MEMORIA

Nota de editor:Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.Rita Farinha (Maio 2011)MEMORIADOSFEITOS MACAENSESCONTRA OS PIRATAS DA CHINA:E DAENTRADA VIOLENTA DOS INGLEZESNA CIDADE DE MACÁO:AUCTORJOSÉ IGNACIO ANDRADE.SEGUNDA EDIÇÃO.LISBOA: NA TYPOGRAFIA LISBONENSE 1835.Largo de S. Roque N. 12A C. Dias.Rien ne peut arretêr dans leurs projets nouveauxCes Portugais ardens qui volent sur les eaux,O' com bien de héros guiderent leur audace!Que de faits immortels ont signalé leur trace!Esmenarde, C. V. pg. 26.PROEMIO.Quanto é arriscado escrever feitos gloriosos de homens, que ainda vivem! Não só os seus inimigos, mas tambem os feridos do orgulho, ou da inveja, saírão a vociferar contra a mesma evidencia. Ha quem julgue mais prudente calar as grandes acções dos heroes em sua vida. Mas porque se ha de recusar este premio ás pessoas, que o ganharam a risco da vida e fazenda?[1]Por se temer a mordacidade doszoilos? Eis a fraqueza, que não tenho. Transmittindo a verdade aos vindouros, e dizendo o que fizeram os Portuguezes dignos deste nome; se fôr censurado por alguns, louvarão outros o meu zelo.INTRODUCÇÃO.De todos os espectaculos, que a industria humana tem dado ao mundo nenhum mais admiravel do que a navegação. Entes fracos e mortaes filhos da terra ousaram transportar-se sobre elemento inestavel e perigoso, levantar edificios em cima das aguas, dominar os ventos, e voar ás extremidades do mundo por baixo de Ceos desconhecidos.Mas qual é a sorte do homem? Dotado de coração tão perverso, quanto o espirito é grande; o crime assenta-se ao lado do genio. De todas as invenções sublimes tem os homens abusado. Dos vegetaes extraíram venenos: do ouro a moeda que tudo corrompe. As artes serviram-lhe para multiplicarem os meios de se destruirem. A navegação é, sobre tudo, origem de mortandades; o mar tornou-se campo de carnagem; e as ondas foram ensanguentadas pela guerra.As duas partes do globo oriente, e occidente,terra e mar, são igualmente o theatro das desgraças e crimes do homem: com a differença, que dilatando as vistas e passos ao longo do continente, descobrimos ruinas e despojos do ferro e fogo; campos e ermos incultos; porém o mar sendo tumulo de grande parte da humanidade, nenhum vestigio offerece de tantos estragos. Todos os dias passa o navegador com despejo por cima das ondas, que tem engolido milhares de homens.Quem não desejará voltar aos tempos felizes de ignorancia e parcimonia, em que nossos avós menos grandes, porém menos criminosos, sem industria, mas sem remorsos, viviam pobres e virtuosos, e morriam nos campos que os tinham visto nascer.[2]Á custa das vidas portuguezas formaram os nossos antepassados um estabelecimento na China: os nossos contemporaneos foram de novo obrigados a ensanguentar as ondas para submetter Cam-pau-sai ás leis do imperio; e a usar prudencia consummada alémdo valor, a fim de livrar Macáo da invasão britanica.==Nada ha mais proveitoso que a historia para adquirir prudencia, (diz Jeronimo Osorio) nem mais poderoso do que ella para despertar virtudes, mais saudavel para sanar as feridas da republica, nem mais aprasivel para o deleitamento da vida. Mas segundo os homens foram sempre, não crêm nunca feitos, quem sahêm álém do seu engenho e posses; nem ha meio que admittam o que sobrepuja os termos de trivial esforço, e usada industria.==Todavia os feitos exarados nesta memoria jámais serão desmentidos; e podem despertar virtudes.A China por nós ha muito tempo ignorada, depois inteiramente desfigurada, e hoje melhor conhecida do que algumas provincias da Europa, é o imperio mais antigo, extenso, e florecente do globo. Pelo ultimo censo, feito no seculo passado, foram avaliados os seus habitantes em duzentos milhões de almas. O rendimento annual sobe a quinhentos milhões de cruzados. Sustenta oitocentos mil soldados, e trezentos mil cavallos, que emprega nas armas, e correios publicos.Ha tempo immemoriavel são os imperadores tambem pontifices do imperio; para que as authoridades civil, e religiosa nunca se achem em conflicto. Adoram um Deus unico; e offerecem-lhe as primicias de um campo lavrado, todos os annos em dia solemne, por suas proprias mãos. Alento exemplar á agricultura, primeira base da independencia e prosperidade nacional.Pela maxima da tolerancia geral seguida no oriente, admittem-se os bonzos de todas as religiões, e deixam-os espalhar os seus desvarios: mas se chegam a amutinar o povo, são logo enforcados. Assim os toleram e os reprimem. O imperadorCham-himandou gravar no frontispicio da sua capella:==O Chang-ti não tem principio nem fim: creou e governa tudo: é summamente bom e justo.==Os Chinezes em geral são polidos e virtuosos. O Imperador tem uma só mulher legitima, mas póde segundo as leis do Imperio ter grande numero de amasias. A sorte destas é triste, por viverem encerradas. Pagam com a privação em que vivem dasociedade, a honra de satisfazer ao imperante, a qual devem á formosura, e não ao nascimento, que os Chinezes desapreciam, quando não é accompanhado da virtude.Os Coláos e mandarins letrados são mais estimados no imperio do que os militares. Entre o grande numero dos primeiros ha seis que acompanham a côrte. O coláo mais antigo e de maior merito nomeia os mandarins para todos os empregos superiores, e os manda punir se não cumprem com o seu dever; o segundo cuida nos cultos, e dispõe as ceremonias da côrte; o terceiro é o Ministro da Justiça; o quarto administra a fazenda; o quinto preside no ministerio da guerra, e determina tudo, quando é preciso sustentala; o sexto tem a seu cargo as obras publicas.Ha outros que deliberam com o Imperador sobre os negocios do Estado. Além disso tem censores publicos de officio. Em cada uma provincia ha um Suntó (delegado imperial) com tres mandarins letrados debaixo das suas ordens. O primeiro conhece das causas civis e criminaes; o segundo recebeos tributos; o terceiro mantém a segurança publica. Para chegar a ser mandarim é preciso passar por tres gráos, como os nossos de Bacharel, Licenciado, e Doutor: destes são tirados os coláos.O governo não é despotico como se pensa. Os mandarins oppõem-se aos seus decretos, quando são contrarios ás leis do Estado. Querendo certo Imperador abusar do poder, um mandarim escreveo-lhe pelo modo seguinte:—Senhor sei que me arrisco em offender o vosso amor proprio, mas devo preferir a morte á perda da honra: não posso deixar de vos advertir, que o máo exemplo dado por vós ao Imperio nos lança a todos no abysmo.—O Imperador foi generoso para não se agravar, mas não o foi para mudar de conducta. Todos os mandarins esperaram occasião para lhe mostrar serem dos sentimentos do primeiro.Não tinha o Imperador filhos legitimos, e pelas leis do Estado devem ser chamados á successão do Imperio os bastardos, preferindo sempre o primogenito. O Imperador tinha grande affeição a um dos outros: pretendeuque o reconhecessem, com perjuizo do mais velho. Os mandarins representaram ao Imperador a injustiça que pretendia fazer: este por isso privou alguns dos empregos. Aquelles publicaram um aviso dirigido a todos os mandarins anexos á côrte para se acharem um dia aprazado no logar ordinario. Ahi decidiram em junta que visto o Imperador desprezar as leis do Estado, deviam elles desistir dos seus empregos e ir para suas casas viver como particulares: assim o executaram.O Imperador entrou em seus deveres: mandou aos mandarins que tornassem aos seus empregos, que estava pelo que elles entendiam. Assim obedeceram todos á lei. Os mandarins ganharam nesta occasião honra por sua firmeza, e o Imperador por sua prudencia.O tribunal da historia, para tudo ser conforme, é surdo ás supplicas, ou ameaços dos imperantes. Na sala do tribunal ha um cofre, onde cada historiador lança suas memorias sem as communicar a pessoa alguma. No fim de cada reinado abre-se o deposito, e dos escriptos alli achados formam os annaesdo Imperio: Para conhecer o espirito deste tribunal basta o caso seguinte:Tai-te-song, Imperador da dynastia de Tang, rogou ao presidente do tribunal, que lhe mostrasse as memorias que deviam formar a historia do seu reinado. Senhor, deveis saber, que damos conta exacta dos vicios e das virtudes dos Soberanos, e que deixariamos de ser livres se consentissimos no que exigis—O Imperador tornou:—Pois vós que me sois tão obrigado, pretendeis levar á posteridade os meus defeitos?—Com summa dôr os escreverei, mas é tal o dever do meu emprego, que me obriga a levar á posteridade a pretenção, que hoje tivestes de mim.—Em todos os paizes as leis punem os crimes, na China fazem mais premeiam a virtude. A noticia de uma acção generosa, de uma virtude extremada, assim que se divulga emqualquerprovincia, é obrigado o mandarim de policia a participala ao Imperador: este manda logo áquelle subdito um signal, que o distingue no caminho da virtude.O certo é, que os vicios e as virtudes dos povos nascem da sua legislação: esse conhecimentodeu talvez motivo a esta boa lei dos Chinezes.—Para fecundar o germen da virtude, os mandarins participam da gloria, ou da vergonha das acções virtuosas ou injustas commettidas em seu governo.A moral, a obediencia ás leis, e o culto ao ente supremo, formam a religião do Estado. O Imperador não é só pontifice, mas tambem o primeiro orador do Imperio. Seus decretos são quasi sempre lições de moral. Subsistem ha mais de quatro mil annos com a mesma forma de governo, as mesmas leis e costumes, sempre estudiosos e apreciadores das letras.Com tudo o povo é idolatra; os letrados deistas, sem acreditarem em revelação alguma, nem na vida eterna. Dados ao estudo das leis, desprezam por ellas os dogmas e ritos de seus bonzos. Em verdade estes são ignorantes, supersticiosos, credulos e ambiciosos de riquezas. A maior parte dos Chinezes observam as seguintes maximas de Confucio.Lembra-te que és homem, a tuanaturezaé fraca, podes succumbir. Afasta de ti os obstaculos que te embaracem o caminho da virtude.O homem bom occupa-se de suas virtudes: o máo de suas riquezas. Aquelle trata do interesse da patria: este só no seu cuida.Faze aos outros o que desejas te façam: eis a unica lei que te é precisa.O silencio é indispensavel ao sabio; este despreza sempre os rasgos da eloquencia por inuteis; explica-se por suas acções. O ceo falla, mas por que modo nos diz elle ser o Soberano principio de todas as cousas? O seu movimento é a sua linguagem: creou e deu impulso á natureza, e esta como filha sua obedece-lhe e produz.Quando se trata da saude da patria despreza-se o perigo da vida.O ganho do imperante avalia-se pela felicidade publica.Estas poucas regras bastam para se fazer perfeita idéa da moral Chineza.Por morte de Afonso deAlbuquerque, em 1515, succedeu-lhe no governo da India Lopo Soares de Albergaria: no principio do anno de 1517, mandou este uma esquadra de nove embarc, em 1515, succedeu-lhe no governo da India Lopo Soares de Albergaria: no principio do anno de 1517, mandou este uma esquadra de nove embarcações commandadas por Fernão Peres de Andrade, levar ao Imperador dosChinezes o Embaixador Thomé Pires, como El-Rei D. Manoel lhe tinha ordenado.Por motivo de grande temporal arribou a frota a Malaca, e só pôde sair daquelle porto, para estrear as quilhas portuguezas no mar da China, em Junho do mesmo anno. Já os nossos sabiam, pela amisade contrahida em Malaca, com os Chinezes, a que rumo lhe demorava Cantão: foram ás ilhas visinhas daquella cidade por onde enviaram o nosso Embaixador á côrte.Quando alli aportou o nosso Andrade, achou uma frota Chineza destinada a combater os piratas, que infestavam aquelles mares. Sendo Fernão Peres de Andrade benefico e destemido, anniquillava preversos, e attrahia qual iman os discipulos de Confucio. Largou aquelle Imperio deixando nelle as cem trombetas da fama apregoando sua magnanimidade.Do meu arco possanteHoje o famoso AndradeAlvo será: seu nome triunfanteNo porto surgirá da Eternidade.[3]Assim que largou de Cantão chegou alli Simão de Andrade, com outros: procederam de forma, que perderam, em credito, tudo quanto Fernão Peres tinha adquirido. Usaram tão grandes violencias, que os Chinezes resolveram tratalos como a piratas. Equiparam grande frota, e cercaram os portuguezes por todos os lados. Se não fôra um temporal, que abrio caminho por onde fugiram, ficariam todos prisioneiros.Depois de tal desar das armas e da honra portugueza, chegou alli Afonso Martins de Mello, ignorando o que se tinha passado. Assim que os mandarins o descobriram reuniram a sua frota para atacalo. Martins de Mello, dizia-lhe, que ia levar paz e não guerra; mas estes só lhe respondiam por bocas de fogo. Travou-se o combate; os nossos succumbiram. Assim que Martins de Mello vio perdidos todos os recursos, cortou a linha inimiga como raio abrazador, e ganhou o mar largo, deixando os Chinezes pasmados de tal audacia. Foi preciso que os portuguezes com seu valor e prudencia, fizessem esquecer aos Chinezes a memoria do immoral Simão, paraserem outra vez recebidos em seus portos.Recuperada a boa fé entre as duas nações obtiveram os portuguezes, em recompensa de serviços prestados ao Imperio, o isthmo do Sul na ilha de Macáo, para levantarem casas, debaixo de certas condições; masfizeram delleuma cidade a que deram o nome da ilha.Foi no anno de 1557, que o Imperador da China concedeu aos portuguezes aforarem aquelle isthmo em premio de terem anniquilado a esquadra do pirata Chang-Silau.Em 1584 prometteram os macaenses obediencia a Filippe II, porém a bandeira portugueza tremulou sempre nas fortalezas de Macáo.Em 1586 recebeu Macáo o titulo de cidade do nome de Deus na China, e todas as liberdades e preeminencias, que tinha a cidade de Evora, cujos foros se confirmaram em 1709.Em 1622 tendo Macáo apenas 80 portuguezes, e alguns cafres, foi atacado por 800 hollandezes: deixaram 500 mortos, e 100 prisioneiros; os restantes fugiram largando emnosso poder 8 bandeiras, armas e bagagens.Antes de fazerem o desembarque, pediram a dois navios inglezes, surtos na bahia, para ajudalos; estes não duvidaram, mas exigiam o fruto de todo o saque. Os hollandezes rejeitaram: julgaram muito excessiva a ambição dos inglezes.De 1557 até 1625 foi Macáo governado pelos capitães de navios do Estado, que todos os annos iam de viagem ao Japão, e faziam escala naquella cidade. Com esses governadores teve prosperidade.Em 1626 foi de Goa para Macáo D. Francisco Mascaranhas para Governador com o titulo de Capitão Geral. Começou no seu governo a desintelligencia com o Senado, e a dissolução praticada pelos Governadores. Este foi grande assassino, grande roubador e forçador cruel das mulheres e filhas doscidadãos. Levou os macaenses a tal desesperação, que o mataram, a fim de se verem livres de tão horrendo monstro.Em 1641 chegou alli a noticia da feliz aclamação do Senhor D. João IV: os macaenses logo romperam os grilhões de Filippe, emandaram grande donativo á capital do Rei legitimo.Em 1709 soffreram segundo Verres; Diogo de Pinho Teixeira; chegou a mandar bombardear o Senado, onde ferio e matou, por não consentir em suas prepotencias.Em 1726 chegou a Macáo o Embaixador Alexandre Metello de Sousa Menezes, mandado por El-Rei D. João V. ao Imperador da China. Os moradores daquella cidade cooperaram muito para sustentar-se o decoro nacional naquella embaixada.Em 1747 foi governar Macáo, Antonio José Telles: espantou os algozes do Imperio Chinez por suas crueldades. Levou aquelle estabelecimento aponto de perder-se.Esta cidade celebre pela riqueza de seu trato, illustre pela fama de nossas victorias, é situada na latitude de 221⁄4gráos ao Nórte do Equador, e 122.° ao Oriente de Lisboa. Seus habitantes pouco distam dos nossosperiecos; motivo talvez por que o Padre Antonio Vieira disse: que a espada dos portuguezes tinha chegado, onde não alcançou a penna de Santo Agostinho. Tem de extensão a cidade pouco maisde uma legua. Do lado do Norte é defendida por grossa muralha guarnecida de fortins: e do Sul por tres fortalezas. A de S. Francisco na parte oriental da Praia Grande; a do Bom porto na ponta occidental e a de Sant-Iago que defende a entrada da barra: tem mais entre as primeiras duas, o forte de S. Pedro. No centro a fortaleza do monte domina toda a cidade. Além destas fortalezas tem outra sobre o monte da Sr.ada Guia, fora dos muros da cidade. As casas são bem edificadas, mas as ruas desiguaes. O porto é bom: podem entrar nelle navios em lastro de oitocentas tonelladas. Tambem podem surgir ao largo náos de 74. A povoação é de 20 mil individuos, a maior parte Chinezes. O Governo é o Senado composto de dois Juizes ordinarios, tres Vereadores, um Procurador, e um Escrivão. O Governador militar ou Capitão Geral, e o Ouvidor, são chamados ao Senado, quando ha negocios politicos, ou de fazenda. Neste caso preside no Senado o Capitão Geral, e tem voto de qualidade. A tudo o que é relativo ao governo municipal preside o Vereador do mez.Os macaenses são tão zelozos das suas liberdades,que até na meza das sessões do Governo tiraram ao Presidente a regalia de ficar isolado no extremo della. Sendo nove os membros, collocaram a meza dentro de uma tribuna de modo, que ficam tres de cada lado; a frente é livre para entrar e sair.Sobre a meza descança um extremo da vara da Justiça, e o outro fica encostado na parede por cima da cabeça do Ministro: um delles (Lazaro da Silva Ferreira) assombrando-se com ella tocou-lhe de proposito para a fazer cair, e mandou-a tirar, dizendo lhe ferira a cabeça. Os Senadores mandaram por-lhe um gancho no extremo, e uma argola na parede para segurar assim a insignia da Justiça. Outro dia o Ministro ao entrar tocou-lhe para caindo lançala fora: ficou surpreso ao ver, que estava segura. O Vereador do mez tirou-o do embaraço dizendo:—Tributamos tão grande respeito a nossos maiores, que não podemos prescindir deste seu costume; e presamos tanto a V. S.a, que para não o ferir a vara da Justiça mandamo-la segurar.Ha um Bispo, e um Batalhão de naturaes de Goa, commandados por Officiaes macaenses;guarnece as fortalezas, e faz as rondas da cidade. Seus rendimentos são os direitos da Alfandega.As minhas viagens á China deram-me occasião para conhecer os descendentes dos honrados portuguezes, que no tempo do nosso captiveiro debaixo do pezado grilhão dos Filippes tiverão a constancia e valor de conservar illesos os foros nacionaes naquelle canto do mundo. Ainda que logravam a amizade dos Chinezes, só tinham seus braços para se defenderem das nações da Europa, que alli foram atacalos. A historia diz pouco ácerca dos grandes feitos macaenses daquella época.[4]Apenas dessas grandes acções ha hoje pintadas algumas mais notaveis na Sé e Senado de Macáo. Tudo o mais se tem perdido com os heróes, que tão dignos eram de memoria eterna.Em 1808 foram os macaenses atacados por tal forma, que a não terem herdado o valor de seus maiores, de certo succumbiriam[Nota 1ª]. Fui testimunha de feitos mui gloriosos. Os portuguezesnesta época mostraram-se grandes nas armas, e na politica; nas armas pelo valor com que tomaram a grande esquadra de Campau-sai, na politica, pelo bem que se houveram com os Chinezes e Inglezes. Salvaram Macáo de nadar em sangue; acreditaram-se com os primeiros; e foram uteis aos segundos. Deixarei tão nobres acções no esquecimento á maneira de nossos maiores? Não: farei diligencia para as transmittir á posteridade. Se não forem uteis aos presentes, se-lo-hão por certo aos vindouros. Não ha cousa mais capaz de fortalecer nossas almas, do que as proezas de nossos avós. Julgo de obrigação referilas a nossos nétos.Macáo é monumento precioso da gloria portugueza. Fernão Peres de Andrade, foi quem primeiro immortalisou os portuguezes naquella parte do mundo. Ver-se-ha firmado pela mão dos Chinezes, que ainda temos grande consideração naquelle imperio.Contendo esta memoria dois objectos differentes, julguei a proposito lançalos em separado; ainda que um principia antes e acaba depois do outro. Pegaram os macaenses ás mãos com os piratas em 1805: A esquadraingleza aportou em Macáo a 18 de Setembro de 1808, e saiu a 10 de Dezembro do mesmo anno. O Tratado entre o Governo Chinez e o Macaense, para a completa derrota da esquadra de Cam-pau-sai, foi assignado em 23 de Novembro de 1809, e concluido tão importante negocio em Abril de 1810. Para o leitor vêr sem custo as grandes difficuldades, que em Macáo se venceram, dividirei, esta memoria em duas partes. Tractarei na primeira da extincção dos piratas. Cousas ha nesta parte, que se fossem praticadas em tempos mais tenebrosos, seriam tidas por milagres, sendo só o esforço de almas valorosas que mandaram seus braços com a penna e espada obrar taes prodigios. Na segunda fallarei da invasão dos inglezes em Macáo, da sua e nossa conducta, assim como da politica Chineza, e do final resultado.Em Athenas, eram os famosos oradores quem celebravam os heroes de Salamina; e tinham por ouvintes os Socrates e os Pericles. Eu não tenho os mesmos talentos, e tenho juizes não menos temiveis. Mas em objecto desta natureza a eloquencia consiste em ser sincero.PRIMEIRA PARTE.Ao valor dos Portuguezes deve o Imperio da China ver-se livre dos piratas, que por duas vezes pertenderam dominalo. A primeira foi obra dos Lusitanos do seculo XVI: a segunda de seus descendentes nossos contemporaneos, a tempo que seus irmãos na Patria anniquilavam as aguias do oppressor da Europa. Depois que no seculo XVI os piratas foram destruidos, tentaram formar novo partido; e pouco a pouco engrossaram seu numero e força de modo, que em1805estavam senhores de grande esquadra, bem guarnecida de artilheria, e com perto de quarenta mil homens de tripulação. Tendo morrido o Chefe dos piratas ficou sua mulher, não só herdeira do posto, mas tambem da sua audacia no exercicio da piratagem. Assim que tomou posse do commando de tão grande poderio, dividio-o em duas esquadras, e deu o commando dellas a dois parentes do marido, que mais se tinham acreditado debaixo das suas ordens. A primeira e mais possante coube aocelebreApócha, que depois se chamouCam-pau-sai, e onde sempre residio a viuva.Apau-taifoi commandar a segunda, composta de 130 embarcações, e com bandeira preta.Cam-pau-sai, homem forte, ardiloso e emprehendedor, depois de ter ganhado o affecto dos seus, teve arte de dispolos a executar qualquer empreza que imaginasse. Com effeito concebeu projecto tão elevado, que bem se pode comparar com o de Afonso de Albuquerque, quando pertendeu tirar da Meca o corpo do Profeta, e mudar a direcção do rio Nilo, fazendo-o desaguar no mar roxo para anniquilar desse modo os Turcos no Egypto! Cam-pau-sai tentou coroar-se Imperador dos Chinezes, e lançar a dynastia Tartara para o Norte da grande muralha, que a divide da China. Começou a fazer guerra tão atroz, que não só paralisou o commercio maritimo nas costas meredionaes do Imperio, mas tambem fazia desembarques no continente, e arrasava todos os logares por onde passava. Sendo aCidadede Cantão a mais rica e a mais commerciante, quiz embaraçar alli o negocio com os europeos. Para esse fim veio postarsuas forças na emboccadura do rio Tygre, e em todos os canaes que formam as ilhas visinhas de Macáo. Assombrando assim Cam-pau-sai os mares das ilhas da China com seu poder, não se limitou a perseguir seus irmãos Chinezes, tambem se atreveu a insultar os navios da Europa.Vendo o Governo de Macáo o risco em que ficava, rodeado de immensa força inimiga, na estação em que todos os navios da praça se achavam ausentes; mandou a Bengalla fazer um brigue para ficar de guarda costa, em quanto estes não se recolhiam: porque em os piratas sabendo, não haverem navios dentro do porto, que os fossem acommetter, chegavam quasi ao alcance da artilheria das nossas fortalesas, para embaraçarem os mantimentos, que todos os dias entram na Cidade.Deu-se tanta pressa á factura do brigue, que do momento em que se lançou a quilha no Estaleiro, até sair da barra fóra, só mediaram vinte e oito dias! Quando chegou a Macáo estavam os piratas tam destemidos, que o Governo julgou ser insufficiente tãopequena força, para os afastar da Cidade. Comprou mais o navio Arriaga, a que deu o nome de Ulises, e mandou-o armar, abrindo-lhe uma bateria na coberta.Assim que estas duas embarcações começaram a bater os piratas, estes não ousavam aproximar-se dellas. Com tudo ainda faziam damno ao commercio; porque os nossos vasos não podiam entrar nos pequenos canaes, onde elles o interceptavam. Alli podia a esquadra Imperial fazer-lhe algum ataque; mas o respeito devido a Cam-pau-sai, tirava a lembrança de o acommetterem. Passou o anno de 1806, e parte de 1807, sem que os piratas arriscassem entrar em combate com os nossos. Esperavam achalos separados, e em parte onde não se podessem soccorrer; no entanto iam devastando a provincia de Cantão.Meado o anno de 1807 achou o nosso brigue em boa posição para atacalo. Mandou uma divisão commandada por um de seus Capitães mais experimentados, que o fosse combater. Commandava o nosso brigue, o valente e destemidoPereira Barreto. Já nesse tempo havia adquirido tam grande creditoentre os Chinezes, que lhe chamavam o Tygre do mar.[5]O impavidoBarretotinha valor para investir com toda a esquadra de Cam-pau-sai, quanto mais com uma de suas divisões. Assim que a julgou ao alcance da artilheria, virou sobre ella fez-lhe fogo tão vivo, e estrago tão grande, que todos fugiram deixando a Capitanía ás mãos com obrigue. Vendo o forteBarreto, que a artilheria inimiga éra de maior calibre, resolveu abordar o Taó[6]. Deve imaginar-se uma grande lancha dando abordagem a uma Náo. Assim parecia o brigue junto ao Taó, e apenas tinha um quinto da equipagem do navio inimigo. Todavia o forteBarretodirige a sua embarcação á pôpa do Taó. Quando se lhe botavam os arpéos lançaram os piratas uma balça de fogo dentro da prôa do brigue, que decerto o abrazaria, se o previdenteBarretonão corresse a lançala ao mar. A este tempo unem se as embarcações;Barretoé o primeiro que trépa pelo Taó acima, e tão depressa pôde firmar os pés sobre a tolda inimiga, cantou victoria:Saltando a fará só com lança e espadaDe quatro centos mouros despejada[7]Barretousava de espada colubrina, e manejava de sorte que dos setenta homens, equipagem do brigue, os que poderam subir disseram, que chegando acima, viram a tolda coberta de mutilados! Achou o nosso heroe tão porfiada resistencia, que todos foram mortos porém nenhum vencido, ou aprisionado. Os que pertenderam escapar aos golpes do nosso Marte irado, lançaram-se ao mar. O seu Chefe, vendo-se perdido desceu á camara, pegou em sua mulher pelos cabellos, cortou-lhe a cabeça com o alfange, e sepultou-se no mar com ella.[8]Este combate foi dado perto de Macáo;Barretoconduzio immediatamente a preza ao porto. Os macaenses e muitos estrangeiros, foram logo dar o parabem a tão valente Capitão, e ver o navio inimigo. Ficaram horrorisados da carnagem, porque os piratas só se rendiam com a morte. Haviam seculos, que já se não faziam d'estas proezas; e aténos parecia impossivel, que no tempo de Camões, D. Lourenço de Almeida fosse bastante para debellar em uma Náo da Méca quatro centos mouros. Mas ainda em nossos dias mostra o entendimento supremo, que um portuguez só com seu braço é sufficiente para destruir em um Taó mais de 300 Chinezes.Esta verdade precisa quasi de tanto valor para escrevela, como para obrala, ainda sendo evidente ao escriptor; mas é qualificada pelos habitantes de uma cidade, onde residiam subditos de varias nações. Já o nosso Diniz cantou as victorias de outro Barreto; justo é que tão divino estro sirva para immortalisar os dois.Lavremos pois, oh! Musa, á gran memoriaComargivoburil padrão sagrado:Morda-se o tempo irado,Que ella eterna fará a clara historiaAlma que atraz da fama immenso espaçoCorre, veja em meus hymnosQue em vão não sua bellicoso braço.[9]Por feito tão assombroso ficou Macáo em socego. Os piratas retiraram-se para longe, mas sempre fazendo estrago em tudo que podiamvencer. A esquadra imperial com a noticia d'esta victoria animou-se a sair de Cantão e aproximar-se de Macáo, cruzeiro que ella já não ousava fazer com receio dos piratas. A brilhante proeza do invictoBarretofez desapparecer das ilhas da China aquella praga devastadora: por consequencia o Governo de Macáo mandou recolher as suas embarcações.Sabendo-se na China, que o Sr. D. João VI tinha deixado Portugal para reinar no Brazil; lembraram-se os macaenses de mandar cumprimentar o Rei dos Lusos nas suas possessões do polo antarctico. Apromptaram o navio Ulises, nomeando para ir saudar El-Rei, pelo Senado, ao honrado cidadão Antonio Joaquim de Oliveira Matos; e deram o commando da embarcação ao denodadoBarreto. Destinando-se aquella enviatura a obsequiar o Chefe dos Lusos, pensaram não ser pequeno mimo fazer-lhe conhecer quem tanto honrava o nome portuguez. Foi o nosso heroe recebido no Brazil, quasi da mesma sorte que os Dias, e os Gamas, recolhendo-se de suas trabalhosas viagens, eram recebidos pelos antigosreis portuguezes. O Sr. D. João VI o elevou de primeiro Tenente a Capitão de Fragata: Premiou os macaenses: deu-lhes distinctivos, que foram assaz estimados, talvez por se esquecerem das altas virtudes de seus maiores, que os despresavam por bons costumes.Affastado Cam-Pau-Sai de Macáo por temer os portuguezes, não esfriou em sua empreza. Começou então a proclamar a todos os do seu partido a tyrannica oppressão, que sofria o imperio, por consentirem no thorono a intrusa dinastia barbara. Demonstrou-lhe quão facil éra depôr aquella, restabelecer a Chineza, e fazer a cada um dos seus regulo do imperio. Tal pericia desenvolveu na piratagem, e na persuasão, que já os seus não duvidavam ser elle o unico capaz de restaurar a dignidade da Patria.Andavam assim de animo affeito á guerra, quando tiveram a feliz noticia, de já não existir em Macáo otygre do mar. Voaram como bando de Açores famintos a devorar tudo quanto podiam encontrar pelas ilhas visinhas de Macáo. Não esperando o Almirante Chinez aquelle infausto encontro, cruzava afoito nabocca do Tyre. Assim que foi descoberto por Cam-pau-sai, carregou sobre elle. Uma divisão imperial de 28 navios de 15 a 20 peças cada um, que não fugio para fazer-lhe frente, ficou prisioneira. Soberbo com essa victoria, começou de novo a investir as embarcações da Europa, e as macaenses. Nesta epoca alguns navios Americanos se poderam escapar ao abrigo das nossas fortalezas.Recolhendo-se de Goa o brigue doBotelho, Capitão Manoel José Vianna, foi visto dos piratas; carregaram sobre elle; mas acharam tão grande resistencia naquelle esforçado Capitão, que restando apenas seis homens da sua equipagem, com elles fazia grande estrago ao inimigo. Com tudo o fogo abrandou, pelo cansaço; mas vendo Apautai, que não arreavam bandeira, mandou abordalos. O impavido Vianna ao ver-se rodeado de torres ambulantes e coberto de lanças, longe de esmorecer, tomou em sua alma o espirito de Duarte Pacheco; e á imitação dos nossosBarretos, quantos inimigos lhe saltavam na sua embarcação, tantos a sua espada lançava no abysmo. Os Chinezes espantados já não o julgavamhomem, mas sim algum ente superior á especie humana. Parecia invulneravel! Com tudo morreu no combate. Mas como? Cançado de matar piratas.Cem paráostorreados,Donde por boccas mil brota Mavorte;Entre horrorosos bradosEm fogo, em fumo, em sangue envolta a morteZarguchos, flexas, que em chuveiro voam.[10]Tal foi o combate supportado pelo Magnanimo Vianna. Com a sua morte ganharam os piratas tal audacia, que tiveram a ousadia de passar com o navio prisioneiro, e com a bandeira de rasto, á vista de Macáo. A sensação que fez esse triste espectaculo nos moradores daquella cidade é inexplicavel. Juraram não só retomar a sua embarcação, mas tambem dar aos piratas o castigo merecido. Os navios que então se achavam no porto capazes de tal empreza, eram o brigue doSenado, e o navio Belisario. O brigue achava-se desarmado, e desaparelhado, assim como o Belisario.Seriam nove horas da manhã, quandose avistou o navio apresado; e antes de anoitecer já os nossos iam no alcance da esquadra inimiga! Como foi possivel obrar tanto em tão pouco tempo? Tudo se deveu á generosidade dos macaenses, e ao estimulo dado pelo incançavel Arriaga. Este digno Ministro, honra dos togados, e columna forte da gloria nacional, não se limitou a ser o primeiro em votar, e concorrer com meios para o desempenho desta empreza. Pesando a importancia da cidade, e o perigo em que ella se achava, resolveu sobre sua defeza penhorar todas as forças sem perdoar as despezas, diligencias ou perigos. Foi com seus braços dar exemplo aos macaenses mais distinctos, que todos trabalharam na promptificação dos navios.Era este varão entre os macaenses bem similhante á alma dos estoicos, espalhada pelo universo. Estava em toda a parte. Seria preciso eloquencia extremada e presencear todos os seusillustresfeitos, para elogiar as altas qualidades deste preclaro varão: sem isso não é possivel apparecerem tão brilhantes como foram praticados.Por não haver então em Macáo Official de mar, que se julgasse dextro na politica, ainda que todos sobrepujavam, no valor, deu-se o commando em chefe ao Capitão de artilheria José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa. Sustentou este invicto heroe, em toda a lucta contra os piratas, a dignidade portugueza de modo, que bem se parecia com o primeiro Capitão Lusitano, que aportou naquelle imperio.[Nota 2ª]Theotonio da Silva Braga, commandava o navio Belisario. Caío tão grande tufão na noite seguinte ao dia em que saíram os navios, que se julgava telos submergido.Ao amanhecersubirãoos montes, sobranceiros á cidade, anciosos por ver seus campeões; avistaram o brigue doBotelho, que tendo surgido em Lantáo prisioneiro, e ficando-lhe abordo os portuguezes restantes do combate, assim que o tufão soprou do Oriente, cortara, que tendo surgido em Lantáo prisioneiro, e ficando-lhe abordo os portuguezes restantes do combate, assim que o tufão soprou do Oriente, cortaram as amarras e vieram encalhar na Taipa. Os macaenses exultaram com este successo, e muito mais por avistarem o brigue, e o Belisario, que pela grande pericia de seus officiaestinhãoescapado á furia do tufão.Havia tambem uma lorcha armada em guerra[11]commandada por Antonio José Gonçalves Caroxa: mancebo activo e destemido. Era commando de difficil desempenho; por ser a embarcação conductora dos viveres para os nossos, levados por entre os inimigos em frequentes combates. A força da lorcha constava de quatro pedreiros, um obuz de doze, e trinta homens de tripulação. Algumas vezes aconteceu estar encorporada aos nossos navios, quando batiam os piratas. Se o acaso permittia accalmar o vento, nessas occasiões fazia o nosso Caroxa maravilhas extremadas.Desejava Cam-pau-sai encontralo, onde não podessem defendelo os nossos, para mais a salvo descarregar sobre elle seu poder, e seu odio. Teve quem lhe desse dia certo em que a lorcha havia passar por logar, onde Cam-pau-sai podia satisfazer seus desejos. Amanheceu o dia aprasado, e o novoAquilles Lusitanochegou ao passo, que bem pode nomear-se Cabalão[12]. Achou-o coberto de inimigos: mas julgando urgente o desempenhoda sua commissão, tentou abrir caminho. Ainda que a sua tripolação era toda de Chinezes, tinha a sua disciplina: julgou que isso bastava.Os inimigos tentaram rodealo; mas o intrepido Caroxa lançou mãos ao obuz, e como o reparo era de pião, jogava para todos os lados. Aos que se lhe aproximavam cortava-os com metralha; e aos que estavam mais longe passava-os com balas. Mas os navios inimigos eram tantos, que mal podia desbaratar a todos os que lhe vinham ao alcance. Com tudo apezar de ver a maior parte da tripolação morta, não esfriava no empenho de vencer. Não usava render-se, nem fugir; cada vez mais afouto pertendia desembaraçar o passo. Mas os restantes da tripolação vendo passar-lhe as ballas pelo vestido, sem lhe offender o corpo, e irem matar os seus companheiros; por que não lhes succedesse o mesmo, ousaram lançar-se a elle, e amarralo de pés e mãos. Segurando assim o homem, que lhes parecia invulneravel, fugiram para a cidade, onde o entregáram cheios de espanto e de temor, dando por desculpa do seu arrojo, o muito queapreciavam a existencia do seu commandante.Os macaenses receberam o destemido Caroxa com estimação digna dos importantes serviços, que lhes fazia, e do valor com que se immortalisava. Mas o conselheiro Arriaga sobresaía a todos. Tinha maneiras singulares para introduzir heroismo nos homens, que destinava a emprezas arriscadas. O sentimento lugubre, que mostrava pela morte de um marinheiro habil, ou o elogio feito a outro que se distinguia, dava a todos cobiça de se verem acatados e elogiados por elle. Nesta occasião um abraço dado no Caroxa, em nome da patria fortaleceu a alma deste Lusitano de modo, que só elle em sua lorcha, com outra equipagem, se julgava sufficiente para arrostar com todos os piratas.Em verdade, onde as leis são respeitadas, a sociedade é livre: e os homens serão livres em toda a parte, que houver governo justo como era então o de Macáo. Longe de envejar a seus concidadãos as vantagens, grangiadas por sua industria, cuidava com muito desvelo em augmenta-las. Não só deixava de opprimilos; mas assegurava a sua liberdade;bem precioso ao homem, e necessario á sua ventura; tão distante da licença perigosa, como da humiliação servil. O governo providente apenas liga as mãos aos homens para não se offenderem; mas deixa-os trabalhar sem obstaculo para a sua felicidade; sabe que a ignorancia não só deslumbra os homens mas tambem os faz pusillanimes e desgraçados: a razão e a liberdade melhoram o coração e os faz virtuosos e resolutos.Arriaga sabia que a justa destribuição dos premios e das penas é a melhor acção do governo sobre o povo: servio-se destas principaes molas do coração humano, para animar a virtude e o merito; e obrigar o interesse particular a promover o interesse publico. O certo é que a virtude desapparece, quando o vicio é honrado. Algumas vezes lhe ouvi eu que os favores dados á incapacidade, são roubos feitos ao merecimento; e as recompensas dadas a quem bem serve a patria são dividas, que o governo paga por ella. Fui testimunha das bençãos, que lhe lançavam os macaenses pelo muito que se occupava da sua ventura.—Fazia do merecimento dos homensestimação tão justa, que nem á conveniencia, nem ao estado ficava devedor: virtude nos principes difficultosa, e nos ministros rara[13].Os temerarios, que tinham amarrado o invicto Caroxa, foram excluidos do serviço portuguez. Tomou nova tripolação e continuou a destruir os piratas. Cam-pau-sai vio constantemente frustradas, quantas diligencias fez para o tomar.Logo que amainou o tufão, partiram os nossos em procura do inimigo. Acharam reunidas as esquadras de Cam-pau-sai, e Apau-tai, nos canaes deWam-poo, em 15 de Septembro de 1809. Assim que avistaram os navios Macaenses, suspenderam, mas os nossos carregaram sobre elles. Cam-pau-sai empenhou-se no combate; fez entrar nelle os seus melhores navios: mas o fogo violento das nossas embarcações fazia-lhe tal estrago, que saindo elles do alcance da nossa artilheria, poucas ficavam em estado de entrar segunda vez no fogo. Com tudo cevados de raiva, e avidos de gloria, a fim de illudir os povos do seu partido, ainda bem uns não setinham retirado, já outros tomavam o logar vago. Não sendo o Belisario construido para guerra tão violenta, abrio com o impulso da artilheria; tornou-se incapaz de combater: retirou-se. O invito Alcoforado não podendo vencer força tão superior tambem se retirou, mas deixou em cinzas muitas embarcações inimigas.É sempre a guerra origem fecunda de calamidades, vexames, e ruinas para os povos. Appareceu na China o torbulento Cam-pau-sai, para estrago de seus moradores, e vexação dos macaenses. É evidente, que o conquistador, não é só inimigo dos povos, onde recruta; mas tambem se torna flagello do genero humano. Sim a guerra sobrecarrega os povos de impostos, e raras vezes o tumulto dos combates deixa ouvir as supplicas da justiça.[14]Os macaenses tiveram nesta occasião motivo para julgar quão forte éra o inimigo: e Cam-pau-sai a ufania de fazer retirar dois navios portuguezes.Apezar da perda que sofreu, ficou maisaltivo, e mais assolador. Exaltou o espirito dos Chinezes de modo, que se levantaram em Cantão partidos de descontentes. O Suntó prevendo a ruina, que ameaçava o Imperio, tratou com o Governo de Macáo para reforçar a esquadra portugueza, e junta com a Chineza cruzar nos mares daquellas ilhas, afim de livrar o commercio das duas cidades, e portos contiguos. O Governo macaense testimunha do vexame em que se achavam os moradores da cidade, e dos gastos que tinham feito em guerra tão dilatada, mal podia convencionar com os Chinezes,por sera emprezamuidispendiosa. Com tudo o magnanimo Arriaga, a quem nada parecia impossivel decidio o Governo macaense a tratar com o de Cantão, e fez-se a convenção seguinte:[15]O Governo das duas provincias de Cantão e Quang-si, e o de Macáo, igualmente convencidos da precisão, que tem de pôr fimás invasões dos piratas (os quaes sem temor infestam os mares, que cercam estas duas cidades) de restituirem a publica tranquillidade, e as relações commerciaes,formarãouma guarda costa, combinando a força dos dois governos: para esse fim nomearam os seus plenipotenciarios: Cantão, os mandarins de Nam-hay, Shon-key-chi, de Hiang-sam, Pom, e o da Caza branca, Chu: Macáo ao Conselheiro Arriaga, e ao Procurador do Senado, José Joaquim de Barros; os quaes depois de terem respectivamente communicado os seus plenos poderes, e discutido a materia, concluiram e ajustaram os artigos seguintes:1.º Haverá uma guarda costa, de seis navios portuguezes, conbinada com uma esquadra imperial; cruzará seis mezes, desde a bocca do tygre á cidade de Macáo, a fim de embaraçar que os piratas não entrem nos canaes, que até agora tem infestado.2.º O Governo chinez obriga-se a contribuir com oitenta mil taés para ajudar o armamento dos navios portuguezes.3.º O Governo de Macáo fará logo cruzar os dois navios, que tem armados, e apromptarácom brevidade os quatro restantes.4.º Ambos os Governos devem ajudar-se em tudo o que for a bem do cruzeiro, o qual não se estenderá além dos pontos determinados.5.º As presas seram repartidas entre os dois Governos.6.º Quando a expedição finalisar serão restituidos aos macaenses os seus antigos privilegios.7.º As partes contractantes obrigam-se a cumprir tudo quanto se estipulou nos mencionados artigos sem alterar cousa alguma, e a consideralos como ratificados em virtude de seus plenos poderes. Macáo 23 de Novembro de 1809.

Nota de editor:Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.Rita Farinha (Maio 2011)

Rita Farinha (Maio 2011)

MEMORIADOSFEITOS MACAENSESCONTRA OS PIRATAS DA CHINA:E DAENTRADA VIOLENTA DOS INGLEZESNA CIDADE DE MACÁO:AUCTORJOSÉ IGNACIO ANDRADE.SEGUNDA EDIÇÃO.LISBOA: NA TYPOGRAFIA LISBONENSE 1835.Largo de S. Roque N. 12A C. Dias.

Rien ne peut arretêr dans leurs projets nouveauxCes Portugais ardens qui volent sur les eaux,O' com bien de héros guiderent leur audace!Que de faits immortels ont signalé leur trace!

Esmenarde, C. V. pg. 26.

Do meu arco possanteHoje o famoso AndradeAlvo será: seu nome triunfanteNo porto surgirá da Eternidade.[3]

Saltando a fará só com lança e espadaDe quatro centos mouros despejada[7]

Lavremos pois, oh! Musa, á gran memoriaComargivoburil padrão sagrado:

Morda-se o tempo irado,

Que ella eterna fará a clara historiaAlma que atraz da fama immenso espaço

Corre, veja em meus hymnos

Que em vão não sua bellicoso braço.[9]

Cem paráostorreados,

Donde por boccas mil brota Mavorte;

Entre horrorosos brados

Em fogo, em fumo, em sangue envolta a morteZarguchos, flexas, que em chuveiro voam.[10]


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