The Project Gutenberg eBook ofMusa VelhaThis ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.Title: Musa VelhaAuthor: Francisco PalhaRelease date: January 31, 2009 [eBook #27940]Most recently updated: January 4, 2021Language: PortugueseCredits: Produced by Pedro Saborano*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MUSA VELHA ***
This ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.
Title: Musa VelhaAuthor: Francisco PalhaRelease date: January 31, 2009 [eBook #27940]Most recently updated: January 4, 2021Language: PortugueseCredits: Produced by Pedro Saborano
Title: Musa Velha
Author: Francisco Palha
Author: Francisco Palha
Release date: January 31, 2009 [eBook #27940]Most recently updated: January 4, 2021
Language: Portuguese
Credits: Produced by Pedro Saborano
*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MUSA VELHA ***
MUSA VELHA
Porto: 1883—Typ. de A. J. da Silva Teixeira62, Rua da Cancella Velha, 62
FRANCISCO PALHAMUSA VELHAPORTOERNESTO CHARDRON, EDITOR1883
FRANCISCO PALHA
MUSA VELHA
PORTOERNESTO CHARDRON, EDITOR1883
Virgem dos olhos negros, se em tua almamemoria inda conservas d'outro tempo,só tu entenderás porque este livroousa ás trevas fugir, e o sol encara;mas como quem escreve e quem publicanão perde tempo, nem dinheiro gastapara teus ocios entreter sómente,deixa-me vêr se á força de assignantes,de venda avulsa, exemplares de mofo,ha mais no mundo quem me entenda e leia.
Deu na tonta de entrar na minha escadaá Dona Morte um dia.A pobre anda estafadado continuo ceifar desde que ao nadapor divinaes processos da alchimiaa terra foi roubada.*Da comprida queixola desdentadaesta sentida nenia lhe saía:—Senhor! forte estopada!Sem poisar a caveira o mundo corro.Em toda a parte estou. A toda a horaprostro alguem a meus pés, e geme, e chorapor minha culpa alguem! Nenhuma aurora,de luz nenhuma o jorro,as orbitas vazias me alumia!...Nunca uma esp'rança! nunca uma alegria!Á dôr alheia pondo um suave termosó a minha o não tem!... Só eu não morroemquanto o mundo não tornar um ermo!...Á obra! Á obra!—E lepida subindotocou a campainha:um lugubre tocar que dava medo;que não mais deixarei de estar ouvindo,e fez com que eu então, muito em segredo,rezasse a ladainha.*Era um simples aviso, pois que a portapor si se escancarou e deu entradaáquella feia ossadade vermes revestida, e negra, e torta,de mim ha longo tempo enamorada.—Senhora Morte, viva!—disse ao vêl-a, fingindo animo forte;mas cá por dentro, como a sensitivan'haste as folhas retráe que lh'as não córtequem d'ella se aproximae levemente a mão lhe põe por cima,cá por dentro a minh'alma, em pasmo estranhopor vêr-se em tão cruel extremidade,foi-se encolhendo até ser do tamanhod'um reles feijão frade!*—Desculpe a impertinencia—continuei.—Como é que usam tratal-a?Por tu? PorExcellenciacomo é hoje tratada toda a gente?—«A mim é-me indifferente.Não faz ninguem de tal miseria galano reino onde eu impero.»Esta respostame deu a Dona Morte, e junto ao leito,onde eu espreguiçava a mandrieira,chegou; puxou cadeira;sentou-se gravemente, sobrepostauma rótula n'outra.Com effeitomau é vêl-a!... peior á cabeceira!E poz-me a fria mão aqui no peito.«Que bons pulmões tens tu! e como pulsana tua idade o coração aindapelas paixões mundanas agitado!»—Então...—volvi com voz menos convulsa—inda tenho a viver um bom bocado?!—«Conforme. Tudo findaquando me apraz e breve.»—Se ao teu ladopara afastar-te eu não chamar a Siencia.—«Dou-te um dôce que a chames! Cáe tu n'essa!descobriste a maneira, tem paciencia,de eu carregar comtigo mais depressa.»—Banal! Banal! Cuidei que era outra coisa—rosnei com meus botões.—Um vende bolas,um palurdio qualquer vindo de Loiza,da Lourinhã, do inferno, esta sandiceancho diria qual a Morte a disse.*Ella no entanto, um pé bamboleando,co'as phalanges dos dedos descarnadosbatendo sobre a tibia, ia soltandouns sons de castanholascom que sóe convocar gatos pingadosás grandes, funerarias cabriolas.Após pequena pausade subito se ergueu.«Não ha remedio!Deixar-te vou por causad'uns ganchitos que tenho aqui no predio.O cónego não dorme ha tres semanas.Rouba-lhe o ar a suffocante anginaque o peito dilacera.Tem esgotado as provações humanas.Na longa vida santamente austerafez jus, coitado! á compaixão divina.Melhor que o da morphina,premio á virtude, um somno lhe preparobrando, quieto, sereno como um lago.Apanha o padre agora! e apanha, é claro,quem lhe abichar na Sé o logar vago.O conego aviado, tenho uns planosde ir tocar no ferrolho ao conselheiro.Quero abater-lhe a prôa!... Setenta annose sóbe inda lampeirooutros tantos degraus!... Então córado!redondo!... Uma cereja!...E como se espennejaquando vae pela rua engravatado,para as moças olhando ás furtadellascomo quem diz:Assim quisessem ellas!Chucha um pisco ao jantar; um pisco á ceia.Por não dormir de tardenem trazer nunca a barriguinha cheiaconsidera-se livre do meu jugoe d'isso faz alarde!Pois tu vaes vêr, fradinho de sabugo!»Travou da arqueada foice;disse-me:—«Adeus! Eu volto. Eu volto. Espera»:virou a espinha, e foi-se.*Sim, que te espero! Aqui te aguardo, ó fera!*Mal passado um minuto, instantes, penso,portas a abrir-se, gente que subiaresmoneando latim, e cheiro a incenso.oopoponaxda velha liturgia.Desci. Curvei-me. Bemaventuradoaquelle que tem fé! Como um soldado,firme em seu posto o conego morria.*Volto a casa. Corri logo á janella.Nos amplos ceus azues esmoreciaa luz d'um sol d'abril. Do floreo seioperfumes exhalava a Primaverafallando-me por modo que a entendia.Quanto distava, quão diversa que erada outra scena aquella!Então clamei:Em ti, meu Deus, eu creio!Um mez depois alguem contar-me veio:—Lá puxou o visinho aqui do lado!Hontem, depois do chá e o rol escripto,saíu da mesa, deu-lhe uma tontura,rodopiou, caíu na sepulturaco'a paz na consciencia e o palitono canto inda da bocca!—No outro diafoi-se o bom conselheiro, encaixotado,direito ao cemiterio.Na turba que o seguiahavia quem dissesse:Um homem sério!E tudo era acabado.*Chega-me agora a vez. Prompto! Presente!Prompto sou a marchar!... mas descontente.Não que eu tema morrer. Quem morre inteiro?Aquillo que me assusta, o que me aterraé sómente a lembrança de que á terra,tal qual se semeasse fava ou trigo,o bruto do coveirocantarolando, atirará commigo!Eu, que respiro ao sol da liberdade,fechado n'um segredo humido, immenso,frio, escuro, por toda a eternidade!Preso... amarrado ali! Meu nome inscripton'um livro negro, em folhas côr d'ict'ricia,como se inscreve em notas de policiao nome do gatuno a quem o apitotranquillo não deixou bifar um lenço!Numerado inda em cima! numeradocomo um grilheta!...O cento e trinta e cinco.de cestos de cal virgem carregadop'ra todo o sempre n'um caixão de zinco!...*Não estou pelos autos. Não!... Protesto.Quando a morte vier por este resto,d'homem... de coisa... nem eu sei ao certoisso que fui, que sou, para o que presto:quando ella pois vier, e virá cedo...e vem... que a sinto perto,ordeno que me estendam n'um penedoda minha amada Cintra. Redivivo,á luz serena e purados puros ceus, o misero captivoreabrirá seus olhos porventura!Inda lá teu amor, tua belleza,a força me darão, tresestrellinhas,para affrontar a idade, a natureza,e triumphar do Eterno!Com certezaque nem sequer, leitor, tu adivinhas,nem eu jámais direi de quem se trata.Bem o desejas tu, lingua de prata!Era um maná!*Ó sombra que fugiste,que sem cessar procuro em toda a partee não encontro nunca,porque é que tu não voltas, e d'est'artede saudades a Dôr, teimosa, juncao meu caminho triste?!Agora ao menos, anjo expatriado,em que eu por ti resumon'uma lagrima só as que hei choradodês que te dei minh'alma até est'hora,porque é que tu não vens mostrar-me o rumodo ninho teu d'outr'ora?!Vem! e guia-me tu n'este momentoá dôce paz do suspirado porto!Foste na vida o meu maior tormento...Ai! Sê na morte o meu maior conforto!
Tu queres, Dorinda, queresque eu tome os banhos da igreja?!Não será melhor que estejade noite a fazer colheres,de dia a apanhar carqueja?!Pelo ceu! que o matrimonionão é mais que pellourinho,d'onde as barbas do visinhovemos ardendo! demoniodisfarçado em Cupidinho.O outono com seu cortejode folhas seccas no chão!O eterno adeus á illusão!O ultimo som do harpejoque Amor tira ao coração!O susto! a agonia! o trancede ir vivendo sempre á espreitase ha quem tornar-nos alcance,pois tal historia deleita,altosheroes d'um romance.E queres, Dorinda, queresque eu tome os banhos da igreja?!Para quê? Para que vejaque entre todas as mulheresuma existe que sobeja?!Não! e não! Viva o solteiro!Aguia voando no espaçosem ter certo o paradeiro,e cravando as garras d'açonas pombas que vê primeiro!Sae, e entra, e torna fórasem que ninguem lhe interrogueonde foi, qual é a hora,nem pecuinhas lhe joguesobre a provavel demora;Sem que a esposa ciumenta,Furia, Medusa, tormentade más caras, más respostas,invente o que o diabo inventa:dormir-se costas com costas.E, depois, Madame Alinerôa as unhas! Que se fineentre rendas d'Alençon!que o meu dinheiro não tinep'ra que tu andes no tom!Já vês que debalde queresque eu tome os banhos da igreja.Iça o pau da carangueja!Nos turcos os escaleres,e para o largo veleja!Mas tambem... viver sósinho!Sem fé... perdido... sem ninho...Sem se erguer uma só vozna aridez d'este caminhoa Deus orando por nós!!Retornando ao lar desertoachar tudo atrochemoche!...O bahu sem chave e abertodizendo ao larapio:—Entrouxe,que você é que é o esperto!—Sempre mal fervida a sopa!Sempre o café mal torrado!Feita a passagem na roupadeixando o dono enleiadose foi a agulha se a choupa!Se ainda, Dorinda, queresque eu tome os banhos da igreja,não descances na peleja,que eu sou como os malmequeres:não e sim. Louvado seja!Ai! que é bom durante os ocios,na fortuna e na miseria,achar ao lado uma Egeriaque, em se fallando em negocios,não tuja sobre a materia;Que seja como a romana,meio amor e meio roca;não sáia nunca da tocamais que uma vez por semana,nem tinja o cabello d'óca;Nem, quando a afiada foiceda vida o fio nos córte,de rijo invective a Sorte,e diga baixinho:—Foi-se!Quanto és minha amiga, ó morte!—E d'aqui outro consolomelhor que maracujáe que o dôce de tijolo:ter quem, a rilhar n'um bolo,nos julgue e chame papá!Loura criancinha meiga,para o pai mimo celeste,e para o estranho uma pesteque emporcalha de manteigaas calças que a gente veste.Inda agora é que eu reparonos teus olhos, creatura!São negros... d'um negro raro!Negros como a noite escuracom seus quês d'um sol bem claro!Alto o seio e pura neveque mil desejos excita!O pé delgadinho e breve;e quanto a mão... Deus permittaque a não tenhas muito leve.Dá-me o teu braço, Dorinda.Vamos aos banhos da igreja.Certo é que não gracejaquem diz que os refrescos, linda,curam toda a brotoeja.
ao Conde D'Almedina, Inspector da Academia Real de Bellas-Artes, que no estrangeiro sollicitou uma commenda para o author
Tratante d'inspector, cuidei-te amigoe sácas-te a mangar assim commigo!Traição! insidia! roubo! Eu, um pelintraque nem posso comprar um burro em Cintra,onde a commenda magna em chammas brilhasobre o manto azulado de escumilhaque Deus usa no v'rão, e a naturezaironica sorri da pequenezad'esta baixa comedia, eu—velho! eu—calvo!á publica irrisão a servir d'alvo?!...Qual foi meu crime? Qual? Era deverasmenos duro entregar-me inteiro ás feras.Ridiculo não ha na gente morta.Fôra uma vez um Palha!... A questão cortae não se falla mais.—Por não terguines,tratante d'inspector, não me apepines.Eu amo a sombra fria. Odeio a moda.No bulicio d'um baile anda-me á rodaa caixa do miolo; um labyrinthoonde, perdido, entontecer-me sinto.Moem-me as praxes; pesam-me etiquetas,e tudo sei rasgar... menos baetas.Por mais que mire uns outros enfeitados,tão contentes de si, e tão coitadosque julgam ser alguem!, não sei... não achonem honra nem razão no berbicachodourado, reluzente, sol d'esmalte,do qual em cada raio não ressalte,ante luz de gloriosa eternidade,um feito illustre a bem da humanidade.D'outro modo o que é? Um mau bocadode pão de rala a cães famintos dado:d'um réles charlatão a taboleta,na qual, quem passa, lê:Dom Paparrêta!ou lê inda peior!Mette-me á bulha,terás aqui o rol de quanto pulhagrandese fez tal qual se torna grandeo bácoro a fossar e a comer lande.Ai! no me pique usted!Sob o arminhobusca, e talvez encontres pergaminholavrado a ferro e sangue, fresco ainda,nos coiros fuscos de infeliz cabinda.Nem titulos pomposos nem venerasvalem dez reis furados n'estas eras.Hoje o premio a heroes dá-se ao dinheiro.Importa lá se é falso ou verdadeiro?!Comprou? Correu? O mais é tudo historia.Nem o nome villão fica em memoria.Uma coisa é escalracho, outra—papoila.Onde era a nódoa poz-se a lentejoila.Ha excepções, bem sei. Dou-lhes apreço.Morro d'amor por essas que eu conheço;mas como a estes raros não pertenço,e menos inda aos outros, o bom sensomanda que eu te agradeça os teus favorese ria da mercê.Quando tu fores,saudade ao peito, encasacado, sério,despedir-te de mim no cemiterio,verás que desço á terra, oh! vista horrenda!nusinho tal qual vim; e por commendainerte o coração, gasto da vidana rude, pertinaz, obscura lida.Tu mesmo então, artista d'olho fino,dirás á turba:«Emfim o peregrinona paz eterna vai dormir agora!Andou mettido a vida inteira á norad'este poço sem fundo de miserias.Abusava do riso, das pilherias,e d'outras coisas mais em que não fallo.Foi Job em vez de ser Sardanapálo.Umaraiada Sorte. Ella faz d'isto:dá impérios ao démo, a cruz ao Christo.Mas resta-nos, amigos, um consolo:tudo seria... excepto um grande tolo.»
Meu Couto Monteiro,senhor da Justiçaque nunca, que eu saiba, saíu do tinteiro,e pae dos famintos que engolem á missao corpo sem mancha do santo Cordeiro.Não rondo as arcadasfazendo-te esperas.Não subo as escadasque ascendem aos atrios das altas espheras,levando no bolso memoria sebentaque ha mais de mil annos requer um despacho,nem ponho o toutiço, já calvo aos cincoenta,em ar de tapete,em ar de capacho,no teu gabinete.Só quero dizer-te que tenho defronteda casa onde habitoum sino maldito.Não sei se t'o conte...De dia, de noite, ao sol, ao luar,não faz outra coisasenão badalar!Nem elle repoisanem deixa na rua ninguem repoisar!...Ha quem me assevere que o demo mofinomontado no sinose foi baloiçar!...Baloiça-te, pêrro! Engendra um badalodo vil pé caprinoe dá-lhe um estalo!e dá-lhe a matar!Não tremas, sabujo! que o sino foi bento;mas sabes que as bençãos são cruzes no ar;levou-lh'as o vento.Entrasse em teus ossos o meu rheumatismo;roesse a medulla; por noites e diaschumbasse-te o corpo n'um duro colchão;então saberias,ó filho do abysmo,verias entãose assim te mexias!O caso é que tucommigo caçôas e ris dos doutores,pois nunca tens dôres,e nem te constipas! e, mais, andas nu!Parece impossivel! Dá volta á cabeça!Eu cá, homem serio, que gema e padeça;que em vindo janeirome rape um catarrho!... E haver um brejeiroque passa o invernosem chuvas nem lamas!quentinho nas chammasdo próvido inferno!rival do Eterno!eterno elle mesmo! Sagaz Providencia,e és da justiça, do amor és a essencia!Bem sei que o tal sino foi feito, fundidona terra dos cirios, da Carta, do hymno,d'aquelles quarentade pêllo na ventaque ao reino opprimidoquebraram algemas d'um jugo ferino;e a Carta era um mytho, são presas do olvidoos nomes e as glorias de heroes legendariosse os sinos dormirem nos seus campanariosqual dorme a memoriados feitos illustres nas sombras da Historia.Ó Couto Monteiro, se a Carta está morta,o que é que lhe importa,que importa aos guerreiros em pó transformados,que toque ou não toquenas torres da Graça, da Sé, de S. Roque,o sino importuno masurkas e fados?!Nem isso os aquece, nem ha desafôroqual este que os templos agora profanapassando dos palcos aos orgãos do côro,aos sinos de igrejas, a copla mundana.Nem tu me perguntes: «Quem é que armarieiscom mais alegriaque o meigo innocente, do somno lethalque á treva o prendia,nos braços do Christo resurge immortal?Qual voz, como aquella, dos vivos implorapor alma dos mortos a prece final?»Por isso!... por isso, meu Couto Monteiro!O vil não repica, nem geme, nem chora,senão por aquelles que teem dinheiro!Que nasça, que viva, que durma na vallaquem é pobresinho, sem festas nem dobres!O sino só tange conforme a tabella,só diz:—Baptisou-se, dos mortos só fallase o manda osob'ranodo reino dos cobres,a libra amarella!No ceu, felizmente, vigora outra escalana qual os primeiros são elles—os pobres,e poucos ricassos, que vão por engano.Se és, qual eu julgo, christão verdadeiro.Meu Couto Monteiro,é justo que ponhas no prego o sineiroque á patria com fomepropines uns nacosde sino em patacos:verás como os come.
Mamãsinha impertinente,não te ponhas com tolices.Faze como se não vissesse vires a filha innocentelendo as minhas criancices.Deixa vãs prohibiçõesse este meu livro não queresescondido entre colchões,que é onde escondem mulhereslivros, cartas, e... orações.Depois, o livro que ensina?Muita coisa boa e máque ha de fazer a meninaporque tu, que és menos fina,as fizeste ao seu papá.E sendo condão fatalque a filhinha, que tu criascom pretensões a Vestal,siga o exemplo das tiaspela influencia carnal;Ao vêr servir de paliton'este meu livro eruditotanta gente, ha de hesitar;e á cova irá de palmito...se a morte cêdo a levar.Deixa-te pois de tolices,mamãsinha impertinente.Faze como se não vissesse vires a filha innocentelendo as minhas criancices.
Eu trago em minh'alma afflictarevolto mar de agonias.Tedio da vida os meus dias,as minhas noites, agita.Ó minhas crenças d'outr'ora,dôces amigas da infancia,a que longinqua distanciado meu peito andaes agora!N'esta cerração escuraassim me deixaes sósinho!e sem que volteis ao ninhobaixarei á sepultura!De mim te acerca bem perto,ó morte! No estreito abraçovôa commigo no espaço,leva-me d'este deserto!Mas se na mansão infinda,onde librar-me tencionas,nos dão as mesmas taponascom que a sorte aqui nos brinda;Se esguio velhote avaron'essas alturas se encontra,com seu barrete de lontra,olhar e sorriso ignaro;De fallas mansas, beatopara vêr se os santos pobres,saudosos dos magros cobres,lhe vão empenhar o fato;Se o operario, se o povocrê tambem que o mundo em ruinaha de saír da officinacorrigido e mundo novo.E em lutas, que são eternaspor lhe ser eterna a peia,quebrar pretende a cadeiae quebra a si proprio as pernas;Se n'esse logar bemditopisamos a mesma lamaque sobre a terra se chama—O Asmodeu,—O Mosquito—;Se é Mercurio almiscaradoo filho de Compostella;se por ventura um Alviellatem lá de ser encanado;Se o Milhão é quem impera;se se fez Deus o egoismo;se ha dôres de rheumatismo,e nas vinhas phylloxera:Fecha, ó anjo, as negras azas!que em tal apuro, olha o rente!tanto faz morrer a gentecomo mudar-se de casas!
Que tens tu a dizer do teu destino?Que mal... que mal te fez, ingrata, a sorte?Desunhas-te a comer queijo londrino;na polka és a mais forte;essa fulva cabeça de leôanão passa d'avellã; por isso és gosodo bravo rapazio de Lisboa.Preludias nabanzaumrigorosoque os mortos ergue, as campas despovôa.Desmamadinho já, em salto airoso,balando, os longos ecos atordôao teu futuro esposo.Calçando o largo pé na estreita botaencaixaste o Rocio na Bitesga.Capaz és tu de entrar, sendo janota,no ceu... por uma nesga.Trazes umdogueao collo... Tens na tiachaperone banqueiro. Anda estafadaa velha e mais a burra. A orthographiacomtigo, ao vêr as duas, não quer nada.Quem de môlho as barbas não poriavendo a barba visinha incendiada?!Dás á lingua durante o santo dia,e bates na criada!A coisa mais feliz de quanto existeés tu portanto. E dás então cavaco,maldizes, blasphemando, o mundo triste!e chamas-lhe velhaco!O mundo?! O mundo o que é? Por mim supponhoser apenas ironica pilheriaque Jehovah soltou quando, risonho,pretendeu descansar de empreza séria.Ha n'elle o encanto espiritual do sonho.Ha n'elle o encanto vil da vil materia.Faz rir e faz chorar, o Triboulet medonho!a divinal miseria!A graça toda está n'estasnuances;nas sombras e na luz com que preparada dôr e do prazer os varios lanceso velho Dulcamára;Nunca viste Neptuno carrancudopendurar-se nas azas da procella,roçar as cãs no ceu e em silvo agudodar por mortalha ao barco a solta vela?Agora não o vês sereno e mudocomo a brincar na praia se ennovella?Pois similhante ao mar no mundo é tudo.Resigna-te, donzella.E tudo ha de acabar, o mar e o mundo.Até do meu amor a intensidadesumir-se irá no pelago profundoda fria eternidade!Eu escrevi—amor?! Fiz mal. É grego;é grego para ti: peior,—sãoskrito;e tu nas linguas mortas não dás rego.Se um dia, por acaso, o pequenitotraquinas e cruel, alado e cego,tentasse dar-te um golpe... era bonito!Fugiria a gritar:Armas que empregonão entram no granito!Tu partilha não tens na dôce herançados anjos que voaram! Antro escuroa tua alma será! Nenhuma esp'rança!—nenhum extasis puro!Como quando ao romper da rôxa auroradeslisando na valsa doidejantesoltas da trança a rosa que descora,de si te apartará n'um só instanteo louco turbilhão que te enamora.Pallido o rosto, o seio palpitante,ao ceu perguntarás na dôr d'ess'horase a morte vem distante!O vácuo! a saciedade! o horror das trevas!Ninguem ao pé da cruz no teu calvario!Por só cortejo ao cemiterio levasum padre mercenario!Nem esse volta lá. Rezou, e a prece,em mau latim, por bons tostões foi paga.O fardo que largou mais não merece.Recebe por adeus grosseira pragad'um coveiro que o some, e breve esquece.Grão d'areia que foste ao mar co'a vaga,quem te busca depois? Quem te conhece?Teu fim quem é que indaga?Se é tempo, ó transviada, atraz teus passos!Abre o teu coração. A fé te anime.Não ha na vida mais estreitos laços.Amor tudo redime.Vêl-o-has dissipar a nevoa densaque o teu dia transforma em noite escura.Respeitada serás. Trarás, suspensade teus vermelhos labios, a ventura;que eu não sei de ninguem a quem não vençapuro amor abraçado á formosura.Serás mulher,—é essa a recompensa,em vez decreatura.Se mover-te consegue esta palestramanda morrer o cão no Instituto;compra cartilha e pedra, e prova á mestraque vales mais que o bruto.Depois reforma a tia. Irá na Graçaaccender ao Senhor trezentos lumespor tirar-lhe do lombo essa carraça.Vê-se livre da espada de dois gumesque a burra lhe sangrava, e na carcassavasto caminho abria a vãos queixumes.Menina, já que estás co'a mão na massa,reforma os teus costumes.E como incerto é sempre o bem futuroe póde arrepender-se o arrependido,vae lá pondo, á cautela, no seguroo nome do marido.
(Imitação do hespanhol)
N'um povo, perto de Cintra,foi o rev'rendo priorem fria cova deporo cadaver d'um pelintramesmo ao pé d'um seu crédor.Apenas se viram juntospor toda a vida sem fimromperam n'um tal chinfrimque, dizem velhos defuntos,ser virgem um caso assim.«Vossê pague! ai que vae torta!»gritava o crédor.—Com quê?—gemia o outro.—Não vêque entrei nú aquella portaporque nú me poz vossê?!—E n'este rosnar eterno,n'este diz tu direi eu,o crédor, que era judeu,enreda o outro n'um infernocomo o inferno em que viveu.Se em meu derradeiro instanteeu tiver crédor voraz,permitte, ó Deus, se te apraz,que por cá fique o tratantep'ra que eu, morto, viva em paz.
que em folhetim doDiario de Noticiasdirigira ao author phrases benevolas
Ó Julio, ó meu amigo, o que disseste?Fallar em nós?! Fallar em mim?! Na pested'esse Parnaso ignobil de ha trinta annos?Fui um asno sem tom, nem som, nem furo;uma coisa p'r'ahi entre os humanoscomo entre o trigo o joio; um insensatocuidando toda a vida que o futurose faz sómente como o faz o gatopor noites janeirinhas, e o meninod'onde ha de vir ridente, e róseo, e puro,é da raiz... do verso alexandrino!Tu verás, se viveres. O destinose condôa de ti a tempo e a horas,que eu já não temo nada. N'esta idadequanto mais o doutor me põe escorasmais depressa galopo á Eternidade.No dia em que florir a ideia novanem restos ha de mim na escura cova.Depois...Pensando bem, ás vezes julgoque não deve ser mau vêr estes numesna faina redemptora! E, mais, o vulgojá não crê n'outro Deus! Os bons costumesvão apanhar por fim um São Martinhoqual nunca lhes foi dado... excepto em vinhoque embrutece a razão! Pois com certezaleva umarazziao Torres e o Cartaxo!Ou bem que a gente é gente ou que é um cacho!D'amor, que é velho, temos conversado!Rua com elle! Amor é uma fraqueza.É velho e cego, e não espera luas,e quando lhe appetece faz das suas,e são as suas d'elle o vil peccado!Basta cortar-lhe bem a ponta da azae triumpha a moral. Rapaziada,nunca mais andarás no mundo em brazaatraz da tua amada!Mudei de metro como d'alimariamuda Tinoco, o bravo, na tourada,pois quanto em verso a fórma fôr mais váriamenor é a massada.Calcule-se o porvir pelo presente.Nós somos democratas;e fique o ponto assente.Noventa e tresé tudo quanto, em datas,a Historia nos tem dadomais nobre, e santo, e digno de imitado.Amor... e guilhotina!Luz d'uma aurora, d'um incendio chamma!Mayonnaisede sangue e de doutrina!Quanto o homem sublima e quanto o infama!Noventa e trese a França!Eis o lemma, eis o exemplo, a viva esp'rança.Anda tu cá, ó lemma, que te quero!Dom Bertholdinho a dar-se um ar de Nero!Somos, sim, democratas... á capucha;Marats de sêda frouxa; uma chalaçacom Marselheza indigena,—aCachucha.Palavra! que tem graça!Que o bom senso, tão raro! nos acuda;nos tome um dia a sério!Não ha Sebastião nenhum da Arruda,suando phalansterio,que não mande estampar nos seus bilhetesarmas ducaes, brazões de pataratas!Morremos por trincar a monarchia;mas trincamos-lhe a ceia e os sorvetesemquanto lá do ceu Deus não envianovo maná... de instituições baratas!...Uns typos! Bons, pacatos, sem ter odiosnem bombas... a não ser de Santo Antonio,bombas de luxo, bombas só de estrondo;indo buscar pretextos para brodiosa casa do demonio,e quando os não achamosnem dentro em nossa casa nem na estranha,calçado a polimento o pé redondo,vazio o coração, repleta a entranha,vêr desfilar a procissão de Ramos.E n'este ambiente, em pleno Rilhafolles,no ardor da Saturnal, sonhaste, ó Julio,que um velho gordo, com as carnes molles,sem ter outro peculioalém do rheumatismo, sertanejo,viria empetit-maitredar aos follesdo outr'ora enamorado realejo?Desde que o maganão do deus Cupidonão tem na aljava setta que me fira,passou-me do sentidotudo quanto em rapaz tanto sentira.Rabisaltona musa é hoje em diaquem me ampara e conforta, e quem me inspira.Quando fugir, morri. Outra alegriaqual te foi dada a ti, sol na velhice,conceder-m'o não quiz quem bem podia.E fez uma tolice.Eu sei se a fez, ou não; modestia á parte.E só para dizer-te uma palavrad'affecto e gratidão moí d'est'artea tua paciencia! Antes do Lavrasubisses a calçada,ou lesses uma peça premiada.Era muito, bem sei; mas era menos.Obrigado, meu Julio. Isto, em resumo,devera ter escripto. O mais é fumo.Deixa-o seguir no espaço o ignoto rumo,e dá saudades minhas aos pequenos.
É novembro, e faz um frio!Eu então é que ando em braza!Pudera! se o senhoriome pede a renda da casa!Réles cobre em vão recrutono lidar da vida insano.Desertam n'um só minutoas vis poupanças d'um anno.Embora á carne dê tratos,á velha carne exigente,deixando passar os pratossem pôr nos piteus o dente;Embora esguia quinzenatraga já no extremo fio,e córte a rara melenasó pelas calmas, no estio:Não coalha esta formiganem grão, nem sequer paveia!Sempre na mesma fadiga,enche... vasa... o pé da meia!Sob o teimoso aguaceirode tanta renda de casas,depennado, em meu poleiro,metto a cabeça nas azas.Cança o sorrir da ventura;o rigor da sorte cança;só por entre o que não duravae sempre durando a esp'rança.Eu espero a moradia,onde de graça me acoite,no seio da terra fria;nas sombras da infinda noite!Ao menos no eterno gelo,nos fundos antros escuros,não terei por pesadêlomeus senhorios futuros!Um é Deus: a esse um amigosatisfaça em padre-nossos.Outro é o verme: eu cá o espigodando-lhe em paga os meus ossos.
Era em agosto. O norte, desabrido,mugindo como um toiro, sacudiaos troncos do arvoredo. Ia-se o dia:um dia d'amarguras tão compridoque eu cheguei a pensar que a Eternidadenas chammas infernaes já me envolvia!Por meu mal terminou! que um outro veiodepois d'aquelle, e foi peior mil vezes!A minha irmã, á dôce companheirada longinqua, saudosa mocidade,coubera, nova ainda, a feliz sortede ter, após tres longos, tristes mezesd'um filho haver perdido, achado a morte.Antes d'ella expirar, á cabeceira,em torno do seu leito, se agrupáratudo quanto durante a vida inteirafôra por ella amado, e tanto a amára.Eu, fingindo sorrir, assim dizia:«Agora estás melhor. No rosto as rosasda antiga primavera! Olhos em fogo!Uns olhos como d'antes! Vês, Maria,que estás melhor agora?! Em desafogorespira o peito já! Estas nervosasdão vontade de rir! Que espalhafato!Um cortejo de coisas! Raça estranha!Por isso o outro fez com que a montanhadésse, aturdindo a terra, á luz um rato!Vae a galope a enferma que melhora.Ámanhã, ou depois, saltarás fórad'essa importuna cama. O que te cançaé ter o corpo ahi. Vamos a Pizapassar o inverno todo. Alli serenossão sempre os ceus. Alli tepida a brizadá vida a um velho! Então a uma criança!«Tontinha é o que tu és! que estás chorando!sem que saibas porquê, aposto, ao menos!Iremos todos, grandes e pequenos!Quasi uma romaria, um cirio, um bandod'alegres passarinhos chilreandopor essa Europa além! Tu, pregoando:Quem quer saude? Quem? Vende-se e dá-se!irás distribuindo, co'a mão cheiad'essas papoilas, umbouquetvermelhoque pouco e pouco a desbotada faceha de tingir-te e... até fazer-te feia!»—Iremos todos, sim!—fraca, tossindo,a pobre interrompeu:—Sim!... Vamosindo.É então ámanhã que eu d'aqui saio?Depressa ámanhã vem! Dá-me esse espelho.Se tu não mentes devo estar um Maio!—Mirando-se, volveu:—A minha penaé que...ellas... me não vejam n'este instanteem que finda a comedia e deixo a scena!Se eu não soubesse que este mundo é um sonho;se trouxesse o meu Deus de mim distante;como este despertar fôra medonho!—Depois foi repartindo as suas prendaspor quantos eram lá.—A ti... primeiro.Lego-te... dou-te... aquelle meu tinteiro.Tu fazes versos. Sei que não te emendas;sempre te serve aquillo!—Desde ess'hora,e já lá vão cumpridos bons trinta annos,quando me engano a mim n'esses enganosda musa brincalhona, raro mólhoa penna folgazã que me não traganos bicos uma lagrima.Ai!... Eu ólho...aos abysmos do mar pergunto: «A vaga,que eu vi sumir-se, onde é?»E o mar afagaa praia em que a deixei, e vae-se embora,e volta, e vae! mas não responde; chora.
Não, Rachel, não desvario.Venus, o estylo é antigo,os seus dotes repartiobem largamente comtigo.Deu-te esse corpo divino!esses seios palpitantes!Fosse eu inda pequeninoe tu minh'ama! Que instantes!Por ser branca e por ser loiratem o loiro em menos preço;por isso te deu da moirao negro cabello espesso.Chega aos olhos... De repentevê que não tem na palhetacôr nenhuma refulgentepara imitar um planeta.Corre logo á fonte limpa;e procedeu com acertoque em ocios não se repimpaquem se encontra em duro aperto.«Ó dôce noite», ella exclama.«Tu tens estrellas a esmo.Duas quero em rubra chamma,quasi soes; dois soes. É o mesmo.»A Noite, que é velha fina,e foi sempre a Venus dada,responde:—Minha menina,só para a outra fornada.—«Pois ao forno! e já! que eu pago!»A Noite, ouvindo-a, lampeira.A estrada de São Thiagodeitou logo na caldeira.Fogo ao lado, e fogo ao centro!Quando a fervura era vivao sete-estrello p'ra dentro!e folhas de sensitiva!Ao cabo de poucas horasem duas orbitas fundasdespejou duas aurorascom que est'alma em luz inundas.Venus pulou de contente;mas depois... (que são mulheres!)disse á outra em tom plangente:«Adeus!... O que tu quizeres!...«Fizeste-a fresca! Eu reinava.Era no Olympo a mais bella.Passei de rainha a escrava.A Venus agora... é ella!»
Traducção da fabula de Lafontaine—Le Loup et le Chien