XXVIII

XXVIIIPorém, nos mais violentos accessos de meu ciume, inraivecia-me vêr-lhe no semblante aquelle seu ar pudico, que ella conservava sempre, mesmo na mais avida vertigem do goso. Ora isto, com o correr do tempo, deu para me irritar. Tomei a peito{55}depraval-a, buscando abafar este amor nas cinzas do fastio: Fanny ficava sempre a mesma! Estavam alli duas almas diversas a exhalarem-se-lhe dos labios e dos olhares. Uma era a de Phrynea absorvida, e séria, nutrida dos mais finos primores como das especiarias mais corrosivas da paixão, o que, alternadamente, se assignalava por um sorrir estranho e vago. A segunda era a de um anjo immaculado. Ai! aquelle olhar d'ella! Aquella expressão de spasmo que reluzia perpetuamente em seus olhos azues, tão rasgados, sob as placidas e destacadas palpebras! Ainda agora me seguem e arrebatam! Sinto-os sempre, fitos nos meus! Interrogam-me, e fascinam-me! Não poderei jámais esquecer os olhos d'ella?...Fanny, no garbo de suas attitudes, no meneio da cabeça, no andar, tinha algumas vezes um não sei que que denunciava appetites de um sensualismo profundo e vehemente, e mesmo alguma coisa dessa monstruosa concessão duplicada, que tanto a meus olhos a invilecia. De subito, com uma palavra só, transfigurava-se, e julgal-a-ieis uma outra mulher.«Que mulher és tu, pois?» lhe disse eu, em seguida a uma discussão em que me havia manifestado sentimentos os mais contraditorios. Levantou ella a face, e encarou-me com os seus olhos tranquillos e lympidos; porém, commoção interna lhe dilatava as azas nazaes e avermelhava de leve as faces.—Não posso viver sem amar—respondeu ella pausadamente—Não posso viver sem ser amada. Minhas qualidades boas, e meus defeitos, são cousas{56}secundarias: todas as mulheres tem d'umas, e d'outros. Mas o que é exclusivo meu, é a minha paixão.—E com leal exaltação, ajuntou: «comprehendes-me?»XXIXChegou o estio, ao cabo d'estas muitas e penosas discussões. Todos os annos, Fanny ia passar aquella estação ao campo, nos arrabaldes de Pariz. Um dia, veio ella afflicta annunciar-me a triste nova da partida; eu, porém, recusei explicitamente conformar-me com a ausencia «Escrever-nos-hemos» disse ella. Semelhante resignação exasperou-me. Não sei que lhe respondi, esqueci-o; lembra-me só que combati aquella resolução com energia de desesperado. Eu chorava tanto, estava tão alvoroçado, tão infeliz, que ella houve piedade de mim. Apertando-me nos braços, mil vezes me repetiu que consentia em adoptar os expedientes que eu lhe indicasse.—Sê prudente! sobre tudo, não te arrisques—disse-me ella, entre dois beijos, retirando.Passados oito dias, encaminhei-me na direcção de Chaville. Á beira da estrada real de Versaille é que estava a casa d'ella.Quando ouvi dar a meia noite nos relogios longinquos, escalei o muro, e fui ter a um pavilhão,{57}cujo local me havia indicado Fanny. A vinte passos, d'um ponto em que me occultavam as copas do arvoredo, vi um vulto pardacento, immovel. Era Fanny. Corri para ella. Levou-me comsigo. Fechei a porta. Estávamos ás escuras—Não falles—segredou-me ella, com extraordinaria agitação—elle está desconfiado ha tres dias; anda triste; deve ter suspeitas.Aqui está uma variante nova na amargura da minha vida, com a qual eu não contava.—Ouve—murmurou ella, com a voz tremula de mêdo—é preciso que elle não desconfie; não quero que elle o saiba; não quero. Tu és homem, a ti pertence dirigir o meu comportamento. Falla; e, se é de sacrificios que vaes fallar-me não temas, que eu sou forte.—E sentindo-se desfallecer, vendo-me perdido de dôr, disse-me com amargura:—Eu tinha esquecido que tu não passas d'uma creança. Perdoa-me por haver-te fallado como a um homem.«Fanny,—disse-lhe eu solemnemente aconchegando-a de mim para fazel-a sentar ao meu lado—serei talvez creança, mas tenho coragem de homem. Surprehendido imprevistamente por esta cruel noticia, não sei que inventar; mas, já que és forte, decide tu o que devemos fazer: submetto-me. É preciso abandonar-te? Dize-o. Pela memoria de tua mãe, se assim o queres, não me verás jámais, ainda que me procures por toda a terra.Não quero que morras—disse ella com voz soturna, erguendo-se, e batendo no chão com o pé. Depois tomou-me a cabeça entre ambas as mãos e abraçou-me convulsivamente sobre os labios. Mas{58}o ruido de passos que rangiam na areia impoz-nos silencio. Abraçados pela cintura, curvamo-nos sobre a vidraça para vêr quem assim passeava no jardim a hora tal.Era elle! Reconheci-o na largura dos hombros, nos cabellos arrussados que volteavam ao vento sobre a cabeça nua. Caminhou parallelamente ao pavilhão, pela rua larga e descoberta, alagada dos fulgores da lua que cahiam sobre ella a prumo. Marchava lentamente, com as mãos enlaçadas no dorso, cabisbaixo, as feições alteradas, como homem que leva de poz si pensamento oppressivo. Passou ante nós, e imbrenhou-se no cerrado arvoredo.Tive de sustentar em meus braços a desgraçada mulher, por que os joelhos não podiam sustel-a. «Socega, minha querida, disse-lhe eu—teu marido nada suspeita. Está preoccupado; mas não se vê alli a inquietação febril dos ciumosos. Eu sei bem o que é, de sobra me tenho observado a mim.—Crês? exclamou ella n'um impeto de esperança que a vibrava.«Tenho a certeza. Entretanto, separemo-nos. Passados oito dias, tornarei. D'aqui até lá observa-o bem. Não sei o que é que o inquieta; mas eu a quem tu hoje chamas creança, digo-te isto: teu marido não tem ciumes.{59}XXXLogo que ella partiu, fui impetuosamente no encalço do solitario passeador. Via-o outra vez na volta d'uma rua. Passou, como primeiro, deante de mim, sem me perceber, sempre sombrio, sempre meditativo. Curei de surprehender alguma involuntaria palavra que me revelasse a causa da sua concentração. Mas tinha cerrada a bôcca, e impassivel a fronte. Subindo para casa, accelerou o passo. No patamar, parou, olhou o céo estrellado com sombria seriedade, e alongou para elle os braços, como se do coração lhe fugisse alguma prece ameaçadora. E eu exclamei mentalmente: «É elle, pois, desgraçado tambem!»XXXIPassei os oito seguintes dias em angustia inexprimivel. Não parava em parte alguma. Os temores, as suspeitas subiam-me ao cerebro em borbotões,{60}como os vapores da vinolencia. Pensava n'ella só! Dizia-me não sei que de convicto e infallivel que eu estava ameaçado de perder Fanny. Era como um espectro deante de mim a imagem d'uma separação violenta. Não atinava com o modo de aliar esta especie de previdencia com a certeza de que o marido ignorava tudo; mas esta previdencia justificava-se tanto que eu entrei a tomal-a como aviso do céo.Ao oitavo dia, á hora costumada, puz-me a caminho; mas, d'esta vez não esperei a hora indicada, nem me acautelei para entrar em casa de Fanny. Não. Caminhava deante de mim mesmo, com a violencia e direitura d'uma balla, resolvido a procural-a mesmo no seu quarto, se a não encontrasse no pavilhão. Timido de tudo, sem poder definir o objecto dos meus temores, esporeava o cavallo, que se espadellava com a terra, alternadamente contrahido e distendido como um grande arco atormentado por mãos febris. A lua alumiava de travez a estrada silencioza que eu levava, zebrando-a de listas de prata, e parecia voltar-se para mim melancolicamente seguindo-me com os seus fulgidos olhares. Desfillavam a meu lado as arvores, rapidas e negras como phantasmas vertiginosamente marulhados n'um rodopio. Os cães, que dormiam nos pateos, atiravam-se aos portões latindo ao estrepido das ferraduras do meu cavallo, que estalavam na calçada. E o vento que me açoitava a cara, murmurava-me aos ouvidos palavras irritantes. Tudo me impellia e me vaticinava algum drama em que eu ia representar um papel. Armei-me para{61}isso, decidido a não succumbir sem luctar com todas as forças que a desesperação desde muito me tinha dado. Quão exaggerado eu era na espectativa como nos preparatorios! Este meu espirito enthusiasta não sonhava senão combates sobrehumanos, desinteresse fero, esforços heroicos!... Ai! e que desenlace tão vulgar me esperava!XXXIITranspondo o muro, fiquei surpreso de vêr Fanny assentada na margem d'um passeio. Mais d'uma hora me tinha eu antecipado, e receava que seu marido estivesse ainda fóra. Logo, porém, que me avistou, Fanny, veio para mim, sem se esconder, como se fosse natural entrar eu em sua casa pelo caminho dos malfeitores. Tomei-lhe a mão. Pareceu-me vêl-a inleada e cuidadosa.«Que aconteceu?—perguntei, levando-a para debaixo das arvores.—Tinhas mais que rasão, Roger; meu marido não tem ciumes—disse ella—Nunca se fiou tanto de mim. Não me cancei a interrogal-o. Hontem contou-me a causa da sua preoccupação. Os seus haveres todos, depositados em Inglaterra, estão em risco com a fallencia d'um banqueiro. Esta manhã{62}partiu para salvar alguns restos, se ainda for tempo. É forçoso que a inquietação fôsse grande—ajuntou Fanny suspirando—por que nunca foi commigo tão expansivo.Não achei palavra com que responder a esta afflictiva noticia, com quanto nos consolasse a ambos de tamanho pezo. Fiquei atordoado como homem que soffreu violenta pancada na cabeça. Regorgitavam-me nos labios os sarcasmos; mas eu represava-os.«Nada respondes, meu amigo?—disse Fanny.—Que heide responder?—exclamei, perdida a consciencia da minha brutalidade.—Lamento-te se tinhas grande apego ao luxo de que vaes ser privada; lamento-te, principalmente, por teus filhos; mas... «Mas?» atalhou ella.—Mas não posso lamentar-te por teres sido ameaçada de perder-me, e te achares hoje mais livre que nunca para amar-me.Fanny ergueu as mãos ao céo, como invocando o seu testemunho, com expressão de piedade, e disse brandamente:«Não fallemos mais de mim. Eu heide ser sempre um livro fechado para ti.Passeamos, depois d'isto, debaixo das arvores vagarosamente, sem nos darmos o braço, sem dizer palavra, durante meia hora: por fim, parou ella deante de mim e tomou-me ambas as mãos, e disse em tom de voz submissa:«Roger, por que não fallas?—Não tenho consolações que dar-te.«Por que?{63}—Por que eu mesmo tenho talvez necessidade de ser consolado.«Pois que te succedeu?—Nada.Continuamos a passear, ao acaso, entre o arvoredo, silenciosos, ella curvando-se debaixo das franças, eu, erguendo-as, para ella passar.—Agora vamos nós tomar quinhão nas amarguras d'elle—disse eu de repente. «Assim deve ser» respondeu ella com tranquillidade.O remate do nosso encontro foi magoado por um começo que eu não podera prevenir. O pensamento de Fanny vagueava por outra parte. O meu, a meu pesar, tambem. E, todavia, eu não poderia justificar-me d'um certo prazer inquieto que me dava a idea d'um successo que podia apartal-a do marido para sempre.—Quem sabe—pensava eu commigo—se a sua ruina fará o que a minha dôr não pôde fazer?XXXIIIDepois d'este dia só em Paris nos tornamos a vêr. Era facil a Fanny ausentar-se, agora que a ninguem devia contas de suas sahidas. Por isso tornamos ao antigo viver. O que eu, porém, previra realisava-se com um rigor de desesperar. Não era só o pensamento senão a vida de Fanny que estavam n'outro logar. Cada vez o sentia mais. Nossa tranquillidade, prazeres, expansões, jubilos dependiam absolutamente das cartas que o marido lhe escrevia. Se faltava o correio, ficava distrahida, não me ouvia. Se recebia de manhã carta inquietadora, ficava preoccupada e taciturna. Quando a carta era de esperanças, irrompia ella em explusões{64}d'amor e d'alegria. Esta alegria, porém, molestava-me muito mais que a tristeza, e aquelle amor, cuja explosão atava a alguma coisa que não derivava d'elle mesmo, indignava-me. Gélido deante de sua inquietação, mudo se ella estava triste, irritado pela sua alegria, recuzava energicamente a receber a repercussão das novidades que tanto a preoccupavam; e quiz-me parecer que Fanny não se incommodava ou nem dava fé dos meus enfados. Isto desesperava-me.Em summa, aborrecido de me vêr assim atado ao meu rival pela mulher, que, repartindo-se equitativa por nós, dava todos os seus pensamentos aquelle que ella julgava ter mais urgente precisão de suas sympathias; indignado por compartir dessas penas, e esperar-lhe anciosamente as alegrias que só podiam fertilisar as minhas; aguilhoado da tristeza, do ciume, e da desgraça, resolvi tentar um supremo esforço para recobrar o socêgo, arrancando-lh'a a elle. Desde muito que se me gerava no animo o desejo de exigir de Fanny o maior sacrificio que ella podia fazer-me; mas, retido pelo vago receio d'uma recusa dolorosa, deferi de dia para dia o momento de sollicitar-lh'o. Azou-se a occasião. Foi ella que a deu.{65}XXXIV«Uma mulher que se aliena—disse-me ella, uma vez, sem nexo que explicasse o improviso, e olhando-me com ar piedoso—Uma mulher, que se aliena, não pode amar sem tornar o seu amante o mais desgraçado dos homens. Quanto mais me examino, Roger, mais conheço que, fartes vezes, com desgosto meu, te devo fazer soffrer muito.Commovido por este exordio, respondi balbuciante:—E, todavia, a nossa alliança podia ser ditosa.«Sim—disse ella amargurada—O que ha de mais entre nós é o amor.O castigo secreto d'esta ligação é isso. Estas relações só duram com a condição de serem banaes; e, se o são, devem repugnar a corações nobres e delicados; se são profundas e intimas, tornam-se o supplicio de quem as sente.E suspirou. Respondi assim:—Vou mais longe que tu, Fanny.Um amante, ainda mesmo que o seu amor seja mero capricho, deve soffrer com uma partilha que offende os sentimentos humanos todos. O amor proprio, por igual com o amor, tem seus ciumes, seu pudor, suas torturas. Uma amante, qualquer{66}que seja o seu theor d'amar, conhece sempre a existencia do marido. O marido, por via de regra mais feliz, não conhece a existencia do amante.«Isso é ir longe de mais—disse ella a meia voz; depois, alçando os hombros, poz os olhos no céo, e exclamou:—Que é o amor proprio, Deus meu?Folgando em fim de encontrar Fanny em tal disposição de espirito, aventurei-me. Peguei-lhe da mão, e erguendo-me, em quanto ella me olhava affectuosa, disse, n'um tom supplicante:«Com tudo... se tu quizeres...»Fanny corou logo, comprehendendo que se demaziava.—Que queres tu dizer-me?Não ousei responder; mas ella, por certo me adivinhou, por que me apertou meigamente a mão, e disse suspirando:—creança!Eu fiz com a cabeça um gesto negativo! «Deixa-me!—disse ella de sobresalto, em tom de precipitada—Curar-te has assim? Não posso fazer-te feliz. Caza-te!»—A dôr anniquilou-a. Repelli-lhe rudemente a mão, e fitei-a colerico, por essas phrazes que me pareceram uma ameaça. Mas tão quebrantada a vi, que não tive coragem de a levar ao extremo, e murmurei por de mais:—Bem sabes que não é possivel isso.Replicou:«Dei-te quanto podia haurir d'affectos em meu coração, e és tu quem me castigas!Estava offendida: foi preciso aquietal-a, e jurar-lhe submissão; ella, porém, não perdoava assim, e exclamou:{67}«Que queres que eu faça mais?—Se me amas, como creio, o teu dever está traçado.Corou outra vez: é que comprehendera.«Meu dever! meu dever! Muito indiscreto és em proferir semelhante palavra, Roger! Ignoras tu que o meu mais restricto dever me ordena de não deixar a caza que governo?—Ah! Fanny!—exclamei eu—que insignificancia tu trazes para me ferir... que confronto!...«A caza—replicou ella baixando os olhos—é o posto d'honra confiado á mulher! Mulher que se respeita, não a abandona nunca!Quiz interrompêl-a, mas ella continuou, de repente applacada, e olhando-me com ternura:«Raciocina um pouco, meu querido filho: póde uma mulher abandonar sua familia honorifica, sem perder a estima de si propria? Póde ella desquitar-se publicamente de todos os seus deveres sem despenhar-se aos olhos do mundo entre as mulheres perdidas?—São bem tristes considerações as da sociedade quando as cotejas com a minha vida...—respondi eu.Ficamos em silencio, alguns minutos. Fanny proseguiu:«Se eu seguisse os conselhos que me deixas adivinhar por que és muito honesto para m'os dar claramente, ser-te-hia forçoso, algum dia, fazer-me arrepender.Eu quiz jurar; mas ella cortou-me a palavra.«Podemos nós supprimir o passado? Não és tu{68}zeloso mesmo do passado? Oh! quero poupar-te!—accrescentou Fanny, levantando-se, e lançando-me um braço em roda do pescoço, em quanto com a mão sobre o meu peito, cravava ternamente nos meus os seus olhos azues—«Em teu logar, crê-me, eu seria tambem ciosa... Muito resististe!... disse ella, cahindo sobre uma cadeira, e escondendo entre as mãos a face: «Por que me não fugiste, quando era ainda tempo!«Já era tarde, Fanny, bem o sabes, no dia mesmo em que te vi, pela primeira vez, passar deante de mim.Ergueu-se outra vez, e abraçou-me com mudo transporte. Pensativo, alheado, recebia, como insensivel, as caricias. A final, pude dizer-lhe:—O amor, Fanny, póde consolar muitas dôres, remir muitas humilhações, substituir muitos affectos. Diz tu: o que é a estima do mundo, os tranquillos sentimentos da familia, comparados á absorpção d'uma existencia por outra existencia? É acaso tão longa a vida que possamos consentir em immolal-a a coisas tão frivolas? E, de mais, que se lucra? Quem nol-o agradece?«Roger! Roger!—interrompeu Fanny—que estranha moral!E eu prosegui:—Não estás cançada de córar, de tremer, de te esconderes? Não tens, emfim, vergonha da vergonha? E não te repugna ao coração esperar, esperar mais, esperar sempre, para trazer-me os beijos avidos á minha bôca faminta? No espaço d'um anno, com grande custo, apenas teremos cem horas de{69}viver juntos... a felicidade, de que devemos contentar-nos, é isto? Se ao menos essa felicidade fosse pura, estrema, absoluta! Mas tu não pódes ouvir-me, sem que a lembrança de tuas inquietações, perigos a que te expões, os meus proprios tormentos, te não impallideçam; e eu, tão desgraçado! não posso uma só vez abraçar-te, sem que logo um espectro...«Supplico-te—bradou ella impetuosamente—se me amas, não me digas que és desgraçado, por que me matas.—E se tu quizesses—continuei, fitando-a internecido—se quizesses!... Não haveria no mundo existencia para competir com a nossa. O que eu te peço é ser eu só o encarregado de te fazer serena a vida, desvelar-me por ti eu só, preparar, suavisar sob os teus pés a vereda do futuro; ser só a amar-te; o que eu quero é ser para ti o meio e o fim da felicidade; é tomar sobre mim todas as penas, e dar-te em troca todos os meus sonhos, prazeres, e felicidades; o que eu quero é ser a um tempo teu filho, teu amante, teu pai, reunindo sobre a tua cabeça querida as mais dôces e solidas affeições, é concentrar em ti as lembranças do passado, as felicidades do presente, os anhelos do porvir, de modo que venhas a ser toda para mim, e que não haja na minha vida inspiração que não seja tua, que não proceda de ti, que não sejas tu! Se tu quizesses... Não ha ahi paizes onde livremente os que a sorte separou e o amor ajunta pódem emfim saborear aquelle particular repouso que resulta da plenitude da felicidade que é a vida? Em meus sonhos,{70}muitas vezes me figuro que somos voluntariamente proscriptos na immensidade d'alguma solidão, onde, sob um céo azul sempre, á sombra d'arvores sempre veridentes, á beira d'um mar sempre sereno e sobre tapetes de musgo sempre em flôr, ahi, nos saboreamos por nós mesmos, como se a nossa dupla existencia mais não fosse que uma palpavel recordação. Que desgraça poderia ferir-nos ahi? que inquietações assaltear-nos? que suspeita incutir-se-nos? que ciume contristar-nos na felicidade de dias sempre eguaes? se tu quizesses... Seria pouco para mim amimar-te sempre como a uma creancinha melindrada? procurar incessantemente debaixo de tuas palpebras o olhar meigo de teus olhos azues? escutar-te muito tempo o halito a brincar-te por entre os labios? dormir com a boca presa á tua espadua, a mão inlaçada na tua mão? vêr-te todos os dias, andar, ir, voltar, mais bella, mais tranquilla, mais graça que o sonho das virgens? Ouve mais: não seria nada para ti o teres-me sacrificado todos os prejuizos que formam o coração das mulheres? teres-me tirado do abysmo de tristeza, no fundo do qual me estorço ha tanto tempo? teres-me dado tu só mais felicidade do que homem na terra póde cobiçar? Oh Fanny! Nunca mais, a chorar, eu te diria: «amo-te!... se tu quizesses!...»Estava suspensa dos meus labios Fanny. Bebia-me as palavras, ebria de prazer. Inclinada para o hombro a cabeça, cahidos os braços, as palpebras descidas, ouvia-me como ao longe a musica, de que não queremos perder nada, arrobada n'um extasis que reunia todas as sensações e quebrantos. Arfavam-lhe{71}as rozadas azas do nariz; suaves respostas inintellegiveis lhe ciciavam os labios; convulções electricas lhe crispavam a cutis; tremiam-lhe as mãos em vibrações dulcissimas. Já não poderá conter-se. Correu-me ao seio, e debulhou-se em lagrimas no meu pescoço que ella cingia soffrega. Oh! que delicioso apertar aquelle!«Não se falle mais n'isso—disse ella, com expressão de angustia, recuando a face, e apertando-me a fronte com a mão—Isso faz-me um grande mal. Querido Roger, o sacrificio, que queres fazer, é egual ao que me pedes. A felicidade debuxada por tua boca persuasiva é o mais bello sonho dos meus encantos; mas, ai! não passa d'um sonho! Meu Roger, amemo-nos, adoremo-n'os; mas, por piedade de mim, não falles assim mais!XXXVNão me dei por vencido d'aquelle grito de desesperação que me revelava, ao mesmo tempo, aspirações ardentes, e dôres mysteriosas. Nenhum de nós nesta affectuosa discussão, havia empregado os verdadeiros argumentos. Um tanto satisfeito por expôr a suprema questão da minha vida áquella que devia resolvêl-a, deliberei deixal-a reflectir, para pouco{72}e pouco a ir affazendo. Esperava azo propicio para reluctar e vencer a minha adorada inimiga.Depressa veio o ensejo. Terrivel e imprevisto era elle: havia ahi uma só alternativa: vencer os extremos escrupulos de Fanny, ou perdêl-a para sempre.XXXVIFanny pareceu-me preoccupada um dia. Fallava precipitadamente em muitas bagatellas, como se quizesse abafar alguma coiza gravissima. Abstive-me de interrogal-a, e fiz que não dava fé da sua turvacão. Acariciou-me vivamente, e eu a ella, mas nossos espiritos e vontades pareciam alheios aos affagos. Houve um instante em que um e outro esgotamos as palavras ociosas. Tinha Fanny a cabeça inclinada sobre o meu braço, e eu, todo attento no rosto d'ella, em muda anciedade a estava contemplando. Subiu-lhe aos labios em suspiros do intimo a respiração suffocada; aos meus olhares interrogadores respondia o descahir das palpebras, e o voltar os olhos, córando.Tomei-lhe a mão sem dizer palavra. Apertou-m'a com força febril.«Falla em nome do céo!» disse-lhe eu empallidecendo.{73}Abraçou-me convulsamente, aconchegando-me o peito da face d'ella.Fugiu-lhe dos labios a narrativa cruel, cortada por mil reticencias confusas. Mas, desde a primeira palavra que proferiu, comprehendi tudo. N'essa manhã mesma, o marido lhe dissera em carta muito expansiva, que seria provavelmente obrigado a estabelecer-se em Inglaterra, por espaço de alguns annos. Em tal caso—accrescentava elle—deveria Fanny metter no collegio os filhos mais velhos, e ir ter com elle, levando o filho mais novo. Fiquei aterrado. Irritou-me a coragem que ella tivera para em fim proferir as abominaveis palavras de separação. Dessimulei, porém, as angustias que me alanceavam o peito, e deixei só transparecer no semblante os traços de dôr profunda. Abracei-a, comprehendi, e exclamei:«Não será assim, Fanny!—juro que não, por que é arrancarem-me o coração o separarem-me de ti.—Que hei-de eu fazer, meu Deus?—disse ella retorcendo as mãos.«Amarmo-nos—respondi exaltado, com quanta força temos, e tirar um recurso da horrivel necessidade.—Recurso!...—e eu interrompi-a logo: «Fanny! este momento é solemne; não ha que vêr com subtis considerações do mundo e dos ciumes, do passado: trata-se de viver ou morrer. Deante de Deus, te dou em penhor a minha vida. Queres dar-me a tua? Atirou-se aos meu braços, repetindo:—Que hei de eu fazer?{74}«Fugirmos para tão longe que ninguem nos veja mais.XXXVIIDito isto, cahimos em profundo silencio, Fanny retirou-se lentamente de meus braços, poz-me ambas as suas mãos nos hombros, e fixou-me.Baixei os olhos, receando-lhe a ira. Mas que mal a conhecia eu! O que ella me revelou foi piedade sómente. Repartida entre o seu amor, e o dever que lhe apontava o logar digno ao pé do chefe de familia, a luctar sósinho no exilio para defender seus bens, Fanny deu-me testemunho d'uma agonia que não cabe n'alma sem rasga-la. Bem sabia ella que eu devia horrivelmente soffrer, pensando no proximo fim de união tão cara; mas tambem comprehendia que lhe não era possivel desobedecer á voz que a chamava. E isto flagelava-a com uma dôr sem nome. Perder-me e ser ella, uma vez ainda, a causa unica de meus infortunios.—Meus filhos!—exclamou ella em fim, impallidecendo, com uma despedaçadora angustia. E pendurava-se-me do pescoço, fitando-me os olhos penetrantemente—Meus pobres filhos, tão creanças! Pensas tu n'isto? Tu que és bom, e me amas, podes-me exigir que os deixe?{75}Immediatamente comprehendi pela commoção que me estorcia o animo, que quanto d'ahi em diante tentasse seria baldado. A pesar da resistencia, senti um surdo protesto subir-me das entranhas em gritos de indignação. Eu mesmo, no secreto de minha alma, não queria esse monstruoso abandono de mãe, nem mesmo o covarde desamparo d'um marido por sua mulher que adorava.Mas, confessal-o-hei?—não me instigava tanto á lucta o desejo de passar a minha vida com aquella mulher, como a idea de fazer cessar a partilha execravel. Absolva-me dos males que causei um momento de franqueza! Eu senti, abraçando de novo Fanny, que soffria menos com a certeza de a perder que com a idéa de que ella ia unir-se ao marido. E, horrorisado de mim, dôr nova para ajuntar a tantas, disse comigo mesmo:«Aqui ha mais ciume que amor.» Entretanto, mais tranquilla, mas sempre affavel, Fanny encostara-se ao cotovello e, voltada para mim, discutia sósinha. Escutei-a.«Se eu ousasse... se eu não temesse mortificar-te...—Falla, que estou de animo assente para ouvir tudo. Já agora, não ha nada ahi que possa fazer-me mais desgraçado.Acariciou-me febrilmente, e disse, quasi desfallecida:«Pois bem! eu não tenho coragem de arruinal-o. Hoje, o unico recurso d'elle está no meu dote.—É isso só? deixa-lhe tudo o que tens. Não sou eu bastante rico para nós ambos?{76}«Não é isso! não é isso!—disse ella, meneando a cabeça.Encarei-a. Estava enleada e escolhi vagas palavras com que disfarçar a idéa. Continuou, a meia voz, como reprehendendo-se do que ia dizer:«Como condemnal-o á solidão n'este supremo momento em que elle lucta tanto por mim como por elle! Nunca voluntariamente me desgostou. Ama em mim a companhia de quinze annos da sua vida, a mãe de seus tres filhos...—Por que o enganaste?—atirei-lhe eu em rosto, no impeto doloroso da minha colera; mas, com uma só phrase me esmagou ella:«Por que te amava!» e com expressão de orgulho que a engrandecia a cima de si mesma, accrescentou:—Mas a perfidia não competia a ti reprovar-m'a, Roger!D'esta arte, quantos golpes eu lhe apontava, eram logo rigosamente rebatidos; mas, nem assim, eu desistia do ataque. E se nos descobrissem! repliquei eu, na certeza de que este golpe era difficil de aparar, fitou-me fixamente como receando que a eu denunciasse para a possuir, talvez, por esse infame meio.Depois de olhar-me longo tempo, disse:«Que desgraçado elle seria!...Voltei-lhe o rosto, e Fanny concluiu:«Elle diria com horror de mim: Nem por amor d'estas creancinhas...Puz-lhe a mão nos labios, e, convulsivo, olhei para ella. Estava coberta de lagrimas. Posto que perturbado, não pude deixar de admirar-lhe a franqueza{77}nobre que nem, neste lance, me poupava. Estava toda embevecida na victima!«Que faria elle?» murmurei. Fanny, levou as mãos á face, e respondeu com voz abafada:—Talvez me perdoasse...—E, passados os soluços que lhe embargavam a voz, disse:—Estamos demasiadamente castigados! Se obedeço ao dever, abandonando-te; se não lhe obedeço, deshonro-me. De ambos os lados só vejo a desgraça, e faço desgraçados. Infeliz por ti, por elle, por meus filhos, por mim propria, nem me resta o recurso da morte para restituir a paz a todos! Deus meu, que me has dado o coração, que me não serve para consolar os entes que amo, e nem as suas dôres posso incerrar n'elle, como thesouros caros!E, a luz crepuscular na alcôva, sobre as rendas dos flacidos travesseiros, enlaçados os braços e unidas as faces assim choravamos... Quem acreditaria que, desde muitos dias, se passavam assim todas as nossas entrevistas!XXXVIIIDesde este dia funesto entendi que não devia esperar mais nada d'este amor, e vivemos na penosa{78}espectativa da decisão de um outro. Mas, como se o destino houvesse resolvido não dos poupar em dôr alguma, a solução todos os dias esperada, não chegava nunca.Já as cartas não eram sómente assustadoras para Fanny. Era eu que as desejava, e inquiria o contheudo dellas, e fazia ferventes votos pelo bom exito d'aquelle que, máo grado meu, não luctava energicamente. Com tudo por dar alguma coragem á desgraçada mulher, exaggerava a minha confiança, e encomiava a esperteza conhecida, a firmeza de caracter e a força de vontade de seu marido. Affirmava-lhe que elle ressarciria os seus haveres, obteria justiça, e recobraria o tão merecido socego. N'elle se estribavam todas as minha esperanças: pensava n'elle só, e tomava apaixonadamente a peito a sua pendencia. A menos esperada ventura que eu entrevia em meus vagos sonhos e almejava com o ardor da desesperação, era a volta do meu rival, em cujos braços devia cahir a mulher que eu adorava!Se eu podesse coadjuval-o!... dizia eu commigo; mas de que sirvo eu? E agora me pezava o inepto pudor que me não deixava entrar n'aquella caza—Se eu tivesse menos orgulho, se eu não tivesse querido exaltar-me, singularisando-me por uma delicadeza affectada, que, dos meus proprios olhos, me não lava da minha acção; se, como fazem tantos nas minhas circumstancias, eu me fizesse amigo do homem, cuja mulher roubava, resgatando hoje a pequena parte remissivel de meus actos, poderia achar algum lenitivo para esta afflicção. Mas eu tivera{79}sempre mais orgulho que bom senso. Pungia-me, então, a idéa de que, por falta minha, n'aquelle desastre em que cada qual heroicamente desempenhava o seu dever, estava eu sendo um ente inutil. Contrapondo á minha consciencia taes subtilezas, tão futeis ellas eram, que não me illudiam. Mas, á maneira do naufrago que se agarra aos limos fluctuantes, sem esperar salvar-se, eu me escorava á minha propria dôr, accuzando-me de faltas não commettidas, falsificando meu proceder e sentimentos n'isso mesmo que elles tinham de honra, por que eu não sabia que fazer para readquirir uns longes de esperança.XXXIXFanny visitava-me como visitamos um doente incuravel, e retiramos sempre admirados de encontral-o vivo. Palavras de alento não as tinha para m'as dizer, que não carecia menos ella de ser consolada. Se eram boas as noticias, suspirava; se eram más, chorava. Como ella, um dia desenvolvesse em toda a sua horrivel extensão, a pesada cadeia das mais secretas miserias que entrevia—atterrada por se não sentir com forças para arrastal-a—eu rompi o silencio subitamente, e, com simplicidade, lhe offereci todos os meus teres para desempenhar a{80}honra de seu marido, que, por derradeiro ludibrio, fôra entregue aos azares do jogo.Mas, a pesar mesmo deste novo desastre sobreposto ao antigo, e tão afflictivo que já fazia esquecer o outro, Fanny foi o que devia ser:«É desgraçada a nossa situação—me disse ella com severidade extraordinaria—Roger! amo-te agora mais do que nunca; mas não sou livre; por isso mesmo que te adoro, é que tu és o unico homem de quem não posso acceitar nada.XLA adversidade cansou. As cartas vinham cada vez mais animadoras, e já não havia questões de honra, nem de miseria, nem se quer da separação que tanto temeramos. Quando muito era só a perda de ametade dos bens que podia preoccupar Fanny. Vieram o socego e os risos para ella; mas eu, como um miseravel que tem duas chagas a pençar, senti immediatamente despertar o ciume, mais ardente que nunca. O marido estava a chegar, e esta vinda, d'antes tão desejada, incutia-me agora invencivel horror. Dezejei-lhe a morte. Tornei-me sombrio, desconfiado, interrogador. Recomeçaram as nossas luctas.{81}XLINunca me viera a idea de romper com Fanny; mas travados outra vez em guerra, de repente me appareceu, fulgurante como um relampago. E eu senti entrar com ella em meu coração a suave caricia da esperança. Mas esta esperança, ai! não durou mais que um segundo. Máo grado meu, tremulo de horror, dei-me pressa em repulsar a idea do meu resgate.XLIIDepois de uma discussão em que, mais uma vez, eu expozera aos olhos d'ella as minhas angustias, Fanny veio de moto proprio a devassar d'um pensamento que eu não ousara nunca deixar-lhe vêr.—Não fui esperta—disse ella. Eu devia fingir-te a minha vida. Por muito improvavel que fosse o que eu te contasse, tu acreditarias tudo, por que iria no acredital-o o teu interesse. Não fui esperta, mas é que eu nunca soube mentir.{82}Esta confissão foi para mim uma subita revelação, suppuz logo que ella á semelhança d'outras mulheres, orgulhosa de ser feliz, escondia vaidosamente a um tempo, vicios e dôres, e, desgraçada, queria que a suppozessem feliz. Esta suspeita inquietou-me oito dias; mas a esperança que me ella gerava no coração não podia durar. Instei Fanny, facilitando-lhe recursos para desmentir-se e patentear-me tudo de sua vida. Admirando-se de eu duvidar d'ella, Fanny confirmou glacialmente o que me havia dito e tornou-me á desesperação.XLIIIApproximava-se, n'esta conjunctura, o praso que o marido designara para voltar. Parecia-me que devia ser esse o dia da nossa separação, e da morte para mim. A idea da partilha enojava-me. Resolvi cem vezes explicar-me com Fanny á cerca d'este assumpto horrivel, mas não me attrevia. Havia n'ella uma especie de renascimento: nunca a vira tão terna e submissa. Ao mesmo tempo deu em ser muito expansiva. Nos ultimos tempos, coisas insignificantes tocantes á sua vida intima, andavam sempre em nossas praticas; d'ahi vinha o continuar ella agora a fallar-me dos minimos incidentes da sua vida. É o que devia, mais tarde collocar-nos face a face, na attitude ameaçadora de dois inimigos.Não sei como se deu, nem qual de nós foi causa da scena atroz que sobreveio; lembra-me só que Fanny estava já para sair, e ambos nós em pé. Acabava ella de apertar as fitas do chapéo, deante do espelho do fogão, ao qual eu me encostava; já tinha o chale nos hombros, e buscando com os olhos o lenço, que pozera sobre uma meza, acabava de{83}abotoar as luvas. Assim, continuavamos em termos meio affectuosos e familiares uma contenda que intendia com ella e com o marido. Estavamos ambos serenos quando lhe aconteceu proferir uma palavra que me gelou o sangue nas veias:—Eu mentiria, se dissesse que não tinha affeição a meu marido.Logo que reflectiu na crueza d'essas palavras, tão imprudentes como inuteis, arrependeu-se de as ter dito. Sem accrescental-as, nem desmentil-as, acercou-se de mim, affastou o chale para me cingir o pescoço com o braço, amimou-me o rosto com a mão livre, e alteou-se nas pontas dos pés para abraçar-me.Era carinhoso o olhar, que exorava perdão á crueldade da bôca. Forcei-a lentamente a desprender-se-me do peito, e disse-lhe severamente:«Vós outras, as mulheres, não tendes delicadeza alguma no coração.»«Córou, fez-se mais meiga, mais insinuante, e quiz outra vez abraçar-me.Puz-lhe a mão no hombro e affastei-a: dizendo-lhe, tremulo de furor:—Ha dias que me falla em seu marido, incarecendo-o muito. Esquece-se de que não é elle agora o mais digno de lastima?Apertou-me inergicamente a mão, em quanto com os labios cerrados, á mingua de palavras, me fitava com ternura supplicante.Mas a colera recrudescia a proporção que Fanny denunciava arrependimento. Continuei:«É justo que o ame, por isso mesmo que a sua estima se lhe deve com preferencia a tudo.{84}Conheceu Fanny que não poderia apaziguar-me. Não sabendo que mais fazer, deixou passar aquella phraze de interpretação doble, desdeu os laços das fitas do chapeo, pousou o chapéo e o chale sobre a cama, e assentou-se n'uma poltrona defronte de mim. Com o cotovelo esquerdo apoiado no braço da cadeira, a face na palma da mão, os olhares ondulantes, assim ficou na sua habitual posição. Mais que nunca linda, com aquelles braços maravilhosos, cuja alvura assombrada de pennugem destacava da seda negra do vestido; com as grandes luvas de pelle da Suecia que lhe cobriam os pulsos; com o collo flexivel e inclinado; e côr pallida; e os cabellos louros voluptuosamente annelados sobre a fronte pura: era a semelhança de algum bello retrato de Rubens. Por de sob a fimbria do vestido, sahiam os pequenos pés reunidos e assentes no chão. Nas escuras dobras da seda envolvia-se o braço direito, cuja mão, meio fechada, permanecia immovel como se fôra de marmore.XLIVQuando o publico soube o desastre do marido de Fanny, soubera eu que em Pariz circulavam boatos deshonrosos para elle. De ser rico e altivo grangeou muitos inimigos. Deviam de ser calumniosos os ditos{85}que sahiam de bôcas invejosas. Não os desmenti por prudencia, mas fiz nota d'elles. Bem sabia eu que um dia me serviria d'elles para vingar-me.Esperava eu, exasperado pelo furor, que uma palavra, provocando-me de novo, me desculpasse a crueldade. Ella, porém, de astucia não fallava, adivinhando que eu interpretaria á feição de minha raiva tudo que me dissesse. Assim ficamos ambos immoveis, callados, ella, esperando o golpe final, eu reunindo as minhas forças todas para descarregal-o.Decidi-me em fim: e, com uma só phraze cortante como gume de espada, attacando o mais sagrado da honra do meu rival, repeti as infamias em que eu não cria.A resposta foi prompta e terrivel. Isso é indigno!—exclamou ella erguendo-se hallucinada, escarlate, com uma expressão de colera e indignação que me assombrou.Não quero que se rosse na honra do chefe de familia! Não quero que se deshonre aquelle cujo nome eu trago! Por isso que o trahi; por isso que conspurquei a parte de sua honra que elle me confia, é que eu prohibo que se ultraje a outra... e principalmente ao snr!... Envergonhe-se!... Se acreditou essas calumnias, competia-lhe defendel-as commigo, pois foi commigo que...Interrompeu-se. Eu immudeci, e ella proseguiu: Fallou-me ahi na indelicadeza de coração das mulheres; e eu fallarei do orgulho dos homens. Não é só do amor das mulheres que carecem para estrado... Querem tudo o que ellas prezam, tudo o que respeitam: estima do mundo, familia, filhos, repouso,{86}e até a honra de seus maridos. Tudo lhes é mister para desvirtuar e rediculisar essa honra. Estou de mais castigada por ter crido que podia impunemente amal-o! Fui prudente; e por isso não é meu marido ultrajado que castiga a minha culpa; mas—castigo mil vezes mais cruel—é o meu amor. Mereço esta pena... e é o snr. que me pune!Continuei callado: e ella, com a boca a trasbordar sarcasmos, proseguiu:É como todos! O que ahi ha é orgulho. Não sabe amar!Desta vez, respondi turvado:«Não sou desculpavel por aggredil-o?—Aggrida-o como homem. Não tem tantas causas para o fazer?«Por Deus que o farei!Furioso, com os olhos injectados de sangue, os dentes cerrados, avancei para Fanny, mas ella suspendeu-me a tres passos com um olhar glacial que eu nunca lhe vira. Depois vagarosamente embrulhando-se no chale, da cabeça aos pés, como a sacerdotiza antiga, sombria, feroz, desesperada, deixou cair sobre mim outro relancear de olhos despresador, e sahiu.{87}XLVQue farei para apasigual-a?—Tal foi a ignobil pergunta que eu me fiz, ao amanhecer do dia seguinte.Escrevi-lhe uma longa carta tão submissa que não pude revêl-a sem pejo. Rasguei esta carta, comecei outra, mas tão acerba de estylo que devia exasperar quem eu queria commover. Não a conclui, e andei uma hora a passear phreneticamente em todas as direcções no meu quarto. Primeiro tive ideias de rompimento immediato; depois desvaneceram-se. Rebentou em chamas o furor e o ciume; depois apagaram-se. Por fim, comprehendi que o procedimento a que eu quizera impellir Fanny, era um crime, o qual, consumando irremediavelmente a desgraça d'uma familia inteira, devia tornar-nos desgraçados para sempre. Era-me pavoroso pensar que, a ter-me ella attendido, durante a nossa existencia toda, viriam interpor-se entre ella e mim as imagens de seus filhos abandonados.Mas ao mesmo tempo escasseava-me força para o resgate. Affizera-me ás minhas dôres, e não ousava trocal-as por dôres desconhecidas. É preciso ter sido, como eu fui, o tudo nas ternuras e affeições d'uma mulher, o coração que incessantemente regia os movimentos d'outro coração, para poder{88}comprehender os horrores da solidão que segue um rompimento. Eu delirava de raiva e dôr. Por fim, commovi-me, erguendo os olhos para o retrato de Fanny.—Que mal me fez ella?—dizia eu. Chorei; e, indeciso, vesti-me, e sahi.XLVISeriam oito horas. O calor dos ultimos dias d'agosto purpureava o céo carregado. As trevas, semelhantes a mortalhas espargidas, desciam com a nevoa opaca atravez das arvores da grande avenida dos campos-Elyseos. Os passageiros davam-se pressa para fugir á tempestade que trovejava surdamente ao longe. As estrellas brilhantes das lanternas, aqui e além, corriam, cruzavam-se e desappareciam. Nuvens de pó sacudido pelo vento subiam diante de mim e toldavam o espaço. A meio-caminho, quasi entreRond-Pointe o «Arco do triumpho» parei.Era alli. Encostei-me a um tronco de arvore, levantei o rosto, e olhei. A meus pés era a passagem das carruagens que vão do portal á avenida. Sobre a porta estavam abertas as quatro janellas da sala. Uma só lampada, por certo, illuminava o recinto, por que a claridade que translusia dos vidros{89}escassamente brilhava como um clarão duvidoso. Nenhuma sombra passava entre a lampada e os vidros. A casa está vasia—pensei eu—e todavia Fanny não está emChavillepor que a sala tem luzes.Estalou, neste momento, mais forte a trovoada.Relampaguearam os coriscos. Um bulcão rugiu na ramagem dos alamos da avenida, remoinhando turbilhões de folhas e terra. Então vi uma sombra de homem chegar á ultima janella, e fechal-a. As outras tres fecharam-as mais tarde. Depois, a froixa claridade que alumiava a sala bateu nas vidraças mais tensa e viva: havia-se accendido uma segunda lampada.E depois, mais nada. A avenida deserta, a tempestade no céo de todo negro, eu em pé debaixo da minha arvore, e a sala vasia com as quatro janellas lusentes. Soaram onze horas no relogio d'uma egreja visinha.De repente, o estrepito de rodas acceleradas, mordendo a areia, passou ao pé de mim. Eu dera, sem saber porque, alguns passos authomaticos.—Arreda! Arreda! gritou uma voz irritada. Saltei para a margem da estrada. Umcoupévasio passou bamboando sobre o eixo, effeito dos sacões; depois uma grande carroça de viagem tirada por quatro cavallos, voltou de repente sobre si mesmo, ao tempo que se abriam os dois batentes da porta-cocheira. Remirei a carroça com assombro. Ao fundo estava um homem, que eu bem conheci—era elle. Ao seu lado uma mulher que lhe fallava: era Fanny. Entre elles, sobre os joelhos, e nos braços,{90}tres meninos de cabellos louros. Foi uma visão rapida. Não sei se me viram. A carroça desappareceu por debaixo do arco do portal, e logo os dois pezados batentes rodaram nos gonzos, e bateram entre si com estrondo lugubre e cavernoso.Acabava eu pois de me arredar para dar passagem ao meu rival que entrava como senhor em sua casa.XLVIIPor que me não esmagou elle com as suas rodas?—exclamei, com a morte na alma, retirando-me, e caminhando ao acaso como um ebrio.Passava uma sege de praça; entrei—onde quer ir?—diz o boleeiro, embrulhando-se no seu capote—onde quizeres, ao Bosque, onde quizeres. E senti-me arrebatado d'aquelle sitio funesto.A chuva escorria sobre as vidraças corridas. Encolhido n'um angulo da sege, com os braços cruzados, e a face encostada á almofada, vi de lado, ao clarão dos relampagos, estorcerem-se as arvores atormentadas pelos furacões. A intervallos, resalteavam no ar as astilhas dos coriscos. E eu dizia: Esta tormenta não os aterrará? Não sei que tempo passei blasphemando, rasgando o peito com as unhas, chorando, dentro dessa sege que corria atravez{91}das arvores do bosque, ao clarão avermelhado dos relampagos. Sentia-me abafar. Desci os vidros e a chuva batia-me na cara e nas mãos. Encostei-me ao rebordo da portinhola, com a face deitada nos braços. Tomou-me uma sensação horrivel de frio. Tinha febre. «Quer que recolhamos?» dizia de espaço a espaço o boleeiro cançado.—Quero—disse eu, fatigado já tambem.XLVIIINascia a aurora lagrimosa no mal enchoto céo, quando, erguendo a face, reconheci uma casa á margem da estrada. Era a della. Todas as portadas da janella estavam fechadas, e as luzes extinctas. Apenas um clarão avermelhado excessivamente mortiço, semelhante ao que sahe d'uma lamparina, brilhava como um ponto entre duas taboinhas de persiana, na ultima janella da direita, em uma alcova lateral ao salão. Debrucei-me longo tempo sobre o apoio da portinhola para enxergar o ponto vermelho e expirante. Mas não chorava já. Ia tranquillo, de gelo, prostrado de fadiga.—Dormirá ella agora?—me dizia eu.{92}XLIXOs primeiros dias, que seguiram esta noite horrivel, passei-os n'um estado de stupor de que não havia arrancar-me. Esperava não sei que, que devia terminar-me a vida e os males.—Isto não póde acabar assim!—dizia eu. Vinte vezes ao dia, pedia a minha correspondencia mas nem se quer abria as cartas que o meu creado me trazia. Bastava-me vêr a lettra dos sobre-escriptos. De Fanny não vinha alguma. Affigurava-se-me que ella tinha morrido. Isto amedrontava-me. Cheguei a duvidar da minha rasão.Ao oitavo dia, depois da nossa ultima entrevista, tive um presentimento de que ia vêl-a. Preparei tudo o que queria dizer-lhe. Senti-me vencido. Queria pedir-lhe perdão; declarar-lhe que estava prompto a submetter-me; queria supplicar-lhe alguma piedade para os meus padecimentos. Esperei-a em vão até noite fechada, contando as horas nas pulsações alternadamente precipitadas e desfallecidas do meu pulso. Não veio. Não escreveu. Ninguem me deu um instante de esperança fazendo vibrar a campainha da minha porta.Ao anoitecer, sahi na direcção da casa d'ella. Chegando á alameda fiquei surprehendido, vendo{93}tudo fechado. A ideia de Fanny ter ido para longe, tão longe que eu não podesse vêl-a mais, atravessou-me o cerebro como um dardo. Com horrivel angustia, mas affoitamente, como um covarde, a cuja cabeça subiram as fumaças da bravura, bati á porta e perguntei ao creado se a senhora estava em casa. Eu estava pallido e tremulo; mas elle não deu fé.—A senhora está no campo—respondeu, «Onde? em Chaville?»—sim, senhor.Fui encostar-me a uma arvore por que me sentia desmaiar.Ao cabo de alguns minutos decedi-me a ir para casa. Era meia consolação saber que Fanny estava ausente. Comprehendi, emfim, o motivo que lhe estorvara a vinda; mas não comprehendi por que me não escrevera durante oito dias. Eu deveria suppor tambem que ella esperaria carta minha; mas havia ainda muito egoismo no meu despeito.—Quem sabe se ella me espera lá—dizia eu para consolar-me.Apenas esta ideia se me abriu no espirito que um desejo imperioso de vêr Fanny, á custa de tudo, e logo, me assaltou. Estava então perto de casa. Entrei rapido e pedi o meu cavallo. Ajudei mesmo o creado a apparelhal-o. E lancei-me ao caminho, cheio de esperança, com as esporas cravadas nas ilhas sacudindo as redeas, á desfilada, enlameando passageiros, sem mandar arredar ninguem.Tanto corri que receei ter-me desencaminhado, e não conheci a casa de Fanny, que estava em frente de mim, vagamente alumiada, debaixo das agigantadas arvores. Mas, alçando-me sobre os estribos,{94}para olhar por cima do muro conheci o pavilhão. Apeei, e entrei no bosque para prender o cavallo a uma arvore. Depois, retrocedi, e vi com surpreza que a graderia do jardim estava aberta. Um creado de farda estava á porta. Ao cabo da aléa, no cunhal da casa, vi brilhar as duas lanternas d'uma sege immovel.A meio caminho entre a casa e a grade, um pouco á esquerda, no centro de um amplo taboleiro de relva, os vidros coloridos do pavilhão fulguravam aos raios d'um candieiro posto no interior.—Que segnifica tudo isto?—perguntei eu, caminhando ao longe do muro para encontrar a brecha por onde eu passára duas vezes. Mas apenas puz o pé no jardim, fiquei como pregado no chão. Estava ouvindo imprecações e soluços; do pavilhão, a vinte passos de mim, é que elles sahiam.Cobriu-me o corpo todo um suor frio. Eu tremia como a folhagem dos arbustos, sob as quaes me escondera.Neste momento, a sege correu a grande trote dos cavallos para a grade; de certo o cocheiro obedeceu a um chamamento que eu não tinha ouvido. Ao chegar defronte de mim, parou, e o creado da almofada abriu a portinhola. Tinham cessado os gritos e os soluços. Sahiu um homem do pavilhão, e fechou-se a porta. Reconheci-o. Que outro poderia ser? Assentou-se nos coxins, o creado subiu para a almofada, o cocheiro picou os cavallos, a sege passou a grade, rodou sobre a calçada sonora, e a grade foi fechada pelo creado de farda que estava ao pé.{95}Logo que este homem, caminhando para casa, se sumiu entre o arvoredo, avancei precipitadamente, sem precauções. Antes, porém, de levantar o trinco da porta, examinei atravez dos vidros. No centro do pavilhão estava uma meza redonda, com um candieiro em cima. Em toda a roda corria um amplo divan; e deitada sobre este divan, vi uma mulher chorando, com a face entre as mãos, dando soluços de rasgar o coração, era ella! Fanny! ella! Entrei precipitadamente abri-lhe os braços, e lancei-me de joelhos a seus pés.Mal me havia reconhecido, quando expediu um grito lacerante, apertou-me a cabeça entre os braços, e abafou-me contra o seio. Eu não podia fallar nem respirar. Fanny beijava-me os cabellos, desgrenhava-os com a face, mordia-os para suffocar os gritos; depois ergueu-me a cabeça e eu senti cahirem-me lagrimas nas faces, em quanto os seus labios frementes se agitavam sobre os meus vertiginosamente, e suas mãos palpitavam por sobre meus hombros, face, pescoço, em phrenetica inquietação. Finalmente, cahindo desfallecida e quebrada de dôr tirou por mim, e arrastou-me na quéda sobre o divan. Ergui-me. A partida do marido, e as lagrimas d'ella, eram-me coisas incomprehensiveis. Entretanto, fiz quanto pude por chamal-a á vida. O candeeiro, cahindo, apagara-se. Caminhei para Fanny ás apalpadellas, arranquei-lhe os colchetes do vestido, e tirei-lhe a pedaços o colete. Depois, á força de caricias, rogos e orações, aquecendo-lhe as mãos com as minhas, e bafejando-a com o meu halito ardente, consegui reanimal-a. Soltou um longo{96}suspiro, e ergueu-se amparada nos meus braços, e parecia reflectir. Torrentes de lagrimas lhe rebentaram dos olhos, e lançou-se a mim com tanto amor, e com ar de tanta piedade, que eu, a soluçar tambem, a comprimi ao peito.—Oh! Roger! meu Roger—exclamou Fanny com a voz entrecortada—se soubesses que desgraçada eu sou! Consola-me. Ama-me. Soccorre-me. Oh! que bem me faz o chorar sobre o teu coração... Meu querido Roger!Os soluços embargaram-lhe as palavras. Instei com ella que se explicasse. Eu não sabia ainda que dôr podia ser esta, que rompia em gritos de indignação.—Teu marido sabe tudo, sim? disse-lhe eu. Fanny fez um meneio de cabeça negativo, e respondeu:«Não, não é isso; mas ha um anno que te minto. Eu sou a mais desgraçada, a mais humilhada, a mais insultada das mulheres. A escoria, o opprobrio, as infimas mulheres não são mais desgraçadas que eu!A este grito, que lhe fugia do peito não tinha eu que oppor. Fiquei estupido e estupefacto. Não achava palavra que lhe dissesse. O que eu fazia era abraçar convulsamente a lagrimosa mulher. Subito, um raio de luminosa previdencia me esclareceu o espirito.—Se não aproveito esta occasião para confessal-a, nunca saberei nada—dizia eu commigo. Tranquilla deste lance, nunca mais fallará.Era judiciosa esta idéa. Fiz bem escutar-lhe a{97}inspiração. Empenhei, pois, toda a minha eloquencia para tirar desta pobre mulher o segredo, que por tão largo tempo, me havia occultado. Instei, animei-a, interroguei-a, mostrando-me consternado por sua dôr. Entrei, pois, no segredo d'uma deploravel historia, não d'uma vez, mas arrancando-lh'a a promenores, a pedaços, por que a sua exaltação, deixando-se ir até dizer tudo, era intervallada de reticencias nos mais delicados pontos da narrativa.Fez-se luz então para mim tudo o que houvera escuro e incomprehensivel na sua vida e proceder.LO marido de Fanny não era o homem fastidiosamente bom que eu cuidava. Era um terrivel déspota. Mulher, amigos, creados, todos se acurvavam aos seus caprichos e obedeciam passivamente ás exigencias do caracter d'elle. Por zêlos, não é que elle opprimia a mulher, senão que por indomavel espirito de vontade. Em sua casa havia uma unica pessoa que dava regra e á qual deviam amoldar-se habilmente as de mais. Não se tinha em conta de mero homem; dava-se ares d'uma especie de sol que allumiava; aquecia, e communicava vida a tudo que o rodeava.Pelo que, logo que viu sua mulher, aconselhada{98}por mim, desviar-se insensivelmente da norma de vida que elle traçara, ficou primeiro, como pasmado; mas, com um carregar de sobr'olho, fez que Fanny entrasse immediatamente na ordem. Todavia, não lhe deu canceira averiguar o por quê d'aquella timorata tentativa de emancipação. A seu vêr, toda a mulher era ente chimerico, dirigido por machinismo incomprehensivel, que não merece analyse séria. Nem elle tinha arrebatado Fanny, nem a tinha esposado por amor. Não. Seduzira-a por que era formosa, e elle queria que uma mulher formosa fizesse as honras de sua casa. Raptou-a porque lh'a negaram. Esposara-a porque era rica, e elle pobre, e, de mais, queria, a um tempo, enriquecer-se e propagar-se.E, como a visse submissa, todo elle era disvelos. Era-lhe ponto de honra gastar cada anno, com sua mulher dobrado do rendimento do dote, e a miudo a presenteava com ricas dadivas para ostentar sua liberalidade. Sentia por ella, em summa, alguma coisa d'aquella rudeza attenciosa que tem os cavalleiros arabes pelos seus cavallos de fina raça. Usam elles mesmos arraçoal-os com uma das mãos, tendo na outra o chicote prompto a castigar o menor desmancho.Por largo tempo, Fanny, subjugada por aquella vontade superior, docilmente se sugeitou. Pensou, executou, viveu por elle. Á força de paciencia, obteve, por fim, de seu senhor uma apparencia de liberdade. Alguns mancebos—segundo me pareceu—approveitaram isso para cortejarem franca e assiduamente a bella mulher cujo ar de tranquillidade{99}inculcava um longo habito de rebellião interior, e de dôres inexpansivas. D'isso, porém, o marido nem se quer suspeitou. Sómente o accaso lhe trouxera ás mãos uma carta de comprometter. A scena immediata a este descobrimento foi terrivel. Não se deram, com tudo, gritos, insultos, nem brutalidades degradantes; nem duelo, nem explicações, nem separação forçada dos dois imprudentes, que teriam castigado irremissivelmente o orgulho do esposo, mesmo quando o vingavam. O intelligente marido o que fez foi declarar a sua espoza que guardava a carta. E, desde então, cada vez que a via inclinada a emancipar-se, servia-se da tal carta para a fazer tremer e submetter-se. Um quarto de papel tornou-se nas mãos deste homem um punhal com que elle espicaçava a mulher para fazel-a andar deante d'elle.Era, pois, um vilissimo homem? Não: era simplesmente orgulhosissimo. Ainda que aquella carta preciosa fosse mil vezes mais explicita, o marido não lhe daria credito. Em quanto a elle, aquillo, quando muito, era a prova d'uma creancice perigosa que, astutamente explorada, poderia degenerar em apparencias de crime. Mas no crime é que elle nunca acreditou. E acreditar, como? Era impossivel, pela simples razão de que sua mulher não podia mostrar-se criminosa para com elle. E não podia por que era sua mulher. E não podia, por que elle... eraELLE. Por tanto, censurando um pouco essa creancice humilhante, não se mostrava inquieto nem menos feliz. E continuou a amar a mulher, a seu modo, com aquelle seu coração de ferro. Depois{100}de quinze annos de casado, vinham ainda ás vezes uns dias em que elle era todo amores com ella.A arma, porém, continuava a ser arma em suas mãos, e sempre com serventia. Primeiro, graças á carta, obteve de Fanny que não fallasse mais com sua mãe, que elle detestava, por que o não quizera de bôa vontade acceitar por genro. Depois, exigiu que fizesse crear os filhos em peitos alheios, sob pretexto que os cuidados maternaes lhe desbotariam o gosto dos prazeres da sociedade. Depois, sem consultal-a, e sem visivel utilidade, vendeu o castello onde ella nascera, onde passara a infancia, e o parque onde estavam sepultados seu pai e seus dois irmãos. Finalmente, graças á prestimosa carta, não havia repressões que não lhe ordenasse, vexações que não lhe impozesse mas sem maldade, mas prodigalisando-lhe sempre obsequios e cortezias, principalmente em publico. E a vida de Fanny tornou-se um inferno no qual um implacavel demonio a torturava com uma mão, e acariciava com outra.Quando, porém, Fanny resistia a exigencias graves, ou a ultrages brutaes á delicadeza d'ella, é que o marido rompia em transportes inauditos. Nesse caso, perdia a consciencia de si proprio, mas por uma hora sómente. Deixava de ser o homem urbanamente desdenhoso que trazia na cara os mais exquisitos matizes da superioridade de caracter, e cujo ar affavel e franco, parecia dizer a todo o mundo: «Vede que não ha que temer de mim.» Transfigurava-se em leão que a natureza amassara com as suas mãos callosas, e que a educação desbastara apenas. Hirtavam-se-lhe como crina os cabellos.{101}Flammejavam-lhe os olhos como reflexos d'oiro fundido. As ventas dilatadas assopravam um halito ardente. A boca contrahida abria-se, e mostrava dentes admiraveis, como se ameaçassem dentadas. Crispavam-se-lhe os punhos cerrados. Era medonho. Havia um insulto que não deixava nunca de esbofetear a victima. A carta dava sempre o pretexto. E era sempre o mesmo insulto, a mesma palavra infame que a marcava na fronte como ferro em braza, e que a rebaixava—como ella dizia—á ultima escaleira de todas as mulheres.Mas a sorte, que não tem compromissos com as paixões e os caracteres, obstinava-se por vezes a brigar com este athleta. Feriam-no successos imprevistos: obstaculos estranhos sahiam a empecer-lhe os passos. Então era sublime! Não blasphemava, não injuriava a sorte, por que sabia que era inutil; mas arcava com os successos e obstaculos, e luctava silenciosamente, friamente, pacientemente. Por custume, dominava a sorte. Quando lhe correram risco os bens da fortuna, á força de audacia, conseguio resarcir a melhor parte, abandonando a outra, como um favor irrisorio aos credores, seus emulos. Outro qualquer, no logar d'elle, esmoreceria, que vontade como a sua não havia quem a tivesse. Mas um exito mediocre não bastava a este homem, insaciavel de exitos estrondosos. Decidira safar o seu navio de entre os escolhos onde fôra a pique. Queria salvar tudo, carregação, apparelhos, e até o lastro. Jurára de não ceder ao oceano, um prego só. Eil-o ahi, que, descançando, na meditação de oito dias, dos seus primeiros trabalhos, reapparece no{102}sitio do naufragio mais azafamado, mais resolvido, que na primeira vez. Esta partida subita cauzara a ignobil disputa de que eu fôra involuntaria testemunha.

Porém, nos mais violentos accessos de meu ciume, inraivecia-me vêr-lhe no semblante aquelle seu ar pudico, que ella conservava sempre, mesmo na mais avida vertigem do goso. Ora isto, com o correr do tempo, deu para me irritar. Tomei a peito{55}depraval-a, buscando abafar este amor nas cinzas do fastio: Fanny ficava sempre a mesma! Estavam alli duas almas diversas a exhalarem-se-lhe dos labios e dos olhares. Uma era a de Phrynea absorvida, e séria, nutrida dos mais finos primores como das especiarias mais corrosivas da paixão, o que, alternadamente, se assignalava por um sorrir estranho e vago. A segunda era a de um anjo immaculado. Ai! aquelle olhar d'ella! Aquella expressão de spasmo que reluzia perpetuamente em seus olhos azues, tão rasgados, sob as placidas e destacadas palpebras! Ainda agora me seguem e arrebatam! Sinto-os sempre, fitos nos meus! Interrogam-me, e fascinam-me! Não poderei jámais esquecer os olhos d'ella?...

Fanny, no garbo de suas attitudes, no meneio da cabeça, no andar, tinha algumas vezes um não sei que que denunciava appetites de um sensualismo profundo e vehemente, e mesmo alguma coisa dessa monstruosa concessão duplicada, que tanto a meus olhos a invilecia. De subito, com uma palavra só, transfigurava-se, e julgal-a-ieis uma outra mulher.

«Que mulher és tu, pois?» lhe disse eu, em seguida a uma discussão em que me havia manifestado sentimentos os mais contraditorios. Levantou ella a face, e encarou-me com os seus olhos tranquillos e lympidos; porém, commoção interna lhe dilatava as azas nazaes e avermelhava de leve as faces.

—Não posso viver sem amar—respondeu ella pausadamente—Não posso viver sem ser amada. Minhas qualidades boas, e meus defeitos, são cousas{56}secundarias: todas as mulheres tem d'umas, e d'outros. Mas o que é exclusivo meu, é a minha paixão.—E com leal exaltação, ajuntou: «comprehendes-me?»

Chegou o estio, ao cabo d'estas muitas e penosas discussões. Todos os annos, Fanny ia passar aquella estação ao campo, nos arrabaldes de Pariz. Um dia, veio ella afflicta annunciar-me a triste nova da partida; eu, porém, recusei explicitamente conformar-me com a ausencia «Escrever-nos-hemos» disse ella. Semelhante resignação exasperou-me. Não sei que lhe respondi, esqueci-o; lembra-me só que combati aquella resolução com energia de desesperado. Eu chorava tanto, estava tão alvoroçado, tão infeliz, que ella houve piedade de mim. Apertando-me nos braços, mil vezes me repetiu que consentia em adoptar os expedientes que eu lhe indicasse.—Sê prudente! sobre tudo, não te arrisques—disse-me ella, entre dois beijos, retirando.

Passados oito dias, encaminhei-me na direcção de Chaville. Á beira da estrada real de Versaille é que estava a casa d'ella.

Quando ouvi dar a meia noite nos relogios longinquos, escalei o muro, e fui ter a um pavilhão,{57}cujo local me havia indicado Fanny. A vinte passos, d'um ponto em que me occultavam as copas do arvoredo, vi um vulto pardacento, immovel. Era Fanny. Corri para ella. Levou-me comsigo. Fechei a porta. Estávamos ás escuras—Não falles—segredou-me ella, com extraordinaria agitação—elle está desconfiado ha tres dias; anda triste; deve ter suspeitas.

Aqui está uma variante nova na amargura da minha vida, com a qual eu não contava.—Ouve—murmurou ella, com a voz tremula de mêdo—é preciso que elle não desconfie; não quero que elle o saiba; não quero. Tu és homem, a ti pertence dirigir o meu comportamento. Falla; e, se é de sacrificios que vaes fallar-me não temas, que eu sou forte.—E sentindo-se desfallecer, vendo-me perdido de dôr, disse-me com amargura:—Eu tinha esquecido que tu não passas d'uma creança. Perdoa-me por haver-te fallado como a um homem.

«Fanny,—disse-lhe eu solemnemente aconchegando-a de mim para fazel-a sentar ao meu lado—serei talvez creança, mas tenho coragem de homem. Surprehendido imprevistamente por esta cruel noticia, não sei que inventar; mas, já que és forte, decide tu o que devemos fazer: submetto-me. É preciso abandonar-te? Dize-o. Pela memoria de tua mãe, se assim o queres, não me verás jámais, ainda que me procures por toda a terra.

Não quero que morras—disse ella com voz soturna, erguendo-se, e batendo no chão com o pé. Depois tomou-me a cabeça entre ambas as mãos e abraçou-me convulsivamente sobre os labios. Mas{58}o ruido de passos que rangiam na areia impoz-nos silencio. Abraçados pela cintura, curvamo-nos sobre a vidraça para vêr quem assim passeava no jardim a hora tal.

Era elle! Reconheci-o na largura dos hombros, nos cabellos arrussados que volteavam ao vento sobre a cabeça nua. Caminhou parallelamente ao pavilhão, pela rua larga e descoberta, alagada dos fulgores da lua que cahiam sobre ella a prumo. Marchava lentamente, com as mãos enlaçadas no dorso, cabisbaixo, as feições alteradas, como homem que leva de poz si pensamento oppressivo. Passou ante nós, e imbrenhou-se no cerrado arvoredo.

Tive de sustentar em meus braços a desgraçada mulher, por que os joelhos não podiam sustel-a. «Socega, minha querida, disse-lhe eu—teu marido nada suspeita. Está preoccupado; mas não se vê alli a inquietação febril dos ciumosos. Eu sei bem o que é, de sobra me tenho observado a mim.

—Crês? exclamou ella n'um impeto de esperança que a vibrava.

«Tenho a certeza. Entretanto, separemo-nos. Passados oito dias, tornarei. D'aqui até lá observa-o bem. Não sei o que é que o inquieta; mas eu a quem tu hoje chamas creança, digo-te isto: teu marido não tem ciumes.{59}

Logo que ella partiu, fui impetuosamente no encalço do solitario passeador. Via-o outra vez na volta d'uma rua. Passou, como primeiro, deante de mim, sem me perceber, sempre sombrio, sempre meditativo. Curei de surprehender alguma involuntaria palavra que me revelasse a causa da sua concentração. Mas tinha cerrada a bôcca, e impassivel a fronte. Subindo para casa, accelerou o passo. No patamar, parou, olhou o céo estrellado com sombria seriedade, e alongou para elle os braços, como se do coração lhe fugisse alguma prece ameaçadora. E eu exclamei mentalmente: «É elle, pois, desgraçado tambem!»

Passei os oito seguintes dias em angustia inexprimivel. Não parava em parte alguma. Os temores, as suspeitas subiam-me ao cerebro em borbotões,{60}como os vapores da vinolencia. Pensava n'ella só! Dizia-me não sei que de convicto e infallivel que eu estava ameaçado de perder Fanny. Era como um espectro deante de mim a imagem d'uma separação violenta. Não atinava com o modo de aliar esta especie de previdencia com a certeza de que o marido ignorava tudo; mas esta previdencia justificava-se tanto que eu entrei a tomal-a como aviso do céo.

Ao oitavo dia, á hora costumada, puz-me a caminho; mas, d'esta vez não esperei a hora indicada, nem me acautelei para entrar em casa de Fanny. Não. Caminhava deante de mim mesmo, com a violencia e direitura d'uma balla, resolvido a procural-a mesmo no seu quarto, se a não encontrasse no pavilhão. Timido de tudo, sem poder definir o objecto dos meus temores, esporeava o cavallo, que se espadellava com a terra, alternadamente contrahido e distendido como um grande arco atormentado por mãos febris. A lua alumiava de travez a estrada silencioza que eu levava, zebrando-a de listas de prata, e parecia voltar-se para mim melancolicamente seguindo-me com os seus fulgidos olhares. Desfillavam a meu lado as arvores, rapidas e negras como phantasmas vertiginosamente marulhados n'um rodopio. Os cães, que dormiam nos pateos, atiravam-se aos portões latindo ao estrepido das ferraduras do meu cavallo, que estalavam na calçada. E o vento que me açoitava a cara, murmurava-me aos ouvidos palavras irritantes. Tudo me impellia e me vaticinava algum drama em que eu ia representar um papel. Armei-me para{61}isso, decidido a não succumbir sem luctar com todas as forças que a desesperação desde muito me tinha dado. Quão exaggerado eu era na espectativa como nos preparatorios! Este meu espirito enthusiasta não sonhava senão combates sobrehumanos, desinteresse fero, esforços heroicos!... Ai! e que desenlace tão vulgar me esperava!

Transpondo o muro, fiquei surpreso de vêr Fanny assentada na margem d'um passeio. Mais d'uma hora me tinha eu antecipado, e receava que seu marido estivesse ainda fóra. Logo, porém, que me avistou, Fanny, veio para mim, sem se esconder, como se fosse natural entrar eu em sua casa pelo caminho dos malfeitores. Tomei-lhe a mão. Pareceu-me vêl-a inleada e cuidadosa.

«Que aconteceu?—perguntei, levando-a para debaixo das arvores.

—Tinhas mais que rasão, Roger; meu marido não tem ciumes—disse ella—Nunca se fiou tanto de mim. Não me cancei a interrogal-o. Hontem contou-me a causa da sua preoccupação. Os seus haveres todos, depositados em Inglaterra, estão em risco com a fallencia d'um banqueiro. Esta manhã{62}partiu para salvar alguns restos, se ainda for tempo. É forçoso que a inquietação fôsse grande—ajuntou Fanny suspirando—por que nunca foi commigo tão expansivo.

Não achei palavra com que responder a esta afflictiva noticia, com quanto nos consolasse a ambos de tamanho pezo. Fiquei atordoado como homem que soffreu violenta pancada na cabeça. Regorgitavam-me nos labios os sarcasmos; mas eu represava-os.

«Nada respondes, meu amigo?—disse Fanny.

—Que heide responder?—exclamei, perdida a consciencia da minha brutalidade.—Lamento-te se tinhas grande apego ao luxo de que vaes ser privada; lamento-te, principalmente, por teus filhos; mas... «Mas?» atalhou ella.

—Mas não posso lamentar-te por teres sido ameaçada de perder-me, e te achares hoje mais livre que nunca para amar-me.

Fanny ergueu as mãos ao céo, como invocando o seu testemunho, com expressão de piedade, e disse brandamente:

«Não fallemos mais de mim. Eu heide ser sempre um livro fechado para ti.

Passeamos, depois d'isto, debaixo das arvores vagarosamente, sem nos darmos o braço, sem dizer palavra, durante meia hora: por fim, parou ella deante de mim e tomou-me ambas as mãos, e disse em tom de voz submissa:

«Roger, por que não fallas?

—Não tenho consolações que dar-te.

«Por que?{63}

—Por que eu mesmo tenho talvez necessidade de ser consolado.

«Pois que te succedeu?

—Nada.

Continuamos a passear, ao acaso, entre o arvoredo, silenciosos, ella curvando-se debaixo das franças, eu, erguendo-as, para ella passar.

—Agora vamos nós tomar quinhão nas amarguras d'elle—disse eu de repente. «Assim deve ser» respondeu ella com tranquillidade.

O remate do nosso encontro foi magoado por um começo que eu não podera prevenir. O pensamento de Fanny vagueava por outra parte. O meu, a meu pesar, tambem. E, todavia, eu não poderia justificar-me d'um certo prazer inquieto que me dava a idea d'um successo que podia apartal-a do marido para sempre.

—Quem sabe—pensava eu commigo—se a sua ruina fará o que a minha dôr não pôde fazer?

Depois d'este dia só em Paris nos tornamos a vêr. Era facil a Fanny ausentar-se, agora que a ninguem devia contas de suas sahidas. Por isso tornamos ao antigo viver. O que eu, porém, previra realisava-se com um rigor de desesperar. Não era só o pensamento senão a vida de Fanny que estavam n'outro logar. Cada vez o sentia mais. Nossa tranquillidade, prazeres, expansões, jubilos dependiam absolutamente das cartas que o marido lhe escrevia. Se faltava o correio, ficava distrahida, não me ouvia. Se recebia de manhã carta inquietadora, ficava preoccupada e taciturna. Quando a carta era de esperanças, irrompia ella em explusões{64}d'amor e d'alegria. Esta alegria, porém, molestava-me muito mais que a tristeza, e aquelle amor, cuja explosão atava a alguma coisa que não derivava d'elle mesmo, indignava-me. Gélido deante de sua inquietação, mudo se ella estava triste, irritado pela sua alegria, recuzava energicamente a receber a repercussão das novidades que tanto a preoccupavam; e quiz-me parecer que Fanny não se incommodava ou nem dava fé dos meus enfados. Isto desesperava-me.

Em summa, aborrecido de me vêr assim atado ao meu rival pela mulher, que, repartindo-se equitativa por nós, dava todos os seus pensamentos aquelle que ella julgava ter mais urgente precisão de suas sympathias; indignado por compartir dessas penas, e esperar-lhe anciosamente as alegrias que só podiam fertilisar as minhas; aguilhoado da tristeza, do ciume, e da desgraça, resolvi tentar um supremo esforço para recobrar o socêgo, arrancando-lh'a a elle. Desde muito que se me gerava no animo o desejo de exigir de Fanny o maior sacrificio que ella podia fazer-me; mas, retido pelo vago receio d'uma recusa dolorosa, deferi de dia para dia o momento de sollicitar-lh'o. Azou-se a occasião. Foi ella que a deu.{65}

«Uma mulher que se aliena—disse-me ella, uma vez, sem nexo que explicasse o improviso, e olhando-me com ar piedoso—Uma mulher, que se aliena, não pode amar sem tornar o seu amante o mais desgraçado dos homens. Quanto mais me examino, Roger, mais conheço que, fartes vezes, com desgosto meu, te devo fazer soffrer muito.

Commovido por este exordio, respondi balbuciante:

—E, todavia, a nossa alliança podia ser ditosa.

«Sim—disse ella amargurada—O que ha de mais entre nós é o amor.

O castigo secreto d'esta ligação é isso. Estas relações só duram com a condição de serem banaes; e, se o são, devem repugnar a corações nobres e delicados; se são profundas e intimas, tornam-se o supplicio de quem as sente.

E suspirou. Respondi assim:

—Vou mais longe que tu, Fanny.

Um amante, ainda mesmo que o seu amor seja mero capricho, deve soffrer com uma partilha que offende os sentimentos humanos todos. O amor proprio, por igual com o amor, tem seus ciumes, seu pudor, suas torturas. Uma amante, qualquer{66}que seja o seu theor d'amar, conhece sempre a existencia do marido. O marido, por via de regra mais feliz, não conhece a existencia do amante.

«Isso é ir longe de mais—disse ella a meia voz; depois, alçando os hombros, poz os olhos no céo, e exclamou:—Que é o amor proprio, Deus meu?

Folgando em fim de encontrar Fanny em tal disposição de espirito, aventurei-me. Peguei-lhe da mão, e erguendo-me, em quanto ella me olhava affectuosa, disse, n'um tom supplicante:

«Com tudo... se tu quizeres...»

Fanny corou logo, comprehendendo que se demaziava.

—Que queres tu dizer-me?

Não ousei responder; mas ella, por certo me adivinhou, por que me apertou meigamente a mão, e disse suspirando:—creança!

Eu fiz com a cabeça um gesto negativo! «Deixa-me!—disse ella de sobresalto, em tom de precipitada—Curar-te has assim? Não posso fazer-te feliz. Caza-te!»—A dôr anniquilou-a. Repelli-lhe rudemente a mão, e fitei-a colerico, por essas phrazes que me pareceram uma ameaça. Mas tão quebrantada a vi, que não tive coragem de a levar ao extremo, e murmurei por de mais:

—Bem sabes que não é possivel isso.

Replicou:

«Dei-te quanto podia haurir d'affectos em meu coração, e és tu quem me castigas!

Estava offendida: foi preciso aquietal-a, e jurar-lhe submissão; ella, porém, não perdoava assim, e exclamou:{67}

«Que queres que eu faça mais?

—Se me amas, como creio, o teu dever está traçado.

Corou outra vez: é que comprehendera.

«Meu dever! meu dever! Muito indiscreto és em proferir semelhante palavra, Roger! Ignoras tu que o meu mais restricto dever me ordena de não deixar a caza que governo?

—Ah! Fanny!—exclamei eu—que insignificancia tu trazes para me ferir... que confronto!...

«A caza—replicou ella baixando os olhos—é o posto d'honra confiado á mulher! Mulher que se respeita, não a abandona nunca!

Quiz interrompêl-a, mas ella continuou, de repente applacada, e olhando-me com ternura:

«Raciocina um pouco, meu querido filho: póde uma mulher abandonar sua familia honorifica, sem perder a estima de si propria? Póde ella desquitar-se publicamente de todos os seus deveres sem despenhar-se aos olhos do mundo entre as mulheres perdidas?

—São bem tristes considerações as da sociedade quando as cotejas com a minha vida...—respondi eu.

Ficamos em silencio, alguns minutos. Fanny proseguiu:

«Se eu seguisse os conselhos que me deixas adivinhar por que és muito honesto para m'os dar claramente, ser-te-hia forçoso, algum dia, fazer-me arrepender.

Eu quiz jurar; mas ella cortou-me a palavra.

«Podemos nós supprimir o passado? Não és tu{68}zeloso mesmo do passado? Oh! quero poupar-te!—accrescentou Fanny, levantando-se, e lançando-me um braço em roda do pescoço, em quanto com a mão sobre o meu peito, cravava ternamente nos meus os seus olhos azues—«Em teu logar, crê-me, eu seria tambem ciosa... Muito resististe!... disse ella, cahindo sobre uma cadeira, e escondendo entre as mãos a face: «Por que me não fugiste, quando era ainda tempo!

«Já era tarde, Fanny, bem o sabes, no dia mesmo em que te vi, pela primeira vez, passar deante de mim.

Ergueu-se outra vez, e abraçou-me com mudo transporte. Pensativo, alheado, recebia, como insensivel, as caricias. A final, pude dizer-lhe:

—O amor, Fanny, póde consolar muitas dôres, remir muitas humilhações, substituir muitos affectos. Diz tu: o que é a estima do mundo, os tranquillos sentimentos da familia, comparados á absorpção d'uma existencia por outra existencia? É acaso tão longa a vida que possamos consentir em immolal-a a coisas tão frivolas? E, de mais, que se lucra? Quem nol-o agradece?

«Roger! Roger!—interrompeu Fanny—que estranha moral!

E eu prosegui:

—Não estás cançada de córar, de tremer, de te esconderes? Não tens, emfim, vergonha da vergonha? E não te repugna ao coração esperar, esperar mais, esperar sempre, para trazer-me os beijos avidos á minha bôca faminta? No espaço d'um anno, com grande custo, apenas teremos cem horas de{69}viver juntos... a felicidade, de que devemos contentar-nos, é isto? Se ao menos essa felicidade fosse pura, estrema, absoluta! Mas tu não pódes ouvir-me, sem que a lembrança de tuas inquietações, perigos a que te expões, os meus proprios tormentos, te não impallideçam; e eu, tão desgraçado! não posso uma só vez abraçar-te, sem que logo um espectro...

«Supplico-te—bradou ella impetuosamente—se me amas, não me digas que és desgraçado, por que me matas.

—E se tu quizesses—continuei, fitando-a internecido—se quizesses!... Não haveria no mundo existencia para competir com a nossa. O que eu te peço é ser eu só o encarregado de te fazer serena a vida, desvelar-me por ti eu só, preparar, suavisar sob os teus pés a vereda do futuro; ser só a amar-te; o que eu quero é ser para ti o meio e o fim da felicidade; é tomar sobre mim todas as penas, e dar-te em troca todos os meus sonhos, prazeres, e felicidades; o que eu quero é ser a um tempo teu filho, teu amante, teu pai, reunindo sobre a tua cabeça querida as mais dôces e solidas affeições, é concentrar em ti as lembranças do passado, as felicidades do presente, os anhelos do porvir, de modo que venhas a ser toda para mim, e que não haja na minha vida inspiração que não seja tua, que não proceda de ti, que não sejas tu! Se tu quizesses... Não ha ahi paizes onde livremente os que a sorte separou e o amor ajunta pódem emfim saborear aquelle particular repouso que resulta da plenitude da felicidade que é a vida? Em meus sonhos,{70}muitas vezes me figuro que somos voluntariamente proscriptos na immensidade d'alguma solidão, onde, sob um céo azul sempre, á sombra d'arvores sempre veridentes, á beira d'um mar sempre sereno e sobre tapetes de musgo sempre em flôr, ahi, nos saboreamos por nós mesmos, como se a nossa dupla existencia mais não fosse que uma palpavel recordação. Que desgraça poderia ferir-nos ahi? que inquietações assaltear-nos? que suspeita incutir-se-nos? que ciume contristar-nos na felicidade de dias sempre eguaes? se tu quizesses... Seria pouco para mim amimar-te sempre como a uma creancinha melindrada? procurar incessantemente debaixo de tuas palpebras o olhar meigo de teus olhos azues? escutar-te muito tempo o halito a brincar-te por entre os labios? dormir com a boca presa á tua espadua, a mão inlaçada na tua mão? vêr-te todos os dias, andar, ir, voltar, mais bella, mais tranquilla, mais graça que o sonho das virgens? Ouve mais: não seria nada para ti o teres-me sacrificado todos os prejuizos que formam o coração das mulheres? teres-me tirado do abysmo de tristeza, no fundo do qual me estorço ha tanto tempo? teres-me dado tu só mais felicidade do que homem na terra póde cobiçar? Oh Fanny! Nunca mais, a chorar, eu te diria: «amo-te!... se tu quizesses!...»

Estava suspensa dos meus labios Fanny. Bebia-me as palavras, ebria de prazer. Inclinada para o hombro a cabeça, cahidos os braços, as palpebras descidas, ouvia-me como ao longe a musica, de que não queremos perder nada, arrobada n'um extasis que reunia todas as sensações e quebrantos. Arfavam-lhe{71}as rozadas azas do nariz; suaves respostas inintellegiveis lhe ciciavam os labios; convulções electricas lhe crispavam a cutis; tremiam-lhe as mãos em vibrações dulcissimas. Já não poderá conter-se. Correu-me ao seio, e debulhou-se em lagrimas no meu pescoço que ella cingia soffrega. Oh! que delicioso apertar aquelle!

«Não se falle mais n'isso—disse ella, com expressão de angustia, recuando a face, e apertando-me a fronte com a mão—Isso faz-me um grande mal. Querido Roger, o sacrificio, que queres fazer, é egual ao que me pedes. A felicidade debuxada por tua boca persuasiva é o mais bello sonho dos meus encantos; mas, ai! não passa d'um sonho! Meu Roger, amemo-nos, adoremo-n'os; mas, por piedade de mim, não falles assim mais!

Não me dei por vencido d'aquelle grito de desesperação que me revelava, ao mesmo tempo, aspirações ardentes, e dôres mysteriosas. Nenhum de nós nesta affectuosa discussão, havia empregado os verdadeiros argumentos. Um tanto satisfeito por expôr a suprema questão da minha vida áquella que devia resolvêl-a, deliberei deixal-a reflectir, para pouco{72}e pouco a ir affazendo. Esperava azo propicio para reluctar e vencer a minha adorada inimiga.

Depressa veio o ensejo. Terrivel e imprevisto era elle: havia ahi uma só alternativa: vencer os extremos escrupulos de Fanny, ou perdêl-a para sempre.

Fanny pareceu-me preoccupada um dia. Fallava precipitadamente em muitas bagatellas, como se quizesse abafar alguma coiza gravissima. Abstive-me de interrogal-a, e fiz que não dava fé da sua turvacão. Acariciou-me vivamente, e eu a ella, mas nossos espiritos e vontades pareciam alheios aos affagos. Houve um instante em que um e outro esgotamos as palavras ociosas. Tinha Fanny a cabeça inclinada sobre o meu braço, e eu, todo attento no rosto d'ella, em muda anciedade a estava contemplando. Subiu-lhe aos labios em suspiros do intimo a respiração suffocada; aos meus olhares interrogadores respondia o descahir das palpebras, e o voltar os olhos, córando.

Tomei-lhe a mão sem dizer palavra. Apertou-m'a com força febril.

«Falla em nome do céo!» disse-lhe eu empallidecendo.{73}Abraçou-me convulsamente, aconchegando-me o peito da face d'ella.

Fugiu-lhe dos labios a narrativa cruel, cortada por mil reticencias confusas. Mas, desde a primeira palavra que proferiu, comprehendi tudo. N'essa manhã mesma, o marido lhe dissera em carta muito expansiva, que seria provavelmente obrigado a estabelecer-se em Inglaterra, por espaço de alguns annos. Em tal caso—accrescentava elle—deveria Fanny metter no collegio os filhos mais velhos, e ir ter com elle, levando o filho mais novo. Fiquei aterrado. Irritou-me a coragem que ella tivera para em fim proferir as abominaveis palavras de separação. Dessimulei, porém, as angustias que me alanceavam o peito, e deixei só transparecer no semblante os traços de dôr profunda. Abracei-a, comprehendi, e exclamei:

«Não será assim, Fanny!—juro que não, por que é arrancarem-me o coração o separarem-me de ti.

—Que hei-de eu fazer, meu Deus?—disse ella retorcendo as mãos.

«Amarmo-nos—respondi exaltado, com quanta força temos, e tirar um recurso da horrivel necessidade.

—Recurso!...—e eu interrompi-a logo: «Fanny! este momento é solemne; não ha que vêr com subtis considerações do mundo e dos ciumes, do passado: trata-se de viver ou morrer. Deante de Deus, te dou em penhor a minha vida. Queres dar-me a tua? Atirou-se aos meu braços, repetindo:

—Que hei de eu fazer?{74}

«Fugirmos para tão longe que ninguem nos veja mais.

Dito isto, cahimos em profundo silencio, Fanny retirou-se lentamente de meus braços, poz-me ambas as suas mãos nos hombros, e fixou-me.

Baixei os olhos, receando-lhe a ira. Mas que mal a conhecia eu! O que ella me revelou foi piedade sómente. Repartida entre o seu amor, e o dever que lhe apontava o logar digno ao pé do chefe de familia, a luctar sósinho no exilio para defender seus bens, Fanny deu-me testemunho d'uma agonia que não cabe n'alma sem rasga-la. Bem sabia ella que eu devia horrivelmente soffrer, pensando no proximo fim de união tão cara; mas tambem comprehendia que lhe não era possivel desobedecer á voz que a chamava. E isto flagelava-a com uma dôr sem nome. Perder-me e ser ella, uma vez ainda, a causa unica de meus infortunios.

—Meus filhos!—exclamou ella em fim, impallidecendo, com uma despedaçadora angustia. E pendurava-se-me do pescoço, fitando-me os olhos penetrantemente—Meus pobres filhos, tão creanças! Pensas tu n'isto? Tu que és bom, e me amas, podes-me exigir que os deixe?{75}

Immediatamente comprehendi pela commoção que me estorcia o animo, que quanto d'ahi em diante tentasse seria baldado. A pesar da resistencia, senti um surdo protesto subir-me das entranhas em gritos de indignação. Eu mesmo, no secreto de minha alma, não queria esse monstruoso abandono de mãe, nem mesmo o covarde desamparo d'um marido por sua mulher que adorava.

Mas, confessal-o-hei?—não me instigava tanto á lucta o desejo de passar a minha vida com aquella mulher, como a idea de fazer cessar a partilha execravel. Absolva-me dos males que causei um momento de franqueza! Eu senti, abraçando de novo Fanny, que soffria menos com a certeza de a perder que com a idéa de que ella ia unir-se ao marido. E, horrorisado de mim, dôr nova para ajuntar a tantas, disse comigo mesmo:

«Aqui ha mais ciume que amor.» Entretanto, mais tranquilla, mas sempre affavel, Fanny encostara-se ao cotovello e, voltada para mim, discutia sósinha. Escutei-a.

«Se eu ousasse... se eu não temesse mortificar-te...

—Falla, que estou de animo assente para ouvir tudo. Já agora, não ha nada ahi que possa fazer-me mais desgraçado.

Acariciou-me febrilmente, e disse, quasi desfallecida:

«Pois bem! eu não tenho coragem de arruinal-o. Hoje, o unico recurso d'elle está no meu dote.

—É isso só? deixa-lhe tudo o que tens. Não sou eu bastante rico para nós ambos?{76}

«Não é isso! não é isso!—disse ella, meneando a cabeça.

Encarei-a. Estava enleada e escolhi vagas palavras com que disfarçar a idéa. Continuou, a meia voz, como reprehendendo-se do que ia dizer:

«Como condemnal-o á solidão n'este supremo momento em que elle lucta tanto por mim como por elle! Nunca voluntariamente me desgostou. Ama em mim a companhia de quinze annos da sua vida, a mãe de seus tres filhos...

—Por que o enganaste?—atirei-lhe eu em rosto, no impeto doloroso da minha colera; mas, com uma só phrase me esmagou ella:

«Por que te amava!» e com expressão de orgulho que a engrandecia a cima de si mesma, accrescentou:—Mas a perfidia não competia a ti reprovar-m'a, Roger!

D'esta arte, quantos golpes eu lhe apontava, eram logo rigosamente rebatidos; mas, nem assim, eu desistia do ataque. E se nos descobrissem! repliquei eu, na certeza de que este golpe era difficil de aparar, fitou-me fixamente como receando que a eu denunciasse para a possuir, talvez, por esse infame meio.

Depois de olhar-me longo tempo, disse:

«Que desgraçado elle seria!...

Voltei-lhe o rosto, e Fanny concluiu:

«Elle diria com horror de mim: Nem por amor d'estas creancinhas...

Puz-lhe a mão nos labios, e, convulsivo, olhei para ella. Estava coberta de lagrimas. Posto que perturbado, não pude deixar de admirar-lhe a franqueza{77}nobre que nem, neste lance, me poupava. Estava toda embevecida na victima!

«Que faria elle?» murmurei. Fanny, levou as mãos á face, e respondeu com voz abafada:

—Talvez me perdoasse...—

E, passados os soluços que lhe embargavam a voz, disse:

—Estamos demasiadamente castigados! Se obedeço ao dever, abandonando-te; se não lhe obedeço, deshonro-me. De ambos os lados só vejo a desgraça, e faço desgraçados. Infeliz por ti, por elle, por meus filhos, por mim propria, nem me resta o recurso da morte para restituir a paz a todos! Deus meu, que me has dado o coração, que me não serve para consolar os entes que amo, e nem as suas dôres posso incerrar n'elle, como thesouros caros!

E, a luz crepuscular na alcôva, sobre as rendas dos flacidos travesseiros, enlaçados os braços e unidas as faces assim choravamos... Quem acreditaria que, desde muitos dias, se passavam assim todas as nossas entrevistas!

Desde este dia funesto entendi que não devia esperar mais nada d'este amor, e vivemos na penosa{78}espectativa da decisão de um outro. Mas, como se o destino houvesse resolvido não dos poupar em dôr alguma, a solução todos os dias esperada, não chegava nunca.

Já as cartas não eram sómente assustadoras para Fanny. Era eu que as desejava, e inquiria o contheudo dellas, e fazia ferventes votos pelo bom exito d'aquelle que, máo grado meu, não luctava energicamente. Com tudo por dar alguma coragem á desgraçada mulher, exaggerava a minha confiança, e encomiava a esperteza conhecida, a firmeza de caracter e a força de vontade de seu marido. Affirmava-lhe que elle ressarciria os seus haveres, obteria justiça, e recobraria o tão merecido socego. N'elle se estribavam todas as minha esperanças: pensava n'elle só, e tomava apaixonadamente a peito a sua pendencia. A menos esperada ventura que eu entrevia em meus vagos sonhos e almejava com o ardor da desesperação, era a volta do meu rival, em cujos braços devia cahir a mulher que eu adorava!

Se eu podesse coadjuval-o!... dizia eu commigo; mas de que sirvo eu? E agora me pezava o inepto pudor que me não deixava entrar n'aquella caza—Se eu tivesse menos orgulho, se eu não tivesse querido exaltar-me, singularisando-me por uma delicadeza affectada, que, dos meus proprios olhos, me não lava da minha acção; se, como fazem tantos nas minhas circumstancias, eu me fizesse amigo do homem, cuja mulher roubava, resgatando hoje a pequena parte remissivel de meus actos, poderia achar algum lenitivo para esta afflicção. Mas eu tivera{79}sempre mais orgulho que bom senso. Pungia-me, então, a idéa de que, por falta minha, n'aquelle desastre em que cada qual heroicamente desempenhava o seu dever, estava eu sendo um ente inutil. Contrapondo á minha consciencia taes subtilezas, tão futeis ellas eram, que não me illudiam. Mas, á maneira do naufrago que se agarra aos limos fluctuantes, sem esperar salvar-se, eu me escorava á minha propria dôr, accuzando-me de faltas não commettidas, falsificando meu proceder e sentimentos n'isso mesmo que elles tinham de honra, por que eu não sabia que fazer para readquirir uns longes de esperança.

Fanny visitava-me como visitamos um doente incuravel, e retiramos sempre admirados de encontral-o vivo. Palavras de alento não as tinha para m'as dizer, que não carecia menos ella de ser consolada. Se eram boas as noticias, suspirava; se eram más, chorava. Como ella, um dia desenvolvesse em toda a sua horrivel extensão, a pesada cadeia das mais secretas miserias que entrevia—atterrada por se não sentir com forças para arrastal-a—eu rompi o silencio subitamente, e, com simplicidade, lhe offereci todos os meus teres para desempenhar a{80}honra de seu marido, que, por derradeiro ludibrio, fôra entregue aos azares do jogo.

Mas, a pesar mesmo deste novo desastre sobreposto ao antigo, e tão afflictivo que já fazia esquecer o outro, Fanny foi o que devia ser:

«É desgraçada a nossa situação—me disse ella com severidade extraordinaria—Roger! amo-te agora mais do que nunca; mas não sou livre; por isso mesmo que te adoro, é que tu és o unico homem de quem não posso acceitar nada.

A adversidade cansou. As cartas vinham cada vez mais animadoras, e já não havia questões de honra, nem de miseria, nem se quer da separação que tanto temeramos. Quando muito era só a perda de ametade dos bens que podia preoccupar Fanny. Vieram o socego e os risos para ella; mas eu, como um miseravel que tem duas chagas a pençar, senti immediatamente despertar o ciume, mais ardente que nunca. O marido estava a chegar, e esta vinda, d'antes tão desejada, incutia-me agora invencivel horror. Dezejei-lhe a morte. Tornei-me sombrio, desconfiado, interrogador. Recomeçaram as nossas luctas.{81}

Nunca me viera a idea de romper com Fanny; mas travados outra vez em guerra, de repente me appareceu, fulgurante como um relampago. E eu senti entrar com ella em meu coração a suave caricia da esperança. Mas esta esperança, ai! não durou mais que um segundo. Máo grado meu, tremulo de horror, dei-me pressa em repulsar a idea do meu resgate.

Depois de uma discussão em que, mais uma vez, eu expozera aos olhos d'ella as minhas angustias, Fanny veio de moto proprio a devassar d'um pensamento que eu não ousara nunca deixar-lhe vêr.

—Não fui esperta—disse ella. Eu devia fingir-te a minha vida. Por muito improvavel que fosse o que eu te contasse, tu acreditarias tudo, por que iria no acredital-o o teu interesse. Não fui esperta, mas é que eu nunca soube mentir.{82}

Esta confissão foi para mim uma subita revelação, suppuz logo que ella á semelhança d'outras mulheres, orgulhosa de ser feliz, escondia vaidosamente a um tempo, vicios e dôres, e, desgraçada, queria que a suppozessem feliz. Esta suspeita inquietou-me oito dias; mas a esperança que me ella gerava no coração não podia durar. Instei Fanny, facilitando-lhe recursos para desmentir-se e patentear-me tudo de sua vida. Admirando-se de eu duvidar d'ella, Fanny confirmou glacialmente o que me havia dito e tornou-me á desesperação.

Approximava-se, n'esta conjunctura, o praso que o marido designara para voltar. Parecia-me que devia ser esse o dia da nossa separação, e da morte para mim. A idea da partilha enojava-me. Resolvi cem vezes explicar-me com Fanny á cerca d'este assumpto horrivel, mas não me attrevia. Havia n'ella uma especie de renascimento: nunca a vira tão terna e submissa. Ao mesmo tempo deu em ser muito expansiva. Nos ultimos tempos, coisas insignificantes tocantes á sua vida intima, andavam sempre em nossas praticas; d'ahi vinha o continuar ella agora a fallar-me dos minimos incidentes da sua vida. É o que devia, mais tarde collocar-nos face a face, na attitude ameaçadora de dois inimigos.

Não sei como se deu, nem qual de nós foi causa da scena atroz que sobreveio; lembra-me só que Fanny estava já para sair, e ambos nós em pé. Acabava ella de apertar as fitas do chapéo, deante do espelho do fogão, ao qual eu me encostava; já tinha o chale nos hombros, e buscando com os olhos o lenço, que pozera sobre uma meza, acabava de{83}abotoar as luvas. Assim, continuavamos em termos meio affectuosos e familiares uma contenda que intendia com ella e com o marido. Estavamos ambos serenos quando lhe aconteceu proferir uma palavra que me gelou o sangue nas veias:

—Eu mentiria, se dissesse que não tinha affeição a meu marido.

Logo que reflectiu na crueza d'essas palavras, tão imprudentes como inuteis, arrependeu-se de as ter dito. Sem accrescental-as, nem desmentil-as, acercou-se de mim, affastou o chale para me cingir o pescoço com o braço, amimou-me o rosto com a mão livre, e alteou-se nas pontas dos pés para abraçar-me.

Era carinhoso o olhar, que exorava perdão á crueldade da bôca. Forcei-a lentamente a desprender-se-me do peito, e disse-lhe severamente:

«Vós outras, as mulheres, não tendes delicadeza alguma no coração.»

«Córou, fez-se mais meiga, mais insinuante, e quiz outra vez abraçar-me.

Puz-lhe a mão no hombro e affastei-a: dizendo-lhe, tremulo de furor:

—Ha dias que me falla em seu marido, incarecendo-o muito. Esquece-se de que não é elle agora o mais digno de lastima?

Apertou-me inergicamente a mão, em quanto com os labios cerrados, á mingua de palavras, me fitava com ternura supplicante.

Mas a colera recrudescia a proporção que Fanny denunciava arrependimento. Continuei:

«É justo que o ame, por isso mesmo que a sua estima se lhe deve com preferencia a tudo.{84}

Conheceu Fanny que não poderia apaziguar-me. Não sabendo que mais fazer, deixou passar aquella phraze de interpretação doble, desdeu os laços das fitas do chapeo, pousou o chapéo e o chale sobre a cama, e assentou-se n'uma poltrona defronte de mim. Com o cotovelo esquerdo apoiado no braço da cadeira, a face na palma da mão, os olhares ondulantes, assim ficou na sua habitual posição. Mais que nunca linda, com aquelles braços maravilhosos, cuja alvura assombrada de pennugem destacava da seda negra do vestido; com as grandes luvas de pelle da Suecia que lhe cobriam os pulsos; com o collo flexivel e inclinado; e côr pallida; e os cabellos louros voluptuosamente annelados sobre a fronte pura: era a semelhança de algum bello retrato de Rubens. Por de sob a fimbria do vestido, sahiam os pequenos pés reunidos e assentes no chão. Nas escuras dobras da seda envolvia-se o braço direito, cuja mão, meio fechada, permanecia immovel como se fôra de marmore.

Quando o publico soube o desastre do marido de Fanny, soubera eu que em Pariz circulavam boatos deshonrosos para elle. De ser rico e altivo grangeou muitos inimigos. Deviam de ser calumniosos os ditos{85}que sahiam de bôcas invejosas. Não os desmenti por prudencia, mas fiz nota d'elles. Bem sabia eu que um dia me serviria d'elles para vingar-me.

Esperava eu, exasperado pelo furor, que uma palavra, provocando-me de novo, me desculpasse a crueldade. Ella, porém, de astucia não fallava, adivinhando que eu interpretaria á feição de minha raiva tudo que me dissesse. Assim ficamos ambos immoveis, callados, ella, esperando o golpe final, eu reunindo as minhas forças todas para descarregal-o.

Decidi-me em fim: e, com uma só phraze cortante como gume de espada, attacando o mais sagrado da honra do meu rival, repeti as infamias em que eu não cria.

A resposta foi prompta e terrivel. Isso é indigno!—exclamou ella erguendo-se hallucinada, escarlate, com uma expressão de colera e indignação que me assombrou.

Não quero que se rosse na honra do chefe de familia! Não quero que se deshonre aquelle cujo nome eu trago! Por isso que o trahi; por isso que conspurquei a parte de sua honra que elle me confia, é que eu prohibo que se ultraje a outra... e principalmente ao snr!... Envergonhe-se!... Se acreditou essas calumnias, competia-lhe defendel-as commigo, pois foi commigo que...

Interrompeu-se. Eu immudeci, e ella proseguiu: Fallou-me ahi na indelicadeza de coração das mulheres; e eu fallarei do orgulho dos homens. Não é só do amor das mulheres que carecem para estrado... Querem tudo o que ellas prezam, tudo o que respeitam: estima do mundo, familia, filhos, repouso,{86}e até a honra de seus maridos. Tudo lhes é mister para desvirtuar e rediculisar essa honra. Estou de mais castigada por ter crido que podia impunemente amal-o! Fui prudente; e por isso não é meu marido ultrajado que castiga a minha culpa; mas—castigo mil vezes mais cruel—é o meu amor. Mereço esta pena... e é o snr. que me pune!

Continuei callado: e ella, com a boca a trasbordar sarcasmos, proseguiu:

É como todos! O que ahi ha é orgulho. Não sabe amar!

Desta vez, respondi turvado:

«Não sou desculpavel por aggredil-o?

—Aggrida-o como homem. Não tem tantas causas para o fazer?

«Por Deus que o farei!

Furioso, com os olhos injectados de sangue, os dentes cerrados, avancei para Fanny, mas ella suspendeu-me a tres passos com um olhar glacial que eu nunca lhe vira. Depois vagarosamente embrulhando-se no chale, da cabeça aos pés, como a sacerdotiza antiga, sombria, feroz, desesperada, deixou cair sobre mim outro relancear de olhos despresador, e sahiu.{87}

Que farei para apasigual-a?—Tal foi a ignobil pergunta que eu me fiz, ao amanhecer do dia seguinte.

Escrevi-lhe uma longa carta tão submissa que não pude revêl-a sem pejo. Rasguei esta carta, comecei outra, mas tão acerba de estylo que devia exasperar quem eu queria commover. Não a conclui, e andei uma hora a passear phreneticamente em todas as direcções no meu quarto. Primeiro tive ideias de rompimento immediato; depois desvaneceram-se. Rebentou em chamas o furor e o ciume; depois apagaram-se. Por fim, comprehendi que o procedimento a que eu quizera impellir Fanny, era um crime, o qual, consumando irremediavelmente a desgraça d'uma familia inteira, devia tornar-nos desgraçados para sempre. Era-me pavoroso pensar que, a ter-me ella attendido, durante a nossa existencia toda, viriam interpor-se entre ella e mim as imagens de seus filhos abandonados.

Mas ao mesmo tempo escasseava-me força para o resgate. Affizera-me ás minhas dôres, e não ousava trocal-as por dôres desconhecidas. É preciso ter sido, como eu fui, o tudo nas ternuras e affeições d'uma mulher, o coração que incessantemente regia os movimentos d'outro coração, para poder{88}comprehender os horrores da solidão que segue um rompimento. Eu delirava de raiva e dôr. Por fim, commovi-me, erguendo os olhos para o retrato de Fanny.

—Que mal me fez ella?—dizia eu. Chorei; e, indeciso, vesti-me, e sahi.

Seriam oito horas. O calor dos ultimos dias d'agosto purpureava o céo carregado. As trevas, semelhantes a mortalhas espargidas, desciam com a nevoa opaca atravez das arvores da grande avenida dos campos-Elyseos. Os passageiros davam-se pressa para fugir á tempestade que trovejava surdamente ao longe. As estrellas brilhantes das lanternas, aqui e além, corriam, cruzavam-se e desappareciam. Nuvens de pó sacudido pelo vento subiam diante de mim e toldavam o espaço. A meio-caminho, quasi entreRond-Pointe o «Arco do triumpho» parei.

Era alli. Encostei-me a um tronco de arvore, levantei o rosto, e olhei. A meus pés era a passagem das carruagens que vão do portal á avenida. Sobre a porta estavam abertas as quatro janellas da sala. Uma só lampada, por certo, illuminava o recinto, por que a claridade que translusia dos vidros{89}escassamente brilhava como um clarão duvidoso. Nenhuma sombra passava entre a lampada e os vidros. A casa está vasia—pensei eu—e todavia Fanny não está emChavillepor que a sala tem luzes.

Estalou, neste momento, mais forte a trovoada.

Relampaguearam os coriscos. Um bulcão rugiu na ramagem dos alamos da avenida, remoinhando turbilhões de folhas e terra. Então vi uma sombra de homem chegar á ultima janella, e fechal-a. As outras tres fecharam-as mais tarde. Depois, a froixa claridade que alumiava a sala bateu nas vidraças mais tensa e viva: havia-se accendido uma segunda lampada.

E depois, mais nada. A avenida deserta, a tempestade no céo de todo negro, eu em pé debaixo da minha arvore, e a sala vasia com as quatro janellas lusentes. Soaram onze horas no relogio d'uma egreja visinha.

De repente, o estrepito de rodas acceleradas, mordendo a areia, passou ao pé de mim. Eu dera, sem saber porque, alguns passos authomaticos.

—Arreda! Arreda! gritou uma voz irritada. Saltei para a margem da estrada. Umcoupévasio passou bamboando sobre o eixo, effeito dos sacões; depois uma grande carroça de viagem tirada por quatro cavallos, voltou de repente sobre si mesmo, ao tempo que se abriam os dois batentes da porta-cocheira. Remirei a carroça com assombro. Ao fundo estava um homem, que eu bem conheci—era elle. Ao seu lado uma mulher que lhe fallava: era Fanny. Entre elles, sobre os joelhos, e nos braços,{90}tres meninos de cabellos louros. Foi uma visão rapida. Não sei se me viram. A carroça desappareceu por debaixo do arco do portal, e logo os dois pezados batentes rodaram nos gonzos, e bateram entre si com estrondo lugubre e cavernoso.

Acabava eu pois de me arredar para dar passagem ao meu rival que entrava como senhor em sua casa.

Por que me não esmagou elle com as suas rodas?—exclamei, com a morte na alma, retirando-me, e caminhando ao acaso como um ebrio.

Passava uma sege de praça; entrei—onde quer ir?—diz o boleeiro, embrulhando-se no seu capote—onde quizeres, ao Bosque, onde quizeres. E senti-me arrebatado d'aquelle sitio funesto.

A chuva escorria sobre as vidraças corridas. Encolhido n'um angulo da sege, com os braços cruzados, e a face encostada á almofada, vi de lado, ao clarão dos relampagos, estorcerem-se as arvores atormentadas pelos furacões. A intervallos, resalteavam no ar as astilhas dos coriscos. E eu dizia: Esta tormenta não os aterrará? Não sei que tempo passei blasphemando, rasgando o peito com as unhas, chorando, dentro dessa sege que corria atravez{91}das arvores do bosque, ao clarão avermelhado dos relampagos. Sentia-me abafar. Desci os vidros e a chuva batia-me na cara e nas mãos. Encostei-me ao rebordo da portinhola, com a face deitada nos braços. Tomou-me uma sensação horrivel de frio. Tinha febre. «Quer que recolhamos?» dizia de espaço a espaço o boleeiro cançado.

—Quero—disse eu, fatigado já tambem.

Nascia a aurora lagrimosa no mal enchoto céo, quando, erguendo a face, reconheci uma casa á margem da estrada. Era a della. Todas as portadas da janella estavam fechadas, e as luzes extinctas. Apenas um clarão avermelhado excessivamente mortiço, semelhante ao que sahe d'uma lamparina, brilhava como um ponto entre duas taboinhas de persiana, na ultima janella da direita, em uma alcova lateral ao salão. Debrucei-me longo tempo sobre o apoio da portinhola para enxergar o ponto vermelho e expirante. Mas não chorava já. Ia tranquillo, de gelo, prostrado de fadiga.—Dormirá ella agora?—me dizia eu.{92}

Os primeiros dias, que seguiram esta noite horrivel, passei-os n'um estado de stupor de que não havia arrancar-me. Esperava não sei que, que devia terminar-me a vida e os males.—Isto não póde acabar assim!—dizia eu. Vinte vezes ao dia, pedia a minha correspondencia mas nem se quer abria as cartas que o meu creado me trazia. Bastava-me vêr a lettra dos sobre-escriptos. De Fanny não vinha alguma. Affigurava-se-me que ella tinha morrido. Isto amedrontava-me. Cheguei a duvidar da minha rasão.

Ao oitavo dia, depois da nossa ultima entrevista, tive um presentimento de que ia vêl-a. Preparei tudo o que queria dizer-lhe. Senti-me vencido. Queria pedir-lhe perdão; declarar-lhe que estava prompto a submetter-me; queria supplicar-lhe alguma piedade para os meus padecimentos. Esperei-a em vão até noite fechada, contando as horas nas pulsações alternadamente precipitadas e desfallecidas do meu pulso. Não veio. Não escreveu. Ninguem me deu um instante de esperança fazendo vibrar a campainha da minha porta.

Ao anoitecer, sahi na direcção da casa d'ella. Chegando á alameda fiquei surprehendido, vendo{93}tudo fechado. A ideia de Fanny ter ido para longe, tão longe que eu não podesse vêl-a mais, atravessou-me o cerebro como um dardo. Com horrivel angustia, mas affoitamente, como um covarde, a cuja cabeça subiram as fumaças da bravura, bati á porta e perguntei ao creado se a senhora estava em casa. Eu estava pallido e tremulo; mas elle não deu fé.—A senhora está no campo—respondeu, «Onde? em Chaville?»—sim, senhor.

Fui encostar-me a uma arvore por que me sentia desmaiar.

Ao cabo de alguns minutos decedi-me a ir para casa. Era meia consolação saber que Fanny estava ausente. Comprehendi, emfim, o motivo que lhe estorvara a vinda; mas não comprehendi por que me não escrevera durante oito dias. Eu deveria suppor tambem que ella esperaria carta minha; mas havia ainda muito egoismo no meu despeito.

—Quem sabe se ella me espera lá—dizia eu para consolar-me.

Apenas esta ideia se me abriu no espirito que um desejo imperioso de vêr Fanny, á custa de tudo, e logo, me assaltou. Estava então perto de casa. Entrei rapido e pedi o meu cavallo. Ajudei mesmo o creado a apparelhal-o. E lancei-me ao caminho, cheio de esperança, com as esporas cravadas nas ilhas sacudindo as redeas, á desfilada, enlameando passageiros, sem mandar arredar ninguem.

Tanto corri que receei ter-me desencaminhado, e não conheci a casa de Fanny, que estava em frente de mim, vagamente alumiada, debaixo das agigantadas arvores. Mas, alçando-me sobre os estribos,{94}para olhar por cima do muro conheci o pavilhão. Apeei, e entrei no bosque para prender o cavallo a uma arvore. Depois, retrocedi, e vi com surpreza que a graderia do jardim estava aberta. Um creado de farda estava á porta. Ao cabo da aléa, no cunhal da casa, vi brilhar as duas lanternas d'uma sege immovel.

A meio caminho entre a casa e a grade, um pouco á esquerda, no centro de um amplo taboleiro de relva, os vidros coloridos do pavilhão fulguravam aos raios d'um candieiro posto no interior.

—Que segnifica tudo isto?—perguntei eu, caminhando ao longe do muro para encontrar a brecha por onde eu passára duas vezes. Mas apenas puz o pé no jardim, fiquei como pregado no chão. Estava ouvindo imprecações e soluços; do pavilhão, a vinte passos de mim, é que elles sahiam.

Cobriu-me o corpo todo um suor frio. Eu tremia como a folhagem dos arbustos, sob as quaes me escondera.

Neste momento, a sege correu a grande trote dos cavallos para a grade; de certo o cocheiro obedeceu a um chamamento que eu não tinha ouvido. Ao chegar defronte de mim, parou, e o creado da almofada abriu a portinhola. Tinham cessado os gritos e os soluços. Sahiu um homem do pavilhão, e fechou-se a porta. Reconheci-o. Que outro poderia ser? Assentou-se nos coxins, o creado subiu para a almofada, o cocheiro picou os cavallos, a sege passou a grade, rodou sobre a calçada sonora, e a grade foi fechada pelo creado de farda que estava ao pé.{95}

Logo que este homem, caminhando para casa, se sumiu entre o arvoredo, avancei precipitadamente, sem precauções. Antes, porém, de levantar o trinco da porta, examinei atravez dos vidros. No centro do pavilhão estava uma meza redonda, com um candieiro em cima. Em toda a roda corria um amplo divan; e deitada sobre este divan, vi uma mulher chorando, com a face entre as mãos, dando soluços de rasgar o coração, era ella! Fanny! ella! Entrei precipitadamente abri-lhe os braços, e lancei-me de joelhos a seus pés.

Mal me havia reconhecido, quando expediu um grito lacerante, apertou-me a cabeça entre os braços, e abafou-me contra o seio. Eu não podia fallar nem respirar. Fanny beijava-me os cabellos, desgrenhava-os com a face, mordia-os para suffocar os gritos; depois ergueu-me a cabeça e eu senti cahirem-me lagrimas nas faces, em quanto os seus labios frementes se agitavam sobre os meus vertiginosamente, e suas mãos palpitavam por sobre meus hombros, face, pescoço, em phrenetica inquietação. Finalmente, cahindo desfallecida e quebrada de dôr tirou por mim, e arrastou-me na quéda sobre o divan. Ergui-me. A partida do marido, e as lagrimas d'ella, eram-me coisas incomprehensiveis. Entretanto, fiz quanto pude por chamal-a á vida. O candeeiro, cahindo, apagara-se. Caminhei para Fanny ás apalpadellas, arranquei-lhe os colchetes do vestido, e tirei-lhe a pedaços o colete. Depois, á força de caricias, rogos e orações, aquecendo-lhe as mãos com as minhas, e bafejando-a com o meu halito ardente, consegui reanimal-a. Soltou um longo{96}suspiro, e ergueu-se amparada nos meus braços, e parecia reflectir. Torrentes de lagrimas lhe rebentaram dos olhos, e lançou-se a mim com tanto amor, e com ar de tanta piedade, que eu, a soluçar tambem, a comprimi ao peito.

—Oh! Roger! meu Roger—exclamou Fanny com a voz entrecortada—se soubesses que desgraçada eu sou! Consola-me. Ama-me. Soccorre-me. Oh! que bem me faz o chorar sobre o teu coração... Meu querido Roger!

Os soluços embargaram-lhe as palavras. Instei com ella que se explicasse. Eu não sabia ainda que dôr podia ser esta, que rompia em gritos de indignação.

—Teu marido sabe tudo, sim? disse-lhe eu. Fanny fez um meneio de cabeça negativo, e respondeu:

«Não, não é isso; mas ha um anno que te minto. Eu sou a mais desgraçada, a mais humilhada, a mais insultada das mulheres. A escoria, o opprobrio, as infimas mulheres não são mais desgraçadas que eu!

A este grito, que lhe fugia do peito não tinha eu que oppor. Fiquei estupido e estupefacto. Não achava palavra que lhe dissesse. O que eu fazia era abraçar convulsamente a lagrimosa mulher. Subito, um raio de luminosa previdencia me esclareceu o espirito.—Se não aproveito esta occasião para confessal-a, nunca saberei nada—dizia eu commigo. Tranquilla deste lance, nunca mais fallará.

Era judiciosa esta idéa. Fiz bem escutar-lhe a{97}inspiração. Empenhei, pois, toda a minha eloquencia para tirar desta pobre mulher o segredo, que por tão largo tempo, me havia occultado. Instei, animei-a, interroguei-a, mostrando-me consternado por sua dôr. Entrei, pois, no segredo d'uma deploravel historia, não d'uma vez, mas arrancando-lh'a a promenores, a pedaços, por que a sua exaltação, deixando-se ir até dizer tudo, era intervallada de reticencias nos mais delicados pontos da narrativa.

Fez-se luz então para mim tudo o que houvera escuro e incomprehensivel na sua vida e proceder.

O marido de Fanny não era o homem fastidiosamente bom que eu cuidava. Era um terrivel déspota. Mulher, amigos, creados, todos se acurvavam aos seus caprichos e obedeciam passivamente ás exigencias do caracter d'elle. Por zêlos, não é que elle opprimia a mulher, senão que por indomavel espirito de vontade. Em sua casa havia uma unica pessoa que dava regra e á qual deviam amoldar-se habilmente as de mais. Não se tinha em conta de mero homem; dava-se ares d'uma especie de sol que allumiava; aquecia, e communicava vida a tudo que o rodeava.

Pelo que, logo que viu sua mulher, aconselhada{98}por mim, desviar-se insensivelmente da norma de vida que elle traçara, ficou primeiro, como pasmado; mas, com um carregar de sobr'olho, fez que Fanny entrasse immediatamente na ordem. Todavia, não lhe deu canceira averiguar o por quê d'aquella timorata tentativa de emancipação. A seu vêr, toda a mulher era ente chimerico, dirigido por machinismo incomprehensivel, que não merece analyse séria. Nem elle tinha arrebatado Fanny, nem a tinha esposado por amor. Não. Seduzira-a por que era formosa, e elle queria que uma mulher formosa fizesse as honras de sua casa. Raptou-a porque lh'a negaram. Esposara-a porque era rica, e elle pobre, e, de mais, queria, a um tempo, enriquecer-se e propagar-se.

E, como a visse submissa, todo elle era disvelos. Era-lhe ponto de honra gastar cada anno, com sua mulher dobrado do rendimento do dote, e a miudo a presenteava com ricas dadivas para ostentar sua liberalidade. Sentia por ella, em summa, alguma coisa d'aquella rudeza attenciosa que tem os cavalleiros arabes pelos seus cavallos de fina raça. Usam elles mesmos arraçoal-os com uma das mãos, tendo na outra o chicote prompto a castigar o menor desmancho.

Por largo tempo, Fanny, subjugada por aquella vontade superior, docilmente se sugeitou. Pensou, executou, viveu por elle. Á força de paciencia, obteve, por fim, de seu senhor uma apparencia de liberdade. Alguns mancebos—segundo me pareceu—approveitaram isso para cortejarem franca e assiduamente a bella mulher cujo ar de tranquillidade{99}inculcava um longo habito de rebellião interior, e de dôres inexpansivas. D'isso, porém, o marido nem se quer suspeitou. Sómente o accaso lhe trouxera ás mãos uma carta de comprometter. A scena immediata a este descobrimento foi terrivel. Não se deram, com tudo, gritos, insultos, nem brutalidades degradantes; nem duelo, nem explicações, nem separação forçada dos dois imprudentes, que teriam castigado irremissivelmente o orgulho do esposo, mesmo quando o vingavam. O intelligente marido o que fez foi declarar a sua espoza que guardava a carta. E, desde então, cada vez que a via inclinada a emancipar-se, servia-se da tal carta para a fazer tremer e submetter-se. Um quarto de papel tornou-se nas mãos deste homem um punhal com que elle espicaçava a mulher para fazel-a andar deante d'elle.

Era, pois, um vilissimo homem? Não: era simplesmente orgulhosissimo. Ainda que aquella carta preciosa fosse mil vezes mais explicita, o marido não lhe daria credito. Em quanto a elle, aquillo, quando muito, era a prova d'uma creancice perigosa que, astutamente explorada, poderia degenerar em apparencias de crime. Mas no crime é que elle nunca acreditou. E acreditar, como? Era impossivel, pela simples razão de que sua mulher não podia mostrar-se criminosa para com elle. E não podia por que era sua mulher. E não podia, por que elle... eraELLE. Por tanto, censurando um pouco essa creancice humilhante, não se mostrava inquieto nem menos feliz. E continuou a amar a mulher, a seu modo, com aquelle seu coração de ferro. Depois{100}de quinze annos de casado, vinham ainda ás vezes uns dias em que elle era todo amores com ella.

A arma, porém, continuava a ser arma em suas mãos, e sempre com serventia. Primeiro, graças á carta, obteve de Fanny que não fallasse mais com sua mãe, que elle detestava, por que o não quizera de bôa vontade acceitar por genro. Depois, exigiu que fizesse crear os filhos em peitos alheios, sob pretexto que os cuidados maternaes lhe desbotariam o gosto dos prazeres da sociedade. Depois, sem consultal-a, e sem visivel utilidade, vendeu o castello onde ella nascera, onde passara a infancia, e o parque onde estavam sepultados seu pai e seus dois irmãos. Finalmente, graças á prestimosa carta, não havia repressões que não lhe ordenasse, vexações que não lhe impozesse mas sem maldade, mas prodigalisando-lhe sempre obsequios e cortezias, principalmente em publico. E a vida de Fanny tornou-se um inferno no qual um implacavel demonio a torturava com uma mão, e acariciava com outra.

Quando, porém, Fanny resistia a exigencias graves, ou a ultrages brutaes á delicadeza d'ella, é que o marido rompia em transportes inauditos. Nesse caso, perdia a consciencia de si proprio, mas por uma hora sómente. Deixava de ser o homem urbanamente desdenhoso que trazia na cara os mais exquisitos matizes da superioridade de caracter, e cujo ar affavel e franco, parecia dizer a todo o mundo: «Vede que não ha que temer de mim.» Transfigurava-se em leão que a natureza amassara com as suas mãos callosas, e que a educação desbastara apenas. Hirtavam-se-lhe como crina os cabellos.{101}Flammejavam-lhe os olhos como reflexos d'oiro fundido. As ventas dilatadas assopravam um halito ardente. A boca contrahida abria-se, e mostrava dentes admiraveis, como se ameaçassem dentadas. Crispavam-se-lhe os punhos cerrados. Era medonho. Havia um insulto que não deixava nunca de esbofetear a victima. A carta dava sempre o pretexto. E era sempre o mesmo insulto, a mesma palavra infame que a marcava na fronte como ferro em braza, e que a rebaixava—como ella dizia—á ultima escaleira de todas as mulheres.

Mas a sorte, que não tem compromissos com as paixões e os caracteres, obstinava-se por vezes a brigar com este athleta. Feriam-no successos imprevistos: obstaculos estranhos sahiam a empecer-lhe os passos. Então era sublime! Não blasphemava, não injuriava a sorte, por que sabia que era inutil; mas arcava com os successos e obstaculos, e luctava silenciosamente, friamente, pacientemente. Por custume, dominava a sorte. Quando lhe correram risco os bens da fortuna, á força de audacia, conseguio resarcir a melhor parte, abandonando a outra, como um favor irrisorio aos credores, seus emulos. Outro qualquer, no logar d'elle, esmoreceria, que vontade como a sua não havia quem a tivesse. Mas um exito mediocre não bastava a este homem, insaciavel de exitos estrondosos. Decidira safar o seu navio de entre os escolhos onde fôra a pique. Queria salvar tudo, carregação, apparelhos, e até o lastro. Jurára de não ceder ao oceano, um prego só. Eil-o ahi, que, descançando, na meditação de oito dias, dos seus primeiros trabalhos, reapparece no{102}sitio do naufragio mais azafamado, mais resolvido, que na primeira vez. Esta partida subita cauzara a ignobil disputa de que eu fôra involuntaria testemunha.


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