TIBIDABO

TIBIDABOAO SR.BARÃO DES. PEDRO.{154}{155}TIBIDABONa tarde de agosto quente, fugira de Barcelona para a escalvada montanha que a fanfarronada hespanhola bátisou de Tibidabo, o sitio da Judeia onde Satan prometeu a Christo as grandezas do Mundo e os fulgores do Peccado.O monte levanta-se, precipitadamente, do fundo da planicie em que Barcelona ondeia. E querem dizer talvez na sua os catalães, que Satanaz ergue as creaturas que quer tentar e, firmando-as nos cimos d'este monte, oferece-lhes a cidade, imagem brilhante dos esplendores mundanos.Sob o toldo do restaurante deserto me acolhi, a sentir a brisa preguiçosa. Espalmava-se em baixo a cidade. Corriam as suas avenidas arborisadas, as «Ramblas» que se seguem como uma bicha, e a «Gran-Via», a infindavel «Cortes», que corta Barcelona em diagonal. Quedava-se o Parque enorme e, ao fundo, n'um vago de nevoeiro,{156}o mar azul, riscado pela linha cinzenta da doca, onde os navios acolhidos eram imoveis.Vinha caindo a tarde sobre as raras torres das egrejas. Brilhavam um a um os bicos de gaz e as janellas em que o poente puzera uma luz de oiro.Longo tempo ali estive. Sonhei? Foi real? Não sei.Um mancebo pallido e triste abeirou-se de mim:—Vês a noite a cair? D'aqui a pouco as ruas vão brilhar do fremito luminoso dos desejos das multidões. A cubiça e a luxuria porão brazas nas almas que incendiarão os olhos. As mulheres mostrarão nos bailes e nos theatros o maculado esplendor dos seios perfumados. Nos mostradores das lojas, á luz das lampadas electricas, as joias farão percorrer nas mãos desejos de roubo. A Besta ergue-se—olha como se ilumina a cidade! Vês um clarão que nasce, sobe e se perde no Ceu? Julgas que é dos candieiros? Não, é das almas! é toda debruada de vermelho como as chamas dos incendios. Como é bella a cidade quando é culpada!Voltei-me para o mancebo, tranquilamente. Vi que era o Diabo. Não que tivesse chifres ou cheirasse a enxofre, mas pela belleza triste, de quem conhece tudo. Não lhe tive horror. O Diabo{157}é o gnomo subtil que trabalha na sombra as filagranas das tentações. É o Diabo que amontôa as cidades, inspira os artistas, empurra o homem para as civilisações que apodrecem e brilham.Não lhe respondi... N'um fogacho violaceo, o sol apagára-se no mar. Era tudo cinzento. Pelos canaes das ruas, por entre as arvores, n'uma sombra mais densa, cintillavam os bicos e os mostradores das lojas.O Diabo continuou:—Quero a tua alma...Olhei-o atonito. Para quê a minha Alma? O grande colecionador tinha um museu estranho em que brilhavam todas as taras possiveis. Assassinos vulgares, ladrões de taberna, mães que vendem as filhas, incestuosos, ganindo de luxuria, velhos abades macerados e corroidos pelas disciplinas, que as ilusões vãs de Satanaz venceram, bispos, cardeaes simoniacos, todos os pecados que se engastam como gemas e possuem um fulgor lugubre, como se as pedras dos diademas ardessem nas cabeças, as gargantilhas nos pescoços, as manilhas e pulseiras nos braços, os compridos cintos nas cinturas! Satan tudo possuia, tragicos homicidas, capitães que entregam os seus soldados, reis que mancham os altares, velhas dementes que ululam nas monstruosas orgias, rojando pelo chão os cabellos pintados, crispando as boccas maquilhadas{158}nos espasmos lancinantes, poetas que arrastam a lira pelos lameiros, virgens que se vendem sem amor e sem vicio, toda a constelação dos sete pecados, como sete soes nocturnos, envenenados pela treva, corroidos pela lepra, um museu formidavel, sombrio, apesar de todos os brilhos, frio e angustiante, como um corredor que leva a presentida cilada—era tudo de Satan e queria-me!O pasmo pintou-se na minha cara.—Quero a tua alma! Falta-me na coléção. É por isso que hoje abandonei as ruas das cidades e seus encobertos vicios para subir a esta montanha, que tem o nome de outra, onde prometi tudo e tudo me recusaram. É o nome da derrota. Não sou supersticioso. Tens uma alma de amoroso. Amas pelo Amor. Idealista e sensual, a Fórma bella comove-te como um poema e mais nada. Não tens as crispações dos lascivos. Amas uma mulher e uma estatua da mesma maneira profunda, serena e harmoniosa. O amor não rebenta em beijos violentos, como as folhas das arvores pelas primaveras risonhas—floresce em imagens. Eu, que não posso amar, que soluço angustiosamente pela minha impotencia, quero a tua alma!Quando o Diabo fallou do amor, do negrume da noite que se apoiara já fortemente sobre a cidade e o monte, vi passar, no seu andar musical e casto, tal uma deusa, a Bem-Amada. Foi{159}como se uma via-lactea suave se accendesse e florissem as flôres da terra sobre as estrelas do Ceu...—Não te dou a minha alma.—Vão abrir-se, d'aqui a pouco, na cidade enigmatica, as portas escuras das casas de jogo. Dar-te-hei o segredo de sempre ganhar. Farei correr por ti os cubos amarelecidos dos dados. As pintas pretas far-se-hão olhos e verão onde apontas. As bolas das roletas saltarão por ti nas arestas de cobre... Conhecerás o prazer de ver amontoar na tua frente as notas e as moedas de oiro, de observar, ironico, os rostos, que a angustia encarquilha, dos jogadores que perdem. E os sobresaltos do banqueiro, imovel, mas de olhar esgazeado, far-te-hão rir...—Que importa? Jogarei com os sorrisos que brincam nos beiços finos de Livia. Ganharei sempre porque, quer ella sorria ou não, vel-a-hei e, por vel-a, andarei contente...—Ensinar-te-hei os segredos das cotas, dir-te-hei as confidencias que a si mesmos mal ousam segredar os financeiros internacionaes. E farás cair as grandes emprezas que vão dar ao mundo um aspéto novo. Arruinarás povos inteiros, farás baquear os tronos em que rainhas hirtas se assentam, no pavor das revoltas. Serás o ordenador magnifico dos cracks, e, de paiz em paiz, o teu nome correrá, nos fios dos telegrafos, espalhando o sobresalto e a ruina.{160}—Não quero. Basta que o meu nome seja pronunciado n'uma voz suave pela Bem-Amada. Dito por ella, o meu nome vae, de flôr em flôr, espalhar o perfume da sua bocca.—Amas a mulher? Dar-te-hei as cortezãs vestidas de joias, como idolos antigos. Virão, de rojo, abraçar-te os joelhos, como escravas. E dos corpos alvos e brilhantes subirão perfumes que entontecem... Dos seus braços frescos, como as grinaldas que se entretecem com jasmins, fugirão as caricias. Terão vozes magoadas a suplicar beijos. E, mais que as suas joias, brilharão os seus grandes olhos...—As joias são flores mortas, retalhos de astros que sucumbiram... Essas mulheres são como as joias: os beijos puzeram nos seus corações a dureza, a frieza e a geometrica forma das pedras lapidadas. Prefiro, a todas ellas, o gesto lento e curvo da Bem-Amada quando compõe o seu cabello preto.—A mulher carinhosa e pura é como uma flôr sem perfume. É preciso que o vicio lhes ponha um estremecimento. Dar-te-hei aquellas que envenenam a sorrir, que atraiçoam entre duas caricias, a amante que vae surpreender, n'um beijo, o segredo do amante, o segredo que leva á Forca, aquellas que descobriram ineditas lascivias, corrutas e artificiaes, que eu mesmo vestirei com tecidos fantasticos, que espalham um amavío!{161}—Que amavío maior do que ver a Bem-Amada quando descança a face branca sobre as mãos cruzadas, n'um vagaroso gesto cheio de doçura?—Dar-te-hei a alegria e a insaciedade, a embriaguez que exalta, o redomoinho dos desejos que estrangulam, as bocas avidas e perseguir-te com beijos e dentadas, toda a loucura incendiaria, a profanação de todos os cultos, o poder de corromper, os venenos subtis que matam lentamente e de longe, as misteriosas aguas e misteriosos pós, que fazem definhar, como flores que se fanam, as creaturas... Serás o senhor das almas e dos corpos.—Basta-me vel-a guardar, a sorrir-se, a carta que lhe escrevo...—Entregar-t'a-hei! Poderás tel-a entre os braços, morder a boca fina, sentir sobre o teu peito o arfar apressado do seu collo amoroso, ver os olhos cerrar-se como n'uma agonia doce... A sua figura fragil aconchegar-se-ha entre os teus braços, aquecerás a sua frieza, será tua, reconhecida, amorosa, fremente de paixão... Queres? Dá-me a tua alma!Tive um sobresalto, como quem, passeando n'um jardim florido, pisa um sapo:—Não. Basta-me sentir nas noites claras, quando lhe fallo á varanda, o seu olhar cair gotta a gotta sobre os meus olhos extacticos!{162}O creado veiu dizer-me que ia fechar-se o restaurante. A treva escorregava pelo monte. Um clarão vinha da cidade estendida a meus pés. E vago, confuso, o ruido da cidade com os seus vicios, seus tumultos, o cio que começava.Desci. E, a acompanhar-me, senti a Bem-Amada, perto de mim, carinhosa, a olhar-me longamente com os seus largos olhos pretos.{163}A PRINCEZA PERDIDAAO SR.JOSÉ DESOUSAMONTEIRO.{164}{165}A PRINCEZAPERDIDAN'aquella serena tarde de primavera, a princeza descera com as pequeninas aias e a camareira-mór as escadas de marmore branco e de marmore roseo do sumptuoso palacio real.Era n'uma côrte de complicada pragmatica. Os movimentos eram feitos consoante regras antigas; cada passo, cada mesura, cada sorriso, vinham marcadas no grosso livro que um mordomo-mór colligira, a exemplo do que fizera um imperador bysantino.Apesar d'isso, porém, na côrte esplendida havia um pouco de mocidade. E detraz dos leques de varetas rendilhadas, os labios abriam-se em sorrisos os olhos franziam-se, quando estava distante a hirta, camareira-mór.Os bailes tinham solemnidade como os officios divinos; mas as cores frescas das raparigas, a ligeiresa com que dançavam, a graciosidade que florescia nas suas atitudes rapidamente{166}desmanchadas, logo substituidas, davam-lhes o ar de festas.No grande palacio brilhante, as gentes andavam lentamente, como em procissão. No rosto do mais alegre era preciso espelhar-se, sombria, a tristeza que emagrecia a face pallida do rei. Era mister que ninguem perturbasse, com o tenir fresco d'um riso, a dôr real. Se alguma vez as donzellas deixavam passar o riso atravez das rendas finas dos seus leques, logo a camareira-mór intervinha, sevéra, a repreender. Nos tapetes morriam os sons dos passos; os grossos reposteiros abafavam o ruido das vozes. O silencio era eterno, como essa grande e aniquilladora magua que abatera a vigorosa mocidade do Rei.Em tempo, o palacio vibrára com o clamor das festas; as musicas saltitantes riam nas amplas sallas. Os vestidos claros, em cujos decótes os peitos brancos se mostram, sublinhavam a alegria. Um bobo pequenino e monstruoso punha um chocalhar de guiso em cada frase. E junto da Rainha, loira, pallida, delgada, o Rei tambem sorria, a olhar a flôr preciosa e fragil que pelo braço levava, em movimentos musicaes, como uma ave.Junto á sua frescura luminosa, as joias pareciam flores. E o diadema pesado, sobre os cabellos loiros, era como uma aureola maior n'essa cabeça fina.{167}Ella tambem sorria, olhando os olhos escuros do Rei. E pela bocca vermelha havia como um palpitar de beijos. A festa continuava. Havia no ambiente claro de tantas luzes, tantas joias, tantos olhos contentes, uma alegria maior. Vaporisavam-se os movimentos. As rendas tremiam nos vestidos das mulheres, nos gibões de seda dos gentishomens. As conversas d'amor faziam arfar os seios... O Rei e a Rainha continuavam a sorrir-se, como dois amantes rusticos, que se encontram na vinha, por um suave outomno.Uma noite, porém, a dôr entrou n'esse palacio claro. Ligeiros, para não fazer ruido, como sombras, os cortesãos, as damas d'honor, as aias, passavam, murmurando resas, ou trocando, baixinho, as impressões. Era como um ciciar leve de brisa sobre um campo de flores. Os vultos cruzavam-se:—Então?—Na mesma...—Impossivel salvar-se...—O fisico não atina com o remedio...Era a Rainha, que, como certos arbustos que morrem, depois de florir, finava-se ao dar á luz a pequena princeza.A dôr tragica e calada do moço Rei! Nem uma palavra se lhe ouviu da bocca crispada. Nem um grito na luctuosa camara onde carpiam as senhoras da côrte. De joelhos junto{168}ao leito magnifico, onde se postára depois de ter cerrado os largos olhos garços, o Rei chorava em silencio. Os frades diziam monotonamente, como um esvoaçar de insectos, as resas rituaes. Um ou outro soluço, a desolação d'um ai, cortavam a funebre quietude; mas o rei, entre as suas as mãos finas e amarellecidas da Rainha, não tinha um grito, nem uma palavra. Nos labios da morta ainda havia o sorriso, esboçado a olhar para o marido...O Rei mandou retirar a todos do quarto. Quiz elle proprio vestir aquella que tanto amára. Beijou-lhe os olhos de palpebras azuladas, beijou os cabellos, que na imprecisa penumbra, tinham um brilho d'oiro... Outra vez caiu de joelhos.Então as palavras de dôr, abundantes, sairam dos labios tanto tempo represos. Disse-lhe o grande amôr e a grande magua. Prometteu-lhe viuvez eterna; que a sua alma se conservaria fechada, como um relicario, a guardar a imagem quasi divina da mulher primeira amada, unica...Longo tempo se conservou, as mãos frias da morta entre as suas, no quarto silencioso, onde apenas os seus queixumes davam uma nota de vida. No lampadario já se extinguiam as luzes, que, de quando em quando lançavam, altas, dentadas, labaredas azues e d'oiro.A madrugada clara entrou pelas janellas,{169}como um chilrear de passaros. A vida renascia, musical, da noite escura. No coração do Rei a dôr fizera uma sombra eterna.Entre os brandões acesos levaram o cadaver, vestido por mãos mercenarias, que as do Rei nem tinham forças para o peso dos anneis...Filas de bispos mitrados, graves e compungidos, seguiam o feretro atravez as ruas da cidade e por estradas risonhas, até o convento magnifico em cuja egreja jaziam todos os numerosos reis e rainhas da casa real; seguiram os fidalgos como seus escudeiros de lucto; seguiu, commovido, o povo, que pranteou a morte d'aquella que fôra linda e nas ruas sorria ás criancinhas pobres, que lhe pediam a benção...Era uma comprida fila que se perdia nas corcôvas da estrada. As confrarias, os conventos mandaram os irmãos e os frades, com as insignias. E áquelle radioso sol d'agosto, que punha na athmosphera uma tremura, tudo resplandecia, como uma apotheose. Brilhavam as lanças, brilhavam os ouros, brilhavam os báculos e sobretudo refulgiam as insolitas pedrarias dos bispos, caminhando magestosos e tristes. E o psalmejar dos padres, ouvido ao longe, perdia a nota de lamento: era como o ultimo echo d'um canto de victoria, no dia glorioso...No palacio quasi deserto, o Rei ficára no quarto vazio. Como arredal-o de lá? De joelhos{170}ainda, pensava talvez ter entre as suas mãos os dedos finos da Rainha morta. De quando em quando um soluço parecia estalar a garganta. E as lagrimas desciam pela face, iam morrer na barba perfumada.Olhava para o grande espelho, onde a Rainha costumava ageitar, á noite, os cabellos fartos. Lembrava-se de ter alli visto o gesto gracil, aquelle pó d'oiro, e o corpo que tinha a frescura e a elegancia d'uma flôr que vae a desabrochar. Porque não guardam os espelhos as imagens reflectidas? Teria alli, viva, a Rainha, na attitude de compôr as sedas das suas tranças... Mas os espelhos deixam tudo escapar. Assim os lagos não guardam, no seio ligeiro, voluvel, o vôo curvo das pombas que fogem...E para alli se quedava, vivendo do passado, como um velho... Que importava que as guerras na fronteira distante assolassem o paiz? Que tinha que os povos gemessem, que as catastrophes aluissem as cidades fulgentes ao luar e ao sol nas suas cathedraes preciosas, que os rios, saltando os leitos, invadissem as aldeias claras? Que importava a vida se elle só vivia da morte? Mergulhassem os outros no passado os olhos cubiçosos e vivessem de tanto explendor de batalhas e de riquezas que listravam de clarões a historia do reino afortunado. Na miseria presente, que se recordassem!{171}A propria princeza entre as mãos das açafatas, delicada e linda, ia vivendo, nos grandes olhos verdes, uma tristeza, como quem sabia... No palacio sevéro, lugubre, sem os tinidos das alabardas e os mantos que formavam lagôas, nas alcatifas, ninguem se via. E ella, a pequena princeza, não aprendera a rir e tambem não chorava.Uma vez ou outra, ao atravessar silencioso e só as camaras, o Rei via a princeza; machinalmente as suas mãos pallidas passavam pelos cabellos loiros da filha. E seguia, taciturno, sempre diante de si a imagem d'aquella que morrera a sorrir e o esperava na crípta silenciosa do austero templo gothico.Ensinavam as aias á princezinha, não relatos crueis de contendas, nomes temidos dos reis seus avós, mas historias maravilhosas. Diziam-lhe que á noite, os grandes calices das magnolias abriam-se, com um ruido musical. E de dentro saiam côrtes de fadas minusculas, vestidas com mantos tecidos com raios de luas-cheias. Pelo parque andavam livremente entre as roseiras explendidas... Contavam-lhe que á meia-noite, as arvores se desprendem da terra e vão beber, como os gados, ás limpidas ribeiras. Ella sabia que entre si os animaes falavam, as andorinhas nos bicos dos telhados, os cisnes brancos nas lagôas azues, os pavões sobre as arvores, quando espalmam as enjoalhadas{172}caudas, as pombas brancas á beira dos poços, sobre o marmore polido.Conhecia os trabalhos ligeiros dos gnomos, que nas cavernas escuras trabalhavam o oiro e o ferro; distinguia os alfagemes, que afiam as espadas mortiferas, e os ourives, que afilagranam os metaes.Diziam-lhe as lendas floridas dos amantes, de cujos tumulos saem sorrisos carregados de rosas, que n'um arco perfumado se abraçam a misturar os perfumes...Mas a pobre princeza, apenas nubil, não conhecia a Vida, nem o Amor, nem o Riso.Um dia, pois, a princeza, com as pequenas aias, desceu ao jardim do sumptuoso palacio.Misterioso por tantas sombras, tantos caminhos que se contorciam por entre rugosos troncos, tantas aguas que cantavam nos marmores brancos, tantas flores que dentre a verdura perfumavam...De socalco em socalco abriam-se, em leques, as escadarias; saltavam as aguas das cascatas, despenhavam-se as trepadeiras floridas, rastejavam as hervas, rosas de toucar e jasmins lançavam os ramos frageis.Junto ao palacio o jardim era cuidado, como uma cabeça garrida. As largas flores espargiam os aromas; os repuxos finos esguichavam fios de prata, pelas ruas areiadas passavam, magestosos os pavões solemnes... Mas depois, começava{173}a floresta. As altas arvores luctavam, estorcidas: algumas subiam, magras como pedintes, n'uma aspiração, muito direitas para o sol. Outras torciam-se, esta sem forças, esgarçava-se mirrada. E a hera crescia, vestia os troncos, até nas arvores secas vicejava, como uma mascara risonha n'uma face de morto. Alguns troncos de seculares carvalhos continham grutas escuras. E os passaros, dentre os galhos, ao ruido dos passos, levantavam vôo, alvoroçados.Era o «Caminho das Rosas», que alli levava. Rosas de toda a côr: ensanguentadas, brancas, côr de mel e de marfim, côr de carne, rosas para florir peitos de danados e para tranças de primeiras commungantes, rosas que abrem chagas no verde das roseiras, outras que chamam beijos, como colos nus em festas illuminadas, rosas que teem toda a pureza d'uma noiva, outras toda a garridice d'uma amante, rosas para tumulos, brancas, mortas quasi, rosas cheias de vida, que pareciam querer saltar das hastes, e offerecer-se, lascivas...Vinha do seu conjuncto um perfume entontecedor. Por tanto aroma lançarem no ar, nas noites quentes d'agosto, algumas damas da côrte caiam, em deliquio. E todas tinham medo d'aquelle portico encantado, que parecia abrir para um paraiso, mas que podia descer a algum abismo.{174}Foi para ali, que, correndo atraz d'uma borboleta, se dirigiu a princeza. Em vão lhe prenderam as vestes de seda os espinhos das roseiras, em vão a chamaram as pequenas aias; mesmo foi debalde que a voz secca da camareira-mór gritou por ella, entre respeitosa e auctoritaria. A princeza, a rir, córada, continuava atraz da grande borboleta, deixando tiras de seda nos galhos em flôr que, sacudidos, lançavam sobre a sua cabeça petalas finas.Ninguem, comtudo, se atreveu a ir atraz d'ella.Corria no palacio e na cidade uma lenda extranha sobre a floresta, que continuava o jardim, depois do perfumado «Caminho das Rosas».Dizia-se que n'uma epoca remota, no tempo em que pela cidade luminosa e culpada ainda passavam os santos ensinando a Lei e edificando as gentes, governava o reino uma rainha pagã. No jardim murmuroso e claro havia fremitos de beijos. Nas aguas dos tanques brilhavam corpos ligeiros. Nas sallas que as tochas e os lampadarios illuminavam, mulheres quasi nuas dançavam levemente ao som de musicas alegres. E o vinho levava das taças lavradas ás boccas vermelhas a alegria e o Amôr.Por toda a parte havia flores, havia risos, havia festas. Os cavalleiros, nas justas, paravam; morriam as scentelhas em que ardem as espadas no choque dos combates, e das boccas{175}frescas saíam vozes a cantar a formosura das florestas, a elegancia das mulheres, a limpidez das aguas cantantes.Um dia, um santo bispo entrou, andrajoso e cançado, a pedir pousada; a rainha, ao vel-o tão miseravel, mandou-o recolher no canil, com os creados das matilhas. Os cães, piedosamente, foram lamber os pés em sangue do santo homem.Mas a Rainha não o quiz receber. Como de S. João Baptista, as palavras subiam para as portas, asperas e condemnatorias. Toda a noite a sua voz rude annunciava o castigo.A Rainha, cançada de ouvir a voz rouca, mandou-o açoitar e expulsar do palacio, em que reviveu a alegria. Mas durou pouco, porque um dia uma lingua de fogo saiu da terra, e agitou-se no ar, de sangue e oiro; espavorida, toda a côrte fugiu, para não mais voltar, para a floresta misteriosa, que ninguem sabia ao certo onde acabava.E todo o reino teve medo, como d'um inferno, d'essa floresta que começava por uma extranha floração de rosas e terminava porventura pelos eternos gelos, pelas labaredas, talvez...Por ali seguira a princeza, a rir-se. Em vão o Medo guardou durante seculos a misteriosa entrada. Em vão as rosas se agitaram, como turibulos, para a entontecer com o perfume, e os galhos a prenderam, e os espinhos lhe rasgaram{176}as rendas e as sedas. Foi correndo. A borboleta enorme parecia uma joia a fugir por entre as flores. A princeza era como uma ave, delgada e linda, atraz d'ella.Subitamente a paisagem modificou-se. Do dia glorioso que estava no jardim do palacio, nasceu um crepusculo doirado, como um velho damasco amarello.A luz parecia um convalescente a rir-se por cima das arvores, pelos tanques quietos, pelos marmores. E as folhas das arvores tremiam fazendo brilhar os filamentos d'oiro. As flores tinham todas um aroma ligeiro, como os frascos de perfumes, que durante longos annos se guardam, vasios, nos armarios fechados. Eram brancas todas as rosas e as petalas enrugadas, como pelles finas de velhas, que viveram nos claustros, entre cosmeticos.Quando a princeza deu pela mudança da luz e da paisagem lembrou-se da lenda pavorosa que afastava as gentes da floresta e do Caminho das Rosas.—Onde estão as linguas avidas do fogo? perguntava-se. Onde os gelos que prendem e matam? Onde os dragões?A paisagem era toda serena e d'um riso triste. Dir-se-iam anemicas as flores palidas, as anemonas de seda velha, de cera transparente, que por toda a parte deixavam cair, de cançadas, as petalas finas. E nos caminhos a areia preta{177}era crusada pelos veios das hervas rasteiras, coberta pelos galhos dos arbustos, aqui sacudiam-se rosas, alem os geranios frescos. Pelos troncos direitos das arvores a hera enroscava-se, a subir. Nas curvas dos tanques, dormiam os nenuphares. Nos marmores dos poços as trepadeiras cobriam os lavores. Havia um silencio leve, por onde perpassava o espirito d'um canto, como um aroma que a brisa traz de longe.Os templos tinham as portas abertas. A princeza para elles entrou, a medo, a espreitar, afastando os loureiros e os mirtos, que quasi fechavam a entrada.Ninguem. Apenas os deuses de marmore, calmos, esperavam as oferendas. Mas as aras dos sacrificios tinham humidade da lavagem recente. As cinzas eram quentes; no templo d'uma deusa havia grinaldas de rosas e pennas de pombas brancas soltas pelo chão.Alguem ali vivia, pensava a princeza. Mas quem? Genio malfazejo, que a mataria, ou fada carinhosa? Seria ali que nas noites claras virião passear as côrtes sumptuosas que moram nos calices das magnolias?Habituada ao silencio sombrio da côrte não a inquietava aquelle silencio leve. E continuava a explorar a encantada floresta, onde parecia agitar-se um simulacro de vida.Como um coração que vive da saudade dos{178}tempos remotos, assim ali parecia existir a repercursão d'uma vida antiga. A cada passo a princeza encontrava signaes de sandalias, flores cortadas, uma fita, indicios de vida. Mas d'onde partiam? Quem os deixava?Viveria ali, n'aquelle paiz de luz anemica, uma côrte de feiticeiras tragicas, que esperam, para sair das cavernas, as badaladas lugubres da meia-noite? Mas não. As feiticeiras escolhem as montanhas altas e escarpadas onde chegue o canto soturno do mar revolto, sem arvores que impeçam o vôo incendiario das blasphemias e das imprecações para o ceu sem lua e sem estrellas.Ia caminhando a princeza. Via ribeiros claros que escorregavam sobre seixos brancos; lagôas azues, fachadas de templos, quincuncios bordados por buxos altos. E as ruas seguiam entre filas d'altas arvores formando tunel, até serem cortadas por novas ruas, com arvores ou flores.Cançou-se a pequena princeza. Um vago terror a invadiu. Quiz regressar ao palacio, mas não podia. As ruas d'arvores, os templos, os ribeiros, as estatuas, sucediam-se. Parecia-lhe estar n'um complicado labirintho. Como conseguir o magico fio?Uma noite, que parecia artificial, espalhara-se pelo ceu e envolvia as coisas. Á tonalidade doirada, succedia uma tonalidade branca,{179}como se tudo fosse feito de prata. A princeza sentou-se n'um banco, a chorar.Ouviu de longe como um passar de brisa leve por harpas suspensas em arvores. Escutou. Era um canto que um côro fazia subir, ligeiro como um fumo. Mais se approximava. As vozes eram cançadas, mas limpidas. Cantavam a vida e as festas, o rir das flôres, a alegria das arvores na primavera.Cada vez se approximavam mais. Dirigiam-se, certamente, para o sitio onde ficára a princeza, um jardim junto d'um templo de marmore verde.Já via as canephoras, com açafates de flores, seguidas pelas escravas com tamboretes; depois a numerosa theoria de mulheres, com archotes, que, ao queimar-se, illuminavam e perfumavam. Não havia homens. Certamente que vinham para a festa atheniense das Thesmophorias.Eram as habitantes da floresta. Caminhavam lentamente, as cunharicas fluctuantes sobre as tunicas amarellas. As hidrophoras traziam as urnas na cabeça. N'um gesto gracioso, seguravam-as com uma das mãos; os braços nus eram tão brancos como os marmores transparentes das urnas.Quando viram a princeza, medrosa, a esconder-se entre as arvores, a procissão parou, as vozes calaram-se, a meio do canto.{180}Em voz baixa concertavam entre si a resolução a tomar. A princeza ouvia apenas um zumbido confuso, como os das abelhas, quando nos dias quentes se cruzam pelos jardins floridos. Colada a um tronco, palida como um ex-voto de cera, viu com pavor approximar-se d'ella uma das habitantes da floresta. Era porém, tamanha a sua beleza e a sua gracilidade, que o medo tombou do espirito da princeza. Pensava-se ver uma haste florida a andar. Vagarosa, os seus gestos curvos e lentos pareciam fazer nascer no ar quieto uma harmonia...—Perdi-me aqui! Perdi-me aqui!—D'onde vens?—Do palacio. Sou a princeza. As minhas aias não se atreveram. Eu corri para apanhar uma borboleta. A borboleta fugiu. Fiquei sem saber onde estava, que caminho tomar. Isto é tão lindo! Mas faz tanto medo não se saber onde se está!—E queres voltar? Deixaste teu pae e tua mãe...—Minha mãe morreu. Meu pae não o vejo... quasi nunca. É um velho triste e duro, que não fala... Tenho medo da camareira-mór. E as aias estão a chorar ás escondidas d'ella como sempre... A vida é triste, triste, no palacio...—Preferes ficar comnosco?A boca fina pareceu sorrir-se. A princeza olhava para as mais que se tinham acercado.{181}Eram todas lindas e moças, mas sem frescura, como as rosas que abrem pelas chuvas e ventanias.—Se me quiserem. Se me quiserem.—Pois ficarás! Ficarás! Vem comnosco!Poz-se em marcha o cortejo, novamente. Entraram no templo com a princeza.E a princeza ali ficou, porque nos rostos se conservava a mocidade e não havia a dôr, nem o constrangimento. Tudo era claro e sereno. E não voltou mais ao palacio, onde as aias choravam e a camareira-mór, seca e hirta, tinha uma voz esganiçada e autoritaria.{182}{183}NOITE DE FESTAA ARMANDONAVARRO.{184}{185}NOITE DEFESTAEra o jantar de despedida de Dowanov, que partia para o Mexico, promovido a ministro. Jantar de secretarios de legação, que formam uma confraria, para, na critica dos chefes, tirar uma consolação do exilio, correra um pouco triste.A minha intimidade com o novo plenipotenciario, que viera da communidade de vistas sobre a numismatica bisantina, abrira em meu favor uma excepção.No pequeno gabinete do Avenida Palace, a conversa versára sobre diplomatas e postos. Dowanov, como todo o bom russo, suspirava por Paris, onde estivera adido. Contava as suas tribulações junto do embaixador solemne e desdenhoso, que, sabendo-o apaixonado por corridas, nos dias de steeples e handicaps sensacionaes, sob pretexto de serviço o mandava chamar com urgencia, mas realmente para o impedir de divertir-se em Auteil e Longchamps.{186}Apesar de tudo, porem, sorriam-se-lhe os olhos ao lembrar-se das pequenas colhidasun peu partout.A minha presença não permitia as confidencias sobre a monotonia da pequena cidade da provincia que é Lisboa. Havia um constrangimento. Por isso falaram de companheiros, indicaram silhuetas vistas um momento, logo esquecidas.—O que será feito d'esse roliço Kordst, que estava, no meu tempo, encarregado de negocios em Bucharest? Nunca mais soube d'elle? Devia ter morrido da falta d'um bilhete. Lembro-me que ia provocando uma questão internacional, porque o ministro d'Austria, ao apresentar-lhe o adido russo, disse primeiro o nome de Kordst. Moravamos no mesmo hotel. Foi procurar-me apoplético:—O que terá contra mim o ministro d'Austria? Não lhe fiz coisa alguma!... Não me lembro. Ainda hontem, na recepção, lhe dei o meu logar no sofá!...—Kordst? Com o amor que tinha aos bilhetes de visita, fez-se litografo, provavelmente... Sabem de Camusot, o adido militar francez, que tinha uma mulher que andava aos saltos, como uma pêga? Não conheceram? Você, Poliano? Não me disse que tinha estado com elle em Vienna?...—Não. Encontrei-o em Roma. A mulher realisava{187}o typo perfeito dagaffeuse... Em que liquidou?—Croupierde batota, em Spa... Tinha ar... Um dia, no Jockey, perceberam que corrigia a sorte, no baccará.—E Blumen, o chanceller da embaixada allemã, que conheci, de relance, em Madrid?—Em missão junto de Menelick. Emborracha-se com o Negus, formidavelmente, com cerveja de Munich. Tem a simpatia dos ras; ouvi que iam crear em sua honra a ordem do Bock, na Abyssinia...—Era o intimo do conde de Strifforth... Que é feito de Strifforth? Herdou já opeerage? Diziam-o muito considerado no Foreign Office. Pensou-se n'elle para sub-secretario de Estado...—Nunca lhes contei a morte de Strifforth?—Morreu?—Vi-o suicidar-se. Acompanhei-o nos ultimos dias. Foi em Sevilha. Tinha-o conhecido em Londres, no seu ultimocongé; quando fui promovido para Madrid démo-nos muito ali. Morreu d'uma maneira singular, n'uma festa da marqueza de Carrillos, na sua quinta de Eritaña... A melhor festa de Hespanha... A mais elegante e romanesca; dava a sensação da embriaguez d'uma boneca de Saxe, n'um Walpurgis. Havia feiticeiras novas, ou melhor, ninfas. A quinta é deliciosa, um pouco acima{188}de Sevilha; o rio corta-a e para passar d'um lado a outro ha pequenas gondolas com camaras para duas pessoas sómente. A Carrillos, um pouco artista, um quasi nada doida, levou uma ranchada de gente para o seu palacio, do tempo de Pedro, o Cru, para uma festa de mascaras pela Piñata. Era tudo gente nova, salvo uma ou outra mãe que ia fazer a decencia. Mas achavam-se deslocadas no meio da nossa alegria e, intelligentemente, retiravam-se para sensacionaes partidas de bridge. Só nos viamos ás refeições. Umapartydeliciosa, que acabou n'uma tragedia, um pouco deguignol dernier bateau, entre musicas leves... É melhor contar tudo, ab ovo...—Sim... Desde o congresso de Vienna. O pae foi secretario d'um dos plenipotenciarios inglezes...—Ainda de peito?—Não. Strifforth era filho de velho... Isso explica muito o seu temperamento.—Vá, psicologo!—Este Mumm não me diz nada! Traga Montebello! É um pouco da Carreira.—Por afinidade?—Então o antigo embaixador?—En disgrace?—Sim. Ao quarto filho da czarina elle criticou:—«Ce n'est pas une femme—c'est une pondeuse!»{189}—Conta a historia tragica!—A marqueza de Carrillos levára a sua filha, aquella inquieta Mathilde, noiva por sport, tecendo e desarranjando os casamentos, como Penelope a famosa teia. Para ella não havia flirts: tudo noivados. É possivel que, de a experimentar tanto, a grinalda nupcial estivesse já enxovalhada. Conheceu a Carrillos? Você? Você? Ninguem? Fina como umaflûtede cristal cheia de champagnemousseux, ondulosa, sempre pronta para o ataque e para a resposta, fazia a chuva e o bom tempo na sociedade, e tinha um dom especial para pôr alcunhas que logo faziam o giro de Madrid e crismavam as creaturas. N'um dos seus numerosos noivados a mãe, oppondo-se, disse-lhe:—«Que sogra vaes ter!» A Mathilde, sem pestanejar:—«E elle, mamã? E elle?» A marqueza ria-se perdidamente com os ditos da filha, regosijando-se:—És digna de mim!—E Strifforth?—Lá vae. Ora fez-se a festa. O costume Luiz XV era de rigor. Por uma noite estrellada, espalhámo-nos pelo jardim. Pelas janellas do palacio corriam grinaldas de fogo dasbandes souplesque as ligavam. Eram tulipas de todos os córtes que d'entre a folhagem se uniam, pondo um traço florido entre o incendio que vinha das multiplas janellas abertas sobre o parque e sobre o caes. Pelos troncos{190}das arvores envolviam-se em espiras as serpentes luminosas, marchetadas, e abriam-se em mil luzes nas copas, davam, ao longe, o aspecto de uma joalheria que ardesse na noite quieta e calada, essas noites amorosas da Andaluzia em que tudo parece estacar n'um beijo supremo... Pela margem do rio a mesma florescencia, mergulhando na agua, dando ao rio a aparencia fantastica de um ceu que se afundasse.De repente musicas invisiveis tocaram as melodias leves,gavottessuspiradas, em que ha um pouco de amor, um pouco de dança, como num flirt. E do escuro d'uma angra moveram-se gondolas ligeiras, em que ardiam e estremeciam largos balões venezianos.Os remadores, ensaiados, iam quasi ao compasso ligeiro dasgavottes. Tinhamos a impressão d'uma dança de gondolas, um sonho estranho de veneziano, pelas horas misteriosas em que as coisas inanimadas tomam vida. Do levantar dos remos das aguas, saltavam cintillações de pedrarias. E a linha tortuosa de balões augmentava o incendio, na vibração de tantas reluzentes joias a agitarem-se na agua do rio... Fomo-nos metendo nas gondolas. Osnoviosacolheram-se prestes ás gondolas mais pequenas. Uma maior levou muitos de nós, descazalados, a Mathilde Carrillos, Strifforth, a condessa de Valdelar...{191}—Conheci-a em Roma...—O marido foi gentil-homem do Papa. Preciso falar d'ella. Foi a principal figura d'este drama. Typo de hespanhola? Não. Mais italiana do que hespanhola, com uns largos olhos pretos, cheios de doçura. O seu gesto era harmonioso e curvo, sem uma aresta, sem um angulo, uns nascendo dos outros sem solução, como as frases d'uma melodia. Tinha-se, ao vêl-a, a sensação de que se ouvia uma musica dolente, vagarosa. E os proprios olhos moviam-se lentamente, como pesados de tanta luz e tanta belleza...Enigmatica, guardando n'um jardim encantado a sua alma, ninguem prudente ousára definil-a... Poetica talvez, ou simplesmente aborrecida, fugia em S. Sebastian do Casino e do Hotel du Palais e ia, á tarde, só, vêr as crispações do poente nas vagas que eriçam de espuma o mar azul.Sentava-se n'um dos rochedos, ás vezes desenhando, outras a cabeça a descançar na mão, e ali se quedava a tarde inteira, alma talvez de sereia a chorar pelo mar, a querer aprehender no perfume da brisa, alguma palpitação do oceano.Nenhum de nós se atreveu nunca a interrompel-a, apezar da attracção que todos sentiamos pela sua figura gracil como uma amphora, da suatoilette, de toda a elegancia pessoal e do{192}misterio da alma ávidamente guardada... Strifforth apaixonou-se por ella. E, solitario, deixando as excursões amiudadas que fazia ao Casino de Biarritz, andava de barco para vêr, isolada no rochedo, sem uma tristesa na face, a condessa de Valdelar, certamente a mais formosa, a mais perturbante das senhoras de Madrid.O conde de Valdelar ficava no hotel, gottoso, na leitura de livros licenciosos, que salpicava de casquinadas nervosas, irritantes, indifferente á belleza e á alma da mulher. Strifforth conhecia-a e procurava todos os raros momentos em que ella apparecia, de manhã na praia, á tarde no boulevard e, uma ou outra vez, pelas grandes festas, no Casino, que atravessava n'um andar leve, dando-nos a sensação que tinha azas que a sustentavam. Nada lhe permitira ainda uma declaração. A condessa fallava-lhe, como a todos nós, em coisas indifferentes, em festas, touradas, partidas de tennis, impressões rapidas de viagem e deixava-o sem pressa, mas sem pezar, absoluctamente correcta. Elle fallava-lhe do mar, mas a condessa tinha uma phrase banal, mudava d'assunto, como se tivesse pudor d'esse sentimento, que parecia absorver toda a sua vida. Foi n'esse tempo que Strifforth começou a picar-se com morphina difficilmente adquirida, a beber perfumes, com horror aos cognacs,{193}e a arrastar uma vida d'automato, sempre com esperança de a vêr, de lhe fallar. E, em a encontrando, pousava sobre ella os olhos tristes, largas horas, inconvenientemente.Em Madrid, todo o inverno foi assim, com menos occasiões de a vêr, porque a condessa frequentava pouco o Retiro e a Castellana e raramente aparecia na sociedade, demorando-se o bastante para não parecer aborrecida, mas saindo logo, com um tacto perfeito. Á vida escondida da condessa correspondia uma outra vida secreta de Strifforth, ebrio, em desesperos que o alcool longe de adormecer intensificava, fugindo a tudo o que fôra d'antes o seu enlevo, até do Museu do Prado, onde ia todas as manhãs—á minha missa, dizia elle—para vêr os Velasquez e os Grecos... Mas, quando tinha que ir a alguma parte com esperança de encontrar a condessa, o meu amigo não bebia para poder gozar inteiramente a presença e a voz d'aquella que amava. Depois a embriaguez exagerava a impressão, dava-lhe, quasi real, a presença da Valdelar. Meteu-se no ether, alem da morphina e dos frascos de perfume—Parece que como flores, explicou-me—arruinando por completo a saude, tornando mais agudas as crises de desesperos, mais asperas, pelo enigma que para todos nós era essa mulher esplendidamente artificial, que trazia uma mascara na sua face calada. Coquette? Decerto,{194}mas egualmente para todos, porque os seus movimentos eram regrados por uma musica ineffavel. Mas talvez coquette só para si, porque nem um só olhar ou palavra auctorisou ninguem a dizer-lhe um galanteio atrevido.Fallou-se na festa da Carrillos, organisou-se a lista, e Strifforth, que não tinha relações com a marqueza, logo que soube que a Valdeler era da partida, solicitou, pondo de parte sem hesitação o seu orgulho exagerado, uma apresentação e um convite, logo alcançados, não só por ser muitochoyé, mas tambem porque transpirára a paixão e todos se interessavam pelo pobre rapaz, havendo até censuras á Valdelar, que de nada era culpada.Fomos n'um expresso vagaroso, atravessando desoladas paisagens, até Sevilha. Não conhecem Sevilha? É a cidade mais feminina e voluptuosa que conheço.Á tarde, vista da Giralda, ella se nos oferece, nua, ondulosa, apenas com a cinta azul do seu rio e as joias das cupulas e das janellas que scintillam ao poente. Parece que estaca o movimento, e que, na alcova enorme que é a planicie, Sevilha se estende, com flôres no cabello e uma volupia extrema em todo o seu ser. Anda no ar um amavio. Tudo nos falla d'amor sensual e quente, até os olhos largos das sevilhanas, que parecem recortados n'esses enormes amôres perfeitos de velludo.{195}Foi ali que tivemos a festa de que lhes fallei. Imaginem que na margem esquerda, a dois kilometros da quinta da Carrillos, ha umaventa, cuja varanda se debruça entre trepadeiras, sobre o rio. A marqueza tomára-a sem custo por sua conta e alli varias musicas nos tocaram, nãogavottesleves, mas doridas malagueñas em que se arrasta um langor, como um beijo em que toda a alma succumbe. Um jacto de luz inundou a gondola. A condessa levava as mãos dentro de agua, curvada ella propria para o rio. Strifforth ia sentado sobre a borda. Deixou-se escoar vagarosamente.—Caiu um!—Strifforth!Logo os braços se estenderam, um dos gondoleiros deitou-se á agua e poude tirar Strifforth, todo ensopado no seu fato de seda.—Borracho! Borracho!Mais vous êtez ivre! Dites!—Strifforth, não bebera uma gotta. Eu ficára proximo d'elle. Os musicos não tinham dado por nada. A musica continuava dolorosa e amorosa. A gondola seguiu, deixando o traço de luz que brilhava e se quebrava d'encontro ás leves vagas. Houve risos. Rodearam-o com grinaldas. A Valdelar teve, como os outros um riso.—Escorreguei!... explicou apenas o conde. Mais adiante, porem, já a musica se ouvia em surdina, Strifforth deixou-se cair outra vez.—É demais! Está bebedo! gritaram. As{196}cabeças empoadas inclinaram-se novamente para a agua. A Valdelar, que tornára a mergulhar no rio os braços nus em que escorriam as rendas molhadas, ao sentir a queda, agarrou-o por um braço, indiferente. Strifforth, porem, deu um vigoroso impulso e desprendeu-se d'ella...Houve um panico. Foram buscar archotes. Não calculam o macabro das nossas figuras depetits-abbése gentishomens procurando, nos barcos, que de tanta luz pareciam incendiados, um homem que se queria suicidar. Os gritos cruzavam. Das pequenas gondolas surgiam vultos negros iluminados á maneira d'um Rembrandt que tivesse adivinhado Turner e Whistler, em chapadas de luz multicôr. Na nossa gondola um borborinho correra. Alguem desmaiára, até. As cabeças empoadas agitavam-se. Ao longe, as malagueñas continuavam num suspiro lascivo e preguiçoso. A Valdelar voltára á sua primitiva posição: brincava com a agua, que lhe passava entre os dedos abertos, pondo-lhe aneis que fugiam, logo substituidos. Não tornamos a saber de Strifforth. O cadaver nunca apareceu.{197}

TIBIDABOAO SR.BARÃO DES. PEDRO.{154}{155}TIBIDABONa tarde de agosto quente, fugira de Barcelona para a escalvada montanha que a fanfarronada hespanhola bátisou de Tibidabo, o sitio da Judeia onde Satan prometeu a Christo as grandezas do Mundo e os fulgores do Peccado.O monte levanta-se, precipitadamente, do fundo da planicie em que Barcelona ondeia. E querem dizer talvez na sua os catalães, que Satanaz ergue as creaturas que quer tentar e, firmando-as nos cimos d'este monte, oferece-lhes a cidade, imagem brilhante dos esplendores mundanos.Sob o toldo do restaurante deserto me acolhi, a sentir a brisa preguiçosa. Espalmava-se em baixo a cidade. Corriam as suas avenidas arborisadas, as «Ramblas» que se seguem como uma bicha, e a «Gran-Via», a infindavel «Cortes», que corta Barcelona em diagonal. Quedava-se o Parque enorme e, ao fundo, n'um vago de nevoeiro,{156}o mar azul, riscado pela linha cinzenta da doca, onde os navios acolhidos eram imoveis.Vinha caindo a tarde sobre as raras torres das egrejas. Brilhavam um a um os bicos de gaz e as janellas em que o poente puzera uma luz de oiro.Longo tempo ali estive. Sonhei? Foi real? Não sei.Um mancebo pallido e triste abeirou-se de mim:—Vês a noite a cair? D'aqui a pouco as ruas vão brilhar do fremito luminoso dos desejos das multidões. A cubiça e a luxuria porão brazas nas almas que incendiarão os olhos. As mulheres mostrarão nos bailes e nos theatros o maculado esplendor dos seios perfumados. Nos mostradores das lojas, á luz das lampadas electricas, as joias farão percorrer nas mãos desejos de roubo. A Besta ergue-se—olha como se ilumina a cidade! Vês um clarão que nasce, sobe e se perde no Ceu? Julgas que é dos candieiros? Não, é das almas! é toda debruada de vermelho como as chamas dos incendios. Como é bella a cidade quando é culpada!Voltei-me para o mancebo, tranquilamente. Vi que era o Diabo. Não que tivesse chifres ou cheirasse a enxofre, mas pela belleza triste, de quem conhece tudo. Não lhe tive horror. O Diabo{157}é o gnomo subtil que trabalha na sombra as filagranas das tentações. É o Diabo que amontôa as cidades, inspira os artistas, empurra o homem para as civilisações que apodrecem e brilham.Não lhe respondi... N'um fogacho violaceo, o sol apagára-se no mar. Era tudo cinzento. Pelos canaes das ruas, por entre as arvores, n'uma sombra mais densa, cintillavam os bicos e os mostradores das lojas.O Diabo continuou:—Quero a tua alma...Olhei-o atonito. Para quê a minha Alma? O grande colecionador tinha um museu estranho em que brilhavam todas as taras possiveis. Assassinos vulgares, ladrões de taberna, mães que vendem as filhas, incestuosos, ganindo de luxuria, velhos abades macerados e corroidos pelas disciplinas, que as ilusões vãs de Satanaz venceram, bispos, cardeaes simoniacos, todos os pecados que se engastam como gemas e possuem um fulgor lugubre, como se as pedras dos diademas ardessem nas cabeças, as gargantilhas nos pescoços, as manilhas e pulseiras nos braços, os compridos cintos nas cinturas! Satan tudo possuia, tragicos homicidas, capitães que entregam os seus soldados, reis que mancham os altares, velhas dementes que ululam nas monstruosas orgias, rojando pelo chão os cabellos pintados, crispando as boccas maquilhadas{158}nos espasmos lancinantes, poetas que arrastam a lira pelos lameiros, virgens que se vendem sem amor e sem vicio, toda a constelação dos sete pecados, como sete soes nocturnos, envenenados pela treva, corroidos pela lepra, um museu formidavel, sombrio, apesar de todos os brilhos, frio e angustiante, como um corredor que leva a presentida cilada—era tudo de Satan e queria-me!O pasmo pintou-se na minha cara.—Quero a tua alma! Falta-me na coléção. É por isso que hoje abandonei as ruas das cidades e seus encobertos vicios para subir a esta montanha, que tem o nome de outra, onde prometi tudo e tudo me recusaram. É o nome da derrota. Não sou supersticioso. Tens uma alma de amoroso. Amas pelo Amor. Idealista e sensual, a Fórma bella comove-te como um poema e mais nada. Não tens as crispações dos lascivos. Amas uma mulher e uma estatua da mesma maneira profunda, serena e harmoniosa. O amor não rebenta em beijos violentos, como as folhas das arvores pelas primaveras risonhas—floresce em imagens. Eu, que não posso amar, que soluço angustiosamente pela minha impotencia, quero a tua alma!Quando o Diabo fallou do amor, do negrume da noite que se apoiara já fortemente sobre a cidade e o monte, vi passar, no seu andar musical e casto, tal uma deusa, a Bem-Amada. Foi{159}como se uma via-lactea suave se accendesse e florissem as flôres da terra sobre as estrelas do Ceu...—Não te dou a minha alma.—Vão abrir-se, d'aqui a pouco, na cidade enigmatica, as portas escuras das casas de jogo. Dar-te-hei o segredo de sempre ganhar. Farei correr por ti os cubos amarelecidos dos dados. As pintas pretas far-se-hão olhos e verão onde apontas. As bolas das roletas saltarão por ti nas arestas de cobre... Conhecerás o prazer de ver amontoar na tua frente as notas e as moedas de oiro, de observar, ironico, os rostos, que a angustia encarquilha, dos jogadores que perdem. E os sobresaltos do banqueiro, imovel, mas de olhar esgazeado, far-te-hão rir...—Que importa? Jogarei com os sorrisos que brincam nos beiços finos de Livia. Ganharei sempre porque, quer ella sorria ou não, vel-a-hei e, por vel-a, andarei contente...—Ensinar-te-hei os segredos das cotas, dir-te-hei as confidencias que a si mesmos mal ousam segredar os financeiros internacionaes. E farás cair as grandes emprezas que vão dar ao mundo um aspéto novo. Arruinarás povos inteiros, farás baquear os tronos em que rainhas hirtas se assentam, no pavor das revoltas. Serás o ordenador magnifico dos cracks, e, de paiz em paiz, o teu nome correrá, nos fios dos telegrafos, espalhando o sobresalto e a ruina.{160}—Não quero. Basta que o meu nome seja pronunciado n'uma voz suave pela Bem-Amada. Dito por ella, o meu nome vae, de flôr em flôr, espalhar o perfume da sua bocca.—Amas a mulher? Dar-te-hei as cortezãs vestidas de joias, como idolos antigos. Virão, de rojo, abraçar-te os joelhos, como escravas. E dos corpos alvos e brilhantes subirão perfumes que entontecem... Dos seus braços frescos, como as grinaldas que se entretecem com jasmins, fugirão as caricias. Terão vozes magoadas a suplicar beijos. E, mais que as suas joias, brilharão os seus grandes olhos...—As joias são flores mortas, retalhos de astros que sucumbiram... Essas mulheres são como as joias: os beijos puzeram nos seus corações a dureza, a frieza e a geometrica forma das pedras lapidadas. Prefiro, a todas ellas, o gesto lento e curvo da Bem-Amada quando compõe o seu cabello preto.—A mulher carinhosa e pura é como uma flôr sem perfume. É preciso que o vicio lhes ponha um estremecimento. Dar-te-hei aquellas que envenenam a sorrir, que atraiçoam entre duas caricias, a amante que vae surpreender, n'um beijo, o segredo do amante, o segredo que leva á Forca, aquellas que descobriram ineditas lascivias, corrutas e artificiaes, que eu mesmo vestirei com tecidos fantasticos, que espalham um amavío!{161}—Que amavío maior do que ver a Bem-Amada quando descança a face branca sobre as mãos cruzadas, n'um vagaroso gesto cheio de doçura?—Dar-te-hei a alegria e a insaciedade, a embriaguez que exalta, o redomoinho dos desejos que estrangulam, as bocas avidas e perseguir-te com beijos e dentadas, toda a loucura incendiaria, a profanação de todos os cultos, o poder de corromper, os venenos subtis que matam lentamente e de longe, as misteriosas aguas e misteriosos pós, que fazem definhar, como flores que se fanam, as creaturas... Serás o senhor das almas e dos corpos.—Basta-me vel-a guardar, a sorrir-se, a carta que lhe escrevo...—Entregar-t'a-hei! Poderás tel-a entre os braços, morder a boca fina, sentir sobre o teu peito o arfar apressado do seu collo amoroso, ver os olhos cerrar-se como n'uma agonia doce... A sua figura fragil aconchegar-se-ha entre os teus braços, aquecerás a sua frieza, será tua, reconhecida, amorosa, fremente de paixão... Queres? Dá-me a tua alma!Tive um sobresalto, como quem, passeando n'um jardim florido, pisa um sapo:—Não. Basta-me sentir nas noites claras, quando lhe fallo á varanda, o seu olhar cair gotta a gotta sobre os meus olhos extacticos!{162}O creado veiu dizer-me que ia fechar-se o restaurante. A treva escorregava pelo monte. Um clarão vinha da cidade estendida a meus pés. E vago, confuso, o ruido da cidade com os seus vicios, seus tumultos, o cio que começava.Desci. E, a acompanhar-me, senti a Bem-Amada, perto de mim, carinhosa, a olhar-me longamente com os seus largos olhos pretos.{163}A PRINCEZA PERDIDAAO SR.JOSÉ DESOUSAMONTEIRO.{164}{165}A PRINCEZAPERDIDAN'aquella serena tarde de primavera, a princeza descera com as pequeninas aias e a camareira-mór as escadas de marmore branco e de marmore roseo do sumptuoso palacio real.Era n'uma côrte de complicada pragmatica. Os movimentos eram feitos consoante regras antigas; cada passo, cada mesura, cada sorriso, vinham marcadas no grosso livro que um mordomo-mór colligira, a exemplo do que fizera um imperador bysantino.Apesar d'isso, porém, na côrte esplendida havia um pouco de mocidade. E detraz dos leques de varetas rendilhadas, os labios abriam-se em sorrisos os olhos franziam-se, quando estava distante a hirta, camareira-mór.Os bailes tinham solemnidade como os officios divinos; mas as cores frescas das raparigas, a ligeiresa com que dançavam, a graciosidade que florescia nas suas atitudes rapidamente{166}desmanchadas, logo substituidas, davam-lhes o ar de festas.No grande palacio brilhante, as gentes andavam lentamente, como em procissão. No rosto do mais alegre era preciso espelhar-se, sombria, a tristeza que emagrecia a face pallida do rei. Era mister que ninguem perturbasse, com o tenir fresco d'um riso, a dôr real. Se alguma vez as donzellas deixavam passar o riso atravez das rendas finas dos seus leques, logo a camareira-mór intervinha, sevéra, a repreender. Nos tapetes morriam os sons dos passos; os grossos reposteiros abafavam o ruido das vozes. O silencio era eterno, como essa grande e aniquilladora magua que abatera a vigorosa mocidade do Rei.Em tempo, o palacio vibrára com o clamor das festas; as musicas saltitantes riam nas amplas sallas. Os vestidos claros, em cujos decótes os peitos brancos se mostram, sublinhavam a alegria. Um bobo pequenino e monstruoso punha um chocalhar de guiso em cada frase. E junto da Rainha, loira, pallida, delgada, o Rei tambem sorria, a olhar a flôr preciosa e fragil que pelo braço levava, em movimentos musicaes, como uma ave.Junto á sua frescura luminosa, as joias pareciam flores. E o diadema pesado, sobre os cabellos loiros, era como uma aureola maior n'essa cabeça fina.{167}Ella tambem sorria, olhando os olhos escuros do Rei. E pela bocca vermelha havia como um palpitar de beijos. A festa continuava. Havia no ambiente claro de tantas luzes, tantas joias, tantos olhos contentes, uma alegria maior. Vaporisavam-se os movimentos. As rendas tremiam nos vestidos das mulheres, nos gibões de seda dos gentishomens. As conversas d'amor faziam arfar os seios... O Rei e a Rainha continuavam a sorrir-se, como dois amantes rusticos, que se encontram na vinha, por um suave outomno.Uma noite, porém, a dôr entrou n'esse palacio claro. Ligeiros, para não fazer ruido, como sombras, os cortesãos, as damas d'honor, as aias, passavam, murmurando resas, ou trocando, baixinho, as impressões. Era como um ciciar leve de brisa sobre um campo de flores. Os vultos cruzavam-se:—Então?—Na mesma...—Impossivel salvar-se...—O fisico não atina com o remedio...Era a Rainha, que, como certos arbustos que morrem, depois de florir, finava-se ao dar á luz a pequena princeza.A dôr tragica e calada do moço Rei! Nem uma palavra se lhe ouviu da bocca crispada. Nem um grito na luctuosa camara onde carpiam as senhoras da côrte. De joelhos junto{168}ao leito magnifico, onde se postára depois de ter cerrado os largos olhos garços, o Rei chorava em silencio. Os frades diziam monotonamente, como um esvoaçar de insectos, as resas rituaes. Um ou outro soluço, a desolação d'um ai, cortavam a funebre quietude; mas o rei, entre as suas as mãos finas e amarellecidas da Rainha, não tinha um grito, nem uma palavra. Nos labios da morta ainda havia o sorriso, esboçado a olhar para o marido...O Rei mandou retirar a todos do quarto. Quiz elle proprio vestir aquella que tanto amára. Beijou-lhe os olhos de palpebras azuladas, beijou os cabellos, que na imprecisa penumbra, tinham um brilho d'oiro... Outra vez caiu de joelhos.Então as palavras de dôr, abundantes, sairam dos labios tanto tempo represos. Disse-lhe o grande amôr e a grande magua. Prometteu-lhe viuvez eterna; que a sua alma se conservaria fechada, como um relicario, a guardar a imagem quasi divina da mulher primeira amada, unica...Longo tempo se conservou, as mãos frias da morta entre as suas, no quarto silencioso, onde apenas os seus queixumes davam uma nota de vida. No lampadario já se extinguiam as luzes, que, de quando em quando lançavam, altas, dentadas, labaredas azues e d'oiro.A madrugada clara entrou pelas janellas,{169}como um chilrear de passaros. A vida renascia, musical, da noite escura. No coração do Rei a dôr fizera uma sombra eterna.Entre os brandões acesos levaram o cadaver, vestido por mãos mercenarias, que as do Rei nem tinham forças para o peso dos anneis...Filas de bispos mitrados, graves e compungidos, seguiam o feretro atravez as ruas da cidade e por estradas risonhas, até o convento magnifico em cuja egreja jaziam todos os numerosos reis e rainhas da casa real; seguiram os fidalgos como seus escudeiros de lucto; seguiu, commovido, o povo, que pranteou a morte d'aquella que fôra linda e nas ruas sorria ás criancinhas pobres, que lhe pediam a benção...Era uma comprida fila que se perdia nas corcôvas da estrada. As confrarias, os conventos mandaram os irmãos e os frades, com as insignias. E áquelle radioso sol d'agosto, que punha na athmosphera uma tremura, tudo resplandecia, como uma apotheose. Brilhavam as lanças, brilhavam os ouros, brilhavam os báculos e sobretudo refulgiam as insolitas pedrarias dos bispos, caminhando magestosos e tristes. E o psalmejar dos padres, ouvido ao longe, perdia a nota de lamento: era como o ultimo echo d'um canto de victoria, no dia glorioso...No palacio quasi deserto, o Rei ficára no quarto vazio. Como arredal-o de lá? De joelhos{170}ainda, pensava talvez ter entre as suas mãos os dedos finos da Rainha morta. De quando em quando um soluço parecia estalar a garganta. E as lagrimas desciam pela face, iam morrer na barba perfumada.Olhava para o grande espelho, onde a Rainha costumava ageitar, á noite, os cabellos fartos. Lembrava-se de ter alli visto o gesto gracil, aquelle pó d'oiro, e o corpo que tinha a frescura e a elegancia d'uma flôr que vae a desabrochar. Porque não guardam os espelhos as imagens reflectidas? Teria alli, viva, a Rainha, na attitude de compôr as sedas das suas tranças... Mas os espelhos deixam tudo escapar. Assim os lagos não guardam, no seio ligeiro, voluvel, o vôo curvo das pombas que fogem...E para alli se quedava, vivendo do passado, como um velho... Que importava que as guerras na fronteira distante assolassem o paiz? Que tinha que os povos gemessem, que as catastrophes aluissem as cidades fulgentes ao luar e ao sol nas suas cathedraes preciosas, que os rios, saltando os leitos, invadissem as aldeias claras? Que importava a vida se elle só vivia da morte? Mergulhassem os outros no passado os olhos cubiçosos e vivessem de tanto explendor de batalhas e de riquezas que listravam de clarões a historia do reino afortunado. Na miseria presente, que se recordassem!{171}A propria princeza entre as mãos das açafatas, delicada e linda, ia vivendo, nos grandes olhos verdes, uma tristeza, como quem sabia... No palacio sevéro, lugubre, sem os tinidos das alabardas e os mantos que formavam lagôas, nas alcatifas, ninguem se via. E ella, a pequena princeza, não aprendera a rir e tambem não chorava.Uma vez ou outra, ao atravessar silencioso e só as camaras, o Rei via a princeza; machinalmente as suas mãos pallidas passavam pelos cabellos loiros da filha. E seguia, taciturno, sempre diante de si a imagem d'aquella que morrera a sorrir e o esperava na crípta silenciosa do austero templo gothico.Ensinavam as aias á princezinha, não relatos crueis de contendas, nomes temidos dos reis seus avós, mas historias maravilhosas. Diziam-lhe que á noite, os grandes calices das magnolias abriam-se, com um ruido musical. E de dentro saiam côrtes de fadas minusculas, vestidas com mantos tecidos com raios de luas-cheias. Pelo parque andavam livremente entre as roseiras explendidas... Contavam-lhe que á meia-noite, as arvores se desprendem da terra e vão beber, como os gados, ás limpidas ribeiras. Ella sabia que entre si os animaes falavam, as andorinhas nos bicos dos telhados, os cisnes brancos nas lagôas azues, os pavões sobre as arvores, quando espalmam as enjoalhadas{172}caudas, as pombas brancas á beira dos poços, sobre o marmore polido.Conhecia os trabalhos ligeiros dos gnomos, que nas cavernas escuras trabalhavam o oiro e o ferro; distinguia os alfagemes, que afiam as espadas mortiferas, e os ourives, que afilagranam os metaes.Diziam-lhe as lendas floridas dos amantes, de cujos tumulos saem sorrisos carregados de rosas, que n'um arco perfumado se abraçam a misturar os perfumes...Mas a pobre princeza, apenas nubil, não conhecia a Vida, nem o Amor, nem o Riso.Um dia, pois, a princeza, com as pequenas aias, desceu ao jardim do sumptuoso palacio.Misterioso por tantas sombras, tantos caminhos que se contorciam por entre rugosos troncos, tantas aguas que cantavam nos marmores brancos, tantas flores que dentre a verdura perfumavam...De socalco em socalco abriam-se, em leques, as escadarias; saltavam as aguas das cascatas, despenhavam-se as trepadeiras floridas, rastejavam as hervas, rosas de toucar e jasmins lançavam os ramos frageis.Junto ao palacio o jardim era cuidado, como uma cabeça garrida. As largas flores espargiam os aromas; os repuxos finos esguichavam fios de prata, pelas ruas areiadas passavam, magestosos os pavões solemnes... Mas depois, começava{173}a floresta. As altas arvores luctavam, estorcidas: algumas subiam, magras como pedintes, n'uma aspiração, muito direitas para o sol. Outras torciam-se, esta sem forças, esgarçava-se mirrada. E a hera crescia, vestia os troncos, até nas arvores secas vicejava, como uma mascara risonha n'uma face de morto. Alguns troncos de seculares carvalhos continham grutas escuras. E os passaros, dentre os galhos, ao ruido dos passos, levantavam vôo, alvoroçados.Era o «Caminho das Rosas», que alli levava. Rosas de toda a côr: ensanguentadas, brancas, côr de mel e de marfim, côr de carne, rosas para florir peitos de danados e para tranças de primeiras commungantes, rosas que abrem chagas no verde das roseiras, outras que chamam beijos, como colos nus em festas illuminadas, rosas que teem toda a pureza d'uma noiva, outras toda a garridice d'uma amante, rosas para tumulos, brancas, mortas quasi, rosas cheias de vida, que pareciam querer saltar das hastes, e offerecer-se, lascivas...Vinha do seu conjuncto um perfume entontecedor. Por tanto aroma lançarem no ar, nas noites quentes d'agosto, algumas damas da côrte caiam, em deliquio. E todas tinham medo d'aquelle portico encantado, que parecia abrir para um paraiso, mas que podia descer a algum abismo.{174}Foi para ali, que, correndo atraz d'uma borboleta, se dirigiu a princeza. Em vão lhe prenderam as vestes de seda os espinhos das roseiras, em vão a chamaram as pequenas aias; mesmo foi debalde que a voz secca da camareira-mór gritou por ella, entre respeitosa e auctoritaria. A princeza, a rir, córada, continuava atraz da grande borboleta, deixando tiras de seda nos galhos em flôr que, sacudidos, lançavam sobre a sua cabeça petalas finas.Ninguem, comtudo, se atreveu a ir atraz d'ella.Corria no palacio e na cidade uma lenda extranha sobre a floresta, que continuava o jardim, depois do perfumado «Caminho das Rosas».Dizia-se que n'uma epoca remota, no tempo em que pela cidade luminosa e culpada ainda passavam os santos ensinando a Lei e edificando as gentes, governava o reino uma rainha pagã. No jardim murmuroso e claro havia fremitos de beijos. Nas aguas dos tanques brilhavam corpos ligeiros. Nas sallas que as tochas e os lampadarios illuminavam, mulheres quasi nuas dançavam levemente ao som de musicas alegres. E o vinho levava das taças lavradas ás boccas vermelhas a alegria e o Amôr.Por toda a parte havia flores, havia risos, havia festas. Os cavalleiros, nas justas, paravam; morriam as scentelhas em que ardem as espadas no choque dos combates, e das boccas{175}frescas saíam vozes a cantar a formosura das florestas, a elegancia das mulheres, a limpidez das aguas cantantes.Um dia, um santo bispo entrou, andrajoso e cançado, a pedir pousada; a rainha, ao vel-o tão miseravel, mandou-o recolher no canil, com os creados das matilhas. Os cães, piedosamente, foram lamber os pés em sangue do santo homem.Mas a Rainha não o quiz receber. Como de S. João Baptista, as palavras subiam para as portas, asperas e condemnatorias. Toda a noite a sua voz rude annunciava o castigo.A Rainha, cançada de ouvir a voz rouca, mandou-o açoitar e expulsar do palacio, em que reviveu a alegria. Mas durou pouco, porque um dia uma lingua de fogo saiu da terra, e agitou-se no ar, de sangue e oiro; espavorida, toda a côrte fugiu, para não mais voltar, para a floresta misteriosa, que ninguem sabia ao certo onde acabava.E todo o reino teve medo, como d'um inferno, d'essa floresta que começava por uma extranha floração de rosas e terminava porventura pelos eternos gelos, pelas labaredas, talvez...Por ali seguira a princeza, a rir-se. Em vão o Medo guardou durante seculos a misteriosa entrada. Em vão as rosas se agitaram, como turibulos, para a entontecer com o perfume, e os galhos a prenderam, e os espinhos lhe rasgaram{176}as rendas e as sedas. Foi correndo. A borboleta enorme parecia uma joia a fugir por entre as flores. A princeza era como uma ave, delgada e linda, atraz d'ella.Subitamente a paisagem modificou-se. Do dia glorioso que estava no jardim do palacio, nasceu um crepusculo doirado, como um velho damasco amarello.A luz parecia um convalescente a rir-se por cima das arvores, pelos tanques quietos, pelos marmores. E as folhas das arvores tremiam fazendo brilhar os filamentos d'oiro. As flores tinham todas um aroma ligeiro, como os frascos de perfumes, que durante longos annos se guardam, vasios, nos armarios fechados. Eram brancas todas as rosas e as petalas enrugadas, como pelles finas de velhas, que viveram nos claustros, entre cosmeticos.Quando a princeza deu pela mudança da luz e da paisagem lembrou-se da lenda pavorosa que afastava as gentes da floresta e do Caminho das Rosas.—Onde estão as linguas avidas do fogo? perguntava-se. Onde os gelos que prendem e matam? Onde os dragões?A paisagem era toda serena e d'um riso triste. Dir-se-iam anemicas as flores palidas, as anemonas de seda velha, de cera transparente, que por toda a parte deixavam cair, de cançadas, as petalas finas. E nos caminhos a areia preta{177}era crusada pelos veios das hervas rasteiras, coberta pelos galhos dos arbustos, aqui sacudiam-se rosas, alem os geranios frescos. Pelos troncos direitos das arvores a hera enroscava-se, a subir. Nas curvas dos tanques, dormiam os nenuphares. Nos marmores dos poços as trepadeiras cobriam os lavores. Havia um silencio leve, por onde perpassava o espirito d'um canto, como um aroma que a brisa traz de longe.Os templos tinham as portas abertas. A princeza para elles entrou, a medo, a espreitar, afastando os loureiros e os mirtos, que quasi fechavam a entrada.Ninguem. Apenas os deuses de marmore, calmos, esperavam as oferendas. Mas as aras dos sacrificios tinham humidade da lavagem recente. As cinzas eram quentes; no templo d'uma deusa havia grinaldas de rosas e pennas de pombas brancas soltas pelo chão.Alguem ali vivia, pensava a princeza. Mas quem? Genio malfazejo, que a mataria, ou fada carinhosa? Seria ali que nas noites claras virião passear as côrtes sumptuosas que moram nos calices das magnolias?Habituada ao silencio sombrio da côrte não a inquietava aquelle silencio leve. E continuava a explorar a encantada floresta, onde parecia agitar-se um simulacro de vida.Como um coração que vive da saudade dos{178}tempos remotos, assim ali parecia existir a repercursão d'uma vida antiga. A cada passo a princeza encontrava signaes de sandalias, flores cortadas, uma fita, indicios de vida. Mas d'onde partiam? Quem os deixava?Viveria ali, n'aquelle paiz de luz anemica, uma côrte de feiticeiras tragicas, que esperam, para sair das cavernas, as badaladas lugubres da meia-noite? Mas não. As feiticeiras escolhem as montanhas altas e escarpadas onde chegue o canto soturno do mar revolto, sem arvores que impeçam o vôo incendiario das blasphemias e das imprecações para o ceu sem lua e sem estrellas.Ia caminhando a princeza. Via ribeiros claros que escorregavam sobre seixos brancos; lagôas azues, fachadas de templos, quincuncios bordados por buxos altos. E as ruas seguiam entre filas d'altas arvores formando tunel, até serem cortadas por novas ruas, com arvores ou flores.Cançou-se a pequena princeza. Um vago terror a invadiu. Quiz regressar ao palacio, mas não podia. As ruas d'arvores, os templos, os ribeiros, as estatuas, sucediam-se. Parecia-lhe estar n'um complicado labirintho. Como conseguir o magico fio?Uma noite, que parecia artificial, espalhara-se pelo ceu e envolvia as coisas. Á tonalidade doirada, succedia uma tonalidade branca,{179}como se tudo fosse feito de prata. A princeza sentou-se n'um banco, a chorar.Ouviu de longe como um passar de brisa leve por harpas suspensas em arvores. Escutou. Era um canto que um côro fazia subir, ligeiro como um fumo. Mais se approximava. As vozes eram cançadas, mas limpidas. Cantavam a vida e as festas, o rir das flôres, a alegria das arvores na primavera.Cada vez se approximavam mais. Dirigiam-se, certamente, para o sitio onde ficára a princeza, um jardim junto d'um templo de marmore verde.Já via as canephoras, com açafates de flores, seguidas pelas escravas com tamboretes; depois a numerosa theoria de mulheres, com archotes, que, ao queimar-se, illuminavam e perfumavam. Não havia homens. Certamente que vinham para a festa atheniense das Thesmophorias.Eram as habitantes da floresta. Caminhavam lentamente, as cunharicas fluctuantes sobre as tunicas amarellas. As hidrophoras traziam as urnas na cabeça. N'um gesto gracioso, seguravam-as com uma das mãos; os braços nus eram tão brancos como os marmores transparentes das urnas.Quando viram a princeza, medrosa, a esconder-se entre as arvores, a procissão parou, as vozes calaram-se, a meio do canto.{180}Em voz baixa concertavam entre si a resolução a tomar. A princeza ouvia apenas um zumbido confuso, como os das abelhas, quando nos dias quentes se cruzam pelos jardins floridos. Colada a um tronco, palida como um ex-voto de cera, viu com pavor approximar-se d'ella uma das habitantes da floresta. Era porém, tamanha a sua beleza e a sua gracilidade, que o medo tombou do espirito da princeza. Pensava-se ver uma haste florida a andar. Vagarosa, os seus gestos curvos e lentos pareciam fazer nascer no ar quieto uma harmonia...—Perdi-me aqui! Perdi-me aqui!—D'onde vens?—Do palacio. Sou a princeza. As minhas aias não se atreveram. Eu corri para apanhar uma borboleta. A borboleta fugiu. Fiquei sem saber onde estava, que caminho tomar. Isto é tão lindo! Mas faz tanto medo não se saber onde se está!—E queres voltar? Deixaste teu pae e tua mãe...—Minha mãe morreu. Meu pae não o vejo... quasi nunca. É um velho triste e duro, que não fala... Tenho medo da camareira-mór. E as aias estão a chorar ás escondidas d'ella como sempre... A vida é triste, triste, no palacio...—Preferes ficar comnosco?A boca fina pareceu sorrir-se. A princeza olhava para as mais que se tinham acercado.{181}Eram todas lindas e moças, mas sem frescura, como as rosas que abrem pelas chuvas e ventanias.—Se me quiserem. Se me quiserem.—Pois ficarás! Ficarás! Vem comnosco!Poz-se em marcha o cortejo, novamente. Entraram no templo com a princeza.E a princeza ali ficou, porque nos rostos se conservava a mocidade e não havia a dôr, nem o constrangimento. Tudo era claro e sereno. E não voltou mais ao palacio, onde as aias choravam e a camareira-mór, seca e hirta, tinha uma voz esganiçada e autoritaria.{182}{183}NOITE DE FESTAA ARMANDONAVARRO.{184}{185}NOITE DEFESTAEra o jantar de despedida de Dowanov, que partia para o Mexico, promovido a ministro. Jantar de secretarios de legação, que formam uma confraria, para, na critica dos chefes, tirar uma consolação do exilio, correra um pouco triste.A minha intimidade com o novo plenipotenciario, que viera da communidade de vistas sobre a numismatica bisantina, abrira em meu favor uma excepção.No pequeno gabinete do Avenida Palace, a conversa versára sobre diplomatas e postos. Dowanov, como todo o bom russo, suspirava por Paris, onde estivera adido. Contava as suas tribulações junto do embaixador solemne e desdenhoso, que, sabendo-o apaixonado por corridas, nos dias de steeples e handicaps sensacionaes, sob pretexto de serviço o mandava chamar com urgencia, mas realmente para o impedir de divertir-se em Auteil e Longchamps.{186}Apesar de tudo, porem, sorriam-se-lhe os olhos ao lembrar-se das pequenas colhidasun peu partout.A minha presença não permitia as confidencias sobre a monotonia da pequena cidade da provincia que é Lisboa. Havia um constrangimento. Por isso falaram de companheiros, indicaram silhuetas vistas um momento, logo esquecidas.—O que será feito d'esse roliço Kordst, que estava, no meu tempo, encarregado de negocios em Bucharest? Nunca mais soube d'elle? Devia ter morrido da falta d'um bilhete. Lembro-me que ia provocando uma questão internacional, porque o ministro d'Austria, ao apresentar-lhe o adido russo, disse primeiro o nome de Kordst. Moravamos no mesmo hotel. Foi procurar-me apoplético:—O que terá contra mim o ministro d'Austria? Não lhe fiz coisa alguma!... Não me lembro. Ainda hontem, na recepção, lhe dei o meu logar no sofá!...—Kordst? Com o amor que tinha aos bilhetes de visita, fez-se litografo, provavelmente... Sabem de Camusot, o adido militar francez, que tinha uma mulher que andava aos saltos, como uma pêga? Não conheceram? Você, Poliano? Não me disse que tinha estado com elle em Vienna?...—Não. Encontrei-o em Roma. A mulher realisava{187}o typo perfeito dagaffeuse... Em que liquidou?—Croupierde batota, em Spa... Tinha ar... Um dia, no Jockey, perceberam que corrigia a sorte, no baccará.—E Blumen, o chanceller da embaixada allemã, que conheci, de relance, em Madrid?—Em missão junto de Menelick. Emborracha-se com o Negus, formidavelmente, com cerveja de Munich. Tem a simpatia dos ras; ouvi que iam crear em sua honra a ordem do Bock, na Abyssinia...—Era o intimo do conde de Strifforth... Que é feito de Strifforth? Herdou já opeerage? Diziam-o muito considerado no Foreign Office. Pensou-se n'elle para sub-secretario de Estado...—Nunca lhes contei a morte de Strifforth?—Morreu?—Vi-o suicidar-se. Acompanhei-o nos ultimos dias. Foi em Sevilha. Tinha-o conhecido em Londres, no seu ultimocongé; quando fui promovido para Madrid démo-nos muito ali. Morreu d'uma maneira singular, n'uma festa da marqueza de Carrillos, na sua quinta de Eritaña... A melhor festa de Hespanha... A mais elegante e romanesca; dava a sensação da embriaguez d'uma boneca de Saxe, n'um Walpurgis. Havia feiticeiras novas, ou melhor, ninfas. A quinta é deliciosa, um pouco acima{188}de Sevilha; o rio corta-a e para passar d'um lado a outro ha pequenas gondolas com camaras para duas pessoas sómente. A Carrillos, um pouco artista, um quasi nada doida, levou uma ranchada de gente para o seu palacio, do tempo de Pedro, o Cru, para uma festa de mascaras pela Piñata. Era tudo gente nova, salvo uma ou outra mãe que ia fazer a decencia. Mas achavam-se deslocadas no meio da nossa alegria e, intelligentemente, retiravam-se para sensacionaes partidas de bridge. Só nos viamos ás refeições. Umapartydeliciosa, que acabou n'uma tragedia, um pouco deguignol dernier bateau, entre musicas leves... É melhor contar tudo, ab ovo...—Sim... Desde o congresso de Vienna. O pae foi secretario d'um dos plenipotenciarios inglezes...—Ainda de peito?—Não. Strifforth era filho de velho... Isso explica muito o seu temperamento.—Vá, psicologo!—Este Mumm não me diz nada! Traga Montebello! É um pouco da Carreira.—Por afinidade?—Então o antigo embaixador?—En disgrace?—Sim. Ao quarto filho da czarina elle criticou:—«Ce n'est pas une femme—c'est une pondeuse!»{189}—Conta a historia tragica!—A marqueza de Carrillos levára a sua filha, aquella inquieta Mathilde, noiva por sport, tecendo e desarranjando os casamentos, como Penelope a famosa teia. Para ella não havia flirts: tudo noivados. É possivel que, de a experimentar tanto, a grinalda nupcial estivesse já enxovalhada. Conheceu a Carrillos? Você? Você? Ninguem? Fina como umaflûtede cristal cheia de champagnemousseux, ondulosa, sempre pronta para o ataque e para a resposta, fazia a chuva e o bom tempo na sociedade, e tinha um dom especial para pôr alcunhas que logo faziam o giro de Madrid e crismavam as creaturas. N'um dos seus numerosos noivados a mãe, oppondo-se, disse-lhe:—«Que sogra vaes ter!» A Mathilde, sem pestanejar:—«E elle, mamã? E elle?» A marqueza ria-se perdidamente com os ditos da filha, regosijando-se:—És digna de mim!—E Strifforth?—Lá vae. Ora fez-se a festa. O costume Luiz XV era de rigor. Por uma noite estrellada, espalhámo-nos pelo jardim. Pelas janellas do palacio corriam grinaldas de fogo dasbandes souplesque as ligavam. Eram tulipas de todos os córtes que d'entre a folhagem se uniam, pondo um traço florido entre o incendio que vinha das multiplas janellas abertas sobre o parque e sobre o caes. Pelos troncos{190}das arvores envolviam-se em espiras as serpentes luminosas, marchetadas, e abriam-se em mil luzes nas copas, davam, ao longe, o aspecto de uma joalheria que ardesse na noite quieta e calada, essas noites amorosas da Andaluzia em que tudo parece estacar n'um beijo supremo... Pela margem do rio a mesma florescencia, mergulhando na agua, dando ao rio a aparencia fantastica de um ceu que se afundasse.De repente musicas invisiveis tocaram as melodias leves,gavottessuspiradas, em que ha um pouco de amor, um pouco de dança, como num flirt. E do escuro d'uma angra moveram-se gondolas ligeiras, em que ardiam e estremeciam largos balões venezianos.Os remadores, ensaiados, iam quasi ao compasso ligeiro dasgavottes. Tinhamos a impressão d'uma dança de gondolas, um sonho estranho de veneziano, pelas horas misteriosas em que as coisas inanimadas tomam vida. Do levantar dos remos das aguas, saltavam cintillações de pedrarias. E a linha tortuosa de balões augmentava o incendio, na vibração de tantas reluzentes joias a agitarem-se na agua do rio... Fomo-nos metendo nas gondolas. Osnoviosacolheram-se prestes ás gondolas mais pequenas. Uma maior levou muitos de nós, descazalados, a Mathilde Carrillos, Strifforth, a condessa de Valdelar...{191}—Conheci-a em Roma...—O marido foi gentil-homem do Papa. Preciso falar d'ella. Foi a principal figura d'este drama. Typo de hespanhola? Não. Mais italiana do que hespanhola, com uns largos olhos pretos, cheios de doçura. O seu gesto era harmonioso e curvo, sem uma aresta, sem um angulo, uns nascendo dos outros sem solução, como as frases d'uma melodia. Tinha-se, ao vêl-a, a sensação de que se ouvia uma musica dolente, vagarosa. E os proprios olhos moviam-se lentamente, como pesados de tanta luz e tanta belleza...Enigmatica, guardando n'um jardim encantado a sua alma, ninguem prudente ousára definil-a... Poetica talvez, ou simplesmente aborrecida, fugia em S. Sebastian do Casino e do Hotel du Palais e ia, á tarde, só, vêr as crispações do poente nas vagas que eriçam de espuma o mar azul.Sentava-se n'um dos rochedos, ás vezes desenhando, outras a cabeça a descançar na mão, e ali se quedava a tarde inteira, alma talvez de sereia a chorar pelo mar, a querer aprehender no perfume da brisa, alguma palpitação do oceano.Nenhum de nós se atreveu nunca a interrompel-a, apezar da attracção que todos sentiamos pela sua figura gracil como uma amphora, da suatoilette, de toda a elegancia pessoal e do{192}misterio da alma ávidamente guardada... Strifforth apaixonou-se por ella. E, solitario, deixando as excursões amiudadas que fazia ao Casino de Biarritz, andava de barco para vêr, isolada no rochedo, sem uma tristesa na face, a condessa de Valdelar, certamente a mais formosa, a mais perturbante das senhoras de Madrid.O conde de Valdelar ficava no hotel, gottoso, na leitura de livros licenciosos, que salpicava de casquinadas nervosas, irritantes, indifferente á belleza e á alma da mulher. Strifforth conhecia-a e procurava todos os raros momentos em que ella apparecia, de manhã na praia, á tarde no boulevard e, uma ou outra vez, pelas grandes festas, no Casino, que atravessava n'um andar leve, dando-nos a sensação que tinha azas que a sustentavam. Nada lhe permitira ainda uma declaração. A condessa fallava-lhe, como a todos nós, em coisas indifferentes, em festas, touradas, partidas de tennis, impressões rapidas de viagem e deixava-o sem pressa, mas sem pezar, absoluctamente correcta. Elle fallava-lhe do mar, mas a condessa tinha uma phrase banal, mudava d'assunto, como se tivesse pudor d'esse sentimento, que parecia absorver toda a sua vida. Foi n'esse tempo que Strifforth começou a picar-se com morphina difficilmente adquirida, a beber perfumes, com horror aos cognacs,{193}e a arrastar uma vida d'automato, sempre com esperança de a vêr, de lhe fallar. E, em a encontrando, pousava sobre ella os olhos tristes, largas horas, inconvenientemente.Em Madrid, todo o inverno foi assim, com menos occasiões de a vêr, porque a condessa frequentava pouco o Retiro e a Castellana e raramente aparecia na sociedade, demorando-se o bastante para não parecer aborrecida, mas saindo logo, com um tacto perfeito. Á vida escondida da condessa correspondia uma outra vida secreta de Strifforth, ebrio, em desesperos que o alcool longe de adormecer intensificava, fugindo a tudo o que fôra d'antes o seu enlevo, até do Museu do Prado, onde ia todas as manhãs—á minha missa, dizia elle—para vêr os Velasquez e os Grecos... Mas, quando tinha que ir a alguma parte com esperança de encontrar a condessa, o meu amigo não bebia para poder gozar inteiramente a presença e a voz d'aquella que amava. Depois a embriaguez exagerava a impressão, dava-lhe, quasi real, a presença da Valdelar. Meteu-se no ether, alem da morphina e dos frascos de perfume—Parece que como flores, explicou-me—arruinando por completo a saude, tornando mais agudas as crises de desesperos, mais asperas, pelo enigma que para todos nós era essa mulher esplendidamente artificial, que trazia uma mascara na sua face calada. Coquette? Decerto,{194}mas egualmente para todos, porque os seus movimentos eram regrados por uma musica ineffavel. Mas talvez coquette só para si, porque nem um só olhar ou palavra auctorisou ninguem a dizer-lhe um galanteio atrevido.Fallou-se na festa da Carrillos, organisou-se a lista, e Strifforth, que não tinha relações com a marqueza, logo que soube que a Valdeler era da partida, solicitou, pondo de parte sem hesitação o seu orgulho exagerado, uma apresentação e um convite, logo alcançados, não só por ser muitochoyé, mas tambem porque transpirára a paixão e todos se interessavam pelo pobre rapaz, havendo até censuras á Valdelar, que de nada era culpada.Fomos n'um expresso vagaroso, atravessando desoladas paisagens, até Sevilha. Não conhecem Sevilha? É a cidade mais feminina e voluptuosa que conheço.Á tarde, vista da Giralda, ella se nos oferece, nua, ondulosa, apenas com a cinta azul do seu rio e as joias das cupulas e das janellas que scintillam ao poente. Parece que estaca o movimento, e que, na alcova enorme que é a planicie, Sevilha se estende, com flôres no cabello e uma volupia extrema em todo o seu ser. Anda no ar um amavio. Tudo nos falla d'amor sensual e quente, até os olhos largos das sevilhanas, que parecem recortados n'esses enormes amôres perfeitos de velludo.{195}Foi ali que tivemos a festa de que lhes fallei. Imaginem que na margem esquerda, a dois kilometros da quinta da Carrillos, ha umaventa, cuja varanda se debruça entre trepadeiras, sobre o rio. A marqueza tomára-a sem custo por sua conta e alli varias musicas nos tocaram, nãogavottesleves, mas doridas malagueñas em que se arrasta um langor, como um beijo em que toda a alma succumbe. Um jacto de luz inundou a gondola. A condessa levava as mãos dentro de agua, curvada ella propria para o rio. Strifforth ia sentado sobre a borda. Deixou-se escoar vagarosamente.—Caiu um!—Strifforth!Logo os braços se estenderam, um dos gondoleiros deitou-se á agua e poude tirar Strifforth, todo ensopado no seu fato de seda.—Borracho! Borracho!Mais vous êtez ivre! Dites!—Strifforth, não bebera uma gotta. Eu ficára proximo d'elle. Os musicos não tinham dado por nada. A musica continuava dolorosa e amorosa. A gondola seguiu, deixando o traço de luz que brilhava e se quebrava d'encontro ás leves vagas. Houve risos. Rodearam-o com grinaldas. A Valdelar teve, como os outros um riso.—Escorreguei!... explicou apenas o conde. Mais adiante, porem, já a musica se ouvia em surdina, Strifforth deixou-se cair outra vez.—É demais! Está bebedo! gritaram. As{196}cabeças empoadas inclinaram-se novamente para a agua. A Valdelar, que tornára a mergulhar no rio os braços nus em que escorriam as rendas molhadas, ao sentir a queda, agarrou-o por um braço, indiferente. Strifforth, porem, deu um vigoroso impulso e desprendeu-se d'ella...Houve um panico. Foram buscar archotes. Não calculam o macabro das nossas figuras depetits-abbése gentishomens procurando, nos barcos, que de tanta luz pareciam incendiados, um homem que se queria suicidar. Os gritos cruzavam. Das pequenas gondolas surgiam vultos negros iluminados á maneira d'um Rembrandt que tivesse adivinhado Turner e Whistler, em chapadas de luz multicôr. Na nossa gondola um borborinho correra. Alguem desmaiára, até. As cabeças empoadas agitavam-se. Ao longe, as malagueñas continuavam num suspiro lascivo e preguiçoso. A Valdelar voltára á sua primitiva posição: brincava com a agua, que lhe passava entre os dedos abertos, pondo-lhe aneis que fugiam, logo substituidos. Não tornamos a saber de Strifforth. O cadaver nunca apareceu.{197}

AO SR.BARÃO DES. PEDRO.

{154}{155}

Na tarde de agosto quente, fugira de Barcelona para a escalvada montanha que a fanfarronada hespanhola bátisou de Tibidabo, o sitio da Judeia onde Satan prometeu a Christo as grandezas do Mundo e os fulgores do Peccado.

O monte levanta-se, precipitadamente, do fundo da planicie em que Barcelona ondeia. E querem dizer talvez na sua os catalães, que Satanaz ergue as creaturas que quer tentar e, firmando-as nos cimos d'este monte, oferece-lhes a cidade, imagem brilhante dos esplendores mundanos.

Sob o toldo do restaurante deserto me acolhi, a sentir a brisa preguiçosa. Espalmava-se em baixo a cidade. Corriam as suas avenidas arborisadas, as «Ramblas» que se seguem como uma bicha, e a «Gran-Via», a infindavel «Cortes», que corta Barcelona em diagonal. Quedava-se o Parque enorme e, ao fundo, n'um vago de nevoeiro,{156}o mar azul, riscado pela linha cinzenta da doca, onde os navios acolhidos eram imoveis.

Vinha caindo a tarde sobre as raras torres das egrejas. Brilhavam um a um os bicos de gaz e as janellas em que o poente puzera uma luz de oiro.

Longo tempo ali estive. Sonhei? Foi real? Não sei.

Um mancebo pallido e triste abeirou-se de mim:

—Vês a noite a cair? D'aqui a pouco as ruas vão brilhar do fremito luminoso dos desejos das multidões. A cubiça e a luxuria porão brazas nas almas que incendiarão os olhos. As mulheres mostrarão nos bailes e nos theatros o maculado esplendor dos seios perfumados. Nos mostradores das lojas, á luz das lampadas electricas, as joias farão percorrer nas mãos desejos de roubo. A Besta ergue-se—olha como se ilumina a cidade! Vês um clarão que nasce, sobe e se perde no Ceu? Julgas que é dos candieiros? Não, é das almas! é toda debruada de vermelho como as chamas dos incendios. Como é bella a cidade quando é culpada!

Voltei-me para o mancebo, tranquilamente. Vi que era o Diabo. Não que tivesse chifres ou cheirasse a enxofre, mas pela belleza triste, de quem conhece tudo. Não lhe tive horror. O Diabo{157}é o gnomo subtil que trabalha na sombra as filagranas das tentações. É o Diabo que amontôa as cidades, inspira os artistas, empurra o homem para as civilisações que apodrecem e brilham.

Não lhe respondi... N'um fogacho violaceo, o sol apagára-se no mar. Era tudo cinzento. Pelos canaes das ruas, por entre as arvores, n'uma sombra mais densa, cintillavam os bicos e os mostradores das lojas.

O Diabo continuou:

—Quero a tua alma...

Olhei-o atonito. Para quê a minha Alma? O grande colecionador tinha um museu estranho em que brilhavam todas as taras possiveis. Assassinos vulgares, ladrões de taberna, mães que vendem as filhas, incestuosos, ganindo de luxuria, velhos abades macerados e corroidos pelas disciplinas, que as ilusões vãs de Satanaz venceram, bispos, cardeaes simoniacos, todos os pecados que se engastam como gemas e possuem um fulgor lugubre, como se as pedras dos diademas ardessem nas cabeças, as gargantilhas nos pescoços, as manilhas e pulseiras nos braços, os compridos cintos nas cinturas! Satan tudo possuia, tragicos homicidas, capitães que entregam os seus soldados, reis que mancham os altares, velhas dementes que ululam nas monstruosas orgias, rojando pelo chão os cabellos pintados, crispando as boccas maquilhadas{158}nos espasmos lancinantes, poetas que arrastam a lira pelos lameiros, virgens que se vendem sem amor e sem vicio, toda a constelação dos sete pecados, como sete soes nocturnos, envenenados pela treva, corroidos pela lepra, um museu formidavel, sombrio, apesar de todos os brilhos, frio e angustiante, como um corredor que leva a presentida cilada—era tudo de Satan e queria-me!

O pasmo pintou-se na minha cara.

—Quero a tua alma! Falta-me na coléção. É por isso que hoje abandonei as ruas das cidades e seus encobertos vicios para subir a esta montanha, que tem o nome de outra, onde prometi tudo e tudo me recusaram. É o nome da derrota. Não sou supersticioso. Tens uma alma de amoroso. Amas pelo Amor. Idealista e sensual, a Fórma bella comove-te como um poema e mais nada. Não tens as crispações dos lascivos. Amas uma mulher e uma estatua da mesma maneira profunda, serena e harmoniosa. O amor não rebenta em beijos violentos, como as folhas das arvores pelas primaveras risonhas—floresce em imagens. Eu, que não posso amar, que soluço angustiosamente pela minha impotencia, quero a tua alma!

Quando o Diabo fallou do amor, do negrume da noite que se apoiara já fortemente sobre a cidade e o monte, vi passar, no seu andar musical e casto, tal uma deusa, a Bem-Amada. Foi{159}como se uma via-lactea suave se accendesse e florissem as flôres da terra sobre as estrelas do Ceu...

—Não te dou a minha alma.

—Vão abrir-se, d'aqui a pouco, na cidade enigmatica, as portas escuras das casas de jogo. Dar-te-hei o segredo de sempre ganhar. Farei correr por ti os cubos amarelecidos dos dados. As pintas pretas far-se-hão olhos e verão onde apontas. As bolas das roletas saltarão por ti nas arestas de cobre... Conhecerás o prazer de ver amontoar na tua frente as notas e as moedas de oiro, de observar, ironico, os rostos, que a angustia encarquilha, dos jogadores que perdem. E os sobresaltos do banqueiro, imovel, mas de olhar esgazeado, far-te-hão rir...

—Que importa? Jogarei com os sorrisos que brincam nos beiços finos de Livia. Ganharei sempre porque, quer ella sorria ou não, vel-a-hei e, por vel-a, andarei contente...

—Ensinar-te-hei os segredos das cotas, dir-te-hei as confidencias que a si mesmos mal ousam segredar os financeiros internacionaes. E farás cair as grandes emprezas que vão dar ao mundo um aspéto novo. Arruinarás povos inteiros, farás baquear os tronos em que rainhas hirtas se assentam, no pavor das revoltas. Serás o ordenador magnifico dos cracks, e, de paiz em paiz, o teu nome correrá, nos fios dos telegrafos, espalhando o sobresalto e a ruina.{160}

—Não quero. Basta que o meu nome seja pronunciado n'uma voz suave pela Bem-Amada. Dito por ella, o meu nome vae, de flôr em flôr, espalhar o perfume da sua bocca.

—Amas a mulher? Dar-te-hei as cortezãs vestidas de joias, como idolos antigos. Virão, de rojo, abraçar-te os joelhos, como escravas. E dos corpos alvos e brilhantes subirão perfumes que entontecem... Dos seus braços frescos, como as grinaldas que se entretecem com jasmins, fugirão as caricias. Terão vozes magoadas a suplicar beijos. E, mais que as suas joias, brilharão os seus grandes olhos...

—As joias são flores mortas, retalhos de astros que sucumbiram... Essas mulheres são como as joias: os beijos puzeram nos seus corações a dureza, a frieza e a geometrica forma das pedras lapidadas. Prefiro, a todas ellas, o gesto lento e curvo da Bem-Amada quando compõe o seu cabello preto.

—A mulher carinhosa e pura é como uma flôr sem perfume. É preciso que o vicio lhes ponha um estremecimento. Dar-te-hei aquellas que envenenam a sorrir, que atraiçoam entre duas caricias, a amante que vae surpreender, n'um beijo, o segredo do amante, o segredo que leva á Forca, aquellas que descobriram ineditas lascivias, corrutas e artificiaes, que eu mesmo vestirei com tecidos fantasticos, que espalham um amavío!{161}

—Que amavío maior do que ver a Bem-Amada quando descança a face branca sobre as mãos cruzadas, n'um vagaroso gesto cheio de doçura?

—Dar-te-hei a alegria e a insaciedade, a embriaguez que exalta, o redomoinho dos desejos que estrangulam, as bocas avidas e perseguir-te com beijos e dentadas, toda a loucura incendiaria, a profanação de todos os cultos, o poder de corromper, os venenos subtis que matam lentamente e de longe, as misteriosas aguas e misteriosos pós, que fazem definhar, como flores que se fanam, as creaturas... Serás o senhor das almas e dos corpos.

—Basta-me vel-a guardar, a sorrir-se, a carta que lhe escrevo...

—Entregar-t'a-hei! Poderás tel-a entre os braços, morder a boca fina, sentir sobre o teu peito o arfar apressado do seu collo amoroso, ver os olhos cerrar-se como n'uma agonia doce... A sua figura fragil aconchegar-se-ha entre os teus braços, aquecerás a sua frieza, será tua, reconhecida, amorosa, fremente de paixão... Queres? Dá-me a tua alma!

Tive um sobresalto, como quem, passeando n'um jardim florido, pisa um sapo:

—Não. Basta-me sentir nas noites claras, quando lhe fallo á varanda, o seu olhar cair gotta a gotta sobre os meus olhos extacticos!{162}

O creado veiu dizer-me que ia fechar-se o restaurante. A treva escorregava pelo monte. Um clarão vinha da cidade estendida a meus pés. E vago, confuso, o ruido da cidade com os seus vicios, seus tumultos, o cio que começava.

Desci. E, a acompanhar-me, senti a Bem-Amada, perto de mim, carinhosa, a olhar-me longamente com os seus largos olhos pretos.{163}

AO SR.JOSÉ DESOUSAMONTEIRO.

{164}{165}

N'aquella serena tarde de primavera, a princeza descera com as pequeninas aias e a camareira-mór as escadas de marmore branco e de marmore roseo do sumptuoso palacio real.

Era n'uma côrte de complicada pragmatica. Os movimentos eram feitos consoante regras antigas; cada passo, cada mesura, cada sorriso, vinham marcadas no grosso livro que um mordomo-mór colligira, a exemplo do que fizera um imperador bysantino.

Apesar d'isso, porém, na côrte esplendida havia um pouco de mocidade. E detraz dos leques de varetas rendilhadas, os labios abriam-se em sorrisos os olhos franziam-se, quando estava distante a hirta, camareira-mór.

Os bailes tinham solemnidade como os officios divinos; mas as cores frescas das raparigas, a ligeiresa com que dançavam, a graciosidade que florescia nas suas atitudes rapidamente{166}desmanchadas, logo substituidas, davam-lhes o ar de festas.

No grande palacio brilhante, as gentes andavam lentamente, como em procissão. No rosto do mais alegre era preciso espelhar-se, sombria, a tristeza que emagrecia a face pallida do rei. Era mister que ninguem perturbasse, com o tenir fresco d'um riso, a dôr real. Se alguma vez as donzellas deixavam passar o riso atravez das rendas finas dos seus leques, logo a camareira-mór intervinha, sevéra, a repreender. Nos tapetes morriam os sons dos passos; os grossos reposteiros abafavam o ruido das vozes. O silencio era eterno, como essa grande e aniquilladora magua que abatera a vigorosa mocidade do Rei.

Em tempo, o palacio vibrára com o clamor das festas; as musicas saltitantes riam nas amplas sallas. Os vestidos claros, em cujos decótes os peitos brancos se mostram, sublinhavam a alegria. Um bobo pequenino e monstruoso punha um chocalhar de guiso em cada frase. E junto da Rainha, loira, pallida, delgada, o Rei tambem sorria, a olhar a flôr preciosa e fragil que pelo braço levava, em movimentos musicaes, como uma ave.

Junto á sua frescura luminosa, as joias pareciam flores. E o diadema pesado, sobre os cabellos loiros, era como uma aureola maior n'essa cabeça fina.{167}

Ella tambem sorria, olhando os olhos escuros do Rei. E pela bocca vermelha havia como um palpitar de beijos. A festa continuava. Havia no ambiente claro de tantas luzes, tantas joias, tantos olhos contentes, uma alegria maior. Vaporisavam-se os movimentos. As rendas tremiam nos vestidos das mulheres, nos gibões de seda dos gentishomens. As conversas d'amor faziam arfar os seios... O Rei e a Rainha continuavam a sorrir-se, como dois amantes rusticos, que se encontram na vinha, por um suave outomno.

Uma noite, porém, a dôr entrou n'esse palacio claro. Ligeiros, para não fazer ruido, como sombras, os cortesãos, as damas d'honor, as aias, passavam, murmurando resas, ou trocando, baixinho, as impressões. Era como um ciciar leve de brisa sobre um campo de flores. Os vultos cruzavam-se:

—Então?

—Na mesma...

—Impossivel salvar-se...

—O fisico não atina com o remedio...

Era a Rainha, que, como certos arbustos que morrem, depois de florir, finava-se ao dar á luz a pequena princeza.

A dôr tragica e calada do moço Rei! Nem uma palavra se lhe ouviu da bocca crispada. Nem um grito na luctuosa camara onde carpiam as senhoras da côrte. De joelhos junto{168}ao leito magnifico, onde se postára depois de ter cerrado os largos olhos garços, o Rei chorava em silencio. Os frades diziam monotonamente, como um esvoaçar de insectos, as resas rituaes. Um ou outro soluço, a desolação d'um ai, cortavam a funebre quietude; mas o rei, entre as suas as mãos finas e amarellecidas da Rainha, não tinha um grito, nem uma palavra. Nos labios da morta ainda havia o sorriso, esboçado a olhar para o marido...

O Rei mandou retirar a todos do quarto. Quiz elle proprio vestir aquella que tanto amára. Beijou-lhe os olhos de palpebras azuladas, beijou os cabellos, que na imprecisa penumbra, tinham um brilho d'oiro... Outra vez caiu de joelhos.

Então as palavras de dôr, abundantes, sairam dos labios tanto tempo represos. Disse-lhe o grande amôr e a grande magua. Prometteu-lhe viuvez eterna; que a sua alma se conservaria fechada, como um relicario, a guardar a imagem quasi divina da mulher primeira amada, unica...

Longo tempo se conservou, as mãos frias da morta entre as suas, no quarto silencioso, onde apenas os seus queixumes davam uma nota de vida. No lampadario já se extinguiam as luzes, que, de quando em quando lançavam, altas, dentadas, labaredas azues e d'oiro.

A madrugada clara entrou pelas janellas,{169}como um chilrear de passaros. A vida renascia, musical, da noite escura. No coração do Rei a dôr fizera uma sombra eterna.

Entre os brandões acesos levaram o cadaver, vestido por mãos mercenarias, que as do Rei nem tinham forças para o peso dos anneis...

Filas de bispos mitrados, graves e compungidos, seguiam o feretro atravez as ruas da cidade e por estradas risonhas, até o convento magnifico em cuja egreja jaziam todos os numerosos reis e rainhas da casa real; seguiram os fidalgos como seus escudeiros de lucto; seguiu, commovido, o povo, que pranteou a morte d'aquella que fôra linda e nas ruas sorria ás criancinhas pobres, que lhe pediam a benção...

Era uma comprida fila que se perdia nas corcôvas da estrada. As confrarias, os conventos mandaram os irmãos e os frades, com as insignias. E áquelle radioso sol d'agosto, que punha na athmosphera uma tremura, tudo resplandecia, como uma apotheose. Brilhavam as lanças, brilhavam os ouros, brilhavam os báculos e sobretudo refulgiam as insolitas pedrarias dos bispos, caminhando magestosos e tristes. E o psalmejar dos padres, ouvido ao longe, perdia a nota de lamento: era como o ultimo echo d'um canto de victoria, no dia glorioso...

No palacio quasi deserto, o Rei ficára no quarto vazio. Como arredal-o de lá? De joelhos{170}ainda, pensava talvez ter entre as suas mãos os dedos finos da Rainha morta. De quando em quando um soluço parecia estalar a garganta. E as lagrimas desciam pela face, iam morrer na barba perfumada.

Olhava para o grande espelho, onde a Rainha costumava ageitar, á noite, os cabellos fartos. Lembrava-se de ter alli visto o gesto gracil, aquelle pó d'oiro, e o corpo que tinha a frescura e a elegancia d'uma flôr que vae a desabrochar. Porque não guardam os espelhos as imagens reflectidas? Teria alli, viva, a Rainha, na attitude de compôr as sedas das suas tranças... Mas os espelhos deixam tudo escapar. Assim os lagos não guardam, no seio ligeiro, voluvel, o vôo curvo das pombas que fogem...

E para alli se quedava, vivendo do passado, como um velho... Que importava que as guerras na fronteira distante assolassem o paiz? Que tinha que os povos gemessem, que as catastrophes aluissem as cidades fulgentes ao luar e ao sol nas suas cathedraes preciosas, que os rios, saltando os leitos, invadissem as aldeias claras? Que importava a vida se elle só vivia da morte? Mergulhassem os outros no passado os olhos cubiçosos e vivessem de tanto explendor de batalhas e de riquezas que listravam de clarões a historia do reino afortunado. Na miseria presente, que se recordassem!{171}

A propria princeza entre as mãos das açafatas, delicada e linda, ia vivendo, nos grandes olhos verdes, uma tristeza, como quem sabia... No palacio sevéro, lugubre, sem os tinidos das alabardas e os mantos que formavam lagôas, nas alcatifas, ninguem se via. E ella, a pequena princeza, não aprendera a rir e tambem não chorava.

Uma vez ou outra, ao atravessar silencioso e só as camaras, o Rei via a princeza; machinalmente as suas mãos pallidas passavam pelos cabellos loiros da filha. E seguia, taciturno, sempre diante de si a imagem d'aquella que morrera a sorrir e o esperava na crípta silenciosa do austero templo gothico.

Ensinavam as aias á princezinha, não relatos crueis de contendas, nomes temidos dos reis seus avós, mas historias maravilhosas. Diziam-lhe que á noite, os grandes calices das magnolias abriam-se, com um ruido musical. E de dentro saiam côrtes de fadas minusculas, vestidas com mantos tecidos com raios de luas-cheias. Pelo parque andavam livremente entre as roseiras explendidas... Contavam-lhe que á meia-noite, as arvores se desprendem da terra e vão beber, como os gados, ás limpidas ribeiras. Ella sabia que entre si os animaes falavam, as andorinhas nos bicos dos telhados, os cisnes brancos nas lagôas azues, os pavões sobre as arvores, quando espalmam as enjoalhadas{172}caudas, as pombas brancas á beira dos poços, sobre o marmore polido.

Conhecia os trabalhos ligeiros dos gnomos, que nas cavernas escuras trabalhavam o oiro e o ferro; distinguia os alfagemes, que afiam as espadas mortiferas, e os ourives, que afilagranam os metaes.

Diziam-lhe as lendas floridas dos amantes, de cujos tumulos saem sorrisos carregados de rosas, que n'um arco perfumado se abraçam a misturar os perfumes...

Mas a pobre princeza, apenas nubil, não conhecia a Vida, nem o Amor, nem o Riso.

Um dia, pois, a princeza, com as pequenas aias, desceu ao jardim do sumptuoso palacio.

Misterioso por tantas sombras, tantos caminhos que se contorciam por entre rugosos troncos, tantas aguas que cantavam nos marmores brancos, tantas flores que dentre a verdura perfumavam...

De socalco em socalco abriam-se, em leques, as escadarias; saltavam as aguas das cascatas, despenhavam-se as trepadeiras floridas, rastejavam as hervas, rosas de toucar e jasmins lançavam os ramos frageis.

Junto ao palacio o jardim era cuidado, como uma cabeça garrida. As largas flores espargiam os aromas; os repuxos finos esguichavam fios de prata, pelas ruas areiadas passavam, magestosos os pavões solemnes... Mas depois, começava{173}a floresta. As altas arvores luctavam, estorcidas: algumas subiam, magras como pedintes, n'uma aspiração, muito direitas para o sol. Outras torciam-se, esta sem forças, esgarçava-se mirrada. E a hera crescia, vestia os troncos, até nas arvores secas vicejava, como uma mascara risonha n'uma face de morto. Alguns troncos de seculares carvalhos continham grutas escuras. E os passaros, dentre os galhos, ao ruido dos passos, levantavam vôo, alvoroçados.

Era o «Caminho das Rosas», que alli levava. Rosas de toda a côr: ensanguentadas, brancas, côr de mel e de marfim, côr de carne, rosas para florir peitos de danados e para tranças de primeiras commungantes, rosas que abrem chagas no verde das roseiras, outras que chamam beijos, como colos nus em festas illuminadas, rosas que teem toda a pureza d'uma noiva, outras toda a garridice d'uma amante, rosas para tumulos, brancas, mortas quasi, rosas cheias de vida, que pareciam querer saltar das hastes, e offerecer-se, lascivas...

Vinha do seu conjuncto um perfume entontecedor. Por tanto aroma lançarem no ar, nas noites quentes d'agosto, algumas damas da côrte caiam, em deliquio. E todas tinham medo d'aquelle portico encantado, que parecia abrir para um paraiso, mas que podia descer a algum abismo.{174}

Foi para ali, que, correndo atraz d'uma borboleta, se dirigiu a princeza. Em vão lhe prenderam as vestes de seda os espinhos das roseiras, em vão a chamaram as pequenas aias; mesmo foi debalde que a voz secca da camareira-mór gritou por ella, entre respeitosa e auctoritaria. A princeza, a rir, córada, continuava atraz da grande borboleta, deixando tiras de seda nos galhos em flôr que, sacudidos, lançavam sobre a sua cabeça petalas finas.

Ninguem, comtudo, se atreveu a ir atraz d'ella.

Corria no palacio e na cidade uma lenda extranha sobre a floresta, que continuava o jardim, depois do perfumado «Caminho das Rosas».

Dizia-se que n'uma epoca remota, no tempo em que pela cidade luminosa e culpada ainda passavam os santos ensinando a Lei e edificando as gentes, governava o reino uma rainha pagã. No jardim murmuroso e claro havia fremitos de beijos. Nas aguas dos tanques brilhavam corpos ligeiros. Nas sallas que as tochas e os lampadarios illuminavam, mulheres quasi nuas dançavam levemente ao som de musicas alegres. E o vinho levava das taças lavradas ás boccas vermelhas a alegria e o Amôr.

Por toda a parte havia flores, havia risos, havia festas. Os cavalleiros, nas justas, paravam; morriam as scentelhas em que ardem as espadas no choque dos combates, e das boccas{175}frescas saíam vozes a cantar a formosura das florestas, a elegancia das mulheres, a limpidez das aguas cantantes.

Um dia, um santo bispo entrou, andrajoso e cançado, a pedir pousada; a rainha, ao vel-o tão miseravel, mandou-o recolher no canil, com os creados das matilhas. Os cães, piedosamente, foram lamber os pés em sangue do santo homem.

Mas a Rainha não o quiz receber. Como de S. João Baptista, as palavras subiam para as portas, asperas e condemnatorias. Toda a noite a sua voz rude annunciava o castigo.

A Rainha, cançada de ouvir a voz rouca, mandou-o açoitar e expulsar do palacio, em que reviveu a alegria. Mas durou pouco, porque um dia uma lingua de fogo saiu da terra, e agitou-se no ar, de sangue e oiro; espavorida, toda a côrte fugiu, para não mais voltar, para a floresta misteriosa, que ninguem sabia ao certo onde acabava.

E todo o reino teve medo, como d'um inferno, d'essa floresta que começava por uma extranha floração de rosas e terminava porventura pelos eternos gelos, pelas labaredas, talvez...

Por ali seguira a princeza, a rir-se. Em vão o Medo guardou durante seculos a misteriosa entrada. Em vão as rosas se agitaram, como turibulos, para a entontecer com o perfume, e os galhos a prenderam, e os espinhos lhe rasgaram{176}as rendas e as sedas. Foi correndo. A borboleta enorme parecia uma joia a fugir por entre as flores. A princeza era como uma ave, delgada e linda, atraz d'ella.

Subitamente a paisagem modificou-se. Do dia glorioso que estava no jardim do palacio, nasceu um crepusculo doirado, como um velho damasco amarello.

A luz parecia um convalescente a rir-se por cima das arvores, pelos tanques quietos, pelos marmores. E as folhas das arvores tremiam fazendo brilhar os filamentos d'oiro. As flores tinham todas um aroma ligeiro, como os frascos de perfumes, que durante longos annos se guardam, vasios, nos armarios fechados. Eram brancas todas as rosas e as petalas enrugadas, como pelles finas de velhas, que viveram nos claustros, entre cosmeticos.

Quando a princeza deu pela mudança da luz e da paisagem lembrou-se da lenda pavorosa que afastava as gentes da floresta e do Caminho das Rosas.

—Onde estão as linguas avidas do fogo? perguntava-se. Onde os gelos que prendem e matam? Onde os dragões?

A paisagem era toda serena e d'um riso triste. Dir-se-iam anemicas as flores palidas, as anemonas de seda velha, de cera transparente, que por toda a parte deixavam cair, de cançadas, as petalas finas. E nos caminhos a areia preta{177}era crusada pelos veios das hervas rasteiras, coberta pelos galhos dos arbustos, aqui sacudiam-se rosas, alem os geranios frescos. Pelos troncos direitos das arvores a hera enroscava-se, a subir. Nas curvas dos tanques, dormiam os nenuphares. Nos marmores dos poços as trepadeiras cobriam os lavores. Havia um silencio leve, por onde perpassava o espirito d'um canto, como um aroma que a brisa traz de longe.

Os templos tinham as portas abertas. A princeza para elles entrou, a medo, a espreitar, afastando os loureiros e os mirtos, que quasi fechavam a entrada.

Ninguem. Apenas os deuses de marmore, calmos, esperavam as oferendas. Mas as aras dos sacrificios tinham humidade da lavagem recente. As cinzas eram quentes; no templo d'uma deusa havia grinaldas de rosas e pennas de pombas brancas soltas pelo chão.

Alguem ali vivia, pensava a princeza. Mas quem? Genio malfazejo, que a mataria, ou fada carinhosa? Seria ali que nas noites claras virião passear as côrtes sumptuosas que moram nos calices das magnolias?

Habituada ao silencio sombrio da côrte não a inquietava aquelle silencio leve. E continuava a explorar a encantada floresta, onde parecia agitar-se um simulacro de vida.

Como um coração que vive da saudade dos{178}tempos remotos, assim ali parecia existir a repercursão d'uma vida antiga. A cada passo a princeza encontrava signaes de sandalias, flores cortadas, uma fita, indicios de vida. Mas d'onde partiam? Quem os deixava?

Viveria ali, n'aquelle paiz de luz anemica, uma côrte de feiticeiras tragicas, que esperam, para sair das cavernas, as badaladas lugubres da meia-noite? Mas não. As feiticeiras escolhem as montanhas altas e escarpadas onde chegue o canto soturno do mar revolto, sem arvores que impeçam o vôo incendiario das blasphemias e das imprecações para o ceu sem lua e sem estrellas.

Ia caminhando a princeza. Via ribeiros claros que escorregavam sobre seixos brancos; lagôas azues, fachadas de templos, quincuncios bordados por buxos altos. E as ruas seguiam entre filas d'altas arvores formando tunel, até serem cortadas por novas ruas, com arvores ou flores.

Cançou-se a pequena princeza. Um vago terror a invadiu. Quiz regressar ao palacio, mas não podia. As ruas d'arvores, os templos, os ribeiros, as estatuas, sucediam-se. Parecia-lhe estar n'um complicado labirintho. Como conseguir o magico fio?

Uma noite, que parecia artificial, espalhara-se pelo ceu e envolvia as coisas. Á tonalidade doirada, succedia uma tonalidade branca,{179}como se tudo fosse feito de prata. A princeza sentou-se n'um banco, a chorar.

Ouviu de longe como um passar de brisa leve por harpas suspensas em arvores. Escutou. Era um canto que um côro fazia subir, ligeiro como um fumo. Mais se approximava. As vozes eram cançadas, mas limpidas. Cantavam a vida e as festas, o rir das flôres, a alegria das arvores na primavera.

Cada vez se approximavam mais. Dirigiam-se, certamente, para o sitio onde ficára a princeza, um jardim junto d'um templo de marmore verde.

Já via as canephoras, com açafates de flores, seguidas pelas escravas com tamboretes; depois a numerosa theoria de mulheres, com archotes, que, ao queimar-se, illuminavam e perfumavam. Não havia homens. Certamente que vinham para a festa atheniense das Thesmophorias.

Eram as habitantes da floresta. Caminhavam lentamente, as cunharicas fluctuantes sobre as tunicas amarellas. As hidrophoras traziam as urnas na cabeça. N'um gesto gracioso, seguravam-as com uma das mãos; os braços nus eram tão brancos como os marmores transparentes das urnas.

Quando viram a princeza, medrosa, a esconder-se entre as arvores, a procissão parou, as vozes calaram-se, a meio do canto.{180}

Em voz baixa concertavam entre si a resolução a tomar. A princeza ouvia apenas um zumbido confuso, como os das abelhas, quando nos dias quentes se cruzam pelos jardins floridos. Colada a um tronco, palida como um ex-voto de cera, viu com pavor approximar-se d'ella uma das habitantes da floresta. Era porém, tamanha a sua beleza e a sua gracilidade, que o medo tombou do espirito da princeza. Pensava-se ver uma haste florida a andar. Vagarosa, os seus gestos curvos e lentos pareciam fazer nascer no ar quieto uma harmonia...

—Perdi-me aqui! Perdi-me aqui!

—D'onde vens?

—Do palacio. Sou a princeza. As minhas aias não se atreveram. Eu corri para apanhar uma borboleta. A borboleta fugiu. Fiquei sem saber onde estava, que caminho tomar. Isto é tão lindo! Mas faz tanto medo não se saber onde se está!

—E queres voltar? Deixaste teu pae e tua mãe...

—Minha mãe morreu. Meu pae não o vejo... quasi nunca. É um velho triste e duro, que não fala... Tenho medo da camareira-mór. E as aias estão a chorar ás escondidas d'ella como sempre... A vida é triste, triste, no palacio...

—Preferes ficar comnosco?

A boca fina pareceu sorrir-se. A princeza olhava para as mais que se tinham acercado.{181}Eram todas lindas e moças, mas sem frescura, como as rosas que abrem pelas chuvas e ventanias.

—Se me quiserem. Se me quiserem.

—Pois ficarás! Ficarás! Vem comnosco!

Poz-se em marcha o cortejo, novamente. Entraram no templo com a princeza.

E a princeza ali ficou, porque nos rostos se conservava a mocidade e não havia a dôr, nem o constrangimento. Tudo era claro e sereno. E não voltou mais ao palacio, onde as aias choravam e a camareira-mór, seca e hirta, tinha uma voz esganiçada e autoritaria.{182}{183}

A ARMANDONAVARRO.

{184}{185}

Era o jantar de despedida de Dowanov, que partia para o Mexico, promovido a ministro. Jantar de secretarios de legação, que formam uma confraria, para, na critica dos chefes, tirar uma consolação do exilio, correra um pouco triste.

A minha intimidade com o novo plenipotenciario, que viera da communidade de vistas sobre a numismatica bisantina, abrira em meu favor uma excepção.

No pequeno gabinete do Avenida Palace, a conversa versára sobre diplomatas e postos. Dowanov, como todo o bom russo, suspirava por Paris, onde estivera adido. Contava as suas tribulações junto do embaixador solemne e desdenhoso, que, sabendo-o apaixonado por corridas, nos dias de steeples e handicaps sensacionaes, sob pretexto de serviço o mandava chamar com urgencia, mas realmente para o impedir de divertir-se em Auteil e Longchamps.{186}Apesar de tudo, porem, sorriam-se-lhe os olhos ao lembrar-se das pequenas colhidasun peu partout.

A minha presença não permitia as confidencias sobre a monotonia da pequena cidade da provincia que é Lisboa. Havia um constrangimento. Por isso falaram de companheiros, indicaram silhuetas vistas um momento, logo esquecidas.

—O que será feito d'esse roliço Kordst, que estava, no meu tempo, encarregado de negocios em Bucharest? Nunca mais soube d'elle? Devia ter morrido da falta d'um bilhete. Lembro-me que ia provocando uma questão internacional, porque o ministro d'Austria, ao apresentar-lhe o adido russo, disse primeiro o nome de Kordst. Moravamos no mesmo hotel. Foi procurar-me apoplético:

—O que terá contra mim o ministro d'Austria? Não lhe fiz coisa alguma!... Não me lembro. Ainda hontem, na recepção, lhe dei o meu logar no sofá!...

—Kordst? Com o amor que tinha aos bilhetes de visita, fez-se litografo, provavelmente... Sabem de Camusot, o adido militar francez, que tinha uma mulher que andava aos saltos, como uma pêga? Não conheceram? Você, Poliano? Não me disse que tinha estado com elle em Vienna?...

—Não. Encontrei-o em Roma. A mulher realisava{187}o typo perfeito dagaffeuse... Em que liquidou?

—Croupierde batota, em Spa... Tinha ar... Um dia, no Jockey, perceberam que corrigia a sorte, no baccará.

—E Blumen, o chanceller da embaixada allemã, que conheci, de relance, em Madrid?

—Em missão junto de Menelick. Emborracha-se com o Negus, formidavelmente, com cerveja de Munich. Tem a simpatia dos ras; ouvi que iam crear em sua honra a ordem do Bock, na Abyssinia...

—Era o intimo do conde de Strifforth... Que é feito de Strifforth? Herdou já opeerage? Diziam-o muito considerado no Foreign Office. Pensou-se n'elle para sub-secretario de Estado...

—Nunca lhes contei a morte de Strifforth?

—Morreu?

—Vi-o suicidar-se. Acompanhei-o nos ultimos dias. Foi em Sevilha. Tinha-o conhecido em Londres, no seu ultimocongé; quando fui promovido para Madrid démo-nos muito ali. Morreu d'uma maneira singular, n'uma festa da marqueza de Carrillos, na sua quinta de Eritaña... A melhor festa de Hespanha... A mais elegante e romanesca; dava a sensação da embriaguez d'uma boneca de Saxe, n'um Walpurgis. Havia feiticeiras novas, ou melhor, ninfas. A quinta é deliciosa, um pouco acima{188}de Sevilha; o rio corta-a e para passar d'um lado a outro ha pequenas gondolas com camaras para duas pessoas sómente. A Carrillos, um pouco artista, um quasi nada doida, levou uma ranchada de gente para o seu palacio, do tempo de Pedro, o Cru, para uma festa de mascaras pela Piñata. Era tudo gente nova, salvo uma ou outra mãe que ia fazer a decencia. Mas achavam-se deslocadas no meio da nossa alegria e, intelligentemente, retiravam-se para sensacionaes partidas de bridge. Só nos viamos ás refeições. Umapartydeliciosa, que acabou n'uma tragedia, um pouco deguignol dernier bateau, entre musicas leves... É melhor contar tudo, ab ovo...

—Sim... Desde o congresso de Vienna. O pae foi secretario d'um dos plenipotenciarios inglezes...

—Ainda de peito?

—Não. Strifforth era filho de velho... Isso explica muito o seu temperamento.

—Vá, psicologo!

—Este Mumm não me diz nada! Traga Montebello! É um pouco da Carreira.

—Por afinidade?

—Então o antigo embaixador?

—En disgrace?

—Sim. Ao quarto filho da czarina elle criticou:—«Ce n'est pas une femme—c'est une pondeuse!»{189}

—Conta a historia tragica!

—A marqueza de Carrillos levára a sua filha, aquella inquieta Mathilde, noiva por sport, tecendo e desarranjando os casamentos, como Penelope a famosa teia. Para ella não havia flirts: tudo noivados. É possivel que, de a experimentar tanto, a grinalda nupcial estivesse já enxovalhada. Conheceu a Carrillos? Você? Você? Ninguem? Fina como umaflûtede cristal cheia de champagnemousseux, ondulosa, sempre pronta para o ataque e para a resposta, fazia a chuva e o bom tempo na sociedade, e tinha um dom especial para pôr alcunhas que logo faziam o giro de Madrid e crismavam as creaturas. N'um dos seus numerosos noivados a mãe, oppondo-se, disse-lhe:—«Que sogra vaes ter!» A Mathilde, sem pestanejar:—«E elle, mamã? E elle?» A marqueza ria-se perdidamente com os ditos da filha, regosijando-se:—És digna de mim!

—E Strifforth?

—Lá vae. Ora fez-se a festa. O costume Luiz XV era de rigor. Por uma noite estrellada, espalhámo-nos pelo jardim. Pelas janellas do palacio corriam grinaldas de fogo dasbandes souplesque as ligavam. Eram tulipas de todos os córtes que d'entre a folhagem se uniam, pondo um traço florido entre o incendio que vinha das multiplas janellas abertas sobre o parque e sobre o caes. Pelos troncos{190}das arvores envolviam-se em espiras as serpentes luminosas, marchetadas, e abriam-se em mil luzes nas copas, davam, ao longe, o aspecto de uma joalheria que ardesse na noite quieta e calada, essas noites amorosas da Andaluzia em que tudo parece estacar n'um beijo supremo... Pela margem do rio a mesma florescencia, mergulhando na agua, dando ao rio a aparencia fantastica de um ceu que se afundasse.

De repente musicas invisiveis tocaram as melodias leves,gavottessuspiradas, em que ha um pouco de amor, um pouco de dança, como num flirt. E do escuro d'uma angra moveram-se gondolas ligeiras, em que ardiam e estremeciam largos balões venezianos.

Os remadores, ensaiados, iam quasi ao compasso ligeiro dasgavottes. Tinhamos a impressão d'uma dança de gondolas, um sonho estranho de veneziano, pelas horas misteriosas em que as coisas inanimadas tomam vida. Do levantar dos remos das aguas, saltavam cintillações de pedrarias. E a linha tortuosa de balões augmentava o incendio, na vibração de tantas reluzentes joias a agitarem-se na agua do rio... Fomo-nos metendo nas gondolas. Osnoviosacolheram-se prestes ás gondolas mais pequenas. Uma maior levou muitos de nós, descazalados, a Mathilde Carrillos, Strifforth, a condessa de Valdelar...{191}

—Conheci-a em Roma...

—O marido foi gentil-homem do Papa. Preciso falar d'ella. Foi a principal figura d'este drama. Typo de hespanhola? Não. Mais italiana do que hespanhola, com uns largos olhos pretos, cheios de doçura. O seu gesto era harmonioso e curvo, sem uma aresta, sem um angulo, uns nascendo dos outros sem solução, como as frases d'uma melodia. Tinha-se, ao vêl-a, a sensação de que se ouvia uma musica dolente, vagarosa. E os proprios olhos moviam-se lentamente, como pesados de tanta luz e tanta belleza...

Enigmatica, guardando n'um jardim encantado a sua alma, ninguem prudente ousára definil-a... Poetica talvez, ou simplesmente aborrecida, fugia em S. Sebastian do Casino e do Hotel du Palais e ia, á tarde, só, vêr as crispações do poente nas vagas que eriçam de espuma o mar azul.

Sentava-se n'um dos rochedos, ás vezes desenhando, outras a cabeça a descançar na mão, e ali se quedava a tarde inteira, alma talvez de sereia a chorar pelo mar, a querer aprehender no perfume da brisa, alguma palpitação do oceano.

Nenhum de nós se atreveu nunca a interrompel-a, apezar da attracção que todos sentiamos pela sua figura gracil como uma amphora, da suatoilette, de toda a elegancia pessoal e do{192}misterio da alma ávidamente guardada... Strifforth apaixonou-se por ella. E, solitario, deixando as excursões amiudadas que fazia ao Casino de Biarritz, andava de barco para vêr, isolada no rochedo, sem uma tristesa na face, a condessa de Valdelar, certamente a mais formosa, a mais perturbante das senhoras de Madrid.

O conde de Valdelar ficava no hotel, gottoso, na leitura de livros licenciosos, que salpicava de casquinadas nervosas, irritantes, indifferente á belleza e á alma da mulher. Strifforth conhecia-a e procurava todos os raros momentos em que ella apparecia, de manhã na praia, á tarde no boulevard e, uma ou outra vez, pelas grandes festas, no Casino, que atravessava n'um andar leve, dando-nos a sensação que tinha azas que a sustentavam. Nada lhe permitira ainda uma declaração. A condessa fallava-lhe, como a todos nós, em coisas indifferentes, em festas, touradas, partidas de tennis, impressões rapidas de viagem e deixava-o sem pressa, mas sem pezar, absoluctamente correcta. Elle fallava-lhe do mar, mas a condessa tinha uma phrase banal, mudava d'assunto, como se tivesse pudor d'esse sentimento, que parecia absorver toda a sua vida. Foi n'esse tempo que Strifforth começou a picar-se com morphina difficilmente adquirida, a beber perfumes, com horror aos cognacs,{193}e a arrastar uma vida d'automato, sempre com esperança de a vêr, de lhe fallar. E, em a encontrando, pousava sobre ella os olhos tristes, largas horas, inconvenientemente.

Em Madrid, todo o inverno foi assim, com menos occasiões de a vêr, porque a condessa frequentava pouco o Retiro e a Castellana e raramente aparecia na sociedade, demorando-se o bastante para não parecer aborrecida, mas saindo logo, com um tacto perfeito. Á vida escondida da condessa correspondia uma outra vida secreta de Strifforth, ebrio, em desesperos que o alcool longe de adormecer intensificava, fugindo a tudo o que fôra d'antes o seu enlevo, até do Museu do Prado, onde ia todas as manhãs—á minha missa, dizia elle—para vêr os Velasquez e os Grecos... Mas, quando tinha que ir a alguma parte com esperança de encontrar a condessa, o meu amigo não bebia para poder gozar inteiramente a presença e a voz d'aquella que amava. Depois a embriaguez exagerava a impressão, dava-lhe, quasi real, a presença da Valdelar. Meteu-se no ether, alem da morphina e dos frascos de perfume—Parece que como flores, explicou-me—arruinando por completo a saude, tornando mais agudas as crises de desesperos, mais asperas, pelo enigma que para todos nós era essa mulher esplendidamente artificial, que trazia uma mascara na sua face calada. Coquette? Decerto,{194}mas egualmente para todos, porque os seus movimentos eram regrados por uma musica ineffavel. Mas talvez coquette só para si, porque nem um só olhar ou palavra auctorisou ninguem a dizer-lhe um galanteio atrevido.

Fallou-se na festa da Carrillos, organisou-se a lista, e Strifforth, que não tinha relações com a marqueza, logo que soube que a Valdeler era da partida, solicitou, pondo de parte sem hesitação o seu orgulho exagerado, uma apresentação e um convite, logo alcançados, não só por ser muitochoyé, mas tambem porque transpirára a paixão e todos se interessavam pelo pobre rapaz, havendo até censuras á Valdelar, que de nada era culpada.

Fomos n'um expresso vagaroso, atravessando desoladas paisagens, até Sevilha. Não conhecem Sevilha? É a cidade mais feminina e voluptuosa que conheço.

Á tarde, vista da Giralda, ella se nos oferece, nua, ondulosa, apenas com a cinta azul do seu rio e as joias das cupulas e das janellas que scintillam ao poente. Parece que estaca o movimento, e que, na alcova enorme que é a planicie, Sevilha se estende, com flôres no cabello e uma volupia extrema em todo o seu ser. Anda no ar um amavio. Tudo nos falla d'amor sensual e quente, até os olhos largos das sevilhanas, que parecem recortados n'esses enormes amôres perfeitos de velludo.{195}

Foi ali que tivemos a festa de que lhes fallei. Imaginem que na margem esquerda, a dois kilometros da quinta da Carrillos, ha umaventa, cuja varanda se debruça entre trepadeiras, sobre o rio. A marqueza tomára-a sem custo por sua conta e alli varias musicas nos tocaram, nãogavottesleves, mas doridas malagueñas em que se arrasta um langor, como um beijo em que toda a alma succumbe. Um jacto de luz inundou a gondola. A condessa levava as mãos dentro de agua, curvada ella propria para o rio. Strifforth ia sentado sobre a borda. Deixou-se escoar vagarosamente.

—Caiu um!

—Strifforth!

Logo os braços se estenderam, um dos gondoleiros deitou-se á agua e poude tirar Strifforth, todo ensopado no seu fato de seda.—Borracho! Borracho!Mais vous êtez ivre! Dites!—Strifforth, não bebera uma gotta. Eu ficára proximo d'elle. Os musicos não tinham dado por nada. A musica continuava dolorosa e amorosa. A gondola seguiu, deixando o traço de luz que brilhava e se quebrava d'encontro ás leves vagas. Houve risos. Rodearam-o com grinaldas. A Valdelar teve, como os outros um riso.—Escorreguei!... explicou apenas o conde. Mais adiante, porem, já a musica se ouvia em surdina, Strifforth deixou-se cair outra vez.—É demais! Está bebedo! gritaram. As{196}cabeças empoadas inclinaram-se novamente para a agua. A Valdelar, que tornára a mergulhar no rio os braços nus em que escorriam as rendas molhadas, ao sentir a queda, agarrou-o por um braço, indiferente. Strifforth, porem, deu um vigoroso impulso e desprendeu-se d'ella...

Houve um panico. Foram buscar archotes. Não calculam o macabro das nossas figuras depetits-abbése gentishomens procurando, nos barcos, que de tanta luz pareciam incendiados, um homem que se queria suicidar. Os gritos cruzavam. Das pequenas gondolas surgiam vultos negros iluminados á maneira d'um Rembrandt que tivesse adivinhado Turner e Whistler, em chapadas de luz multicôr. Na nossa gondola um borborinho correra. Alguem desmaiára, até. As cabeças empoadas agitavam-se. Ao longe, as malagueñas continuavam num suspiro lascivo e preguiçoso. A Valdelar voltára á sua primitiva posição: brincava com a agua, que lhe passava entre os dedos abertos, pondo-lhe aneis que fugiam, logo substituidos. Não tornamos a saber de Strifforth. O cadaver nunca apareceu.{197}


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