ADOLPHO CAMINHA

Nota de editor:Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.Rita Farinha (Jan. 2008)ADOLPHO CAMINHANO PAIZDOSYANKEESDOMINGOS DE MAGALHÃES—EDITOR54 RUA DO OUVIDOR 54LIVRARIA MODERNARIO DE JANEIRO1894NO PAIZ DOS YANKEEScruzador "almirante barroso"ADOLPHO CAMINHANO PAIZDOSYANKEESRIO DE JANEIRODomingos de Magalhães—editor54 rua do ouvidor 54LIVRARIA MODERNA1894Do mesmo autor:A NORMALISTAI vol. broc. 3$. cnc. 5000Em preparação:BOM—CRIOULOTyp. da Empreza Democratica Editora—Rua do Hospicio n. 11Taine, o glorioso Taine, o querido philosopho, cuja obra admiravel tem sido uma especie de bussola para os que se iniciam na complicada arte da palavra; Taine, o mestre, aconselhava sabiamente, com aquella profundeza de vista e com aquelle raro e superior criterio de artista e pensador:—«Que chacun dise ce qu'il a vu, et seulement ce qu'il a vu; les observations, pourvu qu'elles soient personnelles et faites de bonne foi, sont toujours utiles.»Devo a estas palavras a lembrança de escrever as multiplas impressões, os successivos transportes de admiração, de jubilo e tristeza por que passou meu espirito durante alguns mezes de viagem nos Estados-Unídos.A principio afigurou-se-me obra de alevantado alcance e de extrema coragem traçar, ainda que ligeiramente, o plano de um livro sobre a grande nação americana, tão singular em seus costumes, em sua vidaagitada e tumultuosa, em seus variadissimos aspectos...E de facto, esse trabalho, essa difficil tarefa demandaria, incontestavelmente, muito mais que uma somma de notas mais ou menos verdadeiras e algum estylo. Era preciso, antes de tudo, um elevado criterio historico e scientifico, grande cópia de conhecimentos e profundo espirito analytico.Não se escreve a historia de um paiz,—a vida inteira de um povo—semdemorar-se em largo e paciente estudo sobre as suas origens, seus habitantes primitivos, sua evolução politica e social, suas luctas intestinas e sobre os elementos que mais directamente influíram para sua independencia.A elles, os historiadores e analystas da sciencia, tão arriscada empreza.Os poucos mezes que passei nos Estados-Unidos apenas me proporcionaram ensejo de admirar, atravéz de um prisma todo pessoal, o progressoassombroso d'esse extraordinario paíz.Comprehendem-se, pois, os meus intuitos: nada mais que reproduzir, com a possível exactidão,o que vi, somenteo que vinessa interessante viagem ao paiz dosyankees.Procurei ser espontaneo e simples, natural e logico, evitando exageros de observação e o estylo rebuscado e palavroso dos que, á fina força, pretendem transformar a litteratura n'uma simples arte mecanicade construir phrases ôcas e coloridas.Escriptas em 1890, as paginas que se vão ler podem não ter a importancia de um estudo completo, mas de algum modo têm seu valor intrinseco.Rio, 1º de Agosto de 1893.Ad. CaminhaNO PAIZ DOS YANKEESI...Tinha cessado a faina geral de suspender ancora. Os marinheiros estavam todos em seus postos, alerta á primeira voz, silenciosos, enfileirados a bombordo e á boréste, alguns convenientemente distribuidos na pôpa, na prôa e nas cobertas do cruzador.Noite escura e chuvosa, cheia de nevoeiro e tristeza, fria, sem estrellas, cortada de clarões longinquos. Tão escura que se não distinguia um palmo diante do nariz, tão feia que os bicos de gaz da cidade, soturna e quieta, bruxoleavam pallidamente com a sua luz tremula e vacillante...E comtudo estavamos a 19 de Fevereiro, em plena estação calmosa, no rigor do verão.Chuvera todo o dia. O céo conservava-se coberto de nuvens bojudas e côr de chumbo, velando uns restos de lua.Um grande silencio de alto mar alastrava-se por toda a bahia do Rio de Janeiro. Sómente ao longe, para os lados da cidade, badalava o sino d'uma egreja, compassado e lugubre.De vez em quando passava rente com a pôpa doBarrozoo vulto sombrio e largo de uma barca Ferry, com o seu pharól de côr, dezerta, indistincta, e que desapparecia logo na escuridão.Seria meia noite quando o navio começou a mover-se lentamente, caminho da barra, cheio da silenciosa melancolia dos que partiam, e uma hora depois a cidade, as praias, e as montanhas sumiam-se na distancia, como si o mar as fosse engolindo com a voracidade de um monstro.Restava apenas um ponto luminoso, uma visão microscopica da terra fluminense; era opharol da ilha Rasa tremeluzindo, como palpebra somnolenta, atravéz da noite.E todos a bordo, todos silenciosamente, egoistas na sua dôr concentrada e incommunicavel, mandaram ainda um—adeus—profundamente saudoso á vida alegre e ruidosa do Rio.Dizem que o homem do mar é insensivel aquelles que nunca viram esta realidade: a lagryma da saudade brilhar na face de um marinheiro.Lá fomos mar afóra...Pernambuco foi o primeiro porto da nossa escala.Viagem monotona, sem accidentes notaveis, essa do Rio ao Recife. As horas succediam-se n'uma uniformidade tediosa e imperturbavel. Sempre o mar, sempre o céo, ora sombrios, ora azues...Durante o dia 21 avistámos, e isso nos consolou,umavela que bordejava, muito branca, triste garça erradia no horisonte luminoso.Para quem viaja no mar uma vela que se avista é sempre motivo de innocente alegriaO marinheiro com especialidade gosta de seguil-a com o olhar nostalgico até perdel-a completamente. É como ao avistar-se terra depois de longa travessia: sente-se a mesma impressão bôa e indefinivel.Na manhã de 26—léste-oeste com o pharol de S. Agostinho, e ás onze horas recebiamos o pratico.Impossivel entrar nesse dia, por falta de maré: passámos a noite fóra, no Lamarão, aos solavancos, vendo, por um oculo, a cidade do Recife, illuminada e bella, hombro a hombro com a legendaria Olinda dos hollandezes e dos banhos de mar.Na falta de outro assumpto falou se de historia patria.Pela manhã de 27 oBarrozosulcava as aguas do Lamarão, lento e magestoso, crivado de olhares. O povo saudava-o do cáes da Lingueta. Espalhou-se logo que o principe D. Augusto, neto do imperador, vinha a bordo, e toda a gente correu a recebel-o com essa avidez instinctiva das massas populares. O povo pernambucano, tradicionalmenteinimigo dos imperadores, lembrava-se do tempo em que o Sr. D. Pedro de Alcantara dava-se ao luxo de visitar o norte.Mais tarde, ao desembarcar a turma de guardas-marinha, de que fazia parte o principe, subiu de ponto a curiosidade publica.—Oh! o principe!—Que é d'elle?—É um ruivo?—É aquelle barbado?O pobre moço viu-se em apuros, e mudava de côres, e fazia-se escarlate, e vociferava contra a plebe, occultando-se entre os collegas, desapontado. Um preto velho teve a lembrança de ajoelhar-se aos pés de S. A. e supplicar-lhe uma esmola. Aconteceu, porém, que errou o alvo e foi direito a um outro rapaz, louro e rubro, como o principe, que se apressou em desfazer o engano.O imperial senhor achava-se ridiculo no meio de toda aquella multidão servil e anonyma que o acompanhava, «como si visse n'elle um animal selvagem...»É assim o povo—ingenuo, pueril.Visitámos, em romaria, os principaes edificiospublicos: a Penitenciaria, a Assembléa Provincial, o Gymnasio, o Theatro.A nova Penitenciaria do Recife é um bello edificio no genero.Impressiona tristemente esse casarão sombrio com escadarias de ferro, onde mal penetra a claridade meridiana.Ha criminosos de toda a especie, em cujos semblantes retratam-se delictos tenebrosos. Nada, porém, nos commoveu tanto como a historia do preso Gustavo Adolpho, que, ha quasi vinte annos, cumpria a terrivel sentença a que fôra condemnado. Era um d'esses sentenciados sympathicos que inspiram compaixão a quem os observa de perto.Um dos nossos companheiros desejou saber a historia do seu crime e pediu ao infeliz que lh'a contasse elle proprio.—Não queira, disse o condemnado, não queira obrigar-me a fazer minha propria autopsia moral... Narral-a, essa historia, seria um supplicio muito maior do que estar eu aqui, n'este carcere, ha vinte annos...Gustavo Adolpho parecia-nos um regenedo,tal o aspecto humilde de sua physionomia e o tom commovente de sua voz. O isolamento transformara-lhe a alma. A dôr tem isto de bom—purifica o espirito, é como um crysol. Esse infame, esse assassino, Gustavo Adolpho, era um martyr. Aquelle semblante abatido pelas insomnias, aquelle rosto descarnado, aquelles olhos cansados de chorar, aquelles labios lividos de defunto, cansados de repetir a palavra—perdão, lembravam a figura resignada de um moribundo que nada mais espera senão a eterna liberdade—a morte...Vimol-o na casa dos condemnados, entre as quatro paredes de um miseravel cubiculo, vestido de preto, barba crescida, macilento, arrependido e só.Poucos iam incommodal-o ali, n'aquella pavorosa solidão, e no emtanto elle não odiava ninguem e desejava falar a todos.Tinha dezenove annos quando a fatalidade o arremessou a Fernando de Noronha. A justiça humana o havia condemnado a esta pena infamante—galés perpetuas.Perdoar a um arrependido nas condiçõesde Gustavo Adolpho, me parece a mais nobre acção de um rei. Todavia elle continuava, mendigo de liberdade, a pedir, a pedir...Por diversas vezes a academia de direito, pelo orgão de seus representantes, exorara a piedade imperial, mas o imperador nunca estendeu o seumagnanimoolhar até aos carceres senão em certos dias de gala natalicia para indultar os escolhidos da politica dominante.—Console-se, disse eu ao desventurado moço. E citei Lamartine:—Vivre c'est attendre...Retirámo-nos commentando aquella catastrophe desastrada.A historia tragica d'esse preso foi-nos contada por um empregado do estabelecimento. Eu podia resumil-a em duas palavras:—cherchez la femme, si não fosse o prurido de registrar, ainda que brevemente, um caso curioso de processo crime. Cada um tire as illações que lhe aprouverem.Gustavo Adolpho nasceu no Pará onde iniciou seus estudos como seminarista.Muito cedo seu espirito mostrou-se refractario á educação ecclesiastica, e desviou-se dos livros sagrados para outro genero de leituras e estudos mais concentaneos com as suas aspirações.Os paes do nubil seminarista desgostaram-se com o procedimento do filho revolucionario e ardente apologista de Martinho Luthero, que não occultava-lhes suas tendencias anti-catholicas. Elle, porém, o apostata, o hereje, sentia-se instinctivamente arrebatado pelas idéas do seculo e tratou de trocar a sotaina de noviço pelo frak á ultima moda. Ninguem põe peias á fatalidade. Não contente com ir de encontro á vontade de seus paes e preceptores, o ex-seminarista tomou o primeiro vapor, e, subito, vio-se na capital do Brazil, sem um amigo que o guiasse n'esse labyrintho de ruas suspeitas onde o vicio assentou praça. A rua do Ouvidor e os theatros sempre eram mais agradaveis que o claustro e as impertinencias do reitor,—muito mais...Pobre Gustavo Adolpho! Salvara-se de um abysmo para precipitar-se imprudentemente,como creança inexperta, n'outro abysmo talvez mais perigoso.Sem amigos, sem protecção, longe de sua terra e de seus paes,—que podia esperar o joven desconhecido n'aquelle turbilhão de vis interesses?Imbert-Galloix, um italiano, tambem adolescente e cheio de esperanças, intelligente e trabalhador, morreu de miseria n'uma rua de Pariz, por ter trocado sua patria natal por um paiz que só conhecia de nome. Fôra em busca de glorias e encontrou a miseria, o frio, a fome, e a morte por fim.Esses sonhadores como Imbert-Galloix são sempre victimas da propria imaginação.A sorte de Gustavo Adolpho foi mais cruel.Custa a crêr que um insignificante par de brincos leve um homem á cadeia e depois ao exilio perpetuo!Uma vez sem meios de subsistencia, luctando com a má vontade de uns e a indifferença de outros, Gustavo Adolpho, que tinha certa dóse de espirito, d'esse espiritofino que caracterisa o homem de talento, fez-sebohemio, isto é, indifferente á vida, nomade a quem tanto faz dormir sobre flacido colxão, como ao relento e sobre a lage das calçadas. Ora, os bohemios são umas creaturas sympathicas. Quando um bohemio tem espirito acha sempre quem lhe estenda a mão. Gustavo Adolpho preferiu a mão leve, alva e setinosa, de uma cortezã pela qual apaixonou-se devéras.A mulher, sempre essa creatura profundamente seductora e mysteriosa!E, parece incrivel! quando na primeira noite, após as ineffaveis caricias do amor, a misera Manon, adormecida ao lado do amante, sonhava, talvez, n'algum banquete sumptuoso, á sombra d'alamos frondosos, talvez n'alguma de suas passadas orgias, á luz de candelabros deslumbrantes, elle, o malaventurado moço, cujo olhar fitava na meia sombra da alcova o rosto sereno de sua amante, antepensava um crime e um crime excepcional, monstruoso, inqualificavel.—Estes brincos, estes brincos... pensavaelle fitando as joias, duas grandes lagrimas de diamante pendentes das orelhas da rapariga. Seu espirito oscillava como um pendulo na duvida terrivel, aguçado por um desejo louco.Eil-o que se levanta de um impeto, pisando devagar, surrateiramente, tão de leve que dir-se-ia uma sombra; eil-o que se encaminha para a porta da rua, tacteando, encostando-se as paredes, pé ante pé, sem respirar, olhando sempre para traz, para o leito da amante (lembra-me a scena da «Cymbelina» de Shakspeare).Meia noite... Eil-o ainda que volta e se approxima do leito onde ha pouco boiara em mar de volupia. Traz na mão um objecto reluzente, uma cousa disforme... uma machadinha.Que irá elle fazer?!...Approxima-se mais, rastejando quasi, mansamente, subtilmente.De repente sôa uma pancada surda, e um grito estrangulado:—Soc...corro! Sôa outra pancada surda, outra, outra, muitas pancadas,e sobre os brancos lençóes d'aquelle malfadado leito palpitam as carnes sangrentas, moribundas, de um corpo de mulher que ainda ha pouco sentia e pensava...Obseccado pela idéa do roubo, o assassino arranca brutalmente as joias do cadaver, e, á luz do combustor de crystal, reconhece que são falsas!Foge rua fóra, como um possesso, enfia num becco, sae por outra rua, e desapparece na escuridão da noite.No dia seguinte seu nome lá estava estampado em letras garrafaes no livro dos réos: «Gustavo Adolpho... preso pelo duplo crime de assassinato e roubo.»Mais tarde, annos depois, o joven criminoso tentou fugir de Fernando de Noronha onde fôra recolhido. Prenderam-no em flagrante. E ha poucos mezes, no anno passado, a princeza Isabel, então regente do Brazil, abriu-lhe as portas da prisão.Gustavo Adolpho publicou, no degredo, um livro de versos intituladoRisos e Lagrimas, uma collecção de poesias sentimentaese amorosos que pouco valem pela fórma e onde se acham crystalisadas as dôres do infeliz poeta, cuja imaginação cantava entre lagrimas.Penalisou-nos a sorte d'esse rapaz sympathico e intelligente.Havia, alem de Gustavo Adolpho, outro preso não menos interessante e que nos excitou a curiosidade. Indigitado autor de não sei que roubo, fôra condemnado igualmente a galés perpetuas.Interrogado, disse-nos contar oitenta (!) annos de idade e possuir familia numerosa:—mulher e 30 filhos!—Qual foi o seu crime? perguntámos.O velhinho todo tremulo, a cabeça muito branca; uma nevoa humida no olhar, sem forças quasi para dar um passo, murmurou tristemente:—Nenhum, meus caros senhores... Supponho que houve engano da justiça...—E si lhe dessem liberdade agora?...—De que me servia? Mal me tenho em pé e já não sei de minha mulher e de meus filhos,Estou muito velho, preciso morrer descansado aqui mesmo na prisão.O edificio da Penitenciaria tem, logo á entrada, a seguinte inscripção em marmore:No dia 23 de abril de 1885 sendo presidente da provincia o Illm. Sr. Conselheiro Dr. José Bento da C. Figueiredo foram removidos os presos para este edificio organisado sob a direcção do engenheiro José Mamede Alves Pereira.Contava, portanto, trinta e cinco annos.Foi a mais interessante de todas as nossas visitas em Pernambuco.IINo dia 27 deixámos o Recife em direcção ás Antilhas.Como até ahi, a viagem continuou a vapor,—uma verdadeira viagem de recreio si não fosse a exiguidade dos commodos a bordo do cruzador.O commandante levava ordem para chegar a Nova Orleans em tempo de assistirmos a abertura da exposição internacional americana, onde oAlmirante Barrosodevia figurar como legitimo e admiravel producto da industria naval brazileira tão pouco conhecida no extrangeiro.Adoptavamos, sempre que o vento permittia, a navegação mixta, e deste modo, á velae a vapor, arrastados pelas correntes maritimas que puxam para o norte, alcançámos, a 2 de Março, a linha equatorial, onde apanhámos alguns chuviscos debaixo d'uma athmosphera ardentissima.Reinava «calmaria pôdre». Ferraram-se as velas á mingua da mais leve aragem, armaram-se os toldos para que podessemos supportar o calor na tólda, e os banhos salgados de ducha foram recebidos com especialissimo agrado. Suava-se a valer. Imagine-se: embaixo, no porão, as fornalhas accesas, e em cima o sol ardente, o medonho sol do equador, cahindo como um caustico sobre o navio.Á tardinha incendiavam-se os horisontes de um colorido rubro, ensanguentado, de magica, reflectindo-se no espelho do mar tranquillo como num grande lago de crystal...Demos graças a Deus quando nos vimos fóra de tão desagradaveis regiões.No dia 11 avistámos terra de Barbados, uma das mais prosperas colonias inglezas das Antilhas. Era o primeiro porto extrangeiro do intinerario.O Capitão do Porto foi o primeiro personagem que pisou a bordo: um inglez de aspecto duro como em geral o de todo inglez, olhando atravéz de uns grandes oculos azues e ostentando fleugmaticamente um par de soiças ruivas. Trajavadolmanbranco, muito justo ao corpo, calças de panno preto e chapéo de cortiça branco, de grandes abas, tombado para a nuca.Fez a visita sacramental e poz-se ao fresco em menos de dois minutos, depois de um fortissimoshake-hand.A ilha de Barbados vista de bordo é de uma nudez quasi completa: nenhuma vegetação cobre as vastas planicies que primeiro ferem a retina do observador. Ao approximar-se-lhe, porém, novas paisagens de effeitos cambiantes vão-se desenrolando á maneira de cosmorama. Moinhos rodam ao sopro do vento que ordinariamente é fresco ahi, casas de campo confortaveis, arvores, chaminés fumegantes, tudo isso vai apparecendo á medida que nos approximamos, até que, com verdadeira surpresa, surge-nos toda a cidadede Bridgetown e então basta um golpe de vista largo para abrangel-a.Á distancia Bridgetown semelha uma pobre cidade deshabitada, sem indicio de civilisação. A surpreza que experimenta o viajante é completa depois. Alguem que ahi esteve annos antes admirou-se da enorme quantidade de embarcações inglezas surtas no porto. Entre estas contavam-se quatro encouraçados, bonitos vasos que honram a Inglaterra affirmando o grande poder maritimo desse paiz, cuja esquadra ainda hoje não tem rival no mundo.Um dia e meio—eis todo o tempo de nossa demora em Barbados, tempo sufficiente para conhecermos a ilha avol d'oiseau.A população, na maior parte negra, é composta de gente de baixa classe e geralmente intratavel.Abundam osciceroni, especie curiosissima de especuladores, que perseguem os viajantes de uma maneira barbara. Querem, á fina força, ensinar-lhes as ruas, os hoteis, e não os largam emquanto não satisfazem a suaambição, cobrando, no fim de contas, certo numero deshillings.Falam umpatoisdetestavel; ninguem os entende com facilidade. Imagine-se um pobre diabo acompanhado d'uma multidão que grita e fala idioma desconhecido a repetir-lhe alto aos ouvidos:—Came hear! came hear!discutindo, altercando-se de cacete em punho. O misero julga-se por um momento transportado, como por encanto, ás costas d'Africa, fecha ouvidos á grita dos importunosciceroni, brada mil vezesno, no, no..., e não tem remedio senão deitar a correr como um possesso, perseguido sempre pela turba multa de vadios, até que, depois de uma lucta incrivel, esguedelhado, offegante, pallido, embarafusta pela porta d'um hotel escorrendo suor, esfalfado, morto de cansaço!E ainda por cima vociféra a legião faminta dos negros!Nao exagéro. Parece realmente um paiz semi-barbaro aquelle, e ai! de nós si não fossem ospolicemen, a, activos e energicos guardas da vigilancia publica, que a um simplesfranzir de sobr'olhos fazem desapparecer a medonha horda de capadocios, ou que melhor nome tenham esses turbulentos demonios.É espantosa a ambição do povo por dinheiro.Ao tilintar domoneysurgem de repente vinte, trinta cabeças negras, cada qual mais negra, disputando a posse do precioso metal.Basta dizer que ainda não tinhamos fundeado e já grande numero de pequenas embarcações á vela e a remos,—fly boats,—approximavam-se do navio, cortando-lhe a prôa com risco de serem espedaçadas. Ouvia-se, então, de todos os lados vozes que gritavam:—I am pilot! I am pilot!Embalde procuravamos persuadir áquelles esfaimados de dinheiro que não precisavamos de pratico, pois a bahia de Bridgetown é bastante espaçosa e offerece entrada franca.Davamos com o lenço, mandando-os embóra—que não! mas os gritos repetiam-se:—I am pilot! I am pilot!Todos queriam, a troco de dinheiro, conduziro navio extrangeiro ao ancoradouro e para isso exigiam um preço fabuloso.Formidaveis importunos os taes negros de Barbados!A edificação de Bridgetown, puramente ingleza, é curiosa, pittoresca mesmo, si bem que uniforme.As casas, baixas quasi todas, geometricamente dispostas, alpendradas na frente, simples e elegantes na sua architectura, são confortaveis e convidam aofar-niente.As ruas, porém, estreitas e mal calçadas, são, por assim dizer, intransitaveis, em consequencia do poeiral que sobe, como fumaça, ao rosto dos transeuntes.No que respeita a estabelecimentos importantes, vimos a—St. Leonard's Schoole uma igreja-cemiterio.A estatua de Nelson, o heroe de Trafalgar, ergue-se, em bronze massiço, n'uma das melhores praças do logar—Nelson's square, si me não engano.Os poucos hoteis que existem na ilha são vastos e offerecem o necessario conforto aoviajante: boa mesa, bons petiscos, magnifico vinho, deliciosos sorvetes—ice-cream—e, finalmente, boas camas e muito aceio.O brazileiro que viaja, com raras excepções, tem necessidade imprescindivel de duas cousas que elle julga essenciaes ao seu bem estar: café e cigarros.Spleene charutos—são cousas inseparaveis de um inglez da Inglaterra; café e cigarros—eis o que um brazileiro não dispensa.Infelizmente para nós, o café, tal qual se prepara em Barbados, é um licor detestavel composto de muito pó e pouca agua, que os naturaes mixturam á guisa de chocolate, mas de um sabor desagradavel, repugnante.Duas linhas de bonds percorrem a capital d'um extremo a outro.A ilha é circumdada por uma via-ferrea.De resto, é admiravel senão assombroso o progresso d'essa colonia, relativamente pequena e tão longe da metropole.E, note-se, de vez em quando atravessam aquellas regiões terriveis cyclones produzindo estragos incalculaveis em toda a extensão dailha. Innumeras embarcações, algumas de grande porte, têm sido arrojadas á costa por esses formidaveis meteóros. O ultimo cahiu em 1851 e figura nos annaes da navegação como um dos grandes desastres maritimos do Atlantico.IIINa manhã do dia 13 suspendemos ancora em direcção á ilha da Jamaica, fundeando no mesmo dia na bahia de Port-Royal.Denso nevoeiro envolvia, como uma gaze alvissima, as altas montanhas que orlam magestosamente a antiga colonia hespanhola.Ao approximarmo-nos da pequena e elegante cidade de Port-Royal, pedimos pratico o qual nos levou á Kingston.O brazileiro que, depois de longa ausencia do Brazil, chega á Jamaica sente logo um prazer especial, um fremito de patriotismo, ao contemplar as soberbas montanhas da ilha, tanto ellas lembram a natureza do nosso paiz. A bahia, salpicada de interessantes ilhotas deverduras, verdadeiras ilhas fluctuantes, em cujas aguas immoveis bandos de aves ribeirinhas ostentam sua plumagem garrída e multicolor, voando d'uma margem á outra n'uma contradansa animada, offerece aspectos lindissimos. Jamaica parece um pedaço do Brazil transplantado para as Antilhas, tal a opulencia da sua natureza.É a maior e a mais florescente das colonias inglezas da America depois de Barbados. Mede approximadamente quarenta leguas de comprimento.Kingston não é uma cidade como Bridgetown, onde a cada passo depara-se com uma prova de adiantamento material. É, por assim dizer, uma capital morta, quasi sem commercio, mas, em compensação, muito mais pittoresca que a capital de Barbados. Os habitantes são morigerados, e uma paz religiosa parece reinar no seio de cada familia.Ha mais pobresa, é certo, mas incomparavelmente o povo é mais educado, mais pronunciado o instincto de civilisação.Muitas estatuas. Vimos as de Lewis QuierBower Bonk, nascido em 1815, Edward Jordon, um dos principaes fundadores da—Jamaica Mutual Life Assurance Society, Sir Charles Theophilus Metcaf, governador em 1845—todas ao redor de um parque. Isso prova quanto respeito infunde ao inglez o nome de um compatriota celebre.Um brazileiro estabelecido em Kingston disse-nos ser oAlmirante Barrosoo primeiro navio brazileiro que ahi aportava desde 1871.Nossa demora em Jamaica foi rapida como em Barbados. Telegrammas officiaes do Rio apressavam-nos cada vez mais. Já se havia inaugurado a Exposição de Nova Orleans; era-nos forçoso assistir ao menos o encerramento. Estavamos convictos de que o cruzador brazileiro ia figurar com brilho no importante certamen americano. Tanto em Bridgetown como em Kingston não lhe faltaram elogios de pessoas competentes.Todos anceavamos pela chegada ao paiz maravilhoso dosyankees, ao berço da electricidade, todos queriamos conhecerde visuo celebrado paiz das descobertas engenhosas.Desde logo entrámos, de combinação, em «serios» estudos do idioma inglez praticando uns com os outros, compulsando manuaes de conversação, decorando significados, preparando-nos, emfim, da melhor forma, para retribuir gentilezas, captar amizades, responder a todas as perguntas que nos fossem feitas á queima roupa. Sim, porque tudo quanto haviamos aprendido theorica e praticamente na Escola, não era bastante. Faltava-nos a facilidade, o traquejo da palavra extrangeira, que haviamos de adquirir á força de vontade e applicação assidua.Alguns officiaes, entre os quaes o commandante, riam-se do nosso apuro, e, de vez em quando, atiravam-nos de surpreza uma pergunta em inglez. Quanto disparate, quanta tolice a principio! O certo é que depois, com o tempo, já nos entendiamos soffrivelmente.Noblesse oblige...IVA hospitaleira sociedade de Jamaica havia-nos conquistado a sympathia. Todos sentimos deixar tão cedo aquella encantadora ilha, cujos habitantes nos tinham prodigalisado tão generoso acolhimento. Lenços ascenavam para bordo ao deixarmos o ancoradouro ás 5 horas da tarde de 21, despedindo-nos talvez para sempre d'essa boa gente.Durante os dias 22 e 23, mar e vento rebellaram-se contra o navio.Navegavamos á bolina, sempre á vela e a vapor, amurados por bombordo.Grandes rajadas frias sopravam do norte, cantando nos cabos da mastreação, sacudindo-os com violencia.O thermometro baixara sensivelmente, e a columna barometrica punha-nos calefrios...O mar quebrava-se de encontro ás bochechas do cruzador desafiando-lhe a resistencia colossal.Sabiamos que a latitude em que navegavamos, nas Antilhas, era muito frequentada pelos cyclones, esses terriveis inimigos dos navegantes, que arrastam em sua cauda milhares de vidas. Receiavamos esses phenomenos tanto mais porque os seus effeitos fazem-se sentir a grandes distancias.Os symptomas visiveis, si não eram evidentes, approximavam-se das descripções de navegantes experimentados. O céo estendia-se limpo, como um largo pallio azul esbranquiçado; apenas no horisonte fluctuavam pequenosstratusem fórma de rabo de gallo e algumas estrias avermelhadas, escarlates, despertavam-nos a attenção.Ao meio-dia o sol tinha uma côr baça, com um disco azulado ao redor.E crescia o mar em vagalhões medonhos e esfusiava o vento no cordame.O navio caturrava e arfava morosamente; ouvia-se o barulho do helice trabalhando fóra d'agua.Pela madrugada de 24 lobrigámos por boréste o pharol da ilha de Cuba, de luz muito branca, e no dia seguinte sulcavamos o golfo do Mexico.Poucos dias restavam para alcançarmos Nova-Orleans.E nada do supposto cyclone!Por via de duvidas, como o tempo continuasse borrascoso, ferrámos a maior parte do panno, conservando apenas as gaveas risadas nosterceirose a mezena de capa.Capeámos tres dias consecutivos, sem que apparecesse o medonho visitante.No quinto dia o vento amainou rondando para nordeste e o mar, por força das circumstancias, tambem acalmou-se. Ferrámos o resto do panno, navegando só a vapor.A idéa da chegada preoccupava todos os espiritos. Os Estados-Unidos eram o assumpto de todas as conversações.Cedo tratou-se da limpeza do navio.Cada qual tratou de si, de sua roupa, de seus objectos que o mar sacudira de um lado a outro dos camarotes. Os alojamentos apresentavam o curioso aspecto de um campo de batalha; malas confundiam-se umas sobre outras formando empilhamentos, a roupa branca usada andava de mixtura com os fatos novos de panno; livros, papeis—tudo quanto era de uso quotidiano estava espalhado no convéz, como si andasse por ali alguma creança traquinas.Guerra ao môfo! Roupas ao sol! Ninguem se fez esperar. Começaram as arrumações, uma faina açodada, durante a qual soaram boas gargalhadas filhas de inalteravel bom humor.Os guardas-marinha alojavam-se á pôpa n'um acanhadissimo compartimento que mal os comportava. Ahi tinham suas camas, suas malas, seus livros.Quantos prejuizos! Quantas decepções!E todos acocorados, arrumando e desarrumando, n'uma confusão burlesca, maldiziam o mar e apostrophavam o vento. Neptuno e Eolo nunca receberam tantas manifestaçõesdesairosas. Pois não! Ninguem tem suas cousas para vel-as de um dia para outro arruinadas, inutilisadas pelos caprichos incoerciveis do mar e do vento.Finalmente, como nada ha melhor que um dia depois de outro, veio o dia 29 de Março em que dos váos do joanete de prôa o gageiro annunciou—terra!Continuava, entretanto, incessantemente, a asáfama. A guarnição da bateria occupava-se da limpeza das peças, collocando-as em posição, abrindo e fechando culatras, lixando-as, lubrificando-as emquanto o fiel ia distribuindo o cartuxame.Havia uma alegria geral a bordo e sentia-se um vago odor de tintas, como ao entrar-se n'uma casa nova, pintada de fresco.Já era tempo de repousarmos das fadigas da viagem.VNinguem póde imaginar o que é a chegada de um navio de guerra a porto extrangeiro depois de uma tempestade ou mesmo depois d'uma ameaça de temporal. A faina tor-na-se geral e o ruido inevitavel. É de ver-se a promptidão, a rapidez com que se executam as ordens. Como que ha mais vontade para o trabalho, desenvolve-se logo um contagioso bem estar, ninguem foge ao serviço.Tezar cabos de laborar, baldear o convez a ficar alvo e polido, como uma sala de visitas, limpar, areiar os metaes amarellos até ficarem relusentes como ouro de lei, ferrar o panno a capricho, cuidadosamente, de modo a confundil-o com as vergas e os mastros, preparar osescaleres—tudo isso é cousa d'um abrir e fechar d'olhos.A guarnição doAlmirante Barroso, disciplinada e obediente como todas as que serviam sob as ordens do commandante Saldanha, primava pelo aceio, pela ordem, pela destreza e pela actividade. Não se lhe póde fazer maior elogio. Cada marinheiro era como uma machina prompta sempre ao menor impulso.A chibata era n'esse tempo, como ainda hoje o terror das guarnições da armada.Sempre manifestei-me contra esse barbaro castigo que avilta e corrompe em vez de corrigir. Um castigo de chibata é a cousa mais revoltante que já tenho visto, mormente quando é mandado applicar por authoridade deshumana, sem noções do legitimo direito que a cada homem assiste, quem quer que elle seja soldado ou pariá.O meu primeiro passo ao deixar a Escola e envergar a farda de guarda-marinha foi publicar um protesto contra essa pena infamante, e fil-o desassombradamente, convicto mesmo de que sobre mim ia cahir a odiosidadede meus superiores em geral apologistas da chibata.A primeira vez que minha posição official obrigou-me a assistir um desses castigos, tive impetos de bradar com toda a força dos pulmões contra semelhante attentado á natureza humana.Quem já assistiu uma d'essas pavorosas scenas do eito, magistralmente descriptas por Julio Ribeiro na sua obraA Carne, póde fazer idéa do que seja o castigo da chibata.Despir-se a meio corpo um pobre homem, um servidor da patria, pés e mãos algemados, muita vez depois de trez dias desolitariaa pão e agua, e descarregar-se-lhe sobre a espinha, sobre as espaduas, sobre o peito, sobre o ventre, na cara mesmo, em todo o corpo cincoenta, cem, duzentas chibatadas, em presença de todos os seus companheiros, me parece indigno d'uma geração que se préza, de uma sociedade de homens civilisados, de cidadãos, de cavalheiros que ostentam triumphalmente galões dourados na farda—na farda,que significa a nobreza, a coragem, o patriotismo e a honra d'uma nação.Revoltei-me contra semelhante barbaridade inquisitorial, como quem tem consciencia de que está praticando uma acção justa e honrosa. Doía-me por um lado pertencer a uma classe nobre por tantos titulos, é certo, mas em cujo seio era permittido a chibata e, o que é mais, o seu abuso.A esse tempo aGazeta de Noticiasdo Rio de Janeiro publicava semanalmente um boletim litterario no louvavel intuito de estimular os incipientes das letras. Offerecia-se-me opportunidade para um conto maritimo, cujo assumpto fosse a chibata.Escusado é dizer que o meu artigo provocou o despeito dos culpados indirectamente feridos no seu amor proprio. Embora! Fiquei satisfeito, como si tivesse sacudido para longe um fardo pesadissimo; e, é preciso dizer, não hesitei em declarar-me autor do conto que vinha firmado por meu nome, então desconhecido na armada.Alguns de meus companheiros taxaram-mede imprudente e «indiscreto». Outros levaram seus conselhos até á minhainexperiencia de adolescente indisciplinado.Todo o mundo julgou-se com direito a censurar meu procedimento: «que roupa suja deixa-se ficar em casa; que a chibata era um castigo imprescindivel», e outros arrasoados soffrivelmente banaes.Meu consolo é que d'entre aquelles que preconisavam os effeitos prodigiosos da chibata n'outros tempos, muitos concorreram em demasia para a sua extincção.Dei parabens á patria e á humanidade.VIComo militar e disciplinador o commandante Saldanha da Gama distinguia-se por sua inflexibilidade porventura exagerada, especialmente para com as guarnições sob seu zeloso commando. Temperamento atrabiliario, sanguineo-nervoso, sujeito a transições bruscas, inesperadas, impetuosas e violentas, o illustre marinheiro, espirito eminentemente illustrado, não sabia, entretanto, guardar a necessaria calma quando devia applicar as penas do codigo. Essas penas, como se sabe, acham-se perfeitamente explicitas, precisamente formuladas de modo a não deixar duvida nos espiritos rectos e amigos da lei. Entre os artigos que constituem o codigo penal militar existeum que limita o numero de chibatadas, o qual não deve, em caso algum, exceder de vinte e cinco por dia.Pois bem, o commandante Saldanha pouquissimas vezes castigava conforme a lei. Collocava acima d'ella seus caprichos inexplicaveis, sua natureza rancorosa, sua vontade suprema. Nao trepidava, e isto é sabido, em mandar açoitar com duzentas chibatadas uma praça qualquer, tal fosse o delicto commettido. A um simples olhar seu as guarnições tremiam como caniços. A qualidade caracteristica d'esse illustre official era ser arbitrario e prepotente. Por isso a guarnição doAlmirante Barrosocorria a seus postos, em occasião de manobra, com a velocidade d'uma setta.Estavamos quasi á entrada do Mississipe, a grande arteria fluvial da America do Norte, que nós imaginavamos um colosso talvez superior em volume d'agua ao Amazonas,—o Mississipe, decantado pelo autor dosNatchez, e em cujas margens fica a cidade de Nova Orleans nosso ponto de chegada.Ninguem pensava mais no Rio de Janeiro para só se lembrar de Nova Orleans, aCidade Crescente, como a denominam os americanos.Trez horas da tarde, mais ou menos. Embarcações á vela e vapores bordejavam fóra da barra á espera de pratico, sem o qual era impossivel a entrada. Mar calmo, com uma côr esbranquiçada, lembrando na sua quietação dormente um vasto lago estagnado. Em frente, muito longe ainda, mal distinguiamos com o binoculo o pharol, microscopica torre branca, invisivel quasi.Envolvidos em grossas capas de lã, abotoados até o pescoço ao abrigo do frio que se tornava insupportavel para nós da zona torrida, de pé no tombadilho, machina a um quarto de força, bandeira nacional desfraldada na carangueja do mastro de ré, esperavamos tambem opilotque nos devia conduzir á Nova Orleans, 110 milhas da foz do Mississipe.O Mississipe! Dentro em pouco sulcavamos a grande corrente.Não tardou muito o pratico, por cujo intermedio tivemos noticia da estrondosa manifestaçãocom que os habitantes da cidade americana aguardavam a chegada do cruzador brazileiro.Bella surpreza essa! Cresceu o enthusiasmo entre os noveis officiaes.Entrámos. Durante o nosso trajecto pelo Mississipe a anciedade a bordo tocou o seu auge. Queriamos, todos a um tempo, avistar as embarcações que, dizia-se, vinham nos receber.O autor d'estas simples notas de viagem, que admira os Estados-Unidos como uma segunda patria, porque ali moram juntas todas as liberdades e florescem prodigiosamente todas as nobres idéas civilisadas, de braços cruzados estendia o olhar cheio de admiração, cheio de deslumbramento por cima das extensas planicies das margens do grande rio.O pôr do sol entre a neblina que cobria os horisontes fazia lembrar as paginas de Chateaubriand na suaVoyage en Amérique, paginas esculpturaes e cheias da commovida nostalgia dos que se vão da patria...Quanta verdade nas sumptuosas descripçõesdo poeta! Quanta poesia n'aquellas paragens desertas da foz do Mississipe,—Sahara de neve estendendo-se a perder de vista nos horisontes sem fim! Que de maravilhas occultavam-se por traz d'aquellas planicies, lá onde o olhar não attingia!Eram Ave-Marias. Lembrei-me do Brazil, dos sertões de minha terra natal, da torresinha branca do Senhor do Bomfim badalando oterçodas almas, justamente aquella hora, quando as boiadas recolhiam mugindo, pesadas e melancolicas...Ave-Marias!... Mesmo quando não se é crente, áquella hora da tarde o coração fica cheio de não sei que terna e piedosa uncção mystica...Fundeámos no ponto em que o rio se divide em dois braços ou pequenos confluentes, e ahi passámos a noite inteira, essa longa e tristissima noite de inverno.Frio de rachar. As aguas do rio, pardas e barrentas, estavam quasi geladas.As margens do Mississipe, em varios pontos, são, no inverno, verdadeiras planicies, ondeapenas medra a herva rasteira. Á distancia, pobre alma perdida no descampado, ergue-se ás vezes uma arvore muito esguia, como um phantasma de braços abertos para o céo. De quando em quando atravessa a solidão uma ave desconhecida batendo as azas, como um agouro.N'outros logares, porém, vêm-se rebanhos pastando silenciosamente, plantações verdejantes, casas de campo, postes de correio, em cujas portas destacam-se em caracteres maiusculos as palavras—Post office.O povo parece viver satisfeito no meio de suas plantações e de seu gado, entregue á cultura e á creação.Nuvens de mosquitos atordoaram-nos toda a noite. «—Caramba! exclamava o barbeiro de bordo, um estimavel hespanhol que traziamos do Rio de Janeiro. Caramba! Mosquitos por mosquitos me gustam mas los del Brasil!» E tinha razão o nosso companheiro. Os mosquitos do Mississipe são muito capazes de dar cabo d'um pobre homem. E que medonha orchestração nos ouvidos da gente?Felizmente na manhã do dia seguinte levantámos ferro.O navio estava completamente prompto a fazer sua entrada em Nova Orleans. Durante quasi toda a noite a guarnição occupara-se em colher cabos, esfregar a amurada e baldear o costado.Como passatempo liamos os jornaes que o pratico trouxera, os quaes noticiavam a recepção popular e official que se nos preparava.Dois hiates a vapor—oCorae oPansy—propriedade de Mr. Morris, largariam de Nova Orleans a nosso encontro, embandeirados, com bandas de musica, commissões de senhoras, representantes do commercio e d'outras classes sociaes.Ou fosse a natural affinidade que existe entre as duas nações americanas, ou fosse o facto de ir a bordo do cruzador brazileiro um representante da familia imperial do Brazil, o certo é que durante nossa travessia da foz do Mississipe á cidade fomos con Ou fosse a natural affinidade que existe entre as duas nações americanas, ou fosse o facto de ir a bordo do cruzador brazileiro um representante da familia imperial do Brazil, o certo é que durante nossa travessia da foz do Mississipe á cidade fomos constantemente saudados de ambas as margens do rio a tiros deespingarda e a lenços que nos acenavam de longe.E oAlmiranteseguia devagar, alvo de mil olhares curiosos.Ao meio-dia ouvimos as notas de uma musica alegre que se approximava, e em breve surgiram n'uma curva do rio os dois magnificos hiates—oCorae oPancy—apinhados de gente, enfeitados de galhardetes de côres variadas, em cujos mastros tremulavam as duas bandeiras amigas.De ambos os lados, no cruzador e nos hiates, hurrahs confundiam-se no ar.Em viva effusão de inexprimivel jubilo patriotico estreitavam-se as duas grandes potencias da America; a mesma brisa balouçava simultaneamente os dois gloriosos pavilhões.A gente doBarrososubiu ás vergas accelerada, e, acenando com os lenços e os bonés, saudava com vivas estrepitosos e delirantes acclamações aos Estados-Unidos, ao mesmo tempo que das duas embarcações partiam ruidosas manifestações ao Brazil.Fardada em segundo uniforme, espada e dragonas, a officialidade do cruzador brazileiro, em pé no tombadilho, vivamente commovida, descobria-se a todo instante risonha e feliz.Sentiamos a falta de uma banda de musica bem organisada, que n'aquelle momento, verdadeiramente solemne, entoasse o hymno da republica a bordo.Passado o primeiro momento de delirio, approximaram-se os dois hiates que nos acompanhavam e o cruzador diminuiu a marcha. Ficámos borda á borda. N'um instante toda aquella gente que vinha nos vaporesinhos, passou para oBarroso.Houve um silencio respeitoso de parte a parte e começaram os abraços.O consul geral brazileiro, Sr. Dr. Salvador de Mendonça, tão conhecido entre nós por seu talento e por sua illustração, como homem de letras e diplomata, juntamente com Mr. Eustis, consul em Nova-Orleans, foram recebidos no portaló pelo commandante e officiaes com todas as honras que lhes eram devidas. Seguiram-seos representantes da imprensa, do commercio, etc.Conduzidos á camara, desde logo estabeleceu-se entre brazileiros e americanos uma camaradagem franca, uma corrente communicativa de affabilidades, como si já fossemos conhecidos velhos. As taças dechampagnechocavam-se, vivas succediam-se, levantavam-setoastsás duas nações, trocavam-se os mais espontaneos comprimentos.A viagem continuou ao som da musica doCorae doPansy.Ás 4 horas da tarde largámos ferro defronte da antiga capital da Luiziania.

Nota de editor:Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.Rita Farinha (Jan. 2008)

Rita Farinha (Jan. 2008)

ADOLPHO CAMINHANO PAIZDOSYANKEESDOMINGOS DE MAGALHÃES—EDITOR54 RUA DO OUVIDOR 54LIVRARIA MODERNARIO DE JANEIRO1894

cruzador "almirante barroso"

A NORMALISTAI vol. broc. 3$. cnc. 5000

BOM—CRIOULO

Typ. da Empreza Democratica Editora—Rua do Hospicio n. 11

Rio, 1º de Agosto de 1893.

Ad. Caminha

No dia 23 de abril de 1885 sendo presidente da provincia o Illm. Sr. Conselheiro Dr. José Bento da C. Figueiredo foram removidos os presos para este edificio organisado sob a direcção do engenheiro José Mamede Alves Pereira.


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