ICUBA E VILLA DE FRADES{8}{9}Euestive já, por duas vezes, em Villa de Frades, no largo da Misericordia, onde foi aquella «casinha de taipa, construida por pedreiros da gente de Fialho»—como elle nos conta naAutobiographiado seu livro—Á Esquina.Fui ali quando das minhas jornadas pelo Baixo Alemtejo, em excursão de curioso pelo mais da sua gente e paizagem.A primeira vez que visitei a residencia de Fialho, que não é já hoje a casita de taipa que os seus construiram, mas uma das melhores da terriola,—foi por uma tarde de agosto, uma daquellas tardes de{10}rescaldo que erguem, á volta de nós, serpentes de fogo, e lhe ensinaram, a elle, a sua pintura deslumbrante, á maneira de Rubens, em que a propria côr queima!Não foi sem um certo alvoroço, confesso, que bati ao portão da antiga casa do Escriptor.Veio alguem abri-lo, deixando a descoberto, a meio de uma segunda porta fronteira, um homem alto, vestido de negro, de aspecto recolhido, quasi ecclesiastico, e que, num instante, me encarou e desappareceu, abandonando-me no jardim, ao sol, com o meu remorso de indiscreto.Desapparecera tambem o creado, ou quem quer que fosse, que me tinha introduzido no pateo.Esperei instantes, e, como não visse alguem, dirigi-me para a entrada da primeira casa, que logo vi ser a cozinha, encarando, pela segunda vez, aquella mesma{11}figura quasi sombra, que depois soube que era o irmão de Fialho.Disse alto o que queria:—falar ao dono da casa e pedir-lhe o favor de me deixar ver a antiga residencia do Artista.Sahiu a attender-me uma mulher nova, figura doente e franzina, que logo se deu a explicar-me que era ella a actual dona da antiga casa do Escriptor, de quem era parenta, vivendo ali com o marido e seu primo, o irmão de Fialho d'Almeida, que, já ao tempo, mais familiarizado comigo, me fitava serenamente.Dei-me tambem a vê-lo melhor.Não me lembro da edade que me disse ter; quarenta e sete annos podia talvez apparentar.—Que era um temperamento impressionavel, a espaços dado a medos e hysterias, sempre melancholico, informou ainda a sua parenta.{12}Deparou-me, pois, o acaso, nem mais nem menos, do que um novo documento a instruir a historia do genio do Artista, na pessoa do irmão, que me dei a ver como uma figura-symbolo de familia, em que, não sei porque, presenti a elegia viva da Arte mais exquisita e morbida de Fialho, qualquer coisa da neurilidade extravagante dos seus doridos, aquella que animou os seus personagens tão suavemente fataes e androgynos, toda a belleza maravilhosa, e não raro inconsequente, da sua obra de apontamentos, onde tão extranhamente exuberam os noctambulos e toda a sorte de mysteriosos!Corrêra, de certo, enferma a adolescencia do irmão de Fialho, que viera até ali, aos quarenta e sete annos, ou mais que podia ter, porventura ainda innocente, como por milagre da sua mesma frouxidão de alma, a que, a cada momento,{13}sua prima alludia, ao referir-me, perto delle, as sinistras manhans das suas torturas de neuropatha.Entretanto que a dona da Casa me convidava a passar á primeira sala, chegou o marido della, tambem primo de Fialho, que, a meu pedido, mandara chamar, e que logo se dispoz a acompanhar-me, apontando-me, por miudo, o mobiliario e antigos aposentos do Artista.Fôra este seu parente a quem Fialho recorrera, quando, na vespera da morte, veio a Villa de Frades, ordenar os papeis do seu gabinete, como quem se decide a dispor tudo, antes de seguir...—Quando chegou deu pela falta da chave do escriptorio, me explicou o snr. José Fialho. E apontando uma porta:—tentou ainda abri-lo, quebrando o vidro daquella bandeira; por fim, resolveu-se a chamar-me, e, como é cá da minha arte{14}este serviço, pois sou carpinteiro, immediatamente arranjei tudo; e, elle entrou, demorando-se aqui até á hora da partida.Insisti na supposição, que mais se radicou em mim, depois da minha derradeira estada no Alemtejo, do provavel suicidio de Fialho, confirmando-me o seu parente que, de facto, se tinha aventurado tal suspeita, logo apoz a sua morte, mas que os medicos que, por ultimo, o haviam soccorrido, tinham negado o facto, e, elle, por si, coisa alguma sabia dizer a tal respeito...Entretanto, encarou-me mysteriosamente, quando lhe disse que alguem da familia Carapeto, que lhe assistira á morte, na Cuba, tinha como certo o seu envenenamento; que, na vespera, elle tratara do arranjo definitivo de tudo, e nomeadamente do seu testamento, lavrado numa das dependencias da Tabacaria Fonseca, onde costumava passar parte das noites; que{15}soubera, ainda na Cuba, dos seus aborrecimentos de doente, afóra outras razões que a minha admiração tinha reunido para reconstituir o drama duvidoso do seu desenlace.Mas deixêmos este caso ao tempo, que é quem definitivamente aclara tudo, e voltemos á sua casa de Villa de Frades.Como acima informei, actualmente pouco deve ella ter da construcção primitivamente gizada pelo pae do Escriptor, antigo mestre regio da freguezia.É sabido que Fialho casara com uma senhora de fortuna, de quem tambem ficou herdeiro, pelo que tanto aquella Casa, como a de Cuba, sua residencia predilecta, foram por elle reformadas, com todas as melhorias em uso nas boas construcções da região.Mas não se infira dahi que se trate de{16}edificios luxuosos; são, pelo contrario, casas sem interesse, e, ainda, no ponto de vista artistico, valem tão sómente pelo caracter que lhes advém do facto de obedecerem ao desenho do mais das habitações daquellas paragens,—quasi todas ellas tijoladas, cozinhas brancas de telha van, eirados sobre a planicie, e os jardins tão intimos das casas e pateos, á maneira arabe, como que continuando-se das salas.Villa de Frades, pequena povoação do concelho da Vidigueira, com um censo de dois mil habitantes proximamente, tem um certo relevo, em contraste com o resto da formidavel planura sul-alemtejana, e, o que é mais, foi uma das poucas terras, se não a unica do districto, que encontrei verde, no agosto em que a visitei. Tudo o mais, ao largo, era desolação e secca.Fialho d'Almeida. Desenho de Antonio CarneiroFIALHO D'ALMEIDA(Desenho de Antonio Carneiro).Para lá da matriz, logo ao sahir do povoado, corriam as obras das escolas que o{17}Escriptor garantira com o seu testamento, e que, confesso, pouco me detiveram, dado o meu aborrecimento por construcções do seu desenho, entre gaiolas e penitenciarias, com destino á futura infancia de Villa de Frades, de mais, ao tempo, sobremaneira antipathicas, como todos os edificios por concluir.O que devéras me prendeu, foi a chamada antiga Casa da Aula, pela qual perguntei ao primo de Fialho e immediatamente saiu a apontar-me.É fronteira á Egreja, e um edificio tosco, sobre o comprido, áquelle tempo escrupulosamente caiado, de aspecto simples e o ar abstracto de um templo abandonado.Era quasi noite. A matriz bateu não sei que horas, com aquella solemnidade triste, que é do dobrar dos sinos de todas as villas...Dei-me a imaginar a infancia de Fialho,{18}partilhando daquella melancholia, pelas grandes tardes morrinhentas de Villa de Frades, com todo o primeiro mundo da sua inicial e subconsciente comparticipação da Vida...Ali, de facto, naquella humillissima escola, cursara elle as primeiras lettras, de par das primeiras contrariedades, ao lado do pae, o mestre escola da terra, «aquelle typo de santo austero, n'uma alma de sonhador, sempre calado», explica o Artista, annos depois.E, em verdade, tanto como a casa onde nasceu, mais ainda, talvez, se me prendeu da alma aquella capellita das suas primeiras canseiras.Ahi deveria, porventura, estabelecer-se o Museu-Fialho, uma vez que uma dezena de amigos, refiro-me sobretudo aos seus amigos de leitura, se concertasse para juntar em tal logar, com os seus livros, tudo o{19}que pudesse considerar-se como reliquia da sua obra ou memoria.Da casa de Fialho, em Villa de Frades, hoje quasi vazia do peregrino espirito que a encheu, lembrarei especialmente o quarto do Artista, onde, por acaso, quedam algumas arcas com revistas que excluiu da sua livraria, destinada á Bibliotheca de Lisboa, legando-as a um amigo que ainda as não levantou, e, nas paredes, duas telas da sua auctoria.Propositadamente trazemos a publico a noticia, que cremos em primeira hora, daquellas telas, ambas más, de figuras religiosas, de tintas empastadas e peior desenho, pelo interesse de documentar o seu esforço de plastico, que o fez pintor, em segredo, a elle, o critico impertinente dos maiores pintores do seu paiz!Esta, porventura, tambem a nota mais interessante que me foi dado conhecer por{20}informação da Familia-Fialho, e me fez lembrar o caso de Hugo, identicamente desenhista e, mais ainda, entalhador, e cuja obra, no genero, decora, ao presente, a sua antiga residencia, hoje Museu, naPlace des Vosges.Finalmente, resta-me apontar, o trecho fronteiro á casa, systema absorto de outeiros verde-suaves, que se me depararam conhecidos, como se, de sempre, os houvesse visitado.E, de facto, era quasi assim. Conhecia-os, havia muito, de algumas das paginas mais luxuriantes do Escriptor, onde elle, o magnifico colorista, a espaços se deu a pintá-los daquella tinta intima que lhe veio, pelo tempo fóra, das suas memorias e impressões de infante.Despeço-me, á pressa, da sympathica terriola, como quem foge do tumulto de{21}lembranças que me vem da casa, daquelles outeiros, dos primos de Fialho, do Irmão, irreprehensivelmente estatual no seu papel de symbolo rigoroso; e parece-me receber das mãos deste fios da tragedia, ainda viva, das primeiras desfortunas do Artista, as que lhe advieram da quasi miseria da sua segunda infancia, e cuja recordação o obrigava talvez, mais tarde, a fugir dali, (onde viveu sempre o menos tempo) por morphinizar-se do aborrecimento em commum por terras de mais convivio.A Casa da Cuba, que em geral preferia, quando estava no Alemtejo, é um edificio melhor que o de Villa de Frades, tambem terreo e de compartimentos amplos.Nesta casa fui encontrar enferma, na mesma alcova em que o Artista agonisara, a sua antiga legataria,—uma senhora de{22}edade da Familia Carapeto, a quem devo o offerecimento dos retratos de Fialho que illustram a presente noticia e alguns dos seus esclarecimentos.Pouco me detive nesta sua antiga morada, e o tempo que ali quedei foi no terraço, velho miradouro de gosto mourisco, donde se abrange, numa extensão de leguas, o mais das terras seccas que circumdam a Comarca.Cuba é das povoações mais incaracteristicas e sem interesse que encontrei no Baixo Alemtejo. Lembra, pela monotonia do seu casario reverberante, certas povoações de Hespanha, da Mancha, sobretudo, e que, em vez de quebrarem a aridez das chans, servem como que a memorá-las, tão irmans da estepe parecem crescer da terra.Avalio, com tristeza, do viver do Escriptor na villa, quando, obrigado pelas mil coisas desagradaveis da sua vida, em{23}que parece não ter figurado pouco a intriga politica da ultima hora,—se recolheu aos seus telheiros.Fez o acaso que me defrontasse com o proprietario da Tabacaria, em que passava uma parte das noites, a conversar, por distrahir-se e illudir a monotonia que o cercava.Deu-se-me logo o snr. Fonseca, não afianço o appellido, como tendo sido muito da intimidade de Fialho, propondo-se reproduzir factos e retalhos seus de conversa que, é claro, lhe sahiam pouco authenticos...—Conheceu-o pessoalmente? me perguntou elle, a meio das suas tiradas.E, á minha negativa:—Pois olhe que era melhor ouvi-lo, do que lê-lo!Os livros valem pouco, accrescentou, em comparação com o que elle aqui nos contava...{24}E logo continuou a palavrear ácerca do Artista, emquanto eu me explicava a sua vida final, o suicidio provavel, os caixões de revistas que vira em Villa de Frades, e com as quaes elle, por ultimo, quasi obrigado a viver ali, bem por certo, de volta a casa, iria feriar-se daquellas noites mal conversadas com quem, por falta de ouvidos, não podia ouvi-lo,—a elle que fora em Lisboa, o primeiro de um cenáculo de que haviam feito parte, entre outros, artistas como Ramalho e Bordallo, ao lado de curiosos, ás vezes, valha a verdade, bem inferiores ao sympathico negociante, que, ao menos, herdara do seu convivio a devoção supersticiosa da sua memoria!Como quer que seja, pois que Fialho passou em Cuba os ultimos annos da sua vida, importa-me naturalmente escrever da{25}pequena cabeça da comarca o pouco que della apontei de más lembranças.Como acima referi, não tem ella, para mim, a bem dizer, outro interesse alem do que lhe advem do facto de ter sido o derradeiro exilio do Escriptor, que se dava a disfarçá-lo, administrando directamente as suas herdades.Especie de villa improvisada, sem paizagem que pudesse entreter, por momentos, o espirito, aliaz exigentissimo do Artista; sem edificios de valor; com repartições inferiores; avenidas lugubres, no geito da Alameda, sobranceira ao Caminho de ferro, e sombria como uma rua de cemiterio; habitações mesquinhas, servidas de ruas mal calçadas; a Estação, a distancia, quasi que fugida da terra que a fizeram servir—tal é, de facto, Cuba, cujo casario abre sobre a campina formidavel do sul como uma aguarella infima!{26}E, entretanto, foi ali que Fialho quiz ficar, e mandou que lhe erigissem o mausoleu, que visitei na ultima tarde da minha estada em Cuba, depois de dolorosos transes para arrancar duma adega o chaveiro do Cemiterio.Ah! como Fialho tinha razão, ao informar-nos no conto—A Ruiva:—«Ha uma coisa peior que um cão damnado: é um coveiro bebado!»Comtudo, ao lado dum tal coveiro segui eu até ao cemiterio de Cuba, em que, aliaz, coisa alguma de notavel fui encontrar.Todos os cemiterios, a meu ver, se parecem; o da Cuba vale oPère-Lachaise, como o deMontmartreouMontparnasse, por nomear os trez mais notaveis de França (onde os homens passam por mais reconhecidos)—como os de todas as terras, ainda os das muito civilizadas e extremas.Imagine-se um cercado alto, com o ar{27}de casa, á qual o vento arrebatasse o telhado, arruamentos de capellas e arcas com lettras de pedra, uma especie de convento de ossos, onde todos os dias ha camas de terra revolvidas e cruzes novas;—a frieza dos brancos e solemnes livros de marmore, das flores, ali casuaes e tranzidas, dos esguios arvoredos, como de todo um pequeno mundo de symbolos;—uma lage-obstaculo em cada campa, e, como a fechar mais os que jazem, gradis, linhas de cimento juntando as cantarias, mais um complicado e diabolico systema de cremalheiras e cadeados!Eis o cemiterio de Cuba, cujo desenho é, de facto, o de todas as grandes ou pequenas cidades de mortos, dos quaes os vivos se vão desquitando, mais ainda do que cobrindo-os daquelles obstaculos,—quasi esquecendo-os para ali, onde perpetuamente terão de ficar, afastados de tudo,{28}onde jámais chegará o proprio carinho selvagem dos temporaes, sós, entre os silencios negros da sua noite immensa, velados dos elementos, a par das esculpturas somnambulas dos tumulos, tambem de si indifferentes, abstractas, e, como por acaso, ali dispostas, ainda por erguerem (paredes-meias dos cinerarios) o formal e glacido tributo da sua agonia fria e lapidar!Ora, isto me ia eu recordando, ao seguir, mais o coveiro, pelo cemiterio de Cuba, do mesmo passo que, sem querer, lembrava certas passagens da Obra de Fialho, que, de momento, quasi me falavam, e, eu sentia, como que batidas de vento, ao meu ouvido...Como no caso das grandes paginas de presagio da sua monographia—Manuel, começára de anoitecer, e os sinos tocavam!Ainda mais, lembro-me de ouvir, ao{29}longe, nitidamente, distinctamente, representando-se-me como um relampago vermelho á meia treva, o uivar daquelle cão, que, quando, em taes paginas, o Artista se dá a dialogar com o Coveiro a probabilidade de Manuel ser enterrado vivo, como toda a sua afflicção pela farça material dos tumulos—como que o chama á realidade desse mundo que fica para alem do proprio pezadelo hystero-epiletico da sua tortura de superemotivo, e lhe queda, a dobrar, na alma, o timbre vivo e sinistro da hora horrivel que já não conta, e, eu, de momento senti ali, perto delle, bater tragicamente, lugubremente, como um echo do seu sentido, ainda doloroso, embora já distante, vago, erradio...Porque, para mim, esse typo dehystericoefragmentado,contradictorioeprescienteque figurou noManuel, é fundamentalmente elle proprio, desdobrando-se{30}por escrever a sua mesma «duplicidade cerebral» e gritar contra a desgraça dooutro, «o que morrera», e agora, eu sabia ali, sem que ao menos pudesse precisar onde!Onde?Eis o que o coveiro, depois que o instei, se deu a contar-me, moendo as palavras, que, aliaz, lhe sahiam cavas e aos gorgolões, como se me falasse ainda da adega á qual, minutos antes, o fôra arrancar.Afinal pouco tem que ver a futura Casaforte dos ossos de Fialho,—no começo da primeira rua do cemiterio, e a poucos passos do portão, como do logar em que nos encontravamos.Imagine-se uma especie de cofre em marmore branco, sem arestas, escrupulosamente polido e goivado á volta, quasi sem ornatos, uma porta grossa cruzada da fecharia,—todo elle de um desenho facil, e, por sobre a cupula, ainda de pedra, dois{31}gatos de bronze, dormindo abraçados o velho somno dos symbolos! Eis tudo...Este, repetimos, o mausoleu que lhe servirá em breve.Porque provisoriamente, e a avaliar das informações que apontei, o Escriptor, descança ainda, de momento, ao fim do cemiterio, perto da ultima parede, num pedaço de chão mal tijolado e de emprestimo, em sepultura rasa...{32}{33}IIA INDOLE DE FIALHO{34}{35}Nãoé facil escrever de momento, e directamente, ácerca dum artista como Fialho, tal o occultismo das suas predilecções, como, mais propriamente, da obra que deixou, e tomaremos ainda como indice da sua singularissima neurilidade.Assim, começaremos por esclarecer que Fialho d'Almeida era filho de um homem da Beira e de uma mulher do Alemtejo, por melhor caracterizar algumas das suas extranhezas e contrastes, como o seu conflicto em materia de assumptos e realizações artisticas, que, antes de tudo, parecia advir-lhe do ser encontro de duas raças.Da mesma maneira que cumpre ter presente{36}a influencia da provincia em que nasceu, e que, na infancia, a edade impressionavel por excellencia, lhe deu aquelle amor pela tinta mais propria, ou seja a que os seus olhos receberam directamente da paizagem; como a sua grande intimidade com a natureza, com quem aprendeu a exprimir-se, e que tão fundamente foi penetrada pelo seu genio.De facto, nenhum elemento mais cioso da transmissão do caracter do que a terra. O que Fialho prova, á saciedade, a par dos nossos maiores impressionistas.Desenvolvemos noutro logar[1]a indole da zona mais meridional do Alemtejo, onde se incluem Cuba e a pequena villa em que nasceu Fialho.Resulta daquelle estudo um campo ethnico á parte na geographia intima de{37}Portugal região embaraçada da herança arabe, que semelhantemente se vê na cultura, nos seus barros e azulejos, nas suas casas, como nas manifestações mais simples da vida vulgar dos seus habitantes.Ora Fialho, que ali passou parte da infancia jámais destruirá a recordação do primeiro espectaculo natural que feriu a sua retina de colorista, e, depois, pela vida fóra, mais se lhe foi insinuando pela mesma fatalidade de sangue e nascimento que á sua terra o prendia. É isto, apesar da herança de tristeza que tambem desta lhe provinha, e a que se refere, ainda doridamente, annos depois da sua estada ali, no capitulo autobiographico doÁ Esquina.De facto, é sempre presente, na sua obra, aquelle primeiro campo de observações. Ahi ha a ver a intriga das passagens mais violentas das suas narrativas, as tintas das suas combinações de painelista, os{38}dialogos e personagens brutaes da sua tragedia mais popular; e, para alem, ainda, da paizagem, como das figuras, a razão culminante do seu genio de origem, em que migra o sonho luxurioso, mais que dum artista e dum povo,—duma civilização perdida!Importa insistir: a herança arabe se não vingou entre nós, como em Hespanha, a ponto de que, ainda hoje, quasi tudo o que tem de grande se não foi della, nella se filia—nem por isso deixou de influir no genio de Portugal, onde logrou a sua invasão pelo Sul, e, onde, repetimos, se conserva evidente.É ali viva, manifesta em todas as coisas, e, sobretudo, nos homens, a quem as mesmas condições da terra naturalmente defenderam das fusões com outras raças.Ora, assentes estes factos, e tendo presente os ensinamentos que do seu conhecimento{39}derivam, chegamos logicamente a entender melhor o caso, na apparencia extranho, das manifestações, por vezes distantes e tão intensivamente artisticas do Sul, e mais, em especial, de certos capitulos da obra de Fialho d'Almeida.Em verdade, eu não encontro para explicar-me o exuberante exquisito de algumas paginas do Artista, mais do que o segredo das colorações, como dos labyrinthicos e caprichosos desenhos de certos e admiraveis exemplares da civilização arabe na Peninsula, dentre os quaes me veem á lembrança, quasi sem o querer, os velhos monumentos da Andaluzia, tambem, porventura, da melhor intimidade de Fialho, e que o deviam ser de todos os artistas, muito particularmente dos de Portugal e Hespanha.E, de facto, qual o artista, verdadeiramente curioso de civilizações mortas,{40}que não percorreu ainda Alhambra,—a Alhambra monumental dos grandes Paços de Luz, redosos e filigranados, cujos marchetes e esmaltes se nos defrontam, mais do que como obra paciente e custosissima, quasi dolorosos á nossa admiração, pela mesma regularidade do seu maravilhoso, tão distantemente extranho!Pois paga a pena a sua visita, sobretudo á luz de certas horas, quando, pelo estio, a tarde transfigura os monumentos, quasi os move!—e Alhambra inteira exulta á claridade frouxa dos seus crepusculos.Como, de egual sorte, surprehende o desenho interior dos phantasticos paços, ainda pelo que abrigam de inaudito, no espectaculo das suas casas-retabulos, aliaz tão intimamente caprichosas, como se fossem ampliações das covas naturaes que, no Monte Sacro, lhes são fronteiras.{41}É que ninguem como o povo arabe teve o segredo dos recantos, soube estudar e praticar as sombras, quasi medir a penumbra das arcarias; da mesma forma que tambem ninguem mais, como elle, conseguiu dominar pontos de vista, aperceber horizontes, toda a natureza, moldurá-la dos seus monumentos, por vezes verdadeiros filtros de luz,—viver, sentir a côr, e, o que é mais, orchestrá-la na sua obra, de uma fina grandeza sem egual.Dahi tambem o não se saber que mais admirar dos encantados paços, bem de molde a servirem a luxuria religiosa de tão lendario povo, se o labyrinthico desenho das suas paredes, como dos seus tectos e azulejos, se o mesmo diabolismo e imaginativa do seu alçado!Ora, derivando dos monumentos attribuidos ao genio arabe, á razão de sangue{42}que flue na gente do sul da Peninsula, chegamos facilmente á averiguação do grande valor da tutela semita no nosso movimento tradicional, mercê daquella herança—tutela sobremaneira documentada, no mais do nosso lyrismo, como, em regra, em toda a nossa obra artistica.E, assim, nos encontramos, muito naturalmente com o caso de Fialho d'Almeida.De facto, dentre os grandes plasticos da Peninsula, quem mais que o grande Artista conseguiu ainda praticar um semelhante ou equivalente embrenhado de esmaltes e de linhas, o segredo da luz e da côr, identica riqueza no processo de exprimir Arte, toda aquella ancia de vida luxuriosa que ergue o mais da obra arabe, e, em que domina sempre, ao lado do culto do individuo, considerado na sua religiosidade como no seu luxo,—a preoccupação alacre do supremo culto da Natureza!{43}E, entretanto, não foi, ainda, sob um tal ponto de vista que principalmente nos demos a estuda-lo.A verdade é que fiamos pouco do rigorismo dos methodos geralmente considerados como mais logicos, por mais naturalistas, os que tudo explicam pela razão exclusiva da procedencia e do meio—quando se trata de comprehender emotivos da estatura de Fialho, cuja obra precisa, a nosso entender, principalmente ser considerada sem opinião previa, ou seja a toda a luz dos seus livros, e onde ha, a par das admiraveis fatalidades das suas taras de artista do Sul, o conhecimento, os commentarios, como a presença ou suggestões de tudo o que nesse rodopio de Arte, que foi a segunda metade do outro seculo, podia considerar-se de mais interessante ou notavel.Mas caminhemos vagarosamente. Em{44}primeiro logar, convem ter presente que ha nos recursos de Fialho d'Almeida um grande numero de facetas e a tal ponto imprevistas e admiraveis, que, a elle proprio, o offuscaram, perturbando-o, e impedindo até que realizasse o que para todo o auctor deve ser o primeiro fim—a obra de conjuncto, que, exactamente, resulta do ajustamento ou systematização de todo o seu trabalho, de molde a levantar a figura do Artista se elle é um temperamento, ou o objectivo da sua Arte, quando elle tenha de desapparecer, em sacrificio á sua mais propria missão.O tempo é ainda um material ao dispor dos artistas, embora, quanto a nós, o peior dos materiaes.Fialho devotou-se-lhe, talvez, excessivamente. Pois que tinha auscultado a miseria do povo, no seu instincto, por desventura apurado nos primeiros annos da sua vida{45}de acaso, não raro deixou falar o coração, para alem da sua mesma canseira de Artista.Quantas vezes elle, que foi um espirito alto e pairante, se deu a desmedir o grito dos que a propria miseria, confinada da cobardia congenita das desgraças populares, havia tornado quasi aphonos, e que ainda, por uma razão de indole, eternizou vivo e plebeu,—tal como lhe sahiu, ao primeiro golpe, nas paginas formidaveis dosGatos!Foi isto um delicto de Arte, seria um bem?Foi um facto. E este facto vale o melhor da sua obra de pamphletario que, antes de qualquer outra, convem ter presente.Ora, neste rumo de trabalhos, seguiu elle, naturalmente, o exemplo de todos os pamphletarios;—isto é, deu-se a compor paginas do material commum, o que vale{46}dizer de aspirações e casos, não raro menos claros de que vulgares!Dahi partiu, e logicamente foi até ao fim: a servir a propria plebe politica—a peior das plebes!Houve tempo em que não socegou. Numa canseira pertinaz, diaria, quasi tomou por seu dever perseguir a vida constituida, onde quer que ella surgisse ou se se lhe afigurasse.Ora, este foi, tambem, porventura, o seu mal, assente como está que, em materia de vida conjuncta, peior do que qualquer instituição crapulosa ou gasta, é a sua substituição á doida, á sorte, como infelizmente, entre nós, elle a ajudou a preparar!Acabo de percorrer osGatos, onde reuniu o melhor da sua Arte de pamphletario.{47}Do primeiro ao ultimo opusculo, que serie de estudos, de commentarios, de almas e acontecimentos tratados pelo seu riso!Tudo o que elle tinha de imprevisto, como tudo o que da inferioridade de uns poude reunir e editar para servir a inferioridade dos outros, está ali, nos seis volumes que hoje formam a Obra, e ficará como documento dos seus violentos e extremadissimos recursos.Pois que foi a civilização quem categorisou o riso, transfundindo-o, filtrando-o até á ironia, uma das grandes forças da demolição moderna,—importa ainda considerar o riso de Fialho.A ironia de Fialho, se assim podemos escrever daquella sua indole—era ainda, como não podia deixar de ser, um caso mais do seu temperamento de violento, aggravado do tempo e meio em que, por acaso, reagiu.{48}Assim, nada tem de commum, por exemplo, com Eça e Camillo, por falar dos humoristas mais discutidos da lida contemporanea.Camillo era a graça a flux, com os seus laivos de razão intima, muito para alem dos castellos politico-litterarios de momento, golfando risos ao acaso da sua natural interpretação sinistra de Humanidade.Eça deu-se scepticamente a lapidar costumes e figuras infimas, no geral de uma banalidade exhaustiva, á conta do prazer do seu riso frio, que logo se fez moda, como tudo o que nos vinha de fóra, por seu intermedio.É ver o successo dasCartas de Fradique Mendes, «um Acacio a serio», informa Fialho, e cuja prosa relata o apontoado symetrico das notas dum civilizado, ali paciente e cuidadosamente estylizadas pelo seu sentido de mundano.{49}Fotografia de Fialho d'Almeida.FIALHO D'ALMEIDAOra, nada de premeditado encontramos em Fialho, e nomeadamente nas notações dos Gatos, por cujo entrecho natural é que comecemos o exame á sua obra.A razão desta preferencia incide, é claro, na mesma indole dos folhetos que reuniu debaixo daquelle titulo, e, onde, de facto, encontramos, a despeito dos seus propositos, o Fialho definitivo, quer sob o ponto de vista do estylo e inauditismo de Arte, quer ainda pela acção demolidora que tanto foi de seu empenho e naquella obra rajou desesperadamente, a paginas plenas, como em nenhum outro dos seus trabalhos.{50}[1]Terras do Sul.{51}IIIO PAMPHLETARIO{52}{53}AbreosGatoso aviso-cartaz de que o auctor se propõe tratar criticamente os homens e os acontecimentos, explicando, humoristicamente, o nome da publicação.O primeiro folheto da serie tem a data de Agosto de 1889, e inaugura por um capitulo, pleno de paixão artistica, com seus esmaltes de irreverencia, e a que elle chamou:—Bric-á-bracomania, como cultura e como doença.No desenvolvimento da curiosa these encontra-se naturalmente com o caso do testamento de D. Fernando. Este caso foi um dos mais antipathicos e escandalosos do tempo, pois que accendeu nos Paços,{54}com o odio da rainha pela condessa d'Edla, uma questão de familia burgueza, em que se discutiu tudo, desde a imaginada loucura lucida do principe, ao tempo das suas ultimas disposições, até ao valor e direito dosbibelotse quadros do seu espolio!Veio a questão para a rua, e, ainda dessa vez, rua e Paço se deram as mãos, na roda de insultos dirigidos á viuva de D. Fernando, sem attenção pela memoria deste principe, cuja probidade foi tratada sem sombra, não diremos já de justiça, mas de delicadeza.Em nome dos republicanos dirigia, noSeculo, a campanha Rodrigues de Freitas, valha a verdade, serenamente. Por parte do Paço, e vestindo, mais uma vez, a innocente pelle do povo—. escrevia Emygdio Navarro, tratando cynicamente D. Fernando, em quem diagnosticara dois scirrhos—o da cara, que o levara á morte, e o do coração,{55}que elle, Emygdio Navarro, se propunha sarjar publicamente, fazendo-lhe a historia na praça dasNovidades, e isto, affirmava, por dignificar a memoria do Rei!Fialho que, de facto, era um delicado, e, por accidente, se fizera politico, e, bem por certo, lhe repugnava toda aquella griteira, tratou tambem do caso moderadamente, chegando a lembrar até a arbitragem para resolver os direitos do espolio controvertido.Ainda, por egual forma, trata a figura de D. Fernando, cujo perfil surprehende, sobretudo, á luz da sua aventura de amoroso e homem de Arte.Assim visto, não podia elle deixar de lhe ser sympathico, e dahi tambem o seu elogio, mal disfarçado, como as attitudes em que o focou, e donde mal sobresahe o vulto, ao tempo tão acintosamente discutido, do Rei!{56}Quer dizer, em verdade, é ali presente a homenagem do Artista ao Artista, para lá de todo o convencionalismo critico, como de toda a exigencia publica.Começa o segundo opusculo por um capitulo dedicado ao violoncellista Sergio, e que, neste proposito a que nos obrigamos, de mero indiciador das suas passagens de mais interesse e que melhor o mostram—mal podemos tratar condignamente.Registe-se, no entretanto, o extremado capitulo, como um dos mais notaveis da sua obra, e, alem de tudo, a forma como elle, sempre tão presente nos seus livros, sabia, embora excepcionalmente, apagar-se, quando as circumstancias lhe conferiam Arte que um tal sacrificio valesse.É o caso do violoncellista. Para no-lo descrever, Fialho quasi se apaga no café-concerto{57}da Mouraria, em que o apresenta, e, onde, de facto, elle costumava ir, ás noites, transfigurando-o da sua Arte, cuja referencia é, ainda, como que a sombra resoante da alma tão extranhamente regressiva do Musico.Paginas adiante, é tambem com paixão e valor equivalentes que, a proposito das exequias de D. Luiz, trata a figura da Rainha.D. Maria Pia resalta do seu exame como uma resurreição dos grandes dramas reaes de Shakespeare, ou seja como um verdadeiro prodigio de alma, genialmente estatuada da sua tristeza de soberana-viuva, equilibrando-se no orgulho profissional da sua creação de princeza de raça, acaso abordada ás praias portuguezas.Inegualavelmente soberba, de facto, a{58}sua maneira de tratar a lendaria Rainha que surprehende nos funeraes do Rei como um alabastro solemne!Assim a tinha sonhado, tanto como o Paço, a propria Rua que, entretanto, lhe perdoava tudo, ainda os mais custosos dispendios, tomando-a, mais do que como Rainha—como uma figura de luxo, especie de marmore vivo, por boa fatalidade, a soldo no Museu Real das Necessidades.Tambem, por seu lado, ella cumpria escrupulosamente o papel a que, por sua mesma prosapia, se compromettera (fôra cheia de protocolo a sua escriptura de esponsaes)—e dahi o vê-la toda a gente mais do que cerimoniosa, theatral, quasi memoria, seguindo sempre, de par da sua lenda, de que ninguem, nem ainda os mais ousados, tentaram algum dia separá-la!Quando endoideceu (a natureza é logica; que outra doença devia segui-la?){59}logo os jornaes vieram contar as parabolas da sua loucura, nos Paços de Cintra; corriam historias detoilettesque jámais usara; e, por fim, enterneceu a sua retirada de Portugal, quando, na Ericeira partiu, tão magestosa e alheadamente, como annos antes, tinha chegado...A differença dos dois espectaculos, estava, unicamente, no tempo, que daquelle passo final da sua vida tinha urdido mais uma tragedia!Chegara solemnissima, recebida por toda a ordem de festas e alegrias officiaes; retirou, á opportunidade da primeira revolução, como uma rainha usada, que já não serve, e segue, á pressa, devolvida, ao paiz de origem.Despedimo-nos com pezar destas paginas, que tão fundamente, por si, bastariam{60}a vincar a alma do Artista, acaso nellas mal casada á sua preoccupação de pamphletario,—para derivar a outras que, na sua obra, dão o contraste da violencia, talvez, mais inopportuna e abrupta, que ainda instigou critica portugueza!Reportamo-nos ao caso grosseiro das suas diatribes contra Guilherme de Azevedo que justiçou depois de morto, e declara analysar sobre uma pedra de autopsia, ainda sem piedade por si, como pelos leitores, e quando aquelle, já longe, havia ganho, ha muito, o esquecimento publico!Na sua quasi diabolica sanha de deprimir vê-o primeiramente no seu logar de escrivão de fazenda em Santarem, onde o surprehende a passear os seus aleijões, de par das suas canseiras de lyrico e apaixonado ridiculo.Depois examina-lhe, publicamente, os defeitos, as suas fraquezas e purgueiras de{61}estrumoso, como a sua obra, na parte mais rebuscada, indo até pracear-lhe os papeis unhados pela lida do chronista!Por fim, como que convida o publico a assistir-lhe á morte, em Pariz, numa casa de saude!E, para o caso de que o publico falte, redige elle mesmo a informação da agonia do Artista, passada, esclarece, entre sujidades!Ora eu não sei de outra hora tão extranhamente infeliz para um escriptor!Do mais dos artistas contemporaneos, e, especialmente, dos pintores, é sabido o que escreveu de desalentador para elles que já, contra si, tinham tudo:—a rua, o mundo politico, o meio pobre em que trabalhavam, o paiz de origem, e toda a serie{62}de prejuizos que, para mais, Fialho conhecia intimamente como ninguem!Comtudo, nem Columbano escapou a esta sua impertinencia, por vezes de uma irritação doente, quasi atrabiliaria e descomposta, á conta da sua faina de exigir do mundo plastico, mais do que representações da natureza, verdadeiras telas vivas, porventura, a capricho, illuminadas das suas mesmas composições escriptas.Dahi a sua injustiça para com o grande pintor que, no seu juizo facil da primeira hora, qualificou de mero artista hesitante, como que estagnado, «perdido, na monotonia cadaverica dos seus quadros de imitação!»E, de identica maneira, tratava os outros.Não lhe era facil fugir á fatalidade do seu genio, sempre em duvida, e que mascarava{63}de desdens; para mais acossado pela circumstancia de viver, o mais do tempo, em Lisboa, onde os Artistas teemateliersparedes-meias, e a Arte anda sempre ao de cima das sympathias duma tal Cidade, ainda, como nenhuma outra, de entre as nossas, aberta a intimidades, mettediça, e pretenciosamente futil!Dahi tambem a sua maneira, quasi mesquinha, de tratar a Politica e, em especial, os politicos.A Carlos Lobo d'Avila, por exemplo, processa-o como degenerado.Lopo Vaz é, para elle, um mero «preboste regio». A Barjona toma-o como um conselheiro de negocios, anecdotico e sujo. Hintze é uma especie de empresario de Portugal—feitoria-ingleza, figura dependente e quasi irresponsavel ás ordens da dynastia, e assim os outros.A paixão do pamphletario céga-o a{64}qualquer vislumbre de justiça para com politicos e assim tambem para com o Rei, que, ainda á maneira popular, considerava como figura enkystada no corpo governativo da Nacionalidade.Dahi tambem o atacá-lo systematicamente, afeiando-o de todos os delictos, em que não deixou de figurar a pecha das mais ruins ingratidões, as já classicas ingratidões dos reis!Quer dizer, consciente ou inconscientemente, foi, como todos os pamphletarios, um Orpheu da Rua, pelo menos até se sentir sacudido por ella.E fossem lá insinuar ao seu aferro pelas chamadas reivindicações democraticas, que atraz da ingratidão dos reis, está sempre a ingratidão dos povos; que a França, por exemplo, politicamente radical, no curso de dezenas de annos, conserva noPère Lachaisea ossada de Balzac, ao passo que{65}carreou, ha muito, para o Pantheon Carnot e outros menores!De que lhe serviria, de momento, o aviso? O que sempre enche a obra do pamphletario é a philosophia facil do odio ao Constituido, onde quer que elle se encontre. Emquanto ha reis, a culpa de tudo o que existe de mau, ou por tal passa, é dos reis; como é dos padres emquanto ha padres; dos validos emquanto ha validos; em ultimo logar, dos parlamentos; de tudo, emfim, o que o povo, em nome dos seus direitos, nunca até hoje definidos, organiza e desorganiza, menos a seu talante, do que ao acaso de uma esperança ou das gerações por apparecer!E, comtudo, não falta nunca quem se dê a orchestrar a sua voz, por mais vaga, ou dissonante que ella seja.É preciso que o escriptor tenha, mais do que talento, uma sensibilidade propria{66}e escrupulosamente cerrada ao gosto publico, melhor ainda, religiosamente isenta, para que possa afastar, com desprezo, o applauso geral, repulsando, para longe, o titulo de dirigente, ou seja o de encantador das multidões, pelo qual, principalmente, o maior numero dos apostolos se bate.E, em todo o caso, como aquella isenção é rara!Ainda os de melhor fé e que se julgam de posse duma missão necessaria, raro chegam, por si, a conhecer do erro de excesso, em materia de reverencia e culto pelo publico!O que, a miudo, se dá, é a inutilidade da sua faina, e isto pelo mesmo uso daquelle prestigio, ainda sujeito, como tudo, á acção do tempo que sómente, não consome as obras de sentido definitivo.Este foi tambem o caso de Fialho que durante annos destruiu, sem treguas, confundindo,{67}propositadamente, os principios e os homens, batendo, de toda a maneira, um systema que, sobretudo, foi erro não termos reformado dentro das nossas melhores tradições; e que elle, Fialho, como os demais contemporaneos escriptores politicos, reputaram fóra de toda a razão nacional.É claro que deste erro se confessou mais tarde repeso—ou tenha sido quando as suas palavras offereciam menor echo—ao ver que, para os logares mais responsaveis, quando o antigo regime cahiu, o paiz, democratizado á força, não encontrou, de momento, para substituir o corpo official expulso, mais do que gente ousada, que mental e moralmente valia menos do que a anterior, que de si já estava muito abaixo da geração que a havia antecedido, e cuja herança nem sequer soubera defender!{68}É de justiça lembrar que tambem Fialho foi dos primeiros a corrigir os impetos dos pretendentes que, de todos os lados, surgiram com a sua conta de serviços; embora o facto valha unicamente a justificar a sua boa fé.Era tarde. Á sombra das suas paginas, como das de Ramalho, Junqueiro, Eça e Bordallo, por lembrar os maiores, se tinham elles organizado de vez, entretanto que a alvorada do regime abria logicamente por um banquete!Para mais, quasi todos os demolidores, companheiros de Fialho, tinham desapparecido. Ao acaso do tempo ficara, unicamente, Ramalho—velho, surdo a louvores como a insultos, fechado na sua cella de valetudinario, em Lisboa, de facto uma especie de santo de nicho dobairro alto, a quem já, a bem dizer, ninguem recorria, de cujos milagres ninguem mais queria saber...{69}Bordallo morrera, providencialmente, antes do bôdo.Alem de que, quem se atreveria a continuar-lhe a obra? Onde o artista da sua coragem, á altura de um jornal nos moldes doAntonio Maria? Onde o redactor graphico do seu estylo, e, mais ainda, onde as personalidades-motivos a enchê-lo?Como quer que seja, Fialho, leal ao que, de começo, se impuzera, tentou ainda o ultimo esforço, contra o muito do que succedera e lhe repugnava tanto como á consciencia, á sua sensibilidade, acuradissima, de Artista.Era tarde, repetimos. Já ninguem o ouvia, demais que elle proprio tinha perdido o vigor das suas primeiras investidas!E, entretanto, o Artista crescera ainda, depois das novas provações, ou antes tinha-se{70}accrescentado daquella razão de amargura que a vida empresta sempre, cedo ou tarde, aos temperamentos da sua impressionabilidade, e que nelle deu a transfiguração notavel de um ousio artistico sem egual, e de que é, sobretudo, exemplo essa obra trasbordante da sua derradeira colheita—«Barbear e Pentear».Este livro, sublinhado pela explicação amarga—Jornal dum vagabundo, que aliaz emprega noutras obras, attinge, effectivamente, o maximo da sua perfeição exquisita.É ali que verdadeiramente elle trata a mulher-fada, tão de sua predilecção, e de quem se dá a referir atoilete, á luz dos móres recursos, escrevendo da sua razão de vestir, como arte maxima; das joias que{71}redundam do seu imaginar em preciosos esmaltes vivos, especie de insectos inertes, quasi pedras mornas por não arrepiarem a carne-seda das animadas estatuas que são chamadas a guarnecer;—de tudo, emfim, o que do abraço caprichoso da arte e da natureza elle poude aventurar de imprevisto na ideação dum espectaculo para embriagar sensibilidades!E, de facto, chega ás maiores extranhezas de gosto na inventiva daquelle livro, e especialmente no seu capitulo:—Juizo do Anno, quer pelo turbilhão de côr que delle entorna, quer, sobretudo, pelo seu empenho de phantasia enuanceali expressos, como ainda pela circumstancia de considerar a mulher o que, porventura, virá um dia a ser, um caso de perfeição sómente, quando a natureza mais accordada com o homem, sahir de sua attitude esphingica, e isto ainda por{72}viver com elle uma futura vida luxuriosa, sem medos e sem pecados...AsPasquinadase oÁ Esquinasubordinam-se á mesma rubrica:—Jornal dum vagabundo.Nesta ultima obra ha de tudo:—paginas notaveis e criticas de menos folgo.São do melhor interesse as que abrem o livro e titulou:—Autobiographia; e devem ter-se como supremas aquellas em que nos descreve osCeifeiros, como as que referem as suas impressões da Atalaya e Exposição-Bordallo.Tambem este livro inclue umas notas a que deu a epigraphe:—Problema taurino, e que, já agora, glosaremos, embora de fugida.Neste capitulo lança o Escriptor á balha a idéa do toureio a serio nas praças{73}portuguezas, o que vale informar:—a opinião da morte do touro, com os demais episodios sangrentos dos curros hespanhoes.Ora a proposta, se foi sincera, destoa, a nosso ver, da sagacidade do critico, acaso perturbada pela paixão do aficionado e homem do sul, paredes-meias da Hespanha e seus costumes.O portuguez habituou-se facilmente á morte pela associação politica; aceita, como de direito, o assassinato por adulterio, e toda a ordem de morte por um delicto sectarista ou passional; o que elle jámais decretará é a morte por uma razão de Arte, e isto pelo mesmo facto de não comprehender outro sacrificio que não seja para sagrar ou colher interesse.Ora, para elle, o toureio, ainda como exposição de vida e educação de raça, não tem interesse.{74}AsPasquinadasreunem uma serie de artigos de impressão rapida—instantaneos dos acontecimentos e pessoas de occasião.Entretanto, como se tenha dado o caso de ter sido obrigado a tratar de figuras da categoria de Camillo e Sarah Bernhardt, este livro inclue, a seu proposito, paginas que, bem por certo, ficarão ainda como documentos da sua desproporcionada maneira de considerar os grandes artistas!Insurgia-se elle, a espaços, contra as lettras, friamente rigorosas, dos modelos mais classicos e academicos.E, de facto, importava-lhe sahir não só das velhas disposições, como ainda dos recursos em uso, por inteiro alheios ao genio, mais que revolucionario, desmedido, daquelles dois vultos, que, por isso mesmo, tratou, não só fóra de todos os moldes, mas, mais ainda, fóra do tempo.{75}ALisboa Galante, outro livro de voga, comprehende, em geral, episodios e aspectos de cidade, por entre apontamentos de casos minimos, por communs, a todos os logares de accumulação.Entretanto, ainda ahi Fialho incluiu phantasias e situações admiraveis, haja em vista o conto—Amor de velhos; e, sobretudo, aChavena da China, porcellanas da sua maior delicadeza e inventiva.Passaremos á pressa sobre o livro—Saibam quantos...não só porque literariamente o não accrescenta, como pela circumstancia de nelle ter reunido cartas e artigos politicos que valem, meramente, como actos de sua contrição.Archivemos, no emtanto, do capitulo—A morte do Rei, o seu leal proposito de homenagem a D. Carlos, a cujo caracter,{76}por fim, concede as mais complexas facetas, e a impossibilidade de falar destas em paginas resumidas, como as que, de momento, lhe consagra; e, mais ainda, como fecho dellas, o seguinte:—«Pobre D. Carlos! quando se pensa que afinal era mais intelligente e teve talvez virtudes superiores ás dos seus adversarios, e por não dizer ás dos seus cumplices...»Eis, finalmente, palavras suas, ácerca de D. Carlos, alinhadas, talvez, sobre a impressão da morte brutal do rei, á hora, quem sabe? em que o seu cadaver, abandonado de todos, presidente do Conselho incluso, lhe dava a lembrar a calumnia, tanta vez pelo pamphletario, contra elle, escripta, de primeiro responsavel da desordem a que o paiz descera!É que talvez já ao tempo elle bem claramente visse que aquelle que tão violentamente responsabilizara como primeiro{77}culpado do desastre a que a nacionalidade havia chegado, era afinal um rei que consumira um reinado a procurar Alguem, no fundo, bem da alma, elle proprio, com a Rua, que era, de facto, quem mandava, sem que, ao menos, governasse, como ao presente, e que ora o applaudia, mais á rainha, ora o insultava, até que se decretou a montaria com que, por fim, deu fecho á Realeza.Mas, deixemos o rumo de taes considerações que, indevidamente, é de uso considerar politicas, e que, ao acaso, nos occorreram, a proposito dalgumas paginas doSaibam quantos...ultimo passo na vida de Fialho, e ainda á conta da sua velha lida de pamphletario.Finalmente, pois que, por esta obra, chegamos ao termo da sua jornada de agitador,{78}resta-nos, ao presente, e logicamente, insistir no mais da sua melhor canseira—isto a proposito, não só dalguns trechos já marcados, como ainda doutros, onde mais intencionalmente se deu a urdir obra de Arte pela Arte.Assim visto, este será, em nosso entender, o Fialho definitivo, cujo elogio desde já promettemos levar a cabo quasi sem rasuras criticas, ou seja sem restricções, no capitulo a seguir...{79}IVO ARTISTAFIGURAS NOTAVEIS DA SUA GALERIA.INTUITOS E SUPERIORES FATALIDADES DO SEU TEMPERAMENTO.UMA GRANDE E ADMIRAVEL REVOLUÇÃO ESTHETICA.ASUAOBRA.{80}
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Euestive já, por duas vezes, em Villa de Frades, no largo da Misericordia, onde foi aquella «casinha de taipa, construida por pedreiros da gente de Fialho»—como elle nos conta naAutobiographiado seu livro—Á Esquina.
Fui ali quando das minhas jornadas pelo Baixo Alemtejo, em excursão de curioso pelo mais da sua gente e paizagem.
A primeira vez que visitei a residencia de Fialho, que não é já hoje a casita de taipa que os seus construiram, mas uma das melhores da terriola,—foi por uma tarde de agosto, uma daquellas tardes de{10}rescaldo que erguem, á volta de nós, serpentes de fogo, e lhe ensinaram, a elle, a sua pintura deslumbrante, á maneira de Rubens, em que a propria côr queima!
Não foi sem um certo alvoroço, confesso, que bati ao portão da antiga casa do Escriptor.
Veio alguem abri-lo, deixando a descoberto, a meio de uma segunda porta fronteira, um homem alto, vestido de negro, de aspecto recolhido, quasi ecclesiastico, e que, num instante, me encarou e desappareceu, abandonando-me no jardim, ao sol, com o meu remorso de indiscreto.
Desapparecera tambem o creado, ou quem quer que fosse, que me tinha introduzido no pateo.
Esperei instantes, e, como não visse alguem, dirigi-me para a entrada da primeira casa, que logo vi ser a cozinha, encarando, pela segunda vez, aquella mesma{11}figura quasi sombra, que depois soube que era o irmão de Fialho.
Disse alto o que queria:—falar ao dono da casa e pedir-lhe o favor de me deixar ver a antiga residencia do Artista.
Sahiu a attender-me uma mulher nova, figura doente e franzina, que logo se deu a explicar-me que era ella a actual dona da antiga casa do Escriptor, de quem era parenta, vivendo ali com o marido e seu primo, o irmão de Fialho d'Almeida, que, já ao tempo, mais familiarizado comigo, me fitava serenamente.
Dei-me tambem a vê-lo melhor.
Não me lembro da edade que me disse ter; quarenta e sete annos podia talvez apparentar.
—Que era um temperamento impressionavel, a espaços dado a medos e hysterias, sempre melancholico, informou ainda a sua parenta.{12}
Deparou-me, pois, o acaso, nem mais nem menos, do que um novo documento a instruir a historia do genio do Artista, na pessoa do irmão, que me dei a ver como uma figura-symbolo de familia, em que, não sei porque, presenti a elegia viva da Arte mais exquisita e morbida de Fialho, qualquer coisa da neurilidade extravagante dos seus doridos, aquella que animou os seus personagens tão suavemente fataes e androgynos, toda a belleza maravilhosa, e não raro inconsequente, da sua obra de apontamentos, onde tão extranhamente exuberam os noctambulos e toda a sorte de mysteriosos!
Corrêra, de certo, enferma a adolescencia do irmão de Fialho, que viera até ali, aos quarenta e sete annos, ou mais que podia ter, porventura ainda innocente, como por milagre da sua mesma frouxidão de alma, a que, a cada momento,{13}sua prima alludia, ao referir-me, perto delle, as sinistras manhans das suas torturas de neuropatha.
Entretanto que a dona da Casa me convidava a passar á primeira sala, chegou o marido della, tambem primo de Fialho, que, a meu pedido, mandara chamar, e que logo se dispoz a acompanhar-me, apontando-me, por miudo, o mobiliario e antigos aposentos do Artista.
Fôra este seu parente a quem Fialho recorrera, quando, na vespera da morte, veio a Villa de Frades, ordenar os papeis do seu gabinete, como quem se decide a dispor tudo, antes de seguir...
—Quando chegou deu pela falta da chave do escriptorio, me explicou o snr. José Fialho. E apontando uma porta:—tentou ainda abri-lo, quebrando o vidro daquella bandeira; por fim, resolveu-se a chamar-me, e, como é cá da minha arte{14}este serviço, pois sou carpinteiro, immediatamente arranjei tudo; e, elle entrou, demorando-se aqui até á hora da partida.
Insisti na supposição, que mais se radicou em mim, depois da minha derradeira estada no Alemtejo, do provavel suicidio de Fialho, confirmando-me o seu parente que, de facto, se tinha aventurado tal suspeita, logo apoz a sua morte, mas que os medicos que, por ultimo, o haviam soccorrido, tinham negado o facto, e, elle, por si, coisa alguma sabia dizer a tal respeito...
Entretanto, encarou-me mysteriosamente, quando lhe disse que alguem da familia Carapeto, que lhe assistira á morte, na Cuba, tinha como certo o seu envenenamento; que, na vespera, elle tratara do arranjo definitivo de tudo, e nomeadamente do seu testamento, lavrado numa das dependencias da Tabacaria Fonseca, onde costumava passar parte das noites; que{15}soubera, ainda na Cuba, dos seus aborrecimentos de doente, afóra outras razões que a minha admiração tinha reunido para reconstituir o drama duvidoso do seu desenlace.
Mas deixêmos este caso ao tempo, que é quem definitivamente aclara tudo, e voltemos á sua casa de Villa de Frades.
Como acima informei, actualmente pouco deve ella ter da construcção primitivamente gizada pelo pae do Escriptor, antigo mestre regio da freguezia.
É sabido que Fialho casara com uma senhora de fortuna, de quem tambem ficou herdeiro, pelo que tanto aquella Casa, como a de Cuba, sua residencia predilecta, foram por elle reformadas, com todas as melhorias em uso nas boas construcções da região.
Mas não se infira dahi que se trate de{16}edificios luxuosos; são, pelo contrario, casas sem interesse, e, ainda, no ponto de vista artistico, valem tão sómente pelo caracter que lhes advém do facto de obedecerem ao desenho do mais das habitações daquellas paragens,—quasi todas ellas tijoladas, cozinhas brancas de telha van, eirados sobre a planicie, e os jardins tão intimos das casas e pateos, á maneira arabe, como que continuando-se das salas.
Villa de Frades, pequena povoação do concelho da Vidigueira, com um censo de dois mil habitantes proximamente, tem um certo relevo, em contraste com o resto da formidavel planura sul-alemtejana, e, o que é mais, foi uma das poucas terras, se não a unica do districto, que encontrei verde, no agosto em que a visitei. Tudo o mais, ao largo, era desolação e secca.
Fialho d'Almeida. Desenho de Antonio CarneiroFIALHO D'ALMEIDA(Desenho de Antonio Carneiro).
Fialho d'Almeida. Desenho de Antonio Carneiro
FIALHO D'ALMEIDA
(Desenho de Antonio Carneiro).
Para lá da matriz, logo ao sahir do povoado, corriam as obras das escolas que o{17}Escriptor garantira com o seu testamento, e que, confesso, pouco me detiveram, dado o meu aborrecimento por construcções do seu desenho, entre gaiolas e penitenciarias, com destino á futura infancia de Villa de Frades, de mais, ao tempo, sobremaneira antipathicas, como todos os edificios por concluir.
O que devéras me prendeu, foi a chamada antiga Casa da Aula, pela qual perguntei ao primo de Fialho e immediatamente saiu a apontar-me.
É fronteira á Egreja, e um edificio tosco, sobre o comprido, áquelle tempo escrupulosamente caiado, de aspecto simples e o ar abstracto de um templo abandonado.
Era quasi noite. A matriz bateu não sei que horas, com aquella solemnidade triste, que é do dobrar dos sinos de todas as villas...
Dei-me a imaginar a infancia de Fialho,{18}partilhando daquella melancholia, pelas grandes tardes morrinhentas de Villa de Frades, com todo o primeiro mundo da sua inicial e subconsciente comparticipação da Vida...
Ali, de facto, naquella humillissima escola, cursara elle as primeiras lettras, de par das primeiras contrariedades, ao lado do pae, o mestre escola da terra, «aquelle typo de santo austero, n'uma alma de sonhador, sempre calado», explica o Artista, annos depois.
E, em verdade, tanto como a casa onde nasceu, mais ainda, talvez, se me prendeu da alma aquella capellita das suas primeiras canseiras.
Ahi deveria, porventura, estabelecer-se o Museu-Fialho, uma vez que uma dezena de amigos, refiro-me sobretudo aos seus amigos de leitura, se concertasse para juntar em tal logar, com os seus livros, tudo o{19}que pudesse considerar-se como reliquia da sua obra ou memoria.
Da casa de Fialho, em Villa de Frades, hoje quasi vazia do peregrino espirito que a encheu, lembrarei especialmente o quarto do Artista, onde, por acaso, quedam algumas arcas com revistas que excluiu da sua livraria, destinada á Bibliotheca de Lisboa, legando-as a um amigo que ainda as não levantou, e, nas paredes, duas telas da sua auctoria.
Propositadamente trazemos a publico a noticia, que cremos em primeira hora, daquellas telas, ambas más, de figuras religiosas, de tintas empastadas e peior desenho, pelo interesse de documentar o seu esforço de plastico, que o fez pintor, em segredo, a elle, o critico impertinente dos maiores pintores do seu paiz!
Esta, porventura, tambem a nota mais interessante que me foi dado conhecer por{20}informação da Familia-Fialho, e me fez lembrar o caso de Hugo, identicamente desenhista e, mais ainda, entalhador, e cuja obra, no genero, decora, ao presente, a sua antiga residencia, hoje Museu, naPlace des Vosges.
Finalmente, resta-me apontar, o trecho fronteiro á casa, systema absorto de outeiros verde-suaves, que se me depararam conhecidos, como se, de sempre, os houvesse visitado.
E, de facto, era quasi assim. Conhecia-os, havia muito, de algumas das paginas mais luxuriantes do Escriptor, onde elle, o magnifico colorista, a espaços se deu a pintá-los daquella tinta intima que lhe veio, pelo tempo fóra, das suas memorias e impressões de infante.
Despeço-me, á pressa, da sympathica terriola, como quem foge do tumulto de{21}lembranças que me vem da casa, daquelles outeiros, dos primos de Fialho, do Irmão, irreprehensivelmente estatual no seu papel de symbolo rigoroso; e parece-me receber das mãos deste fios da tragedia, ainda viva, das primeiras desfortunas do Artista, as que lhe advieram da quasi miseria da sua segunda infancia, e cuja recordação o obrigava talvez, mais tarde, a fugir dali, (onde viveu sempre o menos tempo) por morphinizar-se do aborrecimento em commum por terras de mais convivio.
A Casa da Cuba, que em geral preferia, quando estava no Alemtejo, é um edificio melhor que o de Villa de Frades, tambem terreo e de compartimentos amplos.
Nesta casa fui encontrar enferma, na mesma alcova em que o Artista agonisara, a sua antiga legataria,—uma senhora de{22}edade da Familia Carapeto, a quem devo o offerecimento dos retratos de Fialho que illustram a presente noticia e alguns dos seus esclarecimentos.
Pouco me detive nesta sua antiga morada, e o tempo que ali quedei foi no terraço, velho miradouro de gosto mourisco, donde se abrange, numa extensão de leguas, o mais das terras seccas que circumdam a Comarca.
Cuba é das povoações mais incaracteristicas e sem interesse que encontrei no Baixo Alemtejo. Lembra, pela monotonia do seu casario reverberante, certas povoações de Hespanha, da Mancha, sobretudo, e que, em vez de quebrarem a aridez das chans, servem como que a memorá-las, tão irmans da estepe parecem crescer da terra.
Avalio, com tristeza, do viver do Escriptor na villa, quando, obrigado pelas mil coisas desagradaveis da sua vida, em{23}que parece não ter figurado pouco a intriga politica da ultima hora,—se recolheu aos seus telheiros.
Fez o acaso que me defrontasse com o proprietario da Tabacaria, em que passava uma parte das noites, a conversar, por distrahir-se e illudir a monotonia que o cercava.
Deu-se-me logo o snr. Fonseca, não afianço o appellido, como tendo sido muito da intimidade de Fialho, propondo-se reproduzir factos e retalhos seus de conversa que, é claro, lhe sahiam pouco authenticos...
—Conheceu-o pessoalmente? me perguntou elle, a meio das suas tiradas.
E, á minha negativa:
—Pois olhe que era melhor ouvi-lo, do que lê-lo!
Os livros valem pouco, accrescentou, em comparação com o que elle aqui nos contava...{24}
E logo continuou a palavrear ácerca do Artista, emquanto eu me explicava a sua vida final, o suicidio provavel, os caixões de revistas que vira em Villa de Frades, e com as quaes elle, por ultimo, quasi obrigado a viver ali, bem por certo, de volta a casa, iria feriar-se daquellas noites mal conversadas com quem, por falta de ouvidos, não podia ouvi-lo,—a elle que fora em Lisboa, o primeiro de um cenáculo de que haviam feito parte, entre outros, artistas como Ramalho e Bordallo, ao lado de curiosos, ás vezes, valha a verdade, bem inferiores ao sympathico negociante, que, ao menos, herdara do seu convivio a devoção supersticiosa da sua memoria!
Como quer que seja, pois que Fialho passou em Cuba os ultimos annos da sua vida, importa-me naturalmente escrever da{25}pequena cabeça da comarca o pouco que della apontei de más lembranças.
Como acima referi, não tem ella, para mim, a bem dizer, outro interesse alem do que lhe advem do facto de ter sido o derradeiro exilio do Escriptor, que se dava a disfarçá-lo, administrando directamente as suas herdades.
Especie de villa improvisada, sem paizagem que pudesse entreter, por momentos, o espirito, aliaz exigentissimo do Artista; sem edificios de valor; com repartições inferiores; avenidas lugubres, no geito da Alameda, sobranceira ao Caminho de ferro, e sombria como uma rua de cemiterio; habitações mesquinhas, servidas de ruas mal calçadas; a Estação, a distancia, quasi que fugida da terra que a fizeram servir—tal é, de facto, Cuba, cujo casario abre sobre a campina formidavel do sul como uma aguarella infima!{26}
E, entretanto, foi ali que Fialho quiz ficar, e mandou que lhe erigissem o mausoleu, que visitei na ultima tarde da minha estada em Cuba, depois de dolorosos transes para arrancar duma adega o chaveiro do Cemiterio.
Ah! como Fialho tinha razão, ao informar-nos no conto—A Ruiva:—«Ha uma coisa peior que um cão damnado: é um coveiro bebado!»
Comtudo, ao lado dum tal coveiro segui eu até ao cemiterio de Cuba, em que, aliaz, coisa alguma de notavel fui encontrar.
Todos os cemiterios, a meu ver, se parecem; o da Cuba vale oPère-Lachaise, como o deMontmartreouMontparnasse, por nomear os trez mais notaveis de França (onde os homens passam por mais reconhecidos)—como os de todas as terras, ainda os das muito civilizadas e extremas.
Imagine-se um cercado alto, com o ar{27}de casa, á qual o vento arrebatasse o telhado, arruamentos de capellas e arcas com lettras de pedra, uma especie de convento de ossos, onde todos os dias ha camas de terra revolvidas e cruzes novas;—a frieza dos brancos e solemnes livros de marmore, das flores, ali casuaes e tranzidas, dos esguios arvoredos, como de todo um pequeno mundo de symbolos;—uma lage-obstaculo em cada campa, e, como a fechar mais os que jazem, gradis, linhas de cimento juntando as cantarias, mais um complicado e diabolico systema de cremalheiras e cadeados!
Eis o cemiterio de Cuba, cujo desenho é, de facto, o de todas as grandes ou pequenas cidades de mortos, dos quaes os vivos se vão desquitando, mais ainda do que cobrindo-os daquelles obstaculos,—quasi esquecendo-os para ali, onde perpetuamente terão de ficar, afastados de tudo,{28}onde jámais chegará o proprio carinho selvagem dos temporaes, sós, entre os silencios negros da sua noite immensa, velados dos elementos, a par das esculpturas somnambulas dos tumulos, tambem de si indifferentes, abstractas, e, como por acaso, ali dispostas, ainda por erguerem (paredes-meias dos cinerarios) o formal e glacido tributo da sua agonia fria e lapidar!
Ora, isto me ia eu recordando, ao seguir, mais o coveiro, pelo cemiterio de Cuba, do mesmo passo que, sem querer, lembrava certas passagens da Obra de Fialho, que, de momento, quasi me falavam, e, eu sentia, como que batidas de vento, ao meu ouvido...
Como no caso das grandes paginas de presagio da sua monographia—Manuel, começára de anoitecer, e os sinos tocavam!
Ainda mais, lembro-me de ouvir, ao{29}longe, nitidamente, distinctamente, representando-se-me como um relampago vermelho á meia treva, o uivar daquelle cão, que, quando, em taes paginas, o Artista se dá a dialogar com o Coveiro a probabilidade de Manuel ser enterrado vivo, como toda a sua afflicção pela farça material dos tumulos—como que o chama á realidade desse mundo que fica para alem do proprio pezadelo hystero-epiletico da sua tortura de superemotivo, e lhe queda, a dobrar, na alma, o timbre vivo e sinistro da hora horrivel que já não conta, e, eu, de momento senti ali, perto delle, bater tragicamente, lugubremente, como um echo do seu sentido, ainda doloroso, embora já distante, vago, erradio...
Porque, para mim, esse typo dehystericoefragmentado,contradictorioeprescienteque figurou noManuel, é fundamentalmente elle proprio, desdobrando-se{30}por escrever a sua mesma «duplicidade cerebral» e gritar contra a desgraça dooutro, «o que morrera», e agora, eu sabia ali, sem que ao menos pudesse precisar onde!
Onde?
Eis o que o coveiro, depois que o instei, se deu a contar-me, moendo as palavras, que, aliaz, lhe sahiam cavas e aos gorgolões, como se me falasse ainda da adega á qual, minutos antes, o fôra arrancar.
Afinal pouco tem que ver a futura Casaforte dos ossos de Fialho,—no começo da primeira rua do cemiterio, e a poucos passos do portão, como do logar em que nos encontravamos.
Imagine-se uma especie de cofre em marmore branco, sem arestas, escrupulosamente polido e goivado á volta, quasi sem ornatos, uma porta grossa cruzada da fecharia,—todo elle de um desenho facil, e, por sobre a cupula, ainda de pedra, dois{31}gatos de bronze, dormindo abraçados o velho somno dos symbolos! Eis tudo...
Este, repetimos, o mausoleu que lhe servirá em breve.
Porque provisoriamente, e a avaliar das informações que apontei, o Escriptor, descança ainda, de momento, ao fim do cemiterio, perto da ultima parede, num pedaço de chão mal tijolado e de emprestimo, em sepultura rasa...{32}{33}
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Nãoé facil escrever de momento, e directamente, ácerca dum artista como Fialho, tal o occultismo das suas predilecções, como, mais propriamente, da obra que deixou, e tomaremos ainda como indice da sua singularissima neurilidade.
Assim, começaremos por esclarecer que Fialho d'Almeida era filho de um homem da Beira e de uma mulher do Alemtejo, por melhor caracterizar algumas das suas extranhezas e contrastes, como o seu conflicto em materia de assumptos e realizações artisticas, que, antes de tudo, parecia advir-lhe do ser encontro de duas raças.
Da mesma maneira que cumpre ter presente{36}a influencia da provincia em que nasceu, e que, na infancia, a edade impressionavel por excellencia, lhe deu aquelle amor pela tinta mais propria, ou seja a que os seus olhos receberam directamente da paizagem; como a sua grande intimidade com a natureza, com quem aprendeu a exprimir-se, e que tão fundamente foi penetrada pelo seu genio.
De facto, nenhum elemento mais cioso da transmissão do caracter do que a terra. O que Fialho prova, á saciedade, a par dos nossos maiores impressionistas.
Desenvolvemos noutro logar[1]a indole da zona mais meridional do Alemtejo, onde se incluem Cuba e a pequena villa em que nasceu Fialho.
Resulta daquelle estudo um campo ethnico á parte na geographia intima de{37}Portugal região embaraçada da herança arabe, que semelhantemente se vê na cultura, nos seus barros e azulejos, nas suas casas, como nas manifestações mais simples da vida vulgar dos seus habitantes.
Ora Fialho, que ali passou parte da infancia jámais destruirá a recordação do primeiro espectaculo natural que feriu a sua retina de colorista, e, depois, pela vida fóra, mais se lhe foi insinuando pela mesma fatalidade de sangue e nascimento que á sua terra o prendia. É isto, apesar da herança de tristeza que tambem desta lhe provinha, e a que se refere, ainda doridamente, annos depois da sua estada ali, no capitulo autobiographico doÁ Esquina.
De facto, é sempre presente, na sua obra, aquelle primeiro campo de observações. Ahi ha a ver a intriga das passagens mais violentas das suas narrativas, as tintas das suas combinações de painelista, os{38}dialogos e personagens brutaes da sua tragedia mais popular; e, para alem, ainda, da paizagem, como das figuras, a razão culminante do seu genio de origem, em que migra o sonho luxurioso, mais que dum artista e dum povo,—duma civilização perdida!
Importa insistir: a herança arabe se não vingou entre nós, como em Hespanha, a ponto de que, ainda hoje, quasi tudo o que tem de grande se não foi della, nella se filia—nem por isso deixou de influir no genio de Portugal, onde logrou a sua invasão pelo Sul, e, onde, repetimos, se conserva evidente.
É ali viva, manifesta em todas as coisas, e, sobretudo, nos homens, a quem as mesmas condições da terra naturalmente defenderam das fusões com outras raças.
Ora, assentes estes factos, e tendo presente os ensinamentos que do seu conhecimento{39}derivam, chegamos logicamente a entender melhor o caso, na apparencia extranho, das manifestações, por vezes distantes e tão intensivamente artisticas do Sul, e mais, em especial, de certos capitulos da obra de Fialho d'Almeida.
Em verdade, eu não encontro para explicar-me o exuberante exquisito de algumas paginas do Artista, mais do que o segredo das colorações, como dos labyrinthicos e caprichosos desenhos de certos e admiraveis exemplares da civilização arabe na Peninsula, dentre os quaes me veem á lembrança, quasi sem o querer, os velhos monumentos da Andaluzia, tambem, porventura, da melhor intimidade de Fialho, e que o deviam ser de todos os artistas, muito particularmente dos de Portugal e Hespanha.
E, de facto, qual o artista, verdadeiramente curioso de civilizações mortas,{40}que não percorreu ainda Alhambra,—a Alhambra monumental dos grandes Paços de Luz, redosos e filigranados, cujos marchetes e esmaltes se nos defrontam, mais do que como obra paciente e custosissima, quasi dolorosos á nossa admiração, pela mesma regularidade do seu maravilhoso, tão distantemente extranho!
Pois paga a pena a sua visita, sobretudo á luz de certas horas, quando, pelo estio, a tarde transfigura os monumentos, quasi os move!—e Alhambra inteira exulta á claridade frouxa dos seus crepusculos.
Como, de egual sorte, surprehende o desenho interior dos phantasticos paços, ainda pelo que abrigam de inaudito, no espectaculo das suas casas-retabulos, aliaz tão intimamente caprichosas, como se fossem ampliações das covas naturaes que, no Monte Sacro, lhes são fronteiras.{41}
É que ninguem como o povo arabe teve o segredo dos recantos, soube estudar e praticar as sombras, quasi medir a penumbra das arcarias; da mesma forma que tambem ninguem mais, como elle, conseguiu dominar pontos de vista, aperceber horizontes, toda a natureza, moldurá-la dos seus monumentos, por vezes verdadeiros filtros de luz,—viver, sentir a côr, e, o que é mais, orchestrá-la na sua obra, de uma fina grandeza sem egual.
Dahi tambem o não se saber que mais admirar dos encantados paços, bem de molde a servirem a luxuria religiosa de tão lendario povo, se o labyrinthico desenho das suas paredes, como dos seus tectos e azulejos, se o mesmo diabolismo e imaginativa do seu alçado!
Ora, derivando dos monumentos attribuidos ao genio arabe, á razão de sangue{42}que flue na gente do sul da Peninsula, chegamos facilmente á averiguação do grande valor da tutela semita no nosso movimento tradicional, mercê daquella herança—tutela sobremaneira documentada, no mais do nosso lyrismo, como, em regra, em toda a nossa obra artistica.
E, assim, nos encontramos, muito naturalmente com o caso de Fialho d'Almeida.
De facto, dentre os grandes plasticos da Peninsula, quem mais que o grande Artista conseguiu ainda praticar um semelhante ou equivalente embrenhado de esmaltes e de linhas, o segredo da luz e da côr, identica riqueza no processo de exprimir Arte, toda aquella ancia de vida luxuriosa que ergue o mais da obra arabe, e, em que domina sempre, ao lado do culto do individuo, considerado na sua religiosidade como no seu luxo,—a preoccupação alacre do supremo culto da Natureza!{43}
E, entretanto, não foi, ainda, sob um tal ponto de vista que principalmente nos demos a estuda-lo.
A verdade é que fiamos pouco do rigorismo dos methodos geralmente considerados como mais logicos, por mais naturalistas, os que tudo explicam pela razão exclusiva da procedencia e do meio—quando se trata de comprehender emotivos da estatura de Fialho, cuja obra precisa, a nosso entender, principalmente ser considerada sem opinião previa, ou seja a toda a luz dos seus livros, e onde ha, a par das admiraveis fatalidades das suas taras de artista do Sul, o conhecimento, os commentarios, como a presença ou suggestões de tudo o que nesse rodopio de Arte, que foi a segunda metade do outro seculo, podia considerar-se de mais interessante ou notavel.
Mas caminhemos vagarosamente. Em{44}primeiro logar, convem ter presente que ha nos recursos de Fialho d'Almeida um grande numero de facetas e a tal ponto imprevistas e admiraveis, que, a elle proprio, o offuscaram, perturbando-o, e impedindo até que realizasse o que para todo o auctor deve ser o primeiro fim—a obra de conjuncto, que, exactamente, resulta do ajustamento ou systematização de todo o seu trabalho, de molde a levantar a figura do Artista se elle é um temperamento, ou o objectivo da sua Arte, quando elle tenha de desapparecer, em sacrificio á sua mais propria missão.
O tempo é ainda um material ao dispor dos artistas, embora, quanto a nós, o peior dos materiaes.
Fialho devotou-se-lhe, talvez, excessivamente. Pois que tinha auscultado a miseria do povo, no seu instincto, por desventura apurado nos primeiros annos da sua vida{45}de acaso, não raro deixou falar o coração, para alem da sua mesma canseira de Artista.
Quantas vezes elle, que foi um espirito alto e pairante, se deu a desmedir o grito dos que a propria miseria, confinada da cobardia congenita das desgraças populares, havia tornado quasi aphonos, e que ainda, por uma razão de indole, eternizou vivo e plebeu,—tal como lhe sahiu, ao primeiro golpe, nas paginas formidaveis dosGatos!
Foi isto um delicto de Arte, seria um bem?
Foi um facto. E este facto vale o melhor da sua obra de pamphletario que, antes de qualquer outra, convem ter presente.
Ora, neste rumo de trabalhos, seguiu elle, naturalmente, o exemplo de todos os pamphletarios;—isto é, deu-se a compor paginas do material commum, o que vale{46}dizer de aspirações e casos, não raro menos claros de que vulgares!
Dahi partiu, e logicamente foi até ao fim: a servir a propria plebe politica—a peior das plebes!
Houve tempo em que não socegou. Numa canseira pertinaz, diaria, quasi tomou por seu dever perseguir a vida constituida, onde quer que ella surgisse ou se se lhe afigurasse.
Ora, este foi, tambem, porventura, o seu mal, assente como está que, em materia de vida conjuncta, peior do que qualquer instituição crapulosa ou gasta, é a sua substituição á doida, á sorte, como infelizmente, entre nós, elle a ajudou a preparar!
Acabo de percorrer osGatos, onde reuniu o melhor da sua Arte de pamphletario.{47}
Do primeiro ao ultimo opusculo, que serie de estudos, de commentarios, de almas e acontecimentos tratados pelo seu riso!
Tudo o que elle tinha de imprevisto, como tudo o que da inferioridade de uns poude reunir e editar para servir a inferioridade dos outros, está ali, nos seis volumes que hoje formam a Obra, e ficará como documento dos seus violentos e extremadissimos recursos.
Pois que foi a civilização quem categorisou o riso, transfundindo-o, filtrando-o até á ironia, uma das grandes forças da demolição moderna,—importa ainda considerar o riso de Fialho.
A ironia de Fialho, se assim podemos escrever daquella sua indole—era ainda, como não podia deixar de ser, um caso mais do seu temperamento de violento, aggravado do tempo e meio em que, por acaso, reagiu.{48}
Assim, nada tem de commum, por exemplo, com Eça e Camillo, por falar dos humoristas mais discutidos da lida contemporanea.
Camillo era a graça a flux, com os seus laivos de razão intima, muito para alem dos castellos politico-litterarios de momento, golfando risos ao acaso da sua natural interpretação sinistra de Humanidade.
Eça deu-se scepticamente a lapidar costumes e figuras infimas, no geral de uma banalidade exhaustiva, á conta do prazer do seu riso frio, que logo se fez moda, como tudo o que nos vinha de fóra, por seu intermedio.
É ver o successo dasCartas de Fradique Mendes, «um Acacio a serio», informa Fialho, e cuja prosa relata o apontoado symetrico das notas dum civilizado, ali paciente e cuidadosamente estylizadas pelo seu sentido de mundano.{49}
Fotografia de Fialho d'Almeida.FIALHO D'ALMEIDA
Fotografia de Fialho d'Almeida.
FIALHO D'ALMEIDA
Ora, nada de premeditado encontramos em Fialho, e nomeadamente nas notações dos Gatos, por cujo entrecho natural é que comecemos o exame á sua obra.
A razão desta preferencia incide, é claro, na mesma indole dos folhetos que reuniu debaixo daquelle titulo, e, onde, de facto, encontramos, a despeito dos seus propositos, o Fialho definitivo, quer sob o ponto de vista do estylo e inauditismo de Arte, quer ainda pela acção demolidora que tanto foi de seu empenho e naquella obra rajou desesperadamente, a paginas plenas, como em nenhum outro dos seus trabalhos.{50}
[1]Terras do Sul.
[1]Terras do Sul.
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AbreosGatoso aviso-cartaz de que o auctor se propõe tratar criticamente os homens e os acontecimentos, explicando, humoristicamente, o nome da publicação.
O primeiro folheto da serie tem a data de Agosto de 1889, e inaugura por um capitulo, pleno de paixão artistica, com seus esmaltes de irreverencia, e a que elle chamou:—Bric-á-bracomania, como cultura e como doença.
No desenvolvimento da curiosa these encontra-se naturalmente com o caso do testamento de D. Fernando. Este caso foi um dos mais antipathicos e escandalosos do tempo, pois que accendeu nos Paços,{54}com o odio da rainha pela condessa d'Edla, uma questão de familia burgueza, em que se discutiu tudo, desde a imaginada loucura lucida do principe, ao tempo das suas ultimas disposições, até ao valor e direito dosbibelotse quadros do seu espolio!
Veio a questão para a rua, e, ainda dessa vez, rua e Paço se deram as mãos, na roda de insultos dirigidos á viuva de D. Fernando, sem attenção pela memoria deste principe, cuja probidade foi tratada sem sombra, não diremos já de justiça, mas de delicadeza.
Em nome dos republicanos dirigia, noSeculo, a campanha Rodrigues de Freitas, valha a verdade, serenamente. Por parte do Paço, e vestindo, mais uma vez, a innocente pelle do povo—. escrevia Emygdio Navarro, tratando cynicamente D. Fernando, em quem diagnosticara dois scirrhos—o da cara, que o levara á morte, e o do coração,{55}que elle, Emygdio Navarro, se propunha sarjar publicamente, fazendo-lhe a historia na praça dasNovidades, e isto, affirmava, por dignificar a memoria do Rei!
Fialho que, de facto, era um delicado, e, por accidente, se fizera politico, e, bem por certo, lhe repugnava toda aquella griteira, tratou tambem do caso moderadamente, chegando a lembrar até a arbitragem para resolver os direitos do espolio controvertido.
Ainda, por egual forma, trata a figura de D. Fernando, cujo perfil surprehende, sobretudo, á luz da sua aventura de amoroso e homem de Arte.
Assim visto, não podia elle deixar de lhe ser sympathico, e dahi tambem o seu elogio, mal disfarçado, como as attitudes em que o focou, e donde mal sobresahe o vulto, ao tempo tão acintosamente discutido, do Rei!{56}
Quer dizer, em verdade, é ali presente a homenagem do Artista ao Artista, para lá de todo o convencionalismo critico, como de toda a exigencia publica.
Começa o segundo opusculo por um capitulo dedicado ao violoncellista Sergio, e que, neste proposito a que nos obrigamos, de mero indiciador das suas passagens de mais interesse e que melhor o mostram—mal podemos tratar condignamente.
Registe-se, no entretanto, o extremado capitulo, como um dos mais notaveis da sua obra, e, alem de tudo, a forma como elle, sempre tão presente nos seus livros, sabia, embora excepcionalmente, apagar-se, quando as circumstancias lhe conferiam Arte que um tal sacrificio valesse.
É o caso do violoncellista. Para no-lo descrever, Fialho quasi se apaga no café-concerto{57}da Mouraria, em que o apresenta, e, onde, de facto, elle costumava ir, ás noites, transfigurando-o da sua Arte, cuja referencia é, ainda, como que a sombra resoante da alma tão extranhamente regressiva do Musico.
Paginas adiante, é tambem com paixão e valor equivalentes que, a proposito das exequias de D. Luiz, trata a figura da Rainha.
D. Maria Pia resalta do seu exame como uma resurreição dos grandes dramas reaes de Shakespeare, ou seja como um verdadeiro prodigio de alma, genialmente estatuada da sua tristeza de soberana-viuva, equilibrando-se no orgulho profissional da sua creação de princeza de raça, acaso abordada ás praias portuguezas.
Inegualavelmente soberba, de facto, a{58}sua maneira de tratar a lendaria Rainha que surprehende nos funeraes do Rei como um alabastro solemne!
Assim a tinha sonhado, tanto como o Paço, a propria Rua que, entretanto, lhe perdoava tudo, ainda os mais custosos dispendios, tomando-a, mais do que como Rainha—como uma figura de luxo, especie de marmore vivo, por boa fatalidade, a soldo no Museu Real das Necessidades.
Tambem, por seu lado, ella cumpria escrupulosamente o papel a que, por sua mesma prosapia, se compromettera (fôra cheia de protocolo a sua escriptura de esponsaes)—e dahi o vê-la toda a gente mais do que cerimoniosa, theatral, quasi memoria, seguindo sempre, de par da sua lenda, de que ninguem, nem ainda os mais ousados, tentaram algum dia separá-la!
Quando endoideceu (a natureza é logica; que outra doença devia segui-la?){59}logo os jornaes vieram contar as parabolas da sua loucura, nos Paços de Cintra; corriam historias detoilettesque jámais usara; e, por fim, enterneceu a sua retirada de Portugal, quando, na Ericeira partiu, tão magestosa e alheadamente, como annos antes, tinha chegado...
A differença dos dois espectaculos, estava, unicamente, no tempo, que daquelle passo final da sua vida tinha urdido mais uma tragedia!
Chegara solemnissima, recebida por toda a ordem de festas e alegrias officiaes; retirou, á opportunidade da primeira revolução, como uma rainha usada, que já não serve, e segue, á pressa, devolvida, ao paiz de origem.
Despedimo-nos com pezar destas paginas, que tão fundamente, por si, bastariam{60}a vincar a alma do Artista, acaso nellas mal casada á sua preoccupação de pamphletario,—para derivar a outras que, na sua obra, dão o contraste da violencia, talvez, mais inopportuna e abrupta, que ainda instigou critica portugueza!
Reportamo-nos ao caso grosseiro das suas diatribes contra Guilherme de Azevedo que justiçou depois de morto, e declara analysar sobre uma pedra de autopsia, ainda sem piedade por si, como pelos leitores, e quando aquelle, já longe, havia ganho, ha muito, o esquecimento publico!
Na sua quasi diabolica sanha de deprimir vê-o primeiramente no seu logar de escrivão de fazenda em Santarem, onde o surprehende a passear os seus aleijões, de par das suas canseiras de lyrico e apaixonado ridiculo.
Depois examina-lhe, publicamente, os defeitos, as suas fraquezas e purgueiras de{61}estrumoso, como a sua obra, na parte mais rebuscada, indo até pracear-lhe os papeis unhados pela lida do chronista!
Por fim, como que convida o publico a assistir-lhe á morte, em Pariz, numa casa de saude!
E, para o caso de que o publico falte, redige elle mesmo a informação da agonia do Artista, passada, esclarece, entre sujidades!
Ora eu não sei de outra hora tão extranhamente infeliz para um escriptor!
Do mais dos artistas contemporaneos, e, especialmente, dos pintores, é sabido o que escreveu de desalentador para elles que já, contra si, tinham tudo:—a rua, o mundo politico, o meio pobre em que trabalhavam, o paiz de origem, e toda a serie{62}de prejuizos que, para mais, Fialho conhecia intimamente como ninguem!
Comtudo, nem Columbano escapou a esta sua impertinencia, por vezes de uma irritação doente, quasi atrabiliaria e descomposta, á conta da sua faina de exigir do mundo plastico, mais do que representações da natureza, verdadeiras telas vivas, porventura, a capricho, illuminadas das suas mesmas composições escriptas.
Dahi a sua injustiça para com o grande pintor que, no seu juizo facil da primeira hora, qualificou de mero artista hesitante, como que estagnado, «perdido, na monotonia cadaverica dos seus quadros de imitação!»
E, de identica maneira, tratava os outros.
Não lhe era facil fugir á fatalidade do seu genio, sempre em duvida, e que mascarava{63}de desdens; para mais acossado pela circumstancia de viver, o mais do tempo, em Lisboa, onde os Artistas teemateliersparedes-meias, e a Arte anda sempre ao de cima das sympathias duma tal Cidade, ainda, como nenhuma outra, de entre as nossas, aberta a intimidades, mettediça, e pretenciosamente futil!
Dahi tambem a sua maneira, quasi mesquinha, de tratar a Politica e, em especial, os politicos.
A Carlos Lobo d'Avila, por exemplo, processa-o como degenerado.
Lopo Vaz é, para elle, um mero «preboste regio». A Barjona toma-o como um conselheiro de negocios, anecdotico e sujo. Hintze é uma especie de empresario de Portugal—feitoria-ingleza, figura dependente e quasi irresponsavel ás ordens da dynastia, e assim os outros.
A paixão do pamphletario céga-o a{64}qualquer vislumbre de justiça para com politicos e assim tambem para com o Rei, que, ainda á maneira popular, considerava como figura enkystada no corpo governativo da Nacionalidade.
Dahi tambem o atacá-lo systematicamente, afeiando-o de todos os delictos, em que não deixou de figurar a pecha das mais ruins ingratidões, as já classicas ingratidões dos reis!
Quer dizer, consciente ou inconscientemente, foi, como todos os pamphletarios, um Orpheu da Rua, pelo menos até se sentir sacudido por ella.
E fossem lá insinuar ao seu aferro pelas chamadas reivindicações democraticas, que atraz da ingratidão dos reis, está sempre a ingratidão dos povos; que a França, por exemplo, politicamente radical, no curso de dezenas de annos, conserva noPère Lachaisea ossada de Balzac, ao passo que{65}carreou, ha muito, para o Pantheon Carnot e outros menores!
De que lhe serviria, de momento, o aviso? O que sempre enche a obra do pamphletario é a philosophia facil do odio ao Constituido, onde quer que elle se encontre. Emquanto ha reis, a culpa de tudo o que existe de mau, ou por tal passa, é dos reis; como é dos padres emquanto ha padres; dos validos emquanto ha validos; em ultimo logar, dos parlamentos; de tudo, emfim, o que o povo, em nome dos seus direitos, nunca até hoje definidos, organiza e desorganiza, menos a seu talante, do que ao acaso de uma esperança ou das gerações por apparecer!
E, comtudo, não falta nunca quem se dê a orchestrar a sua voz, por mais vaga, ou dissonante que ella seja.
É preciso que o escriptor tenha, mais do que talento, uma sensibilidade propria{66}e escrupulosamente cerrada ao gosto publico, melhor ainda, religiosamente isenta, para que possa afastar, com desprezo, o applauso geral, repulsando, para longe, o titulo de dirigente, ou seja o de encantador das multidões, pelo qual, principalmente, o maior numero dos apostolos se bate.
E, em todo o caso, como aquella isenção é rara!
Ainda os de melhor fé e que se julgam de posse duma missão necessaria, raro chegam, por si, a conhecer do erro de excesso, em materia de reverencia e culto pelo publico!
O que, a miudo, se dá, é a inutilidade da sua faina, e isto pelo mesmo uso daquelle prestigio, ainda sujeito, como tudo, á acção do tempo que sómente, não consome as obras de sentido definitivo.
Este foi tambem o caso de Fialho que durante annos destruiu, sem treguas, confundindo,{67}propositadamente, os principios e os homens, batendo, de toda a maneira, um systema que, sobretudo, foi erro não termos reformado dentro das nossas melhores tradições; e que elle, Fialho, como os demais contemporaneos escriptores politicos, reputaram fóra de toda a razão nacional.
É claro que deste erro se confessou mais tarde repeso—ou tenha sido quando as suas palavras offereciam menor echo—ao ver que, para os logares mais responsaveis, quando o antigo regime cahiu, o paiz, democratizado á força, não encontrou, de momento, para substituir o corpo official expulso, mais do que gente ousada, que mental e moralmente valia menos do que a anterior, que de si já estava muito abaixo da geração que a havia antecedido, e cuja herança nem sequer soubera defender!{68}
É de justiça lembrar que tambem Fialho foi dos primeiros a corrigir os impetos dos pretendentes que, de todos os lados, surgiram com a sua conta de serviços; embora o facto valha unicamente a justificar a sua boa fé.
Era tarde. Á sombra das suas paginas, como das de Ramalho, Junqueiro, Eça e Bordallo, por lembrar os maiores, se tinham elles organizado de vez, entretanto que a alvorada do regime abria logicamente por um banquete!
Para mais, quasi todos os demolidores, companheiros de Fialho, tinham desapparecido. Ao acaso do tempo ficara, unicamente, Ramalho—velho, surdo a louvores como a insultos, fechado na sua cella de valetudinario, em Lisboa, de facto uma especie de santo de nicho dobairro alto, a quem já, a bem dizer, ninguem recorria, de cujos milagres ninguem mais queria saber...{69}
Bordallo morrera, providencialmente, antes do bôdo.
Alem de que, quem se atreveria a continuar-lhe a obra? Onde o artista da sua coragem, á altura de um jornal nos moldes doAntonio Maria? Onde o redactor graphico do seu estylo, e, mais ainda, onde as personalidades-motivos a enchê-lo?
Como quer que seja, Fialho, leal ao que, de começo, se impuzera, tentou ainda o ultimo esforço, contra o muito do que succedera e lhe repugnava tanto como á consciencia, á sua sensibilidade, acuradissima, de Artista.
Era tarde, repetimos. Já ninguem o ouvia, demais que elle proprio tinha perdido o vigor das suas primeiras investidas!
E, entretanto, o Artista crescera ainda, depois das novas provações, ou antes tinha-se{70}accrescentado daquella razão de amargura que a vida empresta sempre, cedo ou tarde, aos temperamentos da sua impressionabilidade, e que nelle deu a transfiguração notavel de um ousio artistico sem egual, e de que é, sobretudo, exemplo essa obra trasbordante da sua derradeira colheita—«Barbear e Pentear».
Este livro, sublinhado pela explicação amarga—Jornal dum vagabundo, que aliaz emprega noutras obras, attinge, effectivamente, o maximo da sua perfeição exquisita.
É ali que verdadeiramente elle trata a mulher-fada, tão de sua predilecção, e de quem se dá a referir atoilete, á luz dos móres recursos, escrevendo da sua razão de vestir, como arte maxima; das joias que{71}redundam do seu imaginar em preciosos esmaltes vivos, especie de insectos inertes, quasi pedras mornas por não arrepiarem a carne-seda das animadas estatuas que são chamadas a guarnecer;—de tudo, emfim, o que do abraço caprichoso da arte e da natureza elle poude aventurar de imprevisto na ideação dum espectaculo para embriagar sensibilidades!
E, de facto, chega ás maiores extranhezas de gosto na inventiva daquelle livro, e especialmente no seu capitulo:—Juizo do Anno, quer pelo turbilhão de côr que delle entorna, quer, sobretudo, pelo seu empenho de phantasia enuanceali expressos, como ainda pela circumstancia de considerar a mulher o que, porventura, virá um dia a ser, um caso de perfeição sómente, quando a natureza mais accordada com o homem, sahir de sua attitude esphingica, e isto ainda por{72}viver com elle uma futura vida luxuriosa, sem medos e sem pecados...
AsPasquinadase oÁ Esquinasubordinam-se á mesma rubrica:—Jornal dum vagabundo.
Nesta ultima obra ha de tudo:—paginas notaveis e criticas de menos folgo.
São do melhor interesse as que abrem o livro e titulou:—Autobiographia; e devem ter-se como supremas aquellas em que nos descreve osCeifeiros, como as que referem as suas impressões da Atalaya e Exposição-Bordallo.
Tambem este livro inclue umas notas a que deu a epigraphe:—Problema taurino, e que, já agora, glosaremos, embora de fugida.
Neste capitulo lança o Escriptor á balha a idéa do toureio a serio nas praças{73}portuguezas, o que vale informar:—a opinião da morte do touro, com os demais episodios sangrentos dos curros hespanhoes.
Ora a proposta, se foi sincera, destoa, a nosso ver, da sagacidade do critico, acaso perturbada pela paixão do aficionado e homem do sul, paredes-meias da Hespanha e seus costumes.
O portuguez habituou-se facilmente á morte pela associação politica; aceita, como de direito, o assassinato por adulterio, e toda a ordem de morte por um delicto sectarista ou passional; o que elle jámais decretará é a morte por uma razão de Arte, e isto pelo mesmo facto de não comprehender outro sacrificio que não seja para sagrar ou colher interesse.
Ora, para elle, o toureio, ainda como exposição de vida e educação de raça, não tem interesse.{74}
AsPasquinadasreunem uma serie de artigos de impressão rapida—instantaneos dos acontecimentos e pessoas de occasião.
Entretanto, como se tenha dado o caso de ter sido obrigado a tratar de figuras da categoria de Camillo e Sarah Bernhardt, este livro inclue, a seu proposito, paginas que, bem por certo, ficarão ainda como documentos da sua desproporcionada maneira de considerar os grandes artistas!
Insurgia-se elle, a espaços, contra as lettras, friamente rigorosas, dos modelos mais classicos e academicos.
E, de facto, importava-lhe sahir não só das velhas disposições, como ainda dos recursos em uso, por inteiro alheios ao genio, mais que revolucionario, desmedido, daquelles dois vultos, que, por isso mesmo, tratou, não só fóra de todos os moldes, mas, mais ainda, fóra do tempo.{75}
ALisboa Galante, outro livro de voga, comprehende, em geral, episodios e aspectos de cidade, por entre apontamentos de casos minimos, por communs, a todos os logares de accumulação.
Entretanto, ainda ahi Fialho incluiu phantasias e situações admiraveis, haja em vista o conto—Amor de velhos; e, sobretudo, aChavena da China, porcellanas da sua maior delicadeza e inventiva.
Passaremos á pressa sobre o livro—Saibam quantos...não só porque literariamente o não accrescenta, como pela circumstancia de nelle ter reunido cartas e artigos politicos que valem, meramente, como actos de sua contrição.
Archivemos, no emtanto, do capitulo—A morte do Rei, o seu leal proposito de homenagem a D. Carlos, a cujo caracter,{76}por fim, concede as mais complexas facetas, e a impossibilidade de falar destas em paginas resumidas, como as que, de momento, lhe consagra; e, mais ainda, como fecho dellas, o seguinte:—«Pobre D. Carlos! quando se pensa que afinal era mais intelligente e teve talvez virtudes superiores ás dos seus adversarios, e por não dizer ás dos seus cumplices...»
Eis, finalmente, palavras suas, ácerca de D. Carlos, alinhadas, talvez, sobre a impressão da morte brutal do rei, á hora, quem sabe? em que o seu cadaver, abandonado de todos, presidente do Conselho incluso, lhe dava a lembrar a calumnia, tanta vez pelo pamphletario, contra elle, escripta, de primeiro responsavel da desordem a que o paiz descera!
É que talvez já ao tempo elle bem claramente visse que aquelle que tão violentamente responsabilizara como primeiro{77}culpado do desastre a que a nacionalidade havia chegado, era afinal um rei que consumira um reinado a procurar Alguem, no fundo, bem da alma, elle proprio, com a Rua, que era, de facto, quem mandava, sem que, ao menos, governasse, como ao presente, e que ora o applaudia, mais á rainha, ora o insultava, até que se decretou a montaria com que, por fim, deu fecho á Realeza.
Mas, deixemos o rumo de taes considerações que, indevidamente, é de uso considerar politicas, e que, ao acaso, nos occorreram, a proposito dalgumas paginas doSaibam quantos...ultimo passo na vida de Fialho, e ainda á conta da sua velha lida de pamphletario.
Finalmente, pois que, por esta obra, chegamos ao termo da sua jornada de agitador,{78}resta-nos, ao presente, e logicamente, insistir no mais da sua melhor canseira—isto a proposito, não só dalguns trechos já marcados, como ainda doutros, onde mais intencionalmente se deu a urdir obra de Arte pela Arte.
Assim visto, este será, em nosso entender, o Fialho definitivo, cujo elogio desde já promettemos levar a cabo quasi sem rasuras criticas, ou seja sem restricções, no capitulo a seguir...{79}
FIGURAS NOTAVEIS DA SUA GALERIA.INTUITOS E SUPERIORES FATALIDADES DO SEU TEMPERAMENTO.UMA GRANDE E ADMIRAVEL REVOLUÇÃO ESTHETICA.ASUAOBRA.
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