ROSA MUSGO.

ROSA MUSGO.O louro anjo Sible tinha sido mandado por Deus, mitigar o soffrimento d'uma pobre noiva cujo bem amado morrera na guerra, defendendo o solo sagrado da patria. Era Sible o anjo mais gentil de todos quantos formam a immensa legião que Deus commanda, e o favorito querido do Senhor.Contente com o encargo que lhe fôra dado, Sible bateu as azitas da mais fina plumagem e dirigiu-se para a cabana perdida no meio do bosque, onde morava a desditosa Amel que, chorando desesperadamente, lastimava a solidão e o abandono em que ficava depois de têr architectado tantos e tão risonhos projectos de felicidade.Sible entrou na cabana no momento mesmo em que a inditosa rapariga, allucinada pela dôr, procurava pôr termo á existencia, e começou, para a consolar, a pintar-lhe com tão brilhantes côres a morte gloriosa do noivo, o logar distincto que elle ia occupar no reino dos ceus, esperando que ella se lhe fosse juntar para se realisar o eterno e venturoso enlace patrocinado por Deus, que o desespero da rapariga abrandou como por encanto, e um sorriso, raio de sol após temporal desfeito, fugitivamente se lhe esboçou no rosto amargurado. Mas para que Amel merecesse uma felicidade tão extraordinaria, felicidade não sonhada por mortal algum, era preciso, indicou-lhe o anjo, que esquecesse a dôr mitigando o soffrimento alheio, indo em santa romagem do bem para a cabeceira dos doentes, dos pobres doentes desamparados de carinhos e de familia, e para junto das creancinhas que a guerra fizera orphãs, esperar que Deus a chamasse a si, dando-lhe a companhia eterna do bem amado.Sible empregou o dia todo na sua divina tarefa, e quando a noute começou a estender o escuro veu sobre a terra, contente por se ter satisfatoriamente desempenhado da tarefa que lhe era imposta, despediu-se da donzella e quiz tomar o caminho do ceu. Mas com o cahir da noute estendera-se sobre o bosque um espesso nevoeiro humido que desnorteou Sible, e molhando-lhe as pennas das azas o impossibilitou de voar. O anjo vendo que lhe era impossivel alcançar o ceu, tratou de procurar um retiro agradavel e seguro onde podesse socegadamente esperar a manhã.Junto de uma parede meio desmoronada, vicejava uma pujantissima roseira engrinaldada de formosissimas rosas brancas rescendendo os mais puros e divinaes aromas. Mais encantador abrigo, melhor docel não era possivel encontrar em todo o bosque.Sible foi á parede apanhar um montão de fôfo musgo e com elle fez sob a roseira um leito confortavel, onde, depois, envolvendo-se nas alvas azas de arminho, se deitou disposto a esperar, velando, que chegasse a madrugada.Porém o aroma que as rosas emittiam era tão embriagador, e o vento brandamente passando atravez a folhagem cantava melodias tão doces, que o anjo pouco a pouco cerrou os olhos e adormeceu profundamente.Nunca no ceu Sible passara uma tão agradavel noite! Sonhou sonhos tão deliciosos que quando pela manhã o despertaram os primeiros raios do sol, beijou reconhecido as rosas, e estas, córando de alegria e pejo, ficaram para sempre rubras. Mas o anjo considerou o beijo bem fraca recompensa para quem tão agradavelmente o emballara toda a noite, e queria, antes de regressar ao ceu, dar-lhe recompensa maior.Porém como tornar mais bellas as rosas em que tudo, fórma, colorido e perfume tão distinctamente brilhavam?Esteve um momento pensativo, e depois, apanhando um pouco do musgo que lhe servira de leito, resguardou cuidadosamente com elle os botões das flores prestes a desabrochar, para que o frio, a chuva e os insectos lhes não causassem damno algum.E em seguida, batendo as azas, voou para o ceu a dar conta a Deus da missão de que fôra encarregado.E foi desde então que na terra começou a haver rosas musgo...CARVALHO.Hercules, o lendario gigante invencivel, regressando um dia de praticar uma d'aquellas suas tão memoraveis façanhas, deitou-se em pleno campo para dormir a sesta. Antes porém de se confiar aos braços de Morpheu, no sólo, junto a si, na previsão de qualquer repentino e inesperado ataque, espetou a pesada máça, mais forte que o ferro, e com que esmagava tudo quanto lhe oppunha obstaculo aos seus designios.Dormiu o bom do gigante por muito tempo e quando acordou era quasi noite; procurou logo a arma predilecta, e com assombro viu em lugar d'ella uma pujante e formosissima arvore! A máça, ao contacto do sólo, enraizara, desenvolvera tronco, lançara ramos, folhas e fructo.Hercules furioso arrancou o vegetal e, quebrando-lhe os ramos, fez do tronco uma nova e formidavel clava, mais sólida e forte que a que antes possuira.Porém, dos fructos esparsos pelo sólo, nasceram ao depois novas identicas arvores, que para sempre ficaram sendo o emblema da força e do vigor.Estas arvores são os carvalhos.CHÁ.Dakkar era um ardente devoto de Siva a cruel deusa indiana que só gosta de morticinio e de sangue, e que recebe as adorações mais submissas, profundas e completas d'uma legião de crentes que habitam nos misteriosos recessos das florestas da India, d'essa terra das lendas e das maravilhas. Havia annos que vivia n'uma gruta em ardente adoração; de estar sempre de joelhos creara calosidades que lhe não permittiam endireitar as pernas, e as unhas dos dedos das mãos, que conservava fechadas havia annos, tinham rompido os tecidos e appareciam do lado opposto.Não havia martirio a que se não sujeitasse, e as populações fanaticas consideravam-o Santo e vinham de longe render-lhe homenagem e pedir-lhe conselhos.Só uma nuvem negra, um pesar profundo perturbava o misticismo de Dakkar. Soffria sem custo o frio, a fome, a sede, as mais incommodas posições, dominando á vontade o organismo, só não podera ainda vencer o somno! Debalde se esforçava por resistir, debalde fazia despejar sobre si quantidades enormes de agua fria, debalde se sujeitava á applicação do ferro em brasa, ou fazia vibrar o tam-tam junto dos ouvidos. O somno como mais forte, subjugava-lhe a vontade e obrigava-o a dormir. No seu desespero chegou a fazer cortar as palpebras cuidando assim que espancaria para longe o somno, mas a tortura foi baldada. Os olhos permaneciam abertos mas Dakkar dormia!Uma tarde,—havia dias que estava sem comer—orava o fakir fervorosamente pedindo a Siva que se amerciasse d'elle e lhe permitisse antes de morrer a ultima e suprema felicidade de poder vencer o somno, quando começou a sentir-se muito fraco, uma languidez precursora do somno a dominal-o, tudo a dansar-lhe á volta...Seria fome? Seria somno? Oh, se apasiguando a fome vencesse o somno...Olhou em roda... alimentos nenhuns; os fieis tinham-se esquecido de lh'os trazer... mas não havia mal... Fóra, perto da gruta, vegetavam variados arbustos, e a alimentação de tantos animaes tambem havia de convir ao homem. Seria mais um sacrificio... E Dakkar arrastando-se com difficuldade, quasi vencido pela necessidade de dormir, chegou até junto d'um vegetal e começou a devorar-lhe as folhas.Mas, caso milagroso, á medida que ingeria as folhas do vegetal, o somno desapparecia e o fakir sentia-se mais fórte, fresco e vigoroso.Obrigado oh Siva, exclamou elle jubiloso, agora posso morrer, pois morro feliz visto que graças a ti, alcancei dominar o que até hoje zombara dos meus esforços. Venci o somno!Começou desde então a fazer colher pelos seus adeptos folhas e folhas do vegetal, que deitava de infusão, e quando o somno fazia sentir os seus primeiros rebates bebia da agua milagrosa e elle desapparecia logo.O arbusto descoberto pelo fanatico fakir indiano, o vegetal dissipador do somno foi o chá.PAPOULA.N'aquelles bons tempos em que os deuses desciam á terra a confraternizar com os humanos, vivia nos Alpes um rapaz filho de gente pobre mas que pela sua bondade e pelo carinhoso disvelo com que sabia velar á cabeceira dos doentes era querido e estimado por todos.Tinha a grande e apreciavel arte de por meio de doces cantares saber adormecer aquelles que eram apoquentados pelas mais terriveis e rebeldes insomnias, de modo que os seus conterraneos lhe não deixavam um momento só de descanso.Em qualquer adoecendo, a familia ia logo têr com o pobre rapaz, que não podendo resistir ás supplicas lá se installava junto dos doentes, emballando-os com as suaves melodias que chamam o somno e que elle sabia dizer como ninguem.Mas não podendo resistir a tão excessivas e continuadas fadigas e vigilias, foi pouco a pouco enfraquecendo, até que um dia se extinguiu ao caír da tarde, quando o sol morria no extremo horisonte...Então os deuses para premiarem as boas acções do que morrera praticando o bem, tornaram-o immortal, transformando-o n'uma planta, na papoula, a quem deram a principal virtude pela qual os doentes o desejavam sempre junto a si, a de fazer esquecer o soffrimento por meio do somno.CHICÓRIA.Chicória era uma princeza tão formosa, que todos os homens ao vêl-a ficavam para sempre perdidos de amores. Dourara-lhe o sol os cabellos mais finos que a mais fina sêda, o céo emprestara-lhe aos olhos o seu doce azul, e a neve, a branca neve das montanhas, tinha inveja á purissima alvura da sua cutis.Era um encanto.O rei, seu pae, que a estremecia doidamente, satisfazia-lhe todos os caprichos, todos os desejos, de modo que o viver de Chicória deslisava entre affagos e desejos satisfeitos, n'uma completa e intensa felicidade.Porém um dia o amor tudo transtornou.Um bello trovador, um d'aquelles gentis bohemios que percorriam o mundo de lyra no braço, deixando um rasto de paixões no caminho percorrido, chegou ao palacio, onde foi recebido com todo o carinho que então se dispensava ao seguro depositario das antigas tradicções guerreiras e das castas e bellas lendas d'amor.Berengère se chamava elle, e nunca até então viéra ao palacio real quem melhor soubesse dedilhar a lyra, soltar ao vento os magoados queixumes d'uma alma amorosa ou attingir o apice do enthusiasmo na narrativa dos feitos audazes dos valentes guerreiros immortalisados em campanhas féramente medonhas.Chicória amou-o perdidamente, e costumada a satisfazer todos os caprichos, pediu ao pae que a casasse com o trovaor. O rei, que nada recusava á filha, accedeu constrangido, mas o bello trovador, que não queria perder a estremecida liberdade que tantas varias aventuras galantes lhe proporcionava e tantos constantes prazeres seguros lhe dava, ao saber dos desejos da formosa princeza fugiu do palacio para nunca mais voltar.A alegria de Chicória desappareceu desde então para sempre. Passava os dias sentada no varandim do palacio olhando pela estrada além a vêr se o trovador, condoído do seu profundo amor, voltava arrependido, trazendo-lhe a ventura perdida.Mas debalde esperou.Veio o inverno, e de sempre olhar fixamente para os caminhos cobertos de neve, pouco a pouco desappareceu-lhe a luz dos olhos...Então, não podendo resistir a este ultimo golpe, a princeza morreu de paixão.Sepultaram-a perto do palacio, á beira da estrada, n'um local por ella designado, voltada para o sitio d'onde sempre esperara o regresso do amante; pouco tempo depois, da sepultura da gentil donzella morta de amor, brotaram as plantas que lhe conservam o nome, e que dão uma flôr que pelo bello azul que a tinge faz recordar os castos olhos da candidissima princeza.ABOBOREIRA.Quando Ninive, condemnada pelos seus maleficios, estava prestes a ser arrasada, Jonas, que queria ser espectador do facto tremendo que prophetisára, veio postar-se n'um local d'onde perfeitamente podia presencear o castigo da cidade maldita.Porém no posto de observação escolhido, não havia uma só arvore, e um sol de fogo, a prumo, tornava tão martyrisante a estada alli do propheta, que este, angustiado, pediu a Deus que o soccorresse, attenuando-lhe de alguma fórma a intoleravel ardencia dos raios solares. Ainda Jonas não tinha acabado a sua fervorosa prece, já uma planta se erguia do sólo, crescia rapidamente e envolvia-o tão bem, que o propheta, contentissimo e consolado, pensando que poderia gosar da bella frescura proporcionada pela folhagem do vegetal, terminou o pedido com um intenso agradecimento ao céo pelo beneficio prestado. Mas n'isto, tão repentinamente como brotára do sólo, a planta seccou e reduziu-se a pó, deitando assim n'um instante por terra as doces esperanças do santo propheta. Esta planta era aaboboreira.CHRISANTHEMO.Segundo resa a tradicção fielmente conservada atravez centenas e centenas de gerações, nunca houve nas ilhas do Sol Nascente princeza mais seductoramente formosa do que a companheira bem amada do principe Yoshimtsou.Pintor algum por mais talento que possua, não será nunca capaz de, com as côres mais finas e custosas, crear imagem mais graciosa do que a da bella japoneza.Ella era mais fresca que as alvoradas, mais alegre que as searas maduras, mais formosa que o sol e mais sabia que o mais sabio bonzo.A justiça vacillava em dar sentença em negocio intrincado, dous esposos desharmonizavam-se, pleiteavam visinhos em encarniçada questão que nada parecia poder sanar, era só fazer a princeza Tou-Ki sabedora do caso e ella tudo resolvia com a mais imparcial justiça tudo aplanava e o que mais era digno de nota, a contento de ambas as partes que ficavam abençoando a Providencia das ilhas do Sol Nascente, a boa, a doce, a justa e a santa princeza Tou-Ki.Por isso todo o mundo a adorava, todas a bemdisiam desde o miseravel habitante das tristes choupanas até ao opulento morador dos labirinticos palacios construidos de porcellana e forrados de custosa sêda de mil côres diversas.Um dia porém o imperio onde só parecia residir a felicidade foi assolado por um terrivel flagello, uma medonha peste que dizimou espantosamente a população. Tudo era dôr, lagrimas e luto.A gente atterrada, perdia a cabeça e a nada attendia. Agglomerava-se ante os templos, pedindo aos Deuses, em altos gritos, o termo da praga cruel para que não sabiam remedio.Quem lhes valeu porém no afflitivo transe foi a boa princeza Tou-Ki. Corria de casa em casa tractando dos doentes, amortalhando os mortos de quem todos fugiam com horror, tomando conta dos pobres orphãos abandonados, consolando e animando os tristes. E a sua popularidade cresceu tão espantosamente que, quando apparecia, todos se lhe lançavam aos pés, e era adorada com fanatismo, como nenhum Deus até então o fôra.Mas—crueldade da sorte!—quando a peste terminava, quando já todos, applacado o pavor, rendiam graças ao ceu por terem escapado ao mal dizimador, a princeza atacada pela doença cruel que desbastara o seu povo estremecido, foi instantaneamente arrebatada pela morte, como se esta receiasse que demorando-se alguns minutos o amor dos subditos lhe não deixasse empolgar a bella presa preciosa.Então o luto foi geral, e todos, velhos e novos, choravam doidamente a perda da sua bondosa protectora, da sua amiga, da sua providencia, do seu bem.O enterro da santa princesa foi a coisa mais maravilhosa que sonhar-se póde. Toda a nação a acompanhou até junto da sepultura aberta no centro de um extenso e alegre campo de arroz.Poucos dias depois—caso estranho!—o local onde jasia o corpo da gentil princeza assignalava-se por uma profusão de flores estranhas, desconhecidas de todos, que espontaneamente brotaram do sólo, com as petalas graciosamente encaracoladas como o fôra o cabello da morta gentil, e de mil coloridos diversos desde o negro como os seus olhos negros, vermelho tão vivo como o que em vida lhe tingia os labios, e amarello intenso como o oiro dos seus cabellos até ao branco impeccavel da sua alma purissima.De toda a parte, desde os mais remotos confins do imperio, o povo, celebrando o milagre, corria a visitar o tumulo milagroso para colher hastes das plantas sagradas que se tornaram logo as predilectas de todos, espalhando-se rapidamente por todo o paiz.ROSAS.As rosas attrahiram desde a mais alta antiguidade a attenção de todos os povos e por isso não é de estranhar o grande numero de lendas que correm a seu respeito.Os Egypcios tinham-as em grande valor, ornando-se com ellas, uso que passou aos romanos e d'estes a todos os povos modernos. Ainda não ha muito que appareceram em varios tumulos egypcios restos reconheciveis de rosas.Os Hindus dizem que o sol é uma rosa vermelha, e os poetas antigos asseveram que as rosas eram todas brancas ao principio tomando a côr vermelha do sangue de Adonis, segundo uns, de Venus, segundo outros.A Aurora era representada outr'óra sob a forma de uma grinalda de rosas, a rosa deu o nome ás festas da primavera (rusalija), a Virgem christã que substituiu no culto a Venus antiga adoptou como seu o mez das rosas e tem tambem o nome derosarioo cordão com contas, primitivamente composto com tractos daRosa canina, com que as mulheres piedosas marcam as suas rezas.Os papas aproveitaram um fragmento do antigo culto da rosa, dando annualmente na Paschoa uma rosa d'oiro aos principes mais religiosos da christandade.Na Idade media, reminiscencia sem duvida do costume das dissolutas da Roma antiga se ornarem de rosas na festa da Venus Erycina, condemnavam as mulheres publicas, as raparigas deshonradas e os judeus, a trazerem como signal distinctivo uma rosa.Os Romanos nos banquetes punham coroas de rosas na cabeça e ornavam com ellas as taças por onde bebiam em virtude de crerem que estas bellas flores preservavam da embriaguez.A rosa foi não só simbolo da luz, do amor, da voluptuosidade, mas tambem simbolo funerario. Nas lendas persas as rosas e os cyprestes andam unidos; junto dos tumulos plantavam-se antigamente roseiras ao lado dos cyprestes.Segundo uma velha lenda irlandesa, quando um doente vê uma rosa é signal e morte.Os Turcos dizem que a rosa nasceu do suor de Mahomet, os Indianos fazem-a apparecer de um sorriso da voluptuosidade, segundo Galiano é filha do orvalho, e a crêr-se no que affirma Justin de Mieckow brotou do suor de uma mulher chamada Jone, suor que por um phenomeno singular era branco de manhã e vermelho ao meio dia. D'ahi as rosas brancas e as vermelhas.Anacréonte ensina-nos que Cybéle, para se vingar de Venus, creou a rosa com o fim de pôr em parallelo a belleza de Venus com a belleza da rosa.Guillemeau diz que a rosa foi rainha e virgem e conta assim a sua historia:«Existiu n'uma cidade da Grecia e reinou em Corintho; a fama da sua bellesa espalhou-se largamente por todas as cidades ainda as mais distantes. A Achaïa quis possuir esta nimpha proporcionando-lhe as mais illustres allianças.O bravo Halesia collocou-se em primeiro logar, em seguida Briar, que se orgulhava em ser filho do ceu, Arcas distincto dos outros deuses por possuir dois pares d'azas e por ultimo o vencedor de Thebas depoz tambem os seus louros aos pés da joven princeza possuido dos sentimentos affectivos de todos os outros adoradores. Mas a altiva belleza respondeu aos amantes que a importunavam:Não é facil obter um coração como o meu, nem julgueis que vos é possivel seduzir-me. Quem me quizer ha-de vencer-me.Disse, e com um andar altivo encaminhou-se para o templo consagrado a Apollo e a Diana, seguida dos parentes e de todo o povo. A nympha approximou-se do altar e invocou a deusa protectora da castidade. N'isto os amantes furiosos despedaçaram as portas do templo e travou-se um combate encarniçado; a joven rainha sustentou o choque com firmesa, e defendeu-se com tanto vigor que expulsou para longe os ferozes amantes, cujo procedimento pouco delicado a ultrajava.Quer que o pudor irritado désse novas graças á belleza quer que a victoria a tornasse mais imponente, Rhodante brilhava com um esplendor tão divino que o povo deslumbrado exclamou em côro:Que a bella Rhodante seja d'hoje para o futuro a deusa d'este templo. Tiremos Diana do altar.A antiga deusa teve de ceder o logar á nova, mas Apollo indignado por este cumulo de audacia resolveu vingar o ultrage feito á irmã e com um raio luminoso lançado obliquamente mostrou a aversão que tinha a Rhodante, e logo tudo mudou n'ella; os pés ligaram-se-lhes fórtemente ao altar, raizes alongaram-se e, privada repentinamente de todo o sentimento, ficou immovel, tornando-se-lhe duros os incantos vencedores. Os braços estenderam-se e transformaram-se em ramos de arvores carregados de folhas. Já não é a bella Rhodante, a orgulhosa rainha, mas uma arvore.Porém a metamorphose não a prejudicou, visto que sob uma outra fórma conservou a primitiva insensibilidade e a sua belleza deslumbrante.Toda a sua desgraça foi ser formosa, mais formosa que Diana aos olhos dos adoradores que a amaram.Quasi logo o mesmo povo que tinha ultrajado Diana, agitou-se e esforçou-se pola vingar.Sepultam Rhodante sob montões de espinhos que em logar de a prejudicar lhe serviram de defesa.Os que doidamente a amavam foram tambem metamorphoseados: Briar foi transformado em verme, Arcas em mosca, e Halesia em borboleta, e sob esta forma vivem constantemente junto da nympha cruel a quem a metamorphose não mudou».O marquez de Chesnel dá-nos noticia da seguinte lenda grega:«Apesar de consagrada desde a mais tenra infancia ao culto de Diana, Rosalia formou o projecto de desposar o bello Cymédoro.Mas não se affronta impunemente a colera dos Deuses. Apenas acabava de pronunciar aos pés do altar do hymineu os juramentos sagrados, uma flecha despedida por Diana trespassou-lhe o coração. Cymédoro com a cabeça perdida lança-se sobre o corpo da esposa, mas... oh prodigio! em lugar das formas seductoras da noiva só estreita de encontro ao peito um arbusto coberto de espinhos e flores odoriferas que recebeu depois o nome da infeliz Rosalia».Abel Belmont, resume assim uma outra lenda que lhe foi transmittida por Joseph Balmont:«Era no tempo maravilhoso em que a Natureza se afadigava em produzir em cada dia um novo sêr.N'um alto monte, um arbusto estranho, sem ramos e sem folhas, tinha brotado da terra, e alli permaneceu durante muitissimos annos sempre no mesmo estado.Um dia porém uma mulher joven e formosissima, tocando lyra e cantando melodiosamente, approximou-se da planta.Ao vêr um vegetal tão feio, condoeu-se e afagou-o com a mão: apenas o vegetal se sentiu tocado, da extremidade semi secca borbolhou seiva e brotaram petalas macias como a mão que tocou o arbusto e rosadas como as faces da formosa cantora.Nenhuma flôr na terra pôde depois para o futuro ser comparada em belleza e perfume á deslumbrante rosa que Venus fez nascer».Angelo de Gubernatis conta-nos da seguinte fórma a lenda da roseira brava:«Arosa caninapassa na Allemanha por sinistra e diabolica.Müllenhoff ouviu no Schleswig uma lenda em que o diabo, caído do ceu, afim de para alli tornar a subir procurou fazer uma escada com os espinhos da roseira brava.Deus em castigo do facto condemnou o vegetal a não poder elevar-se mas só ramificar-se para os lados; então, despeitado, o diabo voltou-lhe para o sólo a ponta dos espinhos.Outros pretendem que a roseira brava, recebeu esta maldição na occasião em que n'ella se enforcou Judas, e é commemorando este facto que ainda hoje chamam aos fructos,Judas-beeren(bagas de judas).ACONITO.O aconito é conhecido como planta venenosa desde a mais alta antiguidade. Diz uma lenda grega que este veneno nascera no jardim d'Hécate da baba do cão Cerbero, quando Hercules o arrancou da entrada do Averno. O cão, ao contacto com a luz diurna, que pela primeira vez via, sentiu-se fortemente incommodado, expellindo pela negra e suja bocca torrentes de baba, que, ao tocarem o sólo, se transformaram em vegetaes venenosos como o liquido que lhes déra origem.APAMARGA.Angelo de Gubernatis conta-nos assim a lenda da apamarga (Achyrantes aspera), uma vulgar planta indiana.Segundo uma lenda doYagúrveda negro(II, 95), Indra tinha matado Vr'itra e outros demonios, quando encontrou o demonio Namuc'i e luctou com elle; vencido fez as pazes com Namuc'i com a condição de não o matar nunca, nem com corpo sólido, nem com liquido, nem de dia, nem de noite.Então Indra apanhou espuma, que não é sólida nem liquida, e veio durante a aurora, na occasião em que a noute tinha desapparecido mas o dia ainda não raiára, e feriu com ella o monstro Namuc'i. Da cabeça de Namuc'i nasceu então a herbaapamarga, e Indra em seguida, com ajuda d'esta herba, destruiu todos os outros monstros.TRIGO.Satanaz tinha dado um grande campo a um lavrador com a condição de que metade da colheita seria para elle. N'aquella occasião, e na terra onde o facto se déra, não era conhecida senão a sementeira da batata, que foi a que o lavrador fez. Chegada a epocha da colheita, o diabo veio reclamar o que lhe pertencia, e, dizendo que a metade d'elle era a que estava debaixo da terra, emquanto que a do ar era do lavrador, deixou este só com a rama, sem ter alimento para todo o anno. O pobre do homem ludibriado por Satanaz, lastimava a sua sorte, chorando á beira do caminho que passava por junto do campo, quando appareceu um santo monge que inquirindo a causa do pezar do lavrador, resolveu pregar uma peça ao diabo. Disse ao homem que o acompanhasse e, chegado ao mosteiro a que pertencia, deu-lhe sementes de trigo, ensinando-lhe como se semeava e como d'elle se fabricava pão.O lavrador fez o que o santo monge lhe indicara, e, logo que veio o tempo da colheita, chamou Satanaz que, como no anno anterior, reclamou o que estava sob a terra, mas d'aquella vez ficou logrado pois só teve as raizes emquanto o lavrador se regalava com a magnifica colheita de trigo que lhe forneceu um saborosissimo pão.AMOREIRA NEGRA.Esta amoreira que mais tarde recebeu o nome scientifico deMorus nigra, tem uma commovente e celebre historia de amor.Thisbe tinha marcado uma entrevista a Pyramo sob a copada folhagem de uma amoreira. Thisbe chegou primeiro, e emquanto esperava o bem amado appareceu uma leôa com a bocca ainda tincta do sangue da presa que acabara de devorar. A donzella cheia de medo, fugiu correndo, e o vento arrancando-lhe o veu, que lhe envolvia a cabeça, atirou-o junto da leôa, que o despedaçou, tingindo-o de sangue.Pyramo, ao chegar, vê o veu, e julgando que a amante fôra devorada pelas féras, cheio de desespero, suicida-se junto da arvore que por tanto tempo lhes abrigara os bellos e deliciosos sonhos de amor.Thisbe, volta pouco depois, e, dando com Pyramo moribundo, trespassa o coração com o mesmo ferro de que elle se servira e cáe morta sobre o corpo do amante.Os fructos da arvore brancos até então ficaram depois, para sempre, negros.CEDRO.O cedro foi venerado desde os mais remotos tempos, e foi elle tambem que forneceu a madeira de que fabricaram a cruz onde Christo morreu.Salomão cantou os cedros do Libano, os symbolos da immortalidade, e todos os povos antigos tinham pelo cedro particular veneração.Uma arvore, considerada sempre pelo homem como arvore protectora por excellencia, não podia deixar de ser tambem divinisada pelas lendas. Entre as muitas que correm por todo o Oriente duas ha verdadeiramente deliciosas, uma chinesa e outra egypcia.Hanpang secretario do rei Kang, amava doidamente sua esposa a formosa Ho. A sua pura felicidade foi porém perturbada um dia pelo rei Kang que, enamorando-se perdidamente de Ho, fez prender Hanpang esperando que assim a pobre esposa cederia aos seus infames desejos.Hanpang vendo-se preso, impossibilitado de defender a esposa, desesperado, suicidou-se, e Ho, ao saber da morte do marido, atirou-se d'uma alta torre onde o rei a encerrara, morrendo logo da queda. Ao removerem o corpo da desventurada Ho foi-lhe encontrada uma carta dirigida ao rei em que pedia que lhe mandasse sepultar o corpo junto do do marido.O rei, porém, furioso por ter sido ludibriado, ordenou que os corpos fossem enterrados longe um do outro, mas, caso estranho, de noite brotaram dous cedros um de cada sepultura, e em poucos dias cresceram tanto, que, apesar de muito afastados um do outro, entrelaçaram fortemente os ramos e as raizes, conseguindo assim os dois esposos, eternisar transformado o seu amor.A lenda egypcia differente na fórma, no fundo é quasi a mesma.Batou, um heroe egypcio, tem a vida ligada ao viver do cedro. O seu coração está no centro da arvore junto á qual vive. Cortando a arvore o heroe morrerá. Porém dado esse caso, ainda póde vir a resuscitar se antes de sete annos seu irmão Anpon, lhe procurar o coração e, logo que o encontrar, o mergulhar n'um certo e especial liquido sagrado.Os deuses que particularmente estimavam Batou, não querendo que elle vivesse constantemente só, junto do cedro que lhe guarda o coração, dão-lhe por esposa uma mulher que especialmente criaram para tal fim, e que é a mais formosa que até então existira.Batou, perdido de amor pela mulher, cuja belleza é funesta, revela-lhe o segredo da sua existencia fatalmente ligada á do cedro.Um rio que passava atravez o bosque apaixona-se pela mulher de Batou, e este, para aplacar as aguas, vê-se obrigado a cortar á esposa uma trança de cabello e dal-a ao rio. O rio orgulhoso com o bello penhor recebido leva-o ao sabor da corrente, emballando-o com melodias estranhas e embriagando-se com o delicioso aroma que o cabello emittia.A lavadeira do rei d'aquelle pais, que estava lavando roupa nas aguas do rio, vê a formosa trança, apanha-a e vae-a entregar ao rei, que vendo cabellos tão bellos e aspirando-lhe o perfume embriagador, fica logo apaixonado pela mulher, a quem pertenciam, e manda soldados ao bosque do cedro, com o fim de se apoderarem da cubiçada presa, mas Batou mata-os a todos. O rei não desanima, levanta um novo e numerosissimo exercito e com elle consegue vencer Batou e obter a mulher.Porém esta não podia casar com o rei emquanto Batou fosse vivo; preferindo porém ser rainha a mulher de um heroe revela ao rei o segredo da vida de Batou.O cedro então é cortado e Batou morre.Anpou que ia visitar o irmão, encontrando-o morto, parte á busca do coração para o fazer resuscitar, e só ao fim de quatro annos é que consegue descobrir no interior de um cedro o coração do irmão.Depõe-o logo n'um vaso cheio de liquido sagrado e passado um dia o coração começa a palpitar e Batou revive. Anpou faz-lhe beber o liquido e o coração e Batou adquirindo todo o seu passado vigor transforma-se n'um touro que todo o Egypto venera.A rainha ao saber que Batou vive transformado em touro, obtém do rei que este o mande matar, porém quando o animal era immolado as suas primeiras gotas de sangue logo que tocaram no sólo deram nascimento a dous cedros, nova transformação de Batou.O rei a pedido da mulher, faz cortar as arvores, trabalho a que ella assiste jubilosa.Porém um pequenino fragmento de madeira salta e entra-lhe pela bocca, sem que lhe seja possivel expellil-o. Passados dias vê a rainha que está gravida e no fim do tempo proprio, dá á luz um formoso rapaz, nova incarnação de Batou.MARMELLEIRO.O marmelleiro foi na antiguidade consagrado a Venus, e o seu fructo considerado como um penhor de amor.Outr'ora os noivos, segundo Plutarco, comiam marmellos, para lhes tornar agradavel a sua primeira entrevista e segundo outros para obter filhos varões. Porém a verdadeira consagração do marmelleiro e do marmello a Venus, isto é ao amor, vem de um facto astucioso que a antiguidade altamente celebrou.Akontius apaixonou-se doidamente pela formosa Cydippe de Delos. Não se atrevendo a fazer-lhe uma declaração de amor, colocou no templo de Diana, junto do local onde Cydippe costumava fazer as suas orações á deusa, um marmello com a seguinte inscripção:Pela divindade de Diana, juro que serei esposa de Akontius.A rapariga entrando no templo e vendo o fructo apanhou-o e leu em voz alta a inscripção fazendo por isso, inconscientemente o juramento sagrado de esposar Akontios, o que religiosamente cumpriu.ROMÃ.A romã simbolisa a fecundidade e a riqueza pelo grande numero de sementes que em si contém. Foi um fructo muito apreciado pelos antigos que o tinham em especial estima.Dario, o grande rei asiatico, repetia frequentemente que só desejava possuir tantos amigos fieis como de sementes tem uma romã.Era tambem frequente, n'aquelles bons remotos tempos os povos presentearem os reis que os visitavam com romãs, significando assim que lhes desejavam tão numerosos e felizes annos de vida, como as sementes contidas nos fructos.Na Turquia, as noivas, após a ceremonia do casamento, atiram violentamente com uma romã ao chão; se o fructo não rebentar é signal que não terão filhos, e rebentando terão tantos quantas forem as sementes que d'elle se espalharem pelo sólo.A romanzeira era tambem arvore phallica por excellencia, facto confirmado pela seguinte e antiquissima lenda narrada por Oppiano.Um homem viuvo namorou-se tão furiosamente de uma filha por nome Sida, que esta teve de suicidar-se para escapar á infame perseguição do pae. Os deuses condoídos transformaram Sida em romanzeira e o pae em falcão, e é por isso—diz Oppiano—que estas aves nunca pousam na romanzeira, evitando-a cuidadosamente.AÇUCENA.Foi na Grecia, que teve origem a lenda da açucena a quem os gregos chamavam aflôr das flores.Héraclés, uma creança, por ordem de seu pae Zeus, sugou o leite dos peitos de Héra, emquanto esta dormia, afim de participar da immortalidade que ella possuia. A creança porém, fel-o com tal força, e o leite era tão abundante, que lhe sahiu em borbotões pela bocca e correndo pelo sólo além deu origem ávia lacteae á açucena.A deusa Aphrodite, que por ter nascido da espuma do mar se considerava de uma alvura sem egual, ao vêr a candidez da açucena ficou furiosa de despeito e, para se vingar da flôr, fez-lhe brotar do centro um enorme e feiissimo pistillo.PALMEIRA.Simbolisa a palmeira a victoria, a riqueza, a força, a resistencia e a belleza. Na poesia oriental são muitas vezes comparadas as pernas e os braços das formosas indianas ás hastes flexiveis e elegantes das palmeiras.A arvore divina de todos os povos não podia tambem deixar de ser santificada pelo christianismo.Foi-o na seguinte e deliciosa lenda christã.Quando a Virgem em companhia do esposo e do divino filho fazia a sua primeira e dolorosa viagem, descançou um dia á sombra de uma palmeira. Ao vêr os tentadores fructos da arvore, desejou-os ardentemente, porém estavam tão altos que lhe não era possivel chegar-lhe. S. José esforçava-se por subir á arvore, quando esta se inclinou e veio collocar-se ao alcance da Virgem que colheu os fructos que quiz, e só depois d'isso é que a arvore retomou a primitiva posição vertical.Jesus Christo, que estava ao cólo da mãe, reconhecido pela dedicação da palmeira, abençoou-a dizendo que ella ficaria sendo o simbolo da salvação eterna para os moribundos e que havia de fazer—como mais tarde fez—a sua entrada triumphal em Jerusalem, com uma palma na mão.RABANETE.A lenda relativamente a este vegetal é uma lenda allemã.O diabo apaixonando-se por uma formosa princesa, esposa de um grande rei do paiz do Sol, roubou-a, encerrando-a em reconditos jardins situados entre altas montanhas.Como a princesa chorasse constantemente por se vêr só, o diabo deu-lhe uma vara magica e disse-lhe que quando quizesse companhia tocasse com ella um rabanete que elle logo se animaria transformando-se em uma mulher. Porém as companheiras que a princesa obtinha d'esta fórma só viviam emquanto os rabanetes tinham succo. Logo que seccavam as donzellas morriam.A princeza desejando enganar o diabo pediu-lhe para que lhe désse uma vara magica com a qual podésse transformar os rabanetes nos animaes que quisesse. O espirito das trévas imaginando que d'esta fórma obteria as boas graças da princeza accedeu gostoso. Esta, obtida a vara magica, transformou um rabanete em abelha que mandou como mensageira ao esposo. A abelha não voltou e ella transformou outro rabanete em grillo que faz seguir o mesmo caminho. Como o grillo não regressasse tocou um terceiro rabanete que transformou em cegonha e esta traz-lhe o esposo. N'isto o diabo, desconfiando que estava sendo ludibriado foi contar os rabanetes mas, emquanto se entretinha com este serviço, a princesa transformou um rabanete, que já tinha escondido de prevenção, em fogoso cavallo e, montado n'elle, juntamente com o esposo, fugiu para sempre do poder do diabo.TABACO.Esta planta foi, como é sabido, introduzida na Europa pelos portuguezes n'essa bella epocha em que audaciosos e fortes dictavam leis ao mundo submisso e absorto ante as suas façanhas sobrehumanas.Recebida ao principio com estima, provocou em breve o tabaco, intensa e crúa guerra.Para uns era aherva santa, o remedio certo e seguro de todas as doenças, para outros aherva do diabo, a herva maldita, a origem de todos os males.A egreja lançou-lhe excommunhão, os monarchas açoutaram-a com os seus odios, e leis severissimas prohibiram o uso do tabaco. Pois apesar de tudo elle foi-se espalhando de tal fórma, que por todo o mundo é raro agora o homem que o não usa cheirando-o, fumando-o ou mascando-o. O tabaco hoje é quasi um alimento, e o producto querido dos principaes governos civilisados que d'elle extrahem as suas melhores e mais seguras receitas.Medicos e hygienistas notaveis téem-se ultimamente esforçado em mostrar os inconvenientes do uso e abuso do tabaco, o quanto elle concorre para o enfraquecimento das gerações, mas tudo isso são palavras ao vento; todos reconhecem o mal mas ninguem tem forças de o cortar pela raiz.O vicio alastra cada vez mais, do homem vae passando para a mulher e d'esta para a creança. É uma praga universal.Espalhado como está, ferindo a imaginação de todos os povos, não podia deixar de ter o tabaco muitas e variadas lendas; a mais antiga e a mais curiosa é a dos Tchumaches.Este povo, que sempre seguira a lei de Deus, foi uma vez tentado por uma mulher idolatra que, com os seus propositos libertinos, esteve quasi a fazer naufragar a proverbial castidade dos Tchumaches. Deus ao vêr em perigo os homens que estimava ordenou-lhes, para se lavarem da culpa, que matassem a seductora, e a enterrassem em seguida no centro de um escuro bosque.O marido d'esta mulher, industriado pelo diabo, que não podia vêr com bons olhos a virtude dos Tchumaches, plantou-lhe sobre a sepultura uma vara que aquelle lhe deu, vara que com o tempo se transformou n'um bello arbusto de largas e formosas folhas. Os Tchumaches passando mais tarde por alli viram o idolatra cortar ao arbusto as folhas seccas, encher com ellas um cachimbo, pegar-lhe fogo e sorver depois com avidez o aromatico fumo que ellas desenvolviam.Admirados com o facto, imitaram o manejo do idolatra, e sentiram tal prazer com o fumo do tabaco, que nunca mais cessaram de fumar, perdendo, assim as boas graças de Deus, e cahindo sob o dominio do diabo, pois a planta não era mais que uma nova incarnação de Satanaz o qual assignala a sua passagem por qualquer logar com fumo intenso e um cheiro nauseante, embriagador, egual ao do tabaco.MILHO.As espigas dos cereaes foram sempre o simbolo da abundancia, e a do milho, pela côr dourada da semente era mais particularmente o simbolo da riquesa.Na Africa, entre os selvagens, a espiga do milho representa a propriedade do sólo.Conta o Dr. Schweinfurth, n'um dos seus livros de viagens, que na Africa, as tribus depois da respectiva declaração de guerra, collocam no extremo dos seus dominios, em local bem exposto, de modo a poder facilmente ser visto por todos, uma espiga de milho, uma mólhada de pennas d'ave e uma flecha, o que quer significar que quem cortar uma espiga de milho ou agarrar uma ave, será morto por uma flecha.Na Calabria ha a seguinte e graciosissima lenda relativa ao milho, que seguindo Gubernatis não é mais do que uma variante, sob fórma moderna, do antigo conto mytologico de Midas que mudava em oiro todo o trigo que tocava.Uma mãe tinha sete filhas, seis muito diligentes e cuidadosas e a setima preguiçosa em extremo. Eram todas tecedeiras, mas a mais nova, formosa entre as formosas, passava o tempo a tratar da sua pessoa e a confeccionar bellos vestidos em vez de cuidar das suas obrigações caseiras.Um domingo as irmãs mais velhas foram á missa e deixaram a coser sob a vigilancia da mais nova sete pães de milho. Como se demorassem a mais nova foi comendo um a um os pães, de modo que quando as irmãs regressaram da egreja não restava nenhum.As irmãs faltando-lhe o almoço fizeram tal barulho que teve de intervir para as apasiguar um dos mais ricos mercadores da cidade que n'aquelle momento passava por acaso na rua.As irmãs fallando todas ao mesmo tempo dizem-lhe que a mais nova comia por sete, mas o homem comprehendendo que o barulho era motivado por inveja das outras irmãs e que a rapariga fiava por sete, tratou logo de se casar com ella.Realisado o casamento o negociante partiu para longa viagem deixando á mulher, como tarefa, um grande quarto cheio de linho para fiar.Estava prestes o regresso do negociante e a mulher ainda não tinha fiado nada. Por mais que quizesse não o podia fazer, e as irmãs jubilosas riam e troçavam-a, contentes por calcularem que o marido logo que chegasse não deixaria de lhe castigar severamente a preguiça.A pobre rapariga chorava, chorava, pretendendo debalde fiar o linho mesmo com lagrimas, mas nada, nada obtinha.Um dia que estava á janella a lastimar a sua sorte passaram umas boas fadas que, compadecendo-se da infeliz, lhe disseram que ao fiar, em logar de passar os dedos pelos labios, os passasse por farinha de milho.A fiandeira assim fez, e d'ahi por deante, com grande jubilo, não só podia fiar quanto queria mas tambem o fio, ao contacto da farinha de milho, transformava-se logo em rico fio de puro oiro.

O louro anjo Sible tinha sido mandado por Deus, mitigar o soffrimento d'uma pobre noiva cujo bem amado morrera na guerra, defendendo o solo sagrado da patria. Era Sible o anjo mais gentil de todos quantos formam a immensa legião que Deus commanda, e o favorito querido do Senhor.

Contente com o encargo que lhe fôra dado, Sible bateu as azitas da mais fina plumagem e dirigiu-se para a cabana perdida no meio do bosque, onde morava a desditosa Amel que, chorando desesperadamente, lastimava a solidão e o abandono em que ficava depois de têr architectado tantos e tão risonhos projectos de felicidade.

Sible entrou na cabana no momento mesmo em que a inditosa rapariga, allucinada pela dôr, procurava pôr termo á existencia, e começou, para a consolar, a pintar-lhe com tão brilhantes côres a morte gloriosa do noivo, o logar distincto que elle ia occupar no reino dos ceus, esperando que ella se lhe fosse juntar para se realisar o eterno e venturoso enlace patrocinado por Deus, que o desespero da rapariga abrandou como por encanto, e um sorriso, raio de sol após temporal desfeito, fugitivamente se lhe esboçou no rosto amargurado. Mas para que Amel merecesse uma felicidade tão extraordinaria, felicidade não sonhada por mortal algum, era preciso, indicou-lhe o anjo, que esquecesse a dôr mitigando o soffrimento alheio, indo em santa romagem do bem para a cabeceira dos doentes, dos pobres doentes desamparados de carinhos e de familia, e para junto das creancinhas que a guerra fizera orphãs, esperar que Deus a chamasse a si, dando-lhe a companhia eterna do bem amado.

Sible empregou o dia todo na sua divina tarefa, e quando a noute começou a estender o escuro veu sobre a terra, contente por se ter satisfatoriamente desempenhado da tarefa que lhe era imposta, despediu-se da donzella e quiz tomar o caminho do ceu. Mas com o cahir da noute estendera-se sobre o bosque um espesso nevoeiro humido que desnorteou Sible, e molhando-lhe as pennas das azas o impossibilitou de voar. O anjo vendo que lhe era impossivel alcançar o ceu, tratou de procurar um retiro agradavel e seguro onde podesse socegadamente esperar a manhã.

Junto de uma parede meio desmoronada, vicejava uma pujantissima roseira engrinaldada de formosissimas rosas brancas rescendendo os mais puros e divinaes aromas. Mais encantador abrigo, melhor docel não era possivel encontrar em todo o bosque.

Sible foi á parede apanhar um montão de fôfo musgo e com elle fez sob a roseira um leito confortavel, onde, depois, envolvendo-se nas alvas azas de arminho, se deitou disposto a esperar, velando, que chegasse a madrugada.

Porém o aroma que as rosas emittiam era tão embriagador, e o vento brandamente passando atravez a folhagem cantava melodias tão doces, que o anjo pouco a pouco cerrou os olhos e adormeceu profundamente.

Nunca no ceu Sible passara uma tão agradavel noite! Sonhou sonhos tão deliciosos que quando pela manhã o despertaram os primeiros raios do sol, beijou reconhecido as rosas, e estas, córando de alegria e pejo, ficaram para sempre rubras. Mas o anjo considerou o beijo bem fraca recompensa para quem tão agradavelmente o emballara toda a noite, e queria, antes de regressar ao ceu, dar-lhe recompensa maior.

Porém como tornar mais bellas as rosas em que tudo, fórma, colorido e perfume tão distinctamente brilhavam?

Esteve um momento pensativo, e depois, apanhando um pouco do musgo que lhe servira de leito, resguardou cuidadosamente com elle os botões das flores prestes a desabrochar, para que o frio, a chuva e os insectos lhes não causassem damno algum.

E em seguida, batendo as azas, voou para o ceu a dar conta a Deus da missão de que fôra encarregado.

E foi desde então que na terra começou a haver rosas musgo...

Hercules, o lendario gigante invencivel, regressando um dia de praticar uma d'aquellas suas tão memoraveis façanhas, deitou-se em pleno campo para dormir a sesta. Antes porém de se confiar aos braços de Morpheu, no sólo, junto a si, na previsão de qualquer repentino e inesperado ataque, espetou a pesada máça, mais forte que o ferro, e com que esmagava tudo quanto lhe oppunha obstaculo aos seus designios.

Dormiu o bom do gigante por muito tempo e quando acordou era quasi noite; procurou logo a arma predilecta, e com assombro viu em lugar d'ella uma pujante e formosissima arvore! A máça, ao contacto do sólo, enraizara, desenvolvera tronco, lançara ramos, folhas e fructo.

Hercules furioso arrancou o vegetal e, quebrando-lhe os ramos, fez do tronco uma nova e formidavel clava, mais sólida e forte que a que antes possuira.

Porém, dos fructos esparsos pelo sólo, nasceram ao depois novas identicas arvores, que para sempre ficaram sendo o emblema da força e do vigor.

Estas arvores são os carvalhos.

Dakkar era um ardente devoto de Siva a cruel deusa indiana que só gosta de morticinio e de sangue, e que recebe as adorações mais submissas, profundas e completas d'uma legião de crentes que habitam nos misteriosos recessos das florestas da India, d'essa terra das lendas e das maravilhas. Havia annos que vivia n'uma gruta em ardente adoração; de estar sempre de joelhos creara calosidades que lhe não permittiam endireitar as pernas, e as unhas dos dedos das mãos, que conservava fechadas havia annos, tinham rompido os tecidos e appareciam do lado opposto.

Não havia martirio a que se não sujeitasse, e as populações fanaticas consideravam-o Santo e vinham de longe render-lhe homenagem e pedir-lhe conselhos.

Só uma nuvem negra, um pesar profundo perturbava o misticismo de Dakkar. Soffria sem custo o frio, a fome, a sede, as mais incommodas posições, dominando á vontade o organismo, só não podera ainda vencer o somno! Debalde se esforçava por resistir, debalde fazia despejar sobre si quantidades enormes de agua fria, debalde se sujeitava á applicação do ferro em brasa, ou fazia vibrar o tam-tam junto dos ouvidos. O somno como mais forte, subjugava-lhe a vontade e obrigava-o a dormir. No seu desespero chegou a fazer cortar as palpebras cuidando assim que espancaria para longe o somno, mas a tortura foi baldada. Os olhos permaneciam abertos mas Dakkar dormia!

Uma tarde,—havia dias que estava sem comer—orava o fakir fervorosamente pedindo a Siva que se amerciasse d'elle e lhe permitisse antes de morrer a ultima e suprema felicidade de poder vencer o somno, quando começou a sentir-se muito fraco, uma languidez precursora do somno a dominal-o, tudo a dansar-lhe á volta...

Seria fome? Seria somno? Oh, se apasiguando a fome vencesse o somno...

Olhou em roda... alimentos nenhuns; os fieis tinham-se esquecido de lh'os trazer... mas não havia mal... Fóra, perto da gruta, vegetavam variados arbustos, e a alimentação de tantos animaes tambem havia de convir ao homem. Seria mais um sacrificio... E Dakkar arrastando-se com difficuldade, quasi vencido pela necessidade de dormir, chegou até junto d'um vegetal e começou a devorar-lhe as folhas.

Mas, caso milagroso, á medida que ingeria as folhas do vegetal, o somno desapparecia e o fakir sentia-se mais fórte, fresco e vigoroso.

Obrigado oh Siva, exclamou elle jubiloso, agora posso morrer, pois morro feliz visto que graças a ti, alcancei dominar o que até hoje zombara dos meus esforços. Venci o somno!

Começou desde então a fazer colher pelos seus adeptos folhas e folhas do vegetal, que deitava de infusão, e quando o somno fazia sentir os seus primeiros rebates bebia da agua milagrosa e elle desapparecia logo.

O arbusto descoberto pelo fanatico fakir indiano, o vegetal dissipador do somno foi o chá.

N'aquelles bons tempos em que os deuses desciam á terra a confraternizar com os humanos, vivia nos Alpes um rapaz filho de gente pobre mas que pela sua bondade e pelo carinhoso disvelo com que sabia velar á cabeceira dos doentes era querido e estimado por todos.

Tinha a grande e apreciavel arte de por meio de doces cantares saber adormecer aquelles que eram apoquentados pelas mais terriveis e rebeldes insomnias, de modo que os seus conterraneos lhe não deixavam um momento só de descanso.

Em qualquer adoecendo, a familia ia logo têr com o pobre rapaz, que não podendo resistir ás supplicas lá se installava junto dos doentes, emballando-os com as suaves melodias que chamam o somno e que elle sabia dizer como ninguem.

Mas não podendo resistir a tão excessivas e continuadas fadigas e vigilias, foi pouco a pouco enfraquecendo, até que um dia se extinguiu ao caír da tarde, quando o sol morria no extremo horisonte...

Então os deuses para premiarem as boas acções do que morrera praticando o bem, tornaram-o immortal, transformando-o n'uma planta, na papoula, a quem deram a principal virtude pela qual os doentes o desejavam sempre junto a si, a de fazer esquecer o soffrimento por meio do somno.

Chicória era uma princeza tão formosa, que todos os homens ao vêl-a ficavam para sempre perdidos de amores. Dourara-lhe o sol os cabellos mais finos que a mais fina sêda, o céo emprestara-lhe aos olhos o seu doce azul, e a neve, a branca neve das montanhas, tinha inveja á purissima alvura da sua cutis.

Era um encanto.

O rei, seu pae, que a estremecia doidamente, satisfazia-lhe todos os caprichos, todos os desejos, de modo que o viver de Chicória deslisava entre affagos e desejos satisfeitos, n'uma completa e intensa felicidade.

Porém um dia o amor tudo transtornou.

Um bello trovador, um d'aquelles gentis bohemios que percorriam o mundo de lyra no braço, deixando um rasto de paixões no caminho percorrido, chegou ao palacio, onde foi recebido com todo o carinho que então se dispensava ao seguro depositario das antigas tradicções guerreiras e das castas e bellas lendas d'amor.

Berengère se chamava elle, e nunca até então viéra ao palacio real quem melhor soubesse dedilhar a lyra, soltar ao vento os magoados queixumes d'uma alma amorosa ou attingir o apice do enthusiasmo na narrativa dos feitos audazes dos valentes guerreiros immortalisados em campanhas féramente medonhas.

Chicória amou-o perdidamente, e costumada a satisfazer todos os caprichos, pediu ao pae que a casasse com o trovaor. O rei, que nada recusava á filha, accedeu constrangido, mas o bello trovador, que não queria perder a estremecida liberdade que tantas varias aventuras galantes lhe proporcionava e tantos constantes prazeres seguros lhe dava, ao saber dos desejos da formosa princeza fugiu do palacio para nunca mais voltar.

A alegria de Chicória desappareceu desde então para sempre. Passava os dias sentada no varandim do palacio olhando pela estrada além a vêr se o trovador, condoído do seu profundo amor, voltava arrependido, trazendo-lhe a ventura perdida.

Mas debalde esperou.

Veio o inverno, e de sempre olhar fixamente para os caminhos cobertos de neve, pouco a pouco desappareceu-lhe a luz dos olhos...

Então, não podendo resistir a este ultimo golpe, a princeza morreu de paixão.

Sepultaram-a perto do palacio, á beira da estrada, n'um local por ella designado, voltada para o sitio d'onde sempre esperara o regresso do amante; pouco tempo depois, da sepultura da gentil donzella morta de amor, brotaram as plantas que lhe conservam o nome, e que dão uma flôr que pelo bello azul que a tinge faz recordar os castos olhos da candidissima princeza.

Quando Ninive, condemnada pelos seus maleficios, estava prestes a ser arrasada, Jonas, que queria ser espectador do facto tremendo que prophetisára, veio postar-se n'um local d'onde perfeitamente podia presencear o castigo da cidade maldita.

Porém no posto de observação escolhido, não havia uma só arvore, e um sol de fogo, a prumo, tornava tão martyrisante a estada alli do propheta, que este, angustiado, pediu a Deus que o soccorresse, attenuando-lhe de alguma fórma a intoleravel ardencia dos raios solares. Ainda Jonas não tinha acabado a sua fervorosa prece, já uma planta se erguia do sólo, crescia rapidamente e envolvia-o tão bem, que o propheta, contentissimo e consolado, pensando que poderia gosar da bella frescura proporcionada pela folhagem do vegetal, terminou o pedido com um intenso agradecimento ao céo pelo beneficio prestado. Mas n'isto, tão repentinamente como brotára do sólo, a planta seccou e reduziu-se a pó, deitando assim n'um instante por terra as doces esperanças do santo propheta. Esta planta era aaboboreira.

Segundo resa a tradicção fielmente conservada atravez centenas e centenas de gerações, nunca houve nas ilhas do Sol Nascente princeza mais seductoramente formosa do que a companheira bem amada do principe Yoshimtsou.

Pintor algum por mais talento que possua, não será nunca capaz de, com as côres mais finas e custosas, crear imagem mais graciosa do que a da bella japoneza.

Ella era mais fresca que as alvoradas, mais alegre que as searas maduras, mais formosa que o sol e mais sabia que o mais sabio bonzo.

A justiça vacillava em dar sentença em negocio intrincado, dous esposos desharmonizavam-se, pleiteavam visinhos em encarniçada questão que nada parecia poder sanar, era só fazer a princeza Tou-Ki sabedora do caso e ella tudo resolvia com a mais imparcial justiça tudo aplanava e o que mais era digno de nota, a contento de ambas as partes que ficavam abençoando a Providencia das ilhas do Sol Nascente, a boa, a doce, a justa e a santa princeza Tou-Ki.

Por isso todo o mundo a adorava, todas a bemdisiam desde o miseravel habitante das tristes choupanas até ao opulento morador dos labirinticos palacios construidos de porcellana e forrados de custosa sêda de mil côres diversas.

Um dia porém o imperio onde só parecia residir a felicidade foi assolado por um terrivel flagello, uma medonha peste que dizimou espantosamente a população. Tudo era dôr, lagrimas e luto.

A gente atterrada, perdia a cabeça e a nada attendia. Agglomerava-se ante os templos, pedindo aos Deuses, em altos gritos, o termo da praga cruel para que não sabiam remedio.

Quem lhes valeu porém no afflitivo transe foi a boa princeza Tou-Ki. Corria de casa em casa tractando dos doentes, amortalhando os mortos de quem todos fugiam com horror, tomando conta dos pobres orphãos abandonados, consolando e animando os tristes. E a sua popularidade cresceu tão espantosamente que, quando apparecia, todos se lhe lançavam aos pés, e era adorada com fanatismo, como nenhum Deus até então o fôra.

Mas—crueldade da sorte!—quando a peste terminava, quando já todos, applacado o pavor, rendiam graças ao ceu por terem escapado ao mal dizimador, a princeza atacada pela doença cruel que desbastara o seu povo estremecido, foi instantaneamente arrebatada pela morte, como se esta receiasse que demorando-se alguns minutos o amor dos subditos lhe não deixasse empolgar a bella presa preciosa.

Então o luto foi geral, e todos, velhos e novos, choravam doidamente a perda da sua bondosa protectora, da sua amiga, da sua providencia, do seu bem.

O enterro da santa princesa foi a coisa mais maravilhosa que sonhar-se póde. Toda a nação a acompanhou até junto da sepultura aberta no centro de um extenso e alegre campo de arroz.

Poucos dias depois—caso estranho!—o local onde jasia o corpo da gentil princeza assignalava-se por uma profusão de flores estranhas, desconhecidas de todos, que espontaneamente brotaram do sólo, com as petalas graciosamente encaracoladas como o fôra o cabello da morta gentil, e de mil coloridos diversos desde o negro como os seus olhos negros, vermelho tão vivo como o que em vida lhe tingia os labios, e amarello intenso como o oiro dos seus cabellos até ao branco impeccavel da sua alma purissima.

De toda a parte, desde os mais remotos confins do imperio, o povo, celebrando o milagre, corria a visitar o tumulo milagroso para colher hastes das plantas sagradas que se tornaram logo as predilectas de todos, espalhando-se rapidamente por todo o paiz.

As rosas attrahiram desde a mais alta antiguidade a attenção de todos os povos e por isso não é de estranhar o grande numero de lendas que correm a seu respeito.

Os Egypcios tinham-as em grande valor, ornando-se com ellas, uso que passou aos romanos e d'estes a todos os povos modernos. Ainda não ha muito que appareceram em varios tumulos egypcios restos reconheciveis de rosas.

Os Hindus dizem que o sol é uma rosa vermelha, e os poetas antigos asseveram que as rosas eram todas brancas ao principio tomando a côr vermelha do sangue de Adonis, segundo uns, de Venus, segundo outros.

A Aurora era representada outr'óra sob a forma de uma grinalda de rosas, a rosa deu o nome ás festas da primavera (rusalija), a Virgem christã que substituiu no culto a Venus antiga adoptou como seu o mez das rosas e tem tambem o nome derosarioo cordão com contas, primitivamente composto com tractos daRosa canina, com que as mulheres piedosas marcam as suas rezas.

Os papas aproveitaram um fragmento do antigo culto da rosa, dando annualmente na Paschoa uma rosa d'oiro aos principes mais religiosos da christandade.

Na Idade media, reminiscencia sem duvida do costume das dissolutas da Roma antiga se ornarem de rosas na festa da Venus Erycina, condemnavam as mulheres publicas, as raparigas deshonradas e os judeus, a trazerem como signal distinctivo uma rosa.

Os Romanos nos banquetes punham coroas de rosas na cabeça e ornavam com ellas as taças por onde bebiam em virtude de crerem que estas bellas flores preservavam da embriaguez.

A rosa foi não só simbolo da luz, do amor, da voluptuosidade, mas tambem simbolo funerario. Nas lendas persas as rosas e os cyprestes andam unidos; junto dos tumulos plantavam-se antigamente roseiras ao lado dos cyprestes.

Segundo uma velha lenda irlandesa, quando um doente vê uma rosa é signal e morte.

Os Turcos dizem que a rosa nasceu do suor de Mahomet, os Indianos fazem-a apparecer de um sorriso da voluptuosidade, segundo Galiano é filha do orvalho, e a crêr-se no que affirma Justin de Mieckow brotou do suor de uma mulher chamada Jone, suor que por um phenomeno singular era branco de manhã e vermelho ao meio dia. D'ahi as rosas brancas e as vermelhas.

Anacréonte ensina-nos que Cybéle, para se vingar de Venus, creou a rosa com o fim de pôr em parallelo a belleza de Venus com a belleza da rosa.

Guillemeau diz que a rosa foi rainha e virgem e conta assim a sua historia:

«Existiu n'uma cidade da Grecia e reinou em Corintho; a fama da sua bellesa espalhou-se largamente por todas as cidades ainda as mais distantes. A Achaïa quis possuir esta nimpha proporcionando-lhe as mais illustres allianças.O bravo Halesia collocou-se em primeiro logar, em seguida Briar, que se orgulhava em ser filho do ceu, Arcas distincto dos outros deuses por possuir dois pares d'azas e por ultimo o vencedor de Thebas depoz tambem os seus louros aos pés da joven princeza possuido dos sentimentos affectivos de todos os outros adoradores. Mas a altiva belleza respondeu aos amantes que a importunavam:Não é facil obter um coração como o meu, nem julgueis que vos é possivel seduzir-me. Quem me quizer ha-de vencer-me.Disse, e com um andar altivo encaminhou-se para o templo consagrado a Apollo e a Diana, seguida dos parentes e de todo o povo. A nympha approximou-se do altar e invocou a deusa protectora da castidade. N'isto os amantes furiosos despedaçaram as portas do templo e travou-se um combate encarniçado; a joven rainha sustentou o choque com firmesa, e defendeu-se com tanto vigor que expulsou para longe os ferozes amantes, cujo procedimento pouco delicado a ultrajava.Quer que o pudor irritado désse novas graças á belleza quer que a victoria a tornasse mais imponente, Rhodante brilhava com um esplendor tão divino que o povo deslumbrado exclamou em côro:Que a bella Rhodante seja d'hoje para o futuro a deusa d'este templo. Tiremos Diana do altar.A antiga deusa teve de ceder o logar á nova, mas Apollo indignado por este cumulo de audacia resolveu vingar o ultrage feito á irmã e com um raio luminoso lançado obliquamente mostrou a aversão que tinha a Rhodante, e logo tudo mudou n'ella; os pés ligaram-se-lhes fórtemente ao altar, raizes alongaram-se e, privada repentinamente de todo o sentimento, ficou immovel, tornando-se-lhe duros os incantos vencedores. Os braços estenderam-se e transformaram-se em ramos de arvores carregados de folhas. Já não é a bella Rhodante, a orgulhosa rainha, mas uma arvore.Porém a metamorphose não a prejudicou, visto que sob uma outra fórma conservou a primitiva insensibilidade e a sua belleza deslumbrante.Toda a sua desgraça foi ser formosa, mais formosa que Diana aos olhos dos adoradores que a amaram.Quasi logo o mesmo povo que tinha ultrajado Diana, agitou-se e esforçou-se pola vingar.Sepultam Rhodante sob montões de espinhos que em logar de a prejudicar lhe serviram de defesa.Os que doidamente a amavam foram tambem metamorphoseados: Briar foi transformado em verme, Arcas em mosca, e Halesia em borboleta, e sob esta forma vivem constantemente junto da nympha cruel a quem a metamorphose não mudou».

«Existiu n'uma cidade da Grecia e reinou em Corintho; a fama da sua bellesa espalhou-se largamente por todas as cidades ainda as mais distantes. A Achaïa quis possuir esta nimpha proporcionando-lhe as mais illustres allianças.

O bravo Halesia collocou-se em primeiro logar, em seguida Briar, que se orgulhava em ser filho do ceu, Arcas distincto dos outros deuses por possuir dois pares d'azas e por ultimo o vencedor de Thebas depoz tambem os seus louros aos pés da joven princeza possuido dos sentimentos affectivos de todos os outros adoradores. Mas a altiva belleza respondeu aos amantes que a importunavam:Não é facil obter um coração como o meu, nem julgueis que vos é possivel seduzir-me. Quem me quizer ha-de vencer-me.

Disse, e com um andar altivo encaminhou-se para o templo consagrado a Apollo e a Diana, seguida dos parentes e de todo o povo. A nympha approximou-se do altar e invocou a deusa protectora da castidade. N'isto os amantes furiosos despedaçaram as portas do templo e travou-se um combate encarniçado; a joven rainha sustentou o choque com firmesa, e defendeu-se com tanto vigor que expulsou para longe os ferozes amantes, cujo procedimento pouco delicado a ultrajava.

Quer que o pudor irritado désse novas graças á belleza quer que a victoria a tornasse mais imponente, Rhodante brilhava com um esplendor tão divino que o povo deslumbrado exclamou em côro:

Que a bella Rhodante seja d'hoje para o futuro a deusa d'este templo. Tiremos Diana do altar.

A antiga deusa teve de ceder o logar á nova, mas Apollo indignado por este cumulo de audacia resolveu vingar o ultrage feito á irmã e com um raio luminoso lançado obliquamente mostrou a aversão que tinha a Rhodante, e logo tudo mudou n'ella; os pés ligaram-se-lhes fórtemente ao altar, raizes alongaram-se e, privada repentinamente de todo o sentimento, ficou immovel, tornando-se-lhe duros os incantos vencedores. Os braços estenderam-se e transformaram-se em ramos de arvores carregados de folhas. Já não é a bella Rhodante, a orgulhosa rainha, mas uma arvore.

Porém a metamorphose não a prejudicou, visto que sob uma outra fórma conservou a primitiva insensibilidade e a sua belleza deslumbrante.

Toda a sua desgraça foi ser formosa, mais formosa que Diana aos olhos dos adoradores que a amaram.

Quasi logo o mesmo povo que tinha ultrajado Diana, agitou-se e esforçou-se pola vingar.

Sepultam Rhodante sob montões de espinhos que em logar de a prejudicar lhe serviram de defesa.

Os que doidamente a amavam foram tambem metamorphoseados: Briar foi transformado em verme, Arcas em mosca, e Halesia em borboleta, e sob esta forma vivem constantemente junto da nympha cruel a quem a metamorphose não mudou».

O marquez de Chesnel dá-nos noticia da seguinte lenda grega:

«Apesar de consagrada desde a mais tenra infancia ao culto de Diana, Rosalia formou o projecto de desposar o bello Cymédoro.Mas não se affronta impunemente a colera dos Deuses. Apenas acabava de pronunciar aos pés do altar do hymineu os juramentos sagrados, uma flecha despedida por Diana trespassou-lhe o coração. Cymédoro com a cabeça perdida lança-se sobre o corpo da esposa, mas... oh prodigio! em lugar das formas seductoras da noiva só estreita de encontro ao peito um arbusto coberto de espinhos e flores odoriferas que recebeu depois o nome da infeliz Rosalia».

«Apesar de consagrada desde a mais tenra infancia ao culto de Diana, Rosalia formou o projecto de desposar o bello Cymédoro.

Mas não se affronta impunemente a colera dos Deuses. Apenas acabava de pronunciar aos pés do altar do hymineu os juramentos sagrados, uma flecha despedida por Diana trespassou-lhe o coração. Cymédoro com a cabeça perdida lança-se sobre o corpo da esposa, mas... oh prodigio! em lugar das formas seductoras da noiva só estreita de encontro ao peito um arbusto coberto de espinhos e flores odoriferas que recebeu depois o nome da infeliz Rosalia».

Abel Belmont, resume assim uma outra lenda que lhe foi transmittida por Joseph Balmont:

«Era no tempo maravilhoso em que a Natureza se afadigava em produzir em cada dia um novo sêr.N'um alto monte, um arbusto estranho, sem ramos e sem folhas, tinha brotado da terra, e alli permaneceu durante muitissimos annos sempre no mesmo estado.Um dia porém uma mulher joven e formosissima, tocando lyra e cantando melodiosamente, approximou-se da planta.Ao vêr um vegetal tão feio, condoeu-se e afagou-o com a mão: apenas o vegetal se sentiu tocado, da extremidade semi secca borbolhou seiva e brotaram petalas macias como a mão que tocou o arbusto e rosadas como as faces da formosa cantora.Nenhuma flôr na terra pôde depois para o futuro ser comparada em belleza e perfume á deslumbrante rosa que Venus fez nascer».

«Era no tempo maravilhoso em que a Natureza se afadigava em produzir em cada dia um novo sêr.

N'um alto monte, um arbusto estranho, sem ramos e sem folhas, tinha brotado da terra, e alli permaneceu durante muitissimos annos sempre no mesmo estado.

Um dia porém uma mulher joven e formosissima, tocando lyra e cantando melodiosamente, approximou-se da planta.

Ao vêr um vegetal tão feio, condoeu-se e afagou-o com a mão: apenas o vegetal se sentiu tocado, da extremidade semi secca borbolhou seiva e brotaram petalas macias como a mão que tocou o arbusto e rosadas como as faces da formosa cantora.

Nenhuma flôr na terra pôde depois para o futuro ser comparada em belleza e perfume á deslumbrante rosa que Venus fez nascer».

Angelo de Gubernatis conta-nos da seguinte fórma a lenda da roseira brava:

«Arosa caninapassa na Allemanha por sinistra e diabolica.Müllenhoff ouviu no Schleswig uma lenda em que o diabo, caído do ceu, afim de para alli tornar a subir procurou fazer uma escada com os espinhos da roseira brava.Deus em castigo do facto condemnou o vegetal a não poder elevar-se mas só ramificar-se para os lados; então, despeitado, o diabo voltou-lhe para o sólo a ponta dos espinhos.Outros pretendem que a roseira brava, recebeu esta maldição na occasião em que n'ella se enforcou Judas, e é commemorando este facto que ainda hoje chamam aos fructos,Judas-beeren(bagas de judas).

«Arosa caninapassa na Allemanha por sinistra e diabolica.

Müllenhoff ouviu no Schleswig uma lenda em que o diabo, caído do ceu, afim de para alli tornar a subir procurou fazer uma escada com os espinhos da roseira brava.

Deus em castigo do facto condemnou o vegetal a não poder elevar-se mas só ramificar-se para os lados; então, despeitado, o diabo voltou-lhe para o sólo a ponta dos espinhos.

Outros pretendem que a roseira brava, recebeu esta maldição na occasião em que n'ella se enforcou Judas, e é commemorando este facto que ainda hoje chamam aos fructos,Judas-beeren(bagas de judas).

O aconito é conhecido como planta venenosa desde a mais alta antiguidade. Diz uma lenda grega que este veneno nascera no jardim d'Hécate da baba do cão Cerbero, quando Hercules o arrancou da entrada do Averno. O cão, ao contacto com a luz diurna, que pela primeira vez via, sentiu-se fortemente incommodado, expellindo pela negra e suja bocca torrentes de baba, que, ao tocarem o sólo, se transformaram em vegetaes venenosos como o liquido que lhes déra origem.

Angelo de Gubernatis conta-nos assim a lenda da apamarga (Achyrantes aspera), uma vulgar planta indiana.

Segundo uma lenda doYagúrveda negro(II, 95), Indra tinha matado Vr'itra e outros demonios, quando encontrou o demonio Namuc'i e luctou com elle; vencido fez as pazes com Namuc'i com a condição de não o matar nunca, nem com corpo sólido, nem com liquido, nem de dia, nem de noite.Então Indra apanhou espuma, que não é sólida nem liquida, e veio durante a aurora, na occasião em que a noute tinha desapparecido mas o dia ainda não raiára, e feriu com ella o monstro Namuc'i. Da cabeça de Namuc'i nasceu então a herbaapamarga, e Indra em seguida, com ajuda d'esta herba, destruiu todos os outros monstros.

Segundo uma lenda doYagúrveda negro(II, 95), Indra tinha matado Vr'itra e outros demonios, quando encontrou o demonio Namuc'i e luctou com elle; vencido fez as pazes com Namuc'i com a condição de não o matar nunca, nem com corpo sólido, nem com liquido, nem de dia, nem de noite.

Então Indra apanhou espuma, que não é sólida nem liquida, e veio durante a aurora, na occasião em que a noute tinha desapparecido mas o dia ainda não raiára, e feriu com ella o monstro Namuc'i. Da cabeça de Namuc'i nasceu então a herbaapamarga, e Indra em seguida, com ajuda d'esta herba, destruiu todos os outros monstros.

Satanaz tinha dado um grande campo a um lavrador com a condição de que metade da colheita seria para elle. N'aquella occasião, e na terra onde o facto se déra, não era conhecida senão a sementeira da batata, que foi a que o lavrador fez. Chegada a epocha da colheita, o diabo veio reclamar o que lhe pertencia, e, dizendo que a metade d'elle era a que estava debaixo da terra, emquanto que a do ar era do lavrador, deixou este só com a rama, sem ter alimento para todo o anno. O pobre do homem ludibriado por Satanaz, lastimava a sua sorte, chorando á beira do caminho que passava por junto do campo, quando appareceu um santo monge que inquirindo a causa do pezar do lavrador, resolveu pregar uma peça ao diabo. Disse ao homem que o acompanhasse e, chegado ao mosteiro a que pertencia, deu-lhe sementes de trigo, ensinando-lhe como se semeava e como d'elle se fabricava pão.

O lavrador fez o que o santo monge lhe indicara, e, logo que veio o tempo da colheita, chamou Satanaz que, como no anno anterior, reclamou o que estava sob a terra, mas d'aquella vez ficou logrado pois só teve as raizes emquanto o lavrador se regalava com a magnifica colheita de trigo que lhe forneceu um saborosissimo pão.

Esta amoreira que mais tarde recebeu o nome scientifico deMorus nigra, tem uma commovente e celebre historia de amor.

Thisbe tinha marcado uma entrevista a Pyramo sob a copada folhagem de uma amoreira. Thisbe chegou primeiro, e emquanto esperava o bem amado appareceu uma leôa com a bocca ainda tincta do sangue da presa que acabara de devorar. A donzella cheia de medo, fugiu correndo, e o vento arrancando-lhe o veu, que lhe envolvia a cabeça, atirou-o junto da leôa, que o despedaçou, tingindo-o de sangue.

Pyramo, ao chegar, vê o veu, e julgando que a amante fôra devorada pelas féras, cheio de desespero, suicida-se junto da arvore que por tanto tempo lhes abrigara os bellos e deliciosos sonhos de amor.

Thisbe, volta pouco depois, e, dando com Pyramo moribundo, trespassa o coração com o mesmo ferro de que elle se servira e cáe morta sobre o corpo do amante.

Os fructos da arvore brancos até então ficaram depois, para sempre, negros.

O cedro foi venerado desde os mais remotos tempos, e foi elle tambem que forneceu a madeira de que fabricaram a cruz onde Christo morreu.

Salomão cantou os cedros do Libano, os symbolos da immortalidade, e todos os povos antigos tinham pelo cedro particular veneração.

Uma arvore, considerada sempre pelo homem como arvore protectora por excellencia, não podia deixar de ser tambem divinisada pelas lendas. Entre as muitas que correm por todo o Oriente duas ha verdadeiramente deliciosas, uma chinesa e outra egypcia.

Hanpang secretario do rei Kang, amava doidamente sua esposa a formosa Ho. A sua pura felicidade foi porém perturbada um dia pelo rei Kang que, enamorando-se perdidamente de Ho, fez prender Hanpang esperando que assim a pobre esposa cederia aos seus infames desejos.

Hanpang vendo-se preso, impossibilitado de defender a esposa, desesperado, suicidou-se, e Ho, ao saber da morte do marido, atirou-se d'uma alta torre onde o rei a encerrara, morrendo logo da queda. Ao removerem o corpo da desventurada Ho foi-lhe encontrada uma carta dirigida ao rei em que pedia que lhe mandasse sepultar o corpo junto do do marido.

O rei, porém, furioso por ter sido ludibriado, ordenou que os corpos fossem enterrados longe um do outro, mas, caso estranho, de noite brotaram dous cedros um de cada sepultura, e em poucos dias cresceram tanto, que, apesar de muito afastados um do outro, entrelaçaram fortemente os ramos e as raizes, conseguindo assim os dois esposos, eternisar transformado o seu amor.

A lenda egypcia differente na fórma, no fundo é quasi a mesma.

Batou, um heroe egypcio, tem a vida ligada ao viver do cedro. O seu coração está no centro da arvore junto á qual vive. Cortando a arvore o heroe morrerá. Porém dado esse caso, ainda póde vir a resuscitar se antes de sete annos seu irmão Anpon, lhe procurar o coração e, logo que o encontrar, o mergulhar n'um certo e especial liquido sagrado.

Os deuses que particularmente estimavam Batou, não querendo que elle vivesse constantemente só, junto do cedro que lhe guarda o coração, dão-lhe por esposa uma mulher que especialmente criaram para tal fim, e que é a mais formosa que até então existira.

Batou, perdido de amor pela mulher, cuja belleza é funesta, revela-lhe o segredo da sua existencia fatalmente ligada á do cedro.

Um rio que passava atravez o bosque apaixona-se pela mulher de Batou, e este, para aplacar as aguas, vê-se obrigado a cortar á esposa uma trança de cabello e dal-a ao rio. O rio orgulhoso com o bello penhor recebido leva-o ao sabor da corrente, emballando-o com melodias estranhas e embriagando-se com o delicioso aroma que o cabello emittia.

A lavadeira do rei d'aquelle pais, que estava lavando roupa nas aguas do rio, vê a formosa trança, apanha-a e vae-a entregar ao rei, que vendo cabellos tão bellos e aspirando-lhe o perfume embriagador, fica logo apaixonado pela mulher, a quem pertenciam, e manda soldados ao bosque do cedro, com o fim de se apoderarem da cubiçada presa, mas Batou mata-os a todos. O rei não desanima, levanta um novo e numerosissimo exercito e com elle consegue vencer Batou e obter a mulher.

Porém esta não podia casar com o rei emquanto Batou fosse vivo; preferindo porém ser rainha a mulher de um heroe revela ao rei o segredo da vida de Batou.

O cedro então é cortado e Batou morre.

Anpou que ia visitar o irmão, encontrando-o morto, parte á busca do coração para o fazer resuscitar, e só ao fim de quatro annos é que consegue descobrir no interior de um cedro o coração do irmão.

Depõe-o logo n'um vaso cheio de liquido sagrado e passado um dia o coração começa a palpitar e Batou revive. Anpou faz-lhe beber o liquido e o coração e Batou adquirindo todo o seu passado vigor transforma-se n'um touro que todo o Egypto venera.

A rainha ao saber que Batou vive transformado em touro, obtém do rei que este o mande matar, porém quando o animal era immolado as suas primeiras gotas de sangue logo que tocaram no sólo deram nascimento a dous cedros, nova transformação de Batou.

O rei a pedido da mulher, faz cortar as arvores, trabalho a que ella assiste jubilosa.

Porém um pequenino fragmento de madeira salta e entra-lhe pela bocca, sem que lhe seja possivel expellil-o. Passados dias vê a rainha que está gravida e no fim do tempo proprio, dá á luz um formoso rapaz, nova incarnação de Batou.

O marmelleiro foi na antiguidade consagrado a Venus, e o seu fructo considerado como um penhor de amor.

Outr'ora os noivos, segundo Plutarco, comiam marmellos, para lhes tornar agradavel a sua primeira entrevista e segundo outros para obter filhos varões. Porém a verdadeira consagração do marmelleiro e do marmello a Venus, isto é ao amor, vem de um facto astucioso que a antiguidade altamente celebrou.

Akontius apaixonou-se doidamente pela formosa Cydippe de Delos. Não se atrevendo a fazer-lhe uma declaração de amor, colocou no templo de Diana, junto do local onde Cydippe costumava fazer as suas orações á deusa, um marmello com a seguinte inscripção:Pela divindade de Diana, juro que serei esposa de Akontius.

A rapariga entrando no templo e vendo o fructo apanhou-o e leu em voz alta a inscripção fazendo por isso, inconscientemente o juramento sagrado de esposar Akontios, o que religiosamente cumpriu.

A romã simbolisa a fecundidade e a riqueza pelo grande numero de sementes que em si contém. Foi um fructo muito apreciado pelos antigos que o tinham em especial estima.

Dario, o grande rei asiatico, repetia frequentemente que só desejava possuir tantos amigos fieis como de sementes tem uma romã.

Era tambem frequente, n'aquelles bons remotos tempos os povos presentearem os reis que os visitavam com romãs, significando assim que lhes desejavam tão numerosos e felizes annos de vida, como as sementes contidas nos fructos.

Na Turquia, as noivas, após a ceremonia do casamento, atiram violentamente com uma romã ao chão; se o fructo não rebentar é signal que não terão filhos, e rebentando terão tantos quantas forem as sementes que d'elle se espalharem pelo sólo.

A romanzeira era tambem arvore phallica por excellencia, facto confirmado pela seguinte e antiquissima lenda narrada por Oppiano.

Um homem viuvo namorou-se tão furiosamente de uma filha por nome Sida, que esta teve de suicidar-se para escapar á infame perseguição do pae. Os deuses condoídos transformaram Sida em romanzeira e o pae em falcão, e é por isso—diz Oppiano—que estas aves nunca pousam na romanzeira, evitando-a cuidadosamente.

Foi na Grecia, que teve origem a lenda da açucena a quem os gregos chamavam aflôr das flores.

Héraclés, uma creança, por ordem de seu pae Zeus, sugou o leite dos peitos de Héra, emquanto esta dormia, afim de participar da immortalidade que ella possuia. A creança porém, fel-o com tal força, e o leite era tão abundante, que lhe sahiu em borbotões pela bocca e correndo pelo sólo além deu origem ávia lacteae á açucena.

A deusa Aphrodite, que por ter nascido da espuma do mar se considerava de uma alvura sem egual, ao vêr a candidez da açucena ficou furiosa de despeito e, para se vingar da flôr, fez-lhe brotar do centro um enorme e feiissimo pistillo.

Simbolisa a palmeira a victoria, a riqueza, a força, a resistencia e a belleza. Na poesia oriental são muitas vezes comparadas as pernas e os braços das formosas indianas ás hastes flexiveis e elegantes das palmeiras.

A arvore divina de todos os povos não podia tambem deixar de ser santificada pelo christianismo.

Foi-o na seguinte e deliciosa lenda christã.

Quando a Virgem em companhia do esposo e do divino filho fazia a sua primeira e dolorosa viagem, descançou um dia á sombra de uma palmeira. Ao vêr os tentadores fructos da arvore, desejou-os ardentemente, porém estavam tão altos que lhe não era possivel chegar-lhe. S. José esforçava-se por subir á arvore, quando esta se inclinou e veio collocar-se ao alcance da Virgem que colheu os fructos que quiz, e só depois d'isso é que a arvore retomou a primitiva posição vertical.

Jesus Christo, que estava ao cólo da mãe, reconhecido pela dedicação da palmeira, abençoou-a dizendo que ella ficaria sendo o simbolo da salvação eterna para os moribundos e que havia de fazer—como mais tarde fez—a sua entrada triumphal em Jerusalem, com uma palma na mão.

A lenda relativamente a este vegetal é uma lenda allemã.

O diabo apaixonando-se por uma formosa princesa, esposa de um grande rei do paiz do Sol, roubou-a, encerrando-a em reconditos jardins situados entre altas montanhas.

Como a princesa chorasse constantemente por se vêr só, o diabo deu-lhe uma vara magica e disse-lhe que quando quizesse companhia tocasse com ella um rabanete que elle logo se animaria transformando-se em uma mulher. Porém as companheiras que a princesa obtinha d'esta fórma só viviam emquanto os rabanetes tinham succo. Logo que seccavam as donzellas morriam.

A princeza desejando enganar o diabo pediu-lhe para que lhe désse uma vara magica com a qual podésse transformar os rabanetes nos animaes que quisesse. O espirito das trévas imaginando que d'esta fórma obteria as boas graças da princeza accedeu gostoso. Esta, obtida a vara magica, transformou um rabanete em abelha que mandou como mensageira ao esposo. A abelha não voltou e ella transformou outro rabanete em grillo que faz seguir o mesmo caminho. Como o grillo não regressasse tocou um terceiro rabanete que transformou em cegonha e esta traz-lhe o esposo. N'isto o diabo, desconfiando que estava sendo ludibriado foi contar os rabanetes mas, emquanto se entretinha com este serviço, a princesa transformou um rabanete, que já tinha escondido de prevenção, em fogoso cavallo e, montado n'elle, juntamente com o esposo, fugiu para sempre do poder do diabo.

Esta planta foi, como é sabido, introduzida na Europa pelos portuguezes n'essa bella epocha em que audaciosos e fortes dictavam leis ao mundo submisso e absorto ante as suas façanhas sobrehumanas.

Recebida ao principio com estima, provocou em breve o tabaco, intensa e crúa guerra.

Para uns era aherva santa, o remedio certo e seguro de todas as doenças, para outros aherva do diabo, a herva maldita, a origem de todos os males.

A egreja lançou-lhe excommunhão, os monarchas açoutaram-a com os seus odios, e leis severissimas prohibiram o uso do tabaco. Pois apesar de tudo elle foi-se espalhando de tal fórma, que por todo o mundo é raro agora o homem que o não usa cheirando-o, fumando-o ou mascando-o. O tabaco hoje é quasi um alimento, e o producto querido dos principaes governos civilisados que d'elle extrahem as suas melhores e mais seguras receitas.

Medicos e hygienistas notaveis téem-se ultimamente esforçado em mostrar os inconvenientes do uso e abuso do tabaco, o quanto elle concorre para o enfraquecimento das gerações, mas tudo isso são palavras ao vento; todos reconhecem o mal mas ninguem tem forças de o cortar pela raiz.

O vicio alastra cada vez mais, do homem vae passando para a mulher e d'esta para a creança. É uma praga universal.

Espalhado como está, ferindo a imaginação de todos os povos, não podia deixar de ter o tabaco muitas e variadas lendas; a mais antiga e a mais curiosa é a dos Tchumaches.

Este povo, que sempre seguira a lei de Deus, foi uma vez tentado por uma mulher idolatra que, com os seus propositos libertinos, esteve quasi a fazer naufragar a proverbial castidade dos Tchumaches. Deus ao vêr em perigo os homens que estimava ordenou-lhes, para se lavarem da culpa, que matassem a seductora, e a enterrassem em seguida no centro de um escuro bosque.

O marido d'esta mulher, industriado pelo diabo, que não podia vêr com bons olhos a virtude dos Tchumaches, plantou-lhe sobre a sepultura uma vara que aquelle lhe deu, vara que com o tempo se transformou n'um bello arbusto de largas e formosas folhas. Os Tchumaches passando mais tarde por alli viram o idolatra cortar ao arbusto as folhas seccas, encher com ellas um cachimbo, pegar-lhe fogo e sorver depois com avidez o aromatico fumo que ellas desenvolviam.

Admirados com o facto, imitaram o manejo do idolatra, e sentiram tal prazer com o fumo do tabaco, que nunca mais cessaram de fumar, perdendo, assim as boas graças de Deus, e cahindo sob o dominio do diabo, pois a planta não era mais que uma nova incarnação de Satanaz o qual assignala a sua passagem por qualquer logar com fumo intenso e um cheiro nauseante, embriagador, egual ao do tabaco.

As espigas dos cereaes foram sempre o simbolo da abundancia, e a do milho, pela côr dourada da semente era mais particularmente o simbolo da riquesa.

Na Africa, entre os selvagens, a espiga do milho representa a propriedade do sólo.

Conta o Dr. Schweinfurth, n'um dos seus livros de viagens, que na Africa, as tribus depois da respectiva declaração de guerra, collocam no extremo dos seus dominios, em local bem exposto, de modo a poder facilmente ser visto por todos, uma espiga de milho, uma mólhada de pennas d'ave e uma flecha, o que quer significar que quem cortar uma espiga de milho ou agarrar uma ave, será morto por uma flecha.

Na Calabria ha a seguinte e graciosissima lenda relativa ao milho, que seguindo Gubernatis não é mais do que uma variante, sob fórma moderna, do antigo conto mytologico de Midas que mudava em oiro todo o trigo que tocava.

Uma mãe tinha sete filhas, seis muito diligentes e cuidadosas e a setima preguiçosa em extremo. Eram todas tecedeiras, mas a mais nova, formosa entre as formosas, passava o tempo a tratar da sua pessoa e a confeccionar bellos vestidos em vez de cuidar das suas obrigações caseiras.

Um domingo as irmãs mais velhas foram á missa e deixaram a coser sob a vigilancia da mais nova sete pães de milho. Como se demorassem a mais nova foi comendo um a um os pães, de modo que quando as irmãs regressaram da egreja não restava nenhum.

As irmãs faltando-lhe o almoço fizeram tal barulho que teve de intervir para as apasiguar um dos mais ricos mercadores da cidade que n'aquelle momento passava por acaso na rua.

As irmãs fallando todas ao mesmo tempo dizem-lhe que a mais nova comia por sete, mas o homem comprehendendo que o barulho era motivado por inveja das outras irmãs e que a rapariga fiava por sete, tratou logo de se casar com ella.

Realisado o casamento o negociante partiu para longa viagem deixando á mulher, como tarefa, um grande quarto cheio de linho para fiar.

Estava prestes o regresso do negociante e a mulher ainda não tinha fiado nada. Por mais que quizesse não o podia fazer, e as irmãs jubilosas riam e troçavam-a, contentes por calcularem que o marido logo que chegasse não deixaria de lhe castigar severamente a preguiça.

A pobre rapariga chorava, chorava, pretendendo debalde fiar o linho mesmo com lagrimas, mas nada, nada obtinha.

Um dia que estava á janella a lastimar a sua sorte passaram umas boas fadas que, compadecendo-se da infeliz, lhe disseram que ao fiar, em logar de passar os dedos pelos labios, os passasse por farinha de milho.

A fiandeira assim fez, e d'ahi por deante, com grande jubilo, não só podia fiar quanto queria mas tambem o fio, ao contacto da farinha de milho, transformava-se logo em rico fio de puro oiro.


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