—Desta vez, disse elle, vaes para a Europa; vaes cursar uma Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem serio e não para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto:—Gatuno, sim, senhor; não é outra cousa um filho que me faz isto...
Saccou da algibeira os meus titulos de divida, já resgatados por elle, e sacudiu-m'os na cara;—Vês, peralta? é assim que um moço deve zelar o nome dos seus? Pensas que eu e meus avós ganhámos o dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas juizo, ou ficas sem cousa nenhuma.
Estava furioso; mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e nada oppuz á ordem da viagem, como de outras vezes fizera; ruminava, a idéa de levar Marcella commigo. Fui ter com ella; expuz-lhe a crise e fiz-lhe a proposta. Marcella ouviu-me com os olhos no ar, sem responder logo; como insistisse, disse-me que ficava, que não podia ir para a Europa.
—Porque não?
—Não posso, disse ella com ar dolente; não posso ir respirar aquelles ares, emquanto me lembrar de meu pobre pae, morto por Napoleão...
—Qual delles: o hortelão ou o advogado?
Marcella franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes; depois queixou-se do calor, e mandou vir um copo de aluá. Trouxe-lh'o a mucama, n'uma salva de prata, que fazia parte dos meus onze contos. Marcella offereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar com a mão no copo e na salva; entornou-se-lhe o liquido no regaço, a preta deu um grito, eu bradei-lhe que se fosse embora. Ficando a sós, derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe que ella era um monstro, que jámais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios, fazendo muitos gestos descompostos. Marcella deixára-se estar sentada, a estalar as unhas nos dentes, fria como um pedaço de marmore. Tive impetos de a estrangular, de a humiliar ao menos, subjugando-a a meus pés. Ia talvez fazel-o; mas a acção trocou-se n'outra; fui eu que me atirei aos pés della, contricto e supplice; beijei-lh'os, recordei aquelles mezes da nossa felicidade solitaria, repeti-lhe os nomes queridos de outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos della, apertando-lhe muito as mãos; offegante, desvairado, pedi-lhe com lagrymas que me não desamparasse... Marcella esteve alguns instantes a olhar para mim, calados ambos, até que brandamente me desviou e, com um ar enfastiado:
—Não me aborreça, disse.
Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a alcova.—Não! bradei eu; não has de entrar... não quero... Ia a lançar-lhe as mãos: era tarde; ella entrára e fechara-se.
Sahi desatinado; gastei duas mortaes horas a vaguear pelos bairros mais excentricos e desertos, onde fosse difficil dar commigo. Ia mastigando o meu desespero, com uma especie de gula morbida; evocava os dias, as horas, os instantes de delirio, e ora me comprazia em crer que elles eram eternos, que tudo aquillo era um pesadelo, ora, enganando-me a mim mesmo, tentava rejeital-os de mim, como um fardo inutil. Então resolvia embarcar immediatamente para cortar a minha vida em duas metades, e deleitava-me com a idéa de que Marcella, sabendo da partida, ficaria ralada de saudades e remorsos. Que ella amara-me a tonta, devia de sentir alguma cousa, uma lembrança qualquer, como do alferes Duarte... Nisto, o dente do ciume enterrava-se-me no coração; e toda a natureza me bradava que era preciso levar Marcella commigo.
—Por força... por força... dizia eu ferindo o ar com uma punhada.
Emfim, tive uma idéa salvadora... Ah! trapezio dos meus peccados, trapezio das concepções abstrusas! A idéa salvadora trabalhou nelle, como a do emplasto (cap. II.). Era nada menos que fascinal-a, fascinal-a muito, deslumbral-a, arrastal-a; lembrou-me pedir-lhe por um meio mais concreto do que a supplica. Não medi as consequencias; recorri a um derradeiro emprestimo; fui á rua dos Ourives, comprei a melhor joia da cidade, tres diamantes grandes, encastoados n'um pente de marfim; corri á casa de Marcella.
Marcella estava reclinada n'uma rede, o gesto molle e cançado, uma das pernas pendentes, a ver-se-lhe o pésinho calçado de meia de seda, os cabellos soltos, derramados, o olhar quieto e somnolento.
—Vem commigo, disse eu, arranjei recursos...temos muito dinheiro, terás tudo o que quizeres...Olha, toma.
E mostrei-lhe o ponte com os diamantes. Marcella teve um leve sobresalto; a pupilla rutilou como a de um gavião faminto; ella ergueu metade do corpo, e, apoiada n'um cotovello, olhou para o pente durante alguns instantes curtos; depois retirou os olhos; tinha se dominado. Então, eu lancei-lhe as mãos aos cabellos, colligi-os, enlacei-os á pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com o pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhe as madeixas, abaixei-as do um lado, busquei alguma symetria naquella desordem, tudo com unia minuciosidade e um carinho de mãe.
—Prompto, disse eu.
—Doudo! foi a sua primeira resposta.
A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrificio com um beijo, o mais ardente de todos. Depois tirou o pente, admirou muito a materia e o lavor, olhando a espaços para mim, e abanando a cabeça, com um ar de reprehensão:
—Ora você! dizia.
—Vens commigo?
Marcella reflectiu um instante. Não gostei da expressão com que passeava os olhos de mim para a parede, e da parede para a joia; mas toda a má impressão se desvaneceu, quando ella me respondeu resolutamente:
—Vou. Quando embarcas?
—Daqui a dous ou tres dias.
—Vou.
Agradeci-lh'o de joelhos. Tinha achado a minha Marcella dos primeiros dias, e disse-lh'o; ella sorriu, e foi guardar a joia, emquanto eu descia a escada.
No fim da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns instantes para respirar, apalpar-me, convocar as idéas dispersas, rehaver-me emfim no meio de tantas sensações profundas e contrarias. Achava-me feliz. Certo é que os diamantes corrompiam-me um pouco a felicidade; mas não é menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos e os seus presentes. E depois eu confiava na minha boa Marcella; podia ter defeitos, mas amava-me...
—Um anjo! murmurei eu olhando para o tecto do corredor.
E ahi, como um escarneo, vi o olhar de Marcella, aquelle olhar que pouco antes me dera uma sombra de desconfiança, o qual chispava de cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o meu. Pobre namorado dasMil e uma noites!Vi-te alli mesmo correr atraz da mulher do vizir, ao longo da galeria, ella a acenar-te com a posse, e tu a correr, a correr, a correr, até a alameda comprida, donde sahiste á rua, onde todos os correeiros te apuparam e desancaram. Então pareceu-me que o corredor de Marcella era a alameda, e que a rua era a de Bagdad. Com effeito, olhando para a porta, vi na calçada, tres dos correeiros, um de batina, outro de libré, outro á paisana, os quaes todos tres entraram no corredor, tomaram-me pelos braços, metteram-me n'uma sege, meu pae á direita, meu tio conego á esquerda, o da libré na boléa, e lá me levaram á casa do intendente de policia, donde fui transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa. Imaginem se resisti; mas toda a resistencia era inutil.
Tres dias depois segui barra fóra, abatido e mudo. Não chorava sequer; tinha uma idéa fixa... Malditas idéas fixas! A dessa occasião era dar um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcella.
Eramos onze passageiros, um homem doudo, acompanhado pela mulher, dous rapazes que iam a passeio, quatro commerciantes e dous criados. Meu pae recommendou-me a todos, começando pelo capitão do navio, que aliás tinha muito que cuidar de si, porque, além do mais, levava a mulher tisica em ultimo gráu.
Não sei se o capitão suspeitou alguma cousa do meu funebre projecto, ou se meu pae o poz de sobreaviso; sei que não me tirava os olhos de cima; chamava-me para toda a parte. Quando não podia estar commigo, levava-me para a mulher. A mulher ia quasi sempre n'uma camilha raza, a tossir muito, e a afiançar que me havia de mostrar os arredores de Lisboa. Não estava magra, estava transparente; era impossivel que não morresse de uma hora para outra. O capitão fingia não crer na morte proxima, talvez por enganar-se a si mesmo. Eu não sabia nem pensava nada. Que me importava a mim o destino de uma mulher tisica, no meio do oceano? O mundo para mim era Marcella.
Uma noite, logo no fim do uma semana, achei ensejo propicio para morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o capitão, que junto á amurada, tinha os olhos fitos no horizonte.
—Algum temporal? disse eu.
—Não, respondeu elle estremecendo; não; admiro o explendor da noite. Veja; está celestial!
O estylo desmentia da pessoa, assaz rude e apparentemente alheia a locuções rebuscadas. Fitei-o; elle pareceu saborear o meu espanto. No fim de alguns segundos, pegou-me na mão e apontou para a lua, perguntando-me porque não fazia uma ode á noite; respondi-lhe que não era poeta. O capitão rosnou alguma cousa, deu dous passos, metteu a mão no bolso, saccou um pedaço de papel, muito amarrotado; depois, á luz de uma lanterna, leu uma ode horaciana sobre a liberdade da vida maritima. Eram versos delle.
—Que tal?
Não me lembra o que lhe disse; lembra-me que elle me apertou a mão com muita força e muitos agradecimentos; logo depois recitou-me dous sonetos; ia recitar-me outro, quando o vieram chamar da parte da mulher.—Lá vou, disse elle; e recitou-me o terceiro soneto, com pausa, com amor.
Fiquei só; mas a musa do capitão varrera-me do espirito os pensamentos máus; preferi dormir, que é modo interino de morrer. No dia seguinte, acordamos debaixo de um temporal, que metteu medo a toda a gente, menos ao doudo; esse entrou a dar pulos, a dizer que a filha o mandava buscar, n'uma berlinda; a morte de uma filha fôra a causa da loucura. Não, nunca me ha de esquecer a figura hedionda do pobre homem, no meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão, a cantarolar e a bailar, com os olhos a saltarem-lhe da cara, pallido, a coma hirsuta, descomposta. Ás vezes parava, erguia ao ar as mãos ossudas, fazia umas cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria muito, desesperadamente. A mulher não podia já cuidar delle; entregue ao terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do céu. Emfim, a tempestade amainou depois de longas horas; e confesso que foi uma diversão excellente á tempestade do meu coração. Eu, que meditava ir ter com a morte, não ousei fital-a quando ella veiu ter commigo.
Amainou o temporal, o capitão veiu perguntar-me se tivera medo, se estivera em risco, se não achára sublime o expectaculo; tudo isso com um interesse de amigo. Naturalmente a conversa versou sobre a vida do mar; o capitão perguntou-me se não gostava de idyllios piscatorios; eu respondi-lhe ingenuamente que não sabia o que era.
—Vae ver, respondeu elle.
E recitou-me um poemasinho, depois outro,—uma egloga,—e emfim cinco sonetos, com os quaes rematou nesse dia a confidencia litteraria. No dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o capitão que só por motivos graves abraçara a profissão maritima, porque a avó queria que elle fosse padre, e com effeito possuia algumas lettras latinas; não chegou a ser padre, mas não deixou de ser poeta, que era a sua vocação natural; e em prova de que tal era a sua vocação, recitou-me logo, de corpo presente, uma centena de versos. Notei um phenomeno: os ademanes que elle usava eram taes, que uma vez me fizeram rir; mas o capitão, quando recitava, de tal sorte olhava para dentro de si mesmo, que não viu nem ouviu nada.
Os dias passavam, e as aguas, e os versos, e com elles ia tambem passando a vida da mulher. Estava por pouco. Um dia, logo depois do almoço, disse-me o capitão que a enferma talvez não chegasse ao fim da semana.
—Já! exclamei.
—Passou muito mal a noite.
Fui vel-a; achei-a, na verdade, quasi moribunda, mas fallando ainda de descançar em Lisboa alguns dias, antes de ir commigo a Coimbra, porque era seu proposito levar-me á Universidade. Deixei-a consternado; fui achar o marido a olhar para as vagas, que vinham morrer na costado do navio, e tratei de o consolar; elle agradeceu-me, relatou-me a historia dos seus amores, elogiou a fidelidade e a dedicação da mulher, relembrou os versos que lhe fez, e recitou-m'os. Neste ponto vieram buscal-o da parte della; corremos ambos; era uma crise. Esse e o dia seguinte foram crueis; o terceiro foi o da morte; eu fugi ao expectaculo, tinha-lhe repugnancia. Meia hora depois encontrei o capitão, sentado n'um mólho de cabos, com a cabeça nas mãos; disse-lhe alguma cousa de conforto.
—Morreu como uma santa, respondeu elle; e, para que estas palavras não pudessem ser levadas á conta de fraqueza, ergueu-se logo, sacudiu a cabeça, e fitou o horizonte, com um gesto longo e profundo.—Vamos, continuou, entreguemol-a á cova que nunca mais se abre.
Effectivamente, poucas horas depois, era o cadaver lançado ao mar, com as ceremonias do costume. A tristeza murchára todos os rostos; o do viuvo trazia a expressão de um cabeço rijamente lascado pelo raio. Grande silencio. A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo, fechou-se,—uma leve ruga,—e a galera foi andando. Eu deixei-me estar alguns minutos, á popa, com os olhos naquelle ponto incerto do mar em que ficava um de nós... Fui dalli ter com o capitão, para distrahil-o.
—Obrigado, disse-me elle comprehendendo a intenção; creia que nunca me esquecerei dos seus bons serviços. Deus é que lh'os ha de pagar. Pobre Leocadia! tu te lembrarás de nós no céu.
Enxugou com a manga uma lagrima importuna; eu busquei um derivativo na poesia, que era a paixão delle. Fallei-lhe dos versos, que me lera, e offereci-me para imprimil-os. Os olhos do capitão animaram-se um pouco.—Talvez aceite, disse elle; mas não sei... são bem frouxos versos. Jurei-lhe que não; pedi que os reunisse e me désse antes do desembarque.
—Pobre Leocadia! murmurou elle sem responder ao pedido. Um cadaver... o mar... o céu... o navio...
No dia seguinte veiu ler-me um epicedio composto de fresco, em que estavam memoradas as circumstancias da morte e da sepultura da mulher; leu-m'o com a voz commovida devéras, e a mão tremula; no fim perguntou-me se os versos eram dignos do thesouro que perdera.
—São, disse eu.
—Não haverá estro, ponderou elle, no fim de um instante, mas ninguem me negará sentimento, se não é que o proprio sentimento prejudicou a perfeição....
—Não me parece; acho os versos perfeitos.
—Sim, eu creio que... Versos de marujo.
—De marujo poeta.
Elle levantou os hombros, olhou para o papel, e tornou a recitar a composição, mas já então sem tremuras, accentuando as intenções litterarias, dando relevo ás imagens e melodia aos versos. No fim, confessou-me que era a sua obra mais acabada, eu disse-lhe que sim; elle apertou-me muito a mão e predisse-me um grande futuro.
Um grande futuro! Em quanto esta palavra me batia no ouvido, devolvia eu os olhos, ao longe, no horizonte mysterioso e vago. Uma idéa expellia outra, a ambição desmontava Marcella. Um grande futuro? Talvez naturalista, litterato, archeologo, banqueiro, politico, ou até bispo,—bispo que fosse,—uma vez que fosse um cargo, uma preeminencia, uma grande reputação, uma posição superior. A ambição, dado que fosse aguia, quebrou nessa occasião o ovo, e desvendou a pupilla fulva e penetrante. Adeus, amores; adeus, Marcella; dias de delirio, joias sem preço, vida sem regimen, adeus. Cá me vou ás fadigas e á gloria; deixo-vos com as calcinhas da primeira edade.
E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A Universidade esperava-me com as suas materias arduas, e não sei se profundas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o gráu de bacharel; deram-m'o com a solemnidade do estylo, após os annos da lei; uma bella festa que me encheu de orgulho e de saudades,—principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião; era um academico estroina, superficial, tumultuario e petulante, dado ás aventuras, fazendo romantismo pratico e liberalismo theorico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escriptas. No dia em que a Universidade me attestou, em pergaminho, uma sciencia que eu estava longe de trazer arraigada no cerebro, confesso que me achei de de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade, dava-me a responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens do Mondego, e vim por alli fóra assaz desconsolado, mas sentindo já uns impetos, uma curiosidade, um desejo de acotovellar os outros, de influir, de gozar, de viver,—de prolongar a Universidade pela vida adeante...
Vae então, empacou o jumento em que eu vinha montado; fustiguei-o, elle deu dous corcovos, depois mais tres, emfim mais um, que me sacudiu fóra da sella, e com tal desastre, que o pé esquerdo me ficou preso no estribo; tento agarrar-me ao ventre do animal, mas já então, espantado, disparou pela estrada fóra. Digo mal: tentou disparar, e effectivamente deu dous saltos, mas um almocreve, que alli estava, acudiu atempo de lhe pegar na redea e detel-o, não sem esforço nem perigo. Dominado o bruto, desvencilhei-me do estribo e puz-me de pé.
—Olhe do que vosmecê escapou, disse o almocreve.
E era verdade; se o jumento corre por alli fóra, contundia-me devéras, e não sei se a morte não estaria no fim do desastre; cabeça partida, uma congestão, qualquer transtorno cá dentro; e lá se me ia a bacharelice em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida; era positivo; eu sentia-o no sangue que me agitava o coração. Bom almocreve! emquanto eu tornava á consciencia de mim mesmo, elle cuidava de concertar os arreios do jumento, com muito zelo e arte. Resolvi dar-lho tres moedas de ouro das cinco que trazia commigo; não porque tal fosse o preço da minha vida,—essa era inestimavel; mas por que era uma recompensa digna da dedicação com que elle me salvou. Está dito, dou-lhe as tres moedas.
—Prompto, disse elle apresentando-me a redea da cavalgadura.
—Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda não estou em mim...
—Ora qual!
—Pois não é certo que ia morrendo?
—Se o jumento corre por ahi fóra, é possivel; mas, com a ajuda do Senhor, viu vosmecê que não aconteceu nada.
Fui aos alforges, tirei um collete velho, em cujo bolso trazia as cinco moedas de ouro, e durante esse tempo cogitei se não era excessiva a gratificação, se não bastavam duas moedas. Talvez uma. Com effeito, uma moeda era bastante para lhe dar estremeções de alegria. Examinei-lhe a roupa; era um pobre diabo, que nunca jamais vira uma moeda de ouro. Portanto, uma moeda. Tirei-a, vi-a reluzir á luz do sol; não a viu o almocreve, por que eu tinha-lhe voltado as costas; mas suspeitou-o talvez, entrou a fallar ao jumento de um modo significativo; dava-lhe conselhos, dizia-lhe que tomasse juizo, que o «senhor doutor» podia castigal-o; um monologo paternal. Valha-me Deus! até ouvi estalar um beijo: era o almocreve que lhe beijava a testa.
—Olé! exclamei.
—Queira vosmecê perdoar, mas o diabo do bicho está a olhar para a gente com tanta graça...
Ri-me, hesitei, metti-lhe na mão um cruzado em prata, cavalguei o jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado, melhor direi um pouco incerto do effeito da pratinha. Mas a algumas braças de distancia, olhei para traz, o almocreve fazia-me grandes cortezias, com evidentes mostras de contentamento. Adverti que devia ser assim mesmo; eu pagara-lhe bem, pagara-lhe talvez de mais. Metti os dedos no bolso do collete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre; eram os vintens que eu devera ter dado ao almocreve, em logar do cruzado em prata. Porque, emfim, elle não levou em mira nenhuma recompensa ou virtude, cedeu a um impulso natural, ao temperamento, aos habitos do officio; accresce que a circumstancia de estar, não mais adeante nem mais atraz, mas justamente no ponto do desastre, parecia constituil-o simples instrumento de Providencia; e de um ou de outro modo, o merito do acto era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com esta reflexão, chamei-me prodigo, lancei o cruzado á conta das minhas dissipações antigas; tive (porque não direi tudo?) tive remorsos.
Jumento de uma figa, cortaste-me o fio ás reflexões. Já agora não digo o que pensei dalli até Lisboa, nem o que fiz em Lisboa, na peninsula e em outros logares da Europa, da velha Europa, que nesse tempo parecia remoçar. Não, não direi que assisti ás alvoradas do romantismo, que tambem eu fui fazer poesia effectiva no regaço da Italia; não direi cousa nenhuma. Teria de escrever um diario de viagem e não umas memorias, como estas são, nas quaes só entra a substancia da vida.
Ao cabo de alguns annos de peregrinação attendi ás supplicas de meu pae:—«Vem, dizia elle na ultima carta; se não vieres depressa, acharás tua mãe morta!» Esta ultima palavra foi para mim um golpe. Eu amava minha mãe; tinha ainda deante dos olhos as circumstancias da ultima benção que ella me dera, a bordo do navio. «Meu triste filho, nunca mais te verei», soluçava a pobre senhora apertando-me ao peito. E essas palavras resoavam-me agora, como uma prophecia realizada.
Note-se que eu estava em Veneza, ainda rescendente aos versos de lord Byron; lá estava, mergulhado em pleno sonho, revivendo o preterito, crendo-me na Serenissima Republica. É verdade; uma vez aconteceu-me perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia.—Que doge,signor mio?Cahi em mim, mas não confessei a illusão; disse-lhe que a minha pergunta era um genero de charada americana; elle mostrou comprehender, e accrescentou que gostava muito das charadas americanas. Era um locandeiro. Pois deixei tudo isso, o locandeiro, o doge, a ponte dos Suspiros, a gondola, os versos do lord, as damas do Rialto, deixei tudo, e disparei como uma bala na direcção do Rio de Janeiro.
Vim... Mas não; não alonguemos este capitulo. Ás vezes, esqueço-me a escrever, e a penna vae comendo papel, com grave prejuizo meu, que sou autor. Capitulos compridos quadram melhor a leitores pesadões; e nós não somos um publicoin-folio, masin-12, pouco texto, larga margem, typo elegante, córte dourado e vinhetas... principalmente vinhetas... Não, não alonguemos o capitulo.
Vim; e não nego que, ao avistar a cidade natal, tive uma sensação nova. Não era effeito da minha patria politica; era-o do logar da infancia, a rua, a torre, o chafariz da esquina, a mulher de mantilha, o preto do ganho, as cousas e scenas da meninice, buriladas na memoria. Nada menos que uma renascença. O espirito, como um passaro, não se lhe deu da corrente dos annos, arrepiou o vôo na direcção da fonte original, e foi beber da agua fresca e pura, ainda não mesclada do enxurro da vida.
Reparando bem, ha ahi um logar-commum. Outro logar-commum, tristemente commum, foi a consternação da familia. Meu pae abraçou-me com lagrimas.—Tua mãe não póde viver, disse-me elle. Com effeito, não era já o rheumatismo que a matava, era um cancro no estomago. A infeliz padecia de um modo crú, porque o cancro é indifferente ás virtudes do sujeito; quando róe, róe; roer é o seu officio. Minha irmã Sabina, já então casada com o Cotrim, andava a cair de fadiga. Pobre moça! dormia tres horas por noite, nada mais. O proprio tio João estava abatido e triste. D. Eusebia e algumas outras senhoras lá estavam tambem, não menos tristes e não menos dedicadas.
—Meu filho!
A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso allumiou o rosto da enferma, sobre o qual a morte batia a aza eterna. Era menos um rosto do que uma caveira; a belleza passára, como um dia brilhante; restavam os ossos, que não emmagrecem nunca. Mal poderia conhecel-a; havia oito ou nove annos que nos não viamos. Ajoelhado, ao pé da cama, com as mãos della entre as minhas, fiquei mudo e quieto, sem ousar fallar, porque cada palavra seria um soluço, e nós temiamos avisal-a do fim. Vão temor! Ella sabia que estava prestes a acabar; disse-m'o; verificamol-o na seguinte manhã.
Longa foi a agonia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa, fria, repisada, que me encheu de dor e estupefacção. Era a primeira vez que eu via morrer alguem. Conhecia a morte de outiva; quando muito, tinha-a visto já petrificada no rosto de algum cadaver, que acompanhei ao cemiterio, ou trazia-lhe a idéa embrulhada nas amplificações de rhetorica dos professores de cousas antigas,—a morte aleivosa de Cesar, a austera de Socrates, a orgulhosa de Catão. Mas esse duello do ser e do não ser, a morte em acção, dolorida, contrahida, convulsa, sem apparelho politico ou philosophico, a morte de uma pessoa amada, essa foi a primeira vez que a pude encarar. Não chorei; lembra-me que não chorei durante o expectaculo; tinha os olhos estupidos, a garganta presa, a consciencia boquiaberta. Que? uma creatura tão docil, tão meiga, tão santa, que nunca jamais fizera verter uma lagrima de desgosto, mãe carinhosa, esposa immaculada, era força que morresse assim, trateada, mordida pelo dente tenaz de uma doença sem misericordia? Confesso que tudo aquillo me pareceu obscuro, incongruente, insano...
Triste capitulo; passemos a outro mais alegre.
Fiquei prostrado. E comtudo era eu, nesse tempo, um fiel compendio de trivialidade e presumpção. Jamais o problema da vida e da morte me opprimira o cerebro; nunca até esse dia me debruçara sobre o abysmo do Inexplicavel; faltava-me o essencial, que é o estimulo, a vertigem...
Para lhes dizer a verdade toda, eu reflectia as opiniões de um cabelleireiro, que achei em Modena, o qual se distinguia por não as ter absolutamente. Era a flor dois cabelleireiros; por mais demorada que fosse a operação do toucado, não enfadava nunca; elle intercalava as penteadelas com muitos motes e pulhas, cheios de um pico, de um sabor... E não tinha outra philosophia. Nem eu. Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só as formulas, o vocabulario, o esqueleto. Tratei-a, como tratei o latim: embolsei tres versos de Virgilio, dous de Horacio, uma duzia de locuções moraes e politicas, para as despezas da conversação. Tratei-os como tratei a historia e a jurisprudencia. Colhi de todas as cousas a phraseologia, a casca, a ornamentação, que eram para o meu espirito, vaidoso e nu, o mesmo que, para o peito do selvagem, são as conchas do mar e os dentes de pessoa morta.
Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz á consciencia; e o melhor da obrigação é quando, á força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hypocrisia, que é um vicio hediondo. Mas, na morte, que differença! que desabafo! que liberdade! Como a gente póde sacudir fóra a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desaffeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em summa, já não ha visinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem extranhos; não ha platéa. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o territorio da morte; não digo que elle se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não ha nada tão incommensuravel como o desdem dos finados.
Ui! lá me ia a penna a escorregar para o emphatico. Sejamos simples, como era simples a vida que levei na Tijuca, durante as primeiras semanas depois da morte de minha mãe.
No setimo dia, acabada a missa funebre, travei de uma espingarda, alguns livros, roupa, charutos, um moleque,—o Prudencio da capitulo XI,—e fui metter-me n'uma velha, casa de nossa propriedade. Meu pae forcejou por me torcer a resolução, mas eu é que não podia nem queria obedecer-lhe. Sabina desejava que eu fosse morar com ella algum tempo,—duas semanas, ao menos; meu cunhado esteve a ponto de me levar á fina força. Era um bom rapaz este Cotrim; passára de estroina a circumspecto. Agora commerciava em generos de estiva, labutava de manhã até á noite, com ardor, com perseverança. De noite, sentado á janella, a encaracolar as suiças, não pensava em outra cousa. Amava a mulher e um filho, que então tinha, e que lhe morreu alguns annos depois. Diziam que era avaro.
Renunciei tudo; tinha o espirito attonito. Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hypocondria, essa flor amarella, solitaria e morbida, de um cheiro inebriante e subtil.—«Que bom que é estar triste e não dizer cousa nenhuma!»—Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a attenção, confesso que senti em mim um echo, um echo delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espirito ainda mais cabisbaixo do que a figura,—ou jururú, como dizemos das gallinhas tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação unica, uma cousa a que poderia chamar volupia do aborrecimento. Volupia do aborrecimento: decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a, e se não chegares a entendel-a, podes concluir que ignoras uma das sensações mais subtis desse mundo e daquelle tempo.
Ás vezes caçava, outras dormia, outras lia,—lia muito,—outras emfim não fazia nada; deixava-me atoar de idéa em idéa, de imaginação em imaginação, como uma borboleta vadia ou faminta; e as horas iam pingando uma a uma, o sol cahia, as sombras da noite velavam a montanha e a cidade. Ninguem me visitava; recommendei expressamente que me deixassem só. Um dia, dous dias, tres dias, uma semana inteira passada assim, sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca fóra e restituir-me ao bulicio. Com effeito, ao cabo de sete dias, estava farto da solidão; a dor applacára; o espirito já se não contentava com o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do céu. Reagia a mocidade, era preciso viver. Metti no bahú o problema da vida e da morte, os hypocondriacos do poeta, as camisas, as meditações, as gravatas, e ia fechal-o, quando o moleque Prudencio me disse que uma pessoa do meu conhecimento se mudára na vespera para uma casa roxa, situada a duzentos passos da nossa.
—Quem?
—Nhonhô talvez não se lembre mais de D. Eusebia...
—Lembra-me... É ella?
—Ella e a filha. Vieram hontem de manhã.
Occorreu-me logo o episodio de 1814, e senti-me vexado; mas adverti que os acontecimentos tinham-me dado razão. Na verdade, fôra impossivel evitar as relações intimas do Villaça com a irmã do sargento-mór; antes mesmo do meu embarque, já se boquejava mysteriosamente no nascimento de uma menina. Meu tio João mandou-me dizer depois que o Villaça, ao morrer, deixara um bom legado a D. Eusebia, cousa que deu muito que fallar em todo o bairro. O proprio tio João, guloso de escandalos, não tratou de outro assumpto na carta, aliás de muitas folhas. Tinham-me dado razão os acontecimentos. Ainda porém que m'a não dessem, 1814 lá ia longe, e, com elle, a travessura, e o Villaça, e o beijo da moita; finalmente, nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ella. Fiz commigo essa reflexão e acabei de fechar o bahú.
—Nhonhô não vae visitar sinhá D. Eusebia? perguntou-me o Prudencio. Foi ella quem vestiu o corpo da minha defunta senhora.
Lembrei-me que a vira, entre outras senhoras, por occasião da morte e do enterro; ignorava porém que ella houvesse prestado a minha mãe esse derradeiro obsequio. A ponderação do moleque era razoavel; eu devia-lhe uma visita; determinei fazel-a immediatamente, e descer.
Subito ouço uma voz:—Olá, meu rapaz, isto não é vida! Era meu pae, que chegava com duas propostas na algibeira. Sentei-me no bahú e recebi-o sem alvoroço. Elle esteve alguns instantes de pé, a olhar para mim; depois estendeu-me a mão com um gesto commovido:
—Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.
—Já me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a mão.
Não tinha almoçado; almoçámos juntos. Nenhum de nós alludiu ao triste motivo da minha reclusão. Uma só vez fallámos nisso, de passagem, quando meu pae fez recahir a conversa na Regencia; foi então que alludiu á carta de pezames que um dos Regentes lhe mandara. Trazia a carta comsigo, já bastante amarrotada, talvez por havel-a lido a muitas outras pessoas. Creio haver dito que era de um dos Regentes. Leu-m'a duas vezes.
—Já lhe fui agradecer este signal de consideração, concluiu meu pae, e acho que deves ir tambem...
—Eu?
—Tu; é um homem notavel, faz hoje as vezes de Imperador. Demais trago commigo uma idéa, um projecto, ou... sim, digo-te tudo; trago dous projectos, um logar de deputado e um casamento.
Meu pae disse isto com pausa, e não no mesmo tom, mas dando ás palavras um geito e disposição, cujo fim era caval-as mais profundamente no meu espirito. A proposta, porém, desdizia tanto das minhas sensações ultimas, que eu cheguei a não entendel-a bem. Meu pae não fraqueou e repetiu-a; encareceu o logar e a noiva.
—Aceitas?
—Não entendo de politica, disse eu depois de um instante; quanto á noiva... deixe-me viver como um urso, que sou.
—Mas os ursos casam-se, replicou elle.
—Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa-Maior.
Riu-se meu pae, e depois de rir, tornou a fallar serio. Era-me necessaria a carreira politica, dizia elle, por vinte e tantas razões, que deduziu com singular volubilidade, illustrando-as com exemplos de pessoas do nosso conhecimento. Quanto á noiva, bastava que eu a visse; se a visse, iria logo pedil-a ao pae, logo, sem demora de um dia. Experimentou assim a fascinação, depois a persuasão, depois a intimação; eu não dava resposta, afiava a ponta de um palito ou fazia bolas de miolo de pão, a sorrir ou a reflectir; e, para tudo dizer, nem docil nem rebelde á proposta. Sentia-me aturdido. Uma parte de mim mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa e uma posição politica eram bens dignos de apreço; outra dizia que não; e a morte de minha mãe me apparecia como um exemplo da fragilidade das cousas, das affeições, da familia...
—Não vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pae. De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as syllabas com o dedo.
Bebeu o ultimo gole de café; repotreou-se, e entrou a fallar de tudo, do senado, da camara, da Regencia, da restauração, do Evaristo, de um coche que pretendia comprar, da nossa casa de Matta-cavallos... Eu deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente n'um pedaço de papel, com uma ponta de lapis; traçava uma palavra, uma phrase, um verso, um nariz, um triangulo, e repetia-os muitas vezes, sem ordem, ao acaso, assim:
arma virumque canoAArma virumque canoarma virumque canoarma virumquearma virumque canovirumque
Machinalmente tudo isto; e, não obstante, havia certa logica, certa deducção; por exemplo, foi ovirumqueque me fez chegar ao nome do proprio poeta, por causa da primeira syllaba; ia a escrevervirumque—e sae-meVirgilio, então continuei:
Vir VirgilioVirgilio VirgilioVirgilioVirgilio
Meu pae, um pouco despeitado com aquella indifferença, ergueu-se, veiu a mim, lançou os olhos ao papel...
—Virgilio! exclamou. És tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente Virgilia.
Virgilia? Mas então era a mesma senhora que alguns annos depois...? A mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus ultimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas mais intimas sensações. Naquelle tempo contava apenas uns quinze ou dezeseis annos, e era talvez a mais atrevida creatura da nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a primazia da belleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos ás sardas e espinhas; mas tambem não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha; não. Era bonita, fresca, sahia das mãos da natureza, cheia daquelle feitiço, precario e eterno, que o individuo passa a outro individuo, para os fins secretos da creação. Era isto Virgilia, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de uns impetos mysteriosos; muita preguiça e alguma devoção,—devoção, ou talvez medo; creio que medo.
Ahi tem o leitor, em poucas linhas, o retrato physico e moral da pessoa que devia influir mais tarde na minha vida; era aquillo com dezeseis annos. Tu que me lês, se ainda fores viva, quando estas paginas vierem á luz,—tu que me lês, Virgilia amada, não reparas na differença entre a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Crê que era tão sincero então como agora; a morte não me tornou rabujento, nem injusto.
—Mas, dirás tu, se você não guardou na retina da memoria a imagem do que fui, como é que póde assim discernir a verdade daquelle tempo, e exprimil-a depois de tantos annos?
Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos affectos. Deixa lá dizer o Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida tambem, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.
—Virgilia? interrompi eu.
—Sim, senhor; é o nome da noiva. Um anjo, meu pateta, um anjo sem azas. Imagina uma moça assim, desta altura, viva como um azougue, e uns olhos... filha do Dutra...
—Que Dutra?
—O Conselheiro Dutra; não conheces; uma influencia politica. Vamos lá; aceitas?
Não respondi logo; fitei por alguns segundos a ponta do botim; declarei depois que estava disposto a examinar as duas cousas, a candidatura e o casamento, comtanto que...
—Comtanto que?
—Comtanto que não fique obrigado a aceitar as duas; creio que posso ser separadamente homem casado ou homem publico...
—Todo o homem publico deve ser casado, interrompeu sentenciosamente meu pae. Mas seja como queres; estou por tudo; fico certo de que a vista fará fé. Demais, a noiva e o casamento são a mesma cousa... isto é, não... saberás depois... Vá; aceito a dilação, comtanto que...
—Comtanto que?.. interrompi eu imitando-lhe a voz.
—Ah! brejeiro! Comtanto que não te deixes ficar ahi inutil, obscuro, e triste; não gastei dinheiro, cuidados, empenhos, para te não ver brilhar, como deves, e te convem, e a todos nós; é preciso continuar o nosso nome, continual-o e illustral-o ainda mais. Olha, estou com sessenta annos, mas se fosse necessario começar vida nova, começava-a sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Braz; foge do que é infimo. Olha que os homens valem por differentes modos, e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens. Não estragues as vantagens da tua posição, os teus meios...
E foi por deante o magico, a agitar deante de mim um chocalho, como me faziam, em pequeno, para eu andar depressa, e a flor da hypocondria recolheu-se ao botão para deixar a outra flor menos amarella, e nada morbida,—o amor da nomeada, o emplasto Braz Cubas.
Vencera meu pae; dispuz-me a aceitar o diploma e o casamento, Virgilia e a camara dos deputados.—As duas Virgilias, disse elle n'um assomo de ternura politica. Aceitei-os; meu pae deu-me dous fortes abraços. Era o seu proprio sangue que elle, emfim, reconhecia. Rigorosamente, o filho delle acabava de desembarcar naquelle instante, de rodaque de linho e mãos nos bolsos. Havia então nos olhos de meu pae alguma cousa do velho Cid; era a alma que colligira n'uma só flamma todas as ultimas scentelhas.
—Desces commigo?
—Desço amanhã. Vou fazer primeiramente uma visita a D. Eusebia...
Meu pae torceu o nariz, mas não disse nada; despediu-se e desceu. Eu, na tarde desse mesmo dia, fui visitar D. Eusebia. Achei-a a reprehender um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir fallar-me, com um alvoroço, um prazer tão sincero, que me desacanhou logo. Creio que chegou a cingir-me com o seu par de braços robustos. Fez-me sentar ao pé de si, na varanda, entre muitas exclamações de contentamento:
—Ora, o Brázinho! Um homem! Quem diria, ha annos... Um homemzarrão! E bonito! Qual! Você não se lembra bem de mim...
Disse-lhe que sim, que não era possivel esquecer uma amiga tão familiar de nossa casa. D. Eusebia começou a fallar de minha mãe, com muitas saudades, com tantas saudades, que me captivou logo, posto me entristecesse. Ella percebeu-o nos meus olhos, e torceu a rédea á conversação; pediu-me que lhe contasse a viagem, os estudos, os namoros... Sim, os namoros tambem; confessou-me que era uma velha patusca. Nisto recordei-me do episodio de 1814, ella, o Villaça, a moita, o beijo, o meu grito; e estando a recordal-o, ouço um ranger de porta, um farfalhar de saias e esta palavra:
—Mamãe... mamãe...
A voz e as saias pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve á porta, alguns instantes, ao ver gente extranha. Silencio curto e constrangido. D. Eusebia quebrou-o, enfim, com resolução e franqueza:
—Vem cá, Eugenia, disse ella, comprimenta o Dr. Braz Cubas, filho do Sr. Cubas; veiu da Europa.
E voltando-se para mim:
—Minha filha Eugenia.
Eugenia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortezia que lhe fiz; olhou-me admirada e acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira da mãe. A mãe arranjou-lhe uma das tranças do cabello, cuja ponta se desmanchara.—Ah! travessa! dizia. Não imagina, doutor, o que isto é... E beijou-a com tão expansiva ternura que me commoveu um pouco; lembrou-me minha mãe, e,—direi tudo,—tive umas cocegas de ser pae.
—Travêssa? disse eu. Pois já não está em edade propria, ao que parece.
—Quantos lhe dá?
—Dezesete.
—Menos um.
—Dezeseis. Pois então! é uma moça.
Não pôde Eugenia encobrir a satisfação que sentia com esta minha palavra, mas emendou-se logo, e ficou como d'antes, erecta, fria e muda. Na verdade, ella parecia ainda mais mulher do que era; seria criança nos seus folgares de moça; mas assim quieta, impassivel, tinha a compostura da mulher casada. Talvez essa circumstancia lhe diminuia um pouco da graça virginal. Depressa nos familiarisámos; a mãe fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra; e ella sorria, com os olhos fulgidos, como se lá dentro do cerebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de azas de ouro e olhos de diamante...
Digo lá dentro, porque cá fóra o que esvoaçou foi uma borboleta preta, que subitamente penetrou na varanda, e começou a bater as azas em derredor de D. Eusebia. D. Eusebia deu um grito, levantou-se, praguejou umas palavras soltas:—T'esconjuro!... sáe, diabo!... Virgem Nossa Senhora!...
—Não tenha medo, disse eu; e, tirando o lenço, expelli a borboleta. D. Eusebia sentou-se outra vez, offegante, um pouco envergonhada; a filha, pode ser que pallida de medo, dissimulava a impressão com muita força de vontade. Apertei-lhes a mão e saí, a rir commigo da superstição das duas mulheres, um rir philosophico, desinteressado, superior. De tarde, vi passar a cavallo a filha de D. Eusebia, seguida de um pagem; fez-me um comprimento com a ponta do chicote; e confesso que me lisongeei com a idéa de que, alguns passos adeante, ella voltaria a cabeça para traz; mas não voltou.
No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ella. Lembrou-me o caso da vespera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de D. Eusebia, no susto que tivera, e na dignidade que, apezar delle, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ella foi pousar na vidraça; e, porque eu a sacudisse de novo, saíu dalli e veiu parar em cima de um velho retrato de meu pae. Era negra como a noite; e o gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as azas, tinha um certo ar escarninho, uma especie de ironia mephistophelica, que me aborreceu muito. Dei de hombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo logar, senti um repellão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ella caíu.
Não caíu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depol-a no peitoril da janella. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incommodado.
—Tambem porque diabo não era ella azul? disse eu commigo.
E esta reflexão,—uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas,—me consolou do maleficio, e me reconciliou commigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadaver, com alguma sympathia, confesso. Imaginei que ella saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veiu por alli fóra, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices sob a vasta cupula de um céo azul, que é sempre azul, para todas as azas. Passa pela minha janella, entra e dá commigo. Supponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura collossal. Então disse comsigo: «Este é provavelmente o inventor das borboletas.» A idéa subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é tambem suggestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu creador era beijal-o na testa; e ella beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dalli o retrato de meu pae, e não é impossivel que descobrisse meia verdade, a saber, que estava alli o pae do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericordia.
Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a immensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dous palmos de linho crú. Vejam como é bom ser superior ás borboletas! Porque, é justo dizel-o, se ella fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossivel que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta ultima idéa restituiu-me a consolação, uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadaver caiu no jardim. Era tempo; ahi vinham já as providas formigas... Não, volto á primeira idéa; creio que para ella era melhor ter nascido azul.
Fui dalli acabar os preparativos da viagem. Já agora não me demoro mais. Desço immediatamente; desço ainda que algum leitor circumspecto me detenha para perguntar se o capitulo passado é apenas uma sensaboria ou se chega a empulhação... Ai de mim! Não contava com D. Eusebia. Estava prompto, quando me entrou por casa. Vinha convidar-me para transferir a descida, e ir lá jantar nesse dia. Cheguei a recusar; mas instou tanto, tanto, tanto, que não pude deixar de aceitar; demais, era-lhe devida aquella compensação; fui.
Eugenia desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que foi por minha causa,—se é que não andava muita vez assim. Nem as bichas de ouro, que trazia na vespera, lhe pendiam agora das orelhas, duas orelhas finamente recortadas n'uma cabeça de nympha. Um simples vestido branco, de cassa, sem enfeites, tendo ao collo, em vez de broche, um botão de madreperola, e outro botão nos punhos, fechando as mangas, e nem sombra de pulseira.
Era isso no corpo; não era outra cousa no espirito. Idéas claras, maneiras chãs, certa graça natural, um ar de senhora, e não sei se alguma outra cousa; sim, a boca, exactamente a boca da mãe, a qual me lembrava o episodio de 1814, e então dava-me impetos de glosar o mesmo mote á filha...
—Agora vou mostrar-lhe a chacara, disse a mãe, logo que exgotámos o ultimo gole de café.
Saímos á varanda, dalli á chacara; e foi então que notei uma circumstancia. Eugenia coxeava um pouco, tão pouco, que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o pé. A mãe calou-se; a filha respondeu sem titubear:
—Não, senhor, sou coxa de nascença.
Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseirão. Com effeito, a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe não perguntar nada. Então lembrou-me que da primeira vez que a vi na vespera—a moça chegára-se lentamente á cadeira da mãe, e que naquelle dia já a achei á mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito; mas por que razão o confessava agora? Olhei para ella e reparei que ia triste.
Tratei de apagar os vestigios de meu desaso;—não me foi difficil, por que a mãe era, segundo confessára, uma velha patusca, e promptamente travou de conversa commigo. Vimos toda a chacara, arvores, flores, tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de cousas, que ella me ia mostrando, e commentando, ao passo que eu, de soslaio, perscrutava os olhos de Eugenia...
Palavra que o olhar de Eugenia não era coxo, mas direito, perfeitamente são; vinha de uns olhos pretos e tranquillos. Creio que duas ou tres vezes baixaram elles a terra, um pouco turvados; mas duas ou tres vezes sómente; em geral, fitavam-me com franqueza, sem temeridade, nem biocos.
O peor é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é ás vezes um immenso escarneo. Porque bonita, se coxa? porque coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite; e não atinava com a solução do enigma. O melhor que ha, quando se não resolve um enigma, é sacudil-o pela janella fóra; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava no cerebro. Fiquei alliviado e fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do espirito, deixou novamente entrar o bichinho, e ahi fiquei eu a noite toda a cavar o mysterio, sem explical-o.
Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia, a manhã era limpida e azul, e apezar disso deixei-me ficar, não menos que no terceiro dia, e no quarto, até o fim da semana. Manhãs bonitas, frescas, convidativas; lá em baixo a familia a chamar-me, e a noiva, e o parlamento, e eu sem acudir a cousa nenhuma, enlevado ao pé da minha Venus Manca. Enlevado é uma maneira de realçar o estylo; não havia enlevo, mas gosto, uma certa satisfação physica e moral. Queria-lhe, é verdade; ao pé dessa creatura tão singela, filha espuria e coxa, feita de amor e desprezo, ao pé della sentia-me bem, e ella creio que ainda se sentia melhor ao pé de mim. E isto na Tijuca. Uma simples egloga. D. Eusebia vigiava-nos, mas pouco; temperava a necessidade com a conveniencia; e a filha, nessa primeira explosão da natureza, entregava-me a alma em flôr.
—O senhor desce amanhã? disse-me ella no sabbado.
—Pretendo.
—Não desça.
Não desci; e accrescentei um versiculo ao Evangelho:—Bemaventurados os que não descem, porque delles é o primeiro beijo das damas. Com effeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugenia,—o primeiro que nenhum outro varão jámais lhe tomára, e não furtado ou arrebatado, mas candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma divida. Pobre Eugenia! Se tu soubesses que idéas me vagavam pela mente fóra n'aquella occasião! Tu, tremula de commoção, com os braços nos meus hombros, a contemplar em mim o teu bemvindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na moita, no Villaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, á tua origem...
D. Eusebia entrou inesperadamente, mas não tão subita, que nos apanhasse ao pé um do outro. Eu fui até á janella: Eugenia sentou-se a concertar uma das tranças. Que dissimulação graciosa! que arte infinita e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural vivo, não estudado, natural como o appetite, natural como o somno. Tanto melhor! D. Eusebia não suspeitou nada.
Ha ahi, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, ha ahi uma alma sensivel, que está de certo um pouquito agastada com o capitulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugenia, e talvez... sim, talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cynico. Eu cynico, alma sensivel? Pela coxa de Diana! esta injuria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma cousa nesse mundo. Não, alma sensivel, eu não sou cynico, eu fui homem; meu cerebro foi um tablado em que se deram peças de todo o genero, o drama sacro, o austero, o piegas, a comedia louçã, a desgrenhada farça, os autos, as bufonerias, um pandemonium, alma sensivel, uma barafunda de cousas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa de Smyrna até a arruda do teu quintal, desde o magnifico leito de Cleopatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu somno. Cruzavam-se nelle pensamentos de varia casta e feição. Não havia alli a atmosphera sómente da aguia e do beija-flor, havia tambem a da lesma e do sapo. Retira, pois, a expressão, alma sensivel, castiga os nervos, limpa os oculos,—que isso ás vezes é dos oculos,—e acabemos de uma vez com esta flor da moita.
Ora aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho de Damasco, ouvi uma voz mysteriosa, que me sussurrou as palavras da Escriptura (Act., IX, 7): «Levanta-te, e entra na cidade.» Essa voz saia de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar devéras, e desposal-a. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não ha duvidar que ella o achou e m'o disse. Foi na varanda, na tarde de uma segunda-feira, ao annunciar-lhe que na seguinte manhã viria para baixo.—Adeus, suspirou ella estendendo-me a mão com simplicidade; faz bem.—E como eu nada dissesse, continuou:—Faz bem em fugir ao ridiculo de casar commigo. Ia dizer-lhe que não; ella retirou-se lentamente, engolindo as lagrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por todos os santos do ceu que eu era obrigado a descer, mas que não deixava de lhe querer e muito; tudo hyperboles frias, que ella escutou sem dizer nada.
—Acredita-me? perguntei eu no fim.
—Não; e digo-lhe que faz bem.
Quiz retel-a, mas o olhar que me lançou não foi já de supplica, senão de imperio. Eu desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito; e vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pae, que era conveniente abraçar a carreira politica... que a constituição... que a minha noiva... que o meu cavallo...
Meu pae, que me não esperava, abraçou-me cheio de ternura e agradecimento.—Agora é devéras? disse elle. Posso emfim....?
Deixei-o nessa reticencia, e fui descalçar as botas, que estavam apertadas. Uma vez alliviado, respirei á larga, e deitei-me a fio comprido, emquanto os pés, e todo eu atraz delles, entravamos n'uma relativa bem-aventurança. Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os depois, e ahi tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro. Emquanto esta idéa me trabalhava no famoso trapezio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha perder-se no horizonte do preterito, e sentia que o meu coração não tardaria tambem a descalçar as suas botas. E descalçou-as o lascivo. Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rapido, ineffavel e incoercivel momento de gozo, que succede a uma dôr pungente, a uma preoccupação, a um incommodo... Daqui inferi eu que a vida é o mais engenhoso dos phenomenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar a occasião de comer, e não inventou os callos, senão porque elles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas.
Tu, minha Eugenia, é que não as descalçaste nunca; foste ahi pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitaria, calada, laboriosa, até que vieste tambem para esta outra margem... O que eu não sei é se a tua existencia era muito necessaria ao seculo. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragedia humana.
Emfim! eis aqui Virgilia. Antes de ir á casa do Conselheiro Dutra, perguntei a meu pae se havia algum ajuste prévio de casamento.
—Nenhum ajuste. Ha tempos, conversando com elle a teu respeito, confessei-lhe o desejo que tinha de te ver deputado; e de tal modo fallei, que elle prometteu fazer alguma cousa, e creio que o fará. Quanto á noiva, é o nome que dou a uma creaturinha, que é uma joia, uma flôr, uma estrella, uma cousa rara... é a filha delle; imaginei que, se casasses com ella, mais depressa serias deputado.
—Só isto?
—Só isto.
Fomos dalli á casa do Dutra. Era uma perola esse homem, risonho, jovial, patriota, um pouco irritado com os males publicos, mas não desesperando de os curar depressa. Achou que a minha candidatura era legitima; convinha, porém, esperar alguns mezes. E logo me apresentou á mulher,—uma estimavel senhora,—e á filha, que não desmentiu em nada o panegyrico de meu pae. Juro-vos que em nada. Relêde o Cap. XXVIII. Eu, que levava idéas a respeito da pequena, fitei-a de certo modo; ella, que não sei se as tinha, não me fitou de modo differente; e o nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal. No fim de um mez estavamos intimos.
—Venha cá jantar amanhã, disse-me o Dutra uma noite.
Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no largo de S. Francisco de Paula, e fui dar varias voltas. Lembra-vos ainda a minha theoria das edições humanas? Pois sabei que, naquelle tempo, estava eu na quarta edição, revista e emendada, mas ainda inçada de descuidos e barbarismos; defeito que, aliás, achava alguma compensação no typo, que era elegante, e na encadernação, que era luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela rua dos Ourives, consulto o relogio e cáe-me o vidro na calçada. Entro na primeira loja que tinha á mão; era um cubiculo,—pouco mais,—empoeirado e escuro.
Ao fundo, por traz do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto amarello e bexiguento não se destacava logo, á primeira vista; mas logo que se destacava era um expectaculo curioso. Não podia ter sido feia; ao contrario, via-se que fora bonita, e não pouco bonita; mas a doença e uma velhice precoce, destruiram-lhe a flor das graças. As bexigas tinham sido terriveis; os signaes, grandes e muitos, faziam saliencias e encarnas, declives e acclives; e davam uma sensação de lixa grossa, enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás tinham uma expressão singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo que eu comecei a fallar. Quanto ao cabello, penteado ao desdem, estava ruço e quasi tão poento como os portaes do loja. N'um dos dedos da mão esquerda fulgia-lhe um diamante. Crel-o-heis, posteros? essa mulher era Marcella.
Não a conheci logo; era difficil; ella porém conheceu-me apenas lhe dirigi a palavra. Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um movimento como para esconder-se ou fugir; era o instincto da vaidade, que não durou mais de um instante. Marcella accommodou-se e sorriu.
—Quer comprar alguma cousa? disse ella estendendo-me a mão.
Não respondi nada; Marcella comprehendeu a causa do meu silencio (não era difficil), e só hesitou, creio eu, em decidir o que dominava mais, se o assombro do presente, se a memoria do passado. Deu-me uma cadeira, e, com o balcão permeio, fallou-me longamente de si, da vida que levára, das lagrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos desastres, emfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do tempo, que ajudou a molestia, adiantando-lhe a decadencia. Verdade é que tinha a alma decrepita. Vendera tudo, quasi tudo; um homem, que a amára outr'ora, e lhe morreu nos braços, deixara-lhe aquella loja de ourivesaria, mas, para que a desgraça fosse completa, era agora pouco buscada a loja—talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher. Em seguida pediu-me que lhe contasse a minha vida. Gastei pouco tempo em dizer-ll'a; não era longa, nem interessante.
—Casou? disse Marcella no fim de minha narração.
—Ainda não, respondi seccamente.
Marcella lançou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflecte ou relembra; eu deixei-me ir então ao passado, e, no meio das recordações e saudades, perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto desatino. Não era esta certamente a Marcella de 1822; mas a belleza de outro tempo valia uma terça parte dos meus sacrificios? Era o que eu buscava saber, interrogando o rosto de Marcella. O rosto dizia-me que não; ao mesmo tempo os olhos me contavam que, já outr'ora, como hoje, ardia nelles a flamma da cobiça. Os meus é que não souberam ver-lh'a; eram olhos da primeira edição.
—Mas por que entrou aqui? viu-me da rua? porguntou ella, saindo daquella especie de torpor.
—Não, suppunha entrar n'uma casa de relojoeiro; queria comprar um vidro para este relogio; vou a outra parte; desculpe-me; tenho pressa.
Marcella suspirou com tristeza. A verdade é que eu me sentia pungido e aborrecido, ao mesmo tempo, e anciava por me ver fóra daquella casa. Marcella, entretanto, chamou um moleque, deu-lhe o relogio, e, apezar da minha opposição, mandou-o, a uma loja na visinhança, comprar o vidro. Não havia remedio; sentei-me outra vez. Disse ella então que desejava ter a protecção dos conhecidos de outro tempo; ponderou que mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse, e afiançou que me daria finas joias por preços baratos. Não dissepreços baratos, mas usou uma metaphora delicada e transparente. Entrei a desconfiar que não padecera nenhum desastre (salvo a molestia), que tinha o dinheiro a bom recado, e que negociava com o unico fim de acudir á paixão do lucro, que era o verme roedor daquella existencia; foi isso mesmo que me disseram depois.
Emquanto eu fazia commigo mesmo aquella reflexão, entrou na loja um sujeito baixo, sem chapeu, trazendo pela mão uma menina de quatro annos.
—Como passou de hoje de manhã? disse elle a Marcella.
—Assim, assim. Vem cá, Maricota.
O sujeito levantou a criança pelos braços e passou-a para dentro do balcão.
—Anda, disse elle; pergunta a D. Marcella como passou a noite. Estava anciosa por vir cá, mas a mãe não tinha podido vestil-a... Então, Maricota? Toma a benção. .. Olha a vara de marmelo! Assim... Não imagina o que ella é lá em casa; falla na senhora a todos os instantes, e aqui parece uma pamonha. Ainda hontem... Digo, Maricota?
—Não, diga, não, papae.
—Então foi alguma cousa feia? perguntou Marcella batendo na cara da menina.
—Eu lhe digo; a mãe ensina-lhe a rezar todas as noites um padre-nosso e uma ave-maria, offerecidos a Nossa Senhora; mas a pequena hontem veiu pedir-me com voz muito humilde... imagine o que?... que queria offerecel-os a Santa Marcella.
—Coitadinha! disse Marcella beijando-a.
—É um namoro, uma paixão, como a senhora não imagina ... A mãe diz que é feitiço...
Contou mais algumas cousas o sujeito, todas mui agradaveis, até que saíu levando a menina, não sem deitar-me um olhar interrogativo ou suspeitoso. Perguntei a Marcella quem era elle.
—É um relojoeiro de visinhança, um bom homem; a mulher tambem; e a filha é galante, não? Parecem gostar muito de mim... é boa gente.
Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de Marcella; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura...
Nisto entrou o moleque trazendo o relogio com o vidro novo. Era tempo; já me custava estar alli; dei uma moedinha de prata ao moleque; disse a Marcella que voltaria n'outra occasião, e saí a passo largo. Para dizer tudo, devo confessar que o coração me batia um pouco; mas era uma especie de dobre de finados. O espirito ia travado de impressões oppostas. Notem que aquelle dia amanhecera alegre para mim. Meu pae, ao almoço, repetiu-me, por anticipação, o primeiro discurso que eu tinha de proferir na camara dos deputados; rimo-nos muito, e o sol tambem, que estava brilhante, como nos mais bellos dias do mundo; do mesmo modo que Virgilia devia rir, quando eu lhe contasse as nossas fantasias do almoço. Vae se não quando, cáe-me o vidro do relogio; entro na primeira loja que me fica á mão; e eis me surge o passado, eil-o que me lacera e beija; eil-o que me interroga, com um rosto cortado de saudades e bexigas...
Lá o deixei; metti-me ás pressas na sege, que me esperava no largo do S. Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas ruas fóra. O boleeiro atiçou as bestas, a sege entrou a sacolejar-me, as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara a chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. Não ha, ás vezes, um certo vento, morno que não bochorno, não forte nem aspero, mas abafadiço, que nos não leva o chapéo da cabeça, nem rodomoinha nas saias das mulheres, e todavia é ou parece ser peior do que se fizesse uma e outra cousa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os espiritos? Pois eu tinha esse vento commigo; e, certo de que elle me soprava por achar-me naquella especie de garganta entre o passado e o presente, almejava por saír á planicie do futuro. O peior é que a sege não andava.
—João, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou não anda?
—Uê! nhonhô! Já estamos parados na porta de sinhô Conselheiro.
E era verdade. Entrei apressado; achei Virgilia anciosa, mau humor, fronte nublada. A mãe, que era surda, estava na sala com ella. No fim dos comprimentos disse-me a moça com sequidão:
—Esperavamos que viesse mais cedo.
Defendi-me do melhor modo; fallei do cavallo que empacara, e de um amigo, que me detivera. De repente morre-me a voz nos labios, fico tolhido de assombro. Virgilia... seria Virgilia aquella moça? Fitei-a muito; e a sensação foi tão penosa, que recuei um passo e desviei a vista. Tornei a olhal-a. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pelle, ainda na vespera tão fina, rosada e pura, apparecia-me agora amarella, stigmada pelo mesmo flagello, que devastara o rosto da hespanhola. Os olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha o labio triste e a attitude cançada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mão, e chamei-a brandamente a mim. Não me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um gesto de repulsa.