios. Ás onze horas chamava a campainha ao almoço. Ao meio dia, esperava ocoupéá porta. O marido sahia, e só voltava ás sete horas para jantar. Muitas vezes, depois do meio dia, vi Fanny assentada na raiz d'uma arvore enorme, que assombrava largo{132}ambito, conversar com os filhos, lêr, ou occupada em algum trabalho de agulha. As visitas eram numerosas. Das tres ás seis horas, quando estava bonito o tempo, circuitava o grande taboleiro de relva, longa fileira de trens, cujos cavallos escarvavam na areia, á sombra das arvores, sacudindo os freios, a tempo que os bandos de senhoras e cavalheiros, assentados em cadeiras de bambu, riam, e bebiam gelados. Ao intardecer sahiam todos, e os homens faziam caracolar os cavallos á portinhola das carruagens, ou reunidos atraz dos trens, caminhavam lentamente fumando os seus charutos. Fanny recebia-as com uma graça incantadora: variava muito de vestidos, e da minha janella via eu que as mulheres examinavam detidamente os seus deliciosos enfeites, ao passo que ella, parecia descuriosa de si, como se sempre estivesse adornada, sem o saber. Raro sahia de noite, se o calôr não era ardente. O marido passeava então com ella; mas ordinariamente tornava para Pariz ás oito horas, e quando tornava, era por alta noite.
Nos dias em que nos uniamos em Pariz, Fanny entrava nocoupécom o marido.—Qual de nós é o enganado?—dizia eu commigo. Eu montava, e por travessas, e a galope, chegava a minha casa primeiro, e ahi era tão pouco preguntador quanto ella era meditativa. Era-o em toda a parte, em sua casa como na minha. Ao mesmo tempo, os passos do marido, mandava-os eu espiar. Nunca ia senão ao club, e a casa da amante. Aqui pernoitava algumas vezes. Fallava n'isso francamente aos seus amigos, e continuava a mostrar-se prodigo com ella em demasia.{133}Era um homem prefeitamente feliz. Não o attribulavam suspeitas nem inquietações: rico, pae de galantes filhos, uma mulher adoravel. Que lhe faltava? Eu invejava-o.
Mas não me bastava assistir á vida exterior da familia, cujos segredos eu queria conhecer. Ao cabo de quinze dias, vendo esteril a minha espionagem, cancei-me da futilidade d'ella. Obtivera apenas o direito de suppor que Fanny cumpria a palavra, por que o marido, passeando com ella, parecia exclusivamente entretido com os filhos. Além disso, a frequencia das visitas que ella recebia, estorvava-me de vêl-a concentrada em si, tanto quanto eu queria. Resolvi introduzir-me em sua casa, sem o ella saber. A frieza, com que me estava tractando, era assustadora. Distrahida sempre. Muitas vezes, com terrivel commoção, de longe a via, quando se julgava sósinha, cahir sobre um banco, e esconder n'um lenço, o rosto lavado de lagrimas. Em oito dias, centuplicaram as minhas suspeitas.
Por uma bella noite de agosto é que eu executei o horrivel designio, cujo exito devia decidir do meu destino. Não sei que hora era; mas, havia muito que as estrellas radiavam na face do céo a{134}sua suave claridade. Abri a ultima janella do primeiro andar da minha casa contigua á de Fanny, fixei a persiana contra a parede, e resvallei pela rampa; pendurei-me do varão sutoposto á baranda da casa visinha; fixei um pé na goteira da sacada, depois o outro pé, e saltei. Estava em casa d'elles.
Fiquei immovel a escutar o silencio, interrompido apenas pelas precipitadas pulsações do coração. Perto de mim, uma janella alumiada como um grande quadrado de luz, branqueava de clarão baço, a parede innegrecida da casa. Baixando-me sobre os joelhos, enxerguei que esta janella não estava de toda fechada. As beiras das portadas tocavam-se, mas deixavam coar uma resteasinha de luz. Duas cortinas de cassa branca, pendentes diante das vidraças, deixavam-me vêr todo o quarto através d'um alvadio de leite que esfumava um pouco os objectos.
Lembra-me tudo isto. No fundo do quarto havia um grande leito, e sobre este, uma corôa de ebano lavrado donde pendiam cortinas de estofo escuro que contrastavam com a brancura dos lençoes. Á esquerda da cama, um tapete estreito, á direita, uma commoda; ao pé da chaminé uma poltrona de espaldar muito alto. Que sei eu? Creio que outros moveis estavam lá, mas eu não reparei. Ao principio, não vi ninguem no quarto, alumiado desigualmente, por um grande candieiro de cobre, coberto de quebra-luz, que dardejava sobre o pavimento os raios, deixando o tecto escuro. O leito ficava assim cortado longitudinalmente pela zona luminosa. Como{135}quer que eu me chegasse á vidraça para examinar se elle estava occupado, uma sombra passou lenta entre o candieiro e a janella, desenhando-se nas cortinas brancas. Pulsou-me o coração mais rijo. Agachei-me rente com a sala, recuando um pouco.
Reconhecio-o. Era elle. Ainda o vejo. A viração tepida da noite de agosto, suspirava á volta de mim na folhagem; cantava um passaro entre os arbustos; a terra vaporava odores balsamicos; mas eu não via, não sentia, não investigava senão elle. Alongando o pescoço para ajustar os olhos á entre-aberta da janella, vi-o, com espasmo mudo, como se fosse para mim coisa extraordinaria vêl-o de pé n'um quarto de sua casa. Tinha os pés nus em amplas moiras de marroquim amarello; afivellava nos encontros uma larga calça branca de flanella. Despeitorado, arregaçado o colleirinho, arremangada a camiza, ia e vinha pelo quarto, fumando um charuto, dando corda ao relogio, mirando-se ao espelho, e esticando os braços. Assentou-se depois na grande cadeira encoirada, cruzou uma perna sobre o joelho da outra, e bamboando-a deixou cahir a chinela. D'onde eu estava, via-lhe perfeitamente a sola do pé nú levantada ao nivel dos meus olhos, e o braço carnudo descançado sobre o encosto da cadeira. O outro braço subia e baixava do joelho para o rosto, quando levava aos beiços o charuto, cujo fumo odorifero se exhalava até mim.
De repente, voltou a cara para uma porta que eu não tinha devisado, collocada ao pé do leito. Esta porta estava aberta, e no inquadramento obscuro que ella cortava no fundo do quarto, vi, duvidoso{136}da minha razão, uma fórma vaga alumiada em rosto por um castiçal que ella trazia.
Potestades do céo! Era ella! Oh Deus! por que me não fulminaste n'aquelle momento!
Entrou vagarosamente, depoz o castiçal sobre a commoda, e, atravessando longitudinalmente o recinto, foi direita a elle, que a observava tranquillo, e sem levantar-se.
Fanny estava meio vestida com aquelle desleixado traje que eu lhe vira algumas vezes pelas manhãs, quando, ao sahir da cama, passeava no jardim com os filhos. Era um chambrão muito farto de cachemira azul aberta no peito, entre flocos de cambraia, deixando vêr o começo dos seios. Sahiam-lhe das largas mangas os braços nús. Trazia desmanchados negligentemente os cabellos, apanhados sobre as faces lizas, e apertados por grossos tufos sobre a nuca. Aquelle eterno porte de placido pudor, lá o apparentava no semblante.
Mas que vinha ella fazer alli a tal hora? quem lhe pedira isso? Não póde a recordação do amante retêl-a no limiar d'aquella porta? Dir-se-hia que ella nem se quer se lembrava de ter jurado, nem lhe passava pela mente a existencia d'algum homem para ella, senão aquelle que alli estava sentado, encarando-a, sereno como ella.
Fuzilou-me na alma um relampago de esperança, mas foi relampago. Abaixado sobre os joelhos e as mãos, embaciado o vidro pelo meu bafo, senti oscillar-me os braços como se o balcão estremecesse debaixo de mim. Suor de agonia, acre e frio, me banhava a face e os membros; rangiam-me os{137}dentes, cahi, desfallecido, como arvore tombada ao ultimo golpe do machado. Mas ouvi palavras; e, repuchando quantas forças tinha, ergui-me sobre os joelhos e punhos.
Via-a andar mansamente d'um para o outro lado do quarto. Tocava, vagamente, e como em distracção nos objectos de sobre os moveis, tal qual costumava fazer em minha casa. E o marido tendo-a sempre d'olho. Fallavam; mas a minha commoção só me deixava ouvir um murmurinho. Rodeava-o ella, socegada e perfida, com os seus azues e suaves olhos, e apparencias de simpleza vaga. A instantes, sorria um sorriso melancolico. Quiz vêr n'esse rir, que lhe dilatava os labios sem illuminar-lhe o olhar, alguma coisa forçada. Não se mostrava pensativa, nem contemplativa, nem commovida. Estava perfeitamente á sua vontade, natural e tranquilla. Bem sabia ella que a sua grande magia era a irritadora tranquillidade.
O marido riu tambem, por sua vez. Vi-lhe o brilho dos seus alvos dentes. Dava mostras de defender-se ingenuamente d'uma accusação que ella fazia, sem cólera, mas como uma malignidade gracejadora, que não era isempta de desdem e altivez. Discutiam tão pacificamente que pareciam nenhum acreditar na realidade da sua disputa familiar. A final, debaixo da testa quadrada do marido, brilharam mortiços os olhos; e, quando ella perpassava diante d'elle, rossando-lhe com o vestido o pé, a decisão foi prompta; calçou a moira; e tirando brandamente pela cintura da mulher, sem resistencia, fêl-a assentar no seu joelho.{138}
Saltaram-me as lagrimas então, lagrimas ardentes, que as palpebras não podiam reprezar, e desceram silenciosas pelas faces até aos labios. Emfim, comprehendia tudo; via a profanação, posto que a não quizesse vêr; affirmava que não era sonho aquillo, e queria duvidar. Não posso exprimir o que então se apartava de mim, o melhor de minha essencia, e o mal que me fazia vêr aquella mulher, que eu adorava, nos braços d'outro.
Fanny continuava sentada com as mãos cruzadas sobre os joelhos, e com os olhos no marido, conversava serenamente. Nada ha ahi mais casto que a simplicidade da sua attitude, a pureza do seu perfil, e aquella expressão dos olhos azues. No entanto elle, comprimindo-a cingida pela cinta, amimava-lhe a face com a mão livre. A final, Fanny lançou-lhe por sobre o hombro o braço esquerdo, e pendeu para elle langorosamente. Vi-lhe então as costas, cobertas de tranças dos cabellos, e o vestido fazia roda por largo espaço com impudor esplendido. Oh! como a abominavel creatura cheia de graça e lascivia se aconchegava d'aquella espadua robusta!
—É impossivel aquillo!—gritei eu em minha consciencia.—Não ha-de ser assim!—Mas elle abraçou-a, collando a boca espessa ás puras faces d'ella, e não sei o que lhe disse a meia voz. Fanny fez um gesto negativo com a cabeça, muitas vezes, sem córar. Elle, por cortezia, insistiu sorrindo, e ella, resistindo, pouco e pouco se rendia! Mulher scelerada! como ella prolongava o meu supplicio! O debate mudo, durou algum tempo. Não sei como foi{139}que o sinto se lhe despregou, e rolou nas dobras do vestido. E eu chorava sempre. Levantou-se ella em fim, aquella mulher de resplendores e flôres, e, por um só movimento de braços e hombros, fez escorregar o chambre até aos pés. Eu cahi de joelhos, e ergui as mãos, como a exorar piedade. Ella tirou com afan, os pés do monte de estofos, e, um tanto pallida, mas em silencio, caminhou para o leito, achegando ao peito as ultimas coberturas. Quantas vezes a vira eu assim impallidecer! Cravei as unhas no rosto. O marido ia depós ella, vagarosamente.
E eu sem uma arma! Eu queria immediatamente estrangulal-a, espedaçal-a, ingolphar meus braços nas entranhas d'aquella mulher estupida. Com todo o sangue d'ella, não se apagaria o ardôr da minha tortura. Arquejante como o tigre, que vê a garra do leão cravada na sua preza, ergui-me a prumo, ferrei as unhas contra os dentes, escorria-me o suor da face, soluçava, como em arrancos de morte, estrebuchava, e via os horrores d'aquelle quarto.—Piedade! piedade!—foi o meu grito! E furioso, e perdido, avançara um passo! mas os cabellos heriçaram-se-me, e os olhos saltavam-me das orbitas, e a minha vista acerada entrou como um punhal nos cortinados sombrios, e vi... vi tudo! Quiz ir ávante, e não pude. A punição pregava-me os pés á balaustrada, e de minha bôca sahiam gargalhadas de demonio. Que horror! Eu testemunha d'aquelle espectaculo, a rir, como um doudo, a comprazer-me d'um jubilo que não tem nome nas linguas humanas! Tentei de novo avançar, por que ouvira{140}suspiros, e queria saber qual das duas bôcas os exhalavam. Por um esforço prodigioso dos meus musculos todos, cheguei a despregar o hombro da parede, e dei ainda um passo; mas por que ao coração intumecido me refluira todo o sangue, perdi o equilibrio, e cahi como um pezo inerte sobre o balcão.
Quando cobrei o alento, estava a janella fechada e apagada a luz. Corri as mãos sobre os vidros impenetraveis. Corri a baranda em toda a sua extenção; tudo apagado, tudo fechado, dormia tudo. Dominava-me uma raiva glacial. Á custa de tudo, eu queria remirar esta mulher que eu detestava com o coração, com a alma, com os sentidos, com todo o meu ser. Mas ir até ella, como? Pendurei-me na rampa, e deixei-me cahir ao jardim. Rodiei vinte vezes a casa, empurrando todas as portas; mas a minha fraqueza não podia com ellas. Finalmente, atirei-me ao chão, e ahi, com o rosto entre as mãos, desafoguei-me em soluços.
—Trahido! trahido!—bramia eu, com monotonia desesperadora.—E o céo impassivel!—De subito ergui-me, e, sem idéa fixa, atravessei as trévas, rapido como se me viessem perseguindo assassinos.{141}Precorri a tapada; saltei o muro, atravessei a estrada, entrei nos campos, e a correr sempre, com a cabeça nua, chorando e fallando sósinho, atirei-me como um attribulado gamo, que foge com os dentes de matilha feroz incravados nos flancos.
Onde ia eu? não sabia. Fugia áquelle espectaculo. Salvava-me a todo o correr, para o mais longe possivel, para não vêr a imagem horrenda que me ficara nos olhos. Trahido! Trahido! era o grito que me esporeava, e excitava a fuga. Despenhei-me em barrancos. Levantava-me ferido, coberto de suor e lama, e corria de novo, sem destino, por escuridade pavorosa. Lancei-me desamparadamente em cancellos insilveirados; deixava-lhes os meus vestidos a pedaços, e caminhava. Esgalhos de arvores batiam-me no peito, raspavam-me a face e os hombros os tojos lacerantes; parava a chorar e depois caminhava. Atravessei as ruas dezertas das aldeias, que resoavam sob os meus passos; campos cultivados, cujas searas me ondulavam nas pernas como vagas; collinas, bosques, regatos, atalhos, estradas que desfilavam á roda de mim, como se o solo fosse arrastado commigo no arremeço d'um sorvedouro immenso. Faltava-me a respiração, e eu corria ainda, chorando, chorando sempre.
—Ó minha mãe!—bradei eu.—Se soubesses quanto eu soffro!
De repente, achei-me com os pés em agua. Ante mim, distendia-se um vasto espaço negro, uniforme, entranhado nas trevas, d'um lado e d'outro, com grandes e mysteriosos zunidos. A lua dardejando de viez o seu reflexo argentino, sobre esta superficie{142}luzente, parecia serpente enorme assanhada contra mim, para engulir-me. Involvia-me o nevoeiro. Avancei tropeçando nas pedras, mas os jactos d'agua da torrente rapida, embargavam-me o passo. Horrida tentação me assaltou. Contemplei o céo sereno, onde brilhava, entre nuvens immoveis, o dôce astro dos amantes; puz a mão sobre o coração, e caminhei. Dava-me a agua pelos joelhos, mas sentia sempre o chão lodento em redor dos meus pés que escorregavam. Não podia mais. Vergado á fadiga e á commoção, soluçando como as mulheres, cahi, e fui arrastado na torrente que marulhava em sua marcha obscura.
O que decorreu depois d'isto, não sei.
Atrophiara-me um frio horrivel. Era nos ouvidos o sibilar lacerante. Sentia abafar. Muitas vezes cheguei a ajoelhar, impellido sempre pelo peso das aguas. Por fim, esqueci tudo; entendi que morria.
Quando me senti viver, estava na minha cama, com a cabeça em fogo. Abri os olhos esgazeados. Tremia em todas as fibras. Sacudia-me o corpo, desde a cabeça aos pés, uma horrivel febre. Ao meu lado, estavam dois amigos observando-me. Fallei, e elles abanaram a cabeça. Veio um homem, e tomou-me{143}o pulso: encolheu os hombros, e partiu. Continuei a tremer. Isto durou muitos dias.
Depois soube que uns pescadores me tinham, de madrugada, encontrado sem sentidos, nas margens do Sena, com a cabeça envazada no lôdo. Buscaram-me as algibeiras, e acharam na minha carteira uma carta, e, guiados por ella, me trouxeram a minha casa. Delirei no caminho, e tiveram-me em conta de doido. Estava-o, realmente.
Fanny, porém, ignorante de tudo, admirada de me não vêr, veio uma manhã; mas o meu creado, a chorar, impediu-lhe a entrada no quarto, e contou-lhe o que sabia. «Quiz afogar-se—disse elle—e agora está doido»—Ella, porém, não quiz crêr no suicidio, e supplicou a entrada. N'esse dia, um abatimento sem nome, semelhante ao dos cadaveres prostrados em seus sepulchros, me tinha como pregado pelas costas ao leito, com os braços alquebrados e os olhos abertos. De repente, devisei na porta, que se abriu ao pé do meu leito, uma fórma humana, de pé e quieta.
Não atinei logo com quem fosse aquella mulher que me vinha vêr moribundo, adornada de trajos de estio tão elegantes e frescos, com braceletes nos braços e flôres no chapéo: tambem não entendi por que chegava com ambas as mãos o seu véo branco ao rosto. Os meus amigos tinham-se retirado para o fundo do quarto, afim de respeitar, quanto fosse possivel, um segredo que não queria ser penetrado. A mulher adiantou-se até á minha cama, e eu ouvi-lhe o fremito do vestido. Curvou-se-me sobre o leito, e levantou o véo. Como que senti refrigerar-se-me{144}a alma, de vêr sobre o meu rosto aquella face viçosa cheia de graça, e como perfumada de saude.
Fanny! exclamei subitamente, erguendo os braços. Fanny abaixou-se a soluçar sobre o meu peito. Mas a memoria restaurara-se com o conhecêl-a; levei-lhe á face os punhos fechados, e repelli-a de mim, gritando furioso «sai d'aqui!» Ella acreditou que eu estava doido, e arredou-se chorando; mas com um resto de força que a raiva me déra, bati-lhe no hombro, e, ao lançar-me fora da cama, cahi por terra aos pés d'ella.
Quando sahi do lethargo, suppliquei, de mãos postas, aos meus enfermeiros, que não deixassem entrar em minha casa aquella mulher.
Ella, porém, que não podia suspeitar o succedido, e continuava a crêr na minha demencia, vinha todos os dias—disseram-m'o depois, e todos os dias com gestos afflictivos, sollicitava vêr-me.—O medico não consente—respondia inflexivel o meu creado. Fanny offerecia dinheiro e prendas; mas comprehendendo a final que a sua presença podia matar-me, retirou-se, pedindo a Deus a minha cura, e offerecendo-lhe, em troca da minha, a sua vida.{145}D'isto não sabia eu nada então. Decorriam os dias, e, por desgraça minha, graças aos disvellos que me rodeavam, a vida pouco a pouco affluiu apagando a febre.
Ao cabo de seis semanas entrei em plena convalescença. Já os amigos me tinham deixado. Perguntou-me, muitas vezes, o creado, se eu queria receber aquella pessoa que tanto parecia amar-me, e cuja presença tão mal me fizera uma vez. Sempre com repellão lhe disse que o expulsava se a deixasse entrar. O desejo, porém, de a vêr, entrou commigo, e tornou-se emfim n'uma irresistivel necessidade. Fiz fallar o creado sobresaltado, que não intendia a minha frieza. Contou-me tudo que eu não sabia; que ella vinha diariamente, e elle já não sabia que dizer-lhe, para estorvar-lhe a entrada. Se ella vier hoje,—murmurei eu impetuosamente, corrido de vergonha,—recebo-a.
Sentia-me eu abalado como se alguma funesta esperança tentasse renascer em mim. Com o abatimento da molestia, quasi que a cólera se desvanecera; mas ganhara-me uma dôr intensa, e eu assentava—tamanho desgosto era o meu por tudo—que não podia viver. Aquella noite terrivel da traição,{146}lembrava-me como um sonho máo. A um tempo, amava e desprezava a mulher graciosa e perfida, cuja imagem era commigo sempre. O que eu esperava para acabar com tudo, era alguma cousa indelineavel.
Estava eu sentado n'uma poltrona, ao pé da minha janella, com os olhos fechados, repassando no animo o que eu diria á prejura, quando senti apertarem-me a mão, e misturarem-se n'ella os beijos com as lagrimas. Abri os olhos. A meus pés, de joelhos, livida, mas formosa ainda, formosissima, estava Fanny, olhando-me com eloquente ternura. Senti o perfume d'ella. Nada diziamos. Eu sei que chorava.
Fanny ergueu-se, abraçou-me maternalmente a fronte e os cabellos, com os seus dois braços nús. Não resisti, porque me era aprazivel receber aquellas caricias, a que eu tinha direito, em quanto não fallasse. E por isso mesmo é que não fallava. Finalmente, como eu chorava sempre e a não abraçava, Fanny disse:
—Foi-se o teu amor, Roger?
—Ainda não—respondi, tapando o rosto com as mãos. Ella não intendeu, e deteve-se em pé e agitada defronte de mim.
—Fanny, diz-me que é um sonho, ou que estou doido. Diz-me que não devo odiar-te, porque este odio dilacera-me.
Não córou. Não impallideceu. Pura como a chamma, e crendo-se talvez ella mesmo pura, amimou-me internecida, com apparencias de admirada.
Foi então que eu, reunindo as minhas forças todas,{147}a tomei pela cintura gentil em meus braços, e a fiz sentar defronte de mim. E disse-lhe:
—Sei tudo.
«O que? tu que sabes?
—Vi tudo.
«Mas que?
—Porque me trahiste? Tu não cedeste, porque foste tu quem o procurou, não foi elle a ti. Foste tu, que trocando despejadamente o papel, o seduziste a elle.
Fanny não perdeu ainda a côr, e quiz fallar. Eu, porém, com os olhos cravados n'ella, sem cólera, e frio como o aço, continuei:
—É necessario dizer-te tudo? Não merecias confiança. Comprei a caza vizinha da tua, em Chaville...
Aqui, impallideceu, e disse:
«E depois?
—Uma noite, horrivel noite!... depois de te espiar em vão quinze dias, arriscando a minha vida, consegui introduzir-me sobre o balcão da tua casa. Não sei que hora era. Ajoelhado por traz da vidraça do quarto de teu marido, pude vêl-o. Como te vejo agora, tudo vi. Estava elle só. Entraste...
«Isso é falso!» exclamou Fanny, mais horrivelmente pallida. Semelhava um cadaver sentado n'uma cadeira defronte de mim.
—Será preciso dizer mais?—accrescentei.—Vestias um chambre de cachemira azul. Trazias os cabellos em desalinho, e o peito nú. Calçavas chinellas de setim. Nús, trazias os braços. Serena como sempre, no momento mesmo em que prejuravas,{148}não amaldiçoaste aquelle que vinhas saciar, por que ha em ti dois corações, para amar dois homens, Fanny, a elle, e a mim.
Fanny sacudiu rapidamente a cabeça, e disse com voz abafada:
«É falso! é falso! tu não me conheces!
—Será preciso dizer mais?... Exprobraste-lhe a traição, que é certissima. Defendeu-se elle, a sorrir. Tu, cem vezes, passaste diante de teu marido, por que querias fascinal-o, sem lh'o dar a intender, com os teus exteriores pudibundos. Sahiu-te tudo ao pintar, por que elle puchou-te para sobre o coração, e tu deixaste-te sentar sobre os joelhos, e nem de mim te lembravas, de mim, a agonisar, com aquelle espectaculo diante...
«Basta!»—exclamou Fanny, e ficou a olhar para mim. Parecia soffrer horrorosamente; mas não chorava. Dilatavam-se-lhe as pupilas, e crispavam os labios resequidos. Com pena d'ella, baixei os olhos, mas accrescentei:
—Sabe que eu estive ali, eu, que te adorava, e é de crêr que a vergonha e a dôr não matem, por que eu vi tudo, e não morri.
Como duas estatuas fronteiras, nas bordas d'um jazigo, assim ficamos em contemplação, e immoveis. Por fim, disse ella:
«Eu devo fazer-te horror!
—Fazes.
Ergueu-se, levantou as mãos ao céo, lançou-se a mim, como sobre uma preza, apertou-me entre os braços, sentou-se-me nos joelhos, peito a peito, e a buscar-me os labios, com estas exclamações:{149}
—Não importa! eu adoro-te sempre.
Mas eu, levantando-me, sacudi-a, e atirei-a ao chão, e ella ahi ficou. Abismada a meus pés, como a Magdalena, soltas as tranças, nodados os braços aos meus joelhos, desfeita em pranto, exclamava:
«Perdão! piedade! Eu tinha perdido o juizo! estava doida! mas amo-te sempre! Tem compaixão de mim.
E prometteu submetter-se a tudo que eu exigisse d'ella. Propôz-me a fuga, bradando:
«Mata-me, e não me repulses! Esmaga-me aos teus pés. Sou culpada, mas não me abandones. Amo-te. Rasga-me o coração...
Fiz que se erguesse e sentasse. Estava corada, e escondia o rosto; mas eu sentia-me impiedoso. Recrudescera o meu furor com a narração do meu supplicio. Voltei as costas áquella mulher, cuja soberba, por tanto tempo me mentira. Ainda assim queria ella violentar-me, estendendo para mim os braços; mas fiz-lh'os recuar á face, com um gesto.
—Sabe que te detesto e adoro—disse-lhe eu—É isto o meu castigo, por que eu fiz minha, a mulher d'outro, e devo ser castigado. Tu, para mim, és uma deshonra, e mais nada. És um idolo attascado em lama. Vi-te, em attitude pudica, com o rosto angelical, e olhar infantil; vi-te grotesca e disforme, raivar e uivar, como a loba mordida pelos cães. Cala-te! tu fizeste peor que as creaturas com quem esse homem hediondo te compara: essas, ao menos, não mentem.
«Mas elle é meu marido!—disse Fanny.
—Não tens consciencia? Diz-me com franqueza{150}se é certo seres tu um ser intelligente, e se uma idéa dirigiu a tua acção funesta. Quem te obrigava a ir procural-o?
Fanny, com grande esforço, respondeu:
«Eu via que elle se desprendia de mim. Não o amo, por que te amo, mas dependendo d'elle. Não é natural? Repartida entre o desejo de conservar sua affeição, e o receio de ser forçada a mostrar-lhe uma affeição semelhante, quiz segural-o quando me fugia, e, quando se approxima, é escusado tentar eu fugir-lhe. Cedi ao dever. Reciei que me deixasse. O temor de me vêr abandonada com os meus filhos, inlouqueceu-me. Perdoa-me. A mulher, que elle conheceu em Londres, é a causa de tudo. Eu preciso de paz, socega-me tu. Fiz mal, por que te amo; mas sou mulher, e tu não conheces as mulheres. Não calculas quanta honestidade pode haver nas traições d'ellas.
—E o teu juramento?—exclamei. Fanny contorcia as mãos afflictivamente. Eu prosegui:
—Mentes, quando dizes que cedeste ao dever. Não cedeste senão ao orgulho. Intristecia-te o ser abandonada por esse homem que não amas, e te não ama, e te opprime, e te despreza e insulta. Não cedeste tambem á sêde d'um prazer abominavel? Repito-te que ouvi tudo.
Neste conflicto, encontraram-se os nossos olhos. Fanny fez-se escarlate, quiz fugir, tornou para mim, e cahiu de joelhos, exclamando:
«Se soubesses quanto eu me abomino! Eu queria arrancar o coração deste corpo. O meu coração está puro. Vêr-te, ouvir-te, sentir-te ao meu{151}lado, bastára-me sempre. Por isso mesmo que te amo, é que tu és o unico ente, mais que homem para mim. Tu és neste mundo o meu amor unico. És a minha vida.
—Amas-me!—bradei eu com raiva.—Mas de que modo me amas? Acima de mim, em teu coração tão puro, estão vãs considerações do mundo, razões de sociedade, costumeiras mesquinhas, está teu marido. Não me falles de teus filhos. Que amor é aquelle que não conhece a virtude dos sacrificios? que recua diante de qualquer respeito? que é limitado? que soffre prescripções? que não é uma abnegação absoluta do individuo, de todos os seus pensamentos, e affectos, e deveres e virtudes? Quem se perde pelo ente que ama, e destroe a honra e segurança do seu futuro, e chega, por amor delle, até ao crime, e se tortura a inventar maiores provas ainda, não dá o mais radioso testemunho da paixão exclusiva, intolerante, e soberba. Tu nunca soubeste que o amor não vive senão de si, e nada reserva fóra de si. Renegado sublime, piza os mais santos objectos, forte da felicidade que inventa, e que lhe justifica a impassibilidade. Porém, tu! mulher das dedicações mesquinhas, das virtudes pequenas, dos deveres timidos, chamas loucura a tudo isto. É alto de mais para ti! a tua vista não alcança tanto. O que tens, superior a ti, é a tua casa, é o teu bem-estar, é o luxo que te cerca, é a falsa estima do mundo que tanto se dá de ti como das outras, são as relações banaes, é um complexo de coisas miseraveis. E dizes que me amas! Supportarias tu o abandono da sociedade?{152}Offereci-te tudo que tinha; dar-t'o era a minha felicidade; para ti roubaria eu os indigentes. Ainda assim, aceitarias tu o menor incommodo como preço da minha felicidade? Não ultrajes, pois, o amor, a paixão soberanna, que não quer ouvir em redor do seu throno, uma voz que não seja a sua. Crês que amas por te haveres entregado? Vai, já te disse que vi tudo. Estavas com elle como commigo. Custou-te tanto a passar dos meus braços para os delle como d'um vestido para outro.
Fanny, ergueu-se desesperada, e quiz partir; mas eu retive-a, atirei-a para o fundo da alcova, e collocando-me diante da porta, com os braços cruzados, exclamei:
—Hasde ouvir tudo!
Faltou-me a expressão. Arquejava de anciedade. As minhas palavras eram gritos. Cerrei os punhos em postura ameaçadora; Fanny olhava-me de revéz com inexpremivel terror. As palavras vieram, depois, impetuosas:
—Eu nunca tive crença em ti. Tanta certeza eu tinha de que me atraiçoavas, que, por minha desgraça, quiz conspurcar o nosso amor. Sabe-o, se nunca o supposeste; sabe que eu, teu adorador, atraiçoei-te com as mais rasteiras mulheres.
Fanny não me acreditava. Attribuia á impotencia do furor o que eu dissera, e fez um gesto de denegação soberba. Máo grado meu, repassado de angustia, fallei n'um tom de voz supplicante, e branda. Toda a minha cólera cahiu sob o pezo da piedade.
—Sabe, pois, murmurei eu com as mãos erguidas,{153}que eu te amava ao mesmo tempo com amor de mãe, de mulher, de creança. Quanta piedade, respeito, e ternura que podem resumir-se em amor no coração, quantas delicias, tocam a divinisação pela maviosidade, todas senti por ti, desde o primeiro dia em que te vi passar com tuas graças, com a tua serena suavidade, com a tua formosura. Sabe que te adorei piedosamente; que só em ti pensava; que eras a minha segunda alma; que me doiam mais teus males que os meus; que, por desvanecer-te do animo uma incerteza, teria dado, risonho, a vida, que eu só amava por que te era aprazivel. Vê que choro. Tudo que era teu, amei: teus filhos, tua mãe, tua casa, teus creados; as irregularidades irritaveis do teu caracter, os teus vestidos, e as tuas rendas. Creio até que o amava a elle, por que, em meu espirito, a tua imagem andava associada á d'elle. Nem minha mãe amei como a ti. Por ti, têl-a-hia abandonado, com tudo que venero. Eras o meu eterno espirito, o meu bem mais caro, a imagem perfeita das coisas puras.