Falemos serio: não comtigo, philosopho esthetico-romantico-progressivo, que não vales a pena d'isso, mas com o povo portuguez, que fala portuguez chão e intelligivel. Falemos serio, porque estas materias de crença e de culto são cousas graves e sanctas. Saber resistir á violencia é forte, mas vulgar; saber resistir á calumnia e aos motejos é maior esforço e mais raro. Envergonhemo-nos do que houver mau e corrupto nos nossos costumes; envergonhemo-nos de muitas vezes não seguirmos na vida practica os dictames do christianismo: não nos envergonhemos, porém, do culto dos sete seculos da monarchia. A lingua e a religião são as duas cadeias de bronze, que unem no correr dos tempos as gerações passadas ás presentes; e estes laços que se prolongam através das eras são a patria. A patria não é a terra; não é o bosque, o rio, o valle, a montanha, a arvore, a bonina; são-no os affectos que esses objectos nos recordam na historia da vida: é a oração ensinada a balbuciar por nossa mãe, a lingua em que pela primeira vez ella nos disse:—"meu filho!"—A patria é o crucifixo com que nosso pae se abraçou moribundo, e com que nós nos abraçaremos tambem antes de ir dormir o grande somno, ao pé do que nos gerou, no cemiterio da mesma aldeia em que elle e nós nascemos. A patria é o complexo de familias enlaçadas entre si pelas recordações, pelas crenças, e até pelo sangue. Tomae, de feito, as duas dellas que vos parecerem mais estranhas, collocadas nas provincias mais oppostas de um paiz: examinae as relações de parentesco de uma com outra familia, quaes as desta com uma terceira, e assim por diante. Dessa primeira, que tão estranha vos pareceu á ultima, achareis um fio, enredado sim, talvez inextricavel, mas sem solução de continuidade. Uma nação não é só metaphoricamente uma grande familia: é-o tambem no rigor da palavra.
A oração que consolou nossos avós nos consola no dia da amargura: o gesto com que imploramos a providencia é mais vehemente quando nos foi transmittido por aquelles que pedem por nós a Deus. É por esse meio que os homens apertam mais os laços invisiveis que os unem aos seus maiores; porque o sentimento mysterioso da familia, e portanto da nacionalidade, se purifica e fortalece quando se prende no céu.
Vêde na historia a prova de que a religião póde por si só crear uma nacionalidade mais rapidamente que todos os outros elementos que tendem a compôr as nações. Considerae as cruzadas; essa multidão de homens nascidos em paizes diversos, entre os quaes não ha nenhuma communidade de interesses, antes muitas vezes odios sangrentos e fundos. Lá na Asia, em frente do islamismo, formam um só povo; são irmãos, porque ajoelham todos ante o mesmo altar; combatem todos pela mesma idéa religiosa. Olhae para os mussulmanos: vêde o koran agglomerando, assimilando o beduino e o egypcio, o alarve do Atlas e o negro de El-Sudan. Onde quer que um pensamento grande precisa de toda a energia de uma unidade social para se desenvolver e realisar, lá haveis de encontrar a religião produzindo essa energia.
Se isto é assim, qual culto, entre os de todas as parcialidades christans, será mais efficaz em gerar essa unidade forte do amor patrio, que dá, não tanto a vida activa e exterior, como uma vida intima, escondida, tenaz, que resiste á morte e á dissolução social? Serão essas mil variações do protestantismo, que diariamente se vão subdividindo, e condemnando umas pelas outras; essas crenças incertas, em que o filho já despreza o culto que o pae seguiu, e o neto desprezara o de ambos? Quando e onde, não dizemos na mesma cidade e na mesma rua, mas na mesma familia, em quanto o marido dorme ao som monotono do sermão anglicano, sublime de trivialidade e tedio, a mulher dá representações de Bedlam[1] n'uma senzala de quakers ou de methodistas, póde-se acaso dizer que ahi a religião é laço que impeça a morte do corpo da republica, não nos dias de ventura e prosperidade exterior, em que é facil conservar pelo orgulho a unidade nacional, mas nas epochas de calamidade e decadencia? Parece-nos pouco provavel. Ahi, as prisões moraes da familia são apenas habitos humanos, e não estão harmonisadas e sanctificadas por se prenderem no céu: o primeiro sopro das paixões ou da desventura as reduzirá a pó. A historia tambem no-lo diz, e a historia não é senão a prophecia do futuro.
O protestantismo accusa o catholicismo de se haver afastado da pureza christan antiga, e gaba-se de ter revocado o christianismo ás suas tradições primitivas. O discutir tal materia, em relação ás doutrinas, fôra insensato: os tempos dessa argumentação consummaram-se; tudo por este lado está dicto de parte a parte. Quanto, porém, ás formulas exteriores do nosso culto, são essas que ainda hoje attrahem os insulsos motejos da imprensa protestante; é o culto catholico principalmente que dá origem áquellas graças inglezas, tão agudas como a intelligencia dos habitantes doBethnal-Greende Londres ou doWindsde Glasgow, embrutecidos pela fome, pela embriaguez e pela immundicie; tão brilhantes e leves como o fumo de carvão de pedra, que constitue a atmosphera britannica. Diariamente são accommettidas as duas nações das Hespanhas nos seus habitos religiosos por homens que empregariam melhor o tempo em estudar os cancros asquerosos que devoram moral e materialmente a classe popular no seu proprio paiz, e em pedir á riqueza, só poderosa, só respeitada, só insolente, mais alguma caridade para com os muitos milhões dos seus compatricios, que lidam, cheios de fome e de frio, cubertos de farrapos e vermes, para accumularem aos pés de bem poucos homens as fortunas incalculaveis e quasi fabulosas que alimentam o luxo desenfreado de Londres, da Roma, ou antes da Babilonia moderna.
Por certo que no culto catholico se tem introduzido abusos, e para isso contribue muitas vezes o proprio clero, menos instruido, menos bem educado, moralmente, que o clero anglicano. Mas em que é culpado o culto da pouca instrucção dos seus ministros, e dessa falta de educação moral, que diversas causas, alheias á religião, têm trazido e trazem ainda? É a igreja que recommenda a ignorancia? São os abusos consequencias logicas das doutrinas catholicas? Eis o que cumpriria se provasse, como não é difficultoso mostrar, que o protestantismo, querendo annullar as pompas e espectaculos, as formulas externas e brilhantes do catholicismo, matou tudo o que a crença do Calvario tinha de uncção, de consolações, de affectos para o commum dos seus sectarios, e converteu a religião n'uma certa metaphysica nevoenta, que foge á comprehensão das almas rudes e vulgares, quebrando todos os esteios, a que nesta vida de tristezas e dores ellas se encostavam para confiarem no céu, e consolarem-se na esperança; porque esses arrimos, necessarios á sua fraqueza intellectual, eram o unico meio de subirem até o throno de Deus, e descerem de lá armadas de resignação para continuarem a luctar com as tempestades da existencia. O protestantismo foi só feito para os ditosos e abastados da terra!
Vêde aquella casinha, tão humilde e só, no meio de um descampado. Lá, sobre camilha dura e rota, delira em accesso febril um filho, unico amparo da mãe idosa, que véla chorando ao pé delle. Na sua solidão e miseria nenhuns soccorros humanos póde esperar a pobre velha, cujas mãos trémulas em vão tentam conchegar as roupas, que o febricitante arroja, murmurando afflicto com o ardor que o devora. Uma lampada de ferro, que allumia frouxa o aposento, arde no canto opposto diante de uma grosseira e affumada imagem da Virgem. A triste mãe volve para lá os olhos embaciados da idade e das lagrymas, e sente que não se acha inteiramente abandonada. Alli está outra mãe que tambem derramou pranto por um filho; pranto mil e mil vezes mais amargoso que o seu. Ella ha-de comprehender-lhe a afflicção e valer-lhe, porque é boa, e poderosa ante Deus. Ei-la, a pobre velha, que trôpega se arrasta, e ajoelha aos pés da imagem, e cruza as mãos enrugadas, e ora; ora com fé viva. Na procella de terrores que a cercam começa a bruxulear uma luz de esperança: espera, porque crê na possibilidade da intercessão e dos milagres; e anima-se, e a tempestade da sua alma asserena-se, e a dor mitiga-se, porque, no meio das lagrymas e das resas, ella pensa lá comsigo que aquella imagem trouxe já muitas consolações a seus paes, a ella mesma, e a toda a familia, e que a Virgem Sanctissima ha-de acudir-lhe ao seu filho, que desde pequenino gostava de ir apanhar as flores campestres para enfeitar a Senhora, e que tantas vezes á noite antes de se deitar ía pôr-se de joelhos alli onde ella estava, e resar uma salve-rainha. E quantas vezes, depois destas orações ardentes, volve Deus olhos compassivos para a morada da miseria e da amargura, e obra, não um milagre inutil, mas o beneficio que faria qualquer medico, se na habitação solitaria houvesse a possibilidade de se buscarem os soccorros da sciencia humana!
Dirá o protestantismo que isto é idolatria? Que! Ignora, acaso, o mais grosseiro catholico que acima dessa imagem está o espirito puro que ella representa, e que acima desse espirito está Deus? O catholicismo no seu culto das imagens, nas suas festas, nas suasvisualidades, como vós lhes chamaes, commetteu o grave erro de suppôr que a maioria do genero humano não era composta de philosophos, nem capaz de um espiritualismo absoluto; de abstrahir inteiramente das cousas sensiveis para remontar ao céu. O catholicismo lembrou-se das doutrinas do Christo; accommodou-se á curta comprehensão dos pequenos e humildes. Vós tendes um evangelho mais fidalgo e altivo. O protestantismo convem por isso ao Reino-Unido, onde os quatrocentos mil senhores do solo são tudo, e são nada quinze ou vinte milhões de servos de gleba e de mendigos.
E como deixaria elle de ser exclusivo, aristocratico, orgulhoso? Essa crença, ou antes essa infinidade de crenças, unidas só em guerrear a igreja de dezoito seculos, e que no dia em que lhes faltasse o inimigo commum se despedaçariam mutuamente, não podem deixar de viver de um mysticismo perfumado, de um culto inintelligivel para o povo. Desde que a reforma substituiu á auctoridade e á tradição a sciencia humana, o raciocinio e a discussão, saíu do templo para a eschola; transformou-se de fé em theoria. Então o christianismo deixou de ser uma cousa practica e positiva para todos os homens: os espiritos grosseiros e ignorantes acceitaram-n'o como um costume que acharam no mundo, sem affecto nem má vontade, e as imaginações desregradas fizeram cada qual uma religião a seu modo. Deram uma biblia ao ganhapão, ao porcariço, ao belforinheiro, e por esse facto constituiram-n'o theologo, sancto-padre, e até concilio. Creram ter estendido ao genero-humano a maravilha das linguas de fogo que desciam sobre os apostolos, e ficaram muito contentes de si. As multidões é que ficaram tristes e desconsoladas, porque tinham desapparecido de redor dellas todos os symbolos, todas as imagens, que lhes serviam como de marcos miliarios para buscarem a Deus.
Affigurae-vos, de feito, o exemplo da mãe idosa e miseravel, que vê em transes mortaes o filho, seu unico abrigo; buscae este exemplo ou outro qualquer, porque entre os pequenos não são raras nem pouco variadas as occasiões de asperos infortunios. Lançae-a no seio do protestantismo. Qual refugio lhe offerecerá a religião; refugio immediato, solido, esperançoso? A biblia? Tambem nós sabemos que thesouros encerra a biblia: tambem nós sabemos quantas vezes as suas paginas divinas têm feito dilatar em torrentes de lagrymas as negras aperturas do coração: tambem nós sabemos que dessa fonte inexhaurivel mana a resignação e a paz: a igreja catholica sabia-o muitos seculos antes de vós existirdes. Mas quem vos assegura que a pobre velha achará a passagem analoga á sua situação; que encontrará nas palavras do livro sacrosanto o conforto de que carece, e a esperança do soccorro immediato e sobre-humano de que não menos precisa? Quem vos assegura, emfim, que ella saberá ler? Ou é que no paiz dos quakers a inspiração tambem faz de mestre-eschola, como exercita o mister de mestre de theologia?
E depois, não sabeis que a dor moral do homem do povo tem gemidos e queixumes; é estrepitosa, delirante, sincera? que não se reporta, não se esconde, e vem ao gesto, aos meneios, aos olhos, á voz, como a dor physica! Julgae-la acaso semelhante aospleendo dandy, ou ao devorar intimo e calado das almas, a quem a educação e a sciencia ensinaram a dignidade das grandes agonias? Estes taes, exteriormente tranquillos, podem encostar-se ao braço, fitar os olhos no livro aberto ante si, e aspirar naquellas paginas sublimes e profundas o halito consolador que dellas espira. Mas para o homem do povo, quasi primitivo, quasi selvagem, cujos olhos nadam em pranto, e que se estorce e brada flagellado pela afflicção, a biblia é nesses instantes inutil, porque é impossivel. Deixae-lhe a imagem do sancto, o crucifixo, o voto, o altar domestico, a lampada accesa ante o vulto do martyr ou da Virgem: deixae-lhe o ajoelhar, o gemer, o resar, o fazer promessas. Deixae os symbolos materiaes da confiança na providencia á imbecilidade da natureza humana, aliás, crendo anniquilar a superstição e a idolatria, não fareis senão matar a vida moral e religiosa do povo.
Se nos dias, desgraçadamente mui communs, das máguas extremas só o catholicismo tem conforto para o homem rude, nos de contentamento só o catholicismo tem festas que convertam para a gratidão e para Deus o seu goso interior, que tende a trasbordar em risos e folgares. O simples repouso do domingo, para o que, condemnado a lavor indefesso durante a semana inteira, compra á custa de suor e cansaço um pouco de pão duro e grosseiro, é uma alegria semelhante á do preso, que, adormecendo em ferros, despertasse livre. Aquelle coração precisa de dilatar-se, aquelles sentidos de recrearem-se, aquelle espirito murcho e triste de se tornar viçoso, de desabrochar de novo ao sol da vida, ao menos n'alguns desses dias reservados ao descanço. É então que o catholicismo lhe offerece as pompas das suas solemnidades; o templo illuminado, os canticos dos sacerdotes, as harmonias do orgão, o espectaculo brilhante das vestes sacerdotaes e dos adornos do altar, os ramilhetes povoando os degraus do sanctuario, ou juncando o pavimento, o incenso embalsamando a atmosphera. E como tudo isto é para as multidões, o culto trasborda do estreito recincto e derrama-se pelas ruas, pelas praças, pelos campos em procissões, em cirios, em romarias, e o povo fluctua, folga, resa, tripudia, esquece-se dos seus destinos de miseria e trabalho, ama a religião que o consola, e voltando ás suas habituaes fadigas, leva para o meio dellas a saudade do dia-sancto e as recordações affectuosas da igreja.
E o protestantismo? O protestantismo despedaçou os vultos dos sanctos, prohihiu os oragos, as procissões e as romagens: esfarrapou alvas, casulas, amictos, pluviaes; apagou as luzes; varreu as flores; assoprou o incenso. Fechou-se na celebração do domingo; e fez bem! bem ao povo, a quem para tedio e tristeza, nos paizes protestantes, sobeja o domingo. E porque fez elle isto? Foi porque essas cousas eram superstições papistas: as imagens idolatria, a agua benta agua lustral, as vestes sacerdotaes indecencias ridiculas, as ceremonias visagens, a missa mentira. Passagens de biblia e compridos sermões ficaram bastando ao culto externo, e se alguma cousa deixaram ainda a este, poetica e attractiva, foi o canto dos psalmos e as harmonias do orgão; porque, como todos sabem, nas agapas dos christãos primitivos cantavam-se os psalmos ao som do orgão!! Os protestantes são indubitavelmente antiquarios eruditos, mas, sobretudo, logicos.
Qual foi o resultado desta reformação insensata de instituições antigas e venerandas? Foi que o culto se tornou n'um habito machinal, n'uma acção que se practíca na impossibilidade de se practicar outra. A policia vigia sobre isso. Deixe ella ao domingo abrir as lojas, os passeios, os estabelecimentos publicos, os espectaculos, as fabricas e as officinas; deixe correr nas veias do corpo social o sangue comprimido, e os templos dos districtos d'Inglaterra mais fervorosos no protestantismo ficarão tão ermos como as igrejas da Irlanda, onde o reitor préga ao sacrista o suado sermão, que ha-de um dia, impresso, allumiar o mundo, emquanto o seu recalcitrante rebanho, á porta do presbyterio solitario, ouve ajoelhado na rua a missa que em altar portatil lhe diz o pobre clerigo catholico, verdadeiro e legitimo pastor, a quem incumbe o consola-los, bem como ao parocho protestante pertence… o que? Fazer predicas ás paredes, e comer os dizimos, sacramento, que, de certo, o puritanismo protestante achou n'algum alfarrabio velho ter sido instituido por Christo!
Temos ouvido lamentar ás pessoas de boa fé excessiva, destas que estudam as nações nas apparencias, e não na vida intima, que o catholicismo não tome entre nós a severidade e decencia exterior do culto anglicano; que o dia consagrado ao Senhor não seja guardado pontualmente; que as nossas igrejas não offereçam na celebração dos officios divinos a gravidade, o silencio, a ordem, o aceio de um templo protestante, nas horas destinadas á oração. No estado actual das sociedades, em que o fervor dos primeiros tempos christãos tem esfriado, em que, tanto entre catholicos como entre protestantes, a religião deixou de ser o primeiro, ou, ao menos, o exclusivo negocio dos homens, o que elles desejam seria impossivel, e se absolutamente um bem, relativamente um grande mal; porque as causas que facilitam esse estado de cousas em Inglaterra são a prova mais clara da morte, se não de uma certa religião vaga, em que os espiritos mais cultivados se alevantam até ao pé do throno de Deus, ao menos da religião positiva, practica, definida, morta e enterrada ha muito na mina de carvão de pedra chamada Gran-Bretanha.
Já dissemos que não é tanto o sentimento religioso que guarda em Inglaterra a decencia do culto, como a admiravel policia ingleza. Quem não o sabe? Quem ignora que naquelle paiz a religião tem a natureza de outra qualquer formula material da sociedade; que é uma cousa como o regimento, a nau de guerra, oworkhouse? Ao christão um vigario, uma biblia, e a cadeia se perturbar o officio divino; ao soldado um coronel, uma espingarda, e uns açoutes se mecher a cabeça na fórma; ao marinheiro um commodóro, um posto juncto da amurada, e um mergulho por baixo da quilha se offender a disciplina; ao miseravel que vae cahir no workhouse um director implacavel, uma atafona, e ração curta para aprender a deixar-se estalar á mingua sem pedir esmola. A cada instituição suas condições, sua sancção penal, seus destinos: o regimento serve para provar aos chartistas que a melhor organisação politica possivel é a que faz morrer annualmente milhares de obreiros de fadiga, de fome, e de febres putridas sobre uma pouca de palha fetida e humida, no fundo de subterraneos; a nau serve para civilisar a India pelas contribuições, e moralisar a China pelo opio; o workhouse serve para curar radicalmente os que não têm nem pão nem camisa, do vicio infame da mendicidade; emfim a igreja dominante(established church)serve para sustentar de dizimos muitas familias honradas com as modestas e reformadas prebendas anglicanas, entre as quaes nenhuma excede a vinte mil libras esterlinasper annum, ou, em moeda portugueza, a obra de uns mesquinhos duzentos mil cruzados.
O templo catholico é commummente o symbolo da completa igualdade: lá não ha distincções, senão para os ministros do culto; e quando o orgulho humano, que forceja sempre por invadir ainda as cousas mais sagradas, vae ahi profanamente estender o tapete aristocratico, e collocar sentinellas, o povo murmura, e murmura em voz alta; porque sabe que na sociedade christan só ha um Grande e Poderoso, que é Deus. Os nossos habitos, as nossas idéas são que o mais commodo, o mais distincto logar no templo pertence ao que primeiro o occupou. O catholicismo entendeu que diante da magestade do Creador os vermes cobertos de brocado não o são menos que os vermes cobertos de farrapos. Assim o vulgo dos fiéis precipita-se como torrente através dos umbraes da igreja; estrepita nas lageas do pavimento com os seus sapatos ferrados; roça com o burel grosseiro as finas sedas dos nobres e abastados; afasta com as mãos callosas os grupos alindados dos peralvilhos; esquece-se, emfim, dos respeitos humanos, que se guardam, e devem guardar, cá fóra. Como, pois, obter a ordem, as attenções, o silencio? O nosso povo é rude e mal educado (não o gabâmos por isso; mas o vulgacho inglez leva-lhe, em bruteza, incomparavel vantagem); o nosso povo conserva dentro do templo os habitos ruidosos, inquietos, grosseiros da praça publica. E poderia elle despi-los de subito ao entrar na casa de Deus? Prova acaso o borborinho, que ahi sôa, desprezo pela religião? Examinae os que parecem estar com menos respeito e decencia; os que falam e se agitam: são aquelles entre os quaes o christianismo iria achar os seus martyres, se viessem de novo os tempos em que a crença do Crucificado precisava de ser revalidada pelo sangue dos seguidores da cruz. Que esses pobres tontos, que nos motejam sem nos conhecerem, venham estudar o catholicismo portuguez, se d'isso são capazes, e saberão se nós falâmos verdade.
Nestas consequencias, tão logicas, tão rigorosas do caracter primitivo da religião christan, e do estado das classes inferiores da sociedade, poz cobro a igreja anglicana. É verdade que Jesu-Christo, segundo o Evangelho,na traducção vulgata, chamou principalmente os pobres e humildes; e se no templo ha quem valha mais que outrem, não são por certo aquelles que o Filho de Deus achava mais anchos para entrarem no reino dos céus, do que um camello para entrar no fundo de uma agulha. A igreja reformada entendeu provavelmente que outra era a interpretação do Evangelho; porque é corrente que os catholicos nunca souberam grego, desde S. Jeronymo até Angelo Policiano, ou Ayres Barbosa, para o poderem interpretar bem. Assim, em Inglaterra, aquellas tão formosas e vastas cathedraes da idade média, a que só falta um culto poetico e consolador para serem sublimes, repartiram-se em camarotes de theatro, fechados á chave, e alguns até com todos os requisitos dessecomfort, que só os inglezes conhecem bem. As jerarchias do dinheiro e do sangue estão lá rigorosamente guardadas: pelo logar dos stallos, e pelo seu luxo, os espiritos habituados á topographia daChurchpodem orçar o numero d'avós ou os milhares de libras que possue cada filho da igreja anglicana: o commum dos villãos, empurrados para ao pé da porta, lá perdem em parte os deliciosos periodos do sermão do reitor, encarregado de acalentar… queremos dizer de conservar puros na fé averiguada e decretada pela grande theologa chamada a rainha Isabel, os seusdizimadosfreguezes.
E o vulgo? Os homens do trabalho, da fome, dos farrapos? Os tres quartos da população ingleza? Esses? Esses lá têm o templo da esperança e do consolo: lá tem ogin's palace(palacio da genebra), a taberna. Na sua incrivel miseria, os homens que não podem encontrar Deus, porque a igreja anglicana lh'o collocou n'uma atmosphera nebulosa, onde o não descortinam; porque o templo os repelle; porque opriestcom seu aristocratico, polido e perfumado sermão, não póde substituir a entidade exclusivamente catholica chamada o missionario, sublime de persuasão, de energia e de virgem rudeza; os miseraveis, dizemos, atiram-se desorientados aos braços da embriaguez, porque a embriaguez tem o esquecimento, tem a sua horrivel alegria. Lá, nogin's shop, estendendo o braço cadaverico e vacillante para a destruidora bebida, sorvendo-a com phrenesi, essa especie de brutos com fórma humana resumem no seu aspecto e meneios, e na decadencia de todos os sentimentos de pudor, as ultimas consequencias moraes do protestantismo.
Que nos seja permittido citar as proprias palavras de um escriptor moderno[2], que, melhor talvez que ninguem, pintou o estado presente das ultimas classes em Inglaterra, e que em todos os factos que narra se funda ou nas proprias observações, ou nos documentos officiaes publicados pelo governo inglez. Perfeitamente imparcial a respeito da Gran-Bretanha, o seu testemunho é o que mais a proposito podemos neste ponto invocar.
"A seriedade e o silencio com que este licôr ardente (a genebra) é tragado, fazem arripiar. É como se o povo assistisse a um officio divino. Consummado o sacrificio, vão-se assentando no banco de madeira corrido em frente do balcão, e alli ficam quedos, mudos, como arrebatados em ineffavel extasi. Depois, passados alguns minutos, voltam ao balcão, tornam a beber, e repetem até se lhes acabar o dinheiro. Vae-se assim a ultima mealha. E têm animo de affrontarem o morrer de fome, elles e seus filhos, para se embriagarem. Provou-se pelos inqueritos feitos por causa da lei dos pobres, que as esmolas em dinheiro, dadas pelas parochias, íam cahir inteiras na taberna, e só aproveitavam ao taberneiro.A povoação infima da Inglaterra está de tal modo atolada no seu lodaçal, que não ha ahi caridade que possa desempega-la."
"Sabem todos quão rigoroso preceito ecclesiastico e civil é o guardar o domingo em Inglaterra. A unica excepção da regra é a taberna. Lojas, tudo fechado; logares de honesto ou instructivo recreio, como hortos botanicos e museus, o mesmo. Só ogin's shopse abrirá de par em par a quem empurrar a porta com o pé. O caso está em que pareça cerrada: duas meias portas solidas, que se fechem por si, fazem a festa: janellas fechadas: dentro lusco-fusco, como em sanctuario, e até sua luz de gaz. Tomadas estas cautelas, plena licença, licença auctorisada para se venderem bebidas todo o dia sem lhe faltar hora. E é neste paiz que os caminhos de ferro estão devolutos por todo o tempo do officio divino, em honra do domingo! Emquanto, em Manchester, eu me espantava das largas que se davam ás tabernas, apresentava-se á camara dos Lords um bill para prohibir o transporte das mercadorias pelos canaes no sagrado dia do domingo! Nesta cidade de Manchester ha jardins zoologicos e botanicos, que o povo frequenta gostoso; mas não se obtem da pontualidade anglicana que estejam patentes no dia sancto; e os bispos, tão escrupulosos no mais, são indifferentes pelo que toca aosgin's shops, abertos publicamente e frequentados ao domingo. Não é singular que a cousa unica permittida ao povo seja o embriagar-se?"
Não!—diriamos nós ao auctor do excellente livro que havemos citado.—O governo e a igreja da Gran-Bretanha sabem que entre a horrivel miseria das classes laboriosas, a embriaguez e o suicidio não ha uma quarta cousa para suavisar a agonia dos tractos que a primeira dá ao homem do povo. A religião, que falava aos sentidos do vulgacho, e por meio delles ao seu espirito, mataram-n'a; e como a morte não tem remedio, o protestantismo, creança de dous dias, mas já sem vigor e esfalfada, encommenda á religião das pipas o salvar os malaventurados obreiros, não do suicidio moral, mas ao menos do physico.
Dir-se-ha que o povo não está entre nós n'uma situação analoga á do povo inglez, para o catholicismo ser posto á prova? Felizmente isso é verdade. Mas já houve tempos quasi semelhantes, posto que ainda inferiores em terribilidade, aos que vão correndo para a gente miuda de Inglaterra. Era quando a peste devastava as nossas cidades e ermava os nossos campos, levando-nos ás vezes mais de um terço da população. Ahi existem innumeraveis monumentos dessas epochas desastrosas: que appareça um só por onde se prove que o desalento popular buscasse conforto no vinho e aguardente. Pois, cá, o remedio não era caro! O que achâmos são as preces, as romarias, as procissões, as lagrymas, os votos, o sentimento exaltado da confiança e da resignação na Providencia. Achâmos a pequena differença que vae de um christão a um bruto.
"E os irlandezes?"—Oh, bem sabemos que os irlandezes, catholicos como nós, na sua miseria monstruosa têm cahido, se é possivel, ainda mais fundo que os inglezes. Mas, em rigor, esses catholicos na intenção e na crença podem acaso sê-lo no culto que aviventa o espirito? Onde lhes deixou o protestantismo os seus templos, os seus sacerdotes, os seus costumes religiosos? O vulgacho irlandez é o argumento mais dolorosamente persuasivo da necessidade dessas festas, dessas alegrias, dessas fórmas materiaes do culto. Sem ellas, o catholico miseravel embrutece-se como o miseravel protestante; e o seu embrutecimento vem, por outra parte, recordar-nos de que não é possivel achar um nome, que qualifique devidamente o descaro com que o anglicanismo, inquisidor implacavel e tenaz de tres seculos, nos lança em rosto as trinta mil verdades e as sessenta mil mentiras, que, com justissimo horror, se relatam da Inquisição.
Eis o que nós podemos responder aos insulsos dicterios com que é diariamente vilipendiado o catholicismo portuguez: e não dizemos tudo; não dizemos metade. Quanto aos motejos que nos dirigem como nação pobre, pequena, fraca, isso não passa de uma covardia, que só deshonra a quem a practíca. Trabalhemos por levantar-nos da nossa decadencia. Será essa a mais triumphante resposta.
E com estas deambulações de patriotismo religioso saltámos a pés junctos pela historia do padre prior. No capitulo seguinte daremos satisfação plena ao pio e benigno leitor.
* * * * *
[1] Bedlam, como a maior parte dos leitores sabem, é o mais famoso hospital de doudos em Inglaterra.
[2] Buret,De la misère des classes laborieuses(1842), Liv. 2. cap. 4.
A quem não tem succedido nas horas de solidão, no silencio da noite em que não póde dormir, ou no pino de dia calmoso, ao atravessar o bosque cerrado e sombrio, onde só se ouve o zumbir e o ferver dos insectos; a quem não tem succedido engolfar-se n'uma vaga meditação, e, por assim dizer, tombar de pensamentos em pensamentos, presos por fio tão tenue, tão imperceptivel para a consciencia, que, depois dessa especie de devaneio, pretender remontar da ultima á primeira idéa seria baldado empenho, por falta de transições naturaes e logicas? E todavia, a alma, que, nessa situação, como que perde o sentimento da vida externa lá achou, no seu incessante cogitar, uma ponte invisivel para transpôr os abysmos que a fria, coixa e orgulhosa razão humana suppõe existirem, quasi a cada passada, no mundo da intelligencia. Quando o espirito se desata dos corpos; quando a imaginação, depurando o senso intimo, o faz repellir a materia, fechando-se, como a mimosa pudica, á acção grosseira dos sentidos externos, o homem alevanta-se até o viver de além da morte, a luz dos anjos allumia-lhe as profundezas mais obscuras do universo ideal, e elle sabe quaes os caminhos e valles que unem as suas cumiadas brilhantes, unicos pontos que se podem enxergar da terra. O primeiro que disse "em tudo está tudo" teve uma destas revelações da imaginação pura, revelação completa do ideal, que não é mais do que a fusão da variedade absoluta e infinita na infinita e absoluta unidade.
Mas estes momentos, em que somos illuminados pelo sol da vida celestial, passam rapidos: o espirito cahe logo dentro dos limites da sua existencia de provança e desterro, e recordando-se confusamente daquellas inspirações passageiras, sorri-se e chama-lhes sonhos, abusões, desvarios. É que a pobre e suberba razão, myope advogada do lodo e do crepusculo, rejeita com horror as cogitações puras e luminosas, que Deus faculta ás vezes ao miseravel ente, creado quasi anjo por elle, e a quem o primeiro raciocinio que se fez na terra converteu em insensato e precíto.
E a que vem estas metaphysicas aqui? De que utilidade são ellas para a historia do parocho da aldeia, e da festa do orago, ha tanto tempo interrompida, e que até agora não tem passado de divagações por objectos sem ligação com a vida e costumes do reverendo padre prior?—"Venha o padre prior: venha a festa—dirão alguns—e deixemo-nos dessas metaphysicas modernas, que escorregam por entre os dedos, e não passam de feixe de maravalhas ao pé daquellas grandes philosophias dos ideologos, que até um sapateiro era capaz de estudar batendo a sola e apertando o ponto; philosophia de pão pão, queijo queijo; philosophia substancial; philosophia d'ouvir, vêr, cheirar, gostar, e apalpar, roliça, atoucinhada, confortativa. Se era necessario algum troço da sciencia doatquieergopara atar estes capitulos ou capituladas da chronica aldeian, porque não recorrer ao clarissimo Condillac, ao bis-clarissimo Tracy? Para que parafusar em entes de razão impalpaveis, em armadilhas que trescalam ás parvoices germanicas, quando estava ahi á mão a philosophia do senso commum, que é o senso patagão e russo, tupinamba e sueco, chim e dinamarquez, emfim o senso de todo o mundo?"
Ai, leitor, que ahi bate o ponto! Quem me dera isso! Quem me dera poder explicar por um capitulo tantos, paragrapho tantos, daquelle sancto homem de Locke, o que me succedeu ao escrever esta famosa historia, e lançar na balança da tua inflexivel justiça uma desculpa de obra grossa dos meus rodeios, desvios e viravoltas na ordem e disposição destes importantes estudos! Por mais que scismasse, por mais que afferisse pelos bons principios ideologicos o meu trabalho, sabia-me tudo torto: era querer levantar uma bóla com um gancho, ou firmar a taboa-rasa do philosopho inglez sobre uma das pontas de um dilemma. Como ageitar a minha narração deambulatoria pelas regras do methodo? Impossivel, impossibilissimo! Fiz então como Constantino Magno. Não achando escapula nem esperança na religião da materia em que me crearam, fugi para a religião dos espiritos, e por uma theoria de abstracçãosubjectivaexpliquei, como Deus me ajudou, as minhas, aliás inexplicaveis, divagações. Encostado a ella como a uma columna de basalto (de basalto, porque as de marmore e de bronze estão muito safadas do uso quotidiano) rir-me-hei do mais abalisado doutor, que venha perguntar-me qual é a ordem logica das minhas idéas. A resposta está no que expuz: pontes intellectuaes, invisiveis, inappreciaveis pelas regras ordinarias do methodo; pontes que unem o branco ao preto, o circular ao anguloso, o proximo ao remoto. Fecho-me nisto. A imaginação que assim o fez, é porque assim devia ser: está muito bem feito, ao menos no mundo da idealidade pura. Foi lá que eu passei de um veneravel parocho d'aldeia, portuguez velho em costumes, em linguagem, em crenças, vulto poetico e sancto, para um inglez impertigado, monosyllabico, iconoclasta, libertador de pretos alheios, escravisador de saxões e irlandezes brancos; n'uma palavra galgei de um a outro pólo da humanidade. Foi lá, que eu pude tombar, rolar, precipitar-me do catholicismo suave, consolador, festivo, ameigador dos miseraveis, despresador dos poderosos suberbos, symbolisador, no seu culto, da igualdade ante Deus, para o anglicanismo perfumado, espartilhado, casquilho, tezo, aristocratico, nevoento, dizimador, intolerante, enxotador dos mendigos, camaroteiro dos templos; pude tombar, rolar, precipitar-me do vertice brilhante, d'onde derrama a sua eterna claridade o puro espirito do christianismo, no charco onde o mergulhou e affogou a vontade de um tyranno devasso do seculo XVI, e a van presumpção de sua filha, a pura, generosa, e sábia Isabel, especie de concilio Niceno de carne e osso para o protestantismo inglez. Dou vinte annos a todos os ideologos para explicarem por outro systema a transição monstruosa e incomprehensivel, que fiz a semelhante respeito nestes gravissimos estudos. Idealisei um inglez (foi façanha!), idealisei o meu bom prior, e no mundo da razão pura lá achei que havia entre essas existencias, infinitamente oppostas, uma affinidade: qual, não sei eu dizer, porque o esqueci: e ainda que me lembrasse, não saberia exprimi-lo. Dada esta explicação aos pechosos, vamos ás promettidas duas palavras sobre a festa.
Era um dia ardente de julho, a 27, cousa certissima para o leitor, em consequencia das minhas profundas investigações chronologicas. O sol ia alto: a igreja parochial, involta no manto tricolor—branco, amarello, e vermelho—cal, ochre, rôxo-terra—parecia rir no seu jubilo. Um moço do Bartholomeu da Ventosa, rapazote de quinze annos, quatro mezes, vinte quatro dias, e vinte tres horas e tres quartos completos (por ter nascido a uma segunda-feira, á meia noite menos um quarto, de dous para tres de março) neste grande dia do orago pilhára ao moleiro duas graças a um tempo, a de deixar em descanço o seu tonel das Danaides, a implacavel joeira, e a de poder assistir á festa e ouvir a missa cantada e o sermão, em vez de ir acabar o pesado somno da madrugada á missa das almas. Gabriel, que assim se chamava o rapaz, ou antesGraviel, segundo a mais euphonica pronuncia saloia, vestiu logo pela manhan as suas calças e jaqueta de bombazina em folha, e o seu colete vermelho, engenhado de um do patrão a trôco de dous mezes de soldada, calçou as botifarras novas, e enterrou o barrete azul e encarnado na cabeça, derrubando-o para traz, e sem fazer caso do almoço (pois era uma açorda que os anjos a comeriam) desandou, outeiro abaixo, pela volta das sete e trinta e cinco minutos da manhan, caminho da parochia. Via-se que um grande negocio lhe occupava o espirito, por isso que levava os olhos cravados no campanario, e sem fazer caso das trilhas, cortava por entre as restevas, escorregando, aqui, nas pedras soltas, levando-as, acolá, diante dos bicos agudos das botifarras. Chegou. O sacristão, que estava á porta da igreja, apenas o lobrigou poz-se a rir, porque logo entendeu o verso. Gabriel era um dos maiores pimpões em repicar sinos que havia entre a rapaziada do logar, mas desde que entrára para casa do tio Bartholomeu, nunca mais puzera pés no campanario. Nos meneios, no gesto, no olhar lhe revia a sêde, a ancia, a saudade das harmonias risonhas, doudas, estrugidoras de um repique desenganado. Vinha tão cégo, que só viu João Nepomuceno (assim se chamava o sacristão) quando deu de rosto com elle. Estacou embatucado; tirou o barrete, e começou a coçar a região occipital, olhando de revez para o sacristão, que se encostára á hombreira, com as mãos cruzadas atraz das costas, assobiando oVeni Creator.
"É-lé Graviel!—disse este por fim com um sorriso.—Você hoje campou. O patrão é festeiro; fica o moinho a dormir! Heim? Galdére; não é assim? Mas, cos dianhos! não sei como não vieste cá dormir. Bota os olhos acolá para o arraial. Vês? Duas bolaxeiras, e a tia Sezila com queijadas; e disse. Ainda nem sequer o Chico appareceu para começar o repique. Pois para isso não é cedo, que a missa da festa é ás dez em ponto. Já o padre Chaparro e frei José dos Prazeres estão na sancrestia, e dizem que não tarda ahi frei Narciso, que vem servir de mestre de ceremonias."
"Oh sô João de Permecena!—acudiu o saloio, que tornára, ao ouvir o nome do Chico, a enterrar o barrete na cabeça, mas desta vez á banda—com a sua licença, ha-me de perdoar: não sei o que fez em chamar n'um dia destes aquelle jimento do Chico para tocar os sinos. Aquillo!? Ora, deixa-me rir. Ha-de-a fazer bonita; não tem duvida? Olhe, sempre lhe digo…"
"Não digas nada: bem sei. Mas que dianho querias tu com uma cravella de doze que dá a menza da irmandade, e nicles? Mesmo o Chicho, deu-me agua pela barba para o resolver. Se aquillo são uns dianhos d'uns fonas!"
"Pois se vocemecê quer—interrompeu Gabriel, em cujos olhos se accendia o desejo, o deleite, e a esperança—eu lá vou. Hoje o patrão deu-me licença até ás trindades. Salto na torre, e vae tudo raso. Toco até aquella cantiga de Lisboa, que dizem que canta um tal Catragena em S. Calros: … totro, trão-balão, re-pim, piri-pim-pão."
Enthusiasmado, o moço do moleiro cantarolava, imitando os sons de um sino, ou antes de um tacho, a musica horrendamente aleijada, esfarrapada, assassinada do dueto de Assur e Semiramis:La sorte piu fiera. Se Rossini alli chegasse de subito, ou não a conhecia, ou enganava-se. O sacristão estava enlevado.
"Homem!—disse elle quando Gabriel parou—bom era isso: mas oChico está ajustado; e já agora….."
"É que o Chico é o seu padagoz: ha-me de dar licença que lho diga, senhor João de Permecena!—interrompeu o moço do moleiro, vendo apagar-se a luz que lhe illuminára o espirito.—Pois eu tocava ahi a desbancar ainda por menos: bastava que me pagasse um arratel de bolaxas e dous berimbáus."
"Eu cá não tenho padagozes, homem! Cos dianhos!—replicou o sacristão.—Se elle não estiver aqui ás oito, dou-te a chave da torre, e são hoje teus os sinos. Quando quizeres terás as bolaxas e os berimbáus."
A proposta de Gabriel penetrára como um balsamo suave na alma do sacristão: fazia a despeza com seis e meio, e economisava o resto para a igreja, isto é, para si, como representante della.
Gabriel saltou acima do parapeito do adro e poz-se a olhar para o lado onde morava o Chico. Batia-lhe o coração com força. Ás oito horas devia nascer para elle um dia de gloria e contentamento, ou de desdouro e zanguinha. Deram as oito.—"Viva!—bradou, saltando ao terreiro, e correndo ao sacristão.—Venha!—proseguiu, lançando mão da chave da torre com tal violencia, que João Nepomuceno por um triz não foi a terra. Ia-lhe quebrando um dedo.
"Dianho!… Safa, alimaria! Forte doido!… Oh Graviel! Ouve cá,Graviel! Olha que está passada a corda da garrida…"
Qual Gabriel, nem meio Gabriel! Tinha desapparecido, semelhante a um foguete. O sacristão levantou os olhos para o campanario e viu já as cordas a bambearem e a desembaraçarem-se, como as tranças da nobre dama nas mãos subtis de aia geitosa. Gabriel era, sem a menor sombra de duvida, a flor e nata da rapaziada curiosa da aldeia.
Uma pancada retumbante e sonora no sino grande, a qual se repetiu lentamente algumas vezes, foi como um mensageiro, despedido por montes e valles, a annunciar um dia de repouso e folgares para o homem do campo, curvado sob o sol ardente nas ceifas e mais trabalhos ruraes do estio, durante os longos dias de trabalho. Era como o romper de uma vasta symphonia. Gradualmente os outros sinos misturaram as suas vozes argentinas com a do primeiro, e a atmosphera esplendida vibrou ondeando em tempestade de notas que se cruzavam, cortavam, interrompiam, luctavam em barbara harmonia. A principio Gabriel, pausado e lento, lançava successivamente uma ou outra mão a esta ou áquella corda: pouco a pouco os seus movimentos tornaram-se mais rapidos, e os sons que transudavam por todas as aberturas, pelos minimos poros da torre, começavam a assemelhar-se ao granizo do noroeste, que de instante a instante se torna mais espesso, ao passo que a nuvem corre mais perpendicular. Era, por fim, um remoinho, um delirio, uma furia sonorosa. Gabriel estava tomado de campanomania; mãos, pés, dentes, tudo repicava. Ennovelado, como um gatinho que quer agarrar e ao mesmo tempo repellir um dixe que colheu ás unhas, o bom do rapaz, com os olhos faiscantes e desvairados, parecia possesso: trepava, bracejava, careteava, tropeava, agachava-se, torcia-se, pulava, volteava, como se estivesse recebendo por todos os lados e a cada instante descargas electricas. Insensivel á matinada infernal, que lhe estrepitava nos ouvidos, Gabriel dirigia palavras de amor, d'ameaça, de incitamento aos sinos, como se elles podessem ouvi-lo. Queria communicar-lhes o seu ardor e enthusiasmo de dilettante; e como se o entendessem, dir-se-hia que, no contínuo vaivem, elles oscillavam tremulos de prazer, e tentavam desprender da pedra os braços robustos e voarem, como as aves que tambem soltavam livremente as suas harmonias pela amplidão dos ceus.
No fim de duas horas de lida a natureza recuperou os seus direitos. Alagado em suor, perdido o alento, esgotados os brios e as forças, Gabriel affrouxára pouco e pouco. A estrepitosa e horrenda caricatura do duetto de Semiramis fôra o canto do cysne. A viveza doudejante do repique converteu-se n'um tocar lento e solemne, que ora imitava o dobre de finados, ora os tres signaes melancholicos que indicam o fim do dia que expira.
Tambem era tempo. No seu banco parte dos festeiros, cubertos de fitas e medalhas, esperavam já impacientes que o prior, o padre Chaparro, e frei José dos Prazeres saissem da sacristia para começar a missa. No coreto as rebecas chiavam cada vez com odio mais figadal entre si, ao passo que osvirtuososfaziam todas as diligencias possiveis para as pôr de accordo comsigo mesmas e com os outros instrumentos. A gente, não só da aldeia, mas tambem dos casaes e logares vizinhos, affluindo de contínuo, enchia a igreja, e o apertão, que ía a maior, principiava a avariar os chapeus, os schalls e os vestidos das aldeans mais opulentas, que tinham obtido transfigurar-se horrendamente com os trajos das peralvilhas da capital, os quaes harmonisavam tão bem com aquelles corpos mal acepilhados e robustos, com aquelles rostos morenos e rosados, como os instrumentos da revoltosa orchestra se afinavam entre si.
Era um escandalo, profundo escandalo, para as beatas da freguezia, para as almas repassadas de patriotismo saloio vêr as novidades de vestuarios, que as corruptoras influencias de Lisboa íam exercendo nos antigos costumes, viciados por essas escusadas louçainhas. A honestidade das raparigas, entendiam aquellas matronas de virtude tão solida como as suas sapatas, tinha ido por ares e ventos involta nos farrapos das humilhadas saias de baeta vermelha, das abandonadas roupinhns de panno azul, e das pyramidaes carapuças. A devassidão, embrulhada nos vestidos de chita, de lan e de seda, e mettida entre o forro dos chapeus de palha, penetrára no seio das familias. Tudo estava perdido, e a moral ía cada vez a peior, diziam ellas com a philosophia macissa que o judicioso Horacio já gastava ha dous mil annos, e que é a mentira mais trivial, mais velha e mais tola que se conhece no mundo. Nas suas reflexões piedosas as respeitaveis decanas da aldeia esqueciam, ou antes ignoravam, o unico motivo serio que havia para lamentar aquella transformação. Era que esses trajos tornavam contrafeitas as raparigas aldeians; matavam a poesia campestre; associavam ao idyllio a walsa e o whist, e como que impregnavam a atmosphera, pura, brilhante e livre, dos miasmas repugnantes que povoam o ambiente pesado e abafadiço de tertulia cortesan.
Mas, antes de proseguirmos nesta gravissima historia, é necessario que trepemos áquella encosta que fica defronte do presbyterio, e que vejamos o que é feito de um nosso conhecimento antigo, roda indispensavel para o andamento da machina de successos que vamos tecendo. Quem não vê que falâmos do nosso jovial e praguejador Bartholomeu, sancto velho, se não fosse um desalmadissimo avaro? O moleiro, desde que o filho casára, andava-lhe tudo á medida dos seus desejos. Era ganhar dinheiro como milho, e o futuro da familia dos Ventosas surgia brilhante no horisonte. O Manuel estava de feito aposentado na azenha do Ignacio Codeço, e com uma labutação de por ahi além. As peças do padre prior tinham feito o milagre sonhado por Bartholomeu, e ainda haviam sobejado algumas, que o honradissimo moleiro associára ás do seu mealheiro para arranjar o casal dos Caniços, de cuja venda já lhe dera palavra seu irmão Barnabé, a quem elle, havia dous mezes, não deixava de dôr d'ilharga para que lhe tornasse as suas vinte moedas, que lhe eram indispensaveis, dizia o matreiro saloio, para pagar uma divida contrahida com um usurario de Lisboa por causa do casamento do seu Manuel, que se víra obrigado a arrumar. E como Barnabé, que tambem era saloio e manhoso, lhe objectasse que só vendendo o casal dos Caniços lh'as poderia pagar de prompto, e que era uma de seiscentos achar comprador que désse o que elle valia, Bartholomeu, acceso em amor fraterno, lhe declarou que o maldicto usurario dera a entender, que, se elle Bartholomeu tivesse umas terras que lhe empenhasse, esperaria pelo dinheiro com quaesquer cinco por cento ao mez; que por isso, vendo-se naquelles apertos e afflicções, faria o sacrificio de lhe tomar o casal pelas vinte moedas e mais o que fosse justo, que iria pedir ao mesmo usurario; porque—accrescentava elle, quasi chorando—vão-se os anneis e fiquem os dedos. Que ficaria arrasado, e a bem dizer a pedir esmola; porque, como elle Barnabé lhe affirmava todas as vezes que lhe ía pedir o seu dinheiro, as excommungadas das terras apenas davam para o fabrico. Emfim, tão despejadas mentiras pregou ao irmão, tanto o atenazou, taes artes teve de lhe converter as sétas em grelhas, que as bichas pegaram, e Barnabé deu o sim, a risco de estourar os ossos á tia Vicencia, sua respeitavel consorte, á minima pegadilha, ou de rebentar de paixão como um satanaz alguma noite na cama, se não desabafasse daquella grande magua com uma boa massada na mulher, consolação que para um verdadeiro saloio é nas afflicções o supra-summum dos prós e precalços matrimoniaes.
A Providencia temperou as cousas deste mundo de modo que se podem symbolisar todas as felicidades delle n'uma ameixa saragoçana. Doçuras, succo, belleza externa, sim-senhor; tudo quanto quizerem: mas, no fim de contas, travo e mais travo ao pé do caroço. É o que explica, pê á pá sancta Justa, a theoria das compensações d'Azaís. Mais um caso, para mostrar as carradas de razão que Azaís tinha na sua grande cenreira a este respeito, é o que succedeu ao moleiro, no dia em que Barnabé acabou de se resolver sobre o casal dos Caniços. Tinha sido justamente no dia da festa pela manhan, que Barnabé fôra com a sua Joanna á missa das almas, e viera pelo moinho almoçar com o irmão, que não lhe mostrou a melhor cara a principio, mas que até mandou fazer uma fritada de meia quarta de linguiça e tres ovos (um botou-se fóra, porque estava gôro) quando soube ao que elle vinha. Bartholomeu não cabia em si de contente: obrigou a sobrinha a levar atados no avental obra de dous arrateis de farinha para fazer umas raivas, pondo lá o assucar e os ovos, e mandando-lhe metade dellas; e por mais que pae e filha se escusassem de acceitar o seu favor, embirrou, e não houve torcê-lo. Estava naquelle dia capaz de lhes dar de presente metade da sua fortuna, e mais era, dizia elle, um pobre de Christo. Logo que se foram, Bartholomeu deitou a correr para casa, fechou-se no seu quarto, abriu, umas após outras, as vinte gavetas de um contador, mecheu e remecheu em todas ellas, tornou a fechar, e fazendo contas de cabeça, começou a passear de um para outro lado do aposento, com as mãos cruzadas nas costas, e entregue ás suas cogitações.
Os adornos ou guarnição do quarto consistiam em um leito de casados de pau-sancto de pés torneados e cabeceira redonda, thalamo nupcial, agora enluctado pela sempre chorada morte da tia Genoveva da Ventosa, mãe de Manuel da Ventosa, e mulher que fôra do honrado Bartholomeu da Ventosa, que, para falar como os poetas, solitaria rolla (ou rollo ou rolho) naquelle ninho silencioso se encouchava triste nas longas noites de inverno, ai, outr'ora tão felizes! O contador ficava defronte, e ao lado um bofete, e sobre o bofete um oratorio forrado de damasco amarello com sanefa encarnada. Sete sanctos povoavam o larario da defuncta moleira: S. Servulo, Sancto Onofre, S. Miguel, S. Sebastião, S. Gregorio, Sancto Antonio, e S. João Baptista; este ultimo no centro e em peanha mais elevada; Sancto Antonio á sua direita, com um cordão de ouro lançado ao pescoço e dando multas voltas ao redor do corpo. Como supplemento, por cima da cabeceira da cama, uma lamina da Senhora da Conceição, e dous registos, um de Sancta Barbara, outro de Sancta Rita; no tardoz da porta uma cruz de S. Lazaro pregada com massa. Uma arca da India, com ferrolho de correr e pregaria de grandes cabeças chatas de duas pollegadas de diametro, e quatro cadeiras de costas e assentos de couro lavrado completavam a mobilia do aposento. No canto do bofete, quasi á borda, estavam cravados um cruzado-novo e um tostão falsos, memorias dolorosas de um mono que pregára certo padeiro de Lisboa ao moleiro, na compra de uns saccos de farinha, historia, que, se eu a contasse, havia de fazer arripiar o pello aos leitores mais do que as novellas de Anna Radcliffe.
"Dez centos de mil réis! Chumba-lhe!"—dizia o velho esfregando as mãos, como um botecudo esfrega dous páus de que quer tirar lume, e passeando com passos curtos e rapidos de um para outro lado.—"É isso! cem peças, sete centos e meio; quatrocentos pintos, dous centos menos oito; fazem nove centos e meio menos oito: duzentas cravellas de doze, meio cento menos dous: oito e dous dez: dez centos menos dez: oitenta de seis fazem duas moedas: duas moedas dez mil réis menos um cruzado: oito meios tostões quatro tostões: quatro tostões com … justamente, dez centos. Ah sô Barnabé, quer setecentos? Heim? Com vinte moedas que já lá andam a juro, parece-me….! Quer ou não quer?"—"Homem, isso é muito pouco…"—"Pouco?! E doze moedas foro?"—"As terras dão bem para isso: só a Abrunhosa…"—"Pois se dão, homem, paga-me as vinte moedas. Ah, embatucas? Oh, oh, ih, ih, ih!.."
E Bartholomeu ria a bom rir daquelle dialogo que phantasiava travar como irmão. De repente, porém, as feições contrahidas pelo riso se lhe immobilisaram diante de uma idéa fatal. Barnabé podia dar com a lingua nos dentes ácerca do negocio, n'alguma noite em que fosse para a tenda do Agostinho jogar a bisca a vinho, segundo o seu costume, e sair um atravessador a picar-lhe o lanço; o Bento Rabixa, por exemplo, que tinha muito caroço, e que era um dos da tripeça da bisca. Vinham-lhe calafrios com tal pensamento. Uma palavra, uma allusão perderia, talvez, tudo. Era verdadeira agonia a sua. Costumado a implorar o céu nas grandes afflicções, Bartholomeu por uma daquellas subtilezas moraes dos avaros, que sabem conciliar a devoção com o seu vicio hediondo, ajoelhou diante do oratorio, e com lagrymas e fervorosas suplicas começou a pedir a S. João Baptista fizesse com que Barnabé não tugisse nem mugisse a similhante respeito. Nas suas orações passou-lhe, talvez, pela cabeça a idéa de um estupor na lingua de Barnabé. Desconfio: não o affirmo; porque não gósto de cousas dictas no ar. O que é certo é que procurou dar a entender ao sancto que teria duas vélas accesas e uma esmola para a sua festa, se as cousas lhe saissem a geito, exprimindo-se, todavia, por tal arte que não ficasse absolutamente preso pela palavra, e podesse roer a corda depois de se pilhar servido.
Em quanto o moleiro se debatia nestas tempestades de ambição, passava-se no presbyterio a scena que já descrevi entre João Nepomuceno e Gabriel. A principio Bartholomeu, embebido nos seus calculos, temores e rogativas, nem sequer ouvíra os repiques variados e harmonicos, com que o rapaz do moinho rompêra o seu grande e festivo concerto; mas pouco a pouco o motim dos sinos crescêra a ponto, que só os defunctos do cemiterio poderiam ficar indifferentes a tão retumbantes bellezas musicaes. Na aldeia já ninguem se entendia no meio dessa procella de sons, que, trepando pelos outeiros ao redor, e precipitando-se para os valles além, iam levar o ruido da festa e a gloria de S. Pantaleão ás povoações vizinhas. Penetrando pelos ouvidos do moleiro, aquellas vibrações desalmadas fizeram-n'o despertar do extasi de sovinaria devota que o arrebatava. Ergueu-se, chegou-se á janella, alçou a adufa, poz-se a mirar o relogio de sol do campanario, piscando os olhos e fazendo com a mão uma especie de pala para os defender da luz, e depois de se affirmar por um pedaço, deixando cahir de golpe a adufa, correu á arca, murmurando:—"nove horas! Já mais de nove horas! Esta só por trezentos milheiros de diabos! E ainda tenho de me vestir! Com seiscentos diabos! D'aqui a nada estão lá os outros. Ora o diabo!.."
Estas imprecações em razão descendente, que o moleiro tinha sempre na bôca por um mau habito, que todas as prégações e remoques do padre prior não haviam podido fazer perder áquella lingua damnada de Bartholomeu, nasciam de uma circumstancia na verdade séria. A funcção d'igreja devia de começar ás dez horas, e elle era um dos festeiros. O padre prior tantas voltas dera que o obrigára a sê-lo, e a esportular uma moeda para as despezas. Devemos acreditar que nunca o teria alcançado, se não fosse o dote de Bernardina, sobre o que o moleiro tremia que o velho clerigo deixasse escapar alguma palavra. Elle aproveitára habilmente o caso para passar por bom pae e generoso, e ao mesmo tempo para se esquivar ao menor acto de beneficencia o resto da sua vida, affirmando que se empenhára até os olhos para comprar e reparar a azenha do Ignacio Codeço e estabelecer lá o seu rapaz, quando a verdade era que, comprada e reparada a azenha, posta a casa aos noivos, adquiridos seis machos, paga a soldada de tres mezes a dous moços, provída a dispensa, e deixadas algumas moedas para as despezas diarias, ainda um certo numero de louras do padre prior tinham ido cahir, como já disse, no escaninho onde jaziam sem ver sol nem lua aquellas que o moleiro acabava de contar. Obrigado por semelhante consideração, e á força de rogativas do parocho e das picuinhas de outros irmãos da Irmandade do Sanctissimo, que se tinham mettido no negocio, o moleiro achava-se elevado a uma situação que estava longe de ambicionar. Perdida a moeda, que elle havia de chorar toda a sua vida, importava-lhe não perder a consideração e valia na festa, que por tão alto e raivado preço comprára; era o risco que via imminente, ao menos em parte, se não estivesse a ponto de saír da sacristia para a capella-mór no prestito dos festeiros.
O dia começára bem; mas ía-se tornando aziago.
Apesar de velho, curto e barrigudo, o moleiro, não vendo nenhum outro meio de esquivar o contratempo que receiava, apressou-se o mais que pôde em se adornar com o aceio e pontualidade que requeria o acto. Do fundo da arca saíu o arsenal completo para os dias de vêr a Deus. Era respeitavel pela antiguidade! Monumentos de mais felizes epochas, os arreios esplendidos de Bartholomeu constavam de uns calções de gorgorão côr de tabaco, de um colete de veludo verde, e de uma casaca azul de abas largas e gola estreita (isto passava ha bem dezoito annos) antipoda da casaca peralvilha dos casquilhos daquelle tempo. As menudencias do trajo diplomatico do moleiro compunham-se de um chapéu armado, de um pescocinho com bofes, de umas meias de algodão brancas, e d'uns sapatos de entrada abaixo, ensebados de novo, com fivelas de prata, que batiam quasi na vira de um e outro lado. Assim vestido era um principe. Não; que lá isso é verdade; mettia respeito! Apressado, vermelho, suando com a calma, bufava como um touro encaminhando-se para a igreja. Os moços dos seus collegas, os de tres padeiros que havia no logar, e os de cinco lavradores a quem costumava comprar os trigos, passando por elle desbarretavam-se até baixo; a outra saloiada, espécada pelo arraial, fazia menção de cortezia com o barrete: dos mendigos que começavam a apinhar-se para o lado do presbyterio ao cheiro do bodo, uns, que não o conheciam por virem de longe, estendiam-lhe a mão e davam-lhe senhorias, tudo em vão; outros, que eram dos arredores, rosnavam e praguejavam-no. Mas dessas rosnaduras e pragas ria-se elle. Na auréola de gloria que o cercava já, que o ía cercar ainda maís brilhante, Bartholomeu estava tanto acima da maledicencia daquelles madraços, como os homens d'estado de qualquer partido costumam estar acima das ferretoadas, sovinadas e lambadas da imprensa periodica do partido contrario, segundo affirmam os da sua parcialidade:videjornaes de todas as côres e cambiantes,passim. Como os politicos, o moleiro podia dizer, pondo a mão no coração—a minha consciencia—a minha honra—a opinião publica—os meus serviços—a nação—a posteridade:—e depois tossir e escarrar grosso, e seguir ávante sem se embaraçar com aquelle rosnatorio despeitoso e zangado; porque, como bem disse um poeta de philosophia ancha:
O premio da virtude é a virtude:O castigo do vicio o proprio vicio.
E foi o que Bartholomeu fez: e com razão. Não eram os respeitos dos moços dos outros moleiros e dos lavradores seus freguezes, e os dos pobres que o avaliavam pelo secio dos trajos, a prova cabal e indestructivel da sua popularidade? Eram. Que caso devia, pois, fazer dos zums-zums de meia duzia de farrapilhas? Nenhum. Eu cá, pelo menos, sou de opinião que fez bem proseguindo no seu caminho, tranquillo com o testemunho de uma voz intima, que o certificava de que era um homem de importancia, e digno por todos os titulos de representar o papel de festeiro a que fôra chamado.
Mas a nobre altivez do moleiro, e a firmeza que mostrára para não deslizar um apice do caracter grave e sobranceiro, proprio da sua situação, tinham de ser postas a mais dura prova. O momento em que chegou ao adro foi aziago. Ahi viu e ouviu cousas que o fizeram saír da gravidade e compostura que até então guardára. O que o negocio deu de si vê-lo-ha o leitor no proseguimento desta historia, que poderá ter mil defeitos, mas que (não é por me gabar) tenho levado com toda a pontualidade na chronologia e na averiguação dos mais miudos factos que possam illustra-la.
* * * * *
Quando Bartholomeu ía entrando no adro viu um taful e uma senhora, que, á porta da igreja, forcejavam para romper a pinha de povo, que a obstruia. Vistos assim pelas costas, pareciam pessoas de conta. Trajava ella um vestido de seda preta, um grande schall vermelho e um chapéu, franzido á ingleza, côr de café: elle calça e casaca preta da moda e chapéu fino, posto que já amarrotado pelos apertões da saloiada, que, fingindo quererem abrir caminho ao elegante par, cada vez se uniam mais, olhando uns para os outros com aquelle sorriso de socapa e malevolo, que é peculiar aos camponios quando colhem algum individuo, cujo porte e apparencia os humilha, para victima das suas graças e perrarias um pouco abrutadas.
O moleiro tinha nascido naquelles sitios, nunca dormíra uma noite fóra do logar, lidava com muita gente em consequencia do seu trafego, ía-lhe já a neve pela serra, e por isso conhecia perfeitamente os habitos, propensões e manhas dos seus patricios. Percebeu logo que os saloios estavam de embirração com as duas personagens cortesans, e desenganou-se de todo vendo vir do lado da igreja um dos moços do Agostinho da tenda, que, fingindo-se bebado e cambaleando, dizia:—cresça o monte, rapazes; cresça o monte!
O magnetismo animal é um mysterio ainda: a extensão das affinidades magneticas ninguem a póde demarcar. De homem para homem ellas são indubitaveis; mas, porventura, vão mais longe. Ao menos eu creio que os calções, a casaca e o chapéu armado do moleiro actuavam fortemente no seu espirito por influencia occulta. Sentia no coração uma especie de cocegas aristocraticas; uma vontade de mostrar o que podia e valia aos nobres hospedes da sua terra, que, pretendendo assistir á festa, se collocavam naturalmente debaixo da sua protecção como festeiro. Era esta uma idéa que não lhe viria á cabeça quando trajava os seus calções enfarinhados, o seu colete assertoado e a sua jaqueta de saragoça. Mas veio-lhe então, mysteriosa, irreflectida, forçosa, posto que sem quebra da liberdade de a rejeitar, semelhante, se a comparação fosse licita, á graça efficaz. Approximou-se, pois, abrindo passagem por entre a turbamulta. O primeiro individuo com quem topou em cheio foi com Gabriel, que, tendo saído do campanario, tractava tambem de penetrar na igreja para ajustar contas com o sacristão logo que se lhe offerecesse ensejo. Para aproveitar o tempo, Gabriel, informado do que se passava, ía ajudando a augmentar o apertão, que crescia cada vez mais, de modo que a dama do schall e o dandy de preto, entalados juncto do guardavento, nem podiam recuar nem surdir ávante. Apesar, porém, da pequenez do seu corpo, Gabriel parecia ter de olho as duas victimas, como receioso de que voltando a cabeça o lobrigassem. Careteava, ria, empurrava com alma; mas, de instante a instante, punha-se nos bicos dos pés, espreitava por cima dos hombros e por entre as cabeças dos vizinhos, agachava-se ao menor movimento que via fazer aos dous, tornava a empurrar, e nesta lida o garoto renovava, incansavel em novo combate, as façanhas que, havia pouco, practicára no sempre memorando repique.
"Mariola!—rosnou colerico o moleiro por entre os dentes cerrados, ao chegar ao apertão e agarrando de subito as orelhas de Gabriel, que, com uma cara onde assomava o chôro, encolhia a cabeça entre os hombros, mal comparado, como um caracol quando lhe puxam os tentaculos. Não tanto pela voz, como pelo contacto das mãos, assaz conhecidas daquellas pobres orelhas, Gabriel sentíra o patrão. Era, todavia, já tarde.
"Mariola!"—repetiu Bartholomeu com o mesmo grito mal sopeado de colera. E ouviu-se o tinir duvidoso de uma fivela acompanhado de um som baço, como quem dissera o do bico de um sapato grosso batendo sobre uma pouca de bombazina estofada de certa porção convexa de carne humana. Gabriel descreveu com o corpo um arco, mas no sentido inverso ao de quem faz cortezia profunda. E começou a soluçar.
"Mariola!"—accrescentou ainda outra vez o moleiro, com aquelle fatal rugido, que significava o seu profundo despeito. Ao dicto seguiu-se rapidamente o feito. Largou as orelhas do rapaz: recuou o braço, cerrou o punho, e desfechou-lhe tal murro no toutiço, que Gabriel foi ao chão.
A principio, uma certa contemplação com a idade, com o caracter, e mais que tudo com a fama de ricaço de que Bartholomeu gosava, conteve os murmurios dos poucos, a quem as diligencias communs para penetrar na igreja haviam consentido attender ao duro castigo que convertêra Gabriel n'um como bode emissario dos peccados de muitos. Quando, porém, o mesquinho rapaz cahiu em terra, a indignação dos seus co-réus rebentou. O moço do Agostinho, posto que a medo, alevantou a antiphona.
"Tambem é bater á bruta! Agora, a prove creança fez-lhe algum mal?! Vá bater assim no diabo. Olha não matasse aquelles milordens!…"
"Entre, sô doutor!—atalhou Bartholomeu, atirando umas escorralhas de pontapé, que ainda lhe titilavam nos tendões da perna direita, ao limite inferior das vertebras de Gabriel, já que não podia sem risco applica-las ao orador. Essa fôra, todavia, a sua primeira inspiração.
"Ai, é para isso que uma mãe cria um filho! Coitadinho, já não tens pae! Não fôras tu orfo e prove. Mas cal-te, bôca. A gente sempre vê coisas!"
Ouvindo estas palavras, proferidas por uma voz feminina conhecida, o velho moleiro voltou-se. Era a senhora Perpetua Rosa, que, em companhia da ama do prior, tinha chegado naquelle instante a mata-cavallo, por se havêrem ambas entretido a examinar umas meadas, que a tia Jeronyma dera a curar á lavadeira, e que esta, vindo para a festa, de caminho lhe fôra entregar. Posto que ligados até certo ponto pelo casamento de seus filhos, a mutua má vontade da lavadeira e do moleiro, alimentada por largo tempo, tinha sido como o escalracho: cada anno profundara mais um palmo de raizes. Só havia uma differença, e era que Perpetua Rosa, protegida pelo genro, perdêra pouco a pouco o medo que tomára a Bartholomeu desde aquella historia das saccas, e já se engrifava para elle sem cerimonia. Encontrando-se ás vezes na azenha, nem uma só deixavam de se travar de razões por qualquer palha podre. De resto, tractavam-se com apparente cordialidade. Era como a alliança e sympathia actual entre a França e a Inglaterra.
"Pois não, sua lambisgoia!"—acudiu o moleiro fazendo-se vermelho.—"Acha você muito bonito que meia duzia de patifes estejam judiando com as pessoas que querem entrar na igreja? Com um quarteirão de diabos! Quem dá o pão dá o ensino; e este, pelo menos, hei-de eu ensina-lo!… Rosna p'ra ahi, pedaço de bruxa velha:"—accrescentou elle, vendo que Perpetua Rosa continuava a resmonear, já com acompanhamento de—"tem razão, tia Perpetua!" —"olha o maluco!"—"se queres vêr o villão mette-lhe a vara na mão!"—"é agora o senhor assaluto!"—Era uma tempestade eminente: era a revolta eterna do pobre contra o abastado, que resfolga pelo minimo respiradouro. E o sussurro crescia, e Bartholomeu, suffocado pela raiva, batia o pé, e debalde tentava cuspir por cima daquella quasi algazarra as pragas, as injurias, as ameaças, que lhe faziam maior entupimento na garganta do que pão de cevada faria em goellas de peralvilho dengoso. Vingava-se, é verdade, em servir de couces e cachações o misero Gabriel, que se lhe reboleava aos pés; mas isto não era mais que botar lenha ao forno, e augmentar cada vez mais o tumulto. A hirta mó de saloios ao pé do guardavento tornava-se mais flexivel, ondeava, alargava-se, dissolvia-se, e vinha agglomerar-se de novo em volta de Bartholomeu, curiosos de indagarem o motivo daquella assuada. Falavam todos a um tempo; já no meio do borborinho ninguem se entendia; e, apesar da colera e da sua habitual firmeza, o moleiro começava a titubear.
Na furia em que estava incendido contra Perpetua Rosa, contra a ama do prior, que tambem tinha desembainhado a lingua em defesa de Gabriel, e contra outras duas velhas do logar, que ajudavam a atenaza-lo, Bartholomeu não reparou que o taful, por cuja causa se mettêra naquella nora, forcejava por chegar ao pé delle. Por fim, foi a propria Perpetua Rosa que o fez attentar por isso.
"Venha, Manuel, venha cá: olhe a figura que está fazendo seu pae.Forte toirão! Abrenuncio!"
A isto o moleiro alçou os olhos para aquella parte, e viu… Quem havia elle de vêr? O seu Manuel, que, com effeito, rompia por entre a turba approximando-se, seguido de Bernardina, que lá de longe fazia esgares e visagens á senhora Perpetua Rosa e á tia Jeronyma para que se calassem. Os dous tafues, os dousmilordens, os dous fidalgos, por quem Bartholomeu affrontava as iras populares, eram nem mais nem menos que seu filho e sua nora. Ficou parvo. O luxo dos noivos fez-lhe esquecer Gabriel, as velhas, as injurias, tudo. Como o corpo electrisado pelo contacto da resina, que é repellido chegando-o de novo a ella, e desembésta para o vidro se lh'o approximam, a sanhuda indignação do moleiro nordesteou para as novas victimas. Cingiu involuntariamente as algibeiras com as mãos; porque cada uma dellas se lhe figurou convertida n'um repuxo de cruzados novos, que, descrevendo uma curva parabolica, íam cahir nos balcões dos arruamentos de Lisboa. Depois, fincando os punhos cerrados nos vazios, e meneando a cabeça de um para o outro lado, poder-se-hia comparar ao oceano nos momentos que precedem a tempestade, quando as vagas, profundamente revoltas, ainda se não encrespam em carneiradas, mas banzam como somnolentas e espertando-se para o combate.
Passa a França pela terra classica da galanteria: parece que o bello-sexo tem alli o seu throno. Nesse ponto cedem a palma aos francezes os outros povos. Dizem-no todos; mas eu digo que não. Vence-os esta namorada terra de Portugal. Os nossos affectos serão menos ruidosos, menos rendidos; são, porém, mais ardentes e duradouros. Se as phrases d'uma lingua podem muitas vezes servir para revelar o caracter, os costumes e até a historia da nação que a fala, a nossa lingua e a franceza nos offerecem argumento da existencia dessa superioridade do coração, pela qual eu ponho, não digo a cabeça, mas quasi. E senão, respondam-me. Que incendio seria maior; aquelle que precisasse de um anno para amortecer e extinguir-se, ou o que durasse apenas um mez?
Indubitavelmente o primeiro. Bellamente. Venhamos agora á hypothese. O matrimonio é de sua natureza resfriativo: a paixão mais violenta acalma, entibia-se, entisica, e morre com o tracto domestico; e feliz se póde chamar a união em que a amizade e a estima vem substituir os sonhos e os delirios de um amor já saciado. Ha, todavia, um periodo em que, apesar de satisfeito, elle resiste ainda: é durante o lento desabar das illusões, que vão cahindo peça a peça. Nesse periodo ainda aos casados cabe o nome poetico de amantes: depois é que se chamam a cousa mais prosaica e positiva que se conhece no mundo; chamam-se marido e mulher. Esta epocha transitoria tem a sua formula diversa segundo as diversas linguas. Exprime-a em francez a phraselua de mel: o portuguez dizanno de noivos. É claro que em Portugal resiste o amor ao matrimonio doze vezes mais que em França. Lá um mez; cá um anno. Fiquem as raparigas de aviso: nada de amores com estrangeiros. Se em França n'um mez colhem todo o fructo da victoria, que será por essas terras de Christo mais geladas e nevoentas? Eu, por mim, façam lá o que quizerem. Lavo d'ahi minhas mãos.
Bernardina, essa é que a dera em cheio casando com o Manuel da Ventosa. Aos quatro mezes de noivo era ainda um baboso por ella. No principio de julho ajustára contas com os freguezes da azenha, e recebêra algumas moedas: a festa da aldeia estava proxima: Bernardina morria por tafularia; o moço moleiro tambem não lhe era avesso. Tinham o vicio instinctivo da gente moça, vicio legitimo, se em vicios se póde dar legitimidade. Duas forças arrastavam, pois, o pobre Manuel da Ventosa: o amor, e a propria inclinação. D. Thomazia, irman do mestre eschola da aldeia (se Deus me der vida e saude, ainda talvez um dia conte a historia do digno professor) vivêra na côrte muitos annos com o sabio mano. Nisto de modas falava que nem um livro. Quando ía por acaso a Lisboa, nunca deixava de visitar duas ou tres modistas suas conhecidas, de maneira que, por assim dizer, andava sempre ao par da sciencia. Foi n'um aposento interior, no sancta sanctorum da residencia magistral, que se traçou, discutiu, e resolveu a conspiração, que devia baralhar os calculos de Bartholomeu sobre as maquias da azenha naquelle semestre. Seis moedas foram ali barbaramente espatifadas. Foi um orçamento perfeito: talhou-se por cima da risca do necessario, e gastou-se: gastou-se d'ahi a poucos dias até o ultimo real, já se sabe, com severissimas economias, ficando-se devendo apenas uns tres mil e seiscentos a D. Margarida, famosa modista daquelle tempo. A campanha fez-se do modo seguinte: Manuel da Ventosa acompanhou D. Thomazia a Lisboa, para umas compras de certos arranjos domesticos, de que ella dizia muito carecer. Os arranjos eram os da fatal conspiração contra o velho Bartholomeu. Os trances d'esperança e de receio do bom ou mau desempenho de D. Thomazia, por que passou Bernardina em quanto os dous não voltaram, não cabe no possivel narra-los. Apesar d'isso, a elegancia com que se imaginava trajada e o seu homem, namorava-a de si mesma, e dobradamente delle. Chegava a ter ciumes das olhaduras que deitariam ao Manuel as outras raparigas, sem que por isso deixasse de admittir com certa complacencia innocente a idéa do quanto a haviam de achar attractiva os rapazes da aldeia. Emfim, é aqui o caso de dizer com o poeta, ácerca do que se passava no coração da moleira,
"Melhor é exp'rimenta-lo que julga-lo;Mas julgue-o quem não póde exp'rimenta-lo."
Voltaram os dous ás trindades. O escholar valído do mestre, que aviava os recados de casa, tinha-os acompanhado. N'um grande sacco de damasco amarello, herdado por D. Thomazia de sua avó materna, e em duas grandes caixas de papelão trazia o rapaz os almejados adornos. Quem diria que o monumental sacco era a boceta de Pandora!? Pois era. Bernardina saltou de contente ao desenfardelar aquella feira: estava vestida á moda dos pés até á cabeça, posto que o seu Manuel houvesse cortado para si uma posta de leão. Digo isto, porque, apesar de toda a farandulagem feminina, que a boa da irmã do professor escolhêra com fino tacto, quatro moedas tinham ficado no Adrião, n'um chapelleiro do Rocio e n'um sapateiro ahi proximo, não me lembra em que rua, porque isto já la vae ha muito tempo, e a historia está sujeita a estas deploraveis lacunas. O caso é que elle pela sua parte, envergada aquella fatiota, poderia sem grande favor passar por um fidalgo de provincia chegado de tres dias á côrte. Fugia-lhe tudo um és não és do corpo, e tolhia-o, é verdade; mas ficava um mocetão teso; um milordem, como dizia o moço do Agostinho da tenda.