Shou-Key-chi.—Arriaga.Pom.—Chu—Barros.O governo de Macáo observou logo o3ºartigo. Arriaga entrou a promover os aprestos dos navios restantes, mas o thesouro do Senado não podia suprir a tão grandes despesas. Arriaga tomou de seus amigos grandes sommas sobre o seu credito: então e artigo. Arriaga entrou a promover os aprestos dos navios restantes, mas o thesouro do Senado não podia suprir a tão grandes despesas. Arriaga tomou de seus amigos grandes sommas sobre o seu credito: então era valorde sobejo para os negociantes, que lhe offereceram quanto possuiam[16].Havia na cidade pouca gente para tripolar os navios se não suprissem os prodigios obrados pela gente portugueza......Tornando frioDe espanto o ardor immenso do oriente,Que verá tanto obrar tão pouca gente.Mojatecão, observando e experimentando o valor dos portuguezes em Diu, exclamou:—São dignos de que os sirvam as outras gentes. A fortuna do mundo está em serem poucos.—Em verdade com cem portuguezes, e sete centos manillas e cambojas, se fez á véla a esquadra (seis dias depois da convenção) levando por chefe o destemido Alcoforado, na galera inconquistavel. Luiz Carlos de Miranda commandava a Pala, Anacleto José da Silva o Indiano, Antonio José Gonçalves Caroxa, o brigue do Senado, José Felis dos Remedios o navio S. Miguel, José Alves o Belisario. Nesse mesmo dia attacáram e dispersaram os piratas, que se retiraram para mais longe de Macáo.O governo de Cantão, não foi activo como o dos macaenses; além disso a esquadra chineza nem uma só vez chegou a auxiliar os nossos. Tanto medo tinham de Cam-pau-sai, que nem ao lado dos portuguezes se atreviam acommettelo. O governo de Macáo vendo assombrada toda a provincia de Cantão, pelo grande vulto, que faziam os piratas, resolveu despresar os soccorros da esquadra imperial, e anniquilar só o grande poder de Cam-pau-sai. Mandou pelo chefe Alcoforado intimar-lhe, que se entregasse á obediencia do imperador, promettendo-lhe perdão, e gráo superior na classe mandarina.Entraram os chefes am correspondencia: o nosso pedia ao dos piratas, que viesse a Macáo para tractarem de convenção amigavel: declarando-lhe, que se não conviesse com elle, poria em acção todos os recursos da guerra, e não descançaria sem exterminalo.Campau-sai, respondeu:—Tenho presente a vossa carta: não me assusta. Desejo fazer a paz com os portuguezes, com tanto que não entendam comigo. Quanto a submetter-me ao imperador, jámais o farei, aindaque me assegureis e digais o que quizerdes. Sô não terei duvida no que tenho acima dito. Quando abraceis esse partido, podeis retirar-vos para Macáo, e mandai-mo dizer para não entender com os vasos portuguezes. Esta resposta de Cam-pau-sai, firmada no dia 18 de Dezembro de 1809, foi moderada em razão de ter sido atacado e batido pelos nossos em 11 do mesmo mez.Em quanto estas cousas se passavam entre Alcoforado e Cam-pau-sai, deu o imperador amnistia a todos os piratas, que se lhe entregassem. Apau-tai receando o valor dos nossos, julgou conveniente entregar-se. Concordou com os principaes da sua divisão: rendeu-se com cento e trinta embarcações bem equipadas de homens e de armas.Trahido Cam-pau-sai pelo amigo, que mais estimava, ficou magoado por ver a pouca perseverança dos homens, ainda mesmo os que tem as mais intimas relações de interesse, parentesco e amisade; mas era tal o seu animo, que nenhuma desgraça o intimidava. Mais atrevido ainda mandou apromptar a esquadra do seu commando a fim de concluir seus designios.Alcoforado aproveitou-se da cobardia de Apau-tai, attacou, e fez retirar Cam-pau-sai. Logo depois mandou-lhe dizer, que assim como Apau-tai, o havia abandonado, assim o fariam os outros seus companheiros; e diminuidas assim as suas forças seria obrigado a entregar-se prisioneiro: que era melhor capitular já, alcançando honra e interesse, como lhe tinha promettido e affiançado. A esta segunda instancia respondeu Cam-pau-sai pelo modo seguinte.Hontem recebi uma carta vossa mui persuasiva: conheço o desejo que tendes de me ver em Macáo: fico-vos agradecido por tão singular obsequio e estimação.Estando sobre os mares, como no centro de um reino, no qual empunho o sceptro do poder, e governança para todos os que me obedecem, vivo muito occupado. Não é simples negocio o governo de um reino: eis o motivo por que não cumpro o vosso desejo.Agora todo o meu empenho é restaurar e possuir as terras deste orbe: assim ficarão completos os meus desejos. Digo-vos ingenuamente este é o fim a que me proponho. Tenhomuitas embarcações, e mantimentos para longo tempo: nada me falta. Vendo que me estimaes, por isso vos dou a conhecer o meu projecto.Se quizerdes emprestar-me quatro navios para fazer com elles o que me aprouver, mais depressa restaurarei o imperio. Depois dar-vos-ei duas o tres provincias a vosso contento. Asseguro-vos a fidelidade da minha promessa. Se não podeis agora mandar-me os navios seja quando vos convier.Ha muitas pessoas, que me aconselham para render vassalagem a um tartaro! São exortações baldadas. Possuindo esta esquadra com a divisa da bandeira vermelha, farei com ella os maiores esforços para restaurar o imperio. Já mandei apromptar a minha esquadra, para se dirigir á bocca do rio tygre; a fim de bater os imperiaes. Tenho outros assumptos a communicar-vos, porém agora não o posso fazer. Basta o conteudo desta, para viveres na intelligencia do meu firme proposito. Dezembro 26, de 1809.Desenganado Alcoforado de que não conseguia a entrega dos piratas semeffusãodesangue, começou de novo a batelos. Os nossos estavam já tão praticos nos canaes das ilhas da China, que os piratas apenas lhe escapavam nos pequenos rios, onde os nossos vasos não podiam entrar. Cam-pau-sai usou entreter as embarcações portuguezas com alguns Taós, em quanto a dextrava os seus no exercicio da artilharia, tomando por mestres os americanos inglezes, que tinham aprisionado.Era tão sagaz e ardiloso, que nos encobria seus planos com extranho recato. Em 21 de Janeiro de 1810, julgou-se em estado de poder vencer a frota macaense. Pairava esta junto á ilha de Lantáo, quando entraram a levantar do oriente os piratas alinhados em divisões. Nesta occasião obrou o invicto Alcoforado tão grandes prodigios, que só poderam ser cantados antes, pelo nosso Diniz.A fiel ave, que arma vigilanteO grão furor a Jove.Quando sobre os mortaes os raios choveA dextra coruscante,Tão rapida ao rebanho temerosoNão cala, a garra abrindo, das estrellas,Como o varão famosoSobre as immensas velasCahe de grande ira armadoTreçando denodadoA féra espada, e torna em seu estragoO azul oceano em roxo lago.[17]Considere-se uma lagôa com seis leguas de diametro, semeada de ilhas e syrtes, onde apenas Galerno encrepava a superficie das aguas. A esquadra portugueza constando de seis navios, sendo o maior de quatro centas tonelladas, e o mais pequeno de 120: guarnecidos todos com 120 peças de artilheria; e 700 homens. A esquadra inimiga, de 300 vasos, com mil e quinhentas peças de artilheria, e mais de 20:000 homens aguerridos, commandados por chefe valoroso e desesperado. Neste conflicto o famoso Alcoforado, treçando denodado a féra espada mandou atacar. Foi sentelhaelectrica lançada no coração dos seus companheiros. Dirigiram-se os nossos á vanguarda das columnas inimigas despresando suas hostilidades até chegar a tiro de espingarda. Nessa distancia uma descarga de metralha punha em fugida o navio, que a soffria. Alguns mais destemidos arribavam para sotavento afim de metter os nossos entre dois fogos; manobra que estes concertavam para lançar-lhes a morte por todos os lados. O fumo mal lhes dixava vêr as embarcações portuguezas, cercadas pelas suas. O astuto e bravo pirata, julgava que dividindo os nossos poderia destruilos; e o chefe portuguez julgando ter Marte em cada um de seus companheiros quiz dar a todos motivo para demonstrarem a sua pericia e desmedido valor. Ficaram deste modo os navios macaenses no centro de cada circulo dos piratas: assim os raios despedidos do centro levavam á circumferencia o estrago, o horror, e a morte. As balas da circumferencia, raras vezes acertavam no ponto central: qualquer desmancho nas pontarias fazia com que empregassem as balas nos seus mesmos companheiros. Todosos Commandantes portuguezes adqueriram fama neste dia; mas ha acasos em uma batalha, que fazem uns mais distinctos do que outros. O navio commandado porLuiz Carlos de Miranda, na maior força do combate, deu em escôlho: Cam-pau-sai, vendo aquelle navio encalhado, considerou-o em desordem; mandou carregar sobre elle, a ver se podia principiar o seu triunfo por destruilo. Mas o denodado Miranda, vendo perigos por todos os lados, resolveu debellar o inimigo, ou não saír com vida do conflicto. Entre o valor e a desesperação (ultimo sentimento das almas grandes), disse a seus companheiros:—Creio não haver entre nós quem regeite a immortal gloria, que este feliz dia lhe destina: assim faça cada um o seu dever. Mandou empregar a gente da mareação nas baterias, e diffundindo o seu valor em toda a equipagem, fez tão grande estrago no inimigo, que já este não tinha animo para acommettelo. Emquanto debellava os piratas, o fluxo das aguas tirou o navio do escôlho.O Caroxa tambem fez cousas admiraveis. Deparou-lhe o acaso o Taó do pagode.[Nota 3ª]Logoque assomou o deposito do erro, virou sobre elle; e emquanto não o lançou no abismo, não descançou. O templo, os bonzos, os idolos tudo foi submergido no orco. Esta proeza do atrevido Caroxa lançou o espanto e o horror no espirito de todos os piratas. A vista dos seus deusesespedaçados, e levados, á discrição das aguas, tirou-lhes de todo o animo: apenas ousaram largaras velastodas, e por entre syrtes foram abrigar-se na bocca do rio de Hiang-san: logar onde os nossos vazos não podiam entrar.Não ha cores assás vivas para demonstrar a sua confusão na fugida. Cam-pau-sai medío então as forças macaenses ainda mais pelo valor, do que pelo seu atrevimento. Os nossos cantaram victoria! Mas incançaveis na destruição do inimigo, não deixaram de perseguilo até á bocca do rio. Alli formou o previdente Alcoforado apertado bloqueio a Cam-pau-sai. Só o deixou saír para entregar-se.Cam-pau-sai resolveu entregar-se, mas uma das principaes condições éra de ser Miguel de Arriaga fiador de tudo quanto se ajustasse no acto de capitulação; e que só trataria com osimperiaes, estando elle presente. Logo que o Governo de Macáo recebeu esta participação do chefe Alcoforado, remetteo-a ao Suntó, e este dirigio-a ao Imperador.Succedeu nesta occasião um facto, que muita honra faz á memoria do generoso Arriaga. Quando se tratava da entrega dos piratas, chegou a Macáo, um novoOuvidor, e segundo a lei, Arriaga deu-lhe posse do logar. Mas Cam-pau-sai, e os mandarins, logo que o souberam avisaram o Governo de Macáo, não poderem entrar naquella negociação com o Ouvidor novo, mas sim com o antigo; já por saber este melhor daquelle negocio, já porque só com elle Cam-pau-sai capitularia. O Senado e todos os macaenses desejavam o mesmo; pois éra publica a grande reputação, que Arriaga havia entre os Chinezes. Foi completa a vontade geral; e é só em táes occasiões, que padecendo a lei exultam os povos. O Ouvidor Peixoto começou no exercicio das suas funções: mas o famoso Arriaga continuou a tractar deste importante negocio.Em quanto os nossos bloqueavam a esquadra inimiga, e Arriaga ajustava a capitulaçãocom os mandarins, aconteceu outro facto, que muito honra a memoria do invicto Alcoforado. Logo que a frota portugueza saío de Macáo, convidou elle o chefe dos piratas para entrar em Macáo, e tractar alli da sua capitulação: mas Cam-pau-sai confiado em suas forças respondeu pela negativa como fica dito. Agora vendo-se obrigado a fazer o que então recusou, pedio ao nosso Alcoforado a mercê de honralo com uma visita para ter o gosto de o conhecer pessoalmente.Alcoforado mandou apromptar um escaler para satisfazer Cam-pau-sai mas os seus espozeram-lhe ser grande temeridade entregar-se a um pirata. Esta lembrança foi acompanhada da responsabilidade, e isso obrigou Alcoforado a chamar os commandantes das mais embarcações, communicou-lhes o convite de Cam-pau-sai, e a deliberação, que havia tomado. Todos acordaram com osOfficiaesdo seu navio, menos elle, que fallou da maneira seguinte.—Grande é meu contentamento por ver o empenho, que fazeis para não me arriscar nesta visita; seja por estimardes a minha existencia, ou por julgardes em mimalgum prestimo. Confesso-vos, que tão grande é o vosso empenho, quanto mais firme se torna a minha resolução: já porque recusando este convite ficará mui cerceada a nossa reputação já porque seria o primeiro signal de fraqueza da esquadra Macaense: se for traída a minha boa fé, tereis novo incentivo para anniquilardes o inimigo vingando-me. Asseguro-vos que vendo-me Cam-pau-sai, em seu navio, de coração socegado e alma firme, tremerá de vós—Todos o escutavam com attenção: e ás ultimas palavras cada um desejava ser Alcoforado: Mas a gloria de sacrificar-se pela honra da Patria, e pela humanidade, só a ella pertencia, naquella occasião. Despedio-se e partio para a esquadra inimiga. Assim que passou a primeira embarcação da vanguada[Nota 4ª]:Sonorosas trombetas incitavamOs animos alegres resonando:DosChinasos bateis o mar coalhavam,Os toldos pelas aguas arrojando.As bombardas horrisonas bramavamCom as nuves de fumo o sol toldando.[18]Ao chegar Alcoforado ao navio de Cam-pau-sai, veio este recebelo ao portaló, e o conduzio pela mão á camara. Alli trocáram as mais apuradas civilidades. Cam-pau-sai, estudando o modo de obsequiar o nosso heroe, não achou outro mais capaz de lisongear a sua alma, do que offerecer-lhe pela honra, que lhe tinha feito, a liberdade de todos os prisioneiros europeos, que tinha em sua esquadra. O presente foi recebido com demonstrações proprias de captivar o offerente pelas cadêas da amizade. Cam-pau-sai assegurou-lhe, ser então o seu maior empenho não o ter por inimigo; pois havia experimentado o valor dos portuguezes.Demonstrou, que arriscando uma batalha, poderia ter a vantagem de saír do bloqueio com as embarcações mais veleiras, para onde não podessemos incommodalo; porém que a honra daquella visita o tinha penhorado de modo, que estava resolvido a entregar-se com toda a esquadra; vista a promessa que lhe fizera o ministro Arriaga, de quem formava alto conceito, e a quem de boa vontade se rendia.Alcoforado afiançou a promessa do ministro, mostrando-se pesaroso em não depender só delle a capitulação para em tudo a fazer a contento de Cam-pau-sai. Disse mais:—como chefe da esquadra macaense, tenho ordem para destruir a vossa, se tentardes saír daqui: e serei obrigado a fazelo por ser usança portugueza romper as linhas da amizade, quando assim o urgem as precisões do estado. Espero de vós não ter occasião para rompelas. Assim o prometteu Cam-pau-sai; e o nosso Alcoforado, levantou-se:Lembrai-vos de como se despedio Luiz XI, quando visitou o nosso Affonso V;[19]ajuntai-lhe os requintes das ceremonias asiaticas, e julgai da separação destes guerreiros; não querendo ceder um ao outro a primasia em affectos delicados. Com tudo não pôde Alcoforado impedir a Cam-pau-sai, de acompanhalo até ao escaler em que partio para a sua frota. Ao entrar nella salvaram todos os navios, e os marinheiros subiram ás vergas para todos a um tempo lhe darem os emboras.Em quanto os chefes se visitavam cuidava-seem Macáo; no ponto, onde se faria a entrega da esquadra inimiga, visto ser da vontade de Cam-pau-sai, entregala aos portuguezes. Lucas José de Alvarenga, governador militar daquella cidade, obstou a que os macaences tivessem mais esse dia de triunfo. Temeu gente, que estremecia só de ouvir fallar das façanhas portuguezas[20]. Assim foi Arriaga obrigado a concluir este importante negocio fóra de Macáo.Avisou os mondarins,Chu, ePom, que viessem ao pagode[21]: ajustaram alli, que o logar do congresso seria na villa de Hiang-san e fizeram aviso aos delegados do imperador para se acharem alli em dia aprazado. Juntaram-se os mandarins do destricto, os mandarins da côrte, e o nosso Arriaga, que foi recebido entre elles com singular distincção.Já o congresso deliberava sobre a capitulação, quando chegou de Macáo a relação do que se tinha passado entre os chefes das esquadras. A ousadia do atrevido Alcoforado não só penhorou Cam-pau-sai, mas tambemos mandarins, que pasmados do que ouviam, ficaram por algum tempo notando o gesto e maneiras com que o magnanimo Arriaga captivava as suas vontades.Tornando o congresso de novo os seus trabalhos, caminhou o negocio com mais rapidez; pois dalli em diante estavam os mandarins quasi sempre de accordo com o nosso ministro. Convieram em mandar a Cam-pau-sai, que viesse com sua esquadra para Chumpin, onde elles se deviam tambem reunir: e ordenaram ao chefe Alcoforado, que levantasse o bloqueio. As ordens foram derigidas a Cam-pau-sai, em direitura, e a José Pinto Alcoforado, pelo governador de Macáo: homem pouco experiente dos costumes chinezes, e cobarde, por isso demorou a ordem do congresso. No dia seguinte recebendo Cam-pau-sai, a que lhe fora dirigida, levantou ancora e principiou a velejar para fora. Alcoforado, ignorando as ordens do congresso, e vendo a esquadra inimiga em movimento, mandou suspender a sua, e manobrar de modo hostil. Cam-pau-sai, percebeu logo haver desintelligencia: ordenou á sua frota, que amainasse e surgisse.Sabendo-se no congresso da imprudencia do timido Alvarenga, dirigio-se Arriaga a Macáo para animalo, e os delegados do imperador tomaram a resolução de ir á esquadra portugueza certificar ao chefe o que se tinha tractado com o ministro.Assim que o nosso Alcaforado vio em sua embarcação dois chinezes de cabaias amarellas, conheceu a gerarquia dos hospedes; por ser côr privativa da familia imperial. Tractou-os com a cortezia devida á civilidade chineza. Rogaram ao chefe portuguez, não compromettesse a palavra de Arriaga, nem a delles, para com o chefe dos piratas, a quem tinham mandado dizer, que velejasse para Chumpin, e a elle Alcaforado, que o deixasse saír; que a inexperiencia do governador, não devia embaraçar a execução dos poderes dados pelo Senado ao ministro Arriaga.Alcoforado respondeu:—aprecío muitoa honra, que me fazeis—e desejo, ainda mais, ser-vos util: porém as leis militares entre nós executam-se sem discrepancia. Tenho ordem do governo para bater a esquadra inimiga, se tentar saír, em quanto não houveroutra em contrario, não posso deixar de fazelo.Os mandarins tornaram-lhe:—Homem recto e valoroso, conhecemos os serviços que tens feito ao imperio, e á tua nação: não offusques essa gloria deixando outra vez as costas da China cobertas de piratas. Cam-pau-sai ainda tem grandes recursos: não o irrites. Grande parte da provincia de Chin-cheu segue o seu partido: sabes que é povoada de homensmarcantes, robustos, e denodados; a gente creada sobre as ondas é audaz, e ardilosa; em pouco tempo equiparão outra esquadra para obrigar-te a levantar o bloqueio; assim apezar do teu valor, e do esforço macaense, teremos guerra eterna. Pedimos-te, pelo que mais estimas, modefiques as ordens que tens, a fim de Cam-pau-sai não desconfiar da nossa palavra.—Nesta occasião chegou a ordem de Macáo, por diligencia de Arriaga, para Alcoforado levantar o bloqueio, e seguir Cam-pau-saipara Chumpin. Mui contentes ficaram os mandarins: partiram satisfeitos para o logar do congresso, onde já acharam o nosso Arriaga. Mandou-se nova ordem aCam-pau-sai; no dia immediato surgio no logar aprazado.Mandou-se a bordo cumprimentar o chefe dos piratas, e convida-lo a entrar no congresso, onde devia firmar a sua capitulação. Promptamente chegou: ao entrar na salla dos congregados, conheceu por vestiario e gesto, o nosso ministro: dirigio-se a elle e fallou desta maneira.Grandes motivos me fazem render e tractar comvosco da minha capitulação, para entrar na classe dos Coláos, como mo promettestes pelo imperador. Mas confesso-vos, que o principal foi conhecer o fulcro da lavanca destruidora do meu poder. Já vos vi: estou satisfeito. Devo muito á natureza, e á minha assidua applicação; mas em tudo me acho vencido por vós.—E virando-se para os mandarins:—Tendes por experiencia de 14 annos, quão poderoso e vigilante foi o meu sceptro: sabei agora da minha bocca, que o valor portuguez foi quem o destruira. Aqui me tendes em vossa presença: espero que me trateis como a homem livre, e destemido—E tomou assento.Disseram-lhe que para exemplo era preciso castigaralguns dos seus, que fossem mais criminosos.—Para satisfazer a esse requisito, darei os nomes de 14 faccinorosos, que existem na esquadra. Paguem com suas cabeças as atrocidades que fizeram, e eu desaprovei.—Sendo este o unico embaraço que havia, concluio-se o negocio.Cam-pau-sai declarou ter ainda uma divisão de 80 embarcações, que antes de vir attacar a esquadra macaense, tinha mandado para Chin-cheu receber os tributos do anno passado; mas que por aviso seu viriam entregar-se.Ordenadas assim as cousas principaes, tractaram da forma porque se devia repartir a preza; visto são ser o artigo 1.º da convenção preenchido pelo Governo Chinez; e ter só a esquadra macaense reduzido Cam-pau-sai a capitular.Já o Ministro Arriaga tinha mostrado aos Chinezes, quão valoroso e sensivel éra o seu coração; mas então quiz mostrar-lhe quanto éra liberal. De tudo quanto existia na esquadra de Cam-pau-sai, exigio a melhor partedas bombardas: tudo o mais deixou á disposição do Imperador. Os companheiros de Cam-pau-sai ficaram cidadãos chinezes; elle Coláo do Imperio; e as cabeças dos 14 criminosos, para exemplo dos malevolos, foram espetadas em paos no istmo que devide, a cidade, da ilha de Macáo, onde ficaram até serem consumidas pelo tempo.Concluida a capitulação, disse Cam-pau-sai, ao Conselheiro Arriaga:—Ainda tenho um favor a pedir-vos. Pertendo ir a Macáo, se me concederes licença, para ter o gosto de ver todos os meus vencedores—O Ministro agradeceu: e dissolveu-se o congresso, saindo todos os seus membros cheios de alegria e admiração: Arriaga, da inexplicavel civilidade e sciencia dos mandarins da côrte, ou coláos! Cam-pau-sai, da pessoa, e do espirito de Arriaga! Os coláos! de Cam-pau-sai, e de Arriaga! Tudo lhe parecia prodigioso. Mal podiam capacitar-se de ver livre o imperio do flagelo, que o tinha assolado em 14 annos continuos.Assim que Arriaga entrou na cidade, tractou do triumfo dos heroes macaenses, queéra ao mesmo tempo o seu. A caza deste illustre varão tinha para elles a mesma consideração, que o Capitolio para os romanos. Não foi este triumfo tão aparatoso no exterior como os de Cesar, ou o de D. João de Castro em Goa. Mas os corações de todos os habitantes de Macáo exultavam de prazer até alli nunco visto nem sentido.[Nota 5ª]Em Maio chegou a Cantão a noticia de não querer entregar-se a divisão rebelde, despresando a ordem do seu antigo chefe. Avisou-se a Cam-pau-sai da conducta dos piratas, e Pedio-se-lhe o desempenho da palavra dada no acto da capitulação. Respondeu:—Rebellada a divisão a primeira vez contra a minha ordem não devo mandar-lhe outra. Tenho recurso mais prompto. Dai-me sessenta embarcações das que foram minhas, deixai-mas tripolar com os que já me obedeceram; e se não trouxer os rebeldes dou a minha cabeça. Lembro-me que podeis desconfiar da minha palavra: deixarei em refens o que possuo de mais apreciavel; dois filhos que me deu a natureza. Se sois pai, avaliareis a qualidade do penhor.O Suntó: apezar das demonstrações de firmesa e honrada conducta de Cam-pau-sai, recusou entregar-lhe a esquadra que elle pedia. Mandou apromptar uma frota imperial de perto de duzentas embarcações, e bem equipadas com parte dos instrumentos de guerra que tinham sido de Cam-pau-sai. Saío esta de Cantão e foi encontrar o inimigo. Em pouco tempo veio entrar em Macáo fugida, e derrotada pela divisão rebelde. Chegando esta noticia a Cantão, o Suntó mandou perguntar ao Conselheiro Arriaga, o que deveria fazer ácerca do offerecimento de Cam-pau-sai.—Que se estivesse no seu logar, tornou Arriaga, tinha aceitado os serviços de Cam-pau-sai, logo que elle os offereceu, sem lhe tomar refens; pois esperava delle tudo quanto é proprio de honralo, e de utilisar ao imperio.—O Suntó com tal resposta, mandou entregar a Cam-pau-sai sessenta embarcações, e tudo quanto pedio. Largou o novo Almirante de Cantão deixando a todos em expectativa. Dirigio-se a Macáo, onde estava tudo prompto para recebelo. Em dia assignalado foram oscommandantes da nossa esquadra[Nota 6ª]com os bons moradores da cidade a caza do Ministro Arriaga. Ainda bem o não tinham cumprimentado, annunciou-se a entrada de Cam-pau-sai. Foi conduzido á Sala. Acabadas as civilidades requintadas, segundo o costume Chinez disse:—Deus immortal, estão completos os meus ultimos desejos, vendo e abraçando heroes tão sublimados—Brilhava o jubilo no rosto de todos vendo Marte humilhado em sua presença.—Acha-se neste circulo o valoroso commandante da Lorcha Leão? Desejo conhecelo—Aqui me tendes respondeu oCaroxa. Cam-pau-sai caminhou para elle, abraçou-o: e virando-se para o Ministro disse:—Este homem fez mais damno ao meu poder, do que toda a vossa esquadra. Eu fui vencido: mas quem disputando a gloria aos portuguezes dirigidos por vós, ficará victorioso. Cedo vos mostrarei como venço a outra gente.—Tenho conhecido em vossas acções, disse Arriaga, que sois varão assignalado. Agradeço-vos por todos o alto conceito, que de nós fazeis: affirmo-vos ser o maior premio de nossas fadigas, ter-vos elevado á ordem dos Coláos,onde fareis a ventura da vossa patria, e as delicias do Imperador. Imitai os vossos vencedores promptos sempre a dar a vida pela restauração da gloria nacional, pelos seus direitos, e pelos do seu Monarca legitimo. Lembrai-vos de todas as acções que lhes vistes praticar:[Nota 7ª]E julgareis qual é mais excellente,Se ser do mundo rei, se de tal gente.[22]Se a liberdade, a propriedade, e a segurança são as unicas linhas, que prendem os homens á terra onde habitam, e ao rei; senão ha amor de patria, onde não existem estas vantagens; julgue-se pelo amor dos Portuguezes ao rei e á patria, das qualidades do Senhor D. João VI. Paga o amor que lhe temos usando do seu poder, para oppôr barreiras fortes, e dar remedio ás paixões dos subditos, sem que possamos conhecer as suas proprias paixões.[23]Do vosso nome um grão ReiNeste reino LusitanoSe poz esta mesma lei:Que diz o seu PelicanoPela lei, e pela grei[24]Em todo o tempo, que esteve em Macáo o celebre Cam-pau-sai, foi surprendido pelas maneiras singulares com que o obsequiou o ministro Arriaga: mas foi obrigado a saír de Macáo para em breve desempenhar a sua commissão. Em poucos dias encontrou a divisão rebelde, a quem fez saber que era o Almirante da esquadra imperial pela seguinte:Procclamão.Camaradas e amigos, sei que duvidastes da minha ordem: fizestes bem. Lembrastes-vos sem duvida, que era falsa; ou eu ter sido obrigado pela força a escrevela. Não: assignei-a por minha vontade. Se ainda o duvidais, vinde ouvilo da minha bocca. Dir-vos-hei tambem os motivos, que me fizeram render. Neste mundo ha dois caminhos a seguir, o do bem, ou o do mal. Todos desejamos seguiro do bem, mas somos muitas vezes lançados pelo erro em precipicios. Em outro tempo vos aconselhava eu a seguirdes o meu partido; mas então ainda eu não havia encetado o caminho do bem. Hoje conheço que marchava pela estrada do erro, afastado da vontade do maior numero. O imperio tem povoação summamente grande; e o nosso partido a seu respeito ésummamentepequeno. Não podeis negar-me, que é preciso haver desmedida ambição nos poucos, que pertendem apossar-se do que é de muitos. Não é conforme ás leis do imperio, nem ás do entendimento supremo. Todos devemos concorrer para a felicidade dos outros homens; e no caminho em que andavamos deivairados, faziamos a sua desgraça[25]. Exposta assim a verdade a vossos olhos, espero não duvideis abraçala; e quando useis tenacidade, em vosso erro, experimentareis pela primeira vez o meu rigor.Os rebeldes não attenderam ás rasões de Cam-pau-sai: julgando-se superiores em força, cresceu, a sua audacia; responderam comdespreso. Cam-pau-sai dispoz os seus de tal sorte, que dando sobre os rebeldes, em poucas horas os que não se afundaram, ficaram prisioneiros. Navegou com elles para Macáo; a fim de mostrar ao ministro Arriaga, e a todos os macaenses, a verdade do que lhe havia dito.Entrou alli a divisão rebelde em estado tão deploravel pelo estrago soffrido no combate, que levou muitos dias a concertar para ir a Cantão. Cam-pau-sai largando o nosso porto, dirigio-se ábocca do tygre. Alli encontrou o mar cheio de embarcações, que tinham vindo para o levar em triumfo ao Suntó. É inexplicavel o contentamento, que o povo d'aquella cidade teve nessa occasião. O Suntó obsequiouCam-pau-saide modo, que se o imperador viesse a Cantão, não haveria mais nada a fazer-lhe para honra-lo. Dirigio á côrte tão grandes recommendações ácerca do novo Almirante, que o imperador mandou, que fosse a Pekim, para ter o gosto de velo.Partio Cam-pau-sai; e foi dando interessante espectaculo a todas as villas e cidades, por onde passava. Todos ambicionavam ver ochefe dos piratas (que tanto havia assustado o throno e o imperio) tornado uma das pessoas mais interessantes ao mesmo imperio. Assim que entrou na capital foi apresentado ao imperador: teve com elle larga conversação: depois houve conselho de estado, em que foi Cam-pau-sai um dos seus membros. Emprego superior aos ministros de Estado.Pode-se julgar por este facto, qual é a politica do Governo Chinez. Já não tinha que temer no mar; com tudo premiou Cam-pau-sai, não só para cumprir o que havia promettido, mas tambem para se approveitar dos seus conhecimentos e qualidades relevantes.[26]É provavel, que em quanto elle for Conselheiro de Estado, não hajam piratas nos mares da China. Tem adquerido tão grande reputação na côrte, que não só os particulares mas tambem o Imperador o tracta com singular distincção.Por mais que sejam plausiveis os motivos da guerra, sempre offende: ainda custando só a vida de um homem, assim mesmo é funesta.A estatua do vencedor é sempre banhada de lagrimas pelos vencidos. Todavia esta guerra foi differente. Obrigados os macaenses porLadrõesa defenderem as vidas e a fazenda, mediram as forças mais pelo valor, do que pelo numero; atacaram e venceram. Castigando malvados, lançaram todos os mais ao seio da patria, nos braços de seus irmãos. Em logar de pranto de vencidos, derramaram lagrimas de prazer trocando trabalhos e miserias por vida socegada. Nesta guerra sempre os nossos attenderam mais á humanidade, do que á vingança: fóra do conflicto das batalhas, não houveram crueldades.Quando o generoso Arriaga exigio, no acto da capitulação, a melhor parte das bombardas de Cam-pau-sai, foi com intento de presentear com ellas ao Senhor D. João VI. Recolhendo-se a Macáo, declarou o seu projecto no Senado que de boa vontade assentio.Já em 1642 o senado de Macáo mandára a El-Rei D. João IV, as bombardas tomadas aos hollandezes, para com ellas romper de todo o jugo dos Filippes. O mesmo senado em 1811 mandou ao Senhor D. João VI, a artilheriatomada aos piratas da China, não só para mostrar-lhe a grande força do inimigo vencido, mas tambem para com ella debellar as falanges de Bonaparte.A cidade de Macáo tinha perdido muitos dos seus privilegios. Os chinezes, esquecidos do que os nossos antepassados tinham feito em beneficio de seus maiores, já começavam a ver os portuguezes com a mesma indifferença, com que olhavam para os outros europeos. Mas a serie de factos brilhantes, paraticados no espaço de cinco annos, fizeram reviver a nossa antiga reputação naquelle imperio.Nota(1.ª)Lendo a pagina 253 da relação abbreviada da viagem de La-Perouse, as falsidades alli escriptas em desabono dos Macaenses, não posso deixar de as repelir. Começa dizendo não ter espressões para louvar o Governador de Macáo. A paginas 255 rompe:—De grande importancia seria Macáo a uma nação justa, e que tivesse firmesa e dignidade, contra o Governo Chinez, injusto, oppressor e cobarde! Alli diz que o Governador de Macáo éra optimo, aqui o Governo Portuguez não é digno, nem justo; e o Governo Chinez, é reputado por elle o peior do mundo!Se La Perou-se pertendeu fallar do Governo Portuguez em relação a Macáo, tambem não foi exacto. Que mais poderia fazer El-Rei, ou os seus delegados, do que nomear, para governar Macáo, um homem, que segundo o juizo do mesmo La Perouse, estava prompto a sacrificar-sepela honrada nação? La Perouse, queria achar nos Macaenses firmesa, que desse a todos os europeos liberdade para irem á China quebrar as leis do Imperio como elle mesmo fez desembarcando pelles por contrabando. E atreve-se a dizer que o Governo Chinez é injusto, oppressor e cobarde! Como se poderão avaliar os costumes e o caracter das nações pelo juizo de taes escriptores? A Nação Chineza é independente; não quer ter communicação comos Europeos; renuncía a ganancia do commercio exterior pelo socego do Imperio. Todavia Le Perou-se, e outros europeos queriam achar em Macáo homens que fossem agriolhar em Pekim o mesmo Imperador! Vesse nesta memoria pelos judiciosos discursos dos Mandarins, quão falsas e injustas são as invectivas de La Perouse contra os Chinezes e Macaenses.Nota(2.ª)Quando louvo Fernão Peres de Andrade e outros navegadores e guerreiros, tomo por base a justiça e as suas virtudes. Jámais escreveria este opusculo, se a guerra feita aos piratas não tivesse por fundamento a defesa natural, e o bem estar dos povos constituidos em sociedade.Desta guerra resultou grande beneficio á humanidade. Eu louvo só os Portuguezes que em épocas mais felizes, para nós, se conduziram com valor e dignidade; e os que em nossos dias os imitam. Afonso de Albuquerque foi respeitado ainda mais pelas suas virtudes perfeitas e pela justiça, que praticava, do que pelo extremado valor.Nota(3.ª)Era Cam-pau-sai tão extremoso em ardiz, que não lhe escapou de enredar os seus no fanatismo para mais devotamente chegar aos fins dos seus designios. Logo que os interesseiros bonzos lhe afiançaram o bom resultado da empreza, lançoumão desses instrumentos do erro, que degradam o homem para a classe dos brutos fazendo-os tirar o carro dos conquistadores quasi sempre seus verdugos, mandou erigir-lhe um pagode na maior embarcação, e deu o commando della ao Capitão mais experimentado para defender de todo o risco o templo dos idolos.Aqui temos Cam-pau-sai, pescador dos mares da China feito protector dos bonzos, e reputado seu chefe.Deram passos tão agigantados na estrada da superstituição, que já não faziam guerra nem paz sem consultar o oraculo. Saíam todos os commandantes de seus Taós para irem áquelle onde se achava o pagode incensar os idolos, e ouvir do oraculo o que deviam fazer; isto é o que o chefe dos piratas havia concertado com o principal dos bonzos.Estes delirios julgados propicios aos seus intentos, eram favoraveis aos nossos. Em quanto elles praticavam taes momisses, o valor macaense anniquilava pagode, idolos, bonzos, e supersticiosos.
Shou-Key-chi.—Arriaga.Pom.—Chu—Barros.
.....Tornando frioDe espanto o ardor immenso do oriente,Que verá tanto obrar tão pouca gente.
A fiel ave, que arma vigilante
O grão furor a Jove.
Quando sobre os mortaes os raios chove
A dextra coruscante,
Tão rapida ao rebanho temerosoNão cala, a garra abrindo, das estrellas,
Como o varão famosoSobre as immensas velasCahe de grande ira armadoTreçando denodado
A féra espada, e torna em seu estragoO azul oceano em roxo lago.[17]
Sonorosas trombetas incitavamOs animos alegres resonando:DosChinasos bateis o mar coalhavam,Os toldos pelas aguas arrojando.As bombardas horrisonas bramavamCom as nuves de fumo o sol toldando.[18]
E julgareis qual é mais excellente,Se ser do mundo rei, se de tal gente.[22]
Do vosso nome um grão Rei
Neste reino LusitanoSe poz esta mesma lei:Que diz o seu PelicanoPela lei, e pela grei[24]
Procclamão.
Nota(1.ª)
Nota(2.ª)
Nota(3.ª)