Mas este mesmo homem, que se alegrou com a partida do outro, praticou dahi a tempos... Não, não hei de contal-o nesta pagina; fique esse capitulo para repouso do meu vexame. Uma acção grosseira, baixa, sem explicação possivel... Repito, não contarei o caso nesta pagina.
—Não, senhor doutor, isto não se faz. Perdoe-me, isto não se faz.
Tinha razão D. Placida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde ao logar em que o espera a sua dama. Entrei esbaforido; Virgilia tinha ido embora. D. Placida contou-me que ella esperára muito, que se irritara, que chorara, que jurára votar-me ao desprezo, e outras mais cousas que a nossa caseira dizia com lagrimas na voz, pedindo-me que não desamparasse Yayá, que era ser muito injusto com uma moça que me sacrificara tudo. Expliquei-lhe então que um equivoco... E não era; cuido que foi simples distracção. Um dito, uma conversa, uma anecdota, qualquer cousa; simples distracção.
Coitada de D. Placida! Estava afflicta deveras. Andava de um lado para outro, abanando a cabeça, suspirando com estrepito, espiando pela rotula. Coitada de D. Placida! Com que arte conchegava as roupas, bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor! que imaginação fertil em tornar as horas mais apraziveis e breves! Flores, doces,—os bons doces de outros dias,—e muito riso, muito affago, um riso e um affago que cresciam com o tempo, como se ella quizesse fixar a nossa aventura, ou restituir-lhe a primeira flor. Nada esquecia a nossa confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e outro referia suspiros e saudades que não presenciára; nada, nem a calumnia, porque uma vez chegou a attribuir-me uma paixão nova.—Você sabe que não posso gostar de outra mulher, foi a minha resposta, quando Virgilia me falou em semelhante cousa. E esta só palavra, sem nenhum protesto ou admoestação, dissipou o aleive-de D. Placida, que ficou triste.
—Está bem, disse-lhe eu, depois de um quarto de hora; Virgilia hade reconhecer que não tive culpa nenhuma... Quer você levar-lhe uma carta agora mesmo?
—Ella hade estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu não desejo a morte de ninguem; mas, se o senhor doutor algum dia chegar a casar com Yayá, então sim, é que hade ver o anjo que ella é!
Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão. Recommendo este gesto ás pessoas que não tiverem uma palavra prompta para responder, ou ainda ás que receiarem encarar a pupilla do outros olhos. Em taes casos, alguns preferem recitar uma oitava dosLusiadas, outros adoptam o recurso de assobiar aNorma; eu atenho-me ao gesto indicado; é mais simples, exige menos esforço.
Tres dias depois, estava tudo explicado. Supponho que Virgilia ficou um pouco admirada, quando lhe pedi desculpa das lagrimas que derramára naquella triste occasião; e não me lembra se interiormente as attribui a D. Placida. Com effeito, podia acontecer que D. Placida chorasse, ao vel-a desapontada, e, por um phenomeno da visão, as lagrimas que tinha nos proprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virgilia. Fosse como fosse, tudo estava explicado, mas não perdoado, e menos ainda esquecido. Virgilia dizia-me uma porção de cousas duras, ameaçava-me com a separação, emfim louvava o marido. Esse sim, era um homem digno, muito superior a mim, delicado, um primor de cortezia e affeição; é o que ella dizia, emquanto eu, sentado, com os braços fincados nos joelhos, olhava para o chão, onde uma mosca arrastava uma formiga que lhe mordia o pé. Pobre mosca! pobre formiga!
—Mas você não diz nada, nada? perguntou Virgilia, parando deante de mim.
—Que heide dizer? Já expliquei tudo; você teima em zangar-se; que heide dizer? Sabe o que me parece? Parece-me que você está enfastiada, que se aborrece, que quer acabar...
—Justamente!
Foi dali pôr o chapéu, com a mão tremula, raivosa...—Adeus, D. Placida, bradou ella para dentro. Depois foi até á porta, correu o fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura.—Está bom, está bom, disse-lhe. Virgilia ainda forcejou por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse, que esquecesse; ella afastou-se da porta e foi cair no canapé. Sentei-me ao pé della, disse-lhe muitas cousas meigas, outras humildes, outras graciosas. Não affirmo se os nossos labios chegaram á distancia de um fio de cambraia ou ainda menos; é matéria controversa. Lembra-me, sim, que na agitação caiu um brinco de Virgilia, que eu inclinei-me a apanhal-o, e que a mosca de ha pouco trepou ao brinco, levando sempre a formiga no pé. Então eu, com a delicadeza nativa de um homem do nosso seculo, puz na palma da mão aquelle casal de mortificados; calculei toda a distancia que ia da minha mão ao planeta Saturno, e perguntei a mim mesmo que interesse podia haver n'um episodio tão mofino. Se conclues dahi que eu era um barbaro, enganas-te, porque eu pedi um grampo a Virgilia, afim de separar os dous insectos; mas a mosca farejou a minha intenção, abriu as azas e foi-se embora. Pobre mosca! pobre formiga! E Deus viu que isto era bom, como se diz na Escriptura.
Restitui o grampo a Virgilia, que o repregou nos cabellos, e preparou-se para sair. Era tarde; tinham dado tres horas. Tudo estava esquecido e perdoado. D. Placida, que espreitava a occasião idonea para a saída, fecha subitamente a janella e exclama:
—Virgem Nossa Senhora! ahi vem o marido de Yayá!
O momento de terror foi curto, mas completo. Virgilia fez-se da cor das rendas do vestido, correu até a porta da alcova; D. Placida, que fechára a rotula, queria fechar tambem a porta de dentro; eu dispuz-me a esperar o Lobo Neves. Esse curto instante passou. Virgilia tornou a si, empurrou-me para a alcova, disse a D. Placida que voltasse á janella; a confidente obedeceu.
Era elle. D. Placida abriu-lhe a porta com muitas exclamações de pasmo:—O senhor por aqui! honrando a casa de sua velha! Entre, faça favor. Adivinhe quem está cá... Não tem que adivinhar: não veiu por outra cousa... Appareça, Yayá.
Virgilia, que estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu espreitava-os pelo buraco da fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente, pallido, frio, quieto, sem explosão, sem arrebatamento, e circulou um olhar em volta da sala.
—Que é isto? exclamou Virgilia. Você por aqui?
—Ia passando, vi D. Placida á janella, e vim comprimental-a.
—Muito obrigada, acudiu esta. E digam que as velhas não valem alguma cousa... Olhae, gentes! Yayá parece estar com ciumes. E acariciando-a muito:—Este anjinho é que nunca se esqueceu da velha Placida. Coitadinha! é mesmo a cara da mãe... Sente-se, senhor doutor...
—Não me demoro.
—Você vae para casa? disse Virgilia. Vamos juntos.
—Vou.
—Dê cá o meu chapéu, D. Placida.
—Está aqui.
D. Placida foi buscar um espelho, abriu-o deante della. Virgilia punha o chapéu, atava as fitas, arranjava os cabellos, falando ao marido, que não respondia nada. A nossa boa velha tagarellava de mais; era um modo de disfarçar as tremuras do corpo. Virgilia, dominado o primeiro instante, tornára á posse de si mesma.
—Prompta! disse ella. Adeus, D. Placida; não se esqueça de apparecer, ouviu? A outra prometteu que sim, e abriu-lhes a porta.
D. Placida fechou a porta e caiu n'uma cadeira. Eu deixei immediatamente a alcova, e dei dous passos para sair á rua, com o fim de arrancar Virgilia ao marido; foi o que disse, e em bem que o disse, porque D. Placida deteve-me por um braço. Tempo houve em que eu cheguei a suppor que não dissera aquillo senão para que ella me detivesse; mas a simples reflexão basta para mostrar que, depois dos dez minutos da alcova, o gesto mais genuino e cordial não podia ser senão esse. E isto por aquella famosa lei da equivalencia das janellas, que eu tive a satisfação de descobrir e formular, no cap. LI. Era preciso arejar a consciencia. A alcova foi uma janella fechada; eu abri outra com o gesto de sair, e respirei.
Respirei e sentei-me. D. Placida atroava a sala com exclamações e lastimas. Eu ouvia, sem lhe dizer cousa nenhuma; reflectia commigo se não era melhor ter fechado Virgilia na alcova e ficado na sala; mas adverti logo que seria peior; confirmaria a suspeita, e chegaria o fogo á polvora e uma scena de sangue... Foi muito melhor assim. Mas depois? que ia acontecer em casa de Virgilia? Matal-a-hia o marido? espancal-a-hia? encerral-a-hia? expulsal-a-hia? Estas interrogações percorriam lentamente o meu cerebro, como os pontinhos e virgulas escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados. Iam e vinham, com o seu aspecto secco e tragico, e eu não podia agarrar um dellos e dizer: és tu, tu e não outro.
De repente vejo um vulto negro; era D. Placida, que fôra dentro, enfiára a mantilha, e vinha offerecer-se-me para ir á casa do Lobo Neves. Ponderei-lhe que era arriscado, porque elle desconfiaria da visita tão proxima.
—Socegue, interrompeu ella; eu saberei arranjar as cousas. Se elle estiver em casa não entro.
Saiu; eu fiquei a ruminar o successo e as consequencias possiveis. Ao cabo, parecia-me jogar um jogo perigoso, e perguntava a mim mesmo se não era tempo de levantar e espairecer, como um parceiro dowhist.E então senti-me tomado de uma saudade do casamento, de um desejo de canalizar a vida. Porque não? Meu coração tinha ainda que explorar; não me sentia incapaz de um amor casto, severo e puro. Na verdade, as aventuras são a parte torrencial e vertiginosa da vida, isto é, a excepção; eu estava enfarado dellas; não sei até se me pungia algum remorso. Mal pensei naquillo, deixei-me ir atraz da imaginação; vi-me logo casado, ao pé de uma mulher adoravel, deante de umbaby, que dormia no regaço da ama, todos nós no fundo do uma chacara sombria e verde, a espiarmos atravez das arvores uma nesga do ceu azul, extremamente azul...
«Não houve nada, mas elle suspeita alguma cousa; está muito serio e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente, para nhonhô, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. Não me tratou mal nem bem. Não sei o que vae acontecer; Deus queira que isto passe. Muita cautela, por ora, muita cautela.»
«Não houve nada, mas elle suspeita alguma cousa; está muito serio e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente, para nhonhô, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. Não me tratou mal nem bem. Não sei o que vae acontecer; Deus queira que isto passe. Muita cautela, por ora, muita cautela.»
Eis ahi o drama, eis ahi a ponta da orelha tragica de Shakespeare. Esse retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das mãos, era um documento de analyse, que eu não farei neste capitulo, nem no outro, nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza, a perspicacia e o animo dessas poucas linhas traçadas á pressa; e por traz dellas a tempestade de outro cerebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita, por que tem de resolver-se na lama, ou no sangue, ou nas lagrymas?
Quanto a mim, se vos disser que li o bilhete tres ou quatro vezes, naquelle dia, accreditai-o, que é verdade; se vos disser mais que o reli no dia seguinte, antes e depois do almoço, podeis crel-o, é a realidade pura. Mas se vos disser a commoção que tive, duvidai um pouco da asserção, e não a acceiteis sem provas. Nem então, nem ainda agora cheguei a discernir o que experimentei. Era medo, e não era medo; era dó e não era dó; era vaidade e não era vaidade; emfim, era amor sem amor, isto é, sem delirio; e tudo isso dava uma combinação assás complexa e vaga, uma cousa que não podereis entender, como eu não entendi. Supponhamos que não disse nada.
Sabido que reli a carta, antes e depois do almoço, sabido fica que almocei, e só resta dizer que essa refeição foi das mais parcas da minha vida: um ovo, uma fatia de pão, uma chicara de chá. Não me esqueceu esta circumstancia minima; no meio de tanta cousa importante obliterada escapou esse almoço. A razão principal poderia ser justamente o meu desastre; mas não foi; a principal razão foi a reflexão que me fez o Quincas Borba, cuja visita recebi naquelle dia. Disse-me elle que a frugalidade não era necessaria para entender o Humanitismo, é menos ainda pratical-o; que esta philosophia acommodava-se facilmente com os prazeres da vida, inclusive a mesa, o espectaculo e os amores; e que, ao contrario, a frugalidade podia indicar certa tendencia para o ascetismo, o qual era a expressão acabada da tolice humana.
—Veja S. João, continuou elle; mantinha-se de gafanhotos, no deserto, em vez de engordar tranquillamente na cidade, e fazer emmagrecer o pharisaismo na synagoga.
Deus me livre de contar a historia do Quincas Borba, que aliás ouvi toda naquella triste occasião, uma historia longa, complicada, mas interessante. E se não conto a historia, dispenso-me outrosim de descrever-lhe a figura, aliás mui diversa da que me appareceu no Passeio Publico. Calo-me; digo somente que se o principal caracteristico do homem não são as feições, mas o vestuario, elle não era o Quincas Borba; era um desembargador sem beca, um general sem farda, um negociante semdeficit.Notei-lhe a perfeição da sobrecasaca, a alvura da camisa, o aceio das botas. A mesma voz, roufenha outr'ora, parecia restituida á primitiva sonoridade. Quanto á gesticulação, sem que houvesse perdido a viveza de outro tempo, não tinha já a desordem, sujeitava-se a um certo methodo. Mas eu não quero descrevel-o. Se falasse, por exemplo, no botão de ouro que trazia ao peito, e na qualidade do couro das botas, iniciaria uma descripção, que omitto por brevidade. Contentem-se de saber que as botas eram de verniz. Saibam mais que elle herdára alguns pares de contos de réis de um velho tio de Barbacena.
Meu espirito, (permittam-me aqui uma comparação de criança!) meu espirito era n'aquella occasião uma especie de peteca. A narração do Quincas Borba dava-lhe uma palmada, elle subia; quando ia a cair, o bilhete de Virgilia dava-lhe outra palmada, e elle era de novo arremessado aos ares; descia, e o episodio do Passeio Publico recebia-o com outra palmada, egualmente rija e efficaz. Cuido que não nasci para situações complexas. Esse puxar e empuxar de cousas oppostas, desequilibrava-me; tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba, o Lobo Neves e o bilhete de Virgilia na mesma philosophia, e mandal-os de presente a Aristoteles. E, comtudo, era instructiva a narração do nosso philosopho; admirava-lhe sobretudo o talento de observação com que descrevia a gestação e o crescimento do vicio, as luctas interiores, as capitulações vagarosas, o uso da lama.
—Olhe, observou elle; a primeira noite que passei, na escada de S. Francisco, dormi-a inteira, como se fosse a mais fina pluma. Porque? Porque fui gradualmente da cama de esteira ao catre de pau, do quarto proprio ao corpo da guarda, do corpo da guarda ao xadrez, do xadrez á rua...
Quiz expor-me finalmente a philosophia; eu pedi-lhe que não.—Estou assaz preocupado hoje e não poderia attendel-o; venha depois; estou sempre em casa. O Quincas Borba sorriu de um modo malicioso; talvez soubesse da minha aventura, mas não accrescentou nada. Só me disse estas ultimas palavras á porta:
—Venha para o Humanitismo; elle é o grande regaço dos espiritos, o mar eterno em que mergulhei para arrancar de lá a verdade. Os gregos faziam-na sair de um poço. Que concepção mesquinha! Um poço! Mas é por isso mesmo que nunca atinaram com ella. Gregos, sub-gregos, anti-gregos, toda a longa serie dos homens tem-se debruçado sobre o poço, para ver sair a verdade, que não está lá. Gastaram cordas e caçambas; alguns mais afoutos desceram ao fundo e trouxeram um sapo. Eu fui directamente ao mar. Venha para o Humanitismo.
Uma semana depois, o Lobo Neves foi nomeado presidente de provincia. Agarrei-me á esperança da recusa, se o decreto viesse outra vez datado de 13; trouxe, porém, a data de 31; e esta simples transposição de algarismos eliminou delles a substancia diabolica. Que profundas que são as molas da vida!
Não sendo meu costume dissimular ou esconder nada, contarei nesta pagina o caso do muro. Elles estavam prestes a embarcar. Entrando em casa de D. Placida, vi um papelinho dobrado sobre a mesa; era um bilhete de Virgilia; dizia que me esperava á noite, na chacara, sem falta. E concluía: «O muro é baixo do lado do becco.»
Fiz um gesto de desagrado. A carta pareceu-me descommunalmente audaciosa, mal pensada e até ridicula. Não era só convidar o escandalo, era convidal-o de parceria com a risota. Imaginei-me a saltar o muro, embora baixo e do lado do becco; e, quando ia a galgal-o, via-me agarrado por um pedestre de policia, que me levava ao corpo da guarda. O muro é baixo! E que tinha que fosse baixo? Naturalmente Virgilia não soube o que fez; era possivel que já estivesse arrependida. Olhei para o papel, um pedaço de papel amarrotado, mas inflexivel. Tive comichões de o rasgar, em trinta mil pedaços, e atiral-os ao vento, como o ultimo despojo da minha aventura; mas recuei a tempo; o amor-proprio, o vexame da fuga, a idéa do medo... Não havia remedio senão ir.
—Diga-lhe que vou.
—Aonde? perguntou D. Placida.
—Onde ella disse que me espera.
—Não me disse nada.
—Neste papel.
D. Placida arregalou os olhos:—Mas esse papel, achei-o hoje de manhã, nesta sua gaveta, e pensei que...
Tive uma sensação exquisita. Reli o papel, mirei-o, remirei-o; era, na verdade, um antigo bilhete de Virgilia, recebido no começo dos nossos amores, uma certa entrevista na chacara, que me levou effectivamente a saltar o muro, um muro baixo e discreto. Guardei o papel e... Tive uma sensação exquisita.
Mas estava escripto que esse dia devia ser o dos lances dubios. Poucas horas depois, encontrava-me eu com o Lobo Neves, na rua do Ouvidor, e falavamos da presidencia e da politica. Elle aproveitou o primeiro conhecido que nos passou á ilharga, e deixou-me, depois de muitos comprimentos. Lembra-me que estava retraindo, mas de um retrahimento que forcejava por dissimular. Pareceu-me então (e peço perdão á critica, se este meu juizo fôr temerario!) pareceu-me que elle tinha medo—não medo de mim, nem de si, nem do codigo, nem da consciencia; tinha medo da opinião. Suppuz que esse tribunal anonymo e invisivel, em que cada membro accusa e julga, era o limite posto á vontade do Lobo Neves. Talvez que elle já não amasse a mulher; e, assim, póde ser que o coração fosse estranho á indulgencia dos seus ultimos actos. Cuido (e de novo insto pela boa vontade da critica!) cuido que elle estaria prompto a separar-se da mulher, como o leitor se terá separado de muitas relações pessoaes; mas a opinião, essa opinião que lhe arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria minucioso inquerito ácerca do caso, que colligiria uma a uma todas as circumstancias, antecedencias, inducções, provas, que as relataria na palestra das chacaras desoccupadas, essa terrivel opinião, tão curiosa das alcovas, obstou á dispersão da familia. Ao mesmo tempo tornou impossivel o desforço, que seria a divulgação. Elle não podia mostrar-se resentido commigo, sem egualmente buscar a separação conjugal; e teve então de simular a mesma ignorancia de outr'ora, e, por deducção, eguaes sentimentos.
Que lhe custasse creio; naquelles dias, principalmente, vi-o de modo que devia custar-lhe muito. Mas o tempo (e é outro ponto em que eu espero a indulgencia dos homens pensadores!), o tempo calleja a sensibilidade, e oblitera a memoria das cousas; era de suppor que os annos lhe despontassem os espinhos, que a distancia dos factos apagasse os respectivos contornos, que uma sombra de duvida retrospectiva cobrisse a nudez da realidade; emfim, que a opinião se occupasse um pouco com outras aventuras. O filho, crescendo, buscaria satisfazer as ambições do pae; seria o herdeiro de todos os seus affectos. Isso, e a actividade externa, e o prestigio publico, e a velhice depois, a doença, o declinio, a morte, um responso, uma noticia biographica, e estava fechado o livro da vida, sem nenhuma pagina de sangue.
A conclusão, se ha alguma no capitulo anterior, é que a opinião é uma bôa solda das instituições domesticas. Não é impossivel que eu desenvolva este pensamento, antes de acabar o livro; mas tambem não é impossivel que o deixe como está. De um ou de outro modo, é uma bôa solda a opinião, e tanto na ordem domestica, como na politica. Alguns metaphysicos biliosos tem chegado ao extremo de a darem como simples producto da gente chocha ou mediocre; mas é evidente que, ainda quando um conceito tão extremado não trouxesse em si mesmo a resposta, bastava considerar os effeitos salutares da opinião, para concluir que ella é a obra superfina da flôr dos homens, a saber, do maior numero.
—Sim, é amanhã. Você vae a bordo?
—Está douda? É impossível.
—Então, adeus!
—Adeus!
—Não se esqueça de D. Placida. Vá vel-a algumas vezes. Coitada! Foi hontem despedir-se de nós; chorou muito, disse que eu não a veria mais... É uma boa creatura, não?
—Certamente.
—Se tivermos de escrever, ella receberá as cartas. Agora até daqui a...
—Talvez dous annos?
—Qual! elle diz que é só até fazer as eleições.
—Sim? então até breve. Olhe que estão olhando para nós.
—Quem?
—Alli do sophá. Separemo-nos.
—Custa-me muito.
—Mas é preciso; adeus, Virgilia!
—Até breve. Adeus!
Não a vi partir; mas á hora marcada senti alguma cousa que não era dor nem prazer, uma cousa mixta, allivio e saudade, tudo misturado, em eguaes doses. Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu bem sei que, para titillar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande desespero, derramar algumas lagrimas, e não almoçar. Seria romanesco; mas não seria biographico. A realidade pura é que eu almocei, como nos demais dias, acudindo ao coração com as lembranças da minha aventura, e ao estomago com os acepipes de Mr. Pruddon...
...Velhos do meu tempo, lembrai-vos desse mestre cosinheiro do hotel Pharoux, um sujeito que, segundo dizia o dono da casa, havia servido nos famosos Véry e Véfour, de Paris, e mais nos palacios do conde Molé e do duque de la Rochefoucauld? Era insigne. Entrou no Rio de Janeiro com a polka... A polka, Mr. Pruddon, o Tivoli, o baile dos estrangeiros, o Casino, eis algumas das melhores recordações daquelle tempo; mas sobretudo os acepipes do mestre eram deliciosos.
Eram, e naquella manhã parece que o diabo do homem adivinhára a nossa catastrophe. Jámais o engenho e a arte lhe foram tão propicios. Que requinte de temperos! que tenrura de carnes! que rebuscado de fórmas! Comia-se com a bocca, com os olhos, com o nariz. Não guardei a conta desse dia; do contrario, é mui provavel que a deixasse nestas paginas. Sei que foi cara. Ai dor! era-me preciso enterrar magnificamente os meus amores. Elles lá iam, mar em fóra, no espaço e no tempo, e eu ficava-me alli n'uma ponta de mesa, com os meus quarenta e tantos annos, tão vadios e tão vazios; ficava-me para os não ver nunca mais, porque ella poderia tornar e tornou, mas o effluvio da manhã quem é que o pediu ao crepusculo da tarde?
Fiquei tão triste com o fim do ultimo capitulo que estava capaz de não escrever este, descançar um pouco, purgar o espirito da melancolia que o empacha, e continuar depois. Mas não, não quero perder tempo.
A partida de Virgilia deu-me uma amostra da viuvez. Nos primeiros dias metti-me em casa, a fisgar moscas, como Domiciano, se não mente o Suetonio, mas a fisgal-as de um modo particular: com os olhos. Fisgava-as uma a uma, no fundo de uma sala grande, estirado na rede, com um livro aberto entre as mãos. Era tudo: saudades, ambições, um pouco de tedio, e muito devaneio solto. Meu tio conego morreu nesse intervallo; item, dous primos; e eu não me dei por abalado; levei-os ao cemiterio, como quem leva dinheiro a um banco. Que digo? como quem leva cartas ao correio: sellei as cartas, metti-as na caixinha, e deixei ao carteiro o cuidado de as entregar em mão propria. Foi tambem per esse tempo que nasceu minha sobrinha Venancia, filha do Cotrim. Morriam uns, nasciam outros: eu continuava ás moscas.
Outras vezes agitava-me. Ia ás gavetas, entornava as cartas antigas, dos amigos, dos parentes, das namoradas, (até as de Marcella), e abria-as todas, lia-as uma a uma, e recompunha o preterito... Leitor ignaro, se não guardas as cartas da juventude, não conhecerás um dia a philosophia das folhas velhas, não gostarás o prazer de ver-te, ao longe, na penumbra, com um chapéu de tres bicos, botas de sete leguas e longas barbas assyrias, a bailar ao som de uma gaita anacreontica. Guarda as tuas cartas da juventude!
Ou, se te não apraz o chapéu de tres bicos, empregarei a locução de um velho marujo, familiar da casa do Cotrim; direi que, se guardares as cartas da juventude, acharás occasião de «cantar uma saudade.» Parece que os nossos marujos dão este nome ás cantigas de terra, entoadas no alto mar. Como expressão poetica, é o que se póde exigir mais triste.
Duas forças, porém, além de uma terceira, compelliam-me a tornar á vida agitada do costume: Sabina e o Quincas Borba. Minha irmã encaminhou a candidatura conjugal de Nhã-loló de um modo verdadeiramente impetuoso. Quando dei por mim estava com a moça quasi nos braços. Quanto ao Quincas Borba, expoz-me emfim o Humanitismo, systema de philosophia destinado a arruinar todos os demais systemas.
—Humanitas, dizia elle, o principio das cousas, não é outro senão o mesmo homem repartido por todos os homens. Conta tres phases Humanitas; astatica, anterior a toda a creação; aexpansiva, começo das cousas; adispersiva, apparecimento do homem; e contará mais uma, acontractiva, absorpção do homem e das cousas. Aexpansão, iniciando o universo, suggeriu a Humanitas o desejo de o gozar, e dahi adispersão, que não é mais do que a multiplicação personificada da substancia original.
Como me não apparecesse assaz clara esta exposição, o Quincas Borba desenvolveu-a de um modo profundo, fazendo notar as grandes linhas do systema. Explicou-me que, por um lado, o Humanitismo ligava-se ao Brahmanismo, a saber, na distribuição dos homens pelas differentes partes do corpo de Humanitas; mas aquillo que na religião indiana tinha apenas uma estreita significação theologica e politica, era no Humanitismo a grande lei do valor pessoal. Assim, descender do peito ou dos rins de Humanitas, isto é, serum forte, não era o mesmo que descender dos cabellos ou da ponta do nariz. Dahi a necessidade de cultivar e temperar o musculo. Hercules ou Herakles não foi senão um symbolo antecipado do Humanitismo. Neste ponto o Quincas Borba ponderou que o paganismo poderia ter chegado á verdade, se se não houvesse amesquinhado com a parte galante dos seus mythos. Nada disso acontecerá com o Humanitismo. Nesta egreja nova não ha aventuras faceis, nem quedas, nem tristezas, nem alegrias pueris. O amor, por exemplo, é um sacerdocio, a reproducção um ritual. Como a vida é o maior beneficio do universo, e não ha mendigo que não prefira a miseria á morte (o que é um delicioso influxo de Humanitas), segue-se que a transmissão da vida, longe de ser uma occasião de galanteio, é a hora suprema da missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente ha só uma desgraça: é não nascer.
—Imagina, por exemplo, que eu não tinha nascido, continuou o Quincas Borba; é positivo que não teria agora o prazer de conversar comtigo, comer esta batata, ir ao theatro, e para tudo dizer n'uma só palavra: viver. Nota que eu não faço do homem um simples vehiculo de Humanitas; não, elle é ao mesmo tempo vehiculo, cocheiro e passageiro; elle é o proprio Humanitas reduzido; dahi a necessidade de adorar-se a si proprio. Queres uma prova da superioridade do meu systema? Contempla a inveja. Não ha moralista grego ou turco, christão ou mussulmano, que não troveje contra o sentimento da inveja. O accordo é universal, desde os campos da Iduméa até o alto da Tijuca. Ora bem; abre mão dos velhos preconceitos, esquece as rhetoricas rafadas, e estuda a inveja, esse sentimento tão subtil e tão nobre. Sendo cada homem uma reducção de Humanitas, é claro que nenhum homem é fundamentalmente opposto a outro homem, quaesquer que sejam as apparencias contrarias. Assim, por exemplo, o algoz que executa o condemnado póde excitar o vão clamor dos poetas; mas substancialmente é Humanitas que corrige em Humanitas uma infracção da lei de Humanitas. O mesmo direi do individuo que estripa a outro; é uma manifestação da força de Humanitas. Nada obsta (e ha exemplos) que elle seja egualmente estripado. Si entendeste bem, facilmente comprehenderás que a inveja não é senão uma admiração que luta, e sendo a luta a grande funcção do genero humano, todos os sentimentos bellicosos são os mais adequados á sua felicidade. Dahi vem que a inveja é uma virtude.
Para que negal-o? eu estava estupefacto. A clareza da exposição, a logica dos principios, o rigor das consequencias, tudo isso parecia superiormente grande, e foi-me preciso suspender a conversa por alguns minutos, em quanto digeria a philosophia nova. O Quincas Borba mal podia encobrir a satisfação do triumpho. Tinha uma aza de frango no prato, e trincava-a com philosophica serenidade. Eu fiz-lhe ainda alguma objecções, mas tão frouxas, que elle não gastou muito tempo em destruil-as.
—Para entender bem o meu systema, concluiu elle, importa não esquecer nunca o principio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, como se dissessemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e elle chupava philosophicamente a aza do frango), a fome é uma prova a que Humanitas submette a propria viscera. Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu systema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado por um africano, supponhamos, importado de Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido um navio o trouxe, um navio construido de madeira cortada no matto por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do apparelho nautico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executados com o unico fim de dar mate ao meu appetite.
Entre o queijo e o café, demonstrou-me o Quincas Borba que o seu systema era a destruição da dôr. A dôr, segundo o Humanitismo, é uma pura illusão. Quando a criança é ameaçada por um páu, antes mesmo de ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essapredisposiçãoé que constitue a base da illusão humana, herdada e transmittida. Não basta certamente a adopção do systema para acabar logo com a dôr; mas é indispensavel; o resto é a natural evolução das cousas. Uma vez que o homem se compenetre bem de que elle é o proprio Humanitas, não tem mais do que remontar o pensamento á substancia original para obstar qualquer sensação dolorosa. A evolução porém é tão profunda, que mal se lhe podem assignar alguns milhares de annos.
O Quincas Borba leu-me dahi a dias a sua grande obra. Eram quatro volumes manuscriptos, de cem paginas cada um, com letra miuda e citações latinas. O ultimo volume compunha-se de um tratado politico, fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do systema, posto que concebida com um formidavel rigor de logica. Reorganisada a sociedade pelo methodo delle, nem por isso ficavam eliminadas a guerra, a insurreição, o simples murro, a facada anonyma, a miseria, a fome, as doenças; mas sendo esses suppostos flagellos verdadeiros equivocos do entendimento, porque não passariam de movimentos externos da substancia interior, destinados a não influir sobre o homem, senão como simples quebra da monotonia universal, claro estava que a sua existencia não impediria a felicidade humana. Mas ainda quando taes flagellos (o que era radicalmente falso) correspondessem no futuro á concepção acanhada de antigos tempos, nem por isso ficava destruido o systema, e por dous motivos: 1.° porque sendo Humanitas a substancia creadora e absoluta, cada individuo deveria achar a maior delicia do mundo em sacrificar-se ao principio de que descende; 2.° porque, ainda assim, não diminuiria o poder espiritual do homem sobre a terra, inventada unicamente para seu recreio delle, como as estrellas, as brisas, as tamaras e o rhuibarbo. Pangloss, dizia-me elle ao fechar o livro, não era tão tolo como o pintou Voltaire.
A terceira força (Veja a primeira linha do capitulo passado) a terceira força que me chamava ao bulicio era a impaciencia de luzir, e, sobretudo, a incapacidade de viver só. A multidão attrahia-me, o applauso namorava-me, a gala, o tumulto, o rufo, eram outros tantos objectos de seducção. Se a idéa do emplasto me tem apparecido nesse tempo, quem sabe? não teria morrido logo e estaria celebre. Mas o emplasto não veiu. Veiu o desejo de agitar-me em alguma cousa, com alguma cousa e por alguma cousa.Tout notre mal vient de ne pouvoir être seuls.Esta maxima de la Bruyère sempre me pareceu um grande disparate. Não ha duvida que a sociabilidade é a primeira virtude dos homens, a segunda é a curiosidade, a terceira é a pontualidade dos pagamentos, a quarta o valor militar, e assim por diante.
(Haverá uma critica tão perversa que possa attribuir a minha opinião sobre la Bruyère á inveja das suas maximas? Eu aparo desde já esse golpe, transcrevendo algumas das que compuz por aquelle tempo, e rasguei logo depois, por não me parecerem dignas do prélo. Fil-as n'um periodo em que a flor amarella do capitulo XXV tornára a abrir; eram bocejos de enfado. E se não vejam:
Supporta-se com paciencia a colica do proximo.
Supporta-se com paciencia a colica do proximo.
Matamos o tempo; o tempo nos enterra.
Matamos o tempo; o tempo nos enterra.
Um cocheiro philosopho costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.
Um cocheiro philosopho costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.
Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.
Não se comprehende que um botocudo fure o beiço para enfeital-o com um pedaço de páu. Esta reflexão é de um joalheiro.
Não se comprehende que um botocudo fure o beiço para enfeital-o com um pedaço de páu. Esta reflexão é de um joalheiro.
Não te irrites se te pagarem mal um beneficio: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.)
Não te irrites se te pagarem mal um beneficio: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.)
—Não, senhor, agora quer você queira, quer não, ha de casar, disse-me Sabina. Que bello futuro! Um solteirão sem filhos.
Sem filhos! Eis o dardo secreto. A idéa de ter filhos deu-me um sobresalto; percorreu-me outra vez o fluido mysterioso. Sim, cumpria ser pae. A vida celibata podia ter certas vantagens proprias, mas seriam tenues, e compradas a troco da solidão. Sem filhos! Não; impossivel. Dispuz-me a aceitar tudo, ainda mesmo a alliança do Damasceno. Sem filhos! Como já então depositasse grande confiança no Quincas Borba, fui ter com elle e expuz-lhe os movimentos internos da minha paternidade. O philosopho ouviu-me com alvoroço; declarou-me que Humanitas se agitava em meu seio; animou-me ao casamento; ponderou que eram mais alguns convivas que batiam á porta, etc.Compelle intrare, como dizia Jesus. E não me deixou sem provar que o apologo evangelico não era mais do que um prenuncio do Humanitismo, erradamente interpretado pelos padres.
No fim de tres mezes, ia tudo á maravilha. O fluido, Sabina, os olhos da moça, os desejos do pae, eram outros tantos impulsos que me levavam ao matrimonio. A lembrança de Virgilia apparecia de quando em quando, á porta; e com ella um diabo negro, que me mettia á cara um espelho, no qual eu via ao longe Virgilia desfeita em lagrimas; mas outro diabo vinha, côr de rosa, com outro espelho, em que se reflectia a figura de Nhã-loló, terna, luminosa, angelica.
Não falo dos annos. Eu não os sentia; acrescentarei até que os deitára fóra, certo domingo, em que fui á missa na capella do Livramento. Como o Damasceno morava nos Cajueiros, eu acompanhava-os muitas vezes á missa. O morro estava ainda nú de habitações, salvo o velho palacete do alto, onde era a capella. Pois um domingo, ao descer com Nhã-loló pelo braço, não sei que phenomeno se deu que fui deixando aqui dous annos, alli quatro, logo adiante cinco, de maneira que, quando cheguei abaixo, estava com vinte annos apenas, tão lépidos como elles tinham sido.
Agora, se querem saber em que circumstancias se deu o phenomeno, basta-lhes ler este capitulo até o fim. Vinhamos da missa, ella, o pae e eu. No meio do morro achámos um grupo de homens. O Damasceno, que vinha ao pé de nós, percebeu o que era e adiantou-se alvoroçado; nós fomos atraz delle. E vimos isto: homens de todas as edades, tamanhos e côres, uns em mangas de camisa, outros de jaqueta, outros mettidos em sobrecasacas esfrangalhadas; attitudes diversas, uns de cócaras, outros com as mãos apoiadas nos joelhos, estes sentados em pedras, aquelles encostados ao muro; e todos com os olhos fixos no centro, e as almas debruçadas das pupillas.
—Que é? perguntou-me Nhã-loló.
Fiz-lhe signal que se calasse; abri subtilmente caminho, e todos me foram cedendo espaço, sem que positivamente ninguem me visse. O centro tinha-lhes atado os olhos. Era uma briga de gallos. Vi os dous contendores, dous gallos de esporão agudo, olho de fogo e bico afiado. Ambos agitavam as cristas em sangue; o peito de um e de outro estava desplumado e rubro; invadia-os o cançasso. Mas lutavam ainda assim, olhos fitos nos olhos, bico abaixo, bico acima, golpe deste, golpe daquelle, vibrantes e raivosos. O Damasceno não sabia mais de nada; o espectaculo eliminou para elle todo o universo. Em vão lhe disse que era tempo de descer: elle não respondia, não ouvia, concentrara-se no duello. A briga de gallos era uma de suas paixões.
Foi nessa occasião que Nhã-loló me puxou brandamente pelo braço, dizendo que nos fossemos embora. Aceitei o conselho e vim com ella por alli abaixo. Já disse que o morro era então deshabitado; disse-lhes tambem que vinhamos da missa, e não lhes tendo dito que chovia, era claro que fazia bom tempo, um sol delicioso. E forte. Tão forte que eu abri logo o guarda-sol, segurei-o pelo centro do cabo, e inclinei-o por modo que ajuntei uma pagina á philosophia do Quincas Borba: Humanitas osculou Humanitas... Foi assim que os annos me vieram caindo pelo morro abaixo.
Ao sopé detivemo-nos alguns minutos; á espera do Damasceno; elle veiu dahi a pouco, rodeado dos apostadores, a commentar com elles a briga. Um destes, thesoureiro das apostas, distribuia um velho maço de notas de dez tostões, que os triumphadores recebiam duplamente alegres. Quanto aos gallos vinham sobraçados pelo respectivo dono. Um delles trazia a crista tão comida e ensanguentada, que vi logo nelle o vencido; mas era engano,—o vencido era o outro, que não trazia crista nenhuma. Ambos tinham o bico aberto, respirando a custo, esfalfados. Os apostadores, ao contrario, vinham alegres, sem embargo das fortes commoções da luta; biographavam os contendores, relembravam as proezas de ambos. Eu fui andando, vexado; Nhã-loló, vexadissima.
O que vexava a Nhã-loló era o pae. A facilidade com que elle se mettêra com os apostadores punha em relevo antigos costumes e affinidades sociaes; e Nhã-loló chegára a temer que tal sogro me parecesse indigno. Era notavel a differença que ella fazia de si mesma; estudava-se e estudava-me. A vida elegante e polida attrahia-a, principalmente porque lhe parecia o meio mais seguro de ajustar as nossas pessoas. Nhã-loló observava, imitava, adivinhava; ao mesmo tempo dava-se ao esforço de mascarar a inferioridade da familia. Naquelle dia, porém, a manifestação do pae foi tamanha que a entristeceu grandemente. Eu busquei então divertil-a do assumpto, dizendo-lhe muitas chanças e motes de bom tom; vãos esforços, que não a alegravam mais. Era tão profundo o abatimento, tão expressivo o desanimo, que eu cheguei a attribuir a Nhã-loló a intenção positiva de separar, no meu espirito, a sua causa da causa do pae. Este sentimento pareceu-me de grande elevação; era uma affinidade mais entre nós.
—Não ha remedio, disse eu commigo, vou arrancar esta flor a este pantano.
Não obstante os meus quarenta e tantos annos, como eu amasse a harmonia da familia, entendi não tratar o casamento sem primeiro falar ao Cotrim. Elle ouviu-me e respondeu-me seriamente que não tinha opinião em negocio de parentes seus. Podiam suppor-lhe algum interesse, se acaso louvasse, as raras prendas de Nhã-loló; por isso calava-se. Mais: estava certo de que a sobrinha nutria por mim verdadeira paixão, mas se ella o consultasse, o seu conselho seria negativo. Não era levado por nenhum odio; apreciava as minhas bôas qualidades,—não se fartava de as elogiar, como era de justiça; e pelo que respeita a Nhã-loló, não chegaria jámais a negar que era noiva excellente; mas dahi a aconselhar o casamento ia um abysmo.
—Lavo inteiramente as mãos, concluiu elle.
—Mas você achava outro dia que eu devia casar quanto antes...
—Isso é outro negocio. Acho que é indispensavel casar, principalmente tendo ambições politicas. Saiba que na politica o celibato é uma rémora. Agora, quanto á noiva, não posso ter voto, não quero, não devo, não é de minha honra. Parece-me que Sabina foi além, fazendo-lhe certas confidencias, segundo me disse; mas em todo caso ella não é tia carnal de Nhã-loló, como eu. Olhe... mas não... não digo...
—Diga.
—Não; não digo nada.
Talvez pareça excessivo o escrupulo do Cotrim, a quem não souber que elle possuia um caracter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto com elle durante os annos que se seguiram ao inventario do meu pae. Reconheço que era um modelo. Arguiam-n'o de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que odeficit.Como era muito secco de maneiras tinha inimigos, que chegavam a accusal-o de barbaro. O unico facto allegado neste particular era o de mandar com frequencia escravos ao calabouço, donde elles desciam a escorrer sangue; mas, além de que elle só mandava os perversos e os fujões, occorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse genero de negocio requeria, e não se póde honestamente attribuir á indole original de um homem o que é puro effeito de relações sociaes. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dôr que padeceu quando lhe morreu Sára, dalli a alguns mezes; prova irrefutavel, acho eu; e não unica. Era thesoureiro de uma confraria, e irmão de varias irmandades, e até irmão remido de uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação da avareza; verdade é que o beneficio não caíra no chão: a irmandade (de que elle fôra juiz,) mandara-lhe tirar o retrato a oleo. Não era perfeito, de certo; tinha, por exemplo, o sestro de mandar para os jornaes a noticia de um ou outro beneficio que praticava,—sestro reprehensivel ou não louvavel, concordo; mas elle desculpava-se dizendo que as bôas acções eram contagiosas, quando publicas; razão a que se não pode negar algum peso. Creio mesmo (e nisto faço o seu maior elogio) que elle não praticava, de quando em quando, esses beneficios senão com o fim de espertar a philantropia dos outros; e se tal era o intuito, força é confessar que a publicidade tornava-se uma condiçãosine qua non.Em summa, poderia dever algumas attenções, mas não devia um real a ninguem.
Que ha entre a vida e a morte? Uma curta ponte. Não obstante, se eu não compuzesse este capitulo, padeceria o leitor um forte abalo, assaz damnoso ao effeito do livro. Saltar de um retrato a um epitaphio, póde ser real e commum; o leitor, entretanto, não se refugia no livro, senão para escapar á vida. Não digo que este pensamento seja meu; digo que ha nelle uma dose de verdade, e que, ao menos, a fórma é pittoresca. E repito: não é meu.
Vá de intermedio, e contemos a este proposito uma anecdota. Foi no tempo da minha vida parlamentar; eramos cinco; falavamos de cousas e lousas, e aconteceu tocar nos negocios do Rio da Prata. Então, disse um:—O governo não deve esquecer que o dinheiro é o nervo da guerra. Ao que eu redargui que não, que o nervo da guerra eram os bons soldados. Um dos ouvintes coçou o nariz, outro consultou o relogio, o terceiro tamborilou sobre o joelho, o quarto deu algumas pernadas pela sala, o quinto era eu. Mas, continuando a falar, ponderei que essa idéa, inteiramente justa, não era minha, e sim de Machiavelli; circumstancia que levou o primeiro a não coçar o nariz, o segundo a não consultar o relogio, o terceiro a não tamborilar sobre o joelho, e o quarto a não dar pernadas; e todos me rodearam, e me pediram que repetisse o dito, e repeti, e elles extasiavam-se, e batiam com a cabeça approvando, saboreando, decorando. O que estimei, porque fui sempre amador de idéas justas. Mas vamos ao epitaphio.
AQUI JAZD. EULALIA DAMASCENA DE BRITOMORTAAOS DEZENOVE ANNOS DE IDADEORAI POR ELLA!
O epitaphio diz tudo. Vale mais do que se lhes narrasse a molestia de Nhã-loló, a morte, o desespero da familia, o enterro. Ficam sabendo que morreu; accrescentarei que foi por occasião da primeira entrada da febre amarella. Não digo mais nada, a não ser que a acompanhei até o ultimo jazigo, e me despedi triste, mas sem lagrimas. Conclui que talvez não a amasse devéras.
Vejam agora a que excessos póde levar uma inadvertencia; doeu-me um pouco a cegueira da epidemia que, matando á direita e á esquerda, levou tambem uma jovem dama, que tinha de ser minha mulher; e não cheguei a entender a necessidade da epidemia, e menos ainda daquella morte. Creio até que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras mortes. O Quincas Borba, porém, explicou-me que as epidemias eram uteis á especie, embora desastrosas para uma certa porção de individuos; e fez-me notar que, por mais horrendo que fosse o espectaculo, havia uma vantagem de muito peso: a sobrevivencia do maior numero. Chegou a perguntar-me se, no meio do luto geral, não sentia eu algum secreto encanto em ter escapado ás garras da peste; mas esta pergunta era tão insensata, que ficou sem resposta.
Se não contei a morte, não conto igualmente a missa do setimo dia. A tristeza do Damasceno era profunda; esse pobre homem parecia uma ruina. Quinze dias depois estive com elle; continuava inconsolavel, e dizia que a dor grande com que Deus o castigára fora ainda augmentada com a que lhe infligiram os homens. Não me disse mais nada. Tres semanas depois tornou ao assumpto, e então confessou-me que, no no meio do desastre irreparavel, quizera ter a consolação da presença dos amigos. Doze pessoas apenas, e tres quartas partes amigos do Cotrim, acompanharam á cova o cadaver de sua querida filha. E elle fizera expedir oitenta convites. Ponderei-lhe que as perdas eram tão geraes que bem se podia desculpar essa desattenção apparente. O Damasceno abanava a cabeça de um modo incredulo e triste.
—Qual! gemia elle, desampararam-me.
O Cotrim, que estava presente:
—Vieram os que devéras se interessam por você é por nós. Os oitenta viriam por formalidade, falariam da inercia do governo, das panacéas dos boticarios, do preço das casas, ou uns dos outros...
O Damasceno ouviu calado, abanou outra vez a cabeça, e suspirou:
—Mas viessem!
Grande cousa é haver recebido do ceu uma particula da sabedoria, o dom de achar as relações das cousas, a faculdade de as comparar e o talento de concluir! Eu tive essa distincção psychica; eu a agradeço ainda agora do fundo do meu sepulchro.
De facto, o homem vulgar que ouvisse a ultima palavra do Damasceno, não se lembraria della, quando, tempos depois, houvesse de olhar para uma gravura representando seis damas turcas. Pois eu lembrei-me. Eram seis damas de Constantinopla,—modernas,—em trajos de rua, com a cara tapada, não tapada á outra maneira, com um espesso panno que as cobrisse devéras, mas com um veu tenuissimo, que simulava descobrir somente os olhos, e na realidade descobria a cara inteira. E eu achei graça a essa esperteza da faceirice musulmana, que assim esconde o rosto,—e cumpre o uso,—mas não o esconde,—e divulga a belleza. Apparentemente, nada ha entre as damas turcas e o Damasceno; mas se tu és um espirito profundo e penetrante (e duvido muito que me negues isso), comprehenderás que, tanto n'um como n'outro caso, surge ahi a orelha de uma rigida e meiga companheira do homem social...
Amavel Formalidade, tu és, sim, o bordão da vida, o balsamo dos corações, a medianeira entre os homens, o vinculo da terra e do ceu; tu enxugas as lagrimas de um pae, tu captas a indulgencia de um Propheta; e se a dôr adormece, e se a consciencia se accommoda, a quem, senão a ti, deverão esse immenso beneficio? A estima que passa de chapeu na cabeça não diz nada á alma; mas a indifferença que corteja deixa-lhe uma deleitosa impressão. A razão é que, ao contrario de uma velha formula absurda, não é a lettra que mata; a lettra dá vida; o espirito é que é objecto de controversia, de duvida, de interpretação, e conseguintemente de luta e de morte. Vive tu, amavel Formalidade, para socego do Damasceno e gloria de Muhammed.
E notai bem que eu vi a gravura turca, dous annos depois das palavras de Damasceno, e vi-a na camara dos deputados, em meio de grande borborinho, emquanto um deputado discutia um parecer da commissão de orçamento, sendo eu tambem deputado. Para quem ha lido este livro é escusado encarecer a minha satisfação, e para os outros é igualmente inutil. Era deputado, e vi a gravura turca, recostado na minha cadeira, entre um collega, que contava uma anecdota, e outro, que tirava a lapis, nas costas de uma sobrecarta, o perfil do orador. O orador era o Lobo Neves. A onda da vida trouxe-nos á mesma praia, como duas botelhas de naufragos, elle contendo o seu resentimento, eu devendo conter o meu remorso; e emprégo esta fórma suspensiva, dubitativa ou condicional, para o fim de dizer que effectivamente não continha nada, a não ser a ambição de ser ministro.
Não tinha remorsos. Se possuisse os apparelhos proprios, incluia neste livro uma pagina de chimica, porque havia de decompor o remorso até os mais simples elementos, com o fim de saber, de um modo positivo e concludente, por que razão Achilles passea á roda de Troya o cadaver do adversario, e lady Macbeth passea á volta da sala a sua mancha de sangue. Mas eu não tenho apparelhos chimicos, como não tinha remorsos; tinha vontade de ser ministro de Estado. Comtudo, se hei de acabar este capitulo, direi que não quizera ser Achilles nem lady Macbeth; e que a ser alguma cousa, antes Achilles, antes passear ovante o cadaver do que a mancha; ouvem-se no fim as supplicas de Priamo, e ganha-se uma bonita reputação militar e litteraria. Eu não ouvia as supplicas de Priamo, mas o discurso do Lobo Neves, e não tinha remorsos.
A primeira vez que pude falar a Virgilia, depois da presidencia, foi n'um baile em 1855. Trazia um soberbo vestido de gorgorão azul, e ostentava ás luzes o mesmo par de hombros de outro tempo. Não era a frescura da primeira edade; ao contrario; mas ainda estava formosa, de uma formosura outoniça, realçada pela noite. Lembra-me que falamos muito; e lembra-me que não alludimos a cousa nenhuma do passado. Subentendia-se tudo. Um dito remoto, vago, ou então um olhar, e mais cousa nenhuma. Pouco depois retirou-se; eu fui vel-a descer as escadas, e não sei por que phenomeno de ventriloquismo cerebral (perdoem-me os philologos essa phrase barbara), murmurei commigo esta palavra profundamente retrospectiva:
—Magnifica!
Convém intercalar este capitulo entre a primeira oração e a segunda do cap.CXXIX.
Como eu acabava de dizer aquillo, pelo processo ventriloco-cerebral,—o que era simples opinião e não remorso,—senti que alguem me punha a mão no hombro. Voltei-me; era um antigo companheiro, official de marinha, jovial, um pouco despejado de maneiras. Elle sorriu maliciosamente, e disse-me:
—Seu maganão! Recordações do passado, hein?
—Viva o passado!
—Você naturalmente foi reintegrado no emprego.
—Salta, pelintra! disse eu, ameaçando-o com o dedo.
Confesso que este dialogo era uma indiscrição,—principalmente a ultima replica. E com tanto maior prazer o confesso, quanto que as mulheres é que tem fama de indiscretas, e não quero acabar o livro sem rectificar essa noção do espirito humano. Em pontos de aventura amorosa, achei homens que sorriam, ou negavam a custo, de um modo frio, monosyllabico, etc., ao passo que as parceiras não davam por si, e jurariam aos Santos Evangelhos, que era tudo uma calumnia. A razão desta differença é que a mulher (salva a hypothese do cap. CI e outras) entrega-se por amor, ou seja o amor-paixão de Stendhal, ou o puramente physico de algumas damas romanas, por exemplo, ou polynesias, laponias, cafres, e póde ser que outras raças civilisadas; mas o homem,—falo do homem de uma sociedade culta e elegante,—o homem conjuga a sua vaidade ao outro sentimento. Alem disso (e refiro-me sempre aos casos defesos), a mulher, quando ama outro homem, parece-lhe que mente a um dever, e portanto tem de dissimular com arte maior, tem de refinar a aleivosia; ao passo que o homem, sentindo-se causa da infracção e vencedor de outro homem, fica legitimamente orgulhoso, e logo passa a outro sentimento menos rispido e menos secreto,—essa meiga fatuidade, que é a transpiração luminosa do merito.
Mas seja ou não verdadeira a minha explicação, basta-me deixar escripto nesta pagina, para uso dos seculos, que a indiscrição das mulheres é uma burla inventada pelos homens; em amor, pelo menos, elas são um verdadeiro sepulchro. Perdem-se muita vez por desastradas, por inquietas, por não saberem resistir aos gestos, aos olhares; e é por isso que uma grande dama e fino espirito, a rainha de Navarra, empregou algures esta metaphora para dizer, que toda a aventura amorosa vinha a descobrir-se por força, mais tarde ou mais cedo: «não ha cachorrinho tão adestrado, que alfim lhe não ouçamos o latir.»
Citando o dito da rainha de Navarra, occorre-me que entre o nosso povo, quando uma pessoa vê outra pessoa arrufada, costuma perguntar-lhe: «Gentes, quem matou seus cachorrinhos?» como se dissesse:—«quem lhe levou os amores, as aventuras secretas, etc.» Mas este capitulo não é serio.
Estavamos ao ponto era que o official de marinha me arrancou a confissão dos amores de Virgilia; e aqui emendo eu o principio de Helvetius,—ou, por outra, explico-o. O meu interesse era calar; confirmar a suspeita de uma cousa antiga fôra provocar algum odio supitado, dar origem a um escandalo, quando menos adquirir a reputação de indiscreto. Era esse o interesse; e entendendo-se o principio de Helvetius de um modo superficial, isso é o que devia ter feito. Mas eu já dei o motivo da indiscrição masculina: antes daquelle interesse desegurança, havia outro, o dodesvanecimento, que é mais intimo, mais immediato: o primeiro era reflexivo, suppunha um syllogismo anterior; o segundo era espontaneo, instintivo, vinha das entranhas do sugeito; finalmente, o primeiro tinha o effeito remoto, o segundo proximo. Conclusão: o principio de Helvetius é verdadeiro no meu caso;—a diferença é que não era o interesse apparente, mas o recondito.
Não lhes disse ainda,—mas digo-o agora,—que quando Virgilia descia a escada, e o official de marinha me tocava no hombro, tinha eu cincoenta annos. Era portanto a minha vida que descia pela escada abaixo,—ou a melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres, de agitações, de sustos,—capeada de dissimulação e duplicidade,—mas emfim a melhor, se devemos falar a linguagem usual. Si, porém, empregarmos outra mais sublime, a melhor parte foi a restante, como eu terei a honra de lhes dizer nas poucas paginas deste livro.
Cincoenta annos! Não era preciso confessal-o. Já se vae sentindo que o meu estylo não é tão lesto como nos primeiros dias. Naquella occasião, cessado o dialogo com o official de marinha, que enfiou a capa e saiu, confesso que fiquei um pouco triste. Voltei á sala, lembrou-me dansar uma polka, embriagar-me das luzes, das flores, dos crystaes, dos olhos bonitos, e do borburinho surdo e ligeiro das conversas particulares. E não me arrependo; remocei. Mas, meia hora depois, quando me retirei do baile, ás quatro da manhã, o que é que fui achar no fundo do carro? Os meus cincoenta annos. Lá estavam elles os teimosos, não tolhidos de frio, nem rheumaticos,—mas cochillando a sua fadiga, um pouco cobiçosos de cama e de repouso. Então,—e vejam até que ponto póde ir a imaginação de um homem, com somno,—então pareceu-me ouvir de um morcego encarapitado no tejadilho:—Sr. Braz Cubas, a rejuvenescencia estava na sala, nos crystaes, nas luzes, nas sedas,—emfim, nos outros.
E agora sinto que, se alguma dama tem seguido estas paginas, fecha o livro e não lê as restantes. Para ella extinguiu-se o interesse da minha vida, que era o amor. Cincoenta annos! Não é ainda a invalidez, mais já não é a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um inglez dizia, entenderei que «cousa é não achar já quem se lembre de meus paes, e de que modo me ha de encarar o proprio ESQUECIMENTO.»
Vae em versaletes esse nome. OBLIVION! Justo é que se dem todas as honras a um personagem tão desprezado e tão digno, conviva da ultima hora, mas certo. Sabe-o a dama que luziu na aurora do actual reinado; e mais dolorosamente a que ostentou suas graças em flor sob o ministerio Paraná, porque esta acha-se mais perto do triumpho, e sente já que outras lhe tomaram o carro. Então, se é digna de si mesma, não teima em espertar a lembrança morta ou expirante; não busca no olhar de hoje a mesma saudação do olhar de hontem, quando eram outros os que encetavam a marcha da vida, de alma alegre e pé veloz.Tempora mutantur.E ella comprehenderá que este turbilhão é assim mesmo, leva as folhas do mato e os farrapos do caminho, sem excepção nem piedade; e se tiver um pouco de philosophia, não invejará, mas lastimará as que lhe tomaram o carro, porque tambem ellas hão de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION. Espectaculo, cujo fim é divertir o planeta Saturno, que anda muito aborrecido.
Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capitulo inutil.
E dahi, não; elle resume as reflexões que fiz no dia seguinte ao Quincas Borba, accrescentando que me sentia acabrunhado, e mil outras cousas tristes. Mas esse philosopho, com o elevado tino de que dispunha, bradou-me que eu ia escorregando na ladeira fatal da melancolia.
—Meu caro Braz Cubas, não te deixes vencer desses vapores. Que diacho! é preciso ser homem! ser forte! lutar! vencer! brilhar! influir! dominar! Cincoenta annos é a edade da sciencia e do governo. Animo, Braz Cubas; não me sejas palerma. Que tens tu com essa successão de ruina a ruina ou de flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica sabendo que a peor philosophia é a do choramigas que se deita á margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das aguas. O officio dellas é não parar nunca; accommoda-te com a lei, e trata de aproveital-a.
Ve-se nas menores cousas o que vale a autoridade de um grande philosopho. As palavras do Quincas Borba tiveram o condão de sacudir o torpor moral e mental em que andava. Vamos lá; façamo-nos governo. Crel-o-eis, posteros? Eu não havia intervindo até então nos grandes debates. Cortejava a pasta por meio de rapapés, chás, commissões e votos; e a pasta não vinha. Urgia apoderar-me da tribuna.
Comecei de vagar. Tres dias depois, discutindo-se o orçamento da justiça, aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro se não julgava util diminuir a barretina da guarda nacional. Não tinha vasto alcance o objecto da pergunta; mas ainda assim demonstrei que não era indigno das cogitações de um homem de Estado; e citei Philopemen, que ordenou a substituição dos broqueis de suas tropas, que eram pequenos, por outros maiores, e bem assim as lanças, que eram demasiado leves; facto que a historia não achou que desmentisse a gravidade de suas paginas. O tamanho das nossas barretinas estava pedindo um córte profundo, não só por serem deselegantes, mas tambem por serem anti-hygienicas. Nas paradas, ao sol, o excesso do calor produzido por ellas podia ser fatal. Sendo certo que um dos preceitos de Hippocrates era trazer a cabeça fresca, parecia cruel obrigar um cidadão, por simples consideração de uniforme, a arriscar a saude e a vida, e consequentemente o futuro da familia. A camara e o governo deviam lembrar-se que a guarda nacional era o anteparo da liberdade e da independencia, e que o cidadão, chamado a um serviço gratuito, frequente e penoso, tinha direito a que se lhe diminuisse o onus, decretando um uniforme leve e maneiro. Accrescia que a barretina, por seu peso, abatia a cabeça dos cidadãos, e a patria precisava de cidadãos cuja fronte pudesse levantar-se altiva e serena diante do poder; e conclui com esta idéa: O chorão, que inclina os seus galhos para a terra, é arvore de cemiterio; a palmeira, erecta e firme, é arvore do deserto, das praças e dos jardins.
Vária foi a impressão deste discurso. Quanto á forma, ao rapto eloquente, á parte litteraria e philosophica, a opinião foi só uma; disseram-me todos que era completo, e que de uma barretina ninguem ainda conseguira tirar tantas idéas. Mas a parte politica foi considerada por muitos deploravel; alguns achavam o meu discurso um desastre parlamentar; emfim, vieram dizer-me que outros me davam já em opposição, entrando nesse numero os opposicionistas da camara, que chegaram a insinuar a conveniencia de uma moção de desconfiança. Repelli energicamente tal interpretação, que não era só erronea, mas calumniosa, á vista da notoriedade com que eu sustentava o gabinete; accrescentei que a necessidade de diminuir a barretina, não era tamanha que não pudesse esperar alguns annos; e que, em todo caso, eu transigiria na extensão do córte, contentando-me com tres quartos de polegada ou menos; emfim, dado mesmo que a minha idéa não fosse adoptada, bastava-me tel-a iniciado no parlamento.
O Quincas Borba, porém, não fez restricção alguma. Não sou homem politico, disse-me elle ao jantar; não sei se andaste bem ou mal; sei que fizeste um excellente discurso. E então notou as partes mais salientes, as bellas imagens, os argumentos fortes, com esse comedimento de louvor que tão bem fica a um grande philosopho; depois, tomou o assumpto á sua conta, e impugnou a barretina com tal força, com tamanha lucidez, que acabou convencendo-me effectivamente do seu perigo.
Meu caro critico,Algumas paginas atraz, dizendo eu que tinha cincoenta annos, accrescentei: «Já se vae sentindo que o meu estylo não é tão lesto como nos primeiros dias.» Talvez aches esta phrase incomprehensivel, sabendo-se o meu actual estado; mas eu chamo a tua attenção para a subtileza daquelle pensamento. O que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer, sim, que em cada phase da narração da minha vida experimento a sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar tudo.
Meu caro critico,
Algumas paginas atraz, dizendo eu que tinha cincoenta annos, accrescentei: «Já se vae sentindo que o meu estylo não é tão lesto como nos primeiros dias.» Talvez aches esta phrase incomprehensivel, sabendo-se o meu actual estado; mas eu chamo a tua attenção para a subtileza daquelle pensamento. O que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer, sim, que em cada phase da narração da minha vida experimento a sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar tudo.